JUN/JUL/AGO - 2011 - Nº 55

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Índice
DESTAQUE

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LEGISLATIVO

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Expediente
Think Tank - A Revista da Livre-Iniciativa

Ano XV - no 55 - Jun/Jul/Ago - 2011 CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Arthur Chagas Diniz Elcio Anibal de Lucca Alencar Burti Paulo de Barros Stewart Jorge Gerdau Johannpeter Jorge Wilson Simeira Jacob José Humberto Pires de Araújo Raul Leite Luna Ricardo Yazbek Roberto Konder Bornhausen Romeu Chap Chap CONSELHO EDITORIAL Arthur Chagas Diniz - presidente Alberto Oliva Aloísio Teixeira Garcia Antônio Carlos Porto Gonçalves Bruno Medeiros Cândido José Mendes Prunes Jorge Wilson Simeira Jacob José Luiz Carvalho Luiz Alberto Machado Nelson Lehmann da Silva Octavio Amorim Neto Roberto Fendt Rodrigo Constantino William Ling Og Francisco Leme e Ubiratan Borges de Macedo (in memoriam)

O MUNDO ÁRABE E A POLÍTICA...
José Alexandre Altahyde Hage

João Luiz Coelho da Rocha

LIMPANDO AS FICHAS

ENERGIA

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MATÉRIA

DE

CAPA

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OS DESAFIOS CONTINUADOS DA USINA DE BELO MONTE
Adriano Pires e Abel Holtz

Marcel Domingos Solimeo

CAPITALISMO À BRASILEIRA

ESPECIAL

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ECONOMIA

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O BOM, O MAU E O FEIO
Uma visão liberal do fato

A EVOLUÇÃO RECENTE DA INFLAÇÃO...
Antônio Carlos Pôrto Gonçalves

DIRETOR / EDITOR Arthur Chagas Diniz JORNALISTA RESPONSÁVEL Ligia Filgueiras RG nº 16158 DRT - Rio, RJ PUBLICIDADE / ASSINATURAS: E-mail: il-rj@dh.com.br Tel: (21) 2539-1115 - r. 221 FOTOS ImagePlus, Photodisk e Wikipedia.

LIBERALISMO

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LIVROS

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AS CAUSAS DO DEBILITAMENTO DO LIBERALISMO NO SÉCULO XX
Og Leme

UMA SOCIEDADE INFANTILIZADA
por Rodrigo Constantino

INSTITUTO LIBERAL
Rua Maria Eugênia, 167 - Humaitá 22261-080 - Rio de Janeiro - RJ Tel/Fax: (21) 2539-1115 E-mail: ilrj@gbl.com.br Internet: www.institutoliberal.org.br

Nesta Edição

REALIZAÇÃO

NOTAS PLC Nº 306/08

ENCARTE ESPECIAL por José L. Carvalho

BANCO DE IDÉIAS é uma publicação do Instituto Liberal. É permitida a reprodução de seu conteúdo editorial, desde que mencionada a fonte.

Leitores
Sua opinião é da maior importância para nós. Escreva para Banco de Idéias.
Sr. Editor, A minha filha e seu marido já me avisaram que vão morar no Canadá. Não suportam mais ver o descalabro da corrupção política brasileira, e não querem que seus filhos sejam contaminados com a vida deletéria que se instalou no País. Com efeito, aqui o trabalhador é honesto e espoliado com alta carga tributária, sem retorno em serviços públicos de qualidade, só para custear a despesa de políticos e de máquina pública. Minha filha e marido estão enojados com tanta sujeira pública, patrocinada pelos poderes da República. Ninguém é punido. Temos um Judiciário leniente e de indicação política (STF). O Congresso é uma casa de compadrio espúrio, onde os conselheiros de ética são formados por políticos dependurados na Justiça, e sua comissão mais importante a CCJ é presidida por um político que responde a processo no STF Não se tem um ensino público . de qualidade, e muitas cidades brasileiras não dispõem de escolas preparadas para a educação. Enfim, com os professores públicos mal remunerados, à educação no Brasil não é dado o tratamento de escola, na forma do disposto constitucional. Como se pode viver em paz no Brasil? O País que não se preocupa com seu povo e não investe com seriedade em educação só pode mesmo ser atropelado por trambiqueiros, que apenas querem tirar vantagem do prestígio político dos cargos que ocupam. Enriquecem do dia para a noite e não querem ser investigados pela sociedade. Esses políticos não deveriam ser objeto de Comissão Parlamentar de Inquérito, mas de inquérito policial com punição sumária. Júlio César Cardoso, por e-mail Prezado Júlio, A decisão de sua filha e seu genro estão consistentes com o sentimento de indignação que habita pequena parte de nossa gente. Conte com a solidariedade e o nosso esforço para tentar mudar as coisas. O editor Envie as suas mensagens para a rua Rua Maria Eugênia, 167 Humaitá - Rio de Janeiro - RJ 22261-080, ou ilrj@gbl.com.br.

Editorial
osé Alexandre Hage, doutor em ciência política pela Unicamp, faz uma atraente viagem pelo que chamamos de primavera árabe. O que acontece lá impacta o resto do mundo. As revoltas e manifestações populares no norte da África seguem perspectivas diferentes, umas das outras, tendo em comum o movimento de massas contra governos. O prof. Hage analisa a questão estabelecendo diferenças entre o que os analistas do mundo inteiro apontam como manifestações em favor da democracia, tal como concebida no Ocidente. A opinião pública média, saciada de tantos vexames de seus políticos, logo se afeiçoou à defesa da aplicação de lei da “Ficha Limpa” postulando sua aplicação imediata, percebendo a posição dos que pediam sua aplicação apenas a partir de 2012 como uma mina dos eternos corruptos de olho no poder político. O prof. João Luiz Coelho da Rocha aplaude, mas chama a atenção para o fato de que não podemos atropelar a lei eleitoral vigente, sob pena de perdermos os benefícios. A lei não é uma panacéia e a cultura patrimonialista está entranhada de tal forma que, ninguém confessa delito, mesmo que colhido em flagrante. Outra observação importante é o risco que corremos tendo uma Corte Superior integrada por ministros de indicação do Executivo em exercício. Os professores Adriano Pires e Abel Holtz, especialistas em infraestrutura, analisam os desafios de construir a Usina de Belo Monte. A ideia de construir a hidroelétrica já tem 35 anos, e parece que nos próximos meses estará sendo iniciada. Isso está dependendo de um relatório favorável do IBAMA. Os articulistas, apesar do conjunto de polêmicas que envolvem a construção da hidrelétrica, vêem nela uma das soluções para uma economia cuja demanda energética cresce 5% a.a. Felizmente, afirmam, o Brasil tem fontes renováveis que permitem a produção sustentada de energia elétrica sem que seja necessário subsidiar seu preço. As ONGs nacionais e internacionais que se opõem à construção de Belo

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Monte compartilham a visão idílica, ingênua que pretende tirar do país seu poder de explorar seus recursos naturais de forma soberana. Marcel Solimeo questiona o modelo de capitalismo brasileiro. Ao analisar o que vem ocorrendo, ele avalia a que grau chegou o intervencionismo. Solimeo está convencido de que o governo passou a controlar as grandes empresas privadas, através de financiamentos subsidiados de longo prazo e participação forçada de sindicatos em Conselhos de Administração. O exemplo mais flagrante é o caso da substituição do presidente da Vale, que defendia os interesses dos acionistas e não as escolhas políticas do governo. Outro marco significativo desse modelo de capitalismo estatal é a decisão de construir um trem de alta velocidade entre o Rio e Campinas. Além do projeto ter passado sem discussões pelo crivo do Congresso que, enfim, representa a população, o açodamento do governo acaba por garantir aos eventuais investidores um retorno, ainda que à custa do contribuinte. Mudar o critério para a medição do déficit público, tornar o índice de preços mais bem comportado, reduzindo o imposto e o reajuste do preço dos combustíveis, mudar o direcionamento do crédito, mas não a oferta global de moeda, são procedimentos adotados pelas autoridades brasileiras. Antonio Carlos Pôrto Gonçalves, economista da FGV, responde a essas questões que já passaram a frequentar as discussões dos brasileiros. A conquista da estabilidade depois de anos de inflação elevadíssima se deve ao povo brasileiro. Não se deve correr riscos. O Encarte da presente edição é o ensaio do prof. José L. Carvalho sobre a política ambiental. Completam esta edição o extraordinário texto do saudoso prof. Og Leme, sobre questões que diariamente somos obrigados a responder, além da resenha do livro O Estado babá, pelo economista e escritor Rodrigo Constantino. A edição de NOTAS aborda o Projeto de Lei Complementar nº 306/08.

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Destaque

O mundo árabe e a política:
Democracia e revolta no Oriente Médio
José Alexandre Altahyde Hage
Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Professor no curso de Relações Internacionais da FAAP-SP .

