UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA INSTITUTO DE LETRAS E LINGÜÍSTICA

O PORTINGLÊS FALADO POR IMIGRANTES BRASILEIROS NOS ESTADOS UNIDOS

MONOGRAFIA DE BACHARELADO ORIENTADOR: PROF. DR. LUIZ CARLOS COSTA ORIENTANDA : MARIA LUCIA EVANGELISTA ESPINDOLA

UBERLÂNDIA JUNHO 2001

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PÁGINA DE APROVAÇÃO

Monografia defendida e aprovada em ____ de _________ de 2001, pela Banca Examinadora constituída pelos professores:

Prof. Dr. Luiz Carlos Costa (UFU)

Profa. Dra. Márcia Helena Boëchat Alves Fernandes (UFU)

Prof. Dr. Osvaldo Freitas de Jesus (UFU)

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Dedico este trabalho aos imigrantes brasileiros que estão espalhados pelo mundo.

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AGRADECIMENTOS

É com imensa alegria que eu quero agradecer às varias pessoas que me ajudaram na realização deste trabalho: Ao meu orientador, Prof. Dr. Luiz Carlos Costa, por sua paciência e sabedoria. Ao Prof. Ms. Sérgio Marra de Aguiar, por me ajudar a encontrar os caminhos que levaram a esta pesquisa. Aos Professores Doutores Márcia Helena Boëchat Alves Fernandes e Osvaldo Freitas de Jesus, por aceitarem fazer parte da banca examinadora. Aos professores do curso de Letras, por cada ensinamento recebido. Aos meus colegas. À Liciene e à Vera. Aos meus amigos. Ao Haruf, por suas sugestões e incentivo. Aos meus pais José e Sebastiana. Aos meus irmãos. À minha irmã gêmea, Lúcia Maria. Ao meu marido Foued e aos meus filhos Hugo e Caio. E, à Brenda Cullom ( my annoying angel)

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AGRADECIMENTO ESPECIAL

Agradeço imensamente a Francisco Gabriel Salmen Vale, por sua valiosa colaboração na coleta de dados e a todos que dela participaram.

..........2............................ Ocorrência de substantivos..........................................19 3............................................ Marcas de oralidade do português brasileiro.............................................19 3.................................................................................................1. INTRODUÇÃO....................................................25 4.......................5................ Influência da fonética do português na pronúncia do portinglês................................ Sentimento do imigrante com relação ao país de destino...................3.............................20 3.......................... O objeto........ ANÁLISE LINGÜÍSTICA DOS DADOS..............................................................................24 4...............................27 4..............................................13 2................24 4..........................................1..................................................................1..3..................................... Seleção dos informantes...21 CAPÍTULO III........................................................................................19 3............................................................................................ 24 4.........................8 CAPÍTULO I.....1................................................................................................... A amostragem analisada................................. O “corpus” da pesquisa............................................................. Ocorrência de adjetivos...............1........................................29 4............28 4.......3.................29 .27 4.... A PESQUISA..................4...............29 4..............................................2..........................................................13 CAPÍTULO II...............1.........................................................1............................................................................ FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA..............................................................19 3...............................1....................2....................... Análise Sociolingüística....2..... A existência da mescla.................. Ocorrência de verbos...6 SUMÁRIO 1..6.........................1.........1..........

............................................................................................................................Adjetivos....... Substantivos........ ANEXOS......2.................51 8...............................................................54 9........1........................................................................ CONSIDERAÇÕES FINAIS...........1.......................................3................................................................................................................................56 9.......................... BIBLIOGRAFIA..........................................................................2.........................................56 9........................................3....... Verbos........................................... CONCLUSÕES.........................56 9..................Lista de vocábulos e seu número de ocorrências..............................33 5.3.......................57 ...............43 8......................................42 8......................................43 8..................................................................................................................................................7 4...............36 6....................................................39 7............ Transcrição dos diálogos...................................................Lista de vocábulos registrados pela pesquisa com sua freqüência numérica ........................................................................ Análise quantitativa..................................... RELAÇÃO DOS VOCÁBULOS ENCONTRADOS NA PESQUISA POR CLASSE DE PALAVRAS.........................................

amantes e apaixonados. já que a palavra ou expressão existe em português. É a língua usada nos botequins. parques. inimigos. Traduzidas diretamente para o português como um falso cognato. do tipo comunicação face a face. pude observar que o português falado por um grupo de brasileiros era mesclado de palavras e expressões de língua inglesa. clubes. É a língua que usamos em nossos lares ao interagir com os demais membros de nossas famílias. longe da tutela dos professores. rodas de amigos. Estas palavras e expressões vinham pelo menos de três formas distintas: 1. 2.” (Fernando Tarallo) O portinglês falado pelos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos 1. É a língua falada entre amigos. . mas com sentido diferente: Vou aplicar para um trabalho (do verbo to apply que aqui tem o sentido de inscreverse). Diretamente do inglês em frases como: Cadê a knife (faca)? A roupa está na bag (sacola). nos corredores e pátios das escolas. INTRODUÇÃO Morando por quase dois anos nos Estados Unidos.8 “A língua falada é o veículo lingüístico de comunicação usado em situações naturais de interação social.

Aportuguesadas como em: Aquele trabalho era muito chato. então eu coitei ( do verbo to quit = abandonar). fascinante. o que era motivo de espanto e talvez de preconceito diante de um aparente “caos lingüístico”. A partir de então. mas confesso. E foi justamente este desconforto que me levou a buscar respostas. descobri que era possível encontrar caminhos para estas respostas. Muito importante também. analisado e sistematizado pela mente humana provoca desconforto”. quando o assunto “Empréstimos Lingüísticos” foi discutido. porque ainda. desencadeando um processo de investigação científica. transformou-se em objeto de estudo.9 João era suposto estar aqui desde as três horas ( da expressão be suppose to que aqui tem o sentido de deveria). Como diz Fernando Tarallo no início de seu livro – A Pesquisa Sociolingüística (1999:5): “Tudo aquilo que não pode ser prontamente processado. foi a colaboração do professor Sérgio Marra de Aguiar do qual fui aluna no curso “Teoria e Prática da Tradução”. analisar e sistematizar o universo da língua falada. Ele me encorajou a caminhar nesta direção e a procurar o professor Luís Carlos Costa para me orientar na monografia de bacharelado. Mais tarde. como aluna do curso de Letras em disciplinas como a Sociolingüística. achei tudo muito estranho. Percebemos que havia uma relação entre o tema e o português mesclado com o inglês que eu ouvira. Tenho que serapiar um monte de mesas esta noite ( da expressão verbal to set up = arrumar). 3. segundo Tarallo é possível combater este aparente caos ao se tentar processar. . confuso. Na época.

não estrangeira. O que ocorre é que os falantes brasileiros são expostos a todo momento ao inglês. Nelly – Empréstimos lingüísticos – p. podendo fazer empréstimo apenas de palavras ou expressões que chegam até nós. há uma . como é mais conhecido. a adoção e adaptação de um termo de língua estrangeira. São estas palavras assim modificadas que constituem o padrão fonético e morfológico do português” (Carvalho. criando o fenômeno da mescla lingüística. A questão é que aqui. mouse (informática). 13). Sua base lexical são as palavras que sofreram transformação no romance lusitânico. “a ampliação do léxico pelo empréstimo. ainda na sua própria origem pois: “O acervo lexical da língua portuguesa é formado a partir do latim popular ou latim vulgar. shopping center. o português é uma língua estrangeira. principalmente da língua inglesa no português falado no Brasil – drive-thru.10 Nosso objetivo ao estudar o português falado por determinado grupo de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos é o de demonstrar como esta fala é alterada ao entrar em contato direto com a língua inglesa. somos falantes nativos recebendo influência de línguas externas. Mas de uma adoção que é a adequação da língua como saber lingüístico à sua própria superação e tem como determinante fins culturais. E no presente mais ainda. porém. cit. é o resultado não propriamente de uma inovação. O fenômeno que ocorre nesta situação é o de empréstimo lingüístico. Segundo Nelly Carvalho. mas que continua a ser falada pela comunidade de imigrantes brasileiros. estéticos e funcionais”( op. é que a língua portuguesa falada em contato direto com o inglês em território americano sofre modificações muito mais profundas. pág. ou seja. Lá. Em outras palavras. Além do que. o inglês lá é língua nativa. deletar. O que este trabalho tentará mostrar. Não há como negar a interferência de línguas estrangeiras diversas no português. 24).

não só no nível morfológico. parte do acervo lexical da língua inglesa (língua-mãe). A sociolingüística foi de fundamental importância para fazermos este tipo de análise. acreditamos que este dado seja de grande influência na caracterização desta língua. Sabemos que a grande maioria dos imigrantes brasileiros que vão aos EUA. Mostraremos também que esta língua falada sofre mudanças. De que tipo de imigrante estamos falando? Apesar de não aprofundarmos as nossas reflexões neste aspecto. Como quando se vai a um supermercado e se escolhe que mercadoria levar. como faixa etária. mas também fonético. etc serão também apontados para que se tenha um perfil deste imigrante. esta intenção de voltar é frustrada e muitos vão adiando este sonho ou. certos grupos de imigrantes incorporam o inglês em sua fala cotidiana. independentemente de já terem aprendido ou não a falar o inglês (o que muitas vezes não é possível. Um fato não-lingüístico que vamos abordar é o sentimento deste imigrante com relação ao fato de ele estar vivendo nos EUA. à disposição destes falantes. Outros fatores não-lingüísticos. Talvez também por isto não tenham intenção de falar inglês. vamos explicar como os sistemas aberto e fechado vão contribuir para este fato.11 oferta imensa. No capítulo 1. Assim. na Fundamentação Teórica. O critério de escolha desta mercadoria e a maneira que ela vai ser utilizada é o grande desafio deste trabalho. e sonham em voltar ao Brasil para aqui desfrutarem o resultado deste esforço. uma vez que a linguagem falada não é vista como um fato isolado na perspectiva desta . finalmente decidem permanecer por lá. Na maioria das vezes. principalmente pela carga excessiva de trabalho). tempo de permanência no país. vão em busca de trabalho e dinheiro. no tocante às circunstâncias lingüísticas. então.

no estado de Massachusetts. . Há uma inter-relação entre língua e sociedade que é devidamente realçada pelos sociolingüistas.12 disciplina. A pesquisa de campo se concentrou na cidade de Framingham e arredores.

