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AS COTAS RACIAIS COMO ESTRATÉGIA DE IMPORTAÇÃO CULTURAL E POLÍTICA INTRODUÇÃO A superação das desigualdades socioeconômicas impõe-se como uma

das metas de qualquer sociedade que aspira a uma maior igualdade social. Uma das alternativas propostas é o sistema de cotas que visaria a acelerar um processo de inclusão social de grupos à margem da sociedade. A lei constitucional estabeleceu as reservas de vagas para deficientes físicos, o qual passou a ser adotado em diversos concursos públicos, com a ressalva de que o emprego ou cargo não exija plena aptidão física. Com o tempo, outros grupos sociais passaram a pleitear a cotização de vagas para "garantirem" uma participação mínima em certos setores da sociedade como as universidades públicas. A justificativa para o sistema de cotas é que certos grupos específicos, em razão de algum processo histórico depreciativo, teriam maior dificuldade para aproveitarem as oportunidades que surgem no mercado de trabalho, bem como seriam vítimas de discriminações nas suas interações com a sociedade. Sob o manto da aprovação popular, numa concepção de democracia enquanto maioria, foi-nos imposta a submissão à política de cotas raciais, sempre sob o argumento do sucesso de tal política em ³um país de primeiro mundo, como os EUA´. Importa-se um modelo cultural e político de apregoado sucesso nos Estados Unidos da América (EUA) sem uma preeminente preocupação de que nos encontremos em condições histórico-sociais assemelhadas para que tal política obtenha o mesmo êxito. Assim, o efeito de tais políticas em médio prazo poderá ser nefasto, gerando um maior acirramento das diferenças raciais no Brasil.

AÇÕES AFIRMATIVAS, RAÇAS E RACISMO: DIFERENÇAS FUNDAMENTAIS As ações afirmativas são políticas públicas e mecanismos de inclusão, concebidas por entidades públicas ou privadas e por órgãos dotados de competências jurisdicionais, com vistas à concretização de um objetivo constitucional universalmente reconhecido ± o da

Exatamente nessa perspectiva. no lugar de remediar conflitos. os resultados não alcançaram seus objetivos. pois acabam por transformarse em um instrumento de divisão da sociedade em classes e da concessão de privilégios ± os quais. nos países em que as ações afirmativas. Estados Unidos.também. fruto de reivindicações dos movimentos negros. por meio de ato executivo do presidente Kennedy. O benefício concedido a um grupo específico gera grande desarmonia por parte daqueles que não foram µcontemplados¶. dos benefícios. e também não de ser negado ou ser submetido à discriminação sob qualquer programa ou atividade que recebem assistência financeira federal´. em meados dos anos 60. . basta que se observe as organizações urbanas periféricas. nas quais há a criação de bairros negros. No final dos anos 70. 601 do Civil RightsAct. ser excluída da participação. porém. requerendo nos tribunais o fim de segregações das escolas públicas. do tipo sistema de cotas raciais. que previa: ³Nenhuma pessoa nos Estados Unidos deve. a Suprema Corte Americana declarou inconstitucionais as cotas para negros e outras minorias. de uma forma geral. Sri Lanka. Porém.efetiva igualdade de oportunidades a que todos os seres humanos têm direito. Ações afirmativas. são criadas como medidas temporárias e compensatórias de certas injustiças sociais impostas por algum tipo de opressão racista. a prática não corresponde ao planejado. a integração do negro não é plenamente aceita. Porém. na sociedade norte-americana. somente servem para incitar preconceitos. como: Índia. As ações afirmativas. baseados no velho modelo da política de conceder algo para evitar mal maior. foram implantadas. fruto de política francamente sulista que. fizeram a concessão das cotas.As cotas neste país são. em razão da raça. ao ficarem acossados pelos movimentos negros. foram implantadas em diversos países. As decisões americanas foram fundamentadas no art. o que ocasiona o aparecimento de movimentos e pressões para que todos os excluídos do sistema possam ser µagraciados¶. cor ou origem nacional. A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL NORTEAMERICANA E DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL BRASILEIRA Nas décadas de 50 e 60houve uma série de iniciativas dos movimentos negros nos EUA. Malásia. entre outros. por exemplo. surgiram as cotas universitárias no ensino superior aos cidadãos americanos negros. de 1964. Nigéria. historicamente. como o sistema de cotas.

