You are on page 1of 32

D I S C I P L I N A Química da Vida

Ácidos carboxílicos

Autores

Carlos Roberto Oliveira Souto

Humberto Conrado Duarte

aula

12
Governo Federal Revisoras de Língua Portuguesa
Presidente da República Janaina Tomaz Capistrano
Luiz Inácio Lula da Silva Sandra Cristinne Xavier da Câmara

Ministro da Educação Revisora Tipográfica


Fernando Haddad Nouraide Queiroz
Secretário de Educação a Distância – SEED Ilustradora
Ronaldo Motta
Carolina Costa

Universidade Federal do Rio Grande do Norte Editoração de Imagens


Adauto Harley
Reitor
Carolina Costa
José Ivonildo do Rêgo
Vice-Reitor Diagramadores
Nilsen Carvalho Fernandes de Oliveira Filho Bruno de Souza Melo
Ivana Lima
Secretária de Educação a Distância
Vera Lúcia do Amaral Adaptação para Módulo Matemático
Thaisa Maria Simplício Lemos
Secretaria de Educação a Distância- SEDIS Pedro Gustavo Dias Diógenes

Coordenadora da Produção dos Materiais Imagens Utilizadas


Célia Maria de Araújo Banco de Imagens Sedis
(Secretaria de Educação a Distância) - UFRN
Coordenador de Edição
Ary Sergio Braga Olinisky Fotografias - Adauto Harley
Stock.XCHG - www.sxc.hu
Projeto Gráfico
Ivana Lima

Revisores de Estrutura e Linguagem


Eugenio Tavares Borges
Marcos Aurélio Felipe
Revisora das Normas da ABNT
Verônica Pinheiro da Silva

Divisão de Serviços Técnicos


Catalogação da publicação na Fonte. UFRN/Biblioteca Central “Zila Mamede”

Souto, Carlos Roberto Oliveira.

Química da vida / Carlos Roberto Oliveira Souto, Humberto Conrado Duarte.


– Natal, RN, : EDUFRN, 2006.

372p. : il

1. Química orgânica. 2. Química da vida. 3. Compostos de carbono. I. Duarte, Humberto Conrado.


II. Título.

ISBN 978-85-7273-332-8 CDU 547


RN/UF/BCZM 2006/84 CDD 661.8

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste material pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorização expressa da UFRN -
Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Apresentação

esta aula, você estudará a função ácido carboxílico. São apresentadas as regras da

N nomenclatura oficial, alguns comentários sobre a nomenclatura comum, a estrutura


do grupo funcional e propriedades físicas. O estudo inclui ainda a acidez da função, os
efeitos dos substituintes sobre ela e a sua utilidade em processos de isolamento e purificação.
São apresentadas ilustrações e são propostos exercícios como recursos auxiliares para
assimilação e entendimento do conteúdo, bem como da importância da química orgânica e
dos ácidos carboxílicos no cotidiano.

Objetivos

Reconhecer e classificar ácidos carboxílicos.


1
Aplicar regras oficiais da União Internacional de Química
2 Pura e Aplicada (IUPAC) para escrever o nome oficial
de um ácido a partir de sua estrutura ou representar a
estrutura a partir de um nome oficial.

Prever as propriedades físicas e justificar diferenças entre


3 os ácidos e outras funções.

Justificar diferenças de acidez entre ácidos.


4
Eplicar a importância da acidez para processos de
5 isolamento e purificação de compostos orgânicos.

Aula 12 Química da Vida 1


Definição e classificação
de ácidos carboxílicos

Ácidos carboxílicos são moléculas que apresentam o grupo carboxila, ou grupo


carboxílico, assim chamado por incluir os grupos carbonila (veja a aula 11 – Aldeídos e
cetonas) e hidroxila (veja a aula 7 – Álcoois), conforme a representação genérica a seguir.

O
R C
(ou Ar) O H

Os ácidos carboxílicos são classificados em função do grupo substituinte ligado ao


grupo carboxila como:

„ alifáticos R ¡CO2H, (R = alquil, alquenil ou alquinil);

„ aromáticos Ar ¡CO2H, (Ar = aril).




Dentre os ácidos carboxílicos alifáticos, há uma classe especial denominada ácidos


graxos, caracterizada por cadeias lineares, com números pares de átomos de carbono.

Importância dos
ácidos carboxílicos
grupo carboxila se mostra particularmente importante para a vida, animal e vegetal,

O possibilitando aos aminoácidos a formação de longas cadeias peptídicas, e


com estas as proteínas. Essas moléculas orgânicas são as mais abundantes nos
animais e desempenham importantíssimos papéis em todos os aspectos do metabolismo
celular, como: estrutural (pele, tendões, cabelo), enzimático (catálise metabólica), transporte
(hemoglobina), contrátil (fibra muscular), proteção (anticorpos), hormonal (insulina) e
toxinas. Observe, a seguir, as representações de alguns aminoácidos.

2 Aula 12 Química da Vida


Exemplos de aminoácidos
O muitos O
O O
H2 N C H C O H
- H2N CH C O H2N - CH C
H2N CH C O H O H R
O H CH 2 H2N CH C CH2
CH 2 O H N
CH2 ligação peptídica
CH 2
C O
O O H N O
C N
O O H HN C H C NH C H C
H
N R R

Ácido glutâmico Triptofano Ácido aspártico Histidina

Os aminoácidos também executam muitas funções biológicas, entre outras a de


precursores de metabólitos, como a serotonina e a histamina (veja a aula 8 – Aminas).
Os lipídeos representam outro grupo de biomoléculas fundamentais para a vida. Em
grande parte, são ácidos graxos, ou derivados destes, que respondem por numerosas e
diversificadas funções do metabolismo. Mais de 500 foram isolados de células e tecidos.
Alguns ácidos graxos de ocorrência mais freqüente são listados a seguir com seus
respectivos nomes, oficiais e comuns, número de carbonos e pontos de fusão.

Tabela 1 – Ácidos graxos naturais

ÁCIDOS GRAXOS SATURADOS ÁCIDOS GRAXOS INSATURADOS


Nomes Nomes
Carbonos pf °C. pf °C
Comum Oficial Comum Oficial (todas cis)
12 Láurico Dodecanóico 43,9

14 Mirístico Tetradecanóico 54,1


16 Palmítico Hexadecanóico 62,7 Palmitoléico Hexadec-9-enóico 0,5
18 Esteárico Octadecanóico 69,9 Oléico Octadec-9-enóico 13,4
18 Linoléico Octadeca-9,12-dienóico - 5,0

18 Linolênico Octadeca-9,12,15-trienóico - 10,0

20 Araquídico Icosanóico 75,4 Araquidônico Icosa-5,8,11,14-tetraenóico - 49,5

20 EPA Icosa-5,8,11,14,17-pentaenóico - 50,0

Ácidos graxos são classificados, como saturados ou insaturados. Com duas ou mais
duplas, são chamados de poliinsaturados.
Os ácidos graxos insaturados naturais têm as seguintes características:

„ cadeia com número par de átomos de carbono;

„ nunca são ramificados;

Aula 12 Química da Vida 3


„ as duplas nunca são conjugadas;

„ todas as duplas ligações têm configuração Z (cis), sem exceção.