. inevitably leads to omission of some of the more complex and interesting aspects of languages and to the loss of opportunities for further theoretical progress. A language is not a simple.. and that this variability may have as much to do with society as with language. language is very much a social phenomenon.. inevitavelmente leva à omissão de alguns dos aspectos mais complexos e interessantes da língua e à perda de oportunidades para progressos teóricos posteriores. ao estágio onde é possível e benéfico começar a lidar com a sua complexidade. . Em primeiro lugar. One of the main factors that has led to the growth of sociolinguistics research has been the recognition of the importance of the fact that language is a very variable phenomenon. então.. single code used in the same manner by all people in all situations. vamos nos fundamentar em determinados conceitos. Um dos principais fatores que têm levado ao crescimento da pesquisa sociolingüística é o reconhecimento da importância do fato que língua é um fenômeno bastante variável. Uma língua não é um simples e único código usado da mesma maneira por todas as pessoas em todas as situações. que a língua falada por determinados grupos de imigrantes nos Estados Unidos pode ser sistematizada como uma gramática da comunidade. e a lingüística chega. é onde encontramos a explicação do porquê escolher esta área da ciência para nossos estudos: “.13 CAPÍTULO I 2. e que esta variabilidade pode ter muito a ver tanto com sociedade quanto com língua. utilizando-se do que diz Peter Trudgill(1983) sobre Sociolingüística.a língua é basicamente um fenômeno social. com apoio na Sociolingüística. A study of language totally without reference to its social context.”(1983:32) 1 _______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ 1 “. totalmente sem referência ao seu contexto social. and linguistics now arrived at a stage where it is both possible and beneficial to begin to tackle this complexity. O estudo da língua. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Para mostrar.” Tradução feita pela autora da monografia.

Mais importante ainda. specially social psychology. Ainda de Tarallo e Alkmin (1987)utilizaremos o conceito de mescla lingüística . anthropology. seguindo a linha de raciocínio de Tarallo e Alkmin (1987:11): “é possivel agrupar os indivíduos de uma comunidade em segmentos que respondam aos mesmos parâmetros e de cuja análise brotaria uma gramática da comunidade. às vezes não tão pacífico. a coocorrência das variedades e. Vamos tentar mostrar que existe uma ordem. definindo os limites de seu espaço. nos esteamos nos ensinamentos de Fernando Tarallo(1999) no que diz respeito à sistematização do aparente caos lingüístico da língua falada. It investigates the field of language and society and has close connections with the social sciences. descreveria os fenômenos de mescla intracomunitária. de um lado.” Tradução da autora da monografia . de outro. then. and sociology. enfim.14 E conclui: “Sociolinguistics.” ____________________________________________________________________________ 2 “Sociolingüística é.) 2 Depois. em princípio. a convivência pacífica. a antropologia. Tal gramática deveria. esta parte da lingüística que se refere à língua como fenômeno social e cultural.”(op. is that part of linguistics which is concerned with language as a social and cultural phenomenon. descrever o conjunto de variáveis lingüísticas em uso numa comunidade. tal gramática demonstraria. isto é. a coexistência. a geografia humana e a sociologia. a concorrência e o entrecruzamento entre elas. assim. human geography. Ela investiga o campo da linguagem e sociedade e tem conexões estreitas com as ciências sociais. atribuindo a cada uma delas seu valor social. cit. especialmente a psicologia social.

nos interessa o inglês. em que somente uma língua é falada: o português.15 É preciso que se distinga. Porque de acordo com os autores citados acima: “ a mescla intracomunidade (isto é. neste momento. E o modelo de análise laboviano nos ajudará nesta tarefa. Portanto. o aparente “caos” desaparecerá e a língua falada avultará como um sistema devidamente estruturado. Neste caso. uma ordem. analisada e sistematizada. além de carregarem consigo as características do português falado por eles no Brasil. Por este fato. o “caos” lingüístico é apenas aparente. . línguas distintas coexistindo e se misturando em uma mesma comunidade: por exemplo. o conceito de mescla intracomunitária do de mescla intercomunitária. o polonês e o italiano na Região Sul do Brasil). que pode ser processada.” Em nossa análise podemos nos deparar com ambas as situações: a primeira é caracterizada pelo fato de que os falantes do português brasileiro nos Estados Unidos convivem com as variantes lingüísticas (duas ou mais maneiras de se dizer a mesma coisa) dentro de sua própria comunidade. por exemplo) versus a mescla intercomunidades (ou seja. A segunda situação é caracterizada pelo fato de os falantes do português brasileiro conviverem com outras línguas. o caso de o português conviver com o alemão. Pois segundo Tarallo (1999:11) “uma vez feita a análise segundo o modelo proposto. O portinglês é uma língua falada. variantes convivendo e/ou se entrecruzando em uma mesma comunidade de fala. como em qualquer comunidade de uma mesma língua. acreditamos ser muito útil o conceito de mescla intracomunidades para apoiar nossos estudos com relação a uma gramática.

classe social. chamados de palavras vazias. o adjetivo. vive em expansão permanente por incorporar as experiências pessoais e sociais da comunidade que a fala. classe aberta. Toda língua é constituída. optativas ou obrigatórias. Estas. conseqüentemente. pelos falantes na noção de sistema aberto e sistema fechado: “O léxico de uma língua é como uma galáxia. pois o favorecimento de uma variante e não de outra decorre de circunstâncias lingüísticas (condicionamento das variantes por fatores internos) e não-lingüísticas (condicionamento das variantes por fatores externos. portanto. como preconizavam os estruturalistas das décadas de 20 e 30. fundamentalmente por duas classes de palavras: as que representam o universo extralingüístico. as que funcionam apenas dentro do sistema lingüístico. tais como: faixa etária.) apropriados à aplicação de uma regra específica.16 Os resultados finais da análise propiciarão a formulação de regras gramaticais. constituindo o léxico das mesmas. o substantivo e o advérbio nominal. ainda que inconscientemente. não poderão ser categóricas. São palavras de significação interna ou morfemas gramaticais. de um sistema lingüístico de probabilidades. Trata-se. não encontra respaldo neste modelo de análise lingüística. é esta a classe que se enriquece continuamente. nomeando as coisas as qualidades e os processos.” O critério de escolha na formação desta gramática não é aleatório. sempre em expansão. Variação livre (ou não-condicionamento das variantes). da qual fazem parte o verbo. Serão. são lexemas ou palavras de significação externa. etc. Ele é baseado. regras variáveis. relacionando-se com as mudanças do mundo exterior. Palavras com um forte componente semântico. no entanto devido à própria essência e natureza da fala. .

reflete a cultura da sociedade à qual serve de meio de expressão. Constituem. a conjunção nos anuncia o princípio de nova oração e nos adverte sobre as funções idênticas. Uma língua. As línguas são conservadoras quanto a seus morfemas gramaticais. Como em Macambira (1974:24): “É por meio do artigo que se identifica o substantivo. responsáveis que são pela organização e estrutura interna das línguas. em fonemas do português.” (Nelly Carvalho. 1989:22 e 23) Há casos em que o substantivo em inglês vai ser considerado como substantivo em português. o pronome relativo e alguns advérbios. no caso de tão.” Serão analisados também casos em que a fonética será a responsável pela inclusão dos sons em português nas palavras retiradas diretamente do inglês. uma classe fechada e a ela pertencem o artigo. pois. o falante transforma esta realidade sonora que ele ouve em inglês. palavras instrumentais. o numeral. raramente surgindo nelas um neologismo. a preposição nos ensina quais os termos equivalentes ao substantivo e nos esclarece a natureza de certos complementos. por meio do pronome identifica-se o verbo. Como certos fonemas não existem em português. Isto porque através do sistema fechado poder-se-á identificar classes do sistema aberto.17 palavras-ferramenta. nos aponta o advérbio nominal. a preposição. através do vocabulário que a liga ao mundo exterior. Para fazer esta análise e as transcrições fonéticas nos utilizamos . O advérbio pronominal. mesmo que não tenha nenhum morfema que o identifique como pertencente à língua portuguesa.