. metaforicamente. apenas cento e quarenta conseguirão passar para o segundo grau. Com a incompetência característica do subdesenvolvimento cultural e o oportunismo dos interesses . em cada mil brasileiros que nascem vivos. a possibilidade de ascensão social docidadão de cor. quinhentas não concluirão as quatro primeiras séries de estudo. à época do Brasil Império. facilitando a entrada dos brasileiros que possuem uma tez mais escura. sobreviverão marginalizados nas ruas. quanto no campo cultural. automaticamente. pelo exílio. não se pode querer minimizar suas consequências. o negro. cerca de noventa morrem antes de cinco anos de idade.Embora o sistema escravagista dos séculos XVIII e XIX tenha causado danos de incalculáveis proporções a todos que dele foram vítimas. por fome ou doenças endêmicas. não há justificativa na institucionalização estatal da diferença de raças. quase cento e vinte são excluídos desde a infância. há. no imaginário social. Com efeito. moradores das favelas e periferias das cidades. apesar da marginalização em que foram mantidos. abandona a sua cor preta e assimila a cor branca. pela tortura.No Brasil. apenas noventa atravessam as dificuldades de sobreviver e são educados até o fim do segundo grau´. o que geraria. cada mil brasileiros que nascem. Das setecentas e noventa que restam. pela prisão. ou seja. os negros passaram à chamada classe dos oprimidos ladeados por mulatos. na universidade. como se fossem estes os responsáveis. cento e cinquenta não concluirão as quatroséries seguintes do primeiro grau. Nesse caso. Ainda nas palavras de Buarque apud Soares ³[.] os ideólogos da modernização da miséria e do desastre social passam a acusar seus críticos. Dos sobreviventes. Cem anos depois de um contínuo e intenso processo de crescimento econômico. uma abrupta modernização tanto no campo político. jamais entrarão em uma escola. em pouquíssimos anos. pela censura. ³como um dos resultados dessa modernização. segundo Cristovam Buarque apud Hector Cury Soares. Propõem a continuação do mimetismo do progresso técnico e do consumo dos países do chamado Primeiro Mundo.Os construtores de desastre continuam confundindo os objetivos desejados com os meios técnicos que noutros países tiveram de fato um papel modernizador.. no Brasil. Diferentemente dos EUA. o seu embranquecimento. não há como dissociar a história do país em relação ao negro. não serão beneficiados nem úteis socialmente. OS PROBLEMAS DA IMPORTAÇÃO DE CULTURA E DE POLÍTICA NO BRASIL O crescimento da economia brasileira gera. Com o fim da escravidão. exatamente porque apresentavam caminhos alternativos.

tornam-se mais escuros) sequer conseguem superar o ensino fundamental. os componentes das classes mais baixas (que independente da cor. dividiu-se e endividou-se. porém cada uma das instituições possui um sistema diferente.708/01 institui o sistema de cotas para estudantes denominados negros ou pardos. sem preocupação com uma adequação eficaz a nossa realidade histórico-social. Segundo o Estatuto. tendo como critérios os indicadores sócio-econômicos. e. Além disso. é obrigatória a identificação dos estudantes de acordo com a raça. como registrado no site da instituição. na perspectiva apresentada. "ao manter apenas um segmento étnico na construção do pensamento dos problemas nacionais. em empresas privadas e partidos políticos. A cota racial. na prática. cópia.particulares. ou a cor ou raça do indivíduo. além de outras medidas que atingem a vida sócio-econômica de todos os brasileiros. com percentual de 40% das vagas das universidades estaduais do Rio de Janeiro. continuam a importar os objetivos e os instrumentos que foram utilizados para modernizar países diferentes. de forma alguma a cota racial geraria redução na discriminação racial. A UNB decidiu adotar o sistema de cotas em 2004 porque "a universidade brasileira é um espaço de formação de profissionais de maioria esmagadoramente branca". o que se dirá do ensino médio! AS COTAS NO BRASIL A lei 3. o país enfraqueceu e comprometeu sua dignidade de nação. violentou-se e se fez violento´. no Brasil. tais como a Universidade de Brasília (UNB) e a Universidade do Estado da Bahia (UNEB) também aderem a tal sistema. importação do modelo norte-americano de cotas raciais. a Lei de Cotas propõe política de cotas para o ingresso de negros e pardos nas universidades federais e estaduais e nas instituições federais de ensino técnico de . a criação de cotas para negros nas universid ades. Em vez de avançar. eis que. Outros estados brasileiros também aderiram ao sistema iniciado pelo Rio de Janeiro e. No Brasil há duas leis que versam sobre o tema: o Estatuto da Igualdade Racial e a Lei de Cotas. Outras universidades. segundo o Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro ± UERJ -. até o fim do ano de 2007. no serviço público. No mesmo sentido. 51% das universidades estaduais e 42% das federais de todo o país adotaram a política de cotas. é mimetismo. a oferta de soluções se torna limitada".

