entrevista

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Portugalê opaís deixaandar do dobota-abako, dekaparaamanhão do que podes do dos É tempo Quinto o fazerhoje, desenrasca, trêsefes. aomesmo *os Irnpério e cafres Europa" dizerdePadre da no AntónioVieira. portuguese Os "sãoexcessivamente sentimentais, horror à disciplina, com individualistas, talvez sem por isso,falhos espírito continuidadedetenacidade acção' dar de de e na a descriçãode1938 pertence Salazar. 2O11, é e a Em comosomos? BarryHattontira-nos medidas liwo OsPortugueses. as no EntreüstaAnabela MotaRibeiroFotografia PedroCunha

entrevista

arry Hatton é inglês, licenciouse no Verão de 1985 no lCng's College, em Germânicas, escreveu com Luísa Beltrão, sua sogra, a biografia de Maria de Lourdes Pintasilgo. É correspondente daAssociated Pressem Lisboa desde 1997.Quando escreveu OsPortugueses, quis fazer um retrato moderno do país onde vive há 25 anos. Nele entram uma família portuguesa com quem come carne de porco depois da matança, leituras de Eduardo Lourenço, Jorge de Sena,notas de um Moleskine. Escreveu em inglês, para estrangeiros que lhe perguntam: "Diz-me lá outra vez onde é que disseste que era Portugal?" Não conhecem, nem podem compreender um povo que inaugura uma portentosa obra de engenharia com uma feijoada para 15mil pessoas."Falo diariamente com analistas, que não sabem nada, mas falam sobre Portugal como se soubessem. Só sabem os números, são pós-matemáticos." Os números não nos deixam ficar bem. Depois de 15 meses de espera, assinou com a Signal Books, de Oxford. A sair, em Portugal, pela Clube do Autor, a edição portuguesa. Vê-se logo que não é português. Nunca diz mal dos portugueses.E vê-selogo que conhece os portugueses:um português pode dizer tudo

do vizinho do lado, mas ai do estrangeiro que se atreva afazer o mesmo. É um estrangeiro quase português. Subscreve Unamuno quando este diz: "Quanto mais lá vou, mais quero lá voltar." No capítulo referenteaoZê Povinho descreve os portugueses como sendo simultaneamente "amistosos e irascíveis, deferentes e indómitos, apáticos e humildes, duros e ousados, compassivos mas irados, submissos e belicosos, sempre à espera que a sorte lhes sorria, boa companhia, conciliadores, diplomáticos, efusivos, espontâneos". O livro está muito fundado em coisas que já foram ditas pelos portugueses, pensadores, filósofos, entre os quais oJoão Medina, que escreveu muito sobre o Zé Povinho. OZê Poünho sintetiza essapersonagem portuguesa, com todos essesadjectivos, a contradição enorme. É uma figura que tem cerca de 1OOanos, é rústico e boçal. Sobretudo nesta fase pósEuropa e pós-revolução, queremos acreditar que evoluímos dela. O livro começa com os lusitanos. Quando se olha para todos estesséculos, consegue-se ver aqueles traços, aqueles veios no mármore, as coisasque estãono sangueportuguês.Júlio Cé-

sar disse: "É um povo muito estranho, que não se governa nem se deixa governar." Hoje em dia um político diria a mesma coisa. Há muita coisa que vem de trás. Durante os Descobrimentos, os portugueses agruparam-se àvolta do Estado - continua a ser assim. Adoram o Estado ("o Estado vai tomar conta de nós"); e queixam-se de que o Estado paga as suas contas "em parte, tarde ou nunca", como se dizia no período dos Descobrimentos. É um traço amor-ódio. Isso é uma visão catastrofista, não do que são os portugueses, mas do futuro dos portugueses. Se é assim há 600 anos, significa que não temos emenda. Falando de uma coisa actual, da crise e do resgate financeiro: estas medidas são como um penso rápido numa perna partida, como se diz em inglês. Se Portugal quer mudar mesmo, vai ter de mudar a sua maneira de viver. Vai levar gerações, não vai mudar com um acordo com o FMI e a zona euro. Mudar a maneira de viver quer dizer implementar reformas de fundo? Até que ponto os portugueses querem mudar? Se querem ser ricos como os alemães e os suíços, os holandeses e os escandinavos, têm de entrar ao trabalho às oito da manhã. trabalhar

