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Morris West

O advogado do Diabo

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CÍRCULO DO LIVRO S.A.
Caixa postal 7413 São Paulo, Brasil Edição integral Título do original: "The Devil's advocate" Copyright © 1959 by Morris West Tradução: Brenno Silveira Layout da capa: Yae Takeda Licença editorial para o Círculo do Livro por cortesia da Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A. Venda permitida apenas aos sócios do Círculo Composto pela Linoart Ltda. Impresso e encadernado em oficinas próprias 468 10 9753 83 85 86 84 82

Na Calábria, sul da Itália, um culto não-oficial começou a desenvolver-se em torno da memória de Giacomo Nerone. Tendo em vista a possibilidade de um processo de canonização ser necessário, uma investigação foi ordenada pelo bispo de Valenta. Um sacerdote inglês, Blaise Meredith, é escolhido pelo Vaticano para desempenhar as funções de advogado do Diabo: homem cuja obrigação é encontrar e denunciar todos os fatos contra o candidato às honras da santidade. Meredith, "um homem que traz em seu coração a poeira das bibliotecas", vê-se envolto numa rede de intrigas e dissimulações tecidas pela gente que conhecera Giacomo Nerone: sua amante, que deu à luz um filho dele, um médico judeu, um padre sério e a condessa, rica e bela inglesa que tem algo a ocultar. Sua investigação não apenas põe a nu a verdade sobre Giacomo Nerone, como leva o próprio Meredith a uma comovente e dramática solução de seus próprios problemas como sacerdote e como homem.

Para Paul R. Reynolds

"... vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram."
Apocalipse 6, 9

os poodles. Blaise Meredith lamentava-o agora. Era um homem sensato. em vez da dilacerante separação do espírito e da carne. Vinha lenta e suavemente. onde uma pequena mancha cinzenta enunciava a sentença a que ele estava condenado. o rosto coberto e as mãos ocultas. vagamente. Em meio a toda aquela vida — a relva a germinar. o fato de estar tão pouco preparado para a sua própria. rápida e violentamente. e a razão dizia-lhe que a sentença de morte de um homem já está escrita na palma de sua mão no dia de seu nascimento. mas no retângulo de uma chapa fotográfica. o sono — ou. Não obstante. moveu-se para fora. tinha sido assinalado para morrer. sobre o Serpentine. — Carcinoma. se estavam dispostos a rezar. A decência da morte. era um homem frio. seu primeiro impulso fora o de agarrar-se cegamente à ilusão da imortalidade. chocava-o. que a paixão pouco inquietava e que. como a consumação do ato do amor. ao saber que isso lhes era negado. sentado sob o tênue sol de primavera. Fazia parte da decência da morte surgir sem se fazer anunciar. a coisa pela qual rezavam. os casais em idílio sobre a relva. Era a coisa que os homens esperavam. ou que lamentavam amargamente. O dedo insensível do cirurgião deteve-se um instante no centro da mancha cinzenta e. o lânguido namoro dos jovens. se molestava com a disciplina. as arvores estuantes de seiva nova. de modo algum. Fora escrito. parecia. para que todos o lessem. os açafrões e os narcisos a inclinar-se nos ramos. a caminhar entediados pelas alamedas. num momento em que era menos esperada.1 Sua profissão era preparar os outros para a morte. Não havia dúvida quanto a urgência ou à finalidade do mandato. no entanto. junto às saias esvoaçantes de suas donas. de modo que o momento da rendição fosse uma quietude e uma saciedade. então. traçando a difusão do tumor: . a observar os cisnes lentos. como seu irmão. não ha palma de sua mão. processionais. ajoujados em suas trelas. o vigor dos passeantes mais velhos — somente ele. em seguida.

lidava com animais humanos. sem dúvida. Cada qual. o senhor estará morto dentro de três meses. — Posso operar. as culpas que os atormentavam. e juntando-as. O cirurgião sentou-se mais à vontade em sua cadeira. Era inteligente. — E se não o fizer? — Viverá um pouco mais e morrerá de maneira um pouco mais dolorosa. O pior já tinha passado. descartando aquela. ascético. numa forma verbal meticulosamente exata. no máximo. — E quanto tempo mais terei de vida? — Seis meses. para que não se desgastasse muito e não ficasse tão fraco e medroso como os seus pacientes. depois. Perguntou. as loucuras que os diminuíam. — É uma escolha sombria. Esperou um momento. senhor de si mesmo. iluminado. Enquanto observava a pequena tela translúcida e o dedo espatulado que se movia sobre ela. as concupiscências que os degradavam. O cirurgião recostou-se em sua cadeira. Quando chegasse a agonia. — Compreendo perfeitamente. ajustando a lâmpada de mesa. Eram ambos profissionais. mas bem nítido. de modo a que o seu próprio rosto ficasse na sombra e o de seu paciente. estendendo-se na direção do dia em que o destruiria. escolhendo esta. bastante calmo: — É operável? O cirurgião apagou a luz atrás do quadro de exames e a pequena morte cinzenta se extinguiu. Sobreviveria ao choque e procuraria conformar-se diante do inevitável. Blaise Meredith foi assaltado pela ironia da situação. Blaise Meredith notou o pequeno ardil e compreendeu. Não se enganara com respeito àquele homem. em sua própria profissão. Talvez um ano. como uma cabeça de mármore num museu. Cada qual devia conservar um certo desprendimento clínico. Agora. olhava suas próprias entranhas. Vi demasiados deles. Se eu o fizer. Sua . apanhou um corta-papel e segurou-o no ar tão delicadamente como se fosse um bisturi. Passara toda a sua vida a fazer com que os outros se defrontassem com a verdade acerca de si próprios. reunindo as palavras. depois sentou-se. para que me engane com este. opaca. — Que o senhor mesmo terá de fazer.— De desenvolvimento lento. suportá-la-ia com certa dignidade. onde um pequeno tumor maligno se desenvolvia como uma raiz de mandrágora.

sem lamentar seus prazeres nem temer as obrigações não cumpridas. ouviu um velho missionário pregar acerca da ressurreição de Lázaro: como Cristo se detivera diante do sepulcro selado e ordenara que o mesmo fosse aberto para que o cheiro da podridão se desfizesse no ar parado e seco do verão. estropiado. Nada era tão doce ao homem como a vida. mesmo.. nada mais precioso do que o tempo. doutor — respondeu. a alimentar a idéia de escrever uma novela a respeito. Agora estava sentado. uma prescrição. Blaise Meredith permitiu-se esboçar um gélido sorriso: — Eu próprio o traduzirei. — Pensarei no que o senhor me disse.Igreja atenderia às suas necessidades e o sepultaria com honra. A voz calma. ou. numa ocasião como esta. a tropeçar na mortalha. ele tinha a resposta. com o ar pleno de primavera e o futuro apenas uma breve e vazia perspectiva a derramar-se na eternidade. o som de vozes. seca. nada mais tranqüilizador do que o toque da terra e da relva. isso também poderia ser contado como uma recompensa final do celibato: sair furtivamente da vida. — Espero que possa. se não houvesse ninguém para chorá-lo. mas imagino que o senhor deve encontrar nela. quando morresse. Caso eu decida não ser operado. Que sentira ele naquele momento?. Chegara. monsenhor. Blaise Meredith —. mas sou sacerdote há demasiado tempo para que alimente tal esperança. Certa vez. uma grande consolação. não? Infelizmente. — Com prazer. qualquer outra fé. indagara o velho. em seus dias de estudante. a piscar sob o sol. depois. de Blaise Meredith interrompeu-lhe o pensamento. com simplicidade. do trânsito e dos pássaros. Será um exercício interessante. talvez.. ao sol. Agora.. num banco de jardim. de modo que cada rosa lhe cheirasse a podridão e cada jovem dourada lhe parecesse um esqueleto desengonçado? Ou caminhou cheio de deslumbramento diante da novidade das coisas. saíra. atendendo ao chamado. em certa ocasião. o coração terno de piedade e amor pela família humana? Essa especulação interessara a Meredith durante anos. O senhor trabalha em Roma. o senhor me faria a fineza de escrever um relatório ao meu médico? Um prognóstico completo. o sussurro da brisa. e ficara de pé. e voltar ao meu trabalho. como Lázaro. finalmente. . Não professo a fé católica ou. não sei escrever em italiano.. Que preço havia ele pago por aquela volta ao mundo dos vivos? Acaso continuou para sempre. Monsenhor Meredith. na verdade. e. — Admiro sua coragem.

Talvez houvesse algo. Auditor da Sagrada Congregação de Ritos. havia muito. Não tivera ódios. o Cardeal Eugênio Marotta. até aquele desolado momento ali. Talvez estivesse aí a essência da coisa. liberdade para agir sem peias dentro dos limites da prudência e da discrição. a última primavera que Blaise Meredith jamais teria. plantara uma árvore ou colocara pedra sobre pedra na construção de uma casa ou monumento. uma sala cheia de livros.. mas também . que sua própria libertação lhe era prometida. conforto e escopo para o exercício de suas aptidões naturais. sutil. um modesto estipêndio da Congregação de Ritos. o primeiro sol da primavera. alguns objetos de adorno. assistente pessoal do próprio prefeito. se não com alegria pelo menos com confiança? A que se aferrava ele que já não tivesse. Bens terrenos? Estes eram bem poucos: um pequeno apartamento próximo da Porta Angélica. para que os homens quisessem lembrar-se dele? Jamais gerara um filho.. votado à afirmação de que a vida era uma imperfeição passageira. Observava o funcionamento complexo. de lisonjeira confiança. com data marcada.. aí. até então. Havia ali amargura. Ele jamais ansiara por coisa alguma.. uma renda anual que a mãe lhe deixara. Isso. foi porque nunca tinha sido infeliz. Sempre tivera tudo o que desejara. o gosto azedo do fracasso e da desilusão. se não pedira jamais a felicidade. rejeitado? Uma mulher? Um filho? Uma família? Não havia criatura viva alguma que lhe pertencesse. A última primavera. Que mérito poderia ele computar e levar consigo para o Juízo Final? Que é que deixaria atrás de si. Tinha-se tempo para estudar. Conseguira maiores satisfações em sua vida do que a maioria dos homens — e. aí. A gente sentava-se à sombra do pontífice. a debater-se fatigada em busca de libertação nos braços acolhedores do Todo-Poderoso. Carreira? Talvez houvesse algo. Aceitara a disciplina da Igreja. mastigado e chupado até ficar seco como um bastão de açúcar-cande que se lança depois ao lixo. Agora. uma coisa imortal na argila mortal. e a Igreja dera-lhe segurança.. O troco final da vida. Era uma posição de influência.Eis aí o que o perturbava. mas confortavelmente. a terra. ao sol. um pálido símbolo de seu criador. Nada que pudesse tentar um homem que se encontrava no limiar da grande revelação. e jamais desejara nada além do que estava ao seu alcance. por que não podia ele aceitá-la. mas não o bastante: nem a metade do que seria necessário a um homem que ansiasse pela União Perfeita que pregava. de uma grande teocracia. a alma. o último verão. Há vinte anos era sacerdote. Vivia-se com simplicidade..

então. não constituindo. Não podia escapar dele. A razão apoderou-se dele. sua decisão instintiva fora voltar para Londres. Um suor frio inundou-lhe o corpo. situada logo do lado oposto ao portão coberto de musgo. preferia sê-lo em sua própria língua. a fitar. penachos ao vento e negros ataúdes barrocos a rolar diante de palácios de estuque rumo às criptas de mármore do campo-santo. os primeiros diagnósticos. as libações na taberna de vigas de carvalho. na Inglaterra. pelos bosques de faias. Se tinha de ser reduzido o tempo de vida de que dispunha. em caráter experimental. sentiu-se aterrorizado. truncar o medo e a solidão até um limite exeqüível? Não seria aquilo um novo fracasso. quando os médicos italianos fizeram. Se tinha de ser condenado. com olhos que não viam. dramática — um final de grande ópera. seu aspecto era mais gentil: a cerimônia religiosa murmurada discretamente numa nave normanda. Ao ficar doente em Roma. Que fazer. com coros de carpideiras. Suas mãos começaram a tremer. Também isso. seu nome seria um pouco de pó soprado sobre o deserto dos séculos.não dispensara caridade. uma falácia patética. a morte era rude. a caminhar pelas chapadas gredosas. nem os pecadores pela salvação de suas almas. de modo algum. e não individual. Fizera o que dele haviam exigido. Os calafrios passaram lentamente. Os pobres não o abençoariam pelo seu pão. passar o que lhe restava dela em meio à suave atmosfera da Inglaterra. desejava. e ouvir o canto elegíaco dos rouxinóis à sombra de velhas igrejas. e pôs-se a pensar de que modo deveria organizar sua vida durante o tempo que lhe restava. então? Submeter-se ao bisturi? Abreviar a agonia. como tampouco podia fugir à convicção de seu próprio fracasso como sacerdote e como homem. as águas tremeluzentes do lago. não obstante. Seu trabalho se desfaria em pó nos arquivos do Vaticano. a sepultura aberta em grama ceifada entre túmulos batidos pelas intempéries. morreria vazio e. . Súbito. provava ser uma ilusão. Qualquer virtude que acaso tivesse florescido em seu ministério era sacramental. O terror cessou e ele se sentiu de novo calmo. Na Itália. nem os enfermos pelo consolo de suas palavras. onde a morte era mais familiar e mais afável. e um grupo de crianças que brincavam com uma bola junto a um banco próximo se afastou do macilento clérigo que ali estava sentado. Ali. agora. pois os ingleses haviam passado séculos a ensinar-lhe boas maneiras. dentro de um mês. couraça contra o cinzento inimigo entrincheirado em suas próprias entranhas.

se debateria nas noites inquietas. analisálos e fazer suas anotações. diriam seu nome nas missas.pouco. "o nosso irmão Blaise Meredith". filósofo. onde as vidas. Abrir os enormes in-fólios. Fazer novas anotações em novos manuscritos. que um novo santo havia sido incluído no calendário. Voltar ao trabalho? Sentar-se à velha mesa. Não obstante. canonista. este último poderia conduzi-lo inteiramente à falência. leria um. aquele era o seu trabalho e ele devia realizá-lo. um novo papa pudesse vir a proclamar. Pelo espaço de uma semana. em vida. em São Pedro.uma espécie de suicídio que os moralistas talvez justificassem. mortos havia muito. ouviria em confissão seus colegas em férias. sob o teto decorado. post-scriptum. em suas virtudes.. cumpriria diariamente sua tarefa no Palácio das Congregações. no Palácio das Congregações. ou menos do que sábio. pregaria ocasionalmente na Igreja Inglesa. Depois. dissecá-los. ou que os impressores pusessem em circulação um milhão de pequenos cartões com seus rostos na frente e uma lista de suas virtudes no verso? Ririam de seus brandos biógrafos ou franziriam a testa diante de seus detratores oficiais? Tinham morrido e sido julgados havia muito. sacerdote. .. Examiná-los. Blaise Meredith. eram registrados pela mão de milhares de copistas. depois. depois. E isso com que fim? Para que um novo candidato às honras canônicas talvez viesse a ser rejeitado por ter sido.. até a áspera manhã. estaria morto. e dispensável. Diria missa todos os dias. ou para que daqui a um século. em Roma.. O resto era tudo adenda. Questionar suas virtudes e lançar dúvidas sobre as maravilhas que lhes eram atribuídas. unir-se-ia aos anônimos e aos esquecidos na lembrança de todos. ou talvez dois. voltaria todas as noites ao seu apartamento na Porta Angélica. menos do que heróico. faria suas preces e. "todos os fiéis que partiram". Um novo culto. uma nova missa na liturgia não os comoveriam de modo algum. uma nova peregrinação. Acaso se importavam aqueles mortos com o que ele escrevia a respeito deles? Acaso se importavam que se permitisse a uma nova estátua o uso de uma auréola. como ele deveria morrer e ser julgado. mas que a consciência não poderia jamais perdoar? Já tinha demasiados débitos para levar ao seu ajuste de contas final. poderia trabalhar doze meses ou doze anos em seus registros sem que acrescentasse um til à felicidade deles ou um único sofrimento à condenação de suas almas. pois estava entregue às suas mãos — e porque ele estava demasiado cansado e doente para começar qualquer outro. Durante doze meses. as obras e os escritos de candidatos à canonização.

segundo se garantia. Mas Aldo Meyer era demasiadamente comedido e inteligente para que pudesse apreciá-la. Estava procurando embriagar-se — da maneira mais rápida e indolor possível. pondo nele um sorriso cortês para o chá do administrador. através dos vãos. Hora de Monsenhor Blaise Meredith enfardar seus angustiosos pensamentos e recompor seu magro rosto. frio no parque. As crianças eram arrastadas. Os cisnes voltavam. Os ingleses eram um povo civilizado e tolerante. tendo ao lado uma vela gotejante. O padrone achava-se recostado ao balcão. e uma volumosa e sólida jovem de pescoço e ancas de boi. diante da mesa rústica. . Tudo estava contra ele. Bebera. com seios de melão a forçar o vestido negro e ensebado. o resto do jantar. agora. O Dr. camponês bronco. na direção de Brompton Road. como se não estivesse seguro de habitar o seu próprio corpo e depois desceu. indiferentes. com passos firmes. não viam os místicos com simpatia e quase acreditavam que o Deus Todo-Poderoso sentia da mesma maneira. Aldo Meyer tinha suas próprias preocupações naquela suave noite mediterrânea. A bebida era uma causticante grappa que. As pessoas que lhe faziam companhia eram o proprietário. sentada na sombra. Desconfiavam dos santos.Fazia. A moça. Estava sentado. logo que o médico o esvaziasse. que cheirava a vinho azedo. teto baixo e chão de terra batida. Levantou-se entorpecidamente do banco. e fitava o seu copo. esperava o momento de encher o copo. que soubesse beber como um cavalheiro e guardasse consigo mesmo os seus problemas. pelas alamedas. traçando. atrás de pais que as repreendiam. ficou longo momento parado. em Westminster. arrepiados. O lugar em que bebia era uma taberna de paredes de pedra. para as ilhotas. encurvado. na hora máxima do zunzunar do tráfego de Londres. Era hora de ir embora. Meredith alegrava-se com aquela convenção social que o obrigaria a esquecer-se de si mesmo e atentar no que tagarelavam os seus colegas. Os namorados limpavam a relva de seus paletós e as moças alisavam as saias. ruidosamente. desenhos monótonos na bebida derramada que fluía lentamente atrás de seu dedo. Esperavam que um homem cuidasse recatadamente de sua salvação ou se condenasse com discrição às penas eternas. Mesmo na hora de seu Getsemani privado. a palitar os dentes com um raminho seco e a chupar. afogaria mesmo a mais obstinada tristeza.

Aldo Meyer. em fraco queixume.a princípio. Usava uma roupa citadina de talhe fora de moda. Tal perspectiva não o preocupou demais. Ao debruçar-se sobre a grande cama de ferro. quando veio uma nova contração. mergulhando. calaram-se. para apalpar e examinar o intumescido corpo. sobre mesas de cozinha e . houve um murmúrio de escândalo. era ainda um estranho. a história foi a mesma: silêncio. estava preocupado com a morte e. como se ele a houvesse provocado. observando-o de soslaio. fora chamado à casa de Pietro Rossi. No quarto. hostilidade. via-se envolvido com a beatitude. falando em voz baixa e passando uma garrafa de vinho de mão em mão. Nos últimos dez minutos. Não obstante. Naqueles momentos de sua vida tribal ele talvez lhes fosse necessário. mais devagar. e mais longe ainda de Londres. quando as dores passavam. Tinha quarenta e nove anos mas parecia um velho. não tocara no copo. salvo quanto às manchas nos lugares em que haviam caído pingos de grappa. mas seus sapatos estavam engraxados e a camisa limpa. o Dr. Gemello Minore achava-se situada muito longe de Roma. como Blaise Meredith. com olhos especulativos. enquanto Pietro Rossi o fazia entrar. Era como se estivesse aguardando que algo acontecesse antes da rendição final ao esquecimento. embora cético como era. Possuía mãos longas e ágeis. à medida que o álcool tomava conta dele. Seus cabelos eram brancos e a pele de seu belo rosto judaico estendia-se vincada sobre os ossos. não obstante. Já as praticara antes. Fora da choupana. cuja esposa estava em trabalho de parto havia dez horas. com as mulheres. Havia nele um ar de passada distinção que se adaptava estranhamente à rudeza do ambiente e à grosseira vitalidade da jovem e do padrone. Ao cair da tarde. enquanto Maria Rossi gemia e se contorcia com contrações. ele já sabia que não havia esperança de parto normal. rapidamente. desconfiança. a parteira e a mãe da moça ficaram bem perto dele e. mas jamais o recebiam de bom grado. depois. à luz de velas e lampiões. A miserável taberna não se assemelhava em nada ao Palácio das Congregações. Tinha de ser feita uma cesariana. Decorridos três minutos. os homens permaneciam reunidos. mas calejadas como as de um trabalhador. Vivia entre eles há vinte anos. a grandes sorvos. Quando ele se aproximara. punhos puídos e lapela brilhante. A parteira mostrava-se desesperada e o quarto achava-se cheio de mulheres que tagarelavam como galinhas. depois.

Mas não minha filha! Mais um pouco de tempo. Apenas disse: — Se eu não operar. sem dar importância às mulheres. falhou por completo. enquanto a mãe se debruçava sobre o leito. anestésico e os vigorosos corpos das mulheres da montanha. e não mortos! Os médicos são todos iguais. pessoal? O nosso São Giacomo Nerone ou este sujeito? A moça gritou na cama. Ele vem fazendo milagres. Foi a mãe da moça quem a começou. quando a moça tornou a aquietar-se. Temos agora um santo aqui conosco. ali pela meia-noite ela estará morta. o desprezo pela ignorância dos que o cercavam — mas. Milagres de fato! E estão todos escritos. Foram enviados ao papa. a proferir breves ruídos de consolo e a esfregar a encardida relíquia. gritando-lhe em carregado dialeto: — Nada de facas na barriga de minha filha! Quero netos vivos. sendo um infiel e um matador de Cristo. Um santo de verdade! Estão arranjando. é um pecado. Depois.bancos de madeira. Cercou-o. que lhe agitou diante do nariz: — Sabe o que é isto? Claro que não sabe. sem precisar que nenhum açougueiro me cortasse a barriga! Uma explosão de risos estridentes abafou os gemidos da parturiente. debaixo das cobertas. uma megera corpulenta. Esperava que houvesse protestos. metendo a mão dentro do vestido e tirando um pequeno objeto envolto em pano vermelho e desbotado. Aquela gente era cabeçuda como uma mula e duas vezes mais assustadiça — mas ele não estava preparado para uma explosão como a que se verificou. As mulheres riram-lhe na cara. as probabilidades de êxito pendiam a favor da paciente. manchada com o sangue dele. Devo saber o que estou dizendo. Quando não podem curar as pessoas. Aldo Meyer ficou a observá-la. Tive doze filhos. Aldo Meyer aguardou um momento. Nem sempre a coisa foi fácil. sobre o inchado ventre. dessa vez. com falhas de dentes e olhos negros de serpente. Não podemos jogar fora os remédios e esperar que os . e essa criança saltará para fora como uma ervilha. Isto é um pedaço de sua camisa. à procura das palavras exatas. O senhor acha que pode fazer mais do que ele? Acha? Qual deles escolhemos. mas eu tive eles. Com água fervente. sem que procuremos ajudar-nos. disse-lhes. para que ele seja canonizado em Roma a qualquer momento. musculosa. — Dessa vez não. Isso havia dado resultado noutras ocasiões — o frio pronunciamento profissional. seu judeu! E sabe por quê? — indagou. cortam e enterram a gente. e as mulheres calaramse. Uma verdadeira relíquia viva. tomada de súbita agonia. de cabelos escorridos. sobriamente: — Mesmo um infiel sabe que esperar milagres.

o olhar dos homens. aquele era o gesto final de derrota. Ele nos pertence. conduzindo-o na direção da porta. Demorará ainda muito tempo antes que comecem sequer a discutir o seu caso em Roma. depois. como punhais.. o homem que acreditava nos homens. É melhor que o senhor vá embora. Quando ele saiu e desceu pelo caminho coberto de pedras arredondadas. Rezem para ele se quiserem. com desespero. A menos que eu a opere sem perda de tempo. Criaturas capazes de arrancar o coração a alguém e . doutor. a gente morena e fechada do sul. Cuidará de nós. para esfregar o pequeno trapo de seda sobre o ventre convulsivo da jovem. Pietro Rossi abanou a cabeça.. Ninguém se mexeu. ouça-me. apanhou sua maleta e caminhou para a porta. o velho liberal. Meyer voltou-se e lançou um olhar àquela gente. a observar o drama. sua mulher não atravessará a noite. deteve-se e voltou-se para as pessoas: — Seria melhor que chamassem o Padre Anselmo.. Foi então que resolveu embriagar-se. Agora. ela morrerá. obstinado: — Não é natural arrancar uma criança como se fosse as tripas de um carneiro. Não disponho de muito tempo. esse não é um santo comum. impedindo-o de aproximar-se da cama. mas peçam-lhe que me dê a mim uma mão firme e a esta moça um coração forte. onde se achava Pietro Rossi. Mas você não sabe o que esse tal Giacomo Nerone pode fazer.. sentiu nas costas. Você sabe o que posso fazer. A mãe cuspiu desdenhosamente no chão e... Além disso. Encolheu os ombros num gesto de resignação. Para Aldo Meyer. As mulheres permaneciam enfileiradas em estreito semicírculo. A mãe interceptou-lhe os passos. e a criança com ela. Na soleira. Giacomo Nerone ainda não é santo. os rostos petrificados. quão pequeno era o seu poder sobre ela. Eram rapaces como falcões. Ela não dispõe de muito tempo. num desafio: — Você aí. tornou a curvar-se sobre a cama. murmurando orações em dialeto. pelo amor de Deus. e pensou. A cara inexpressiva do camponês era vazia como uma parede. Há vinte pessoas na aldeia que podem dizer-lhe. Além disso. Não havia esperança para aquela gente. do que muito duvido. deixem de ser tolas e tragam-me água quente e lençóis limpos. — Se eu for. quão pouco ele a conhecia. Meyer voltou-se para ele. mudas. pálido.santos nos curem. As outras mulheres o observavam. Ele é nosso. Pietro! Você quer um filho? Quer sua mulher? Então. mesmo que seja um santo.

obcecava-os com santos. mas eles se agarravam como crianças à aba de seus paletós. amarga e não continha calor algum. Seu vinho era ralo e seu trigo. preferiam engolir o diabo a meter na boca uma pastilha de Atebrina. quando os fascistas estreitaram o cerco em torno dos semitas. em socalcos. mas lançavam mão de suas minguadas liras para financiar a canonização de um novo santo destinado a um calendário já sobrecarregado deles. quando podiam comprá-la. Zombavam dos conhecimentos mais elementares. embora se deliciassem com lendas e superstições tão avidamente como crianças. Ele tinha sofrido por eles. e aquilo que o Estado não lhes fornecia eles não procuravam suprir por si próprios. Deram-lhe o título irônico de oficial médico. Afligia-os com demônios. a geada queimava os olivais e havia fome nas colinas. Não tinham escolas para seus filhos. Podia arrancar-lhes o último níquel para a aquisição de um novo candelabro. inutilidade. Não podiam pagar um professor. Somente a Igreja podia dominá-los. embora não conseguisse torná-los melhores. Ergueu o copo e engoliu de um trago o resto da bebida. Fora para ali como exilado. mas . magro. mas não podia — ou não queria — levá-los a uma clínica onde os vacinassem contra o tifo. Não sacrificariam. Contudo. as suas horas de ócio. em dias de festa. e os tratavam com tolerante desdém. dos intelectuais esquerdistas e dos liberais demasiado eloqüentes e lhes apresentaram a sucinta alternativa de vida campestre ou trabalho forçado em Lipari. Comiam azeitonas. Seus senhorios os exploravam. Suas colinas eram nuas de árvores e seus eirados. mas eles os alimentavam. mesmo que o próprio médico a pagasse.deixar-lhe o corpo a apodrecer numa fossa. farinha de pão molhada em azeite e. Era acre. carne de cabrito. Aldo Meyer fitava a escura borra de sua grappa e lia apenas. mas eles se aproveitaram de tudo e nada aprenderam. do qual a parte nutriente escorria com as primeiras chuvas e perdia-se nas encostas pedregosas. retinham apenas um solo avaro. engabelava-os com chorosas madonas e bambini de nádegas roliças. na construção de uma escola. vivido em sua companhia e procurado educá-los. Se o verão tardava a chegar ou o inverno era inclemente. apesar de sua pobreza. nela. As mães eram devastadas pela tuberculose e seus bambini tinham os braços inchados por crises intermitentes de malária. decepção e desespero. Viviam em choças onde um bom lavrador não alojaria o seu gado. e caminhavam com o jeito indolente de gente que comia muito pouco e trabalhava demais. lutado por eles. Seus sacerdotes entregavam-se não raro à bebida e ao concubinato.

no círculo fechado da vida primitiva da montanha. bem como proteção contra um governo hostil. aquilo tinha sido um belo. Aquilo tinha sido uma amarga servidão. Sabia. Caíra no erro de todos os liberais: a crença de que os homens estão prontos a modificar-se. uma organização que. para o seu desenvolvimento. passara breve período em Roma. ele fugira e unira-se aos partigiani e. à velha aldeia. Amigos novos era coisa difícil de fazer. Morava numa granja cuja casa. tendo em vista construir um sumário serviço médico numa região de desnutrição constante. ele restaurara com suas próprias mãos. finalmente. arquitetou intrigas. dinheiro e o ímpeto reformador. que tudo não passara de desanimadora ilusão. da rapacidade e desconfiança de um povo ignorante e primitivo. com um novo sonho e uma sensação de renovada juventude dentro de si mesmo. Seu anfiteatro era sua cozinha. Seria um missionário do progresso onde o progresso se detivera três séculos antes. Os velhos amigos haviam morrido. Além de médico. Chegara com a roupa do corpo. Seu hospital era um dos quartos de sua casa. tomar-se-ia professor. Adestraria jovens que levassem sua mensagem a distritos adjacentes. Os camponeses pagavam-no em espécie. uma maleta de instrumentos cirúrgicos. quando de algum modo o pagavam. após o Armistício. valeu-se de lisonjas e de chantagem. arruinada. Doze anos passados. ele voltara à velha casa. assim. de que há boa vontade. um homem de boa vontade poderia operar milagres no sul. Durante seis anos. e ele exigia dos funcionários administrativos locais uma contribuição em forma de drogas e instrumentos cirúrgicos. Lavrara dois acres de terra pedregosa com a ajuda de um empregado cretino. Com liberdade. dias em que lhe parecia estar penetrando. mas havia momentos de triunfo. atrairia dinheiro de Roma. bem como ajuda financeira de outras organizações de alémmar. e de que a verdade possui por si própria uma virtude de fermentação. sem medicamentos e sem anestésicos. um vidro de comprimidos de aspirina e um compêndio médico. Seus planos soçobraram ante a venalidade de dirigentes públicos. E. Mas ficara demasiado tempo ausente. Quando os Aliados cruzaram os estreitos de Messina e começaram seu lento e sangrento avanço península acima. do conservantismo de uma Igreja feudal. agora.sem salário. e os pequenos êxitos daqueles anos vorazes o desafiavam agora para novos triunfos. malária endêmica e epidemias de tifo. Estabeleceria uma organização modelo destinada ao esforço cooperativo. . um revigorante sonho. batalhou.

Quando ele se afastou. vacilante. o Cardeal Eugênio Marotta passeava pelos jardins de sua villa. pela rua. derramava-se sobre as colinas e o topo dos telhados. o ar era claro e tranqüilas as avenidas. — Eu vou para a cama. embaixo. motonetas barulhentas e negociantes regateiros. porém. em Parioli. em torno. Os turistas voltavam compungidamente da Basílica de São Pedro. O lamento fúnebre aumentava e diminuía. onde ficou a olhar o frio crepúsculo de primavera. — Ela morreu — disse o padrone. à porta. subprefeito do Supremo Tribunal da Signatura .Mesmo através dos espessos vapores da bebida. O médico levantou-se e dirigiu-se. Batia de encontro à sua porta. a cidade despertava do torpor da tarde e entregava-se de novo às suas atividades comerciais. em meio à fragrância de jasmineiros floridos. sobre o dintel. A moça e o padrone trocaram um olhar e persignaram-se. gemendo como um vento sobre a montanha adormecida. bem embaixo. Os floristas estendiam suas flores para o derradeiro assalto dos amantes da escadaria espanhola. de São João de Latrão e do Coliseu. com sua voz grossa e rouca. arcebispo da Acrópole. prefeito da Sagrada Congregação dos Ritos. E agora era tarde demais para remediar a situação. cambaleante. altos muros e portões gradeados. Ao cair daquela mesma noite de primavera. O sol. chegaram até eles longos e lamentosos gritos femininos. Lá em cima. Ao longe. pairava pesadamente a névoa do lusco-fusco. nas vielas. a moça mostrou-lhe a língua e fez o sinal contra mau-olhado. lembravam ao visitante a dignidade eclesiástica e os títulos do Cardeal Eugênio Marotta. em Parioli. — Digam isso ao santo — respondeu Aldo Meyer. Do lusco-fusco que reinava fora. ele via tudo de maneira bastante clara. esquadrinhava os postigos de suas janelas. Havia. entremeado de palavras proferidas entre dentes. Eles o haviam derrotado. e as paredes das casas eram cinzentas e gastas. em meio a ruídos estridentes e buzinas. no ocaso. perseguindo-o durante toda aquela noite de sono inquieto. para que o mantivessem apartado dos demais. Seguiu-o pela rua de pedras arredondadas até sua casa. Ele próprio se derrotara. mas. e Sua Eminência caminhava sob palmeiras curvadas. titular de São Clemente. e os bronzes heráldicos.

mediante firme progressão. contrastando com sua tez azeitonada. o resultado. cidadão do menor e menos vulnerável Estado existente no mundo. Era muito para um homem que se achava ainda em seus vigorosos sessenta e poucos anos. satisfeito. o que era pouca idade para um homem atingir o chapéu cardinalício. sabendo que aquele que entra num conclave como papa tem probabilidade de sair dele cardeal. mas Sua Eminência carregava tal poder com um tão brando bom humor que ocultava uma inteligência sutil e uma vontade dominadora. protetor dos Filhos de São José e das Filhas de Maria Imaculada. eram de opinião que o próximo pontífice deveria ser um homem mais santo. mas ainda lhe restava energia suficiente para a sinuosa diplomacia e as manipulações do poder dentro da fechada Cidade do Vaticano. mais numerosos. mas aquele era um salto . cabeça arredondada calva como um ovo sob o solidéu. menos preocupado com a diplomacia do que com a reforma da moral tanto entre o clero como entre os leigos. pois não se achava preso a uma esposa. bispo por irrevogável consagração. Eugênio Marotta aguardava. Era um homem baixo e corpulento. grandes e pequenas. rosto com papada. de mãos e pés pequenos. atormentado por filhos e filhas. Assim. teria todas as respostas. ou escravizado aos aguilhões da paixão. Tinha sessenta e três anos. como também o era o poder que havia por trás deles. Sua Eminência passeava pelos jardins de sua villa. no fim. O passo seguinte era a cadeira de São Pedro. Havia os que eram a favor de sua eleição para o próprio papado.Apostólica. ao elevado posto eclesiástico do qual nem a maldade nem o desfavor poderiam desalojá-lo. Permaneceria cardeal até o dia de sua morte. Podia dar-se ao luxo da despreocupação. da Santa Igreja Romana. bem como de vinte outras organizações religiosas. Eram amplos os títulos. a observar o sol que se punha atrás das colinas albanas e a pensar nos assuntos do dia com a atitude descansada de um homem que sabia que. um príncipe por protocolo. Fora tão longe quanto o talento e a ambição podiam têlo levado. Ademais. mas estava ainda longe da morte e encarava com desagrado os que lhe cobiçavam os sapatos. comissário para a interpretação do direito canônico. Era ainda muito mais. Chegara. no bairro de Parioli. embora sem esforço aparente. enquanto outros. o pontífice podia ser velho. Seus olhos cinzentos piscavam com benevolência e sua boca era pequena e rubra como a de uma mulher. Trabalhava arduamente.

Começava com saudações. A carta do bispo era simples e explícita — demasiado simples para que fosse destituída de astúcia e demasiado explícita para que deixasse de despertar suspeita num político experimentado como era o Cardeal Eugênio Marotta. O homem que usava o anel de São Pedro e a tríplice tiara também carregava consigo os pecados do mundo. fora colocada sobre sua mesa uma carta do bispo de Valenta. bem como contar com sua assistência para que fossem designados. a seus pés. já uma antecâmara da divindade. por incompetência. como prefeito da Congregação dos Ritos. a face nua do Todo-Poderoso. solicitando a apresentação da causa de beatificação do servo de Deus Giacomo Nerone. Só os observadores mais sutis como Marotta haviam observado que o aumento dos votos fora devido ao Partido Monarquista e não aos comunistas. bem como a natureza aparentemente milagrosa de tais curas. dois anos antes. espontâneos tributos de veneração. Desde sua morte. obtivera uma carta de louvor pontifícia. meio caminho distante do mundo. E o Cardeal Marotta estava longe de ser um tolo. de um bispo humilde a um príncipe da Igreja. dois cultos e . diretamente de Roma. por concubinato. Investigações preliminares confirmaram sua reputação de santidade.muito grande. Esse Giacomo Nerone fora assassinado por comunistas em circunstâncias que bem poderiam ser chamadas de verdadeiro martírio. porém. pequena diocese de uma região arruinada da Calábria. no alto. que também tinham obtido ligeiro acréscimo na votação. Permanecia sobre venturoso pináculo tendo. com isso. ele já tinha problemas suficientes para resolver. atribuindo-se à sua influência diversas curas de natureza milagrosa. nas vilas e nos campos adjacentes. a glória e o terror de um tal principado. dois curas rurais. o tapete estendido das nações e. Dizia. Antes de fazê-lo. Causara agitação. floridas e deferentes. Somente um tolo invejaria o poder. Dois dias antes. vinham-lhe sendo prestados. e por ter afastado. Naquela hora de penumbra e jasmim. como um manto de chumbo sobre os ombros. por haver destituído. Conhecia vagamente o bispo como sendo reformador severo. desejava conhecer a opinião de Sua Eminência. a seguir. e o bispo mostrou-se disposto a aceitar a petição e submeter o caso à investigação jurídica. O resultado das eleições em sua diocese revelara acentuada inclinação a favor dos democratas cristãos e. um de seus pastores mais idosos. que recebera uma petição assinada pelo pároco e pelos fiéis das aldeias de Gemelli dei Monti. com pendores para a política.

Havia também política envolvida no caso. zelosos de sua autonomia. Por que razão. Havia. para iniciar a investigação e levá-la avante e. Os anticlericais acolheriam de bom grado uma oportunidade para desacreditar a Igreja. A única maneira pela qual poderia provar essa santidade era mediante uma investigação judicial. para submeter as provas e as testemunhas ao severo escrutínio. debaixo da autoridade da Congregação dos Ritos. em geral. onde a imagem do Bambino é dependurada sobre a cama e os cornos pagãos pregados na porta do celeiro. primeiro em sua própria diocese e. Mas estava em jogo mais do que a reputação de um bispo provincial. outro. segundo as cláusulas pertinentes do direito canônico. Havia muito. Gemelli dei Monti situava-se bem no coração da Itália meridional. muito mais. Sua Eminência esboçou um sorriso. um santo conveniente. no entanto. pois. e encontrar-se-á uma raposa que fareja armadilhas a uma milha de distância e que se desvia matreiramente delas rumo ao galinheiro. A primeira investigação.virtuosos sacerdotes — um. onde os cultos se extinguem tão rapidamente quanto proliferam. onde a fé se acha sobrecarregada de espessa patina de superstição. questões mais profundas. onde os camponeses fazem. e já dispunham de armas suficientes para que se lhes pusesse outra nas mãos. a meditar sobre tal proposição. como promotor da fé. O bispo talvez tivesse mesmo um santo em seu território — e. como postulador da causa. o que é mais. por meio de autoridade por ele mesmo designada. matérias que diziam menos . Se corresse mal. os sábios e piedosos homens de Roma bem poderiam arcar com uma parte da culpa. martirizado pelos comunistas. e faltavam apenas doze meses para as eleições italianas. mas que declinava colocar sua própria reputação em jogo juntamente com a do servo do Senhor. teria não apenas um beato. ou advogado do Diabo. com a mesma mão. A opinião pública era sensível à influência do Vaticano nos assuntos civis. aquele apelo deferente a Roma? O Cardeal Eugênio Marotta caminhava pelos relvados bem-cuidados dos jardins de sua villa. em Roma. diante da sutileza daquilo. o sinal-da-cruz e o gesto contra o mau-olhado. mas uma vara com que castigar os comunistas. Se a investigação corresse bem. porém. Os bispos locais eram. mas essa era a essência da coisa. Arranhe-se um homem do sul. seria feita em sua própria sede episcopal e sob sua própria autoridade. O bispo era um homem astuto que queria um santo para o bem de sua própria diocese. depois.

desapaixonado. Se o veredicto médico fosse desfavorável. Devia ser frio em seu julgamento. Dos dois. Pois muito mais dependia dele. uma investigação malfeita. Era um homem enrijecido pelo poder e cético quanto à devoção. A maldição da mó podia recair igualmente tanto sobre um cardeal que errava como sobre um cura sem fé. mesmo à custa de vidas destroçadas e de corações partidos. Aceitar seus milagres era admitir. Dizia respeito a almas — à sua salvação ou condenação. meticuloso. no jardim. talvez não se sentisse disposto a aceitar tão pesada missão. Sua Eminência sentiu um arrepio ante a friagem que descia sobre Parioli com as primeiras sombras da noite. Mas uma ação prematura. e aqueles de que dispunha já estavam ocupados em outras causas. sua missão primordial era de ordem espiritual. enquanto a leve harmonia dos sinos subia da cidade e os grilos. se pudesse. suspendendo ou cancelando as leis da natureza. Foi então que se lembrou de Blaise Meredith. Dizer que um homem era santo era declarálo servo heróico de Deus. começavam o seu coro estridente. apresentá-lo como exemplo e intercessor a favor dos fiéis. O castigo do fracasso seria tanto mais rigoroso. o que afastaria o perigo das embrulhadas políticas. implacável em sua condenação. Seu título oficial descrevia-o com exatidão: promotor da fé. Devia ser um homem culto. sóbrio. Apesar da pompa de seu título e da dignidade secular que o acompanhava. em seu coração. o advogado do Diabo era o mais importante. mas também carregava sobre os ombros o fardo da crença e. além de qualquer dúvida. Encontraria os homens para ele: um postulador que elaborasse o caso e o apresentasse. Toda a maciça maquinaria da Congregação dos Ritos se destinava a impedir que isso ocorresse. o poder divino a agir através de sua pessoa. caminhava e refletia seriamente. Assim.respeito ao tempo que à eternidade. O homem que mantinha a fé pura. Podia deixar de ter caridade ou piedade. que já tinha sobre si o cinzento da morte. Concederia ao bispo de Valenta o seu pequeno triunfo. Um erro em tal assunto era coisa inconcebível. o homem magro. Tais homens eram raros. mas não podia faltar-lhe precisão. poderia causar grave escândalo e debilitar a fé de milhões de indivíduos numa Igreja infalível que reivindicava para si a orientação direta do Espírito Santo. Podia dar-se menos do que os outros ao luxo de errar. e um advogado do Diabo para que o destruísse. Ele possuía tais qualidades. Mas se tinha desejo ou lhe restava tempo para aquela tarefa era um outro assunto. o medo do demônio do meio-dia. Era inglês. .

pelo jardim já escuro. depois recolheu-se à villa.Contudo. aquilo era o começo de uma resposta. Deu mais uma volta. a fim de dizer as vésperas em companhia de seus domésticos. . Sua Eminência não se sentia de todo insatisfeito. lentamente.

— Não! — exclamou Marotta. que sejamos antes santos que pecadores. E a boca. É uma carreira. E celibatários por legislação canônica. algo que se situa entre esses dois extremos. Mesmo exprimindo-se no vivo italiano de Roma. uma profissão. Sua Eminência dormira bem e fizera ligeira refeição matinal — e seu rosto. ergueu-se num sorriso irônico. para nós. o inglês parecia pequeno. — . mas não deixa de ser sempre um choque. e profundos sulcos de sofrimento marcavam-lhe os cantos da boca. O cardeal permaneceu um momento em silêncio. Eminência. Tenho.2 Dois dias depois. — Não devemos superestimar-nos! Somos como todos os outros homens. para trabalho ativo. estava ele investido da dignidade inconsciente da riqueza. somos. — Aí está. são independentes do nosso próprio valor. quando nos encontramos à sombra do tribunal. os seus tapetes Aubusson e seus nobres retratos em molduras douradas. como os nossos irmãos que estão fora do ministério. nós. — Pequeno conforto. Eminência. deveríamos estar preparadas para isso. mas. atrás de sua grande mesa embutida. Por contraste. dentre todas as criaturas. observando-o com desapaixonada piedade. doze meses de vida. cinzento e encolhido. redondo e bem-humorado. mostrava-se fresco e brilhante. é a verdade — lembrou-lhe. — Não obstante.. friamente. Somos sacerdotes por eleição e vocação. Os poderes que exercemos. descaída. sua voz era abatida e inexpressiva. meu amigo. a agitar as pequenas mãos num gesto de protesto. com o seu teto trabalhado em caixotões. o cardeal. A metade disso.. o Cardeal Eugênio Marotta achava-se sentado em seu gabinete de trabalho. Tinha os olhos fechados de fadiga. A sotaina caía-lhe frouxamente pelo corpo magro e seus adornos escarlates não faziam senão acentuar-lhe a palidez doentia do rosto. Isso acontece a todos nós. certamente. Depois disse com bondade: — Lamento muito. — Contudo. e conversava com Monsenhor Blaise Meredith. Na alta sala. É melhor. cuidadosamente barbeado. talvez. no máximo. as graças que dispensamos. em geral.

negligência. Apesar do domínio que tinha sobre si mesmo. E depois? — Irei para um hospital. É uma lenda piedosa dizer que o sacerdócio santifica um homem. Preferiria continuar trabalhando. se o amigo o desejar. no fim. Eminência. Um chefe de família tem de fazer sacrifícios. Nada tive contra que lutar. caminhava ao seu encontro com uma dignidade desolada tipicamente inglesa. Não raro. existe ainda no mundo grande número de celibatários profissionais. Posso fornecer-lhe uma pensão. que Vossa Eminência deseja encarregar-me de alguma tarefa. O único ruído que se ouvia na sala era o suave tique-taque do relógio de bronze dourado sobre o consolo de mármore da lareira. Quanto mais alto se sobe mais se vê — e de modo mais claro. até os quarenta e cinco anos. Blaise Meredith abanou a cabeça: — É muita bondade.Estou na Igreja há longo tempo. não obstante. Depois. falou pensativamente: — Posso dispensá-lo de suas obrigações. conservar as mãos fora do bolso e suas pernas longe de uma cama de mulher. Não posso apresentar sequer cicatrizes. temos menos méritos. praticar o amor e a paciência. . Poderia viver tranqüilamente. é-nos mais difícil salvar nossas almas do que os outros as suas... Meredith prosseguiu: — Presumo. com os fundos da Congregação.. meu amigo. Marotta sentiu-se tocado pela desconsolada coragem daquele homem.. — Não há mal de que me arrependa nem bem que possa contar a meu favor. num gesto de derrota. conta com razoável probabilidade de continuar assim até o dia de sua morte. preguiça. pondo-se a mexer na grande pedra amarela de seu anel episcopal. gostaria de ser sepultado na igreja de Vossa Eminência. Estava cansado e enfermo. Se não fosse pedir demais. — Mas terá de parar.. ou que o celibato o enobrece. mas não tenho queda para a vida contemplativa. estendendo as mãos. ambição. Receio. Decorrido um instante. contudo. Se um sacerdote conseguir. — hesitou. Talvez pequemos menos. — Finita la commedia. receio não poder desempenhar-me dela da melhor maneira. avareza. impor disciplina a seus desejos. Mas todos nós estamos ainda sujeitos a orgulho. Antes que o cardeal tivesse tempo de fazer qualquer comentário. O cardeal recostou-se na cadeira. Ademais. O pior de seu calvário ainda estava por vir. mas. — Sinto-me muito vazio — disse Blaise Meredith. algum dia.. Sofrerei bastante.

indagou: — Bem.. contou-lhe acerca da petição do bispo de Valenta e de sua necessidade de um advogado do Diabo na causa de Giacomo Nerone. — É um gesto político e desconfio disso. — Tudo na Igreja é política — lembrou-lhe Marotta. isso é verdade. mas não fez comentário algum. Meredith.. meu amigo — respondeu. Marotta. — Em certo sentido. endireitou-se na cadeira e um ligeiro rubor animou-lhe as faces descoloridas. Não se pode dividilo. talvez. Tudo o que a Igreja faz se destina a dar um caráter espiritual a um desenvolvimento material. e que. — Poderíamos aconselhar o contrário. — Um número demasiado grande de símbolos pode obscurecer a face da realidade — observou. Meredith. O bispo começa em sua própria diocese. e sem esperar resposta. Designamos um santo como patrono da televisão. Mas. Meredith ouviu-o com a atenção de um advogado diante dos pormenores de uma nova ação judicial.. talvez. Dito isso. o primeiro gesto não parte de nós. assim como não se pode dividir a Igreja em funções isoladas e sem relação entre si. também possa ajudá-lo.. Eugênio Marotta percebeu-o. — Baseados em quê? — Na discrição.. — E um número demasiado de santos pode desacreditar a santidade. que é que acha disso? — Uma indiscrição — respondeu. Que é que isso significa? Um novo símbolo de uma velha verdade: o de que toda atividade lícita conduz ao bem ou pode ser pervertida e transformar-se em mal. O cardeal. não colocá-los no calendário mas conservá-los fora dele. ao ocorrer-lhe subitamente algo — .e que.. Nova vida pareceu apoderar-se dele.. Não temos autoridade direta para impedir a investigação.. Sempre julguei que a nossa função na Congregação dos Ritos era. tanto neste caso como em todos os outros. fez um aceno afirmativo com a cabeça.. bondosamente. Ao terminar o esboço da situação.— O senhor sempre fez tudo melhor do que supõe. com ar sério. . Os tempos são maus. com suavidade. Além disso há um assunto em que poderá ajudar grandemente. — O homem é um animal político dotado de uma alma imortal. — deteve-se o cardeal um instante. Só muito mais tarde os papéis nos são enviados. Estamos em vésperas de eleições. secamente. Seus olhos brilharam. preciso. — Sempre deu mais do que prometeu..

O cardeal empurrou para trás sua alta cadeira esculpida e pôs-se de pé. Não posso penetrar em sua consciência. em tom de desaprovação. Seu rosto estava oculto de Meredith. — Quanto a isso. mas creio que o senhor chegou a um momento de crise. E eis aí por que gostaria que o senhor assumisse o papel de advogado do Diabo. O cardeal ficou a olhar o jardim. — Ademais. O senhor.Giacomo Nerone foi assassinado por guerrilheiros comunistas no último ano da guerra. — Mas talvez possamos controlar a coisa. como já disse. decorrido um momento. aqui . abanou a cabeça: — Sou um homem doente. iluminando o escarlate e o dourado e fazendo com que os ricos desenhos do tapete adquirissem vida. Um culto aparentemente espontâneo surgiu entre o povo. de modo que o sol matinal inundou o aposento. E. Marotta. havia em sua voz um toque de estranha compaixão: — O que tenho a dizer-lhe. Não poderia desempenhar-me dessa missão à altura do que Vossa Eminência espera. como muitos dentre nós. é. penso que isso poderá ajudá-lo. Eis aí por que resolvi conceder a Sua Excelência Reverendíssima o que ele deseja. ante aquela crua luminosidade. mas. A primeira investigação já foi feita. Eminência. considerando a oferta. quando falou. é bem possível que o consiga. Atravessou a sala até a janela e descerrou as espessas cortinas. Que é que pretendemos fazer? Usá-lo como meio de obter uma sede provincial ou como um exemplo de caridade heróica? Os lábios vermelhos do cardeal contraíram-se num sorriso irônico. As agências de turismo começarão a organizar viagens não-oficiais. — Não compreendo. Antes as coisas devem ser judicialmente investigadas. — Penso que o nosso irmão bispo gostaria de conseguir ambas as coisas. Blaise Meredith contraiu os lábios finos e exangues. deixe que eu o julgue — respondeu friamente. e o veredicto inclina-se a favor da aprovação. — Caso tal aconteça. Fala-se até em milagres. O passo seguinte segue-se quase que automaticamente — a apresentação da causa de beatificação ao próprio tribunal do bispo. Os negociantes locais começarão a gritar de cima dos telhados. provavelmente. pôs-se a piscar. abrigando os olhos com a mão. Não sou seu confessor. todos os jornais da Itália estamparão a notícia. monsenhor. como flores. Depois. Blaise Meredith. até certo ponto. uma presunção. Não podemos evitá-lo.

mesmo tardiamente. Jamais conheceu a dignidade da privação. pois um homem que não pode amar o seu semelhante tampouco pode amar a Deus.em Roma... Ela o levará para fora de Roma. Reduzimos a fé a uma concepção intelectual. Perdemos a piedade. O senhor viverá em meio de gente simples. Eis aí a cruz que o senhor talhou para os seus próprios ombros. Eis aí por que creio que essa investigação poderá ajudá-lo.. e não pela caridade. Eminência? A patética lassidão da voz. como também os seus temores. De repente. O senhor reconstituirá a vida de um morto segundo o testemunho daqueles que com ele viveram. nem odiou um homem. um árido assentimento da vontade.. mas perdemos o respeitoso temor que deveríamos sentir diante deles.. Existem muitos que ficam muito aquém mesmo dessa limitada perfeição. Não há estigma algum nisso. pela insatisfação. nem a gratidão de um sofrimento compartilhado com ou trem. Seja ele santo ou pecador. não faz diferença alguma. meu filho. que carregamos em nossas costas até mesmo a Igreja de Deus. os esbulhados. os ignorantes. ó mundo mergulharia no caos. Já é muito ser um bom profissional. sem nós. Como todos os administradores. falará com tais pessoas. gravemente: — Não há paixão em sua vida. de nossos deveres pastorais. E está desorientado. até mesmo pela dúvida. é um sacerdote profissional — um clérigo de carreira. Eis aí a sua enfermidade. com medo. pois creio que se acha agora no deserto da tentação. durante muito tempo. porque não vimos agindo nas vidas das criaturas comuns. o rosto afundado nas mãos. — E qual é a minha enfermidade. eu e outros como nós vivemos afastados. O senhor é afortunado por ter sido tocado. Agimos movidos por cânones. Aí é que começam não só as suas dúvidas. Apartou-se demasiado tempo e é. os pobres. um estranho no seio da família humana. . Somos os guardiões de mistérios. Jamais pediu nada nem deu nada. para uma das regiões mais miseráveis da Itália. Parte do problema é que o senhor. sim. Voltou-se da janela e viu Meredith debruçar-se para a frente em sua cadeira. Aguardou um momento. não sabe o que deveria fazer para remediar essa falha. Contudo.. a desolada perplexidade da pergunta. acreditamos que. agora. mas alguns dentre nós acreditam nisso até o dia de sua morte. no fim.. E entre elas talvez encontre a cura para a enfermidade de seu próprio espírito. O senhor nunca amou uma mulher. nem sentiu piedade por uma criança. pensando em sua resposta. o senhor descobriu que isso não é o bastante.. Perdemos contato com o povo que nos mantém em contato com Deus. levaram à piedade o velho sacerdote. depois disse. Isso não é verdade. isso. o medo e o amor.

Todas as janelas estavam fechadas e o ar era viciado e sufocante. Apresente suas credenciais ao bispo de Valenta e comece a trabalhar. com vivacidade. como cigarras. com firmeza. meu filho. mas a encorpada mulher se mexia sem cessar em seu incômodo e apertado vestido. — Vá para casa e descanse — recomendou.— Como é que se começa a amar? — Por necessidade — respondeu. em paz e em nome de Deus! Às onze horas da manhã seguinte Blaise Meredith deixou Roma. rumo à Calábria. — disse Blaise Meredith. Tinha pela frente dez horas de viagem e o rápido era quente. Vá.. a esposa e quatro crianças que gritavam estridentemente. o seu caderno de notas e uma carta de apresentação do prefeito da Congregação dos Ritos a Sua Excelência Reverendíssima. enquanto os de mais recursos se esparramaram pela primeira classe. Um homem anseia pelo seu primeiro beijo. Eugênio Marotta. Dez minutos após a partida da Estação Central de Roma desistiu de seu intento. — Por necessidade da carne e por necessidade do espírito. — Amanhã cedo. Tentou cochilar. e a ruidosa mastigação do padre o incomodava quase a ponto de fazê-lo . outros conseguem a salvação. que chupava ruidosamente pastilhas de menta. — Alguns são condenados. O assento oposto era ocupado por um camponês. sobre os bancos e as prateleiras de bagagem. Mas o trabalho da Igreja continua. devido ao vozerio do trem e aos gritos agudos das crianças. e se metiam entre os pés de todos. desgostoso. sua primeira e verdadeira prece é feita quando ele anseia pelo paraíso perdido. — O senhor é um homem duro. O ar fétido causava-lhe náuseas e sua cabeça latejava. com soturna concentração. Os mais pobres foram amontoados como gado nos vagões de segunda classe. rude. uma pasta contendo o seu breviário. — Estou tão cansado!.. Marotta. — Todos os dias morrem homens — respondeu. empoeirado. com seus pertences. Sua bagagem consistia em uma mala com roupas. e estava repleto de calabreses que voltavam de uma peregrinação organizada à Cidade Santa. Meredith abriu o breviário e.. Eminência. pode partir para a Calábria. o bispo de Valenta. estendendo-se. procurou ler suas orações.. o cardeal. Meredith viu-se firmemente ancorado entre uma corpulenta matrona de vestido de seda e um clérigo de rosto trigueiro.

duas francesas de seios achatados. e seu solo sagrado convertido em pó. e mesmo as ruínas dos aquedutos e as velhas villas romanas estavam mosqueadas de musgo fresco e de ervas daninhas que surgiam de suas pedras batidas pelas intempéries. levantou-se com dificuldade e saiu para o corredor. apresentava todos os anos. não obstante. demasiado pobres para a pastagem de cabras. onde permaneceu de pé. um turista alemão de sapatos grossos e uma Leica de alto preço. paletó de abas curtas e um cintilante anel de zircão no dedo rechonchudo. nas ásperas encostas de tufo. O jovem era um corpulento e robusto camponês meridional. se se pudesse esvaziá-la. Mesmo nas montanhas. um estudante americano de cabelos à escovinha e cara sardenta. havia ainda uns leves salpicos de verde. Se se pudesse deixar a terra em paz durante algum tempo. que se . As cicatrizes da erosão e do amanho da terra estavam cobertas de relvados novos. durante meio século. talvez pudesse readquirir a sua fecundidade. A moça era baixa e morena como ele. o estuque da fachada das casas tinha sido lavado pelas chuvas e descorado pelo sol. Havia um homem de negócios napolitano com calças largas. Ali estava uma terra cansada. não obstante. seus rios secos. apoiado aos lambris. de cintura e tornozelos grossos. Derrotado e dispéptico. Mas isso jamais aconteceria. relva e flor. com efeito. mas. saqueada ruinosamente durante séculos. suas árvores decepadas. Suas calças de algodão ralo modelavam-lhe os flancos e a camisa de meia colava-se-lhe ao peito de modo que toda a sua sólida masculinidade era sugestivamente visível. Estes estavam agora verdes. aquele breve e bravo espetáculo de folhas. de suas proliferas tribos. pensou Meredith. de mãos dadas junto ao toalete. de algum modo.gritar. a lembrar a passada fertilidade. animados pelos primeiros renovos da primavera. de olhos cintilantes e mãos vivazes. mas tinha "seios cheios e firmes. com seus montes carcomidos pela erosão. e ele lançou um olhar para ambos os lados do corredor. Foram os namorados que prenderam a atenção de Meredith. por salames e alhos rançosos e pelo cheiro de corpos que necessitavam de banho. As móveis paisagens banhadas de sol começaram a cansar-lhe a vista. O milagre cíclico do renascimento era mais vivo ali do que em qualquer outro" país do mundo. Eles continuariam a gerar e a gerar filhos enquanto a terra lhes morria debaixo dos pés — lentamente. e um casal de namorados provincianos. aos outros passageiros que tinham sido expulsos de seus compartimentos pela fumaça de charutos. moreno como um árabe. demasiado depressa para que os técnicos e os agrônomos a restaurassem. a olhar os campos.

vê-se a Igreja como realmente é: um exército de sacerdotes. mas a voz grossa do calabrês prosseguia. Quem estava certo — ele ou eles? Quem se aproximava mais da perfeição do desígnio divino? Havia apenas uma resposta. no estreito corredor. monótona: — . maravilhoso!. um de frente para o outro. ajoelhado junto ao túmulo de Pedro! Que outra experiência poderia igualar-se a essa? Lá.. Sua paixão era evidente. Precisava sentar-se e descansar um pouco. mas consciente de sua posse. . Eugênio Marotta tinha razão.. A moça estava contente com ele e consigo mesma. Mas Blaise Meredith dormia sozinho.. Seus pés começaram a arder. O rapaz parecia vaidoso como um galo. na pequena eternidade pessoal de um novo amor. talvez naquela mesma noite. uma nova alma. Que conhecera ele do amor exceto uma definição teológica e uma culpa sussurrada no confessionário? Que significado tinham os seus conselhos diante dessa franca. em suas entranhas. que. Maravilhoso.. Uma onda de menta flutuava pelo compartimento. monges e freiras preparando-se para conquistar o mundo para Cristo. poderia tocar-lhe as vestes. Ele se afastara do convívio da família humana. estive bem perto dele. perpetuá-la. Olhando-os. era o começo da vida e a garantia da continuidade da espécie humana? Logo. Em São Pedro. Devíamos agradecer todos os dias a Deus o privilégio de que desfrutamos nesta peregrinação. os corpos tranqüilos a oscilar com o movimento do trem.. Ao voltar para o seu lugar. Se estendesse a mão. por disposição divina. A gente podia sentir o poder que dele provinha. aqueles dois corpos jazeriam juntos na pequena morte da qual surgiria uma nova vida — um novo corpo.. o Santo Padre! Um verdadeiro santo. Aquela dorzinha enjoada ali estava de novo. com todos os mistérios do universo reduzidos a um silogismo escolástico dentro do seu crânio. Aquelas duas criaturas arremedam para a frente a fim de renová-la. não dava impressão de urgência. erótica comunhão. deparou com o clérigo calabrês a proferir um sermão em grande estilo: — Um homem maravilhoso.comprimiam de encontro à blusa decotada. Estavam de pé. contudo. os olhos cegos a tudo o mais que não fosse eles próprios. Doíam-lhe as costas. as mãos dadas a formar uma barreira contra qualquer intrusão.. Blaise Meredith fechou os olhos e rogou a Deus lhe concedesse uma trégua. Blaise Meredith sentiu-se tocado pela vaga nostalgia de um passado que jamais lhe pertencera.Ter estado em Roma e palmilhado o caminho dos mártires..

. depois. O espírito do grande pontífice paira sobre ela noite e dia.. inquieto. tem ocorrido milagre após milagre junto de seu túmulo.. Sua irritação se dissipou. A estrutura maciça da . temos um santo. mas um santo de verdade. não um santo oficial ainda. O calabrês mexeu-se. Blaise Meredith abriu os olhos e indagou. e entregou-se a orações e às boas obras."Se essa é a maneira de conquistá-lo". e aguardou com atenção o resto da história. Esse sujeito fala como um caixeiro viajante. em defesa da fé.. um pequeno eremitério. finda a guerra. pensou Blaise Meredith. Se ele ao menos se calasse e pensasse um pouco!" Mas o calabrês já estava a todo o vapor e a presença de um irmão clérigo apenas o incitava a novos esforços: — Têm razão. padre? O calabrês lançou-lhe um olhar rápido e desconfiado: — Se o conheci? Bem. E. Acaso já ouviram falar dele? Não! É uma história estranha e maravilhosa.. pecadores trazidos ao caminho da penitência. Morreu como um mártir. — Obrigado — disse cortesmente Blaise Meredith. Ninguém sabe de onde veio. levantou-se e dirigiu-se ao toalete.. Quando os comunistas. Constituía assim como que um jargão eclesiástico. Lembrem-se de que nem todos os santos da Igreja se acham em Roma. ocuparam a aldeia.. claro. Giacomo Nerone. inocentemente: — O senhor o conheceu. tornando a cerrar os olhos.. Ah. — Já teve início a causa de sua beatificação. mais do que nunca. "que Deus se apiede do mundo! Essa espécie de pantomima jamais servirá para nada. com suas próprias mãos. sei de muita coisa a seu respeito. A diocese que fica logo adiante. Construiu. Reclamava todas as questões e não respondia a nenhuma. Agora. em seu lugar.. Enfermos têm sido curados. o assassinaram. não! Mesmo em nossa pequena província. servindo apenas para desacreditar a verdade. Não se arrependia do que fizera. Eu sou de Cosenza. não o conheci pessoalmente. Mas.. depois de sua morte. Oh. mas certo dia apareceu na aldeia como um homem enviado por Deus. Meredith aproveitou sua ausência para esticar as pernas e recostar a cabeça dolorida no espaldar almofadado. aquela espécie de parlapatice lhe era repugnante. Sinais seguros do favor do Todo-Poderoso. sim!. Um santo de carne e osso! Blaise Meredith ficou instantaneamente alerta. uma retórica aviltada que nada explicava. quando chamam Roma de Cidade Santa.

Piedade. Tem muito mais experiência das coisas. assoou o nariz e bateu. O calabrês moreno voltou a abotoar desajeitadamente a batina. monsenhor. monsenhor? — Sim. florescia amplamente nos lugares em que a Igreja se achava mais firmemente entrincheirada na ordem estabelecida. salvo a velhas senhoras e mocinhas cloróticas. menta. na qual se alicerçava a Igreja. É um lugar que se mantém em relativa ordem porque o papa insiste em observar os direitos que lhe foram concedidos pela Concordata. morte. com uma boca cheia de dentes cariados. Tem oportunidades que a nós. — Ah. informes. tem muito mais probabilidade de . e Roma não é a Cidade dos Santos mais do que o são Paris e Berlim. do compromisso. O senhor. — Eu não lavro coisa alguma — respondeu. confiadamente. pobre gente do campo. que achava mais fácil pregar a devoção do que enfrentar os problemas morais e sociais de seu tempo. da frouxidão do clero. no joelho de Meredith: — Vem de Roma. — Sua pessoa me interessa muito. Sou inglês. Labutamos em terreno pedregoso. Não obstante. paixão. a fim de preservar o seu caráter sagrado como centro da cristandade. Passou por alto a repreensão e apanhou rapidamente no ar o novo tema que se lhe apresentava. Mas eu sempre disse que a vida simples. Encobria a fatuidade e a falta de instrução. é? — Não. enquanto o senhor lavra as pastagens luxuriantes da Cidade dos Santos. Meredith. nos são negadas. um visitante do Vaticano? Um peregrino? — Trabalho aqui — respondeu. O calabrês era matreiro como uma raposa. resolvido a tornar a impor-se aos seus ouvintes e àquele monsenhor de queixo fino. vive num mundo maior do que o meu. O calabrês lançoulhe um sorriso fraternal. estéreis e essencialmente falsas. o grande "talvez" do além. certamente. ríspido. exceto ao homem que a mascava.razão e da revelação. era reduzida a palavras mágicas. — Sou um funcionário da Congregação dos Ritos. monsenhor. Não enganava a ninguém. — O senhor tem sorte. Sentouse. Mas o calabrês era obstinado. Meredith. de Roma. Desagradava-lhe aquela intrusão em seu repouso — e sua resposta foi concisa. Deixava o povo nu e desarmado diante de mistérios aterrorizantes: dor. friamente. Era a marca da acomodação. campestre. Apenas isso. — O senhor não é italiano. Não satisfazia a ninguém. cego a todos os obstáculos.

com leve ironia. — E depois? A despeito de tudo. O senhor não concorda? — É uma proposição dúbia — respondeu. possivelmente. Giacomo Nerone. Gemelli dei Monti? — Nunca estive lá. na ruína e na pobreza. Meredith. e a estrada é um pesadelo. e em tempos nada promissores. Meredith sentiu que seu interesse se aguçava.. É como se Deus estivesse enviando castigos aos traidores e recompensando aqueles que concederam abrigo ao corpo do servo de Deus. os montes gêmeos. Conhece o lugar onde ele vivia.. Seria.. com as causas de santos e beati. a maior. Gemello Minore vem mergulhando. — Exatamente! Foi isso justamente o que tanto me interessou em relação ao nosso servo de Deus. Aldeias gêmeas. O senhor trabalha na Congregação dos Ritos. Gemello Maggiore. Acham-se situadas a cerca de sessenta quilômetros de Valenta.conduzir à santidade do que a azáfama mundana de uma grande cidade. a cavalgar o espinhaço de uma colina numa das regiões mais desoladas da Calábria. erguendo um dedo grosso e curto num gesto de pregador. Não concordaria com isso.. Poderia ter sido resultado de alguma astuta manobra por parte do prefeito e dos cidadãos. Poupar-lhe-ia tempo e energia ceder naquele momento. uma coisa estranha. Respondeu secamente: — Toda a minha experiência me diz que os santos são encontrados nos lugares menos prováveis. Seu corpo foi conduzido secretamente para uma gruta próxima de Gemello Maggiore e lá sepultado. à custa de importunação. Pelo menos o eram até que a fama do servo de Deus começou a espalhar-se. — Precisamente. no fim.. Desde então. — Mas sabe o que o nome significa? — O que significa? Julgo que seja. enquanto Gemello Maggiore se torna cada dia mais próspera. Gemello Minore é a aldeia menor. e procurar mudar de lugar em Formio ou Nápoles. cada vez mais. levado a conversar. um hospital e uma estalagem para turistas e peregrinos. Foi nessa aldeia que foi traído e assassinado. — E depois? — exclamou o padre. Há uma nova igreja. — Aconteceu.. Lida. e até . Giacomo Nerone tinha vivido e trabalhado em Gemello Minore. — A prosperidade nem sempre é um sinal do favor divino. Os aldeões são tão pobres e oprimidos como quaisquer outros em nossa província... então. monsenhor? Ele caíra numa armadilha e sabia disso.

. a Formio. O senhor se coloca em oposição a eles? — Não me coloco em oposição a ninguém — respondeu. homens que conhecem a nossa gente. Apreciavam tanto o humor obsceno do mercado de peixe como a finura de espírito reinante numa mesa de cardeal. pondo-se a refutá-la com ardor: — O senhor vai longe demais em sua suposição. pior ainda. ainda.mesmo do vigário da paróquia. terei prazer em recebê-la.. Outros sacerdotes. e muito faziam a favor de seu rebanho. para agir como promotor da fé no caso de Giacomo Nerone. Eis aí por que me dirijo agora à Calábria. ficou afogueado com a imputação. — Simplesmente desaprovo juízos temerários e doutrinas dúbias. mas Blaise Meredith era um intelectual dispéptico. zangado. perguntou a si mesmo. o que é que lhe impedia a livre comunicação com os seus semelhantes. pela chegada do trem. Os santos não são feitos por veredicto popular. encontravam vivo prazer no rude e picante dialeto usado pelos camponeses em sua conversação. o que deu a Blaise Meredith oportunidade de estender as pernas. Homens sábios e virtuosos já estudaram o assunto. ele o sabia. um maçante piedoso —. Colhiam pérolas de sabedoria e experiência sentados a uma mesa de lavrador ou diante de um copo de vinho. boquiaberto. com brandura. Enquanto andava de um lado para outro pela plataforma banhada de sol. numa cozinha de trabalhador braçal. da maneira devida. O calabrês. Eram. Que lucrara ele com aquela barata vitória dialética contra um padre do interior? O calabrês era maçante — e. Essas coisas já têm acontecido. convertendo-se em desculpas proferidas de maneira indistinta. interrompidas. O padre ficou a olhá-lo. por um momento. bons sacerdotes. pela centésima vez. Meredith.. depois sua confiança ruiu por terra.. a observar os viajantes camponeses que se aglomeravam em torno do vendedor de bebidas. Nada ganhara nem dera nada — e perdera a primeira oportunidade que se lhe apresentara de saber alguma coisa a respeito do homem cuja vida estava encarregado de investigar. afortunadamente. Se o senhor tiver qualquer prova em primeira mão a apresentar. monsenhor. Tinha de esperar vinte minutos pelo trem que se destinava ao norte. pouco depois. e a graça de envergonhar-se de si mesmo. mas por decisão canônica. destituído inteiramente de caridade. com . Falavam com igual familiaridade com as prostitutas desbocadas de Trastevere e os refinados signori de Parioli.

