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A universalização do serviço de energia elétrica nas comunidades rurais remotas da Amazônia

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Proposta preliminar de análise para fundamentar um Plano de Ação
Alan Douglas Poole – 22 de fevereiro de 2011

Índice
1. Introdução e objetivos..............................................................................................................2 2. Esboço da análise proposta.....................................................................................................5 3. Idéias preliminares sobre a execução do estudo...................................................................16 Tabelas e Figuras......................................................................................................................17 Referências...............................................................................................................................21 Anexo A: Características das alternativas ao diesel na Amazônia ............................................22 Anexo B: Exemplo de kits fotovoltaicos para domicílios individuais na Amazônia.....................30

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1. Introdução e objetivos
O programa Luz para Todos (LPT) acelerou a expansão de acesso ao serviço da energia elétrica no campo. Apesar de atrasos e custos maiores que esperados, até o fim de 2010 2,6 milhões de ligações foram feitas com novos consumidores no âmbito do programa. Com isso 98,9% dos domicílios no país têm atendimento elétrico. Em 2011 prevê-se mais 310.000 ligações pelo LPT. Além disso, o PAC 2 (lançado em março de 2010) propõe a realização de mais 500 mil ligações até o final de 2014, mediante uma nova prorogação do LPT. Pelo menos em teoria haverá um atendimento de quase 100% dos domicílios no país.1 Até hoje praticamente todas as novas ligações foram feitas através da extensão de linhas de distribuição, apesar da baixa densidade da população e das cargas em grande parte do interior do país. Um exemplo é a ligação da Ilha de Marajó, onde uma linha de transmissão de >260 km (com mais 1000 km de distribuição) liga uma carga máxima de ~30 MW a Tucuruí. Soluções descentralizadas de geração local foram raramente utilizadas até recentemente.2 Por exemplo, foi apenas em fevereiro de 2009 que um manual sobre como encaminhar “projetos especiais” (termo no LPT para projetos descentralizados e isolados) foi publicado.3 Na medida que comunidades cada vez mais remotas estão sendo atendidas, o custo das ligações vai aumentando. O custo médio das ligações aumentou em 40% entre 2004 e 2010 e a média do programa ficou acima de R$ 7 mil por ligação.4 O custo total do programa até agora foi R$ 18,7 bilhões. O PAC 2 prevê um custo de R$ 5,5 bilhões para atender os “últimos” 495 mil domicílios, ou mais que R$ 11 mil por nova ligação. Pergunta-se se uma nova estratégia realmente existe para atender as comunidades no prazo definido. Em que base foram estimados o investimento e o prazo? Qual é o “mix” contemplado de tecnologias? Não há informações ou relatórios à respeito no website do LPT nem do PAC 2. No entanto, a alternativa de “puxar fios” está claramente chegando a seus limites. Os documentos do próprio LPT parecem reconhecer isso. “O Luz para Todos entra em uma nova fase, e nela, certamente está a missão mais desafiadora e difícil do Programa: além de manter o ritmo atual das ligações por rede, é necessário atender as famílias que moram em comunidades isoladas, especialmente aquelas que estão na Região Amazônica, onde não é possível levar a energia elétrica usando os tradicionais sistemas de transmissão e distribuição. Soluções alternativas estão sendo desenvolvidas, com o uso de geração descentralizada, aliada às características locais, respeitando o meio ambiente e agregando renda.” (MME, sem data - página 132)
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Será que realmente sabemos quantos domicílios ainda não são atendidas? Um artigo (Brasil Energia, jan/2011) mostra uma tabela baseada em pesquisa do IBGE que estima os “sem luz” em 637 mil, numero bem abaixo da meta de 811,000 domicílios a serem atendidos no âmbito do LPT. 2 Até agora não achei estatísticas publicadas e acessíveis sobre isso, mas tudo indica que praticamente todas as novas ligações foram conectadas à rede nacional ou algum sistema isolado existente. 3 Cabe lembrar que o LPT era para terminar do fim de 2010. Portanto o tempo remanescente para preparar e implementar projetos era muito reduzido. 4 Informações na revista Brasil Energia (jan/2011). Na verdade, há uma inconsistência nas estatísticas publicados neste artigo. Por um lado, houve 2,6 milhões de conexões a um custo global de R$ 18,7 bilhões (13,5 da CDE + RGR, 2,1 dos Estados e 3,2 das concessionárias), o que dá uma média de R$ 7.200 por ligação. Por outro lado, o artigo cita valores médios por ligação para 2004 (R$ 4.300) e 2010 (R$ 6.000), sem qualquer referência à um “pico” de custos antes de 2010. Evidentemente os dois valores não batem. Confio mais nos valores globais neste caso, porém é claro que houve um aumento no custo por ligação.

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Porém reconhecer um desafio é apenas um passo. É preciso criar uma estratégia e planos de ação se o governo realmente pretende implementar projetos descentralizados em centenas de comunidades isoladas – especialmente dentro do curto prazo anunciado (< 4 anos). O desafio não é apenas de usar tecnologias diferentes das da distribuição convencional. O “business model” mais apropriado pode ser bem diferente também. Construir e operar redes elétricas é a “core competence” das concessionárias de distribuição. Más não é tão óbvio que as concessionárias têm uma vantagem comparativa quando se trata de construir, operar e manter pequenos ou micro sistemas isolados. Essa dúvida levanta questões básicas sobre a organização do LPT, até hoje calçado totalmente nas atividades das concessionárias. Até agora, o que eu consegui achar não é um plano más uma série de relatórios publicados pelo MME em 2008 chamada “Soluções energéticas para a Amazônia”. Há um relatório síntese (Barreto et al, 2008) e quatro relatórios sobre tecnologias para a geração distribuída nos sistemas isolados: • • • • pequenos aproveitamentos hidroelétricos (Tiago Filho et al, 2008) combustão e gasificação de biomassa sólida (Rendeiro et al, 2008) biodiesel e óleo vegetal in natura (Gonzalez et al, 2008) sistemas híbridos (Pinho et al, 2008) - (principalmente módulos fotovoltaicos e plantas eólicas junto com motores diesel)

A série trata principalmente da dimensão tecnológica e inclui descrições detalhadas das tecnologias e das questões envolvidas na construção das plantas de geração. Há exemplos de metodologias para dimensionar o mercado e de análise econômico. No entanto, o conjunto é longe de responder, até em linhas gerais, a questões cruciais para elaborar um plano, como: a) Qual é o perfil das comunidades ainda não atendidas com serviços elétricos (população, faixa de potencial de consumo/demanda elétrica e fator de carga)? Onde estão localizadas? Há exemplos de análises pontuais nos relatórios sobre tecnologias específicas, porém falta uma síntese minimamente adequada. b) Geradores à diesel são a opção predominante nos sistemas isolados da Amazônia hoje (>95%). São, sem dúvida, o “cenário de referência” ou “business as usual” para atender as comunidades. Porém o cenário do diesel é tratado muito inadequadamente. Por exemplo, • • Que é a faixa dos custos do diesel (contando todos os subsídios) entregue em diversas regiões da Amazônia? As análises sempre escolhem apenas um valor. Que é a faixa de custos para energia gerada hoje em comunidades com escalas e fatores de carga diferentes, nas diversas regiões definidas acima?

c) Afinal, as fontes renováveis podem contribuir significativamente nos próximos anos para abastecer as comunidades que serão atendidas? Quais tecnologias são mais promissoras e competitivas em situações diferentes? • Em relação às comunidades já atendidas (serviço público ou autoprodutores), as fontes renováveis podem substituir uma parte significativa do óleo diesel? Quais tecnologias são mais promissoras?

Neste contexto, e considerando a urgência política da universalização do atendimento implícita nas metas do PAC 2, proponho a preparação de uma análise que pode servir de referência e insumo para um Plano de Ação nacional (ou diretrizes nacionais) como também servir como referência para agentes importantes neste mercado – governos estaduais, concessionárias, 3

