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Automóvel e hidrogênio

juntos pelo meio-ambiente


         
                                                    
       

  
                                   

Por Romeu Motta e Vicente Sarmento

O automóvel sempre foi visto como um dos principais poluentes mundiais, afinal, foi ele quem dissemi-
nou o uso do petróleo tal qual o conhecemos hoje, fazendo deste material a principal fonte de energia
combustível no mundo, mercadoria de valor no mercado internacional e motivo de muitas guerras,
mesmo que de maneira dissimulada.

A queima do petróleo libera, dentre outros gases, dióxido de carbono (CO2), um dos principais causa-
dores do efeito estufa e reconhecidamente cancerígeno, principalmente nas grandes cidades. Por se
tratar de um recurso mineral, não renovável, fica à mercê de especulação, fazendo seu preço variar de
acordo com interesses politico-econômicos. Sua extração é realizada de duas formas: em solo ou em
mares, ambas com prejuízos ao meio ambiente. Em solo, a área de extração necessita de amplo espaço,
normalmente alcançado através de desmatamentos, causando desertificação na maioria das vezes.
Nos mares, vazamentos e derramamentos de óleo têm ocorrido freqüentemente fruto de problemas
diversos com plataformas, poluindo águas e causando diversas mortes, além de interferências violen-
tas na vida submarina, devido às vibrações e aos sons causados pelas máquinas. Esses sons, mesmo
aqueles que o homem não é capaz de escutar, causam a fuga de muitos animais das áreas circundan-
tes às plataformas, gerando um desequilíbrio ecológico que
pode ter sérias conseqüências dentro de alguns anos.

Diante disso, a mesma indústria automobilística, apontada


como vilã, apresenta agora ao mercasdo uma possível solu-
ção: o hidrogênio. O hidrogênio é o elemento químico mais
abundante do universo, existindo nas estrelas em grande
quantidade no estado de plasma. Aparece também em mi-
lhões de substâncias, como por exemplo a água e os com- Classe A, Mercedes-Benz
postos denominados orgânicos. Exímio combustível, ele é
capaz de reagir com a maioria dos elementos e sua detonação gera energia similar à do petróleo, com
a vantagem de a resultante de sua combustão ser H2O. Isso mesmo: água, e não gás carbônico! Além
disso, por ser o elemento químico mais leve, contribui para a diminuição de peso total do carro e conse-
qüente economia de combustível.

As pesquisas utilizando o hidrogênio como combustível já estão bastante avançadas e as empresas que
investiram nessa pesquisa, tais como GM, Honda, DaimlerChrysler, Ford e Toyota, já expõem seus resulta-
dos em “salões do automóvel” pelo mundo. A GM, detentora de uma das pesquisas mais avançadas, rea-
liza uma corrida anual circundando toda a Europa a bordo de automóveis movidos com célula de hidro-
gênio, comprovando a viabilidade do projeto. A empresa divulgou que está realizando agora os testes de
durabilidade do sistema e se diz confiante de que essa é uma
saída possível e positiva. A DaimlerChrysler possui 33 ônibus
urbanos citaro¹ em operação em 11 cidades de vários países
assim como 60 automóveis classe A F-Cell (Fuel-Cell).

Esta é a primeira vez que se propõe um combustível com


emissão zero de poluentes e não apenas a diminuição dos Ônibus urbano Merceds-Benz Citaro
poluentes. Finalmente cientistas e ecologistas estão do mesmo lado quanto a um novo combustível.

O projeto de utilização de células de hidrogênio como combustível já existe desde 1839. A NASA
(Agência Espacial Americana) utilizou as células de hidrogênio durante a década de 60 para gerar
água para a tripulação espacial. A idéia de usá-la em carros data do início da década de 70. Contudo,
este empenho tomou força e notoriedade após o tratado de Kioto, em fevereiro de 2004, que prevê
a redução constante da emissão de gases poluentes no planeta.

Os motores à combustão alimentados com gasolina, álcool ou diesel, sem dúvida poluem menos hoje
do que há 20 anos atrás. Mesmo assim as metas de longo prazo definidas no tratado de Kioto dificil-
mente seriam atingidas. Desta forma, acelerou-se o desenvolvimento de combustíveis não poluentes
entre os quais o hidrogênio se destaca por ser renovável, abundante, com um grande poder de explosão
– como já dito acima - e pode ser facilmente obtido através de eletrólise².