até às seis, jantar às sete e estar na cama às nove. É essavida que os portugueses querem? Acho que não. (Se quiserem, vou-me embora, vou para outro país [riso].) Por outro lado, esta geração que cresceu com a União Europeia, que viaja, que tem contacto com a Internet, com os outros paÍses,tem outras comparações para fazer (como se viu com os protestos da "geração à rasca"). Um dos factores que contribuíram para o 25 de Abril foi a interligação com os povos da Europa, os turistas, os portugueses emigrantes. Essetipo de contactos muda mentalidades. Muito devagarinho, mas muda. Essamudança vai ajudar a destapar os portugueses, que estão muito abafados pelas estruturas rígidas da sociedade. É um florescer que vem com o tempo, não vai ser de um dia para o outro.

A propósito da primeira possibilidade, de trabalharmos como um alemão ou um suíço, ejantarmos àssetedatarde: mesmoque quiséssemos isso,a verdadeé que temos condições climatéricas - que têm importância capital - que inviabilizam o projecto ou o tornam muito difícil. Torna tudo mais dificil, é verdade. Cadapaís tem dejogar as suascartas.CadapaÍstem os seuspontosfortese os seuspontosfracos.Os portugueses imensasqualidades, têm embora osportugueses achemmuito isso.Comoo não ministro dosNegócios Estrangeiros, LuísAma"Só do, disseno ano passado: oiço dizer mal de Portugalem Portugal." BoaventuraSousa Santos,num livro sobre a autoflagelação dos portugueses, fala de uma má consciênciapor que causa passividade, todos reconhecem da masnão conseguem mudar. Existe uma autoflagelaçãosepensarmosem nós enquanto povo. Mas,a título indiüdual, o que existe é uma flagelação do outro, e não do próprio. Raramente os portugueses dizem: 'iA.culpa é minha e a responsabilidade é minha." Fernando Pessoa que,numgrupo de cinco diz portugueses, culpadoé sempreo sexto. o

Somosmuito bons críticos de nós mesmos. Eça de Queirós é o exemplo acabado de como é possível, e de forma contundente, arrasar o portuguesinho. Há muito poucaentrega democrática.José Gil falada "não inscrição",de aspessoas parnão ticiparem.Vou dar o exemploda minha sogra. Em frente ao prédio dela,em Lisboa,a câmara tinha construídoum edifÍcio novo; cinco anos depoisaindaestavam os andaimes. minha lá A sograqueixou-se, nada aconteceu. Entãofez A nível político, Antero fala de uma centrapelo um abaixo-assinado prédio; ninguémquis lidade "imposta por períodos de governo assinar. Tinhamtodosmedo. absoluto, que encorajou a submissão e a' resignação". IJma grossaparte dos portu"Medo", palavra crucial. Não por acaso, gueses continua a viver da relação com o o livro deJosé Gil em que se fala da o'não- Estado, submissose resignados. inscrição" tem por tÍtulo Portugal, o Medo Foi um problemano fim do séculoXIX: quede Existir. riam despediruma data de funcionáriospúÉ outra coisaquevem de trás.As pessoas pen- blicos e não conseguiram, porque se fossem samque a democracia só irvotar de doisem para o desemprego, haviaoutro emprego. é não doisanos- não é nadadisso.O Villaverde Ca- Ondeé que podiam serabsorvidos? tenho Não bral fezum estudonos anos1990e descobriu nenhuma receitamágica. pequenas médias As e que só três por cento dos portugueses que sãoaosmilharesem Portugal, tinham empresas, algumavez enviado uma carta a um director [pertencema] pessoas com boasideias,que de um jornal com a suaopinião.(Issoé outra queremcrescer, que queremarriscar- o que coisaque estáa mudar com os emaik e com a é uma coisarara em Portugal- e que sevêem novageração.) pessoas vêem solução confrontados As não que com obstáculos o impedem. atravésda suaparticipaçãodemocrática. Do Estado,do fisco,da Segurança Social,das

