PADRÕES DE CONCORRÊNCIA E COMPETITIVIDADE * David Kupfer

1. Introdução Este texto visa discutir alguns aspectos relacionados ao fenômeno da competitividade, em particular a forte tendência encontrada na literatura recente de identificá-la com algum conjunto de indicadores de desempenho ou eficiência industrial, em detrimento da busca de construção de um estatuto teórico próprio para o conceito. A principal insuficiência que decorre da opção assumida pela literatura reside na redução da noção de competitividade a algo que se esgota no produto ou na firma que o produz. Na verdade, e essa é a proposição central deste trabalho, a riqueza do conceito reside na sua percepção como um fenômeno que se plasma no âmbito da indústria, vale dizer, no conjunto de firmas que a constitui, e no mercado, este último não simplesmente como parcela de demanda a ser conquistada ou mantida pela firma, mas como o verdadeiro espaço de concorrência inter-capitalista. Chudnovsky (1990), cotejando treze definições de competitividade recolhidas da literatura recente, propõe a existência de enfoques microeconômicos e macroeconômicos do conceito. No enfoque microeconômico, alinham-se as definições de competitividade centradas sobre a firma. São as definições que associam competitividade à aptidão de uma firma no projeto, produção e vendas de um determinado produto em relação aos seus concorrentes. Essas definições, mesmo que para alguns possam ser generalizadas, por extensão, a países, têm sempre na empresa o sujeito. No enfoque macroeconômico, competitividade aparece como a capacidade de economias nacionais de apresentarem certos resultados econômicos, em alguns casos puramente relacionados com o comércio internacional, em outros, mais amplos, com a elevação de nível de vida e o bem estar social (Chudnovsky, 1990, pg 8). No enfoque micro, comenta o autor, o sujeito - a firma - é claramente identificável e seus gestores são univocamente seus proprietários ou executivos por esses nomeados. Estes por sua vez fixam estratégias e tomam as decisões compatíveis que, em última instância, irão se refletir sobre o volume de vendas, entenda-se, na participação no mercado ou nas margens de lucro, até porque a longo prazo deve-se esperar uma correlação positiva entre essas duas grandezas (Chudnovsky, 1990, pg 8). Para o autor, a competitividade não ofereceria maiores dificuldades em ser conceituada em nível microeconômico. O mesmo não ocorreria com o enfoque "macro" da competitividade, esse sim complexo e problemático. As posições desenvolvidas neste trabalho consideram essa visão no mínimo otimista, pois postula-se que mesmo em nível microeconômico o estabelecimento de uma noção precisa e operacionalizável de competitividade encerra dificuldades ainda longe de serem superadas. A seleção de estratégias competitivas e a tomada de decisão empresarial está longe de ser um processo trivial, mormente em ambientes sujeitos a inovação tecnológica, pois as informações que condicionam esse processo não podem ser completamente obtidas dos sinais emitidos a cada instante pelo mercado. A noção de competitividade, portanto, não pode prescindir de fundamentos microeconômicos genéricos, que sejam pertinentes com suas particularidades enquanto objeto analítico. Esses fundamentos, por sua vez, são demarcados pela dinâmica do processo de concorrência, em particular, pela interação entre as condições estruturais que
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Versão ligeiramente revista do Texto para Discussão 265, IEI/UFRJ, publicado nos Anais do XX Encontro Nacional da ANPEC, Campos de Jordão, SP.

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a competitividade é de alguma forma expressa na participação no mercado (market-share) alcançada por uma firma em um mercado em um momento do tempo. estará definindo a posição competitiva das empresas. abrangências e preocupações às quais se busca associá-la que não é sem razão que os trabalhos sobre o tema têm por norma iniciarem estabelecendo uma definição própria para o conceito. Nessa versão eficiência. competitividade ainda é um conceito virtualmente indefinido.) conforme as fontes que a originam. estará definindo a sua competitividade. ao escolher as técnicas que utiliza. gerencial. submetido às r estrições impostas pela sua capacitação tecnológica. aparato institucional público e privado. 2. esquemas institucionais. ie. ao arbitrar quais produtos de quais empresas serão adquiridos. podem ser extremamente abrangentes como sugere ao afirmar que competem no mercado (internacional) não apenas empresas ma s sistemas produtivos.o direcionam e as condutas inovativas das empresas que o transformam. . etc. São tantos os enfoques. já que esta depende de muitos outros fatores. Em ampla resenha sobre o assunto. financeira e comercial. O texto a seguir enfoca alguns desses fundamentos. sugere-se alguns elementos preliminares de um enfoque alternativo no qual competitividade é referenciada à dinâmica da concorrência e a uma formulação exploratória da sua relação com padrões de concorrência. busca-se de alguma forma traduzir a competitividade através da relação insumo -produto praticada pela firma. Na primeira visão. subsídios. ii) competitividade como eficiência . O Debate sobre Competitividade Apesar de aparentemente trivial. comerciais e de marketing que as empresas tenham realizado. porém atribuindo-lhe os qualificativos de autêntica (aumento de produtividade via progresso técnico) ou espúria (baixos salários. Por fim. é o produtor que. na capacidade da empresa de converter insumos em produtos com o máximo de rendimento. a eficiência na utilização de recursos produtivos definiria algumas das eventuais fontes de competitividade existentes em uma firma/indústria. Para os que entendem a competitividade como desempenho. em particular no caso da competitividade internacional. Inicialmente. sancionando ou não as ações produtivas. qualidade (ou a relação preço-qualidade). Fajnzylber (1988). por exemplo. raciocina nessa linha ao avaliar competitividade como desempenho. É sabido que a possibilidade de conciliação analítica entre as duas visões encontram obstáculos. Na segunda visão.nessa vertente. discute-se as noções de concorrência presentes na teoria microeconômica e enfatiza-se suas principais limitações para o tratamento da competitividade. mapeia-se alguns pontos do debate sobre competitividade pertinentes à abordagem proposta. é a demanda no mercado que. sistema financeiro. etc. Os fatores determinantes da competitividade. infra-estrutura de PeD. Haguenauer (1989) organiza os vários conceitos de competitividade em duas famílias: i) competitividade como desempenho . muitos deles subjetivos ou não mensuráveis. mas nunca a competitividade em si. salários. A participação das exportações da firma ou conjunto de firmas (indústria) no comércio internacional total da mercadoria apareceria como seu indicador mais imediato. Em seguida. taxa de câmbio. a competitividade é associada à capacidade de uma firma/indústria de produzir bens com maior eficácia que os concorrentes no que se refere a preços. tecnologia.nessa versão. estando relacionada às condições gerais ou específicas em que se realiza a produção da firma/indústria vis a vis a concorrência. e produtividade. para o autor. organizações sociais e que a competitividade depende também de externalidades como o sistema educacional.