18 de informações contidas no capítulo 3 – Fonética e Fonologia de Edward Lopes (1983:97149). principalmente para fazermos as comparações fonéticas entre a línguas portuguesa e inglesa. produz a mescla baseado apenas no que ele ouve. interferir na mescla. muitos falantes não conhecem a língua inglesa. pois segundo dados analisados. Estes dados serão relevantes. . primeiramente. O autor utiliza o Alfabeto Fonético Internacional na representação dos fonemas e dos fones. O fato de saber ou não o inglês em sua forma falada e escrita não é o que vai. É importante ressaltar que o falante em questão.

no estado de Massachusetts. O fato sociolingüístico. não aromatizado artificialmente.1. A PESQUISA 3. o dado de análise. o objeto – o fato lingüístico – é o ponto de partida e. para que estas observações não permanecessem apenas como curiosidade. isto é. Em poucas palavras.Seleção dos informantes A seleção dos informantes foi feita a partir de um universo de 30 falantes constituído por imigrantes brasileiros residentes na área de Framingham. o objeto. sempre que encontrarmos dificuldade de análise.2. Foi a partir da observação empírica. uma vez mais. Porém. o português falado pelos imigrantes brasileiros em Framingham. um porto ao qual o modelo espera que retornemos. As . fomos buscar na Sociolingüística o referencial teórico para transformar estas falas em fatos lingüísticos. não polido.19 CAPÍTULO II 3. é ao mesmo tempo a base para o estudo lingüístico: o acervo de informações para fins de confirmação ou rejeição de hipóteses antigas sobre a língua e também para o levantamento e o lançamento de novas hipóteses. que desencadeou-se esta investigação. Mais uma vez nos valemos de Tarallo (1999:18): “O modelo teórico-metodológico da sociolingüística parte do objeto bruto. O objeto A pesquisa foi feita. MA.” 3. tendo como ponto de partida. dentro do modelo de análise proposto neste volume. EEUU.

A amostra relativa às entrevistas foi organizada de acordo com o modelo de análise sociolingüística quantitativa criada por W. filhos. Trabalham de dia. com determinado nível de fala em inglês e de profissões variadas. uma vez que este modelo sociolingüístico opera por números e realiza o tratamento estatístico dos dados coletados.20 faixas etárias dos falantes variam de 23 a 53 anos. são donos do próprio negócio. Localidade: Cidade de Framingham. A característica do imigrante que escolhemos é a do brasileiro/a que vai para os Estados Unidos para trabalhar. “Fazer a América”. De faxineiro residencial ou comercial a garçons e ajudantes ou como empregados no comércio em geral ou em fábricas. Às vezes. conversas espontâneas e depoimentos. Trabalhar é trabalhar duro. jovens. O corpus da pesquisa O corpus utilizado na pesquisa “O Portinglês Falado por Imigrantes Brasileiros nos Estados Unidos” foi obtido através de entrevistas.3. Esta cidade foi escolhida por fazer parte da grande área de Boston e nela haver uma grande concentração de imigrantes brasileiros. casados. uma vida para trás. Utilizamos uma amostragem de dez informantes para um estudo do português falado por imigrantes brasileiros naquela cidade. Foram levadas em consideração as seguintes variáveis: 1. Muitos deixam família. O tipo de trabalho varia. nos finais de semana. é o que muitos dizem. de noite. homens e mulheres. 3. Estado de Massachusetts. EUA . Labov em 1963. ou nem tanto. Não se assustam diante do tipo de trabalho ou da quantidade de horas que vão trabalhar. São solteiros.

Faixa etária 4. Sexo a) Masculino b) Feminino 3. Grau de instrução 5. A amostragem aqui analisada é constituída do seguinte modo: a) Informante 01 -Sexo = masculino -Faixa Etária = 41 anos -Grau de Instrução = Superior incompleto -Profissão = Assistente de gerente de produção -Nível de inglês = Fluência oral -Tempo de permanência nos EUA = 13 anos . Das falas transcritas.3. no trabalho. no carro. dez falantes. esta amostragem nos ajudará na análise sociolingüística. A amostragem analisada A amostra é de trinta falantes em conversas espontâneas gravadas. poderemos traçar um perfil do imigrante do qual estamos falando. Profissão 6. Além disso.21 2. Assim. entrevistas e depoimentos.1. Tempo de permanência nos EUA 3. em material anexo. em reuniões familiares. São situações cotidianas. Nível de inglês 7. utilizamos como amostragem para esta análise.

22 b) Informante 02 -Sexo = Feminino -Faixa Etária = 39 anos -Grau de Instrução = Nível médio concluído -Profissão = Gerente de serviços de limpeza -Nível de inglês = Fluência oral -Tempo de permanência nos EUA = 12 anos c) Informante 03 -Sexo = Masculino -Faixa Etária = 43 anos -Grau de Instrução = Nível médio concluído (técnico agrícola) -Profissão = Operador de máquina -Nível de inglês = Pouca fluência -Tempo de permanência nos EUA = 9 anos d) Informante 04 -Sexo = Feminino -Faixa Etária = 45 -Grau de Instrução = Superior completo -Profissão = Proprietária de firma de limpeza -Nível de inglês = Fluência na fala e na escrita -Tempo de permanência nos EUA = 15 anos e) Informante 05 -Sexo = Masculino -Faixa Etária = 48 anos -Grau de Instrução = Nível médio concluído -Profissão = Operador de máquina -Nível de inglês = Pouca fluência -Tempo de permanência nos EUA = 8 anos f) Informante 06 -Sexo = Masculino -Faixa Etária = 32 anos -Grau de Instrução = Nível médio concluído (técnico agrícola) -Profissão = Operador de máquina -Nível de inglês = Pouca fluência -Tempo de permanência nos EUA = 7 anos g) Informante 07 -Sexo = Masculino -Faixa Etária = 43 anos -Grau de Instrução = Médico veterinário -Profissão = Operador de máquina -Nível de inglês = Pouca fluência -Tempo de permanência nos EUA = 7 anos .

23 h) Informante O8 -Sexo = Masculino -Faixa Etária = 29 anos -Grau de Instrução = Nível médio concluído ( técnico em contabilidade) -Profissão = Montador -Nível de inglês = Depende de outros para se comunicar nesta língua -Tempo de permanência nos EUA = 5 anos i) Informante 09 -Sexo = Masculino -Faixa Etária = 27 anos -Grau de Instrução = Nível médio concluído -Profissão = Montador -Nível de inglês = Depende de outros para se comunicar nesta língua -Tempo de permanência nos EUA = 2 anos j) Informante 10 -Sexo = Masculino -Faixa Etária = 53 anos -Grau de Instrução = Nível médio concluído -Profissão = Procurando trabalho -Nível de inglês = Depende de outros para se comunicar nesta língua -Tempo de permanência nos EUA = 3 meses k) Informante 10 -Sexo = Feminino -Faixa Etária = 35 anos -Grau de Instrução = Nível médio concluído -Profissão = Faxineira e ajudante de garçom -Nível de inglês = Fluente -Tempo de permanência nos EUA = 8 anos .

Esta mescla ocorre obedecendo a critérios que a própria língua impõe. imigrantes brasileiros nos Estados Unidos.S. profissão e escolaridade variadas. 154 ocorrências de palavras que vêm do inglês como nos seguintes exemplos: “ Mas eu vou dar um check-it-out em algum lugar ainda pra ver. ANÁLISE LINGÜÍSTICA DOS DADOS A partir de um “corpus” de trinta falantes. Nosso objetivo ao estudar o fenômeno no falar de tais imigrantes é o de registrar.1. As primeiras análises indicam fatos como os mostrados a seguir: ACTA 4. “AS PALAVRAS PROPAROXÍTONAS NO FALAR DE FORTALEZA” em SEMIOTICA ET LINGVISTICA – V. Não é somente o que é falado que será analisado.24 CAPÍTULO III 4. Há nele. pp 61-88. M. A existência da mescla O portinglês – nome que daremos à mescla lingüística do português falado por imigrantes brasileiros no Estados Unidos. Para estruturar este capítulo. com faixa etária. descrever e analisar a mescla entre o português brasileiro e o inglês americano. nos valemos do modelo do artigo de Aragão. Tentamos abranger tanto os aspectos lingüísticos quanto os não-lingüísticos. Há uma ordem que tentaremos descrever. . 8 2000. pudemos levantar algumas hipóteses. é um fato que pode ser confirmado pelo corpus em anexo.S. mas também o contexto em que estes imigrantes estão inseridos. relacionado-a aos contextos lingüísticos e sociolingüísticos em que ocorrem.