Compare na tabela anterior os pontos de ebulição dos ácidos graxos insaturados com
os dos saturados de mesmo número de átomos de carbono. Observe também a variação do
ponto de ebulição em função do número de duplas ligações.
Como conseqüência da configuração cis nos ácidos graxos insaturados, as cadeias
dobram-se inviabilizando o seu empacotamento firme, como os das cadeias saturadas,
“estiradas” e com maior superfície de contato. Com a redução dos pontos de contato
intermoleculares, há grande perda sobre as forças de London e,
Ligação dupla cis
como conseqüência, os ácidos graxos insaturados apresentam
pontos de ebulição menores do que os saturados. Quanto maior
Ácido linoléico
o número de duplas, ainda menor o ponto de ebulição.
Ácido esteárico O ácido linoléico é o precursor de uma variedade de outros
ácidos denominados de icosanóides, que nosso metabolismo
produz para ações fisiológicas complexas e altamente importantes.
É um ácido graxo essencial, deve ser incluído na dieta porque os
mamíferos não têm enzimas para introduzir duplas ligações na
cadeia além do carbono 9. Nosso organismo converte o ácido linoléico, com 18 átomos de
carbono e duas insaturações, no ácido araquidônico, com 20 átomos de carbono e quatro
insaturações cis não conjugadas. E, a partir deste, nosso organismo produz as prostaglandinas
(também ácidos carboxílicos), assim denominadas por haverem sido descobertas nos anos
30 a partir de secreções da próstata. As prostaglandinas podem ser consideradas como
hormônios locais por exercerem funções reguladoras no mesmo tecido especializado em que
são produzidas, controlando, por exemplo, a pressão sanguínea, o processo inflamatório, a
atividade digestiva, a contração do útero, a secreção das paredes do estômago, a coagulação
sanguínea, a febre, a dor, o fluxo sanguíneo aos órgãos em particular, o transporte de íons
através das membranas; e modulando a transmissão sináptica e a indução do sono.
Confira, a seguir, as representações dos ácidos precursores e do esqueleto
prostaglandina básico.

O O

OH O H O

O H

Ácido linoleíco Ácido araquidônico esqueleto prostaglandina básico

4 Aula 12 Química da Vida


A estrutura prostaglandina básica consiste em um anel de cinco membros, com dois
substituintes trans e em carbonos vizinhos. Ambos substituintes são lineares, um com oito
carbonos e o outro, contendo a carboxila, com sete. As prostaglandinas diferem entre si por
variações estruturais no anel de cinco membros, quanto à presença de uma dupla carbono-
carbono, de um grupo carbonila, de um grupo hidroxila e das posições desses membros no
anel. Nas cadeias, as diferenças incluem insaturações e a presença ou não de grupo hidroxila.
Tais diferenças são expressas com letras e índices. Veja alguns exemplos a seguir.

O
O
HO
PGE 1
O

OH HO
OH O
HO
HO
O
PGF 1
PGE 2

HO
OH
HO
OH

A partir de uma prostaglandina nascente, nosso metabolismo forma outros três ácidos
carboxílicos relacionados: prostaciclinas, tromboxanos e leucotrienos, representados a seguir.

O H
O OH OH O O
O O OH
OH O
OH
HO
OH

Prostaciclina PGI2 Leucotrieno B4 Tromboxano TXA2

Leucotrienos, ácidos com três duplas ligações conjugadas, primeiramente encontrados


nos leucócitos (por isso, recebe esse nome), induzem contração dos músculos das vias
aéreas ligadas aos pulmões e estão implicados em reações alérgicas, inflamatórias e
ataques cardíacos. São compostos que ocasionam os sintomas da asma e também estão
implicados em choques anafiláticos. Tromboxanos são vasoconstritores e estimulam
agregação plaquetária, a primeira etapa na coagulação sanguínea. Já as prostaciclinas são
vasodilatadoras e inibem a agregação plaquetária, tendo o efeito oposto.
Ainda sobre os lipídeos, deve-se destacar a importância dos ácidos biliares cólico e
deoxicólico. Eles têm como precursor o colesterol, são sintetizados no fígado, armazenados
na vesícula e secretados no intestino delgado, no qual atuam como agentes emulsificantes
para que óleos e gorduras possam ser digeridos por enzimas hidrossolúveis. Confira as
estruturas desses dois ácidos na ilustração seguinte.

Aula 12 Química da Vida 5


Ácido cólico Ácido deoxicólico

O O
HO
CH3 CH3
OH OH
H3C H H3C H

H H
HO OH HO OH
H H

O ácido cítrico, das frutas cítricas, é um metabólito central para nossas vidas. É tão
Ácido cítrico importante na via metabólica, chamada de ciclo de Krebs, que este é conhecido como Ciclo
O do Ácido Tricarboxílico (CAT).
O CH2 C O H O ácido pirúvico é outro metabólito produzido em nosso organismo na última etapa
C C OH
da glicólise, uma importantíssima via para extrair energia pela oxidação da glicose sem
H O CH2 C OH
requerer oxigênio. Organismos empregam a glicólise para prover moléculas precursoras
O
para vias aeróbicas, tais como o ciclo do ácido tricarboxílico.

O O
glicólise
C6 H12O6 2 CH3 C C
Glicose Ácido pirúvico O H

O ácido pirúvico formado, dependendo do metabolismo, tem três destinos: a redução a


ácido lático (fermentação lática); a descarboxilação e redução a etanol (fermentação alcoólica);
ou, sob condições aeróbicas, a descarboxilação e oxidação a Acetil-CoA, combustível para o
CAT retirar energia liberando CO2 e água. Observe as equações.

lactato OH O
desidrogenase C H3 C H C
1)- piruvato descarboxilase
2)- álcool desidrogenase O O Ácido lático OH
CO2 + CH3 CH2 O H CH3 C C
OH O
Ácido pirúvico
condições
C H3 C + C O 2
aeróbicas
Acetil-coenzima A S C oA

Ácidos carboxílicos têm grande valor na medicina como o analgésico ácido


acetilsalicílico (AAS), conhecido como aspirina, o aminoácido L-DOPA, empregado no
tratamento do mal de Parkinson, e o antiinflamatório Ibuprofeno. Observe as estruturas.