é o resultado de um vasto conjunto de fatores. que é o domínio de técnicas mais produtivas que. como um fenômeno ex-post. o problema é de natureza distinta. Há. Sendo assim. isto é. Significa isso que o grau de eficiência de uma firma em um dado momento 3 . não há preferência dos consumidores por marcas. Na verdade. mas às insuficiências apresentadas por ambas. Poder-se-ia generalizar a idéia. Assim sendo. O desempenho no mercado "seria uma provável conseqüência da competitividade e não sua expressão" (Haguenauer. mesmo que no longo prazo. é possível visualizar que as relações entre competitividade e desempenho ou eficiência são fundamentalmente tautológicas.estes últimos incluem qualidade de produtos e de fabricação e outros similares. dentre os quais a eficiência técnica produtiva é apenas um deles e nem sempre o mais importante. (Veja-se Haguenauer(1989) ou Possas (1989)). competitividade é um fenômeno ex-ante. em custos fixos para a empresa. não é possível estabelecer relações diretas de causalidade (não tautológicas) entre ela e outras variáveis igualmente conhecidas "a posteriori". Na outra versão.Para os que advogam a versão desempenho. não há discriminação de preços nos mercados e outras premissas pouco realistas. inicialmente. a habilidade de servir ao mercado e a capacidade de diferenciação de produtos. Concretamente. Com isso. como de alto valor e grande incerteza". um dos determinantes mais importantes do desempenho EX-POST de várias formas é o grau de sucesso efetivamente obtido em investimentos que se apresentam. escopo. A tautologia fica evidente quando se questiona os dois lados da possível relação: se é competitiva a firma que domina ou cresce no mercado. é um grau de capacitação detido pelas firmas.. em sua maior parte. a eficiência aparece como um conceito simétrico ao de economias empresariais internas (escala. O problema está em incorporar nessa abordagem as estratégias empresariais em contexto dinâmico. Sendo assim. a incompatibilidade entre as duas vertentes conceituais pode ser resumida ao seguinte dilema: . no entanto. fatores esses parcial ou totalmente subjetivos. competitividade. para quem ". "Em diversos mercados as empresas competem ao longo do tempo dispendendo recursos com o propósito de reduzir seus custos". que se traduz.. é igualmente correto que irá dominar ou crescer no mercado justamente a firma que é competitiva. como market-share. outra ordem de problemas com o conceito de competitividade. Em análise dinâmica. como sugere Mancke (1974). em última instância. Na versão desempenho. que se traduz nas técnicas por elas praticadas. nas versões modernizadas). Considera-se.1989). que leva em conta o fato de que uma redução de custos produtivos exige algum gasto prévio. que não está relacionada às dificuldades teóricas de conciliação das vertentes desempenho e eficiência. representa a causa última da competitividade. por sua vez. . em maior participação no mercado implica aceitar os cânones da concorrência perfeita (ou contestabilidade perfeita. entendendo-se que firmas competem através do tempo dispendendo recursos com o propósito de financiar suas estratégias competitivas.Em termos práticos. Spence (1988) trabalha com um conceito de dynamic technical efficiency. taxa de crescimento. lucratividade ou qualquer outra variável de mesma natureza. eficiência. assim. Isto implica aceitar que inexistem barreiras à entrada e à saída de qualquer natureza no mercado considerado. o que explicaria as diferenças de desempenho entre as firmas seria a taxa de sucesso dos investimentos escolhidos. competitividade é uma variável que sintetiza fatores preço e não preço . decorrentes do tratamento estático que lhes é habitualmente conferido. ie. acreditar que a maior eficiência produtiva se traduza. o problema surge do fato da competitividade ser uma grandeza "ex-post". a discussão sobre eficiência está sempre associada à análise das condições da oferta no que toca as estruturas de custos e suas variações. no sentido de que há total mobilidade do capital. habilita uma empresa a competir com sucesso. aprendizado e outras). gerenciais.Para os que seguem a vertente "eficiência".

mas só posteriormente o desempenho no mercado sancionará o acerto ou erro da escolha. as firmas escolhem estratégias competitivas em função de suas expectativas quanto às que lhe pareçam mais eficientes. competitividade deve ser entendida como um fenômeno direta e indissoluvelmente ligado ao processo de concorrência. dos resultados das diferentes estratégias competitivas adotadas pelas firmas. constata-se que a análise da competitividade possui caráter intertemporal incontornável. a relativa. Nesta direção. Dessa forma.está determinada pelas estratégias competitivas adotadas pela firma em um tempo anterior. Ainda no âmbito da firma. as decisões se dão no tempo. posto que ambos se reduzem à mensuração. só pode igualmente ser conhecida a posteriori. os conceitos de desempenho e eficiência são insuficientes para a discussão sobre competitividade. não há como retirar do centro da discussão o processo de decisão desses gastos. A entrada em cena das noções de tempo e de expectativas exige uma formulação teórica própria e radicalmente distinta das acima mencionadas. portanto. Isto porque considera-se que o futuro é parcialmente desconhecido para as empresas e. De fato. O que se está postulando é que mais importante do que o esclarecimento de divergências de natureza instrumental quanto à correlação da competitividade com o desempenho ou a eficiência de um produto/firma em um mercado. mesmo a tecnologia não é uma panancéia que assegura o sucesso na conquista ou manutenção de mercados. em pontos distintos da seqüência intertemporal. são o resultado de estratégias específicas adotadas em um momento anterior. que necessariamente depende de expectativas quanto ao futuro por parte dos empresários e. tanto as características tecnológicas do processo de produção quanto as formas específicas de comercialização. a técnica mais produtiva. sugere-se que competitividade não pode ser entendida como uma característica intrínseca de um produto ou de uma firma. estando também relacionada ao padrão de concorrência vigente n mercado específico o considerado. a variável determinante e a competitividade a variável determinada ou de resultado. Como princípio geral. As próximas seções dedicam-se a assinalar alguns comentários sobre esses pontos. se dá sob incerteza. Em suma. tautologicamente. se estão dadas em um momento do tempo para as firmas de um setor industrial. a operacionalização de um conceito de competitividade dentro desse princípio geral exige o estabelecimento de uma série de pontos referentes às noções de concorrência e padrões de concorrência. . entende-se ser a competitividade um conceito dotado de uma dimensão extrínseca à firma ou ao produto. mormente quando se busca incorporar a presença de inovação tecnológica no processo competitivo. O objetivo central deste capítulo é desenvolver uma definição de competitividade como sendo a adequação das estratégias adotadas pela firma em relação ao padrão de concorrência vigente na(s) indústria(s) considerada(s). portanto. Aceitando-se essas ponderações. portanto. a mais competitiva dentre as técnicas existentes. mas não expressam somente escolhas intertemporais ótimas. É o padrão de concorrência. é avançar no desenvolvimento de uma abordagem dinâmica da competitividade que incorpore os aspectos acima mencionados. Além disso. Ao contrário. que não se esgota em vinculações ex-ante ou ex-post. Enfim. No entanto. de grande complexidade. as decisões são tomadas com base em expectativas incertas. cuja adoção asseguraria a competitividade. isto é. ao envolver os gastos realizados pela firma. tanto mais porque a best-practice relevante neste campo não é a absoluta (a mais avançada das técnicas disponíveis) mas. Dado uma situação concorrencial.