” O que procuramos seguir o mais fielmente possível.. com um número de 66 ocorrências (Ver Tabela II ).25 “ Tô afim de coitar esse trabalho aqui.” “.2. Fernando Tarallo (1999: 21) nos adverte sobre a qualidade e a quantidade do material coletado: “De gravador em punho. significa . Destes. 4.” “. O primeiro. situações naturais de comunicação lingüística e 2..cê tá muito bisado.” “Vou chegar ali no downtown. O segundo vem do verbo to apply = neste caso.. deve coletar: 1.” “. apenas dois ( parqueamento e aplicação) vêm escrito em português...1.. grande quantidade de material de boa qualidade sonora...cê tem umas quarter aí?..” “. que vem do verbo to park = estacionar.eles tão lay-offando gente pra caramba.Tem que mapiar mesmo.” “..ele era suposto chegar aqui às dez horas. “Pode U-turn ali na frente.” “Tem que trocar as bag toda hora que está vequiando.Ocorrência de substantivos Foram encontrados na pesquisa 27 substantivos diferentes. “Eu vou serapiar por hora.” Estes exemplos foram retirados de transcrições de fala em quantidade suficiente para a análise sociolingüística. recebe o sufixo –mento que o transforma em substantivo. o pesquisador-sociolingüista.

porém com outro significado. em português. que são parte do sistema fechado. os pronomes e os numerais. meu schedule o vacuum a bag a disher (n)o downtown umas quarter o break (n)o cash o box a quarta aplicação (n)a Main Street (n)o Stop and Shop Ainda sobre substantivos. recebe o sufixo –ção e também se transforma em substantivo. Neste último exemplo.26 se inscrever para trabalho ou estudos. e também em gênero – como no caso de disher. o substantivo é pronunciado com a marca do morfema do feminino –a. a disher. A palavra aplicação existe tal como se apresenta. os artigos. Quase todos os outros substantivos ( comuns ou próprios) são falados como são ouvidos em inglês. O que nos prova a existência de tal classe de palavras do sistema aberto é que a elas se antecedem. Isto configura um caso de falso cognato. baguinha [bε‟gĩňa]. podemos falar em flexão de grau – como no uso de diminutivo para bag. .

Todos recebem a terminação –ar ( ou a variante –iar) o que indica primeira conjugação. Curiosamente.work estar part-time 4. é o fato de que eles são conjugados de acordo com as regras da língua portuguesa. Bisado vem de busy = ocupado.Ocorrência de verbos Foram encontrados 14 verbos diferentes. que tem o mesmo significado no portinglês.1.27 4.vequei printar serapiar coitar parquear . pela sua posição na frase – depois do verbo de ligação: estar busy estar off estar piece.1. Os adjetivos restantes são identificados como tal.3.4. o único com a terminação em português.parqueou aplicar lay offar – lay offando . vecar – vecou . numa ocorrência de 65 (Ver Tabela IV ). bisado. cheio. foi o de maior ocorrência:12 (Ver Tabela III ). Outra indicação de que estes verbos passam a fazer parte do léxico do português.Ocorrência de adjetivos Foram encontrados 5 adjetivos diferentes. num total de 23 ocorrências. no português.

que não existem no português.Influência da fonética do português na pronúncia do portinglês A mescla lingüística ocorre no nível fonético também. com a aproximação de sons da língua inglesa. Vejamos os exemplos: coitar [koj‟ta ] busboy [basi‟bôj] busgirl [basi‟gεw] estacar [ista‟ka ] quarter [„kôra] mapiar [mapi‟a ] do verbo to quit [kwit ] [„b⋀sbôj ] [„b⋀sgûrl ] do verbo to stack [stæk ] [„kwôrt r] do verbo to mop [m⋀p] cashar [ke‟ša] cashei [ke‟šej] do substantivo cash [kæš] piecework [pisu‟oRki] bag [„bεgi] Stop and Shop [istôpej‟šôpi] Main Street [mẽjs‟triti] [„pis‟work] [bεg] [stôp‟ând‟šôp] [mẽjs‟trit] .1.5. O falante carrega consigo as marcas fonéticas do português de origem – é onde ele se apóia.28 4.

marcado pela temporariedade que o imigrante almeja (fazer a América) – o ir. era. Sentimento do imigrante com relação ao país de destino O sentimento com relação aos Estados Unidos. O tipo de imigrante. Pelo menos. acreditamos que a situação de imigrante temporário. ganhar dinheiro e voltar. Esta é uma variável do português padrão em que a presença deste morfema está também no substantivo. a sua situação no estágio atual. tenha influenciado bastante no tipo de . Agora. o de desapego. nestas quase três décadas de imigração maciça de brasileiros para os Estados Unidos.2. é quase sempre. Análise Sociolingüística Os contextos lingüísticos e extralingüísticos que envolvem a fala que estudamos neste trabalho serão de grande importância. se fala o inglês ou não.2. Já no português falado. no primeiro momento. o substantivo pode apresentar o morfema zero. mesmo que esta situação esteja mudando.1.29 4. as bag as quarter os box os vacuum 4.Marcas de oralidade do português brasileiro A marca de plural só é indicada pela presença do morfema –s no artigo que antecede o substantivo. Qual é o sentimento deste imigrante com relação aos Estados Unidos? 4.1.6.

. sem tempo. O inverso também não deixa de ser verdadeiro. Se o perfil do imigrante mudou. ou seja do uso da língua – através da fala se produzem as mudanças no sistema lexical. mas talvez. variedades estigmatizadas podem assumir prestígio social na comunidade. muito menos. ou . Hoje. não podemos negar. deverá compor o âmbito de nossa gramática da comunidade: o tempo... notamos que depois que o processo torna-se consciente.. Podemos perceber a existência de tabus. não sabem o nome em inglês. deverá não somente descrever a estrutura da língua enquanto variável. até mesmo evitando-a. isto é. no entanto. facilita mais. com relação à lingua falada. é preciso levarmos em conta o fator tempo: “Outra noção igualmente essencial. Isto está claro na seguinte fala: “‟-E.. na realidade a gente sabe que tá. A gramática. não há língua sem espaço e. percebemos que muitos brasileiros estão permanecendo nos Estados Unidos. Dentro da concepção que estamos adotando. portanto. Todas as mudanças no léxico resultam da fala.30 mescla que estudamos. em caráter permanente. Uma variedade lingüística considerada de maior prestígio em um tempo x poderá ser totalmente estigmatizada em um tempo x + 1. que tá falando errado.. nesta variante lingüística.”(Tarallo e Alkmin. 19xx:13) Com relação ao estigma ou prestígio desta mescla. 1987:11) A língua falada provoca mudanças na língua escrita com o seu uso: “As mudanças políticas e culturais não causaram nem causam transformações imediatas no sistema lexical da língua. as pessoas chegam. já começam a falar.. mudando as normas e conseqüentemente criando novas normas”.. que para haver a mescla lingüística. (Nelly Carvalho. o falante sente um estranhamento nesta mescla. como também prever e analisar seus momentos de mudança.

O modo mais interessante no qual isto acontece é através de um fenômeno conhecido como tabu. In practice. . Então.. de certo modo. né? Ahã. é claro. os valores de uma sociedade podem também afetar a sua linguagem. ou é tido como imoral ou impróprio. o tabu é associado a coisas as quais não são ditas. talvez prá poder falar a palavra em inglês e ao mesmo tempo falar em português. printar. In language..” (Ver em Anexos..além do meio e da estrutura social. num fala inglês. e em pa rticular com palavras e expressões as quais não são usadas. taboo is associated with things which are not said. of course. in addition to environment and social structure. eles dificilmente permaneceriam na língua. The most interesting way in which this happens is through the phenomenon known as taboo. Na linguagem. Trata-se de um comportamento que é inibido aparentemente. chama a nossa atenção para este fato: “. Na prática. como algo irracional.” Tradução da autora da monografia. O tabu pode ser caracterizado em relação ao comportamento do que se acredita ser supernaturalmente proibido. isto simplesmente significa que há inibições sobre o uso normal de itens deste tipo – se eles não fossem falados. or regarded as immoral or improper. em absoluto. Print. ela acaba aportuguesando a palavra. and in particular with words and expressions which are not used.. p. this simply means that there are inhibitions about the normal use of items of this kind – if they were not said at all they could hardly remain in the language.. mas num. 33) Peter Trudgill (1983: 29 ).”3 ______________________________________________________________________________________________________________ 3 “. it deals with behaviour which is prohibited or inhibited in an apparently irracional manner..31 sabem o nome em inglês. the values of a society can also have an effect on its language. Taboo can be characterized as being concerned with behaviour which is believed to be supernaturally forbidden.

em sua configuração.3. pois há embutida nela uma concepção de que o que é mesclado é impuro e deve ser evitado. “Ao tentar dissolver a tautologia „Mescla é. interferindo na sua fala. Os vocábulos de maior freqüência estão nas tabelas seguintes: . 4. deixam-nos os dicionários ainda mais perplexos.Análise Quantitativa A amostragem por nós estudada compõe-se de 101 vocábulos com uma ocorrência de 154 casos.. desencadeia a construção de tantas outras mais: „Mescla é mistura. num total de 23 ocorrências.. 14 na classe do verbos num total de 65 ocorrências. 5 da classe dos adjetivos. etc. Evita-se a mescla. amálgama. foram encontrados 27 na classe dos substantivos.‟ A lista de aparentes soluções é vasta. apesar de importante. num total de 66 ocorrências. como também uma possível maneira de demarcar diferenças sociais no seio de uma comunidade. bem como é intensamente inquietante e provocadora a sensação de impureza que qualquer uma delas sugere. a língua pode ser um fator extremamente importante na identificação de grupos.” (Tarallo e Alkmin. na realidade. Dentre estes vocábulos. 1999:14) Este aspecto.32 Outro dado relevante é que a mudança de “status” do imigrante. pois a destruição desta proposição tautológica.‟. não será exaustivamente abordado por nós neste trabalho. e. Acreditamos que precisaríamos de um corpus maior e que incluísse outros dados além do que pesquisamos.. 1987:7) “..” (Tarallo. contato.

