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Revista Brasileira de Ensino de F´ ısica, v. 27, n. 1, p. 101 - 102, (2005) www.sbfisica.org.

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Einstein e a teoria de caos quˆntico a
(Einstein and the quantum chaos theory)

M.A.M. de Aguiar1
Instituto de F´ ısica ‘Gleb Wataghin’, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil O trabalho de Einstein intitulado Sobre o teorema quˆntico de Sommerfeld e de Epstein [1, 2], publicado em a 1917, prop˜e uma generaliza¸ao da regra de quantiza¸˜o de Bohr, Sommerfeld e Epstein para sistemas multidio c˜ ca mensionais integr´veis. Ao mesmo tempo, Einstein nota que sistemas n˜o-integr´veis n˜o podem ser quantizados a a a a dessa maneira. Essa observa¸ao indica pela primeira vez a n˜o trivialidade do limite semicl´ssico de sistemas c˜ a a ca´ticos, e pode ser considerado como pioneiro da teoria de caos quˆntico. o a Palavras-chave: Einstein, regras de quantiza¸ao, caos quˆntico. c˜ a Einstein’s paper On the quantum theorem of Sommerfeld and Epstein [1, 2], published in 1917, proposes a generalization of the quantization rule of Bohr, Sommerfeld and Epstein for multi-dimensional integrable systems. Einstein also points out that non-integrable systems could not be quantized with such rules. This observation indicates for the first time the non-triviality of the semiclassical limit of chaotic systems and can be considered a pioneer in the theory of quantum chaos. Keywords: Einstein, quantization rules, quantum chaos.

1. Introdu¸˜o ca
Einstein ´ conhecido por ter dado contribui¸˜es fune co damentais em v´rias ´reas da F´ a a ısica. Dessas contribui¸˜es, sua participa¸˜o na teoria de caos quˆntico, co ca a que praticamente nasce com esse trabalho de 1917 [1, 2], permanece ainda razoavelmente desconhecida. A percep¸ao de Einstein sobre os problemas conc˜ ceituais envolvidos na transi¸˜o cl´ssico-quˆntica de ca a a sistemas ca´ticos acontece antes da pr´pria teoria o o quˆntica estar completa e muito antes da teoria cl´ssica a a de sistemas ca´ticos ser reconhecida dentro da F´ o ısica. A teoria moderna de caos quˆntico de fato s´ se cona o solidaria cerca de 50 anos ap´s a publica¸˜o deste trao ca balho de Einstein, com a deriva¸˜o da famosa f´rmula ca o do tra¸o de Gutzwiller no in´ da d´cada de 70 [3, 4]. c ıcio e Para podermos apreciar a importˆncia deste traa balho, temos que nos lembrar do contexto em que foi publicado. Antes da formula¸˜o da teoria quˆntica, ca a buscavam-se maneiras de conciliar a mecˆnica cl´ssica a a com a observa¸˜o experimental da quantiza¸˜o dos ca ca n´ ıveis de energia dos ´tomos. As propostas de Bohr e a Sommerfeld indicavam que os movimentos permitidos no mundo microsc´pico eram apenas aqueles onde a ino tegral p dq sobre um per´ ıodo completo do movimento fosse um multiplo inteiro da constante de Planck. Essas ‘regras de quantiza¸˜o’ funcionavam bastante bem para ca
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o ´tomo de hidrogˆnio e para o oscilador harmˆnico, a e o mas tinham uma restri¸˜o cr´ ca ıtica: para aplic´-las, o a movimento cl´ssico deveria ser unidimensional ou mula tidimensional, mas separ´vel em algum sistema de coa ordenadas. Neste trabalho, Einstein d´ duas contribui¸˜es ima co portantes para a compreens˜o das regras de quana tiza¸˜o. A primeira consiste em estendˆ-las para sisca e temas n˜o separ´veis, desde que esses tivessem tantas a a constantes de movimento independentes quantos fossem seus graus de liberdade. Atualmente esses sistemas s˜o a ditos integr´veis. Nesse caso, Einstein mostrou que a a integral a ser calculada ´ p·dq , pois o integrando ´ um e e invariante canˆnico. A integral deveria ser feita sobre o diferentes circuitos fechados e irredut´ ıveis γk no espa¸o c de fases, devendo seu valor ser um m´ltiplo inteiro da u constante de Planck, nk h. A cada circuito deveria corresponder um n´mero quˆntico nk distinto. u a A segunda contribui¸˜o de Einstein ´ simplesmente ca e observar que quando o sistema cl´ssico n˜o possui o a a n´mero necess´rio de constantes de movimento (como u a Poincar´ j´ havia apontado para o problema de trˆs e a e corpos), nem mesmo a sua regra de quantiza¸˜o se aplica caria e n˜o se sabia como proceder para ‘quantizar’ o a sistema. Com o aparecimento da equa¸˜o de Schr¨dinger e ca o da interpreta¸˜o de Copenhagen da mecˆnica quˆntica, ca a a