). de funções de produção com rendimentos constantes de escala. Desde a sua formulação pioneira.A. N. Como sintetiza Reid. a estrutura é representada exclusivamente por uma única variável C (uma medida de concentração. no que toca a baixa aderência de suas premissas à realidade econômica observada.A. baseada no atomismo. Bain (1959) captura a essência do paradigma ao afirmar que "Num mundo onde as curvas de demanda são negativamente inclinadas as curvas de custo têm a forma de L e as empresas buscam maximizar lucros. basicamente ligadas à determinação de preços-limite na presença de barreiras à entrada. Na tradição neoclássica. garante-se a existência desse vetor. subordinada à determinação da existência de um vetor de preços que compatibilize as decisões individuais. A partir das formulações pioneiras de Bain. É consensual para os microeconomistas o caráter seminal da obra de Joe S. pode-se logicamente esperar (como se também verificar) que. de modo geral.). como propaganda e pesquisa e desenvolvimento. e supondo-se que os agentes são tomadores de preços. foram surgindo diversas revisões das proposições neoclássicas originais. Bain na constituição da metodologia estrutura-conduta-desempenho como ferramenta básica de análise de organização industrial.tanto mais recheadas de ambiguidades quanto mais se queira aproximá -las da realidade . Em particular. a noção de concorrência apresenta-se como um objeto analítico que insiste em se situar além da capacidade explicativa das formulações teóricas disponíveis. N. a interação da conduta das empresas que competem no mesmo mercado e o desempenho final que emerge da indústria. principalmente quanto aos elementos de conduta. O aprofundamento consistiu. a conduta é ignorada e o desempenho é avaliado em termos do desvio de r em relação ao r* de referência" (desvio da taxa de lucro efetiva em relação a taxa ideal em eficiência alocativa segundo o ótimo de Pareto. influenciam a conduta das firmas na maximização de lucros. que depois passou a ser reconhecida como hipótese estruturalista básica. em particular. Para Davies and Lyons (1988). a construção do conceito de concorrência encerra uma grande complexidade. ao menos para economistas não filiados à ortodoxia microeconômica. Do debate quanto à existência de preferência dos consumidores. é justificável a adoção da hipótese de concorrência perfeita. de estruturas oligopolistas estáveis e outras. indústria e mercado. formalmente similar à suposição de que todos os agentes sejam tomadores de preço. às indústrias e aos mercados. basicamente. e não somente à política de preços das 5 . Desde as noções que lhe são preliminares como as de firma. as condutas não importavam. É sob este paradigma que a organização industrial (ou economia industrial) consolidou-se como uma disciplina da ciência econômica. as teorias de E-C-D foram se aprofundando mas também se diversificando. a teoria da firma está. na ampliação das variáveis incluídas no esquema analítico original. diante deste pano de fundo. com algumas suposições acerca das preferências dos agentes e das características das técnicas produtivas. a ponto de se considerar que a estrutura determinava direta e inequivocamente o desempenho do mercado.até a identificação das variáveis básicas descritivas das estruturas dos mercados e das condutas das empresas. as proposições do tipo Estrutura-Conduta-Desempenho (E-C-D) passaram a ocupar o posto de paradigma teórico por excelência das teorias microeconômicas auto-rotuladas como verdadeiramente preocupadas com as questões práticas ligadas às empresas. "neste modelo muito simples." Na tradição de Bain. . Neste nível de abstração. as estruturas de mercado. A partir da década de 50. o modelo de concorrência perfeita foi alvo de severo questionamento. As Noções de Concorrência na Teoria Microeconômica É indiscutível que.3.

preços ou outras variáveis. Claro está que a força organizadora de um modelo teórico em que "tudo depende de tudo o mais" sai enfraquecida diante da múltipla causalidade das relações e da necessidade de encontrar soluções simultâneas para essas relações. um dado grau de concentração de uma indústria pode abrigar variadas distribuições de tamanhos das empresas. Isso por sua vez implica que tanto o grau de concentração quanto os lucros sejam variáveis endogenamente determinadas e não possam guardar relações de causalidade pré-definidas. para uma indústria em equilíbrio. conduta e desempenho. acabaram por desfigurá-la seriamente. o preço de mercado e os outputs de todas as firmas. funções de demanda e de expectativas que mantenham sobre a conduta das firmas rivais. Segundo Davies e Lyons (1988). Como ademais. essas variáveis incluiriam a própria conduta das firmas. E ainda mais. que se expressavam em uma relação interativa entre as variáveis de estrutura. Com isso. na teoria dos jogos (que os autores denomimam New Industrial Organization). Uma das lacunas dos enfoques E-C-D pioneiros surgia do desprezo conferido a qualquer influência significativa que as condutas das firmas pudessem jogar no processo de concorrência. Ambas dependem. as tentativas de completar a teoria. Conforme aponta Gerosky (1988). já na decada de 70. na qual as premissas do tipo E-C-D foram deixadas de lado. um objeto de difícil apreensão. onde o conhecimento das particularidades do objeto estudado propiciaria a identificação das principais conexões causais e o descarte das demais. se cada firma escolhe seu nível de produção (e preços) em função de suas curvas de custos. A busca desse aprofundamento expressou-se na realização intensiva de pesquisas empíricas de corte econométrico. resgatando assim os modelos de . Essa constatação jogou o mainstream das teorias de organização industrial em um beco sem saída pavimentado por inúmeros estudos de caso pouco generalizáveis.1988). De certa forma. na verdade. a noção de concorrência ver-se-ia obrigada a dar conta de variáveis muito mais complexas. passou-se a avaliar empiricamente todos os possíveis feed-backs entre as três categorias. as funções demanda e as expectativas de ação e reação dos concorrentes que cada empresa apresenta. empiricamente. O problema é que. ao contrário de bem sucedidas. Neste processo. A hipótese da endogeneidade constituiu o ponto de partida. Isso só poderia ser analiticamente apreendido em situações concretas de mercado. em particular durante a década de 60. Uma outra lacuna do paradigma E-C-D era a sua incapacidade de lidar com a existência de diferenciais de lucratividade entre empresas em uma mesma indústria. de certa forma. de forma cooperativa ou não. o questionamento crítico de alguns supostos fundamentais da teoria terminou por expor graves lacunas na concepção original. das variáveis exógenas. baseada em expectativas de ação e reação. tornando questionável o próprio objeto das análises de E-C-D (sobre esse tópico ver Gerosky. Este movimento. formula-se um comportamento de equilíbrio das firmas onde estas ajustam quantidades. assumidas como sendo as curvas de custo. Mas certos resultados empíricos e. não há porque imaginar que todas as firmas de uma indústria concentrada partilhem igualmente esses lucros excessivos entre si. sendo pertinente a questão da endogeneidade. contribuiu inicialmente para ampliar a crença no poder explicativo do enfoque E-C-D e tornar ma is abrangente o seu escopo normativo. Mas o principal questionamento com que o paradigma se defrontou foi a chamada questão da endogeneidade. Mesmo que se aceite correlação positiva entre grau de concentração e lucros excessivos em uma indústria. pareceria mais pertinente que a unidade analítica adequada para as análises de organização industrial passasem a ser as grandes empresas e não mais as indústrias. são conjuntamente determinados.empresas. Claro está que. A resposta foi a aceitação da existência de causalidades menos rígidas. de uma corrente alternativa de análise da organização industrial baseada em teoria dos jogos. muitas das grandes firmas são diversificadas. certos questionamentos teóricos levaram a um processo de revisão do paradigma e a busca de diversificação das teorias de organização industrial. principalmente.