6 Aula 12 Química da Vida


Ácido acetilsalicílico L-DOPA - fármaco Ibuprofeno

HO O O
OH
HO
O O OH
NH2 O
HO

Apirina tratamento do mal de Parkson analgésico e antiinflamatório

O ácido adípico tem importância industrial histórica como matéria-prima para obtenção
de derivados de ácido. Na década de 30, ele foi empregado para a produção do poliéster
polietileno, pela reação com o etanodiol (veja a aula 8), e da poliamida Nylon 66, a primeira
fibra puramente sintética, assim chamada por ser sintetizada de dois monômeros diferentes,
cada um contendo seis átomos de carbono.

O Ácido adípico O Etano-1,2-diol O Polietileno O (poliéster)


HO C CH2 CH2 CH2 CH2 C OH + H O CH2 CH2 O H C CH2 CH2 CH2 CH2 C O CH2 CH2 O + 2nH2O
n

O Ácido adípico O Hexano-1,6-diamina O Nylon 66 O (poliamida)


250°C
HO C CH2 CH2 CH2 CH2 C OH + H NH (CH2)6 NH H C CH2 CH2 CH2 CH2 C NH (CH2)6 NH + 2nH2O
15 atm
n

A despeito de todas essas ilustrações, os ácidos carboxílicos não são importantes


apenas por si mesmos. O grupo carboxila é o original de uma família de derivados de grande
importância biológica e industrial, que você estudará na próxima aula.

Nomenclatura dos
ácidos carboxílicos
Nomenclatura comum
Os nomes comuns dos ácidos carboxílicos são usados desde um período anterior à
descoberta de suas estruturas. São derivados do latim e do grego e indicam suas fontes
naturais. A maior parte nos acompanha há muito tempo por serem os primeiros compostos
orgânicos isolados e, provavelmente, serão de uso vulgar por muito mais tempo ainda, por
isso, alguns devem ser familiares, como os listados a seguir.

Aula 12 Química da Vida 7


Estrutura IUPAC Comum Derivação

HCO2H Metanóico Fórmico (Latim), fórmica – formiga

CH3CO2H Etanóico Acético (Latim), acetum; (Francês), vine aigre – vinagre

CH3CH2CO2H Propanóico Propiônico (Grego), propion – primeira gordura

CH3(CH2)2CO2H Butanóico Butírico (Latim), buttyrum – manteiga

CH3(CH2)3CO2H Pentanóico Valérico (Latim), valeriana – planta floral

CH3(CH2)4CO2H Hexanóico Capróico (Latim), caper – cabra

CH3(CH2)6CO2H Octanóico Caprílico (Latim), caper – cabra

CH3(CH2)8CO2H Decanóico Cáprico (Latim), caper – cabra

CH3(CH2)10CO2H Dodecanóico Láurico (Latim), laurus – louro

CH3(CH2)12CO2H Tetradecanóico Mirístico (Grego), myristikos – fragrante

CH3(CH2)14CO2H Hexadecanóico Palmítico (Latim), palma – palmeira

CH3(CH2)16CO2H Octadecanóico Esteárico (Grego), stear – gordura sólida

CH3(CH2)18CO2H Icosanóico Araquídico (Grego), arachis – amendoim

Na nomenclatura comum, as posições dos substituintes na cadeia principal são


designadas por letras do alfabeto grego, iniciando pelo carbono adjacente à carboxila com alfa
(D). A posição ômega (Z) é sempre o carbono mais afastado da carboxila, independentemente
do número de carbonos da cadeia principal.
Outros ácidos mais conhecidos por seus nomes comuns:
Z - hidróxicáprico F - aminobutírico (GABA) piválico acrílico metacrílico

O O O O O

HO H 2N OH OH
O H O H OH

málico maleico fumárico ftálico gálico


HO O
O O HO O
HO O O
HO O HO
OH OH OH
O OH OH HO OH
O
OH

Nomenclatura oficial
Para determinar o nome oficial de um ácido carboxílico, primeiramente você deve
identificar a cadeia mais longa que contenha a função. O carbono carboxílico é o de número
1 e, havendo um segundo grupo carboxila, o carbono desse grupo é considerado como
o último da cadeia. As localizações dos carbonos carboxílicos não são mencionadas, por
corresponderem às extremidades da cadeia.

8 Aula 12 Química da Vida


Identificada a cadeia carbônica, substitui-se o sufixo -o do hidrocarboneto correspondente
(alcano, alqueno ou alquino) por -óico ou -dióico.

Ácido (3Z,7E)-Deca-3,7-dienóico Ácido 4-cicloexil-pentanóico Ácido but-2-enodióico Ácido (3Z,6E)-Deca-3,6-dienodióico

O O O
O O
OH OH HO OH O
OH
OH

Ácido (3Z,5Z)-6-metil- Ácido ((Z)-2-pent-3-enil)


octa-3,5-dienóico -hepta-4,6-diinóico Ácido hexanodióico

O O O
O
HO
OH O H
HO

Um terceiro grupo carboxílico pode se apresentar ligado diretamente à cadeia principal


ou a uma ramificação. Um grupo carboxílico que não esteja ligado diretamente à cadeia
principal é citado pelo prefixo -carbóxialquil, em que alquil corresponde à ramificação
entre este e aquela. O carbono desse grupo não é contado como pertencendo à ramificação
e deve ter sua localização indicada.

Ácido 4-(2-carbóxi-etil)-5-
(2-carbóxi-propil)-nonanodióico

O OH
Ácido 4-carbóximetil-octanodióico

1' 2'
O
O 8 6 4 2 H O 9 7 5 3 1 OH
7 5 3 1 O H 8 6 4 2
OH O H O 2" O
1" 3"

O
O O H

Para moléculas com três ou mais grupos carboxilas ligados diretamente a uma cadeia,
os nomes são determinados seguindo-se estas regras:

„ a cadeia principal é aquela que apresenta o maior número possível de grupos


carboxila;

„ os átomos de carbono dos grupos carboxila não são contados para determinar a
extensão da cadeia;

„ o sufixo acrescentado ao nome do hidrocarboneto correspondente à cadeia principal


é composto por um prefixo relativo à quantidade de carboxilas ligadas diretamente
à cadeia combinado com a terminação -carboxílico. Por exemplo, -tricarboxilíco,
-tetracarboxílico, etc.