E agora. Ele pertence à velha escola... na biblioteca do Palácio das Congregações. havia sido auxiliar do Patriarcado de Veneza. aos quais estou procurando ensinar os rudimentos da agricultura moderna. uma surpresa para ele. e a adora! . Fiz disto aqui. A capacidade de amar e desejar. apenas — explicou ele. ainda vigoroso em seus quarenta e poucos anos. onde teria de suportar a longa. aquilinos. ave-marias e em agitar incenso na catedral. de um tom metálico. Cosenza e. — Uma experiência em educação prática. bem no centro da cidade. antes de sua transferência para lá. Nocera. junto da catedral. Eboli. Minha gente era de agricultores montanheses. Eu nasci no norte. Qual a diferença entre ele e esses outros ministros de Deus? A paixão. em vez de levar Meredith para a cidade. Comprei isto aqui de um proprietário local que estava afundado em dívidas até o pescoço. o que parecia ser uma estranha escolha para uma diocese meridional e. Cassano. Bons agricultores. Era um homem alto. conduziu-o a uma bela villa no campo. com uma pequena morte cinzenta a roer-lhe as entranhas — e sem nenhuma alma no mundo que lhe fizesse companhia. minha residência oficial. vivera isolado entre tomos poeirentos.satisfação íntima singular. de sentir a dor de outrem. tarde da noite. em mais de um aspecto. distante uns quinze quilômetros. para dar-lhe as boas-vindas. Tinha os cabelos grisalhos. Valenta. num inglês claro e metálico. erguida em meio de laranjais e oliveiras. bispo de Valenta. enxuto de carnes. de compartilhar de suas alegrias. mas penso que estou vencendo. também.. Cristo comeu e bebeu vinho em companhia de patifes e mulheres de taberna. e cultivo estas terras com a ajuda de meia dúzia de rapazes. mas Monsenhor Meredith. O guarda soprou o apito e Meredith tornou a entrar no trem. cuidadosamente penteados. úmida viagem: Nápoles. — Uma experiência. Essa gente imagina que o clero nasceu de batina e que seu único talento consiste em dizer padre-nossos. Salerno. irradiavam inteligência e humor. "naquele seu último ano de vida. onde o bispo o aguardava. Era trentino. na estação. É uma batalha.. Aurélio. Estava à espera.. que dava para um vale. A antiga era irremediavelmente antiquada. dissera-lhe Marotta. foi. onde um estreito rio cintilava levemente sob o luar. seu adepto profissional. com o seu próprio automóvel e.. Passei-a ao vigáriogeral. e seus traços finos. ainda estava sozinho.

velhos a seguirem velhos caminhos porque os velhos caminhos parecem mais seguros. revestido de estuque. gostaria de que fossem em menor número.. brocados e querubins dourados com a pintura das costas a descascar? — Sim. o vigor ascético do crucifixo de madeira colocado. — Barroco bourbon? Veludos. e permaneceu um momento atrás do volante. Pela manhã. — Espero que seu quarto lhe pareça confortável. contaminado pelo bom humor do outro. — Menos santos também? — indagou Meredith. feudalismo. embaixo. Formalismo. Um criado vestindo um paletó branco abriu a porta do automóvel e fê-los entrar na casa. Quanto a mim. poderá olhar o vale. Acreditam que quanto mais sacerdotes. O bispo parou o carro diante do pórtico da villa. — Graças a Deus pelos ingleses! Um pouco de ceticismo tramontano nos faria bem a todos. sobre o . O senhor está pensando por que um homem como eu deveria encarregar-se da causa de Giacomo Nerone? — Estou. — Deixemo-lo para a sobremesa — disse. O bispo afastou-se. e ver o que estivemos fazendo. monges e freiras houver. reação. O bispo lançou-lhe um olhar rápido. e não como injustiças que devem ser remediadas. calmamente: — O senhor encontrará mais do que o suficiente aqui no sul. astuto: — Está surpreso. monsenhor? — Agradavelmente surpreso — respondeu Blaise Meredith. E disse. sem malícia.. Preferiria que houvesse menos igrejas e mais gente que as freqüentasse. Meredith teve sua atenção voltada para as linhas claras e modernas dos móveis. mas melhores. e o criado conduziu Meredith a um grande quarto de hóspedes no andar superior. tanto melhor para o mundo. Sua Excelência Reverendíssima. Encaram a pobreza e a ignorância como cruzes que devem ser carregadas. com janelas francesas que davam para um estreito balcão. O bispo ergueu os olhos perspicazes e depois estourou numa gargalhada. algo semelhante. onde o luar prateava a copa das árvores. francamente. a um canto.Meredith riu de si para si. neste momento. — Esperava algo inteiramente diferente. e eles não estão preparados para os novos. a olhar a inclinação do terreno. — Jantar dentro de trinta minutos — disse o bispo.

ainda. era um Barolo encorpado. eu estava começando a achar que tinha cometido um erro.. A conversa que o acompanhou era muito mais sutil — um esgrimir entre mestres. — Antes de sua chegada. — O senhor tem muitos críticos? — Sim. dos vinhedos do norte. isso implicava uma concessão. Os homens de idéias modernas e os reformadores são sempre encarados com desconfiança.. Até mesmo a dor incômoda de sua doença pareceu cessar. tornam-se um exemplo. Quando não o são. protesto.. Sua Excelência tinha o instinto de um construtor e o bom gosto de um artista. convertem-se numa censura a seus colegas mais conservadores. Tentaram fazer demais demasiado depressa. Foi uma refeição simples — antipasto. bem como um exemplar da Imitação de Cristo sobre o criado-mudo. Quanto ao vinho. Se fracassam. Enquanto tomava banho e trocava de roupa. — Custou tanto assim a Vossa Excelência? — Poderia ter custado. virtude que só raramente se encontrava na Igreja italiana. Havia uma estante de livros novos em francês. Havia no quarto uma porta que se abria para um banheiro recém-ladrilhado. e têm voz forte em Roma. De modo que sempre me pareceu mais sensato agir à minha maneira e cuidar eu mesmo de meus assuntos. e deixar aos críticos a iniciativa do ataque. alguns.genuflexório. dotado de toalete e box para ducha. um sacrifício de minha autonomia. Os políticos desconfiam de mim porque prego que o partido é menos importante do que os indivíduos que o representam. Meu superior metropolitano é monarquista. meu caro Meredith. frango assado. frutas da região e um picante queijo caseiro —. com o bispo a fazer as primeiras arremetidas. O clero julga-me demasiado severo em questões de moral e por demais indiferente quanto ao que concerne a rituais e tradições locais. Os proprietários rurais não me apreciam. zuppa di verdura. senso de humor. Meredith sentiu o cansaço e a frustração da viagem desprenderem-se dele como uma pele largada por uma cobra. Possuía. — Um erro? — Ao pedir assistência a Roma. . e aguardou com prazer e curiosidade o momento de jantar em companhia de Sua Excelência. Eu gosto de vêlas cumpridas. Eu tendo para um socialismo moderado. a fim de testar o adversário. principalmente aqui no sul. Como vê. Eles fazem promessas. mas fora preparada com esmero e meticulosamente servida. italiano e inglês.. Se são bem sucedidos.

Acredito em milagres. — E ajuntou. Há duas razões pelas quais estou interessado neste caso. — Então é isso! Eu estava intrigado com a disposição de Sua Eminência em cooperar. talvez tardem dez anos para que possam ser vistos. A primeira é simples e oficial. — O senhor conhece Roma melhor do que eu. E disse. Meredith. numa região como esta. e os sujeitos inteligentes como Marotta tornam-se inteligentes demais para que os outros os entendam. Para sua surpresa. Depôs a taça sobre a mesa e estendeu as mãos num gesto eloqüente de explicação: — Ele está inteiramente equivocado. Sou um setentrional. — Foi essa a única razão? — O senhor fala como um inquisidor — comentou Sua Excelência com perverso bom humor. Eis aí o que ocorre em Roma. com um sorriso apaziguador: — Os senhores são especialistas nessas matérias. Trata-se de um culto não autorizado. Quanto menos sabem. Compreendo a bondade. — Por que escreveu. Eis aí por que recorri à Congregação dos Ritos. e um padre secular em lugar de um barnabita de rosto comprido? Que esperto! Mas receio que ele esteja equivocado.. então. sobre a alva toalha da mesa. . meu amigo. — Que outra razão poderia haver? — Política — respondeu. pesando as palavras: — Porque este é um terreno novo para mim. mais livre sou.— E encontra apoio em Roma? Os lábios finos do bispo afrouxaram-se num sorriso. mas não estou familiarizado com a santidade. — Política eleitoral. Os estúpidos tornam-se mais estúpidos ainda. Eles aguardam os resultados. categórico. De modo que prefiro mantê-los na expectativa. ao Cardeal Marotta? Por que solicitou sacerdotes romanos que servissem como postulantes e promotores da fé? Sua Excelência pôs-se a brincar com a taça de vinho. Se for bem sucedido. Por que teria me enviado ele um inglês em lugar de um italiano. o bispo lançou a cabeça para trás e riu a bom rir. e os resultados de uma política como a minha. Meredith.. pragmatista por natureza e educação. girando-a entre os dedos longos. Se fracassar — ou cometer um erro num momento inoportuno — abanarão sabiamente a cabeça e dirão que já esperavam que tal acontecesse havia anos. através do líquido vermelho. mas jamais esperei que fossem realizados à minha própria porta. e a observar a refração da luz. — O riso extinguiu-se-lhe subitamente dos lábios e ficou de novo sério. sensíveis. Creio no misticismo mas não tenho experiência quanto a místicos. tanto melhor.

Acho que a Igreja. em voz baixa: — Eu estava intrigado a seu respeito. mas não consigo que ele me dê um milhão para um orfanato diocesano. Conhece-se uma árvore pelos seus frutos. depois de longo silêncio. de todo o coração. estamos diante de uma dicotomia que proporciona prosperidade à metade do país e deixa a outra metade a apodrecer na miséria. A primeira é uma aplicação necessária de um princípio moral. vivemos a vituperar os anticlericais e os comunistas. Temos três milhões de desempregados e três milhões de mulheres que vivem da prostituição. Procurarei explicar. não obstante. Aurélio. — E eu também... a segunda é simplesmente uma definição de uma crença tradicional. demasiadas igrejas e um número insuficiente de escolas. recostou-se em sua cadeira e estudou o rosto pálido e contraído de seu hóspede. demasiadas medalhas de santos e remédios insuficientes. A segunda não é assim tão simples. — Estou tratando do caso. para que seja aprovado ou condenado. mas espero.Tenho de investigar. O prefeito de Gemello Maggiore angariou quinze milhões de liras para levar avante essa causa.. e porque devo morrer de carcinoma dentro de doze meses. demasiadas cerimônias religiosas e ceticismo insuficiente. quererão uma nova igreja para alojá-lo. — Mas por que deseja um novo santo? — Não o desejo! — exclamou o bispo. — Marotta talvez compreendesse — disse. monsenhor? — O senhor encoraja-me — respondeu Meredith. com surpreendente ênfase. que fracasse. e penso que é melhor proclamar uma nova política de justiça social do que um novo atributo da Santa Virgem. Escandalizoo.. e as autoridades oficiais não a compreenderiam. do clero. e . Nós. está necessitando de uma reforma drástica.. no entanto. bispo de Valenta. somos mais ciosos dos direitos que nos foram conferidos pela Concordata do que dos direitos de nossa gente segundo a lei natural e divina.. neste país.. mesmo que ouça da boca de um bispo o que vou dizer. Um homem que se encontra à sombra da morte não deve escandalizar-se. começo a compreender. E. disse. calmamente. — Por que haveriam de ser diferentes? — Porque Marotta é um velho e culto humanista. Nosso clero é inculto e inseguro. Penso que temos santos demais e pouca santidade. Se Giacomo Nerone for beatificado. Controlamos o Estado através do Partido Democrata Cristão e do Banco do Vaticano.. Agora. Meredith.. Muito bem..

. — Já é tarde e o senhor deve estar cansado. Até agora. desejaria dar-lhe um conselho. sou um tanto suspeito. muito humilde: — Sou um homem doente. o senhor não encontrará a verdade a respeito de Giacomo Nerone em Gemello Maggiore. como lhe disse — respondeu Sua Excelência com enviesado senso de humor. — Sou grato a Vossa Excelência.eu desejo freiras-enfermeiras. — Há alguma razão para isso? — É melhor que o senhor mesmo descubra as razões. Fez uma ligeira pausa. afastando a cadeira e levantando-se. — Na minha opinião. — acrescentou.. Oh. Depois. Em Gemello Minore a história é diferente. — Aguardarei os fatos. mas disse. Quando gostaria de começar a trabalhar? — Imediatamente. nenhum dos meus homens o conseguiu. muito só. Excelência. durante a manhã. . procurando as palavras com que formulá-lo.. cioso de sua vida íntima. Temos muito em comum. vou transferir-me para Gemelli dei Monti a fim de tomar os depoimentos. Era infenso a confidencias. meu amigo.. Vi-me. Estou vivendo com tempo emprestado.. Gostaria de passar alguns dias estudando os documentos. um conselho agrícola e vinte mil árvores frutíferas da Califórnia. Sugiro que descanse até tarde. contanto que o senhor consiga que a contem. Vossa Excelência fez com que me sentisse em casa. — Farei com que os registros sejam entregues em seu quarto amanhã. — Não há motivo para gratidão — sorriu o bispo. Obrigado. Como vê. Blaise Meredith não sorriu. Eles o veneram lá. — Por que solicitou então auxílio a Sua Eminência? — Isso constitui um princípio em Roma. meu caro Meredith. Mais do que posso dizê-lo. — Perfeitamente. A gente sempre consegue o contrário daquilo que pede. Blaise Meredith sentiu-se tocado com a nobre cortesia do outro. Farei com que levem o café ao seu quarto. — E se o caso for provado? Se Giacomo Nerone for realmente um santo e um fazedor de milagres? — Sou pragmatista. Sua memória lhes proporciona lucros. de repente. Espero que encare esta casa como seu lar e eu como seu amigo.. — Sua companhia me dará prazer. Um novo e inquietante pensamento tomava forma em seu espírito.

pertencentes a uma grande família — respondeu o bispo. cada vez mais débil. Os velhos monges tinham pensado do mesmo modo. depois. pois a prece se tornara um árido ato da vontade. a sinistra solidão do crente em presença de um Deus sem rosto que sabia invisível mas que logo deveria encontrar. O homem não vivia apenas de pão — mas não podia viver sem ele. familiar. leve e inquieto. que o homem era uma criatura feita de carne e . fraco e nauseado. delicadamente. depois. que não conseguia abafar a dor nem constituir um bálsamo para ela. Era uma estranha mistura de terrores: o medo da morte. De modo que. a boca cheia de um gosto azedo de bílis e de sangue. não obstante. — Mas. Blaise Meredith olhou aquilo e achou bom. calçou os chinelos. Com esforço. mas. agora. tornaria a dormir — uma. Pouco antes do raiar do dia. plácido. Mais abaixo. enquanto os braços das montanhas envolviam isso tudo como muralhas.. plantavam trigo e árvores frutíferas para que o árido símbolo florescesse numa verde realidade. aquela noite. e bom devido ao homem que havia feito aquilo. Alegra-me poder ser-lhe útil. enfiou um robe e saiu para o balcão. Sabiam. ele despertaria sobressaltado. duas horas. Boa noite. As laranjeiras cintilantes como pontas de adagas que saíssem de uma confusa massa de sombra. não menos assustador. no dia do Juízo. Blaise Meredith preparou-se para uma outra noite. se empanturraria de soporíferos e voltaria para a cama. com cãibras intestinais. o luar a escoar pelas folhas abertas da janela. Despiu-se. tornamo-nos egoístas e solitários. caminharia até o banheiro. Não podia fugir daqueles temores por meio do sono. Antes que os galos começassem a cantar ao amanhecer. viria o sono. impedindo a entrada do caos dos séculos. e bons sonhos! Sozinho no grande quarto de hóspedes. esplêndido e sem véus. Ficaria acordado até meia-noite. tentou adiar o purgatório. vestiu o pijama. Bom por si mesmo. a água estendia-se plana e cheia de estrelas por trás de uma barricada de tábuas e montes de pedregulhos. como solteirões. mas o bastante para alimentar em suas artérias o fluxo da vida. depois. apesar da fadiga. Seu curso era-lhe. melhor do que muitos. A lua pairava alta sobre o vale — um navio de prata antiga..— Somos irmãos. nem exorcizálos por meio da prece. Plantavam a cruz no meio de um deserto — e. a humilhação da dissolução lenta. sobre um mar luminoso. quando muito — não o suficiente para refazer as energias.

tranqüilas sob o luar eterno. Perdoava adúlteros e excomungava heréticos. era um pragmatista. perfeitos — perfeitos em sua natureza e nas leis que governam o seu desenvolvimento e decadência. por conseguinte. No entanto. no entanto. Agora. através do Banco do Vaticano. O homem era um caniço pensante. recebiam com gratidão o viático das mãos do mais humilde sacerdote rural. . Impunha pobreza a seus religiosos.espírito. bispo de Valenta. reformadores. seu espírito se inclinava a aceitar a idéia de uma intervenção divina nos assuntos humanos. assinava concordatas com aqueles que queriam destruí-la. papas políticos e freiras-enfermeiras. rebeldes e conformistas puritanos. mas esse caniço devia estar firmemente plantado em terra negra. Aurélio. Plantar uma árvore era. no entanto. bispo de Valenta. Eis aí o que o perturbava. Quando o corpo estava doente. que a vida sangrava dele lentamente. Aquele era o mistério da Igreja: manter numa unidade orgânica humanistas como Marotta. via a si próprio agarrando-se desesperadamente às mais simples manifestações de continuidade física: uma árvore. no entanto. e o papa. mas um cidadão pragmatista. Era a mais difícil comunidade do mundo em cujo seio se pudesse viver. as águas de um lago. a responsabilidade moral do homem diminuía. Era um mistério e um paradoxo — e Blaise Meredith estava longe de entendê-la. uma flor. um cardeal ou uma lavadeira. formalistas como Blaise Meredith e idiotas como o calabrês. Era um herdeiro da mais velha e mais ortodoxa tradição da Igreja. todos os seus membros queriam nela morrer. Ensinar essas coisas a outros homens era fazer com que também eles participassem de um plano divino. sacerdotes mundanos e anticlericais devotos.. Fazer com que florescesse a terra árida era compartilhar do ato da criação. Era áspera com os seus próprios reformadores. longe de aceitá-la como o havia feito pelo espaço de vinte anos. Pregava o desapego pelos bens do mundo. as árvores e os animais eram resultado do mesmo ato criador que também produzira o homem. em si mesmos. no entanto. Só o mau emprego do homem podia rebaixá-lo a um instrumento do mal. Exigia inflexível assentimento a uma doutrina definida e permitia extraordinária divergência de disciplina. um ato divino. aquecido pelo sol.. era olhado com desconfiança por muitos de seus colegas. a de que a terra. Eram. Enquanto estivera bem de saúde. aumentava seus bens de raiz como qualquer companhia pública. Aurélio. a relva. as raízes regadas. agia nas bolsas de valores mundiais.

estava fechado para ele. sob a figura de madeira do Cristo.. e pôs-se a rezar: "Pater Noster qui es in Coelis. farfalhou as folhas crespas. e não houve resposta do Deus sem rosto para o seu filho agonizante.." Mas o céu. Ajoelhou-se no genuflexório. fez com que as estrelas ondulassem na água.Uma ligeira brisa estremeceu o vale. . Meredith sentiu súbito arrepio e entrou. se é que existia. fechando a porta atrás de si.

o sapateiro. batendo a porta com força. limpou ruidosamente a garganta. agarrar-se como um animal às paisagens e aos sons familiares: a batida rítmica do martelo. para abrir a porta do seu barracão e pôr os seus foles a funcionar. peito vigoroso. já toda a aldeia estava em atividade — mulheres a esvaziar baldes de água. escuro como uma castanha. atravessou a rua e esvaziou o seu urinol por sobre o muro que dava para um eirado de parreiras. camiseta e tamancos. Apareceu em seguida Martino. duas milhas além do vale. gorda e disforme. o ferreiro. Constituía bem a medida de sua desilusão o fato de ele poder ignorar a hostilidade daquela gente e. perquiridora como uma tartaruga a realizar a sua primeira e cautelosa exploração do dia. em Gemello Maggiore. em ambas as direções. cuspiu no chão e pôs-se a abrir os postigos de suas janelas. atarracado. tornou a entrar. num vestido preto. Feito isso. a janela de cima se escancarou e surgiu a cabeça desgrenhada do Padre Anselmo. moças de pernas nuas caminhando para a cisterna com garrafões verdes sobre a cabeça. a porta da casa do padre e Rosa Benzoni saiu. furtiva como uma feiticeira. o ruído das carroças puxadas a burro sobre o . Aldo Meyer deteve-se à porta de sua casa e ficou a observar o preguiçoso despertar da vila para um novo dia. Mal ela se afastou. Após um minuto de contemplação. para tirar água do poço. Primeiro. Felici. sem ressentimento. a bocejar. Como que atendendo a um sinal. então.3 O Dr. a velha Nonna Patucci abriu a porta e espiou. crianças meio despidas que urinavam junto ao muro da rua. Aldo Meyer observava tudo sem curiosidade. saiu à rua de calças. mesmo quando voltavam a cabeça para o outro lado ao passar por ele ou faziam sinais contra mau-olhado com as mãos voltadas para a sua porta. depois. apesar de tudo. os paletós esfarrapados lançados sobre os ombros e o seu pão com azeitonas enrolado em lenços de algodão. a cocar as axilas e a olhar o sol que se erguia por trás dos telhados do novo hospital. os primeiros trabalhadores braçais dirigindo-se para os eirados e o cultivo de jardins. Quando os primeiros golpes de seu martelo começaram a soar sobre a bigorna. Abriu-se. a rua empedrada.

alpargatas e um chapéu de palha velhíssimo sob cuja aba um rosto faunesco sorria enviesadamente para o mundo que o cercava. desenhando rochedos e ângulos de edifícios em ruínas. A Vespa e o automóvel da condessa eram os únicos veículos a motor em Gemello Minore. em meio a uma nuvem de pó. deixando aquela depravada tribo entregue às suas loucuras. O espetáculo era bastante banal. no dia seguinte. O melhor que havia nele ali estava: fé. trazendo no assento de trás um passageiro. Durante semanas a Vespa causara pequena perturbação na ordem pública e expressões de pasmo. o inglês era matto. palmilhada por uma gente ingrata e ignorante. e seu passageiro era um jovem do lugar. o brilho do sol nascente sobre a próspera aldeia da colina oposta. viu uma pequena Vespa aos solavancos pela estrada. Suas vestes eram tão malucas quanto os seus hábitos: camisa de um vermelho vivo. aquela resolução o abandonava. ao voltar-se para o lado de onde vinha o som. Para os aldeões. enquanto Maria Rossi morria de parto com a sua relíquia sobre o ventre inchado. os vinhedos e os olivais a descerem pela encosta em direção ao vale. os gritos estridentes das crianças. e quando as moças desistiram de lançar suspiros a sua passagem. faria as malas e iria embora — para um outro lugar. mas constituiu para Aldo Meyer melancólica distração. animal de bagagem e instrutor de dialeto e costumes locais.empedrado da rua. as casas em ruínas dispersas pelo caminho que conduzia à grande villa no alto do monte. onde o santo realizava maravilhas para os turistas. A cada dia prometia a si mesmo que. também. as repreensões das donasde-casa. calças desbotadas de zuarte. cada noite. que vivia em . Vindo lá do fundo do vale. para um novo futuro —. O homem que a dirigia era também uma singularidade — um pintor inglês. sugadas e desperdiçadas numa terra estéril. os mais velhos começaram a tecer grosseiros comentários acerca de suas ligações com a condessa. a maior parte de Gemello Minore. Paolo Sanduzzi. sujeito maluco que andava de cá para lá com um bloco de desenho ou ficava horas a fio sentado ao sol. Não tinha sequer a escusa da juventude — pois contava mais de trinta anos —. esperança e caridade despendidas até a completa exaustão. hóspede da condessa que vivia no alto da colina e que possuía não só todas as terras de agricultura como. Mas. ouviu o ruído abafado de uma motoneta e. O pintor chamava-se Nicholas Black. A desconsolada verdade era que não tinha para onde ir nem futuro algum para construir. que se unira a Black como guia. e punha-se a beber até a hora de ir para a cama.

se houvesse. relaxando-se. com maliciosa inocência. o pintor. meticulosamente limpos. ruidosa. talvez. na época em que vivera em Roma. coberta com uma toalha axadrezada. e seu rosto era grego puro. uma tosca cabana de pedra situada no meio de um pequeno jardim e abrigada por um capão de azinheiros. Pensava mais em Paolo Sanduzzi. sobre a qual se viam xícaras e pratos de cerâmica calabresa. apesar disso. colocando pão fresco. trinta e seis anos. Uma mulher se achava debruçada sobre ela. a quem aquela gente começava a chamar de Santo. Conhecia demasiado bem a condessa e. através da casa. Ao ver o visitante. numa saudação teatral: — Come va. como se algum antigo colonizador da costa houvesse perambulado pelas montanhas e possuído uma mulher das tribos para começar aquela nova raça híbrida. Dera à luz um filho mas. Meyer deu de ombros com ar de pouco-caso e conduziu o recém-chegado. O pintor.. Tinha. e poucos instantes depois deteve-se à porta da casa de Meyer. A Vespa partiu de novo.solitário esplendor por trás dos portões gradeados de sua villa. à maneira dos camponeses. a um pequeno jardim murado onde uma velha figueira formava um dossel contra o sol. — Do contrário. com um sorriso. um pedaço de queijo branco e uma tigela com os pequenos frutos da região. desceu do selim e estendeu o braço. como poderia eu enfrentar o nascer do sol? — Ressaca? — indagou. também preto. e sua boca e seus olhos eram curiosamente serenos. sabendo que seu pai era Giacomo Nerone. o jovem apeou. teve um leve estremecimento de surpresa e olhou inquiridoramente para Meyer. com seu corpo esguio de árabe. conhecera artistas demais e um número bastante grande de ingleses como Nicholas Black. astutos. Tinha as pernas e os pés nus. seu rosto liso e seus olhos brilhantes.. o pintor seguiu-a com os olhos e sorriu com ar . não se tornara rude como as mulheres montanhesas. Tinha as costas eretas. — Há sempre café — respondeu Meyer. Havia uma mesa rústica. despedindo-a apenas com um gesto. Quando ela se afastou. os seios grandes e firmes. dottore? Como está. Aldo Meyer ouviu os mexericos e deu-lhes o devido desconto. Aquilo o intrigava tanto mais quanto fora ele quem trouxera o menino ao mundo. e usava vestido preto e um lenço na cabeça. e Meyer ficou a observá-lo enquanto descia com dificuldade a encosta em direção à casa de sua mãe. bem como na tirania que exercia sobre o seu excêntrico amo. Na parte baixa da aldeia a Vespa parou. esta manhã? Gostaria de tomar um café. Ele nada disse.

— Eles deixaram de falar e iniciaram um processo oficial. Onde foi que a encontrou? Eu jamais a vi antes. — É o que receio — respondeu. murcho como um camundongo do Vaticano. Ele subirá até aqui dentro de poucos dias. Eles vêm falando nisso há doze meses.astuto.. encerrando o assunto. depondo a xícara com força sobre a mesa. — Mas claro que é! — exclamou o pintor. — Por que não? — Ela é a mãe de Paolo Sanduzzi. É inglês.. de modo que me encarreguei de fazer com que a condessa o convidasse a hospedar-se em sua casa. Meyer. O bispo tem um hóspede. — Gostaria de pintá-la. ao que parece. Vão beatificá-lo. E o senhor também. — Este lugar ficará famoso. volúvel e dramaticamente: — Grandes notícias de Valenta. — O senhor me surpreende. Sentaram-se à mesa e Meyer serviu o café. Estão fazendo circular agora os anúncios. o médico. reprimindo o riso. e sorveu o seu café. dottore. — Eu não o aconselharia a fazê-lo — disse-lhe. sombrio. — Tem a casa dela e vive de maneira bastante recatada. — Que espécie de notícias? — Esse santo de vocês. — Isso não é novidade. doutor. Giacomo Nerone. enquanto estendia a mão para servir-se de café. . o médico. — Oh! — fez Black. Toda a aldeia o sabe. Fez-se silêncio por alguns momentos. ao que parece. a fim de apanhar umas telas e tintas. — Tem certeza disso? — Estou certo disso. friamente. a acentuada cara de fauno iluminada por um sorriso de sardônico divertimento. Sobe até aqui todos os dias para lavar e cozinhar para mim. Black pôs-se a falar. pregando-os em todas as igrejas e convocando todas as pessoas que tenham alguma prova a respeito. um monsenhor que veio de Roma e que foi designado para tratar do caso. lacônico. Eu próprio vi o sujeito guiando o carro de Sua Excelência Reverendíssima: macilento. — Ela é daqui do lugar — respondeu. ela é uma mulher piedosa e solitária — ajuntou ele. indiferente. depois. — O diabo que o fará — bradou Meyer. A cidade está fervilhando com as notícias. Como o senhor sabe. dottore! Estive lá ontem. Meyer deu de ombros.

irritado. Que é que acha disso? Aldo Meyer olhou as costas de suas mãos. e agora é a minha vez. O que encara como uma comédia provinciana pode converter-se numa grande tragédia. Não tem nada com isso. os aldeões pecadores. mas agora acho que ficarei aqui. O inglês lançou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. por Nicholas Black! Uma exposição individual sobre um único tema. Depois. e por que razão será bem sucedida. — Por que deveria recear? O senhor não é sequer católico. Comprou-me três telas. Eu pretendia partir na semana que vem. — Oh. ao menos durante algum tempo. — Pelo contrário: compreendo tudo. diga-se de passagem. bastante bem-sucedida. por que é que o senhor veio para cá? Havia uma ponta de irritação na voz de Meyer. Sorriu e adejou no ar uma mão peluda: — É muito simples. e todo o clero. em voz baixa: — Acho-o um homem muito infeliz. — E a condessa não é uma pessoa simples. com suavidade. ele já está morto há muito tempo. — O senhor não compreende — disse Meyer. um observador e anotador da beleza e da loucura da humanidade. — Nada é jamais assim tão simples — retorquiu. embora a estação já estivesse quase terminando.— Receia? — exclamou o pintor. o médico. — Não compreende coisa alguma. até chegar ao próprio bispo. — Mas já estou envolvido. e Nicholas Black logo o percebeu. o que lhe dizia mais claramente do que as palavras quão velho estava se tornando. Fiz uma exposição em Roma. e um título já pronto: "Beatificação". Imagine o que Goya não faria diante de uma situação como esta! Felizmente. Há aqui toda uma galeria de quadros. Nada mais simples. Um santo de aldeia.. meu caro doutor. Tampouco o senhor. A condessa era uma de minhas clientes. meu caro amigo! — disse Black. pelo contrário. fazendo um gesto enfático com suas mãos de artista. os olhos a brilhar de interesse. Sei o que a Igreja está procurando fazer. Está à procura de . respondeu. Compreendo o que o senhor tentou fazer aqui e a razão pela qual fracassou. convidoume a vir para cá pintar durante algum tempo. Vai ser uma comédia e tanto! — Antes de mais nada. Sou um artista. examinando-lhes as sardas e a pele áspera e frouxa. Nicholas Black. O que não sei — e estou morrendo de vontade de saber — é o que acontecerá quando começarem a trazer à tona o que há de verdadeiro a respeito de Giacomo Nerone. Sem erguer os olhos.. Espero que ela me financie uma nova exposição em futuro próximo. Aconselho-o a não se envolver nisso.

No meio da casa. Fala a nossa língua. Deixar a condessa. Ela . ao levantar-se para sair. As sombras da figueira caíam-lhe pelo rosto. mas não nos compreende. respondeu: — Jamais se envergonhou de si mesmo. acentuando-lhe as reentrâncias.. agora. — O senhor conhecia Giacomo Nerone.. Sua única resposta foi um sorriso de melancólica irrisão. Penso que deveria partir imediatamente. ocultando o vivo sofrimento que havia em seus olhos. A Igreja quer um santo e os senhores querem guardar um segredo que os desabona. o que é sempre mais do que meia mentira. — E seus milagres? — Jamais vi um milagre. ? — Era um homem. doutor! — disse o pintor. Deixar Paolo Sanduzzi. O senhor não é daqui. — Se compreendo. — Conheço apenas os homens.. Mas torno a dizer-lhe: o senhor deveria partir.. — Não acredita neles? — Não. — Eis aí o que quero dizer — comentou o outro. — E Nerone. não é? — É uma meia verdade. Aldo Meyer. em voz baixa. Não trocaram um aperto de mão. meu amigo? — Jamais — respondeu. Há um recado da condessa para o senhor. ao deixar o jardim.. conhecia-o. receia essa investigação? Aldo Meyer afastou a cadeira e pôs-se de pé. — O senhor jamais compreenderá. o pintor deteve-se e voltou-se para o médico: — Ia-me esquecendo. alegremente. Isso é verdade. — Ele era santo? — Nada sei a respeito de santos — respondeu. Após um momento. com ar grave. — Se compreendo! Sei que todos os senhores vêm ocultando algo há quinze anos e que. o pintor.. esse segredo vai ser desenterrado. —Jamais em minha vida. e Meyer não procurou acompanhá-lo. não é verdade? — Sim. meu caro doutor. e fazê-lo o quanto antes. Deixar que tratemos de nossos problemas à nossa maneira.algo que jamais encontrará. Os olhos vivos e sardônicos estavam fixos no rosto encovado do outro: — Então por que razão. o rosto belo e efeminado iluminado pela malícia.

. bastante breve. em paz. como os outros? — Mais do que os outros. saibam a verdade. — Mas por que querem saber? — indagou ela. — Terei prazer em comparecer. então. chamaram-no de tudo quanto foi . lentamente. Quando ergueu o rosto e a viu ali de pé. Logo ele aparecerá por aqui. e eis aí o resultado. Roma está interessada. sua figura esguia e ligeiramente apalhaçada. — Tornaremos a ver-nos... É melhor que. a mulher apareceu novamente e ficou a olhá-lo. sem ver. Nina. Decorrido um momento. A coisa já foi longe demais. — Então ele receberá a mesma resposta: nada! Meyer abanou.. Talvez nos deixem. Chegou de Roma um sacerdote. Bom dia. Meyer. — Que diferença isso faz? Durante a vida. a cabeça: — Desta vez não. demasiado vivaz para os anos que já começavam a mostrar-se em seu rosto inteligente e infeliz. Nina. lacônico: — Pode tirar a mesa. passando para o mesmo dialeto que falava a mulher. Ela não fez movimento algum para obedecer-lhe. Nina. secamente. Dito isso partiu. Vamos dizer-lhes o que desejam ouvir e acabar de uma vez com a coisa. Ela fitou-o surpresa. a fim de ajudar o bispo durante o processo. citando um velho provérbio da região: — Quem pode lutar contra o vento? Quem pode abafar a gritaria que fazem do outro lado do vale? Até em Roma a ouviram. escandalizada: — O senhor diz isso? O senhor! Meyer encolheu os ombros com ar de derrota e disse.gostaria de tê-lo para o jantar. — Meus agradecimentos à condessa — respondeu. amanhã à noite. — E ele fará perguntas. as côdeas de pão e as migalhas escuras embebidas nas xícaras de café. disse-lhe. A imprensa também estará interessada. — Ci vedremo — disse Nicholas Black em tom casual. Aldo Meyer tornou a sentar-se à mesa e ficou a fitar. meu amigo. mas apenas indagou: — O que deseja esse cara de bode? — Trouxe-me notícias — respondeu Meyer. com ódio nos olhos e na voz. os olhos calmos cheios de brandura e piedade. — Estão iniciando uma nova investigação quanto à vida de Giacomo Nerone. desta vez.

mas não podem impedir-me de olhar por você desde agora até a . Ele estava derrotado e o sabia. em vez de enrolar as mangas e trabalhar por eles — ou lutar para obtêlos... que eu jamais contasse a alguém o que sabia a seu respeito. e serve de femminella para o inglês"? Não havia sinal algum de vergonha no rosto calmo. Meyer ficou boquiaberto. em voz baixa. Giacomo me fez uma promessa. Nina. O povo o deseja porque isso lhe permite cair de joelhos e pedir favores. um bom homem. querem chamá-lo de beato. gritou-lhe: — Santo Deus.. — Eles não querem um homem. clássico.. — Sei que fez milagres. É apenas um outro nome. em troca da minha. cara. "Aconteça o que acontecer. um novo culto. E você fica aí a me dizer que era um santo que fazia milagres? Por que não disse ao padre. absolutamente. e lançou mão dela sem piedade: — Que responderá você.. quando ela respondeu: — O que direi quando me apontarem na rua e disserem: "Ali vai uma que era uma prostituta de santo"? Nada. Deu-lhe um filho bastardo e jamais casou com você. pois eu os vi. olharei por você e pelo menino. A Igreja o quer porque isso lhe proporciona mais um meio de influenciar o povo. dottore? Porque.. Nada. logo da primeira vez? Por que não corre ao encontro dos nossos amigos e não lhes diz que o beatifiquem? — Porque ele jamais teria querido isso. o meu homem. mas. Podem matar-me. agora. Isso não muda o que ele foi. fatigado. mas não era mais santo do que eu. açúcar para adoçar vinho azedo. É como a Igreja costuma agir. depois. E sabe por quê.. Porque foi justamente isso que me pediu. mas dispunha ainda de uma arma. antes de morrer. Nina — disse Meyer. — Eu sei que ele era santo — respondeu. Giacomo era um homem extraordinário.. uma nova promessa de milagres para fazer com que esqueçam suas dores de barriga.. Terão de fazê-lo. mulher! Você também? Ele dormiu em sua cama. não pensa assim? Sua resposta o chocou como um tapa no rosto. quando eles apontarem o seu filho e disserem: "Eis aí um filho do santo.. — Querem um santo de gesso com uma auréola dourada sobre a cabeça. — Então por que quer que eu os ajude? — Porque se lhes contarmos a verdade abandonarão o caso. Nina.nome. — Então é assim que pensa? — E você.

a boca seca. Acordaria. até que viessem os inquisidores e expusessem a verdade à luz do sol. brutalmente. detendo-se em cada uma das janelas. pelo amor de Deus. entrando e saindo atarefada do banheiro. tendo sido . mesmo depois que ela se foi. O rapaz é desmiolado. — Mas logo estará! — exclamou. despertaria de novo e enfiaria o primeiro cigarro nos lábios pálidos e descaídos. Não chegaria até a cama. pela manhã. a olhar os terraços e os jardins. os olhos inchados e descontentes com o advento de um novo dia exatamente igual ao anterior. não houve paz. e ele sabia que jamais haveria. uma criada entraria e descerraria as cortinas. — Agora vá para casa. a condessa fumaria ainda um cigarro. Certa vez. e deixe-me em paz. apanhando roupas limpas. Mais tarde ainda despertaria. Já que a condessa não gostava de comer sozinha. o que era uma amabilidade. Nenhuma premonição de complicações conseguia penetrar a névoa barbitúrica além da qual sonhava. caminhava até a porta e fechava-a. Meyer. puxaria o cordão da sineta e a criada voltaria. sorrindo com ansioso bom humor e trazendo a bandeja da refeição matinal. constituía um espetáculo pouco agradável. a fim de certificar-se de que ninguém se achava pelas imediações. Era a única cerimônia importante de um dia sem importância. depois. Mas. atrás de cortinas de veludo. muito mais tarde.eternidade!" Acreditei nele então. entorpecida. Findo o desjejum. a criada permaneceria no quarto. um jardineiro inquisitivo espreitara-a pela janela. e ela a realizava em rigoroso sigilo. dobrando as roupas espalhadas. enquanto sua patroa mantinha um fluxo constante de comentários acrimoniosos acerca da criadagem e suas deficiências. Terminado o cigarro. a criada levaria embora a bandeja. mas não está ainda perdido. Em seguida dava uma volta pelo aposento. abandonava o leito. pois a condessa. para que o sol se derramasse sobre o velho tapete e o veludo ferruginoso e a opaca patina da nogueira lavrada. Mais tarde. e acredito nele agora. tornaria a cochilar. Amassava a ponta do cigarro de encontro ao cinzeiro de prata. Não havia ainda nenhuma insinuação de manhã no alto e barroco aposento da villa em que a Condessa Anne Louise de Sanctis dormia. antes do pequeno e íntimo ritual de sua toalete.

a primeira passada do pente nos cabelos — ainda sem fios grisalhos. aquele podia ser renovado à vontade. estava pronta para o clímax processional do ritual. a condessa dirigia-se ao quarto de banho. Havia o enxugar-se com toalhas cálidas e macias. podiam ainda ser dominados pela massagem. Não havia agora prazer que se comparasse àquela primeira imersão solitária na água fumegante que espantava para longe as efusões de um sono de estupefacientes e trazia de volta a impressão de juventude a um corpo que envelhecia. como se quisesse seduzi-lo. dirigiu-se ao toucador. a cintura. saiu do quarto. examinou-se a si própria: as linhas dos flancos. colocou de novo a fotografia na gaveta e fechou-a a chave. Se havia rugas em torno de seu pescoço. o friccionar com outras. Em seguida. deixando-lhe livres as faces esfregadas e brilhantes. mediante uma encomenda semanal de cosméticos provenientes de um discreto instituto de beleza na Via Veneto. fazendo-o sair da moldura e cair-lhe nos braços expectantes. Vinte minutos depois. Nua e radiante ante a nova ilusão. despia-se e entrava na grande banheira de mármore.instantaneamente demitido por sua sacrílega intrusão naqueles mistérios. não havia espelhos que lho dissessem. a aplicação do pó-de-arroz e o ato de retirá-lo delicadamente. consciente de si mesma como um modelo profissional. engrossando um pouco mas não demasiado. o perfumar-se com loção de cheiro vivo e adstringente. felpudas. Finalmente. prolongado até a saciedade. os seios firmes à custa de massagens. ainda esguias e juvenis. pequenos. o ventre chato e não marcado pela maternidade. coquetemente. Deitada na água fumegante. de sua intimidade. finalmente. mas com o dourado já esmaecido — antes de atá-los à nuca. trajando elegante vestido de verão. e a velhice podia ainda ser mantida um pouco mais à distância. esponjas e sais. Ao contrário de outros prazeres. Mas o banho era apenas o começo. Não exigia parceiro. não implicava dependência ou rendição — e a condessa agarrava-se a ele com a paixão de um devoto. Depois. retirou da gaveta de cima a fotografia de um homem em uniforme de coronel alpino e pô-la com a frente voltada para o aposento. sentou-se com toda a calma diante do espelho e começou a compor o rosto. voltou ao quarto. mas redondos e ainda jovens. pôs-se a vestir-se diante dele. Depois de vestir-se. com suas torneiras douradas e suas fileiras de sabonetes. A mocidade ainda não se escoara dela por completo. cuidadosamente. . junto da boca e dos olhos. Convencida. e os vincos denunciadores.

que estraga a pose. jamais me perdoarei. enquanto pairava como um papagaio feliz: — Magnífico. zangada e medrosa. Em Roma você era bela.. Oh. Viveu tanto tempo em meio aos camponeses. Feito isso. trabalhava numa nova tela. Julguei que isso lhe causasse prazer. mas animou-se quando lhe falei de seu convite para jantar. Tive a impressão de que está bastante apaixonado por você.. Se a ofendi. apanhou um bloco de desenho e. outra coisa: o bispo de Valenta está iniciando uma investigação em grande escala acerca da vida e das virtudes de Giacomo Nerone. Com espalhafato. é seu compatriota. não lhe parece? Nem debaixo do balcão. e ajeitou-lhe as mãos sobre o colo. e meu também. Não pude consultála. Além disso não havia. voltou-se e saudou-a com prazer teatral. . penitenciando-se instantaneamente. como sempre. Tomei a liberdade de dizer a Sua Excelência Reverendíssima que você teria prazer em recebê-lo como hóspede. Ao ouvir-lhe os passos. ao mesmo tempo em que punha de lado o bloco de desenho e se acercava com voz e mãos solícitas.. na verdade. Importou de Roma um monsenhor inglês para que desempenhe o papel de advogado do Diabo. e deixou que ele a conduzisse a um pequeno banco de pedra sombreado por uma amendoeira em flor. Toda a sua compostura se desfez. inclinou-lhe a cabeça para o alto. outro lugar em que o visitante pudesse ficar. Estava. nu da cintura para cima. falando durante todo o tempo. beijandolhe as mãos e fazendo-a dar uma volta diante de si.. Toda manhã é como uma nova revelação. — Não! — exclamou ela. — Mas cara — disse ele. pôs-se a desenhar. arrumou-lhe a saia sobre o banco. não! Não fale..desceu as escadas e surgiu no jardim ensolarado. Ademais. com traços rápidos. Não creio que o coitado possa evitá-lo. na direção das flores. Sente-se aqui e deixe-me contemplá-la.. feliz com os cumprimentos. Preciso pintá-la nesse vestido. — Julguei que era isso que queria que eu fizesse. Não podia dormir com os camponeses. Ele virá até aqui dentro de alguns dias. mas sabia de suas relações de amizade com o bispo. lá na taberna. Não. tomada de pânico. fê-la sentar-se na posição que ele desejava. é uma beleza campestre reservada para a minha admiração particular. Aqui. de ressaca. onde Nicholas Black. que você deve parecer-lhe uma princesa encantada aqui em seu castelo. enquanto o fitava. mas um tanto aterradora.. ousados. — Tomei café esta manhã em companhia do nosso médico.. Empertigou-se toda. cara! Não sei como consegue fazê-lo.

ele não conseguiu dissipar-lhe o medo e. de novo instantaneamente alegre.. inquieta.. como uma criança arrependida. com ar estudadamente casual.. Você conheceu Nerone. beijou-lhe a mão e despachou-a: — Você me perturba. eu nada teria a dizer que valesse a pena.. — Então por que está preocupada. Mas também ele tinha seus prazeres secretos.. — Apenas ligeiramente. Eu. com uma leve e sorridente malícia a brilhar-lhe de novo nos olhos — poderemos acompanhar a investigação de perto. com passos incertos. não? Ela mexeu-se. diante de sua expressão de alívio e prazer. velhíssimo truque.. apesar de todas as suas atenções. Foi apenas surpresa. Fará perguntas. deu-o à condessa com gesto teatral. examinará testemunhas. Por falar nisso. E. não lhe parece? — Acho que sim — respondeu ela. não estou mais habituada a elas. tomará notas.. — Eu sabia! — exclamou ele. Ao vê-la afastar-se. Mas todas as mulheres eram tolas. Terminado o desenho.Pôs-se de joelhos e afundou o rosto em seu colo. — Sua Excelência Reverendíssima sentir-se-á grato. sorriu para si mesmo. quando se pôs a desenhar-lhe o rosto. cara? Você assistirá de camarote a uma comédia de aldeia. destinado a impressionar viúvas ricas — e que mais uma vez deu resultado. o rosto de novo anuviado. Vá colher algumas flores para o quarto e deixe-me terminar o meu quadro. Você é uma bela amolação. Claro que agiu bem. Ademais — acrescentou. pelo gramado.. a mão a puxar nervosamente as dobras da saia. Nick. Viam apenas o que queriam ver — e Nicholas Black vinha se aproveitando de suas tolices durante quase toda a sua vida. volte à posição de antes e deixe-me terminar o trabalho.. Depois. Ela havia sido bondosa para com ele — e ele não lhe queria mal.. em seu íntimo. Era um velho.. Mas. — Mas que fará ele aqui? Nicholas Black fez um gesto no ar: — O que todos fazem. Ela passou-lhe cariciosamente as mãos pelos cabelos e disse. no banco e não quis encontrar o olhar do pintor. nada mais. você provavelmente será uma delas. e não creio que o nosso visitante se mostre demasiado enfadonho. Sentirme-ei feliz em hospedar esse monsenhor. bem como a alguns mexericos romanos. cada traço era uma mentira.. Agora. como antigamente. com brandura: — Claro que não me ofendeu. e o mais sutil de todos era o de obter . querida. e sorriu.

de sua pessoa. Ele queria que lhe financiasse uma nova exposição em Roma. também. Era esse terror que caminhava agora com ela pelo jardim pintalgado de sol do alto da colina. tinham-lhe sido dados como presente de núpcias — e constituíam um retiro campestre para repouso após a vida febril de Roma. por parte dele. Agradava-lhe ver que ele. as oliveiras. mas. as estátuas e as porcelanas encomendadas pelo Conde Gabriel de Sanctis para a sua noiva inglesa. de volta à sua vida miserável de artista medíocre e à sua busca diligente de viúvas ricas e complacentes. nos ombros das aldeãs. os pinheiros e os laranjais. Ele valia-se dos seus receios e da sua solidão.. embora ele as compreendesse e se divertisse com elas. onde a riqueza e o trabalho barato haviam construído um oásis no solo ressequido da Calábria. e que cada nova conquista se tornava um pouco mais difícil. Para a filha de um modesto diplomata. para que a servisse solicitamente. as terras e tudo o que havia nelas.pela intriga o que nunca poderia conseguir pela posse: a carne odiosa e faminta das mulheres. Para Anne Louise de Sanctis. ou podia mandá-lo embora no dia seguinte. também. que acabara de passar sua primeira temporada em . Podia fazê-lo. mas não havia ainda descoberto o seu verdadeiro terror. durante séculos. A pedra havia sido arrancada do flanco da colina por pedreiros locais. às vezes nociva mas sempre ligada a uma necessidade não reconhecida.. monte acima. A maldade de Nicolas Black era como a maldade de uma criança. faziao porque elas lhe despertavam a vaidade. tinha as suas próprias necessidades. Quando se submetia às pequenas tiranias do pintor. Ela. estava envelhecendo. Artistas napolitanos haviam decorado as paredes e os tetos cinzelados. como bens herdados. o momento presente tinha significação inteiramente diversa. plantados por rendeiros agricultores como tributo à família que os havia mantido. embora cedesse igualmente tanto às loucuras da meia-idade como aos vícios que um corpo ainda vigoroso lhe impunha. Não era estúpida nem depravada. e porque sabia que tinha ainda o poder de decidir. O muro que cercava a villa havia sido construído — e forjados os portões cristados — para que dispusesse de um retiro isolado. A criadagem fora escolhida pelo próprio conde. A casa. E fazia muito tempo que ninguém precisava dela. uma dúzia de connaisseurs tinha adquirido em leilões os quadros. não tinha poder para usá-las contra ela. onde Gabriel de Sanctis estava galgando alta posição a serviço do Duce. A terra para o gramado e para os canteiros havia sido trazida em cestos.

até que sentiu que sua atenção se dissipava aos poucos.Londres. Diante do fauno havia um banco rústico. mas fracassara por completo. Agora. humilhar-se diante dos inquisidores. Gabriel de Sanctis começara aquilo — mas morrera havia muito. mas nenhum deles conseguira libertá-la daquele terror. a vida extraída do banho matinal pareceu escoar-se dela. Havia ainda uma alternativa desolada. Estivera a correr durante muito tempo. deixando-a lassa e fatigada. De certo modo. aquilo era como um encantamento das Mil e uma noites. então. submeter-se à catarse da confissão? Já o experimentara antes. Giacomo Nerone. enviado de Roma para escavar o passado. Sentou-se. Mas ele se negara. do contrário. Dirigiu-se com passos lentos. talvez. ela se vingou. computar velhas dívidas e registrar culpas já sepultas. Hospedar-seia em sua casa e comeria de sua mesa. enchendo os pulmões. Não havia fuga para o medo que carregava em seu corpo como um inquilino. todas as noites. seria a conclusão de sua vingança contra Giacomo . mergulharia na negra loucura que ameaça todas as mulheres que chegam ao climatério infelizes e sem que estejam preparadas para tal. mas o terror penetrara com ela aqueles portões e lá permanecera durante todos aqueles anos. Mas de que modo acabar com aquilo? Derrubar todas as portas. Havia drogas que produziam sono e Nicholas Black para distraí-la durante o dia. numa manhã como aquela. arrastados. Nos anos decorridos desde então. a uma pequena pérgula situada na extremidade de um olival. Nos últimos tempos. fantasmas que assombravam os olivais e sorriam como sátiros em meio dos laranjais em flor. sobre o qual pendiam lânguidas e fartas madressilvas. no deserto da Líbia. como suicida desmoralizado. pouco importando o sofrimento que disso pudesse advir. terminado. Súbito. acendeu um cigarro e aspirou avidamente a fumaça. Devia haver um fim para aquilo. Esquadrinharia tudo. Naquele mesmo jardim. ela se humilhara e pedira-lhe para que a exorcizasse. Agora compreendia. Um pouquinho mais — só um pouquinho — e tudo estaria. e nem mesmo a porta fechada de seu quarto teria segredos para ele. mas segura: o vidrinho cheio de cápsulas gelatinosas que. atormentavam-na menos. chegara um novo homem: um clérigo macilento. de uma vez por todas. Surgiu. a levava ao sono. mas a vingança lhe trouxera novos tormentos: pesadelos na grande cama barroca. uma dezena de outros homens apareceram e se foram. No fim. onde um fauno de mármore se erguia sobre um velho pedestal. porém.

aquilo seria um presságio favorável — uma promessa de outras soluções. Que viesse o sacerdote!. então a coisa seria fácil. e ele a ela. Se ele não insistisse demais.Nerone — e uma vingança contra o corpo que a traíra e a levara a ele.. irônica e final — e. Havia ainda um pouco de tempo.. ainda estaria bela como a cada manhã. ao sair de seu banho perfumado. Se o fizesse. bem. . quando a encontrassem. Mas ainda não...

via. bispo de Valenta. Pôs o volume sobre a mesa e aproximou-se solícito. descoroçoado: — Um pouco pior do que o habitual. Devo pedir-lhe desculpas. entregou-se à tarefa de estabelecer intimidade entre ambos. Espane de seus pulmões o pó das bibliotecas. sorrindo: — Não. sentando-se à beira do leito. a excitação. agora. passara a compreender o significado do companheirismo. boas criaturas. quase todos. era um homem que possuía o dom da compreensão e um raro talento para a amizade. pela primeira vez. O bispo moveu a cabeça num gesto negativo. Pela manhã. Meus colegas são. sentado na cama com a bandeja do café da manhã sobre os joelhos. — E um pouquinho comigo. lembre-se disso. Aurélio. — Não passou bem a noite.4 Para Blaise Meredith. logo cedo. dirigiu-se ao quarto de Meredith levando consigo o grosso volume que continha os registros das primeiras investigações acerca de Giacomo Nerone. — Mas resta-me pouquíssimo tempo. — Mais uma razão para gastá-lo com a sua pessoa — respondeu-lhe o bispo. mas sua companhia me é enfadonha. monsenhor. pálido e fatigado. meu amigo? Meredith abanou a cabeça. Talvez a viagem. O senhor. Eu esperava auxiliar na missa de Vossa Excelência Reverendíssima. Há coisas que eu gostaria de mostrar-lhe. O senhor agora está sob minha jurisdição. se vir que está trabalhando demais. Aproveite o tempo. Arredio e auto-suficiente. serei obrigado a afastá-lo deste caso. A solidão e a desolada coragem de seu hóspede tocaram-no profundamente e. coisas que gostaria de . a dignidade da dependência. o encanto de uma confiança compartilhada. Eu também sou um estranho aqui. Encontrou o sacerdote. Sinta o cheiro da terra e dos laranjais floridos. está no campo. os dias que passava na casa do bispo eram os mais felizes de sua vida. — Vossa Excelência é amável — respondeu com ar grave Meredith. Homem frio por natureza. Dispensoo de todas as missas. Dormirá até tarde e recolher-se-á cedo e. exceto a dos domingos. com tato e simpatia.

bem como telégrafos impressores de cotações da Bolsa. Precisamos de um ou dois poetas satíricos que nos desenvolvam o senso da proporção. agora. algumas lágrimas honestas diante da tristeza das coisas. Chovera durante a noite e o céu estava limpo. Um sorriso jovial iluminou o rosto do bispo: — O senhor viveu demasiado tempo em Roma. Apesar de seu cansaço. aflorou ao rosto pálido de Meredith. perplexo. retos e agudos. enquanto o ar estava cheio do cheiro de terra úmida. O resto. e não apenas uma burocracia de crentes. — "Inter faeces et urinam nascimur" — citou. Um sorriso lento. Meredith saiu para o jardim. folhas lavadas e florações novas. As abelhas zumbiam em torno das flores das laranjeiras e dos hibiscos escarlates. Um pouco mais de riso diante de nosso triste estado. Tenho gasto muito tempo com ele e não me agradaria que um inglês o ignorasse. Fico a pensar por que me trata assim. banhado. — Nós. e o meu está à sua disposição a qualquer momento. provavelmente. despertadores e máquinas de calcular. no Vaticano. Meredith lançou a cabeça para trás e riu a bom rir. Este é o século da máquina e a Igreja fez-lhe demasiadas concessões. os processaríamos por injúria — observou maldosamente Meredith. junto aos rebordos de pedra dos canteiros. o meu amigo poderá digerir em dois dias. — Ou os acusaríamos de heresia.. levando consigo o volume de depoimentos acerca de Giacomo Nerone. Esqueceu-se de que a Igreja é uma família de fiéis.. Quanto a isto — ajuntou. pode lê-lo no jardim. As pessoas que deseja ver se encontram a duas horas. com um chofer para ajudá-lo no que for preciso. — O senhor é bondoso para comigo e isso me parece estranho. Isso é um sinal dos tempos. Agora.. e um sinal dos menos encorajadores. — Foi um santo quem o disse. Uma hora depois... termine o seu café e dê um passeio pelo jardim. Eles têm. em voz baixa. A metade do que aí está é repetição e retórica. de automóvel.ouvir de sua boca. sacerdotes e prostitutas de Reggio Calábria. Novamente Meredith sentiu-se tocado por um desejo ardente de permanência . e todos nós seríamos melhores cristãos.. e isso se aplica igualmente a papas.. apenas.. O bispo fez com a cabeça um sinal de aprovação: — Assim está melhor! Um pouco de riso franco só fará bem a todos. meu amigo. o bispo. barbeado e reanimado. e os goivos amarelos erguiam-se. apontando o maciço volume encadernado em couro —.

Não nasceriam flores de sua boca. Em torno dos troncos das oliveiras. até o dia do Juízo Final. já que. para sentir o calor cair sobre o seu peito magro. a cuidadosa rejeição: "Os depoimentos e informações que se seguem têm caráter não-judicial. a seguir. Embora não se hajam poupado esforços para se chegar à verdade. Ali estava a burocracia da Igreja em ação: a . quer quanto ao método de registro. como nasciam da boca de homens humildes. a fim de que revelassem quaisquer verdades de que tivessem conhecimento. tudo muito bem. titular de Valenta. até esta data. Vinha. Se ao menos pudesse ficar com ela um pouco mais. Não obstante. reunidos por solicitação e sob a autoridade de S. Nenhum dos procedimentos adotados por um tribunal diocesano foi observado. as virtudes e os alegados milagres do servo de Deus Giacomo Nerone. tirou o colarinho e abriu a camisa. Ex. a relva era verde e o ar.nessa terra de raízes profundas. não obstante. as testemunhas não foram submetidas a juramento nem colocadas sob sanção canônica. Blaise Meredith fez um aceno com a cabeça e contraiu os lábios. estéril como sempre vivera.ma Aurélio. e o sol e a renovação da primavera! Mas não. deitar raízes como uma árvore. se esse vier a ser constituído". era nesse pó que o sepultariam.a Rev. Encerrá-lo-iam num caixão forrado de chumbo e o levariam para a cripta da igreja do cardeal. por Geronimo Battista e Luigi Saltarello. abriu o grande volume encadernado em couro e pôs-se a ler: "Depoimentos preliminares sobre a vida. raiz alguma se estenderia em torno da forma de seu coração e de seus flancos. sobreviver para a chuva. satisfeito. cuja beleza via pela primeira vez. recostou-se ao tronco de uma árvore. Até ali. cálido e tranqüilo. na província da Calábria. depois sentou-se. onde ele se desfaria. quando chegasse a ocasião. quer quanto ao sigilo. Despiu a batina. as testemunhas foram advertidas de que poderão ser chamadas a depor sob juramento num tribunal. Ele vivera demasiado em meio ao pó das bibliotecas e. sacerdotes da mesma diocese". nenhum tribunal foi estabelecido nem designadas quaisquer autoridades para examinar oficialmente a causa desse servo de Deus. ser açoitado pelas intempéries mas.

mas desencorajar a beatice... no sentido canônico. consideramos como nosso primeiro dever investigar se os decretos do Pontífice Urbano VIII. Era o mesmo gênio que dera ao Ocidente o código de civilização sob o qual. As leis ali estavam — por mais que tivessem sido obscurecidas pela ignorância — e sua fria razão se destinava a refrear os excessos dos devotos e as ásperas exigências dos puritanos. Somos de opinião. até agora. os crentes sorrir diante de seus excessos. Embora isso possa constituir uma indiscrição. incentivar a piedade. o prefeito de Gemello Maggiore. tanto visitantes como pessoas da localidade. não circularam. visitam o túmulo de Giacomo Nerone e oram junto ao mesmo. Competia à Igreja não apenas impor a fé. As autoridades civis e. O parágrafo seguinte tampouco o aproximou do . as virtudes e os alegados milagres de Giacomo Nerone. Certas relíquias que pertenceram ao servo de Deus circulam. privadamente. 1634). mas não se permitiu que se lhes prestasse qualquer veneração pública. organizaram certa publicidade pela imprensa e melhoraram as facilidades de transporte. um terreno velho e conhecido — familiar mas tranqüilizador. Meredith virou a página e continuou a ler: "De non cultu" (Decreto de Urbano VIII. Mas ele ainda se achava muito longe do âmago do problema: a vida. à parte certas notícias adulteradas pela imprensa. mediante sua intercessão. ainda vivia. pelo menos em parte. a fim de incentivar a vinda de visitantes. proibindo o culto público. em particular. foram observados. mas também limitá-la. para ele. mas em sua essência aquilo era sólido." Blaise Meredith leu. entre os fiéis. Não são expostos retratos ou imagens para veneração pública e.legalidade romana aplicada aos assuntos do espírito. por conseguinte. Alguns deles afirmaram ter recebido. as frases formais. um tanto sonolento. Aquele era. Nenhuma veneração pública é permitida. que os cânones que proíbem o culto público têm sido observados. Constatamos que muitos fiéis. O servo de Deus não é invocado em cerimônias litúrgicas. favores espirituais e temporais. livros ou folhetos contendo descrição de milagres. não transgride os cânones. "Em vista das informações concernentes à visita de peregrinos e à veneração tributada por membros da comunidade de fiéis junto à campa do servo de Deus. Os céticos talvez pudessem zombar daquilo.

As descrições físicas feitas pelas testemunhas variam consideravelmente. Data de nascimento: desconhecida. Nada de escrito. moreno e de pele bronzeada. mas que depois surgiram dúvidas quanto à sua identidade. com ar de desagrado. Lugar de nascimento: desconhecido. e o que se seguia era ainda menos tranqüilizador: "SUMÁRIO BIOGRÁFICO Nome: Giacomo Nerone. morto o indivíduo. eram mesmo mais importantes do que os seus atos. Poderia ter dedicado sua vida inteira à caridade e. chegar ao fim de seus dias sem mérito algum. Durante o período de sua vida passada em Gemelli .assunto. Até que se inicie um processo legal e seja possível exercer pressão moral sobre as testemunhas. Há testemunhas de que Giacomo Nerone foi primeiro aceito como italiano. sugerem a possível existência de um manuscrito que se teria perdido. anotadas depois nos depoimentos. não obstante. Foi descrito como sendo homem alto. Há razão — anotada posteriormente nos depoimentos — para se supor que esse era um pseudônimo. Intitulava-se "De scriptis": "Não foram encontrados escritos de qualquer espécie atribuíveis ao servo de Deus. não se exprimia em dialeto. Mas. as coisas escritas por um homem constituíam a única indicação segura de suas crenças e intenções e. segundo a rigorosa lógica de Roma. Certas referências. Uma pena! Do ponto de vista judicial. e ver-se-ia imediatamente fora dela. é pouco provável que se obtenham outras informações acerca desse importante ponto". mas depois aprendeu-o. embora com sotaque setentrional. Blaise Meredith franziu a testa. não obstante. destruído. ou deliberadamente ocultado por pessoas interessadas. quem revelaria os segredos de seu coração? Era um começo pouco encorajador. falando-o constantemente. O valor moral de um ato dependia da intenção com que fora praticado. Falava fluente e corretamente o italiano. Um indivíduo podia assassinar a esposa ou seduzir a própria filha e. mas todas são acordes em que devia ter entre trinta e trinta e cinco anos de idade. mas que ousasse rejeitar um til na verdade definida. permanecer membro da Igreja. A princípio.

Blaise Meredith fechou o grosso volume e colocou-o a seu lado. mas. Depois. Período de residência em Gemelli dei Monti: agosto de 1943 a 30 de junho de 1944. sem dúvida. a nosso ver. um começo bastante dúbio. inconcludentes. recostou a cabeça no áspero tronco da oliveira e ficou pensando no que acabara de ler.dei Monti. Havia demasiados "desconhecidos". O corpo de Giacomo Nerone foi removido do lugar da execução por seis pessoas e enterrado no lugar conhecido como Grotta dei Fauno. onde se encontra atualmente. Sepultamento: o sepultamento realizou-se às dez e trinta da noite do dia 30 de junho. O Lobo. Giacomo Nerone foi executado por um esquadrão de fuzilamento dos guerrilheiros. ele se esforçava por ocultar. Somos de opinião. e quaisquer reivindicações de santidade heróica devem ser julgadas de acordo com os registros disponíveis relativos a esse período excepcionalmente breve. Aquilo era um começo. por motivos ainda não suficientemente claros. mas as provas apresentadas a favor das mesmas são. As circunstâncias relativas ao acontecimento são também confirmadas por testemunho unânime. e a imputação de deliberado sigilo era perturbadora. que. Esta data corresponde mais ou menos à da conquista da Sicília pelos Aliados e às operações do Oitavo Exército inglês na província da Calábria. no entanto. unidades alemãs. Somos também de opinião que certas pessoas a conheciam e procuram ainda hoje ocultá-la. confirmadas por testemunhas oculares. sob o comando de um homem conhecido por Il Lupo. Tanto a identificação do corpo como as circunstâncias do sepultamento são unanimemente confirmadas pelo testemunho dos que participaram do enterro". Tudo o que os testemunhos revelavam e abrangiam era apenas . Data da chegada a Gemelli dei Monti: a data exata é incerta. mas todos concordam em que deve ter-se verificado em fins de agosto de 1943. às três horas da tarde. a sua verdadeira identidade. americanas. Todas as testemunhas se referem a esse período de menos de doze meses. do ponto de vista do advogado do Diabo. deliberadamente. Várias suposições foram feitas quanto à sua nacionalidade. inglesas e canadenses achavam-se em operações na província da Calábria. Tanto a data como a hora da execução são específicas. sobre a grama. Data da morte: 30 de junho de 1944.

auto-suficiente. já que cada ato o condicionava para o derradeiro momento da mesma. que era assunto da investigação de Meredith e do processo judicial do tribunal do bispo. Cada época produziu a sua safra de santos. A perfeição do homem e sua união final com o Criador dependiam de sua conformidade com a relação existente entre eles. Partia ela da premissa de um Deus pessoal. reconhecido por todos os teólogos. depois. implicava um chamamento especial para uma perfeição maior. Nenhuma dessas coisas excluía a santidade. A proclamação oficial envolvia ainda algo: a implicação de que a Divindade desejava tornar conhecidas as virtudes do santo chamando a atenção para elas através de milagres — atos que estavam além do poder humano —. Nada havia de trivial no nascimento de um homem. culminando na encarnação. Não havia escrito algum que pudesse ser examinado. por sua própria natureza. O homem era o resultado de um ato criador da vontade divina. Em casos como esse. A relação existente entre o Criador e a Sua criatura era definida primeiro pela lei natural. Constituía simples axioma. Salvação implicava perfeição. E sua morte era o momento em que o espírito se lançava . já que isso envolvia a projeção de uma alma nova nas dimensões da carne. a santidade heróica. Mas a santidade. mediante o emprego de graças especiais — nenhuma das quais o homem poderia alcançar pelo seu próprio poder. o investigador era sempre forçado a apelar para a fria lógica dos teólogos. entregar-se à trivialidade ou a um sigilo trivial. pregação. mas uma perfeição limitada. eterno. sua salvação dependia de achar-se o homem em estado de conformidade no momento de sua morte. Nada havia de trivial na progressão de sua vida. chamado graça. cujas obras eram visíveis e podiam ser apreendidas pela razão humana. Jesus Cristo. interrupções divinas das leis da natureza. por uma série de revelações divinas. Era ajudado a chegar a essa conformidade mediante o auxílio divino. Era essa implicação que perturbava Meredith no início do caso de Giacomo Nerone. em grau suficiente para garantir-lhe a salvação. mas podia muito bem excluir uma santidade comprovada. morte e ressurreição do Deus-feito-Homem. embora nem todos fossem conhecidos — embora nem todos fossem oficialmente proclamados. o de que um ser onipotente não podia. contanto que cooperasse com ela mediante o uso de sua livre vontade. numa vida de trinta ou trinta e cinco anos. onipotente. que estava sempre a seu alcance.um período de onze meses.

com seco bom humor. é claro. — Insatisfatórios. uma única peça. Mas — como direi? —. de que modo? — É difícil de definir. Corri os olhos. E os santos são. Blaise Meredith rendeu-se a ele e dormiu. tranqüilo. à medida que eu prossiga a leitura. encantado. — Quase se diria que uma parte da população se convenceu de que esse homem era um santo e queria prová-lo a qualquer preço. em geral. tais lacunas precisavam ser preenchidas. não há contornos nítidos. Se existiam fatos que estavam sendo ocultos. Não há elementos de conflito ou controvérsias. A figura pode crescer. quando Meredith lhe confessou. Assim. Sua Excelência Reverendíssima sorriu entre dentes. É uma das razões de minhas dúvidas acerca do assunto. sorvendo o seu vinho e refletindo sobre a sua explicação.. antes do almoço.. não raro. Foram feitos de maneira normal. mas lamento dizer que os acho um tanto insatisfatórios. pois também ele logo seria chamado a juízo. — Ótimo! Ótimo! Ainda faremos do senhor um camponês! Teve sonhos agradáveis? — Não tive sonhos — respondeu Meredith.para fora do corpo na atitude irrevogável de conformidade ou rejeição. resultado de cuidadosa interpelação de testemunhas. duas coisas diversas. ambas as coisas são importantes. sobre a relva macia. . por alguns depoimentos. São. todos. por enquanto. o zunido dos insetos enganadoramente sedativo. a sua negligência matinal. pessoas que despertam muita controvérsia. evidentemente. — E isso foi uma mercê tão grande quanto o sono. — Mas há elemento de sigilo — ajuntou. — Precisamente — aquiesceu o bispo. Os depoimentos constituem. Mas o que um homem deve fazer e o que suas forças permitem que faça são. mas. não dão uma idéia clara de Giacomo Nerone. O bispo concordou com um sinal de cabeça: — Essa é também a minha impressão. Mas não adiantei muito o trabalho. Meredith. pesaroso. quaisquer que fossem as lacunas existentes na história pessoal de Giacomo Nerone. para os fins que temos em vista. até a hora do almoço. nem das próprias testemunhas. E. e o cansaço de uma noite insone voltou de maneira insidiosa. Blaise Meredith precisava trazê-los à luz. O ar estava cálido.

Pregamos o amor e a fidelidade. e de almas atormentadas pela solidão e levadas à comunhão momentânea de um beijo.. — Ainda não li nem estudei suficientemente o processo. e que inibe mesmo a intimidade purificante do confessionário. da qual o senhor e eu somos membros.. Um ato inspirado da vontade. quer contra. estilizada. governada: por uma casta sacerdotal. como se se desculpasse de sua própria intensidade. cauteloso. Os sermões de São Bernardino de Siena são. Meredith. Somos professores — professores de uma verdade que afirmamos ser essencial para a salvação do homem. Mas nem sempre foi assim. — Ainda é muito cedo para que eu julgue esse ponto — observou. é esta: a Igreja é uma teocracia. aumenta. como é que a pregamos? Falamos incessantemente de fé e esperança. se quiser — formal. disse com brandura: . "Que é a esperança? A confiança de uma criança na mão que a afastará dos terrores que avançam no escuro." Interrompeu-se e sorriu. É uma dificuldade que. Temos uma linguagem própria — uma linguagem hierática. ao invés de diminuir. quase inconvenientes. após um momento. admiravelmente adaptada a definições legais e teológicas. Depois. E não de corpos a contorcer-se numa cama e de palavras ardentes em lugares escuros. mas nossas palavras não chegam até os que nos ouvem. também temos uma retórica própria que.. — É bastante curioso.. hoje. que constitui a nossa única resposta ao terrível mistério de se saber de onde viemos e para onde vamos. Infortunadamente. diz muito e comunica pouco. Que é a fé? Um salto no escuro para as mãos de Deus.. como se estivéssemos empregando uma forma cabalística de encantamento. pois esquecemos a nossa língua materna. mas chegavam aos corações. como se se tratasse de assunto de mesa de chá. Pregamos a caridade e a compaixão. A raiz disso. como a retórica do político. penso eu. Contudo. pois a verdade que havia neles era aguda como um punhal e dolorosa como. como se as testemunhas estivessem falando uma nova língua. mas raramente dizemos o que significam: mãos que lidam em meio à sujeira de quartos de doentes.— E a outra parte? — Estava resolvida a nada dizer. meu amigo. Mas não somos políticos. quer a favor. que limpam o pus de feridas sifilíticas.. Mas o tom das declarações que li até agora é afetado e estranhamente irreal. Falamos ao povo todos os domingos. com vivo interesse. — E estão! — exclamou o bispo. mas o senhor tocou num problema que há muito tempo me preocupa: a dificuldade de comunicação precisa entre o clero e os leigos.

o tribunal ainda não havia sido constituído. bispo de Valenta. a mulher a quem muitos maridos não satisfaziam e que se voltou para um homem que não era seu marido. ponderava as palavras do bispo. Blaise Meredith. E. — A língua materna — respondeu Aurélio. como essas criaturas. no entanto. com efeito. Blaise Meredith começou. seria como o Senhor. lentamente. Embora as notícias já tivessem sido publicadas e designados os dois principais representantes oficiais. E isso. — Como é então que justamente eu poderei aproximar-me delas? — indagou. ele bem o sabia.— Eis aí o que se passa com as nossas testemunhas. Já que todos os depoimentos do tribunal seriam tomados sob juramento e em caráter sigiloso — e já que de nada valia estar desperdiçando tempo com gente frívola e sem qualquer vontade de . Falara na linguagem vulgar de símbolos vulgares: uma mulher a gritar em trabalho de parto. Meredith. Se não o fosse. Seu primeiro problema era de ordem tática. com irônica humildade. como se sua língua devesse ser censurada por se referir ao corpo que o gerara e ao ato sublime a que devia o ser. deitado em sua cama. Mas o hábito de anos era forte nele — o eufemismo cuidadoso. E Giacomo Nerone? Se fosse um santo. que talvez lhe digam a verdade. monsenhor. Comeu em companhia de cobradores de impostos e bebeu com mulheres públicas. ainda assim seria um homem e a verdade a seu respeito seria contada na linguagem simples da alcova e da taberna. Não invocou convenção alguma para escudar-se dos homens que Ele próprio criara. o próprio Cristo usara essa cunhagem comum. nós não as compreendemos porque falam conosco como falamos com elas. Horas depois. tão surpresas. — O senhor nasceu. inter faeces et urinam. o recato sacerdotal. e elas ficarão surpresas ao verificar que o meu amigo não esqueceu tal fato. é muito pouco. os gordos eunucos a caminhar bamboleando pelos bazares. não recuando diante das mãos que o ungiam e que haviam acariciado corpos de homens em meio à paixão de mil noites. naquela mesma tarde. À medida que a tarde avançava e que a primeira friagem da noite penetrava em seu quarto. a compreender a tarefa que tinha à sua frente.. Elas eram verdadeiras. enquanto o sol ardia fora das venezianas cerradas e a gente sensata do sul dormia a sesta. tanto de uma parte como de outra..