project developers, cooperativas, etc - preparar suas propostas e planos específicos. O quadro hoje parece muito confuso. A idéia não é preparar um Plano de Ação como tal. Isso seria uma função do governo e exigirá diversas negociações. O objetivo desta proposta é mais modesto – prover uma base a partir do qual um Plano pode ser discutido e elaborado. O enfoque principal do trabalho seria econômico, baseado em parâmetros claramente explicitadas para as diversas tecnologias.5 A dimensão temporal será importante, tanto do lado da oferta (por exemplo prazos para definir e implementar diferentes tipos projetos, grau de prontidão de uma determinada tecnologia para ser disseminada) como do lado da demanda (que crescerá, muitas vezes do zero). Como parte do diagnóstico, é preciso dar muito atenção às características dos diversos segmentos do mercado potencial. Finalmente, o relatório deve abordar as questões sobre a melhor maneira de executar projetos de geração descentralizada – os “modelos de negócio” mais apropriados não apenas para construir os novos pequenos (ou micro) sistemas, mas para mantê-los, expandir depois e cuidar do segundo novo desafio do LPT: “Outra tarefa que o Luz para Todos terá, daqui para frente, será o de fomentar os projetos de desenvolvimento sustentável por meio do uso produtivo da energia elétrica. Pois, com a energia, as possibilidades de desenvolvimento e geração de emprego e renda mudarão a realidade das famílias que tanto contribuem para a grandeza deste país.” (MME, sem data - página 132) Como já observado, o LPT funciona inteiramente através das concessionárias de distribuição de energia elétrica. A grande maioria das concessionárias são competentes em seu “core business”, mas a gestão de micro-redes de geração exige competências diferentes daquelas para administrar a “macro rede” onde a concessionária compra quase toda a energia. Sendo que o “core business” é 20-50 vezes maior em termos de fluxo de caixa, o negócio menor (porém complicado) dos sistemas isolados pode sair mal (com constrangimentos políticos tanto para as concessionárias como para o governo). Tendo estabelecido a meta de universalização, cabe ao governo procurar a maneira menos dispendiosa de alcançá-la. Os recursos previstos não são triviais. O LPT está apresentado dentro do PAC 2 como parte de um programa de universalização de serviços básicos de abastecimento de água e saneamento. O recursos do PAC 2 para saneamento (esgoto e resíduos sólidos urbanos) são R$ 22 bilhões para o país inteiro, apenas quatro vezes o valor da última fase do LPT (que atenderá <1% da população). Já há pressões para cortar gastos e no cálculo brutal da política – dispêndio por voto ganho – as comunidades mais remotas da Amazônia podem sair perdendo, com compromissos sendo contingenciados por um tempo indeterminado. Acredito que a primeira defesa contra este resultado infeliz é preparar um planejamento robusto e realista que procura as soluções mais eficazes.

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A série “Soluções energéticas para a Amazônia” já apresenta muitos detalhes tecnológicos que não precisam ser repetidas. Está desatualizada em alguns pontos (e.g. gaseificação da biomassa) e falta tratamento da opção importante da co-geração. Por tanto alguma revisão das tecnologias será apropriada, mas não é o objetivo preparar uma nova série de “cartilhas tecnológicas”.

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2. Esboço da análise proposta
Segue abaixo um primeiro esboço do trabalho proposto. Para fugir de uma lista seca de tópicos, há também observações sobre pontos e hipóteses que fundamentam a proposta. 1. Objetivos do relatório, seu escopo, estrutura e as metodologias envolvidas. Breve histórico do programa Luz Para Todos com uma descrição dos termos de conexão, organização e procedimentos. Resumo das metas de atendimento do LPT. Escopo geográfico do estudo.6 2. Definiçao e características dos mercados alvos. Há centenas (senão milhares) de comunidades e assentamentos isolados na Amazônia, que podemos dividir em três categorias. a. Comunidades atualmente sem abastecimento de energia elétrica b. Comunidades com auto-produtores c. Comunidades menores já atendidas por serviço público de energia elétrica Dessas três categorias, (a) e (b) são os mais importantes para este estudo. No entanto, espera-se que haja mais informações disponíveis sobre as comunidades já atendidas pelo serviço público, que podem ajudar nas estimativas de padrões de consumo de energia e sua evolução no tempo. Para criar uma política eficaz, é importante ter uma visão das características das diversas comunidades que procuramos atender. Por exemplo, quantas terão cargas de demanda em diferentes faixas de escala (digamos, <5 kW, 5-10 kW, 10-20 kW e assim em diante). Quantas estão em micro-regiões mais remotas com dificuldades maiores de logística? Seguem algumas das informações básicas sobre as comunidades que devem ser reunidas: • População e número de domicílios nas comunidades e sua localização. A base de dados deve ser organizada para permitir a análise por categorias de tamanho e de por micro-regiões. Idealmente deve-se construir um mapa digitalizado, permitindo a superposição de informações geográficas relevantes aos sistemas de oferta de energia. Considerações sobre a densidade dos domicílios dentro da comunidade. O padrão geográfico dos domicílios pode ter um impacto importante nos custos das ligações e na escolha de alternativas de atendimento (ver Figura 1, abaixo, para uma ilustração). Considerações sobre atividades econômicas relevantes em diferentes microregiões. Considerações sobre os gastos atuais para serviços energéticos (querosene, velas, pilhas, etc)

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Uma questão básica é se o escopo geográfico deve ser restrito à Amazônia ou incluir a região do oeste da Bahia e partes de Piauí e Maranhão que também têm um contingente grande de comunidades sem atendimento. Por enquanto, esta proposta ficou restrita à Amazônia.

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Construindo a partir das informações básicas acima, preparar estimativas da demanda energética (atual e reprimida) nas comunidades. • Estimativas de posse de eletrodomésticos e sua evolução depois a ligação. A Tabela 1, em baixo, mostra a experiência do LPT. Porém a publicação citada não tem nenhuma estimativa de como evolui numa comunidade típica. Estimativas de outras demandas para serviços energéticos: o no setor produtivo – seja familiar ou indústrias. Exemplos são bombas de água, refrigeração, serras. Pode ser difícil na prática separar o consumo domiciliar do produtivo em muitos casos. no setor público, como escolas, clínicas ou iluminação pública (se tiver).

o •

Análise da demanda (kW) e consumo (kWh/mês ou ano) dos equipamentos e estimativas da demanda máxima e do fator de carga da comunidade.7 Na Tabela 2 em baixo, estima-se em 83 kWh/mês o consumo médio por domicílio ligado no LPT. A Figura 2 mostra os fatores de carga de uma amostra de sistemas isolados de serviço público no Pará. A grande maioria cai na faixa de 15-30%. A tendência é para sistemas menores ter fatores de carga menores – o que aumenta o custo do serviço. o Considerações sobre como a demanda e consumo podem evoluir depois a ligação. As experiências do próprio LPT seriam valiosas, se as informações estão de fato acessíveis.

Considerações gerais sobre como o fator de carga (do lado da demanda) se traduz em fator de capacidade (do lado da geração). O assunto deve ser aprofundado nas seções sobre tecnologias específicas. Geralmente o fator de carga da demanda será mais alto que o fator de capacidade do sistema gerador, devido à necessidade de reservas e de acomodar alguns anos de crescimento da demanda na hora de instalar o sistema. A capacidade dos módulos de geração terá um efeito importante. Vale lembrar que o fator de capacidade tem um forte impacto sobre o rendimento de motores de combustão.

Acredito ser relevante também investigar o consumo de diesel (e tal vez gasolina) para fins além da geração elétrica – especialmente transporte fluvial e pesca. Esta informação pode ser relevante para dimensionar a produção de bio-combustíveis líquidos, como biodiesel. Afinal, se fizer sentido econômico substituir o diesel na geração elétrica o mesmo vale para esses usos. Dada a pequena demanda de combustível, aumentar o volume do mercado deve trazer economias de escala na produção.

A abordagem acima supõe que a comunidade está servida por um pequeno central e uma micro-rede. Porém existe uma alternativa significativa – módulos fotovoltaicos em domicílios individuais. Neste caso os sistemas são dimensionados para cargas muito pequenas que são fundamentais para o bem estar (veja exemplos no Anexo B). O investimento por kWh/mês é relativamente alto. Portanto procura-se usar os
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Curvas da carga horária típicas devem ser preparadas também, baseadas em alguns casos. De fato, exemplos já existem (ver por exemplo, Pinho et al, 2008 e Rendeiro et al) mas deve-se, por exemplo, discriminar melhor o impacto de eventuais cargas industriais.

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equipamentos de consumo mais eficientes (lâmpada incandescente, nem pensar). Diferente dos domicílios ligados a uma rede, há um limite automático da demanda e do consumo. Neste estudo o assunto deve ser tratado em mais detalhe na seção sobre fotovoltaicos, usando como ponto de partida experiências nacionais e internacionais. 3. Análise do diesel convencional como opção – A geração a diesel é a opção de referência na Amazônia. Deve-se investigar parâmetros de consumo/kWh, investimento por kW e outros custos operacionais para sistemas com tamanhos diferentes – digamos: 2, 5, 10, 20, 50 e 100 kW.8 Dada a grande sensibilidade do consumo/kWh ao fator de capacidade é importante dar atenção ao impacto de fatores de capacidade diferentes sobre os custos de geração.9 A experiência das concessionárias constitui um acervo importante sobre perfis de carga, consumo de diesel e custos de operação. O problema será acessar essas informações. O custo real do diesel varia substancialmente na Amazônia, sendo mais alto nas microregiões mais remotas. Porém nos estudos existentes, como (Pinho et al, 2008), o custo do diesel é geralmente tratado como sendo constante. Portanto, deve-se tentar mapear aproximadamente como o custo muda de uma micro-região para outra. Com base nessas informações e na análise anterior haveria uma análise do impacto dessas variações no custo total da geração a diesel. Como parte desta análise, deve-se resumir os subsídios para diesel e sua parcela do custo total. Deve-se também abordar, pelo menos de forma geral, a questão incômoda do desvio do diesel para uso em plantas de serviço público – o tal da “máfia do diesel”.10 4. Parâmetros das principais alternativas ao diesel. Serão avaliadas opções tecnológicas que substituem o diesel completamente ou parcialmente (sistemas híbridos) em diversas escalas. Parâmetros econômicos, físicos e operacionais serão abordados para cada tecnologia e analisados de forma consistente pra permitir comparações. Alguns pontos chaves são: • • • •
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faixas de investimento por kW em diferentes escalas e fatores influindo o investimento unitário; faixas de escala para as quais a tecnologia está disponível: vida útil de componentes do sistema custo e dificuldade de manutenção;

São apenas valores ilustrativos. Uma pergunta é a menor escala de planta diesel disponível no mercado e/ou que deve ser considerado. 9 É possível ter 2 grupo geradores de tamanho menor em vez de um. Isso exige um investimento por kW maior. Porém o fator de carga e, portanto, o rendimento de cada motor será maior. Além disso, haveria aumento de confiabilidade de suprimento. 10 Quando pesquisei o assunto da geração nos sistemas isolados na Amazônia 20 anos atrás fui informado que um terço do diesel destinado para uso da concessionária de Roraima era desviado.

