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Economia como Curso Profissionalizante !?

Eleutério F. S. Prado
Professor da USP

Logo após o golpe de estado na Venezuela, no dia 14 de abril, domingo, o jornal


Folha de São Paulo, apresentou em suas páginas uma entrevista feita por telefone com o
economista Jeffrey Sachs, em que ele se dizia "maravilhado".

Folha: O sr. se diz "maravilhado" com a queda de Chávez. Por quê? Jeffrey Sachs
respondeu: Maravilhado, sim. Porque o ex-presidente Hugo Chávez estava conduzindo a
Venezuela direto ao abismo. A economia estava em estado miserável, o direito de
propriedade foi minado, a liberdade de imprensa corria risco e as medidas que ele vinha
tomando eram cada vez mais arbitrárias".

No dia seguinte, segunda feira, 15, o jornalista da Folha, Vinicius Torres Freire,
numa matéria que tinha por título "Chávez, economistas e democracia", mostrou-se
indignado.

Vinicius: O economista Jeffrey Sachs, cavaleiro andante das reformas liberais,


parecia uma cavalgadura autoritária na entrevista ontem na Folha. Ficou "maravilhado"
com o golpe contra Hugo Chávez. Primeiro, ficar "maravilhado" é coisa de miss, não de
intelectual. Segundo, golpe jamais é uma "maravilha", mesmo contra tipos suspeitos como
Chávez. É barbárie política. Costuma morrer gente, pode dar em guerra civil, em
destruições horríveis".

Apresento esses fatos, primeiro para indicar que há um certo mal-estar na sociedade
em relação ao economista, ainda que possa ser verdade, também, que ele seja "um
profissional valorizado e respeitado ... nas empresas e nos governos", com diz o manifesto
dos alunos. E esse mal-estar está fundado, creio, numa certa insensibilidade do economista
que detém poder na sociedade atual em relação às demandas de ordem moral, ética e
política.

Em conseqüência, apresento esses fatos também porque eles me permitem perguntar


sobre as razões pelas quais um economista é capaz de sustentar uma opinião tão contrária
ao bom senso. Eles me permitem indagar como o sistema de pós-graduação pode gerar e
fazer prosperar estrelas de espírito tão pouco iluminado?

Para tentar responder essa questão preciso fazer uma referência ao conceito de
sociedade de Habermas. Segundo esse autor, a sociedade é formada por duas esferas que se
interpenetram e que são, pelo menos até o presente, contraditórias entre si: o mundo da vida
social e cultural constituído na família, na escola, na igreja, etc. −, e o mundo do sistema
que é formado pela economia (mercado e empresas) e o Estado.
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Por mundo da vida, entenda-se o acervo de conhecimento compartilhados de modo


intersubjetivo que permite a comunicação por meio da linguagem, os processos de
entendimento, a formação das identidades culturais, enfim, uma vida possível de ser regida
por normas e por uma racionalidade prática (ou seja, ética). Até o presente momento
histórico, entretanto, o mundo da vida social e cultural tem estado abafado pelos
imperativos originados do sistema.

Por mundo do sistema, entenda-se um conjunto de instituições de auto-regulação


que possibilitam a apropriação da natureza e assim a sobrevivência material da sociedade.
O sistema econômico e estatal integra e coordena as ações instrumentais e estratégicas (não
éticas, portanto) de átomos sociais. Ele funciona, de modo mais ou menos eficaz, a despeito
da consciência desses agentes, ou seja, sem transparência e gerando heteronomia. É por isso
que um autor como Marx enxerga na esfera econômica, com razão, uma fonte de alienação,
fetichismo, exploração e violência disfarçada que se espraia pela sociedade como um todo.

Ora, o economista é aquele que estuda, analisa e compreende o sistema econômico,


os seus modos de funcionamento e as suas leis objetivas. Um economista que preserva o
mundo da vida vem a ser alguém mais completo que é capaz de compreender as ilusões que
esse próprio funcionamento cria, o modo como as diversas teorias o refletem e os interesses
que elas vinculam. Tal economista pergunta sempre pelos fins, se são justificáveis, porque
deseja submeter os funcionamentos à realização do homem como sujeito emancipado,
artífice de sua própria história. Já o economista estritamente profissional, reduzido em sua
formação àquele que domina apenas os aspectos técnicos do saber econômico, vem a ser
meramente um misto de advogado e de engenheiro da racionalidade sistêmica e do sistema
econômico. Vem a ser, pois, alguém que toma o fim do sistema econômico, a acumulação
de riqueza, ou melhor, a acumulação de capital, como um dado, algo que deve prevalecer
sob quaisquer circunstâncias.