O ASPECTO CONSTITUCIONAL DA COTA RACIAL A Constituição Federal de 1988. com desempenho inferior. contraria os preceitos constitucionais. baseando-se nas projeções do IBGE. e sim por força da cor de sua pele. Em âmbito federal. além de polêmica. Paulo Bonavides. duas Ações Diretas de Inconstitucionalidade. A CONFENEN reclama ainda o direito dos alunos que alcançaram boas notas em razão de seu bom desempenho nas provas do vestibular. a igualdade e a justiça. atendendo.nível médio. na forma de legislação específica e seus regulamentos. Ações de inconstitucionalidade já foram propostas por alguns políticos e entidades da sociedade civil contra o sistema de cotas. discutindo-se sua constitucionalidade. estabelecido pela MP 213/2004. instituindo um Estado Democrático de Direito. não em razão do mérito. Além disso. voltadas a assegurar o preenchimento por afro-brasileiros de quotas mínimas das vagas relativas: I ± aos cursos de graduação em todas as instituições públicas federais de educação superior do território nacional. assegura a todos os brasileiros e estrangeiros residentes no País. uma demanda do capítulo VIII do Estatuto que trata do Sistema de Cotas: Art. tem gerado diversas ações nos tribunais do país. inclusive.330 e ADI 3. o percentual destinado aos negros deve ser proporcional à quantidade de negros. ambas promovidas pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (CONFENEN).197. A CONFENEN entende que o PROUNI. tramitam no Supremo Tribunal Federal ± STF -. O Poder Público adotará. II ± aos contratos do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES). não possuindo tal prerrogativa. diz: ³O centro . pardos e índios existentes na unidade da federação onde estiver localizada a instituição de ensino. ADI 3. desde o seu preâmbulo. porém são preteridos por candidatos que alcançaram notas menores. 70. medidas destinadas à implementação de ações afirmativas. uma vez que estabelece discriminações para promover vagas no ensino superior. conseguindo uma vaga na universidade. tal diploma propõe ações específicas na área da educação. sua justiça e até mesmo a sua eficácia. A adoção do sistema de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras. Segundo esta Lei. sendo a MP um ato legislativo provisório.

Neste sentido. responsáveis pela ruptura da ordem isonômica. traduz imposição destinada aos demais poderes estatais.007056-6. o direito guardião do Estado Social´. o Ministro Celso de Mello.. UF: DF. UF: RS. A igualdade perante a lei. 150/151). baseando-se em critérios genéticos. pressupondo lei já elaborada. sendo. sem o óbice da preferência fundada na Decisão nº 134/2007 do CONSUN e efetivada no Edital do Concurso Vestibular 2008 (fls.. Com esta compõe um eixo ao redor do qual gira toda a concepção estrutural do estado democrático contemporâneo. A eventual inobservância desse postulado pelo legislador imporá ao ato estatal por ele elaborado e produzido a eiva da inconstitucionalidade. materializa. ele.º 581/400." Utilizando o mesmo princípio da igualdade. a liberdade da herança clássica. a forma de se introduzir essa participação deve atender a encaminhamento diverso. o direito chave. Decisão Monocrática: Trata-se de agravo de instrumento contra decisão que deferiu o pedido liminar e determinou à autoridade impetrada que garanta à impetrante a vaga no curso de Geologia e conceda-lhe o direito de matrícula e de frequência às aulas. outro julgado merece destaque: AG . manifestou-se em um acórdão pelo princípio da igualdade: MS ± MANDADO DE INJUNÇÃO N. 14/04/1991. Relator: Celso de Mello. notadamente a educação. raça ou etnia. que. Com efeito. em sua função precípua de obstar discriminações e de extinguir privilégios. Data da Decisão: 25/03/2008. todas as manifestações do poder público ± deve ser considerado.medular do Estado social e de todos os direitos de sua ordem jurídica é indubitavelmente o princípio da igualdade. na aplicação da norma legal. Embora não se ignore a necessidade de ampliação da participação de determinados grupos sociais na educação superior. nela não poderá incluir fatores de discriminação. Juiz: MÁRCIO ANTÔNIO ROCHA. como não poderia deixar de ser. Processo: 2008.) Passo a decidir. De todos os direitos fundamentais a igualdade é aquele que mais tem subido de importância no Direito Constitucional de nossos dias.00. no processo de sua formação. Ementa: "Esse princípio ± cuja observância vincula. não poderão suborná-la a critérios que ensejem tratamento seletivo ou discriminatório. sob duplo aspecto: (a) o da igualdade na lei e (b) o da igualdade perante a lei. D.04. Segundo a interpretação que tenho da Constituição Federal não é possível firmar distinção entre os cidadãos para acesso a serviços públicos. contudo. D. tal como em razão da cor. . (. incondicionalmente.E. A igualdade na lei (. 04/04/2008. Data da Decisão: 14/12/1990.AGRAVO DE INSTRUMENTO.. nos exatos termos do seu artigo 5º "caput".J. Orgão Julgador: QUARTA TURMA.) constitui exigência destinada ao legislador que..