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Outros custos de operação. o No caso de tecnologias usando bio-combustíveis, fatores influindo o custo do combustível alternativa.11

Confiabilidade e tempo de serviço (24 horas/dia?).

As principais alternativas ao diesel podem ser divididos em quatro grandes grupos. No Anexo A, encontra-se observações sobre as tecnologias em cada grupo, incluindo pontos que merecem atenção no trabalho proposto. Alternativas com potenciais muito localizados (“site specific”). Refere-se principalmente às hidrelétricas e energia eólica. A possibilidade de usar pequenas/micro hidrelétricas apenas existe se a comunidade estiver perto de uma queda de água. Sítios com um recurso eólico de boa qualidade também têm muito especifidade geográfica. Alternativas usando biomassa sólida, geralmente resíduos. Diversas tecnologias podem transformar biomassa sólida em energia elétrica – incluindo sistemas a vapor, gaseificação e motores do ciclo Stirling. A disponibilidade de um volume suficiente de resíduos pode ser um fator limitante para muitas comunidades. Alternativas usando bio-combustíveis líquidos. Neste caso o desafio principal é produzir o combustível, seja biodiesel, óleo in natura ou etanol. A possibilidade de produzir as matéria primas existe em quase toda Amazônia. Energia solar – principalmente sistemas fotovoltaicos. Os níveis de irradiação são moderadamente altos em quase toda Amazônia. A grande vantagem da região (especialmente para sistemas isolados) é que há pouca variação sazonal (ver a Tabela 3 em baixo). A substituição do diesel por essas alternativas pode ser completa ou parcial. Sistemas de substituição parcial são chamados “híbridos”. Costuma-se analisar a energia eólica e fotovoltaica no contexto de um sistema híbrido devido a sua intermitência. Porém, como já observado, no caso dos módulos fotovoltaicos há a possibilidade de sistemas “stand alone” servindo domicílios individuais. Esta opção merece atenção.12 Ao mesmo
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No caso do biodiesel esta análise do custo do combustível será mais complexa por envolver o processamento de um insumo. Em todos os casos o impacto do fator de capacidade da geração sobre consumo e a disponibilidade do volume exigido de combustível deve ser abordado.
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É interessante observar que a série do MME “Soluções Energéticas para Amazônia” nem fala desta alternativa, como se não existisse, apesar de haver muitos exemplos de programas deste tipo nos países em desenvolvimento. A opção fotovoltaica é apenas considerada no contexto de sistemas híbridos com mircro-redes (Pinho et al, 2008). A raiz desta exclusão pode ser ideológica/política. Afinal, um sistema limitado à (digamos) 10 kWh/mês é restritivo comparado com um que pode entregar tanta energia que o consumidor quiser comprar (a preços altamente subsidiados). É claro que, tendo a escolha e sem pagar mais (as ligações do LPT são gratuitas), qualquer um vai preferir um sistema com consumo irrestrito.

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tempo, os sistemas híbridos são uma opção que merece atenção numa gama mais ampla de situações (ver o Box).

Mas isto sempre será uma opção realista?

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Sistemas Híbridos Configurações híbridas podem ser interessantes com tecnologias além das fotovoltaicos e eólicos, aproveitando das características do motor diesel (cujo investimento por kW é o menor). Um exemplo pode ser a gaseificação de biomassa. Seu rendimento em carga parcial é ainda pior que o do motor diesel. A planta precisa ser fechada de vez em quando para manutenção. Em algumas circunstâncias pode ser interessante ter um grupo gerador a diesel também, servindo como unidade de geração na ponta e/ou noturna (quando o gasificador pode ficar desligado), como também de reserva nas horas de manutenção. Outra linha de investigação é como os sistemas híbridos podem trazer benefícios para as comunidades já servidas com geradores a diesel. Em muitos dos sistemas (especialmente os menores), não há serviço de 24 horas devido ao baixíssimo fator de carga na madrugada. Representa um limite da qualidade de serviço que vai ficar cada vez mais incômodo para os consumidores. Sistemas híbridos podem tal vez abrir um caminho novo para implementar um serviço de 24 horas a um custo menor. De modo geral, a qualidade de serviço é um fator que deve ser considerado nas análises das tecnologias e das configurações dos sistemas. Há mais uma dimensão da questão dos sistemas híbridos. O biodiesel pode substituir o diesel como combustível nos geradores a diesel. Se tivesse uma oferta de biodiesel produzido na Amazônia os sistemas de geração a diesel também seriam renováveis e com uma logística menos cara de abastecimento. A grande pergunta é se o biodiesel concorre economicamente com o diesel convencional. Uma metodologia comum de análise dos custos seria utilizada para todos as alternativas (incluindo diesel convencional) para permitir comparações entre opções em escalas diferentes e entre regiões com custos maiores e menores de diesel. A comparação básica seria sem subsídios (o que implica uma análise dos subsídios existentes). Deve-se também fazer cálculos preliminares da redução das emissões de gases de efeito estufa (principalmente CO2) comparado com o diesel convencional e do impacto de diferentes valores de créditos de carbono nos custos relativos. Ao concluir a discussão das várias tecnologias, haveria uma seção comparando-as de forma resumida e sugerindo as situações onde uma determinada tecnologia teria mais vantagem comparativa. Algumas das tecnologias relevantes para sistemas isolados estão evoluindo com certa rapidez. Nos casos mais dinâmicos deve-se estimar como os custos (ou outras características importantes) podem evoluir nos próximos anos e traçar um tipo de “roadmap” preliminar de como acelerar o desenvolvimento e comercialização. O prazo curto da meta do PAC 2 impõe limites severos na contribuição de tecnologias que não estão quase prontos para ser mobilizadas e replicadas. Mas os investimentos na universalização não devem parar com a execução do atendimento inicial. O próximo capítulo tratará desta questão. 5. Cenários. O uso de cenários facilitaria a discussão das contribuições possíveis e suas consequências. São uma ferramenta básica do processo de planejamento para

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políticas energéticas. Neste caso permitem comparar o custo no tempo13 de estratégias alternativas de alcançar a meta da universalização, como também identificar marcos e riscos importantes. O uso de cenários levanta imediatamente a questão do horizonte a ser considerado. A meta do PAC 2 é alcançar a universalização do serviço elétrico até 2014. É uma meta muito ambiciosa. Mas a universalização do serviço, apesar de ser um marco importante, é apenas um primeiro passo, especialmente no caso dos sistemas isolados. O consumo inicial dos domicílios nas comunidades até hoje sem atendimento será baixo. Vai partir do (quase) zero e leva tempo para as famílias comprar os eletrodomésticos ou outros equipamentos (como bombas) que almejam. Assim, espera-se um crescimento rápido de uma base pequena nos primeiros anos, seguido por uma taxa de crescimento ainda substancial depois. Espera-se também diferenças significativas no crescimento entre as comunidades. No caso das ligações a uma rede central (que predominam até hoje) os blocos mínimos de nova capacidade de distribuição geralmente são relativamente grandes comparado com as cargas e a capacidade deve ser adequada para absorver alguns anos de expansão do consumo. Nos sistemas isolados, que incluem a geração e não apenas a distribuição, há uma motivação maior para seguir uma estratégia de crescimento mais “modular”. Ao mesmo tempo há mais opções para fazer isso. Em qualquer sistema elétrico, grande ou pequeno, ter uma capacidade de geração superdimensionada é um luxo caro. Portanto, a estratégia deve prever investimentos sistemáticos em incrementos de nova capacidade depois o atendimento inicial. O horizonte do planejamento não deve ser apenas 2014, mas considerar explicitamente um período até 10 anos na frente – equivalente aos Planos de Expansão Decenal – com um mecanismo para monitorar o crescimento e sua distribuição entre as comunidades. Isso é especialmente relevante se refletimos sobre as conseqüências práticas da meta urgente de universalização. Para um governo com tanta pressa a opção mais óbvia é espalhar plantas de diesel nas comunidades hoje sem atendimento - com alguma contribuição de PCHs e CGHs nos locais propícios. Outras opções teriam uma contribuição apenas simbólica. Este desfecho, que pode ser chamado “Cenário A” ou o “Cenário de Referência seria em parte devido à familiaridade das concessionárias com esta tecnologia, que já faz parte de sua rotina. Porém, ainda se isso acontecer, não seria necessariamente o fim da história. Em primeiro lugar existe a opção do biodiesel, que pode ser introduzido ao longo do tempo para substituir o diesel nos grupos geradores (pelo menos em princípio). Não há a mínima possibilidade do biodiesel fazer uma contribuição significativa até 2014, devido ao prazo necessário para começar produzir a matéria prima. Mas se houver investimentos no plantio e no aperfeiçoamento das tecnologias e gestão de pequenas unidades de processamento, o biodiesel poderia ter um impacto importante a partir de 4-5 anos. Cabe observar que, na Amazônia (especialmente nas partes mais remotas
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É importante considerar não apenas o custo inicial do investimento mais os custos posteriores de operação e manutenção. Acho que no LPT até agora apenas o investimento inicial foi levado em conta. Emissões de CO2 da geração elétrica devem ser calculadas para cada cenário, junto com estimativas do valor de créditos de carbono em relação ao cenário de referência (Cenário A) com diesel convencional.