Repetidamentetemos oportunidades de refundar as coisas,fazê-las,se não a partir do Temos uma baixa auto-estima. zeÍo, com óptimas condições à partida. Claro. Falo muito bem de Portugalno livro, Embora no princípio Portugal fosseo bom achoqueé um paísóptimo.Estoucâhâ25anos, aluno doJacques Delors.Aceitoutudo. Havia já me foram oferecidos empregos NovaIor- uma sedede mudança. termoserammuito em Os que,em Londres, Bruxelas, sempre em e disse generosos ninguém sepodia queixar. e que não.Além de não seruma pessoa quer que entrarparao trabalhoàsoito da manhã,prefiro Vinte e cinco anos depois, não temos nem uma vida maisdescontraída. dinheiro nem reformas profundas feitas. Nem um povo muito maisinstruído. No livro, dedica um capítulo a um texto de Antero de Quental, que se refere a um E passámos bom aluno a pior aluno. Isto de período muito anterior. O diagnóstico que é uma coisa que nos humilha, na sua opifazdo país poderia ser feito em relação aos nião? nossosdias. Quer resumir o conteúdo des- Não,demonstra a UniãoEuropeia um proque é jectoquetentatratarum conjuntodepaíses se texto? com E o Discurso DeclíniodosPovos do Ibéricos.An- histórias culturas e muito diferentes comosefostero foi buscarasraízesdo problema muito lá seum só país.É precisoter em contaque têm atrás.Falada Inquisição,do poder da Igreja histórias diferentes maneiras vivere fazeras e de Católica. "conservadorismo Do religiosoinsta- coisas diferentes. Devia haver maispaciência com lado pela Contra-Reforma, sufocouo pen- a culturadecadapaís-membro. que Portugal vai não samentoinventivo nos paísescatólicoscomo reagrr condições UniãoEuropeia mesma às da da Portugal".Eleé muito maiseloquenteque eu!, maneiraqueosalemães, franceses. países os Os esse discursoé brilhante. do Norte sãomuito diferentese tentam impor uma maneirade serquenão é portuguesa. O centralismo católico acabou por implicar um fechamento de portas. Houve uma de- Apesar de ser uma corrida entre atletas bandada dejudeus, de espíritos inventivos, que têm características desiguais, a ver- * do que faziaa diferença. Foi um grandepassoatrás.ForamparaAntuérpiae tornaramricososholandeses. Tinham oknowhow,a sabedoria, dinheiro.Portugal, o só para ficar bem na fotografiacom os reis católicos,fez mal a si próprio.

Medo de quê? Medo de ser mal visto, defazer figura de parvo. uma pessoa levantaavoz e pensaque vai ser ridicularizada.Medo de ser castigado. Aos olhosdos portugueses, poder estácá em cio ma, elesestãocá em baixo. O power distance indexé enorme.As pessoas pensamque não têm algumainfluênciaem nada.O medovem de trás, da ditadura("é melhor ficar caladinho, está masaindapodeficarpior").Nosinquémal ritos de opinião os portugueses dizem sempre quea maior preocupação delesé ter emprego. Mesmoquandorecebem saláriomínimo,meo nos de 5OOeurospor mês. É a mentalidade: "Tenhopouco,maspelo menostenhoisto." É o medo de tentar ir maisalém.Masao mesmo tempo, e voltamosàs contradições, portuos gueses que foram nos anos1960para França nem falavamfrancês,nunca tinham saídodo país;era precisouma coragem gigante.Osportugueses conseguem, mas não acreditamque conseguem.

leisque sãodecididas Assembleia Repúna da blica.Esse medovem do caminhobloqueado. Vemdo Estado monolítico,quase kafkiano. Não dá para entrar, não se encontra a porta. Sese encontrar,saise por outra porta sem chegar onde sequer.É o processo d'O Castelo. Antero aponta uma terceirarazão para o declínio. "O sistema económico gerado pela era dos Descobrimentos, de intoxicante abundância, afastou os portugueses da gestão financeira prudente e do trabalho honesto." Percebemos mesmo]agoracom osfundosda [o UniãoEuropeia, taisquase mil milhões os que 5O vieramnosúltimos3Oanos,e quemuitasvezes foram mal gastos. Foramparabridges nowheto re,paÍaaquelasobraspúblicasque servema muitopoucagente. AntónioBarreto que disse foi um conviteao esbanjamento à corrupção. e