O desenvolvimento dessa tecnologia pode ter efeitos muito maiores do que apenas a substituição de
combustíveis. Ele pode afetar incisivamente a economia mundial, gerando modificações em um mer-
cado que cresce rapidamentes: o mercado de crédito de carbono. Esse, criado após o tratado de Kioto,
em 2005 já cresceu 200%. O Brasil ocupa a segunda posição entre os países que mais venderam crédito
de carbono. A primeira posição é ocupada pela Índia, e tinha, até setembro de 2005, cerca de um terço
dos projetos na fila para certificação pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A estimativa do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (NAE) é de que o


mercado de carbono movimentará, até 2012, cerca de US$ 30 bilhões por ano. E o Brasil poderá
abocanhar cerca de 10% desses recursos. Para a ICF Consulting, cerca de US$ 1 bilhão por ano
poderão vir para o Brasil até 2012, quando acaba o primeiro período de compromissos dos
países ricos em Kioto.
( Luciana Rodrigues e Eliane Oliveira, colunistas do Caderno de Economia do jornal O Globo )

O funcionamento desse mercado é simples: empresas de países em desenvolvimento, como o Bra-


sil, que conseguem reduzir a emissão de gases do efeito estufa vendem esses “créditos” a firmas ou
governos de nações ricas, obrigadas pelo protocolo a serem menos poluentes até 2012. Todavia, elas

1 - Citaro: É o nome do ônibus dito como “versão normal” ou “O530”. Os ônibus Merceds-Benz possuem diversos
tipos. além do O530: O530G, O530L e O530BZ.

2 - Eletrólise: o método mais interessante de se obter hidrogênio. Não poluente, uma vez que não libera
hidrocarbonetos, e gera um produto final com o maior nível de pureza.
continuam poluindo. Em agosto de 2005, por exemplo, a Essencis, uma empresa paulista, realizou uma
venda recorde de 2,82 milhões de toneladas de dióxido de carbono para a japonesa J-Power. O valor
da transação comercial não foi revelado, mas estima-se que tenha sido um valor de pelo menos US$ 7
milhões, já que o preço da tonelada de gás carbônico varia de US$ 3 a US$ 7.

O uso do hidrogênio, e de todo o desenvolvimento tecnológico que acompanha esse uso, possibilita
não só a diminuição da poluição e uma grande perspectiva econômica, como também novas propostas
de design para os automóveis, podendo criar um novo mercado, mudando o conceito de automóvel,
fato que não ocorria desde a década de 30 quando os veículos ganharam carroceria única e chassis de
metal, perdendo a aparência de simples carroças com motores. O hidrogênio é ideal na alimentação de
motores elétricos – muitos devem estar torcendo o nariz! –, os quais sempre foram tachados de fracos,
sem potência suficiente para atender à demanda. Contudo, esses motores foram aperfeiçoados e hoje
dispõem de potência suficiente para serem utilizados em modelos esportivos. Além de ganharem força,
eles diminuíram de tamanho. Há protótipos em que esses “pequenos guerreiros” ficam alocados dentro
das rodas, liberando o espaço antes ocupado pelos motores convencionais para deleite de engenheiros
e designers, que passam a dispor de maior liberdade de criação. Essa alocação do sistema elétrico é pos-
sível porque esse sistema é mais simples, dispensando o uso de algumas peças imprescindíveis em siste-
mas mecânicos tais como embreagem, caixa de mudanças, árvores ou semi-árvores de condução. Todas
as funções exercidas por esses componentes são, agora, exercidas por condutores elétricos. Até mesmo
o sistema de direção não necessita mais da ligação do volante
com o eixo e as rodas: os comandos podem ser transmitidos a
uma central eletrônica que os repassa para as rodas, isso em
frações de segundo.

Com todo esse aparato tecnológico, muitos protótipos foram


desenvolvidos buscando novas soluções e configurações que
“Skate” do Hy-wire
significassem melhorias para o usuário, como um melhor apro-
veitamento do espaço interno. O modelo pioneiro na combi-
nação de várias dessas tecnologias foi o protótipo Hy-wire, da
GM, mostrado no Salão do Automóvel de Paris de 2002. A GM
criou um “skate” básico, contendo todos os equipamentos ne-
cessários para o funcionamento deste modelo sobre o qual
se poderia colocar qualquer tipo de carroceria, fazendo com
que os veículos sejam mais baratos, já que utilizariam a mes-
ma plataforma. A comunicação se dá por meio da tecnologia
wireless. Com isso seu interior foi todo voltado ao espaço ocu- Interior do Hy-wire
pado pelos passageiros. A sensação é de que se está em um
carro enorme, mesmo sendo ele do tamanho de um VW Golf.

Em 2005, a GM apresentou outro protótipo no Salão do Auto-


móvel de Detroit: o Sequel, utilizando-se do mesmo princípio
do “skate”, dando a esse modelo uma aparência bastante fami-
liar aos carros atuais, atendendo aos mais conservadores. Hy-wire
Com a tecnologia em estágios avançados, cabe ao designer trabalhar em prol de melhorias signifi-
cativas para o usuário, seduzindo o consumidor com propostas inovadoras e bem resolvidas, cola-
borando assim para a implantação dessa nova base energética tão salutar.

Plataforma do Sequel Sequel

Bibliografia:
Anfavea
Ministério da Ciência e Tecnologia
Jornal O Globo
Jornal O Estado de São Paulo
Jornal do Brasil
Jornal Extra
Revista Engenharia Automotiva
Revista Quatro Rodas
Revista Science & Vie
Artigo Biomassa – disponível em massa?, da Federação Alemã de Óleos Vegetais
Ata da reunião do Comitê de Meio Ambiente da Câmara Americana de Comércio
Site: www.ambientebrasil.com.br
Site: www.howstuffworks.com