59 2.84 4.25 2.06 6.79 7.06 4.60 2.95 .79 7.24 3.14 5.06 6.60 7.57 6.96 3.54 Total Geral dos Itens Léxicos:154 (%) 4.59 2.54 4.96 3.54 3.33 TABELA I As palavras com o maior número de ocorrências (sem indicar a que classe pertencem) Palavras bisado vecar printar breakear box cashar bag lay offar schedule busy mapiar cash quarter disher Ocorrências 12 12 11 09 07 06 06 05 05 05 04 04 04 04 % ( num total de 154) 7.95 1.59 2.24 3.24 2.06 6.60 2.54 3.60 2.59 TABELA II Substantivos com maior freqüência Substantivos box schedule disher quarter cash break downtown aplicação Total 7 5 4 4 4 4 3 3 Número de ocorrências: 66 (%) 10.60 1.

24 01.74 13.34 TABELA III Adjetivos mais freqüentes Adjetivos bisado busy off part-time piece-work Total 12 5 3 2 1 Número de ocorrências: 23 (%) 52.22 03.95 01.95 1.59 2.35 Total Geral dos Itens Léxicos: 154 (%) 22.65 TABELA IV Verbos mais freqüentes Verbos vecar printar breakear cashar lay offar serapiar mapiar coitar parquear Total 12 11 9 6 5 4 4 3 3 Número de Ocorrências: 65 (%) 18.59 1.70 04.98 3.61 Total Geral dos Itens Léxicos: 154 (%) 7.30 00.95 .69 06.61 04.92 13.17 21.46 16.84 3.15 04.24 2.15 06.79 7.84 09.04 08.14 5.23 07.

“da plataforma”. Dir-se-á. . “desde que”. e o reconhecimento da palavra pode colocar um problema. que o Cid conta com 1.” Resumindo. vamos utilizar o conceito de Dubois et al (1998:450) sobre palavra e vocábulo. e dès lorsque. vocábulo. como duas palavras. a palavra é a unidade de texto inscrita em dois brancos gráficos. unidade de texto. e du quai. “da estação”. o Cid conta 16. é indispensável ao estatístico léxico criar uma unidade de contagem. com de Paris? Compreende-se a necessidade de decisões normativas rigorosas. conforme a norma de Ch. as ocorrências a partir da 2a. como três palavras. como três? é preciso contar de la gare. o vocábulo será a unidade de léxico. serão. Quer dizer que todos os empregos da “mesma palavra”.93 42.20 100.690 palavras. entretanto.85 14. MULLER. o vocábulo seria a primeira ocorrência (aparecimento na fala) e palavra. então.35 TABELA V Total de vocábulos e palavras: 154 Vocábulos Total % Substantivos Adjetivos Verbos Totais gerais 27 05 14 46 17. que diz: “Encontra-se igualmente a noção de palavra numa oposição palavra vs. Nesta óptica. Cada nova ocorrência é uma nova palavra. que comuta. seriam necessárias três palavras também para du Havre.53 03.87 Palavras Total 66 23 65 154 % 42. Com relação à palavra.518 vocábulos.24 09. então.09 29. “desde que‟. reagrupados. Para a estatística léxica. como duas? Se se optasse por três palavras em du quai ( = de le quai).00 Para que se entenda este quadro. Por exemplo: em francês é preciso contar depuis que.

não acreditamos que as características do portinglês ocorram apenas na região pesquisada. Chegamos às seguintes conclusões: 5. mas também sociais. uma vez que observamos. CONCLUSÕES As análises que realizamos com a amostragem do corpus tiveram objetivos não só morfológicos e fonéticos.36 5.Variantes diatópicas ( geográficas) Apesar de não conhecermos trabalhos anteriores.2. Variantes Lingüísticas a) A existência da mescla b) A presença dos sistemas aberto e fechado nesta mescla c) Ocorrência de substantivos d) Ocorrência de adjetivos e) Ocorrência de verbos f) Influência da fonética do português na pronúncia do portinglês g) Marcas de oralidade do português brasileiro no portinglês 5. .1. onde estivemos em contato com comunidades de imigrantes brasileiros. ainda que de maneira empírica a existência deste falar nos estados de Connecticut e Flórida.

3. acaba sendo expresso na língua falada.Variantes diastráticas (sociais) Com relação aos aspectos sociolingüisticos do portinglês. acreditamos que os dois fatores mais importantes que influenciam a mescla lingüística. A razão primordial que leva estes falantes a imigrar é a de trabalhar muito para ganhar dinheiro num certo tempo e voltar ao Brasil. porém. o contato mais intenso com a cultura americana vai se adiando. enfim. O segundo fator seria o de que. Concluindo. que os obriga mesmo assim ao contato com a língua por uma questão prática: a de trabalhar. percebemos que a influência da faixa etária e do sexo dos falantes é mínima. a comunidade de imigrantes brasileiros continua a se comunicar em português. mas este português é permeado pelo inglês de uma maneira muito dinâmica. Com relação ao grau de escolaridade dos informantes. Essa tendência necessita confirmação em corpus maior ou diferente. nos últimos anos. Aqui parece que o que é preponderante é o fator extralingüístico da emigração em massa de brasileiros de determinadas regiões do Brasil para os Estados Unidos.37 5. médio e universitário – mostra que este fator é de pouca influência no falar destes imigrantes. a relativa uniformidade de escolarização dos informantes – fundamental. Esta situação tem mudado. a urgência com que o imigrante tem em lidar com uma situação adversa. O sentimento de temporariedade ( “fazer a América”). num primeiro momento. embora os informantes do sexo masculino sejam em número maior que o feminino. o ir e voltar. Com isto. Isto merece uma investigação à parte. detectados nesta pesquisa sejam o desconhecimento da língua inglesa. logicamente. com a maior organização de .

principalmente daqueles ligados ao comércio e de outros que decidem se tornar cidadãos americanos e. Na realidade. No momento. No ano de 2000 foi criada a câmara de comércio entre brasileiros e americanos em Framingham. o fenômeno de mescla lingüística ocorre de maneira inconsciente ou involuntária. a mescla. ou seja.38 alguns setores da comunidade de imigrantes brasileiros. Esta mudança de perfil no “status” destes imigrantes interfere diretamente no falar do português. numa situação econômica e social mais estável. que sentem. a presença da comunidade brasileira tem movimentado a economia desta área. em Governador Valadares. desse modo. são apenas especulações que fazemos devido a observações e informações obtidas informalmente através de professores da área de ciências humanas da Universidade do Vale do Rio Doce. assim. fazer parte da comunidade local. em que o imigrante já domina a língua inglesa e que para ele está mais clara a decisão de permanecer no país. Inicialmente. Num segundo estágio. Fato que não passa despercebido aos americanos. se não desaparece. aparece de forma mais controlada. . a necessidade de manter a política de boa-vizinhança. Isto pode ser corroborado pela presença de várias autoridades americanas em solenidade de abertura e pelo tom dos seus discursos na instalação da referida câmara de comércio (filmagem em VHS).

Pessoas que tinham uma vida até certo ponto confortável se encantavam com a aventura de ir trabalhar nos Estados Unidos. Sou. mas. uma imigrante. como no mito de Sisifo. tentei resolver o meu conflito da seguinte maneira: a mesma estrada de ferro que carregava minério e pessoas em seus vagões era pista de decolagem para os aviões que iam até os Estados Unidos.CONSIDERAÇÕES FINAIS Fazer este trabalho foi uma grande emoção. pois ao trabalhar com o tema imigração todas as lembranças do passado vieram à tona. Foi lá que passei a minha infância e adolescência e onde mantenho os laços de amizade e familiares mais fortes. Mas. a grande febre se tornou ir para os Estados Unidos. Segundo dizem foi. Várias foram as tentativas de nos mudarmos. carrego o sentimento do “ir embora”. Foram para onde? Alguns iam para São Paulo. Carrego comigo o paradoxo de ser filha de um mestre de linha – meu pai ajudou a construir grande parte da estada de ferro Vitória a Minas e de uma dama-de-ferro que nunca se sentiu presa a lugar algum. Assim. estávamos sempre de volta ao local de origem. pois desde tenra idade. digo que venho de Governador Valadares. riqueza da região. esta prática se popularizou e todos queriam ir para a América. seguindo os conselhos de Freud. que aqueles que iam. causando até mesmo uma queda demográfica significativa. eu não precisaria. tantos foram os lugares que já morei. por causa do comércio de pedras preciosas. Mas quando me perguntam de onde venho. . no início. ganhar muitos dólares e investir em algum negócio em Valadares.39 6. De Valadares. Com o passar dos anos. eu mesma. Internamente. chegavam contando maravilhas a respeito da terra do Tio Sam. tentar a sorte na cidade grande e industrializada a procura de uma vida melhor. ouço estórias a respeito dos que foram. Fato é.