À GUISA DE EXPLICAÇÃO
á se transformou em lugar comum dizer que os acontecimentos políticos do Oriente Médio, ou do mundo islâmico, interessam a todo o sistema internacional, de uma forma ou de outra.1 A razão disso é que a região

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tem características culturais, geopolíticas e econômicas que a colocam na primazia das grandes questões da política internacional, no passado e na atualidade. Há algumas formas de ser envolvido nos desdobramentos políticos do Oriente Médio, mesmo que involuntariamente. No

aspecto cultural e religioso foi em Israel que nasceram as três grandes religiões monoteístas que conformam o globo. Praticamente o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo marcam presença em todos os Estados nacionais, de uma forma ou de outra; mesmo na China e na Índia, com suas

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Destaque
culturas muito peculiares, há presença da mensagem de Cristo e do Profeta, o que nem sempre se dá de forma emocionalmente equilibrada. No quesito geopolítico não há como ignorar a importância que o Oriente Médio tem para a saúde da política mundial. Sobre isso podem ser vislumbradas as tentativas da Autoridade Palestina em se firmar frente a Israel que, no fundo, transformou a Palestina em uma espécie de gueto, que vive na dependência de Jerusalém para obter o mínimo de viabilidade. A Autoridade Palestina, como medida de evolução para um Estado propriamente dito, não deixa de ser ficção, uma vez que sua existência depende do senhorio em vários pontos. Também não há como deixar de reconhecer a militância iraniana para transformar Teerã em centro relevante para os negócios políticos e econômicos regionais, adentrando, para isso, em temas de profunda sensibilidade, como o de dominar o ciclo do combustível nuclear. De certa forma, o objetivo de lograr algum nível de importância política para o mundo árabe é algo que perdura desde as aventuras de T. H. Lawrence, o Lawrence da Arábia, que percorria a região para libertá-la das potências que lutavam na Primeira Guerra Mundial, mas sem obter sucesso. Também não se pode esquecer dos esforços autonomistas do presidente Nasser, no Egito dos anos 1950 e 1960, para afastar as grandes potências das decisões nacionais. No tocante à economia, vale dizer a economia da energia, o Oriente Médio se torna interesse obrigatório. Arábia Saudita, Kuwait, Iraque e Irã comportam algo em torno de 60% das reservas mundiais de petróleo, conforme as estatísticas apresentadas pela Agência Internacional de Energia. Pelo fato de a economia internacional ser movida a combustível fóssil, a área em questão passa a ter importância e evidência que vão além do convencional, até exagerada, uma vez que o drama energético (sua produção e comercialização) migra também para vizinhos que não guardam relevância como produtores de hidrocarbonetos, caso do Egito e da Síria. Com efeito, não são produtores à altura dos mencioajudam a abrir a porta para mudanças. O descontentamento apresentado naqueles países varia de grau, podendo ir dos protestos de coloração romântica, como em Túnis, passando por movimentos de massa, caso do Cairo, e desembocando na luta armada, o que se pode ver na Líbia. O resultado dessas militâncias ainda não está claro e concluído. Por conseguinte, algumas análises que são veiculadas podem ser interpretadas mais como fruto do desejo do articulador do que autorizadas pela realidade. Democracia, estabilidade do jogo político e economia, regulada racionalmente, são atributos presentes no mundo industrializado e tidos como avanço em escala internacional. Mas há necessidade de tempo para se saber se realmente esses valores são efetivamente o objeto de luta das atuais manifestações que envolvem o mundo árabe e islâmico. Abaixo algumas considerações.

No tocante à economia, vale dizer a economia da energia, o Oriente Médio se torna interesse obrigatório. Arábia Saudita, Kuwait, Iraque e Irã comportam algo em torno de 60% das reservas mundiais de petróleo, conforme as estatísticas apresentadas pela Agência Internacional de Energia.

A PRIMAVERA ÁRABE
As manifestações e revoltas que marcam presença no Egito, na Líbia e na Tunísia em princípio não devem ser compreendidas de modo homogêneo. Embora sejam países de cultura árabe e islâmica, eles não conformam uma unidade política coesa, a exemplo das experiências ocidentais da atualidade, em que as analogias superam divergências históricas. No entanto, mesmo que países árabes tenham experiências e culturas distintas, ainda assim há como dizer que o termo oriente, para identificá-los, não é congruente, embora de uso consagrado. O professor Mohamed Habib, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, não atribui validade ao termo oriental para designar povos de origem semita, o que vale

nados, mas Cairo e Damasco são centros de aglutinação política que acabam expressando conflitos que a região fomenta. Por isso é que se deve considerar os mega-acontecimentos de caráter político e cultural de países como Egito, Tunísia e Líbia, com poder de irradiar suas crises para outros centros internacionais. Desde janeiro de 2011 a população desses Estados anima manifestações que passaram a ser conhecidas pelo termo Primavera Árabe, em que grupos demonstram amplo descontentamento com seus governantes e, assim,

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Destaque

Arábia Saudita, Kuwait, Iraque e Irã comportam algo em torno de 60% das reservas mundiais de petróleo.

para árabes e judeus. Isto porque se trata de gente que professa e segue, em grande parte, os mesmos valores que constituem culturalmente o ocidente judaicocristão, a saber, a própria filosofia que remonta ao período clássico greco-romano e transportada por pensadores árabes para a Europa Ocidental. Aliás, foi no norte da África que nasceram Santo Agostinho e um dos mais originais pensadores árabes para a ciência política européia, antecipando Maquiavel, Ibn Jaldun.2 No mesmo nível de diálogo havia preocupações de Edward Said, da Universidade de Columbia, para quem o termo orientalismo, para compreender os povos árabes, não deixava de ser artificialismo intelectual da Grã-Bretanha e da França imperialistas, cujo objetivo era justamente atribuir visão exótica e excêntrica a povos subordinados aos dois poderes.3 Desta forma, o orientalismo se transformou em instrumento de fascinação sobre os árabes como se fossem seres exóticos, donos de mistérios e sensualidades infinitos, que deveriam ser “catalogados” não como pertencentes ao mesmo
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tronco cultural, mas como orientais, distantes. Esses elementos conceituais acima são importantes para compreender a atual situação do Oriente Médio e norte da África. Aquelas revoltas não são excêntricas. Elas fazem parte de um circuito de descontentamento que, de alguma forma, liga-se às contestações que vêm grassando há alguns anos na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. E quais são os motivos mais exaltados para isso? A resposta pode ser a angústia sobre o futuro sob uma economia internacional desajustada e sem perspectiva de progresso para a maioria. Em outra instância, o desenvolvimento econômico dos grandes países árabes se deu por meio do Estado (capitalista estatal), fundando empresas e se responsabilizando pelo pleno emprego. Pleno emprego que, além de nunca ter existido no mesmo nível do europeu, recebeu golpes fortíssimos nos anos 1990, com o processo de reforma institucional do Estado, bem como da crise de 2008. É bom recordar que o desenvolvimento político e econômico

do Egito, à primeira vista, não deixou de ser feito sob inspirações européias e com toques de iluminismo. Pode-se dizer que a criação da Irmandade Muçulmana, nos anos 1920, guarda relação com o padrão cultural Europeu? De início a resposta é não para a pergunta. Mas se for observada uma outra vertente, há de se considerar que aquilo que a Irmandade demandava não era tão estranho para países como a França ou os Estados Unidos, uma vez que o desejo dos irmãos muçulmanos era a libertação real do Egito, que era considerado país subordinado ao Reino Unido. E nesse aspecto a libertação e a criação do Estado nacional não são patrimônios europeus espalhados pelo mundo? A Primavera Árabe pode ser interpretada como marca de insatisfação contra um modelo de estabilidade política que não mais funciona. O modelo posto em questão advém justamente da luta de empenho nacional que o presidente Nasser organizara no Egito para fazer, de alguma forma, o Estado sob o estilo ocidental com exércitos regulares, com erário e com burocracia especializada.

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Destaque
Mas é necessário frisar que esse modelo de desenvolvimento político e econômico típico dos anos 1950 não existiu somente no Egito de Nasser. Regimes análogos ou inspirados nele estiveram presentes na Argélia de Ben Bella, nos anos 1960, no Iraque de Sadan Hussein e na Líbia do coronel Kadhafi nos anos 1970 – plataformas nacionalistas e com toques de racionalidade políticoadministrativa. Isto sem mencionar a América Latina, lugar de excelência nos experimentos da economia autárquica. Afinal, por mais estranho que possa parecer, Iraque e Líbia tiveram algum modelo de industrialização, eficiência econômica e bem-estar social, pleiteando reforma agrária, saúde e educação universais e direito à moradia.4 Então, quais são os elementos que concorrem para provocar desgastes políticos e sociais inéditos naqueles países? Além da mencionada crise de 2008, há também que citar o pacto proposto há décadas pelo estilo nacionalista que procurava oferecer certo nível de desenvolvimento social e econômico que, em troca de anuência política, começou a fazer água. Em outras palavras, enquanto o projeto autoritário conseguia oferecer compensações, a sociedade aceitava dirigentes que também tinham vestes de heróis e líderes, uma vez que eram anti-imperialistas. As manifestações que começaram com a queda do governo Ben Ali, na Tunísia, existiram em virtude da indiferença que aquele governo mantinha perante a ala desprotegida da sociedade. A plataforma autoritária que governava desde 1987 não tinha mais insumos para manter a estabilidade. O mesmo vale para o Egito, sob o governo Mubarak, que comandara o país por mais de trinta anos – e não é à toa comentar que o Cairo é a maior cidade Islâmica do mundo. O que os países árabes de modo geral têm em comum, na atualidade, é falta de projeto de longo prazo para uma população majoritariamente jovem, com menos de trinta anos. População ávida por emprego e melhores condições de vida. Governos autocráticos, cujo modelo perdurava desde os anos 1950, não mais tinham condições de continuar com aquelas mesmas feições e exigindo lealdade. No caso da Líbia estava patente que seu “socialismo à moda árabe” e com toques islâmicos, presente no Livro Verde de Kadhafi, não apresentava condições de sobreviver em um clima político em que a população jovem exige novos parâmetros e busca novas conquistas. A questão não é ignorar ou desprezar seus governantes, até porque eles deviam contar com alguma base de legitimidade, mas é saber que esses mesmos governantes se fossilizaram no tempo e perderam o real contato com o povo. Por conseguinte, as revoltas e manifestações populares no norte da África seguem perspectivas diferentes, tendo em comum o movimento de massas contra governos. Contudo, o desfecho político disso tudo não deve ser apontado, a não ser como expressão de escolha individual. Por exemplo, boa parte dos analistas chega a apontar a emergência da democracia naqueles países, sendo que (para quem cita) democracia deve ser aquele regime extraído da Europa Ocidental. Vale dizer, democracia que seja pautada por reconhecida regra do jogo, que contemple a existência de partidos políticos independentes e organizados, em que haja liberdade de crítica e de imprensa e, por fim, que haja também uma instituição de caráter superior, que não somente regule as regras do jogo eleitoral mas atribua a vitória a quem é de direito,