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da região) o custo real do biodiesel provavelmente seria próximo ao custo real do diesel convencional (tal vez até sem considerar créditos de carbono). Este quadro é muito distinto do resto do país. Aliás, uma política de fomento do biodiesel para o interior da Amazônia deve ser muito diferente do resto do país – fato tal vez não adequadamente reconhecido.14 A substituição do diesel pelo biodiesel tal vez não mudaria muito o custo da geração, mas o impacto sobre a economia local deve ser muito diferente. O diesel é um insumo “importado” na micro-região, enquanto a maior parte do valor agregado no biodiesel seria local - o equivalente de abrir uma nova atividade econômica. Isto é relevante para os objetivos mais amplas de desenvolvimento econômico sustentável na região. Assim, um “Cenário B” poderia ser o mesmo do “Cenário A”, porém com a entrada de biodiesel substituindo o diesel paulatinamente depois 2014. O uso do óleo in natura apresenta um quadro parecido ao biodiesel, com duas grandes diferenças. Por um lado, seria mais barato e mais simples produzir nas pequenas comunidades. Por outro, o uso e mais restrito e parece que apenas alguns motores a diesel podem usá-lo. Neste variante um passo urgente seria uma campanha de testes e certificação de motores aptos a usar este combustível. Como discutido no Anexo A, o óleo in natura pode ser um precursor para o biodiesel. Com base nas análises e comparações das tecnologias no capítulo anterior, um ou mais cenários adicionais podem ser construídos para avaliar contribuições maiores de outras tecnologias. Como exemplos ilustrativos: a) Alta penetração de sistemas fotovoltaicos, especialmente nas comunidades com cargas menores (tal vez < 30-50 kW). Tanto sistemas híbridos como atendimento a domicílios apenas com fotovoltaicos devem ser considerados. A última opção seria mais relevante para povoados com um padrão disperso de assentamento.. b) Alta penetração de biomassa sólida, principalmente gasificadores para cargas de 25 – 250 kW e plantas com turbinas a vapor nas comunidades com cargas um pouco maiores. Tanto sistemas híbridos como “stand alone” devem ser considerados. Plantas baseadas em resíduos de madeireiras devem considerar a opção da cogeração suprindo vapor para a secagem da madeira. Esta mudança deve aumentar o valor agregado localmente na industrialização da madeira.15
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Além do biodiesel provavelmente ser mais competitivo com diesel convencional (evidentemente é urgente ter análises cuidadosas desta constatação, ver Anexo A.), há outras diferenças importantes. Enquanto o programa nacional visa alcançar níveis de mistura (hoje 5%), nos sistemas isolados o objetivo é aproximar uma substituição próximo a 100%. Os prováveis insumos serão diferentes e espera-se que as plantas de processamento serão muito menores (tal vez 50-200 vezes menor). É curioso que o biodiesel está menos desenvolvido exatamente na região onde faz mais sentido do ponto de vista econômico.

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Outras alternativas poderiam ser analisadas, dependendo das avaliações das tecnologias. 6. Riscos e modelos de negócio. Cada alternativa apresenta seus riscos e desafios de gestão. Implementar um programa de universalização na Amazônia não é fácil. Será importante avaliar esses riscos e propor maneiras de mitigá-los. Ligada à esta avaliação de riscos é a questão de como organizar a implementação dos projetos ou o(s) modelo(s) de negócio mais apropriados. Até agora as concessionárias de energia tiveram a responsabilidade quase exclusiva para executar o LPT. Nesta próxima fase elas certamente continuarão tendo um papel fundamental, mas como já observado, elas tal vez não seriam os agentes mais apropriados para muitas comunidades isoladas.16 Existem diversos modelos institucionais para gerir sistemas isolados, como, por exemplo: cooperativas, mini PIEs e subsidiárias de concessionárias. Elas merecem atenção. Se, após uma avaliação preliminar, elas apresentam características favoráveis, deve-se aprofundar a análise abordando temas como (por exemplo): • Financiamento. Como estruturar as empresas/cooperativas para ter acesso ao financiamento. Ë preciso criar novos instrumentos de financiamento com termos exeqüíveis para esses agentes. Repasse de subsídios. Seria necessário criar novos procedimentos claros para canalizar os recursos dos subsídios do LPT para esses agentes. Hoje tudo é estruturado para passar pela concessionária (como é o caso, na prática, da CCC)

Esses avaliações seriam a base para recomendações sobre agentes complementares às concessionárias para implementar o LPT da forma mais eficaz possível. Além do sistema de geração e distribuição, as comunidades isoladas apresentam outros desafios. O custo (se não o preço) da energia será relativamente caro comparado com a rede nacional. Este fato apresenta um problema. Por um lado, há uma forte justificativa para o uso de eletrodomésticos, iluminação e equipamentos como motores e bombas com um alto padrão de eficiência – aliás, acima da média nacional. Por outro lado, o consumidor no interior da Amazônia está no fim da cadeia de comercialização desses produtos. Ele sofre também de menos acesso ao crédito que o consumidor nacional – começando com a rede rarefeita de agências na região. É preciso uma política de fomento da eficiência energética para este mercado que leva em conta suas particularidades. Esta política em apoio ao LPT pode ter alguns elementos bem distintos

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Isto é mais um exemplo da dimensão dos diferentes impactos sócio-economicos locais que a análise deve incluir, pelo menos de forma preliminar. 16 Considere, por exemplo, o caso do biodiesel. A concessionária quase certamente não se interessará na gestão da produção do biodiesel. Más se já tiver um agente gerenciando esta produção do biodiesel (tarefa tão complexa quanto gerar a energia elétrica) valeria a pena montar uma outra estrutura paralela de gestão (com sede à centenas de kilometros de distância) para administrar a geração elétrica?

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comparado com a política nacional.17 Seria pertinente avaliar os programas das concessionárias no âmbito do PEE para a população de baixa renda, que certamente inclui a grande maioria da população nessas comunidades. Um outro desafio é decorrente do dinamismo da economia da Amazonia. O consumo elétrico das comunidades isoladas vai crescer, algumas mais rapidamente que outras. Seus sistemas vão evoluir e no decorrer do tempo algumas serão ligadas a sistemas maiores. Neste contexto pode ser interessante criar as bases de um mercado secundário para equipamentos usados. Numa determinada comunidade a planta geradora que servia no início não está mais adequada, mas pode servir para uma outra comunidade menor. Possíveis exemplos são: módulos fotovoltaícos; grupos geradores a diesel, gasificadores; plantas diesel adaptadas para usar óleo in natura. 7. Benefícios da universalização do serviço elétrico. Sugiro que haja alguma análise dos benefícios da eletrificação no contexto do interior da Amazônia. São “externalidades positivas” na linguagem dos economistas. Elas são importantes para justificar o alto custo do atendimento e os grandes subsídios públicos exigidos. Evidentemente o governo já aceita este subsídio alto, por tê-lo explicitado no PAC 2. Más há razões para abordar a questão aqui, tanto teóricas como práticas. Primeiro, como já foi observado, há diferenças significativas no estímulo da economia local resultando do valor agregado pelas cadeias produtivas das alternativas tecnológicas (o biodiesel parece ter o maior potencial deste tipo). Essas diferenças devem ser levadas em conta na escolha das opções. Num outro plano, muitos do supostos benefícios da eletrificação podem ficar apenas no papel – isso é muito comum com programas de eletrificação rural no mundo inteiro, especialmente em relação às medidas visando a capacidade da população aumentar sua renda. É muito relevante definir quais são esses benefícios e identificar como serão efetivamente realizados. A eletrificação sozinha apenas potencializa algumas mudanças. O Luz Para Todos (LPT) reconhece este desafio (ver o texto do LPT citado na Introdução), mas continua sendo um desafio que precisa ser abordado explicitamente. Senão, podemos cair no absurdo de gastar R$ 11.000 de dinheiro público18 para conectar domicílios rurais, sem gastar outros recursos (bem menores) para viabilizar a transição dessas famílias para um novo patamar de renda. Há mais uma dimensão da questão dos benefícios da eletrificação. Trata-se da questão do “desenvolvimento sustentável” da Amazônia, que em grande parte se resume em como crescer economicamente (especialmente no interior) sem desmatar as florestas e degradar os rios. É uma questão complexa e controversa. O estudo proposto aqui deve abordar os vínculos com a eletrificação pelo menos de maneira preliminar.
17

No caso do biodiesel uma política eficaz para a região também seria bem distinta da política para o resto do país, como explicitado em outro lugar desta proposta. É mais um exemplo de porque uma política séria de universalização do serviço elétrico envolve reformulando outros setores relevantes da política energética. 18 Entre os contribuintes que pagam impostos e os consumidores que pagam as taxas na conta de luz.