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Osportugueses

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dade é que repetidamente não chegamos ao fim da competição, ou chegamos em último. Por isso perguntava se isto não é uma coisa que colectivamente nos humilha. seria se fosse importante para os portugueses chegar em primeiro lugar. Se não é uma corrida em que estão muito empenhados, acho que não. Na introdução do seu livro, conta que quando explicou à sua filha, que é portuguesa, a génese deste projecto, ela pediu que não nos retratasse como uns saloios. Há um mínimo de vergonha pelo que somos e pela figura que fazemos, mesmo que não seja uma coisa na qual nos empenhamos muito. Lá fora não conhecem Portugal, não conhecem os portugueses. Falo quase diariamente com analistas sobre coisas económicas e financeiras, e nenhum deles fala português, nenhum deles conhece o povo português. Uma das ideias que tive com este livro foi explicarlhes como são. Essacoisa de nos retratarem como saloios é o que se vê nos filmes. A personagem portuguesa é sempre o labrego, o barrigudo, com bigode. Ê,oZê Povinho. A realidade é muito diferente, embora com as características que sempre houve. A imagem estâ out of date. Contudo, quando lá fora ouvem falar de nós, nos últimos anos, é quase sempre pelas piores razões. Sim. Mas dou o exemplo do Euro 2OO4: todos os estádios estavam prontos a tempo. O estádio de Wembley, em Londres, estava dois anos atrasado. Quem é o inútil que não sabe construir um edifício? Não sabia disso. Mas esse é outro problema dos portugueses: têm pouca noção do "lá fora". O escândalo com as despesas dos deputados do Parlamento inglês (estavam a pôr como despesas a construção de uma casinha e de um jardim) foi uma vergonha enorme. Se tivesse acontecido em Portugal, os portugueses tinham dito que isto era a república das bananas, que isto era o Terceiro Mundo. O problema é que notícias destasnão chegam aos portugueses. Leio muitos jornais ingleses, e os casos de corrupção, de má gestão e falta de empenho nos serviços públicos são casosde todos os dias. Em Portugal, as palavras acusatórias são sobretudo para os polÍticos e para a grande trapaça. Se se for chico-esperto, se se conseguir contornar o sistema, pelo contrário, é-se olhado com bonomia. Até há pouco tempo, o homem que fugia aos impostos era o grande herói!Aquele que conseguia dar a volta ao Estado, e evitava pagar 5O euros em impostos, era o campeão. Andar no limite de velocidade nas estradasou conseguir estacionar sem pagar são pequenas vitórias do dia-a-dia. E nada disso é uma grande aventura. Como naquele verso de O'Neil: "Em Portugal a aventura termina na pastelaria." Parece que tudo tem uma escala de bairro. E acabam por fugir do país para fazer uma coisa maior.

É frequente no estrangeiro, de repente, que os portugueses sejam motivo de orgulho, engrandeçam. n Portugal que os apouca? Sim.E muito sufocante rigidezda sociedade, a o pessimismo. Maspode resultar,e vê-seque quandovão parafora resulta.Osportugueses sãotrabalhadoresmuito bem vistos,desdeos anos196O, França.As multinacionais em que estãoem Portugaladoram os trabalhadores portugueses. portugueses Os conseguem, têm de passar acreditarque conseguem. a

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Aosolhosdos

portugueses, opoder estâcáemcimaeles
est:iocáembaixo.As pessoasnãopensam quetêmalguma influênciaemnada. Omedovemdetrás, daditadura