A Suécia depois do modelo sueco
de Mauricio Rojas

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Destaque
ainda que isso traga algum desgosto, como se fosse um Superior Tribunal Eleitoral. De fato, isso se aproxima da concepção de democracia que o grande pensador austríaco Schumpeter havia feito – democracia por procedimento, que seja linear e não cause perturbações profundas. Em parte pode-se dizer que essa democracia é a que viceja no pacto pós-Segunda Guerra na Europa Ocidental, entre os partidos trabalhistas, comunistas e cristãos. Mas mesmo no Velho Mundo o conceito de democracia também passa por novas interpretações, que vão além daquele pacto feito para angariar governabilidade. Certamente as revoltas do mundo árabe, e afins, são populares e expressam as angústias de setores mais vulneráveis economicamente. Mas, apesar de tudo, isso não nos dá ainda elementos para dizer que haverá democracia no Egito ou na Líbia. Isso porque historicamente não há lá instituições que sejam análogas às que são conhecidas na Europa ou nos Estados Unidos – o que deve valer também para outros países, como o Brasil atualmente. Podese corroborar as observações do professor Habib e de Said sobre imputar o termo oriental aos árabes, apesar das distâncias e dos valores que os separam da Europa. Porém, mesmo adotando as observações dos dois intelectuais não deixa de ser lícito observar também que a democracia não é transferida de modo instantâneo ou por procuração. Na base, pode ser que europeus e árabes sejam frutos da mesma cultura judaico-cristã ou greco-romana. No entanto, isso não significa que a democracia será implantada por causa disso. Pode até haver a construção de regime conveniente e legítimo, mas ele não poderá ser compreendido logo como democrático, mesmo que seja de inspiração popular. De início, há que se considerar que a democracia, obrigatoriamente, não é fruto da vontade nacional, como havia imaginado Jean-Jacques Rousseau, em que a democracia seria direta, sem intermediários. No fundo, não há como saber se as revoltas populares não estariam demonstrando forte descontentamento contra plataformas autoritárias e esgota-

NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Não ignoramos que por Oriente Médio se deve compreender, geograficamente, os Estados localizados entre o Egito e o Irã, e banhados pelo Mar Mediterrâneo, como Israel (e a Autoridade Palestina), Líbano, Síria, Jordânia e Iraque. Contudo, como fenômeno político e cultural devemos estender esse raciocínio abarcando outras localidades, como o próprio Egito, os vizinhos da África do Norte, igualmente árabes e islâmicos, o Irã e a Turquia – que não são árabes, mas islamizados. 2 Em português não há mais praticamente textos de Ibn Jaldun. Em espanhol, a importante editora mexicana Fondo de Cultura Económica editou Introducción a la História Universal. México-DF, Fondo de Cultura Económica, 1997. No âmbito dos estudos internacionais dois importantes analistas dedicaram trabalho ao pensador árabe, Yves Lacoste e Robert Cox. 3 Trata-se do livro Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente, de Edward Said. São Paulo, Cia. das Letras, 2007. 4 Concordamos que possa ser contraproducente procurar ver traços de virtude social em governos que atualmente são defenestrados do poder. Isto não quer dizer aceitar o autoritarismo de Hussein ou Kadhafi pelo fato de constatar avanços no bem-estar social em seus governos. A posição da Líbia na escala do Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Humanas, no ano de 2010, era 53, certamente a mais alta de todo o continente, uma vez que a posição da maior potência africana, a África do Sul, era 110. Apenas a título de comparação, a posição brasileira no IDH é 73. A quem se interessa adentrar aos projetos de desenvolvimento árabe, ver: Peter Gowan, A Roleta Global. Rio de Janeiro, Record, 2003. Ver também John Pilger, Os Novos Senhores do Mundo. Rio de Janeiro, Record, 2004.
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Por conseguinte, as revoltas e manifestações populares no norte da África seguem perspectivas diferentes, tendo em comum o movimento de massas contra governos. Contudo, o desfecho político disso tudo não deve ser apontado, a não ser como expressão de escolha individual.

das para, depois de certo arranjo, desejar a existência de outra que tenha mais vigor e ânimo, mas também baseada em grupos fortes, na confiança mais sobre o homem do que nas instituições etc. Vigor e ânimo necessários para enfrentar questões históricas dentro da Líbia, na Arábia Saudita e em parte do Egito, a saber, a dificuldade de se instituir o poder de Estado centralizado sem sofrer os desgastes de pressões tribais, localistas e extremistas que também não apreciam Kadhafi ou a família real saudita.

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Legislativo

Limpando as fichas
João Luiz Coelho da Rocha
Advogado. Sócio do escritório Bastos-Tigre, Coelho da Rocha e Lopes Advogados.

á uma certa tendência cultural brasileira em somente reagir a fatos danosos ou chocantes de uma maneira “espasmódica”. Veja-se agora o caso desse monstruoso assassinato de crianças numa escola pública, em que de imediato surgem congressistas e “formadores de opinião” bradando pela proibição de venda de armas. A matéria estava vencida, derrotada em um plebiscito popular, mas em face do choque, da comoção logo surgem os que surfam nessas ondas para solicitar medidas drásticas. De igual maneira, na questão tão longa, tão arraigada entre nós, da corrupção que tem vicejado na nossa representação popular, depois de tantas incidên-

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cias públicas – fora as não reveladas – de corrupção, de mau uso dos nossos recursos, apareceu enfim uma bem acolhida lei da ficha limpa, a Lei Complementar nº 164 de junho de 2010, destinada a tentar seccionar na origem tais tendências malsãs exigindo um passado atestadamente livre de condenações penais, eleitorais ou não, como condição de candidatura a postos públicos. Assim, a lei é boa em suas regras mais estritas para registro de candidatos a postos eletivos, ainda que não seja nenhuma “pedra de toque” ou elixir miraculoso para solver os problemas endêmicos da corrupção entre nossos agentes públicos. Isso porque tantos eleitos no passado, sem

nenhuma mácula formal em seu currículo, acabaram por se intoxicar com a tentação do ganho fácil com o uso de seu cargo, pela vertiginosa vocação patrimonialista que por tantos anos permeia o exercício do poder no país. Na esteira da promulgação daquela lei complementar surgiram questões sobre sua aplicação às eleições gerais de outubro de 2010, pois que pelo princípio geral da vigência legislativa no país pode ela trazer, como no nosso caso, regra de eficácia imediata, assim que publicada (artigo 5º da LC164). Processos judiciais chegaram aos tribunais superiores do país, contestando a aplicação da lei
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Legislativo
àquelas eleições de 2010, pois que havia normas específicas de inaplicabilidade à matéria de processo eleitoral quando este já estivesse em curso. A partir daí vimos um aceso debate entre os ministros, antes no Tribunal Superior Eleitoral, depois em última instância no Supremo Tribunal Federal, refletindo uma divergência clara entre os que solicitavam a aplicação desde logo da lei moralizadora, sob argumentos de “princípio da moralidade” ou de que ali não se cuidava de processo eleitoral, mas de condições básicas de inscrição de candidaturas, e outros que se aferraram à matriz de inaplicabilidade da lei ao curso eleitoral já em existência quando publicada a lei, em nome da segurança jurídica de todo e qualquer cidadão. Como se cuida de assunto afeto a interesse popular óbvio, à vista de nosso histórico inesgotável de corrupção entre nossos homens públicos, acompanhou-se com certa proximidade tal debate judiciário, na imprensa e na mídia eletrônica, o que acabou por causar um festival de extensos votos manifestados naqueles tribunais. Admite-se que a opinião pública média, saciada de tantos vexames de seus políticos, logo se afeiçoou à defesa da aplicação de imediato da lei da ficha limpa, percebendo a posição dos que postulavam sua eficácia somente nas eleições de 2012 como mais uma arma dos eternos corruptos de olho no poder político. Tal entendimento há de ser, a nosso ver, apreciado cum granum salis, pois que por trás dessa frenética busca moralizadora, correta e louvável por ser moralizadora, mas perigosa por ser frenética, existe uma porta aberta para abusos do poder estatal e político diante de seus cidadãos. Alguns ministros do TSE, Tribunal Superior Eleitoral, e depois do STF, Supremo Tribunal Federal, se
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apresentaram extremamente rigorosos, proclamando a necessidade da imediata aplicação das regras restritivas da LC 164 às próprias eleições de outubro de 2010, sob básicos argumentos calcados nos princípios moralizadores da lei. Nesses momentos, como de hábito, mais ainda agora, em que a TV estatal transmite sessões do judiciário superior, mostram-se facetas demagógicas

A opinião pública média, saciada de tantos vexames de seus políticos, logo se afeiçoou à defesa da aplicação de imediato da lei da ficha limpa, percebendo a posição dos que postulavam sua eficácia somente nas eleições de 2012 como mais uma arma dos eternos corruptos de olho no poder político.