funções de custos. um dos seus mais entusiasmados defensores. postulavam a concorrência como um estado (nas versões ortodoxas) ou um processo (nas versões não ortodoxas) no qual as firmas agiam de forma "bem comportada". Comparado metodologicamente com o paradigma E -C-D. as condições básicas e as condutas são as variáveis exógenas na teoria dos jogos. como realçam os autores. A teoria da contestabilidade levava a conclusões literalmente inversas ao pensamento habitual. as teorias de organização industrial. Em outras palavras. o mecanismo de equilíbrio na contestabilidade é devido à entrada e saída de empresas nas indústrias em que a configuração endógena resultante é "não sustentável". bem como os objetivos de política industrial. a ponto desse autor. muitos economistas permaneceram fiéis ao paradigma E-C-D. Para Geroski. As condutas são firmemente baseadas em expectativas.p. apoiada no instrumental da teoria dos jogos. se auto-qualificar como um behaviourista (Scherer.1988. 1988). Nash ou outros.Cournot. neoclássicas ou de organização industrial. Para essa teoria. Em outras palavras. Verifica-se assim que a visão microeconômica dominante escorou-se nos preceitos de teorias de concorrência que. a estrutura da indústria é o resultado da determinação conjunta dos "planos" de produção (preços e quantidades) das firmas que a constituem. Mas a verdade é que a chegada dos anos 80 encontrou o "mainstream" seriamente fragmentado. Também aqui. "tanto como um programa de pesquisa como um guia para a ação. por mais que se distinguissem em termos de hipóteses. enfatizava a tal ponto a rivalidade concorrencial.166). o paradigma estruturadesempenho teve muito sucesso. Com Scherer. expressos nas teorias de contestabilidade. no entanto. o monopólio resultante é socialmente ótimo desde que a subaditividade seja a única razão que desestimule a entrada de novos concorrentes. A corrente autodenominada Nova Organização Industrial. para muitos o responsável pelo mais completo e preciso manual dessa linha teórica. O equilíbrio é assim assegurado pela existência de free competition no sentido clássico e não propriamente por ações e reações das empresas rivais em uma dada indústria. Forneceu um conjunto estruturado de idéias e conceitos. Já na década de 70. duopólios). 1970). formulações. Bertrand. Diferentemente da teoria dos jogos. o importante nas teorias de mercados contestáveis é a concorrência potencial e não a real e esta é definida pela existência ou não de sunk-costs significativos para o entrante. ser introduzidas incertezas quanto ao futuro (Se bem que. em particular os sunk-costs) dos mercados. como é feito em jogos mais sofisticados. o mainstream das teorias microeconômicas. basicamente ligados aos primórdios das teorias do oligopólio (em geral. se a função de custos é subaditiva em toda a faixa relevante de quantidades transacionadas na indústria. competitividade internacional e outros de apreensão muito além do arsenal analítico disponível nas teorias 7 . expressa em suposições sobre as condutas das empresas. podendo. enredada em discussões de natureza muito mais estatísticas que econômicas. A questão da endogeneidade levou a outros desdobramentos. que levou um dos seus principais teóricos a perguntar: "Does market structure matter?" (Schmalensee. mais no sentido do risco de Knigth (1921) do que da incerteza propriamente dita (Davies e Lyons. A vertente empiricista econométrica mostrava-se esgotada. Apesar de todas as críticas acima sumarizadas. cumprindo com exatidão as determinações impostas pelas especificidades estruturais de seus mercados de atuação ou por regras de conduta calcadas na busca do equilíbrio. enquanto a estrutura e o desempenho são as variáveis endógenas. um volume impressionante de resultados empíricos que sugerem que a estrutura de mercado está sistematicamente relacionada com o desempenho no mercado e levou os formuladores de política a se preocuparem com o nível e o aumento na concentração industrial na definição de seus objetivos políticos" (Geroski. passaram a deparar-se firmemente com temas como o progresso técnico. modelagens e conclusões. o paradigma E -C-D havia perdido causalidade. estrutura e mesmo condutas pouco importam porque o desempenho é consequência das condições básicas (entenda-se. apresentavam um importante ponto em comum: o caráter determinístico das condutas empresariais.1988). Por exemplo.