que escrevo cada linha deste trabalho. não sabia então. me mudei para lá para acompanhar meu marido em seus estudos de pós-doutorado. Quanto mais estudamos sobre o que se passa conosco. A Sociolingüística . feijão e bife acebolado. mais precisamente em Framingham. morando lá. Considero importante o estudo deste fenômeno. De volta ao Brasil. Não pensava em ir para os Estados Unidos. que seria uma mescla lingüística e que nela haveria uma ordem. até. Muito menos que poderia ser sistematizada como uma gramática da comunidade. porém. mais teremos condições de entender o que somos. mas Valadares nunca saiu de mim.40 “matar” meu pai e minha mãe. tive mais contato com brasileiros residentes no estado de Massachussets. É um Brasil fora de casa. cidade que também acabei deixando. até mesmo rejeitava esta idéia. Mas ainda havia algo que me atormentava: saí de Governador Valadares. nos restaurantes podia-se comer um prato feito com arroz. e. Porto Seguro. salões de beleza e igrejas só para brasileiros. mas ironicamente. Nas ruas. assim como Ouro Preto. que me deixou mais fascinada era como o português fora de casa era falado. ou seja. com guaraná. Saí de lá para estudar em Belo Horizonte. Apesar de morar no estado de Connecticut. o que seria um fenômeno lingüístico. Qual não foi a minha surpresa ao ver muitas pessoas que eu não vira a muitos anos. não importa onde ele esteja. me ingressei no curso de Letras da Universidade Federal de Uberlândia e foi onde encontrei caminhos para compreender – com apoio na Sociolingüística. como também é comum ver lojas com produtos brasileiros. Parecia que estava no Brasil: nos supermercados. negar a minha origem. é comum ver brasileiros a toda hora. Queria entender o que era aquilo. Ribeirão Preto e Vitória – cidade onde nasci. porque ele é parte do que acontece com o nosso povo. O fato. ouvia as pessoas falando português. E é com profundo respeito a este povo que se torna imigrante.

.41 me ensinou a ver os fenômenos da língua desprovida de preconceitos. Espero ter cumprido esta missão.

S. 1974. University of Pennsylvania Press. A pesquisa sociolingüística. Ática. E ALKMIN. A estrutura morfo-sintática do português: aplicação do estruturalismo lingüístico. Línguas em contato. Empréstimos lingüísticos. Sociolinguistics. Penguin books. In: Acta semiotica et lingvistica. CARVALHO. J. T. W. São Paulo. Falares crioulos. 1999. F. Cultrix. S.42 7. Dicionário de lingüística. 1983. DUBOIS. M. MACAMBIRA. Plêiade. pp 61 – 88. LABOV. P. 1989. Middlesex. 1987. Pioneira. et al. São Paulo. Nelly. 1998. E. 1979. . São Paulo. 2000. Ática. Ática. Philadelphia. LOPES. TARALLO. R. São Paulo. An Introduction to language and society. Cultrix. As palavras proparoxítonas no falar de Fortaleza. J. TRUDGILL. São Paulo. TARALLO. F. 1972a. Fundamentos da lingüística contemporânea. São Paulo. Sociolinguistics patterns. BIBLIOGRAFIA ARAGÃO. São Paulo.

................... por exemplo eles tão lay offando [lejô‟fãdu] gente prá caramba......................Não.. Mas eu vou dar um check it out em [šεķi‟rawtjẽj] algum lugar ainda prá vê. Então................ E aí F.. . pá.... não é isso não...... né? Ahã..................... mesmo sem encontrar viu - ........................ ... não...........Mas você não foi atrás do carro................ Ali na Easy Day [izi‟dej].. a coisa ficou mais preta agora. ANEXOS 8.eu venho aqui só prá breakear [breiki‟a] mesmo. E o seu schedule [is‟kεdiw]de limpeza como é que tá? Ah......... é que ficar bisado igual cê fica............ ........... você que entrou tem pouco tempo.Deixei no carro.. e o cara bisado faz bobagem.... mas cê tem que ver é o seguinte: a oportunidade é essa aí... o pior não é isso não.. Tá bisado? Depois cê olha esse trem prá mim.Mas cê foi deixar a chave dentro do carro também......... como é que tá? ..... rapaz........ o negócio aqui é meio pesado........ como é que tá seu trabalho à noite lá? Que que ocê tá tendo que fazer? Cê tá trabalhando muito? ......Você pegou um dia off [„ôfi] aí ó. Cê queria o quê B.... ... prá vê se alguém colocou o seu carro em algum lugar diferente........ Ah bicho...... ............Você tava bisado...... ...... tá indo onde? Eu vou ali cashar [ke‟ša] meu cheque cara........F........A tristeza..... parquear o carro num lugar...........Transcrição dos diálogos Na fábrica: ..... o carro foi roubado! .......... senão eu vou coitar isso aqui. Pois é............... mas nem isso eu tô tendo muito tempo prá fazer não...... falou......... Cê tá sem tempo então.? ...... Ô F.....43 8.......... ...............1....Roubaram o seu carro........ Ô F.......... quando você volta........... eu vou ter que procurar outra coisa...........Agora tem que ficar checando algum parqueamento e tal.. eu tô bisado. Tô afim de coitar esse trabalho aqui. o que que você tá achando do trabalho aqui......... Tá gostando? Ultimamente eu não tô gostando não viu..... vai sair prá onde F.. Num tô satisfeito não... ... ele foi.

.... . ok. viu? Tem que estacar também? Ah. aquelas pedrinhas que eles pegam no chão por causa da neve É.... muita neve.. muito carpete viu? Pior que............................ o vaccum em que limpar toda hora..................................... cê estaca lá as dicantena que você fizer. O outro busboy [basi‟bôj] tirou o dia off........... dá..... eu só quero dar um recado pra G...........Tá ficando tarde e o F.. cê tem que serapiar e................ uai..... Na festa: ...................É que lá no restaurante tá bisado hoje............. Eu tenho que ligar lá pra casa.........Mas ele era suposto chegar aqui às dez horas! ................. Ah.......... Cê que vai tá por hora mesmo.................. Ih rapaz..... Ô F................ E falar em areia.... A despesa que dá porque gasta bag demais..... Depois do almoço.... uai? Ah...... ........................ diz que tem mais uma ordem ali procê ó....... meu filho........... muita areia.................................. tô cansado de printar viu? Brasuca............ né? Todo dia......... ... a B............44 - Rapaz.. vou te contar viu? Tá fudido neste país............... Quando ele enche muito de pedra por causa da neve.............. Pode ser por hora..... É........ É um saco........ mas me faz um favor: cê..................... cara.. mas como é que eu vou bater o cartão............................ E a limpeza B..................................... não chegou ainda. ........... Eu vou serapiar por hora......... Enche a bag [bεg]demais................................ Ô bicho daqui a pouco sê vai ter que fazer dicantena ( D-container) [dikã‟tẽna]. aumenta muita areia nos tapete nos vaccum [„vεkiũ] É. do chão? nó... ...... Era melhor que você estacasse lá prá mim.............. Eu vou tá piece work [pisu‟oRki]. Então.... Não sei se dá pra falar muito.... Tá todo mundo indo embora...... viu? Mapeia todo dia........ . Ah..... ................. tem que mapiar mesmo....... areia...... esses dias que tá nevando aí tá difícil viu? Tô tendo que vecar prá caramba aquelas.... então eu vou ter que serapiar........ cê tem umas quarter [„kôra] aí? Quarter não. mas tenho cartão........ E ele tem que serapiar as mesas sozinho..... resumindo isso aí cê tá bisado demais hein? Bisado demais... e fica muito difícil... sal................................... Tem que trocar as bag toda hora que está vequiando....

.. Uhum.....45 - - Eu não vou colocar a F...... na escola agora não............................... Gastar energia à toa.......... Então fala com ele pra me ligar............................... ..... pelo menos até sair aquele outro............... J. Vecar......... não........ Não te entendo............ Quero juntar grana logo e vazar.......... Espero juntar mais louça e a disher lava tudo de uma vez............ Prá fazer o quê? Eles tão pegando gente pra mapiar e vecar....... Pensando bem ele tá certo...Cê tá lavando a louça na mão? Por que cê não usa a disher [„diša]? .. Aí elas vão part time [par‟tajmi] pra escola e eu chego junto com elas... que tava procurando..................... Por enquanto ela vai pra baby-sitter [bejbi‟sira]........ você tá trabalhando part-time ainda? ........................ Tem um colega do F... Vou fazer igual eu fiz com a B.. quando tem pouca coisa assim eu não ligo a disher não................ As minhas meninas também ficavam só com a baby-sitter...... Eu por enquanto não posso fazer isso................... trabalha............ e o que que ele entende disso? Gosto é gosto......................................... Tô com o meu schedule busy[„bizi]... O problema é que quando você inventa ir no mall [môw] tem que ter paciência pra te esperar........................ falou que mulher alta ficar usando bag pequena é ridículo... de tarde...............................Pois eu....................................... Tô precisando...................... Só quero trocar aquela baguinha [bε‟gĩňa] que eu comprei por uma maior.. mas agora eu diminuí o meu schedule de limpeza.. pode ser uma knife [„najfi]........... cara.. Falar nisso se você souber de alguém que quiser vequiar por hora...... ...... Tô pensando em aplicar prá trabalhar lá no hospital que o K.............. Ah... . .... cê tinha adorado ela.... tudo bem.Ah.. Ela só vai pra escola no kindengarten... cê pode ir no mall [môw] comigo amanhã? Amanhã? É. F... Eu não vou demorar................. Quando eu chego em casa num quero saber de nada....... .. mas mapiar? Cê vai ficar estourado........... menina..... Por que que você quer trocar? O B....... que eu não lavo na mão...