de magistrados muito prestes a divulgar palavras de cunho bravateiro, procurando preencher o lugar de justiceiros atentos ao “clamor das ruas”. Ora, a mais que justa e compreensível indignação popular com esse desfile de atos de corrupção, revelados como ligados a representantes políticos, não justifica uma adesão sôfrega e desastrada às normas moralizadoras, passando por cima de parâmetros constitucionais básicos que são, na verdade, garantias de todos os cidadãos. Como dizem os americanos na letra ines-

quecível da canção popular: “Fools rush in where wise men never go...”. Como a lei da ficha limpa só veio à luz quando a campanha eleitoral já estava em curso, vê-la já exigível em seus padrões restritivos naquelas eleições seria perverter a garantia legal de que a lei nova só poderá se aplicar a processos eleitorais ainda não iniciados, já com seu procedimento então corrente. Palavras tortuosas do ministro Ayres de Brito, no seu estilo flamboyant, tentavam esclarecer que condições de inexistência de condenações prévias não dizem vez a processo eleitoral, mas a requisitos básicos de candidatos, mas tal sofisma, aliado à dialética cansativa do julgador, não conseguiu prevalecer. Na verdade, até que todo o novo ordenamento seja aplicado sem afronta à Constituição, de modo sereno e sopesado, cabe ao eleitor, ilustrado pela divulgação da eventual ficha limpa, não votar em tais candidatos. Ao se demandar o necessário respeito a bases constitucionais não se está convalidando ou ratificando condutas ilícitas no passado de candidatos, mas se pautando pelo respeito a garantias básicas da cidadania, cujo afrontar pode trazer consequências terríveis em outras questões em que tal tendência, por desrespeito a situações já constituídas, já passadas, é sempre um recurso tirânico que o Príncipe pode utilizar quando menos se espera. De todo modo, o episódio do qual aqui cuidamos revela a face um tanto demagógica, um tanto exibicionista e muito despreparada de grande parte do Judiciário na sua faceta “lulista”, representado por julgadores como Ricardo Lewendovski, Joaquim Barbosa e Carmen Lúcia, que trataram da matéria de uma forma visivelmente voltada às grandes platéias,

Legislativo
céleres em arguir pontos moralizadores, em levantar vozes contra “poderosos” e diatribes semelhantes. Lembramos que a LC 164 veda candidatura, em certos casos, onde não há ainda trânsito em julgado da decisão condenatória sobre o candidato, vale dizer, onde ainda cabe recurso a respeito, e concordamos em que tal foi necessário, à vista do nosso interminável sistema recursal, aliado à morosidade legendária do poder judiciário. Mas, por isso mesmo, muito cuidado foi necessário quanto à vigência das novas regras, e um desses cuidados teve a ver com sua irretroatividade. O episódio, encerrado na sua fase judicial em uma apertada votação por maioria de um voto, refletiu assim esse caráter ciclotímico da nacionalidade, havia tantos anos inerte, estarrecida com tantos desvios de conduta, mas amortecida na capacidade de reação e, de repente, sôfrega e açodada na busca de um corretivo atropelado a princípios constitucionais. Mostrou ainda que certos julgadores, quase todos egressos da era Lula de indicações ao STF, não possuem o necessário distanciamento das infusões demagógicas, aproveitando o apreciar de temas tão relevantes para decidir mais de olho na plateia do que na justiça. Enfim, a “lei da ficha limpa é benéfica para o país, mas, para usarmos a expressão comum, não é nenhuma panacéia a resolver os endêmicos problemas de corrupção da política brasileira. Mais importante, sem dúvida, seria um zelo e controle mais estrito dos atos dos estatocratas, a tal transparência tão falada para o vazio, e também uma ação judicante muito mais presta e eficiente pelo mesmo poder judiciá-

Ministros do STF proclamaram à necessidade da aplicação das regras da LC 164 às eleições de outubro 2010.

rio, de sorte que os indiciados tenham seus julgamentos chegados ao fim em tempo pelo menos razoável, sem as inacreditáveis demoras claramente debitáveis ao emperramento, à lentidão, ao eterno apego a formalismos de nossos julgadores. Por um estranho problema sócioantropológico na nossa cultura genérica, no Brasil ninguém confessa, mesmo colhido em flagrante delituoso, o que já por si embarga e prejudica um deslinde mais rápido do evento. Mais que a sofreguidão exibida em ver aplicável a nova lei, os ministros que tanto apego parecem mostrar à luta pela moralidade poderiam atuar de modo mais discreto e efetivo na persecução criminal dos agentes públicos que incidirem em delitos li-

gados ao exercício desvioso de seu poder. Assim se combate o pernicioso hábito patrimonialista brasileiro que tanto tem atrasado o real crescimento do país. Ação direta, serena, concentrada, sem necessidade de um display de vaidades em elocubrações verbais de duvidosa consistência, como vimos nesse ridículo julgamento sobre efeitos das uniões “homoafetivas”. A lei da ficha limpa é meritória, mas outras leis há muito tempo existem fustigando a corrupção pública, e os senhores ministros podem e devem aplicar as mesmas em um exercício sério, educativo, da judicatura, dispensáveis as exibições demagógicas que pouco contribuem para o aperfeiçoamento das instituições políticas do país.
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Energia

Os desafios continuados da usina de Belo Monte
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Diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Engenheiro, consultor na área de energia e negócios.

Adriano Pires1 e Abel Holtz2

esmo com a determinada ação do governo para tornar realidade o projeto de Belo Monte, ação esta que se tornou voluntariosa e não levou em conta os impactos que podem causar aos demais empreendimentos amazônicos, o projeto custa a deslanchar. A decisão da Vale de substituir o pseudoautoprodutor trouxe um peso maior à composição da Nesa (EPE criada para tocar o projeto) e, se o IBAMA deixar, o projeto deverá iniciar as obras principais ainda este semestre. O que está em questão é, do ponto de vista ambiental e executivo, a ação emocional desprovida de bom senso. O projeto atrai emoções desde que se chamava Kararaô. E, mesmo tendo mudado de nome e sido reestudado, não deixou de causar calafrios em

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alguns e êxtase em outros. Além disso, a rejeição de ambientalistas e populações locais que se acham agredidas deverá causar obstruções ao bom curso de sua implantação, com custos adicionais imprevisíveis e, possivelmente, multas por atrasos. Cabe o registro de que, ao contrário do que ocorre na Europa, onde as ONGs contrárias ao projeto estão sediadas, a capacidade de geração brasileira precisa crescer a passos monumentais. Enquanto o nosso consumo de energia elétrica deve aumentar mais do que 5% ao ano, a taxa européia é da ordem de 2%. Esse baixo ritmo de crescimento possibilita aos europeus construírem usinas solares e eólicas para substituir usinas termelétricas e nucleares cuja operação aproxima-se do final da vida útil. É

muito importante atentar para este fato. Apesar de investir fortemente em programas de energias alternativas, os países europeus, se comparados ao Brasil, ainda estão engatinhando no uso de fontes renováveis. Na Alemanha, país sempre citado como exemplo do uso de fontes renováveis, apenas 10% da energia elétrica são produzidos por essas fontes, aí incluídas as hidrelétricas. Enquanto isso, no Brasil, as usinas hidrelétricas continuam produzindo mais de 90% da eletricidade gerada no país sem usufruírem de qualquer subsídio. Não podemos abrir mão disso, daí a importância das usinas do Madeira, de Belo Monte e de outras que deverão ser construídas na Amazônia. Além disso, os programas de energia renovável nos países de-

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Energia
senvolvidos têm por detrás grandes volumes de subsídios ou a obrigatoriedade de compra de energia dessas fontes por parte dos distribuidores de energia elétrica. Em ambos os casos, isso tem levado a aumentos significativos nas tarifas pagas pelos consumidores ou nos impostos pagos pela sociedade. A usina de Belo Monte será do tipo fio d’água e está sendo projetada para atender as limitações ambientais, e seu novo projeto contempla um reservatório de 516 km², considerados 134 quilômetros no Reservatório dos Canais e, dos 382 quilômetros restantes, 228 quilômetros no próprio leito do rio Xingu. Os dados apresentados ao Ibama indicam que Belo Monte terá 27 turbinas, sendo 20 Francis de 550 Mw cada, mais nove turbinas Bulbo com 25,9 Mw cada, com redução da capacidade de geração no período seco. Cabe reafirmar que a despeito de tudo que possa ser dito sobre a obra, a construção da usina de Belo Monte assegura a produção de uma energia limpa, aumenta de forma substancial a oferta de energia elétrica a preços competitivos per se e dá garantia de fornecimento de energia ao setor produtivo nacional num contexto de retomada do crescimento econômico. E este fato a Vale percebeu, e por isso entrou no projeto. O fato é que a construção de hidrelétricas em nosso País é um tema que tem motivado grandes embates entre governo e ambientalistas, Ministério Público e Advocacia Geral da União, índios ao lado de religiosos e Instituto Brasileiro de Recursos Renováveis, Empresa de Planejamento Energético e Tribunal de Contas da União, Agência Nacional de Energia Elétrica e Agencia Nacional de Águas, empresas públicas e empresas privadas, ONGs nacionais e internacionais. Associações, investidores, governo, consumidores, técnicos, jornalistas, cineastas, curiosos e pessoas comuns da sociedade têm lido, escrito e conversado sobre Belo Monte. A discussão gira em torno de custos, dificuldades de construção, agressões à floresta, aos silvícolas e às pessoas que habitam a região da hidrelétrica e a área de sua influência, inclusive onde serão implantadas as linhas de transmissão que ligarão a usina ao sistema interligado nacional. O fator de capacidade de Belo Monte é de aproximadamente 0,44, inferior à média das hidrelétricas existentes hoje, entre 0,50 e 0,60. No período seco da bacia do rio serão gerados cerca de 2.800 Mw médios, significando dizer que durante esse período os investidores estarão tendo que comprar de outras geradoras do sistema 1.600 Mw médios para atender seus compromissos nos contratos de venda de energia. Um custo adicional àqueles necessários ao investimento. É certo que a compra se fará pelo preço do MRE (Mecanismo de Realocação de Energia). Quando o rio estiver no período de cheias, a hidrelétrica estará operando com todas as suas máquinas gerando e entregando ao sistema quase o mesmo montante de Mw médios que estará autorizada a comercializar, recebendo pelo mesmo MRE uma receita que não impactará no equilíbrio econômico-financeiro do projeto. A visão idílica, ingênua que dá projeção midiática tem que ser revertida para que o país ofereça preços de energia elétrica competitivos, aproveitando sua vantagem comparativa vis-à-vis outros países dada pela construção de suas hidrelétricas. Assim, nosso governo deve interpretar a ação dos órgãos contrários ao nosso desenvolvimento com a abrangência que nos inquieta. É preciso não ser açodado e estruturar os projetos na Amazônia sem voluntarismo, sem abrir mão do direito legitimo e indelével de virmos a explorar nossos recursos naturais na Amazônia Brasileira de forma soberana e cuidadosa, pois sabemos que o futuro do País interessa precipuamente aos brasileiros e energia e meio ambiente são de nosso interesse e base para manutenção de nossa independência.
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A visão idílica, ingênua que dá projeção midiática tem que ser revertida para que o país ofereça preços de energia elétrica competitivos, aproveitando sua vantagem comparativa vis-à-vis outros países dada pela construção de suas hidrelétricas.