por exemplo. implica um marco analítico estático ou estático-comparativo. ao postular a existência e a unicidade de um equilíbrio de mercado. nas análises tradicionais abstrai-se a existência do tempo. posto a existência de uma defasagem temporal entre a decisão de investimento e o momento em que este começará a render seus frutos. Salvo s o longo prazo puder ser reduzido a uma sequência de curtos e prazos independentes. posto que se a firma conhece os custos envolvidos. Desta forma. em sintonia com o debate macroeconômico da época. portanto. o preço dos insumos e o conjunto de estratégias possíveis das demais firmas. a curva de demanda e os preços relativos a fim de decidir sobre um conjunto ótimo de estratégias a serem selecionadas. como as de produção. Como aponta Guimarães (1979). essa premissa limita de forma irreal a tomada de decisão das empresas (mesmo que elas pudessem conhecer com certeza esse valor). as expectativas das firmas acerca do futuro são essenciais para a análise do processo de concorrência. impõem limitações severas ao escopo das formulações teóricas daí derivadas. A questão aqui colocada não se refere à existência de informação incompleta por parte dos agentes. de outra função objetivo qualquer. o relevante para o processo decisório é a expectativa por elas nutridas quanto ao comportamento futuro das mesmas. as receitas obtidas só poderão ser conhecidas ao final do período. . mesmo na tradição neoclássica. Neste caso. Apesar de interessante para a discussão sobre a determinação dos preços em mercados oligopolizados. deixando de lado o processo de crescimento da firma. a curva de demanda. supõe-se. A adoção de hipóteses de condutas maximizadoras por parte das firmas implica: a) supor condições de acesso e processamento de informações muito mais amplas e menos onerosas do que pode se esperar na prática e b) condições de previsão do futuro muito mais certeiras que um mundo de incertezas é capaz de proporcionar. por s ua vez. esta abstração é justificável. sejam elas de produção ou de investimento. a tradição do equilíbrio parcial conduz à abstração de diversos elementos fundamentais para a análise do processo de concorrência das firmas. passou-se a buscar meios de incluir a incerteza quanto ao futuro nessas formulações teóricas. De fato. até porque o processo de crescimento é em si mesmo "desestabilizador" e. deve ser substituída por "maximização das expectativas de taxa de lucros" (ou da função objetivo considerada). mesmo que aceitas tão somente como hipóteses de trabalho. que os agentes conheçam as técnicas alternativas. e a venda do produto. já que o cálculo marginal somente é adequado a condições estáveis (ou previsíveis) das curvas de oferta e demanda (deslocamentos ao longo da curva e não deslocamentos das curvas). A rigor. pois o máximo de uma função só pode ser determinado para um período de tempo pré-determinado. O marginalismo como método de cálculo. Essas condições estáveis. o método do "mainstream" se apoia na premissa de maximização de alguma função objetivo como regra de conduta das empresas e no marginalismo como regra de cálculo empresarial. mas não na análise do processo de concorrência. Além disso. Se de fato é razoável assumir que as firmas conheçam estas variáveis no momento da decisão de investimento.E-C-D e suas revisões. A própria análise de barreiras à entrada elaborada por Bain (1951) supunha uma condição de entrada na qual as firmas entrantes potenciais decidiam com base na expectativa de lucros a serem obtidos imediatamente após a entrada. mas sim à existência de uma defasagem temporal entre a tomada de decisões por parte da firma. Mais ainda. como as vendas). o "mainstream" microeconômico sempre se mostrou mais preocupado com o fenômeno da formação dos preços. justificável na discussão de algumas questões. a suposição de um comportamento maximizador por parte das firmas implica a introdução de uma temporalidade definida. obviamente. como os dos insumos contratados. nem mesmo na discussão sobre as decisões de curto prazo. No que se refere à decisão de investimento. regra geral. Em essência. a hipótese de "maximização da taxa de lucros" (ou como nas derivações dessa tradição. E não poderia ser diferente. particularmente ao assumir como conhecidos pelas firmas as técnicas de produção existentes.

lideradas por um cescente grupo de autores ditos evolucionistas ou "neoschumpeterianos". fato que indica que ainda há um longo caminho a percorrer. 4. neste contexto. em termos das variáveis-chave e das regularidades e causalidades relevantes são ainda pouco convergentes. entendida como "o motor básico da dinâmica capitalista. de forma exploratória. Essa mediação poderia ser traduzida na noção de padrão de concorrência. em enfatizar o papel da mudança tecnológica na conformação das estruturas de mercado e no processo de mudança estrutural ou na atribuição de papel ativo por parte das firmas na definição da direção dessas mudanças.1988). as tentativas de dar operacionalidade analítica ao enfoque não se revelaram ainda muito promissoras. A rejeição dessas premissas implica a ausência de equilíbrio e isso é incompatível com postulações mecanicistas. Se concordam em substituir a noção de equilíbrio pela de trajetórias de evolução. só recentemente começaram a ganhar corpo teorias realmente independentes dessa concepção.1985). mediado pelas estruturas de mercado. as formalizações dessas relacões. mercado. ie. o objeto privilegiado de reflexão é o impacto deste sobre a atividade econômica e os eventos são tratados como sendo fundamentalmente de natureza cumulativa. o processo definidor das margens de lucro: é o processo de enfrentamento dos vários capitais (as firmas) em um espaço econômico (a indústria ou o mercado). aborda-se de forma bastante específica dois aspectos centrais da relação entre empresa.não pode ser suficientemente apreendido pela estática comparativa (a respeito da inclusão do progresso técnico neste comentário. um programa de pesquisas muito amplo e. Entretanto. acima formuladas. As tentativas de teorizar sobre o desequilíbrio por parte desses autores têm estimulado a construção de um novo paradigma microeconômico de natureza não determinístico. Este é. apesar das críticas externas ao paradigma E-CD. que os distinguem entre si no processo competitivo" (Possas. cuja conciliação está longe de ser alcançada. claramente. Mas é exatamente das sugestões trazidas por esses autores que se vai buscar extrair critérios para o tratamento conjunto da concorrência e da competitividade. como sugere Possas (1985). Com esse intuito. concorrência e competitividade: a noção de padrões de concorrência e o papel da incerteza na decisão microeconômica. E o caminho que tem se mostrado mais profícuo é o que toma por base visões evolucionistas do processo de concorrência: a preocupação central é com a lógica do processo de inovação. Busca-se aqui organizar esses argumentos. isto se deve à existência de uma teoria da firma e de uma teoria das estruturas de mercado. já estarem postas sobre a mesa do debate há várias décadas. pois aí se configuram as especificidades dos ramos de atividade capitalista. . 9 . Segundo Possas. que "determina" tanto a inserção da firma na estrutura produtiva (tipo de produtos. seus resultados são ainda muito dispersas. visando desenvolver um conceito de competitividade compatível com o processo de concorrência capitalista na presença de inovações tecnológicas e com as formulações microeconômicas que visam analisá-lo. veja-se Possas. Padrões de Concorrência Se interessa entender a concorrência como o processo de enfrentame nto dos vários blocos de capital. O princípio unificador sugerido pelo autor para esses dois enfoques teóricos seria a noção de concorrência. Em Busca de um Enfoque Alternativo Esta seção apresenta uma tentativa de integrar a discussão no campo da concorrência com o debate sobre competitividade.