É forçoso falar da qualidade das elites, dos que organizam, dos que apontam directrizes. Também não temos a organização que nos permite trabalhar com os outros, fazer um trabalho produtivo. As elitestêm medo de perder aquelacoisaa que estãoagarradas. Deixar alguém subir é correr o perigo de perder a suacoisinha.Em relaçãoà organizaçáo, como a história dos ê forcados: porqueseunemà volta têm sucesso de um objectivo.Masnão é uma característica portuguesa, associativismo. issoé que o o Por car sharing, para vir para a cidade,nunca vai funcionar em Portugal. versário, um líder, um objectivo. Na Expo-98,veio uma placa de vidro gigante Relatao episódio de um jogo de futebol en- para o Oceanário, doJapão.Quandoa pusetre portugueses e ingleses; estes,que eram ram, faltavamdoiscentímetros. o arquitec-. Foi menos capacitadosà partida, acabarampor to americanoque estava frente do oceanário à vencer apenasporque se uniram. queme contou:afinaleramosjaponeses se que Osportugueses têm mais talento, mas não o tinham enganado não os portugueses. e aproveitamunindo-se,organizando-se, para jogo, nós, Nenhum português acreditaria nessahistóatingir um objectivoconjunto.Nesse osingleses, éramos bocadinho um maisvelhos, ria. Osjaponesesnão se enganam. não estávamos muito boascondições em fÍsi- E uma falta de autoconfiança, crençanas de cas,masconseguimos vencer.Osportugueses possibilidades Portugal. de eramjogadores magníficos, eramtodosdo tipo Cristiano Ronaldo[riso]. A propósito da Expo, há uma história que talvez nos deflna enquanto povo: fazer a Consegueperceber araiz desta dificuldade inauguração de uma obra de engenharia que temos em ser organizados e em traba- brutal, como é a Ponte Vascoda Gama,com lharmos uns com os outros? uma feijoada. É aincl. É cadaum por si. Para15mil pessoas [riso].

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Não um por todos, mas cada um por si? gargalhadaé elucidativa. Fazera felioaEssa Sim. Não sei a respostaa essapergunta,vou da só ocorreria a um português, não é? pensando,depoisdigo. Oslusitanoslutavam Claro. castiço, óptimo.Osportugueses É é sabem muito em conjunto,tanto quanto sei.NosDes- muito bem fazero conúüo. Devezem quando, cobrimentos, motivação a riqueza.Um ca- com os meus cunhados,vou ver o Benficaao a era pitãofrancês, períododosDescobrimentos, Estádio daLuz; a melhor parte para mim são no descreveu portugueses os como sendomuito aquelas duashorasantesdojogo, a comercouambiciosos. queforamüstos ratos,bifanase a beberimperiais.Todaagente se Quando pensa dessa maneira,pareceestranho. bem-disposta, toda a gentea falar.Seestivéssemos em Inglaterra,estava chover,estávamos a A ambição é mal vista em Portugal. a pagarimensodinheiro por umpinÍ, a comida que tenta chegaralém é porque era uma porcaria. Chegaa um ponto em que Uma pessoa seachamelhor que os outros. uma pessoa tem de escolhero que é que quer: ser maispobre masfeliz, ou rico e infeliz. E é melhor nivelar por baixo. Há uma série de expressões com uma cargapejorativapara Depois do jogo do Benfica, vai para a sua os que sobemsocialmente.'Alpinista social" vida e trabalha para uma empresaestrangeié um bom exemplo. As pessoassentem-se ra. O grosso dos portugueses trabalha para porque outras conseguemo que empresasportuguesas, com produtividade ameaçadas elas ou não conseguemou não se propõem reduzida. O problema é que não conseguiconseguir. Ou porque sentem que são ame- mos um equilíbrio entre os couratos e o laaçadasquando outras chegam lá. do castiço, a produtividade e o mínimo de Aspessoas qualé o problema Portugal, riqueza. sabem de osportugueses sabem muito melhor do que eu É verdade" Umapessoa comoaspessoas vê viquais sãoos problemasde Portugal.Sabemo vem no interior...É abissal difeiençaentreo a que era preciso fazer;masnão fazem.É mais litoral ou ascidades o interior.Osportugueses e umavezaquela frase:'A culpaé dele!" sabemque a produtividadeé um problema, mas ninguém se esforçamuito para mudar. De qualquer modo, e voltando às contradi- Alguns esforçam-se, têm sucesso, como a @ ções,são inexcedíveisquando têm um ad- JerónimoMartins.O grossodasempresas,