A exatidão dos elementos em discussão infelizmente só poderá ser conhecida quando o projeto vier a ser concluído, após ter percorrido uma verdadeira via crucis que se estende por mais de 35 anos, desde os estudos iniciais. Isso considerando que o leilão será realizado como previsto. Registre-se que a Eletrobras menciona que as vazões do Xingu, no trecho onde será construída a usina, têm uma média de 19.816 metros cúbicos de água por segundo nos meses de abril a setembro. A partir daí o fluxo cai para 1.065 metros cúbicos por segundo – uma redução de 94%.

Matéria de Capa

Capitalismo à brasileira
Marcel Domingos Solimeo
Economista do Instituto de Economia da Associação Comercial de São Paulo.

m uma economia de mercado, as decisões dos agentes econômicos são tomadas com base em suas expectativas quanto aos resultados de seus investimentos, os quais podem ser positivos ou negativos, pelo que o capital investido é denominado de “ capital de risco”. Se uma atividade considerada essencial não atrai o setor privado o governo realiza

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diretamente o investimento ou concede incentivos para que as empresas possam fazê-lo. Cabe à sociedade, por sua representação no Congresso, definir quais projetos ou atividades devem ser executadas diretamente pelo Estado ou podem receber incentivos para que o setor privado os execute, tendo em consideração critérios como prioridade,

relação custo/benefício e a forma mais eficiente do uso dos recursos. Com as PPP – Parceria Público Privada, que consistem em um contrato de prestação de serviços de médio e longo prazos, procura o governo incentivar o setor privado a financiar projetos de interesse social. Nem sempre, no entanto, os princípios da economia de mer-

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cado, com decisões empresariais baseadas em análise econômica, ou o interesse público, expresso na participação da sociedade através do Parlamento, são considerados. A decisão de construir o TAV – Trem de Alta Velocidade (o popular trem-bala) – foi apenas do Executivo, e as condições para a sua execução foram fixadas pela Medida Provisória Nº 511/10 que, embora aprovada pelo Congresso, não contou efetivamente com qualquer contribuição do Congresso, que se limitou a referendar a posição do Executivo. Assim, o BNDES vai garantir o financiamento de até R$20 bilhões ao projeto do “ trem-bala”, de um custo total previsto de R$ 33,1 bilhões, que seguramente será ultrapassado em muito. A taxa de juros de TJLP mais 1% ao ano claramente envolve subsídio a ser suportado pelo contribuinte. Mais absurdo do que o financiamento subsidiado do BNDES, a União ainda garante um subsídio de até R$5 bilhões para a empresa construtora, caso a demanda efetiva não atinja a previsão que serviu de base ao cálculo econômico do projeto. Seguramente, o subsídio será necessário, porque os estudos de viabilidade econômica do projeto não parecem dar segurança ao investimento. Assim, tudo indica que, em condições normais, os investidores não se interessariam pelo projeto, por não considerá-lo economicamente viável. Com a garantia da MP 511, no entanto, essa análise deixa de ser fundamental para a decisão, porque uma possível, e bastante provável, demanda abaixo do previsto no projeto será coberta pelo Tesouro. Perde-se, assim, um parâmetro relevante para a avaliação da rentabilidade da obra, e transfere-se ao contribuinte um risco que deveria ser do investidor. O subsídio da taxa de juros e a garantia governamental talvez pudessem se justificar em um projeto altamente prioritário e de elevado benefício social. Considerando-se, no entanto, as deficiências na infraestrutura e as carências na área social, parece difícil aceitar que uma obra faraônica como essa seja prioritária. Além disso, no caso do TAV, no entanto, não parece haver justifiEsse exemplo, infelizmente, não é o único de intervenção do governo que provoca distorções que reduzem a eficiência da economia. Quando a Companhia Vale do Rio Doce, que era uma empresa estatal ineficiente, foi privatizada, houve uma mobilização contrária tanto da parte do PT como dos sindicatos. Essa reação não se limitou aos protestos verbais, mas atingiu, em muitas oportunidades, uma violência descabida. Atualmente a Vale é a segunda mineradora do mundo, uma empresa altamente rentável e que dá grande contribuição ao saldo da balança comercial. Suas ações ganharam muito valor na Bolsa, e seus resultados têm sido muito satisfatórios para os acionistas. Como empresa de capital aberto, apresenta a transparência exigida pela CVM e pelo mercado. Contribui de forma importante para o Tesouro com o pagamento de impostos, e para a economia com a geração de empregos e renda. O executivo Roger Agnelli mostrou-se bastante competente na gestão da empresa, tendo em vista o interesse dos acionistas, entre os quais se encontram grandes grupos empresariais e fundos de pensão, mas, também, milhares de pequenos investidores. Se foi eficiente como administrador, Agnelli não se mostrou igualmente hábil do ponto de vista político, ao contrariar “os donos do Poder”, que pretendiam impor diretrizes para a empresa. Assim, Agnelli foi substituído, e a Vale já começa a se enquadrar na orientação do governo, decidindo participar do Consórcio que vai construir a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, substituindo a Gaia, empresa do Grupo Bertin, que desistiu por enfrentar dificuldades financeiras. A ação governamental na substituição do presidente da empresa,
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O executivo Roger Agnelli mostrou-se bastante competente na gestão da empresa, tendo em vista o interesse dos acionistas, entre os quais se encontram grandes grupos empresariais e fundos de pensão, mas, também, milhares de pequenos investidores.

cativa para subsídio, ou mesmo para o financiamento de um projeto de custo extremamente elevado, quando comparado ao benefício. A omissão do Congresso e da sociedade no debate de assunto tão importante, por suas repercussões econômicas e sociais, deixou que a decisão de transferir para o contribuinte o risco do projeto fosse tomada unilateralmente pelo governo. Trata-se de um precedente que contraria normas básicas da gestão pública, ao admitir a priori a possibilidade de subsídio e jogar para o Tesouro, leia-se contribuinte, o custo da insuficiência de demanda ou o da inadimplência.

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O BNDES vai garantir o financiamento de até R$20 bilhões ao projeto do “ trem-bala”, de um custo total previsto de R$ 33,1 bilhões, que seguramente será ultrapassado.

que é de capital aberto e sujeita à governança coorporativa, representou uma intervenção que contrariou as normas da CVM, a que estão sujeitas as companhias cotadas em Bolsa, e provocou queda no valor das ações, com prejuízo aos acionistas minoritários. Mais do que a ação do governo na administração e na gestão da Vale, o que preocupa é a posição do Ministro Mantega para justificar essa intervenção. Segundo o Ministro, o ex-presidente Lula ficou aborrecido com decisões da Companhia mas, como democrata, não retaliou a empresa. “Podia ter aumentado impostos, mas não fez nada disso”. Prosseguiu o Ministro afirmando que o governo tem o direito de intervir na Vale porque não apenas o BNDES participa do capital da empresa, como também o Fundo de Pensão. Esse Fundo pertence aos funcionários do Banco do Brasil, e serve para garantir a aposentadoria dos mesmos. Como, no entanto, ele é administrado pelos dirigentes sindicais, que fazem parte do grupo dos “donos do Poder”, nada mais natural para o Ministro do que o governo retaliar ou intervir na empresa. Esse parece ser o pensamento predominante
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na área governamental, o que justifica a ação intervencionista cada vez mais ampla. Se, no passado, petistas e sindicalistas se opunham violentamente à privatização, após chegarem ao poder parecem ter mudado não de opinião, mas de estratégia. Em vez de continuar questionando a privatização, decidiram se beneficiar financeira e politicamente das empresas privatizadas, ocupando diretorias e conselhos. Além disso, como, regra geral, tais empresas atendem às diretrizes do governo, concluíram que não era necessária a propriedade estatal da empresa para que ela fosse utilizada do ponto de vista político ou econômico. Quando alguma empresa não segue as diretrizes, ou objetivos, dos “donos do Poder”, o governo usa sua força, que é imensa, para “enquadrar” seus dirigentes. Além da influência nas privatizadas, o governo passou a ter grande influência em empresas privadas, graças ao monopólio dos recursos de longo prazo que detém, através do BNDES e dos fundos de pensão das estatais. Assim, passou a influenciar decisões do setor privado esco-

lhendo vencedores, forçando fusões, “estimulando” a formação de consórcios para disputarem obras públicas e expandindo a participação estatal no crédito, inclusive com parcerias bastante discutíveis com bancos privados. Exemplo bastante expressivo ocorreu no setor frigorífico. A pretexto de estimular o surgimento de grandes grupos brasileiros, capazes de competir no exterior, o BNDES deu suporte financeiro a dois grupos, mediante debêntures e participações acionárias, inclusive para a compra de empresas no exterior. Estudo da FGV mostrou que, ao contrário do que se poderia esperar dessa intervenção, nem pecuaristas, nem consumidores foram beneficiados pela concentração no setor patrocinada pelo Banco. Os critérios de escolha desses dois grupos, bem como em outros casos, nunca foram bem explicados, havendo muitas dúvidas, por exemplo, nas intervenções no setor de telefonia, na escolha dos beneficiados. A Petrobrás exerce um poder quase absoluto em diversas atividades ligadas ao petróleo, não apenas por deter o monopólio de algumas áreas, mas por privilégios que lhe têm sido concedidos e,