Não havia ninguém mais obstinado. embora talvez pudessem sucumbir. Meredith resolveu discutir a questão com o bispo. como um advogado civil examina suas testemunhas antes de apresentá-las. A Igreja era uma família constituída de homens e mulheres. Certas pessoas acreditavam em santos. poderia haver os que hesitavam em revelar fatos favoráveis aos candidatos porque tais fatos eram desairosos às suas próprias pessoas. De acordo com os registros de Battista e Saltarello. Aqueles que estavam promovendo a Causa do Santo teriam todo o cuidado de desviá-lo de qualquer informação controversa. imparciais. tecer intriga em torno do Todo-Poderoso. nesse sentido. parecia residir naqueles que se tinham recusado a prestar qualquer depoimento. cujos registros estavam em suas mãos. Não seria fácil descobrir por que certas pessoas não acreditavam em santos e encaravam os seus cultos como superstições nocivas. do que um católico em luta com a sua consciência. por conseguinte.cooperar — era necessário experimentar primeiro aquela gente em entrevistas particulares e sem juramento. todas as informações positivas vinham de Gemello Maggiore. Mas eram ambos sacerdotes locais e. não modificariam seu depoimento diante do advogado do Diabo. Era bem possível que tais pessoas estivessem dispostas a revelar algo que mostrasse os pés de barro de um ídolo popular. nenhum dos quais era garantidamente perfeito. mas havia muita tolice e intriga não só no seio da Igreja como fora. antes. indubitavelmente. estavam — podia estar certo de que depararia com ativa e vigorosa oposição. a favor do candidato. debilitada. Sua melhor oportunidade. por Battista e Saltarello. se é que não estavam. O problema seguinte era descobrir tais pessoas. durante o . e todas as recusas partiam da aldeia gêmea. nem mesmo por graça do Espírito Santo. As testemunhas já haviam sido entrevistadas. Era suspeito pela própria natureza de sua missão. na verdade. a aldeia próspera. funcionário do Vaticano e promotor da causa. mas nada queriam com eles.. Ele era estrangeiro. segundo se presumia. Finalmente. Achavam incômoda a companhia dos mesmos: suas virtudes constituíam perpétua censura. Sua posição era inteiramente diferente. e se estivessem envolvidos na causa interesses mundanos — como. Era idiota. claro. situada no outro lado do vale. Se haviam deposto a favor de Giacomo Nerone. se ele conseguisse descobrir elementos com que desafiá-los. A distinção era demasiado óbvia para que pudesse ser ignorada e demasiado artificial para que pudesse ser aceita sem reservas..

não sei o que pensar. tanto então como agora. vindo não se sabe de onde. quando for a Gemello Minore. Sua Excelência Reverendíssima abordou o assunto com cautela maior do que a habitual: — Para mim também esse foi um dos traços mais intrigantes da situação. — Chega aqui. leva-o para casa e cuida dele. — ajuntou Sua Excelência. Os aldeões aceitam-no pelo que parece ser. Contudo. Que é que sabemos dele? — Quase nada — disse Blaise Meredith. O bispo deteve-se ironicamente nesse parêntese e.. Tenho curiosidade em saber o que pensará dela. em Gemello Minore. Têm filhos que também se acham em lugares distantes. As testemunhas são vagas.. que se disse chamar Giacomo Nerone. trajando roupas miseráveis de camponês. não raro. a condessa. Em seu aspecto exterior e em seu padrão de vida. salvo que. que eram elas? Aldeotas típicas calabresas — lugarejos pobres. de terra pobre. Há aqui duas aldeias. Ferido e atacado de malária. como o meu amigo verá — terra que se tornava cada vez mais pobre. havia uma padrona residente. não havia entre elas diferença perceptível.. o bispo.. chamada Nina Sanduzzi. Diz ser desertor da luta que se desenrola no sul. — E depois? — animou-o. estes últimos passavam fome de verdade nas montanhas. fazendo um gesto enfático com as mãos longas e sensíveis — a coisa estava assim. pouco sobrava para os camponeses e. quando chegou um homem. numa volta para Deus. nos melhores sítios. O senhor será seu hóspede. à medida que passavam os anos. depois. bem no meio da gravidez da mulher. Os jovens foram convocados para o exército. — Depois. Ora. habitados por agricultores arrendatários de senhores ausentes.. sua presença.. O registro é pouco claro. Uma jovem viúva. Não sentem simpatia alguma por uma causa perdida. uma vez recebido pelos proprietários o quinhão que lhes cabia. os velhos e as mulheres ficaram lavrando a terra. prosseguiu: — Mulher interessante. Trata-se..jantar. com suas próprias mãos. gêmeas pelo nome e gêmeas pela natureza.. astutamente. Permita-me tentar apresentar-lhe essa situação dentro de certa perspectiva. não fez diferença quanto à situação da população local. um desconhecido. a Condessa de Sanctis. empoleiradas nas cristas da mesma montanha. uma pequena choça no . Surge entre eles uma ligação que é depois interrompida. Antes da guerra.. O Estado impôs tributo à agricultura e. Depois veio a guerra. Fala-se numa conversão.. Nerone deixa a casa de Nina Sanduzzi e constrói.

recanto mais desolado do vale. Planta um jardim. Passa horas a fio solitário, em contemplação. Aparece na igreja aos domingos e recebe os sacramentos. Ao mesmo tempo — note bem — parece ter assumido a liderança das aldeias. — Mas como é que as dirige, e com que fim? Eu o estou interrogando, Meredith, porque quero ver de que modo o senhor, um recém-chegado, compreendeu essa história. Quanto a mim, eu a sei de cor, mas sinto-me ainda desorientado. — Conforme li nos depoimentos — prosseguiu, cauteloso, Meredith —, ele começou a ir de casa em casa, oferecendo seus serviços a quem deles necessitasse... a um velho cujas terras estavam sendo usurpadas, a uma avozinha fraca e solitária, a um agricultor enfermo que precisava de alguém que cuidasse de sua plantação de tomates. Daqueles que podiam fazê-lo exigia pagamento em espécie — leite de cabra, azeitonas, vinho, queijo —, que era entregue por ele aos que precisavam dessas coisas. Mais tarde, quando chegou o inverno, organizou um cadastro de mão-de-obra e recursos naturais, impondo-o com rigor e, às vezes, com violência. — Procedimento nada santo... — insinuou o bispo, com um leve sorriso. — Foi o que também achei — admitiu Meredith. — Mas mesmo o Cristo expulsou a chicote os vendilhões do templo, não expulsou? E quando o senhor vier a conhecer os nossos calabreses, concordará em que possuem as cabeças mais duras e os punhos mais rijos de toda a Itália. Meredith foi obrigado a sorrir, ante a armadilha que o bispo lhe armara. — Anotaremos isso como crédito a favor de Giacomo Nerone — disse. — O que vem a seguir também o favorece. Cuidava dos enfermos e parece ter prestado uma espécie de tosca colaboração, no campo da medicina, a um certo Dr. Aldo Meyer, um exilado político que, de modo bastante curioso, se nega a prestar qualquer declaração sobre o caso. — Também tenho pensado muito sobre esse ponto — adiantou o bispo. — E isso é tanto mais interessante quando se sabe que Meyer, antes e depois da guerra, procurou organizar essa gente em seu próprio benefício, tendo malogrado por completo. É um homem de singular espírito humanitário, mas tem contra si o fato de ser judeu num país católico... bem como, talvez, ainda outras coisas. O senhor devia procurar aproximar-se dele. Talvez o meu amigo se surpreenda.... Mas prossiga, por favor. — Encontramos, a seguir, evidência de outras atividades religiosas. Nerone reza em companhia dos enfermos, conforta os agonizantes. Faz viagens

em meio à neve para trazer o sacerdote com os últimos sacramentos. Quando não há sacerdote, ele próprio permanece até o fim com o moribundo. Mas há uma coisa estranha... — ajuntou Meredith, detendo-se, um momento, indeciso. — Duas testemunhas dizem o seguinte: "Quando o Padre Anselmo se recusou a ir..." Que significaria isso? — Exatamente o que diz, creio eu — respondeu friamente Sua Excelência Reverendíssima. — Já houve muito escândalo acerca desse homem. Pensei várias vezes em removê-lo, mas agora me decidi contra tal medida. — O senhor tem fama de rígido mantenedor da disciplina. Já removeu outros. Por que não esse? — Ele é velho — respondeu, em voz baixa, o bispo —, velho e, creio eu, encontra-se muito perto do desespero. Não me agradaria nada pensar ter sido eu a levá-lo a ele. — Desculpe-me — disse, imediatamente, Meredith. — Não há de quê. Somos amigos. O senhor tem o direito de fazer perguntas. Mas sou um bispo e não um burocrata. Carrego o báculo de pastor, e as ovelhas desgarradas também me pertencem. Prossiga. Leia mais acerca de Giacomo Nerone. Meredith passou a mão pelos cabelos ralos. Estava ficando cansado. Era um esforço, para ele, manter as idéias em ordem. — Em março de 1944, vieram os alemães... a princípio, um pequeno destacamento, depois um maior: reforços para as tropas que lutavam contra o Oitavo Exército inglês, que cruzara o estreito de Messina e abria caminho em direção à extremidade inferior da Calábria. Nerone foi um dos que negociaram com eles... tendo sido bem sucedido, ao que parece. Os camponeses deveriam fornecer determinada quantidade de alimentos frescos, em troca de remédios e roupas de inverno. O comandante da guarnição imporia disciplina às suas tropas e protegeria as mulheres cujos maridos e irmãos se achavam ausentes. O acordo é mantido de maneira razoavelmente satisfatória, e Nerone impõe-se como mediador respeitado. Essa ligação com os alemães foi a razão alegada para a sua execução pelos guerrilheiros. Quando os Aliados romperam as linhas inimigas e começaram a abrir caminho em direção a Nápoles, ultrapassaram as aldeias e deixaram aos guerrilheiros a tarefa de lidar com as forças alemãs, dispersas, que se retiravam. Giacomo Nerone ficou... O bispo interrompeu-o erguendo a mão esguia: — Um momento! Que é que vê, até aqui?

— O ignoto! — respondeu, calmamente, Meredith. — O desconhecido. O homem que veio não se sabe de onde. O desgarrado que, súbito, se transforma em divino. Possui ele um sentimento de gratidão, um toque de compaixão, bem como talento e, talvez, gosto pela liderança. Mas que é ele? De onde vem e por que razão age como o faz? — O senhor vê nele algum santo? Meredith abanou a cabeça: — Ainda não. Bondade, talvez, mas não santidade. Ainda não examinei as provas referentes aos alegados milagres, de modo que deixo, por ora, de levar essa parte em consideração. Mas tenho uma opinião. Há um padrão na santidade, uma grande sensatez. Até agora não vi vestígio de razão aqui; apenas sigilo e mistério. — Talvez não haja mistério algum... mas, apenas, ignorância e má interpretação. Diga-me, meu amigo, o que você sabe das condições existentes aqui no sul, na ocasião? — Muito pouco — admitiu, com franqueza, Meredith. — Estive encerrado, durante toda a guerra, na Cidade do Vaticano. Sabia apenas o que ouvia ou lia... e isso mesmo de maneira bastante truncada. Deus bem o sabe! — Então permita que eu lhe explique... Levantou-se e dirigiu-se à janela, ficando a olhar o jardim, onde o vento agitava de leve os arbustos e as sombras eram profundas, pois ainda não havia luar sobre o topo das colinas. Quando falou, havia em sua voz um laivo de antiga tristeza: — Sou italiano e compreendo essa história melhor do que muita gente, embora ainda não compreenda as pessoas nela envolvidas. Primeiro, o senhor deve perceber que um povo derrotado não é leal para com ninguém. Seus líderes o traíram. Seus filhos morreram defendendo uma causa perdida. Não acreditam em ninguém... nem mesmo em si próprios. Quando chegaram os nossos conquistadores, a falar, aos berros, em democracia e liberdade, tampouco acreditamos neles. Olhávamos apenas a côdea de pão que tinham nas mãos e calculávamos exatamente qual o preço que nos pediriam por ela. Gente faminta não acreditava nem mesmo na côdea de pão, enquanto não a engolia em segurança e não a sentia doendo no estômago desabituado. Eis como eram as coisas aqui no sul. O povo estava derrotado, sem líderes, faminto. Pior ainda do que isso: esquecido. E eles bem o sabiam. — Mas Nerone não os esqueceu — objetou Meredith. — Ainda

permanecia com eles. Ainda era um líder. — Já não o era. Havia novos barões na terra. Homens com armas novas, cartucheiras carregadas a tiracolo e autorização, por parte dos conquistadores, para vasculharem as montanhas e se apoderarem delas, mantendo a ordem, até que um novo e dócil governo pudesse ser estabelecido. Seus nomes e seus rostos eram familiares: Michele, Gabriele, Luigi, Beppi. Dispunham de pão com que negociar, bem como de carne enlatada e barras de chocolate... E tinham ainda velhas contas a ajustar — contas tanto políticas como pessoais. Saudavam as pessoas com o punho fechado da camaradagem e com o mesmo punho golpeavam o rosto dos que se atreviam a discordar deles. Eram muitos e eram fortes, pois o seu Mr. Churchill havia dito que negociaria com quaisquer pessoas que pudessem ajudá-lo a resolver a confusão reinante na Itália e lhe permitissem prosseguir com a invasão da França. Que poderia Giacomo Nerone fazer contra eles... o seu ignoto vindo não se sabia de onde? — Que procurou ele fazer? Eis aí o que me interessa. Por que razão certas pessoas se agarraram a ele, como a um santo, enquanto outras o recusaram e o traíram, entregando-o aos que o executaram? Antes de mais nada, por que eram contra ele os guerrilheiros? — Isso está anotado — respondeu, com um sorriso fatigado, Sua Excelência. — Chamavam-no colaborador. Acusavam-no de comércio lucrativo com os alemães. Meredith rejeitou enfaticamente a insinuação: — Isso não basta! Não é o bastante para explicar o ódio, a violência e a discórdia nem, tampouco, por que razão uma aldeia prospera, enquanto a outra mergulha cada vez mais no desalento. Não basta, também, para nós. O povo fala em martírio... numa morte em defesa da fé e de princípios morais. Tudo o que Vossa Excelência me mostrou não passa de uma execução política — talvez injusta e cruel —, mas, ainda assim, apenas isso. O que nos interessa não é a política, mas a santidade, a relação direta entre um homem e o Deus que o criou. — Talvez tudo não tenha passado disso: um homem envolvido na política. — Vossa Excelência acredita nisso? — E acaso importa aquilo em que acredito, monsenhor? O rosto astuto e aristocrático voltou-se para ele. Os lábios finos sorriam, irônicos. Foi então que, de súbito, compreendeu a verdade, como um jato de água fria que lhe batesse no rosto. Também aquele homem tinha uma cruz para

carregar. Podia ser bispo, mas, não obstante, ainda havia dúvidas que o perseguiam e medos que o mortificavam, no alto cume da tentação. Uma estranha compaixão agitou o coração ressequido de Blaise Meredith e ele respondeu, em voz baixa: — Se importa? Acho que importa muito! — Por que, monsenhor? — indagou o bispo, os olhos profundos, sábios, a desafiá-lo. — Porque acho que o senhor, como eu, receia o dedo de Deus.

devido a alguma debilidade fundamental existente em sua própria pessoa. algum dia. cujos braços nus se abriam como uma cruz. em companhia do rapaz adormecido. realizar algo . retorcida. inundado pelo sol do meio-dia. que era como um patíbulo sobre um Gólgota em miniatura. Os críticos tinham notado essa falta havia muito. o pintor. mas estridente de cigarras — e Paolo Sanduzzi dormitava a seus pés. Era uma composição simples. erguia-se uma oliveira solitária. sentia-se tão próximo do contentamento como jamais o estivera antes. os pensamentos voltados para a tela e para a árvore cinzenta. sossegado como um lagarto sobre uma rocha cinzenta. a um passo de distância. a elevar-se sobre ele. e a plena satisfação era coisa que só de raro em raro lhe ocorria.5 Nicholas Black. morta e despojada de folhas. Admiravam o encanto de suas telas. Ele admirava o vigor — tanto mais porque havia tão pouco vigor em sua pessoa —. para uma espécie de ressurreição na alvorada. satisfeito. das rochas. na ensolarada solidão de um pequeno platô situado atrás da encosta da colina. o seu brilho forçado. desgastadas e batidas pelas intempéries. Mais tarde. naquela hora e naquele lugar tranqüilo. o seu talento dramático. brilhante e novo. cinzento como se. pudesse partir-se ao meio e um homem surgir. passaram a chamá-lo raté — um homem que jamais conseguiria. tendo por fundo o azul-claro do céu. guarnecido de tufos. O ar estava lânguido e seco. Pintava com traços seguros. manchadas de fungos e mosqueadas como a pele largada por uma serpente. mas. Havia naquilo uma força que o seduzia — um vigor em seu tronco. e o topo do monte. trabalhava num novo quadro. Estava trabalhando nele havia já uma hora. mas estranhamente dramática: uma confusão de rochas nuas. O sol estava quente sobre o seu torso bronzeado. músculo e osso debaixo do córtice áspero. magro mas musculoso. mas lamentavam sua débil estrutura e o sangue aguado que circulava sob a pele de suas brandas figuras. com uma tela a surgir-lhe vigorosamente da mão. mas raramente conseguia traduzi-lo em seus trabalhos. O contentamento era algo estranho a Nicholas Black.

"condenado a viver para sempre na contemplação da beleza. mas sem jamais possuí-la. vinham ao mundo sem os atributos que definem um homem. E um rapaz . Estava pintando uma árvore tão forte e viva como um homem. Era um terror especial. De vez em quando. mesmo agora. O Cervo e no clube da BBC. um dos "novos" afiava os dentes diante de uma exposição de Nicholas Black. de encontros furtivos e de estranhas ligações. escreveu o jovem e inteligente crítico. Mas jamais o levavam a sério. em seu caminho de peregrino. como as esposas honestas desprezam a prostituta que vende por dinheiro o que elas recusam por amor. que pôs toda Londres a rir durante uma semana e que levou Black a cruzar o canal da Mancha e lançar-se aos pés de Anne Louise de Sanctis. compuseram uma canção obscena a respeito da frase — e um dos que compartilhavam seu apartamento e mais do que a metade do seu amor atirara-lhe isso na cara. um meio mundo de amantes perdidos. mostravam-se bondosos para com ele. Nos salões georgianos de Knightsbridge riam dele. tal lembrança ainda era viva e degradante. certamente. mas não o bastante para protegê-los contra os intrigantes de dentro e os que zombam do outro lado dos frágeis portais. riam-se dele entre dentes. a duas mil milhas e seis meses de distância do ocorrido. diante de suas cervejadas. Foi o momento mais amargo de sua vida e. Depois disso. Elogiavam-no o suficiente para que as viúvas ricas continuassem a comprar-lhe os quadros e os pequenos negociantes de arte se mostrassem ligeiramente interessados. Agora.vigoroso. porém. Existe lealdade nesse meio mundo. o gesto fálico e o rápido roçar em meio a um agrupamento de estranhos. Seus companheiros mais normais os encaram com desdém. aquele. De modo que formam um reino entre eles mesmos. "Um dos eunucos da profissão". cujos símbolos são frases rabiscadas nas paredes de toaletes. Nas mansardas de Chelsea. ao fim de uma noite de altercação. E quando um homem como Nicholas Black o abandona. e foi um deles que escreveu um epitáfio brutal. bebericando coquetéis." Em O Saco de Pregos. um inferno bastante particular reservado aos pobres-diabos que. à maneira condescendente que reservam às mediocridades afáveis e aos eternos ousados. ele chegara a um oásis. converte-se em peregrino solitário de um culto secreto. Publicavam sempre notícias sobre suas exposições. por distração ou ironia do Criador. como os poetastros desdenham uma paródia que indica a pomposidade de seus próprios trabalhos.

Sou um artista. No ar seco e quente. sua pele brilhava como uma madeira resinosa.. negros como ônix. Envolvera-se. — Ainda há tempo. — Um amigo deve provar que o é — respondeu. e pôs-se a fumar. o outro pousado. tinha. a seus pés. em seus olhos escuros.. isso é diferente. e ficou de cócoras a seu lado. gosto de olhá-lo. o rapaz sentou-se e olhou-o com olhos astutos e perscrutadores: — Por que me olha assim? Black sorriu calmamente e respondeu: — Você é belo. largou o pincel e a paleta e ficou a olhar Paolo Sanduzzi. a urinar bem defronte de Nicholas Black. . é dispendiosa. Estava ainda sorrindo. Mas um amigo. gingando o corpo. com estudada indiferença. o rapaz aproximou-se. caminhou até a beira do platô e ficou. liso e juvenil. um dos braços atrás da cabeça. pensativo. mas havia um olhar de viés. Vestia apenas um calção manchado e umas velhas sandálias de couro. O jovem estava estendido de costas. lá.extenuado e moreno dormia ao sol. a poucos passos do rapaz. quando voltar para Roma? Black encolheu os ombros. Sentou-se na rocha quente. Por isso. subjugado por aquele raro momento de satisfação entre um passado acusador e um futuro incerto. um amante da beleza. Levantou-se de um salto. lasso. Como o jovem Davi que Michelangelo esculpiu num pedaço de mármore. mas a verdade estava nos olhos de Paolo. em repouso. — Estou com vontade de urinar — disse o rapaz. Depois. Mas podia reconhecê-la ainda. calculista. De repente.. E pediu abruptamente: — Leva-me em sua companhia. em seu arremedo e em sua sedução. que percebeu irrisão naquilo. Deu uma última e cuidadosa pincelada. podia ainda lamentar a sua perda. e seu rosto. Veremos. depois. — Mas o senhor me disse que eu era seu amigo! A ansiedade do rapaz era tão viva e infantil que bem poderia tê-lo enganado. de pernas abertas. posso conseguir muitos criados. um joelho encolhido.. uma expressão de curiosa inocência. mas não fez nenhum protesto. à maneira do sul: — Quem sabe? Roma fica muito longe e a vida. sorrindo. Lá. Havia muito já a inocência era uma coisa estranha aos olhos de Nicholas Black. longe do simulacro. um cigarro. o pintor. ter ainda ciúmes dela — e ali. com demasiada freqüência. sobre a rocha cálida e cinzenta. Paolino.

Nicholas Black pôs-se a pintar uma figura crucificada nos galhos contorcidos da oliveira: não um Cristo atormentado. chamou-o e mostrou-lhe o quadro. Nessa mesma árvore. apontava para a tela. mesmo enquanto a vida o abandonava. O pintor limpou a boca com as costas da mão e levantou-se lentamente. mas um jovem em plena puberdade. a boca escancarada. apenas uma criança — uma criança assustada. Dirigiu-se ao cavalete. O rapaz cansou-se muito antes de a tela estar terminada. Estenderam ele assim.— Mas sou um bom amigo de verdade — disse Paolo. Depois o fuzilaram. apanhou o pincel e a paleta e disse. em presença de um patrão genioso. áspero. abraçou-o rapidamente e saltou para longe. Não olhou para o rapaz. Depois de um momento de inquieta indecisão o rapaz obedeceu. fique assim. como numa cruz. . amarrado. agora. uma torrente de palavras. a dez passos de distância. mas a sorrir. — Agora. O rapaz levantou. infantilmente. ao ver de que modo a ousadia e o desafio o abandonavam. mas Black o manteve na mesma posição. trêmulo. Assim. Com pinceladas rápidas. — Vamos! Dispa-se! Quero usá-lo como modelo. e Black sorriu com sardônica satisfação. É para isso que você é pago. — Estenda os braços. enquanto. lentamente. com uma lança vermelha enfiada no peito. com o rosto e o corpo de Paolo Sanduzzi. terminado o trabalho. lançando-lhe impropérios sempre que ele baixava os braços. Black gritou. que se achava de pé sobre uma rocha saliente. Depois. Era ele. arisco como um animal. indecisa. O rosto do rapaz contraiu-se numa expressão de horror. os braços. proferindo. entre outras coisas. as mãos nas cadeiras. atônito. pregado de mãos e pés ao tronco. — Veja! Eu lhe mostrarei! Passou os braços pelo pescoço de Black. — Que é que você quer dizer com isso? — Foi assim que eles mataram meu pai. O efeito foi surpreendente. tendo na língua o gosto de sal da desilusão. enquanto despia o calção miserável. por sobre o ombro: — Tire a roupa! O rapaz fitou-o. — Que é que há? O que foi que o assustou? A voz do rapaz era quase um sussurro: — O quadro! Essa é a árvore do meu pai! O pintor olhou-o. até a altura dos ombros. em seu jargão.

Quando terminaram de enfaixar-lhe o rosto. enquanto trabalhava na bigorna. amedrontado e submisso. segurando a tigela de água quente e as mechas de algodão. pairando como estorninhos diante daquela migalha de drama. acalmando-a e repreendendo-a em voz baixa. Enquanto Meyer examinava e limpava-lhe as queimaduras do rosto. lamentosa como um animal. — É melhor que o deixe aqui durante umas duas horas — disse-lhe delicadamente. de um canto. desenrolaram os cobertores e Meyer lançou um assobio lento e pensativo. assustada. Nina Sanduzzi permanecia impassível como uma estátua. sofrerá um ataque. Caíra sobre a forja e sofrerá sérias queimaduras no peito e no rosto. Depois. voltou de novo para junto de Meyer e. um grito baixo e abafado saiu da boca retorcida do ferreiro. carregando consigo o calção e as sandálias. atenta como qualquer enfermeira. . ajudou-o a retirar o carvão das queimaduras. Ela rogou-lhe. a limpá-las e passar sobre elas violeta de genciana e o que restava de uma pequena provisão de mertiolate. Nessa mesma hora. Nicholas Black. após o quê. e o rapaz afastou-se furtivamente. o ferreiro. pôs-se a rir. Terminados os curativos. Martino. — Depois. confiante. Aldo Meyer viu restaurada temporariamente a sua autoridade em Gemello Minore. passado um instante. que história! Que doce. enrolou de novo os cobertores em torno do corpo do ferreiro e voltou-se para a mulher. Meyer tornou a auscultar o paciente e a contarlhe o pulso. dulcíssima história! Depois. em voz baixa. Seus olhos estavam fechados e a respiração era curta e ruidosa. — Ó doces anjos. Carregaramno até a casa de Meyer. Tinha um dos lados completamente paralisado — a perna e o braço inúteis.— Ó Deus! — exclamou. Quando a esposa de Martino tentou aproximar-se ela largou calmamente a tigela e conduziu-a de volta ao seu canto. farei com que o levem para sua casa. ao ver a extensão e a profundidade das queimaduras de seu corpo. enquanto a esposa de Martino o observava. e os aldeões se aglomeravam dentro da casa. o Dr. com o sol a pino. O corpo vigoroso do ferreiro foi enrolado em cobertores e colocado numa prancha na cozinha de Meyer. o rosto repuxado para os lados num ricto de medo e surpresa. que chorava em seu canto. assistido por Nina Sanduzzi. e o médico tratava agora dele.

com aguçado senso de humor. desdenhosa. e dê de comer a seus filhos. Havia piedade e desprezo em seus olhos negros e inteligentes. alçando os ombros. calmamente. — Ele tem seis filhos. como uma boa mulher. doutor? O senhor não o deixará morrer? — Ele é forte como um touro — respondeu.. esta é a moda antiga! Nina Sanduzzi fitou-o.. — Auxílio público! — retorquiu Nina. e.. com fria amargura. — Antes. receberá seu marido de volta. eu costumava ter uma porção de respostas. Apoderar-se-ia de algumas caixas de esmolas do Padre Anselmo. Nina perguntou. — Mas ele os tem — insistiu ela inflexível. abruptamente: — O senhor acredita de fato no que lhe disse? Ele viverá? — Viverá — respondeu Meyer. Quando se aproximou de novo do médico. Meyer ouviu-a gritar com os que estavam parados junto à porta. Queriam continuar a viver à moda antiga. beijando-as e invocando os santos para que abençoassem o bom médico. Bem. Ao voltar-se para o seu paciente. Meyer. não é verdade. . dizendo-lhes que fossem cuidar de seus afazeres. — Não morrerá. Ele compreendia essas coisas. — Uma dúzia de entrevistas e cem fórmulas impressas para se obter um quilo de pasta! Que espécie de resposta é essa? — É a única que conheço hoje em dia — replicou Meyer.. Ela tomou-lhe as mãos. — O senhor sabe o que Giacomo Nerone teria feito. Meyer desembaraçou-se bruscamente: — Vá agora para casa.— Ele não vai morrer. mas ninguém queria ouvi-las. não sabe? Iria ele mesmo para a forja e começaria a trabalhar. — Quem os alimentará. Subiria até a vala e pediria à condessa dinheiro e trabalho para a mulher de Martino. Nina Sanduzzi tomou-a pelo braço e conduziu-a para fora do quarto. — Tem filhos demais — disse Meyer. Mandarei chamá-la. Bateria em todas as portas e imploraria ou obrigaria essa gente a ajudar. Eles não morrerão de fome. mais tarde. agora que ele não pode trabalhar? Meyer deu de ombros: — Há o auxílio público. se a sua presença for necessária. — Mas jamais tornará a ser útil a si próprio ou a ela.

de modo que encontraram uma razão que servia a todos: Giacomo era um colaboracionista. ele veio ver-me. e ele se voltou. envergonhado e impotente. E. uma terrina de sopa e duas mãos para trabalhar quando o homem da casa estava doente. os amigos da liberdade. Aquela calma acusação o irritou. Sabia que o senhor estava metido na coisa. Martino. da condessa. áspero. um homem que amava os fascistas e os alemães! Os senhores eram os libertadores. Procurou fazer muita coisa. como se apenas recordasse tranqüilamente fatos familiares. Giacomo tampouco o odiava. — Não havia apenas uma razão. fazendo-o explodir: — Aí é que está toda a maldita complicação deste país! Por isso é que ainda estamos com cinqüenta anos de atraso.. Mas os senhores não podiam admiti-la nem mesmo um para o outro. — E qual foi ela. e caminhou para a porta que dava para o ensolarado e quente jardim. então? — desafiou-a ele. — Mas nenhum dos senhores jamais disse a verdadeira razão pela qual ele foi morto. Não podia ouvir jamais uma criança chorar. esse seu Giacomo — observou. Após um momento. não se pode construir um mundo melhor baseado numa travessa de pasta e num balde de água benta. — E o senhor assinou um documento dizendo que ele havia sido legalmente executado. — Tampouco se pode construí-lo por meio de balas. em relação ao resto da Europa. Antes de morrer. Não nos organizamos. dottore.. o que é que têm para mostrar! Martino não pode mais trabalhar. de Lupo. Trouxeram-nos a democracia. E tudo que Giacomo nos trouxe foi um pedaço de pão. agora. — Era um homem notável. Não o odeio. Ele sabia o que iria acontecer. — Foi por isso que o mataram. dottore mio. hesitante. os irmãozinhos do mundo inteiro. Nina Sanduzzi acompanhou-o e pôs-lhe a mão na manga do paletó. Havia vinte. Os senhores conseguiram o que queriam. Havia a razão de Martino. Meyer. conciso. foi um dos que fizeram parte do pelotão de fuzilamento. segundo me lembro. Mas sabe o que ele me disse? "Esse é um homem. dottore. Quem irá alimentar sua esposa e seus filhos? Não havia resposta para aquela lógica brutal. depois de ser devidamente julgado — lembrou ela sem ódio na voz. e também a sua. mas é infeliz .Sabia como as pessoas ficam amedrontadas. do Padre Anselmo. Mataram Giacomo. — O senhor pensa que eu o odeio. de Battista. Nina.

. boa vontade e compaixão não conseguiam estabelecer pleno contato com os seus semelhantes. esse é o homem que será bom para você e para o rapaz.. Meyer voltou-se e fitou-a: — Uma carta? Onde está ela. em voz baixa. Rasgou alguns. Ele vive só há demasiado tempo. você me mostrará os papéis? Ela abanou a cabeça. Eu. Nina. Se quiser ajudá-los. Aldo Meyer. Não obstante. Aldo Meyer agarrou-a com violência pelos ombros. Havia uma fortaleza de granito naquela mulher que não sabia ler. não conseguia enfrentar. e ele será bondoso para com você.. Ele estava vencido e o sabia. — Preciso ver esses papéis. penetravam diretamente na intimidade do seu próximo e eram lembrados com amor depois . nunca aprendi a ler! — acrescentou. tudo isso são coisas vazias. pelo espaço de vinte anos. num gesto de completa recusa: — Giacomo também me disse uma outra coisa: "A gente não deve nunca negociar com o cadáver dos outros".. O que o intrigava é que não havia raízes para aquilo em sua origem de camponesa. Procurou organizar e reformar. amassou outros. Nina! Preciso vê-los! Você não sabe como isso é importante! — Seis crianças são importantes.. enquanto outros. que passara a vida toda a estudar. poderemos conversar a respeito dos papéis. mas não compreende que. Eu devia entregá-la ao senhor depois da morte dele..porque jamais aprendeu realmente o que significa amar e ser amado. — disse. Quando Paolo era pequeno. como se fizesse uma revelação vergonhosa. sem esforço aparente.. no começo. Eu sou feliz porque tive você para me ensinar. Se chegar uma ocasião em que você verificar que um homem lhe é de novo necessário. uma reserva inviolável de sabedoria que ele. por que razão certos homens de talento. do mesmo modo que Nerone. um dia ele apanhou os papéis e misturou tudo.. Quando eu morrer. e ele não podia admitir que ela o tivesse adquirido de Giacomo Nerone. — Se eu os ajudar. Mais tarde. guardava a chave de um mistério que o desafiara a ele. sem pedir nada em troca. sem amor. enrubescendo. vá procurá-lo." Ele também escreveu uma carta para o senhor e a colocou entre os seus papéis. desesperada: — Eu tinha todos os papéis guardados no armário. despertando apenas contendas e ridículo entre aqueles que procuravam ajudar. o senhor os ajudará. mulher? Onde está. pelo amor de Deus? Nina Sanduzzi abriu as mãos. — E uma mulher cujo homem não pode mais trabalhar. ela.

a . dizer-me uma coisa. clássico. Direi à mulher de Martino. deixou-o rapidamente. Nina. a fim de entregar-se aos velhos folguedos pagãos. era trigueira e jactanciosa. No verão minguava. era escura. os rapazes e as moças da aldeia se encontravam secretamente.de sua morte? Nos papéis de Nerone. que se podia ouvi-lo lá em cima. O rio tinha um nome e três faces. apanhando cascalhos da água e atirando-os nos arbustos da margem oposta. Mas o nome continuou e. às vezes. Dito isso. dottore. convertendo-se num leito crestado. — O senhor é um bom homem. Num gesto impulsivo. e Paolo Sanduzzi. tomou a mão do médico e beijou-a. Falarei com ela a respeito de Martino e veremos o que se pode fazer. a dormitar em tranqüilas lagoas sob a vegetação das margens. Agora. — O quê. Na primavera. na aldeia. — Você poderá. com suas margens franjadas de geada e montes de neve. Por isso encolheu os ombros. Um sorriso iluminou-lhe o rosto calmo. chamadas dríades. foram todos embora. A face do rio mudava com as estações. fria e sinistra. muito antes de Cristo visitar Roma em companhia de São Pedro. No inverno. O nome era Torrente dei Fauno. e disse-lhe: — Vou jantar esta noite com a condessa. Seria melhor que não me pedisse. também. rindo-se dos caprípedes jovens e perseguindo as jovens dos bosques. tomando-lhe o pulso fraco. tornava a secar. Mas só podia obtê-la de acordo com os termos por ela estipulados. resignado. e ouvindo-lhe o rijo coração de camponês a lutar pela vida dentro do peito escalavrado. dottore. cheio de pedras esbranquiçadas. Não se deve deixar ninguém amedrontado durante muito tempo. talvez lhe fosse possível ter a resposta que não tivera coragem de perguntar a Nina Sanduzzi. ele próprio. exibia o seu rosto gentil. o que foi uma pena. se eu lhe pedisse para casar comigo? — Diria o que lhe disse a primeira vez. urrando tão alto com as águas do degelo. Depois que a igreja foi construída. irregular. Antes da chegada do outono. os faunos costumavam divertir-se ali. dottore? — Que é que você diria. que se assemelhava. pois o vale ficou insípido sem eles. transformando-se em estreito e claro córrego a cantar sobre as pedras. porque em outros tempos. e Aldo Meyer tornou a voltar para o seu paciente. Paolo Sanduzzi estava junto do rio.

sentia aquele encantamento a agir sobre ele. distraído. rosto pequeno. de uma palavra ou de um toque de mão. sentada numa pedra a balouçar as pernas na água. às vezes. Lançou à água. perturbadoras. entre agradável e sinistra. mesmo. Está na casa do médico. suas ruas cheias de automóveis cintilantes e suas calçadas cheias de moças que se vestiam como princesas. Ao contornar uma curva. Deu pão com queijo a todos nós e nos mandou brincar. Na aldeia. Era magra. zombeteiro. cujo sorriso. Ela partiu cuidadosamente o queijo em pedaços iguais e deu-lhe a sua . sequer. o enfeitiçava como as bruxarias que a velha Nonna Patucci fazia para as moças. Mamãe está chorando. sentiu prazer em vê-la. Teve um ataque e queimou-se na forja. naquele momento. a fim de atrair os seus namorados. vagamente. Rosetta! Depois. longe da árvore patibular e do inglês cujo riso era como água a borbulhar numa negra panela. um formigamento sob a pele. despertava nele paixões estranhas. sentia-se feliz em achar-se ali. de cabelos escorridos. um ano mais jovem do que ele. — Ei. o fazia. a filha de Martino. aproximou-se e sentou-se ao lado dela. Fez-lhe um aceno indiferente com a mão. mas. Paolo Sanduzzi ignorava-a intencionalmente. uma última pedra. sem necessidade. uma imagem opressiva gravada em suas pupilas. — Meu pai está doente. Quer um pedaço? Estendeu-lhe um pedaço de pão caseiro e uma fatia de queijo de cabra. sentir-se acanhado como uma criança e. outras vezes. Paoluccio! Ergueu os olhos e viu Rosetta. Era como se o pintor possuísse a chave de sua vida: a chave para um passado que o envergonhava e para um futuro que ele só podia ver. alerta. o ferreiro. uma voz estridente o chamou: — Ei. Mais cedo ou mais tarde. única peça que usava sobre o corpo.um fauno. O médico diz que ele viverá. enfiou as mãos nos bolsos e pôs-se a descer pela margem do rio. como uma visão de Roma com suas igrejas e palácios. e seios em flor sob o vestido de algodão. sobre a pedra. pequenina. — Ele vai morrer? — Não. Naquele momento. Jamais se sentira tão amedrontado em toda a sua vida — e ainda continuava assustado. — Estou com fome — respondeu Paolo. arrastá-lo-ia de volta ao inglês. A visão.

— O inglês diz que sou belo. Ele pinta e eu fico olhando. — Isso é idiota. deixou que ela ali ficasse. E não belos. como um homem costuma fazer diante das mulheres curiosas. Passou o braço magro em torno da cintura do rapaz e recostou a cabeça em seu ombro nu. Só as mulheres são belas. — Você também tira a roupa? A pergunta o apanhou desprevenido e ele respondeu. Decorrido um momento. Paoluccio? — Com o inglês. — Mas foi o que ele disse — respondeu. movendo a cabeça com ar experiente. ao sol. sério. — Não contarei. Só as mulheres! . ela perguntou-lhe: — Onde tem estado. — Trabalhando. Prometo. — Eu sei — disse ele. como lhe agradou. na defensiva. em Nápoles. — O que quer dizer "posar"? — Fico parado e ele me pinta. não obstante. áspero: — Isso não é de sua conta. E lá ficaram a mastigar em silêncio. E. com ar de indiferença. agradável. ela ficou zangada com ele. não tira? Se você é modelo. a refrescar os pés na água. que ele amava a beleza e gostava de me olhar! Na sua estranha maneira de elfo. — Que espécie de trabalho? — Carrego as coisas dele. Os rapazes são simpáticos ou desagradáveis. — A Teresina me disse que. — Mas você tira. como a estátua de mármore feita por Michelangelo. Às vezes. Rosetta — respondeu. — Não conte a ninguém. embora lhe parecesse. existem moças que tiram a roupa para que os homens pintem elas. eles não compreenderiam.parte. tem de tirar. — Fazendo o quê? Ele deu de ombros. — Isso é um segredo. O gesto o encabulou. — Disse que eu era belo. Tirou os braços da cintura dele e voltou-se para olhá-lo de frente: — Agora sei que está mentindo! Os homens não dizem essas coisas. ele me pede para posar para ele.

até o juncal divisório e as águas cinzentas do paul. Eram como Esaú e Jacó — mas Esaú desfrutava do direito de primogenitura: os . quando ele tentou resistir. ele fora enganado. de uma das velhas famílias de Fenland que conservara a sua fé intata desde o tempo da primeira Elizabeth até o último Jorge. Eu o amo de verdade. que dali deveria surgir uma imitação de homem. ele estendeu-lhe a mão. Pela primeira vez em sua vida a forma desse passado se lhe apresentava clara — e dela surgia o futuro inevitável e idêntico. Fora batizado com o irmão. Embora a contragosto. amplos e verdes. Não como uma estátua. Vamos passear e eu lhe mostrarei. levantando-se de um salto e estendendo a mão para ele. ela tomou-lhe a cabeça entre as mãos e disse. a beijá-la. com ar grave: — Eu o amo. a fim de compartilhar o velho segredo que as dríades contavam aos faunos que dançavam. e porque é assim que os namorados fazem. Ao sentir. de rosto e formas idênticos. no momento do cego acasalamento de um homem e uma mulher. Ela a apanhou e puxou-o. — Eu também a amo. Mas aí terminava a identidade e começava a lenta desarmonia. através da camisa. também. Nicholas Black lançava o olhar sobre a extensa configuração de seu próprio passado. Desde o começo. — Agora. depois caminharam rio acima. Nascera com um irmão gêmeo. Além disso. através da água clara. Nascera católico. Do alto platô que se erguia atrás da encosta da montanha. tenho um segredo. desde o oculto princípio fetal em que os elementos determinantes haviam sido traçados por um poder qualquer que decidira. E pôs-se. o contato dos seios de Rosetta. Paoluccio. O que nascera primeiro se tornou forte e trigueiro. leve-me para passear! — Por quê? — Porque nós nos amamos. ele refletiu que aquilo. e recebera as mesmas bênçãos que ele.Passou-lhe o braço pelo pescoço e colou os lábios aos dele e. era agradável. agarrou-o com mais força. como os rebentos de uma árvore. o segundo. na capela solarenga de cujos degraus os gramados desciam. metendo-se por baixo dos verdes arbustos. pálido e enfermiço. Decorrido um momento. que o precedera de uma hora à saída do ventre materno. afinal de contas. Rosetta! — Sinto-me contente! — exclamou. até que ele ficasse de pé.

o poder era colocado em suas mãos — o poder de fazer a outro o que não conseguira fazer consigo mesmo: um homem. Estava envelhecendo. ele ficava preso a um leito de hospital atacado de febre reumática. Aquele era um momento estonteante. Amadureceria na ociosidade. Qualquer talento que pudesse ter seria abafado pela luta brutal pela existência. procriaria com demasiada freqüência e viveria a esmo na maior pobreza. Na escola. toda a fraqueza. Ao fazê-lo. chegando a atingir a dignidade. após um escândalo abafado. Com o rapaz sob seus cuidados. ficou para trás. que. A paixão despertava mais lentamente e era mais fácil de ser dominada. na segurança da sala de costura e da biblioteca. ainda havia esperança de que pudesse tomarlhe emprestada alguma energia e encontrar dignidade no afeto. de elevação quase divina. Sua crença naufragara diante do mais difícil de todos os mistérios: o de que um Deus justo pudesse criar monstros e ainda esperar que vivessem como homens. A Igreja o censuraria . E agora. as pescarias. ao chegar a mensagem: "Desaparecido. talvez pudesse reconstruir sua própria vida. chegando com um ano de atraso a Oxford — e enquanto o seu irmão gêmeo partia para o deserto como oficial de artilharia. Ele havia sido logrado: logrado por Deus. subitamente. pelo pai. Seu coração se empedernira nos breves amores do mundo do vício. em Nicholas Black havia apenas uma beleza epicena. e a amargura oculta começou a crescer. os longos passeios a cavalo nos verões salpicados de sombras. o outro. Mais tarde. concedendo-lhe uma pequena pensão anual para que se mantivesse longe dela. exceto quando era estimulada pela vaidade e pela competição. Toda a masculinidade pertencia ao que nascera primeiro. no talento e na ação. em Londres. enquanto Jacó ficava ao abrigo da casa. gerado no ventre de uma prostituta de aldeia. conseguiria uma espécie de paternidade que daria à sua vida uma disciplina e uma direção que jamais tivera. nobre em sua natureza. morreu a última esperança. a suave sutileza de uma mente voltada demasiado tempo para si mesma. julgado morto". pelo irmão gêmeo morto. porém. Um deles possuía todo o vigor. um solitário. Sua vida era tão predizível como a de milhões de outros jovens nas aldeias sem trabalho da Itália meridional. pela vida. Enquanto seu irmão vivia. o aconselhara a deixar a casa. desde então. Paolo Sanduzzi era filho de um homem considerado santo. casaria demasiado jovem. Tornara-se.esportes de campo. a compreensão de um amor mais puro do que qualquer outro que já experimentara.

Nicholas Black era um artista medíocre. talvez Nicholas Black pudesse ser bem sucedido. justificando sua própria existência e a de seu mestre. e o sonho de achar-se um dia sentado num gabinete e ouvir um inimigo dizer: "Vossa Excelência. não obstante. fecundas e famintas como coelhos. Era tarde e não havia ainda almoçado. Mas. se lhe dessem oportunidade e educação. isso seria um triunfo que ficaria além de qualquer cavilação. mas ainda a sorrir. do que Nicholas Black naquele platô ensolarado da Calábria.enquanto vivesse e o absolveria antes de morrer. para Nicholas Black. em suas camisolas de dormir. morta e já condenada. senhor primeiro-ministro". Mas. a reação de Anne Louise de Sanctis? E de Aldo Meyer. e não se importou. e do macilento clérigo que vinha pesquisar o passado de Giacomo Nerone? Sorriu ao imaginá-los boquiabertos. Qual seria. Lembrava-lhe um velho grafitto em que se via um asno crucificado a representar Cristo. Procurou um título e encontrou-o quase imediatamente: O sinal da contradição. Para os críticos. mas estava embriagado pelo vinho entontecedor da expectativa. Se daquela argila camponesa pudesse modelar um homem perfeito. com os seus segredos escritos em seus olhos e em seus rostos. mais lhe agradava. e homens mais nobres tinham tido sonhos mais baixos. menos estranha do que os triunfos e as vinganças com que sonhavam os outros homens: impérios financeiros suficientemente poderosos para esmagar qualquer oposição. se o tirassem da aldeia. da superstição e da pobreza. diante dela. sonhos de ópio. Onde seu pai falhara. gracejo indecente feito por um labrego galhofeiro. uma obra-prima fora do alcance da maldade humana. mas. a devorar as últimas verduras de uma terra empobrecida. A condessa deveria estar encerrada em seu quarto barroco e ele poderia entrar com o seu quadro na villa sem despertar demasiada atenção. O Estado arcaria com o peso de uma dúzia de reproduções dele. Era uma estranha ambição aquela. pela primeira vez. Quanto mais pensava nele. vítima . sonhos de mulher. diante de seu trabalho. Esperava muito daquela tela. para fazer homens ou afundá-los na obscuridade. talvez pudesse vir a ser um grande homem. e seu sucesso seria uma esplêndida negação das crenças que havia muito rejeitara. o símbolo tinha um novo significado: a juventude pregada à cruz da ignorância. A cada homem a sua própria danação. onde a Igreja falhara. poder na imprensa. A aldeia estaria preparando-se para a sesta.

estática. da época e de suas tiranias. . narcotizada.

mas um cumprimento agradável. . e vendê-las pelo dobro do preço. Encontravam-se ambos de pé no amplo terraço lajeado da villa que dava para o vale. estavam interessados em uma contradição: os alegados milagres de Giacomo Nerone. Meredith. por se tratar de laranjas cheias de sumo. lentamente.6 Monsenhor Blaise Meredith e Aurélio. pão sobre a mesa e um litro extra de azeite para a panela. em suas casas. quando fumavam ou mascavam tabaco. — Isso é má teologia. um balde de água no meio do assoalho e os homens cuspiam nele o sumo do fumo. indicando os vultos arqueados que caminhavam por entre as laranjeiras — tive de comprá-los com o meu dinheiro. Há apenas um ou dois anos essa gente ainda aguava suas árvores com um regador. Para além do desaguadouro. mas valem cada lira que gastei. por exemplo.. Entre os mais velhos. — ajuntou.. mulheres de cestos à cabeça carregavam pedras destinadas à construção de novos terraços de vinhas. De repente há trabalho. se contraiu num sorriso. alguns ainda se negam a reconhecer que o meu método é melhor do que o deles. é uma espécie de milagre. outros homens trabalhavam na instalação de novas comportas destinadas a controlar o fluxo da água que corria para outras plantações fora do domínio do bispo. magro e inteligente. Junto ao muro da pequena represa. No fim. bem como terra para ser colocada atrás das pedras. meu amigo. e Meredith foi levado à irônica reflexão de que aquilo era um milagre tão grande como qualquer dos que eram narrados em sua pasta de couro: terra estéril que. pequenas e diligentes. Eles não conseguem compreender como foi que isso aconteceu e. eles verão! — O senhor me surpreende — disse. Só os convencerei quando obtiver três laranjas em lugar de apenas uma. Eram como formigas. sobre uma encosta cinzenta de terra não-lavrada. onde os trabalhadores se moviam lentamente de um lado para outro. bispo de Valenta. tornava a ser de novo fecunda graças à vontade criadora de um homem. Para essa gente. Aqueles vaporizadores. Tinham.. com franqueza. têm a astuta suspeita de que existe uma armadilha oculta em alguma parte. mesmo agora. Foi o que disse ao bispo cujo rosto.. vaporizando as árvores novas com aparelhos de modelo americano que traziam presos às costas.

o milagre do desígnio que mantém as incessantes rodas do universo a girar em torno de seus eixos. Sua Excelência Reverendíssima encolheu os ombros e fez um gesto com as mãos expressivas: — Paulo era um fazedor de tendas e trabalhou em sua profissão a fim de não constituir um fardo para a sua gente. Se a razão e a revelação têm algum significado. pensativo. eu gostaria de ser lembrado como tendo sido um bom sacerdote e um bom agricultor. meu amigo. e imagino que devia ser um bom carpinteiro. incisivo. . mordaz. um novo sinal. enquanto lançamos o seu corpo a um monte de lixo. em torno do pescoço. batendo com a mão no pesado volume de depoimentos — senão que essa gente exige maravilhas no céu e milagres na terra? — E os conseguem. não obstante. — Não se pode cortar um homem pelo meio e polir-lhe a alma. pois constitui um obstáculo à salvação. Quando não se sabe de onde virá a nossa próxima refeição... Depois de morto.. — Tenho pensado. por que razão os missionários são. os astrólogos e as sessões espíritas. com ar grave. Mas será o bastante para todos? — Que é que o senhor quer dizer? — Há milagres em toda parte. teria feito dele um bípede que carregaria sua alma num saco. muitas vezes. um fruto de segunda classe.— Por quê? — Que é que as laranjas têm a ver com a alma humana? — Tudo — respondeu o bispo. Suponho que o próprio Todo-Poderoso dificilmente teria algo a dizer em contrário. são defeitos no plano divino das coisas. em geral. mediante o emprego de coisas materiais. é o de que o homem realiza a sua salvação no corpo. A miséria desnecessária é um defeito ainda maior. O próprio Cristo era carpinteiro na Galiléia dos gentios.. Que é que tudo isso significa — ajuntou. Mas. volta-se para as quiromantes. Uma árvore maltratada. Meredith acenou com a cabeça. melhores sacerdotes do que os seus irmãos que se encontram no centro da cristandade. às vezes — lembrou-lhe o bispo. Se não o obtém do Todo-Poderoso. — Basta para Vossa Excelência e basta para mim. o povo deseja ainda um sinal. como é que se pode pensar ou preocupar-se com a situação de nossa alma? A fome não tem moral. em nosso derredor: o milagre de uma laranjeira. — Isso basta — atalhou Meredith. Se o Todo-Poderoso quisesse que assim fosse.

. em geral. no caso de um novo taumaturgo. somente três apresentam certa . por meio da razão. somente as desordens orgânicas profundamente estabelecidas. do certificado de um médico local.— É. temos apenas o relato de testemunhas oculares. Mas o paciente não recebe um certificado final de cura senão dois anos mais tarde. a sorrir. como constituindo terreno propício a manifestações tidas como milagrosas. aplicar a alegados milagres os métodos médico-legais do século XX. Examinar. Blaise Meredith tornou a adotar suas maneiras afetadas e pedantes. aplicar o código do direito canônico ao legislador que construiu o universo. Tal método nos permite dizer que. Criou-se um departamento médico e estabeleceu-se uma série de testes que estão de acordo tanto com o conhecimento médico como com as rígidas exigências da Igreja. acompanhado. não o fazemos. mas. Mas. talvez. Pode muito bem ser um milagre. — E acrescentou. por exemplo. são aceitas." — E as provas no caso de Giacomo Nerone? — Dos quarenta e três depoimentos que li. — Esse é o problema de todas as causas. No caso de Lurdes. esses testes não podem ser aplicados. essa cura se verificou de todo contrária ou mediante a suspensão das leis naturais conhecidas. trata-se de método sólido. no estado em que se encontra a ciência médica. as alegadas operações da Onipotência. verifica-se que é muito difícil prová-lo. exames clínicos e patológicos. Se alguém se apresenta como tendo sido curado. os criam para si próprios — redargüiu Meredith. Todas as doenças de origem histérica ou neurológica são descartadas. O departamento examina o paciente segundo o método aprovado: raios X. tranqüilo: — Talvez seja menos perturbador pensar em Giacomo Nerone. Um sofredor chega levando consigo uma história clínica completa.. Sua Excelência Reverendíssima fez um grave aceno de aquiescência com a cabeça e disse. Na melhor das hipóteses. em atestados médicos. pensando bem. Podemos aceitá-lo devido unicamente ao peso das provas apresentadas por pessoas leigas. Minha tarefa consiste em não estar satisfeito. então. baseado. Ora. o departamento médico torna a examinar o paciente e fornece um atestado provisório de cura. "Até esse ponto. isso é bastante simples. — Não está satisfeito com os milagres de Giacomo Nerone? — Eu sou o advogado do Diabo. às vezes. no sentido legal exigido pelo direito canônico. arrependido: — É uma missão curiosa. de prognósticos familiares.

para os pesquisadores honestos que se acham fora dela. quando o conhecimento médico era limitado e as normas referentes a provas eram muito menos severas. mesmo essas. — Concordo com Vossa Excelência Reverendíssima — disse Meredith. por parte do papa. contraindo. — Mas não vejo em quê uma opinião teológica manifestada por uma minoria possa interessar. — E que sejam venerados muitos santos cujos registros sejam tão obscuros a ponto de que sua própria existência seja duvidosa? — Perfeitamente. como diante de um gracejo. a ponto de obscurecer a rígida simplicidade da fé essencial. antes que possamos sequer pensar em aceitá-las. que não eram de modo algum milagres. Na minha opinião. na biologia e no registro histórico de milagres. essa é uma proposição dúbia. Ambos são passíveis de erro — e o papa só é infalível na interpretação do testemunho da fé. Sua Excelência —. glossários e hipóteses. diria eu. E cada novo santo é uma adição ao calendário. É possível que muitos milagres. geralmente. com frieza. não apenas para os fiéis. porque acho que isso ergue barreiras entre o pastor e as almas de que ele está querendo aproximar-se. o bispo sorriu. Deploro-o grandemente. o sobrolho. — Estive lendo. também.. Meredith sentiu-se irritado: — Disse acaso algo divertido a Vossa Excelência? — Perguntava a mim mesmo o que acontecera em outros tempos. intrigado. recentemente — disse.. a segunda é a do prefeito de Gemello Maggiore. Mas. tenham sido aceitos? — É muito provável. imposta a todos os fiéis. A canonização baseia-se. Meredith. — fez uma pausa e prosseguiu em seu tom enfático de advogado do Diabo — mesmo essas exigem um exame mais severo. Um é a cura de uma senhora idosa dada como sofrendo de esclerose múltipla. mas. Nada pode acrescentar a ela. por meio de comentários. que afirma ter sido curado de um ferimento na espinha ocorrido durante a guerra. Deploro que tal aconteça. e a terceira é a de uma criança que já se achava nos últimos estágios da meningite e que sarou depois da aplicação de uma relíquia pertencente a Giacomo Nerone. É a tendência: a tendência de complicar tanto as coisas.conformidade com as exigências canônicas. Para sua surpresa. — Não é a opinião que me preocupa. que certos teólogos estão de novo manifestando a opinião de que a canonização de um santo constitui uma declaração infalível. . Mas não vejo aonde Vossa Excelência quer levar-me.

possa tropeçar no orgulho e arruinar tudo o que espero fazer. como um roçar. — Assim como eu duvido dos milagres de Giacomo Nerone? O bispo não respondeu imediatamente. a quem vim a amar e a confiar de todo o coração. — O senhor chegou à minha vida num momento de crise. um sinal. um homem que se encontra à sombra da morte. mas. Mas. mas não existe prece no meu pranto. Sinto-me solitário e.— Vossa Excelência acredita em santos? — Acredito em santos como acredito na santidade. Nós ambos buscamos. Seu rosto estava anuviado. em meio à tranqüilidade que reinava sobre o vale. mas de disciplina. mas sei que existe o perigo de que. também. ao seguir o meu próprio caminho.. Não se trata de questões de fé. como diante dessa questão de Giacomo Nerone. mas seus olhos. à esperança e à caridade. as laranjeiras verdes e a plácida água onde os homens trabalhavam na instalação de comportas. perplexo. Existem muitas outras. Meredith — disse.. receoso de tê-lo ofendido. como se estivesse mergulhado numa luta íntima. Quando vem a dor. de abóboras secas. A escuridão é terrível e sinto-me tremendamente só. Julgo que estou certo. — Sinto a vida escoando-se de mim.. Tenho dúvidas quanto à Sua presença em meio à confusão e vozes em conflito. Mas acredito. cheios de grande bondade. não obstante.. sob o sol. . Disse-lhe que não desejo um santo. que pode suspender as leis daquilo que Ele próprio criou. Devo obediência ao papa. Agora. Acredito em milagres como acredito em Deus. atônito e preocupado. Sou um bispo da Igreja. no silêncio. Procuro entregar-me à fé. Eu sou. — Tenho refletido muito nestes últimos dias.. atitude. O senhor também está desorientado e receia o dedo de Deus.. afastou-se uns passos e ficou a olhar. discordo de muita coisa que os meus colegas de Roma dizem e fazem correntemente. para que todos os homens de boa vontade possam ler.. eu me encontro sobre um alto cume. neste momento. mas as palavras são vazias.. que a mão de Deus escreve de maneira simples e clara. Vejo em sua pessoa um irmão.. despidos. política.. lentamente. Não vejo outros sinais senão os símbolos da contradição. uma luz na escuridão que nos aflige. Seu rosto estava ainda sombrio. e se Deus o quiser? Essa é apenas uma das questões. Decorrido um momento. o bispo voltou para junto dele. as oliveiras cinzentas. O senhor tinha razão quando disse que eu receava o dedo de Deus. Somente medo. até a cintura. não raro. Ajoelho-me e digo o meu ofício e o rosário. choro. aparece o senhor. Meredith observava-o. — Fiquei acordado durante a noite — disse Meredith.

— A graça é concedida.. Mas Meredith permanecia como que petrificado. — Não me atrevo! — O senhor o fará — disse. sem saber se confiei demasiado ou se não acreditei o quanto devia. — Se elas falharem. bispo de Valenta. indo falar com os . — Por que não? Nega. tomado de medo. seu amigo. — São costas fortes. a terra ensolarada. mas por mim e por todos os pobres-diabos como eu. e não obtida por merecimento! Concedida a mendigos.. Vossa Excelência coloca uma cruz nas minhas costas. a fitar. lhe peço. brutalmente. mostrar a virtude de Teu servo Giacomo Nerone. então. o bispo. o bispo o deixou. por mim! — Não! Não! Não! Era lamentável o desespero do homem. lançando um grito. — E se elas falharem. — Não posso fazê-lo! Não me atrevo! — Se não pelo senhor. nós dois. por meio de minhas orações. Alegra-me que Vossa Excelência Reverendíssima ore por mim.. — Não pela sua pessoa. e não comprada com a virtude! — Não me atrevo a pedir tal coisa — disse Meredith elevando. Deveríamos pedir um sinal. Nosso Senhor!" — Não! — exclamou Meredith. mas o bispo insistiu. — E. erguendo. mais fortes do que supõe. — Que sinal? O bispo fez uma pausa. porque eu.. Restaura-lhe a saúde e livra-o por mais tempo das mãos da morte. faça-o. muito solenemente. — Oro por nós ambos — respondeu Aurélio. fazer esta prece: "Se é Tua Vontade. ao longe. mostra-á no corpo de Blaise Meredith. — balbuciou Meredith. depois. mediante Jesus Cristo. Dirá tais palavras mesmo que elas nada signifiquem.. E o senhor talvez possa carregar nelas o Cristo através do rio. a voz. afinal. Decorrido um momento. acaso. em tom bondoso. o rosto transtornado. cheguei a uma decisão.. disse-lhe: — Deveríamos. meu amigo. a onipotência? — Acredito nela! — E a misericórdia? — Também! — Mas não para o senhor? — Nada fiz para merecê-la. ó Deus.mas minha vontade é um caniço partido em meio ao vendaval do desespero. encontrar-me-ei em meio a uma escuridão maior ainda.

A complexa e aterrorizada relação existente entre o Criador e a criatura é reduzida a uma fórmula de fé e a um código de conduta. . com os seus semelhantes e com o seu Deus. Agora. deveria dar um passo além das formas e das convenções e estabelecer uma relação direta. é uma rendição de corpos e uma pequena morte na cama. em todas as suas formas e graus. Seus axiomas são de fácil aceitação. a disciplina. Aquele era o momento que ele. pessoal. mas que jamais compreendera inteiramente: o momento em que as ásperas conseqüências da crença se tornavam. estéril. se um homem puder render-se por completo à vontade do Criador. Observara as regras durante toda a vida — exceto uma: a de que. permaneceria para sempre.jardineiros que vaporizavam as laranjeiras. por temperamento. segundo essa mesma crença. poderá viver e morrer em paz — como um repolho ou um santo! Meredith era. uma rendição do espírito a uma morte maior. afinal. como então se encontrava: solitário. tal como é ela expressa pela vontade da Igreja. Se não se submetesse. não conseguia decidir-se a pedir um favor ao Todo-Poderoso. havia muito. um conformista. monges e freiras. Suas disciplinas são severas. e com quem. se mantinha numa relação de filho para pai. firmes como os tijolos de uma casa bem construída. em quem dizia acreditar. claras. não importava o nome que desse a isso. Uma relação de caridade — que é uma corruptela latina que significa amor. mais cedo ou mais tarde. Não pedira favores a ninguém — porque pedir um favor constitui uma rendição de nosso orgulho e de nossa independência. Seus silogismos são empilhados uns sobre os outros. desvalido. mas a gente se move livremente dentro delas. Assim. receava. Para os sacerdotes. mais rígida. a lógica é mais meticulosa. há um consolo singular na lógica cerrada da fé. mas a segurança do corpo e do espírito é também incomensuravelmente maior. que é o momento de união entre Deus e o homem. Suas promessas são tranqüilizadoras: se a gente se submete à lógica e à disciplina. como acontece dentro dos limites de uma família bem-educada. Para um homem nascido na Igreja. E essa era a razão do seu terror. por toda a eternidade. está naturalmente palmilhando o caminho da salvação. E o amor. Jamais em sua vida Meredith se entregara a quem quer que fosse.

mantinha-se dentro das convenções. E era essa precisamente a intenção do bispo. uma vez escrita. somos. quando escrevia em caráter oficial. sobre o selo de sua diocese. entre dentes. um fardo para o nosso rebanho. Os que pouco o conheciam — mesmo em se tratando de criaturas vivas como Marotta — estavam sujeitos a equivocar-se. em sua própria sede episcopal. espessamente revestida de uma retórica meridional. clérigos. aquela tarde. até mesmo uma amolação. Fora educado para a diplomacia e sabia que uma coisa. Trata-se de um homem enfermo. na cidade dos papas.. de sua astúcia. Era a maneira pela qual o Vaticano os impelia para cima: um bispo. quando escrevia para Roma. justamente quando estava realizando coisas em suas próprias dioceses.. e. bispo de Valenta. adotava estudados circunlóquios. Nós. era uma força que se tinha de levar em conta. e preferia antes ver uma árvore crescer a escrever um tratado sobre ela. achava-se em seu frio e austero gabinete de trabalho. eram de caráter particular. Assim. era. escreveu: ". Mas as cartas. uma figura bastante insignificante. dirigindo-se ao clero numa linguagem embotada. cuidadosa reserva e um estilo ligeiramente florido. Era essa uma atividade em que não confiava. mas que seria uma tremenda amolação em Roma. às vezes. mas estou certo de que a senhora condessa encontrará em Monsenhor Meredith um compatriota agradável e espirituoso. não era mais passível de restauração. Aqueles que o conheciam bem riam. muito bom para o seu rebanho local. a escrever cartas. Nascera agricultor. a uma morte prematura — e o que quer que faça por ele.. Não .. Muitos sujeitos infelizes haviam sido condenados por heresia simplesmente porque eram fracos em gramática ou na descrição. infortunadamente. Encaravam-no como um sacerdote provinciano um tanto pomposo. Um número demasiado grande de sacerdotes havia sido abruptamente transferido para Roma. e Sua Excelência Reverendíssima as compunha com mais cuidado do que habitualmente. não raro. Ultimamente. mesmo quando os deveres de seu cargo o obrigavam a isso. durante sua estada em Gemello Minore.Aurélio. condenado. eu o considerarei como um favor especial. tenho pensado muito em Vossa Excelência. Sinto-me mais grato do que consigo dizer pelo seu oferecimento de receber Monsenhor Meredith como hóspede em sua casa. Para Anne Louise de Sanctis. no entanto.

Monsenhor Blaise Meredith é um homem sensível e liberal a quem acabei por querer como a um irmão. é possível que o senhor. o que não ousavam sussurrar no leito conjugal. perguntava a si próprio se Blaise Meredith. minha cara condessa. mas tenho a esperança de que o senhor talvez possa colocar à disposição dele o seu considerável conhecimento da situação local. sofredor. não raro. pensando se não teria dito algo de menos ou de mais — e se havia ali palavras que pudessem tocar o coração de uma mulher como aquela. prefira não imiscuir-se nesse delicado assunto. acaso não poderia aproximar-se mais dela. Creia-me. grosseiramente. Por meio das mulheres. no ataúde situado a um lado da igreja. agora. Aurélio.. o diziam livremente e. Tenho a esperança de que encontrará em Monsenhor Meredith um confidente para seus problemas e um conselheiro quanto aos assuntos de sua consciência. procuravam usar o sacerdote como substituto de um marido indiferente e. também. bispo de Valenta. Mas freqüentemente o velho Adão que dormia debaixo da batina despertava perigosamente diante das confidencias sussurradas de uma adolescente ou da insatisfação de uma matrona. . Às vezes. AURELIO ☨ Bispo de Valenta". não sendo católico. podia-se chegar aos homens — e às crianças também. Sua missão. o homem frio. e viu prontamente a paixão que se agitava atrás da polida delicadeza da Condessa de Sanctis. era bastante homem. de investigar a vida de Giacomo Nerone. Suas confidencias eram mais francas e mais perturbadoras para o celibatário que se sentava atrás dela.. pertencia ao seu rebanho. mas a discrição a colocava fora do alcance de seu cajado. e ele. Assinou o nome com um rasgo de pena e ficou um momento a perscrutar a carta. As mulheres constituíam o problema perene do clero. Ela. Ao Dr. Aldo Meyer escreveu em termos inteiramente diferentes: ". Mais mulheres do que homens se ajoelhavam na janela de Judas do confessionário.desconheço a solidão que a aflige como castelã de uma comunidade pobre e primitiva. é uma missão difícil. Contudo. afetuosamente seu em Jesus Cristo.

Permita-me que lhe assegure que nem Monsenhor Meredith nem eu desejaríamos importuná-lo com indagações. o sobrescrito: "Rev. e Sua Excelência Reverendíssima ponderou longo tempo antes de escrever. " "Basta!". Conhecem o significado da caridade e fraternidade. como nós — e. estará em boas mãos. como nós — Deus nos proteja! — mesmo nos postos mais elevados." A terceira carta era a mais difícil de todas. como nós. como o são os ingleses.mo Padre Anselmo Benincasa Pároco da Igreja de Nossa Senhora das Sete Dores Gemello Minore Diocese de Valenta Prezado e Reverendíssimo Padre: Escrevemos para informá-lo da chegada à sua paróquia do Reverendíssimo Monsenhor Blaise Meredith. como nós. Foram perseguidos. e. as praticam melhor do que nós. à sua caridade e zelo profissional. fazendo todo o possível para cuidar dele. Encarregar-me-ei de fornecer-lhe quaisquer remédios de que o senhor possa necessitar. não raro. Meredith. se o senhor consentisse em agir como seu médico conselheiro durante a estada de Monsenhor em Gemello Minore. pouco tempo terá de vida. Recomendo-o. absolutistas. Sofre de um carcinoma no estômago e. "A gente não dirige homílias aos sefarditas. auditor da Sagrada Congregação dos Ritos. responsabilizando-me. É reservado. segundo o curso normal dos acontecimentos. pedir-lhe um obséquio pessoal. São teocratas. por todos os gastos de consulta e tratamento. no entanto. num belo cursivo. e receio que trabalhe excessivamente e passe por maiores sofrimentos do que os necessários.. mas dotado de bastante coragem. pois. da maneira mais calorosa. Monsenhor Meredith é um homem muito doente. Desejo.. meu irmão. Têm os seus fariseus. designado como promotor da fé na causa ordinária para a beatificação do servo de Deus Giacomo Nerone. pessoalmente. Eles nos compreendem tão bem quanto nós os compreendemos. pensou Sua Excelência Reverendíssima. Apreciaria muitíssimo. Rogamos-lhe conceda a Monsenhor .

da triste situação dos assuntos espirituais em sua paróquia. mas abstivemo-nos desse passo drástico na esperança de que Deus possa conceder-lhe a graça de ver o seu erro e corrigilo. que Vossa Reverendíssima não se considerará dispensado. das cortesias devidas a um irmão sacerdote que é também emissário da corte diocesana. em pagamento das dívidas que com ela contraiu. fraternalmente. essa associação possa ter perdido o seu caráter carnal. mas não podemos ignorar a triste situação das almas que se acham a seu cargo. aceitamos um convite da Condessa de Sanctis para hospedá-lo durante sua estada na paróquia. e o recomendamos à padroeira de sua igreja. Não se pode tentar Deus durante demasiado tempo. que age como governanta em sua casa. Estamos cientes da pobreza e da exigüidade de suas acomodações e. devido a isso. bem como de certos escândalos referentes à sua própria vida privada. Normalmente. através de relatórios que nos chegaram às mãos. para que os últimos anos de seu sacerdócio possam ser gastos em penitência. . e que possamos estar dispostos a permitir que Vossa Reverendíssima conserve essa mulher a seu serviço. É bem possível que — Deus assim o permita! —.Meredith fraternal hospitalidade. Reverendíssimo Padre. aos interesses de sua gente. em Cristo AURELIO ☨ Bispo de Valenta". Estamos há muito informados. bem como toda a assistência possível. devido à sua idade avançada. Lembramo-nos diariamente de Vossa Reverendíssima em nossas preces. todavia. por conseguinte. uma tal associação nos levaria a instituir um processo canônico contra Vossa Reverendíssima. Seu. Nossa Senhora das Dores. Mas essa tolerância de nossa parte não o dispensa do dever moral de reparar o escândalo e dedicar-se. dignidade e serviço devido ao seu rebanho. Vossa Reverendíssima já é idoso e o tempo se torna perigosamente curto. a fim de que ele possa levar a cabo a sua missão canônica. Dentre tais escândalos. Sabemos. Nossa paciência data de há muito e interessamo-nos por sua pessoa como nosso filho em Cristo. não é menor o que concerne à sua longa associação com a viúva Rosa Benzoni. com renovado vigor. Sugerimos que a presença de um sacerdote visitante em sua paróquia possa proporcionar-lhe a oportunidade de aconselhar-se com ele e pôr sua consciência em ordem sem demasiado embaraço.

Assim. O sacerdote era pobre e dependia dos pobres para ter a sua . bem como uma necessidade singular de reforma. Não se tratava de caso isolado. tampouco. Mas b sacerdote lá estava. E. E a hierarquia ainda se apegava à confortável ficção de que aquele que pregava o Evangelho devia viver segundo o Evangelho — sem que se importasse de definir com bastante clareza de que modo devia fazê-lo. Em muitas comunidades calabresas havia falta de homens. pois a Igreja se baseava na idéia de pecado e sua máxima mais antiga era a de que o hábito não faz o monge. corria o risco de passar fome. em linhas rápidas e disciplinadas. sem que sua vocação tivesse sido inteiramente comprovada. um homem religioso. constituía um pequeno escândalo. O estipêndio que recebia da diocese era puramente nominal. enquanto as moças casadouras eram obrigadas a aceitar amantes temporários ou maridos muito mais velhos do que elas. era obrigado a acomodar-se. Um homem como Anselmo Benincasa era produto de um seminário dotado de um corpo docente incompetente. mas não era demasiado raro no norte. e não havia instituição alguma que o recebesse quando chegasse à senilidade. Quando alguém como Gemello Minore chegava a uma aldeia. Ele não tinha pensão. a submeter-se ao patrocínio do proprietário rural do lugar. Era tão comum a ponto de ter-se tornado corriqueiro nas regiões pobres do sul. Com a rápida desvalorização da moeda.Depôs a pena e ficou longo tempo a fitar o encorpado papel timbrado e a escrita que se estendia por sobre ele. Surgira como novo sacerdote num país onde havia demasiados sacerdotes e insuficiente espírito sacerdotal — e assumira imediatamente a direção de uma outra comunidade desalentada. representava outra boca que devia ser alimentada. ou estabelecer um compromisso infeliz com o seu rebanho miserável. separadas de seus maridos. nem a tonsura. O caso do Padre Anselmo era um símbolo de todos os males que afligiam a Igreja mediterrânea. anos seguidos. não lhe daria para comprar um pedaço de pão. e as mulheres viviam. meio disciplinado. de modo que era perseguido pelo medo constante da velhice e pela tentação incessante da avareza. que adotava um sistema antiquado de educação. Ele chegara à ordenação apenas meio educado. Em seu contexto local. se abria demais a boca. aquilo indicava graves defeitos. A emigração de antes da guerra e o recrutamento durante a conflagração as tinham privado deles. Mas no contexto de uma Igreja nacional. num país em que o catolicismo constituía a influência dominante.

deparavam com árduas dificuldades para mudá-lo. o sistema é que tinha culpa disso. de motocicleta. Roma era rica. até que lance raízes no coração de um homem. pelo menos. sobrecarregados como estavam com os pecados históricos de uma Igreja feudal. lacrou-as com o selo de sua diocese e tocou a campainha. Tanto quanto o homem. para que um emissário as levasse imediatamente. Não podia mais fazer confidencias. tinha de suportá-los sozinho. melhor educação nos seminários e uma seleção mais rigorosa dos aspirantes às ordens sagradas. pois. de que maneira salvar-lhe a alma imortal. Blaise Meredith sentiuse mais solitário do que nunca em toda a sua vida. distante e preocupava-se com outros problemas — e uma solicitação de fundos especiais para atender a reformas tendenciosas era friamente recebida pelos cardeais. Assim. não raro. bispo de Valenta. ficou com o problema de decidir o que fazer com ele ou. os preconceitos eram fortes e homens como Anselmo Benincasa demoravam muito tempo para morrer. a Gemello Minore. enquanto os jovens criados nas aldeias eram ignorantes e incapazes. como perseverante inquisidor a desenterrar fatos impopulares. Seus terrores noturnos. o bispo de Valenta. que ele. Mas faltava dinheiro. Não era de estranhar. mas apenas procurar obtê-las de outros. Teria de trocar a elegante intimidade dos domínios do bispo . Dobrou as cartas. colocou-as nos envelopes. Tinha de intrometer-se entre estranhos. e os reformadores. a sua casa limpa e sua bandeja de esmolas suficientemente cheia para que pudesse comprar sua pasta da semana seguinte. tais como Aurélio. pensões para a velhice e para os enfermos. em vez de arrastá-lo a um tribunal para um escândalo público de concubinato. A solução seria: menos e melhores sacerdotes. Anselmo Benincasa permaneceu em Gemello Minore e Sua Excelência.roupa lavada. Um bispado como o de Valenta era pobre e obscuro. e que o bispo preferisse deplorar tal lapso como fornicação. Exercia havia muito tempo o sacerdócio e compreendia que a verdade pode permanecer por cem anos estéril. administradores do patrimônio de Pedro. A breve e fraterna comunhão entre ele e o bispo estava prestes a interromper-se. a sua comida cozida. dinheiro para atender ao menos às necessidades básicas de uma vida independente das contribuições dos fiéis. Na véspera de sua partida para Gemello Minore. sucumbisse.