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Pessoalmente, acho que a eletrificação do interior é fundamental tanto do lado cultural e social, como do lado econômico para alcançar o objetivo de “desenvolvimento sustentável” no contexto do mundo hoje. Acredito também que é essencial agregar mais valor na região à cada kilograma dos recursos naturais extraídos dela, na medida do possível. Más admito que esta capacitação pode ser uma faca de dois gumes. Sem uma política mais abrangente de sustentabilidade para a região, a eletrificação do interior pode acelerar o processo de degradação ambiental. Ë mais uma razão para propor um Plano de Ação para universalizar o atendimento elétrico na Amazônia com uma visão integrada e ampla e com um prazo de 10 anos (detalhados) e algumas análises gerais até mais 10 anos na frente.

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3. Idéias preliminares sobre a execução do estudo
A preparação adequada das análises exigirá uma equipe multidisciplinar reunindo conhecimento da economia e geografia das diversas regiões da Amazônia, conhecimento das tecnologias em pauta e capacidade e experiência com o planejamento energético. Deve também incluir alguns profissionais com experiência na implementação de projetos de sistemas isolados na região. Não acredito que haja uma instituição que, sozinho, reúne essa capacidades. Seria necessário juntar profissionais de várias entidades, que podem incluir centros de pesquisa, universidades, concessionárias, grupos de consultoria e engenharia. Ao mesmo tempo, será essencial ter um forte esquema de coordenação para assegurar a coleta das informações relevantes, análises básicas feitas de forma consistente, e uma síntese adequada para fundamentar um Plano de Ação. Existem acervos importantes de informações para componentes chaves do trabalho. Centros de pesquisa e universidades (além do IBGE) devem ter estudos sócio-econômicos relevantes para subsidiar a análise das características das comunidades em questão – principalmente as comunidades sem atendimento de serviço público – e suas micro-regiões. As concessionárias têm muito experiência na operação de sistemas isolados e no dimensionamento das cargas. Há equipes com grande conhecimento das tecnologias alternativas – ou pelo menos a grande maioria delas. É possível que algumas pesquisas de campo sobre as características dos mercados sejam indicadas; como também atualizações sobre as características de algumas tecnologias. Porém, o desafio principal seria acessar, reunir e processar as informações e análises específicas que já existem. O objetivo deste documento de proposta preliminar é obter feedback de algumas pessoas e grupos interessados na questão sobre sua percepção da relevância da proposta e do estado da arte do planejamento atual do LPT;19 seu interesse em levar a proposta em frente. Qualquer comentário sobre o conteúdo e teses avançados será bem vindo também. Se as reações foram favoráveis eu estaria à disposição para colaborar no detalhamento de uma proposta visando fontes potenciais de patrocínio do estudo. Considerando os prazos do LPT e do PAC 2 este trabalho seria urgente. Acredito que um Plano de Ação baseado numa visão rigorosa e integrada de como superar os desafios será crucial para evitar decepções.

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Até agora não vi nenhum plano mais detalhado em relação aos próximos anos do LPT e do OAC 2. Porém deve existir alguma coisa nesta linha com circulação reservada.

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Tabelas e Figuras
Figura 1: Impacto do tamanho e densidade da população nos custos relativos de alternativas numa comunidade isolada Esta figura, de Cabraal et al, 1998, compara o custo de duas alternativas na área rural da Indonesia: (a) um pequeno sistema de geração a diesel; (b) módulos fotovoltaicos nos domicílios individuais. Serve como ilustração do impacto de duas variáveis: o número de domicílios na comunidade e a densidade da carga (número de domicílios por km 2) sobre o custo relativo das duas alternativas. Evidentemente os valores seriam diferentes na Amazônia hoje, mas as tendências serão as mesmas.

“The break-even curve in each graph traces the line along which the levelized costs are the same for either PV household systems or grid-based power, given specific combinations of load (household connections) and load density (household connections per km2). PV electrification is the least-cost option below the line and grid-supply is the least-cost option above the line. For example, an isolated diesel-powered grid is the least-cost option for a village with 400 household connections and 100 households per km2 (see Fig. 3). If this village had half the number of household connections and a lower household connection density (for instance, 65/km2), PV household systems would be the least-cost choice.”

Figura 2: Fator de capacidade x capacidade instalada
A figura apresenta os resultados para uma amostra de sistemas de serviço público no Pará Econoler, 2010. A grande maioria dos sistemas tem fatores de capacidade na faixa de 15-30% (muito menor que o FC do sistema nacional, que é acima de 55%. Há pouca correlação entre tamanho e fator de capacidade. No entanto, os casos de FC mais baixos são concentrados nos sistemas menores. Vale ressaltar que os sistemas atuais de serviço público são substancialmente maiores, na média, que os novos sistemas serão, pelo menos inicialmente.

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Tabela 1: Eletrodomésticos adquiridos para o domicílio depois a ligação – programa Luz para Todos Porcentagem de domicílios
TV Equipamento de som Geladeira Freezer Chuveiro elétrico Ventilador Computador Bomba d''agua Ferro de passar Liquificador Tanquinho (lavar roupa) Outros Fonte: MME, 2009 79.3% 45.4% 73.3% 16.0% 25.8% 29.4% 2.5% 24.1% 27.2% 39.0% 10.4% 13.1%

Tabela 2: Estimativa do consumo médio mensal dos domicílios O relatório (MME, 2009) mostra a porcentagem dos domicílios atendidos pelo LPT em faixas de consumo. Para estimar o consumo médio fiz algumas suposições sobre o consumo médio de cada faixa de consumo (excluindo a parcela que não respondeu). Infelizmente, o relatório não apresenta informações sobre a metodologia da pesquisa, tamanho da amostra, etc. Faltam também informações sobre o tempo médio desde a ligação e/ou a evolução do consumo nos primeiros anos.

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Categoria consumo mensal Até 30 kWh De 31 até 80 kWh De 81 até 180 kWh De 181 até 220 kWh Acima de 220 kWh Não respondeu

Parcela dos domicílios Original Ajustada 21.2% 22.6% 33.9% 36.1% 27.5% 29.3% 5.0% 5.3% 6.2% 6.6% 6.2% 0.0% Médio geral (kWh/mês)

Consumo médio da categoria (kWh/mês) 25 55 110 190 230 83

Tabela 3: Sazonalidade da insolação Como na maior parte de Brasil a variação sazonal é pequena, apenas ±10-15% da média anual. Na Amazônia a razão do mês com insolação máxima ao mês da mínima varia entre 1.2 e 1.35. No resto do Brasil a faixa de variação é parecida – entre 1.25 e 1.4. Curiosamente, a cidade com a mior variação sazonal é Recife, apesar de ser perto de Equador. A maior parte da Amazônia não está entre as regiões de maior insolação no Brasil. A média anual de São Paulo é mais alta que a de Manaus. Mas tampouco pode dizer que a insolação é baixa e vale observar que as diferenças dentro da Amazônia são significativas (compare Cuiabá com Manaus). Ao mesmo diferença entre as melhores regiões do Brasil (ilustrada por Petrolina) é Manaus (com a média mais baixa da Amazônia nesta amostra) é apenas 20%. Isso, aliás, é um bom exemplo de como o recurso solar não é tão concentrado geograficamente que os outros recursos energéticos. Para colocar os valores brasileiros em perspectiva, acrescentou-se exemplos internacionais. A maioria dos países com políticas de fomento da energia solar estão em latitudes mais altas e como conseqüência a variação sazonal é maior, aumentando rapidamente acima do latitude 40˚ (confira Berlin à latitude 52˚.
Cidade Brasil Manaus Belém Porto Velho Boa Vista Cuiabá Brasília São Paulo Rio de Janeiro Curitiba Petrolina Recife Internacional Baltimore Tucson Boulder Berlin Madrid Shanghai New Delhi Média anual (kWh/m2/dia) 4.80 5.09 5.18 5.28 5.56 5.65 4.90 5.38 4.47 5.77 5.47 4.66 6.59 5.56 2.96 5.05 4.09 6.02 Mês Mínimo % média annual 88% 92% 91% 86% 91% 89% 84% 86% 86% 84% 82% 61% 80% 77% 21% 47% 71% 87% Mês Máximo % média annual 117% 110% 118% 111% 107% 112% 109% 118% 111% 112% 113% 122% 114% 112% 161% 138% 124% 116% Razão mês máximo/ mês mínimo 1.33 1.20 1.30 1.29 1.18 1.26 1.30 1.37 1.29 1.33 1.38 2.00 1.43 1.45 7.67 2.94 1.75 1.33

19

Cálculos baseados no “NREL http://rredc.nrel.gov/solar/calculators/PVWATTS/version1/

PVWATTS

calculator”.