presária de algum sucessoe com uma mentalidade "muito lá fora", tenha dito: "percebo Salazar. O que estava adizer tem aver com os valores, com a maneira como queremos viver." Os portugueses não querem viver como os americanos, gostam da maneira de viver em Portugal. Queixam-se muito, mas gostam. Se os portugueses não gostassem da vida em Portugal, já tinham mudado. Gostam de ir almoçar durante uma hora e meia, duas horas, à sexta-feira. À sexta? Todos os dias são sexta-feira em Portugal. Os portugueses chegam tarde ao trabalho e depois flcam lá mais tempo a falar... No fim do mês, queixam-se que recebem pouco e que lá fora é melhor. Não são grandes adeptos da mudança. Temem-na. É aquela coisa de agarrar uma bóia de salva"pelo menos tenho isto, pode não ser ção, muito...". Salazar foi a grande mossa no Portugal do séc. XX? Se não fossem os 48 anos de ditadura, seríamos hoje um país substancialmente diferente? As raízes são muito anteriores e isso apenas veio tornar ainda mais funda a nossa depressão? já A passividade lá estava.Um ditador como Salazar não teria sobrevivido, como sobreviveu politicamente, por tanto tempo, sem um povo que aceitava isso. Houve quem lutasse contra, e se se perguntasse havia muita gente que gostava de ter mudado. Mas para um mandão ter sucesso é preciso pessoasque aceitem ser mandadas.A agressividade e o medo de levantar avoz foram calcados. Quais são as grandes fracturas à nossa identidade, os grandes acontecimentos que marcaram traços no nosso modo de ser? O sebastianismo é determinante? Os Descobrimentos, sem dúvida. O sebastianismo, também. A parte interessantedo sebastianismo não é aquela de que as pessoasfalam - de que o rei vai voltar das brumas para nos salvar. O interessante é que isso não exiç nada dos portugueses! O gajo vem ou não vem, isso é com ele. Fico aqui à espera, no sofá, a beber 'Jolas" e ver a televisão, na boa.

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DouoexemplodoEuro 2OO4: todos os estádios estavamprontos atempo.0estádio de\Membley,em Londres, estavadois anos atrasado. Quem éoinútilquenãosabe construirumedificio?

especialmente do Estado, as vivem de fazero suficientepara sobreviver.Então não se podem queixar. O desafiodas Descobertas, Aristides Sousa Mendes na SegundaGuerra, a mobilização pró-Timor nos anosmais recentes.É espantoso, quando do nada temos estaserupções espontâneas, ousadiae brilhantismo. Porque é que isto não nos dá mais vezes? Faltasolidez,consistência acção. tudo da Vai dar ao mesmosítio,ao medo.À desconfianÇa, à falta de apetitepara correr riscos.

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Está a falar de passividade. Quando estava afazer a reportagem dos 25O anos do Terramoto de Lisboa e andava pela Mouraria e Alfama, perguntava às pessoas na rua se não tinham medo de que houvesse outro terramoto; diziam: "Pode ser, mas o futuro a Deus pertence." Os peritos em emergências e desastres naturais ficavam doidos com isso. Sendo assim, as pessoasnão se previnem contra o desastre. O dia de amanhã a Deus pertence, é verdade, mas a minha casaé um bem Salazar, numa carta enviadaà Coca-Cola, em que me pertence; isso não quer dizer que não 196O:"O senhor arrisca-sea introduzir em possa fazer nada na minha casa. Portugal aquilo que detesto acima de tudo, Há um outro exemplo que vai no mesmo seno modernismo e a famosafficiency." tido, o de os portugueses serem os que mais Disseque Portugalera um sítio pacato, que apostam nos jogos de sorte. É uma demissão, queria que frcasse assim,que tinha medo do em certo sentido, daquilo que cada indivíduo progresso, que não queriaque os camiões da pode fazer pelo seu destino. Coca-Cola mudassem ritmo de vida dospor- Tudo o que é bom vai cair-me do céu, vai cairo tugueses. Uma coisaainda mais interessante me no colo, fico à espera. E as pessoaspensam é que a minha mulher,que é portuguesa, em- que a mudança começa no outro.