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muitos proa gressos e aplica¸˜es deste estudo. 12.C. que mostrou que. [3] M. Les Houches. Session XXXVI.B. 10. essa quest˜o ıcio e a ficou esquecida. Brillouin e Keller [1. [6] J. tˆm sido feitos desde ent˜o. 11. Phys. Gutzwiller. a Referˆncias e [1] A. Ioss. Math Phys. Bras. Mostra-se que a regra EBK ´ exata e para movimentos harmˆnicos e uma boa aproxima¸˜o o ca para os movimentos radiais e angulares do ´tomo de a hidrogˆnio. Sistemas Hamiltonianos: Caos e Quantiza¸ao (Editora da Unicamp. 180 (1958). conhecida hoje como EBK – de Einstein. 6. ıs. 103 (2005). 343 (1971). Sistemas t˜o simples quanto um a pˆndulo duplo ou uma part´ e ıcula movendo-se livremente dentro de fronteira com a forma de um est´dio apresena tavam movimentos ca´ticos [8]. 353 (1926). quando ca o a valores t´ ıpicos da integral de a¸˜o. com tantos outros problemas fascinantes movimentando a F´ ısica do in´ do s´culo. Einstein. E mais uma vez a e a admiramos a intui¸˜o e a sabedoria de Albert Einsca tein. Deutsche Physikalische Gesellschaft Verhandlungen 19. A cada sisa ca tema associava-se um operador Hamiltoniano cujos autovalores eram as energias procuradas. s˜o muito ca a maiores do que . in Chaotic Behavior of Deterministic Systems. 4. J. [8] M. Ens. o o a Aguiar Embora a conex˜o cl´ssico-quˆntica de sistema ca´ticos a a a o n˜o esteja ainda totalmente compreendida. Berry. de F´ 27.M. 171 (1983). Phys. editado por G. J. c˜ traduzido de Hamiltonian Systems: Chaos and Quantization (Cambridge University Press. no limite semicl´ssico. Chaos in Classical and Quantum Physics (Springer. batizado de caos co quˆntico.C. 1989). nem tudo estava resolvido: se o limite semicl´ssico de um sistema integr´vel fornece as regras a a EBK. A regra de Einstein. 5. p. o com certeza Einstein a teria encontrado imediatamente! No entanto. a densidade a quˆntica de n´ a ıveis de energia est´ relacionada com o a conjunto das ´rbitas peri´dicas do sistema cl´ssico. p · dq. Brillouin. Stora. 1791 (1970).H. Einstein. Radium 7. R. que soube enxergar a complexidade desta quest˜o a cinco d´cadas antes da comunidade dos f´ e ısicos estar preparada para trat´-la. Ann. . [2] A. [7] A. Ozorio de Almeida.102 a quest˜o da quantiza¸˜o estava resolvida. Keller. 1990).V. New York. como ficaria o limite semicl´ssico de um sistema a ca´tico? Se a resposta a essa pergunta fosse simples. 1004 (1969). Sua retomada aconteceu apenas com a percep¸˜o de que sistemas n˜o-integr´veis eram a maioca a a ria dentro da F´ ısica. Helleman e R. 1990).G. 7] – poderia ser obtida formalmente da equa¸˜o de Schr¨dinger no limite semicl´ssico. o O passo fundamental para a solu¸˜o do problema ca vislumbrado por Einstein veio com Gutzwiller [3]. [4] M. Gutzwiller. 82 (1917). Rev. [5] L. e No entanto.