Mercados específicos. No entanto.requerimentos tecnológicos e financeiros. Sugere-se aqui que. Conforme sumariado na seção anterior. compras. diferenciação de produto e outras. em momentos do tempo igualmente específicos. o apelo contido nessas idéias estimulam fortemente a busca desse objetivo.situação em que .). através de seus efeitos sobre indivisibilidades. grau de diferenciação de produto. Nesse caso. corresponde às visões do tipo estrutura-conduta-desempenho. Apesar de resultados concretos relacionados a possibilidade do estabelecimento do Padrão de Concorrência como ferramenta microeconômica para a análise setorial encontrarem-se ainda distantes de serem alcançados. pode-se supor que os dois sentidos de causalidade sejam possíveis. inovação. graus de barreiras à entrada e saída no setor e outras variáveis estruturais a elas associadas. esforço de venda. estratégias de conduta (investimentos. Essa questão sempre foi um divisor de águas no "mainstream" das teorias microeconômic as. relação capital/produto. portanto. redefine a estrutura da indústria (número e tamanho das firmas. ie. etc. qualidade. o debate engloba desde as visões nas quais a estrutura de mercado é considerada um dado e condiciona univocamente o comportamento das empresas na tradição dos chamados modelos E -C-D. em cada instante. nação) vigoraria um padrão definido como um conjunto de formas de concorrência que se revelam dominantes nesse espaço. Mais ainda. estruturas de custos e interdependência setorial) quanto as estratégias empresariais de concorrência (políticas de preço. Com fins puramente analíticos. não se vislumbram enfoques verdadeiramente integrativos. etc. em função da técnica (estado da arte) e das transformações trazidas por inovações tecnológicas.. cabe questionar como cada um deles se define no interior de um espaço concorrencial específico. etc. associado à noção de concorrência. até a visão virtualmente oposta na qual a estrutura é endogenamente determinada como resultado das estratégias concorrenciais adotadas pelas empresas em um dado mercado. nos seguintes termos: Em cada espaço de competição (mercado ou indústria. Do ponto de vista das teorias do progresso técnico. financiamento. ampliaram a percepção das lacunas que persistem nas abordagens convencionais. esforço de venda. um vetor particular. financeira. que. (Possas. apresentariam o predomínio de uma ou outra direção causal. marketing. como já dito. O padrão de concorrência seria. diferenciação de produtos. poder-se-ia tentar associar esse segundo caso a uma situação na qual a estrutura de mercado foi definida por condutas inovativas adotadas no passado mas já absorvidas. de expansão e de inovação). ambas elementos a um só tempo "estruturais" e de "decisão". habilidade de servir ao mercado. de vendas. que não causam mais transformações . as empresas buscariam adotar. Se existem esses padrões de concorrência.) voltadas para capacitá-las a concorrer por preço. compatíveis com o padrão de concorrência setorial. vetor esse resultante da interação das forças concorrenciais presentes no espaço de competição (as características estruturais e as condutas praticadas pelas firmas que nele atuam). as tentativas de inclusão do progresso técnico e do processo de mudança estrutural dele derivado na análise da dinâmica competitiva. contendo uma ou mais dessas formas. Um primeiro caso corresponderia à visão em que a estrutura é definida endogenamente ao mercado. A questão transfere-se então para como as características estruturais de um mercado e as condutas das empresas que nele atuam interagem no estabelecimento ou transformação das formas de concorrência dominantes. ao mudar essas variáveis. grau de economia de escala e escopo. 1985). O universo de formas possíveis de concorrência engloba preço. região. ortodoxas ou não. estruturas de custos. o esforço inovativo das firmas. possa ser operacionalizado um conceito correlato de padrão de concorrência. Em outras palavras. Um segundo caso seria aquele em que a estrutura da indústria é considerada dada e estável o suficiente para condicionar as condutas das firmas.

necessariamente subjetivo e por isso mesmo volátil. na presença de incertezas quanto ao futuro. ou por outra. já que na prática não há como garantir que uma inovação recém ou prestes a ser introduzida não inicie um período de transformações estruturais (p. a incerteza. Cabe observar que. disparando um processo de rejuvenescimento). Incerteza caracteriza-se pela inexistência de bases válidas. A idéia é que. pontos em comum entre todas elas. Ao contrário. Keynes foi suficientemente enfático sobre a essencialidade da existência dessa convenção para possibilitar o cálculo da eficiência marginal do capital e a tomada de decisão capitalista naquilo que envolva o longo prazo.serão extraídas várias das idéias expostas a seguir. conforme o tratamento conferido ao tempo no ajustamento das decisões individuais àquelas compatíveis com o equilíbrio econômico. Expectativas racionais ou adaptativas. independentemente do estado de confiança dos agentes na economia. a imprevisibilidade do processo de invenção-inovação-difusão e o reconhecimento do caráter transformador que o progresso técnico traz sobre as condições econômicas vigentes antes de sua introdução. Incerteza Cabe então explorar o conceito de incerteza subjacente às formulações acima. Cabe enfatizar que.em particular do segundo . seguramente.se poderia enquadrar essa indústria no estágio de maturidade tecnológica. Enquanto esse estado de confiança perdurar. pode ser reduzida a informação incompleta ou imperfeita. simplesmente porque nao há regra pela qual o passado se reproduza no futuro. Essa condição é exageradamente rígida e pode ser relaxada sem maiores prejuízos para a argumentação. . Claro está que postulações dessa natureza deixam em aberto um vasto espaço teórico para formulações que considerem conceitos menos "domesticáveis" de incerteza e que tampouco estejam preocupadas com a existência e a unicidade de situações de equilíbrio. dos quais . deverá ter lugar um comportamento convencional por parte dos agentes que. Na economia neoclássica. por assim dizer. entenda-se. antecipá-la. tanto mais explosiva quanto mais radical for essa inovação (ou conjunto de de inovações). esse segundo caso é eminentemente teóric o." Diante da incerteza. mesmo que não se deva postular a existência de uma única corrente de pensamento neoschumpeteriano. Em contexto de significativa mudança tecnológica. A contribuição neo-schumpeteriana a essa questão está centrada na ênfase conferida à inovação tecnológica como fonte de incerteza. Com relação ao conceito de incerteza. como proposto por Knight(1921).ex. pela sua transformação em um custo conhecido "ex-ante". que permita calculá-la. o risco pode ser eliminado ou desprezado. 11 . quando ocorre. os agentes se comportam racionalmente gerando probabilidades a partir das quais realizam seus cálculos maximizadores. de qualquer tipo. Em função disso. Esse espaço foi ocupado e continuamente ampliado ao longo da década de 80 pelos pensamentos pós-keynesiano e neoschumpeteriano. são. Em vista disso. são cego diante das incertezas que possam interferir sobre as suas previsões de longo prazo. Risco caracteriza-se pela existência de estimativas confiáveis da probabilidade de determinado evento ocorrer. é lícito considerar o primeiro caso como geral e o segundo como particular. no senso acima referido. o montante dos investimentos (em particular em PdD) a realizar e dos retornos proporcionados torna-se virtualmente imprevisível. a possibilidade de formação de expectativas de longo prazo por parte dos agentes econômicos estará subordinada à vigência de um estado de confiança no futuro. passaram a figurar como a "microfoundation" da renovação da teoria neoclássica pós década de 50. se a probabilidade pode ser numericamente aferida. cabe primeiramente diferenciá-lo da noção de risco. que se possa garantir a condição de estabilidade da estrutura. não há evidentemente como lidar "racionalmente" com o futuro.