Aula 12 Química da Vida 9


O

(3) O H
O OH O OH O OH
(2)
O O OH
1 (1) O
8 6 4 2 3 1
7 5 3 4 2 O H
7 6 5 4 3 2 1
O H
O OH O OH
O OH O OH

Ácido 2,3,7-Octano Ácido - butano Ácido 2-(3-Carboxipropil)


2,3,7 tricaboxílico 1,2,3 - tricarboxílico heptano - 1,1,5,6 - tetracaboxílico

Observe bem que, no último exemplo, a cadeia principal não é a mais longa, mas a que
tem o número maior de grupos carboxila ligados a ela diretamente.
Alguns livros adotam outra metodologia alternativa considerando o terceiro, assim
como outros grupos carboxila, como substituintes recebendo o prefixo -carbóxi e a molécula
como um ácido dióico. Com essa consideração, os grupos carboxílicos mais distantes entre
si definem início e fim da cadeia e são contados como dela.

O O Ácido metanotricarboxílico
Ácido 3-carboxi-propanodióico O
H O OH O O
O OH O
O O OH H O OH
OH OH
Ácido pentano-1,3,5-tricarboxílico HO O
H O Ácido 4-carboxi-heptanodióico O OH
O OH OH

Ácido (E)-hept-1-eno-1,3,4-tricarboxílico Ácido (1E,4Z)-(S)-3-hidróxi-penta-1,4-dieno-1,3,5-tricarboxílico


Ácido (E)-4-carboxi-5-(S)-propil-hex-2-enodióico Ácido (2E,5Z)-(S)-4-carboxi-4-hidróxi-hepta-2,5-drenodióico

Quando o grupo carboxila encontra-se ligado diretamente a um ciclo, identifica-se o


nome do hidrocarboneto correspondente e acrescenta-se o sufixo -carboxílico. O carbono
da carboxila não recebe numeração, porém, o carbono do anel ligado a ele é considerado o
de número 1, com exceção para sistemas bicíclicos.

O
O O
O H
OH OH

Ácido ciclopentanocarboxilico Ácido exo-Biciclo[2.2.1] Ácido decaidro-


heptano-2-carboxilico naftaleno-2-carboxílico

O
O
OH
OH OH
O

Ácido endo-Biciclo[2.2.2] Ácido biciclo[2.2.1]


Ácido cicloexanocarboxílico octano-2-carboxilico heptano-7-carboxílico

10 Aula 12 Química da Vida


O ácido aromático com o substituinte fenila tem o nome benzóico aceito como oficial e,
havendo substituintes no anel, são considerados derivados desse ácido. Os demais aromáticos
têm o sufixo -carboxílico precedido de sua localização acrescentada ao nome do ciclo.

O
O H O O
O H

O H O H

Ácido Benzóico
Ácido benzenocarboxílico Ácido 4-hidróximetil-benzóico Ácido Naftaleno-2-carboxilico

Grupo acila é a designação dada a um grupo substituinte como resíduo derivado de um


ácido carboxílico sem sua hidroxila. A nomenclatura oficial substitui o sufixo -óico do ácido
carboxílico original por -oil e a nomenclatura comum emprega o sufixo -il em substituição
ao -ico do ácido original.

O
O O
O
H O OH O
O H
O OH
O

Ácido 3-benzoil-pentanóico Ácido 2-acetil-pentanodióico Ácido 3-propionil-heptanóico

Os nomes de ácidos carboxílicos contendo um grupo aldeídico ou cetônico na cadeia


principal recebem a adição dos prefixos -formil ou -oxo, respectivamente. Como exceção
à regra, de forma alternativa, nomes de grupos acila podem ser usados se incluídos na
cadeia principal do ácido.

O O O
O
OH OH O
O OH
OH
O O

Ácido 4-oxo-butanóico Ácido 4-fenil-4-oxo-butanóico Ácido 2-oxo-propanóico


(Ácido 3-formil-propanóico) (Ácido 3-benzoil-propiônico) Ácido 3-propionil-heptanóico (Ácido 2-acetil-fórmico)

Por fim, quando o grupo carboxílico estiver presente em Cloreto de 3-carbóxi-1-metil-piridínio


moléculas com outro grupo de maior prioridade, como o grupo
+
amônio, por exemplo, é designado pelo prefixo -carbóxi, como Cl N O H
substituinte.
O

Aula 12 Química da Vida 11


Atividade 1
Represente as estruturas dos ácidos carboxílicos a seguir.

a) Ácido fenilacético d) Ácido 2-oxocicloexanocarboxílico

b) Ácido 2-acetil-hexanóico e) Ácido pent-2-inóico

c) Ácido (Z)-hex-3-enodióico f) Ácido propenóico

Estrutura do grupo carboxila


O carbono carboxílico tem hibridação sp para manter a ligação S na dupla C=O. Como
você estudou na aula anterior, isso significa que o grupo carboxila é planar com ângulos de
ligação próximos de 120°. Observe a seguir parâmetros físicos do ácido fórmico.

comprimento ângulo
O de ligação (A) de ligação

H OH C=O 1,202 H-C=O 124,10


C-O 1,343 O-C=O 124,9 0
ácido fórmico
C-H 1,097 H-C-O 111,0 0
C-H 0,972 H-O-C 106,3 0

No grupo carbonila, o átomo de oxigênio, mais eletronegativo que o de carbono, por


efeito de ressonância desfaz a ligação S acumulando sobre si os dois elétrons dessa ligação,
deixando, assim, o átomo de carbono com seu orbital p não híbrido vazio e com carga
positiva. O átomo de oxigênio hidroxílico pode então entrosar um de seus dois orbitais p
com elétrons não ligantes com esse orbital p vazio do carbono, conferindo caráter de dupla
ligação entre a carbonila e a hidroxila. Confira com as representações:

O O O
+ - dipolo permanente
R C R C R C
+ - maior polaridade O-H que nos álcoois
O H O H O H

12 Aula 12 Química da Vida


Considerando essa conjugação, você pode concluir que há densidade eletrônica
aumentada sobre o oxigênio carbonílico e reduzida sobre o hidroxílico, como também
polaridade aumentada sobre a ligação O-H.

Propriedades físicas
Os ácidos carboxílicos são substâncias polares que apresentam momento de dipolo
entre 1,0 e 1,5 D. Esses valores são inferiores aos valores médios de aldeídos e cetonas,
porque o momento dipolar (P) é resultante de dois vetores em sentidos contrários, como
mostrado a seguir.

O
O
H
R O
R R

μ = 1,0 - 1,5 D μ = 2,0 - 3,0 D

Os ácidos carboxílicos formam ligações hidrogênio mais fortes que os álcoois, devido
à densidade eletrônica acrescida da carbonila e a maior polarização da hidroxila, comentadas
anteriormente. O dipolo leva à formação de dímeros estáveis nas fases líquida e sólida, conforme
representação a seguir. Em alguns casos, os dímeros permanecem mesmo no estado gasoso.