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também, por deter a propriedade dos gasodutos para transporte de óleo e de gás, além de ser fornecedora quase única de matériasprimas para a indústria petroquímica. Não bastasse isso, o Ministro de Minas e Energia anunciou que a Petrobras vai aumentar sua participação na produção de etanol para 15% do mercado. Com nova MP (sempre medida provisória) o álcool passa a ser considerado como combustível e sujeito ao controle da Agência Nacional de Petróleo. Com isso, a Agência terá poder para regular os estoques e exercer mais controle sobre o setor sucroalcooleiro. Com isso aumentou o risco e a incerteza de um setor que precisa de segurança para os investimentos, que são de longo prazo, pois a intervenção da ANP pode afetar não apenas os preços como vir a estabelecer impostos sobre a exportação, quando houver carência no mercado interno, como já se cogitou recentemente. A Empresa Brasileira de Correios, que foi marcada por escândalos em gestões anteriores, disputada politicamente para sua utilização como “cabide” para indicações políticas e com uma desorganização que manchou a imagem de um serviço eficiente no passado, foi agora “vitaminada” para o exercício de outras funções, antes mesmo de recuperar a eficiência administrativa. O governo editou Medida Provisória (cada vez o Congresso participa menos das decisões, servindo apenas para homologar as medidas do executivo) ampliando o campo de atuação da empresa, que agora pode atuar em logística, serviços financeiros e digitais, telecomunicação e ter subsidiárias no exterior. Não bastasse tudo isso, os Correios poderão participar como sócios do TAV, talvez para permitir viabilizar o projeto do famoso “trem-bala”. Pode-se supor que a intervenção direta do Estado na economia talvez seja maior atualmente do que quando este detinha muitas empresas estatais que foram privatizadas. Lembra muito o período do governo Geisel, com o famoso tripé “empresas estatais, estrangeiras e privadas” que deveriam conduzir o país ao desenvolvimento acelerado, sendo que tanto no passaplo, vem interferindo não apenas na forma de comercialização de remédios como também pretende limitar a decisão dos médicos de prescreverem certos medicamentos e ditar normas para a publicidade de alguns produtos, limitando a liberdade de empresas e cidadãos em nome da proteção do consumidor. Some-se a isso a tributação excessiva, que chega a mais de 50% do faturamento em algumas empresas, e o poder absoluto do fisco sobre os contribuintes pessoas jurídicas, que são obrigados a fazer a escrituração diretamente no computador da Receita, sem qualquer respeito ao segredo comercial. O comércio em geral se depara quase diariamente com medidas ou propostas, sejam do poder municipal, do estadual ou do federal, que criam obrigações e limitam sua liberdade de atuação, a pretexto de defender o consumidor, mas impondo custos adicionais que acabarão sendo pagos por eles. Em um quadro como esse pode-se questionar até que ponto o Brasil é uma economia de livre-mercado ou se pode ser considerado um modelo de “capitalismo à brasileira”, parecido com o modelo chinês, em que a propriedade dos meios de produção pode estar nas mãos do setor privado, mas o poder de decisão das empresas depende do consentimento do governo. É preciso discutir a eficiência desse modelo, pois as experiências do passado mostraram que quanto mais aumenta a ação direta do Estado no campo empresarial menos eficiente se torna a economia. Da mesma forma, o excesso de tributação, de regulamentação e intervenção retira a flexibilidade operacional das empresas, restringe a criatividade dos empresários e desestimula o espírito empreendedor.

Em um quadro como esse pode-se questionar até que ponto o Brasil é uma economia de livre-mercado ou se pode ser considerado um modelo de “capitalismo à brasileira”, parecido com o modelo chinês, em que a propriedade dos meios de produção pode estar nas mãos do setor privado, mas o poder de decisão das empresas depende do consentimento do governo.

do como agora parte das grandes “empresas privadas” depende do governo. Atualmente essa dependência se refere a recursos subsidiados do BNDES e a investimentos dos fundos de pensão das estatais, uma vez que o país não dispõe de fontes de recursos de longo prazo para financiar os investimentos privados. Devemos considerar ainda os incentivos fiscais, para alguns setores, escolhidos muitas vezes em função de sua capacidade de pressão ou contatos, e as intervenções via agências reguladoras, em outros. A ANVISA, por exem-

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Especial
Uma visão liberal do fato

redução acentuada do índice de criminalidade no Rio de Janeiro se deve, sem dúvida, às intervenções no Morro do Cruzeiro e no chamado Complexo do Alemão. Estas ações policiais e militares sucessivas guardaram entre si a semelhança da rapidez e da confidencialidade. Acionado pelo Comandante da Marinha, por volta das 23 horas da noite que antecedeu a invasão do Morro do Cruzeiro, o Corpo de Fuzileiros Navais estruturou em completo sigilo uma invasão vitoriosa que surpreendeu a bandidagem que vinha sendo, até aquele momento, sempre avisada por agentes das próprias polícias civil e militar sobre as incursões planejadas. Não houve tempo hábil para os “agentes” informarem, aos bandidos encastelados, sobre as ações que seriam conduzidas pelo Corpo de Fuzileiros Navais associado ao BOPE. O Rio vivia uma temporada de incêndios diários de ônibus que atemorizava os cariocas. A invasão inesperada e o uso de blindagem do corpo de fuzileiros desmantelaram a resistência dos bandidos que foram televisionados em desatinada fuga. Os resultados principais se manifestaram na apreensão recorde de 40 toneladas de cocaína e maconha, sem perda de vidas de moradores locais.

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que houve (e está havendo) de pior no período são as consequências da denúncia sobre o valor do patrimônio do Ministro Palocci, da Casa Civil. Em 3 anos, seu patrimônio líquido cresceu cerca de 20 vezes. Não se trata de nenhuma herança ou doação recebida por ele. Suas declarações sobre esse enorme ganho patrimonial são, antes de tudo, ofensivas à inteligência do brasileiro comum: serviços prestados, com remuneração baseada em taxa de êxito. Lamentavelmente o Ministro se nega a informar os nomes e os valores dos pagamentos de seus clientes, baseado em uma hipotética cláusula de confidencialidade. Isto permite uma vasta gama de suspeições, especialmente no que respeita à qualificação dos êxitos. Hoje, até os médicos são obrigados a revelar os nomes dos seus pacientes à Receita Federal. É inadmissível que um ministro da importância de Palocci não entenda que, tendo sido Ministro da Fazenda – até a quebra do sigilo bancário de Francenildo – poderoso e influente parlamentar e ainda relevante figura do PT, demore tanto a arranjar um “álibi”. A Casa Civil, cuja notoriedade, no mau sentido, se acentua com a “lobbista” Erenice Guerra, está na berlinda. A demora em informar é detrimental para Palocci. Lulla já foi chamado para coordenar os esforços para blindar Palocci. É um especialista.

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procedimento mais feio e inadequado do período foi o conjunto de episódios que marcou a demissão de Roger Agnelli da presidência da Vale. Presidindo a empresa desde sua privatização formal, há 10 anos, a performance de Agnelli pode ser medida de várias maneiras: lucro, distribuição de dividendos, impostos recolhidos, ganhos de produtividade. Mas, nada mede melhor do que transformar a Vale no segundo maior minerador do mundo. E por que Agnelli foi obrigado a renunciar? A resposta é tão simples quanto absurda: ele saiu porque em seu comportamento de defender acionistas não viu nenhuma prioridade em instalar uma empresa siderúrgica no Pará, sabendo-se que existe um excesso de oferta no setor de 550 milhões de t/ano. Ora, a siderúrgica do Pará fazia parte da campanha eleitoral da então governadora Ana Julia Carepa, que acabou derrotada em sua campanha para a reeleição. Lulla não perdoou Agnelli por frustrar seu projeto político, que incluía a siderúrgica. O capitalismo de Estado está cada vez mais manifesto em todos os Conselhos de Administração de empresas que têm entre seus acionistas fundos privados (?) de pensão de empresas estatais. A primeira decisão do substituto de Agnelli é construir a siderúrgica do Pará. Chega?

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Economia

A evolução recente da inflação brasileira
Antonio Carlos Pôrto Gonçalves
Professor da Fundação Getulio Vargas

inflação no Brasil voltou a incomodar e preocupar a população, pois vem ocorrendo um aumento de seu percentual. O Gráfico 1 mostra a inflação brasileira medida pelo IPCA nos doze meses anteriores ao mês em questão. Este exame dos dados passados sugere que realmente há um recrudescimento da taxa de inflação anual. No entanto, o que mais preocupa são as projeções futuras. Por

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exemplo, se anualizarmos a taxa de inflação medida pelo IPCA no período janeiro a abril de 2009, o número obtido será 5,25% a.a. Se fizermos o mesmo com o período de janeiro a abril de 2010, o número será 8,15% a.a. E se fizermos a anualização baseada no ritmo de aumento de preços de janeiro a abril de 2011, a taxa anual será de 10,0% a.a., percentual substancialmente maior do que o dos anos anteriores.