... Aqui se chama rack.......... Qual? Vamos dizer aquelas.... E o schedule é de quantos escritórios? Sei lá... mas só pra final de semana.. Pelo menos eu nunca vi outra pessoa aqui brasileira falar a palavra estacar. Colocar as coisas em galpão industrial.. .. Só de ser no downtown.................... vou coitar o restaurante.... como é que você vai fazer? Vai dividir com alguém? Não................ o menininho saiu dali..... Em português eu não sei como se chama aquilo não...... ...........................Precisa não............. né? Aquelas prateleiras de aço..........Melhor ainda! Enquanto você vai lá eu já coloco as roupas.............. Eu troco procê.......... e a mulher também..... Tem um cara que tá passando um schedule só pra limpeza de escritório lá no downtown [daű‟taű] [dãw‟tãw]........... .............. né.... A frente do carro......... Num vai embora não que eu já tô de volta..46 - Arrumei num restaurante de busgirl [basi‟gεw].. .................. Tem uma bag lá............O dia que a gente saiu da tua casa lá.Tão falando de quem? .a palavra estacar surgiu lá da fábrica.......... Cê pede pra trocar pra mim? ....... Eu tô pensando em pegar.............. Aí eu vou direto. Num sei. . E aquele.................. a..... aquelas coisas que a gente.. Nove... meio tonto. já vai ser bom prá mim. cara mesmo se não for muita coisa já dá pra começar.....Aí.A mulher bateu o carro............ .Aquele poste ali ou neste aqui.. Onde você vai? Vou cashar os cheques que eu recebi prá pagar o pessoal... Por que? Porque de lá até a fábrica eu só gasto quinze minutos.Num foi aqui neste poste não..... Mas cê tá muito bisado.. . .... Eu preciso de quarter pra lavar minhas roupas. Se der certo... Aqui se chama racks [ŗεks]... dez anos.... E aquelas coisas se prateleiras mesmo......aquelas prateleiras que você usa para empilhar as coisas................................... Tiraram o meninho de lá...................... Eu tenho um monte de quarter. né? No Brasil eu não sei como que se chama não.... cheia... né? Foi ali atrás..........eu não sei se chama.......................... .... No carro: ..................... Um menininho assim de uns dez anos.Então assim surgiu isso né.... ........................ ............................................. ali................ Não agüento mais nem olhar pra aquela disher....... Essa semana mesmo já falo com o cara.................

Tô vendo. não? É. ah. o cara vai ficar off por um certo tempo. Tão quase quase prestes a caçar o mandato do. aquele cara lá da Bahia.. tem uma companhia que está com muitas pessoas trabalhando né? No. Né busy que fala.. que tá lá. Busy. Ahn. o famoso ACM. C. ah.. de repente num tá bom pra firma.. E no Brasil eu não sei como é que se dá o nome.. certo? .... Pode u-turn ali [ju‟čwR] [nali] na frente ó. melhorar de novo. não? Ahn? Né busy que fala. Mas.? Já... Tá vendo? Tô vendo. não. Já que você tá por fora da política do Brasil eu vou te adiantar algumas coisas aí. É... Mas aí num dispensa. Aqui vou. ACM.. viu? É mesmo? Ela pode ter passado mal ou alguma coisa assim.. Tô acompanhando o jornal daqui. tal. Talvez seja férias coletivas. O ACM. É.. F..47 - - Bateu feio. Agora aqui cê já passou. O lay off [lej‟ôfi]não é que o cara tá pra ser mandado embora.. Aí que que tem que fazer? tem que dispensar muita gente. né? É. Na linguagem brasileira é bisado.. Aquilo tudo vai acabar em pizza! Que que cê tá perguntando..? Oi?.. Cê tá acostumado ir no Ipanema? Vou. Aí.. o cara vai. o cara é chamado de volta. é. Cê já foi no Ipanema B. tá sempre busy. Então. num tô perguntando nada não. o lay off é.... Quando os negócios ficarem bons. E ele pode ir lá? Pode uai. né F. O Antônio Carlos.? Quer dizer muito movimento.. lay offar é o seguinte é. Então.. chegar ali no downtown de Holliston... Não. O Ipanema é bom.. Então eu vou te mostrar o . O poste. é que ele tá perguntando o que que é lay offar [lejô‟far].? Nada não. Tá sempre bisado lá.. né? É.por exemplo. no quadro de empregado lá. Tá devagar. Quer dizer que corre muito movimento né. no restaurante pode num pode é no bar...... Eles te dispensam temporariamente. bicho? Tá sempre bisado. não.

.. C. É uma linguagem brasileira.” É vecar.. (B. É. Na verdade. como dinheiro a gente fala cash [kεš]. muita gente que limpa casa aqui. E o brasileiro pega e fala breakear.. o tal de breakear? Entendeu. Vem de cash. da companhia. por exemplo. Mas tem coisa que você fala sem perceber... no caso stop seria.. É. uai. mistura o português com inglês.. eu trabalho com limpeza comercial e limpeza de casa. a gente usa.. Cê pega um dinheiro... Que é aspirar.48 - - - - - Aah.. a palavra cash. Parar. “Você cashou o seu cheque?” “Meu cheque eu cashei [ke‟šej] ontem.. É.” Eu descontei ontem. A minha esposa. Então. cê vai dar um tempo.muita coisa que aqui.? Entendi. Dinheiro vivo. mas isso. ele tem direito a uma parada para café de quinze minutos na manhã. isso se chama break. e uma à tarde de quinze minutos também. né? Cê vai lá descontar o cheque no banco.. É até absurdo né? A palavra breakear. Ahn. vequiar. Você vai. “É hora de breakear”. Que trabalha com este tipo de serviço... Cê recebe seu cheque né. no caso né? Então a gente... Cê não vai mais voltar pra trabalhar.. Aí. Break. Hum. Eles falam também. aqui o cara trabalha oito horas em uma companhia. A gente usa muito o aspirador de pó que aqui se chama vacuum. eu vou para de trabalhar. Então a gente fala lay offar. Por exemplo.. uma linguagem brasileira. “ – Já vecou lá fulana. Você falando em português você fala com o cara assim ó: vou cashar meu cheque.. vai fazendo parte do seu vocabulário sem você perceber.. o break.... ri) É. seria uma parada. Aspirar. né? Ahã. É né. Esse queixar aqui na realidade não é queixar.. Então. fala vecar. Stop [is‟tôpi] também não é parada? Como é que é? Stop também é parar.(risos). Mas aí é.. É. né? É. já vecou? – Já vequei. é cashar [ke‟ša]. No caso descontar o cheque. Aí cê vai num banco e cê fala assim. Aí vem a palavra vecar.. Tem base um negócio desse. . “A companhia vai lay offar muita gente”.. igual tem outras linguagens aqui que a gente usa né? Queixar. E aqui. Vai para por aquele dia.. Cê vai pedir o cash deste cheque. O break é como se fosse um tempo.

... Como se fosse imprimir alguma coisa... Porque em inglês é print. na realidade a gente sabe que tá.. .. É..... Que se chama box.... É. como se fosse. o seguinte: as companhias pequenas normalmente.. . Ah... então.. É.... Print? Print.. o nome da companhia naquele box. né? Ah... o nosso português aqui do. - - Cê acabou de falar um negócio aí que foi interessante. não sei se dá pra você. num tá conseguindo parquear aqui não? Hem? A vaga tá meio apertadinha... Aahh... Print.. a gente já compra os box. Meio mal.. aliás.. você perguntou se eu podia u-turn... tal tal tal.. é....é. .. então....... - Ô..... que acontece muito aqui na América.. normalmente companhia grande... ela acaba aportuguesando a palavra.. Lá naquela máquina que a gente passa os box. né? Em vez de perguntar de eu podia retornar. As companhias pequenas.... imprimido naquele box..é.. imprimir alguma coisa. X..... Põe umas borrachas com o nome das companhias assim nos rolos............. printar. Uai........ a companhia que eu trabalho ela mexe com........ que tá falando errado. É.. Se podia fazer o u-turn. Aí garoto! Parqueou direitinho...... Nunca ouvi falar isso.. Ahn.. num fala inglês. mas talvez......facilita mais.......... tá misturando o inglês com o português.a gente vende caixas pra mudança.. E a gente.... Que que quer dizer printar box. É... É. .. né? Ahã... sei.. as pessoas que chegam não sabem o nome em inglês. e uma pessoa fica lá atrás colocando o box na. É... que se chama box.... já com o nome da companhia... já começa a falar.... É printar box... o nosso aqui é printar.. mas num. no caso. na máquina e vai passando e imprimindo...... Então.. E aí a gente chama de printar..ou sabe o nome em inglês..49 - - - - Lá na companhia tem um serviço que talvez . Caixas de papelão pra mudança.......... talvez prá poder falar a palavra em inglês e ao mesmo tempo falar no português. É. a gente faz a imprensa lá mesmo.. O que acontece muito aqui......... E.... cê perguntou.............. Cê vai fazer um retorno ali.