Ao olhar em torno. pois tinham trabalho e pasta para a mesa. seguiu pelo caminho que conduzia à represa e aos limites das terras do bispo. curtos e trigueiros. Eram pobres. com três milhões de desempregados. lamentando ter deixado o abrigo das plantações. enrolou as mangas da camisa e deixou que o sol brilhasse sobre seus braços magros. sob a direção de um senhor benevolente. viu-o erguer-se das rochas de tufo em ondas tremeluzentes. o caminho bifurcava-se em dois sendeiros de cabras. um que conduzia ao leito do rio e outro que levava ao dorso da colina. achavam-se escarrapachados. do topo. isso já era. e Meredith. o calor atingiu-o em cheio. como a lufada de um forno. os trabalhadores dormiam. onde havia pouca reserva até mesmo para o nascimento. mas não tão pobres como muitos. Ele seria hóspede de uma mulher — e ao contrário de muitos de seus colegas. a morte e o ato de amar. Hesitou por um momento. muito. Numa terra pobre. Debaixo das árvores. empoeiradas e usavam tamancos em lugar de sapatos. Meredith escolheu o caminho de cima. até a encosta que a retinha. caminhou resolutamente. Assim. mas. depois. onde a represa cintilava entre as encostas cinzentas da colina. .pela pobreza e o desalento de uma aldeia de montanha. o ar estava fresco e o caminho achava-se salpicado de sol. não tinha talento para lidar com o sexo oposto. Suas roupas eram manchadas. as cabeças apoiadas em suas jaquetas. À beira do desaguadouro. Tinham trabalho. No declive situado atrás do caminho. o colarinho. mas podiam dormir tranqüilamente e voltar para casa com dignidade. com efeito. enquanto os trabalhadores dormiam sob as oliveiras e Sua Excelência Reverendíssima escrevia em seu gabinete. ele entregou-se à indulgência final de um passeio em torno das plantações. lassos como bonecos de trapos. e vinho e azeite para comer com ela. pudesse descortinar a paisagem circunjacente. envergonhado de sua fraqueza. Seus corpos. mas. e não lhe agradavam os esforços que teria de fazer para manter conversas triviais diante de xícaras de café. quando penetrou no vale. A picada era acidentada e fragosa. à sombra das rochas salientes. que havia muito estava alheio ao sono. esperando vagamente que. Suas energias se esgotavam rapidamente e era-lhe insuportável a idéia de ter de desperdiçá-las na vulgaridade de relações domésticas. pálidos. circulando a represa. Era celibatário por profissão e solteirão por disposição. Tirou a batina. sentiu inveja daquela ventura.

enquanto as moças se apresentavam pelo menos em sua suposta virgindade para inspeção e admiração. Depois. como uma pequena caverna. manchada e gasta pelo tempo que. e ele sentou-se. aquela caverna devia ter sido o santuário de um deus dos bosques. antes que as tribos famintas os desnudassem. Havia ali sombra. ali. A meio caminho da subida viu-se num pequeno platô. não percebeu o que era aquilo. filtros de amor e estranhos ritos). Meredith ouvira falar. reticulada à antiga maneira romana e. em busca de lenhas e de lugares em que pudessem construir suas habitações. com bastante freqüência. Levantou-se e pôs-se a examiná-los mais detidamente. viu que era parte da base de uma velha estátua. à procura de uma garantia contra a esterilidade? Será que os homens ainda adoravam o símbolo de sua dominação? Haveria. para descansar um pouco. a contatos freqüentes. Será que as mulheres ali iam. talvez. outras figuras gravadas na pedra natural. a princípio. mas o falo era branco e polido devido. Os homens jovens eram arrogantes como galos novos. As sombras. Nos tempos antigos. seguindo os traços esculpidos até o fim da reentrância rochosa. eram mais profundas. onde as paredes do rochedo formavam uma reentrância. O bloco de mármore estava manchado e descolorido. como para desafiar a debilidade de seu corpo definhado pela doença e afirmar que era ainda um homem. Agora. levavam suas mulheres à exaustão através de . da qual saía a forma crua de um falo. tão velha. como costumavam fazer em outros tempos. fecunda de relva e de árvores? A adoração do princípio masculino estava profundamente enraizada entre aquela gente. quando os montes eram cobertos de florestas. a esperança semiconsciente de que Pã pudesse fazer o que o novo deus não havia feito: tornar de novo virgem a terra violada. ainda. Atrás das oferendas havia uma peça de mármore. e só decorridos alguns instantes conseguiu notar uma pequena prateleira talhada na pedra. viu alguns desenhos grosseiros talhados na base da parede.mas seguiu com sombria obstinação. mas as flores eram do século XX — a primeira oferta da primavera a um velho e desacreditado deus. das superstições que ainda persistiam entre a gente da montanha (de encantamentos. Quando seus olhos se refizeram do brilho do sol. Quando casavam. tudo o que restava dele era o símbolo da fertilidade. bruxarias. de contorno mais ou menos cúbico. mas aquela era a primeira vez que via a prova com os próprios olhos. agradecido. sobre a qual havia alguns cravos-de-defunto murchos e folhas desfeitas de videiras. acima deles. entre aquela gente montanhesa.

A anciã voltou-se e fitou-o com seus olhos vagos e baços. passando por ele sem proferir uma palavra. ao mesmo tempo em que. quase dobrada em duas sob uma carga de galhos secos e de madeira apanhada no rio. Quando passou ao seu lado. de repente. o legalista de Roma. Talvez fosse por isso que o símbolo cristão correlato não era o Cristo agonizante. mediante pancadas. voltou o rosto na direção do vale. que sucumbira sob os cascos do deus caprino? E como poderia Blaise Meredith. frio. . Uma velha. o impetuoso zelo pelos santos latinos e a igualmente impetuosa rejeição dos comunistas e dos anticlericais. Blaise Meredith ficou um momento a fitá-la. Talvez fosse aquela a razão pela qual os frios liberais e os céticos urbanos exerciam tão pouca influência sobre aquela gente — a razão pela qual um misticismo exaltado era a única resposta ao frenesi básico que despertava em seus corpos trigueiros e mal alimentados. obrigavam as filhas à castidade. subia com dificuldade a trilha. Meredith ergueu a mão e saudou-a com o seu italiano preciso de Roma.sucessivas maternidades e incentivavam os filhos a uma precoce masculinidade. Afastou-se da pequena imagem obscena e saiu para o sol. eram os últimos símbolos da fecundidade e os primeiros símbolos de alegria para uma mulher cujo fim seria uma triste servidão numa miserável choça de montanha. depois. Talvez residisse ali a explicação de uma grande parte da anomalia da Igreja mediterrânea: a poderosa crença no sobrenatural. a espessa camada de superstição. Sentiu-se velho. Blaise Meredith sentia-se curiosamente fascinado pelo grosseiro símbolo de pedra e sua ativa sobrevivência a menos de uma milha de distância dos domínios do bispo. em direção ao topo do monte. Estaria ali a verdadeira explicação da morte de Giacomo Nerone. penetrar na mente daquela gente reservada que era velha quando Roma era jovem e que se havia aliado ao deus negro e feroz da Cartago de Aníbal? Apesar do calor. mas a fecunda Madonna com o Bambino a sugar-lhe os seios de camponesa. Meredith sentiu. cansado e estranhamente receoso de ir para Gemello Minore. Numa terra estéril.

solícito. Se houvesse . chegará esse clérigo. Quando se reuniram. É a coisa de que sinto mais falta aqui. Nicki. — É o calor. — Eu os distrairei. Por que não me permite extirpá-la com um exorcismo? — Oxalá você pudesse fazê-lo. de um modo bastante sutil. — Sua voz adquiriu um petulante tom infantil: — Oh. Sinto que estou me convertendo numa velha megera.. depois respondeu. quem me dera que eles me deixassem em paz! — Você tem a mim. Dê-me uma hora e eu a deixarei arrebatadora como qualquer beldade romana. amanhã. — Vamos. cara! Mas um chapéu novo e um novo penteado são a melhor cura para o desânimo. Nicki! — Você me permitirá? — De que modo? Ainda tenho de agüentar a presença de Meyer. — Você está cansada. — Eu o adoraria. à tarde. sugeriu-lhe um remédio imediato. — Nunca. Não podia arrostar a presença daqueles intrusos na intimidade de sua casa. Tomou-lhe a mão com uma galanteria teatral e conduziu-a para cima.. Aquilo era demasiado para ela. Tenho tudo lá. Não deixarei que a aborreçam. E.. Até mesmo o enfado era preferível ao esforço que teria de fazer para ser-lhes agradável. rumo ao quarto barroco. gentil. seus nervos quase cederam por completo. com ar afetadamente casual: — Acho que o meu quarto é o melhor lugar. para o chá. por que não me permite que eu lhe faça uma massagem facial e lhe prepare um penteado para o jantar? Ela animou-se imediatamente. cara — disse-lhe ele. a sorrir intimamente de sua fácil vitória. Nicholas Black notou logo o seu mau humor e. Agora. cara — disse ele. a febre da primavera.. Onde é que o faremos? Ela hesitou por um momento. então! Mãos à obra.7 Anne Louise de Sanctis despertou de sua sesta num estado de espírito de negra depressão. Ao lembrar-se de que Aldo Meyer viria jantar na villa seu estado de espírito tornou-se ainda mais sombrio — e quando a carta de Sua Excelência Reverendíssima lhe chegou às mãos.

o parrucchiere. partindo do pescoço flácido e subindo até os cantos da boca descontente. onde se enfileiravam.. — Esboçou um sorriso: — Você é feliz por não ter tido filhos! Ela deu um suspiro complacente: — Sempre desejei ter filhos. O pintor sorria.. Mas. em frascos de cristal. não? Ela riu — um risinho juvenil. Essa foi uma história muito estranha.. Ela aquiesceu. pôde notar a lenta sensualidade despertando nela. Era. ao saber a verdade. Black entregou-se à pequena cerimônia assexuada de ajudá-la a tirar o vestido e envolvê-la num négligé.. por que razão . mesmo que seus pensamentos e planos corressem em sentido oposto. cara. naquele momento. o confidente de madame. decorrido um momento.. Nicki. — Precisaria de uma certa ajuda. contador de pequenas histórias escabrosas das quais madame não precisava corar.. fazendo com que se sentasse numa cadeira revestida de brocado. A princípio. como Ninon de Lenclos.. brandia suas toalhas e deixava-a tagarelar satisfeita. diante do toucador.. não acha? — Às vezes.segredos que se pudessem saber acerca da condessa. Dava-lhe satisfação lisonjeá-la.. Você é uma das afortunadas. mas logo se rendeu ao toque rítmico e hipnótico e. — Mas ainda podia tê-los. aos sessenta anos. já que os valets são refratários às melhores e pretensas virtudes. pôs-se a falar no sinuoso idioma dos salões: — Tem uma bela pele. seu próprio filho fez-lhe a corte sem saber quem era. penso por que razão não tornou a casar-se. com o tempo. limpou-lhe a maquilagem do rosto. Apaixonou-se por ela e suicidou-se. Certas mulheres perdem isso muito depressa. cobriu-lhe a pele cuidadosamente com creme e começou a massagem com dedos firmes mas suaves. testemunha de coisas negadas até mesmo a amantes. paciência e a perseverante habilidade de suas próprias e delicadas mãos.. Quando a porta se fechou atrás deles. Penteou-lhe os cabelos para trás. talvez tenha sido bom não os ter tido. obedientemente. enquanto ele mesmo permanecia impassível — e. ela mostrou-se empertigada e cautelosa. fazendo observações coquetes destinadas a sublinhar a intimidade da ocasião. ele os descobriria ali. à medida que trabalhava. Flexível como a de uma jovem. Quando ainda era a sensação de Paris. Tinha um talento de camaleão para identificar-se com qualquer situação. os produtos de toalete. que mantinha o segredo da juventude eterna.

numa atitude que ele não esperava. querido. o que desejava. Tive também certos casos. "Estranho". bem como propostas. solteirões alegres! — Se não houvesse solteirões alegres. como é que um homem poderia sentir-se frustrado? Num gesto como que de gratidão por aquele cumprimento. Já amei.uma mulher atraente prefere enterrar-se nas selvas da Calábria. Mas ela foi suficientemente astuta para mudar de pronto o lance. "como aquelas palavras surgem em todas as ocasiões. Roma. Ainda vou regularmente a Roma. ao procurar encontrar uma resposta. não existiriam viúvas alegres: apenas viúvas frustradas.. Mas não era simples. Nenhuma delas me satisfez plenamente. puxou-a para baixo e colocou-a na curva nua do seio.. Nicki? Ele sorriu secretamente diante da nova nota queixosa que havia na voz da condessa. de certo modo. sem qualquer advertência. ele bem o sabia. hábeis. Depois. — Ah. Por quê? — Jamais precisarei de casamento — respondeu. — Não respondeu à minha pergunta. sob o négligé. contra ele: — Você tampouco jamais casou. fora dele.. Enquanto lhe friccionava as faces e as leves rugas em torno dos olhos. Nicki. — Sempre consegui obter. em Londres.. Suas mãos. como empregam o jargão freudiano como se ele fosse uma resposta para o supremo enigma do universo. — aquela mulher era mais complexa do que qualquer outra que conhecera. Jamais se deterioram. em tom casual. pensou. Mas este é o meu lar. ele podia sentir a tensão que se apoderava dela. São apenas frustradas. ele reagiu com aspereza: — Não faça isso! Então. — Pobre Nicki! Pensava que eu não sabia? . Poderia viver onde quisesse.. ocultavam a malícia da pergunta. ela pôs-se a rir. cara. vocês. como você sabe. Apanhado de surpresa. e levou-a aos lábios. Você não é pobre. Jamais receiam estar demasiado velhas para topar uma parada. cara. Paris. Nicki. — Já fui casada. — Você jamais se sentiu frustrado. ainda lambuzada de creme. Eu também o sou. — Já estive nesses lugares. ela estendeu o braço e tomou-lhe a mão. Volto sempre para cá. Jamais se irritam com um homem que não podem possuir. mas o diabo me carregue se permitir que ela o saiba!" — Em sua companhia.. como vê. O caso é simples. cara.

Que você está completamente transtornado pelo jovem Paolo Sanduzzi. não se interessa de modo algum pelas mulheres. ela o fitou com olhos vivos. não é mesmo? Ele quase chorava de raiva ali parado com a toalha nas mãos. sutis. ele ergueu a cabeça e ficou a olhá-la. Aldo Meyer chegou para o jantar. Assim. Negócio feito? Ele curvou-se e beijou-lhe a mão em abjeta gratidão. a fitar por cima da cabeça dela os amorini dourados que havia no teto. na verdade. quase acariciante: — Não precisa ficar zangado. Mas Anne Louise de Sanctis ainda ria. Gostaria de tirá-lo daqui da aldeia e dar-lhe uma educação e um começo de vida decente. Não tenho muito dinheiro. Absolutamente nada. procurando inutilmente decifrar-lhe os pensamentos por trás dos lábios sorridentes. Anne. Gosto do rapaz. — Que você é diferente. Mas mesmo inimigos sorriem uns para os outros. a voz transtornada pela irritação. Pensativo. que adotava para com ele. a condessa . — E o que desejaria em troca? — indagou ela. disselhe: — Acredito em você. querido. Deixou de rir e a sua voz tornou-se grave. Mas sou sincera no que digo. impetuoso: — Não há segredo algum. mas cheia de mal velada ironia. Deus o sabe. enquanto ela lhe desmanchava o cabelo. mas estaria disposto a gastar nisso cada centavo de que dispusesse. Depois. meio desdenhoso. Durante um longo momento. Você não deve ter segredos para mim! Ele desvencilhou-se dela. através da mesa em que está sendo discutido um tratado. Era uma aliança de interesses. Que você. Ela estendeu de novo a mão e o reteve. E acho que poderei ajudá-lo a conseguir o que pretende. a voz ainda suave. Nicki. Penso que podia fazer muito por ele.— Não sei do que você está falando! — exclamou ele. Você me ajuda a lidar com esse tal sacerdote e eu o ajudo quanto ao que se refere a Paolo Sanduzzi. Nicki. e bem o sabiam. com o ar meio maternal. Nicki. Mas não espero que acredite nisso. É verdade. Ele respondeu com estranha e patética dignidade: — Nada. — Tenho minhas próprias razões. quando o Dr.

sugeria muito mais: uma cortesia que poderia converter-se em pesada incumbência. . Mas. fora obrigado a ouvir as lamentações da esposa. Quando conseguiu escapar.estava radiante. além dessas estreitas definições. Ao chegar a sua casa. Meyer seria obrigado a servi-lo. possivelmente. perversamente. o judeu liberal. Era seu médico à falta de outro melhor. então. Era seu convidado à falta de outras pessoas educadas que animassem sua mesa de jantar. o ferreiro. aguardando um segundo e. encontrou a carta do bispo à sua espera — e aquilo era um outro peso acrescentado ao fardo das irritações do dia. Não havia amizade em suas relações com Anne Louise de Sanctis. tinha saudável desconfiança do clérigo absolutista cujos predecessores haviam expulsado seu povo da Espanha. mas. que beijaria a mão do mais mesquinho barão. sob seu juramento de esculápio. De vez em quando. Já era quase noite quando decidira que seria mais seguro remover o paciente para sua própria casa — e. que a doença não duraria muito. que alguém — talvez a condessa — se encarregaria da alimentação da família. dando-lhes inquieto refúgio nos guetos do Trastevere. Sua Excelência Reverendíssima não só solicitava os seus préstimos de médico. que não fosse seduzido. que seriam mais bem-pagos do que aquilo que habitualmente recebia. o inglês viria e. enquanto Nicholas Black se mostrava tão deferente como um pajem a serviço de uma bem-amada senhora. Mas. mantivesse a ferraria em funcionamento. fatal ataque. que procuraria encontrar alguém que. era o porta-voz dos aldeões em seus pedidos à padrona. de bom ou de mau grado. deixando-se levar à amizade. que bem poderia seguir-se ao primeiro. Passara toda a tarde junto de Martino. e estava mais convencido do que nunca da impossibilidade de reforma entre aquela gente ignorante. Quanto a Meyer. contanto que ele lhes mostrasse um pedaço de pão e lhes oferecesse uma ilusão de segurança contra os atos de Deus e dos políticos. ao mesmo tempo. que ele próprio combinaria com os moradores da aldeia um meio de assistência. estava cansado e pouco disposto ao convívio social. Aldo Meyer. Teve de assegurar que não acreditava num desenlace. educada durante séculos para o feudalismo. Só esperava. sem cobrar muito. que acabara de perceber a precária situação em que se encontrava sua família. já havia hipotecado vinte vezes sua alma e sua reputação.

havia algo de novo no ar. Mas. Mas ainda possuímos o mais poderoso partido comunista fora da Rússia e uma singular divergência de objetivos entre os que votaram sob a bandeira do Vaticano. e o preço que os críticos estavam cobrando por uma nota favorável. desta vez? Os democratas manter-se-ão firmes. pois ele também conhecia muito bem os seus malogros de mulher. À sopa. Os monarquistas . Quando foi servido o peixe. iam tocando as suas relações para a frente dentro de razoável polidez e. No sorriso do pintor não havia sutilezas sardônicas. Parecia verdadeiramente satisfeita de vê-lo. nem clérigo. tinha estado envolvido em sua morte... já haviam subido para Roma. àquela noite. O povo queria paz e pão a qualquer preço. e Washington agitava. Meyer sabia muitíssimo bem a natureza da doença de sua paciente. e conversaram fácil e amavelmente sobre os assuntos que surgiam. dividiram entre eles as urnas. Durante o aperitivo falaram do tempo. A presença de Nicholas Black e a vinda do emissário romano emprestavam à ocasião um caráter novo e levemente sinistro. O vinho soltava a língua do médico. Aldo Meyer se preparava para uma noite desagradável. mas perderão votos numa oscilação geral para a esquerda. por outro lado. A condessa estava bem-vestida. Anne Louise de Sanctis sabia dos malogros de seu médico e o aguilhoava com eles. e Black narrou com pormenores os escândalos mais agradáveis da Via Margutta. Ambos haviam conhecido Giacomo Nerone. naturalmente. A Igreja ameaçava de condenação eterna todos os católicos que votassem a favor dos comunistas. um era grato ao outro: Meyer. dos costumes locais e da decadência da escola de pintura napolitana. já tinham saído do Vaticano e se achavam entre os políticos. embora jamais tivesse convertido o diagnóstico em palavras. a última vez em que os democratas-cristãos surgiram através do confessionário e da ajuda do dólar americano. pela oportunidade de vestir-se e jantar com um homem que não era nem palerma. de um certo modo desabrido. Cada qual. Assim. Enquanto se barbeava e se vestia. Ao primeiro encontro. e o Vaticano ainda era a única instituição na Itália que gozava de estabilidade e crédito moral. Que irá acontecer. montes de notas de banco. seus receios pareceram-lhe injustificados. por motivos opostos. como só se encontravam raramente. calma. Mas.havia entre eles uma zona de muda desconfiança e oculta animosidade. a condessa. discutindo as perspectivas das próximas eleições. à luz amarela de um lampião de querosene. pelo bom vinho e a boa comida. que se achava entregue a uma viva dissertação: — . encantadora.

Quanto mais sacerdotes existem. Meyer encolheu. apanhando a ponta da afirmação. — Antes de mais nada. Meyer riu e distendeu as mãos. — Serão devidas a quê as perdas dos democratas-cristãos? — indagou. O latino é.. com vivo interesse. Está disposto a admitir que o Espírito Santo guia o papa em questões de fé e de moral. Mas isso é o bastante para manter os financistas razoavelmente felizes e os votos estáveis para um outro período governamental. não obstante. Na Itália. Um governo clerical é como um governo de saias. Não creio que todos os sacerdotes sejam falsos. mas tremendamente ilógico. Há equilíbrio na indústria. à própria situação.ganharão. enquanto os comunistas permanecerão mais ou menos onde estão. A segunda razão é que o próprio Vaticano perdeu o seu crédito devido à sua identificação com um partido. estou pensando como será Monsenhor Meredith. mantido pela infusão de dinheiro americano e pela ajuda do Banco do Vaticano. pois! Não lhes . mas não engole a proposição de que fixa também o câmbio do dia. Eis aí a dificuldade. mau para ambas as partes. de certo modo. sou anticlerical. É divertido. pode obtêlo. Que fossem todos para o diabo.. Nicholas Black. Aquilo era macio como manteiga. todos os padres são falsos. mas Aldo Meyer compreendeu a malícia que encerrava.. para ver o que faria para escapar. mais os seus defeitos se revelam. nenhuma diminuição perceptível do número de desempregados. os ombros.. todos repetem a velha frase: "Tutti i preti sono falsi". Eles o haviam dirigido como carneiro de tópico para tópico — e agora o tinham encurralado e o observavam. no sul. apesar de tudo. Quer sempre as coisas de ambas as maneiras: o reino do céu e a maioria no parlamento terreno. — Meu caro rapaz! É a coisa mais lógica do mundo. Há um aumento na renda nacional. expressivamente. Não existem reformas espetaculares. Tenho encontrado alguns extraordinariamente bons. no íntimo. que mal se reflete no padrão de vida da imensa maioria da população. Mas... com dissimulado desespero. — Por toda a Itália a gente encontra mulheres que comungam todos os dias e homens que usam distintivos de uma dúzia de irmandades e. quando se trata de um papa político. — Isso me interessa — disse Black. — Por falar em sacerdotes — interveio Anne Louise de Sanctis —. em troca de um preço — e esse preço é o anti-clericalismo entre o seu próprio rebanho. constituindo um grande núcleo de descontentamento. um lógico. a sorrir com sutil ironia.

— Paolo Sanduzzi. enquanto pensava: "Aonde. aqui. por que não? Só que teria. contraindo o sobrolho ante a maneira pela qual o médico continha a sua zombaria. doutor — disse ela.. um pequeno sorriso ante o seu desapontamento. Agora. . quererá ela levar-me? " Mas as palavras seguintes da condessa o disseram de maneira bastante clara. e criar trabalho para eles aqui. Nicki me disse que o rapaz é inteligente e tem boa vontade. Está paralisado. Nada há. com os diabos.. teve hoje um ataque. — Dir-lhe-ei. Teresina e a jovem Rosetta já têm idade suficiente para começar a trabalhar. Isso é o mínimo que posso fazer. porém. o ferreiro. — Naturalmente. certamente. Ele. a mãe é ainda responsável por ele. ultimamente. nos jovens. Tenho pensado muito. Aceitara um favor e tinha. de agüentar a parte desagradável da coisa. doutor. No momento. Parece-me um desperdício que fique a perambular a esmo por aí. — Martino. cauteloso. incisivo. agora. gostará de ter algum dinheiro a mais.. — É uma boa idéia — respondeu Meyer. — O senhor poderia pedir a Nina Sanduzzi que me viesse ver amanhã. Pensei que a senhora talvez pudesse dispor de algum dinheiro. sorriu e respondeu. enquanto Anne Louise se permitia. com ar indiferente: — Se a condessa pode aproveitá-lo. — Porque ele é menor de idade — respondeu. se tentam emigrar. Ele vem e vai-se embora. acabam nas ruas de Reggio ou de Nápoles. é que ele estava completamente preso a uma armadilha.. apenas. Pensei que deveríamos pôr em prática alguns de seus planos. fazendo papel de tolo. Mas ela talvez não queira vir. Livrou-se da pergunta com um encolher de ombros: — A senhora condessa se refere ao nosso inquisidor romano? Isso não me diz respeito. A família vai precisar de ajuda. bem como tomar duas de suas filhas como suas empregadas. — Por quê? — perguntou Nicholas Black. Nada mais. a respeito dos quais gostaria de conversar com a padrona. naturalmente. Sua mãe. O pintor enrubesceu e afundou o nariz em seu copo.. no íntimo. — De acordo com a lei. incapacitado. Meyer. certamente. Ali estavam todos a sorrir-lhe por cima de seus copos. por exemplo. Vou trazê-lo para cá e o porei a trabalhar com os jardineiros.. tenho outros problemas. sim. — Que espécie de problemas? — indagou a condessa.daria satisfação alguma. a desafiá-lo a protestar. para eles e. de conversar com a mãe dele.

— Ele ficará aqui. — Isso é um aborrecimento infernal. e o Padre Anselmo a caminhar atrás com a sua suja sobrepeliz? — Nada disso. — Foi você quem o convidou. Trazido o assado e servido o vinho. — É preciso tempo para que nos compreendam. — Recebi. Black. — Não é muito confortável. está morrendo de carcinoma. Pede-me para que aja como uma espécie de médico conselheiro junto a Monsenhor Meredith. uma carta do bispo... — Deus do céu! — exclamou Nicholas Black. como um gesto de cortesia para com Sua Excelência Reverendíssima. — Estava certo de que a senhora diria isso — comentou calmamente Meyer. suave. limitando-se apenas a fazer um sinal a um criado para que servisse mais vinho e trouxesse o assado. a condessa depôs o garfo e disse: — Estava pensando que. das Filhas de Maria e da Sociedade do Santo Nome? Estandartes. Nicholas Black. deveríamos organizar uma recepção para esse homem.. comeram um instante em silêncio. Um doente na casa é um grande fardo. Há criados para cuidar dele. — Não vejo por que razão tem agora de queixar-se. hoje. — Estava pensando em você. — Não quero ouvir falar nisso — atalhou a condessa. mas serve. Meyer. de mau humor. irritada. — . em tom amável. Anne Louise nada disse. cada qual contando os pontos na batalha de interesses que se ocultava sob o tom polido da conversação. Meyer aceitaria a coisa. As palavras seguintes de Meyer trouxeram-na de volta ao tema.. e o senhor poderá visitá-lo sempre que houver necessidade.— Estamos dando demasiada importância a camponeses descalços! — observou. quase engasgou com o frango: — Que espécie de recepção. — Há lugar em minha casa — disse Meyer. Ela havia atingido o alvo. aquilo talvez a divertisse. Decorrido um momento.. cara. áspera. Nicki — interveio a condessa. Nicki! — respondeu ela. se Nicki quisesse cruzar espadas com o judeu. embora estivesse resolvida a não participar da contenda. em tom áspero e peremptório. — Somos uma gente estranha — respondeu.. cara? Uma procissão da Irmandade dos Mortos. e. sem qualquer ironia no olhar. de repente. Ao que parece. velas e acólitos.

sem se dirigir a ninguém em particular. fará alguma diferença. — O nosso monsenhor procedente de Roma. frio. — Isso costuma estragar o físico de um indivíduo.. espero.. nós dois. sem meias palavras. muito.Um jantar tranqüilo. muito simples! — Bem. subitamente. que é que acha? Ele levantou a cabeça. Aldo Meyer manteve os olhos estudadamente fixos no prato. — Mas não o seu gênio. mancharia a toalha de vinho e provavelmente adormeceria diante da sobremesa de frutas. Estou ansioso por ver de que modo esse monsenhor encarará o caso amoroso de Giacomo Nerone. — Quem? — indagou a condessa.. que tão amavelmente lhe concedera o seu quarto de hóspede? Uma reunião simples. e surpreendeu um furtivo triunfo a inundar-lhe os olhos. Ele é inglês e isso. Quando olhou para Nicholas Black.. à noite. sentiu-se como se estivesse nu diante das adagas daquele estranho par de intrigantes. para que ele possa conhecer as pessoas da aldeia que melhor podem ajudá-lo. Nada de complicado. doutor. com um ar de toupeira. Outros gostariam que o mundo fosse recriado para que dispusessem de uma autogênese universal. sem sorrir: — A casa é sua: ele é seu hóspede. O pintor riu. De que modo enfrentar uma mulher como aquela? Um jantar simples!. senão naquela mesma e graciosa senhora. apenas uma reunião simples. E quando viesse coligir as provas. Quando o vi em Valenta. — Mas o senhor virá? — Certamente. por certo. — Gostaria de saber como é ele — disse Black. Espero que não seja empertigado. Provavelmente seco. em quem se apoiaria. — Ele está morrendo — disse Meyer. pareceu-me angustiado. Ele percebeu que ela se descontraía. . enquanto um monsenhor romano o olharia com tolerante bom humor. amanhã. Alguns membros do clero romano são muito liberais. Odeio gente estapafúrdia na hora das refeições. brilhante e monótono. oh. também o pintor sorria — e Aldo Meyer. macilento. sim. como um fosso de água estagnada. o doutor e o Padre Anselmo. com a padrona a desempenhar o papel de encantadora dama diante de um médico rural e de um rústico sacerdote que se atrapalharia com os talheres. na conversação.

e quando lança sobre mim esse seu maldito nariz judeu. não lhe proporciona satisfação alguma. seus ossos delicados. Vamos lá! Diga-me de maneira amável: o que é que se passa comigo e qual é a sua prescrição? Ele permaneceu um instante em silêncio. — Você é um indivíduo obstinado. Eles podiam usar um bom penitente como Agostinho ou Margarida de Cortona. que a enche de histórias imundas e. por cima da mesa. Anne. no fim. enquanto a amante de Nerone cuida de sua casa.Aldo Meyer voltou-se rapidamente e fitou-o: — Que é que sabe a respeito? O sorriso do pintor era como um delicado insulto: — Não tanto quanto o senhor. inclinou-se para a frente e soprou-lhe em cheio a fumaça no rosto. e Anne Louise de Sanctis ficou a sós com o seu médico. dottore mio. Depois. irritado. esta noite — disse ela. fitando aquele rosto que já fora belo. Estou num estado de espírito receptivo. enrubesceu. doutor? — Sou judeu — respondeu Meyer. Deixe de colecionar curiosidades como esse tal Black. Isso os ajuda a enfrentar os pecadores. Claro que isso também poderia ser útil. — Agora. empurrou o maço. talvez. o criado também se retirou. A condessa acrescentou abruptamente: — Você já bebeu demais. Apanhou um cigarro. deixe de esgrimir e diga logo o que tem a dizer. A um sinal da condessa. Nicki! O pintor. As listas recentes estão cheias de virgens. afastou a cadeira e saiu da sala. esses clérigos! Não concorda.. Não acreditaria em mim. Mas o filho dele é meu empregado. — Sinto pouca atração pelo catolicismo. para Meyer e esperou que ele acendesse os cigarros de ambos. e estendendo-lhe a mão através da mesa. faz com que também eu me sinta obstinada. Deixe de empanturrar-se de barbitúricos. respondeu-lhe: — Dar-lhe-ei primeiro a prescrição. Meyer abanou a cabeça. O senhor sabe. confessores e rapazes imberbes que acabam de terminar o noviciado. Depois. — Você não me agradeceria.. Aldo mio. "Há sempre uma maneira de tornar a Deus!" São grandes oportunistas. a pele cansada sob a cuidadosa maquilagem. os músculos já um tanto flácidos. — Experimente. rindo. os traços repuxados pelo descontentamento. em tom acerbo e concludente. com cínica rudeza. Gostaria de mudar de assunto. as rugas em torno dos olhos. Venda . mas muito menos ainda pela blasfêmia.

depois. desde então. Giacomo Nerone recusou-se a tal e foi gerar um filho numa camponesa descalça.. Isso é bastante comum e bastante curável. no fim. — Dada a situação. contanto que a mulher saiba o que deseja e se prepare para consegui-lo. Enclausurou-se em seu pequeno mundo privado e o encheu com uma espécie de pornografia mental que a deixa louca de desejo mas que. minha cara. calmamente. sério: — Vai ficar mais suja ainda. Aldo Meyer. enganava a si própria e ao homem. sorridente: — E como é que vou conseguir um marido? Devo comprar um? — Poderia ser pior do que isso — respondeu. com uma dose excessiva de sedativos. talvez lhe seja melhor uma transação honesta do que um amor desonesto. e arranje um apartamento em Roma. Depois.. Se o senhor não se metesse entre mim e a mãe dele. — Deixe de pensar em Giacomo Nerone. Meyer olhou-a com vivo interesse. com um sorriso. Ela ignorou a última arremetida e indagou. eu poderia fazer . também. Mas se não puder encarar esse homem frente a frente. doutor? — Apenas uma coisa — respondeu. não obstante. destruindo-se a si própria. no fim.. Eis aí por que você tiraniza esse seu pintor: porque se acha sob a tirania de um corpo insatisfeito. que se converta numa alcoviteira.isto aqui. grave. Você não é a primeira mulher a destruir um homem porque a rejeitou. doutor — observou ela. Eu o odiei por isso. — O senhor esqueceu a coisa mais importante. doutor. — E que coisa é essa? — Sempre quis ter um filho. Aldo Meyer prosseguiu. que você o faça feliz. Aldo Meyer. Você não sentiu satisfação no casamento porque era muito jovem e seu marido demasiado descuidado para preocupar-se com isso. Nunca a sentiu. Você não está na idade para isso. porque. Acabará em companhia de gigolôs e de sujeitos como Nicholas Black e. ou ponha aqui um administrador. É perigoso. como está fazendo com Paolo Sanduzzi. acabará. Deixe de procurar atacá-lo através de Nina e do rapaz. Mas já não o odeio. Precisava de um filho mais do que o senhor possa supor. — Sua mente é suja. a cada vez que o tentava. não a satisfaz. — Algo mais. Mas você nunca fez isso. Mas pode ser. Meu marido não podia dar-mo. case com um homem que a faça feliz na cama e permita.. Você ainda pode ser uma amante.

obrigado. dar-lhe um bom começo na vida. — Que é que faria com ele. . Gostaria de tomar café? — Gostaria. ficando apenas a observá-la. ela estava a seus pés a ajudá-lo. jamais assumira antes as funções de uma criada de servir. Com seus ordenados e alguma assistência pública. Aldo Meyer enxugou o vinho que lhe escorria do rosto magro. enquanto ela atravessava o aposento e acendia o pequeno fogareiro sob o bule de café. levantou-se da mesa e tocou a campainha para que um criado o conduzisse à porta. Aquilo. A resposta foi bastante simples: — Estive fazendo companhia à esposa de Martino. Anne? — indagou. ela apanhou uma garrafa de vinho que estava pela metade e lançou-lhe o conteúdo ao rosto. — Entregá-lo-ia ao seu pintor? Sem uma palavra. Aldo Meyer. como ajudante dos jardineiros. friamente. Ela é tola. A condessa lhes dará algum dinheiro e tomará Teresina e Rosetta a seu serviço. Mais tarde. surpreendeu-se de encontrar ainda a lâmpada acesa e Nina Sanduzzi sentada à mesa. impedir que se estragasse como o resto dos rapazes da aldeia. sem ênfase: — A condessa também gostaria de vê-la amanhã. — Por que quereria ela ver-me? — Deseja oferecer trabalho a Paolo. A presença de Nina. Depois disse. Depois de meter a família na cama e verificar se Martino não precisava de nada. e começa a compreender a situação difícil em que se encontra. àquela hora. numa explosão irônica. mas lembrou-se de que ela não compreendia ironia e que ficaria apenas preocupada. mergulhou a cabeça entre os braços e pôs-se a soluçar convulsivamente. Depois..alguma coisa pelo rapaz. pensei em vir esperá-lo aqui. — Já é um começo. mas bondosa. Meyer nada disse. dirigindo-lhe um de seus raros e calmos sorrisos. era novo. a coser diante de uma pilha de roupa. talvez possamos melhorar a situação. permitindo-lhe que a comentasse. também. Durante um momento sentiu-se tentado a dar vazão aos seus sentimentos. Quando chegou à sua casa. De modo que respondeu. era suficientemente rara. Meyer lançou-se pesadamente a uma cadeira e pôs-se a desatar os cordões dos sapatos. — Ótimo! — exclamou ela.. para ver que notícias trazia da condessa. No mesmo instante. não ficarão em situação inteiramente má. pensativo. simplesmente: — Boas notícias para Martino.

acho que está sendo sensata.... sobre o fogo. mas o senhor compreende como são os rapazes.. é. Deu-a de um modo gentil e hesitante: — Um rapaz. — Trata-se de uma criança. O rapaz tampouco irá. é como um país desconhecido. Meyer teve tempo de considerar qual seria sua resposta. Meyer assentiu com um movimento de cabeça. seja lá o que for. — Eles nos usam como se fôssemos animais — disse ela. Não há mapas. A condessa deseja usá-lo de uma maneira que não está ainda clara. O que aconteceu entre eles. Não irei. Mas. São ambos jovens. erguendo os braços num gesto de ira. transbordou e. enquanto ela correu para ele. eu não sei. É difícil quando não há homem na casa. Quanto ao resto. — Prometi apenas que lhe diria. e querem usá-lo desse jeito. Acho que Paolo também estava contente.. que talvez o senhor pudesse ajudá-lo um pouco. Sei que queria falar. — E essa é outra das razões por que vim aqui esta noite.. Nina Sanduzzi.— É essa a única razão? — indagou. Eu poderia cometer erros e fazer-lhe mal. será um motivo de vergonha para o rapaz — assim como ele se sente envergonhado de seu primeiro desejo por uma jovem. Quis ajudar. contanto que comece de maneira certa. e essa é uma boa época para começar o amor. Quanto a Paolo. — São como cães que se juntam sobre um monte de esterco — disse. O que ele sente quanto ao inglês.. de um rapaz em quem a masculinidade começa a agitar-se. e pensei que talvez. Penso. Aquela é uma casa onde existe um toque de loucura. Nina. falando enquanto se movia. curvada sobre o fogareiro. — Eu sei — respondeu ela. também não sei. — Não há amor em nada do que fazem. poderia haver outras razões! Ela voltou-se lentamente e fitou-o através da sala mal-iluminada: — Que espécie de razões? — O pintor inglês gosta dele. mas não sabia pôr aquilo em palavras. O bule.. Até mesmo a linguagem é diferente. — Eu a adverti — lembrou-lhe ele. Isso é que o torna furtivo . que ela gostaria de que o rapaz lá estivesse quando o sacerdote que vem de Valenta iniciasse as investigações a respeito de Giacomo. não existem postes indicadores. também. em voz baixa. em seu primeiro despertar. Paolo me disse que esteve passeando com a jovem Rosetta junto da Torrente dei Fauno. Fiquei contente. colocando sobre a mesa as xícaras de café. Jamais acreditaria que sua mãe também pudesse conhecer tais palavras. — Quanto a você. em tom sereno.

dirigiu-se ao fogareiro. — O bastante para ajudar o filho dele? — E você. a compreendo? A pergunta que ela lhe fez a seguir despertou-o de seu cansaço: — O senhor odeia o rapaz? — Santo Deus.. — Sempre o considerei um bom homem. Agora eu o lamento. Atônito. Talvez esses papéis o ajudem a compreender a Giacomo e a mim. Encheu uma xícara para ele e outra para si própria e ficou a observá-lo. perante ele. Talvez o auxiliem a ajudar o rapaz. antes que Giacomo chegasse. tímido como um pássaro. como o fizera. pasta e algumas verduras. está a carta que lhe escreveu.. essa foi a sua única expressão de agradecimento. — Não quero mais isto. — Os papéis de Giacomo. Meyer — quando eu. Houve um tempo em que odiei Giacomo e. Mas como poderei explicar a coisa maravilhosa que houve entre nós? E como poderia essa coisa ser maravilhosa também para ele? — E como poderia eu explicar-lhe — sorriu.. Feito isso. se pudesse. quando ele morreu. em seguida. Você compreende? — Compreendo. Mas apenas durante algum tempo. nem ao pai. Diga-lhe que me procure. não! Que é que a leva a dizer isso? — Ele poderia ter sido seu. fiquei contente. Em algum lugar. com cuidado. Quanto à sua própria xícara. — E a mim. Depois. É um mundo estranho para ele. os seus tamancos e a velha cesta que continha as suas compras do dia: um saco de carvão. certa vez. — Tome — disse-lhe com firmeza. ele apanhou o embrulho ensebado e conservou-o entre as mãos. O rosto de Meyer anuviou-se de velhas recordações. voltou à mesa e estendeu-lhe um grosso embrulho envolto em fazenda de algodão e atado com uma fita desbotada. Sua mãe é alguém que chamam prostituta. odeia-me? — Não. perscrutando-lhe o rosto calmo. também. enquanto ele sorvia. Mas jamais odiei o menino. — É verdade. tampouco.como uma raposa. aí no meio.. apanhou o bule e trouxe-o para a mesa. tristemente. bebeua de um trago e. — O que é isso? — indagou ele. Seu pai é chamado de santo. de . No momento. afastou-se para apanhar. com a língua para fora. claro. Mas compreendo também sua necessidade. a um canto. e falarei com ele. Não procurarei justificar-me a mim. o líquido amargo e escaldante. com a cabeça inerte.

e nas recordações guardadas nela como a água numa cisterna. alguém cuidaria dela e do filho. sentiu uma contração no estômago e um pequeno nervo começou a crispar-se nos cantos de sua boca. A paisagem era um lugar em que ela vivia. apesar de suas próprias necessidades. Era uma camponesa. em seu momento de maior necessidade. nos olhos. Não sabia ler nem escrever. Podia ver o começo da realização da promessa de Giacomo Nerone de que. e embaixo. por isso. Precisavam dela. afinal. Naquela noite. mas a pobreza era o seu estado natural. Nina Sanduzzi seguiu para a casa em meio à paz de um luar de primavera. corria o rio. que Nina Sanduzzi se fora e que o havia deixado a sós. sob as estrelas. de uma beleza antiga. no vale. à luz do lampião. velhos ódios. acima das vozes intermitentes dos grilos e do ruído distante e abafado da água. Agora. uma dívida a um morto. velhos amores. pronto a pagar. havia Aldo Meyer. mesmo depois de sua morte. persistente. não obstante. Quando levantou os olhos viu. mas algo prateado. Mas Nina Sanduzzi era cega à beleza e surda à música da noite. quando muito. era receptiva à harmonia que percebia resultar gradativamente das dissonâncias da vida que a cercava. A primavera era uma sensação que experimentava em seu próprio corpo vigoroso. mas. uma fita azul-cinzenta em meio às sombras. Somente as figuras existentes nela eram importantes. A beleza que ela via — e via bastante — estava nos rostos. estava em paz. tinha sensibilidade para entender o significado da paz. já provara o amargor dos conflitos e. uma fria hibernação e uma cuidadosa poupança de lenha e carvão. como a esposa .Giacomo Nerone. vividas e opressivas: velhos medos. Eram pobres. Os ásperos contornos dos montes eram suaves. e seus tamancos batiam com estrépito sobre as pedras. pequenos triunfos e monstruosas derrotas. As recordações inundaram-lhe o cérebro. enraizada no campo como uma árvore. a arruinada aldeia já não era uma coisa descolorida. Também em sua vida havia harmonia — uma lenta concordância que se formava entre ela e os aldeões. nos sorrisos e nas lágrimas das crianças. o inverno. nas mãos. com a alma de um morto entre os dedos trêmulos. uma distração sentimental para o literato. e Giacomo Nerone jamais os deixaria sofrer muitas privações durante muito tempo. rude. insensível à patética ilusão que constitui. Eram-lhe gratos. Seus olhos se enevoaram. O ar era revigorante e limpo. O verão era um calor sobre a pele e poeira sob seus pés descalços.

mas. um rapaz trigueiro. morto havia muito e sepultado na Grotta dei Fauno. Tornaram a bater e ela gritou: — Quem é? Uma voz de homem respondeu-lhe em italiano: — Um amigo. Sentou-se na cama. depois. de quando em quando. aqueles aldeões. dormira com ela durante um mês e. Deixe-me entrar. "a mulher que dormia com um santo" —. e toda a sua gratidão girava em torno de Giacomo Nerone. onde as pessoas iam orar e voltavam curadas das enfermidades do corpo e do espírito. Eram. aos mosquitos e à necessidade que despertava nela. seu marido. empregando-se em trabalhos no campo e serviços domésticos ocasionais. Saltou da cama. enquanto caminhava para casa. sentia-se grata. Já era muito mais de meia-noite. quente e pesada de trovões. ela vivera. que casara com ela na igreja. Foi então que ouviu as batidas — as batidas fracas e furtivas na porta trancada. enfiou o vestido e . de ter em torno de seu corpo sadio os braços de um homem. alguns móveis miseráveis e um baú com o seu dote. quando se referiam a ela usando os nomes crus de antes — "a prostituta". pelo auxílio que lhes prestava em momentos difíceis. e que lhe haviam deixado a choupana. a virar-se de um lado para outro devido ao calor. em sua grande cama de metal. Tudo o mais em sua vida era detido pela lembrança daquele homem: seus pais.. A débil urgência da voz a comoveu.. Era uma noite de verão. Foi então que Giacomo Nerone apareceu. tomada de súbito pavor. que usava palavras rudes porque dispunha de poucas outras. para morrer na primeira campanha da Líbia. Aquela noite. pelo amor de Deus. nua. como as outras mulheres. entre os azinheiros. e de senti-lo na cama a seu lado. Ela estava deitada. Depois de sua morte. o sono não vinha. que haviam morrido de malária quando contava dezesseis anos. e. puxando as cobertas para os seios. mesmo depois de um dia estafante de trabalho nos vinhedos. fora levado pelo exército. pois. Estou doente. já não havia muita maldade nisso. turbulento. mas apenas a vaga lembrança de antigos ciúmes. em sua pequena choça. Seus símbolos eram vulgares porque sua vida era brutal — e estômagos famintos não podem satisfazer-se com sonhos. quando alguma das criadas adoecia na villa da condessa. uma gente rude.de Martino.

Sua unidade se esfacelara e ele se achava em fuga. Ela precisou lançar mão de toda a sua força de camponesa para arrastá-lo e erguê-lo até a cama. o céu. fariam dele um prisioneiro de guerra. . pois. Enquanto ele se achava ainda inconsciente. arrastou-se dois passos e caiu de bruços. Quando retirou a tranca e abriu cautelosamente. Reggio tinha caído. ao dizê-lo — um sorriso largo. De modo que estava tentando voltar a Roma. Bebeu três copos de vinho. Vinha-se escondendo durante o dia e viajando à noite.dirigiu-se à porta. olhando em redor com os olhos assustados. mas recusou-se a aceitar mais alimento. teve dificuldade em compreender-lhe o pesado dialeto calabrês. Ele era soldado. Se tornasse ao seu próprio exército. que dissipou nela os últimos receios e a fez sentar-se à beira da cama e lhe perguntar quem era. conforme lhe disse. e quando procurou levantar-se. de uma guarnição de artilharia sediada em Reggio. disse. com sangue no rosto e uma mancha pegajosa alastrando-se pelo ombro da camisa andrajosa. cobriu-o e deixou-o dormir até que a primeira claridade matinal animasse. do lado do oriente. O seu sotaque lhe era estranho e ele. Trouxe vinho. Tinha as mãos arranhadas por espinheiros e as botas rasgadas. Tornou a sorrir. ele caiu para a frente sobre o chão de terra — um homem grande. Depois tirou-lhe as botas. Como gostou dele e se sentia solitária sem a companhia de um homem. fazendo uma careta de dor ao sentir o ferimento no ombro. mas os traços principais da história eram bastante claros. pão preto e queijo. aceitou a história tal qual lhe foi contada. moreno. por sua vez. cortou-lhe a camisa junto ao ombro e lavou-lhe também o ferimento. cuidariam dele e o mandariam de volta às linhas de fogo. escancarados. para o seio de sua própria família. A bala estava ainda em seu ombro. Se os ingleses o apanhassem. Ele despertou tomado do súbito pânico dos perseguidos. Como era uma camponesa simples. Precisaria ser removida. morreria. Na noite anterior. e ficou maravilhada de que ele engolisse tudo com tanta avidez. Os Aliados haviam capturado a Sicília e o exército inglês atravessara o estreito de Messina e abria caminho península acima. banhou-lhe os cortes do rosto. sorriu e tornou a acalmar-se. vivendo daquilo que conseguia roubar. do contrário. deparara com uma patrulha inglesa. o pessoal do campo estava faminto e ele só tinha direito ao seu quinhão de viajante. na ponta da bota da Itália. com as solas abertas. mostrou-se disposta a ocultá-lo e a cuidar dele até que seu ferimento melhorasse. que atirara contra ele. infantil. Mas quando a viu. o que o trouxera a Gemello Minore e de que modo recebera aquele ferimento no ombro.

antes. . apoiadas ao assento da cadeira. em voz baixa e sussurrante. Quando chegou a casa. Até o início da puberdade. Eis aí o começo da coisa — simples e sem importância.Sua cabana era distante da aldeia e ninguém jamais a visitava. De dentro de seu vestido. crianças de colo e meninos e meninas que já entravam na adolescência. Por mais que o tentasse. Retirou. mulher. mergulhou o rosto nas mãos. velha e esfarrapada. em seguida. Fechou a porta. o pavio baixo. como centenas de outros casos de guerra. onde famílias inteiras dormiam numa única cama grande: marido. um embrulho chato. envolto em papel branco. de modo que pudesse ver os buracos feitos por balas e as manchas. o rapaz jamais conseguira distinguir as palavras proferidas pela mãe. depois. se recusasse a participar do mesmo. através dos olhos velados. que era padrasto do Bambino. encarava tudo aquilo como uma manifestação de tolice feminina. na cama de armar colocada do lado oposto do quarto. de um modo estranho. em muitos lugares. bem como a paz que se seguiu eram. como que de ferrugem. segundo o costume do sul. Desembrulhou-o cuidadosamente e apanhou uma camisa de homem. se ajoelhava ali junto dela. Mas a riqueza que surgiu daí e a tragédia em que tudo terminou. embora. então. aparentemente dormindo. dirigindo-se ao tosco baú que se achava junto à cabeceira da cama. Feito isso. que eram de sangue. de modo que ela comprara uma outra cama e cada qual dormia sozinho. Levou-a. pois seu pai era um santo que tinha grande poder junto de Deus — como São José. dormira com ela. tirou uma pequena chave. durante um momento. encontrou o lampião ainda aceso. Agora. aos lábios e. sentia ciúmes disso. Nina lhe recomendava que dissesse apenas padre-nossos e ave-marias. Nina Sanduzzi atravessou o quarto. e pôs-se a rezar. largou a cesta e tirou os tamancos. e abriu-o. havia já muito. presa com um alfinete. ao lado do letto matrimoniale de ferro em que fora gerado e dado à luz. desdobrou-a e estendeu-a no espaldar de uma cadeira. motivo de perplexidade diária e de lembranças noturnas. em se tratando de uma mulher solitária e de um único filho. manchada. e Paolo encolhido. aquilo não era bom. de viúvas solitárias e soldados em fuga. fingindo que dormia. Mas jamais o admitira na intimidade de sua própria comunhão com o pai — e ele. pôs-lhe a tranca e correu o ferrolho. para ela. ajoelhou-se desajeitadamente. Quando. Todos os detalhes do ritual que se seguiu lhe eram familiares. como fazia na igreja. Mas. O rapaz observava-a da cama.

lentamente.Terminadas as orações. os olhos sorridentes. como antigamente. pois. os braços abertos para recebê-lo. E sonhou. lá estava a pálida e caprina fisionomia do pintor. em lugar do rosto da moça. Nina Sanduzzi tornou a embrulhar a camisa e fechou-a no baú.. Depois. galgando o rochedo com dificuldade. a chamá-lo para si. Mas. Era a mesma coisa que o fazia fechar os olhos e virar a cabeça para o outro lado. tivesse vontade de beijá-la e deixar que ela o abraçasse. De modo que permaneceu imóvel. também ele sossegou e mergulhou. para atender a certas necessidades. meio vergonhoso. quando ela se despia ou se levantava. Depois. Paolo Sanduzzi conservou os olhos fechados e continuou a respirar ritmicamente. no sono. sentia por ela uma repulsa que não sabia explicar. de pé sobre um rochedo. até que a mãe soprou o lampião e se meteu em sua rangente cama de ferro. Sonhou com Rosetta. Paolo Sanduzzi mexeu-se na cama. no momento meio doce. às vezes. . e um rapaz não sabe se está dormindo ou acordado. vendo-lhe os lábios entreabertos. gemeu e abriu os olhos. acercou-se da cama do filho. em que a seiva da juventude transborda. Sentia vergonha dela e de si próprio. beijou-o e afastou-se. embora ele.. durante a noite. transformaram-se nos braços de Nicholas Black. antes que os braços o envolvessem. Correu para ela. junto ao rio.

ainda empoeirada da adega. — Vamos. sobre vários assuntos e. — À amizade! E à sua saúde. — A última taça do ágape — ajuntou. sorrindo. — Mas o senhor voltará. como dois bons homens devem fazer. sem nostalgia. como sempre o faziam. uma peça em ouro antigo. lentamente. em se tratando de velha e preciosa bebida. erguendo o copo. mande-me avisar imediatamente. Era um aposento grande. lavrado. — Lamento ter chegado a ela tão tarde. na caixinha guarnecida de cetim. que entregou a Meredith. para ocultar a dor que havia neles. Beberam. confortavelmente e bem. — Fá-lo-ei — respondeu Meredith. presa a uma delicada corrente de ouro. do tamanho. com gosto pelo conforto modesto. — Tenho um pequeno presente para o meu amigo — prosseguiu o bispo. prático. O café foi trazido juntamente com uma garrafa de velho conhaque. gozando-lhe o sabor. Sua Excelência Reverendíssima sugeriu que tomassem café em seu escritório. a Meredith. meu amigo! — À amizade! — respondeu Blaise Meredith. monsenhor — disse. de um polegar. Conversaram. um genuflexório e um terno de poltronas de couro junto a um fogão de majólica. mais ou menos. o bispo. terminado o jantar. Jantaram. cheio de livros desde o assoalho até o teto. — Sentirei sua falta. enfiando a mão no bolso e tirando uma caixinha de couro florentino. os selos ainda intactos.8 Era a última noite de Blaise Meredith em Valenta: sua última noite em companhia de Aurélio. refletia com precisão o caráter do homem que nele trabalhava: culto. e farei com que o tragam para cá. Tirou-a e . uma pequena bulla. no entanto. Se adoecer. abra-a! Meredith apertou o fecho e a tampa abriu-se revelando. os olhos calculadamente fitos na taça. De certo modo. — Espero passar bem. o bispo. para poupar trabalho a Vossa Excelência Reverendíssima. Sua Excelência Reverendíssima insistiu em abri-la e servir ele próprio a bebida. — Uma libação — disse. mas escassamente mobiliado com uma escrivaninha. gentilmente. arejado. ascético.

uma superstição . que lançou uma pequena exclamação de surpresa e prazer. e sua voz vacilou: — Que posso dizer. Mas os dedos de Meredith tremiam. havia uma grande ametista. cujo nome era o anagrama de Cristo. talvez a algum mártir.. em que estava lavrado o mais antigo símbolo da Igreja cristã: o peixe. é um elo com o paganismo. — Este será o meu amuleto contra o tédio — comentou Meredith. Meredith. — Ou será que se trata de algo muito mais simples? — O quê. talvez. senão "obrigado"? Guardá-la-ei até o fim de meus dias. Lágrimas umedeceram-lhe os cílios.. — comentou. — Abra a bulla — disse Sua Excelência Reverendíssima. — Por quê? Meredith encolheu os ombros: — Bem. lamento dizê-lo. — Mas. e esta deve ter pertencido a um dos primeiros cristãos. Gostaria que a guardasse. Suas primeiras palavras pareciam curiosamente nada ter a ver com o que discutiam: — Estive pensando. Alguém. isto tem um preço: o meu amigo terá de ouvir um sermão final. era um adorno romano comum.. A bulla. Incrustada no ouro... ficou comovido como não se comovia há vinte anos. como um testemunho de amizade. como sabe.. Foi encontrada durante as escavações realizadas na catacumba de São Calisto. evidentemente. O bispo recostou-se na poltrona e sorveu o seu conhaque. — Provavelmente do começo do segundo século. Blaise Meredith. pensativo. um símbolo obsceno. com estranho humor. lhe presta uma espécie de homenagem. no pequeno santuário fálico. abriu-a e a estendeu a Meredith.. Que acha que eu deveria fazer a respeito? — Não sei. — Fico a pensar se isso está certo.. um símbolo de idolatria e. e o bispo tirou-lhe a peça das mãos.... o homem frio. — É uma peça muito antiga — disse Sua Excelência Reverendíssima. Destruí-lo. por exemplo? — Uma manifestação bem-humorada de vulgaridade. tendo-me sido presenteada por ocasião da minha sagração. além do mais..colocou-a na palma da mão. Sua Excelência Reverendíssima. com os pães sobre o dorso.

— Estão aí todos os padres da Igreja.. O homem que usou essa bulla jamais ouviu falar em nenhum deles. são. Poderá encontrar. poderão fazer um desenho indecente em qualquer muro da aldeia.. E o meu amigo já tem o texto do mesmo: "piano. com ar de aprovação. Meredith. a cara da gente em cima. com efeito. Todos os grandes historiadores. O senhor observa também o ponto de vista oficial. mais sinceros do que a falsa modéstia das comunidades mais evoluídas. desde Agostinho até São Tomás. Meredith riu a bom rir e o bispo sorriu.... " Vá devagar e fale baixo. pondo. Veja! — acrescentou. em Gemello Minore. bastante terreno. Quem. Mas que fazer a respeito? Fazer uma grande canção e uma cerimônia? Lançar um exorcismo e partir o mármore em pedaços? Se eles realmente quiserem. mesmo. — Todos os povos primitivos são lascivos. todos os grandes comentadores. era tão católico quanto o senhor ou eu. embora uma grande parte dela fosse implícita e não explícita como agora.. não raro. provavelmente.. — Jamais me ocorreu que "jovial" fosse a palavra exata — disse Meredith. Ou. fazendo um gesto expressivo na direção das paredes cobertas de estantes. sim. talvez. como folhas que nascem de uma árvore. Todas as encíclicas dos últimos cinco pontífices — bem como uma seleção dos místicos mais importantes. meu caro Meredith. Tinha a mesma fé. poderá assimilar tudo isso? O senhor? Eu? Aí está o espírito da . — Meu sermão vai indo bem. O senhor é um alto funcionário — lembre-se disso — e eles desconfiam de funcionários. Vivem em meio a tal familiaridade com as funções naturais grosseiras que seu senso de humor se torna. Mas essa gente possui. piano!. também.. Compreende como é? Apesar de si próprio. — Lasciva. em um novo conhecimento brotando do antigo.. E isso constitui um obstáculo. Não obstante..jovial. O espírito da Igreja é como o espírito de um homem. principalmente de funcionários da Igreja... Ouça as conversas e as canções de um casamento de aldeia — se lhe for possível traduzir o dialeto e as alusões — e o senhor enrubescerá até as orelhas. seus próprios sentimentos de modéstia que. O espírito da Igreja. dentro destas quatro paredes. entre os do meu rebanho. sinistra. Quanto a "sinistro". embora pareçam menos lógicos. uma mulher que vende amuletos e filtros de amor... como o lançamento de moedas à fonte de Trevi. expandindo-se em novas conseqüências das velhas crenças. poderia ser sinistro. Estava mais perto dos apóstolos e do que eles haviam aprendido dos lábios de Cristo e recebido da infusão do Espírito Santo e Pentecostes. Há por aqui vestígios de paganismo.

ao fim. Mas não consigo fazê-lo. levantou a mão esguia no gesto ritual: — Benedicat te omnipotens Deus. — A dificuldade é que não sei de que maneira agir desse modo. creio eu. no íntimo. aqui. ele próprio praticava.. Que Deus o abençoe. procure agir com o coração e não com a cabeça. e o . Aurélio. era um bom pastor. um dia difícil para o meu amigo. — Poderia Vossa Excelência Reverendíssima abençoar-me para a viagem? Aurélio..Igreja.! Acho que agora deve recolher-se. Blaise Meredith ajoelhou-se e beijou-lhe o grande anel episcopal.. quando entrar em contato com ela. Amanhã será um longo dia e. Assim. Lamento muito.. e olhou a pequena bulla de ouro em seu estojo guarnecido de cetim. Sua Excelência Reverendíssima deu de ombros. possivelmente. meu amigo. Descubra onde estão os doentes e vá visitá-los com um frasco de grappa no bolso de trás. pedindo aquele milagre. Os gestos são desajeitados e teatrais. o bispo. fragrante bebida. Confessou-o gravemente: — Esforcei-me várias vezes por rezar. Experimente dar de presente uma lata de azeite ou um quilo de pasta. Falta-me simpatia. Perdoe-me. Levantou-se e.. — Chegará. — É apenas uma questão de atitude. esse espírito é simples. Confesso-o francamente: foi só no convívio de Vossa Excelência Reverendíssima que vim a encontrar algum calor.. O caminho que conduz a essa gente é encontrado através de suas necessidades e de seus filhos.. Meredith sorveu a suave. bispo de Valenta. quando for à casa dos pobres. complexo e sutil. Se sentir piedade e compaixão. Mas. mas não sei de que modo remediar tal situação. — Compreendo — disse Blaise Meredith. e suas palavras soavam de modo muito semelhante a um suspiro. E chegamos. como é simples essa gente. como se a demora não tivesse importância. Experimente encher os bolsos de balas e descer pela rua. a isso. meu filho.. E Blaise Meredith ainda não havia feito a única coisa que lhe fora pedida em nome da amizade. movido por súbito impulso. Não sei quais as palavras. Piano. não estará longe do amor. ao fim do meu sermão! Inclinou-se para a frente e despejou em seus copos mais um pouco de conhaque. piano. mesmo através das palavras mais claudicantes. Essas coisas se comunicam por si sós. Tudo o que pregava.

de modo que a estrada parecia agarrar-se precariamente aos seus flancos. Outras. não eram mais do que uma fileira de casebres baixos acachapados nos vales. que a viagem de automóvel leva duas horas. Mas a bênção não teve virtude alguma contra a dor que o assaltou aquela noite — a pior de toda a sua enfermidade. em outros tempos.. o caminho tão ruim e esburacado. ora arrastando-se para cima. mas os montes tinham apenas esparsa vegetação. e do terror da longa noite. — Amém — disse Blaise Meredith. Segundo os padrões alpinos. Algumas das aldeias eram construídas nas lombadas dos montes.. mesmo nos becos mais miseráveis de Roma. por algum antigo mercenário angevino que arrastava sua lança e seu insignificante título por aquele pequeno e ruidoso reino meridional. Mas todas elas eram pobres. Tudo o que agora restava era uma escassa plantação a cercar esta ou aquela villa cujo proprietário ou administrador era melhor agricultor do que os seus vizinhos. construída. ao sair pela manhã. talvez. Meredith mergulhou numa modorra inquieta.. mas íngremes..livre do demônio do meio-dia. De Valenta a Gemello Minore. escarpadas e dobradas umas sobre as outras. Seus habitantes tinham o aspecto gasto e descorado das próprias montanhas. de tão arruinada. um aglomerado de casas cor de ferrugem ao redor de uma igreja em ruínas. que mal serviria para uma pastagem de cabras. e começou a tomar um interesse forçado pela paisagem.. de modo que. em direção a uma velha ponte que. numa curva muito fechada. os romanos haviam cortado ali pinheiros para suas galeras e preparado carvão para as forjas dos armeiros. a distância é de sessenta quilômetros. Imediatamente após deixar a aldeia. Havia ali pobreza como Meredith jamais vira em outros lugares. menos ralo. onde a água era próxima e o solo. uma angustiosa náusea que lhe sugou todas as forças. Os vales eram verdes nos sítios em que os camponeses lavraram a aluvião lodosa.. suas galinhas e suas vacas de ossos à mostra. mas a estrada é tão sinuosa. desoladas. a subida tão íngreme. Era difícil acreditar que. arruinadas. ora mergulhando para baixo. As crianças estavam enlameadas e magras como suas cabras. do Filho e do Espírito Santo. parecia um homem que se dirigia ao seu próprio funeral. as montanhas não eram altas. em nome do Pai. o bispo. Ali estava o que Aurélio. queria . mas logo os trancos e solavancos o despertaram. parecia não suportar sequer o peso de uma carroça de mula.

esgotos ou fornecimento de água potável. à medida que se aproximava das montanhas.. e imaginou-se desperdiçando-se irremediavelmente em meio àquela gente e pedindo à morte que o libertasse de sua companhia. Num mês. abaixo da qual começavam as terras de cultivo. sobreviver. Uma profunda depressão se apoderara dele depois de sua provação da noite anterior. que morresse ao menos com dignidade. no topo de íngreme subida. o tifo podia varrer toda uma comunidade. Seus filhos morriam de malária. as montanhas gêmeas! Meredith desceu do automóvel e caminhou até a beira da estrada. eletricidade. Sobre cada pico havia uma aldeia. Apesar de tudo conseguiam. Mais abaixo a estrada descia.dizer. durante longo tempo. aquele. Gemelli dei Monti. cheiro de limpeza e o sol a entrar através das janelas. Agarravam-se à crença em Deus e no outro mundo. Viviam em casas que não eram melhores do que estábulos. a sua própria crucificação. era uma massa sólida. transformar-se-iam naquilo que pareciam ser aos olhos de quase toda a gente: animais em seu aspecto. mas não podia comer idéias.. Aquela gente compreendia a cruz. dividia-se em dois picos gêmeos. Se devia morrer antes do tempo. à prece e ao mistério da Igreja — e o faziam com uma lógica feroz. e com a sua velha compaixão pelos estropiados e pelos impuros. mas a depressão permanecia nele. onde a umidade ulcerava as paredes. isolada. estendendo-se até o fundo do . para ver melhor. As mulheres morriam de septicemia e febre puerperal. quando se referiu à insensatez de aparecer entre aquela gente com um compêndio numa das mãos e a cruz de missionário na outra. um pensamento infantil e procurou afastá-lo. para um vale do outro lado do qual uma montanha.. de cerca de duas milhas de largura. Era.. subitamente. e o Cristo da Calábria teria de anunciar-se com um novo milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. habitando cavernas nas rochas. em seus hábitos. separados por enorme abertura. até que. pois suportara. Sem ela. Até mais da metade de sua altura. cingida por uma muralha em ruínas. Os homens ficavam retorcidos de artritismo antes de chegar aos quarenta anos. O coração de Meredith confrangia-se cada vez mais. Alguns deles eram como trogloditas. se erguia de encontro ao céu claro. pois em sua crença se encontravam as raízes da dignidade humana. o motorista parou o carro e apontou. entre lençóis limpos. depois. através do vale: — Ecco monsignore! Veja lá! Lá estão elas. Não dispunham de gás. tuberculose e pneumonia. em acentuado declive. de algum modo.

em borbotões. Um deles estava banhado de luz. pelo sólido flanco da montanha. uma minúscula carroça puxada por um jumento. mesmo. O que mais vivamente chamou a atenção de Meredith foi a diferença entre os dois picos. em alguns dos edifícios mais altos. a sujeira a escorrer sobre as pedras e crianças maltrapilhas a berrar entre a imundície. apenas. em vivo contraste com os telhados queimados que o cercavam. sombriamente enegrecido pelo monte gêmeo. friamente. que se despejava. por sobre o ombro. Blaise Meredith contraiu o sobrolho e voltou-se para observar a aldeia gêmea mais sombria. podiam-se ver as vigas nuas. à direita. para o vale que Meredith tinha a seus pés. os pára-brisas a rebrilhar ao sol. A bifurcação da estrada que ia até ela era negra e cintilante em seu novo revestimento de asfalto e. bem ao lado dos muros da aldeia. uma praça minúscula diante da igreja. o outro. uma série de becos estreitos com tanques de lavar roupa metidos entre as paredes. que receberia com satisfação um emissário do bispo. Súbito! . nos sítios em que as telhas tinham sido arrancadas pelo vento. Os muros se achavam fendidos em muitos lugares e. Não havia automóveis no caminho poeirento que conduzia a ela. debaixo do campanário da igreja. no topo. Gemello Minore. mas. — Gemello Maggiore — disse o motorista. fora construído amplo e plano espaço destinado ao estacionamento de veículos. na nova hospedaria ou. Por um momento. meia dúzia de automóveis estavam parados. Mas sabia que jamais venceria a vergonha de uma tal rendição. Meredith. — Ele ainda não é santo — respondeu. Não se podia discutir com um sacerdote que tinha dor de barriga. de modo que voltou para o automóvel e disse ao chofer: — Gemello Minore. Meredith sabia muito bem o que deveria haver dentro dos muros da aldeia: uma única rua principal. seu coração desfaleceu e ele quase teve vontade de rumar para Gemello Maggiore e lá estabelecer o seu quartel-general. Nesse sítio. e. O motorista levantou as mãos num gesto de desagrado e tocou para a frente. Naquele fundo de vale fluía um rio. um grande edifício branco brilhava. não sendo jamais substituídas. — Podese ver o que o santo fez pela aldeia. com um velho camponês a caminhar junto de suas rodas.vale que as separava. ao centro dela. menos arruinada. A linha dos telhados continha brechas e ruturas. O edifício novo é o hospital para peregrinos. A aldeia batida de sol parecia maior. contrastando com a compacta solidez de Gemello Maggiore. na casa do prefeito.

enquanto o automóvel passava aos solavancos pelos sulcos da estrada e derrapava nos trechos de cascalho solto. transformando a aldeia num ninho de curiosidade. mãos na cintura. se Rosetta ia ser sua namorada. tomou-a pela mão e. Havia também as pedras que tinham de ser transportadas para servir de suporte aos terraços. aquilo. através dos arbustos. depois que o automóvel passou. e alguns dos mais jovens acenavam com a mão. Assim. mas Paolo permaneceu imóvel. pois. A gente sachava um sulco e começava logo outro. e um velho lagarto cinzento que dormitava numa mancha de sol. para o diabo! O melhor era voltar à enxada! Paolo e Rosetta viram-no do lugar em que se achavam acocorados. até o secreto trecho do rio onde jamais havia alguém durante o dia. E se ele estava um pouco assustado.. Chegaria o momento em que aquele sujeito desejaria falar com ele a respeito de seu pai. A gente não podia fazer pasta com óleo de motor. apesar de todos os seus protestos. nem tirar leite da teta de um sacerdote. avaramente. sob uns arbustos onde Paolo jurara que havia visto uma codorniz. Rosetta bateu palmas. Um automóvel. Ademais. mas os velhos apenas enxugavam o suor do rosto. Aldo Meyer viu-o quando o carro diminuiu a marcha bem diante de sua porta e começou a abrir lentamente caminho através de ruidosa multidão de . Que ambos fossem. diante do furão negro que queria até as raízes da vida de sua mãe e dele próprio. afinal de contas. gritou e pulou de uma perna para a outra — um diabrete moreno em vestes esfarrapadas. conduziu-a apressadamente.. era preciso ir buscar água no rio e despejá-la. era assunto que só a ele dizia respeito e sua garota deveria ser a última a sabê-lo. com ar de escárnio. Apoiavam-se em suas enxadas à sua passagem. As mulheres empilhavam as ervas daninhas para adubo e restolhavam os galhos para lenha. e esfregavam as mãos nas calças e punham-se de novo a trabalhar. o assunto era importante para ele e. na raiz das plantas. uma carruagem puxada por duas parelhas — ou um foguete vindo da Lua — tudo era a mesma coisa. e as leiras que precisavam ser despejadas nas terras de pousio. E quando o último sulco era sachado. e ele estava resolvido a enfrentá-lo como homem e não como um garoto ranhoso a quem se pode primeiro persuadir com bons modos e depois bater. mas nos quais nada havia além do excremento da lebre que estivera a roer o mato. devia compreender isso.Os trabalhadores dos campos mais baixos foram os primeiros que o viram. a fitar o automóvel.

Pensou no sinuoso raciocínio que teria induzido o bispo a aceitar um emissário como aquele. porém. se é que ele sabia reconhecê-lo. com o convite da condessa na mão. Quando o automóvel chegou à praça. não atendeu. enviando-o numa missão em que seria assaltado e atormentado por todos os interesses em conflito relacionados com o caso de Giacomo Nerone. embora não visse nenhum deles. bem como um odor penetrante de pó. Ficou contente quando o automóvel rumou para a villa e galgou. e ela saberia o que lhe responder. na casa de Martino. gritando pela velha Rosa Benzoni. o último trecho íngreme da estrada. logo que o carro passou. — Meu caro Monsenhor Meredith! Quanta satisfação em vê-lo! O sorriso era cordial. colocando sopa. toda a aldeia já tinha saído para a rua.crianças. de corpos e de refugos apodrecendo ao sol. Viu o rosto comprido. bem como a mão erguida que saudava. roncando. era saber o que vestiria para jantar na villa — e. com os lábios contraídos num sorriso penoso. Estava ela sentada na cama. com uma colher. os olhos desanuviados. dirigiu-se pesadamente à cozinha. estava um homem marcado pela morte. Seu problema mais urgente. Até mesmo o velho Padre Anselmo ficou a espiar furtivamente através das venezianas. pensando vagamente de que maneira deveria demonstrar "cortesia a um irmão sacerdote". Somente Nina Sanduzzi se recusou a tornar-se espectadora daquela malsinada chegada. na boca retorcida do homenzarrão e. se o sacerdote quisesse vê-la. ganhando o grande portão de ferro onde um criado o aguardava a fim de conduzi-lo à presença da condessa. Quanto a Blaise Meredith. a mão. pálido. Ficou pensando que espécie de homem seria aquele e no que o sofrimento e a familiaridade diária com a morte estariam fazendo dele. viu-os a todos. Depois. lembrou-se de que logo estaria tomando em suas próprias mãos o que restava do fio da vida daquele homem — e envergonhou-se de não o ter sequer cumprimentado à sua passagem. fresca como uma flor em meio a um gramado recém-aparado. — Minha cara condessa! Obrigado por acolher-me aqui! . irresoluta. que pensaria da condessa e de seus convidados para o jantar e de que modo reagiria diante das emaranhadas histórias que teria de ouvir. suave mas firme ao cumprimentá-lo. quando a chamaram para a porta. Ali. Tinha a sua própria dignidade e. que viesse. como o bispo lhe pedia. as crianças. para que ela lhe lavasse um colarinho e tirasse as manchas de comida de sua melhor batina. o ferreiro. Era uma confusão de rostos e um clamor de vozes estranhas.