H O
O ligação
O hidrogênio
O H

A polaridade da função e a formação de fortes ligações hidrogênio determinam


as propriedades físicas. Compare a seguir alguns valores de ponto de ebulição e
solubilidade em água.
H
O
Estrutura Nome Mol pe * Solub. ** H
ligação
CH3(CH2)2CO2H A. butanóico 88,1 163 infinita hidrogênio
O hidrofilia
CH3(CH2)3CH2OH Pentan-1-ol 88,1 137 2,3 H H
O O
CH3(CH2)3CHO Pentanal 86,1 103 reduzida
hidrofobia H
CH3(CH2)3CO2H A. pentanóico 102,2 186 3,7 H
O
CH3(CH2)4CO2H A. hexanóico 116,2 205 1,0 H

* Ponto de ebulição (°C) **Solubilidade (g/100 ml água)

Aula 12 Química da Vida 13


Os ácidos saturados com até 10 átomos de carbonos são líquidos e possuem pontos
de ebulição maiores que os álcoois, aldeídos e cetonas de massas molares comparáveis. Os
pontos de ebulição elevados são explicados pela natureza das ligações hidrogênio. Observe
também o aumento no ponto de ebulição para cadeias maiores pelo conseqüente aumento
na contribuição das forças de London.
A solubilidade em água decorre do caráter hidrofílico do grupo carboxila devido a
sua polaridade e ligações hidrogênio com a água. Entretanto, a cadeia carbônica apolar
e hidrofóbica é contrária a essa dissolução e pode anular a hidrofilia em função de sua
extensão. Observe na representação anterior as duas regiões em destaque (hidrofobia e
hidrofilia). Verifique também nos dados anteriores a redução da solubilidade com o aumento
da cadeia para os ácidos pentanóico e hexanóico. Agora, observe como ácidos dicarboxílicos
têm os pontos de fusão elevados:

Nomes e propriedades físicas de ácidos dicarboxílicos simples

Oficial Comum Fórmula pf * Sol. **

Etanodióico oxálico HOOCCOOH 189 14

Propanodióico malônico HOOCCH2COOH 136 74

Butanodióico succínico HOOC(CH2)2COOH 185 8

Pentanodióico glutárico HOOC(CH2)3COOH 98 64

Hexanodióico adípico HOOC(CH2)4COOH 151 64

*ponto de fusão (°C) ** solubilidade em g/100 g H2O

Os pontos de fusão elevados são naturalmente atribuídos ao maior número das fortes
ligações hidrogênio devido à presença de dois grupos carboxilas por molécula. O mesmo
argumento explica a menor solubilidade em água.

Atividade 2

1 Ordene os compostos em ordem crescente do ponto de ebulição:

I) ácido heptanóico, octanal, octanol;

II) ácido propanóico, pentanol, etóxietano.

Comente as forças de atração intermoleculares desses ordenamentos.


2

14 Aula 12 Química da Vida


Acidez dos ácidos carboxílicos

Ácidos carboxílicos apresentam acidez dissociando-se, em água, no próton e no ânion


carboxilato, conforme a equação a seguir.

ânion carboxilato
O O
D+ O
R C + H O H R C R C + H O H
O H O O H

A acidez do grupo carboxila é explicada como conseqüência de dois efeitos eletrônicos,


o indutivo e o de ressonância.
A polarização de uma ligação por interações dipolares com um grupo adjacente,
conhecida como efeito indutivo, atua nos ácidos sobre a ligação O–H como conseqüência
da carga parcial positiva sobre o carbono carbonílico, induzida pelo átomo de oxigênio
eletronegativo que polariza a dupla C=O. Tal polarização com efeito elétron-aceptor promove
a dissociação. Observe as indicações na representação seguinte.

G-
+ O
G
R C
O H

O efeito de ressonância atua no ânion carboxilato. Veja novamente a equação anterior


e observe as duas formas de ressonância do ânion. Note que são idênticas! Ou seja, a carga
negativa é igualmente deslocalizada sobre os dois átomos eletronegativos de oxigênio, fato
que diminui a energia do íon favorecendo a sua formação.
Na figura a seguir, há duas representações para o ânion carboxilato. Ele pode ser visualizado
como um híbrido de ressonância ou como um sistema conjugado de três orbitais p contendo
quatro elétrons. O átomo de carbono e os dois de oxigênio são hibridados sp, e cada um tem
um orbital p não hibridado. A sobreposição desses três orbitais p forma um sistema orbital
molecular S de três centros. Dessa forma, pode-se considerar que entre o carbono e cada átomo
de oxigênio há meia ligação S, e que sobre cada átomo de oxigênio há meia carga negativa.

Aula 12 Química da Vida 15


1
O 2 1
H
O 2
H

CH3 C C C
1
1 O 2
2 H
O

Há ainda que se considerar o efeito da dispersão da carga negativa sobre o equilíbrio no


sentido reverso, o da associação do ânion carboxilato básico com o próton. A igual dispersão
da carga negativa sobre dois átomos muito eletronegativos de oxigênio conferindo certa
estabilidade ao ânion reduz sua basicidade de forma desfavorável ao equilíbrio, com efeito
positivo sobre a concentração do próton.
Ácidos carboxílicos são ácidos fracos, com valores de pKa variando entre 4 e 5. Porém,
a acidez é cerca de 1 trilhão (10 12) de vezes superior à dos álcoois, que apresentam valores
ânion alcóxido de pKa variando entre 15 e 18. Isso ocorre porque a dissociação do álcool resulta em um
R O próton e um íon alcóxido. Veja que no ânion alcóxido a carga permanece concentrada sobre
o único átomo de oxigênio, por não haver fatores estruturais para sua deslocalização. Esse
ânion tem maior energia e, por isso, maior resistência ou dificuldade para ser formado. Você
também pode concluir que a carga sobre um único átomo pode ser mais facilmente utilizada
para neutralizar o próton. Ou seja, a basicidade do alcóxido é maior que a do carboxilato e o
equilíbrio no sentido contrário à dissociação é favorecido.
A diferença de energia entre as formações dos ânions alcóxido e carboxilato,
representada a seguir, nos revela que a dissociação de um ácido carboxílico é menos
endotérmica que a de um álcool.

O- + O
+
CH3CH2

$G0 = 64 kJ/mol
O

O- + H
+
$G0 = 91 kJ/mol CH3 C

$G0 = 27 kJ/mol O

CH3CH2 O H CH3 C O H

16 Aula 12 Química da Vida


A acidez para os ácidos carboxílicos é expressa pela constante de acidez Ka, que relaciona
o produto entre as concentrações do ânion carboxilato e do próton com a concentração do
ácido não dissociado.