O Tribunal de Justiça da Bahia. no entanto. etc.incensurável a sentença concedendo segurança. origem. unicamente. se baseando em critérios raciais. ou precisa de proteção. Processo: EIAC 2005.Remessa necessária . desnecessário lembrar que nem todo cidadão de determinada cor ou origem é hipossuficiente. Comunique-se ao Juízo de origem. exatamente. aí compreendidos.33.4ª Câmara Cível). No aspecto. a distinção entre classes sociais. Aqui a medida ganha inúmeros argumentos em defesa.Acórdão nº13422. com razoabilidade. Após. cor. sem descurar. no entanto. voltem conclusos. também. as ações afirmativas devem dirigir-se às classes desfavorecidas. do CPC. raça. V.. distinção tomada tão-só para buscar atendimento do objetivo fundamental da República Federativa do Brasil de. o artigo 3º é claro. origem. não. quanto ao acesso ao ensino superior. quanto ao acesso a universidades . (incisos II e IV). 527. Diante do exposto. os cidadãos que frequentaram escolas públicas.Comarca de Barreiras . integra a sentença. a eliminação das desigualdades sociais.Exame vestibular de ingresso em curso superior . para que andem unidas as metas de eliminação das desigualdades sociais e proibição de preconceitos de origem. impondo intensa coordenação entre os objetivos fundamentais da República.Mandado de Segurança . sexo. julgou ações sobre o sistema: Remessa necessária . (TJBA . Intime-se a agravada na forma do art.Relator: João Augusto Alves de Oliveira Pinto . Da interpretação harmônica de tais objetivos republicanos insurge a conclusão de que se deve sim buscar ações afirmativas para eliminação das desigualdades sociais. etc.candidata aprovada não pode ter vaga preterida sob argumento de reserva de vagas em cotas para afrodescendentes . indisponíveis à enorme maioria da população. tem eliminado essa mesma população. defiro parcialmente o pedido de efeito suspensivo nos termos da fundamentação. há que se ter em mente que tal preocupação também foi idealizada pelo constituinte. Portanto. processo nº 40631-5/2004 .resolução nº 192/2002 da Universidade Pública Estadual não pode sobrepujar-se ao princípio da isonomia Constitucional -art. e pode ser. dos princípios igualitários e da proibição de preceitos baseados em cor ou raça. merecendo confirmação. Portanto. e não a determinadas pessoas.ditado pela própria Constituição.00. notadamente pelo fato de ser esse o ensino disponibilizado pelo Estado a todo cidadão. independentemente de classe. em função de sua cor. por sua insuficiência. razoável unicamente a distinção que vise privilegiar o acesso das classes menos favorecidas. O ponto de orientação é. Constituição Federal . cor.Integração de Sentença .018352-3/BA. etc. 5º. ensino que. Aceito como pano de fundo dessas medidas. quando confrontada com alunos egressos de escolas particulares. eliminação dessas desigualdades. A tanto. EMBARGOS INFRINGENTES NA .