— Eu o apreciaria — respondeu Meredith. bem. Nicholas Black saiu do meio dos arbustos e reuniu-se a ela. o que está acontecendo com você? Não me diga que está em pleno caminho da conversão! Ela o envolveu numa invectiva feroz. e um verniz de Vaticano para disfarçar. — Oh. cara! Nem demasiado. a sua primeira necessidade é água quente e a intimidade de um quarto!" A um sinal da condessa. Nicki! Ele encolheu os ombros. — Coitado! Deve estar exausto. Está-se saindo muito bem comigo e eu o estou ajudando a obter certas coisas que deseja ardentemente. pode . nem pouco. Decorrido um momento. pensativa: — Ele parece muito doente. — Bem. a inglesa expatriada fazendo as honras da casa a um compatriota. As estradas são más e já não sou. — As preces e o jejum também fazem isso. em voz baixa: — Ouça aqui. Mas aqui estou intacto. pelo amor de Deus. Mas tenho meus problemas com esse padre e não irei permitir que crie problemas maiores apenas para me mostrar quão inteligente é. um bom viajante. A condessa permaneceu no fim do gramado. Farei com que Pietro o acompanhe ao seu quarto: poderá lavar-se e descansar um pouco antes do almoço. irritado. Se não estiver disposto a agir bem.. quando um homem está cansado. diria eu.— Fez boa viagem? — Regular.. afinal de contas. com uma pitada do English College. bem! Então é isso que nos aguarda! Parece uma edição surrada de John Henry Newman. e indagou: — Que é que você espera que eu faça? Que lhe beije as ancas clericais e lhe peça que abençoe minhas medalhas? Mas. observando as costas arqueadas do hóspede afastarem-se até que a sombra da porta as engolisse. grato: "Deus abençoe os ingleses! Compreendem essas coisas melhor do que ninguém no mundo! Não fazem algazarra e sabem que.. Fico imaginando se ele não usará uma camisa de crina. o criado apanhou as malas e conduziu Meredith à casa. Nicki! Você é um homenzinho simpático e um pintor mediocremente aceitável. Oxford. A encantadora castelã a receber a Igreja. Você se saiu maravilhosamente. E pensou. querida. Todo o seu rosto de sátiro era um grande sorriso.. Talvez Magdalen. hoje em dia. Você é uma atriz e tanto! Ela não levou em conta a ironia e disse.

de valiosa autoridade. pensou em seu trabalho e na maneira como deveria realizá-lo. os criados. a dona da casa. calmo.. à sua maneira penitente e juvenil: — Sempre ajo assim. trocou de roupa e deitou-se na grande cama de nogueira. Faria. Primeiro uma conversa com a condessa. no futuro. Quando estivesse doente. Sozinho em seu quarto de teto alto. fez com que a tomasse pelo braço e caminhasse. depois um exame da aldeia e de sua gente. mas. Lembrou-se de que deveria escrever ao bispo e dizer-lhe de sua satisfação ante os arranjos que lhe haviam sido feitos. De modo que lhe tomou a mão e beijou-a. Blaise Meredith lavou-se. com uma grande criadagem. bisbilhotando acerca de escândalos romanos. depois. Passou-lhe a mão pelos cabelos finos. Qualquer que fosse a miséria da aldeia. dar-lhe um tapa na cara e dizer-lhe todos os nomes feios que lhe viessem à mente. Mas. Desta vez esquecerei o que houve. Como castelã feudal. perdoeme. com ela em torno do jardim. poderia desatar muitas línguas. Mas. Fizera o que queria. que o ajudaria a desenredá-los. decidiu. não é verdade. e uma palavra. Disporia. seja um bom menino. poderia contar com a boa vontade da condessa. teve medo. jamais conseguiu compreender por completo quanto ele a odiava. Seu alojamento era confortável. Não sei o que se passa comigo. Quaisquer que fossem os seus problemas. Experimentara de novo o sabor da flagelação e podia dar-se ao luxo de ser generosa. enquanto descansava. Anne Louise de Sanctis sorriu. querido. encantadora. Prometo-lhe! Por favor. não seria fardo demasiado incômodo. inteligente como era. para que tome o próximo trem para Roma! Espero que isso fique claro. Saberei conduzir-me. atentos. certamente. estaria in loco parentis com os camponeses. Novamente. tinha razão de sentir-se grato.. a fim de apresentar sua . Ele teve vontade de gritar. da parte dela. cara? Perdoe-me. por favor. não estaria só e. parecia-lhe. com as venezianas corridas contra o calor do meio-dia. Ela devia saber muito. Depois. uma visita ao padre da paróquia. como sempre. sempre poderia voltar para ali e esquecê-la. uma indicação das fontes mais prováveis de informação acerca de Giacomo Nerone. bateu-lhe no rosto e disse: — Está bem.fazer suas malas e mandarei que Pietro o leve a Valenta. Depois.

parecia que Padre Anselmo iria constituir um problema para o advogado do Diabo. Aldo Meyer devia ser deixado de lado como duvidoso. seu depoimento não poderia ser admitido no tribunal. com seus elementos poliglotas de grego. Blaise Meredith debatia-se ainda com esse problema quando um criado entrou e anunciou que o almoço estava servido e que a condessa o esperava embaixo. Havia. Quem é que vinha a seguir? O médico. Parecia pouco provável que um sacerdote estrangeiro pudesse ser mais bem sucedido com ela. depois. Aqui também havia problemas. um meio de evasão para um homem que tinha algo a ocultar. Se tivesse sido. Era. Aldo Meyer. suas confidencias mútuas. Aqui. Sob todos os aspectos. a inquirição prometia ser a mais desagradável possível. suas atitudes morais. Segundo os registros de Battista e Saltarello.. mediante sanções morais. as razões de sua separação. mesmo durante algum tempo. e até mesmo a natureza de seu intercurso sexual. também. Envolveria uma intromissão confessional nas intimidades mais profundas que tinham existido entre ambos. ela se recusara. a fornecer qualquer informação. árabe levantino e francês angevino. Mas não poderia ser forçado a dar o seu testemunho. claro.carta de autorização e solicitar sua cooperação oficial. Seu testemunho era admissível. Podia-se depender apenas de sua boa vontade. já que mesmo os infiéis e os hereges podiam depor a favor ou contra a causa. Nina Sanduzzi. A . também havia um problema. que era judeu e liberal decepcionado. fenício. talvez. O almoço começou bem: uma conversação agradável entre gente de bom gosto e educação que. aquela. se encontrava numa terra estranha. ao que parecia. longas e belicosas relações com Nerone. Ele deveria saber demais. Pelo menos por enquanto. E tudo isso entre um sacerdote que falava apenas o italiano de Roma e uma mulher cuja língua era o dialeto bastardo da Calábria. Fosse qual fosse a reputação do pastor. que fora amante de Giacomo Nerone e lhe dera um filho. confessor de Nerone. terminantemente. Poderia ficar calmamente sentado e negar-se mesmo a indicar quaisquer fontes de informação. Também tivera. mesmo que o fosse. ele ainda tinha status canônico na matéria. e os canonistas lhe defenderiam a discrição. Mas. Mesmo que seu penitente o houvesse liberado do sigilo.. não poderia ser convidado a depor. uma cláusula sábia da lei. como no caso de um católico. mas não deixara de ser. estranhamente.

música e da política da Europa e da Igreja. também. a ponto de fazerlhe. confrontar e comparar suas informações. podia fazer com que dependesse dela para interpretar as coisas cruas da província. com raro charme e bastante conhecimento. as primeiras perguntas: — Perdoe-me a ignorância. de livros. Nicholas Black parecia contente com o seu papel de cosmopolita urbano. o que era ainda mais importante. mas esta sorria calmamente: — Terei prazer. e Blaise Meredith. mas acho que é perigoso recorrer a mim. Com pouco trabalho. e em sigilo. — Certamente — respondeu Meredith. por certo. Mas sou. pensei que o mais . com um aceno de cabeça. Era polido e discreto e. compreendia o idioma inglês da alusão e da exposição incompleta dos fatos. Penso diferentemente dessa gente. certamente. Nicholas Black lançou rápido e irônico olhar à condessa. pelo senhor e pelo bispo. Sou a padrona. monsenhor. em seus velhos tempos em Londres e Roma. em fazer tudo o que estiver ao meu alcance. Ela se sentia bastante confiante. Mas desejo. — Depois que Sua Excelência me escreveu. naturalmente. sem insistir no assunto.. falou. ele é um velho amigo meu. ajudar. Quando já chegavam quase ao queijo e às frutas. Como sabe. Já tive muitas provas disso. inglesa. — E por onde começará agora? — Esperava que a senhora pudesse ajudar-me primeiro. como o senhor diz. descansado após o repouso. Minhas idéias poderiam ser inteiramente erradas. Ali estava um homem que lhe era possível compreender. Contanto que Nicki continuasse a proceder bem. pode-se interrogar e fazer a acareação das testemunhas sob juramento. não haveria complicação alguma. Encontrara muitos como ele. Mais tarde. A senhora vive aqui há muito tempo. depois.. a condessa já havia começado a sentir-se novamente à vontade. Vivo uma vida diferente. É uma questão de falar com o maior número possível de pessoas e. mas como é que o senhor começa habitualmente a trabalhar num caso como este? Meredith fez um pequeno gesto de pesar: — Lamento dizer-lhe que não existem regras de espécie alguma. cautelosa. depois de estabelecido o tribunal do bispo.condessa conduziu com cuidado a conversa. É a padrona. Seus conhecimentos das condições locais seriam uma boa introdução para mim.

não é verdade. Pietro servirá os senhores no terraço e. então. necessita de sono. Meredith encolheu os ombros. depois que a condessa se retirou. Os criados vieram. cara. Convidei a ambos para jantar aqui esta noite. Este é um lugar estranho. Apesar de toda a sua sedução. aquele sujeito era vivo e inteligente. Nicki concorda comigo.. espero fazer um registro pictórico de todo o caso de Giacomo Nerone. Estraga-me a sesta. trocar idéias. e não queria que lhe lembrassem da morte. Sentia-se confortável. que o seu proporciona o contraste — disse o pintor com um sorriso. então. O senhor tem um rosto interessante e mãos expressivas. Mr. — O romano palaciano entre provincianos. — A condessa me disse que o senhor está muito doente. nós quatro. serviram o café. não tomo café à tarde. secamente. obrigado. Pensei em chamá-la "Beatificação". monsenhor? A beleza feminina. e Black ficou uns instantes fumando em silêncio. Sentir-me-ei mais confiante. Black. à vontade. em tom casual: — Enquanto o senhor está aqui. — Muito — respondeu. como o senhor sabe. Não lhe parece. uma opinião mais equilibrada. Estou certo de que sua idéia é correta. onde o café foi servido à sombra de um guarda-sol listrado. Ambos sabem muito mais a respeito da aldeia do que eu. depois.aconselhável seria pô-lo em contato com o médico e com o padre da paróquia. . É um luxo a que renunciei desde que fiquei doente. monsenhor? — Os senhores é que entendem do assunto — respondeu Meredith. pois o senhor terá. Nicki lhe mostrará os jardins. Poderá desculpar-me. tirando do bolso uma cigarreira de ouro. então.. com ar modesto. O pintor. — Fuma? — Não. Nicki? — Perfeitamente. Um erro de sua parte poderia ser irreparável. Nicholas Black conduziu o hóspede para o terraço. Meredith. Ademais. A condessa afastou a cadeira: — Em geral. — Digamos. — Sou-lhes reconhecido pelo trabalho que estão tendo por minha causa. ofereceu um cigarro a Meredith. Os dois homens ergueram-se e deixaram a mesa e. pensando em seu lance seguinte. Poderia constituir uma bela base para uma exposição individual. num gesto que o desarmou: — O senhor deve ter vinte temas melhores do que eu. monsenhor. Após um momento disse. espero que me deixe pintá-lo. Inteiramente diferente de Roma. Poderemos.

Não obstante. — O senhor o está investigando .. Meredith. São as personagens que contam.. — Eu. realmente. secamente.— Pode ser que jamais haja beatificação alguma — respondeu. não haveria necessidade de se ter fé. Mas. teve com ela um filho bastardo e. acredita. tendo. que viveu com muitas mulheres. em milagres. — Isso também é verdade. sinceramente. pensativo: — Isso cria problemas. como é que se pode pensar em beatificar um homem que seduziu uma aldeã. pela argumentação. — Do ponto de vista artístico. Admito. a abandonou. certo? Mas o pintor não estava acorde em ser posto de lado assim facilmente. é o caso amoroso. Não compreendo. o fato de se poder levar o caso ao tribunal. Espero desvendar toda a história enquanto estiver aqui. — O que me interessa. necessariamente. Voltou ao assunto: — Gostaria de crer. Estava por demais interessado em descobrir que espécie de homem havia sob aquela batina negra. — Sem Ele. o pintor. ele próprio. no fim. por certo — disse. — Se se acredita em milagres. Mas. um grande servo de Deus. também — respondeu-lhe. Há o exemplo clássico de Agostinho de Hipona. — Mesmo que haja. monsenhor.. — Se alguém acredita em Deus. pertinentemente.. isso quase não importa. problemas de fato e de motivos. depois. claro. Meredith. com cuidado. não se pode. — E é um mundo bastante duro com Ele. e há uma galeria fantástica delas por aqui. um filho ilegítimo. Ele esteve aqui o tempo suficiente para se casar com ela. tornou-se. o mundo não tem sentido — volveu Meredith. franco. meu caro amigo. — Mas o senhor não está encarando Giacomo Nerone sob o ponto de vista da fé — observou Black. levar um homem à fé: Assim. Meredith moveu a cabeça. — Depois de uma vida muito mais longa que a de Nerone. Estou pensando em como é que o senhor irá haver-se com elas. Se não houvesse mistério algum. Mas há demasiada pantomima profissional. — Não acredito em Deus — afirmou Nicholas Black... que as circunstâncias são embaraçosas. — Existem sempre mistérios. necessariamente. poderá demorar anos. Demasiados mistérios. em termos de estrita teologia. Mas não exclui. concordaremos em discordar um do outro. claro. não se pode ignorar a possibilidade de uma súbita e miraculosa conversão.

mostrarlhe-ei o jardim. o senhor está envolvido no caso. querer falar a respeito dele. a observá-lo: uma figura alta. Ela estava aqui quando ele vivia. na verdade. — Não obstante. É. Depois. — E. passava a ferro sua camisa e limpava com uma esponja as lapelas de sua última roupa respeitável. sentira-se tentado a cancelá-lo.. Aldo Meyer. ao jantar. uma indicação. Sou pintor. Pensou. tanto mais se . Se já terminou o seu café. sentado. Está procurando conseguir que o filho dele venha trabalhar aqui. Estava aqui quando ele morreu. nem mesmo a condessa. creio. — Ficarei aqui sentado se o senhor não se importar.do ponto de vista legal. a caminhar com indolência pelo gramado. Eu. irei fazer a sesta. até desaparecer atrás dos arbustos. O Dr. mas. nascendo dela. monsenhor. esguia. Estou-lhe dando apenas. O pintor sorriu entre dentes. em Gemello Minore. não. de qualquer forma. Seja lá como for. — Claro que conheceu. Vê-lo-ei ao jantar. O senhor o verá esta noite. monsenhor. são fechados como ostras. como amigo. por que teria a condessa tergiversado quando lhe pedira ajuda. animado por novo interesse. Após a cena da noite anterior. com brandura. Também ele estava preocupado com o jantar da condessa. — Uma comédia de aldeia — respondeu. Não gosto de desperdiçar luz. bastante simples.. Não são todos amnésicos. sentado em sua cozinha. observava Nina Sanduzzi.. Todos os outros também estavam. encontrará uma porção de mistérios. prometendo-lhe um jantar campestre. — E qual o seu interesse no caso? Havia um leve tom de irritação na pergunta. feliz. — Então ela o conheceu? — indagou Meredith. E o maior mistério de todos é ninguém. Pensou onde residiria a raiz do rancor que alimentava contra a condessa e por que razão ela continuava a dar-lhe abrigo. Conhecera antes alguns homens como aquele. uma exposição individual de pintura. até mesmo de batina. Mais do que pensa.. Meredith ficou. também. quanto mais pensava no assunto. — Trata-se de uma questão de fato e não de fé — disse Meredith. Black. — Como quiser. enquanto ela lhe engraxava os sapatos. Mas.

e acho que a presença dela será boa para ele. a respeito de Giacomo. Meyer olhou-a intrigado. e lhe direi o que se passa por lá. Estava à procura de uma chave para o mistério de seu próprio fracasso e por um sinal indicativo qualquer no deserto de seu futuro. Pedirei a ele que olhe por Paolo. com ar pensativo: .convencia de que devia ir. Eram como as cartas de um amante rejeitado.. não ainda.. as quais. Mais cedo ou mais tarde teria de enfrentar a revelação: mas não agora. mais velha e mais esperta do que Rosetta. porque Rosetta estará lá. — Já pensei nisso — admitiu.. — Mas também pensei que o sacerdote estará lá na casa. receoso da dor e da vergonha que poderiam conter. Parte de sua resposta estava nos papéis de Giacomo Nerone. de qualquer maneira. — A condessa também estará lá — advertiu-lhe Meyer. mas todas as vezes recuara. Acho que acreditará em mim. Já é quase uma mulher. mas ainda não encontrara coragem para abri-los. afinal de contas. lhe recordariam as vezes em que fora menos do que homem.. — Mas ele poderia não acreditar em você.. a não ser que fosse pelos interesses de Nina e Paolo Sanduzzi. Era como se uma batalha estivesse em curso. o agarrará. e lutará por aquilo que deseja. e não podia dar-se ao luxo de conceder uma única vantagem à condessa e ao intrigante cavaleiro.. Resolvi que. Nicholas Black.. ele deveria trabalhar para a condessa. uma vez abertas.. como fizeram os outros. ela falará e eu ficarei sabendo o que se passa na villa. Ele virá ver-me. A dificuldade real era que não conseguia saber pelo quê estava lutando. Mas esse era um objetivo demasiado limitado para explicar a sua ansiedade de encontrar o sacerdote inglês e seu completo envolvimento no caso de Giacomo Nerone. serena. Paolo não terá outra coisa a fazer senão vadiar e andar à toa pelos montes. Várias vezes apanhara as cartas e ficara a apalpar os envelopes.. e o pintor. Meyer fitou-a boquiaberto: — Santo Deus. que se achavam ainda na gaveta de sua escrivaninha. Nina Sanduzzi levantou os olhos do ferro de passar e disse calmamente: — Estive pensando em Paolo. mulher! Por quê? — Primeiro.. — Contarei todas as outras coisas. Além disso. Uma vez que ela comece a trabalhar. Tinha a curiosa convicção de que Blaise Meredith poderia fornecer-lhe ambas as coisas. em tom grave. — E ela também é mulher.

com gélido humor. diga-lhe para vir falar comigo. e agora chegou. agora. — Ele não o odiou. O que foi que a fez mudar de idéia? E sua promessa a Giacomo? — O rapaz é mais importante do que uma promessa.— Ontem você estava resolvida a nada dizer-lhe. Por que deverá. — Direi. Mas não houve nenhuma resposta sorridente no rosto calmo da mulher. Não o vejo. Já leu os papéis de Giacomo? — Ainda não. saindo para o jardim. como sempre faço. Ela apenas disse: — Não se trata de ele ter mudado de opinião. nem mesmo no fim. lacônico.. O sacerdote me procurará quando estiver preparado. E. — Não sabia que as pessoas mudavam de opinião depois de mortas — comentou Meyer. e é isso que farei. Aldo Meyer. antes que o rapaz vá para a villa. Meyer encolheu os ombros e ergueu os braços.. E eu lhe direi tudo. a Giacomo. Mas.. com singular brandura.. É que o momento ainda não havia chegado. Há apenas a camisa que usava quando foi morto. com estranha convicção na voz —. rezei ontem. ... com o buraco das balas ao redor de seu coração. envergonhá-lo? — Sinto vergonha de mim mesmo — respondeu. além disso — ajuntou. não o ouço. tomado de ligeiro desespero: — Diga o que disser. onde as cigarras cantavam em meio ao esplendor da tarde e o pó se agarrava às folhas verdes da figueira. — Não devia ter medo de ler — disse-lhe ela. Mas sei o que quer. você agirá como quer.

àquela noite. e seus cabelos grisalhos. Não recebemos muitos romanos por aqui. creio eu. longos e escorridos. Continuaria a falar durante uma hora. A condessa estava trajada como para uma noite romana e Nicholas Black achava-se impecável num dinner jacket negro. Os ombros de sua batina eram mosqueados de caspa e a parte da frente tinha velhas manchas de vinho e de gordura. muito limpo e brilhante pelo longo uso. inteligente. Ao cumprimentar Meredith. Tinha o rosto enrugado e curtido como o dos camponeses. seu italiano tinha o sotaque carregado e rude da província. portava-se com dignidade. Meyer vestia um traje de passeio surrado. — Tenho má reputação.. com frio humor. que ele torcia e retorcia enquanto falava.9 Quando Meredith. e seu rosto envelhecido. — Aí é que está a dificuldade nesta parte do mundo. E por aí ficou a coisa. caíam-lhe por sobre o colarinho. O contraste entre eles era surpreendente. enquanto a condessa arrastava o Padre Anselmo do seu canto e o apresentava ao seu colega romano.. Meredith sorriu. Lembro-me de que. Suas mãos. Estarei em boas mãos. — Tenho muito prazer em conhecer o meu médico conselheiro. encontrou a condessa e seus convidados já reunidos. É muito longe e muito rústico para eles. pouco à vontade. eram nodosas de artritismo. — Muito prazer em conhecê-lo. mas o velho era loquaz e não estava disposto a ficar de lado. Contudo. não houvesse a condessa feito sinal . Meredith sentiu-se imediatamente atraído por ele e cumprimentou-o com menos reserva do que habitualmente. e sua gravata era desbotada e fora de moda. Era um homem baixo. tomando drinques no salão. desceu para o jantar. mas o colarinho e os punhos começavam a desfiar. Eles têm dinheiro a rodo. quando estava em Roma. mas nós não sentimos sequer o cheiro dele. de sessenta e muitos anos. — Melhor reservar tal juízo para mais tarde — respondeu Meyer. monsenhor. mantinha-se calmo. e murmurou uma observação banal. Usava uma camisa limpa e recém-passada a ferro. O Vaticano não sabe sequer o que se passa por aqui.

Como acontece com a maioria das pessoas educadas. Já tem sobre ele o sinal da morte. Não há razão para que não nos entendamos. como se um ganso . e marcou um ponto a favor de Blaise Meredith. mas faltava-lhe a brutalidade para uma atitude ríspida. sentiu-se disposto a cooperar e a esquecer o ódio que sentia por ela. Aldo Meyer notou prontamente a brusca troca de palavras. Padre Anselmo tomou um longo sorvo de xerez e olhou-o com olhos lacrimejantes. num simples erguer de sobrancelhas. e imediatamente envergonhou-se de si mesmo. cordialmente: — Eu sou o visitante. que é que acha do nosso advogado do Diabo? — Causa-me pena. os mesmos que os dela. já deve estar sofrendo muito. Nicholas Black também o notou e sorriu astutamente para a condessa. e a perspectiva de uma longa associação com aquele lhe parecia sumamente desalentadora. Meredith não tinha defesa contra a grosseria dos outros. Enquanto Meredith falava com a anfitrioa e o Padre Anselmo permanecia um tanto à parte. Apenas disse. os clérigos ensebados lhe eram desagradáveis. arrastou Meyer para um lado e perguntou-lhe. Depois. E voltou-se para conversar um pouco com Anne Louise de Sanctis. Ignorando o criado que o pastoreava. Era bem possível que. O pintor teve um estremecimento involuntário. lhe disse de maneira mais clara do que por meio de palavras: "Isso está saindo como planejei: tortuosamente e bem". Mas lembrou-se. A essa altura. Aquilo o magoou. dottore mio.a um criado. então. naquele momento. de Aurélio. Meredith sentia-se embaraçado. nada tenho com a política local. cuja resposta. em tom cordial: — Sua Excelência envia-lhe suas saudações e espera que eu não lhe cause demasiado incômodo. Mas não pode fazê-lo sem levar o caso a um tribunal. revelasse também coração. E como os interesses do pintor eram. com um olho no xerez e um ouvido na conversa. mais tarde. impertinente: — Sua Excelência envia-me saudações! Quanta bondade! Sou uma pulga que tem atrás da orelha e da qual gostaria de livrar-se. Mas receio precisar apoiar-me muito em seus pareceres. aproximou-se do velho e disselhe. abanou a cabeça e disse. Eis aí como são as coisas. O homem era bem-educado e discreto. bispo de Valenta. Mesmo em seus melhores dias. É bom que nos entendamos bem. sorridente: — Então. que lhe meteu na mão um cálice de xerez e o afastou delicadamente do visitante.

meu caro amigo. a lívida transparência da pele. mas. Aquele que ali estava parecia estar suportando ambas as coisas com coragem. voltando-se para Meredith. Meyer à esquerda e o Padre Anselmo e Nicholas Black mais longe. a fim de explicar-lhe: — Isto talvez lhe interesse. Os homens reagiam de várias maneiras à dor e ao medo. O jovem Paolo Sanduzzi é filho de . provavelmente tentaria pescar-lhe a alma. ? Deixou a pergunta no ar. Nicholas Black. injetados. monsenhor? Enquanto Meredith. o sacerdote o deixaria entregue à misericórdia de Deus. Antes que se sentassem.. sem pensar. o pintor riu consigo mesmo. — Sua mãe virá provavelmente vê-la amanhã. se mantinha de cabeça baixa. Estava pensando em outra coisa. doutor? Virá trabalhar para mim? — Creio que sim — respondeu Meyer. Poucos momentos depois o jantar foi anunciado e todos se dirigiram à sala. Notou-lhe a magreza. cauteloso. Que atriz era aquela mulher! Nenhum pormenor fora esquecido! Estava tão absorto em seu divertimento que. com efeito — disse. finda a oração. A condessa postou-se à cabeceira da mesa. mas ainda era muito cedo para ver-se o que mais lhe estava acontecendo. ela se voltou para Meredith: — Quer fazer o favor de conduzir a ação de graças. Mas Meyer nada fez para resolver a questão. o senhor e eu. fez o sinal-da-cruz e. a condessa repetiu o nome a Aldo Meyer: — E o jovem Paolo. — Por que deveríamos. como uma ironia em suspenso. Respondeu. — Ótimo — disse ela. monsenhor. enquanto este falava com a condessa e com o Padre Anselmo. as rugas de sofrimento traçadas cada vez mais profundamente em torno da boca. os olhos cansados. Como sob o efeito de uma sugestão. passou uns cinco minutos pouco confortáveis. em tom queixoso: — Não falemos de morte à mesa. como católico relapso. Como é que acha que ele irá agir? De modo agradável ou. Como ateu confesso. azedo. pensando se Meredith havia ou não percebido.. preocupar-nos? — Sim. ao recitar a breve fórmula latina. Meyer sorvia seu xerez e observava o rosto de Meredith.caminhasse sobre o seu túmulo. que dormiam demasiado pouco e viam demais a tristeza das coisas. tendo Meredith à sua direita. e deixou o assunto de lado. o que poderia constituir um embaraço quanto aos planos referentes a Paolo Sanduzzi.

doutor — interveio Nicholas Black. Gostaria de conversar com o senhor a respeito. Meredith voltou-se para Meyer: — O senhor conheceu Giacomo Nerone. — Ela devia confiar no senhor. achamos que seria bom que ele começasse a trabalhar. no momento que lhe seja mais conveniente. no silêncio que se seguiu: — Talvez o Padre Anselmo possa ajudá-lo muito. — Fui a primeira pessoa que o viu depois de Nina Sanduzzi. contanto que estejam dispostos a prestá-lo. Meredith. mas nós. monsenhor. suavemente.. a boca cheia de peixe. Lembro-me dela quando fez a primeira comunhão. Ele está bastante ligado à nossa gente. Meyer e eu. — Oh! — Era uma mulher muito bonita — observou Padre Anselmo. doutor. simplesmente: — O senhor provavelmente sabe. como ninguém dissesse nada. Depois.. Uma criança encantadora! Engoliu o peixe com um trago de vinho e limpou a boca com o guardanapo amarfanhado. Seu rosto se anuviou de desapontamento. — Parece-me uma idéia bondosa — disse. Eu era um exilado político. com fácil franqueza.Giacomo Nerone. conheci-o — respondeu Meyer. O senhor também conheceu Nerone. isto é. doutor? — Sim. Não o apanharão tão facilmente!" Anne Louise de Sanctis interveio logo. Todos sabiam que minhas simpatias eram contrárias à administração. não conheceu. que numa causa de beatificação é admitido mesmo o testemunho de não-católicos. — Como é que a mãe dele vive? — Trabalha para mim — informou Meyer. — A qualquer momento. E pensou. não é verdade. tornou a debruçar-se sobre o seu prato. É um tanto selvagem. monsenhor. O pintor sorriu e aguardou a pergunta seguinte. o Dr. Meyer livrou-se do golpe com um encolher de ombros: — Não havia razão para que não confiasse. claro. Ela chamou-me para extrair-lhe uma bala do ombro. em tom casual. padre? O Padre Anselmo largou ruidosamente o garfo e tomou outro gole de . Foi batizado com o nome da mãe. — Agora engordou um pouco. satisfeito: "Sua estatura é melhor do que eu julgava. E eu lhe ofereci um lugar de ajudante de jardineiro. quando Meredith disse.

procurava cooperar. — Os senhores tinham os alemães aqui. Queria que eu saísse correndo com os sacramentos. Sua voz tornava-se perceptivelmente mais grossa e seu sotaque. Era por demais intrometido. Meredith parecia não ter pressa em prosseguir no assunto. Isso não devia ser muito confortável. — Tinha esquecido — atalhou Meredith. Que é que acha disso. Padre Anselmo estava ocupado com outro . — Fiquei presa. Depois disso. Em base muito oficial. — Eles capturaram a villa — disse rapidamente a condessa. condessa? — Acho que isso talvez seja um exagero. Costumava bater à minha porta sempre que alguém tinha uma dor de barriga. sob palavra. Presa sob palavra? Deveria haver outros nomes para isso. Um pouco de paciência e teria toda a história de Anne Louise de Sanctis.. Blaise Meredith pareceu não notar a ironia e prosseguiu: — As primeiras provas pareciam indicar que Giacomo Nerone agia como uma espécie de mediador entre os camponeses e as tropas de ocupação. Nunca senti tanto medo em minha vida. enquanto os camponeses passavam fome além dos portões de ferro e do muro de pedra. durante quase todo o tempo. Nicholas Black limpou os lábios finos e sorriu por trás do guardanapo. trocando os pratos já servidos. mais carregado: — Jamais me interessei muito por ele. Ele. Quase toda a mediação era feita por mim. Nicholas Black aproveitou-se da pausa para fazer uma pergunta cheia de farpas: — Alguém já estabeleceu definitivamente quem era esse homem e de onde vinha? Anne Louise de Sanctis estava ocupada com os criados. Meyer permanecia esquisitamente mudo. Uma noite. é claro.. meus criados me diziam. exercendo sua coqueteria nos braços de um capitão louro. Qualquer pessoa diria que também era sacerdote. e eu me aproximava do comandante. não tornei a sair após o toque de recolher. Quando as relações se tornavam tensas na aldeia.vinho. claro. Penso que talvez Nerone haja exagerado a sua influência para conseguir aumentar seu prestígio junto ao povo. deitando-se com ele no grande quarto barroco. com naturalidade. Foi terrível. em geral. Imaginou-a caminhando pelo jardim em companhia dos conquistadores. atrás das cortinas de veludo. quase fez com que eu fosse baleado pelos alemães. Nessa altura. os criados começaram a mexer-se em torno da mesa.

— . subitamente. secamente. Meredith respondeu: — Isso jamais ficou muito claro. vacilante: — Todos estão falando como se ninguém soubesse de nada. ou canadense. — Houve alguns milhares de desertores no teatro de operações italiano. não poderia ser santo. Nós todos sabíamos quem ele era. O pintor estendeu as mãos. daqueles que o conheceram intimamente. após um momento de embaraçoso silêncio.. Sua voz era tão indistinta e vacilante. O doutor sabia. o senhor possui uma lógica muito cristã — observou Meredith. talvez. Inglês. sob juramento. Um pequeno sorriso percorreu a mesa e o pintor enrubesceu. não é? — Por que não? — indagou Meredith. — Perfeitamente lógica — concordou Meredith. que não enxergam as coisas mais simples. depois. tem de examinar o valor do testemunho.. com fingida humildade: — Não sou teólogo. que os convidados se olharam tomados de viva apreensão. então. que se conservava rígida à cabeceira da mesa. foi tido como italiano. — Mas pode ser que haja outros fatos. com súbito interesse. O tribunal. monsenhor? E o motivo? — Temos de confiar no testemunho.. — Interessante — disse o pintor. ele é obrigado a recusar. alguém manifestou opinião de que podia ter sido membro de uma das unidades aliadas que operavam no sul. mas todo soldado faz um juramento de fidelidade. ao que parece.. — Se ele fosse desertor.copo de vinho e. E o velho prosseguiu. Quebrar um juramento solene deveria ser um pecado. — Ele está embriagado — disse a condessa. com voz clara e dura. sob juramento. fitando. claro.. Se se exigir dele que o faça. com ligeiro senso de humor. Um homem não pode comprometer-se por juramento a pecar. o Padre Anselmo —. — Como descrente. mesmo quando se passam debaixo de seus narizes. Mais tarde. não é certo? E um desertor estaria vivendo num constante estado de pecado. a condessa. A. — Pareceu-me uma proposição lógica. Eu sabia. — E acrescentou com um sorriso que desarmou o outro: — É uma longa tarefa. — Como é que o senhor estabelece o fato. — É algo que espero descobrir de modo preciso. A princípio. — Uma complicação para os senhores de Roma — interveio. — Isso também é possível — concordou Meredith.. encabulado.

revoltado. a princípio. em companhia do doutor. em voz baixa: — A coisa chegou muito perto. muito perto. os pés a trotar a esmo ao ritmo de seus próprios passos. — Pietro pode ir com o senhor — disse a condessa. que murmurava palavras ininteligíveis. deixando-o sozinho. passando pelo criado que se achava à porta e saindo para o caminho coberto de cascalho. Meredith afastou a cadeira e levantou-se. e basta muito pouco para que seja posto fora de combate. Enquanto caminhavam pela estrada esburacada na direção da aldeia. Juntos. Decorrido um momento.Lamento este espetáculo. Ali estava o que acontecia a certos homens quando o terror da vida os assaltava. Meredith ficou surpreso ao verificar quão leve era o velho. esforçando-se por retomar o fio de suas idéias. o pintor comentou. Havia uma entonação nova em sua voz clara e precisa: — É um sacerdote. desvalido como uma criança doente. Não é longe. Ajude-me a ampará-lo. — O ar fresco lhe fará bem. O velho lançou um olhar nebuloso em torno da mesa. com o Padre Anselmo dependurado de seus ombros. monsenhor. monsenhor. cara. parecia inchado e gordo. Eis ali em que se transformavam quando a . a olhar um para o outro. passou a experimentar viva compaixão. Meredith. Sua cabeça grisalha oscilava e um pequeno fio de vinho escorria-lhe pelos lábios flácidos. agora. Aldo Meyer. lacônica. diante dos destroços do jantar de sua ama. — É melhor que ele ande — respondeu. a sorrir como um sátiro. babava e agarrava-se a eles. era apenas um frágil velho barrigudo. Nicholas Black e a condessa ficaram ainda sentados à mesa. — Eu irei — atalhou Nicholas Black. Na sala de visitas e à mesa do jantar. — Seu fígado está arruinado. mas. — É velho — comentou Meyer em voz baixa. de cabeça gordurosa e oscilante. sentiu-se. Eu o levarei para casa. baixo. que raramente se aproximava de um bêbado e jamais vira um sacerdote embriagado. tiraram-no da cadeira e o conduziram para fora. — Levem o meu carro — disse Anne Louise de Sanctis. não lhe parece? — Vá para o inferno! — exclamou a condessa. depois. Eu o levarei para casa. mas deviam levá-lo para casa imediatamente.

idade lhes debilitava as faculdades. e quando não pode segurar direito uma colher devido ao artritismo articular. Passado um instante. vestindo uma bata preta e tendo à cabeça. Ele. que compreendia o que acontece a um homem quando o seu fígado ingurgita. ou se a sua alma fosse para sempre condenada. — É melhor que o carreguemos até a cama. Meyer se importava: o semita mal-vestido. subindo por uma escada vacilante. E Blaise Meredith? Também se importava? Ou estava tão preocupado com a sua dor no ventre que não conseguia ver que havia outras maneiras mais mesquinhas de morrer e sofrimentos mais agudos do que os seus? Ainda mastigava o mau bocado por que estava passando quando chegaram à casa do padre. — Tomou a mão do padre e procurou fazê-lo entrar: — Vamos. abriu a porta. Rosa. monsenhor — disse o médico. tropeçou. seu maluco! Rosa o meterá na cama e cuidará de você. o bastante. dar-lhe o braço e fazer com que fosse para casa usando suas próprias pernas... ouviram. se é que sobrava uma alma após a longa devastação dos anos? Meyer se importava. Tiraram o fardo de seus ombros e seguraram-no de encontro à parede. passos arrastados e. A mulher é quase tão velha quanto ele. — Nós o trouxemos para casa.. Mas o velho cambaleou. zangada: — Eu sabia que isso iria acontecer! Bem disse a ele! Por que é que não podem deixá-lo em paz? Não foi feito para meter-se com gente fina. de má reputação. lacônico. para desculpá-lo com dignidade. pelo menos. para afastá-lo rapidamente da sala e impedir que cometesse novas indignidades. Ela voltou-se para o médico.. É apenas um velho.. — Vamos. Quem poderia amar aquela trôpega ruína humana? Quem agora se importaria se ele vivesse ou morresse. uma velha gorda.... enquanto Meyer batia com força na porta da frente. alumiando o . — Está embriagado — disse Meyer. É melhor que o leve para a cama. e teria caído se Meyer não o segurasse. uma touca encardida que mal lhe cobria os cabelos desgrenhados. quando a sua próstata falha. Espiou-os sonolenta: — Bem! O que se passa? Não podem deixar a gente dormir? Se procuram o padre ele não está aqui. uma criança grande que não sabe cuidar de si mesma. dentro.. logo depois. enviesada. quando a decadência se lhes insinuava por entre os tecidos e a vontade fraquejava sob o fardo dos anos e das recordações. com Rosa Benzoni à frente.. Ergueram-no pelos pés e pela cabeça e o conduziram para dentro da casa. em tom amável.

Após um momento de hesitação. monsenhor? — Tenho pena dele — respondeu. É como uma esposa para ele. de um campônio não muito inteligente. em voz baixa. Meyer deu de ombros e saiu do quarto. Carregaram até ela o velho e fizeram-no deitar-se. ao chegarem à cama." e que um lado da mesma já se achava em desordem.. A casa cheirava a ranço e a bolor.. Posso cuidar dele. de cobertas ensebadas. em meio ao ar abafado.. — Eu sei — disse Meredith. Teve a tremenda sorte de encontrar uma mulher como Rosa Benzoni. como um buraco de camundongo e. que ralha com ele e lhe conserva as meias limpas. resmungando: — Deixem-no em paz! Deixem-no em paz. com seus móveis camponeses e suas fileiras de vasilhas de cobre. Meredith. Não passa de um campônio e. sem segurança de espécie alguma. Um homem de pouca educação. — Passei toda a minha vida no exercício do sacerdócio e acho. mal-alumiado. Ela. — Vamos até minha casa e lhe farei uma xícara de café. — respondeu.. monsenhor? — Causa-me pesar. sem estipêndio. Depois. acendeu-o e aspirou profundamente a fumaça. que a desperdicei. Meredith viu que se tratava de uma grande cama de casal. e esperam que permaneça celibatário durante quarenta anos. — E isso o surpreende. meu amigo. Meyer levou um charuto aos lábios finos. e perguntou.. Meredith seguiu-o. especulativo. pelo amor de Deus! Esta noite já causaram muito dano. com ar absorto. No aposento de teto baixo. Meyer pôs-se a afrouxar-lhe o colarinho e os sapatos. descendo com cuidado os degraus rangentes. até chegar ao agradável frescor da noite enluarada. o que é mais. — Então somos dois — disse. lançou a Meredith um olhar de soslaio.caminho com uma vela de sebo. como para afastar um pesadelo que o perseguisse. ela o ama. Venho fazendo isso há muito tempo. polidas pelas mãos . Meyer encolheu os ombros: — A metade da culpa cabe à Igreja. Enviam um pobre-diabo como Anselmo para um lugar como este. — Profunda pena. A velha afastou-se para o lado. friamente: — Está chocado. Meyer.. abanando a cabeça... — Isso é o que me comove mais do que tudo.. da casa de Meyer. em voz baixa..

cuidadosas de Nina Sanduzzi, Meredith sentiu o mesmo bem-estar e intimidade que experimentara na casa de Aurélio, o bispo. Sentiu-se grato por aquilo, como se sentira antes, mas dessa vez a sensação de bem-estar foi mais rápida e menos consciente. Sabia, agora, quanto necessitava de amizade e estava disposto a avançar mais do que meio caminho ao seu encontro. Enquanto Aldo Meyer andava pela sala pondo as xícaras sobre a mesa, tirando o café com uma colher e cortando a última fatia de pão para servir com queijo, indagou, abruptamente: — O que significa o jantar desta noite? Tudo parecia apontar para algo, mas não consegui perceber o que era. — É uma longa história — respondeu Meyer. — Demorará algum tempo para que possa ficar clara para o senhor. A reunião foi idéia da condessa. Queria mostrar o tipo de gente com quem o senhor teria de lidar... e quão melhor seria se o senhor se apoiasse nela, e não em dois vagabundos do campo como Anselmo e eu. — Tive a impressão de que estava com medo do que pudesse ser dito. — Também isso — concordou Meyer, com um aceno de cabeça. — Todos nós, há muito tempo, temos sentido medo. — De mim? — indagou Meredith, fitando-o com ar de surpresa. — De nós próprios — respondeu Meyer, com um sorriso enviesado. — Todos nós que lá estávamos esta noite estivemos envolvidos, deste ou daquele modo, na vida e na morte de Giacomo Nerone. Nenhum de nós se saiu muito airosamente do caso. — Isso inclui o inglês... o pintor? — Ele se envolveu no caso mais tarde. É um indivíduo esquisito... que se sentiu atraído pelo jovem Paolo Sanduzzi. Fez com que a condessa o ajudasse a seduzi-lo. Meredith escandalizou-se: — Mas isso é monstruoso! — É humano — disse, calmamente, Meyer. — Soa melhor quando se trata de uma moça e não de um rapaz. Mas a idéia é a mesma. — Mas a condessa disse que o senhor concordou em que o rapaz trabalhasse na villa. — Estava mentindo. É uma mentirosa consumada. E isso torna difícil à gente ajudá-la. Trouxe o bule para a mesa e despejou o conteúdo fumegante em duas xícaras de barro. Depois, sentou-se diante de Meredith, que o fitou com olhos

perplexos: — O senhor é muito franco, doutor... Por quê? — Aprendi alguma coisa na vida, embora tarde — respondeu Meyer, com firmeza. — Não se pode jamais enterrar tão profundamente uma verdade a ponto de que não possa ser desenterrada. Temos tentado enterrar a verdade acerca de Giacomo Nerone, e agora ela surge em torno de nossos pés. O senhor a saberá, mais cedo ou mais tarde... e acho que deveria sabê-la já. Depois, poderá voltar para Roma e deixar-nos em paz. — Isso significa que o senhor também está disposto a depor? — Perfeitamente. — E a verdade... é o seu único motivo? Meyer levantou rapidamente a cabeça e viu, pela primeira vez, o inquisidor que vivia debaixo da pele de Blaise Meredith. Perguntou, cautelosamente: — E o meu motivo importa, monsenhor? — Dará colorido ao depoimento — respondeu Meredith. — Mas poderá obscurecer a verdade... que é a verdade a respeito da alma de um homem. Meyer moveu gravemente a cabeça. Compreendia a questão. Respeitava o homem que a formulava. Após uma pausa, respondeu: — Tanto quanto um homem pode ser honesto acerca de seus motivos, eis os meus: compliquei tremendamente a minha vida. E não sei bem por quê. Participei, também, da morte de Giacomo Nerone. Estava errado quanto a isso. Mas não creio que estivesse enganado quanto aos outros juízos que fazia dele. Quero falar de tudo isso; quero que alguém me coloque tudo isso dentro da devida perspectiva. Do contrário, acabarei como o velho Anselmo, arranjando uma cirrose por não poder enfrentar os meus pesadelos. Eis por que estava com medo do senhor, como os outros. Se não confiasse no senhor, não poderia falar. Um brilho divertido animou os olhos de Meredith. Indagou, irônico: — E o que o leva a pensar que pode confiar em mim, doutor? — O fato de o senhor possuir a graça de envergonhar-se de si mesmo — respondeu, com franqueza, Meyer. — E isso é bastante raro, na Igreja ou fora dela... Agora, tome o seu café e conversaremos um pouco, antes que o mande para a cama. Mas não houve mais conversa para Meredith aquela noite. O primeiro gole de café fê-lo perder o fôlego, assaltou-o de novo a dor no estômago e Meyer o conduziu, cambaleante, para o jardim, a fim de desfazer-se da bílis e do

sangue que o afogavam. Depois, passado o espasmo, fê-lo deitar-se em sua própria cama e começou a apalpar-lhe o ventre murcho, apertando a massa dura, mortal, que crescia em seu interior. — Isso acontece com freqüência, monsenhor? — Está-se tornando cada vez mais freqüente — respondeu-lhe, penosamente, Meredith. — Durante a noite é pior. — Quanto tempo de vida lhe deram? — Doze meses; talvez menos. — Reduza isso à metade! — disse-lhe, francamente, Meyer. — Torne a reduzir e se aproximará mais da verdade. — Tão cedo assim? Meyer fez um sinal afirmativo com a cabeça. — Na verdade, o senhor já deveria estar, nesta altura, num hospital. — Quero continuar de pé tanto quanto puder. — Tentarei mantê-lo de pé — disse Meyer, com relutante admiração. — Mas se isso se tornar demasiado freqüente, será preciso um milagre! — Foi o que o bispo queria que eu pedisse... um milagre. Disse-o em tom jocoso, procurando transformar num gracejo a dor que de novo começava a assaltá-lo. Mas Meyer agarrou-se àquilo como um cão rafeiro: — Diga isso de novo! — O bispo queria que eu pedisse um sinal... uma prova tangível da santidade de Giacomo Nerone. Algumas das curas que lhe são atribuídas poderiam ser milagres, mas duvido que possamos provar qualquer uma delas judicialmente... de modo que a minha cura talvez pudesse ser uma delas. — E o senhor, monsenhor? Que foi que respondeu a isso? — Não tive a coragem de concordar. — Prefere sentir a dor que sente agora... e a que ainda virá? Meredith fez um sinal afirmativo com a cabeça. — Tem tanto medo do seu Deus, meu amigo? — Não sei bem do que tenho medo... É... é como se me pedisse para lançar-me através de um círculo tapado com um papel, do outro lado do qual existem trevas ou uma tremenda revelação. A única maneira pela qual poderei saber é saltando. Eu... eu... eu não tenho a coragem de fazê-lo. Isso lhe parece estranho, doutor? — Estranho... e, contudo, não tão estranho assim — respondeu Meyer, pensativo. — Estranho, tratando-se de um homem como o senhor; mas, para

mim, bastante fácil de compreender. Estava pensando nos papéis de Giacomo Nerone que ainda permaneciam intactos em sua escrivaninha — e estava pensando, também, no medo que o assaltava todas as vezes que procurava abri-los. Mas Meredith não pediu explicações. Fechou os olhos e recostou-se, pálido e exausto, no travesseiro. Meyer deixou-o dormitar até a meia-noite e, quando despertou, levou-o a pé de volta à villa, recomendando ao porteiro que o conduzisse ao quarto.

À meia-noite, Nicholas Black estava também desperto. Sentado em sua cama, fumava um cigarro e contemplava, com profunda satisfação, o retrato de Paolo Sanduzzi, colocado sobre o cavalete, diante das cortinas cerradas. Escolheu aquela posição com certo cuidado, de modo que a luz caísse sobre o mesmo vindo do ângulo certo — e a figura do rapaz se lançava para a frente, afastando-se do lenho escuro da árvore-patíbulo. Os lábios escarlates sorriam para o homem que os pintara, e os olhos eram brilhantes, na contemplação do velado e enganador futuro. Narciso, em seu lago, não se viu mais belo do que Nicholas Black na solitária contemplação de sua própria criação. Não obstante, nem mesmo aquele prazer podia deixar de ligá-lo ao que havia de lamentável em sua situação: que aquele era o ponto mais próximo a que podia chegar do que os outros homens possuíam por direito natural... filhos do seu próprio amor, amados e dirigidos para o desabrochar de sua masculinidade. Será que jamais haveria um fim para aquela busca, o pânico arquejante, a azeda humilhação do fracasso? Às vezes, com outras pessoas, aquilo deveria ter um fim. Outros buscavam, casados, as suas virgens, que lhes geravam filhos e lhes aqueciam os chinelos, enquanto se arrependiam, felizes, no veranico de suas vidas. Logo, deveria chegar ao seu próprio porto, antes que os ventos do inverno se pusessem a soprar e as folhas mortas, a farfalhar em torno das aléias do jardim. Lembrou-se, então, da conversa mantida durante o jantar, e a esperança de novo começou a despertar nele. Amanhã, dissera Meyer, o rapaz viria. Sua mãe falaria com Anne Louise de Sanctis e seria destinado ao serviço com os jardineiros. Durante as manhãs e as tardes, lá estaria — um camponês rústico a ser arrastado a costumes gentis, um criado a ser seduzido, devendo transformarse em filho. Aquilo exigiria tato e delicadeza, e, também, às vezes, firmeza, de

modo que desde o princípio ficasse claramente estabelecida a natureza de suas relações. Nicholas Black percebia, astutamente, a atração que exercia sobre o jovem, bem como a capacidade que o jovem tinha de atraí-lo, para ruína de ambos. Precisava fazer com que o rapaz compreendesse que todas as suas esperanças residiam numa associação disciplinada, e que qualquer tentativa que fizesse no sentido de explorar o seu patrão poderia destruí-los por completo. Contudo, dando tempo ao tempo e levando em conta a intimidade casual que entre eles poderia existir na villa, tinha esperança de que aquilo podia ser feito. O que o preocupava é que só podia entender a metade das razões que levavam a condessa a ajudá-lo em sua conquista. A metade dessas razões era bastante simples. Desejava sua cooperação para lidar com o sacerdote. Precisava de um aliado compreensivo que lhe desse coragem. Mas as razões que ainda permaneciam ocultas o preocupavam ainda mais. O mundo dos amantes perdidos é uma selva onde todo o tempo é uma estação de cio. Não existe misericórdia na fuga desesperada, completa, da solidão. A corrida é ganha pelos mais rápidos; a posse, pelo mais forte. A necessidade selvagem de acasalar e esquecer disfarça os gestos mais civilizados. As palavras mais simples adquirem um colorido de paixão e intriga. Nicholas Black vivera muito tempo na selva e não lhe restavam mais ilusões. Se Anne Louise de Sanctis o ajudasse, seria para atingir, no fim, os seus próprios desígnios. E quais eram eles? Paixão, talvez? Toda estação trazia sua safra de viúvas ricas que erguiam a saia e se entregavam a rapazelhos, na primavera do Mediterrâneo. As viúvas pagavam e os rapazes representavam a comédia com cinismo latino, e voltavam para suas namoradas, com os lucros, para se casar com elas. Mas a condessa era demasiado experiente para fazer papel de tola em sua própria aldeia. Capri estava logo depois da esquina. Roma era distante e mais discreta. Ela dispunha de dinheiro e de liberdade para se divertir onde quer que fosse. Devia haver uma outra razão. O receio que ela sentia de Meredith indicava a existência de algum caso com Giacomo Nerone. A esposa de Putifar, talvez? A liberal senhora transformou-se numa cadela quando José fugiu dela, deixando-lhe as vestes nas mãos, indo divertir-se com uma camponesa, em vez de o fazer com a padrona da villa. O ciúme adquiria, às vezes, formas extravagantes. Paolo Sanduzzi, o

ao qual se recolhia todas as noites de gemente confusão da solidão. todas as manhãs. dentro das" cálidas e estriadas paredes de mármore. irresponsável. que era inimigo das ilusões porque ele próprio não tinha nenhuma. Era filho de Nerone.. Uma lenta onda de ódio nasceu em seu íntimo. Recusara-se até mesmo à piedade que ela suplicara e. a odiar a mulher que. Dinheiro para resgatá-lo da vida sórdida a que o pai o condenara. tornando vagos os ásperos contornos da realidade e misturando-se à eufórica névoa dos barbitúricos que logo a mergulhariam no esquecimento. Tinha amor para dispensar-lhe. Também isso era verdade. mergulhada numa ilusão de eternidade. a carne de sua carne. Suspensa no fluido fetal. o médico desmazelado. era o ventre do qual nascia. seria uma censura perpétua ao seu fracasso como mulher e amante. chamando-a do crepúsculo para o rude dia. sangue de seu sangue. Aquele estreito quarto. podia flutuar absorta em si mesma. o filósofo barato. Meyer e Nina Sanduzzi — e até mesmo o macilento clérigo que viera de Roma. Meyer era o primeiro de seus adversários. e um insulto cabal dirigido a Nicholas Black. justificada a seus próprios olhos. Seduzi-lo. e ela sabia que não podia mais mantê-las por muito tempo afastadas. O vapor perfumado erguia-se agradavelmente. podia fazê-lo voltar-se contra Giacomo Nerone. e ele recostou-se nos travesseiros. Mãos intrusas estendiam-se na direção de sua intimidade. Amor que Nerone lhe lançara de volta ao rosto.. seria uma vingança indireta contra o pai. Mas queria-o para si. em troca de hospedagem e da promessa de uma exposição. pusera a nu aquilo com que procurara iludir-se. de rosto desiludido e punhos puídos. o homem que tudo sabia e nada realizava. Anne Louise de Sanctis estendeu-se em sua banheira de mármore e sentiu a água suave mover-se sobre a sua pele como um símbolo de absolvição. mas agora toda a sua atenção estava voltada para Nina Sanduzzi. Mas a ilusão se tornava cada dia mais tênue. mergulhando-o em tão brutal servidão. Ela queria um filho. afastando-o da mãe. Em outros tempos. e dinheiro também. vozes a ameaçavam. pensava comprá-lo.. com uma frase brutal. Queria Paolo Sanduzzi. que dera à luz o filho de Nerone. Isso era verdade. a fitar o retrato de Paolo Sanduzzi. com seus frascos de cristal e seu espelho embaçado. o reformador fracassado. .. nova. O impacto de cada manhã era mais e mais brutal.rapazote. Mas Meyer permanecia em seu caminho.

Não hesitava em invocar o estatuto civil como uma sanção para os dez mandamentos. mas. Assim. Tinha pouca fé em sua estabilidade. depois. ainda assim.. eles não desejariam que seu filho andasse a se prostituir pelas aldeias. culpa alguma. afinal de contas. ganharia a parada. no fim. voltava para Nicholas Black. O rapaz cederia rapidamente. em companhia de Paolo Sanduzzi como se Giacomo Nerone o houvesse gerado em seu próprio corpo estéril. como muitos outros jovens camponeses. embora governassem um povo apaixonado e recalcitrante. de filho em amante apaixonado. seria implacável. invencível. E quando ele se transformou de jovem em homem. Depois deitou-se sob o grande dossel de brocado e deixou-se mergulhar num sono produzido por estupefacientes. Mesmo a Igreja veria mérito em tal ação. Que Nicholas Black representasse. a castelã zelosa dos interesses de sua gente. então a condessa entraria em cena. Caminharia pela Via Veneto. Daria ao pintor tempo e oportunidade para agir junto a Paolo. na Inglaterra. enxugou-se. cuja mão estava firmemente presa à dela. uma ilusão noturna. O pequeno escândalo da ligação existente entre ambos se converteria num grande escândalo. Oferecer-se-ia para afastar o rapaz de um perigo de corrupção. como inimigo. orgulhosa e realizada. o papel de intrigante mesquinho. pelos descontentamentos da adolescência. O controle materno de Nina Sanduzzi seria posto em dúvida. Não acreditara um momento sequer em seus protestos de puro afeto pelo rapaz. Seus príncipes entregavam-se à política com maquiavélica habilidade. de que não lhe cabia. primeiro em Roma e. tentando-o com amizade e a promessa de uma vida de gentleman em Roma. como já estava. se quisesse. seria ela quem. para educá-lo. absolutamente. por caminhos tortuosos. a padrona solícita. Meredith poderia ajudá-la grandemente. sonhando com um rapaz moreno e sorridente.Ela vivia há muito tempo na Itália e compreendia o funcionamento sutil da Igreja em sua vida meridional. Saiu do banho. não obstante. Via aquilo simplesmente como um lance calculado de sedução — e sua promessa de ajuda era igualmente calculada. com íntima satisfação. tocado. perfumou-se e vestiu-se para dormir. aquilo não foi senão.. Então. mas precisava de um aliado e aquele já estava comprado e era fácil de manejar. Se Giacomo Nerone devia ser elevado aos altares. eram severos quanto à observância da moralidade pública. Como aliado. .

Você poderá manter sua mãe e ainda ter alguma coisa para você. tão delicadamente quanto possível: — O começo da vida de um homem é a parte mais importante dela. compete ao pai colocar o filho no bom caminho.10 Logo cedo na manhã seguinte. bem como uma leve hostilidade. Paolo. a mastigar nervosamente um raminho e dava suas respostas num murmúrio quase inaudível. — Você quer ir ou não? — Isso não me importa. disse. enquanto Nina Sanduzzi varria e limpava a casa. e as primeiras e vacilantes tentativas de Meyer nada fizeram para conquistar-lhe a confiança. Depois de um momento. falava com Paolo. — Isso significa que você está ficando homem. Meyer tomou um gole de café e acendeu um cigarro. Esperava não estragar a coisa. A entrevista começou desajeitadamente. O rapaz mostrava-se insociável e arredio. — Sabe que a jovem Rosetta também vai para a villa? — Sei. eu sei. O lance seguinte era o mais importante. — Sim.. O rapaz deu de ombros e pôs-se a palitar os dentes com o raminho. sentado debaixo da figueira. Sua pergunta foi direta e pouco cordial: .. Como você não tem pai. — O ordenado não é mau. Aldo. — Sua mãe falou com você acerca de trabalhar para a condessa? — Falou. Em geral. — Que é que acha disso? — Creio que está bem. Havia desafio no olhar. Pela primeira vez. o rapaz levantou os olhos e fitou-o frente a frente. eu gostaria de ajudar. eu. de modo que Meyer se viu obrigado a dominar sua própria irritação e a manter sua voz num tom cordial. Conservava os olhos fixos no topo da mesa.

defensivamente: — Nada existe entre mim e o inglês. rudemente. fitando o raminho retorcido que tinha entre os dedos. Tive algo a ver com a sua morte. ele ou Rosetta? . sereno. Sabe como eles se beijam e se acariciam.— Por que se preocupa com isso? — Procurarei dizer-lhe — respondeu Meyer. não pode ser mais torcido. e o seu corpo também desperta. — Então não há nada de que deva envergonhar-se. o rapaz. Você o percebe. estarei pagando uma dívida para com ele. e as mulheres. Contudo. — Não preciso de sua ajuda — disse. — Todos nós precisamos de ajuda — observou. Eis aí por que você não pode ficar com o pintor. Meyer prosseguiu: — Quero explicar-lhe uma coisa. Faz-me sentir-me de um modo que não sei o que quero. desenvolvendo-se de acordo com a sua forma. hoje. calmo.. A cabeça do rapaz tornou a erguer-se... não é verdade? — Então por que motivo me estão mandando trabalhar na villa? Ele estará lá o tempo todo.... Meyer. calmamente. que isso tenha acontecido. faça-me as perguntas que quiser... o arbusto enrijece e fica vigoroso como uma árvore. Paolo. depois. Mas. Gosto ainda muito dela. Contudo. como acontece com um arbusto batido pelo vento. fomos amigos. e não de um femminella. Mas o que não compreende é como pode sentir isso em se tratando de Rosetta e sentir a mesma coisa quando o inglês toca em você. A maneira correta de um homem desenvolver-se é na direção de uma mulher. Se puder ajudá-lo. ela escolheu o seu pai.. decorrido algum tempo.. Você sabe o que são os homens. e o que se passa entre eles quando se amam. Então... E me assusta. pois em certa ocasião estive apaixonado por sua mãe. Durante algum tempo. quando vê uma garota cujos seios são desenvolvidos e que começa a falar como uma mulher. Ele jamais tocou em mim! — Ótimo! — disse Meyer... Sabe o que sente. e isso encerra a questão. — Se você não ficar satisfeito.. tornamo-nos inimigos. Você poderia ter sido meu filho. Gostaria de ter. A primeira coisa. Conheci seu pai. — O que você quer. poderá inclinar-se para este ou aquele lado. deve saber que quando o coração de um homem desperta.. é que não tenho filho. — Você precisa dela porque está metido com esse inglês e não sabe bem o que fazer. Lamento. Paolo Sanduzzi permaneceu mudo.

confuso e envergonhado.. indagadores. e uma prostituta é uma mulher que se vende por dinheiro.. sem uma palavra. Ele pode fazer muito por mim. disse-lhe tudo. dez vezes melhor do que aquelas que lhe dão aquele nome. ardente. reunindo as forças e as palavras. em Roma.. Meyer disse-lhe sereno: — O rapaz deseja fazer-lhe uma pergunta... por favor! Nina Sanduzzi entrou na sala. Nina Sanduzzi esperou um momento. naquela bela manhã de primavera. Blaise Meredith também já estava cedo em atividade.. filho de uma prostituta? É por isso que quero ficar com o inglês. dormira menos agitado do que . Procure entender o que vou dizer-lhe. olhando um e outro com olhos graves. O senhor acha que me agrada ser chamado de filho bastardo de um santo. rapaz. Após sua crise na casa do médico.. e o rapaz. como é que poderia perguntar-lhe? — Acho. — Quero ir para algum lugar onde ninguém saiba nada a meu respeito. do qual você não poderá mais livrar-se em parte alguma! Ouça. e moveu-a. então. Nina. viu-a aproximar-se: — Sente-se. sem esperar resposta... meu filho? O rapaz ergueu a cabeça. enraivecido. e quem o diz sou eu. com voz firme.. Acho que tem direito a uma resposta.. fazer-me viver uma vida nova. Ele quer saber por que razão o pai dele não se casou com você. Nina. — suplicou-lhe em voz baixa. o homem que contribuiu para que o matassem... eles lhe darão um nome ainda mais sujo. — Você acreditará em mim se eu lhe disser.. chamou: — Nina! Venha cá um momento. Ela sentou-se entre ambos. com olhos assustados. afirmativamente.. Pode levar-me para Roma.— Quero ir embora de Gemello! — exclamou o rapaz. — Procure ser paciente comigo. — E. O que quer que ela haja feito. — Então por que foi que ele não casou com minha mãe e não lhe deu o seu nome? Tinha vergonha disso? Ou de nós? — Você alguma vez já perguntou isso a sua mãe? — Não. ou a respeito de minha mãe ou de meu pai. Seu pai tinha um toque de grandeza.. que deveria perguntar-lhe agora — disse Aldo Meyer e. fê-lo por amor. Você é a única pessoa que pode dar-lha. depois. Sua mãe é uma boa mulher.

comeu um pedaço de pão fresco com um pouco de manteiga caseira. Caminhava indeciso. pensou. — O senhor chegou . Teriam de esperar muito tempo antes que a condessa se levantasse e estivesse preparada para recebê-los. segundo lhe dissera Meyer.habitualmente e. era alvo da conspiração por parte da condessa e de Nicholas Black. ao sol. Devia ser Nina Sanduzzi. Movido por súbito impulso. banhou-se. calças remendadas e usava sandálias de couro. o qual. ora para outro lado. A mulher caminhava com altivez. como se estivesse resolvida a cumprir com dignidade um dever desagradável. os olhos voltados para a frente. o que o poupava dos rituais dos cumprimentos e das conversas frívolas à mesa do café. Levantou os olhos e viu uma mulher e um rapaz caminhando na direção da parte de trás da casa. em contraste com o aspecto rude e desinteressante da aldeia. Terminado o seu dever litúrgico. quando o criado lhe trouxe o café e descerrou as cortinas para o novo dia. que já se arredondava um pouco com a meiaidade. largou o livro e chamou: — Signora Sanduzzi! Os dois pararam e voltaram-se para ele. o seu breviário. Seu tempo de vida estava-se escoando mais depressa do que imaginara. indecisos. a mulher atravessou o gramado. como que ofuscado pelo esplendor de tudo o que o cercava. barbeou-se e desceu para o jardim. Meredith levantou-se para cumprimentá-la: — Sou Monsenhor Meredith. por favor? A mulher e o rapaz trocaram olhares entre si. Tomou o seu café. Terminara as matinas e estava em meio das laudes. A mulher estava vestida à maneira camponesa. O rapaz tinha uma camisa listrada. a fim de ler. resolveu levantar-se e começar a trabalhar. olhando ora para um. seguida. a cabeça ereta. de Roma! — Eu sei — respondeu a mulher. pelo rapaz. salgada. depois. com um vestido negro e deselegante e um lenço amarrado à cabeça. Meredith tornou a chamá-los: — Podem vir aqui um momento. estaria livre para iniciar suas entrevistas com as testemunhas. e não podia dar-se ao luxo de desperdiçar um minuto sequer. A advertência de Meyer ainda estava viva em sua mente. O rapaz devia ser o filho de Giacomo Nerone. calmamente. mas que ainda revelava traços da beleza juvenil. quando ouviu ruídos de passos sobre o cascalho do jardim. Meredith ficou impressionado com a serenidade clássica de seu rosto. Alegrou-se ao verificar que a condessa e Black ainda estavam dormindo. alguns passos atrás.

em sua vida. O rapaz seguiu-a. que um . Se Giacomo Nerone lhe havia ensinado aquilo. signora? — Sei. a mulher o impressionara profundamente. Estarei em casa à tarde. sua voz era suave e estranhamente delicada. O primeiro era o elemento de conflito. Não possuía nem a intrometida imprudência de certas camponesas. — Terão de esperar muito. até que desapareceram atrás do edifício. não obstante.. Paolo. Nina Sanduzzi abanou a cabeça: — Temos de falar com a condessa. ou em minha casa. A língua que falava era o mais áspero dialeto da Itália e. afastou-se. mesmo em sua recusa mais rude. Apesar daquele breve encontro. na Igreja. — Pensei que talvez pudéssemos conversar um pouco agora.. Havia nela um certo ar. um certo ar de serenidade. — Sabe por que estou aqui. — Mas quando Paolo estiver trabalhando aqui. o senhor poderá falar-me.ontem. talvez. gravemente. — Como quiser. e Meredith ficou a observá-los enquanto se afastavam. Meredith sorriu. devia ter sido um homem maior do que a maioria de seus semelhantes. Paolo. Posso ir vê-la hoje? — Se o senhor quiser. Sem proferir outra palavra. A condessa ainda não se levantou. Vamos.. então ele. não falarei com o senhor aqui.. Isso seria diferente. Este é o meu filho. Paolo começa a trabalhar hoje. Meredith estendeu a mão ao rapaz. Paolo. — Gostaria de conversar com a senhora logo que fosse possível. — O senhor me encontrará na casa do médico. que só depois de ser tocado pelo cotovelo de sua mãe retribuiu. — Além disso. nem aquela humildade que séculos de dependência impuseram às outras. — Estamos acostumados a esperar — disse ela. — Muito prazer em conhecê-lo. Era um axioma. Andava e falava como alguém que sabia para onde se dirigia e de que modo pretendia lá chegar. de sabedoria. Agora precisamos ir. Meredith viu que sua atenção se desviava da cadência latina dos salmos e se concentrava em dois elementos importantes da vida imprecisa de Giacomo Nerone. com mão flácida. — Certamente. o cumprimento. de contenção.

após parlamentar. no coração dos outros. entre resmungos. indigna da Onipotência. — O senhor se refere a Rosa? É meio surda e duvido que compreenda .dos primeiros sinais de santidade era a oposição que despertava. O segundo elemento era igualmente importante: o bem ou o mal tangíveis que surgem da vida. a fim de falar com o Padre Anselmo. os lábios movendo-se nas estrofes familiares do rei-poeta. — Escutarei. Um milagre que não produz bem algum no coração humano é uma mágica sem sentido. obras e milagres de um candidato às honras de santidade. e se aquele algo tinha nascido de sua ligação com Giacomo Nerone. Nenhum deixara de ter detratores e caluniadores. Depois. Sua saudação não foi nada cordial: — Alô! Que é que deseja? — Gostaria de falar-lhe — respondeu. A ausência desse elemento. onde Meredith encontrou o velho padre. então precisava ser levado em conta no meticuloso cômputo do advogado do Diabo. Agora começava a perceber sua existência. A velha Rosa Benzoni o recebeu à porta e. em mangas de camisa e suspensórios. depois. a barbear-se desajeitadamente diante de um espelho rachado preso à parede da cozinha. como um sinete. Se havia algo de bom em Nina Sanduzzi. o tinha preocupado. com suavidade. meteu-o no bolso da batina e dirigiu-se à aldeia. A santidade de um homem deixa a sua marca. Mas não prometo responder. Curvou-se de novo sobre o seu breviário. mesmo entre pessoas piedosas. Nenhum santo do calendário jamais fizera nada de bom sem que deparasse com oposição. ao dar um pequeno talho no rosto. não lhe parece? O velho sorriu entre dentes e. mas a espada. terminada a leitura. e Meredith surpreendeu-se de que ele ainda não tivesse cortado o pescoço com ela. Meredith. com o recém-chegado. que se transforma em outro fruto. enquanto escanhoava o queixo. Tinha os olhos mais turvos do que habitualmente e suas mãos nodosas tremiam. fechou o livro. Usava uma velha navalha. O próprio Cristo fora um sinal de contradição. bem como sua força e complexidade. Sua promessa não era a paz. fê-lo entrar na casa. Aqui também havia um axioma: o axioma bíblico de que uma árvore se conhece pelos seus frutos. lançou uma imprecação. nos registros de Battista e Saltarello. Uma boa obra se reproduz como a semente de um fruto. — Seria melhor que estivéssemos a sós.

quem se importa com o que eu diga? Sou o escândalo da diocese. mas as conseqüências que proliferam dele. e diga logo o que tem a dizer. — Não estou interessado em escândalo — disse. Recitaram-me um longo sermão sobre o dia do Juízo Final e a condenação eterna. — Mas aqui não temos dinheiro suficiente para comprar uma cama nova. Dois charlatães intrometidos. friamente. — Não somos crianças... Ademais. monsenhor. eis o que eram. jogando a toalha com um gesto de impaciência. Foi boa para comigo. Isso é porque era seu confessor? — Não. começou a compreender o problema real do arrependimento. talvez — rosnou Padre Anselmo. em tom brando. O cru dilema em que se encontrava o homem era assustador. o melhor que a gente pode esperar é manter-se aquecido à noite. tem mau gênio. Meredith. Olhe aqui. É uma velha.. homem. — Lançou uma gargalhada alta... Além disso.. não me agrada a situação em que me encontro.. na minha idade. — ajuntou. Sua Excelência o bispo tem alguma resposta para isso? Meredith sentiu-se comovido. Não gostei dos sujeitos que mandaram para cá. Meredith encolheu os ombros e continuou: — É a respeito de Giacomo Nerone. — Na sua idade — sugeriu. que o senhor se recusou a prestar qualquer depoimento a respeito dele. ouvindo-o falar como se estivesse com um bago de uva romana na boca. áspero: — Então é o primeiro que encontro que não está interessado nisso! É só contar-lhes uma história suja e ficam a roê-la como cães a um osso. áspera: — Quanto tempo pensa ele que um homem continua a fazer essas coisas? Na minha idade.. Mas. — Em Roma. Prossiga. quando uma porção de meus irmãos de batina pouco se importariam se eu morresse ou vivesse. o qual não é o problema do pecado em si. Não tenho quase nada. Notei. desde os primeiros relatórios. isso para não falar em dois jogos de cobertores. Meredith — a maioria das pessoas casadas dorme em camas separadas. Mas Deus sabe que ela tem direito à metade do que possuo. como é que posso safar-me dela? Não posso atirar Rosa na rua. e tive de viver com ela.. Pela primeira vez em sua vida sacerdotal. como parasitas numa ..uma palavra. Depois disse. Recebi uma carta do bispo em que me dizia esperar que minha ligação com Rosa tivesse perdido o seu caráter carnal. Tanto quanto ao bispo. Despachei-os com uma pulga atrás da orelha. O velho largou a navalha e enxugou o rosto com uma toalha encardida.

Um súbito pensamento assaltou Meredith. Se quiser que eu o confesse.árvore. desconfiado. Não posso levar isso comigo. Darei ao senhor e a Rosa o suficiente para que comprem roupas novas. — Eu pagarei. Isso ajudaria? Padre Anselmo lançou-lhe um rápido olhar. Creio. mas hesitou em pô-lo em palavras. A árvore não tem outro remédio senão continuar a alimentar o parasita. num outro quarto. — Ouça uma coisa — disse Meredith. obstinado: — Quem paga pela cama e pelas cobertas? O senhor parece não compreender. Havia ainda dúvida em sua voz. monsenhor? Meredith deu de ombros: — Tenho apenas três meses de vida. Era espantoso pensar que um homem podia mergulhar no desespero e na condenação eterna por não poder comprar dois cobertores. Algum dia terá de pôr a sua consciência em ordem. com um sorriso oblíquo. — E por que razão iria o senhor se interessar tanto. mas a rude obstinação desaparecera. à falta de um jardineiro esclarecido. irônicos sorrisos: — O bispo possui personalidade própria. depositarei em seu nome cem mil liras no Banco di Calábria. Vivemos. Além disso. diante do caso do Padre Anselmo. de modo que não lhe deverá ser difícil. terei prazer em fazê-lo. De nada vale fazer as coisas pela metade. com cuidado: — Sua Excelência Reverendíssima é um homem surpreendente. ao mesmo tempo. Meredith lançou-lhe um de seus raros. Se Giacomo era santo. O velho abanou a cabeça. Creio que ele sabe que a maioria . em completa miséria. É uma questão de ter o que comer.. incrédulos. Gostaria de ajudá-lo. estou certo de que se o senhor fizesse com que Rosa se transferisse para uma outra cama. O senhor não poderá dizer-me muita coisa que eu já não saiba. A rude voz camponesa tornou a indagar: — Que mais terei de fazer? — Nada. Decorrido um momento disse. morrendo lentamente.. o caso de Giacomo Nerone pareceu-lhe pequeno e insignificante. adquirindo beleza dele mas. Tudo o mais não passa de um glossário momentâneo. aqui. Os olhos congestionados olharam-no. Subitamente. — O bispo falou na necessidade de reparar o escândalo. ele aceitaria tal medida e esqueceria o resto. feliz dele — pois terminara de uma vez por todas com a longa luta.