Como deslocar essecentro de decisão do outro para si próprio? E nestecontacto com as culturas lá fora, simplesmente.O intercâmbio com o estrangeiro é muito forte, diário. É por aí que Portugalvai mudar, mas vai ser muito gradual. Secalhar ninguémdá por issono dia-a-dia, mas numa geração ser diferente. vai Jáé diferente?É normal dizermos dosjovens portugueses que são alheados da política, que não têm cultura geral, que sãoimpreparados. Todavia, cada vez mais pessoastêm um nível de escolaridade superior ao dos seuspais, e uma abertura ao mundo com a qual aqueles nunca sonharam. Portugalnunca teve tantos licenciadosna sua história, mas continua a haver abandono escolar.Osmeusfilhosandaramtodosna escola pública;contam-me histórias alunosquenão de queremtrabalhar, não querem estudare que depoispensamque têm direito a coisas. Não têm deveres e têm direitos. É uma coisaque vem depois do 25 de Abril Todaa gentefala dos direitos,ninguém fl9741. falanosseusdeveres. deverde serbom cidaO dão, de ser bom trabalhador, ser bom pai, de bom estudante.

lharem muito, se se esforçarem,pouparem, investirem bem, arriscarem,vão conseguir que chegarlá. Olhamparaa pessoa tem [com desconfiançal:"Deve ter conseguidoaquilo atravésda malandrice,ou tem uma cunha." Tem a ver com a frustração de não acreditar que consegue a mesmacoisa. ter Portugal tem duas características que se relacionam com essa;uma delas é não ser uma sociedademeritocrática, a outra é tudo passar impune. Se nada à volta funciona, porque é que hão-de conseguir? A justiça é um dos grandesproblemas.Todas essas coisasbarram o caminho. Lá vem outra veza frustração.E a meritocracia:mesmoque nosesforcemos muito, nãovalea pena,nãovai dar a lado nenhum. Quemtem poder não vai largáìo e vai impedir que outros o venhamti rar. É aquelacoisado bairro, metaforicamente. Osmédicostêm o seubairro, os magistrados têm o seubairro, osprofessores universitários têm o seubairro. Cadaum vive no seubairro, e todos defendemaquilo com unhase dentes contra quem entrar.

tinuavamcom um sorrisona carae com o gozo pela vida que os portugueses têm. O jantar e almoçarfora, o conúvio, a tertúlia,sãoa alegria de viver que os portugueses têm. Têmtristeza, mastêmjoy in their heart. Têm o fado... Ejoie de vivre ao mesmo tempo. Pareceque uma coisanãobatecertacom a outra,mastêm. Têmmuita resistência, muito fortes,adapsão que táveis. Têmo "desenrascanço", é umacoisa magníficaque os gajosdatroika não sabem,e que os analistaslá fora também não sabem. Deviam saber.Os portuguesesmostram que conseguem, faltadestapar só aquelepotencial. Vai demorar mais uma geração,mas não me preocupo com Portugal. É como oJacinto,a personagemd'AsCidades e asSerra.s,que mesmo que diga que tudo está mal - e no seu caso náo diz que tudo está mal - acaba por ficar. Osportugueses dizem mal de Portugal,dizem mal uns dos outros, masadoramPortugal. Como alguém da nossa família que não suportamos, mas que é da nossafamília. gostam Osportugueses mesmo,mesmode Portugal. Sepudessem ficar cá, frcavam. Fazemosa entrevista num hotel de cinco estrelas,há estrangeiros,políticos e empresários. Na mesa do lado, com um ar muito pato-bravo, falavam alto, tinham uma roupa demasiado engomada, um deles escarrava. Senti aquele embaraço que os portugueses sentem quando um de fora estápara chegar e não queremos fazer fraca figura. Somosincorrigíveis? TêmsidoincorrigÍveis. português dá mui O não to o braço a torcer, para ser corrigido. Essa mudança, quando vier, vem de dentro. Essa mudança que tem de haver em Portugaltem devir debaixoparacima,tem de serao contrário do que tem sido até agora.Osportugueses estãosempre à esperaque caia tudo o que é bom de cima para baixo. Osportugueses têm de deixar de esperarpela mudança,têm de ser elesa mudar. Se os paísessão como as pessoas,no caso de Portugal, ainda êoZê Povinho quem nos identifica melhor? Sim. É fascinantecomo continuam a ser tão pertinentes aquelascaracterísticas. Hão-de ficar maisfortes, fazemparte domake upbiológico de um povo. Mantém-seo "Toma!", mas deixámos de ser tão barrigudos e de usar chapéu. O 'oToma!" continua, mas tem de ser menos conclusivo, depoderserultrapassado. tem Tem de haveroutra maneirade encararasrelações de uns com os outros. O "Toma!" pode ficar para aquelesque continuam a não merecer respeito. Há uma frase preferida para traduzir a essência dos portugueses? Há. O meu poeta preferido, em qualquer línos Sua, é o lMiguel] Torga. Descreve portugueses como sendoum "pacífico colectivode pessoas revoltadas".ffi anab ela.mot a.ribeiro@public o.pt