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Referências
Arripol, Patrick; IDEAAS and PSA: Replication in the Amazon; Case Study E-264, Stanford Graduate School of Business, August, 2007. Barreto, Eduardo José Fagundes, et al.; Tecnologias de energias renováveis : sistemas híbridos, pequenos aproveitamentos hidroelétricos, combustão e gasificação de biomassa sólida, biodiesel e óleo vegetal in natura; 156 p, série “Soluções energéticas para a Amazônia”, Ministério de Minas e Energia, Brasília, 2008. Brasil Energia; “Aumenta o desafio da universalização”; p 76-79, número 362, janeiro de 2011. Cabraal, Anil, et al; Accelerating Sustainable PV Market Development; Asia Alternative Energy Program (ASTAE), The World Bank, Washington, D.C., sem data mas aproximadamente 1998 Econoler; Market Assessment for Promoting Energy Efficiency and Renewable Energy Investment in Brazil through Local Financial Institutions; report for the International Finance Corporation, Quebec, October, 2010. ESMAP; Technical and Economic Assessment of Off-grid, Mini-grid and Grid Electrification Technologies; ESMAP Technical Paper 121/07, Energy Sector Management Assistance Program, World Bank, 2007 Gonzalez, Wilma Araújo, et al.; Biodiesel e óleo vegetal in natura; 168 p, série “Soluções energéticas para a Amazônia”, Ministério de Minas e Energia, Brasília, 2008. LBNL; Tracking the Sun III - The Installed Cost of Photovoltaics in the United States from 19982009; Report Summary - Galen Barbose, Naïm Darghouth, and Ryan Wiser, Lawrence Berkeley National Laboratory, December 2010 MME; Pesquisa Quantitativa Domiciliar de Avaliação da Satisfação e de Impacto do Programa Luz para Todos: Principais Resultados; Ministério de Minas e Energia, julho de 2009. MME; Luz Para Todos, um Marco Histórico: 10 Milhões de Brasileiros Saíram da Escuridão; Ministério de Minas e Energia, Secretaria de Energia Elétrica, sem data. http://luzparatodos.mme.gov.br/luzparatodos/downloads/Livro_LPT_portugues.pdf Pinho, João Tavares, et al.; Sistemas híbridos; 396 p, série “Soluções energéticas para a Amazônia”, Ministério de Minas e Energia, Brasília, 2008. Rendeiro, Gonçalo, et al.; Combustão e gasificação de biomassa sólida; 192 p, série “Soluções energéticas para a Amazônia”, Ministério de Minas e Energia, Brasília, 2008. Tiago Filho, Geraldo Lúcio, et al.; Pequenos aproveitamentos hidroelétricos; 216 p, série “Soluções energéticas para a Amazônia”, Ministério de Minas e Energia, Brasília, 2008.

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Anexo A: Características das alternativas ao diesel na Amazônia
As alternativas de tecnologia têm características e enfrentam desafios muito diversos. Seguem algumas observações sobre elas e pontos que devem ser considerados no trabalho proposto. As tecnologias são divididas em grupos com descrito no texto principal. Alternativas com potenciais muito localizados a. Pequenas e micro hidrelétricas. Em geral as oportunidades parecem limitadas na maior parte da Amazônia devido à baixa declividade. Ela faz com que as obras civis são maiores e também significa uma área alagada maior por kW. Outra dificuldade pode ser o tempo necessário para reunir e analisar as informações hidro-energéticas. No entanto, em algumas micro-regiões pode haver aproveitamentos viáveis que merecem atenção. Seria interessante tentar reunir os inventários e outras análises disponíveis para preparar um mapa aproximado das micro-regiões mais promissoras. De modo geral os “Sistemas de Informação Geográfica” são uma ferramenta valiosa para reduzir o custo e tempo para identificar e dimensionar potenciais aproveitamentos. b. Plantas hidrocinéticas podem ser interessantes em rios com velocidades de 1,5 m/s ou mais.20 Não tendo uma barragem não há alagamento. Plantas hidrocinéticas merecem atenção especialmente para cargas muito pequenas (< 5 ou 10 kW). A tecnologia está em fluxo, tanto para as turbinas como para a avaliação dos sítios mais adequados. As plantas são relativamente caras,21 mas as outras opções nesta faixa de potências muito pequenas também são caras. A falta de maturidade da tecnologia pode restringir sua comercialização e replicação no curto prazo. c. Energia eólica. Energia eólica não parece ser uma opção interessante na Amazônia fora do litoral e alguns lugares montanhosas (como na Roraima). 22 Há poucos lugares com bom potencial eólico que não serão conectados à rede em breve. O tratamento pode ser muito curto. Alternativas usando biomassa sólida, geralmente resíduos

20 21

A potência de uma planta com a mesma área transversal aumenta pelo cubo da velocidade da água. Um protótipo de 1 kW custou em torno de R$ 15.000 em 2008 (Tiago et al, 2008) 22 Na outra região com grande número de comunidades não atendidas, no interior da Bahia, Piauí e Maranhão pode haver uma ocorrência maior de sítios com potencial eólico. Porém nesta proposta nosso enfoque é a Amazônia.

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d. Turbinas e pistões a vapor. É um conjunto de tecnologias amplamente utilizado na região, principalmente pelas madeireiras que dispõem de grandes quantidades de resíduos. Os pistões comercializados são muito ineficientes e têm um consumo alto de água. Não parecem muito adequados. As plantas com turbinas a vapor têm economias de escala e parecem mais apropriadas acima de um certo nível de carga, tal vez 500 kW. Quando existem resíduos suficientes, esta opção pode ser muito competitiva.23 Uma fraqueza nas análises deste conjunto tecnológico é a falta de análise da opção da co-geração, com o vapor utilizado para secagem. A secagem agrega mais valor aos produtos. O número de comunidades com um volume suficiente de resíduos pode limitar a aplicação desta tecnologia. Uma pesquisa preliminar (Econoler, 2010) sugeriu que uma parcela relativamente pequena das comunidades isoladas tem uma madeireira capaz de servir como uma base para a geração.24 Haveria outras fontes possíveis de resíduos na escala necessária? e. Gaseificação de biomassa com motores de combustão interna. Esta tecnologia sempre enfrentava problemas de manutenção e operação – principalmente com respeito à limpeza do gás entrando no motor diesel. No Brasil houve pouca atividade nessa área nos últimos anos. Mas houve uma evolução desta tecnologia, especialmente na Índia. Parece que há modelos adequados para uso no meio rural. A tecnologia parece mais interessante na faixa de 20-100 kW de carga – bem menor que as escalas mais apropriadas para turbinas a vapor. O tamanho menor e a eficiência maior dos sistemas de gaseificação fazem com que o volume de resíduos necessário para uma planta seja bem menor que para uma planta de turbina a vapor. A disponibilidade de resíduos pode representar um limite menos significativo, mas precisa ser estudado. f. Ciclo Stirling. É uma tecnologia que pode ser interessante para cargas muito pequenas (<5 kW ou <1 KW), mas não parece ter entrado no radar dos especialistas brasileiros. O ciclo Stirling nem sequer é mencionado na série “Soluções Energéticas para Amazônia”. É um motor que usa uma fonte externa de calor. Por tanto pode usar resíduos ou até energia solar. A manutenção é simples (é um ciclo fechado) e a vida útil é longa. Modelos estão começando ser comercializados com menos de 1 KW. Merece pelo menos uma abordagem breve para definir melhor os custos e o estado de arte com o uso de resíduos de biomassa.

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Num leilão em abril de 2010, foi contratada energia para duas comunidades isoladas ao preço de R$ 145/MWh. 24 Não vi até agora qualquer pesquisa sobre o assunto além de (Econoler, 2010). Mas é provável que a maioria das madeireiras já estão ligadas à rede nacional (ou às grandes redes isolados). Elas ainda podem ter um papel importante como geradoras descentralizadas contribuindo para a confiabilidade da rede numa grande região de cargas dispersas e difusas.