. com má vontade. se lhes der mais algum! — Como quiser — respondeu Meredith.. então.. Sua boca. — Gostaríamos de assentar as coisas antes de sua morte. O velho lançou a cabeça para trás e riu rudemente. agora.. de certo modo.das pessoas é responsável pelos seus próprios escândalos. O resto. de sentir um pouco de amor. os olhos brilhando astutamente. monsenhor? Meredith tirou a carteira e colocou trinta e uma mil liras sobre a mesa: — Isto é o começo da coisa. meu amigo! Já lhes proporcionei escândalo demais! O diabo que me carregue. Isso vem-me preocupando há muito tempo. flácida. Os bons cristãos conservam a boca fechada e rezam pelos seus irmãos que sofrem. Falarei com Rosa e lhe explicarei as coisas. se lhe disser? — Tomarei nota e. e. Quando os advogados põem a mão nos bens alheios. Mas a gente não pode fazer uma coisa dessas apressadamente. — Vou dizer-lhe uma coisa.. Poderá comprar os cobertores e a cama. Que é que pode dizer-me a respeito dele? — Que acontecerá. Está bem assim? — Um segredo confessional não serve como depoimento legal. mas. — Eis aí o que quero dizer. — Pensarei a respeito. o frio membro da Congregação dos Ritos. o velho. — Virei vê-lo dentro de alguns dias. Eu mesmo gostaria. depois. o senhor será ouvido sob juramento no tribunal do bispo. — E quando veremos a cor do seu dinheiro. contraiu-se num sorriso: — Eu? Eu creio que é uma saída. — Não acho que o amor cause qualquer mal. amo a velha mulher e não gostaria de fazê-la sofrer... à sua maneira. quando ficam velhas. Logo correrá pela aldeia a notícia de que o senhor e Rosa dormem em camas separadas. Espere até que ouça a minha confissão. que mais deseja o senhor? — Giacomo Nerone. As mulheres são sensíveis. — E não se esqueça do que tem de fazer em Valenta. Está bem assim? — Tem de estar — respondeu. o que é que diz a isso? Anselmo passou a mão nodosa pelo queixo mal barbeado. adeus! Só sobram ninharias! Agora. — Muito bem! — exclamou. bruscamente. monsenhor. A voz parecia pertencer a um outro homem. terei de resolver em Valenta.. se tornam também estúpidas — acrescentou. toda a história. cansado. e não a Blaise Meredith. o velho.. Contar-lhe-ei. Bem. .. O resto advirá do que fizer daqui por diante.

o rosto contraído mas descansado e o ar confortável de um homem que chegara a bons termos consigo mesmo e com sua situação. Está disposta. Ela me impressionou profundamente. falei-lhes durante um momento. — Ótimo — disse Meyer. o teme. despejando-o de uma jarra de barro que esfriava ao sol. conduziu-o ao jardim e serviu-lhe uma caneca de vinho da região. movendo a cabeça com satisfação. monsenhor? — Gostaria de falar-lhe. diante da caneca de vinho: — Um bom começo para o meu dia.— Não esquecerei. agora. enquanto descia o monte rumo à casa do médico. Não tão curioso como antes. meu amigo. Meredith notou logo a mudança que se operara nele: tinha os olhos mais claros.. — Eu os vi na villa. Levantou-se e caminhou em direção à porta. — E Paolo? — É como qualquer outro adolescente. Sente-se atraído pelo inglês e. Não houve despedidas. Meyer saudou-o de bom humor. — Nina Sanduzzi? — Sim. agora que Nina já conversou com ele. nunca sabe até que ponto um jovem compreende. — advertiu-lhe Meyer.. E está curioso a respeito da mãe e do pai. com ar irônico: — O senhor parece melhor esta manhã. — Está na idade perigosa. — A respeito de Nerone? .. monsenhor. Aja delicadamente e conseguirá muita coisa dela. doutor. a ser franca. E o que há agora. — Farei tudo o que estiver ao meu alcance. enquanto ele se encontra na villa. Falei com um rapaz como um pai. — Não é bem assim. Meredith teve a desagradável impressão de que havia agido como um idiota. Está disposta a falar. ao mesmo tempo. Aqui entre nós: creio que fiz algo pelo rapaz. Vou visitar Nina Sanduzzi esta tarde. e que caraminholas lhe passam pela cabeça. doutor. — Vou darlhe uma indicação. Mas quando a gente é velho. E quer que o senhor olhe pelo rapaz. e ouvi coisas sábias de sua mãe.. nem apertos de mão e. Meredith comentou-o. Meyer sorriu.

chegaria o fim e ele queria estar vivo para ver o que aconteceria. depois. e passavam. Mais cedo ou mais tarde. havia cabeças-de-ponte em outros lugares. mas o amaldiçoavam quando chegava e o ameaçavam quando deixava de comparecer — e davam-lhe vinho. Esses também constituíam um aborrecimento. O vale era como um ninho de gatos. sobre o vale. havia discussões nas casas e caras ensangüentadas e camisas rasgadas nos campos. dia não. tinha de atravessar o vale em direção de Gemello Maggiore. Os alemães mandavam às pressas reforços para o sul. pois. como a polizia. quando ouve confissões? — Tirarei os sapatos. em gritos e violência.. baixa. queijo e cigarros se seus filhos estavam doentes ou suas filhas grávidas. fenício. o inspetor agrícola e os oficiais encarregados do recrutamento para o exército. digeria-o em segredo e mantinha os ouvidos abertos aos rumores que zumbiam como abelhas ao entrar e sair do vale. quente e lânguido para o acasalamento. . desertores metiam-se em cavernas e camas amigas. Guerrilheiros armavam-se nos montes.. de repente. italiano e árabe levantino. dia sim. Faziam gracejos grosseiros por ser judeu e circuncidado e o advertiam acerca de poluir o sangue puro das mulheres que. As pessoas andavam irritadas e a vitalidade. suando. Depois disse. e noites em que as nuvens rolavam. em lugar disso — respondeu Blaise Meredith.. sirva-se de vinho. ou se eles próprios eram atacados pela malária.. sem transformar-se em chuva.. os carabinieri. francês. mas transformando-se. isso lhes era indiferente. monsenhor. Meyer vivia ali porque era judeu e exilado e. Aldo Meyer tomou um longo sorvo de vinho e enxugou os lábios com as costas da mão. Meyer engolia aquilo tudo. como boas calabresas. menos sangue judeu.. Os Aliados estavam na Sicília. tinham sangue grego. Fosse como fosse. que eram um aborrecimento. a fim de assegurar à questura que não estava doente nem morto. pois os exércitos eram como gafanhotos comendo a terra. almiscarado. e não havia homens nas camas — exceto os velhos. Manhãs quentes e tardes escaldantes..— Sim. Era pleno verão num mundo sem homens. quando iam embora. toda espécie de sangue. . espanhol. — É uma longa história. Quando ficar monótona. e visitantes ocasionais. com desolado humor: — Não é habitual colocar uma estola.

como se tivesse febre. à noite. que está todo vermelho e inchado. Vira-se de um lado para outro na cama e murmura coisas. fazia a sesta e. Tem uma bala no ombro. visitava seus doentes. Meyer afastou o dinheiro com um gesto de impaciência. por favor? Eu trouxe dinheiro. quando ele despertou de seus devaneios e a viu. Tinha esperado muito tempo. porque não queria enfrentar o futuro que raiava tendo uma aldeã agarrada à aba de seu casaco. Contudo. Quando voltei do trabalho estava assim. mas um soldado inglês era morte iminente. que ele reconheceu como sendo inglesas. O senhor pode ir vê-lo. a proferir palavras e frases sem nexo. Ele chegou ontem à noite. . zangado: — Nina! Que diabo está fazendo aqui? Ela levou os dedos aos lábios. já tarde. Foi à noite. — Está bem. abaixou a luz. que Nina Sanduzzi o procurou. boca babosa e murmurante. — Guarde isso. Ao ver o ferimento. apanhou sua maleta de instrumentos e o seu pequeno estoque de anti-sépticos e acompanhou-a pela parte dos fundos da casa. com uma barba de dois dias nas faces encovadas. Sobressaltou-se. Irei. É um desertor e está ferido. e uma supuração lenta e amarelada já havia começado. era por ser um homem difícil de contentar e. Pulou o muro do lado do vale. Já estava dentro do halo de luz do lampião. Enfiou a mão no decote do vestido e tirou um pequeno maço de notas ensebadas. Inclinou-se apenas sobre a cama e pô-se a cortar as ataduras empapadas de sangue que lhe cobriam o ombro. Uma bela situação! Os desertores já constituíam grande complicação. Dei-lhe café pela manhã e ficou o dia todo dentro de casa. receosa de que algum retardatário abelhudo a visse bater à porta do médico. Chegou descalça. não fez comentário algum. e. explicou em voz baixa: — Há um homem em minha casa. o olhar parado. baixinho. Fechou o livro. Podia darse ao luxo de esperar um pouco mais. Se se mantinha livre das mulheres da aldeia. Encontrou o seu paciente delirando na grande cama de ferro — um sujeito alto e moreno. um assobio de surpresa. para que a aldeia adormecida não ouvisse o ruído de seus tamancos. pedindo silêncio. O ombro estava flácido e inchado. saltando o muro e rumando para a pequena choça oculta em meio aos azinheiros.Trabalhava em suas terras áridas. sentava-se diante de seus livros e de sua garrafa. em seu rude dialeto. lançou. pelo amor de Deus! Alguém mais sabe onde ele está? — Ninguém. também.

perplexa: — Quer. Seu rosto era grego puro. mesmo para ela. Quando sair para o trabalho. mas virei à noite. com um sorriso. você terá de segurá-lo para mim. depois que a aldeia já se houver recolhido. dottore. Não me atrevo a vir aqui durante o dia. você estará morta. Ferva-me uma chaleira de água. Os dentes alvos da moça mostraram-se num sorriso: — Faz muito tempo que não tenho um homem nos braços. A bala havia atingido a omoplata e se desviado para baixo junto ao osso. sem anestésico. — Quando estiver melhor. ao mesmo tempo em que Nina Sanduzzi lançava mão de toda a sua força para segurá-lo. cansado. inteligência e coragem. Tinha. Mas o prazer logo acabou. feche a porta e deixe-lhe vinho e alimento. Ele se surpreendeu de ter passado por ela uma centena de vezes sem que jamais a tivesse observado. sentira a primeira e verdadeira tentação durante anos. Mas era um homem cauteloso. Os seios eram cheios e firmes. Se alguém descobrir. — Você não pode conservá-lo aqui. . e Meyer teve de gastar vinte minutos para localizá-la. e Nina e Meyer sentaram-se um instante para tomar um copo de vinho e comer alguma coisa. até mais tarde — disse Nina Sanduzzi. de modo que terminou rapidamente o seu vinho e se dispôs a partir. Olhando-a. Depois. — Compreenda uma coisa. ajeitaram-no bem na cama. Nina. que o jogue na rua? Um homem doente assim? — Mais tarde — respondeu Meyer. Doeria como o diabo. enquanto o ferido gritava inutilmente de encontro à mordaça que lhe enfiaram na boca. Você sabe disso. à luz do lampião que pendia do teto baixo. acostumado à abstinência. Ele está muito doente e poderá morrer. então. Voltou-se para Nina Sanduzzi: — Acenda o fogo. Não se desesperava nem gritava como as outras. e o sujeito bem poderia morrer ao cabo de alguns dias. então. Faça uma sopa e veja se ele consegue mantê-la no estômago. Seu corpo era mais esguio do que o das outras camponesas. então. Sabia o que era preciso fazer. quando a operação terminou e a dor diminuiu. ademais. Será um prazer. Nina. e fazia-o calma e competentemente.Trabalho difícil e sujo. e uma vitalidade animal parecia surgir de sob sua pele cor de azeitona. — Esperemos. Depois. Ela fitou-o.

Mas o risco já estava.. antes que a aldeia despertasse. — É melhor que não saibam nada mais do que isso. — Agora vá. ao compreender a situação de Meyer como exilado político e os riscos que a jovem estava correndo por sua causa.— O senhor é um bom homem — disse Nina Sanduzzi. O que sempre receara em seu exílio. poderão dizer a verdade. pela encosta pedregosa. Procuro voltar para a minha família. Assim. Sou Giacomo Nerone. Aparecia todas as noites. o senhor se destaca como um homem — ajuntou.. Melhor esquecer aquilo e ir para casa dormir. doutor? — Daqui a quinze dias. Mais de uma noite permaneceu sentado em companhia de Nina observando a febre subir e baixar. que se tornasse como os outros homens do lugar. três semanas.. embora ainda se recusasse a contar-lhes outra história diferente da que narrara. espere que não o sejam. A não ser que contraia uma outra infecção. em Roma. O ferimento era profundo e novas infecções irromperam. Com Nina Sanduzzi talvez ainda pudesse evitá-lo. e havia débeis toques de clarins a soar pelos montes. A princípio.. até que os primeiros clarões do amanhecer tingiam o horizonte. um desperdício sem sentido. evitando a estrada. de todo o coração. Necessitou de mais de uma semana para pôr o paciente fora de perigo. a coisa que os seus inimigos desejavam que fizesse: que ficasse desleixado. se forem interrogados.. como todos os seus outros sacrifícios. Enquanto subia. sentia o coração confranger-se de ciúme. a hora de partir. — Num lugar cheio de porcos. e que estão avançando para a ponta da bota da . por deixá-la a sós com o enfermo.. ia refletindo se a continência não seria. a Nina Sanduzzi. tomando-lhe a mão e beijando-a depressa. ao chegar. Todas as vezes que saía. e precisou drenar o ferimento com os meios primitivos de que dispunha. Mas para onde pretende ir? Dizem por aí que os Aliados desembarcaram ao norte daqui. então. que agora já começava a alimentar-se e a conversar um pouco entre as crises de febre e os longos intervalos de sono inquieto. um artilheiro vindo de Reggio. baixinho. talvez. que se esquecesse de lavar suas camisas e de comer com garfo e faca. Embora. com dificuldade. pois sentia necessidade dela. e se aquela não seria uma mulher com quem pudesse ser feliz. ele mostrou-se cauteloso. Quando é que acha que estarei suficientemente forte para viajar. dottore mio! Não estou acostumada a ter homens pela casa. que se entregasse à bebida e às prostitutas da aldeia. Era. acalmou-se um pouco. mas.

Não fique assim tão surpreso! Há por aí uma meia dúzia de rapazes fazendo isso neste momento. uma cama e alimento. mudos: — Se ficar aqui.. doutor. — E observou. — A que é que o senhor se refere? — Sou inglês — disse Nerone. o senhor logo se verá em situação difícil. alguém fará perguntas. pode ser que esteja em situação de ajudar-nos. procedentes de Reggio. — Há aqui uma casa. Meyer acenou com a cabeça. por um momento. ríspida. Meyer. Os dois homens se olharam. — Por que não? — indagou Nina Sanduzzi. em tom rude. mais tarde. os outros vieram só Deus sabe de onde. cauteloso: — Quando as coisas mudarem por aqui. — E agora. Dois deles são daqui mesmo... — Inglês! — exclamou Nina Sanduzzi.. — Esqueça-se disso! — ordenou. O rapaz moreno abanou a cabeça: — Não como o senhor pensa. Este lugar é um esconderijo na montanha. ao que parece. Ouvi-o falar enquanto dormia. — Pode ser que ela tenha razão. Mas precisamos de homens. Agora foi a moça quem se voltou. e ninguém irá fazer barulho por causa disso. — Já está esquecido — respondeu ela. com ar de dúvida.Itália. que isso já foi dito. mas é melhor do que morrer numa fossa. eles se . nesse caso. Meyer contraiu o sobrolho e respondeu. Mas. Mas sorriu ao dizê-lo. a menos que o senhor se refugie nas montanhas. perplexa. não há razão por que não possa trabalhar para manterse.. Não é muito. os olhos esbugalhados. Seu sotaque não é da Calábria. fazendo uma outra proposta que os deixou. Sua lealdade é para com outras causas. Mais cedo ou mais tarde. pois há muito o que fazer antes que chegue o inverno. E elas nos poderão ser úteis. vamos esquecer o assunto. como irá comer? Nerone sorriu tristemente e viram de que modo o seu humor o transfigurava de novo num rapaz: — Que esperam que eu faça? Não posso ficar aqui. Se há alguém suspeito andando por aí.. Após uma pausa. Eles também desistiram da guerra.. com outra bala metida em seu corpo. — Lealdade? — indagou. rude: — O senhor não me compreende.. Com os seus camaradas recuando e os alemães cedendo.

— Pensarei nisso — respondeu Giacomo Nerone: — Sou-lhe muito grato. observando-a enquanto ela se debruçava sobre a cama. Isto é... voltava para a casa de Nina e eram amantes. — E foi assim que tudo começou? — indagou Blaise Meredith. Deus bem o sabe! Mas quero tudo dele. silenciosa. se quiser.. caro — respondeu-lhe. suavemente. Meyer ouviu a batida da porta. secamente. Eu quero um homem. A moça serviu outro copo de vinho a Meyer. Ela afastou-o delicadamente. e eu teria ficado contente. dottore mio. Mas não sou para o senhor. Quando ela voltou.escondem. posso conseguir trabalho para você com o velho Enzo Gozzoli. o senhor se sente solitário e passamos muitas noites juntos. Perdeu dois filhos na guerra e odeia os fascistas como o diabo. — Não. ao fechar-se — um som seco.. Dito isso. Quando estiver melhor falarei com ele. Agora não. — Eu quero você. e o senhor sabe disso. estava dormindo. Meyer estendeu a mão e apanhou a jarra de vinho.. que dormia. Nina! — O senhor não me quer de verdade. Estamos no verão. Depois. o senhor não tinha idéia de quem ele . Meyer levantou-se. puxando cuidadosamente as cobertas sobre o ombro ferido e deixando-se ficar um momento a contemplar. mas tenho de pensar no assunto. a trabalhar para Enzo Gozzoli. Enquanto subia o monte. — Do contrário. Meyer voltou-se e apanhou sua maleta. — Mas além do fato de ser inglês.. tomou-a nos braços e tentou beijála. já me teria tomado há muito tempo. e ele o bebeu. ajeitando a cabeça morena sobre o travesseiro. Recostou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos. fez um gesto rápido na direção da cama. ele já estava de pé. pensativo. Ele é capataz da minha gente. Mais tarde. pouco depois. À noite. na noite tépida. — Talvez — respondeu Nina Sanduzzi. o hóspede. dirigiu-se à porta e abriu-a para que ele saísse. nítido. — Talvez já o tenha — disse. — Três semanas depois. me odiaria.

— E. Mas um desertor é um homem que tem medo. Só que não mostrava inclinação alguma para fazer o que tal homem deveria fazer: procurar voltar à sua unidade. bom humor. O resto? Não estava ainda bem certo. o que é que parecia ser? — Analisei cada uma dessas possibilidades. Tinha o hábito da decisão. enquanto Meyer lhe enchia o copo. — Parecia muito pertencer a tal categoria. Falava bom italiano. Como disse. — Deu alguma razão para isso? — Não. Mas quando insinuei que devia unir-se a mim na tentativa de estabelecer contato com os guerrilheiros. perguntou: — Qual o juízo que o senhor formou de seu caráter nesse primeiro período? — Parte dele já lhe disse: coragem. Tinha vivido em meio a essa gente. falava e ria como um homem livre. Eu lhe disse que. Um agente secreto? Também podia sê-lo. Nerone não revelava nada disso. tomando um outro longo gole de vinho e limpando os lábios num lenço encardido. — Era um oficial? — Parecia-me que sim. poderia ser fuzilado como espião. procurando ajustá-lo a elas. Recusou delicadamente. mas de maneira definitiva. para o senhor. Apenas riu. era um homem culto. monsenhor? Meredith acenou vagamente com a cabeça e. talento para fazer com que as coisas fossem feitas. um agente inglês enviado para estabelecer contato com os primeiros grupos de guerrilheiros. então? Meyer contraiu os lábios. pensativo.. Uma vez curado. Tinha ciúmes dele. Um prisioneiro fugitivo? Sim. se fosse apanhado assim. Era um homem educado. recusou-se. — Havia três coisas que poderia ser: prisioneiro fugitivo. dizendo que Giacomo Nerone era um bom italiano que não via razão alguma para a guerra. — Por causa de Nina Sanduzzi? — Por isso e por outras coisas. Tem o ar do fugitivo. ou um desertor. Mas não trazia consigo documento algum de identificação. Sensível às características locais. pelos alemães ou italianos. andava. Vive com a convicção de que um dia ou outro terá de ser apanhado. Mais vinho.realmente era? — Não — respondeu Meyer. e não o argot das cantinas e do bordel militar. — Um desertor. .. capacidade de realização.

ou quando. — Sei como se sente — disse. E eu ainda era forasteiro. Mas não tinha planos. uma noite. Parecia considerar-se como um deles. ele me encantava. Mais do que desejava saber. — Quais eram suas relações com Nina Sanduzzi? Meyer esboçou um sorriso oblíquo e estendeu as mãos num gesto como que de súplica. isso era bastante natural. numa semana.. Os homens confiavam nele. seus costumes. como eu.. — Sobre quê conversavam? — Tudo. Quanto a mim. não.. Isso era tudo o que eu sabia. as relações existentes entre essas criaturas. a fim de tomar um livro emprestado. Prosseguiu: — O que mais me irritava nele era que parecia aceitar tudo com naturalidade. como coisa permanente. Podia-se ver em seus rostos. mas Meredith fitava. Era como se estivesse procurando esquecer tudo o que lhe havia pertencido e absorver-se na vida da montanha.. O mesmo que existe hoje em Nina Sanduzzi... Havia uma calma nele. mais tarde. Meredith. — Eram felizes juntos. a sua pessoa me desagradava. Quanto ao resto. Como se o presente fosse a única coisa que importasse. absorto. Ele se recusava a falar sobre qualquer assunto que pudesse fornecer uma indicação quanto à sua identidade. E jamais chegara a estabelecer qualquer intimidade com ela.. Para ele.. o vinho escuro que tinha em seu copo. — Fui assim durante toda a vida. esperara tanto tempo que bradava por ação e por uma mudança. estava perfeitamente à vontade. ensinavam-lhe o dialeto e compartilhavam seu vinho com ele. — De modo que viviam em desavença um com o outro? Meyer abanou a cabeça: — Eis aí a parte estranha do caso. sua gente. menos Nerone. As mulheres amavam-no. uma delicadeza. o judeu que viera de Roma.. — E se interessava por essa gente? — A princípio. Estava contente com o momento que estava vivendo. bondosamente. o senhor terá de falar com . Contavam-lhe todos os escândalos. Mas quando nos encontrávamos ao passar. Já tinha tido a sua guerra. Aldo Meyer lançou-lhe rápido olhar de simpatia. creio. Podia fazê-las rir retorcendo apenas a testa morena. Quando não o via. veio à minha casa. Nem projetos para lhes melhorar a situação.trabalhando para ela durante muitos anos.. O que mais interessava era este próprio lugar. Nerone. sua história. Com a diferença de que jamais servi a alguém.

prossiga. ele de novo me surpreendeu. simplesmente. amor. — E ela queria? — Indaguei de ambos — respondeu Meyer. Creio que jamais tive mais ciúmes dele do que naquele momento. — Desculpe-me por ser assim insistente. com cuidado —. Hesitou um momento. Nerone veio ver-me. Ambos estavam. Mas o senhor compreende qual é a minha missão. — E. Estava grávida de dois meses. em meados do outono. Foi Nina Sanduzzi quem respondeu: "Há tempo de sobra para o repicar dos sinos. e obtivera o que não me fora possível obter durante toda a minha vida: — aceitação. a propósito de nada: "Vamos ter um mau inverno. — De que maneira? — Disse. É melhor que o senhor e eu nos preparemos desde já para enfrentá-lo!" ..Nina.. Ele viera. doutor. doutor. não porque isso me interessasse.. uma promessa de objetivo e continuidade. — A fase seguinte começa em fins de outubro. mas porque desejava ver que espécie de homem era aquele. — E que disse ele? — Nada. por favor. quando soubermos o que irá acontecer". ninguém sabia de onde. — Compreendo.. nada fez para casar com Nina? — Não. Meredith fez um sinal afirmativo com a cabeça. Depois disse: — Lembro-me muito bem do que aconteceu a seguir. Justamente quando parecia ter tido uma idéia de que Nerone realmente era um hóspede noturno que se poria a caminho antes que raiasse o dia.. pois num lugar sem homens não é vergonhoso a uma mulher ter um filho sem pai. — Contudo. dottore. — E Nerone? Meyer fitou as costas das mãos estendidas como aranhas sobre a cálida madeira da mesa. Procuro dizer-lhe apenas o que sei. a fim de que eu examinasse Nina. — E como reagiu ele diante disso? c Mostrou-se alegre. E não me estou esquivando..

em Gemelli dei Monti. extraviados. desiludidos e famintos. Em outros tempos. as colheitas eram pobres e a arrecadação do intendente-geral levava quase tudo. bem como o conhecimento que tinham da região. mesmo que a gente tivesse de fazer um furo no bolso de tanto esfregar a mão à procura de dinheiro. e os moleiros tinham à venda farinha para a pasta.. .. com ladrões. As trocas em espécie eram quase nulas. A comida ali estava. Os que eram bastardos estavam indo embora. esperando ao menos alguma retribuição pela sua dedicação. desertores e patrulhas? Melhor ficar em casa e viver tanto quanto possível daquilo de que se dispunha. com certeza —. As cebolas pendiam em réstias dos caibros dos telhados. a sentir os primeiros ventos cálidos vindos do sul e o gelo a derreter dos ossos da gente com a chegada da primavera. contavam as primeiras nevadas e diziam: "Vamos ter um mau inverno". embora não fosse jamais uma estação agradável. ou vendendo-se. mas se a gente se agarrasse a ela durante o tempo suficiente. antes que os homens tivessem sido levados. Antes que a neve se adensasse. aos poucos. e quando. e. a fim de enfrentar o Oitavo Exército Aliado. eles sentiam o vento. Era vida — não uma vida muito satisfatória. no caminho. Mas nessa ocasião não havia homens. correndo o risco de deparar.. aos destacamentos alemães que se dirigiam para o sul. novas bocas a serem alimentadas do pouco que restava do que se havia armazenado. vinho e azeite nos grandes garrafões azuis. antes que a guerra tivesse começado a dar para trás. à espera de que seus ordenados pudessem chegar. os rapazes estavam voltando. juntando-se a unidades ainda ativas.. E... Os funcionários que haviam agido como sujeitos sensatos permaneciam em seus postos. se não chegassem. quando havia ainda uma autoridade e um propósito na terra. pois quem se dispunha a levar sua carroça ao mercado. as espigas de milho eram empilhadas nos cantos e havia batatas enterradas na palha. havia sempre troca de produtos entre as aldeias. e salames e presuntos defumados e lentilhas. Não havia mais governo. Além disso. os primeiros aguaceiros. sem chefes.. acabava por ouvir a torrente a reboar. Havia carvão armazenado. o inverno era suportável. cessava o trabalho nos campos. o povo pagava um pequeno tributo para que as estradas fossem desobstruídas e despejassem cascalho nos caminhos cobertos de gelo. Havia queijo para comprar.

que têm algum cérebro ou alguma influência. Teremos de providenciar para que todos tenham comida e combustível suficientes para passar o inverno. O senhor é um fugitivo. antes de permitir que um pedaço de pão passe de uma casa para outra. eles as deceparão! — Eles quem. Precisamos estabelecer um depósito central e fazer com que as rações sejam distribuídas eqüitativamente. São todos sovinas. A polícia. A família é a única coisa que conta. durante três meses. são como abutres! São capazes de devorar uns os fígados dos outros. Eu sou um exilado político. Temos de arranjar mais remédios para o senhor e tentar conseguir mais alguns cobertores. Os carabinieri. — O senhor está maluco! — disse-lhe. Nós cuidaremos disso. isso compete a nós e não a eles. boquiaberto. — Duvido muito! — Já fiz com que dez famílias concordassem em depositar um quarto de seus estoques de víveres num depósito comum para o inverno. doutor? — perguntava-lhe Nerone. — Nós os transformaremos numa tribo. sem meias palavras. — Cuidaremos do quê. Além do mais. como os que as lavadeiras diziam junto ao rio. em tempo de fome. — Meu caro doutor! Esses sujeitos estão tão assustados. — As autoridades. que não pensam senão em salvar a própria pele! Há já semanas que não os vemos por aqui. — O senhor não compreende essa gente. Meyer olhava-o.. O resto pode apodrecer numa fossa! — Então teremos de ensiná-los como agir — disse. pelo amor de Deus? — Do problema elementar de sobrevivência. Mas ajuntava. homem! Não sei a que se refere. aqui. — Já comecei a fazê-lo. por sua conta. Meyer. O prefeito de Gemello Maggiore. No momento em que pusermos para fora as nossas cabeças. Precisamos dirigir a organização. mesmo nas ocasiões mais favoráveis. fria e enfaticamente. — O senhor não o conseguirá. então. calmamente.Giacomo Nerone também o dizia. Cada uma dessas .. Nerone. a sorrir. um ou dois comentários: — O senhor e eu somos as únicas pessoas. neste momento. como se aquilo não fosse mais do que um gracejo. atônito: — Pelo amor de Deus. Nerone lançava para trás a cabeça e ria a bom rir.

pensativo. existe apenas uma satisfação. e sempre paga suas dívidas!" — E isso o satisfez? Meyer esboçou um sorriso e recostou-se na cadeira enquanto apanhava o vinho. claro.. agora. — A gente tem de pagar um preço por isso. E a gente não pode obtê-la.. um preço muito elevado. aliados. Quando as coisas ficassem difíceis — como acontece no inverno — revistariam as casas à procura de víveres armazenados. — O senhor pediu-lhe que explicasse? — Pedi — respondeu Meyer. Disse-lhes que viriam ainda novos tributos: italianos. — Mas foi de novo Nina quem respondeu por ele. no fim. Disse-lhes que Nina e eu faríamos primeiro a nossa própria contribuição. Quando se vê um homem e uma mulher assim. alemães.. e quando a gente está apaixonado pela mulher. — Não compreendo como conseguiu fazer isso. encolhendo os ombros. Depois. com expressão triste.. seria melhor que cooperássemos todos e construíssemos um depósito comum num lugar secreto.. com ar sombrio — e jamais consegui fazer nada semelhante. — Falei com eles. — O senhor não percebe. Demorou um pouco. Depois o senhor e eu daremos uma volta por aí e procuraremos meter um pouco de bom senso na cabeça daqueles que ainda não aderiram. Levantei-me e vim para casa. Ora. — Ele explicou o que queria dizer com isso? — indagou Blaise Meredith. No dia . dottore mio.. concordaram. monsenhor. e que formaríamos um comitê para administrar os víveres. Estava de pé atrás dele. lembro-me bem. eu e três outros: dois homens e uma mulher. Ele não tem medo de nada... Giacomo Nerone riu. segurando-lhe o rosto entre as mãos. mas no fim. como prova de boa-fé. — Não. O senhor. Meyer fitou-o intrigado: — Que espécie de preço? — Ainda não sei — respondeu Nerone.famílias vai procurar trazer um quarto mais. — Mas penso que será. e curvou-se e beijou-lhe os cabelos. enquanto as coisas vão bem. disse: "Eu amo este homem. — Tenho passado todo este tempo aqui — comentou Meyer.

Foi onde o sepultaram. não foi? — Foi onde o sepultaram — repetiu Aldo Meyer.. Certas lembranças despertaram. Antes que chegassem as primeiras neves.. . atrás dos olhos pensativos de Blaise Meredith.. — E foram bem sucedidos? — Fomos. todos em Gemello Minore estavam de acordo. — A Grotta dei Fauno. e armazenamos quase três toneladas de suprimentos na Grotta dei Fauno..seguinte. vividas. Nerone e eu tornamos a nos encontrar e começamos a preparar as coisas para o inverno.

mas estava mais mal-humorada do que habitualmente. Aldo Meyer debaixo da figueira. mas empertigada e altiva como uma árvore à espera da investida do vento. sentada no aparatoso salão de sua villa. Estavam. empoeirada pela caminhada. correu os olhos pelas despensas da casa e pelo cardápio para o jantar. que saía para o jardim com sua caixa de tintas. Se ele trabalhar bem. — Isso é bom para o rapaz. A condessa achava-se sentada numa cadeira de espaldar alto. calmamente. — Não combinamos ainda o ordenado. agora. frescamente ataviada. indiferente: . Tinha acordado tarde. Empregava o tratamento "tu" para indicar o vasto abismo existente entre uma castelã e um criado. depois. as mãos plácidas sobre o colo. os olhos a perscrutar o rosto impenetrável da camponesa que tinha à sua frente. bem como o vôo de uma borboleta amarela a adejaf preguiçosa entre os arbustos. enquanto Paolo arrastava os pés numa das aléias do jardim e observava os jardineiros que se mexiam de um lado para outro junto aos canteiros. — Como vês — disse-lhe Anne Louise de Sanctis —. entrevistava Nina Sanduzzi. — É trabalho — respondeu. Conversou dez minutos com Nicholas Black. Anne Louise de Sanctis. quando a criada lhe informou que Nina Sanduzzi se achava à sua espera em companhia do rapaz. Pronto para começar a trabalhar.11 Enquanto Blaise Meredith falava com o Dr. demorou-se um pouco mais a tomar sua refeição matinal e a fazer sua toalete. Nina Sanduzzi. — Que acha ele disso? Está contente de vir? — Quem é que pode dizer o que um rapaz sente? Ele está aqui. é bom também para a senhora. esta é uma grande oportunidade para o rapaz. e. Nina Sanduzzi encolheu os ombros. Só então se instalou no salão e mandou um criado trazer Nina Sanduzzi à sua presença. pés nus nos tamancos. com um leve ar de triunfo na fisionomia. a sós.

não? — Era o homem que eu amava — respondeu Nina Sanduzzi. E prosseguiu. Anne Louise de Sanctis sentiu-se irritada. serena. com vivacidade nada natural. talvez possamos fazer muito por ele: dar-lhe uma educação. Apenas disse: — O pai dele era um homem educado. mas a condessa. Mas aquela era uma satisfação a que não podia entregar-se.— O doutor me disse que a senhora pagaria o que costuma pagar.. Costumava dizer que se deve educar primeiro o coração e depois a cabeça. benigna e condescendente: — Se o rapaz trabalhar bem e revelar progresso. Contanto que seja trabalho de homem! A resposta era cheia de farpas. . com um gesto de cabeça. claro. Pagar-lhe-emos um ordenado de homem. se for trabalho de homem. em idade difícil. — Não devias ter importunado Monsenhor Meredith — censurou-a a condessa. animadamente: — O rapaz ficará alojado aqui. talvez. mas seus olhos estavam velados e inexpressivos como os de uma ave. Anne Louise de Sanctis sorriu. — Estranho que jamais tenha casado contigo. Será alimentado e terá conforto. mandá-lo para Roma. — Ele é um homem doente e tem assuntos importantes a tratar! — Seus assuntos dizem respeito ao meu Giacomo. Nina Sanduzzi concordou. Teve vontade de agredir a outra e ver as marcas de seus dedos estampados naquele rosto azeitonado. Poderá passar os domingos em tua companhia. pensativamente. ajudá-lo a fazer carreira. Disse. E o que poderia ser mais importante do que o filho de Giacomo? Além disso. signora. agora.. — O pai dele! Giacomo Nerone era teu amante. Mr. — Ótimo.. presa como estava a um compromisso diplomático. A frase permaneceu suspensa no silêncio que se fez entre ambas. a uma aliança que exigia sorrisos e despistamentos. — Certamente! — exclamou a condessa. Nina Sanduzzi. — Ele me amava e amava o rapaz. — Pedi-lhe que falasse com o rapaz e o ajudasse. — Falarei com o monsenhor que veio de Roma — disse. fraca em dialeto.. Nenhuma emoção se revelou nos olhos impassíveis e no rosto calmo. Ele está. Black me disse que ele é inteligente e tem boa vontade. o monsenhor me disse que teria prazer em ajudá-lo. benevolente: — Faremos melhor do que isso. não lhe percebeu a pungência.

ficando apenas ali sentada a fitar o pacote como que hipnotizada. É um presente. acanhada: — Obrigada. na direção do . Nina Sanduzzi não deu sinal algum de retirar-se. Em face disso. abaixouse e apanhou a cesta de palha que sempre carregava. — Damos de nosso coração e não de nossa riqueza. agora — disse a condessa. É uma parte das vestes que usava quando o mataram. um indivíduo assumindo comando e responsabilidade na comunidade que lhe concedeu refúgio.. aquilo que me disse. Não deve vir de mãos vazias. e seus sapatos produziam um ruído seco. Algum dia. Nina Sanduzzi. Em vez disso. jurídico —. alternadamente. lado a lado. Nina já tinha partido.— Podes ir. Apanhou o pacote e disse. nítido.. — Deixa o rapaz aqui e o jardineiro o porá a trabalhar. não têm valor espiritual.. A singela delicadeza do gesto a embaraçou. a mover os lábios num murmúrio quase inaudível. — tropeçou numa pedra e viu-a pular para longe. Ora. Posso perguntar o que contém? — Somos pobres — respondeu. Seus atos.. Seu passado é um mistério. — O que é isto? — Meu filho vem para a sua casa. depois de muito tempo. Seu presente. da parte de seu filho! Anne Louise de Sanctis nada disse. ergueu os olhos. e então isso lhe será precioso. uma mulher apaixonada. uma dúvida. Gostaria que a senhora aceitasse. Passavam. o rosto lívido. Tem o seu sangue. o que é que temos? Um homem em fuga.. — Até aqui — comentou Meredith em seu estilo preciso. pesando as palavras. Quando. Aldo Meyer e Monsenhor Meredith tinham-se erguido da mesa e caminhavam. de uma extremidade a outra do caminho lajeado que se estendia por toda a largura do jardim. Remexeu em seu interior e retirou um pacote cuidadosamente atado. bons em si mesmos. mesmo em seu próprio espírito. é um homem vivendo em pecado. e a vista de um gramado verde onde um rapaz caminhava ao lado de um jardineiro — rapaz que poderia ter sido seu filho. e não havia senão a luz do sol caindo obliquamente através dos corpúsculos de poeira. Seu futuro. Não temos indicação alguma a respeito de sua crença religiosa ou de sua atitude moral. podem fazer de Giacomo um beato. sobre as pedras.. do sol para a sombra. entregando-o à condessa.

chega ele a uma crise. E vou dar-lhe minha opinião pelo que vale. Os extraviados e desertores batiam desesperados. — Por certo muito menos do que Nina.muro rústico. deliberadamente.. com quem o senhor irá falar esta tarde. familiarizados uns com os cheiros dos . à noite. Mas sei alguma coisa. No sul. pois quem iria fabricar caixões naquele tempo horrível e remover a terra no campo-santo. tirando calor um do corpo do outro. levantando-se apenas para fazer suas necessidades. o chão de terra batida ficava gelado e o vento procurava. pois o estoque de carvão tinha de ser conservado. em portas trancadas e. — Ora. se estas não lhes eram abertas. para aquecer-se. Os velhos tossiam e resmungavam com o frio reumático a entanguir-lhes as juntas. Dentro das casas as famílias. Convertiam-se em gelo duro. cujo solo. cada qual uma ilha num mar de neve. insinuar-se pelos vãos das portas rachadas e de estranhas janelas. ou em resultado do que. era duro como granito? Viviam como animais em hibernação. deixando expostas arestas de gelo que se assemelhavam às águas crespas de um mar branco e morto. de modo que uma fofa camada se formava sobre o gelo duro que havia embaixo.. Meyer. Depois. talvez — respondeu. como acontecia a muitos.. suas gargantas doloridas e seus peitos congestionados — e quando um deles morria. congelado. Obstruíam as picadas existentes nas montanhas. empilhavam-se em montes ao longo dos caminhos e pelo vale. mantinham-se amontoadas nas grandes camas de ferro. O inverno foi mais severo do que tinha julgado possível. As neves desciam em rajadas enceguecedoras dos altos picos situados a oeste. O que sabe a respeito disso? — Menos do que deveria saber. a um momento de conversão em que. era levado para a neve e nela enterrado até que viesse o degelo. tapadas com barro e jornais velhos. com insistência. vinham novas calmarias e novas nevadas. os exércitos em luta cavavam abrigos e aguardavam o degelo. se afasta dessa mulher e se entrega a Deus. morriam na neve antes do amanhecer. os jovens entediavam-se com seus rostos febris. partiam os galhos das oliveiras e amontoavam-se de encontro às portas das casas. e o vento varria a sua superfície. procurar alimento ou coar café. As patrulhas acampadas nos montes perdiam homens devido à inclemência do tempo.. . segundo os meus registros.

quanto tempo durariam e se veriam uma outra primavera. num tempo como aquele? Se as batidas eram persistentes. e os bolsos estofados de comprimidos de aspirinas. quando de novo mergulhasse na desolação que reinava fora. e o jovem cura de Gemello Maggiore tinha de haver-se. punha-se a caminho. para que ficasse em casa uns dois dias em companhia de Nina. não raro. Se tinham necessidade de Meyer. trocavam anotações. medicava-os quando podia. Uma noite. não obstante. Mas. cheia de rações. Havia apenas uma batida que conheciam e uma voz a que atendiam: a de Giacomo Nerone. afastando-se pela neve congelada. com os seus próprios agonizantes. limpava a sujeira acumulada e. Meyer insistiu com ele para que descansasse. exultante com aquele desafio ao seu vigor e vitalidade. antes de sair. impropérios ao intruso até que. Depois. preocupado. a pensar. Verificava o estoque de alimentos. em direção ao casebre de Nina. friorento e pouco inclinado a mexer-se. as botas enroladas em sacos. ele deixava de bater. Quando chegava a uma casa. ficava durante o tempo que precisavam dele. Se estavam prontos para um sacerdote. já que o Padre Anselmo era velho. Quem. começou a ficar irritadiço. passando. embora isso fosse um tanto mais incerto. e depois Nerone descia o monte. desoladamente. procurava arranjar um. A princípio. e dois minutos para a piada que os deixaria rindo. a esforçar-se ainda mais do que antes. loucos ou famintos. mas ele se recusou laconicamente a fazêlo. Bebiam um gole de grappa. não respondiam. depois. Sua última visita do dia era sempre para Aldo Meyer. ele vivia de um lado para outro. Todos os dias. ele o trazia. mas nem um minuto mais. de manhã à noite. e ficavam a ouvir-lhe os passos estalejantes. como alguém que dormisse muito pouco e pensasse demais. Trazia às costas uma velha mochila militar. estaria fora de casa. havia sempre cinco minutos para as notícias e as despedidas. sorridente. lançavam. cuidava dos enfermos. o tempo melhorasse de alguma maneira. fazia um caldo para os que se achavam incapacitados.outros. uma garrafa de óleo de fígado de bacalhau e uma porção de remédios avulsos. em coro. já tarde. Se alguém batia à porta. mostrava-se alegre. depois. a cabeça metida num gorro feito com uma das meias de Nina. enquanto dezembro se convertia em janeiro sem que. finalmente. quando uma nova nevasca tornara o tempo ainda mais . senão ladrões. ruminando cegamente a côdea de pão comum. afundado na neve. o corpo entalado entre camadas de roupas miseráveis.

deixou cair a mochila ao chão. um atirador de tocaia. sorrindo.. Sou inglês. Para nós. Eu fazia parte da guarda avançada durante o assalto a Messina. Por que me pergunta? — Porque poderia estar dizendo bobagem. Ao chegarmos à casa.frio. que dava para o cais. com janelas que davam para nós e.. o que você não sabia. Havia um beco. engoliu de um trago a sua grappa e disse. Atiradores de tocaia. Apenas ouça. — Quanto eu o desprezo? — Não diga nada. com suavidade. segui a rotina habitual e gritei-lhe que se rendesse. — Eu o imaginei. apareceu na casa de Meyer. dessa vez . numa das janelas de cima. Apenas uma operação de limpeza. Seus compatriotas estavam derrotados. Minha companhia recebeu ordens para limpar uma área de cerca de meia milha quadrada. nada mais. Era a última posição em poder do inimigo na Sicília. Meyer? — Fui criado para que acreditasse — respondeu Meyer.. Avançamos. pelo amor de Deus. Pense o que quiser do que vou dizer-lhe. Depois. não é verdade? — Isso é assunto seu. — Meus amigos fascistas fizeram todo o possível para me persuadir do contrário. como sabe. você acredita em Deus. Os alemães retiravam-se rapidamente. — É uma boa razão — observou Meyer. uns dois ninhos de metralhadoras. — Que é que você quer que lhe diga? — indagou Meyer.. — Pois bem. ocupada por cortiços miseráveis. — Diga-me uma coisa. Digamos que encaro a matéria com o espírito aberto. — Sou. — Gostaria de dizer-lhe agora. Sou oficial. Não precisa dizer-me. desertor. pondo-se em guarda. — Por quê? — Porque preciso. achamos que poderíamos apanhá-lo.. com árido humor. Ouviu-se um outro tiro. — O que há de tão diferente esta noite? Nerone não tomou conhecimento da ironia e prosseguiu: — Jamais lhe disse por que vim para cá. abruptamente: — Meyer! Preciso falar-lhe! — Você sempre o faz — respondeu Meyer. — Um homem tem o direito de falar bobagem quando sente necessidade.. Ele já nos havia detido por dez minutos à entrada do beco. também. nada representava.

Um dos meus homens foi atingido. — Mas eu era o elemento humano. Quando começamos a fazer alguma coisa por essa gente. ao velho pescador e à mulher morta. Quando ficou grávida. friamente. — Por que razão veio para cá? — Também não sei. Você estava dispensado de todo o resto.vindo da janela de baixo. homem! Deixe-me desabafar! Meyer deu de ombros e despejou no copo de Nerone uma dose exagerada de grappa. A criança fora atingida em cheio pela explosão. aguardei a explosão e depois entrei. Você fizera o que lhe haviam pago para fazer. Somos formigas sobre a carcaça . Nerone? — Acreditava. por muito tempo. então tudo não passa de uma loucura monstruosa. respondeu. deixei de acreditar. Beba. Depois. depois. — Nunca é — disse Aldo Meyer. — E você. Mas não era o bastante. Mas para onde esperava ir? — Eu não sabia. — E você fugiu. — É o elemento humano. acredita em Deus. — E agora? — Não me ponha contra a parede. Chame a isso um acidente. melancólico: — Quando encontrei Nina.. ela foi um refúgio. Meyer.. foi como uma espécie de reparação. menos ainda. Sua guerra estava terminada. pondo uma nova vida no lugar daquela que destruíra. Lancei uma granada de mão através da janela. — Eu sei — disse Giacomo Nerone. com uma mulher e uma criança de colo. E você decidiu que aquilo era o fim. Quando nos apaixonamos.. Todos mortos. limpou nas costas da mão a boca gretada. se quiser. E prosseguiu. um velho pescador. Nerone segurou o copo com as mãos trêmulas e bebeu avidamente. Quando Nerone protestou. posso compreender. a reparação. — Mas onde é que Deus entra nisso? — Se Ele não entra. Nada tem a ver com Deus. Encontrei o atirador de tocaia. A morte nada significa. Você pode compreender isso? — Sim.. Está certo? — Mais ou menos. com gélido humor: — In vino veritas.. senti-me como se estivesse desfazendo o que tinha feito. Ainda não é o bastante. de minha parte.. o que aconteceu foi mais do que isso — uma espécie de absolvição. quanto ao que dizia respeito à sua pessoa. — Isso acontece na guerra — comentou.

— Aí é que está a sua complicação — disse Meyer. meu amigo. liberais. cada vida. Você fez um bom trabalho para nós aqui e ainda continua a fazê-lo.. obstinado. Meyer. Você querem reduzi-lo a uma dor de barriga. excesso de trabalho. falta de sono ou falta de satisfação sexual. metade do misticismo vulgar que existe no mundo provém de má digestão. — Talvez você desse um bom comunista. bemhumorado: — Permita-me dar-lhe um conselho. Se me perdoa dizê-lo. como os católicos. Nerone ergueu a cabeça. de repente. e a tensão de seu rosto moreno. — Você está metido num poço. um conselho médico. Só há duas coisas que podem fazer com Deus: afirmar a Sua existência. Aldo Meyer.. com decisão. irritado. e. se enganam. porque está fatigado. Por isso é que já não existe mais lugar para vocês no século XX. Meyer aproximou-se. ... Concedam a vocês mesmos uma ração diária de alimento e façam uma festa. meu amigo — comentou.. com brandura.. mas jamais seria um bom liberal. a uma excitação. os outros rastejam sobre nós em busca dos restos. sentou-se à beira da mesa e disse. — Eu era católico. sombriamente.. ou negá-lo. Você é judeu. — E estou quase me afogando nele. é onde todos vocês. Todo este vale podia morrer congelado. afrouxou-se num sorriso: — Aí. movendo-nos agitadamente sem ir a parte alguma. Agora. Apoiou a cabeça nas mãos e pôs-se a passar os dedos depois pelos cabelos. começa a se preocupar com o assunto. tudo se torna terrivelmente importante.... cada morte. como os comunistas. Você está se destroçando de cansaço e má alimentação.do mundo. Um de nós morre. Você.. — Eu sei — respondeu Nerone. Mas se existe um Deus. Não devia ser assim tão tolo. Nerone —. Se quer um conselho de médico. absolutamente nada. e isso nada significaria. — E a reparação? — Não significa absolutamente nada — respondeu. — E você. começa a preocupar-se com Deus. com voz apagada.. ou a uma cômoda especulação para a hora do café e dos charutos. Nunca teve plena certeza se agiu mal ou bem afastando-se de sua guerra. a menos que nos demos como parte dela. que é? — indagou Meyer. fique em casa e brinque de lua-de-mel com Nina durante alguns dias.

. como Nina Sanduzzi. o início de uma relação pessoal entre o Criador e a criatura. Amanhã entrego-os ao senhor. — Se soubesse como isso me alegra! Meyer fitou-o. acanhado. . doutor.. sentindo nos dedos a seiva branca e viscosa. com todo o cuidado. Meredith deixou de caminhar e ficou um momento à sombra da figueira. — Basta até amanhã — disse Meyer.. pensativo —. Um ar de grave satisfação estampou-se nos olhos de Blaise Meredith. Meyer. desfiando.. — Se existissem coisas escritas — disse Meredith. Foi Nina quem mo deu. Tenho tido medo desses escritos. monsenhor. — É um confessor. lentamente. — Repete-se — disse. Se esse tema continua. Podia-se seguir uma atitude pessoal que explicaria as relações exteriores. Mas minha prescrição ainda permanece de pé. enquanto o senhor estivesse falando com Nina. Em algum lugar neles pode estar a resposta a uma porção de perguntas que há muito me perseguem. — Existem escritos. uma das folhas grossas e duras. Disponha do tempo que quiser. Gostaria de lê-los esta tarde. absorto. Meredith fitou-o.. Decorrido um momento. — Mas existem hiatos na minha história. assim como o senhor teve medo de pedir um milagre. Tenho de pensar nisso.. — Eu próprio ainda não os li.. com um sorriso de viés. Ainda não o abri. Gosto de conversar com o senhor.. monsenhor? .no fundo. Eu os tenho. é um absolutista. Está bem assim? — Certamente. — Pensarei a respeito.. Contraiu a religião como uma coceira no traseiro e a carregará consigo até o dia de sua morte. com o resto do meu depoimento.. irônico: — Por quê. disse: — Esse é o primeiro vislumbre que tive de uma coisa que se procura em toda história individual: a entrada de Deus nos cálculos de um homem. O senhor terá de preenchê-los com o que lhe disserem outras testemunhas. Monsenhor Meredith. — Eu poderia vê-los? — Se não se importar de esperar um pouco — concordou Meyer. ajudariam imensamente. por exemplo. o começo da aceitação da conseqüência da fé. surpreso: — E são muitos? — Há um grande pacote.

uma cadeira e um caixote com uma vela. pouco a pouco. O chefe dos jardineiros. começo a aproximar-me das pessoas. Seria um suplício. menos inexperiente e menos receoso da condessa. — Mais tarde — disse Meyer. Despira a camisa porque o sol estava quente e. mesmo. A madeira estava seca e era fácil de cortar. se rissem dele. o serrote emperrava e se lhe torcia na mão até que. Aquele era o seu primeiro trabalho de homem. um sujeito taciturno. — Isso me aterroriza mais do que tudo — respondeu Blaise Meredith.— Pela primeira vez em minha vida. o deixara ali com a lacônica instrução de tirar as mãos dos bolsos e trabalhar rijo.. bem como a linguagem daquela nova vida entre os signori. creio. a seus pés. pusera-se a serrar os galhos mais grossos. em companhia das outras criadas. enquanto a serragem se amontoava. um estreito cubículo junto do depósito das ferramentas. Sentia-se contente de estar só. a conversar com ele e a admirar-lhe a habilidade. Seria agradável se Rosetta estivesse ali sentada. ao entardecer. o cheiro da madeira e o gosto do suor que lhe escorria pelo rosto e lhe chegava até os cantos da boca. Mas encontrar-se-iam à hora das refeições e sairiam a passear aos domingos — e talvez pudessem. com um colchão de palha. compartilhando a cama com uma das moças. e precisava de tempo para aprender o ritmo da ferramenta que usava. Paolo Sanduzzi trabalhava. Ele se sentiria melhor quando ela estivesse lá. à hora da sesta. O lugar era novo e estranho. enquanto ele teria o seu próprio quarto. após decepar os ramos com um machado. apanhou o jeito de fazê-lo e os dentes da ferramenta penetravam com facilidade na madeira. mas só chegaria no dia seguinte e teria de ficar na cozinha com a cozinheira. e quão pouco tempo me resta. serrando uma oliveira caída que devia ser transformada em lenha. pois. a quem ainda não . com ar sério — o senhor estará perto de Deus. Aterroriza-me pensar quanto tempo desperdicei. e suas mãos eram desajeitadas e inábeis. sobre as folhas. ou a espanar e a polir os móveis. Agradavam-lhe o ruído do serrote. nodoso e escuro. queria que a árvore já estivesse cortada e amarrada.. passar juntos alguns momentos furtivos. mas como se achava demasiado ansioso. Dormiria no alojamento das mulheres. semelhante ele próprio a uma árvore. Num canto diante do jardim da villa.

Se trabalhar bem para mim. muito mais viável. Paolo? — Um pouco — murmurou. e as moças usavam roupas e sapatos elegantes e onde toda casa tinha água corrente e. Deixara a aldeia e penetrara no mundo verde e recluso da villa. sorriulhe. naturalmente. A impressão era tão vivida que. — Procurarei trabalhar. toda espécie de revelações. e sentir-se atraído pelo inglês não era. agora. . bem como do inglês. quando um ramo seco estalou atrás dele. frouxos. às vezes.tinha encontrado. os braços pendidos. pensou. de praia. brilhante como uma borboleta. e sua magia ainda era poderosa sobre ele. onde as ruas eram cheias de fontes e toda gente tinha automóvel. num impulso súbito. Sem saber o que fazer ou dizer. Isso é bom. Mas era a condessa quem lá estava. O sorriso da condessa deu-lhe confiança e. assustado. onde viviam o papa e o presidente. quando ela segurou o vestido para sentar-se sobre o tronco da oliveira caída. que seu segredo era conhecido e compartilhado com o médico. Ao pensar em Roma. sem uma palavra. jamais se arrependerá. sem que ousasse fazer um gesto para enxugá-lo. limpar de seus pés a poeira da aldeia e ir para Roma. e o sorriso estava também em seus olhos: — Assustei-o. até mesmo banheiro e toalete. num vestido de primavera. com quem se avistava com demasiada freqüência. Dera o primeiro passo. Paolo. mais senhor de si mesmo. Agora. Talvez até pudesse encontrar uma maneira de fazer o que desejava mais do que tudo. ao que parecia. O fato de ser um bastardo não constituía mais um mistério aterrador. então. permaneceu boquiaberto. sentindo o suor escorrer-lhe pelo rosto e pelo peito. uma coisa tão estranha. e que podia prometer-lhe. esperando ver o inglês. protegendo-lhe os olhos contra o sol. em Nicholas Black. sentia-se mais seguro. com seus olhos zombeteiros e a boca retorcida num sorriso que podia fazer que ele se sentisse homem ou criança. voltou-se. A condessa aproximou-se e olhou a madeira serrada: — Vejo que esteve trabalhando com vontade. acanhado. ele. ao longo do corpo. Roma estava muito mais perto. Essas eram maravilhas a respeito das quais o pintor lhe falava com freqüência. que sabia mais a respeito de seu pai. Ela. com um chapéu vermelho. signora.

não! — exclamou ela. Mas não muitas. lançando um riso alto e tilintante. Trabalharei bem. Sua mãe não lhe disse? Ele fez que não com a cabeça. não é verdade? . Sabia que conheci seu pai? — Meu pai também trabalhou para a senhora? — Oh. signora. também! — Exatamente. Se isso é certo. Farei com que vá à escola em Valenta. suas roupas miseráveis e seus pés descalços e empoeirados. — Isso é exatamente o que o seu pai teria feito. — Você o deseja muito. disse-lhe: — Pouco sei a respeito de meu pai. Como era ele? — Era inglês — respondeu a condessa. Black e o monsenhor que veio de Roma. numa casa em que seu pai era recebido como visita. — Rapaz encantador! — murmurou Anne Louise de Sanctis. Depois. a condessa prosseguiu: — Foi por isso que o trouxe para cá. prometo. como criado. em consideração ao seu pai. — Essa é outra das razões por que desejo que se comporte bem aqui. — Inglês! — exclamou. — Isso quer dizer que eu sou meio inglês. Era um signore. parecendo não acreditar no som de sua própria voz. às vezes. Costumava vir aqui. — Seu pai era meu amigo. encorajado pelo sorriso de aprovação com que ela acolheu suas palavras. um gran' signore! Ele sentiu súbita vergonha de estar ali. Notou que a condessa não fizera referência alguma à sua mãe e. como o seu pai. Depois.estendeu sua camisa sobre o áspero córtex. signora. visitar-me. — Como eu. com seu rude dialeto. então. talvez possa ser também meu amigo. a escrever. — A árvore está suja. Respondeu rápido: — Gostaria disso.. Antes que tivesse tempo de responder. Mr. Paolo. mais uma vez. Black me disse que é inteligente e aprende as coisas com facilidade. a falar corretamente e a usar roupas adequadas. aprender a ler. — Ela nunca lhe disse quanto você se parece com ele? — Disse algumas vezes. como Mr. Gostaria disso? — E eu poderia ir para Roma? — Claro! — respondeu-lhe ela. talvez possa transformá-lo num senhor.. sorrindo. Vai sujar o seu vestido. sentiu-se envergonhado dela.

O perfume dela o envolveu todo e ele podia ver-lhe os seios arfando sob o vestido fino. desde o início de sua missão. Não deixava de estar satisfeito com o trabalho que realizara pela manhã. Suas mãos. nem mesmo à sua mãe. e ele teve a estranha impressão de que ela queria curvar-se e beijá-lo. Sem saber por quê. Black que o levasse a Roma. precisaria confiar em você. vividas — de modo que. Logo depois do meio-dia. Mas nem uma palavra. — Nem uma palavra. quando ele abriu os braços. Meredith estava começando a ver Giacomo Nerone como homem e não como lenda. pela primeira vez.— Oh. — Com efeito. então.. Nicki! As palavras eram em inglês. ouviu um ruído de passos atrás deles e a voz suave de Nicholas Black. Meyer era uma boa testemunha. abruptamente: — Preferia ir com a senhora! E. eram suaves e perfumadas. a fim de que visitasse a cidade. Você teria de aprender a guardar segredos. cara! Você é mesmo desavergonhada! O rapaz não perdeu ainda os dentes de leite e você já está procurando seduzi-lo! — E é justamente você quem fala em sedução. nem mesmo com o monsenhor ou com o Signor Black. mas. Paolo exclamou. em seu rosto. meio acocorado a seus pés. ela apanhou-lhe as mãos e puxou-o para baixo.. no mesmo instante. Paolo. Paolo. e Paolo não as compreendeu. e suas lembranças eram desapaixonadas.. — Pensaremos. Ela tomou-lhe o rosto entre as mãos. — Eu aprenderei. inclinou-o um pouco em sua direção e disse-lhe. Disse isso ainda sorrindo.. Blaise Meredith voltou à villa para banhar-se e descansar um pouco antes do almoço. suavemente: — Antes que eu pudesse fazer isso. muito. mas havia uma espécie de estranha advertência em seus olhos. prometo. quando ergueu a cabeça e viu o comprido rosto de sátiro do pintor e as faces afogueadas e iradas da condessa.. . ele se sentiu como que numa armadilha. como um camundongo acuado num canto diante de dois gatos prontos para saltar. mas. de modo que ele ficou meio ajoelhado. signora! — Eu poderia pedir a Mr.. no gesto de súplica comum no sul. sobre isso. Não tagarelar com a gente da aldeia.

esse algo era o cuidado das almas. — É um homem inteligente. continuar a falar sobre o período crítico da vida de Nerone que se seguiu. Espera poder ver-nos a ambos durante o jantar. à mesa. sua posição lhe parecia sumamente desagradável. o pintor saudou-o displicentemente e disse: — A condessa pede-lhe que a desculpe. viera à procura de provas e necessitava da cooperação de suas testemunhas. Novamente. Nicholas Black já se achava sentado. Quando se tinha o corpo enfermo e o espírito preocupado. brandindo os mandamentos. Não havia sentido algum em ameaçar com a condenação eterna um homem que já caminhava para o inferno por sua livre e espontânea vontade. Está com dor de cabeça. sozinho. penteou o cabelo. Mesmo então. mas uma proposição complexa. Enquanto permanecia deitado. o caso de Giacomo Nerone deixou de ser importante. Muito informativa. vestiu uma batina leve de verão e dirigiu-se ao terraço. sobre a cabeça das pessoas. Como sacerdote. pensou em como deveria comportar-se durante a refeição em companhia da condessa e de Nicholas Black. a dificuldade era dupla. Quando chegou a hora do almoço. repousando. Agora. como um cacete. podia falhar. e se o sacerdócio significava algo. levantou-se. da corrupção de um menor. não podia participar. tinha-se de esperar pelo lugar e pelo momento propícios — e ainda assim a gente. sentindo no ventre aquela dor que já se lhe tornara familiar. como acontecera na casa do Padre Anselmo. Meyer é uma excelente testemunha. que sabia que a condessa era uma mentirosa e que os dois formavam um par de conspiradores. Imediatamente um criado abriu o seu guardanapo e despejou vinho e água gelada nos copos que estavam à sua frente. mesmo pelo silêncio. Como advogado do Diabo. via-se obrigado a agir com discrição e cortesia. . Havia almas em jogo. Mas Meyer não o convidara. Surpreende-me que tenha sido mal sucedido em sua própria vida. — Teve uma boa manhã. sob o guarda-sol listrado. Nada se resolvia. O Dr. Uma enunciação simples.Teria preferido almoçar com Meyer. Almoçará em seu quarto. Meredith fez um aceno de cabeça e sentou-se. monsenhor? — Muito boa. Ao vê-lo entrar. no fim. e Meredith percebeu que ele precisava de tempo para refazer-se e estar só para começar a leitura dos papéis do morto. Como hóspede.

Meredith não tomou conhecimento da insinuação. Meredith debruçou-se sobre o seu prato e nada respondeu. — Muitos deles não tiveram ainda de enfrentar a realidade — respondeu Meredith. quando o término da vida da gente já foi estabelecido. a gente se dá conta. friamente. Um século ou dois não fazem diferença. monsenhor. com falso arrependimento: — Eu o estou provocando. — Em três meses — disse o pintor — o senhor dificilmente terminará o seu caso. Black mergulhou em seu prato e sorveu o seu vinho. ao tratar dessas coisas. Não tinha desejo algum de ser levado a uma discussão logo no momento do antipasto. de repente. — O senhor sente muita dor? — Bastante. Muitos de seus colegas não o são. Decorrido um momento. monsenhor? — Quem não tem? Black sorriu sardonicamente: — Pelo menos o senhor é franco a respeito. e ambos comeram em silêncio por algum tempo. melhor para todos. quando nenhum homem pode trabalhar. o pintor tornou a indagar: — Como está sua saúde. e disse. enquanto o criado lhe trocava o prato. — Algumas delas se mostraram dispostas a cooperar. Perdoe-me. tenho a impressão de que o senhor está ansioso para levar a sua empresa a cabo. de sua brevidade. O pintor ficou a observá-lo. é pior do que eu esperava: três meses. e Meredith a observar o pintor de . — As testemunhas aí estão — respondeu." — Tem medo da morte. — E o senhor? Black sorriu entre dentes e tomou um longo sorvo de vinho. em direção à cozinha. limpando uma migalha de pão que lhe ficara junto ao canto da boca exangue —. infelizmente. Paolo Sanduzzi saiu de entre os arbustos e atravessou o gramado. "Chega a noite. Além disso — ajuntou. monsenhor? — Na mesma. Depois. com azedume. Quanto maior for o número de depoimentos que consiga obter agora. depois recostou-se na cadeira. — Receio que não. Meredith. O prognóstico de Meyer. como bem sabe. — Contudo. Felizmente a Igreja não tem pressa. diz ele.

em tom sereno: — Se o julguei mal. Meredith enrubesceu. Que é que a Igreja me oferece.. sem sequer ouvir uma palavra em minha defesa. Mr. acusador. Não se pode deixar que o filho de um beato fique por aí a perseguir as moças e a meter-se em complicações com a polícia. com efeito. — Meyer deve ter sido. Quando o rapaz desapareceu atrás do ângulo da casa. o senhor será o único culpado disso. o pintor lançou para trás a cabeça e pôs-se a rir. Black o interrompeu: — O senhor já me julgou. lamento-o profundamente. um corruptor de jovens. Ficaria mais do que contente se o ouvisse negar esses. Fico pensando por que a Igreja não faz alguma coisa por ele. Black.. em voz baixa. . à guisa de fé.. com amargura. Meredith. Black voltou-se para a mesa e comentou. Black. se aproximava muito da verdade. mas a mim é que não engana! Também já fui católico e conheço toda essa rotina pretensiosa.soslaio. O pintor riu. uma boa testemunha. na direção do sacerdote: — Vamos entender-nos. em tom casual: — Rapaz encantador. como qualquer outro rapaz. Um Davi clássico.. Mal as palavras lhe haviam saído da boca. Respondeu.. não é certo? Já apanhou todos os fios dos boatos imundos que correm pela aldeia e já me condenou. Mas quando se dispõe a corromper esse rapaz. Por que não vai embora e não o deixa em paz? Para sua surpresa. Dá pena pensar que irá estragarse numa aldeia como esta. de esperança ou caridade? — Apontou um dedo magro. Meredith. Sabe por que deixei a Igreja? Porque ela responde a todas as malditas questões teóricas. — O senhor está fazendo uma coisa detestável! Seus vícios íntimos são assunto que dizem respeito ao senhor e ao Todo-Poderoso. de um modo nada agradável. um homem anormal. boatos. com olhos especulativos. não é verdade? A afável desfaçatez do outro foi demais para Meredith.. com fria precisão: — Se o rapaz se corromper. monsenhor! Que mais lhe disse a meu respeito? — Isso não basta? — indagou. — O senhor quer que me defenda perante sua pessoa? O diabo que me carregue se o fizer.. Digamos que eu seja o que toda gente diz que sou. monsenhor! Em vez disso. A acusação. aceito o desafio em seu próprio terreno. Mr. o senhor está cometendo um crime contra a natureza.. O senhor pode tapear seus penitentes e encantar suas congregações domingueiras. que depôs ruidosamente a faca e o garfo e disse.

talvez o macho excessivo. sua atitude.exceto àquela que a gente precisaria ver respondida. do mesmo modo. Visse o senhor o meu irmão. prosseguirei. depois. nem enganado. Ali estavam. como dormir com uma moça antes que casemos com ela. não os aproveitara. concentrado.. num bar. Meredith? Também eu me abarrotei de Santo Tomás. um pecado contra a natureza. E sabe muitíssimo bem que se eu . para a procriação de crianças e... áspero: — O senhor já está se esquivando! Mas. O pintor prosseguia. Todos os atos corporais devem estar de acordo com um fim e tudo o mais é pecado. — Riu.. novamente. E aí termina o assunto. Não fui seduzido num banheiro coletivo. Não estava bem claro o que seria eu. Meredith. primeiro.. E eu?. E a minha natureza? Eu nasci como sou.. No ardor da argumentação. Ele próprio não tinha consciência disso. eu o soube. antes que ele morresse. de insulto sardônico. Não pedi para nascer. "Por quê?" O senhor me diz que estou cometendo um pecado contra a natureza porque pensa que gosto desse rapaz e pretendo seduzi-lo.. Vamos examinar esse ponto. sardonicamente. Sou o que sou... faço-lhe uma promessa: arrumarei minhas malas e partirei no primeiro transporte disponível! Concorda com isso? — Não posso fazer nenhum ajuste com o senhor — respondeu. é um ato que vai além do instinto natural. por meio de palavras pérfidas. — Acaso eu o surpreendo. Fazia parte de minha natureza ser atraído mais pelos homens que pelas mulheres. e é isso que quero que me explique. Mas quem me fez? Segundo o senhor — Deus! O que desejo e o que faço são coisas que estão de acordo com a natureza que Ele me deu. prontos para ele. por falta de sabedoria e de simpatia humana. dentro de pouco tempo. mas. Tinha um irmão gêmeo. segundo a natureza.. Conheço todos os seus argumentos sobre a questão do uso ou abuso do corpo. e teria visto o macho perfeito. Não o posso mudar. de qualquer modo. diante do rosto pálido. Se o senhor puder dar-me uma resposta satisfatória. — Olhe para o senhor! É um sacerdote.. ou desejar a mulher alheia. Nicholas Black riu.. se converteu num apelo à compreensão de Meredith. Mas há aí um engano. incisivo. as palavras a lhe saírem da boca precipitadamente. ao que parecia. Não pedi para nascer assim. — Ouvirei e procurarei responder. para a relação amorosa entre homem e mulher.. Apenas isso. Deus o fez. se assim o preferir. e só Deus sabe o quanto tenho sofrido por causa disso. Mas. Desejar um rapaz é. amargas. mas o sacerdote o notou prontamente e de novo se sentiu envergonhado de sua obtusidade. do sacerdote. o lugar e o momento oportunos..

O senhor pode apanhar o seu Paolo e desfrutá-lo. fazendo-me morrer penosamente ao passo que outros morrem tranqüilamente durante o sono. acaso. Após um momento. loucas.. Mesmo que não o tivesse sido. um desafio maior do que o jorro de suas invectivas. algures. manietar-me. para Meredith. tirando-lhe o melhor proveito. como qualquer outro homem! Da minha espécie de amor! Devo viver. Parece haver sempre enganos nas engrenagens da criação. se a polícia e os costumes . compreenderia minhas palavras e o que elas significam. menos direito de viver contente. Não sei dizer-lhe por que Deus o fez assim. de acordo com a natureza! Mas eu não sou feito assim. Tentou fazer uma pequena prece silenciosa por aquela alma que se apresentava nua à sua frente — mas a prece. lhe pareceu estranhamente árida e impotente. grave: — O senhor me disse que já foi católico. — Aceitarei o "se" — respondeu Meredith. Mas será que. empunhando facas de cozinha. Para o seu problema — como para uma porção de outros problemas — não existe uma resposta que não implique um mistério e um ato de fé. onde não há mais necessidade dessas coisas?. — Se não existe Deus. com uma das engrenagens de sua criação?. neste momento. apenas porque o Todo-Poderoso se enganou.. Não aprovaria.me dispusesse. a seduzir uma jovem. certamente! E me faria um sermão sobre a fornicação e tudo o mais. Meredith? Qual é a sua resposta para mim? Devo. — Se é que existe um Deus. de fome e fulminados por raios. em lugar do jovem Paolo. à espera.. Meredith fitou o pequeno caos de migalhas de pão que havia em seu prato e escolheu as palavras com que articular a sua resposta. e seu silêncio constituía. então o universo é um caos sem sentido algum. necessito menos de amor? Tenho menos necessidade de satisfação? Tenho.. ou dedicar-me ao jogo de peteca e esperar até que façam de mim um anjo do céu. e a Igreja sabe todas as respostas! Responda-me a isso! Interrompeu-se e ficou sentado. acaso. numa cela acolchoada? O senhor é a Igreja. por isso... homens morrem em epidemias. respondeu... Que é que me responde a isso. Deus não me fez assim. Vive-se nele tão longa e agradavelmente quanto se puder. Mas não se sentiria assim tão desgostoso. com tranqüilo interesse. Seria normal. como o argumento que apresentou. Por quê? Só Deus sabe. Nascem crianças com duas cabeças. Sinto-me solitário! Tenho necessidade de amor. mães de família saem a correr. o senhor adotaria uma opinião inteiramente diferente. como também não sei por que motivo Ele plantou um carcinoma em meu estômago. até morrer.

. fazem da gente um santo. para umedecer os lábios.. Mas se existe um Deus — e creio que existe —. com amargura. Black? — Tenho. Meredith. E surpreendeu-se de achá-lo subitamente azedo.sociais o permitirem. — O senhor tem outra melhor. Mr. então. Nada tenho a discutir com o senhor. monsenhor — atalhou o pintor. como vinagre numa esponja. . Eu quero dinheiro na mão e pouco me importa o resto! Afastou a cadeira. com efeito! O senhor fique com a sua cruz e com o seu cilício. monsenhor. Não importa a porcaria em que a criação se transforme. levantou-se da mesa e. a gente a aceita e gosta dela. entrou na casa. como Giacomo Nerone. Se a gente a aceitar durante bastante tempo. pois é uma cruz que Deus nos põe às costas.. — Não me diga o resto. Blaise Meredith enxugou no guardanapo as mãos úmidas e tomou um gole de vinho. Isso não é resposta. . sem proferir qualquer outra palavra. — Já sei de cor.

na cabana que se erguia entre os azinheiros. calmamente. situada entre a porta aberta e a grande cama de ferro onde dormira Giacomo Nerone e em que nascera o seu filho. possuía compreensão e delicadeza. sorriu — ele. mas porque precisamos tentar saber tudo. respondeu-lhe laconicamente. você e Giacomo Nerone passaram a viver juntos. Compreende isso. Tinha pouca experiência em matéria de sacerdotes. que antes bem poderia ter franzido o sobrolho diante de uma resposta como aquela. o quarto estava fresco e cheio de sombras. signora? Ela. e mesmo o canto das cigarras era abafado.12 Às primeiras horas da tarde.. — Obrigado. por sua vez. Nina Sanduzzi olhava-o com ar de ligeira piedade. quase nada tinham que os recomendasse. que logo depois de sua chegada a Gemello. Mas aquele era diferente. Nina. cansara logo Meredith. fez com a cabeça um sinal afirmativo.. alcançando um meio-tom invariável e monótono. coisas boas e más. Meredith. Não penetraria demasiado asperamente na intimidade de seu passado com Giacomo Nerone. Nina Sanduzzi conversava com o monsenhor que viera de Roma. Algumas delas talvez lhe pareçam estranhas. É assim que o doutor me chama e o senhor é amigo dele. e sentia um nó apertar-lhe a boca do estômago. à pequena mesa tosca. insistiu delicadamente: — Quero que compreenda primeiro uma coisa: há perguntas que precisam ser feitas. tinha o rosto macilento. mostrava-se cautelosa e. — É melhor me chamar pelo meu nome. Depois da claridade que reinava fora. Nina. Achavam-se sentados. sem procurar enfeitar as palavras. — Éramos amantes — respondeu Nina Sanduzzi. Não obstante. a respeito desse homem. os lábios exangues. quando ele começou a interrogá-la. e até mesmo brutais. não porque pense mal de Giacomo Nerone. como Padre Anselmo. E prosseguiu: . mas muito asseada. monte abaixo. o formalista. e aqueles que conhecia. Faço-as. Meredith. estou informado. A caminhada. frente a frente. — Não é bem a mesma coisa. Ora.

e não apenas uma verruga num melão verde. Não pensou que isso era um pecado contra Deus? — Quando a gente se sente solitária. eram normais? Acaso ele lhe pediu alguma vez para fazer o que não deve ser feito entre homem e mulher? Ela o fitou. Poderíamos todos morrer de tifo ou de malária. Só era certo o dia que se estava vivendo. Eu tinha um anel. não. Mas quando essas coisas acontecem com freqüência — mesmo entre sacerdotes —. Que mais poderia haver? — Nada — apressou-se a responder Meredith. Respondeu-lhe. mas não tinha homem algum que correspondesse a ele. a gente pensa nessas coisas e se esquece do pecado. — Giacomo se recusou a casar com você? — Eu nunca lhe pedi. Nina. altiva: — Nós nos amávamos. monsenhor. Meredith viu um sorriso iluminar-lhe os lábios e os olhos. Um anel no dedo nada significava. não parecem tão más. — Não se pode nunca esquecer inteiramente. Os senhores não compreendem como eram as coisas naquela ocasião. Giacomo também. — Mas. monsenhor. e há medo bem atrás da porta. momentaneamente perplexa. Agora. suas relações físicas. por que não se casaram? Você ia ter um filho..— Você era católica. cheio de gíria: — Todos os senhores me fazem a mesma pergunta. Uma semana atrás. como se ela fosse grande e importante. se se amavam tanto. Meredith acenou com a cabeça. se eu quisesse.. — Inteiramente. afirmativamente. No dia seguinte. ou os alemães... Era como que um eco da antiga Nina — a que queria um homem para ter em seus braços e estava disposta a enfrentar um pelotão de fuzilamento para obtê-lo. poderia vir a polícia. desde que a conhecera. num dialeto vivido. e o inverno está chegando e a gente não sabe se estará viva no dia seguinte. Depois. Mais de uma vez. Tornou a perguntar: — Suas relações com esse homem. ou os ingleses. ergueu a cabeça. Fazíamos o que os amantes fazem e estávamos contentes um com o outro. .. ele me disse que se casaria comigo.. Acaso não devia nada a esse filho? Que pensava Giacomo a respeito? Pela primeira vez. talvez tivesse compreendido menos e falado mais. sabia que o coração tem razões mais profundas do que as que a maioria dos sacerdotes jamais imaginou.

monsenhor? Tudo o que uma mulher deseja encontrava-se naquele homem.. sim. Mesmo em sua voz havia uma espécie de esplendor. — E isso lhe era importante. Nada mais importava. algum dia. havia uma outra coisa.. Diga-me uma coisa: quando estavam vivendo juntos.— E você não quis? Novamente a velha chama tremeluziu-lhe nos olhos.. no entanto. O casamento poderia vir mais tarde. não obstante. Queria conservá-lo comigo. Se o fizessem. fazia-me rir e. Além disso.. Agora. sobre a qual Giacomo me falava com freqüência. jamais levantou a mão ou ergueu a voz. com estudada rudeza —. Nunca esteve apaixonado. alguma coisa lhe aconteceria. nem ao filho. mais cedo ou mais tarde. mas o exército o levou e ele foi morto. Ele queria que eu fosse livre. bastante importante.. Podia ficar zangado. mostrava-se reconhecido e agradecia-me como se eu fosse uma princesa.. sem que anel algum o retivesse. eu também era feliz. E se pensar assim o tornava feliz. se fosse. — O quê? — Ele havia metido na cabeça que. um marido. Não tinha medo de ninguém nem de nada. Nina? — Para mim. esboçando um sorriso. a fim de que não pudessem castigar nem a mim. Quando eu o servia. Eu tinha tido. Ou os alemães. perdido para mim. eu jamais saberia se estava vivo ou morto. que espécie de homem era Giacomo? Era bom para você? Era quase fantástico ver como as recordações a invadiam e como todo o seu corpo parecia animar-se. Era desertor e. e o altivo sorriso grego contraiu-lhe o canto dos lábios: — O senhor ainda não compreende. de modo que a gente tremia diante de seu silêncio.. exceto que eu pudesse vir a sofrer. monsenhor? — Temo que não — respondeu Meredith. Quando eu tinha medo. Se ele quisesse ir. era como o sol que nascia pela manhã. como uma flor sob a chuva. monsenhor. mas. do mesmo modo. não. se os ingleses ganhassem a guerra. ele estaria. podia ir. Livre para repudiá-lo.. altiva como uma deusa de mármore ao sol: . — Contudo — observou Meredith. Sua cabeça se ergueu. Se a polícia ou os soldados o apanhassem. Era vigoroso na cama e.. — Você terá de ser paciente comigo. quando ele ria. suave como um bebê. o apanhariam. — Que espécie de homem?. para poder tornar a casar. ele a abandonou grávida e jamais tornou a viver em sua companhia. antes.. Como espera que responda a isso. eu tinha um homem. Mas para ele.

dor nos olhos e febre. E essas coisas a preocupavam.. Mas Giacomo era diferente da raça a que ela pertencia. O próprio Giacomo Nerone revelava os sinais de seu esforço. . achavam-se fundas.... como blocos de pedras. Alguns morriam e outros se restabeleciam — mas lentamente.— Vivemos apaixonados e separamo-nos apaixonados. se sentia pouco inclinada ao ato do amor. durante a qual as pessoas apresentavam manchas na pele. Ela o amava ainda mais pelas suas atenções. distraía-a com histórias de lugares e povos estranhos. problemas que o mantinham desperto à noite e o preocupavam durante o dia. A certa altura. quando ela estava doente. suas faces morenas.. Fazia ele mesmo a comida. quando caminhava penosamente para casa em meio à neve. Mas ela logo melhorou e não pensou mais no caso. à medida que seu corpo lentamente engrossava. também. Mostrava-se gentil. e tinha os olhos encovados e febris. Na aldeia e nas montanhas havia muita doença. A própria Nina caiu doente e lembrava-se do médico e de Giacomo a confabular gravemente a um canto a respeito de algo a que chamavam rubella. verificou que a monotonia da comida lhe dava enjôo e. deixei de amá-lo. não a forçava a fazê-lo e. sem se importar com o que sua mulher pudesse sentir.. esforçando-se por encontrar a frase exata em dialeto e fazer com que ela lhe . durante o longo e frio inverno. Quando não estava disposta a recebê-lo em seus braços. depois disso. para que ela fosse tentada a comer. e nunca. que antes lhe causava tanto deleite e ao qual se entregava de maneira tão completa. de barba espetada. nas longas e lamentosas noites de tempestade. O inverno ia-se extinguindo numa longa alternância de nevascas e calmarias geladas. atacada da náusea constante e do cansaço que assaltam certas mulheres no começo da gravidez. Às vezes falava com ela a respeito deles. bem como de cidades que se erguiam. Um homem era um homem. Nina. e exigia que uma mulher o acalmasse e satisfizesse. porque a comida se tornava cada dia mais escassa. houve uma epidemia. após um dia passado na montanha. pois sabia que também ele tinha seus problemas. quase até o céu. As carnes iam-lhe abandonando a robusta constituição física. devido à umidade e à falta de ventilação das choças e.