_
RCO 2 H + H2 O RCO2 + H 3 O +
_ _
[ RCO 2 ] [ H 3 O +] [H 2 O] = constante [ RCO 2 ] [ H 3 O +]
Ke = Ka =
[ RCO 2 H] [H 2 O] K e x [H 2 O] = Ka p K a = - log10 K a
[ RCO 2 H]

À medida que comparamos os valores de acidez entre diferentes ácidos, concluímos


que quanto mais elevados esses valores, maiores são as concentrações dos íons, ou seja,
maior o denominador. Como para cada mol de íons dissociados a concentração do ácido
torna-se um mol menor, quanto maior a acidez, menor o denominador e maior a constante!
As constantes de acidez dos ácidos carboxílicos, por apresentarem valores reduzidos,
com potências negativas, são melhor expressas como pKa, que é o seu logaritmo negativo
ou pKa = - log10 Ka. Por exemplo, para Ka = 1 x 10 – 5 Î pKa = 5,0.
Portanto, quanto maior o valor de Ka, maior a acidez e menor o pKa.

Em solução aquosa, um ácido será predominantemente dissociado, se o pH


desta for superior ao pKa do ácido, e não dissociado, se o pH for inferior.

Atividade 3
O pH do plasma sanguíneo varia entre 7,35 e 7,45. Nessas condições,
1 o grupo carboxila do ácido láctico (pKa 3,07) existe principalmente
como ácido ou como íon carboxilato?

Como o ácido ascórbico (Ka = 7,94 x 10 –5) se apresenta no plasma?


2
O ácido ascórbico em excesso é excretado na urina, que apresenta
3 pH variando entre 4,8 e 8,4. Que forma do ácido ascórbico deve ser
esperada na urina com pH 8,4?

Aula 12 Química da Vida 17


Efeitos dos substituintes sobre a
acidez dos ácidos carboxílicos

Você poderia perguntar: qual a razão de haver variação de acidez entre os ácidos
carboxílicos?
Observe que a única diferença estrutural entre um e outro
Ácido Ka pKa
ácido carboxílico reside no substituinte. É necessário compreender
os efeitos eletrônicos dos substituintes sobre o grupo carboxila
Ácidos fortes
para justificar a acidez. Compare na listagem a seguir a acidez de
alguns ácidos.
A dissociação de um ácido carboxílico é uma reação de
equilíbrio. Qualquer fator que estabilize o ânion carboxilato, em
relação ao ácido não dissociado, desloca o equilíbrio para maior
dissociação, ou seja, maior acidez. Qualquer fator que estabilize o
ácido em relação ao carboxilato resultará em redução da acidez.
Lembre-se de que o átomo de carbono é elétron-deficiente
no ácido, mas elétron-excedente no carboxilato. Assim, um
substituinte elétron-doador estabiliza a carboxila e reduz a
dissociação, enquanto um elétron-aceptor estabiliza o ânion
carboxilato, facilitando sua formação ou aumentando a acidez.
Compare os valores, a seguir, de pKa de ácidos com um
substituinte elétron-aceptor no carbono adjacente à carboxila, com
o pKa do acético.

Fórmula CH3CO2H ICH2CO2H BrCH2CO2H ClCH2CO2H FCH2CO2H


Nome Acético Iodoacético Bromoacético Cloroacético Fluoroacético

pKa 4.76 3.18 2.90 2.86 2.59

Veja que um substituinte elétron-aceptor aumenta a acidez do grupo carboxila por várias
ordens de magnitude, porque as interações entre os dipolos CHalogênio e o grupo carboxila
são energeticamente desfavoráveis. Um átomo de iodo aumenta a acidez do ácido acético
por um fator de 38. Pode-se observar também que quanto maior a eletronegatividade do
halogênio, maior seu efeito indutivo e maior a acidez. Veja que enquanto o ácido cloroácetico
tem a acidez aumentada cerca de 80 vezes, o fluoroacético a tem em 150!

18 Aula 12 Química da Vida


Se um substituinte elétron-aceptor aumenta a acidez, qual o efeito a ser esperado para
a presença de outros? Compare os efeitos de múltiplos substituintes elétron-aceptores a
seguir.

Fórmula CH3CO2H ClCH2CO2H Cl2CHCO2H Cl3CCO2H F3CCO2H


Nome Acético Cloroacético Dicloroacético Tricloroacético Trifluoroacético

pKa 4.76 2,86 1,48 0,70 0,23

Veja que o aumento no número de átomos de halogênio promove a acidez. O


tricloroacético é mais que 10.000 vezes e o trifluoroacético é aproximadamente 34.000 vezes
mais ácido que o acético.
Efeitos indutivos são os mais elevados para ligações adjacentes e decrescem
rapidamente com a distância entre os grupos interagentes. Os valores de pKa dos ácidos 2-,
3- e 4-clorobutanóico ilustram como os efeitos indutivos decrescem com a distância entre os
grupos interagentes. Observe, através dos valores listados a seguir, como o efeito promotor
sobre a acidez sofre redução sensível à medida que, na cadeia carbônica, o halogênio é
distanciado do grupo carboxila.

Fórmula CH3CH2CH2CO2H ClCH2CH2CH2CO2H CH3CH(Cl)CH2CO2H CH3CH2CH(Cl)CO2H

Nome Butanóico 4-Clorobutanóico 3-Clorobutanóico 2-Clorobutanóico

pKa 4,82 4,52 3,98 2,83

Embora a constante de dissociação para o ácido 2-clorobutanóico seja cem vezes maior
que a do butanóico, para o 3-clorobutanóico, reduz-se a seis e para o 4-clorobutanóico é de
somente dois.
As diferenças nos valores de pKa refletem uma média das diferenças em energia entre
o ácido e sua base conjugada, o ânion carboxilato.
Então, você poderia perguntar: como os efeitos indutivos dos átomos de halogênio
provocam diferenças de energia, contribuindo para a acidez dos ácidos carboxílicos?
Considere o ácido tricloroacético. As interações entre os dipolos C–Cl e o grupo –CO2H são
desfavoráveis energeticamente para o ácido, porque não cooperam para a redução da deficiência
eletrônica sobre a carboxila, mas para aumentá-la. Porém, no ânion carboxilato os terminais
positivos do dipolo carbono-cloro interagem eletrostaticamente de modo favorável com a carga
negativa, contribuindo para sua dispersão. Atente para as representações a seguir.