É apenas um economista desse último tipo, assim formado e assim desenvolvido,


que pode se comportar como Jeffrey Sachs (ainda, obviamente, que isto não seja
suficiente). Ele ficou "maravilhado" porque pensou que estava se restabelecendo na
Venezuela a "racionalidade econômica", pouco importando se por meio de uma ação não
democrática, de um rompimento com as normas constitucionais que até o momento
agregavam e uniam a sociedade apesar de suas divisões implícitas e explícitas. As
formalidades democráticas, para gente como ele, só devem ser mantidas quando favorecem
e são consistentes com a ordem econômica imperial que aparece para muitos como
economia globalizada. É certo, também, que outros economistas do mesmo tipo, entretanto,
souberam conservar um certo comedimento. De qualquer modo, parece verdadeiro também
que o sistema de pós-graduação predominante gera e espalha pelo mundo "centuriões do
império", economistas que dominam técnicas e são bem treinados mas atuam de um modo
basicamente anti-humanista.

Ora, isto reclama que se enfrente a seguinte questão: será mesmo tal "racionalidade
econômica" racional do ponto de vista de um mundo da vida social e cultural que deseja se
libertar dos constrangimentos impostos pelos funcionamentos sistêmicos? Sabendo que a
acumulação de capital se encontra hoje finalmente desonerada, na era pós-moderna, de
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quaisquer valores que não o próprio valor econômico como tal, será que isto pode ser
considerado defensável?

Adianto, que há duas possibilidades. Ou se pensa com Hegel e Marx que a história
é um caminho pelo qual o homem se liberta da alienação, ou seja, das instituições criadas
pelo homem mas que lhe parecem coisas naturais e que o oprimem. Ou se pensa com
Hayek que a única saída boa é se conformar com essas instituições criadas cega e
espontaneamente, já que elas seriam insuperáveis porque, sendo complexas, não seriam
domináveis pela razão.

Paradoxalmente, entretanto, para dar uma resposta a tal questão, não vou recorrer a
nenhum autor socialista. Vou chamar para a discussão um neoliberal, deixando inicialmente
que ele mesmo fale. O que diz sobre essa questão Edward Luttwak em seu livro
Turbocapitalismo - Perdedores e ganhadores na economia globalizada?

"Permitir que o turbocapitalismo faça as coisas do jeito que quer, como nos Estados
Unidos e no Reino Unido, resulta em desigualdades de renda cada vez mais profundas em
troca de um crescimento econômico não tão veloz. Resistir ao turbocapitalismo,
preservando as leis trabalhistas e estabilizando regulamentações comerciais, ou até mesmo
a propriedade pública, como na França, sobrecarrega os empregadores, diminui o número
de empreendimentos e retarda o progresso tecnológico, resultando em um crescimento
ainda mais lento e em um desemprego estrutural considerável."

"Permitir que o turbocapitalismo avance sem resistência fragmenta as sociedades


em um pequena elite de vencedores, uma massa de perdedores de afluência variada ou
pobreza e rebeldes contraventores. Não apenas o sentimento de companheirismo social é
erodido, mas até mesmo os laços familiares... O colapso social resultante precisa então ser
compensado por leis duras, sentenças ferozes e encarceramento em massa, para tirar de
circulação os perdedores pouco amistosos..."

"Permitir que o turbocapitalismo converta todas as instituições − de hospitais e


editoras a corridas de longa distância" (assim como as universidades, não poderíamos
deixar aqui de acrescentar) − "em empresas com fins lucrativos perverte seu conteúdo
essencial, enquanto melhora seu desempenho econômico.... Isso, afinal, é a inversão
turbocapitalista: as sociedades servem à economia, não o oposto. ... Quando todo o capital
é alocado de forma eficiente... não sobra nada para as instituições que fazem coisas não
lucrativas por causa de obrigações morais, pretensões moralistas, ética profissional ou
vaidade profissional, altos ideais ou meros hábitos".

O texto é claro, a imposição sem restrições da "racionalidade econômica


capitalista", não parece racional do ponto de vista de um mundo da vida social e cultural
que quer se tornar emancipado. Luttwak argumenta, entretanto, como bom neoliberal, que
não haveria por enquanto qualquer outra alternativa. De um modo mais afoito, Fukuyama
havia argumentado que estávamos na presença do fim da história.
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Não deveríamos concluir, nesse caso, que só resta aos cursos de Economia a
perspectiva profissionalizante? A mensagem implícita ou mesmo explícita que se passa,
hoje, aos jovens estudantes de Economia é que devem lutar para serem bem sucedidos,
buscar apenas um bom emprego e que para conseguir isto tem apenas de aprender teoria
neoclássica nas suas várias variantes e econometria, muita econometria. Este seria o
caminho do sucesso. Ora, o problema vem a ser justamente tomar o sucesso como objetivo
maior de uma carreira, de uma vida produtiva.