Eu mudei. por que é que você se preocupa? — Mesmo que eu fizesse o que quer que fosse. Fui como um calabrês parado no meio de Roma e perguntando a todos: "Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?" Ninguém lhe responde. no fim. Mas nada de caminho: eu estava perdido. eis-me aqui com você. no fim. por não compreender a razão de seu gesto? — Sei. Houve um tempo em que eu era como você. — Então ouça. Nisso.. Quando aquilo me aconteceu em Messina. salvo o que se referia à casa. porque ninguém o compreende. claro. mas apenas brumas. voltaria a Ele. sem que tivesse razão alguma para o fazer. voltar ao caminho certo. Até mesmo as pessoas são . Já não há escuridão. ele não saberia. de modo que se sentia forte e sábia em sua companhia. Sendo assim.compreendesse o sentido. caro mio. Mas Giacomo falava-lhe livremente. Durante muito tempo. Não havia Deus. Eu vejo você. apesar de tudo. então. E mesmo que o compreendessem. porque não fala a mesma língua que os romanos.... às vezes. em fuga e. Extraviar-me um pouco e. Sabia que vinha de Deus e que. porque isso é difícil de dizer. Nina. Pus-me. mas eu compreendo você. Havia escuridão e vozes que me gritavam: "Por aqui! Por ali!" Eu seguia as vozes e penetrava em trevas ainda mais profundas — e ouvia outras vozes. não pude ser como os outros homens e exclamei: "Isto é a guerra! Este é o preço da paz! Esquecerei tudo isso e continuarei lutando por aquilo em que acredito".. você sabe que. também. era diferente dos homens da aldeia. — Ouça.. conheço-a. nem lugar algum para onde.. uma mulher e um velho que eu matara. Eu era esses seus gritos calabreses numa cidade de estranhos. em coisa alguma! Havia apenas uma criança. Mas fora da porta há neblina e estranheza. você ainda me amaria? — Sempre. Mas. não obstante. Mas nada é exatamente como antes. diga se me compreendeu.. na paz. Não acreditava em nada: na guerra. um homem faz uma coisa e sua mulher o odeia. que podia falar-Lhe na igreja e recebê-lo em mim na comunhão. amo-a. Podia agir mal e. ser perdoado. novamente em casa. que se aconselhavam nas tabernas e não com suas esposas. sem saber por quê nem como. nem igreja. pudesse ir. Nina mia. subitamente. como no vale às primeiras claridades cinzentas da manhã. pois eram de opinião que as mulheres nada sabiam. senti-me como um homem perdido. Nem sempre foi assim. não havia mais caminho. Quando terminar... à cama e aos aspectos mais simples da religião. de repente. porque você está perto e também me ama. Não me interrompa enquanto estiver falando.

de onde venho. virão por seu turno a Gemello. Eu devia estar orgulhoso disso. no fim. com as minhas próprias mãos. ademais.. pois caminho em meio à bruma. ainda assim. " Preciso fazer isso. cara. Tuas. ou todos eles. de você. durante algum tempo.. os exércitos se porão em marcha. que Te conhecem. se Deus falar comigo. e não para Ti. Fitam-me com os olhos espantados. Quando chegar a primavera. caro mio! — Não do vale. o . — Mas por quê. Quero encontrar um lugar secreto. Afastar-me desta casa. uma grande razão para que eu o faça. ainda incerto de onde vim.. se Ele conhece absolutamente tudo.. mais amor do que você imagina. para onde vou e o que deveria fazer. — Será que compreenderá o que vou pedir-lhe? — Quando você me abraça assim e posso sentir o amor em suas mãos e em sua voz. mas não estou. e construir. Sou o seu homem de confiança. você vai embora? — Há amor nisso também. pedirei a Ele por você. falame claramente. Quando chegar a primavera e a vida for mais fácil. e o meu coração compreende. por que se voltam elas para mim. Giacomo Nerone. Estas criaturas. Nina? Ou estou falando como um louco? — Você está falando comigo. fazendo-os recuar. Verei você com freqüência e. caro mio. e haverá combates ao sul daqui. Logo terão conhecimento de minha presença aqui. se precisar.. e os Aliados. A culpa é apenas minha. quero deixá-la. os repelirão.. a fim de atormentar os alemães. nada é difícil. Os guerrilheiros entrarão em ação. mas estou perdido. caro mio? Por quê? — Há duas razões.diferentes. pois. — Não. — E. Nina. E existe. e a primeira diz respeito a mim. um abrigo.. Quero lá viver sozinho com Deus. Você pode compreender. Os alemães chegarão primeiro. Cuja face já não posso ver.. Mostra-me quem sou. estou perdido... Elas dependem de mim. Sou o seu calabrês que esteve na grande cidade e viu tudo. à procura de ajuda? Há em minha testa algum sinal que não consigo ler? Se há. — E que será de mim e de seu filho? — Estarei aqui durante todo o tempo. para onde vou. conhece o papa. — É difícil para mim dizer-lhe.. Se estás aí. Alguns deles. afastar-me.. Sem que eu saiba a razão. conta-me o que significa. Quero dizer-Lhe: "Vê. sou para elas um sujeito importante. e sabe como fazer as coisas. o presidente. devido ao que sou... sabe que eu a amo.....

. Nina mia. viu-se levado por ela como uma vergôntea ao sabor de uma torrente.. — Sofrerei de qualquer modo. algumas dessas tropas.... Assim. — Agora. tornou a interrogar Nina Sanduzzi: — Quando foi que ele a deixou? — Depois do degelo. precisamos separar-nos. ... . me farão prisioneiro. ao chegar a primavera. e é terrível! — Abrace-me. e Blaise Meredith precisava dar-lhes o que desejavam. Você não pode envolver-se comigo. o rosto de Giacomo Nerone adquiria forma e convertia-se em nítida realidade — um rosto magro. os inquisidores do Santo Ofício. de um modo mais delicado. Mas.. casarei com você e darei o meu nome ao menino. Já vi tudo isso antes. a uma santidade. mas não menos persistente. Meyer cuidará de você. Se não tiver. e é possível que eu veja. Vocês ambos são meus. e você pode dormir tranqüila. você nem pode imaginar quanto. há muito querido e há muito lembrado. possivelmente. também. aconteça o que acontecer. Se me aprisionarem. mas. Haverá muito ódio. Atrás deles. Eles precisavam ver mais do que aquilo. Nina. E se tudo correr bem. o sujeito importante.. de lábios suaves e olhos profundos. e não permitirei que você sofra por mim ou pelo povo.. esta ou aquela. Se tiver sorte.homem de confiança. — Sofrerá menos assim do que do outro modo. moreno. pertencente à Congregação dos Ritos. e. e eu a amo.. — Dio! Não! — Pode acontecer. Senão. então. a face de Deus e a face do carrasco. Nunca. tenho medo. Talvez seja isso o que se encontra atrás da bruma. quando você for embora? — Jamais irei inteiramente. o marcado. cheios de bondade. pois há a criança. ajudar o povo. caro mio! Abrace-me.. talvez. e Blaise Meredith. — Abrigue-se em meus braços e ouça as batidas de meu coração. quando não estiver aqui.. o homem seco. Mas isso não era o bastante para os grisalhos advogados da Congregação dos Ritos. O rosto de um perquiridor. Mesmo através do rude dialeto. aceitar-meão e poderei. A simplicidade bíblica de sua narrativa era mais convincente do que qualquer retórica. sofredor. Não sei.. ao mesmo tempo. me matarão. quando ia romper a primavera. Nina. uma dessas criaturas cujos ombros suportam o fardo de mistérios e que chegam. até a eternidade. o diálogo soava como os versos de um poeta na boca de um amante. Sou o seu homem de confiança. estarei aqui para isso. às vezes.

conforme prometera. pois ia ter criança.. Depois. onde se encontram as cavernas. Mas o que ele não lhe disse era o que aquilo provava para ele. sentindo uma leve pena de sua ignorância clerical: — Eu estava gorda. até o momento em que a deixou. — E você foi? — Não. Estou de novo em casa". Nina. e começou a construir sua cabana. chegaram os alemães e instalaram o seu quartel- . não. Perguntou-me se eu ia à igreja naquele mesmo dia. Mas estava sempre sorridente e muito mais feliz do que antes. onde se havia confessado com o jovem Padre Mario e. É uma pergunta que devia ser feita.. — Você o via durante esse tempo? — Ele vinha ver-me todos os dias. um dia. Estava magro como jamais o vira. havia mudado? — Sim. Tinha os olhos fundos e a pele esticada sobre os ossos do rosto. dormia numa caverna. um homem que buscava. tinha relações carnais com você? — Tinha. Tinha estado em Gemello Maggiore. e que não se entregara ainda à Sua vontade. e ele nada me pedia. — E disse por quê? — A princípio. fazia o que havia feito durante o inverno: percorria o vale trabalhando para os que não podiam trabalhar. tomou-me as mãos entre as suas e disse-me: "Estou em casa. — E tinha relações íntimas com você? Ela tornou a sorrir. — E quando ele partiu. mas que ainda não encontrara o seu Deus. levando alimentos para os necessitados. preparava sua própria comida e. No sábado. talvez. cuidando dos doentes.. disse-me que ia receber a comunhão. que foi que aconteceu? — Ele se dirigiu à garganta do vale.— E. monsenhor. Por quê? — Nada. — E ele estava mudado? — Quanto a mim? Não. — E ele próprio. Havia amor nele. Sentia-me calma e contente. a verdade. Enquanto a estava construindo. no domingo. ele dormia com você. mas era ainda apenas o símbolo deformado do amor que é o começo da santidade. durante o dia.. Ali estava ainda um homem na escuridão. Só que era mais delicado e me tratava com mais cuidado.

Possui armas. monte acima. Estava ainda cheia de sono. debaixo de minha cama. dottore? — Mais para leste. sacolejando. na direção de San Bernardino.. É um esconderijo de guerrilheiros com os quais tenho estado em contato há algum tempo. até a villa da Condessa de Sanctis. Os alemães estão aqui e não tardará muito para que ouçam falar que existe um judeu no vale. tirar o lenço e atá-lo em volta do pescoço. Se se esquecer disso. surpreendeu-se de vê-lo vestido para viagem. mas deixei um estoque para Giacomo Nerone numa grande caixa. cheio de munições e suprimentos. lançaram algumas imprecações estranhas e. Tem o aspecto de um homem adestrado. enquanto ela se apressava para servi-lo. depois. dirigido por um sargento. Quando o fez entrar. depois. nas montanhas. diga-lhe para seguir uns dez quilômetros pelo caminho de San Bernardino e. depois. munições e um bom sistema de comunicações. Se me apanharem. serei enviado a um dos campos de concentração. rumaram diretamente.. Seu chefe é um homem que se chama Il Lupo. Subiram. Estou levando meus instrumentos e alguns remédios.. Havia um carro blindado. Se Giacomo quiser entrar em contato comigo. com um capitão de ar preocupado sentado atrás. metido em pesadas botas e numa jaqueta de pele de carneiro. sentar-se e acender um cigarro. — Mas para onde vai.general na aldeia. Chegaram de manhã cedinho. a estrada poeirenta. com os motores a roncar. Alguém aparecerá e entrará em contato com ele. Entendeu bem? É importante. parando um pouco na rua estreita. concisas — meio temeroso.. . virar num lugar chamado Rochedo de Satanás. Havia ainda dois caminhões carregados de soldados e um outro veículo. mas prestou pouca atenção ao fato... que lhe pedia para abrir. Primeiro pediu-lhe de comer e. com uma mochila às costas. no norte. entregue à remota contemplação de uma mulher que sente os primeiros sinais de vida dentro de si mesma. em meio à ruidosa mudança de marchas. corre o . enquanto a aldeia ainda esfregava os olhos sonolentos. Só acordou quando ouviu batidas insistentes à porta e a voz de Aldo Meyer. Deve subir até o alto do rochedo. Penso que veio do norte especialmente para realizar esse trabalho. diga-lhe que dei o fora. meio exaltado: — Quando você vir Giacomo. Nina Sanduzzi ouviu-os chegar. falou-lhe em frases rápidas. É lá que se encontram as primeiras sentinelas dos guerrilheiros.

risco de ser baleado. de modo inteiramente casual: — Ele me disse que reza muito. Tinha os olhos fechados. Sabe o que ele faz lá em cima. Acenou com a cabeça e respondeu. — É verdade. a cabeça lançada para trás e apenas movia os lábios. A guerra estava chegando a Gemello Minore.. em sua cabana? — Reza. Espero que tenha razão. — Não esquecerei. — E que foi que Giacomo lhe disse? — Apenas riu e me disse que conhecia os alemães melhor do que eu. Meyer disse-lhe: — Procurei fazer com que Giacomo fosse comigo e levasse também você. geralmente? Ela encolheu os ombros e fez um gesto com as mãos: — Varia. o pão e o queijo diante dele e. fez um pacote de alimentos e o pôs em sua mochila. Nunca conheci um homem como ele. Não houve surpresa alguma nos olhos escuros de Nina. — E não come muito também — observou Meyer. Passado um momento. Ela colocou o café. Mas ele sempre vem. com os braços abertos. Pensa. mas não houve resposta. outras vezes. outra noite. A que horas você o vê. Aproximei-me e sacudi-o. tarde da noite. Meyer sorriu. bem como todo o ódio e todo o desejo de matar. para falar-lhe disso. Ele poderia ser fuzilado como espião. Meyer olhou-a ironicamente. Com a boca cheia de pão e queijo. Os alemães não serão com ele mais amáveis do que seriam comigo. por cima da xícara: — Você se sente contente com esse arranjo. com ligeira irritação. Entrei e encontrei-o ajoelhado no meio do assoalho. azedo. Está muito magro. Só quando ela viu a pistola e sentiu o contato duro dos cartuchos de munições compreendeu o que Giacomo lhe havia dito. mas o seu corpo estava inteiramente rígido. Não consegui mexê-lo. — Pode ser que tenha razão. quanto a isso. Nina? — Sinto-me feliz com Giacomo. fui embora.. Trabalha em seu jardim. logo cedo. Falei-lhe e não me ouviu. enquanto Meyer comia. Às vezes pela manhã. quando não está trabalhando para alguém ou andando pelos montes. Mas disse-me que a prece lhe dá a . Chamei-o. Por que pergunta? — Fui até lá procurá-lo. embora seu lampião estivesse aceso.

mas há homens que enlouquecem quando a coisa vai longe demais. — O senhor acha que Giacomo está louco? — Eu não disse isso. vendo-o descer apressadamente para o vale. dottore. Apenas uma patrulha de destacamento. Ela ficou parada à porta. Uma porção de gente depende dele.alegria de que necessita. Ouviu-a com ar grave e. — Talvez isso lhe seja bom. Já esquecemos como são. Nerone abanou gravemente a cabeça. Meyer esboçou um sorriso e enxugou os lábios nas costas da mão. ela se agarrou a ele com desespero. Não aborrecerão muito pessoa alguma. pouco antes do almoço. disse: — Tentei fazer com que desistisse disso. Nina mia — disse levantando-se e pondo a mochila nos ombros. — É possível que você tenha razão. Está estranho. Obrigado pelo café e pelas coisas. Já ouvi falar em Il Lupo e bem . Mas Meyer esperou tanto tempo pela sua própria guerra. Você o merece.. Esses alemães nada são. Pensou que jamais o vira assim com ar tão jovem e animado. depois. — Ele devia ter mais cuidado com a saúde. Eu o vi partir. Nina mia. Ele a manteve em seus braços até que toda aquela tensão se dissipasse. — Boa sorte. de certo modo. pondo-se a chorar em seu ombro.. — Bem. que os alemães estão aqui. o rosto anuviado: — Meyer não foi feito para tal companhia. E agora. — Talvez seja porque a gente não conhece muitos homens bons. apenas. afastou-a delicadamente e ouviu o que ela lhe contou a respeito de Aldo Meyer e de sua mensagem. Ele pôs-lhe as mãos nos ombros e beijou-a nos lábios. vão depender muito mais. — Boa sorte.. Diga a Giacomo o que lhe falei. que não consegue ver o que o aguarda. e estava alegre como um menino que se dirige a uma caçada. e no que teria acontecido se Giacomo não viesse para Gemello Minore. Mas Giacomo lá estava e sua presença lhe enchia toda a vida — e quando apareceu. Essa história de rezar está muito bem. preciso ir andando. pois gostava dele e ele era um homem que seguia para a sua própria guerra particular. — Direi. depois. Ela não resistiu. caro mio..

Ela é uma mulher estranha. Por que erguemos o dedo contra ela. Meyer está no barco errado. com um fogo nas veias que homem algum conseguiu ainda extinguir. Ela deu-me um quarto no alojamento dos criados. pleiteará o controle da administração civil. — Deu de ombros. Quando os alemães forem expulsos e chegarem os Aliados. — Poderá ter um homem todas as noites. Deseja um Estado comunista na Itália. Dirse-ia que o via voltando para o mundo que ele abandonara — um mundo em que estivera perdido e onde ela jamais poderia alcançá-lo. Ela se acha numa posição difícil. Estendeu o braço. Pensa que Il Lupo deseja apenas mais uma arma. esperando que ele contasse o resto. — Disse-lhe que eu era inglês. e nós temos o nosso próprio trabalho para realizar aqui. de palmas para baixo. Ela pôs sobre a mesa uma grande travessa de macarrão e debruçou-se sobre ele enquanto comia. — Não diga isso. O que ele deseja é um homem que possa ser usado mais tarde. sobre a mesa: — Mas. — E o que você vai fazer. visitei a condessa. quando temos . de qualquer modo. Toda a aldeia se converteu num acampamento militar. treinado na Rússia. Mas conseguirei um salvo-conduto com o comandante e poderei locomover-me livremente. O rosto de Nerone anuviou-se. Preciso disso.posso imaginar de onde ele vem. tomou-lhe ambas as mãos e puxou-a delicadamente para si. Mas nada lhe disse. já está feito. Dormirei lá quando for preciso. Deseja mais do que apenas uma vitória. Anteontem. Estou pensando no que acontecerá quando Meyer o descobrir. com a diferença de que tive de incluir os alemães em meus cálculos. Era algo que não lhe contara. — Ótimo para a condessa! — exclamou. Recebeu-me com prazer. Giacomo? — O que estou fazendo agora.. tomada de súbita maldade. e ela se sentiu tomada de vivos ciúmes. Sugeri que me nomeasse administrador de suas propriedades. sorriu e estendeu as mãos. observando como estava magro e quão pouca satisfação lhe causava o molho suculento. É um profissional. para que eu pudesse conversar mais ou menos em pé de igualdade com o comandante alemão. Embora nada lhe dissesse. Isso é um tormento e não uma brincadeira. — Você vai viver na villa? — Tenho um quarto lá. fiz com que pensasse que eu era um agente secreto que veio para cá preparar o caminho para os Aliados. Pelo que têm feito.. solitária. caríssima. talvez o consiga.

Costumava assistir à missa aqui aos domingos. — Mas diga-me uma coisa: o que é que Giacomo dizia e sentia a respeito dos alemães? — Isso era uma coisa sobre a qual falava com freqüência. — Ela terá indigestão. de uma parte da Alemanha em que há muitos católicos. embora houvesse um acordo entre nós para que não sentássemos juntos nem nos cumprimentássemos. quando ele se foi. — Durante esse tempo. pelo vale. com um sorriso. — Há ainda outra coisa que devo perguntar — disse Blaise Meredith.. — Eu sei que tinha! — exclamou Meredith. o medo ficou ainda com ela. — Mas não do Padre Anselmo? Ela abanou a cabeça: — O Padre Anselmo não gostava dele. mas que.. à procura do jovem Padre Mario. ou homens extraviados que precisavam ser escondidos dos alemães. Giacomo cumpria quaisquer deveres religiosos? Ia à missa e recebia os sacramentos? Nina Sanduzzi fez um sinal afirmativo com a cabeça: — Sempre que podia. durante a noite... se o tentar — disse ele. ela cairia em ruínas dentro de uma geração. estéril. E não deixarei que coma você.. pois alguns dos alemães lá estavam. trocavam palavras ásperas. sonhando que Giacomo a abandonara e casara com a mulher que vivia no alto do monte. mas que certos homens — mesmo sacerdotes — às vezes a transformavam em mercado e em cantina.. Provinham. surpreso de que sua voz soasse de modo tão veemente. Às vezes. e despertou. e eu o via.. quando o Padre Anselmo se recusava. ao que parecia. Mas. Quando queria confessar ia. sua boca contraída e seus olhos vorazes. caro mio. às . a ir ver os doentes. Costumava dizer que Gesù construíra a Igreja como uma casa para a sua família viver. mas que os homens que o mandaram para cá seriam julgados com severidade. salvo quando havia gente doente nas montanhas.tanto? — Ela come homens. várias vezes. com seu ventre achatado. se não fosse pelo amor de Gesù e pela graça do Espírito Santo. depois do toque de recolher. Dizia que aquilo de que toda casa necessitava. era muito amor e pouca discussão. com sua voz seca. — E que dizia Giacomo a respeito do Padre Anselmo? — Que ele era digno de pena e que a gente devia rezar por ele.. Tinha razão. Dizia que.

Dizia que os países são como homens e mulheres. Uma moça podia dirigir-se com segurança ao poço e voltar de novo para casa. à noite.. Eram como todos os jovens.vezes. Eram muito trabalhadores. Eram corteses. Mas havia neles uma grosseria e uma violência que se desencadeavam com a bebida. Havia ocasiões em que cada qual tinha de engolir o seu orgulho e ceder.. do contrário. lutavam com tenacidade e bravura. Podiam facilmente ser enganados por belas palavras e coisas imponentes. os alemães foram . me era difícil de compreender. Os americanos eram diferentes. havia mortes. porque eram mais jovens e mais ricos. Se surgia alguma complicação.. em casa. amantes da ordem e da eficiência. contudo mais simples do que os ingleses. Às vezes. — E isso era tudo? — Não. de que maneira gozá-las. Giacomo falava com o comandante e a coisa era resolvida. destruindo um ao outro. ser cortês quando tinha vontade de cuspir nos olhos do outro. Vivíamos em paz. mas isso acontecia sempre longe de Gemello. Gostavam de possuir coisas. E foi assim que procurou viver com os alemães aqui. tinham sempre de viver como uma família. Não éramos roubados. duros e egoístas. E. Havia toque de recolher e ficávamos. mas sempre se esqueciam de que muitas de suas guerras tinham nascido de seu próprio egoísmo e indiferença. mesmo que não compreendessem o seu significado.. Mas sempre voltava ao mesmo assunto: não importava o que fossem as pessoas. e se um irmão levantava uma arma contra o seu irmão. pois. quando ouviam tocar uma música sonora. com freqüência. Tinham muita justiça. diferentes. ao mesmo tempo. com os grandes discursos e com a necessidade que tinham de se impor. Quando lutavam. e que o povo adquire o caráter do país em que vive. Os alemães eram. também.. Giacomo gostava de falar assim. Giacomo costumava rir ao dizer que gostavam de sentir Deus trovejando em suas barrigas.. por sua vez. mesmo que não soubessem. Cada país tem o seu pecado e a sua virtude especial. Eram sentimentais e rijos. Dizia que a gente tinha de tirar a escuma da sopa. ou os países. Era assim que Deus os tinha feito. Os ingleses eram sentimentais mas. porque gostavam de palavras sonoras. quando os guerrilheiros encontravam uma patrulha alemã. muitas vezes. Depois de algum tempo.. — E foi bem sucedido? — Penso que sim. enganavam a si próprios. acabariam.. e muito orgulhosos. mas pouca caridade. inclinados à violência. ela azedava. no fim. porque viviam numa ilha e queriam conservá-la para si como sempre o haviam feito.

como os lobos seguem os carneiros nos Abruzzi.. . mas Giacomo mostrou-se tão preocupado que insistiu em chamar Carla Carres. enquanto Meyer lhe examinava o coração. Tinham certa razão. foi lavada. — E depois? — Em maio. Eram ligeiros e incertos. já tarde. Nina ficou preocupada devido à longa distância que teria de percorrer. enrolada e colocada nos braços da mãe antes que Giacomo voltasse em companhia de Aldo Meyer. áspero: — Vocês são idiotas. Giacomo se foi. todas vocês! Fiquem com ela e não a deixem. rumando para o sul. e riram dele. Mas eles não agiram como outros homens por ocasião de um nascimento. Meyer. numa ocasião em que Giacomo se encontrava em sua companhia..embora.. pressaga. ouvimos notícias de que Roma caíra em poder dos Aliados. e no começo de junho Paolo nasceu. pois dar à luz uma criança era coisa de mulher. seguida. e mesmo Nina Sanduzzi ficou perplexa. uma figura magra. Giacomo beijou-a e teve-a nos braços durante muito tempo. Depois. espiava-lhe os ouvidos e erguia-lhe as pequenas pálpebras. se tudo corresse bem. embora ruidosa. Os médicos eram para gente doente e eles sabiam que. mas as mulheres logo riram dela. mas quando viram que Nina se encontrava ainda de pé.. afastando-lhe a preocupação. A criança chegaria antes que voltasse — e ele e o médico poderiam embriagar-se juntos. bem como Serafina Bambinelli e Linda Tesoriero. Vieram todas correndo. boquiabertas. Olharam-no. exclamou. Vou chamar o Dr. de muita alegria. ruidosas. pois ele lhes dissera que se tratava de um caso urgente. sem complicação alguma. antes que tivesse tempo de dizer-lhe. com as mãos nos quadris. Giacomo tirou-lhe a criança dos braços. afinal de contas. a parteira. Os primeiros sinais manifestaram-se uma manhã.. debruçando-se ainda mais para observar . depois. todas ficaram em roda. levou-a para a mesa e ficou segurando o candeeiro. com voz zangada. E nasceu cego. como um irmão. e os guerrilheiros os seguiram. o parto seria uma coisa simples. como bons amigos deviam fazer quando um deles era o pai de um forte bambino.. Ele. galgando a picada que conduzia ao caminho de San Bernardino. Aldo Meyer também a beijou. A criança nasceu... Mas. levemente.

A mulher que a apanha no segundo ou terceiro mês de gravidez. no momento não há outra coisa a fazer senão esperar. Gritou. Nina. poderia levá-la para o hospital em Valenta e depois. Quando houver de novo a paz. quando as mulheres já haviam ido embora. Muito depois.melhor. Mas a guerra ainda não terminou. dá à luz uma criança cega ou surda. como um animal e afundou o rosto no travesseiro. Giacomo é um homem que está sendo procurado e eu estou comprometido com o meu bando nas montanhas. mas aconteceu e. A parteira e as mulheres permaneciam de pé. o terror que. aquela doença que produz manchas. talvez. nada se pode fazer. Assim. Há ainda combates e as estradas estão atravancadas de refugiados. Decorridos uns momentos. em pequeno grupo. mas ela voltou a cabeça para o outro lado. e Meyer disse-lhe. profissional. a . no momento. Giacomo Nerone nada disse. — Mas o menino é cego! — era tudo o que ela sabia pensar ou dizer. mostrando a catarata nos olhos da criança. a princípio. — Os deficientes precisam de muito amor — respondeu Aldo Meyer. então. temerosa: — Que é que há com ele? Que é que vocês estão olhando? — Diga-lhe — ordenou Aldo Meyer. pôs-lhe a criança nos braços e procurou falar-lhe. a fim de consultar um especialista e ver se algo poderia ser feito. Meyer continuou a falarlhe em seu tom amável. ao ver a dor e a piedade que havia em seus olhos. às vezes. e você seria apenas uma outra camponesa sem ninguém que a ajudasse. perto da cama. pois sentia vergonha de ter dado uma criança defeituosa ao homem que tanto amava. com ar sério: — Esta é uma coisa triste. — Ele é cego. cacarejando-lhe palavras de conforto. Demorou talvez meio minuto antes que ela compreendesse bem o sentido daquelas palavras. Unidades alemãs. Ela estava agora mais calma. para Nápoles. por meio da razão. Nápoles está em desordem. mas ela quase sentiu o coração despedaçarse. Giacomo acercou-se dela. com brandura. destroçadas. dissipando. enquanto as mulheres se amontoavam em torno dela como galinhas. Giacomo voltou para o seu lado. Foi a febre que você teve. — Nasceu com catarata nos olhos. Se as coisas fossem diferentes. chamada rubella. de certo modo. em companhia de Aldo Meyer. ainda lutam em retirada. cara — disse Giacomo Nerone. e os guerrilheiros estão em seu encalço. veremos o que se pode fazer. e Nina ergueu-se nos travesseiros para indagar.

. mesmo que não esteja de acordo. Decorridos alguns minutos. diminuiu a luz do candeeiro e. Os dois homens comeram na mesa enquanto Nina. Você pode dar-lhe o nome. todo o seu desapontamento jorrou como uma fonte e ela agarrou-se a ele soluçando. com efeito. Giacomo serviu vinho a todos e pôs-se a preparar a comida.assaltara. Houve um momento em que todo o seu corpo pareceu tornarse rígido. como uma árvore.. ergueu a criança nos braços e disse. e eu o compreendo. quando ela o chamou. fechou os olhos e abriu os braços. tampouco! Alguém tem de começar a organizar. Então. pôs-se a chorar baixinho. ela o levou ao seio e. Quando o bebê choramingou. ela o viu fazer uma coisa estranha. Mas conserve Il Lupo longe da aldeia.. Depois. Giacomo. Quando Giacomo o conduziu à porta. Conserve-o longe de mim. Meyer partiu antes da meia-noite para dormir em sua própria casa. mergulhando então no sono. cara. da ameaça do campo de concentração. como. Giacomo acomodou-a sobre os travesseiros. quase tinha. Permaneceu deitada. assustada. Num gesto que parecia inteiramente inconsciente. como os braços de Gesù pregado à cruz. ao sentir aquele pequenino e cego fardo aconchegar-se a ela. Nina estava cochilando. nitidamente: — Você é meu amigo. e. E a voz de Meyer. ele não respondeu. mas ouviu-o dizer. enquanto seus lábios se moviam numa prece muda. Ficarei com você. ao responder. através dos olhos semicerrados. até ser vencida pela exaustão. beijou-a. Depois. o bebê chorava e Giacomo estava preparando o café para a refeição matinal. como se tivesse o coração partido. — Daremos o nome de Paolo ao menino. o quarto estava cheio de sol. O resto da conversa perdeu-se. — Ele é seu filho. Giacomo voltou e trancou a porta. quando passaram pela porta e saíram para a noite clara. lacônica: — Mas isso faz parte da história. em voz baixa: — Você não pode ficar sozinha esta noite. Meyer. Nina mia. com o seu prato sobre o colo. Aproximou-se. homem! Você não pode detê-la! Nem eu. a observá-lo. Mas por que Paolo? . ele ajoelhou-se sobre o chão de terra. falava com eles da cama. com ar grave: — Quero dizer-lhe uma coisa. livre. quando de novo se acalmou.. Quando despertou. — Diga-me. por fim.

e ela pensou que ele jamais voltaria. O espanto do momento foi como uma revelação. Nina. o nosso Paolo também a verá. Paolo vivia cego. A catarata desaparecerá dentro de três semanas. encontrouo na estrada de Damasco. muda. o pequeno tinha-os claros e brilhantes como os do pai. É uma promessa. Havia angústia em sua voz. fez que sim com a cabeça.. o menino piscou. ser enganada. apenas: — Quando isso acontecer. — Estou-lhe dizendo. incrédula: — Mas o médico disse. Porque. — Preciso ir para casa. em nome de Deus. no fim. no momento exato. mas ele apenas lhe sorriu: — Não é esperança.— Porque Paolo. agora — disse Monsenhor Blaise Meredith. quando ela retirou a mão.. A gente da aldeia voltava o rosto para o outro lado. vivia longe de Deus e. a voz forte e profunda como um sino. quando ela passava. quando ela o ergueu para a luz. Ao abrir os olhos. — O menino enxergará. faça com que os outros pensem que também para você foi uma novidade. — Não diga isso apenas para me consolar. Eu lhe prometo.. no tempo em que um bebê começa a ver a luz. mas tornou a ver. e. Não conte a ninguém a respeito desta manhã. Eu não agüentaria alimentar esperança e. como eu. o Apóstolo. Até mesmo Aldo Meyer havia ido para Roma. envergonhada. . e ele permaneceu com o olhar fixo: depois. Creia nela. — É tarde e você já me forneceu muita coisa em que pensar. de sair aos gritos pela rua da aldeia e dizer a todos que a promessa de Giacomo se cumprira. como este menino. pensando como é que poderia suportar a espera e ocultar a dúvida que sentia. caro. Cobriu-lhe os olhos com a mão. apanhou a criança no berço e despertou-a. Nina mia. — Mas como é que você sabe? Como é que pode ter certeza? Ele respondeu. Mas Giacomo já estava morto e enterrado. graças à misericórdia de Deus. Três semanas mais tarde. cara — volveu ele. tornou a piscar. Você me promete? Ela. Ela fitou-o.. Você segurará o candeeiro diante de seus olhos e verá como ele piscará e começará a seguir a luz. de cantar. Teve vontade de gritar.

santo Deus? . com curiosa decisão: — Sim. porém. Não sei ainda o que isso significa. calmamente.. — O senhor então olhará pelo filho de Giacomo. depois respondeu. Mas creio em você. sua consciência o desafiou: mas de que maneira? De que maneira. Ele ficou um longo momento a fitá-la. monsenhor? Sua voz e seus olhos o desafiavam. Mal. pela sua segurança? — Olharei por ele. o havia dito.— Acredita no que lhe contei. Nina..

momentos de lembrança pungente. cada qual entregue a uma crença oposta e uma prática oposta. mas como estranhos. Mas no fim havia paz. quando tudo estiver terminado e a primeira impressão de pesar haja passado. que o deixavam desorientado. no último dos escritos. "Meu caro Aldo: Estou em casa e é tarde. Havia trechos de simplicidade quase infantil que comoveram Meyer quase até as lágrimas. de saudade de uma camaradagem que começara em conflito. Mas quando os abriu e os pôs em ordem. Você se sentará entre os . Nina dorme. Encontrar-nos-emos amanhã. que se comunicavam ao leitor mesmo ao cabo de anos. como ocorrera com o próprio Giacomo. havia uma grande brandura e um tom singular de perdão.13 Para o Dr. e o menino também. E. às vezes. deixarei esta nota com ela. como se se acercasse de um momento de crise ou revelação. a aproximar-se da amizade e que devia logo terminar em tragédia. talvez ela lhe chegue com segurança às mãos. Aproximou-se deles hesitante e receoso. entre os meus outros papéis e. você e eu. antes de partir. bem como frases de exaltação mística. mas a carta estava em italiano e isso. O resto dos papéis era redigido em inglês. Houve momentos de vergonha diante de seus próprios fracassos. o anoitecer estava encerrando uma tarde de estranha calma. Aldo Meyer. Logo depois do almoço sentou-se para ler os papéis de Giacomo Nerone. finalmente. começando a ler aquela caligrafia ousada. na carta dirigida a Aldo Meyer. Mas não havia amargura naqueles registros — como jamais tinha havido amargura no próprio Giacomo. também. calma e certeza. Amanhã cedo. que chegara. constituía uma delicadeza que não podia ser facilmente esquecida. foi como se estivesse ouvindo os velhos desafiadores argumentos do próprio Giacomo. quanto à explicação de seu malogro.

E isso será uma outra cruz em seus ombros. bem como amigo de Nina e do menino. compreendi quanto isso é difícil. a caridade que encerrava desceu sobre ele como uma absolvição. E essa era a resposta à pergunta que havia tanto tempo o perseguia: ali estava a resposta por que certos grandes homens morriam e deixavam o mundo sem que ninguém se importasse o mínimo com eles. Quando receber esta carta. Sei o que deve acontecer. e preciso ainda rezar um pouco. que não o odeio. ainda. até hoje. mas jamais. Você tem sido meu amigo.meus juízes. Penso que ainda a ama. como espero poder chegar. mas. pois jamais saberá se. dottore mio. eu o deixo. Se isso ocorrer. procure o Padre Anselmo e Anne Louise de Sanctis e diga a cada um deles que não tenho ressentimento algum pelo que fizeram e que. quando tudo estiver terminado. você o fez movido por suas crenças ou pelo ciúme. Que Deus nos guarde nos momentos de treva. ao participar de minha condenação. Giacomo Nerone" Ao ler a carta pela terceira vez. Meyer enxugou uma ou outra lágrima. e sinto frio e medo. Cada um de nós só pode seguir pelo caminho que vê diante de seus próprios pés. Não o censuro por nada disso. Por isso. depois de caminhar durante algum tempo. E assim. tanto mais que não haverá ninguém a quem possa dizer que está arrependido. quero dizer-lhe. enquanto a lembrança de outros era guardada . meu amigo. Uma coisa que sempre desejei foi a graça de morrer com dignidade. Cada um de nós está sujeito às conseqüências de sua própria crença — embora eu ache que chegará o dia em que virá a pensar de modo diferente. Mas há. e minha carne se arrepia de terror ao pensá-lo. você odiará o que foi feito. refletir a respeito e tornar a lê-la. um serviço que quero pedir-lhe. não morreria sem amor e sem perdão. Mesmo que tivesse fracassado em tudo o mais — e seus fracassos estavam escritos no longo calendário de quinze anos —. Espero que sempre esteja ao lado de ambos e cuide deles. agora. e sentir-se-á tentado a odiar-se pelo papel que representou no caso. Adeus. assinará o certificado de minha morte. Mas eu sei e digo-lhe agora que morrerei considerando-o meu amigo. caminhará entre os que irão executar-me e. Sei que amou Nina. me lembrarei de ambos. Não tardará a amanhecer. quando chegar à presença de Deus. Quase não me restam forças.

Gostaria que o senhor respondesse. mas porá um pouco de vida em seu corpo. Estou profundamente impressionado com o que me disse.. desanimado: — A vida é sua. se não se importa. Estarei bem dentro de um minuto! Meyer conduziu-o para dentro da casa. de pé. — Pergunte o que quiser. Diga-me. Mãos flácidas.. mas engoliu e. fê-lo deitar-se em sua cama e trouxe-lhe um bom trago de grappa. Mas tenho ainda duas perguntas a fazer. voz rouca e trêmula. Isso não pode continuar. não terá muita importância. Meyer deu de ombros. como foi que se saiu em sua conversa com Nina? — Muito bem. É uma droga medonha. Já fui longe demais para que agora . — Beba isto. isto é. Meyer. Esse pensamento permaneceu com ele durante todo o entardecer. monsenhor. Estou de volta da casa de Nina. começou a sentir o calor estendendo-se por ele e as forças voltarem aos seus membros. Surpreendeu-o o aspecto do sacerdote. doutor. Abriu-a e deparou com Blaise Meredith. — O senhor está muito doente. Meredith quase se afogou ao tomar a forte bebida. pelo amor de Deus! Que foi que lhe aconteceu? Meredith sorriu descoroçoadamente: — Não aconteceu nada. e foi um pouco demais para mim. Será que poderia descansar um pouco em sua companhia? — Mas claro! Entre. — Sinto incomodá-lo. ficou a fitá-lo com olhos graves. Tinha o rosto cinéreo.com carinho no âmago do coração dos humildes.. Meredith.. É melhor gastar até as últimas forças do que enferrujar. Estou meio inclinado a comunicar-me com o bispo e a fazer com que o levem para um hospital. meu amigo. após alguns momentos. os lábios exangues. doutor. — Seu estado me preocupa. — Dê-me mais alguns dias. Por que se esforça desse jeito? — Ficarei morto muito tempo. e ainda se expandia quando alguém bateu à porta. Depois disso. Mas é uma longa pernada antes que se chegue à estrada. e pequenas bagas de suor cobrindo-lhe a testa e a parte superior da boca.

A catarata tinha desaparecido. — O senhor disse a Nina algo a respeito? — Disse.recue. incisivo. Giacomo rezou a noite toda. E ainda hoje me intriga. A criança conseguia distinguir entre luz e sombra. A catarata desapareceu. isso era estranho? — Inteiramente anormal. Meredith. mais tarde. no dia do nascimento do menino. como o senhor sabe. monsenhor? — Nina contou-me que. Nossas relações. Eis a primeira pergunta: houve aqui uma erupção de rubéola no inverno de 1943? E Paolo Sanduzzi nasceu cego devido a ela? — Sim. — Mas ocorreu. de improviso. . naquela ocasião. Quando falou. — Como médico. e que. foi justamente o que aconteceu. Fui para Roma. não eram tão boas como agora. Parecia perdido em seus pensamentos. — Quando estávamos discutindo a respeito de sua chegada e eu procurava persuadi-la a falar com o senhor. prometeu-lhe que o garoto enxergaria normalmente. doutor? Meyer não respondeu imediatamente. diria que isso não poderia ocorrer. — Então era isso que ela queria dizer. Nunca vi outro caso igual. ao afirmar que Giacomo realizara milagres e que ela os vira.. — Quando foi que disse isso? — indagou. — Acha que estava dizendo a verdade? — Se o dizia — respondeu. O rapaz hoje enxerga. pela manhã. Mas aquilo me intrigou. — Obrigado.. três semanas depois. depois que o senhor se foi. — E quanto tempo decorreu antes que o senhor tornasse a ver o menino? — Três anos. como as outras crianças.. Por que pergunta. não. Perguntei-lhe de que maneira e quando aquilo havia ocorrido. com ar grave.. era como se falasse consigo mesmo.. Qual sua opinião sobre isso. quase quatro. Segundo ela. Ela não mentiria nem para salvar a própria vida.. a visão se desenvolveu como nas outras crianças. como os camponeses costumam dizer: "Aconteceu porque aconteceu". qual a sua opinião a respeito? — Assim. — Quando voltou. Meyer — é porque era verdade. — E que respondeu ela? — Apenas encolheu os ombros e disse. o menino enxergava? — Enxergava. E. Não insisti no assunto. — Do ponto de vista médico.

por recusar-nos a aceitar o fato como sendo um milagre. — Qual a pergunta seguinte? — Quem era Il Lupo? — perguntou Meredith.. Poderia ir além e dizer-lhe que jamais ouvi falar em outro caso semelhante. — Isso basta — disse Meredith. inexplicável segundo o estado atual do conhecimento médico? — . — O senhor daria um bom advogado. provavelmente. meu caro doutor. — O senhor registraria o fato como sendo um fato inexplicado e. O ponto em que diferimos. — Procurarei provar por todos os meios possíveis. mas simplesmente um fenômeno físico raro. que isso não é um milagre.Meyer lançou-lhe um olhar longo. na verdade. Mas não estou preparado para dar um salto no escuro e dizer-lhe que isso é um milagre causado por intervenção divina. — Eu não posso. monsenhor — disse Meyer. — E qual é sua opinião a respeito? — indagou Meyer. embora não explicado. Talvez outros o possam. afastando-se de tal suposição.. é que o senhor rejeita a possibilidade de milagres e eu a aceito. monsenhor. Meredith.. e que não conheço explicação médica alguma para o caso. preciso. como o fará também o meu sucessor. sorrindo. mas não posso dizêlo. em tom irônico. pode explicar tal fato. Do meu conhecimento médico — corrigiu Meyer. mas somente em fatos não explicados. do ponto de vista médico. mas atrevo-me a insinuar que a minha posição é um pouco mais defensável do que a sua. Não acredito em milagres. — Não estou pedindo que diga — respondeu. — Anotarei isso em meus apontamentos. possa sê-lo. — Mas o senhor aceita a veracidade do relato? — Aceito. bem-humorado. possivelmente. Tudo o que posso admitir é que isso não ocorre normalmente. com leve ironia. acabaremos. — Tenho o espírito aberto — respondeu. — E por que razão Nerone . embora. — Estou lhe perguntando se. poderiam explicar o conhecimento antecipado que Giacomo Nerone tinha da cura? — A clarividência é um fenômeno estabelecido. depois sorriu e abanou a cabeça: — Sei o que o senhor quer que lhe diga.. Mas não pode se pedir a alguém que julgue um relato de segunda mão de algo que ocorreu quinze anos atrás. Como isso se baseia apenas na declaração de uma única testemunha e em seu depoimento posterior. O argumento é longo. indagador. Meredith. — Se pudessem.

pediu para que o senhor o mantivesse afastado da aldeia? Meyer olhou-o rápido, surpreso: — Quem lhe disse isso? — Nina. Ela estava meio adormecida, mas ouviu a conversa que o senhor e Nerone tiveram junto à porta. — Que mais ouviu ela? — O senhor disse: "Mas isso faz parte da história. Você não pode detê-la. Nem eu, tampouco. Alguém tem de começar a organizar..." — E isso foi tudo? — Foi. Pensei que pudesse dizer-me o que isso significava. — Significava muitas coisas, monsenhor. Posso apenas dizer-lhe o que significava para mim...

... O acampamento ficava numa depressão de terreno pouco profunda, no dorso das montanhas situadas a leste. Em tempos imensamente distantes, devia ter sido a cratera de um vulcão. O topo era denteado como um serrote e os montes externos eram estéreis e cobertos de seixos; mas, em seu interior, havia um pequeno lago para onde se escoavam as águas e, em suas margens, erguiamse bosquetes, circundados por trechos de áspera e dura relva. As tendas achavam-se ocultas entre os arbustos, e as cabras e o gado que se tinham requisitado aos camponeses locais pastavam seguros dentro da concavidade do terreno, enquanto as sentinelas descortinavam toda a região em torno, abrigadas atrás das altas escarpas denteadas. Havia apenas um único caminho de acesso: — a trilha de cabras que começava no Rochedo de Satanás, onde se achava postada a primeira sentinela. Os vigias, de cima, podiam vê-la o dia todo — e, se um visitante fosse admitido, podiam mantê-lo sob suas vistas durante cada passo do caminho. Quando chegasse à beira da cratera seria revistado, após o quê, dois homens o conduziriam através das touceiras à tenda de Il Lupo, que era o seu chefe. Meyer lembrava-se vividamente dele: um homem baixo, de olhos claros, rosto redondo e boca sorridente, da qual saía uma voz clara, que ora falava no mais puro toscano, ora no mais rude dialeto provinciano. Suas roupas eram grosseiras como as de seus homens, mas tinha as mãos e os dentes imaculadamente limpos e barbeava-se com todo o cuidado, todos os dias. Falava pouco de seu passado, mas Meyer ficou sabendo que lutara na Espanha e fora,

depois, para a Rússia, voltando à Itália antes de irromper a guerra. Trabalhara em Milão e Turim e, mais tarde, em Roma, embora jamais tivesse ficado muito claro em quê e de que modo o fizera. Admitira que pertencia ao Partido e discutia política com autoridade e versatilidade. No dia em que Giacomo Nerone fora conduzido até a sua tenda no Rochedo de Satanás, Meyer lá estava a discutir com Il Lupo acerca de uma nova operação de patrulhamento. Os guardas declinaram o seu nome e o assunto a que vinha, e Il Lupo levantou-se e estendeu-lhe a mão: — Então o senhor é Nerone! Muito prazer em conhecê-lo. Já me falaram muito a seu respeito. Gostaria de conversar com o senhor. Nerone retribuiu e disse, enérgico: — Poderíamos deixar isso para outra ocasião? Minha mulher está em trabalho de parto. Gostaria que o doutor a visse o mais depressa possível. É uma longa caminhada, daqui até lá. — Ela teve rubella — apressou-se a informar Meyer. — Receamos que haja complicações. Os olhos claros anuviaram-se, preocupados. Il Lupo esboçou um sorriso de simpatia. — É uma pena. Uma grande pena. Eis aí uma ocasião em que seria de grande ajuda um serviço médico estadual. Pode-se começar a vacinação em massa logo aos primeiros sinais de uma epidemia. Mas estou certo, Meyer, de que você não tinha soro. — Não tinha. Só nos resta esperar e ver como a criança nasce. — As parteiras já estão com ela? Nerone fez um sinal afirmativo com a cabeça. — Então ela tem, ao menos, quem cuide dela. De qualquer maneira, dez minutos não farão diferença alguma. Vamos tomar uma xícara de café e conversar um pouco. — Acalme-se, Giacomo — disse Meyer, em tom cordial. — Nina é forte como um boi. Recuperaremos o tempo na descida do monte. — Muito bem. Sentaram-se em cadeiras de lona rasgada. Il Lupo ofereceu-lhes cigarros e gritou para que servissem café e, após alguns momentos de tergiversação, foi direto ao assunto: — Meyer falou-me a seu respeito, Nerone. Sei que é um oficial inglês. — É verdade.

— E desertor. — É certo, também. Il Lupo deu de ombros e lançou uma nuvem de fumaça na direção do teto de lona. — Isso, claro, pouco nos importa. Os exércitos capitalistas serviram ao seu propósito ganhando a guerra. Compete a nós estabelecer a paz que desejamos. De modo que sua história pessoal não constitui desvantagem alguma. Pelo contrário, poderia até ser-lhe favorável... em nossa companhia. Nerone nada disse, esperando apenas, calmamente, que o outro continuasse. Il Lupo prosseguiu, com voz tranqüila, educada: — Meyer também me falou do trabalho que o senhor realizou em Gemello. Da confiança que conseguiu inspirar no povo. Isso é excelente... como medida temporária. — Por que temporária? — indagou, tranqüilo, Nerone. — Porque sua própria situação é temporária... e equívoca. Porque, quando terminar a guerra... como logo deverá acontecer, este país precisará de um governo forte e unido para organizá-lo e dirigi-lo. — Isso significa um governo comunista? — Perfeitamente. Somos os únicos que têm uma plataforma clara e a força para pô-la em prática. — Os senhores precisam também de uma carta constitucional... de um mandato, não é certo? Il Lupo fez com a cabeça um aceno afirmativo, amável. — Já o possuímos. Os ingleses já tornaram claro que colaborarão com todos aqueles que os ajudarem a dirigir o país. Eles nos armaram e nos forneceram ao menos meios razoáveis para operações militares. Os americanos têm outras idéias, mas são politicamente imaturos e, por enquanto, podemos deixá-los de lado. Eis aí a primeira metade do mandato. A segunda, nós próprios devemos consegui-la. — De que maneira? — Como é que qualquer partido obtém confiança? Mostrando resultados. Estabelecendo, em meio ao caos, a ordem. Desembaraçando-se de elementos dissidentes e constituindo a união baseada na força. — Foi o que os fascistas tentaram fazer — comentou, com voz calma, Nerone.

— Mas cometeram o erro de construir a sua ditadura apoiados num único homem. A nossa será a ditadura do proletariado. — E o senhor gostaria que eu participasse disso? — Como Meyer o fez — acentuou, calmamente, Il Lupo. — Ele é, por natureza, um liberal, mas viu o fracasso do liberalismo. Não basta apenas fazer promessas de trabalho, educação e prosperidade, como recompensa pela cooperação. O povo não é assim. É naturalmente estúpido, naturalmente egoísta. Tem necessidade de disciplina imposta pela força e pelo medo. Vejamos o senhor, por exemplo. O senhor realizou um bom trabalho, mas do que lhe valeu isso? Continuará a correr de um lado para outro com uma cesta de ovos enfiada no braço, como uma dama caridosa, até o dia de sua morte... Deixarão que o senhor o faça. Mas que futuro há nisso? Pela primeira vez desde a sua chegada, Meyer viu Nerone ficar à vontade. Seu rosto magro, moreno, abriu-se num sorriso de quem verdadeiramente se divertia. — Não há futuro algum. Sei disso. — Então por que fazê-lo? — Porque o mundo, sem isso, se converte num lugar sinistro — respondeu, despreocupadamente, Nerone. — De acordo — disse Il Lupo. — Mas, no mundo que construirmos, não haverá necessidade disso. — É o que receio — comentou Nerone, levantando-se. — Penso que já nos entendemos. — Eu entendo o senhor muito bem — voltou Il Lupo, sem ressentimento. — Mas não estou certo de que o senhor me entenda. Estamo-nos transferindo para as aldeias, uma a uma, e estabelecendo a nossa própria administração. Gemello é a aldeia que vem a seguir, em nossa lista. Que é que pretende fazer a respeito? Nerone sorriu, recusando a proposição mesmo antes de responder. — Poderia convocar o povo a lutar contra o senhor. Il Lupo abanou a cabeça: — O senhor é soldado bom demais para fazer isso. Nós temos as armas, as munições e homens adestrados para usá-las. Poderíamos derrotá-los numa tarde. Que vantagens há nisso? — Nenhuma — respondeu, calmamente, Nerone. — Assim sendo, direi ao povo que aguarde sem violência os acontecimentos até que haja as primeiras

eleições livres. A sombra de um sorriso perpassou pelos lábios contraídos de Il Lupo. — Nessa altura, já não se lembrarão mais das armas. Lembrar-se-ão apenas do pão, da pasta e das barras de chocolate americano. — E os rapazes que vocês mataram nas fossas! — exclamou Nerone, com súbita ira na voz. — Os velhos espancados, as moças com as cabeças raspadas! A nova tirania construída sobre a tirania antiga... a liberdade empenhada em troca de uma ilusão de paz. Eles se submeterão agora, porque se acham perdidos e têm medo. Mais tarde, se erguerão, num julgamento coletivo, e os expulsarão! — Dê a um homem um dia de trabalho, barriga cheia à noite e uma mulher em sua cama, e ele jamais pensará no dia do Juízo — disse Il Lupo, pondo-se de pé. Sua figura magra pareceu crescer em estatura, enchendo a tenda. — Há ainda uma coisa, Nerone... — O quê? — Não há lugar para nós dois em Gemello. Você tem de dar o fora. Num gesto surpreendente, Nerone lançou a cabeça para trás e riu a bom rir: — Você quer a carne sem a mostarda! Quer ver-me desacreditado e correndo como uma lebre, enquanto você entra na aldeia como o Salvador da Itália. Você é demasiado ambicioso, homem! — Se você quer ficar — disse Il Lupo com fria deliberação —, terei de matá-lo. — Eu sei — respondeu Giacomo Nerone. — Você quer fazer-se de mártir, não é isso? — Isso seria uma loucura e uma presunção — respondeu, simplesmente, Nerone. — Como qualquer homem, não desejo morrer. Mas permanecerei na terra que lavrei com minhas próprias mãos, num lugar em que encontrei amor, esperança e fé. Recuso-me a permitir que me expulsem daqui, para que você tenha uma vitória barata. — Muito bem — disse Il Lupo, sem ressentimento. — Sabemos em que pé nos encontramos. — Importa-se que Meyer agora me acompanhe? — De modo algum, se você esperar lá fora um momento, até que encerremos o nosso assunto. Quando ele se retirou, Il Lupo observou, sem ênfase:

não prejudica ninguém. Blaise Meredith permanecia deitado na cama. Fora vítima da ditadura de um homem.. A resposta de Il Lupo parecia-me a única possível. indagou: — Esta é uma pergunta pessoal.— Ele é um fanático. Vira também a estupidez e a obstinação dos povos miseráveis. Meyer — disse Il Lupo. para fazê-lo agir sensatamente. Compreendia a necessidade de que houvesse igualdade. clínica. do médico. a ordem imposta pela força. O importante é que eu aderi a Il Lupo e àquilo que ele representava: a ditadura do proletariado.. na montanha. Não havia cartões. Os judeus têm uma outra: "É aconselhável que um homem morra pelo povo". Terá de desaparecer. Eu vira o fracasso do liberalismo. lógica. em tom cordial. mas o espírito ativo. era o que mais naturalmente deveria ocorrer. — Posso perguntar por quê? — É muito simples — respondeu Meyer. Vira as desvantagens do clericalismo. — Falou com Giacomo Nerone a respeito? — Falei. Meyer encolheu os ombros. também. — Mas o senhor não estava de acordo com ela? — Não me agradava. a seguir a narração fria.. Só faz bem aos outros.. doutor: o senhor tornou-se mesmo membro do Partido Comunista? — Jamais tive um cartão do Partido. Você tem tempo. . Mas não discordei. Quando Meyer fez uma pausa. ordem e uma re-distribuição do capital. lacônico. — Essa é a "deixa" de Pilatos. — Para mim. expondo o seu ponto de vista com gestos eloqüentes de mãos. preocupado: — É um bom sujeito. — Dentro de dez dias tomaremos Gemello.. Mas isso não vem ao caso. o corpo calmo. Por que não o deixar em paz? — Você é mole. até lá. Ainda sorria quando Meyer se voltou e foi ao encontro de Giacomo Nerone.. . — Lavo minhas mãos — respondeu Meyer. — E a ameaça que ele fez a Giacomo Nerone? — Parecia-me. meu caro doutor.

Aquilo se aproximava muito da verdade. sendo o homem que tinha as armas. que tivesse uma última conversa com Giacomo Nerone. Entre ele e Il Lupo o conflito era inevitável. com ar fatigado. — De modo que ficou em Gemello? — Ficou. porque os homens que o dirigiam também eram imperfeitos. Respondeu que nada aconteceria a Nina. quanto a ele. devia destruí-lo? — Perfeitamente. — Sugeri que apanhasse Nina e o menino e fosse para outro lugar. Iam usar minha casa como quartel-general e eu precisava prepará-la para isso. Você quer omelete na refeição. — E que respondeu ele? — Ressaltou que também ele tinha a sua própria lógica. lamento dizê-lo.. Pediram-me. simplesmente: "A gente pode acreditar nisto ou naquilo. mas não quer quebrar os ovos". O ilógico é você. joga-se fora ás partes que não funcionam. desde a sua queda. — O rosto de Meyer anuviou-se. Acredita no homem apenas como entidade política. para fazer com que ele mudasse de idéia. — O senhor tinha alguma resposta para isso? — Não uma resposta muito boa. Mas perguntei-lhe como conciliava ele a sua própria admissão de que não tinha futuro o trabalho que realizava com o fato de estar disposto a morrer por ele. Ele se recusou. é que ele concordou com Il Lupo. monsenhor. Eu voltei para as montanhas. pois suas crenças eram opostas e contraditórias. Quando se quer construir um mecanismo político perfeito. Não se podia criar um sistema que destruísse essas coisas. e que. era imperfeito. Meyer. . De modo que ele é inteiramente lógico. voltei.. — Por que razão ele não foi embora? — Também lhe disse isso — respondeu Meyer. Acreditava que Deus era perfeito e que o homem. ao lembrar. também. A única coisa que dignificava o homem e o afastava da autodestruição era o fato de ser filho de Deus e de estar ligado por laços fraternos à família humana. males e injustiças no mundo. que sempre haveria desordens.. deixara de fugir havia muito. Il Lupo está certo. Na véspera do dia em que Il Lupo devia vir para cá e estabelecer sua administração. — E Il Lupo.— E o que ele disse? — O mais surpreendente.. Il Lupo não acredita em Deus. — Disse. Os próprios trabalhos de Giacomo eram uma expressão desse parentesco.

Admiro-o. Nerone esboçou um sorriso. e as palavras de Meyer eram uma recitação monótona do que ocorreria inevitavelmente. — Vou ficar. — De que modo? — O pelotão de fuzilamento. absolutamente.. Foi bastante claro quanto a isso. punindo uma mulher e uma criança. E o que mais? — Será condenado e conduzido para uma execução pública e imediata. uma tarde quente de fins de primavera. — Il Lupo é bastante preciso quanto ao que será feito. como advogado e cliente. Nina e o menino possam manter-se durante dois meses. Você será primeiro desacreditado e. se o desejar. Será uma corte militar.. — Ainda há uma coisa. sobre o que aconteceria — quando Il Lupo descesse com os seus homens. . já estarão fora desta zona. Nerone mantinha-se firme em sua recusa de abandonar a aldeia. Não houve discussão alguma entre ambos. a falar gravemente. Não vê vantagem alguma em despertar simpatia. ao amanhecer. Tenho comigo dinheiro suficiente para que você. ruidosa devido ao canto das primeiras cigarras. Temos sido bons amigos. — E inteligente. Il Lupo é cuidadoso quanto às formalidades. não é certo? — Nada mais. Estou autorizado a assegurarlhe que vocês. — Sob que acusação? — Deserção da causa aliada e cooperação com os alemães. depois. a fim de ser submetido a um julgamento sumário. — De que modo pretende ele desacreditar-me? — Deverão chegar ao amanhecer. lhes acontecerá. Você será preso ali pelas nove horas e trazido para cá. debaixo da figueira. Fico-lhe agradecido. — Pediu-me que lhe dissesse que você dispõe de quase dezoito horas para sair daqui. ia quase me esquecendo. executado. Nada mudará esta resolução. Sou-lhe grato por ter tentado demover-me. — E Nina e o menino? — Nada. — Não deve ter tido muita dificuldade para provar isso.Corriam as primeiras horas da tarde. — Então nada mais há a dizer. Caminhavam ambos pelo jardim.

Discutiam com freqüência. Meyer. mas o que é que vai fazer agora? Nerone respondeu tranqüila e francamente: — Vou descer até a casa do Padre Anselmo. até que Meyer disse. Ele quer que sua prisão seja pública. O velho não gostava dele. continuaram a andar em silêncio de um lado para outro. Depois. Depois. subirei até a villa e perguntarei à condessa se permitirá que Nina e o menino fiquem lá. como sabe. Não é todo homem que sabe a hora e o lugar de sua morte. Tal frase de despedida não teria. . pelo caminho lajeado. na . às nove horas. Ela é inglesa de nascimento e Il Lupo é bastante inteligente para não incorrer no desagrado da gente que lhe está dando armas. sinto dizê-lo. que era agora o seu. Teve vontade de usar a velha fórmula e dizer: "Deus o guarde". sentido. e não a disse. às nove horas? — Pouparei a Il Lupo o trabalho. Recusou-se a ouvir-lhe a confissão. usando os meus próprios pés. para confessar-me. Não tenho mais nada com isso.. Blaise Meredith indagou: — Que aconteceu com o Padre Anselmo? Meyer fez um gesto de indiferença: — Nada de mais. como já haviam dito tudo o que havia a dizer e não sabiam bem de que modo despedir-se. — Obrigado.. Não se acuse demais. — Ele não pode ter tudo. Virei aqui amanhã cedo.. Soube disso mais tarde. — Adeus. — interrompeu-se. Em seguida. — Parou e estendeu a mão: — Adeus. — Transmitirei a ele sua resposta. vou fazer minhas preces. não haveria mais Deus... pois.— O quê? — Onde estará amanhã. — Isso não serve. Sou bastante feliz de ter tempo para prepararme. o rosto encovado aberto num sorriso. até que tudo esteja acabado. Olharei por Nina e pelo menino. Mas lembrou-se em tempo de que. Nerone. Lembrar-me-ei de você na eternidade. desajeitado: — Lamento que termine assim. — Depois. debaixo da figueira. Virei para cá. no novo mundo e Il Lupo. vou até a cabana apanhar algumas coisas e entregá-las a Nina. Depois..

para ela. Sempre foi demasiado orgulhosa para se satisfazer com algum homem da aldeia. Mas ainda tem ciúmes de Nina e odeia a si própria. chocado. — Não creio que odeie o rapaz — disse Meyer. O marido decepcionou-a. embora não o saiba. E. correndo os dedos por entre os cabelos ralos num gesto de cansaço e perplexidade. — Conheço-a há muito. — Já lhe disse — prosseguiu Meyer. Nerone talvez pudesse ser o homem de que necessitava. com sombrio humor. como se poderia esperar. Ao que parece. ao que parece. E enviou um homem com uma mensagem para Il Lupo. mas queria cobrar um preço por isso. É ardente por natureza e tem grande necessidade de um homem. talvez se sinta atraída por ele. o criado. embora Deus saiba que não . foi suficientemente astuta para imaginar que ele passaria a noite em casa de Nina. também. — Um homem na véspera da execução? — exclamou Meredith. que foi meu paciente. Anne Louise de Sanctis estava. mas não diria que a compreendo perfeitamente. Soube. Seu preço era que Nina assinasse um documento cedendo-lhe o menino como pupilo e que Giacomo Nerone dormisse com ela aquela noite.. Giacomo foi à villa solicitar refúgio para Nina e o menino. bastante disposta a aquiescer. recusou-se a tal. adquire um colorido mórbido. — Na melhor das hipóteses. Seja lá como for. É melhor voltar para o jantar. obliquamente. — Então é por isso que ela odeia Paolo. Giacomo foi preso duas horas antes do amanhecer. Colhi-a de Pietro. disse: — É tarde. necessidade tanto maior agora que enfrenta o terror da meia-idade. que queria dormir lá aquela noite. numa voz que era quase um suspiro. para que Il Lupo não soubesse onde estava e tivesse de abrir mão de efetuar sua prisão em público. De modo que toda a sua vida emocional adquiriu uma nuança de perversão. — E a condessa? — Essa informação não é de primeira mão. com voz inalterada — que tudo. o certo é que Giacomo. — Que preço? — Ela é uma mulher estranha — disse Meyer. É uma espécie de alcoviteiro junto dela.. Desde o começo teve ciúmes disso. Seus outros amantes vinham e iam embora como soldados em tempo de guerra. Por isso é que esse tal pintor goza de tanta influência na villa. mas já estava apaixonado por Nina Sanduzzi.aldeia. Blaise Meredith lançou as pernas para fora da cama e sentou-se.

Mandarei um rapaz à villa. poderia haver uma visita discreta da polícia e a revogação do seu visto de permanência no país. Você está metida numa enrascada. em valer-se do medo da condessa e a explorá-lo em seu próprio benefício: — Concordo em que esse sacerdote é uma terrível maçada. — Eu é que lhe estou grato — disse Meyer. a fim de apresentar suas desculpas. Nina Sanduzzi e o velho Anselmo. com um sorriso. apesar de todas as suas zombarias. Apressou-se. Na aparatosa sala de jantar da villa. — Não comerá tão bem. O rosto da condessa animou-se imediatamente: — Se puder fazê-lo. cara. A condessa estava irritadiça e mal-humorada. sutil e implacável Vaticano. — E isso. Quer respondesse ou permanecesse muda. e talvez lhe fosse possível obter o resto ainda esta noite. no fim. aproximar-se-ia dela com suas perguntas secas. ela é que ficaria desacreditada. todas as espécies de influências poderiam ser postas em ação — influências que chegariam até mesmo a Roma — e. partindo de um judeu para um inquisidor. e com seus olhos encovados e perscrutadores. Nicki.. de posse do prêmio. . Nicholas Black também se achava irritado. mas pelo menos não precisará ser cortês. só Deus sabia que informações. — Eu lhe ficaria grato. a condessa e Nicholas Black jantavam à luz das velas. impulsivamente.. Os democratascristãos estavam no poder e atrás deles se achava o Vaticano — o velho. Dentro em pouco. enquanto o pintor se afastaria a sorrir. encontravam-se em franca oposição e. — Por que não janta aqui? — disse Meyer. pois. Começava a compreender o quanto a situação escapava ao seu controle — com Nicholas Black a mantê-la como resgate e Meredith a colher. Meredith forçara a mão na hora do almoço e haviam sido ditas coisas que jamais poderiam ser retiradas. é um grande cumprimento. Estou quase no fim de meu depoimento. pedantes. Black tinha grande respeito pela influência temporal da Igreja num país latino. Se Meredith metesse na cabeça que deveria invocar o auxílio do bispo. numa inquieta intimidade de conspiradores.tenho vontade alguma de enfrentar a ambos esta noite. junto a Meyer. Sintome culpado por tê-lo trazido para cá. Agora. Gostaria de ajudá-la a livrar-se dela.

— Agora. E leva a criada e Pietro e. Simples. — É simples. não lhe parece? — Estupendo. Não podemos livrar-nos dele sem que nos mostremos descorteses. creio. desconsolada. enviando à mãe. Precisa consultar seu médico imediatamente. como um favor especial a Nina Sanduzzi. — Você tem de viver aqui.. com seu sorriso irônico. — Eu sei — murmurou ela. O padre está aqui. você pode levar a melhor sobre ela. — Também já pensei nisso — respondeu o pintor. uma parte dos salários do rapaz. Você tem lá um apartamento.. e que espécie de trabalho poderia encontrar para ele.. Ele fará tudo o que puder para criar complicações. — Como sabe.. — Você não se tem sentido nada bem. Os olhos da condessa iluminaram-se diante de um pensamento novo e encorajador. a anuviar-se.. Meredith deve ficar. Quer agir como boa cristã afastando-o de mim.— Estou certo de que podemos. fazendo com a mão um gesto eloqüente. de modo que vale a pena ser cordial. Se Meredith fizer quaisquer perguntas você poderá dizer-lhe francamente que acha que sou uma má influência para o rapaz. Quer comprar-lhe roupas. contanto que o rapaz consinta. rápido. não é verdade? — Eu. mas tornaram. de novo. inclinando-se sobre a mesa e dando-lhe uma palmadinha de encorajamento na mão. leva também o rapaz. — Sei também a respeito do bispo. Precisa de criados para cuidar dele. — É uma idéia maravilhosa.. sardonicamente: — Qual a mãe que recusaria tal oportunidade? E se ela o fizesse? O rapaz trabalha para você sob contrato. cara! — atalhou. pelo menos durante uma semana. Quer que ele aprenda a viver em meio a uma sociedade educada. A lei italiana é uma tal mixórdia que. E vai para Roma. cara — disse. com um aceno de cabeça. Pode até mesmo estar pensando em fazer com que ele estude com os jesuítas. semanalmente.. Nicki! Estupendo! — exclamou. Competiria à mãe dizer por que quereria conservá-lo aqui. Estamos de acordo quanto a isso. ouça. e sei que você não quer tal coisa.. através de seu mordomo aqui. Você atende também a isso.. Mas. Mas não há nada que a impeça de ir embora. — Eu ficarei aqui. Black.. . e você? Meredith sabe o que você quer. — Sorriu. eu não compreendo. O próprio Meredith sabe que tem tido enxaquecas e só Deus sabe que outras enfermidades femininas. os olhos cintilantes.. há o bispo e.. Nicki. cara — disse. Atravessado em nosso caminho.

— Bebamos. Possui livre-arbítrio e é moralmente responsável. outra garrafa e faremos uma comemoração. cara! — Ao amor! — repetiu Anne Louise de Sanctis. Sinto-me responsável por ele. Não pude encontrar um termo comum de acordo. entre os bem-aventurados. Seu filho passa por uma grave crise moral. — Por que não amanhã? — Não é possível. São ariscos como lebres e muito mais complexos do que os adultos. — Falarei amanhã cedo — respondeu ela. Não ignora. embora inexperiente. todos os arranjos e partiremos no dia seguinte. com certeza. — Farei. — Já o tentou? — Com Black.batendo palmas de alegria. Não haveria tempo para fazer tudo. Meyer. assim o esperamos. estendendo a mão e enchendolhe o copo de vinho. Penso que ele é um rapaz saudável: mas Black é um sujeito muito persuasivo. o que está em jogo. O trem para Roma parte de Valenta pela manhã. A que brindaremos? Ele ergueu o copo e sorriu-lhe por sobre a borda: — Ao amor. talvez conseguisse ser bem sucedido. preocupa-me menos Giacomo Nerone do que seu filho. É melhor que você mesma fale com o rapaz. Penso que poderei. com ar preocupado. Mas o homem está cheio de amargura e ressentimento. doutor — disse Meredith. Nicki. diariamente. Meredith mexia. Nos leitos matrimoniais as crianças amadurecem cedo. é difícil chegar-se ao íntimo de um adolescente. Nerone está morto e acha-se. Mas engasgou ao pensar: "Mas quem me ama? E quem jamais me amará?" — Serei franco com o senhor. — O rapaz já é quase um homem. absorto. Mas como me desincumbirei dessa responsabilidade? — É um problema — observou. com as partículas cinzentas. Quanto à . sim. até lá. fazer frente a Monsenhor Meredith. minúsculas figuras. — Neste momento. num pedaço de pão. esmigalhando-o no prato e fazendo. — Contudo. Não deve parecer que estou envolvido no caso. querido! Depois abriremos. ao perigo de sedução. Se pudesse chegar-me à condessa ou ao próprio Black. — Mesmo no confessionário. sujeito. — É uma pena — disse Black em tom irritado. é apenas um dia. amanhã. terminando os últimos bocados do prato.

mas ensangüentaram-lhe o rosto e rasgaram-lhe a camisa. não posso fazê-lo. Meyer. ainda não tentei.. e essa tem em si uma doença: a doença da meia-idade e de um velho amor que azedou e se transformou em vergonha. que gritava. Meredith ergueu o rosto pálido e sorriu-lhe. que talvez o senhor não gostasse de ouvir. — E é essa a única resposta? — Se quiser que eu lhe diga que Deus é a resposta. ficou apenas parado.. para dar a impressão de que ele havia reagido. que gritava como uma selvagem e que. mas a outra. prenderam Giacomo Nerone em casa de Nina. — Diabos o levem. — Três palavras para a mesma coisa. monsenhor. Meredith...condessa. não há lógica nas mulheres. até ganhar a estrada e. Meyer lançou-lhe um sorriso melancólico: — O senhor talvez constate que isso é ainda mais difícil. categórico. mudo. ao mesmo tempo que outros agarravam Nina. se atirou gemendo sobre a cama. Meyer. quando o levaram. — Como ela terminará. como inquisidor abelhudo! Vamos tomar café e falar sobre Giacomo Nerone. monsenhor. Mesmo nas condições mais favoráveis. Marcharam. Para sua surpresa. mexendo. Às oito horas da manhã. . franzindo a testa com ar de dúvida. Na verdade. mas é uma palavra feia. — Diabos o levem! — exclamou Meyer. A criança não chorou. com um sorriso enviesado. não esboçou reação alguma. nas dobras do travesseiro. para que o espetáculo melhorasse. — Deteve-se um momento. então. bemhumorado: — Eis aí. permaneceu quieta em seu berço. porém. Há cura para uma dessas coisas. o dilema dos materialistas. então? — Entorpecentes. colina acima. Não o trataram com demasiada grosseria.. Há ainda uma outra. o vejam. Surpreende-me que tão poucos.. Riscam Deus do dicionário e sua única resposta para o enigma do universo é uma palavra feia.. bebida ou suicídio — respondeu. dobraram-lhe os braços atrás das costas e fizeram-no . Padre algum poderá curar o seu mal. dentre eles.. enquanto dois homens lhe seguravam os braços e um terceiro o agredia. com as mãozinhas rechonchudas. — De uma coisa estou certo.

mão alguma se ergueu para ajudá-lo. A sala estava disposta como se fosse um tribunal. olhou em torno. de volta às suas casas. Voz alguma se levantou em protesto. Somente Il Lupo sorria. Aquela gente tinha visto demasiados conquistadores. delicado como um anfitrião num jantar de cerimônia. diante deste tribunal militar. entre eles e a mesa. Il Lupo. de saber quais as acusações que lhe são feitas — prosseguiu. a olhar fixamente. Quando chegaram à casa de Meyer. homens morenos. através da aldeia. o olhar claro.caminhar. os guardas. com uma história áspera. Nerone. Não era herança dos mansos. empurraram-no rudemente para dentro e fecharam a porta. que chegavam e iam embora. havia um espaço ocupado apenas por uma cadeira. claro. tem a liberdade de dizer o que quiser. Depois. Giacomo Nerone ficou por um momento a distender seus braços endurecidos e a limpar o sangue do rosto. Os famintos não davam prova de lealdade. com sua voz fria: — Sinto que o tenham tratado mal. e mesmo as crianças emudeciam à sua passagem. — Depôs o papel sobre a mesa e continuou: — Antes de ser julgado por tais acusações. apanhando sobre a mesa um papel e lendo-o em apurado toscano. mas os guardas o fizeram retroceder. o senhor é acusado. mudo. Todos os rostos se achavam sérios e compenetrados como convinha a homens que presenciavam um ato histórico. de barbas por fazer. Dentro da sala. Nerone nada respondeu. enfileirados. entre imprecações. Dois outros guardas se achavam de pé entre Nerone e a porta e. Il Lupo queria um julgamento ordeiro. tendo atrás de si. O povo veio correndo como formigas e postou-se fora. de deserção do exército inglês e de colaboração ativa com unidades alemãs em operação na região de Gemelli dei Monti. Nerone fitou-o com olhos calmos: — Minhas palavras serão anotadas? — Certamente. E disse. . Il Lupo calculara tudo com exatidão. de pistolas à cinta e fuzis automáticos que lhes pendiam negligentemente das mãos. Aquela era uma terra áspera. — Giacomo Nerone. — O senhor tem o direito. O povo permanecia imóvel às portas de suas casas. jaquetas de couro e boinas enviesadas. Meyer e outros três homens achavam-se sentados à mesa. sem tumultos que o perturbassem. quase inclinado. Não devia ter resistido à prisão.