.. saindo da rota nove......É a primeira vez que eu tô vendo esse negócio aqui bisado..50 No carro II: ....É..Tem hora que aqui tá busy demais..Tem que ir no batizado da S............ .........Bom...............Foram duas no Donkin Donut’s [dõkĩ‟dõnučis]............... .....Talvez a gente consiga lá porque eu tenho um conhecido antigo que trabalha lá.. ............. .... Essa aqui na Filene’s [faj‟linis]...... ... pegando a Main Street..E agora vamos ali no Stop and Shop e [istôpẽ‟šôpi] vamos................Vamos completar a quarta aplicação........ nós acabamos de fazer aí a ultima aplicação né? De trabalho....Ahã..Bom..... ......O negócio é ir pra casa..É. .. agora nós já estamos chegando em casa.........É............? ..... ......................... ... .Que daqui a pouco eu tô bisado.... ........ .Então nós conseguimos fazer o que..... umas três aplicações......Quase. T.... ...... ............. .......... quase...É mesmo............ né? .......Onde... . aqui na Filene’s... a Main Street [mẽjs‟triti]? .. ....... ..Como é que é M.. né? .

umas quarter [„kôra] 20 38. estacasse 18 36. breakear [breiki‟a] 8 13.work [pisu‟oRki] 19 37. Mapeia 13 23. serapiar 17 32. parquear 3 4. dicantena ( D-container) [dikã‟tẽna]16 29. coitar 9 14. mapiar 13 19. o vaccum 14 24.2. lay offando [lejô‟fãdu] 11 16. bag 15 26. printar 21 40. coitar 9 17. bisado 2 5. a bag [bεg] 15 25. as dicantena 16 34. Bisado demais 2 21. seu schedule [is‟kεdjw] 7 11. busboy [basi‟bôj] 23 .dar um check it out em [šεķi‟rawtjẽj] 5 9. bisado 2 6. Quarter 20 39.51 8. serapiar 17 30. vecar 12 18. nos vaccum [„vεkiũ] 14 22. cashar [ke‟ša] 6 10. cê tá bisado demais 2 20. Lista de palavras registradas pela pesquisa ( os números à direita indicam a que agrupamento de vocábulos elas pertencem) 1.parqueamento 3a 8. off [„ôfi] 1 2. bisado 2 3. na Easy Day [izi‟dej 10 15. bisado 2 12. cê estaca 18 33. as bag 15 27. piece. checando 4 7. estacar 18 35. serapiar 17 31. serapiar 17 42. era suposto 22 41. vequiando 12 28.

no downtown 32 73. Tá sempre bisado 2 85.Tá sempre bisado 2 84. muito bisado 2 69. a baby-sitter 24 47. estacar 18 80.vecar 12 58. a disher [„diša] 29 61. Pode u-turn ali [ju‟čwR] [nali] 34 82. Busy.. no downtown [daű‟taű] [dãw‟tãw] 32 68. no mall [môw] 27 52. rack 33 79. 35 88. uma knife [„najfi] 30 63. dia off 1 44. racks [ŗεks] 33 78. não? 35 87. busgirl [basi‟gεw] 23 66. Né busy que fala. no kindengarten 25 46. no mall [môw] 27 53. 35 89. cashar 6 74. aplicar 28 56. vequiar 12 51. no downtown 32 83. mapiar 13 57. Na linguagem brasileira é bisado 2 . meu schedule 7 48. part-time 26 65. precisando de quarter 20 75. mapiar 13 60.52 43. a disher 29 62. tá sempre busy. aquela baguinha [bε‟gĩňa] 15 54. não? 35 86. meu schedule busy[„bizi] 7 50. a disher 29 64. um monte de quarter 20 77. bag pequena 15 55. um schedule 7 67. estacar 18 81. baby-sitter [bejbi‟sira] 24 45. uma bag 12 76. É. o schedule 7 72. part time [par‟tajmi] 26 49. aquela disher 29 71.. coitar 9 70. Né busy que fala. Vecar 12 59.

o lay off 36 94. Break 38 114. print 21 134. no caso 40 127. breakear 8 113. o box 40 131. lay offar [lejô‟far] 11 91. Print? 21 135. cash 37 103. vecar 12 108. cash [kεš] 37 99. os box 40 130. Print 21 136. breakear 8 118. break 38 115. stop 39 121. Caixas de papelão. vecar 12 107. printar 21 133. Stop [is‟tôpi] 39 120. vequei 12 110. naquele box 40 132. o cash 37 100. 40 125.. O break 38 122. lay offar 11 97. printar box 21. que se chama box. breakear 8 117. vacuum 14 106. cash 37 102. vecou 12 109. É. cashou 6 104.Que se chama box. cashar [ke‟ša] 6 98. vequiar 12 112. 40 124. printar box 21. printar 21 . cashar 6 101. naquele box 40 129. os box 40 128. lay offar 11 96.53 90. O lay off [lej‟ôfi] 36 93. 40 126. lay offar 11 92. breakear 8 116. o break 38 123. cashei [ke‟šej] 6 105. ficar off 1 95.. vecar 12 111. Stop [is‟tôpi] 39 119.

. esse negócio aqui bisado 2 152. printar 21 139. parquear 3 140. fazer o u-turn 41 143. na Filene’s 10 145. a Main Street 10 8.. umas três aplicações 42 147. Parqueou 3 141.3.. . Print. tá busy demais 35 154. a última aplicação 42 144.21 138. a Main Street [mẽjs‟triti] 10 153. na Filene’s [faj‟linis] 10 149. tô bisado 2 146. Lista de vocábulos e seu número de ocorrências off [„ôfi] 3 bisado 12 parquear 3 checando 1 check it out em [šεķi‟rawtjẽj] 1 cashar [ke‟ša] 6 seu schedule [is‟kεdjw] 5 breakear [breiki‟a] 9 coitar 3 na Easy Day [izi‟dej 1 na Filene’s [faj‟linis] 1 no Donkin Donut’s [dõkĩ‟dõnučis] 1 no Stop and Shop e [istôpe‟šôpi] 1 a Main Street [mẽjs‟triti] 2 lay offando [lejô‟fãdu] 5 vecar 11 mapiar 4 vacuum 3 a bag [„bεgi] 6 dicantena 2 serapiar 4 cê estaca 5 cê tá piece of work [pisu‟oRki] 1 umas quarter [„kôra] 4 printar 11 era suposto 1 . no Donkin Donut’s [dõkĩ‟dõnučis] 10 148.você perguntou se eu podia u-turn 34 142. a quarta aplicação 42 151.54 137... no Stop and Shop e [istôpe‟šôpi] 10 150..

55 busboy [basi‟bôj] 1 busgirl [basi‟gεw] 1 baby-sitter [bejbi‟sira] 2 no kindengarten 1 part time [par‟tajmi] 2 no mall [môw] 2 aplicar 1 a disher [„diša] 4 uma knife [„najfi] 30 1 no downtown [daű‟taű] [dãw‟tãw] 3 racks [ŗεks] 2 Pode u-turn ali [ju‟čwR] [nali] 2 Né busy que fala. não? 5 O lay off [lej‟ôfi] 2 cash [kεš] 4 Break 4 Stop [is‟tôpi] 3 printar box 2 os box 7 fazer o u-turn 1 a última aplicação 3 .

check-it-out 1 3.kindengarten 1 11.box 7 22.Donkin Donut‟s 1 26.vacuum 3 5.cashar 6 3.knife 1 14.break 4 21.busgirl 1 15.mall 2 12.Easy Day 1 6.vecar 11 7.lay-off 2 19.parquear 3 2.breakear 9 4. Substantivos 1. SEPARADOS POR CLASSE DE PALAVRAS 9.aplicação 3 25.downtown 3 16.56 9.U-turn 1 23.1.coitar 3 5.busboy 1 9.parqueamento 1 2.2.quarter 4 17.Main Street 2 9.decantena 2 8.baby-sitter 1 10.bag 6 7. Verbos 1.lay offar 5 6.disher 4 13.schedule 5 4.Stop and Shop 1 27.rack 2 18.vequiar .Filene‟s 1 24.cash 4 20. RELAÇÃO DOS VOCÁBULOS ENCONTRADOS NA PESQUISA.

57 8.aplicar 1 14. Adjetivos 1.3.mapiar 4 9.printar 11 12.ser suposto 1 13.bisado 12 2.busy 5 3.estacar 5 11.piece -work 1 5.off 3 4.part-time 2 .U-turn 1 9.serapiar 4 10.