(Dosi. expectativas. Tal afirmação permite identificar o processo de concorrência.como um elemento central de uma nova "microdinâmica" que ainda está por ser construída. Para Dosi.limitações na capacidade de processar informações e de implementar inovações Ambos são causadores de incertezas na formação de expectativas no processo decisório e não de risco como poderia sugerir um "racionalista" (Possas. em geral assimétricos em termos de suas competências. crenças. 1988. então a teoria econômica deve enfrentar a tarefa de alcançar uma "estilização" robusta dos diferentes tipos de empresa. para a configuração desse caso. bastando que essas estejam ocorrendo de forma previsível. a incerteza associada a inovação é tanto mais não calculável e não eliminável quanto mais autônomas e individuais forem as condutas de um conjunto de agentes. ao longo do que.1988).) teriam as finalidades de estabelecer ou estabilizar comportamentos e de organizar as interações e a coordenação entre os diversos agentes econômic os (Dosi. Para o autor. etc. enfatiza essa contribuição da corrente neo-schumpeteriana). Claro está que as previsões de longo prazo permanecem regidas pelo estado de confiança na economia mas. Em suma. Em ambientes não estacionários e complexos. são as instituições que moldam as visões de mundo. informações provenientes do mercado e objetivos de lucro.em relação à inovação.1988). de maneira consistente com algum conjunto de oportunidades tecnológicas latentes. Dosi(1988) explora um desses caminhos em uma perspectiva fortemente keynesiana. de modo a estreitar o amplo leque de dinâmicas possíveis em qualquer ambiente inovador. inicialmente.esse último como uma síntese das "regularidades estruturais" . Em termos keynesianos. 1977). Essas idéias levam o autor a afirmar que "se é necessário um conhecimento institucional mais rico.1982) ou uma trajetória natural (Nelson e Winter. estar-se-ia em uma situação na qual os agentes não estão revendo substancialmente seus planos de investimento por influência de expectativas quanto aos efeitos do progresso técnico futuro sobre os critérios de cálculo da eficiência marginal do capital. a decisão de investir no desenvolvimento e introdução de uma nova tecnologia seria de natureza ainda mais crucial que a decisão de investir keynesiana.e um "gap" de competência . a sua relação com padrões de concorrência .Recorrendo a linguagem de Shackle. "o amanhã parecerá com o hoje". de suas formas de surgimento e da influência que estas formas de organização têm no comportamento e desempenho das firmas" (Dosi. o que corresponde ao caso particular mencionado anteriormente. as percepções de oportunidades e a interação entre os agentes. não é efetivamente necessário supor ausência absoluta de inovações. em termos neo-schumpeterianos. define-se como uma trajetória tecnológia (Dosi. Cabe observar que. as condições de cristalização de um comportamento convencional por parte dos agentes envolvidos ganham particularidades.1988). a informação é sempre imperfeita . "gestalten" ou externas a firma: organizações públicas. devido à natureza do processo inovativo. deve-se esperar a existência de um "gap" de informação . etc. . leis. A isso se sobreporia uma outra fonte de incerteza: "avanços tecnológicos futuros dependem de modo complexo e imprevisível de decisões alocativas tomadas no presente por um conjunto relativamente grande de agentes não colusivos" . Essas instituicões (que podem ser internas à firma: suas regras. em particular. normas de conduta. a existência de incerteza implica a necessidade de instituições. uma situação onde o padrão de concorrência vem se mantendo estável e por isso é perceptível e aceito por todos ou quase todos os integrantes da indústria. as convenções de conduta. Incerteza e Padrões de Concorrência Supõe-se. . Diante dessa fonte adicional de incerteza. se este existe.

mesmo que as perceba. e mesmo passado um período de tempo suficiente para se avaliar os resultados obtidos pelas estratégias concorrenciais inovadoras. mas nunca poderá haver certeza de sua estabilidade futura. Isto é. enfatizando o papel das instituições extra-mercado. naquelas relacionadas à inovação. e que para ser acelerado implica o aporte de recursos adicionais desproporcionalmente grandes. Essa questão é válida inclusive no caso aqui denominado particular. pelo próprio fato delas e starem correntemente transformando a estrutura industrial. é como reconhecer. 13 . nos termos de Dosi(1988). no entanto. No entanto. no presente. quanto mais estável for o padrão de concorrência. os agentes se ressentem da ausência de qualquer base segura para estabelecer previsões de longo prazo. quando da maturação dos investimentos realizados. isto é. a empresa: (a) pode não perceber qual o padrão de concorrência dominante porque não há informação perfeita quanto ao mercado e as atitudes dos concorrentes. aquele em que há significativa mudança estrutural motivada pela introdução de inovações "radicais". respectivamente. O problema central. As considerações tecidas anteriormente. o resultado das decisões de investir em estratégias competitivas. Evidentemente. é correto imaginar que esta será tanto mais relevante quanto maior a defasagem temporal entre o momento da tomada de decisão e o da efetiva implementação de uma estratégia competitiva adequada aos princípios gerais de uma trajetória tecnológica. quando se pensa o caso geral. Se há incerteza quanto ao futuro. em que o padrão de concorrência tem se mostrado estável e parece fácil de ser reconhecido. nesse caso. fortemente inspiradas em Dosi (1988). menores serão as possibilidades de avaliação incorreta das estratégias competitivas bem sucedidas ao mesmo tempo que maiores serão as chances das empresas estarem capacitadas para elas. e (b) pode não estar capacitada a adotar as estratégias corretas porque este é um processo cumulativo que envolve aprendizado e portanto exige tempo. mesmo na vigência de um estado de confiança keynesiano. não é corretamente informado pelos sinais de mercado emitidos no presente. correspondendo assim à situação de ruptura do estado de confiança da macroeconomia keynesiana. Daqui surge uma defasagem temporal entre a opção por uma estratégia e o momento em que esta é efetivamente implementada. nada garantirá que essas mesmas estratégias serão bem sucedidas se repetidas ou imitadas. uma firma adotará estratégias desviadas do padrão de concorrência apenas se o percebe equivocadamente ou se não está capacitada a adotar as estratégias adequadas. de efeitos virtualmente imprevisíveis sobre a estrutura do m ercado e o padrão de concorrência. há razões microeconômicas que impedem que "o amanhã se pareça com o hoje". mais convergentes serão as expectativas quanto às formas de concorrência dominantes. Em oposição ao caso particular. esse conhecimento nao é disponível "ex-ante". No plano microeconômico. Nessas fases. levam a que se afirme que. estar-se-ia em uma fase de mudança do paradigma tecnológico a la Dosi. o erro ou acerto quanto à escolha dos projetos que consubstanciam uma dada estratégia só poderá ser conhecido a posteriori. Qual das estratégias competitivas mudará o padrão de concorrência? Evidentemente. alguma forma de convenção deve ser estabelecida. Caracteristicamente.Nesse caso. devido ao processo de aprendizado. devido ao "gap" de informação ou ao "gap" de competência. em particular. Essa situação corresponderia à introdução de uma inovação primária ou radical e/ou à corrente de inovações secundárias a ela associadas. Entretanto. surge a condição mais drástica de incerteza. o padrão de concorrência que estará vigorando no mercado específico no futuro.