208. segundo a Constituição Federal de 1988: ³Art.41. Hipoteticamente. frequentemente citadas. Mas. sejam sociais). V. ao tratar do acesso ao ensino superior (art. V). devendo ser produzidas no ingresso às camadas fundamentais de ensino.APELAÇÃO CIVEL. ENSINO SUPERIOR. sexo. 2. CRITÉRIOS. O sistema de cotas raciais foi empregado para garantir algumas vagas para os negros e os índios que residem no nosso país e que almejam conseguir o seu lugar na sociedade através dos estudos e de uma profissão. Decisão: A Seção. COTAS. idade e quaisquer outras formas de discriminação. suscitou incidente de inconstitucionalidade perante a Corte Especial. É relevante a alegação de que a seleção de candidatos ao ensino superior com base em qualquer critério que não seja a capacidade de cada. . RESOLUÇÃO. SEM PRECONCEITOS de origem. COR. CONTROVÉRSIAS A discussão entre a legalidade ou não do sistema de cotas dividiu opiniões.´ Uma das contradições relacionadas às cotas de cunho racial. diz respeito à institucionalização do racismo: para alguns críticos. gerando dois extremos de defesa. Ementa: ADMINISTRATIVO. 208. Arguição de inconstitucionalidade da Resolução CONSEPE 1/2004. a ação (afirmativa) estatal deve anteceder ao ingresso no ensino superior e às políticas de redução de desigualdade (sejam raciais. Ainda. Publicação: 09/03/2009 eDJF1 p. da CF. Órgão Julgador: TERCEIRA SEÇÃO. a distinção de etnias por lei acabaria por agravar o racismo já existente. Data da Decisão: 09/12/2008. não significaria a reserva de vagas a determinado grupo étnico. devendo ser ofertado àqueles que demonstrarem ter capacidade para usufruí-lo. mas seria uma garantia de todos os brasileiros. assegurando-se o referido direito subjetivo a uma vaga no ensino superior. aduz que o acesso a esse nível depende da capacidade de cada um. perante a Corte Especial. VESTIBULAR. RAÇA. por maioria. a Constituição de 1988. Dessa forma. um ofende o art. o ensino superior. 3º: Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: IV ± promover o bem de todos. isto é. 1. Relator: DESEMBARGADORA FEDERAL MARIA ISABEL GALLOTTI RODRIGUES. instituidora do sistema de cotas no vestibular da Universidade Federal da Bahia. o acesso ao ensino superior não é um bem indispensável à realização do ser humano. mesmo com a inclusão no rol de bens necessários à vida boa.

pardos ou indígenas. o Estado os abandonou. O país precisa dar um valor à diversidade étnica. antropóloga na Universidade Federal do Rio de Janeiro. em razão do baixo poder aquisitivo. que oferecia bolsas em universidades particulares a estudantes de baixa renda e. advogado. ao contrário do que fez com os imigrantes. transportes e despesas geradas pelo curso. Por outro lado. militante histórico do movimento negro. também a parcela da população negra que entra nas universidades por meio das cotas ou do ProUni. indutoras e garantidoras da promoção da igualdade. escreveu: ³As ações afirmativas não fazem reparações do passado. que foram financiados pelo governo para virem para o Brasil. não consegue se manter nos estudos devido aos altos custos com livros. . Sabemos que toda a vez que o Estado se imiscuiu nos assuntos de identidade dos indivíduos. 90% dos negros eram analfabetos. o STF julgou ações contra o ProUni (Programa Universidade Para Todos). por entendê-las discriminatórias e inconstitucionais. porque. e não das cotas de humilhação´. entre os espaços de poder político. No livro. o PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) divulgou estudos sobre a participação de negros e pardos no ensino superior (IBGE).Em 2008. também. mas atuam com eficácia para que as discriminações históricas não persistam no presente. É fato que. o jornalista Ali Kamel desenvolve uma pertinente conclusão sobre o tema. cultural e econômico. após a abolição da escravidão. defende que o Brasil precisa encarar a questão da desigualdade sob o ponto de vista racial. Não Somos Racistas. Recentemente. membro da Comissão de Assuntos Antidiscriminatórios . chamado "Afro-brasileiros contra as leis raciais". Portanto. o resultado foi produção da violência´. obrigando-os a se definirem. Yvone Maggie. entendendo que "se o racismo na sociedade brasileira é de fato um entrave substantivo à mobilidade dos negros. José Roberto Militão. A saída é a educação pública de qualidade e políticas temporárias de ações afirmativas que diminuam a grande distância que ainda existe entre brancos e negros no país´. pesquisador do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. os afro-brasileiros precisam de políticas públicas de inclusão. explica que é contra a proposta de cotas raciais nas universidades porque ela produz divisões perigosas: ³Essa política exige que o cidadão se defina perante o Estado segundo sua µraça¶ ou sua origem. educação somente não basta".Conad-OAB/SP . de gênero etc. sim: ³Até 1970.e ex-secretário geral do Conselho da Comunidade Negra do governo do Estado de São Paulo (1987-1995) ± tem desenvolvido uma grande discussão contrária às cotas raciais. não fazem cotas estatais. E no recente artigo. o advogado Renato Ferreira. reservava vagas aos que se declaravam negros.