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Alternativas usando bio-combustíveis líquidos g. O biodiesel é uma alternativa fundamentalmente diferente das outras (com a exeção parcial do óleo in natura). Em vez de mudar a tecnologia de geração elétrica, muda o combustível. Assim, poderia em princípio substituir o diesel convencional nas plantas já existentes (pelo menos, nas áreas mais remotas da Amazônia), além das plantas a ser construídas para atender as comunidades não atendidas. Outra vantagem do biodiesel é que a maior parte do valor agregado fica não apenas na Amazônia más na micro-região da população sendo atendida. O maior custo (e valor agregado) no biodiesel está na produção da matéria prima, que seria local. A maior parte dos custos (e do valor agregado) no processamento também seria local. No caso do diesel convencional, em contraste, quase todo o valor agregado seria em outras regiões, ou na metrópole regional (eg Manaus ou Belém).25 Por este motivo, o biodiesel e os outros bio-combustíveis líquidos provavelmente terão as “externalidades” econômicas locais mais positivas de todas as alternativas.26 A primeira grande questão é até que ponto o biodiesel pode competir economicamente com o diesel convencional – tirando os subsídios hoje embutidos no preço do diesel. O resultado vai variar entre as micro-regiões, dependendo da distância dos centros de logística. Ainda falta uma análise econômica mais apurada, mas os cálculos preliminares em (Gonzalez et al, 2008) sugerem que o biodiesel ganhará em alguns lugares pelo menos. Isto é uma grande diferença comparado com o programa nacional de biodiesel. A análise deve também considerar as “externalidades positivas” do biodiesel em relação aos créditos de carbono e do impacto citado acima sobre as economias locais. Essa considerações aumentarão a atratividade relativa do biodiesel. Ao lado dessas vantagens são duas desvantagens importantes: • O longo prazo de maturação dos projetos usando as oleaginosas perenes da região (como o dendê, que exige 4 anos até a primeira colheita). Seria possível começar abastecer as plantas de geração apenas depois o prazo estabelecido como meta no PAC 2. O processo de substituição duraria anos. Organizar o processamento e o controle adequado da qualidade do biodiesel e da disposição ou processamento dos sub-produtos (principalmente glicerina) é um desafio nos lugares remotos previstos. Parece que ainda falta um modelo de negócio para expandir a produção em pequenas plantas espalhadas pela Amazônia. Uma conseqüência disso é que a expansão provavelmente será lento ainda se uma prioridade para esta opção for logo estabelecida – exacerbando o problema do longo prazo de maturação dos projetos.

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É provável que começa em breve produção significativa de petróleo na região (Brasil Energia, jan/2011). Mas isso não deve mudar a conclusão básica. 26 Os equipamentos para as outras alternativas provavelmente serão fabricados fora da região e o investimento inicial em equipamentos pesa mais nos custos.

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Existe o risco de haver uma expansão de diesel convencional alegando que será substituído no futuro com o biodiesel sem que isso de fato acontecer. Se o biodiesel for de fato levado a sério para o abastecimento numa escala significativa seria mais um motivo para insistir num Plano Estratégico de prazo maior que o PAC 2, como defendido no texto principal. A seriedade da opção do biodiesel seria refletida não apenas em projeções pós-2014 do abastecimento das comunidades isoladas más também (e principalmente) por ações concretas de menor prazo como: • • • • uma extensa campanha de testes para confirmar parâmetros operacionais (sobretudo os custos de manutenção); plantas pilotos para consolidar modelos de produção - incluindo tecnologias, gestão e controle de qualidade; iniciar pilotos de plantações nas micro-regiões promissoras; iniciar plantas pilotos de produção de etanol nessas micro-regiões como insumo para produzir biodiesel (ver item “i” abaixo).

Em relação à análise econômica, a tendência hoje é considerar uma planta para abastecer a geração de uma comunidade. É possível que seja mais econômico (e factível do ponto de vista da gestão do negócio) ter uma planta servindo um conjunto de comunidades vizinhas. A análise econômica (e da gestão) deve considerar várias escalas de produção do biodiesel (todas relativamente pequenas). Uma referência seria as estimativas preparadas num outro capítulo do consumo de diesel para comunidades de diversas tamanhos. O consumo local de diesel para os transportes deve ser estimado também e levado em conta. Dois cálculos simplificados são ilustrativos da pequena escala do consumo, tanto ao nível das comunidades como da região. • Uma comunidade com 100 domicílios, consumindo a média de 85 kWh/mês por domicílio (aproximadamente a média do LPT) com um fator de capacidade de 30% precisa de ~150 litros/dia de combustível.27 “Mini-plantas” para processar biodiesel estão na faixa de 1-5 mil litros por dia (o tamanho médio das plantas de processamento no Brasil era 246.000 litros/dia em 2009). Se 300 mil domicílios (85 kWh/mês/domicilio) foram ligados com sistemas a diesel o consumo de combustível no curto prazo, seria em torno de 160 mil m3/ano (excluindo outras cargas). Este valor é apenas 10% do volume do biodiesel produzido no Brasil em 2009.28 Evidentemente o volume vai crescer com o tempo e seria maior se incluirmos as cargas industriais e de outros setores não residenciais, sem falar do uso do biodiesel nos transportes fluviais. Uma política de troca de combustível nos sistemas isolados já existentes também aumentaria o volume consumido. Mas no final das contas, o programa seria relativamente pequeno.

27 28

Cálculo baseado em coeficientes de consumo de diesel por kWh apresentados em (Pinho et al, 2008) A produção do biodiesel no Brasil em 2009 foi 1,6 bilhões de litros (dos quais apenas 41,8 milhões de litros na Região Norte). Informações sobre 2010 ainda são incompletas, más a produção ficou em torno de 2,3 bilhões de litros.

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É importante ter essas aproximações em mente ao refletir sobre as políticas para biodiesel na Amazônia.

h. O óleo in natura tem a vantagem de evitar o custo e complexidade do processamento em biodiesel. Porém, nem todos os motores podem usar óleo in natura. As dificuldades são maiores para os pequenos motores utilizados em barcos, que têm rotação mais alta e mais variável. Até com motores adequados é preciso usar diesel no início e no fim da operação diária da máquina. Ao meu ver isso limita muito a atração do óleo in natura. Porém, num ambiente tão diverso e difícil como a da Amazônia, esta opção pode ter um nicho importante. Por exemplo, o óleo in natura é provavelmente mais factível que o biodiesel em situações onde a produção seria para apenas uma pequena comunidade isolada, pelo menos no início. É importante que haja testes que indicam os motores adequados (com normas para certificação) e P&D para melhorar a tecnologia disponível no mercado. A implantação de sistemas usando óleo in natura pode também servir de precursor para sistemas com biodiesel.

i.

O etanol é uma opção quase ausente nas análises até agora, apesar da tecnologia ser amplamente difundida no Brasil. Os motores do ciclo Otto (que usam etanol) são mais baratos que motores diesel em pequena escala (por exemplo 1-20 kW). Isso sugere um nicho para abastecer as comunidades com cargas pequenas.

Outro nicho possível é para etanol como insumo para a produção do biodiesel. O refino do biodiesel exige um álcool como insumo do processo, sendo que, nas condições da Amazônia, o uso do etanol parece mais apropriado que do metanol. Assim, a produção local do etanol pode complementar a produção do biodiesel. Ao mesmo tempo, os mercados finais podem atender segmentos distintos de geração, sendo que os motores usando etanol como combustível seriam geralmente menores. Uma razão pela falta de atenção ao etanol é que sua fonte quase exclusiva no Brasil é a cana-de-açucar. Esta lavoura é pouco cultivada na Amazônia e, de qualquer forma as destilarias são de grande escala. Falta uma matéria prima local com tecnologias comercialmente consolidadas para a produção do etanol em pequena escala. Uma opção para micro-destilarias contemplada desde os anos oitenta é a mandioca. Parece que uma pequena planta piloto baseado em mandioca está sendo planejada. Acredito que a banana pode ser mais interessante, porque processos naturais de 26

amadurecimento da fruta convertem a maior parte do amido em açucares – o que simplifica muito o processo de produzir etanol. Também (diferente da mandioca) há amplos resíduos sólidos para suprir o calor de processo (eg a destilação).29 Módulos podem iniciar produção dentro de 18 meses a partir do plantio da matéria prima, comparado com 4 anos para biodiesel. Infelizmente, a tecnologia para micro-destilarias usando bananas como insumo não está comercialmente disponível hoje. Há P&D internacional que pode ser aproveitado e a tecnologia envolvida não é complicada. Um esforço concentrado deve ser capaz de iniciar uma planta piloto dentro de poucos anos. Como observado acima, ter uma fonte local de etanol pode ser crítico para uma expansão do biodiesel no interior da Amazônia.

Energia solar j. Sistemas fotovoltaicos. A energia fotovoltaica é a quintessencial tecnologia de geração descentralizada e modular, o que é um atrativo para os sistemas isolados. Na Amazônia a irradiação solar não é muito alta (no Brasil o cerrado e Nordeste têm médios de insolação mais altos). Porém, a variação sazonal é pequena, o que é uma grande vantagem para seu uso em sistemas isolados de geração (ver Tabela 3).

O principal problema é que os sistemas fotovoltaicos ainda são muito caros. No Brasil em 2008 era R$ 15.000/kWpeak. Quando leva-se em conta as flutuações da insolação e as perdas na conversão de corrente contínuo (DC) em AC e nas baterias, chega-se a um fator de capacidade em torno de 20%. Portanto, o investimento por MWh por ano de energia é muito elevado. Porém, ainda com este patamar de preços, pequenas sistemas fotovoltaicos podem competir com diesel para abastecer necessidades básicas em pequenas comunidades com um padrão disperso de assentamentos – ver por exemplo Figura 1 e (Cabraal et al, 1998). As economias de escala são mínimas. Uma análise do Banco Mundial (ESMAP, 2007) estimou que o investimento por kW era quase o mesmo desde 50 W até 25 kW (~US$2005 7500 por kW). É interessante observar que, no nível de custos de 2005, seria possível abastecer domicílios com 85 kWh/mês (aproximadamente a média do consumo dos domicílios ligados pelo LPT) com um investimento em torno de R$ 7.500 por
29

A fruta tem 23% carbohidratos, 2.5% fibra e 1.5% proteína e gordura. Numa fruta completamente amadurecida, apenas 1-2% do peso ainda está na forma de amidos. Há poucas informações confiáveis sobre o rendimento de etanol por kg de matéria prima (que pode variar, incluindo matéria além da fruta). Parte da biomassa não convertida em etanol pode ser utilizada para produzir calor de processo. Devido ao alto conteúdo de água, a melhor estratégia provavelmente seria o tratamento anaeróbico gerando metano (biogás).