Cl Cl
O grupo substituinte
O
grupo substituinte D favorece a formação
aumenta a polaridade Cl C C Cl C C
sobre a carboxila
O H do carboxilato cooperando
na dispersão da carga O
Cl Cl

Aula 12 Química da Vida 19


A conseqüência é que o tricloroacetato é mais estável em relação ao ácido
tricloroacético do que o acetato em relação ao ácido acético.
E o que dizer do efeito de substituintes elétron-doadores?
Compare os valores de pKa: HCOOH = 3,75, CH3COOH = 4,76, C6H5COOH = 4,20 e
considere o ácido fórmico, que não apresenta substituinte, como referencial. Veja que a
acidez é menor cerca de dez vezes para o ácido acético e cerca de três para o benzóico.
No ácido acético, o carbono do grupo metila tem hibridação sp, enquanto o carboxílico
tem sp. Como orbitais híbridos sp têm maior contribuição de orbital s, seus elétrons sofrem
maior atração do núcleo por estarem mais próximos do mesmo do que aqueles em orbitais
sp. Por isso, um carbono sp tem eletronegatividade ligeiramente superior a um sp. E no
caso do carboxílico, fortemente polarizado pelas 3 ligações com 2 átomos de oxigênio, sua
eletronegatividade é ainda maior. Tal diferença de eletronegatividade dá origem ao efeito
indutivo elétron-doador do grupo alquila, que reduz a deficiência eletrônica sobre o carbono
carboxílico, estabilizando o ácido, e não coopera para a estabilização do ânion carboxilato.
Observe a representação a seguir.

grupo substituinte O
reduz a polaridade
D
CH 3 C
sobre a carboxila O H

Você observa o efeito da hibridação do carbono do substituinte sobre a acidez, quando


compara os valores de pKa dos ácidos: acético (4,7), propenóico (4,3), benzóico (4,2) e
propinóico (1,8). Carbono sp é mais eletronegativo que sp aromático, por sua vez, mais que
sp alifático, e este mais que sp.
E quanto aos ácidos dicarboxílicos? Na listagem a seguir, os valores ilustram de forma
interessante os efeitos dipolares sobre a acidez.

Ácidos dicarboxílicos

Nome oficial Comum Fórmula Ka1 pka1 Ka2 pka2


Etanodióico oxálico HOOCCOOH 5,4 . 10-2 1,27 5,2 . 10-5 4,28

Propanodióico malônico HOOCCH2COOH 1,4 . 10-3 2.85 2,0 . 10-6 5,70

Butanodióico succínico HOOC(CH2)2COOH 6,4 . 10-5 4,19 2,3 . 10-6 5,64

Pentanodióico glutárico HOOC(CH2)3COOH 4,5 . 10-5 4,35 3,8 . 10-6 5,42

Hexanodióico adípico HOOC(CH2)4COOH 3,7 . 10-5 4,43 3,9 . 10-6 5,41

Cis-2-butenodióico maleico HOOCCH=CHCOOH 1,0 . 10-2 2,00 5,5 . 10-7 6,26

Trans-2-butenodióico fumárico HOOCCH=CHCOOH 9,6 . 10-4 3,02 4,1 . 10-5 4,39

1,2-benzenodicarboxílico ftálico 1,2-C6H4(COOH)2 1,1 . 10-3 2,96 4,0 . 10-6 5,40

20 Aula 12 Química da Vida


Repare que para o ácido oxálico, há uma diferença de acidez entre as duas carboxilas
superior a 1.000 vezes. No ácido malônico, essa diferença reduz para 700, no succínico para
28 e no adípico não chega a 10.
Nos ácidos dicarboxílicos, um grupo atua como elétron-aceptor sobre o outro,
aumentando mutuamente a deficiência eletrônica do carbono e favorecendo a dissociação.
No carboxilato, esse efeito atua no sentido de dispersar a carga negativa, de estabilizar o
ânion, favorecendo sua formação, conforme a representação a seguir.

O O
O O um grupo carboxila grupo carboxila D
D aumenta a deficiência favorece formação C
C C C
H O O H eletrônica do outro do carboxilato O H
O

Dessa forma, a acidez é usualmente maior que a correspondente para um ácido


monocarboxílico. Entretanto, a segunda dissociação é reduzida pelo efeito indutivo do
carboxilato, que favorece a forma associada e ao mesmo tempo impõe resistência à formação
de outro ânion, pela repulsão desfavorável entre suas cargas negativas. Portanto, a segunda
constante de ionização é usualmente menor que aquela de um ácido monocarboxílico.
Observe também, conforme você já estudou, que o efeito decresce rapidamente com o
distanciamento entre os grupos.
Há um destaque para o ácido maleico que apresenta uma diferença de acidez entre seus
grupos igual a 18.000 vezes. Devido a sua configuração cis, o carboxilato da primeira dissociação
estabelece uma ligação hidrogênio intramolecular com o segundo grupo não dissociado. Essa
ligação estabiliza tanto o carboxilato como o ácido, desfavorecendo a segunda dissociação.

O O
C C
O O
H

ligação H
intramolecular

Atividade 4
Por que os dois valores de pKa diferem mais para os ácidos dicarboxílicos de
cadeias mais curtas do que para os de cadeia mais longas?

Aula 12 Química da Vida 21


Sais de ácido carboxílico
Ácidos são neutralizados com bases formando sais carboxilatos:

carboxilato carboxilato
de amônio NaOH de sódio
O O O
H 2N R - H 2O
R C R C R C
+ NaHCO 3 +
O H 3N R O H O Na
- H 2 O, CO 2

A nomenclatura dos sais de ácidos suprime a palavra ácido e é composta pelos


nomes do ânion carboxilato, e do cátion unidos pela preposição “de”. E o nome do ânion
carboxilato é derivado do nome, oficial ou comum, do ácido carboxílico substituindo-se o
sufixo -ico por -ato.
Nos sais, a força de atração predominante é a eletrostática, entre íons, muito mais
forte do que a ligação hidrogênio. Por essa razão, sais carboxilatos são sólidos, em geral
inodoros, apresentam altos pontos de fusão e, comumente, decompõem-se sem chegar
à fusão. Os sais de ácidos derivados de metais alcalinos e os carboxilatos de amônio são
geralmente solúveis em água e insolúveis em solventes orgânicos apolares.
Os carboxilatos de sódio e potássio com 12 ou mais carbonos são utilizados como
sabões. O sabão, do latim saponis, é conhecido desde pelo menos 600 a.C. Os fenícios já
preparavam um material coagulado por fervura de gordura de cabra misturada com cinzas
de madeira. Do ponto de vista químico, o sabão é uma mistura de sais de sódio ou potássio
de ácidos graxos, produzida pela saponificação (hidrólise alcalina) de gordura animal.
A estrutura química do sal define o sabão como anfifílico ou anfipático, composto ou
molécula que tem uma parte hidrofílica e outra lipofílica. Observe na representação seguinte
que a extremidade carboxilato é iônica e, por isso, hidrofílica. A porção hidrocarbônica da
molécula é apolar e hidrofóbica. Em água, as cadeias hidrocarbônicas longas se agrupam e
se entrelaçam em aglomerados esféricos com o interior hidrofóbico e a superfície hidrofílica
com extremidades iônicas, denominadas micelas e também representadas a seguir.