A um sinal de Il Lupo. Possuem uma identidade de jacto como unidades militares e jurisdição sumária sobre os teatros de guerra. — Foi o senhor que escolheu. Sua autoridade provém. cortesmente. — Para que discutir? — O senhor me interessa. Estamos ansiosos. eis aí por quê. Como presidente deste tribunal estou disposto a considerar quaisquer pontos que o senhor possa querer debater comigo. um aceno com a cabeça. Meyer nada disse. Nerone sentou-se e Il Lupo ofereceu-lhe um cigarro. O procedimento correto seria que os senhores me mantivessem sob custódia e me entregassem ao comando inglês mais próximo. mas dirigiu-se ao fogão e pôs-se a preparar o café. . — Discordo do senhor — respondeu Il Lupo. será julgado de acordo com a segunda acusação. acendendo-o ele próprio. Admiro-o muito. O senhor. lacônico. porém. — Já está feito — respondeu Nerone. — Bem. — Nesse caso. a despeito do fato de o senhor não possuir documento algum que o identifique como soldado britânico. em tom amável: — O senhor fez mal em ficar. este tribunal não tem jurisdição alguma.— Quanto à acusação de deserção. os guardas saíram para o jardim e os três homens ficaram a sós. Depois. Somente uma corte marcial instituída pelo exército inglês pode julgarme por isso. Mas não consigo vê-lo desempenhando o papel de mártir. para que se faça justiça. Apreciarei o café. Nerone sorriu: — Perfeitamente claro. do Alto Comando Aliado e das autoridades de ocupação na Itália. — Os guerrilheiros são grupos que operam em apoio dos Aliados. O Dr. — Duvido que os senhores tenham autoridade também para isso. Seus membros não possuem autoridade para tal. que me parece bem fundada. claro. Il Lupo acenou com a cabeça. Il Lupo fez. Proponho que se evacue a sala. em última análise. Meyer está aqui pronto para agir como seu advogado de defesa. nada tenho a dizer. placidamente: — Anotaremos sua objeção. Ser-lhe-á concedido tempo para que prepare sua defesa. sereno. sentou-se à beira da mesa e disse. Trar-lhe-ão café e algo para comer. Está claro? Pela primeira vez desde sua chegada. — Baseado em quê? — Este não é um tribunal legal.

Os velhos sistemas perecerão devido à sua própria corrupção. e o povo tomará conta do que lhe pertence. mas porque outros homens pensam. Á América ficará isolada. Il Lupo não respondeu. — Eis aí a diferença entre nós — respondeu Giacomo Nerone. — Principalmente da última delas: "Consuma-tum est". Olhou o relógio e depois disse. nisso? — indagou Il Lupo. estou. — Exatamente. com plena convicção. estarei! — Acredita.— E o senhor aceitou. — Morrerá por isso? — Parece que sim. do que sente. Acontecerá. — O senhor diz que sua pessoa não importa. como bem sabem.. Imagino se a dos senhores durará tanto. — O senhor. E depois? — A obra prosseguirá — disse Il Lupo. com sombrio humor. — É uma loucura monstruosa! — exclamou. fitando-o com olhos penetrantes como um bisturi. o cego. Pode ser que eu não esteja aqui para ver. enérgico: — Tomaremos café e depois o senhor pode descansar durante a manhã.. Vai confessar-se culpado ou inocente? . suavemente. — É uma loucura que já dura dois mil anos. Se dura. Quantos homens Cristo curou? E quantos deles estão vivos hoje? A obra é uma expressão daquilo que um homem é. Um milhão de outros homens podem fazê-la melhor. Estava. Il Lupo amassou a ponta do cigarro e levantou-se. Aconteceu na Rússia. A obra morre. e sua obra! — disse Il Lupo. — Eu sei — respondeu Nerone. Os senhores também morrerão.. se se desenvolve. realmente... os olhos claros subitamente iluminados como ante uma grande revelação. Nerone deu de ombros: — A obra não é importante. O que me acontece é eternamente importante. daquilo em que acredita. — A obra prosseguirá. O julgamento começará à uma hora. mas minha pessoa não importa. O senhor mesmo talvez a execute melhor. o fútil. Mas eu lhe digo que a minha importa. Acontecerá na Ásia. Nerone. não é devido ao homem que a começou. eu! Eu. o fracassado. sentem e crêem da mesma maneira. porque desde a eternidade eu já estava no espírito de Deus. Seu próprio partido é um exemplo disso. A Europa será obrigada a entrar na linha. — Acredito.. — Por quê? — Gosto das máximas — respondeu Nerone. o tateante.

Meyer trouxe o café e o restante da refeição matinal e ficaram sentados juntos à mesa comendo em silêncio. Uma coisa que não posso permitir é heroísmo. nem de outro.— E isso importa? — Não. os olhos sombrios: — Obrigado. Você tem sido um bom amigo. fechando a porta atrás de si. Levantou-se da mesa e dirigiu-se ao outro quarto. A execução está marcada para as três horas. Se quiser ouvir o meu conselho. — Lamento — respondeu Il Lupo. — Não sou herói — disse Nerone. Os dois homens trocaram um olhar. Quando terminaram. Nerone olhou para ele agradecido. .. — Não estou sendo cruel. Espero que compreenda. com voz rouca: — Se quiser ficar a sós durante alguns momentos. Sem levantar os olhos da mesa disse. Após um momento. realmente. Ninguém o perturbará. — Por que tão tarde? Gostaria que isso acabasse logo. use o outro quarto. com voz abafada. teria de fazer com que o espancassem antes de sair. deixe-nos durante algum tempo. já estarão à espera do jantar. quando estivermos prontos para começar. como uma família. Quando souberem da notícia e começarem a pensar nela. desde sua chegada. Il Lupo disse. — Não creio o bastante. Lembrar-me-ei de você. Haverá menos tempo para tumultos ou demonstrações. Você não foi feito para essa espécie de coisa.. — Do contrário. É apenas uma questão de política. Meyer falou-lhe. Por quê? — Isso me alegra — respondeu Il Lupo. — Eu sei — respondeu Meyer. As provas são claras. com brandura. — Perfeitamente — disse Giacomo Nerone. Meyer. Pela primeira vez. O rosto de Nerone anuviou-se momentaneamente. Il Lupo perguntou-lhe: — Ainda uma coisa: o senhor deseja fazer algum discurso antes da execução? Nerone abanou a cabeça: — Jamais fiz um discurso em minha vida. Eu o chamarei. sem pressa: — Eu o dispensarei do serviço após a execução. nem de um jeito.

amarraram-no a ela e o fuzilaram. como se estivesse caminhando para fora de seu próprio corpo. quando todos os outros se foram. — Eu sei — respondeu. via como sua morte devia vir numa rajada de violência. as tempestades. As longas mãos de Meyer fizeram um gesto concludente: — Foi bastante simples. vocês todos o temiam. até as crianças. e eu. mas ele permanecia calmo diante do ciclone. Foi julgado e condenado. Cercavam-no. intrigado: — Não compreendo. Meyer. com voz rouca. ele fez com que nos envergonhássemos e passamos a amá-lo. mas. à luz cinzenta do luar. — Quem o sepultou? — Anselmo.. para levá-lo.. beijou-o e afastou-se. — O amor é a coisa mais terrível que existe no mundo. Conduziram-no monte acima. a condessa. Meyer mostrou-lhe a última carta de Nerone e entregou-lhe um pacote contendo o resto dos documentos. apenas uma grande tranqüilidade.. mas. Uma sensação de solidão e de isolamento apoderou-se dele. Não havia mais dúvidas nem tormentas. dois homens da aldeia. no fim. quando aqui cheguei. Como Giacomo Nerone.. num lugar estranho e num outro tempo.. Nós três queríamos odiá-lo. Despediram-se e Meredith pôs-se a subir lentamente a rua empedrada. estava no fim de sua busca.— . E o resto? — indagou Blaise Meredith. naquela noite. Nem quando atiraram proferiu uma palavra. ela lá permaneceu. Blaise Meredith contraiu o sobrolho. Nina. Todos estavam lá. Antes que se fosse.. Do mesmo modo que Nerone. Estava ainda lá quando o grupo de pessoas que o sepultou apareceu. num prodígio de silêncio e de água serena. por todos os lados. — É bastante simples. — Contudo — insistiu Meredith —. até a velha oliveira. Eram mais de onze horas quando Blaise Meredith deixou a casa do médico e voltou à villa. inevitável mas . — E Nina? — Também estava. Aproximou-se dele.

Quando lá chegou.. no momento da rendição final. mas. Ergueu os braços lentamente. sentindo o coração batendo forte e.. pelo amor de seu pai! Tudo estava terminado. não obstante.. Giacomo Nerone ficara assim. Era hora de voltar para a cama.. colocou no chão o pacote e apoiou-se à árvore. caminhava ao seu encontro. antes que conseguisse arrancar de si. os punhos e os tornozelos atados. Receava-a. mas não para o sono. com voz grave e angustiada. as palavras: — Toma-me. como num leilão.. um milagre ou uma zombaria! Mas dá-me o rapaz. ó Deus! Faze comigo o que quiseres. Teve a impressão de que havia passado muito tempo. de modo que ficaram entre os ramos emaranhados. enquanto os galhos secos lhe picavam a pele das mãos. o frio sacerdote do Palácio das Congregações. enquanto lutava para concentrar toda a sua vontade naquele ato de submissão. Antes que amanhecesse. os olhos vendados. o contato áspero do tronco. num esforço para vencer a última e íngreme elevação que conduzia ao lugar da execução de Nerone — o pequeno platô onde a oliveira se erguia como uma cruz. . envolto na paz de uma decisão final. ao seu criador. feito. Chegou aos portões de ferro da villa e passou adiante. Seu corpo enrijeceu. O tempo corria. acabado! Um homem vendera sua alma. firmando o passo.breve como o pôr-do-sol. bispo de Valenta. negra. com os seus próprios pés. Agora era a sua vez — a vez de Blaise Meredith. o rosto contraiu-se na agonia da decisão. tinha de ler os papéis de Giacomo Nerone e escrever uma carta a Aurélio. de encontro às mãos.. tendo ao fundo a alva lua.

àquele exame. O que Aldo Meyer neles encontrara — uma recordação pungente. a importância residia em seu caráter como cristão — em sua semelhança com o protótipo. todas as suas revelações e todos os seus ardentes desabafos tinham. a um modelo básico de penitência e devoção. outrora odiado e. para os teólogos e inquisidores meticulosos que a representavam. que era Cristo. para o pregador. e pouco ao glossário dos pormenores conhecidos de sua vida. os escritos de Giacomo Nerone foram. da revelação a uma união direta com o Todo-Poderoso no ato da prece. a personalidade de um homem era importante. Era essa conformação.14 Para Blaise Meredith. a familiaridade de coisas há muito conhecidas. Mas mesmo ele não conseguia fugir ao impacto pessoal — ao homem vivo que surgia das folhas amarelecidas e da caligrafia vigorosa. fria e analiticamente. obras e morte em Gemello Minore. Suas peculiaridades. à mesma progressão que ia da purgação à revelação. para ele. Assim. pois cada um dos examinadores e assessores também a procuraria. Ajustavam-se todos à mesma crença. um vislumbre da mente de um homem outrora conhecido. Blaise Meredith entregou-se. justamente. Nada acrescentavam. esquisitices e caráter individual eram as coisas que o ligavam ao comum dos homens e faziam com que esses se voltassem para ele como padroeiro e exemplo. Os escritos eram desarticulados: anotações apressadas de um homem . nas lentas horas da noite. Para o biógrafo. sob muitos aspectos. salvo por inferência. Blaise Meredith lera os escritos de centenas de santos. e todas as suas angústias. como ocorria em cada um dos processos que devem seguir-se à apresentação de provas ante o tribunal do bispo. um desapontamento. pois. Mas para a Igreja. o formalista — que mesmo naquele momento de clímax não podia abandonar o hábito mental de toda uma existência —. finalmente. à biografia do seu passado. amado — se apresentava sob outro aspecto aos olhos do advogado do Diabo. para o dramaturgo. o que ele agora procurava. máscula.

Suportaria tudo e ainda estaria pronta para mais. Terminavam como o próprio homem havia terminado. numa pequena cabana de pedra. mas encobrir certas coisas faz parte do amor tanto quanto a rendição. Perguntam a si próprios por que razão um acidente de nascimento deva fazer da fornicação um pecado para uns e uma recreação de fim de semana para . mas peca-se dentro de um cosmos.. É-se levado ao arrependimento pela simples ordem que nele prevalece. e tal sistema é seguro e consolador. tarde da noite. contanto que a vontade esteja voltada para o primeiro ato de fé. estranhamente contente. com dignidade. O fardo do rito religioso. não pode tomar emprestado a absolvição a outrem.. um fardo e uma consolação. . da crença. Contudo. Quando indivíduos católicos têm ciúmes de descrentes como.. Começam por sentir-se enganados.. Pode-se pecar. calma e um estranho contentamento.. aceite-se a primeira premissa. que ainda sentia a necessidade de esclarecer seus pensamentos e tornar suas afirmações claras para si mesmo.. . . É-se livre dentro de um sistema. escrevendo uma ou duas páginas antes de começar a longa vigília de orações que cada vez mais se tornava um substituto para o sono. ao mesmo tempo. não obstante. O consolo vem depois. das proibições e. ocorre. Meredith imaginou-o sentado.. Um homem deve pagar pelos seus próprios pecados. Aceite-se o primeiro ato de fé consciente. apesar de seu caráter errático.. mesmo que seja através de uma folha de papel — e porque o conhecimento que tenho de mim mesmo é um peso sobre os meus ombros. mais tarde.dividido entre a contemplação e a ação. e não tenho o direito de descarregá-lo todo sobre a mulher que amo. é porque o fardo da crença ja2 pesadamente sobre eles e as coerções do mundo começam a ferir. friorento. e toda a lógica se acomoda em seu lugar. como ocorreu comigo. faminto mas. Nascer no seio da Igreja (e só posso falar de minha própria Igreja.. os escritos tinham um ritmo e uma unidade peculiares. Escrevo devido à necessidade comum que o homem tem de comunicação. Cresciam à medida que o homem crescia.. O fardo é o que primeiro se sente. quando se começa a fazer perguntas — e quando somos presenteados com uma chave para todos os problemas da existência. pois não conheço outra) é. Ela é simples e generosa. não raro.

.. Sem fé. Em meu caso. .. é possível usar a fé como uma excentricidade histórica — como certas famílias que exibem o bar sinister1.. em meio ao choque dos conformismos. se tal centelha estalejasse e se extinguisse.) . sem o saber. nem sujeições. a devassidão ao tempo da Regência ou uma viúva que se entregara ao jogo de azar.. Estive muito tempo perdido. a princípio. Era moldado numa forma comum. Mas. em heráldica)..outros.. (N.. aos últimos Stuarts. pelas convenções e pela lei.. Mas não raciocinei assim na ocasião. tanto melhor. começam por lamentar a própria crença. aos últimos elisabetanos. minha reputação e sofrer as sanções do Estado. Não existem questões de consciência. se nos recusarmos a isso. e isso é um nada. a julgar por aquilo em que então acreditava. Como o ato de fé. Minha ação foi instintiva — uma reação irrefletida a algo que violentava minha natureza. Só mais tarde é que chega o terror. Mas.. Se escapasse às sanções. exceto as sujeições impostas pelos costumes. Alguns acabam por rejeitá-la. como se deu comigo ao sair de Oxford. salvo a pequena rocha de nosso próprio orgulho.. Penso. E. isso não basta. do T. como uma centelha que sai de um forno. É-se livre — mas livre em meio ao caos.. Há muito venho-me examinando. em lugar de um conformismo mais amplo. o ato do amor é uma rendição — e creio que um condiciona o outro. não havia deidade alguma. Mas. baseado em nada. Na época. assim foi. estamos perdidos. Diante das conseqüências da crença. mas essas são bastante flexíveis para a maioria dos propósitos. Nada há sobre que se construir. Não posso lamentar o fato de tê-la amado. para o âmago oco do nosso próprio ser. logo sou. .. isso tinha um significado moral.. indo para parte alguma. Se se pertence às velhas famílias como eu. Despertei para ela como se desperta para as primeiras luzes matinais. pois o amor é independente de sua 1 Contrabanda (suposto emblema de bastardia.. .. para compreender a natureza do meu ato de deserção.. O juramento militar termina com a invocação da deidade. uma sensação agradável. Mais cedo ou mais tarde. Se preferia arriscar minha liberdade.. nada tinha que se pudesse chamar natureza. mas. pelo menos. do qual não há recuo senão para dentro. que é que isso importava? Já estava perdido. surgiu Nina. Mas que sou eu? Um acidente de desordem. num mundo inexplicado e inexplicável. isso era coisa que só a mim dizia respeito. Ser católico na Inglaterra é submeter-se a um estreito conformismo. É-se livre. num deserto. para mim.. mas nem por isso menos rígido.. e só podia mergulhar um pouco mais profundamente nas trevas. a gente é livre e essa é. somos forçados a voltar ao primeiro ato de fé. Depois..

eu sei. comunicativa. algum dia. da segurança a que cheguei.não tinha nenhum. lançara para longe de mim. o ato de amor — feito com amor — tem algo de divino. não vai para parte alguma. eu. temo. porque a relação não é interrompida. Procurava-O. Eu estava. pois todas as crianças têm pais. . Essa foi a minha conversão à .. ... Nossa união era imperfeita devido a isso e. à existência de seu pai.... Jamais ocultes Tua face de mim.. De que modo se volta à crença. não existe pai. às cegas. Ela estava em pecado. a maneira como ocorreu. e em sua rendição a mim. na incredulidade. e sua natureza é criadora. ... Procurei... ao olhar agora para trás. Foi no esplendor de minha rendição a Nina. a um primeiro ato. ela o compreenderia e poderia vir a odiar-me. à noite. tudo de que necessitava. partindo da incredulidade? Partindo do pecado. se existisse Deus. mas sua natureza não é modificada. além de no pecado. De que modo me aproximei d'Ele? Só Ele o sabe... A gente não vem de parte alguma. e que. Ele devia ter existido. O momento de amor é um momento de união — de corpo e espírito — e o ato de fé é mútuo e implícito...... Entregar-se a ele pode ser uma falta. Até que. mas dentro do cosmos. Ele lá estava de novo. Mas. Mas quem era ele? Qual o seu nome? Qual o seu aspecto? Acaso me amava. Mas. esplêndida na rendição. Dever-se-ia poder dizer: "Foi esse o momento. É terrível viver nas trevas!".. Isso eu o lamento. Uma criança que erra volta ao pai porque o pai lá está. desconhecido.. Servi-o. suo e rezo desesperadamente: "Aperta-me em Teus braços! Jamais me deixes de novo partir. um dia. .. pelo raciocínio.... o lugar. por tê-Lo perdido. Nossos atos mais nobres são destituídos de significado. Procurei servir ao povo. Rezava-Lhe. por meio da razão. Mas quem era o povo? Quem era eu? . e não conseguia encontrá-Lo. e Ele não me respondia. Mas nela vi tudo o que havia rejeitado. não obstante.. não existe relação. e tenho confessado e rezado para ser perdoado. que primeiro compreendi que um homem poderia render-se a Deus... ou se esquecera de mim para sempre? Esse era o verdadeiro terror e. . como uma criança enjeitada poderia procurar reportar-se.. reportar-me a uma primeira causa. no caos. Lágrimas perdidas e dor inútil. Deveria haver uma ocasião.expressão: somente a minha expressão dele foi contrária à lei moral. Soluçava. mesmo no pecado. Nina tinha um Deus. é fácil: basta um ato de arrependimento.

Até certo ponto tem razão. Vi a criação no rosto de uma criança e acreditei".. mas a resposta não é clara. Mas não posso mudar nenhuma das coisas que fiz. Sou um prisioneiro neste pequeno mundo que construí. sempre". nem por meio de mérito. mas jamais compreendera. . farei o que se exija de mim.. Tenho de reparar. Não obstante. em que se pode viver com certeza. Meyer ri das boas obras.. Há apenas o momento presente. salvo da existência de uma relação pragmática entre homem e homem. O comunismo não admite dúvida e diz que a crença pode ser implantada como um reflexo condicionado. Posso apenas dizer: quando o caminho estiver desimpedido. Há muito mérito em sua cética honestidade. Não havia palavras a registrar. as fornicações.. Mas... não sei o que lhe acontecerá. Falou-me um bom homem e tornei-me bom. que outra coisa poderia eu dizer. que Ele me havia criado e que ainda me amava. Contudo.. tanto quanto puder. senão: "Aqui estou. às vezes.. guia-me. o mal que lhes fiz. rogo-Te. De onde? Onde? Por quê?. fica comigo.. Depois daquilo. Os doentes morrem e os famintos serão famintos amanhã. Mas a tristeza só não basta. mas o reflexo condicionado não responde a perguntas — e as perguntas estão sempre presentes. duvidam de tudo. que joguei fora. tenho visto Meyer entregar-se ao seu trabalho de maneira mais completa do que eu jamais o fiz. Os caminhos estão fechados diante e atrás de mim. Mudei. . Ele me conhecia e o mundo era uma casa que Ele havia construído para mim. A questão da reparação preocupa-me grandemente.. Ele lá estava. rezo pela submissão. Peço luz.. até aquele momento. Estou mudado. Mas de que maneira? É inverno. Por quê? Homens como Meyer duvidam da existência de Deus e. Há ainda uma dívida a pagar. Temo por Aldo. Os males que causei. A Igreja compreende a dúvida e ensina que a fé é um dom — um dom que não se adquire nem por meio da razão. quando os outros o apanharem. Mas não foi assim. Por que razão temo tanto? Porque o arrependimento é apenas o começo. trovão algum a reboar sobre o Tabor. . o significado das palavras "o dom da fé". Só posso prosseguir no presente. pedra alguma a ser talhada com um dedo incandescente. mas. as injustiças.. O homem que faz . Mas o caminho nunca está desimpedido. faze o que quiseres comigo.. Essa é a diferença entre os dois absolutos — a Igreja e o comunismo. Essas coisas modificaram e estão modificando a vida de outras pessoas — e hoje me entristeço por elas. Meyer faz o mesmo instintivamente. Eu sabia que Ele lá estava.religião. por conseguinte.. Eu tinha um pai. os amores que recebi. Eu nascera católico. Diz-me que não têm continuidade.

Ele é adestrado para dirigir os fiéis. Anselmo carrega a sua própria cruz. Não espera que eu seja menos honesto em minha própria fé.. Disse-lhe que tem o direito de decidir. Estou pronto a fazer o que parece certo. Sinto que me estão sendo preparadas coisas que fogem ao meu controle e que. agora. Procuro explicar-lhe de que modo a necessidade de alimento e de sono parece diminuir... Nada se resolve com ira. Mas mesmo no pecado há um elemento de amor. fisicamente. por conseguinte. Estamos. podem ser por ela levados à condenação eterna. a carga de um erro. .. Outros. Pergunto a mim mesmo o que deve ser feito quanto a essa questão de casamento. "Possuo outras ovelhas que não pertencem a este rebanho.. A gente compreende o seu valor. O Padre Anselmo preocupa-me. mas que me parece sensato esperar. mas não para aceitar conselhos deles. Ele não crê em Deus algum. e isso.. multiplicado pelas suas conseqüências.. eu o sei. separados de corpo. o casamento poderia constituir uma injustiça maior do que aquela que já cometi.. Eu creio em Deus. em se tratando de um sacerdote. Ele é honesto quanto àquilo em que crê.. Nina me diz que estou emagrecendo. mas perto no coração e no espírito..... O celibato do clero é uma disciplina antiga." Uma advertência contra a presunção da Fé herdada.. mas não se deve julgar demasiado asperamente os que tropeçam sob o seu peso. Estranho quão depressa e com que facilidade nos entendemos. felicidade. Não obstante. .. Devo compreender que um sacerdote é apenas um homem dotado de faculdades sacramentais.. devido à criança que lhe enche o ventre.. Receio tanto estes últimos meses — tanto amor. constitui um bem que não se deve desprezar. Não sei de que modo se me exigirá o pagamento.. Sabe que não pode . consolação espiritual! Devo pagar por isso algum dia.o bem em meio à dúvida deve ter muito mais mérito do que aquele que o pratica à luz brilhante da fé. porém. Tive uma discussão com ele e arrependo-me. Ela parece compreender melhor quando ressalto que não sente necessidade de mim. mas isso é outro problema. as conseqüências de cada uma de nossas crenças são igualmente rígidas e inescapáveis. quando se está absorto neste novo milagre de Deus. Encontrei. Essas dificuldades independem de seu valor pessoal. o homem que se chama Il Lupo. Esse é um defeito do sistema. não durmo o suficiente e rezo demais à noite. A pobreza é um estado que certos homens aceitam para tornar-se santos.. mas não um artigo de fé. hoje. Se houvesse uma maneira de falar com Anselmo como amigo. .. Não como o suficiente. Rezo e procuro preparar-me.

haver coexistência entre nós. Um deve destruir o outro. Ele é o príncipe deste mundo e tem poder de vida e morte. Que poder tenho eu contra ele? "Meu reino não é deste mundo." Eu podia reunir o povo. Podia fazer com que o povo me seguisse e resistisse ao bando de Il Lupo. Mas com que fim? O fratricídio não é cristianismo. Balas não geram amor... Il Lupo gostaria que eu discutisse e agisse. Não devo discutir. Devo apenas aceitar. Mas receio o que possa acontecer a Meyer. Ele é um homem demasiado delicado para toda essa embrulhada. Devo procurar fazer com que veja que eu compreendo. Mais tarde, terá muito o que sofrer. O peso da dúvida é muito grande para um homem honesto... ... Tenho um filho e o menino é cego. A dor de Nina aflige-me muito. Compreendo agora como a fé pode vacilar diante do mistério da dor. Compreendo agora por que os velhos maniqueus podiam facilmente cair em sua heresia — já que é difícil compreender de que modo a dor e o mal podiam entrar numa criação da qual um Deus onipotente era o único autor. Momento negro para mim. Parece-me que voltei de novo para a escuridão e rezo desesperadamente, apego-me ao primeiro ato de fé e digo: "Não posso compreender; mas creio. Ajuda-me a agarrar-me a isso!"... ... Se a fé pode remover montanhas, também pode abrir olhos cegos. Se Deus o quiser. Como posso saber o que Ele quer? Fala-me, ó Deus, pelo Teu filho... Amém... Havia mais coisas, muito mais, e Blaise Meredith as examinou meticulosamente, como deve fazer um bom advogado, mas já havia encontrado a essência da coisa — e essa essência era firme e sólida. A aceitação da doutrina lá estava, uma aceitação que envolvia mente, coração e vontade. E havia sido feita a rendição segundo a qual um homem se afasta de todo apoio material para repousar, com espírito de fé, esperança e caridade, nas mãos que o formaram. Na última página Giacomo Nerone redigira o seu próprio obituário: "... Se houver criatura que, após minha morte, leia o que escrevi, que saiba o seguinte de minha pessoa: Nasci na Fé, perdi-a, fui trazido de volta a ela pela mão de Deus. Se prestei algum serviço, fui levado a isso por Ele. Não me cabe, pois, mérito algum. Amei uma mulher e gerei um filho, e ainda os amo em Deus e para toda a eternidade. Àqueles que injuriei, rogo que me perdoem.

Aqueles que me matarão, recomendo-os a Deus, como irmãos a quem amo. Aqueles que me esquecerem farão bem. Aos que se lembrarem de mim, rogo rezem pela alma de Giacomo Nerone, que morreu na Fé".

Blaise Meredith depôs sobre as cobertas as folhas amarelecidas, recostouse nos travesseiros e cerrou os olhos. Sabia agora com segurança que chegara ao fim de sua busca. Mergulhara na vida de um homem e vira os seus traços típicos: um longo rio a fluir sinuoso, mas com segurança, em direção ao mar. Examinara a alma de um homem e vira-a crescer, como uma árvore, da escuridão da terra para o sol. Vira os frutos da árvore: a sabedoria e o amor de Nina Sanduzzi, o esforçado espírito de humanidade de Aldo Meyer, o relutante arrependimento de Padre Anselmo. Eram frutos bons e, em seu desabrochar, viu o sinal do cuidadoso dedo de Deus. Mas nem todos os frutos estavam ainda maduros. Alguns podiam ainda murchar nos ramos, outros podiam cair, ainda verdes, e acabar podres, pois o jardineiro era negligente. E ele, Blaise Meredith, era o jardineiro. Pôs-se a rezar, lenta e desesperadamente, por Anne de Sanctis, Paolo Sanduzzi e Nicholas Black, que haviam escolhido para sua caminhada o mesmo deserto, como Giacomo Nerone. Mas, antes que sua oração estivesse terminada, a velha enfermidade o acometeu, viva e dilacerante, fazendo-o gritar de dor, até que o sangue lhe subiu, quente, sufocante, à garganta. Muito tempo depois, fraco e tonto, arrastou-se até a escrivaninha e, com mão trêmula, pôs-se a escrever:

"Senhor bispo, Estou muito doente e creio que possa morrer antes que tenha tempo de registrar inteiramente os resultados das investigações que aqui empreendi. Apesar de todas as predições médicas, sinto que a vida me foge rapidamente e oprime-me a idéia do pouco que me resta. Desejo, porém, que Vossa Excelência

Reverendíssima saiba que minha submissão a Deus se verificou, como Vossa Excelência prometeu que ocorreria, e que, se não corajoso, permaneço contente quanto ao resultado. Antes de mais nada, permita que lhe diga o que constatei. Creio, da maneira mais firme possível, baseado no testemunho das pessoas que o conheceram e em escritos que encontrei, que Giacomo Nerone era um homem de Deus, que morreu na fé e numa atitude de martírio. O que o tribunal decidir é outra coisa... uma formalidade, baseada nas regras canônicas concernentes a provas, e irrelevante, parece-me, quanto aos fatos fundamentais, pois o dedo de Deus aqui está e a levedura de bondade que existia nesse homem ainda age na vida de sua gente. As melhores testemunhas para Vossa Excelência Reverendíssima serão o Dr. Aldo Meyer e Nina Sanduzzi. Esta última apresentou provas de uma cura que bem pode ser milagrosa, embora eu duvide seriamente seja aceita como tal pelos assessores. Os escritos de Nerone, que seguirão com esta carta, são autênticos e definitivos, constituindo, em minha opinião, sólida corroboração quanto à reivindicação que se lhe faz de santidade heróica. Confesso-lhe, Excelência Reverendíssima, em tom de amizade, que me preocupa menos, neste momento, esta causa de beatificação, que o bem-estar de certas almas aqui de Gemello Minore. Falei com o Padre Anselmo, tomando a liberdade de insinuar que se ele se separasse fisicamente de Rosa Benzoni, mesmo que continuasse ainda a abrigá-la em sua casa, e se fizesse uma sincera confissão, Vossa Excelência Reverendíssima encararia tais fatos como um indício de regeneração. Ele me causa pena. Trata-se de uma questão de dinheiro e de segurança, para um homem que vive na miséria e é bastante ignorante. Prometi-lhe a quantia total de cem mil liras a ser tirada de meus bens, assim como dinheiro suficiente para a compra de uma cama e outros objetos destinados à instalação de um quarto separado para Rosa Benzoni. Parece-me, agora, que não terei tempo de cuidar dessas coisas. Poderia solicitar a Vossa Excelência Reverendíssima que as fizesse por mim, usando esta carta como documento junto aos meus executores testamentários. Faltar agora à minha palavra a Anselmo seria para mim uma idéia intolerável. Os outros assuntos dizem respeito à Condessa de Sanctis, Paolo Sanduzzi, que é o filho de Giacomo Nerone, e a um pintor inglês que se acha hospedado na villa. O que ocorre é demasiado sórdido para que eu o relate pormenorizadamente nesta carta. Ademais, receio que Vossa Excelência

Reverendíssima pouco pudesse fazer a respeito. Recomendei-os todos a Deus, pedindo-Lhe aceitasse minha rendição como o preço da salvação de suas almas. Espero poder, amanhã, planejar medidas mais ativas; mas estou tão fraco e doente, que não posso contar com coisa alguma. Tenho dois favores a pedir-lhe, esperando que Vossa Excelência Reverendíssima não os ache molestos. O primeiro é pedir-lhe que escreva a Sua Eminência, o Cardeal Marotta, explicando-lhe minha situação e apresentandolhe minhas desculpas pelo que considero um fracasso em minha missão. Queira transmitir-lhe minhas saudações e pedir-lhe que se lembre de mim em suas preces. O segundo é que Vossa Excelência Reverendíssima permita que eu seja sepultado aqui em Gemello Minore. Pedi, certa vez, para ser sepultado na igreja de Sua Eminência, o Cardeal Marotta, mas Roma é muito longe... e aqui, pela primeira vez, encontrei a mim mesmo como homem e como sacerdote. É muito tarde, Excelência, e sinto-me cansado. Não posso mais escrever. Perdoe-me e, em sua caridade, ore por mim. Sou, de Vossa Excelência Reverendíssima, o mais obediente servo em Cristo. Blaise Meredith"

Dobrou a carta, lacrou-a num envelope e jogou-a sobre a mesa. Depois, arrastou-se de volta à cama e dormiu, só despertando quando o sol já se achava alto sobre os verdes gramados da villa.

Paolo Sanduzzi estava trabalhando no jardim do rochedo, atrás da villa. Os terraços tinham-se fendido em certos lugares em que a argamassa havia sido arruinada pelas intempéries, e o solo escorria pelo monte abaixo. Quando chovia, o solo se perdia e, naquela terra fragosa, era demasiado precioso para isso. O velho jardineiro ensinara-lhe de que modo misturar a cal à negra areia vulcânica do rio, bem como de que maneira tapar e alisar as fendas com uma colher de pedreiro. Era uma coisa nova que aprendia, uma nova profissão de que podia orgulhar-se, e lá estava ele ajoelhado, com o sol brilhando sobre suas costas, a assobiar contente. A cal queimava-lhe os dedos e fazia com que sentisse suas próprias mãos ásperas e rudes, mas isso também era um outro pequeno motivo

de orgulho: suas mãos estavam ficando vigorosas como as de um homem. O jardineiro, também, sentia-se satisfeito com ele. Às vezes, parava e punha-se a falar-lhe com sua voz rouca, mastigando as palavras, e dizia-lhe os nomes das plantas e como cresciam, e por que razão os insetos comiam umas e não outras. À hora das refeições, na grande cozinha lajeada, o velho protegia-o do papaguear das mulheres, que gracejavam acerca de sua jovem masculinidade e lhe diziam o que as moças fariam com ele, quando o agarrassem. A única que não ria dele era Agnese, a cozinheira, uma montanha oscilante de mulher, que lhe servia porções duplas de pasta e que tinha sempre um pedaço de queijo ou uma fruta para meter-lhe nos bolsos da calça. Ele não sabia como descrever aquilo, mas compreendia que era uma maneira boa de viver. Tinha um lugar onde estar, um trabalho a realizar e vivia em meio a gente amiga e, ainda, no fim do mês, tinha algumas liras para meter no bolso e levar à mãe. Até mesmo Roma começava a recuar para uma distância cada vez mais vaga. A condessa não tornara a falar-lhe e o pintor o deixara em paz, dirigindo-lhe apenas uma ou duas palavras amáveis ao passar. O medo que sentia deles começara a diminuir, e eles se fundiam agradavelmente em seus devaneios de fontes, moças que usavam sapatos e ruas cheias de automóveis cintilantes. Estava sonhando, naquele momento, ao som de seu próprio assobio e ao ruído áspero de sua colher de pedreiro sobre a pedra cinzenta, quando subitamente o sonho se converteu em realidade. A condessa estava de pé atrás dele e dizia-lhe, com sua voz mais suave: — Paolo! Quero falar-lhe. Ele ergueu-se imediatamente, largou a colher de pedreiro e desceu, ágil, das pedras, colocando-se diante dela com viva consciência de seu suor, do torso nu e de suas mãos sujas. — Sim, senhora. Às suas ordens. Ela lançou rápido olhar em torno, a fim de certificar-se de que estavam a sós. Depois, disse: — Amanhã, Paolo, parto para Roma. Não me sinto muito bem e preciso consultar o meu médico. Vou levar Zita e Pietro, para que cuidem de meu apartamento, e pensei em levar também você. Ele ficou boquiaberto e pôs-se a gaguejar diante daquela súbita maravilha — e a condessa lançou o seu riso alto e tilintante: — Por que está tão surpreso? Eu lhe prometi, não prometi? E você tem

disparou pelo caminho de cascalho abaixo. signora.. — Sim. Paolo? Ele não sabia o que dizer. — Quando. se quiser.. — Obrigado. atropelando rapidamente as palavras: — Minha. Ela tornou a rir.. Obrigado. agradável de ter perto da gente na casa. senhora. quando poderei dizer a ela? — Agora. sim. pois é melhor que você não o veja. é verdade. Está claro? — Está. afinal.. em direção aos portões de ferro. talvez. e que Pietro continuará a ensinar-lhe jardinagem durante todo o tempo. Anne Louise de Sanctis ficou a observá-lo. mas. aqui. a terrível condenação eterna a que fora levada pelo braço de Nicholas Black. . — Mas o quê.. Quando ele... no outono do casamento. Paolo. A única coisa que falta é você pedir permissão a sua mãe. Ao pensá-lo. Você lhe dirá que ficará ausente durante uns dois meses e que parte de seu dinheiro será pago a ela.. mas. o Signor Black. que o Signor Black vai ficar aqui trabalhando. ela compreendeu claramente o que fizera — a maldade. a cada mês. Mas.. E é por isso que estou levando você comigo. Depois volte e diga-me o que ela acha.. sorrindo de sua impaciência de menino. depois. tranqüilamente. ao dobrar por trás da casa. — Mas. — Mas você não acreditou em mim? Bem. um companheiro. mas. mil vezes obrigado. senhora! Estava claro e brilhante como o verão. Deveria ser aquilo que outras mulheres encontravam em seus filhos. conseguiu responder. mãe não gosta do inglês. — Você lhe dirá que Pietro e Zita também vão. Ela talvez não me deixe ir. Aquilo era uma coisa boa de ver. Agarrou a camisa. quase caiu nos braços de Blaise Meredith. que subia pelo gramado com uma pasta de papéis na mão. a sujeira daquilo. ficou chocada ante o seu aspecto. sentiu o sangue gelar-lhe nas veias. Estremeceu e afastouse. a saudou. vestiu-a tão estabanadamente que a rasgou e. expulsando todos os receios dele: — Diga a sua mãe.trabalhado bem. mas não mais um amante jovem. quando a seiva da paixão ia secando e um marido era. Súbito.

e para o rapaz. de fugir dele e ocultar-se em seu quarto. Esse era o seu último terror.. de repente. deitaria para dormir e jamais despertaria. — A senhora ainda quer vingar-se de Giacomo Nerone? — Então o senhor também sabe? — Sim. Nada importava. Terríveis para a senhora. lamento dizê-lo — respondeu ele. Sua pele tinha a cor de velhos pergaminhos e seus lábios estavam exangues. Ele podia perguntar o que quisesse e ela responderia e. que a manteve hipnotizada. Por que fez isso? Os pés da condessa moviam-se ao ritmo monótono dos passos de ambos. quando aquilo acabasse. Tinha as costas arqueadas. subiria ao seu quarto.O rosto parecia ter-se encovado mais durante a noite. Agora isso não importava. as palavras lhe saíram da boca: — Eu. mas ele a tomou delicadamente pelo braço. Permanecerá aqui. — Estava. ao alcance de seu vidrinho de esquecimento. muito excitado. caminhando a seu lado. não é assim? — Eu. — A senhora sabe. — Não creio que disponha ainda de muito tempo. Black também vai? — Não... eu não sei quais são os seus planos. Planos terríveis.. ela esqueceu os seus próprios pensamentos e exclamou: — Monsenhor! O senhor está doente! — Muito doente. ouvindo-lhe as palavras e respondendo-lhe numa voz que não parecia dela. e ela se viu.. Os olhos eram como brasas engastadas profundamente em seu crânio. Poderia caminhar um pouco comigo? Ela teve vontade de recusar. Mesmo contra sua vontade. pois planejou tudo com ele. minha cara condessa. e suas longas mãos tremiam sobre o fundo negro da batina. como se carregasse pesados fardos. Sei. com voz cansada mas gentil. Parecia estar excitado por alguma coisa. Por um momento. Mas logo estaria terminado. se sua mãe permitir. tomaria um banho. — Mas irá ao seu encontro depois. Vou levá-lo comigo a Roma amanhã. — A senhora sabe — disse Meredith... eu não sei. para ele.. — Mr. — Vi o jovem Paolo descer correndo pela estrada. As palavras que o sacerdote proferiu a seguir fizeram com que ela .

. calmamente: — Deixei este lugar durante algum tempo. faltar-lhe-ia alguma coisa.. Tem grande necessidade de amor. pois a mão de Deus chega até os infernos íntimos que criamos para nós mesmos. agressivo em sua adoração do processo de reprodução. Mas não basta saber. descubra alguma obra de caridade que . que a Itália é um mau país para uma mulher como a senhora. é alvo da zombaria dos outros. por não saber o que fazer.. — A senhora bem sabe.. Vá a teatros. Meyer poderia tê-las dito... Não é verdade? — É. A senhora se sente envergonhada disso e comete coisas piores. — Que é que faço. A senhora continuaria ainda amedrontada.. Deixe que ele cuide da senhora.. que não tem um companheiro. Parta daqui. Poderia dizer-lhe que fizesse uma confissão geral. grande necessidade também da relação sexual que o acompanha. ao mesmo tempo que a inibe em sua própria satisfação. ainda solitária.. A senhora é uma mulher ardente. Volte para Londres e fique lá algum tempo. e isso ainda seria melhor. Tal necessidade se converteu. de amor. de bondade. é um tormento para si mesma. não espere que os resultados sejam demasiado rápidos. que é uma cidade pequena e lhe poderá ser prejudicial. na senhora. Mas não seria uma resposta completa. A mulher que não é amada. à realidade. Na boca de Meyer. faça novos amigos.. É um país de sol. um tom de intimidade.. sua voz seca tornando-se mais cálida à medida que falava: — Eu poderia recomendar-lhe que rezasse. Não espere muito. problemas do corpo e do espírito. mas não aquele sacerdote já marcado pela morte. com um choque. Foi só isso o que respondeu — mas gostaria de acrescentar: "Sei de tudo isso. diga-me! Até que enfim aquela súplica lhe fora arrancada! Meredith respondeu-lhe. É um país primitivo e ardente. Para onde vou? Que é que faço? Como encontrar aquilo de que preciso?" Meredith prosseguiu. que a porá em contato com um especialista que trata de problemas como os seus. Não para Roma. e esse frenesi a leva a atos viciosos. pois lhe tranqüilizaria a consciência e a poria em paz com o seu Deus e com a senhora mesma. talvez? Era difícil dizer...voltasse. Predomina o símbolo masculino. Dar-lhe-ei um bilhete para um amigo meu de Westminster. num frenesi. e isso não seria nada mau. que não tem filhos. então? Diga-me! Pelo amor de Deus.. ainda insatisfeita. e o sei de uma maneira mais terrível do que o senhor. minha cara condessa.

perguntou-lhe: — Como é que compreende tudo isso? Jamais ouvi um sacerdote falar assim antes. cujo pai é Deus Todo-Poderoso. Alguns-. em minha vida.. Ela o fitou. doentes. Ela. então. Somos humanos. no fim. mas que se case com a senhora e que a ame. Não existe fórmula mágica que a afaste.. — Não é novidade alguma a gente ser solitário. e é necessário uma vida inteira para aprender as lições mais simples. Talvez encontre também um homem. debaixo de uma madressilva. Não creio que esteja preparada para ela. o senhor ouviria a minha confissão. quase assustada. contraindo o supercílio. Coube agora à condessa tomar-lhe o braço e conduzi-lo a um pequeno banco de pedra. Não existe pílula alguma que a cure. pela primeira vez.. . os membros de nossa família morrem. dentre nós. A senhora se importa que eu agora me sente? Estou. olhando-o com um lento espanto e com uma piedade que jamais sentira senão por si mesma... Meredith sentou-se. Mas se a enfrentarmos. Ficamos velhos.. também.lhe interesse. Se procurarmos afastar-nos dela. A última e a maior solidão é a morte. com uma nota de pânico na voz.. — Permita que lhe diga algo muito importante — respondeu Meredith. se nos lembrarmos de que existem milhões de outras pessoas como nós. que já me ajudou. minha cara condessa. acabamos por ver. a família humana. mais cedo ou mais tarde. — Mas se não o encontrar? — indagou. se procurarmos estender-lhes a mão e confortá-las. acabaremos num inferno ainda mais tenebroso: nós próprios. Os amigos morrem. e Meredith viu.. — Ainda não. paciente. — O senhor é o primeiro homem. estou muito cansado. são estúpidos. e não a nós próprios. — O senhor. com árida ironia. Amantes e maridos também. não um homem que apenas durma com a senhora. sorriu-lhe. A senhora ainda é atraente. Isso ocorre com todos nós.. principalmente quando sorri. — É porque a senhora tem encontrado homens errados — respondeu Meredith. com que agora me defronto. que não estamos mais sozinhos. É uma condição a que os homens não podem fugir. quão bela tinha sido. A boca exangue de Meredith contraiu-se num sorriso fatigado: — As pessoas exigem demasiado de nós. Estamos no seio de uma nova família.. Após um momento. mas ela continuou de pé.. padre? Meredith abanou a cabeça..

à inveja que tem de Nina Sanduzzi e do filho. no qual se dá perdão ante a admissão da culpa e uma promessa de arrependimento e regeneração. Quanto a Mr. começando por reparar o mal que já causou.. Ela fitou-o. Mas receio muito que não me dê ouvidos.. minha cara condessa. . seus olhos se anuviaram e sua boca adquiriu uma expressão dura: — Eu próprio falarei com ele. a primeira parte é fácil... Black? — Refiro-me à senhora. por meio da prece e da auto-disciplina.Ele prosseguiu. a Mr. Para a senhora. com olhos perturbados: — O senhor se refere a Nicki. precisa preparar-se. hesitando por um momento. já está quase feita. Black — interrompeu-se.. Quanto à segunda. É um sacramento judicial. aos seus desejos. para promover bem-estar mediante uma catarse da memória. um expediente para encorajar revelações íntimas... grave: — A confissão não é o divã do psiquiatra.. Depois.

ao seu encontro. Rosetta achava-se presente. positiva: — Então você pode voltar e dizer-lhe que não irá. As duas mulheres olharam-se significativamente. conversando com a esposa de Martino. com voz áspera.. — Mas não se trata de nada disso! Ela me disse que lhe dissesse. Nina fitou-o perplexa: — Onde é que você pensa que vai? Você devia estar trabalhando. pela primeira vez. — Um momento! — exclamou Nina Sanduzzi.. — Diga tudo de novo! Quem disse que você vai para Roma? — A condessa. fará as malas e seguirá para a grande cidade. Paolo Sanduzzi pôs-se a correr. o braço: — . Ficará lá dois meses. dez dias. não precisa? — Você é um jardineiro. ela quer levar-me. Mandou-me pedir sua permissão.... pronta para ser levada. Vou para Roma. — E ela quer levar você? — Quer.. Que pressa é essa? A resposta saiu-lhe da boca numa torrente de palavras: — Não preciso trabalhar. e que eu continuarei a aprender o meu trabalho. Ela vai consultar o seu médico.15 Ao chegar à metade da aldeia. Paolo mio. Esse truque não enganaria nem mesmo uma criança. amuados: — Seja lá como for. talvez! Depois. Ela me disse que devia pedir sua permissão e que Pietro e Zita também vão. — Por quê? — Ela precisa de criados. filho. com todas as suas forças. — Por quanto tempo? — indagou. Esta estava parada fora da ferraria. fortemente.. Sei muito bem que quem quer você em Roma não é a condessa. Os lábios do rapaz descaíram. o ódio surgindo lentamente por trás de seu rosto clássico. O inglês vai ficar aqui.. com seus atavios domingueiros. Nina Sanduzzi respondeu. — Uma semana. ao encontro da mãe. A condessa me disse. à villa. Não há jardineiros em Roma. — Segurou-lhe.

Nina Sanduzzi ficou a olhá-lo. E se alguém fizer alguma tolice. Isso conservará o seu inglês quieto durante algum tempo.. com amargura.. com as fraldas da camisa balouçando sobre as ancas. pedirei ao doutor que se comunique com a polícia em Gemello Maggiore. — Obrigado. — Ele é apenas uma criança. até hoje. Num canto ensolarado do jardim.Você não irá. Sou sua mãe e não o permitirei. Nina Sanduzzi. o meu melhor trabalho. Não sabe o que quer. E. Vou trazê-lo de volta e fazer com que diga que está arrependido. puder pagar sua própria passagem e encontrar o seu próprio trabalho. Meredith... .. desajeitada: — Ele não quis ofendê-la. agora. — Nem tanto. — Então irei de qualquer modo. e o que por último viram dela foi uma agitação de saia e um par de pernas morenas erguendo-se por cima do muro que separava a estrada do rio. — De modo algum! — exclamou. Ao ouvir os passos de Meredith. rápida. como um bom rapaz! — Não esquecerei! Não esquecerei! Ela me pediu e eu quero ir. — Quando você for homem. — Absolutamente. então poderá falar assim. Ouve certas coisas. — O pai dele era um santo — respondeu. Espero que tenha dormido bem. esqueça-se disso. Nicholas Black dava a última demão de verniz no retrato de Paolo Sanduzzi crucificado na oliveira. saiu correndo. Antes que sua mãe pudesse protestar. — E o filho quer transformar-se numa femminella. não passa da prostituta de um santo! Desvencilhou-se dela e desceu a rua a correr. A senhora não passa. Ela é a padrona e a senhora não é ninguém. Está dito. lamento dizê-lo. Ela levantou a mão e deu-lhe forte bofetada no rosto. Gostaria de vê-lo? Penso que é.. Se a condessa falar comigo eu lhe direi isso na cara. Espero que não o esteja incomodando. Já estou terminando. em seus sapatos domingueiros. É apenas um menino. levantou a cabeça e enviou-lhe uma saudação irônica: — Bom dia. o rosto como o de uma máscara de mármore. A mulher de Martino esfregou no chão o pé descalço e comentou. com sua voz alta e clara. Rosetta.

não lhe parece? — Muito — respondeu Meredith.. o sacerdote. — Trouxe-lhe algo que talvez possa interessar-lhe. como o senhor. — Vá para o diabo com a sua ajuda. tomou a pasta de papéis das mãos de Meredith. — Vim dizer-lhe. com efeito. — De que se trata? Algum folheto da Sociedade Católica da Verdade? — Não é bem isso. com voz fria. Nada quero de sua pessoa. Black. — Ajuda que a Igreja está mais do que pronta a dar-lhe! Ela é bastante rica. O pintor sorriu.. parou diante do cavalete e olhou o quadro. Para mim.. Abriu a capa de papel manilha e examinou. — Isso depende do ponto de vista que se adote. tensa: — Por que me mostra isto? Meredith ficou intrigado pelo que havia nele de estranho. ao ver-lhe a expressão do rosto. Meredith. bastante pobre.. em silêncio. Um título apropriado. afastando-se da tela. e o senhor é. é um símbolo. simplesmente: Isso constitui uma documentação comovente. Black — respondeu. Nicholas Black fitou-o por um momento. Mr. Mr. sem proferir palavra. o pintor sentiu-se interessado. Limpou a mão num pedaço de pano e. algumas páginas. Achei que isso poderia ajudá-lo. O pintor enrubesceu. perdeu a fé. A condessa gostaria que o senhor deixasse a villa o mais breve possível.Meredith deu a volta. — Gostaria de ficar com ele. — A Igreja também gostaria de ajudá-lo. agora. creio eu. Depois fechou a pasta e indagou com voz estranha. que nem a condessa nem Paolo Sanduzzi irão a Roma. o registro espiritual de um homem que. Mr. — Ela é uma mulher infeliz que necessita de muita ajuda. e que depois tornou a ela. — Ofereci-me para fazê-lo em seu lugar — respondeu Meredith. Black. sereno. Intitulei-o: O sinal da contradição. de ir embora? Estou ocupado. mas respondeu. Meredith? — É uma blasfêmia. Gostaria de examiná-los? A despeito de si mesmo. claro. Não se importaria. depois seus lábios se abriram num sorriso que mais parecia um esgar de angústia: . furioso! — Ela poderia ter tido a delicadeza de me dizer pessoalmente. Trata-se dos papéis pessoais de Giacomo Nerone.

Se isso significasse renunciar a todos os impulsos da paixão e a toda a necessidade que sinto de amor e afeto. Mas o senhor jamais acreditaria nisso. Respondeu. Queria levá-lo comigo. E cobriu de lama a única coisa decente que jamais procurei fazer na vida. Black. Mas não da maneira que o senhor pensa. sim. Vi nele tudo o que falta em minha própria natureza.. atônito: — Não o compreendo. mas o senhor jamais poderia fazêlo.. não é? Meredith acenou afirmativamente com a cabeça. distante suavidade: — A ironia de tudo isso. sem refletir. voltou-se para Meredith e disse. Decorrido um instante. Fitava a figura de Paolo Sanduzzi. falou. E como poderia o senhor pedi-la. Meredith olhou-o boquiaberto. exceto mediante uma graça singular de Deus. Mr. — Então eu lhe explicarei. estava disposto a fazê-lo. em corpo. tinha as . O pintor voltou-se para o outro lado e ficou longo tempo a olhar o gramado mosqueado de sol que se estendia em direção à villa. Meredith fez a observação mais brutal de toda sua vida. com a mesma voz tensa. monsenhor — respondeu o pintor. com gélida polidez: — Quer fazer o favor de ir embora? Nada há que possa fazer por mim. Zunia-lhe a cabeça. não é certo? Então. Mr.. o senhor está convencido de que o meu único interesse por Paolo Sanduzzi é seduzi-lo. Mas não agora. afinal. mas nada respondeu. o senhor poderia ter tido razão. nos últimos quinze anos.. grave: — Eu talvez acreditasse.— Ajudar-me! O senhor possui um maravilhoso senso de humor. Meredith.. Meredith! O senhor sabe o que fez. não sabe? Fez com que me expulsassem da casa. é que em qualquer momento. Gosto do rapaz. fê-lo com estranha. Privou-me da última oportunidade que me restava de que alguém me financiasse uma exposição que talvez pudesse restabelecer minha reputação como artista.. se não acredita? Nicholas Black nada respondeu. um homem completo. Black. Quando. pregado à negra oliveira. educá-lo e fazer dele o que eu jamais poderia ser. — Como todos os outros nesta maldita aldeia. Isso é verdade. O almoço foi uma refeição horrível para ele. intelecto e espírito.

que os matava rapidamente. Nicholas Black mergulhou silenciosamente no vazio final do desespero. com toda a certeza. no topo da escada. Sozinho em seu alto quarto. Tornou a bater. Terminada a refeição Meredith subiu. o vinho tinto tinha algo de azedo. a fim de repousar durante as horas quentes do dia. O desenvolvimento da moléstia e as hemorragias os debilitavam tanto. que eram atacados pela pneumonia. mais claramente do que um médico. dirigiu-se ao seu próprio quarto. sentia uma dor aguda sob as costelas. e a dor nas costelas era como uma punhalada sempre que respirava profundamente. aguardou um momento e. de que a vida era um enigma sem resposta. Conhecia o bastante de medicina para saber que isso era o que ocorria com os doentes de câncer. se achava demasiado desconcertado para participar do almoço. na direção do que era ocupado por Nicholas Black. o sol atravessando obliqua-mente a janela de rótula e caindo sobre a pintura de Paolo Sanduzzi. segundo todas as normas. mas viu que a porta estava fechada. O suor cobria-lhe o rosto e o corpo. A condessa tinha curiosidade de saber o que se passara entre eles. Mas. quão doente se achava. Estava ainda de pé e desejava permanecer assim tanto tempo quanto possível. Foi uma admissão simples. nenhuma ruína violenta da razão sob o impacto de terrores inexplicáveis. Aqueles que ganhavam talvez tivessem de render-se um pouco mais tarde . A subida das escadas lhe disse. ele se achava ainda longe dessa fase. Não havia loucura alguma naquele ato. não se dirigiu diretamente ao seu quarto.mãos pegajosas e. sempre que respirava profundamente. desculpando-se e pedindo que lhe mandassem a refeição ao quarto. A comida não tinha sabor. e Meredith foi obrigado a enganá-la com a delicada mentira de que haviam trocado algumas palavras ásperas e que Black. final. ao bater à porta. Mas era obrigado a sorrir e a conversar com a condessa. mas. um jogo que não valia a vela que pingava suas gotas de cera sobre os seus últimos e inúteis lances. depois. Podia ouvir o pintor movendo-se em seu interior. Mandou um recado pelo criado. Tentou girar o trinco. cujo medo por ele se dissipara e se mostrava disposta a ser palradeira. mas dobrou pelo corredor. Ao chegar ao patamar. não obteve resposta. Cada degrau era um esforço. Nicholas Black não apareceu.

a oportunidade de refazer sua reputação como artista. ele. e não a enfrentaria. Inventá-la seria uma hipocrisia. como ele perdera. depois. que estava sobre o cavalete.. Levantou-se. Ele era o que fora desde o começo: um homem vazio. Contudo. apanhou um estilete. aproximou-se do quadro. purificá-lo-iam implacavelmente e. A Igreja o receberia de volta. contra cartas marcadas e com todas as apostas feitas contra ele. fria e metodicamente. Não tinha para onde ir. a brandura talvez o houvesse desviado para um propósito melhor. a Igreja. Ele estava a zero.. o impeliriam para a frente. puxou uma folha de papel. tendo revelado. fora uma indiscrição estúpida e brutal.. Sua própria natureza. a proteção da condessa. atraindo-o com as cenouras velhas da eternidade.. arrependimento e. Mas sabia agora que estivera jogando. de onde já fora expulso em meio a chacotas. que falhara justamente no momento em que dela mais necessitava. havia sido vítima de calúnia. caminhou até a escrivaninha. Jamais em sua vida Meredith se sentiu tão envergonhado. tão dignamente quanto possível. A bondade talvez houvesse alimentado tal impulso. quaisquer que tivessem sido as loucuras de sua frustrada natureza. Os inquisidores cinzentos. uma amarga abstinência. das cartas espalhadas. Quaisquer que tivessem sido os pecados de Nicholas Black. a lei. mas os que perdiam. a esperança de justificar até mesmo a estropiada e incompleta masculinidade com que a natureza o dotara. tudo conspirava para excluí-lo da mais simples e da mais necessária dentre todas as satisfações da existência. garatujou três linhas apressadas e assinou-as. não tinham outro recurso senão afastar-se. a cortar a tela em pedaços. falido mesmo de esperança. da bebida derramada e do ar viciado pela fumaça dos últimos charutos. Não podia enfrentar tal coisa. durante toda a vida. . como Meredith. como sempre. Ele apostara tudo naquele último jogo: dinheiro. o seu único comentário. exceto aquele submundo. A caridade que julgava haver adquirido através de Giacomo Nerone fora uma monstruosa impostura.à ilusão do jogador. Depois. e pôs-se. Não havia escusa para tal. no íntimo. a única coisa que lhe oferecera como sacerdote. não obstante. mas exigiria um preço brutal: submissão do intelecto e da vontade. Homem algum deveria ser obrigado a pagar pelas extravagâncias e os caprichos de um Criador sardônico. um impulso para o bem que não deixava de ser nobre.

lavou-se. Devia apresentar desculpas pela sua grosseria e procurar de novo estabelecer um contato humano com Black. ainda o assaltava. sobre a coberta de baeta verde. e mais tarde ainda quando os dois foram encontrados — Nicholas Black. Esse pensamento o perseguiu em seu sono superficial e. porém. pareciam ambos mortos. mas Aldo Meyer ouviu as débeis pulsações do coração de Meredith e mandou chamar o Padre Anselmo. enquanto Pietro dirigia como um louco o automóvel da condessa rumo . chamou-lhe a atenção uma simples folha de papel. Meredith entrou no quarto e aproximou-se para ver melhor. enquanto ali. Levantou-se. Suportei durante toda a vida os gracejos do TodoPoderoso. Na parte superior. O velho descerrou o postigo. Havia apenas uma coisa a fazer. a batina a farfalhar-lhe sobre os calcanhares. que devia estar sofrendo muitíssimo. A princípio. esfregou os olhos sonolentos e. Não havia ninguém. a meu respeito. junto ao seu tronco. depois. oscilando de um lado para outro. não houve resposta alguma. ficando a observar o amalucado monsenhor a subir. Abriu-a e espiou. Ao passar pela escrivaninha. tu venceste. arquejante. Mas o retrato de Paolo Sanduzzi. de pé. desceu as escadas. Nicholas Black". sobre o cavalete. o velho sermão: Galileu. Seu. Dessa vez a porta estava entreaberta. atravessou a alameda coberta de cascalho e gritou ao porteiro que lhe abrisse o portão. Meredith fitava o papel em suas mãos pálidas. O seu é demais para mim. A cama estava intacta. mas.destituído de bondade e de espírito humanitário. Poderá fazer. quando despertou. De repente. junto à janela. o pleno horror daquilo explodiu em seu entendimento — e saiu correndo do quarto. viu o seu próprio nome: "Meu caro Meredith. e Blaise Meredith caído de borco. a montanha. em direção ao quarto do pintor. dependurado de um galho da oliveira. arrumou-se e seguiu de novo pelo corredor. quando bateu. correu para o meio do caminho. Era já bastante tarde quando deram pela sua falta. Todos os melhores pregadores o usam. estava em tiras. Os segundos passavam sem que os percebesse. nas horas já frias da tarde.

— Um homem precisa julgar primeiro a si próprio. — Eles são amigos.ao palácio do bispo. de fé e de caridade.. procurava explicar a Deus como aquilo acontecera. fora do silêncio. o bispo. fraternal e irônico sorriso: — Como um homem deve morrer. pode julgar se alguém fracassou. Não pude descê-lo. então. doutor — murmurou. Excelência. inclinado sobre o leito. e de que modo fracassara. — Ninguém. em Valenta. senão Deus. Vossa . mas fracassei. Pensei que talvez pudesse ainda estar vivo e procurei rezar com ele.. Agora a coisa que ele mais receava devia acontecer. Perguntou. Eu estava dormindo. Com dignidade e entre amigos. meu filho. Corri à sua procura e ele já estava dependurado. sem qualquer intenção maldosa.. não sabia que ele se fora. não tive forças para tal. — . Disse os atos de contrição e de amor. — Mas Deus decerto ouviu e se lembrará. — E depois entregar-se à misericórdia divina. Quis ajudá-lo. bispo de Valenta. com o seu velho. — É A minha última oportunidade... familiar. Anne de Sanctis. sorriu-lhe. A voz chegava até ele vinda da névoa. silêncio e. Olhou por sobre o ombro do bispo e viu-os todos reunidos ao pé da cama. A névoa desfez-se lentamente e a voz aproximou-se mais — e viu. o rosto de Aurélio. — Isso me alegra — disse Blaise Meredith.. Procurava explicar-se — e não justificar-se. Mas não ouviu. — Estou morrendo. Estendeu a mão descarnada e o bispo segurou-a entre as suas.. rolando a cabeça no travesseiro e voltando-se de novo para o bispo: — Nicholas Black. — Não. Aurélio. Nina Sanduzzi e o velho Anselmo em sua batina cheia de manchas. Depois.. debilmente: — Onde está o rapaz? — Com Rosetta — respondeu Nina em dialeto. na esperança de que os ouvisse e me acompanhasse na oração. devia falar tanto — observou Meyer. Mas não havia Deus: havia apenas névoa. — Eu fracassei... não me lembro do que aconteceu.. mas distante.. o eco de sua própria voz. com a estola sacramentai em torno do pescoço. Aldo Meyer. pois sabia que qualquer justificação era impossível —.

chamou os que se haviam retirado. Meredith recostou-se no travesseiro. enquanto o quarto se enchia lentamente do murmúrio das velhas orações para os espíritos que partem. segurando pequenas velas. que é o único alimento para a viagem mais longa do mundo. Após a absolvição. e todos se ajoelharam ao redor da cama. contendo seis laranjas douradas. Um presente de minha parte. enviar algumas a Sua Eminência. Em suas mãos. cerrou os olhos e cruzou as mãos. com voz bastante clara: — Tive medo durante tanto tempo! Agora é fácil. o bispo. atrás de sua mesa entalhada. Decorrido muito tempo. Talvez o ajudem a compreender. — Poderia Vossa Excelência confessar-me.Excelência lhe dará um sepultamento cristão? — Quem sou eu para repudiá-lo? — Eu.. quando os outros saíram do quarto. Aurélio.... Ele a estava lendo. o bispo de Valenta. sobre a qual o seu secretário acabara de colocar a correspondência do dia.. eu dirigi uma carta a Vossa Excelência. sobre o alvo travesseiro.. Meredith abriu os olhos e disse. — Eu a recebi. quando já haviam terminado.. enquanto o velho Padre Anselmo lhe dava o viático. — Está morto — disse Aldo Meyer. lentamente.. pela terceira vez: "... Tudo será feito. Lamento informar a Vossa Eminência que Monsenhor Blaise Meredith . Teve um leve estremecimento e sua cabeça pendeu frouxamente para o lado. tirou a ensebada estola do pescoço do Padre Anselmo e pô-la sobre os seus próprios ombros. — Farei isso. por favor? Estou muito cansado.. — Como estão as laranjas? — Amadurecendo bem. cada qual aninhada em algodão. depois. Ao seu lado. inclinou-se para ouvir o resto dos últimos pecados de Monsenhor Blaise Meredith.. — Deveria. O Cardeal Eugênio Marotta achava-se sentado em sua cadeira de espaldar alto. bispo de Valenta. tinha uma carta que lhe fora enviada por Sua Excelência Reverendíssima. Depois de recebê-lo. estava uma pequena caixa de madeira polida. — Está com Deus — comentou Aurélio.

O corpo de Monsenhor Meredith se encontra agora na Igreja de Nossa Senhora das Dores. esperamos ter mais dessas árvores para distribuir. em base cooperativa. e eu próprio farei uma recomendação especial. mas não tenho a menor dúvida sobre o bem que já se obteve devido à influência de Giacomo Nerone e do extinto Monsenhor Meredith. As laranjas que lhe envio são um último presente de Monsenhor Meredith. Sei que seu falecimento constituirá grande perda para Vossa Eminência e para a Igreja. No sentido terreno. . às nove horas da manhã. de onde sairá amanhã para ser sepultado em terra recém-consagrada. pelo menos no moral. um homem de grande santidade. sem dúvida. Pranteio-o como a um irmão. no verdadeiro sentido de nossa fé. Monsenhor Meredith interessou-se muito por esse trabalho e. Serão ditos. permanente.faleceu ontem. Antes de morrer. compreenderá a alusão. em plena posse de suas faculdades e após receber todos os sacramentos de nossa Santa Madre Igreja. vi claramente o dedo de Deus. provando que o mesmo era. se Deus quiser. insignificantes. como Vossa Eminência. encarregou-me de apresentar a Vossa Eminência suas desculpas pelo que chamava o malogro de sua missão. Estou ainda em dúvida sobre se se obterá algum benefício em se apresentar esta causa até mesmo ao Tribunal Ordinário. os ofícios usuais. Suas pesquisas lançaram grande luz sobre a vida e o caráter do servo de Deus Giaco-mo Nerone. que sou em geral cético. Não foi um malogro. Disse ele — eu o cito com exatidão: 'Talvez o ajudem a compreender. creio que gostaria de participar do mesmo. que foi o que se tornou para mim. Um sacerdote transviado voltou a Deus. Vossa Eminência. Seu pedido para que enviasse este presente foi feito em seu leito de morte. uma criança foi livrada de grande dano moral. em Gemello Minore. são muito importantes e nelas eu. Eu próprio oficiarei a missa e acompanharei o sepultamento. certamente. Sinto pela sua morte um pesar que só a morte de poucos homens me causou. em minhas missas. Possuía grande coragem. aos plantadores locais. singular honestidade de espírito e uma natureza de cujas riquezas jamais se apercebeu. se tivesse vivido. São de meu próprio pomar — os primeiros frutos de uma nova variedade que importamos da Califórnia. essas são coisas pequenas. e uma mulher desorientada e infeliz recebeu luzes suficientes para procurar remediar sua situação. Mas. No ano que vem. junto à tumba de Giacomo Nerone. se não no sentido canônico.

e escreveu. com seu espírito incisivo e com aquela ironia mais do que visível. disse-me: 'Roma é muito longe. com o pó das bibliotecas a cobrir-lhe espessamente o coração.. os que pecavam e os que amavam. a menos que firmemente gravados na estrutura viva da Igreja. O homem que morrera não era o mesmo homem que enviara para lá: um pedante ressequido.. encontrei a mim mesmo como homem e como sacerdote'. . mas os gonzos eram metal inútil. O bispo que fizera o primeiro pedido. É de meu conhecimento que Monsenhor Meredith certa vez pediu a Vossa Eminência para ser sepultado em sua igreja. Ou talvez fossem os mesmos homens. com capa de couro. Meredith". não era esse Aurélio. ao que parecia. sob a data do dia seguinte: "Recomendação na missa. Não sabia ler uma carta nem julgar um homem. Estava ficando velho. Sua Eminência pôs a carta sobre a mesa e recostou-se em sua cadeira. cujas pedras eram os pobres. os esquecidos dos príncipes. e somente ele houvesse mudado — outra vítima das tentações insidiosas dos príncipes: orgulho. e aqui. Aquele era um pensamento perturbador e ele prometeu voltar a ele à hora do seu exame de consciência vespertino. Cristo fizera bispos e um papa — mas jamais um cardeal. em Roma. A própria palavra contém mais do que uma sugestão de ilusão: cardo.sem dúvida. pela primeira vez. Seu fraternalmente em Cristo. poder. Na última carta que me escreveu. pensando nela. cegueira e frieza de coração.. desejará fazer nas que oficiar. os ignorantes. Sinto-me humilhado ao pensar que muitos dentre nós viveram muito mais e fizeram muito menos. Ou talvez tivesse vivido demasiado tempo em Roma. mas jamais os esquecidos de Deus. solicitando um advogado do Diabo. Era um homem metódico e agora tinha outras coisas a fazer. Como se fossem os gonzos sobre os quais foram colocadas as portas do céu. A razão da mudança que se operou em sua decisão talvez tenha algum interesse final. gonzo. os humildes. Tirou do bolso um caderno de notas. Aurélio ☨ Bispo de Valenta". na véspera de sua morte. Talvez pudessem ser gonzos..

o papa. da beatificação e canonização dos servos de Deus. Faltavam quinze minutos para as onze. para tratar. entre outras coisas. ordenando que seu automóvel o aguardasse à porta. .Depois guardou o caderno no bolso. Era a segunda sextafeira do mês e o prefeito da Sagrada Congregação dos Ritos tinha uma audiência com Sua Santidade. examinou rapidamente a correspondência e tocou a campainha.

Austrália. "A Salamandra" e "O herege" — tornou-se mundialmente conhecido. francês e história. E. Abandonando o hábito dois anos depois. Outro livro. como os problemas religiosos. Nessas obras. Como Arthur Hailey. e chegou a ordenar-se padre aos vinte e três anos. Nos três anos que se seguiram. a esperança. Por isso. alistou-se nas Forças Imperiais Australianas. um dos autores mais lidos em todo o mundo. "As sandálias do pescador". Após cursar duas universidades." Morris West. o mundo que nos cerca. aborda a Guerra do Vietnam e saiu no momento em que a intervenção americana naquele país começava a assumir proporções dramáticas. até 1953. E depois de cinco êxitos marcantes — "A segunda vitória". tornou-se professor de inglês. "0 advogado do Diabo". cujas primeiras linhas dizem "o papa morreu". Nascido em Melbourne. tem o hábito de documentar tudo o que escreve. West foi criado em ambiente católico pelos pais e tias. a esse cuidado. junta outro trunfo: escreve sempre sobre algum tema oportuno. faz questão de se considerar um escritor "com uma mensagem". mas deixou também a carreira militar para tornar-se produtor de programas de rádio. a fome e a injustiça. "O embaixador" (também editado pelo Círculo). aliando assim o destino de suas personagens às manchetes dos jornais. O homem é o centro de . Trabalhou por dez anos. onde atingiu o posto de tenente em pouco tempo. ainda que tênue. a perda da fé. "As sandálias do pescador" (todos publicados pelo Círculo). em 1916. Dispersas pelos seus romances. já então atraindo a atenção tanto do público como da crítica. foi lançado dois dias antes da morte do Papa João XXIII. ligando meus livros mais importantes. hã referências a praticamente todos os problemas contemporâneos e à realidade político-social de nossos dias. Morris West revelou ser um dos autores que dominam a fórmula mágica do "best seller". não se pode desmentir Morris West quando afirma: "Creio haver um fio. conseguiu publicar "Kundu" e "Filhos das trevas". na Rádio Nacional Australiana. O insucesso desse livro não desanimou West. o homem moderno. e em 1955 teve seu primeiro romance publicado: "Gallows on the sand" (em português: "Forca na areia"). a guerra.O AUTOR E SUA OBRA "Tenho escrito sobre as coisas que realmente me afligem.

http://groups. "A filha do silêncio".com/group/Viciados_em_Livros .google. Outras obras de Morris West já lançadas em português: "O verão do lobo vermelho".br/group/digitalsource http://groups. "O Navegante". "Escândalo na Igreja". "A Torre de Babel". "Proteu" (estes dois também editados pelo Círculo).google.com. "Arlequim". "Terra nua".toda a minha obra". "A concubina". "A estrada sinuosa".