Mesmo para aqueles que querem se integrar confortavelmente na ordem econômica


estabelecida, duvido que esse seja o melhor caminho. Porque este é um objetivo que só
pode ser perseguido indiretamente, por meio de uma boa formação que além de plural em
termos de teoria econômica, envolva também o conhecimento de história, sociologia,
filosofia etc. De qualquer modo, para este tipo de aluno minha mensagem é que sigam o
seu curso mas não esperem vida fácil num mercado de trabalho congestionado e
desregulado em que os empresários e capitalistas têm, como se diz, o facão nas mãos.
Sigam o seu curso, mas não aceitem um treinamento inferior que visa torná-los mera
"massa intelectual" para o mercado de trabalho.

Duvido, entretanto, da possibilidade de efetiva realização humana dentro de uma


perspectiva estritamente individualista, num mundo em que o comportamento sensível,
companheiro e ético torna-se, cada vez mais, uma mera conveniência ou mesmo uma mera
hipocrisia. Estamos falando de um mundo em que, por exemplo, trair e explorar os amigos
é um esporte recompensador. É por isso que considero a opção individualista da mera busca
do sucesso profissional como moralmente inferior. É por isso que considero a opção de
Hayek como um engodo.

Preciso, pois, argumentar contra a tese segundo a qual "não há alternativa".

Em primeiro lugar, é preciso mencionar que falta um pouco de lógica na afirmação


capciosa do fim da história: ela não pode ser uma proposição fatual mas apenas "wishful
thinking", desejo oculto de bloquear a criatividade histórica das multidões e das forças
políticas. Não se pode anunciar o fim daquilo que − usando provocadoramente uma
metáfora econométrica e empregando o princípio da razão insuficiente − é um processo não
ergódigo. Concordo, pois, com Luttwak quando ele diz que o capitalismo sem vergonha de
si mesmo "não pode ser a realização culminante da existência humana. O turbocapitalismo"
- completa ele, de modo inesperado para um neoliberal - "também vai passar". O sistema
econômico de controle centralizado, seja sob a forma estalinista seja sob a forma nazista, já
passou. A forma presente de economia totalitária, como a sua consagração da aparência
inclusive no plano da democracia, também será superada.

Acredito, pois, que uma parte importante dos jovens estudantes de Economia não
vai abandonar o caminho da boa formação numa perspectiva que inclui a reflexão sobre as
teorias econômicas e a crítica inclusive das instituições sociais e políticas existentes. Eles
vão encarar como tarefa, inclusive, ajudar a deixar para trás na história o totalitarismo
decentralizado do valor econômico e de seu estilo de vida que Debord chamou de sociedade
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do espetáculo. Simplesmente, porque que esse caminho é ética e moralmente superior ao


outro anteriormente mencionado.

Porém, a minha argumentação contra a tese de que "não há alternativa" ainda não
está completa.

Para finalizar, gostaria de fazer uma afirmação forte: não acredito que essa
alternativa que os ideólogos do fim ou do estancamento da história apontam como
irrecusável possa ser construtiva ou generativa. Ao contrário, penso que não pode haver
sociedade progressiva em qualquer sentido com um mundo da vida em processo de
obliteração. O caminho do conformismo ao capitalismo irrestrito é simplesmente o caminho
da degradação, do cinismo e da corrupção. Uso essa última palavra não apenas no sentido
moral e legal que assume nos nossos dias. Com Hardt e Negri, emprego o termo corrupção
para indicar um processo degenerativo que ocorre quanto na sociedade torna-se impossível
vincular as formas de vida existentes a qualquer valor que não seja fonte de alienação ou
heteronomia, tal como o valor econômico.

O argumento neoliberal a favor de um capitalismo que perdeu o pudor é falso.


Alternativas são possíveis, necessárias e mesmo imperativas. Elas serão encontradas na
história. Opto por isso por um curso de economia que seja de formação ampla e não apenas
de instrução para o mercado de trabalho.

Se querem ter uma visão concreta do que digo no penúltimo parágrafo, para não
pensarem que me refiro a miragens filosóficas, recomendo que reflitam sobre o que ocorreu
e vem ocorrendo na ex-União Soviética e na Argentina. As circunstâncias e as causas
estruturais podem ter sido diferentes, mas em ambas a acumulação como um fim em si
mesmo destruiu a própria economia e a eticidade. Marx disse que "a verdadeira barreira da
produção capitalista é o próprio capital": penso que todos deveriam levar isto a sério como
economistas, cidadãos e pessoas morais. Ninguém vai escapar da crise de um sistema
econômico que esgotou as suas possibilidades de gerar civilização e que vai produzir, cada
vez mais, apenas barbárie.