Enfim, apesar das negativas das autoridades governamentais, é indubitável que há um aumento da taxa de inflação. A pergunta que se coloca imediatamente é por que isso vem ocorrendo. O Brasil é um país que conseguiu dominar a inflação crônica que o assolou durante muitos anos, chegando a percentuais de quase 90% ao mês no final da década de 1980. O Gráfico 2 mostra este extraordinário desempenho anti-

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Economia
Gráfico 1: Taxa de variação em 12 meses (%) ção no Brasil está novamente em alta, havendo risco de reacender as expectativas inflacionárias e os processos de correção monetária e de indexação, os quais realimentam a inflação e tornam difícil debelá-la. Porque esse caso de sucesso brasileiro pode então se frustrar? Provavelmente a razão fundamental é o equívoco econômico sério de considerar que a inflação e o crescimento real da economia sejam objetivos alternativos, mutuamente exclusivos: ou bem se tem crescimento econômico ou se combate a inflação, segundo essa visão equivocada. Tal equívoco desconhece os avanços na teoria econômica da inflação ocorridos nas últimas décadas do século passado, e que estão associados a dois prêmios Nobel concedidos aos líderes desses avanços: Milton Friedman e Edmund Phelps. Segundo essa teoria premiada e testada, o crescimento do PIB real de uma economia só pode ocorrer sustentavelmente se houver aumento do investimento e/ou da produtividade, levando à expansão da capacidade de produ-

Fonte: IBGE

inflacionário; por mais de quinze anos a inflação brasileira tornouse praticamente irrisória em comparação com o que vinha acontecendo anteriormente. A redução permanente da inflação para níveis “civilizados”, deve ser, sem dúvida, um motivo de orgulho e satisfação para os brasileiros. Orgulho e satisfação, e também de confiança na capacidade do país de resolver seus problemas. Muito provavelmente o bom momento atual da economia brasileira se relaciona à maior confiança no país por parte de nossa própria população e do resto do mundo, que aqui vem investir. Ressalte-se que outros países da América Latina, em particular a Argentina, após debelarem com sucesso suas elevadas taxas de inflação seguiram políticas econômicas que acarretaram a volta da alta de preços e da instabilidade econômica (talvez devido às mudanças dos partidos no governo). No caso brasileiro, nos últimos dezesseis anos houve uma mudança democrática de governo, do PSDB para o PT (sempre em aliança com o PMDB). Não

obstante a taxa de inflação permaneceu controlada; e mais importante ainda, os elementos fundamentais para esse controle, como o resultado primário superavitário do orçamento público e a ação independente do Banco Central para obter a meta de inflação, continuaram, mesmo após a mudança dos partidos no governo. Mas a taxa de infla-

Gráfico 2: Taxa de variação mensal do IPCA: 1990/2009 (média anual)

Fonte: IBGE

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Economia
ção instalada no país. A mera adoção de políticas fiscais e monetárias expansivas, com o objetivo de fomentar a demanda agregada, não gera necessariamente mais investimento e aumentos da produtividade. A demanda mais alta pode induzir as empresas a investirem mais; no entanto tal efeito, se ocorrer em escala suficiente, só será sentido alguns anos após, quando os investimentos maturarem. Além do mais a política fiscal expansiva atual do governo brasileiro se baseia em aumento dos gastos de consumo do governo (despesas com o custeio da máquina pública), e não em aumento dos investimentos. Estes sim, poderiam aumentar a capacidade de produção do país. Mas o que se verifica é a continuidade dos gargalos infraestruturais do país, sobretudo no setor de transporte (aeroportos com capacidade esgotada, ferrovias e hidrovias com atraso na construção, rodovias congestionadas, e assim por diante). É possível que haja também dificuldades sérias na oferta de energia, caso a economia continue a se expandir no ritmo dos quatro primeiros meses de 2011. Resumindo, a curto prazo um nível de demanda agregada excessivo, agindo sobre a capacidade de produção essencialmente fixa (estamos no curto prazo), vai levar à superutilização dessa capacidade e ao aumento dos preços. Pode ocorrer um aumento real do PIB a curto prazo, mas não é sustentável. É “um voo de galinha”. Pior que isso: quando ocorre a volta ao nível normal de produção, a economia volta com inflação, com expectativas de inflação, com indexação, etc. O Gráfico 3 mostra a evolução recente do uso da capacidade de produção no Brasil. Como se pode observar, no momento as Gráfico 3: Nível de utilização da capacidade instalada na indústria (%, dessazonalizado)

Fonte: CNI

empresas no páís estão funcionando a um nível de capacidade historicamente elevado. É preciso refrear a expansão da demanda agregada para não resultar na aceleração da inflação brasileira. É possível entender que o governo brasileiro não tenha refreado a demanda em 2010, ano de eleições presidenciais, e com segundo turno. Mas porque não o faz em 2011, primeiro ano de mandato do novo governo, período normalmente adequado para que (maquiavelicamente) se façam os males necessários? Certamente é difícil de entender. O que está sendo feito atualmente é uma espécie de maquiagem, ou seja, muda-se o critério para a medição do déficit público como se a mudança no critério fosse capaz de conter a demanda; procura-se tornar o índice de preços mais bem comportado, reduzindo o imposto e o reajuste dos preços dos combustíveis; muda-se o direcionamento do crédito mas não a oferta total de moeda, e

assim por diante. Na verdade esta maquiagem não é apenas inócua como as maquiagens comuns. É pior, pois a redução de imposto corresponde de fato a uma política fiscal expansiva! O poder de compra é deixado na mão do público, e a demanda agregada pode aumentar! Reduzindo o preço do combustível ao consumidor o índice de preços pode diminuir a curtíssimo prazo, mas aumentará logo a seguir devido à expansão da demanda consequente à redução do imposto. Em síntese, é preciso que o Banco Central do Brasil atue firmemente para colocar de novo a inflação na meta, cumprindo o “contrato” implícito que fez com o governo e com a população do país e mantendo sua credibilidade. Se tal atitude implicar uma taxa de crescimento real do PIB menor em 2011, certamente haverá ganhos nos percentuais de crescimento nos anos subsequentes, e mais do que compensadores, pois a inflação continuará sob controle.

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Liberalismo

As causas do debilitamento do liberalismo no século XX
Economista, com Mestrado pela Universidade de Chicago (04.08.1922 - 06.01.2004)

Og Leme

comum, no final das minhas palestras sobre liberalismo e as virtudes da ordem liberal, que alguém me pergunte: — “Muito bem, então por que a ordem liberal do século XIX, que perdurou até a 1ª Guerra Mundial, foi progressivamente substituída, em graus diferentes e em praticamente todos os países, por diferentes tipos de estatismo? Se o liberalismo era tão bom, como se explica sua substituição pelo Estado-Leviatã?” Foram vários os motivos, conforme passo a relalar. O primeiro deles ocorreu – e ainda persiste em boa dose –no campo das idéias, conforme observação pertinente de Hayek, e

É

se refere à prática de um racionalismo exacerbado. De acordo com ela, o que não pode ser explicado racionalmente ou não decorre da ação inteligente propositada do homem não merece crédito. Como a ordem liberal se fundamenta em considerável medida em instituições e práticas sociais espontâneas originárias da ação humana não deliberada – como são a linguagem, o dinheiro, o mercado, o direito consuetudinário, os usos, costumes e tradições – ela passou a ser questionada e substituída por equivalentes sucedâneos sintéticos, forjados propositadamente nas pranchetas dos engenheiros-sociais. O

Esperanto foi proposto como idioma universal, e os nossos imortais da Academia Brasileira de Letras não se cansam de propor regras gramaticais que engessem definitivamente o nosso belo e mutante idioma. São ridículos os acordos Brasil-Portugal sobre normatização e controle da nossa escrita e da nossa fala, cada vez menos dispostas a aceitar as ideias com que são ameaçadas por esses puristas ingênuos. A economia de mercado tem sofrido mais, muitíssimo mais, do que a linguagem espontânea que falamos e modificamos no nosso cotidiano. Durante o século XX, várias formas e graus de planeja-

O estado de guerra é uma situação excepcional que coloca direitos individuais de quarentena e privilegia os propósitos do Estado.

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mento econômico tentaram ocupar o lugar até então exercido por agentes individuais livres, motivados por interesses pessoais e guiados pelos preços relativos dos bens e serviços. E o mais espantoso é que isso tenha ocorrido mesmo após Mises e Hayek terem demonstrado, nos anos 20, a impossibilidade do cálculo econômico numa economia centralmente planejada. Em outras palavras, os dois grandes economistas austríacos previram o fracasso inevitável de economias conduzidas por autoridades estatais carentes de preços de mercado para guiálas. Acertaram em todos os casos onde esse tipo de intervenção econômica governamental teve lugar. O liberalismo floresceu muito mais nos países onde prevalecia o direito consuetudinário do que em países ligados ao positivismo jurídico, como ocorre com o Brasil. O direito espontâneo consuetudinário é gestado, na realidade, pela livre interação dos membros de uma sociedade, através do tempo; ele emerge dos usos, costumes e tradições, e são descobertos – e não criados – pelos juízes e legisladores que os transformam em leis e os sistematizam. Contrariamente, o direito positivo acabou se convertendo na prática viciosa de considerar lei aquilo que as assembléias legislativas produzem e é sancionado pelo presidente do país. Os leitores interessados no assunto podem ler o excelente livro de Bruno Leoni – jurista italiano já falecido – Law and Freedom – edição do Liberty Fund, Indianápolis, USA. O destino do dinheiro não foi mais feliz. Ele foi criado para diminuir aquilo que os economistas chamam de custos de transação. Ele serve de meio de troca, unidade de conta e de meio de entesouramento. Sua vigência depende sobretudo de crédito, isto é, ele vige enquanto os usuários acreditarem nele, de forma que ele é aceito corriqueiramente nas transações diárias no mercado. O dinheiro pode ter credibilidade sem ter sido criado pelo governo; a história se encarrega de mostrar a viabilidade do dinheiro “privado”. Por outro lado, o fato de ser fruto do monopólio estatal não assegura a sua credibilidade. Existe hoje um número crescente de economistas liberais simpatizantes da privatização do dinheiro. Os leitores interessados no problema podem ler o livro de Hayek, A Privatização do Dinheiro, editado pelo Instituto Liberal do Rio de Janeiro. Em síntese, a crítica liberal indaga: “Por que manter monopólio estatal do suprimento de dinheiro?” Procurei dar aos leitores alguns exemplos de perversão no uso do racionalismo. Pretendo, a seguir, mostrar-lhes a malignidade de outro tipo de deformação intelectual prevalescente no século XX, o holismo-animista, complemento do racionalismo exacerbado, formando com ele uma dupla letal. O holismo-animista trata os membros individuais de uma comuni-

F A. Hayek .