ONa
Apolar Polar

22 Aula 12 Química da Vida


A carga elétrica na superfície, além da hidrofilia, provoca repulsão eletrostática entre as
micelas permitindo a dispersão do sabão na água. O interior hidrofóbico da micela interage
com a sujeira hidrofóbica para removê-la da fibra ou superfície.

Atividade 5
Sorbato de potássio é adicionado como conservante a certos alimen-
1 tos para impedir o desenvolvimento de fungos e bactérias a fim de
evitar riscos à saúde, possibilitando ao mesmo tempo um armazena-
mento mais prolongado. O nome oficial desse aditivo é (2E,4E)- hexa-
2,4-dienoato de potássio. Desenhe sua fórmula estrutural.

O undec-10-enoato de zinco é empregado no tratamento de certas


2 infecções fúngicas, particularmente, na Tinea pedis (pé-de-atleta).
Desenhe sua fórmula estrutural.

Utilidade dos sais carboxilatos


Ácidos insolúveis em água podem ser solubilizados ou dispersos pela conversão em
sais de metais alcalinos ou de amônio. Estes podem ser reconvertidos aos ácidos insolúveis
originais pela acidificação da solução com ácido mineral. Essas reações possibilitam extrair
ácidos carboxílicos de misturas com compostos neutros insolúveis em água, como um método
de separação e purificação.
O esquema seguinte representa a separação entre ácido benzóico e álcool benzílico.
A mistura álcool-ácido é primeiramente solubilizada em éter dietílico. A solução resultante
é agitada com NaOH aquoso, e o ácido benzóico, convertido à benzoato hidrossolúvel, é
extraído da fase orgânica. As fases são separadas por decantação. A solução orgânica tem o
éter removido por evaporação, restando o álcool (pe 205°). A fase aquosa é acidificada com
HCl para precipitar o ácido benzóico, o qual é isolado por filtração.

Aula 12 Química da Vida 23


mistura O
Ácool Ácido
benzílico
C H2 O H + benzóico
O H

dissolução em éter

fase etérea solução 0,1 M NaOH fase aquosa


(álcool solúvel) (sal benzoato solúvel)

destilação O precipitação com


do éter HCl 0,1 M
C H2 O H
O H

Atividade 6
Baseando-se na acidez, proponha um método que permita separar ácidos
carboxílicos, fenóis e álcoois, insolúveis em água e presentes em uma
solução orgânica.

Resumo
Nesta aula, vimos que os ácidos carboxílicos são compostos que apresentam
o grupo carboxila, agregando carbonila e hidroxila, incluem grande parte dos
metabólitos em vegetais e animais e têm importância industrial como matéria-prima
para a vasta gama de produtos. São nomeados substituindo-se a terminação -o do
hidrocarboneto correspondente por -óico, antecedido da palavra “ácido”, o grupo
carboxila é polar e hidrofílico e estabelece ligações hidrogênio intermoleculares
mais fortes que a dos álcoois, formando dímeros. A acidez é a característica
principal dos ácidos carboxílicos, sendo menor que a dos ácidos minerais.
Estudamos também que os substituintes elétron-aceptores aumentam a acidez
e, quanto aos ácidos dicarboxílicos, vimos que apresentam maior acidez para a
primeira dissociação e menor para a segunda, comparados aos monocarboxílicos.
Por fim, aprendemos que a solubilidade em água dos sais carboxilatos é de grande
utilidade para o isolamento e a purificação dos ácidos.

24 Aula 12 Química da Vida


Auto-avaliação
Empregando o conceito de ressonância, explique por que a acidez dos ácidos
1 carboxílicos é cerca de um trilhão (10 12) de vezes maior que a dos álcoois de
constituição similar.

Ainda que o ácido p-hidróxibenzóico (Ka 2,9 x 105) seja menos ácido que o ácido
benzóico (Ka 6,3 x 105), o ácido o-hidróxibenzóico (salicílico, Ka 105 x 105) é 15
2 vezes mais ácido que o ácido benzóico. Explique tais valores.

Justifique os diferentes valores de pKa para os ácidos: benzóico= 4,2; fórmico=


3 3,8; tricloracético= 0,6.

Os ácidos carboxílicos a seguir têm nomes comuns bem conhecidos. Um,


4 derivado do ácido glicérico, é intermediário na glicólise. Ácido maleico é um
intermediário no Ciclo do Ácido Tricarboxílico (Krebs). Ácido mevalônico é
intermediário na biossíntese de esteróides. Escreva os nomes, segundo a
IUPAC, especificando a configuração.

C O 2H
HO 2 C CO2 H HO CH 3
H C OH C C C
H H HOCH 2 C H 2 CH 2 CO2 H
C H 2O H

Ácido glicérico Ácido maleico Ácido mevalônico

Referências
ALLINGER, Norman L. et al. Química orgânica. 2. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e
Científicos, 1976.

BARBOSA, Luiz Cláudio de Almeida. Introdução à química orgânica. São Paulo:


Prentice Hall, 2004.

Aula 12 Química da Vida 25


INTERNATIONAL UNION OF PURE AND APPLIED CHEMISTRY. Recommendations on
organic & biochemical nomenclature, symbols & terminology etc. Londres: IUPAC, 2005.
Disponível em: <http://www.chem.qmul.ac.uk/iupac/>. Acesso em: 01 out. 2005.

______. Nomenclature of organic chemistry. Disponível em: <http://www.acdlabs.com/


iupac/nomenclature/>. Acesso em: 01 out. 2005.

MCMURRY, John. Química orgânica. 4. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1996.

SOLOMONS, T. W. Graham. Química orgânica. 7. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e


Científicos, 2003.

VOLLHARDT, K. P. C.; SCHORE, N. E. Química orgânica, estrutura e função. 4. ed. Porto


Alegre: Bookman, 2004.

WADE JÚNIOR, L. G. Organic chemistry. 4. ed. Upper Saddle River: Prentice Hall, 1999.

26 Aula 12 Química da Vida


Anotações

Aula 12 Química da Vida 27


Anotações

28 Aula 12 Química da Vida