etc. forneceria ele próprio o guia para avaliação da competitividade. Padrões de Concorrência e Competitividade A análise do processo de concorrência realizada nas seções anteriores buscou enfatizar duas premissas centrais: . pois fica em aberto a possibilidade de uma determinada estratégia transformar o padrão de concorrência. quando se leva em consideração essas duas premissas.. não é captado pelo desempenho corrente da firma no mercado. inclusive no caso particular em que o padrão parece estável. na medida em que as estratégias competitivas adotadas pelas empresas não rendem frutos imediatamente. em ambos os casos. uma situação que apenas poderia ser verificada "a posteriori". inovação. compras. No caso particular. analisar o fenômeno da competitividade. dos preços dos fatores de produção. portanto. a empresa competitiva igualmente está adotando estratégias próximas ao padrão de concorrência futuro. isto é. Seriam competitivas as firmas que a cada instante adotam estratégias de conduta (investimentos. Dessa forma. . A idéia inicial é bastante simples: as firmas adotam estratégias competitivas de acordo com a avaliação que fazem do seu desempenho no passado e. chega-se à proposicão central desse trabalho: competitividade é função da adequação das estratégias das empresas individuais ao padrão de concorrência vigente no mercado específico.5. dentre outros. principalmente. Competitividade é enfim um fenômeno " ex-post" que. É importante observar que. se impor ao mercado. A competitividade das firmas seria medida pelo desvio de suas estratégias em relação àquelas coerentes com o padrão de concorrência vigente. Entre esse momento e o presente.) mais adequadas ao padrão de concorrência setorial. o próprio padrão de concorrência setorial. das estratégias das demais competidoras e das expectativas. da demanda. as estratégias que estão sendo adotadas pelos concorrentes e. como feito na abordagem convencional do tema. posto que não se pode ter certeza quanto a sua permanência. A introdução de inovações por parte das firmas pode mudar essas variáveis e redefinir constantemente a estrutura da indústria e o padrão de concorrência vigente. rompendo a tautologia expressa na associação de competitividade a variáveis ligadas ao desempenho corrente. no entanto. No caso geral. do estado da arte das técnicas. porém.o tempo é fator decisivo no processo de concorrência. diferentes firmas possivelmente adotaram novas e diferentes estratégias. do seu estoque de capital. as firmas em um dado mercado. Em cada mercado vigoraria um dado padrão de concorrência definido a partir da interação entre estrutura e condutas dominantes no setor. Nesse caso. o padrão de concorrência sendo estável. vendas. tendem a reformular continuamente as suas estratégias competitivas. Após essas considerações. O problema central é como conhecer o padrão de concorrência vigente no mercado específico. o conceito de competitividade permanece o mesmo. O desempenho no mercado hoje está indicando a competitividade da empresa em algum momento do passado. . É disso que surge a mudança que permite que uma firma não competitiva torne-se competitiva e vice-versa.existe incerteza em relação ao futuro. em decorrência de variações. Interessa. atuando autônoma e interdepedentemente. com base em suas expectativas sobre o futuro. Um vetor de estratégias adotado por uma empresa pode ser adequado ao padrão de concorrencia existente ou pode modificá-lo com sucesso. com base em expectativas incertas de retorno. o que implica a incapacidade da empresa avaliar com precisão as suas estratégias. por fim. financiamento. essa avaliação perde qualquer caráter determinístico.

Houghton Mifflin.(1984). a conclusão final a que se pode chegar a respeito da competitividade é a virtual impossibilidade de avaliá-la " ex-ante" de forma inequívoca.B. A competitividade torna-se então assunto para as instituições voltadas para o longo-prazo. CLIFTON. PPE.cit.cit.. F.Por essa razão. K. (1989). in DOSI et al(eds).In Search of a Useful Theory of Innovation. (eds) (1988). (1984). Competitividad Internacional: Evolucion y Lecciones. J. Longman. Introduction in DAVIES.R.(1977). TD IEI/UFRJ. Risk. C.cit. 147-62 -------. Behaviours and Change in Evolutionary Environments. Francis Pinter. A. Junho. 211. (1974). P. Do contrário. Santiago FREEMAN.13-37 FAJNZYLBER. Se essas expectativas mostrarem-se convencionais (convergentes) dispor-se-á de um critério aceitável de avaliação de competitividade e de atuação sobre ela.W.N. Revista de la CEPAL. 9(2).(1988).F. ET AL (1982). Harcourt. pp 135-151 DAVIES. Mass PAVITT.197-218.Policy. op.& WINTER. pp. GEROSKY. QJE.(1982). Innovation and Economics in DOSI et al. pp. vol6 ------. mapear expectativas dos agentes econômicos quanto à mudança do padrão de concorrência em um futuro determinado e utilizá-las como guia para avaliação da adequação das estratégias adotadas no presente pelas empresas.R. 11(3). (1988). op. Competition Policy and the Structure-Performance Paradigm in DAVIES. London BAUMOL.(1982). O problema resume -se à construção de taxonomias adequadas. Macmillan.C (1988). Economics of Industrial Organization.. & JUMA.S. uncertainity and profits. May 1974 NELSON. op. Technical Change and Industrial Transformation. mimeo Principales Questiones CLARK. no entanto. UK. . n. Evolution. G. RJ KNIGHT. Coordination and Transformantion: an Overview of Strucutures. & LYONS. 1-25 DOSI. op. estar-seá na ausência de qualquer critério econômico válido. pp. Contestable Markets and the Theory of Industry Structure. Introduction and Preface to 2nd Part in DOSI et al (eds).S. et al. Technical Change and Economic Theory. através de estudos prospectivos. 517-24 HAGUENAUER. . REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALLEN.(1977). RJ.A. Technological Paradigms and Technological Trajetories.H.D. Boston MANCKE. Competitividade: Conceitos e Medidas. (1921). et al. n. Interfirm Profitability Differences.L.S. Sectoral Patterns of Technical Change: Towards a Taxonomy and a 15 .166-191 GUIMARÃES. Evolutionary Theories in economic thought in DOSI et al(eds).(1988). La Competitividad Internacional: Conceptuales y Metodologicas. P. 36. An Evolutionary Theory of Technical Change. A Concorrência e a Evolução do Modo de Produção Capitalista. Cambridge Journal of Economics.S. É possível. (1979). (1990). San Diego CHUDNOVSKY. London DOSI E ORSENIGO (1988). (1988). vol 1. Research Policy. Organização Industrial: A Necessidade de uma Teoria. E.R. 87(2): 183-93. HUP.cit. CEIPOS/Montevideo. pp. pp.

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