E dentro do bairro comem-sevivos, se possível. Sim.E depoisosbairrossãocadavezmaispequenos, chegaraobairro maisportuguês até de Masosportuguesestêm uma óptima ideia de Portugal: português o dentrodo seuautomóvel. gdtar com os outros,não si próprios. Acham que são bons cidadãos, O comportamento: bons pais e bons trabalhadores. ter paciência, não ter civismo, não respeitar Sim, a culpa é dos outros, o outro ê que faz sinaisde trânsito nem limites de velocidade. "Soueu contrao mundo." É umasituação mal. onde dá paraaliviaralgumaraiva,algumafrustração. Tendemosa olhar para nós, individual e co- Aquelegestoque o ZéPoünhofazé o gestoque lectivamente, como os bons da história. os portugueses fazemuns aosoutros todos os Sim.MasnosDescobrimentos portugueses dias. O comportamentono automóvelé o cúos levaram quatro milhões de escravosatravés mulo disso.Parece uma mutaçãopara quem do Atlântico.Foi a maior emigração forçadada não conhecea cultura portuguesa. históriado homem.Oliwo deAnaBarradas fala disso.Osportugueses sabemisso,dizem Se falasse com os senhores datroika, que não "Descobrimos mundo, começámos problemas lhes diria para atacar mais do apenas: o que tudo? aglobalizaçâoJ' A justiça,a educação, onde há poderesinstaNãoolhamospara o sofrimento que infli$mos? lados. Mas a troilcatem de aprender que isNosDescobrimentos, guerra colonial. na so não sevai fazer atravês um tratado, um de A escravatura a üolência queexerciamquando papel assinado. uma mudançacultural que e É chegavam novasterras era dosespanhóis, a dos tem de existir. portugueses, ingleses, holandeses. dos dos Dos já ingleses se fala muito, por causade filmes, Já chegámos atempo suficienteda entreüsta de liwos, dasatrocidadesque houve no Qué- para perceber que não responde como um nia contra os Mau-Mau.Osfrancesesf,zeram português. Tem uma enorme preocupação a mesmacoisana Arçlia. Osbelgasno Congo. em ser preciso nasrespostas. portugueses Os EmPortugal, têm ideiade quesefalassem disso são mais detalhados, adjectivam mais. podemserum seriammalvistos.Nãoqueremficar vulneráveis, As entrevistas com portugueses ser criticadospor estrangeiros. Masenfrentar bocado longas[risos].Tambémé uma coisa realidades essas ajudamuitoum paísa abrir-se, jornalística. Os inglesessão muito práticos, é um empurrãoparaa frente.Quandoaspesso- aquiloé pão,pão, queijo,queijo."Istojá está, falar disso,conseguem falar de vamospassar próxima" é uma coisainglesa. asconseguem à outrascoisas, quenãogostam política,na Não perdem tempo nas conversas corredo na de sociedade, democracia. na Abre uma brecha. dor. É o espíritoluteranodo trabalho,trabalho, trabalho (embora depois das cinco vão para Até agora falámos sobretudo do medo. Ain- os copos).Osuniversitáriosportugueses, os da não falámos nenhuma vez de inveja, a jovensportugueses, começam serassim.Vão a mítica palavra com que Camõesencerra Os muito lá fora, escrevem uma maneiramais de Lusíadas.Osportugueses dizem que são in- imediata, focada,vão dar aulasem Espanha, vejosos - que o outro é invejoso, nunca o França,Inglaterra,Estados Unidos. próprio, bem entendido. "Senão possoter, não quero que os outros te- Enquanto isso, outros, e no dizer de Mark nham.Ficoaqui com asminhascoisinhas fico Twain, estão "insolentemente felizes". e contentinho."O "inho" vem tambémde uma Foi numa visita aosAçores.Mark Twain desfrustraçãonavida, de sentir que não consegue creve o modo como as pessoas viviam, em ter. Osportugueses não pensamque setraba- condições horríveis;mas,mesmoassim,con-

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