Ludwig von Mises

dade como se fossem um agregado, um todo. Pior ainda, um todo com atributos humanos: memória, honra, propósitos, etc. No holismo-animista os indivíduos são substituídos por uma entidade abstrata – o país – que adquire concretude e virtudes humanas, entre as quais a capacidade de ter propósitos, próprios e mais importantes do que os dos membros individuais da comunidade. Resulta daí uma sociedade, parecida com a dos animais gregários, na qual os cidadãos estão a serviço do país e, portanto, diferentemente de uma ordem social onde os governantes estejam a serviço dos cidadãos. Em síntese, o holismo-animista gera sociedades não liberais, nas quais os cidadãos são sufocados pelos interesses do “país”: Deutshland Über Alles! A crítica liberal alerta contra os fantasmas holistasanimistas que tanto sofrimento causaram durante o século XX. Mas não foram apenas o exagero racionalista e o surrealismo holista-animista que compromeJUN/JUL/AGO - 2011 - Nº 55 24

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teram a prática liberal no século XX. Houve pelo menos três fenômenos históricos que igualmente alimentaram o estatismo: as guerras, as crises econômicas e o ideal do desenvolvimento econômico. Bem, “guerra é guerra”, como clamava aquela velhinha de uma anedota bem conhecida, reivindicando seus “direitos”! O estado de guerra é uma situação excepcional que coloca direitos individuais de quarentena e privilegia os propósitos do Estado. É o caldo de cultura, o ágar-ágar do holismo-animista, que faz crescer o governo à custa da liberdade dos cidadãos. Não há ordem liberal que resista a uma situação de guerra. E o século XX teve muitas, de várias escalas e duração, diferentes lugares e os mais variados motivos. Como guerra e liberalismo não são compatíveis, sobrou o pior, no século XX, para o liberalismo. Além das guerras do século XX, houve a Grande Depressão de 1929 para conspirar contra o liberalismo. A idéia subversiva – o adjetivo me pareceu apropriado – que surgiu na chamada “Crise dos Anos 30” foi a de que o mercado, deixado livre, acabava criando sua própria ruína. Assim sendo, a ação deliberada e racional das autoridades era reclamada para disciplinar o mercado, evitando as suas impropriedades. O mercado falhava devido, em parte, à falta de poderes do FRS (Federal Reserve System), o banco central americano, para enfrentar os ciclos econômicos. Além de uma suposta falha de mercado, associada à suposta falta de poderes por parte do FRS que conjuntamente responderiam pela Crise de 29, criou-se a ideia para sair da crise se fazia necessária uma ação estatal mais enérgica no mercado, para reanimar a debilitada demanda agregada. A solução seria o aumento dos gastos públicos, ideia Keynesiana assimilada pelo Presidente RooJUN/JUL/AGO - 2011 - Nº 55 25

sevelt e que serviu de fundamento de política econômica para o New Deal. (Sobre o assunto recomendado a leitura do capítulo sobre a grande depressão – Free to Choose – de Milton Friedman. Foi exatamente em meados dos anos 30 que surgiu o que hoje se conhece como macroeconomia, de inspiração Keynesiana, formulada na base de re-

A evidência empírica disponível é clara: a melhoria das condições materiais de vida dos povos depende da existência da liberdade, especialmente da liberdade econômica. Esta, por sua vez, depende de instituições que tornem eficazes os direitos humanos, especialmente a liberdade, os direitos de propriedade e a busca individual da felicidade.

lações funcionais entre grandes agregados, consumo (C), investimento (I), poupança (S) e renda nacional (Y). Como esses agregados são, conforme o nome sugere, somas de consumo, investimentos e poupanças individuais, surge o problema de saber quem seria o sujeito da ação. Não é difícil concluir que em matéria de política econômica seria o governo, uma conclusão inteiramente compatível com a ideia do holismo-animista que fundamenta as políticas anticíclicas dominantes no século XX. No campo econômico houve outro fenômeno de enorme im-

portância na expansão do estatismo: a busca deliberada do desenvolvimento econômico. Para os liberais, o processo econômico gerador de prosperidade material decorre da livre ação dos agentes econômicos; é um subproduto espontâneo, não deliberado da busca, pelos agentes individuais, de seus próprios interesses particulares. Essa ideia do caráter não propositado do desenvolvimento econômico está exposta no livro A Riqueza da Nações (1776), do escocês Adam Smith. Durante o século XX, especialmente após a II Guerra Mundial e da experiência soviética em planejamento econômico, proliferaram os esforços dos economistas para analisar e entender o fenômeno da prosperidade. Simultaneamente, acumularam-se progressivamente as tentativas de criação de instrumentos “técnicos” para a ação deliberada do governo na geração e na condução do desenvolvimento econômico, desde matrizes de insumo-produto a modelos matemáticos extremamente sofisticados de planejamento econômico. Na realidade, tratou-se de enorme desperdício de tempo, talento e dinheiro: a história se encarregou de mostrar que Adam Smith estava certo: a riqueza das nações decorre da ação individual autônoma num ambiente social respeitador dos direitos de propriedade e dos contratos livremente firmados entre cidadãos livres. A evidência empírica disponível é clara: a melhoria das condições materiais de vida dos povos depende da existência da liberdade, especialmente da liberdade econômica. Esta, por sua vez, depende de instituições que tornem eficazes os direitos humanos, especialmente a liberdade, os direitos de propriedade e a busca individual da felicidade. Essas instituições são o Estado de direito e a economia de livre mercado.

Livros

Uma sociedade infantilizada
Resenha do livro O Estado Babá, de David Harsanyi. Ed. Litteris, 2011. “Se salvar vidas é o único motivo para termos leis, nunca teremos leis suficientes.” (David Harsanyi)

uando perdemos nosso direito de sermos preguiçosos, não saudáveis ou politicamente incorretos? Essa é a pergunta que David Harsanyi faz em seu livro “O Estado Babá”, que mostra com inúmeros exemplos como os americanos estão cada vez mais trocando liberdade individual por controle estatal. A tirania das boas intenções costuma ser a mais perigosa de todas, pois os “bons samaritanos” jamais descansam em sua nobre missão de cuidar dos outros. Liberdade pressupõe responsabilidade, assim como liberdade de escolher tolices. Imbuídos de uma arrogância paternalista, os babás não aceitam isso, e partem para suas ações salvadoras: “Algo deve ser feito”, eis a reação dos babás diante de atitudes que não aprovam, significando sempre mais intromissão estatal em nossas vidas. O grau de chatice dos babás chegou a um patamar insuportável. Como bem coloca o autor: “Para esses intrometidos, a utopia é um mundo sem fumantes, sem gordura, onde o álcool é bebido apenas com moderação, o McDonald’s vende McNuggets de tofu com molho de baixa caloria e os seios nus de uma estrela pop são dignos de uma sessão no Congresso e de histeria em massa”. O Estado babá ocorre quando “o governo assume um hiperinteresse em microadministrar o bem-estar dos cidadãos”. Mas o governo vai além de seu papel quando tenta nos proteger de nós mesmos. Uma vez que esta

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porteira é aberta, o céu é o limite para os babás, que pretendem eliminar todo comportamento “prejudicial” ou “irracional” da face da Terra. A imprensa, com inclinação para manchetes aterrorizantes, joga mais lenha na fogueira, ajudando a criar um ambiente de pânico propício às intervenções dos babás. O dogma compartilhado pelos babás é que se meter na vida alheia por meio das leis é a forma mais rápida de criar uma sociedade superior. O bom senso para determinar a fronteira legítima dessa intervenção se perdeu faz tempo. Os “guardiões do estômago”, por exemplo, criaram uma verdadeira “milícia alimentar” para tentar barrar do cardápio os itens prejudiciais à saúde. Mas, se podemos proibir um ingrediente que não é saudável, o que impede o governo de proibir muitos ou todos eles? Para sustentar suas medidas estúpidas, os babás não se importam em apelar para a tortura dos números. Exames com ratos de laboratório “provam” que vários alimentos podem matar, ignoran-

do apenas que a quantidade ingerida pelos ratinhos seria equivalente ao jantar que um gigante consideraria exagerado. Na verdade, até a água pode matar, se consumida em quantidade excessiva. Entre o remédio e o veneno, muitas vezes está somente a dosagem. Mas nada disso incomoda os babás. Eles precisam salvar vidas! O terrorismo é constante: o açúcar é um veneno, a gordura e a fritura são armas letais, o cigarro é morte certa, até para fumantes passivos. Não obstante as mentiras e exageros dessas pesquisas, resta perguntar: por que cada indivíduo não deve ser livre para escolher como viver, ainda que sua escolha nos pareça destrutiva? A busca pela “saúde perfeita” é algo que nos remete ao nazismo. Sociedades livres devem se preocupar em garantir a liberdade de escolha. Babás são presunçosos, e acreditam que sabem melhor que os outros como a vida deve ser vivida. Eles partem da premissa arrogante de que conhecem as escolhas “certas”. São moralistas autoritários, que desejam impor seu estilo de vida aos demais. Viver é assumir riscos, mas os covardes babás querem uma vida totalmente segura (e sem graça), e pior, querem obrigar os outros a desejar o mesmo. Tudo que os liberais pedem é: deixem-nos em paz! Que cada um possa viver de acordo com suas próprias escolhas. Afinal de contas, até o fumo é muito mais saudável que o fascismo.
por Rodrigo Constantino Economista e escritor

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