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domicílio. Isto é perto da média histórica dos investimentos do LPT por domicílio (R$ 7.200) e substancialmente mais baixo que a meta projetada por domicilio no PAC 2 (R$ 11.100). Este cálculo ilustrativo sugere que os sistemas fotovoltaicos merecem atenção no PAC 2, especialmente nas comunidades menores e mais isoladas. O custo dos sistemas fotovoltaicos deve diminuir significativamente nos próximos anos, o que aumentaria sua faixa de competitividade. Nos últimos anos o custo dos fotovoltaicos foi relativamente estável. De 2005 até 2009 o indicador norte-americano de preços (LBNL, 2010) quase não mudou, depois reduções significativas entre 1998 e 2005. O aquecimento da economia mundial e grandes subsídios em alguns países aumentaram a demanda em relação à oferta. Espera-se reduções importantes nos próximos anos devido à entrada de nova capacidade de produção e melhorias na tecnologia. Pode haver um salto de competitividade.30 Uma tarefa fundamental na preparação desta seção seria avaliar o potencial de redução dos custos nos próximos 2 – 3 anos. Há dois tipos distintos de projetos de abastecimento com módulos fotovoltaicos. • • Sistemas para domicílios individuais (ver Anexo B). Sistemas para abastecer pequenas comunidades – geralmente configurações híbridas com motores diesel (ver Pinho et al, 2008). em

Ambas as opções parecem ser caminhos válidos na Amazônia, sendo que a “fronteira” entre seus mercados precisa ser estudado. A primeira (domicílios individuais) pode ser um precursor para a segunda. Cabe observar que a série “Soluções Energéticas para Amazônia” apenas tratou da segunda opção. De modo geral a opção fotovoltaica é muito pouco desenvolvida no Brasil. Uma razão é que os módulos são importados. Há um problema de “ovo e galinha”. Sem mercado não há investimento na produção nacional dos módulos. Uma estratégia para quebrar o impasse poderia ser um programa de fotovoltaicos para a Amazônia, que criaria um mercado significativa (e economicamente competitiva). A partir desta base regional

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Um exemplo é o avanço recente da tecnologia de módulos de película fina CIGS (cobre, índio,gálio e selênio). Um fabricante, MiaSolé alcançou uma eficiência de 15,7% (os módulos que serão comercializados em 2011 terão uma eficiência de ~13%, devido ao prazo para testes de ultravioleta, etc). Fala-se que estão no caminho para alcançar a meta de US$1/Wattpeak (preço de fábrica). Este valor pode ser comparado com a média de entorno de US$4/ Wattpeak para módulos instalados em 2009 (o custo instalado seria um pouco mais caro que o preço de fábrica, a infra-estrutura de montagem e a mão-deobra não fazem parte do valor citado do componente). O módulo compõe aproximadamente a metade do custo total de um sistema com capacidade mínima de armazenamento em baterias (LBNL, 2010).

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poderia haver uma entrada mais geral no país.31 É um exemplo de como um desafio pode se transformar em oportunidade. k. Sistemas de geração solar térmica.... Esses sistemas são geralmente concebidos como centrais de vários MW nas regiões do mundo com altíssima insolação por m2. Geralmente são projetados como centrais com escalas de vários MW. Não parecem ter relevância para Amazônia. A única exceção seria (tal vez) pequenas plantas usando motores do ciclo Stirling, depois mais alguns anos de desenvolvimento. l. Sistemas solares de aquecimento de água. A principal demanda para água quente é para o banho – não exatamente uma primeira necessidade na maior parte da Amazônia. Porém, se tiver demanda para água quente, o uso do chuveiro elétrico convencional deve ser desencorajado devido ao alto custo por kWh da energia elétrica. Na hora de ligar a comunidade, as famílias interessadas em ter água quente devem ser incorporadas num programa paralela promovendo aquecedores solares (com ou sem chuveiros elétricos “inteligentes” com termostatos). É importante que o custo da instalação desses aquecedores nas casas seja estimado e, com base nisso, o custo de um programa (custo total e custo para o governo).

m. Baterias e tecnologias auxiliares. Módulos de armazenamento de energia, principalmente as baterias (junto com inversores), merecem atenção especial num relatório sobre sistemas isolados. Geralmente o enfoque é sobre seu papel em sistemas fotovoltaicos, onde são essenciais. No entanto, elas podem ter uma aplicação mais ampla. Por exemplo, pequenas sistemas com diesel geralmente param de operar na madrugada devido ao altíssimo custo de operação com uma carga tão pequena. Um sistema de armazenamento pode ser um caminho que facilita uma oferta de 24 horas por dia e tal vez serviria também como backup para interrupções curtas do gerador a diesel. Uma vez que módulos de bateria e inversor estão instalados abre-se uma outra possibilidade instigante. Ficaria significativamente mais barato instalar módulos fotovoltaicos posteriormente, acrescentando nova capacidade no sistema. Um sistema a diesel pode ficar um sistema cada vez mais híbrido com o passar do tempo. O movimento neste sentido vai depender da evolução futura do custo dos módulos fotovoltaicos.

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Considere o seguinte cálculo ilustrativo. Suponha-se que: (a) os sistemas fotovoltaicos abastecem (na média) 50% do consumo de 300.000 domicílios (seja em sistemas híbridos ou “stand alone”); (b) o consumo médio por domicílio é 85 kWh/mês; (c) o fator de capacidade é 20%. O número de domicílios = 60% da meta do PAC 2 e é o mesmo considerado no caçulo ilustrativo para biodiesel. Neste caso a capacidade fotovoltaica seria 87 MW. O investimento em equipamentos seria ~R$ 1,1 bilhão (considerando os preços em US$ de 2005 constando em ESMAP, 2007). Se a implementação fosse feito em 4 anos representaria uma fabricação anual de 22 MW/ano. É bem possível que este nível de encomendas asseguradas (através de uma licitação) seria suficiente para atrair um fabricante para o país, pronto para apostar também no mercado nacional fora da Amazônia.

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Esta área de tecnologia está evoluindo muito rapidamente hoje. As conseqüências disso merecem ser estudadas. Outro conjunto de tecnologias “auxiliares” cujas conseqüências também merecem atenção são micro-redes e medidores “inteligentes” para gerenciar as cargas.

Anexo B: Exemplo de kits fotovoltaicos para domicílios individuais na Amazônia
IDEAAS (www.ideaas.org.br) começou disseminando kits mais que uma década atrás no Rio Grande do Sul e desde 2005 vem desenvolvendo projetos na Amazônia. Um piloto foi iniciado com PSA (Projeto Saúde e Alegria) oferecendo os seguintes pacotes (Arripol, 2007):

KIT Mobile/ Solar Lantern 1 2

USE Lighting Lighting 6 hours; Radio 6 hours Lighting 8 hours, Radio 8 hours, TV B&W 4 hours, Cell phone, Lighting 10 hours, Radio 8hours, TV Color 2 hours, Cell phone, Water pump 400L/day Kit 3 + Satellite dish

PANEL & BATTERY 5 watts, Amp 20 watts; Amp 10 65

DOWN PAYMENT

MONTHLY PAYMENTS Financed by micro-credit

$43 (US$) $64 (US$)

$10 (US$) $14 (US$)

46 watts; 100 Amp

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60 watts, 150 Amperes

$107 (US$)

$17 (US$)

4 Productiv e Refrigerat or

90 watts 60 a 120 watts 120 watts

$129 (US$) $129 (US$) $129 (US$)

$21 (US$) $17-26 (US$) $26 (US$)

O custo das mensalidades parece dentro das possibilidades de muitas famílias, e no caso dos kits mais simples e igualo ou menor que o custo atual de querosene, pilhas, etc. O custo inicial pode ser uma barreira maior. Cabe observar que neste caso as famílias pagam praticamente todo o custo, enquanto em Luz Para Todos a ligação é de graça para o beneficiado (más custou > R$ 7.000 até hoje) e a energia vendida depois é pesadamente subsidiada. Isso não é um “campo nivelado de jogo” (level playing field). Pergunta-se porque o LPT não poderia apoiar este tipo de investimento também, permitindo que sistemas menos limitados em capacidade sejam ao alcance das famílias. Outra opção seria a aplicação dos recursos de baixa renda da taxa de ANEEL administrada pelas concessionárias na região, especialmente para facilitar acesso aos equipamentos eficientes. 30

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