é indivisível. é violar os preceitos da Constituição. que visa aconsolidação da democracia. Um ponto importante que não podemos esquecer é que se as cotas são oferecidas para os negros e indígenas. jurídica e culturalmente. Esse modelo de cotas é edificado a partir das cotas implementadas na década de 60 nos EUA. raça. Diante do exposto. Embora a efetividade de vários direitos e deveres previstos na Constituição dependam de políticas públicas concretas e patrocinadas pelo Estado. no mínimo. é o instrumento adequado para a promoção da cultura negra. também. ou seja. religião. a Carta Magna Brasileira determina claramente os limites que devem ser mantidos para proteger a justiça. realmente. porém sua efetivação contraria os preceitos constitucionais. da justiça e. foi adotado como política social de desenvolvimento. uma vez que fere os preceitos fundamentais da Norma Constitucional Brasileira. Não é a cor da pele que determina o merecimento do cidadão. absurda. A questão central é se a política de cotas raciais. abrandamento dessa dívida histórica e redução da discriminação racial no Brasil. independente de cor. como quer o sistema de cotas raciais e o Estatuto da Igualdade Racial. A discriminação racial brasileira tem um caráter assimilacionista. ou seja. conforme a nossa realidade. pode-se concluir que a lei que determina cotas para ingresso nas universidades públicas do País. da legalidade. é. Os danos causados aos descendentes dos . O sistema de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras. Investir e uma m separação de raças. sexo ou idade.CONCLUSÃO A discriminação e o preconceito são realidades enfrentadas por todos os brasileiros. credo. implantado como políticas afirmativas para diminuir as diferenças sociais existentes entre brancos e negros. causadas pelo sistema escravagista dos séculos XVIII e XIX. O Brasil é composto por uma miscigenação tão grandiosa que é inseparável. projetou a instalação de uma sociedade estruturada segundo o modelo do WelfareState. utilizando como critério de classificação a cor da pele. o pilar da justiça brasileira. poderemos utilizar para a redução da discriminação racial. enquanto a discriminação racial norte-americana é segregacionista. os princípios da igualdade. então quer dizer que eles não são tão capazes como as pessoas brancas? Devemos observar quais instrumentos.

Universidade Federal do Paraná. Universidade do Estado de Mato Grosso. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Universidade Federal de Santa Catarina. Universidade Estadual de Londrina. Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Universidade Federal de Goiás. Universidade Federal de Sergipe. Universidade Federal do Pará. Universidade Federal da Bahia. Universidade Estadual da Paraíba. Universidade Federal da Paraíba. Universidade Estadual do Norte Fluminense. Universidade do Estado do Rio de Janeiro.escravos africanos não podem ser compensados com uma vaga na universidade ou qualificando sua capacidade sócio-intelectual em decorrência da pigmentação que possui. Universidade Federal de Alagoas. UNIVERSIDADES BRASILEIRAS COM PROGRAMAS DE AÇÃO AFIRMATIVA ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ ‡ Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Universidade Federal de Pernambuco. Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia. Universidade Federal do Maranhão. Universidade Federal do Acre. Universidade de Brasília. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. . Universidade Estadual de Montes Claros. Universidade Federal do Piauí. Universidade do Estado de Minas Gerais. Universidade do Estado da Bahia. Universidade Federal do Espírito Santo.

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