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O DESAFIO DE UM

NOVO NEGÓCIO
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JEFF COX
Co-autor de Zapp e A Meta

O DESAFIO DE UM
NOVO NEGÓCIO
Ficção empresarial cujos
personagens se envolvem
com a realidade de uma
nova empresa, desde a sua
criação até o sucesso

Tradução
David Aparício Köhler
Esta edição tornou-se possível mediante acordo com a
Warner Books, Inc., New York, U.S.A., com todos os direitos reservados.

© 1997 Jeff Cox

Direitos desta edição reservados à


Livraria Nobel S.A.
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Coordenação editorial: Clemente Raphael Mahl


Preparação de texto: I. Antonio
Revisão: Gisele Sylvestre Mahl
Produção gráfica: Mirian Cunha
Capa: João Lino Oliveira Filho
Composição: FA Fábrica de Comunicação
Impressão:

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Cox, Jeff, 1951-


O desafio de um novo negócio / Jeff Cox ; tradução de David Aparício
Köhler. — São Paulo : Nobel, 1999.

Título original: The venture : A Business Novel About Starting Your


Own Company.
ISBN 85-213-1052-8

1. Ficção norte-americana 2. Negócios - Ficção


I. Título. II. Título: Romance empresarial sobre a aventura do seu próprio
negócio.

98-3817 CDD-813.5

Índices para catálogo sistemático:

1. Ficção : Século 20 : Ficção norte-americana 813.5


2. Século 20 : Ficção : Literatura norte-americana 813.5

É PROIBIDA A REPRODUÇÃO

Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida, copiada, transcrita ou mesmo transmitida por meios
eletrônicos ou gravações sem a permissão, por escrito, do editor. Os infratores serão punidos pela Lei
nº 5.988, de 14 de dezembro de 1973, artigos 122-130.

Impresso no Brasil / Printed in Brazil


Em memória de
George W. Cox
(1923 – 1993)
Este livro é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e circunstâncias são produto
da imaginação do autor e utilizados em forma de ficção. Qualquer semelhança com
eventos, lugares ou pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência.
Agradecimentos

Ao longo de minha carreira, tive a sorte de trabalhar com pessoas muito


brilhantes e algumas organizações pioneiras em suas áreas. Assim, tudo que sei
sobre empowerment aprendi trabalhando com Bill Byham e a Development
Dimensions International (DDI) ao escrever Zapp e HeroZ. O que sei sobre
marketing e estratégia de vendas aprendi com Howard e Sally Stevens do H. R.
Chally Group ao escrever The Quadrant Solution. E eu seria negligente se não
demonstrasse meu reconhecimento a Eli Goldratt, para quem escrevi a edição
original de A Meta. Então, se perceber em O desafio de um novo negócio alguma
coisa que sugira empowerment, estratégia mercadológica ou a teoria das restri-
ções, você terá que reconhecer que sou apenas parcialmente culpado.
Várias pessoas foram muito solícitas durante o desenvolvimento de O de-
safio de um novo negócio, fornecendo informações ou a inspiração necessária
para preencher as lacunas de meu próprio conhecimento. Agradeço especial-
mente a Vince Gagetta por sua assistência com a pesquisa. Sy Holzer e Jonathan
Williams ofereceram informações sobre o mundo das atividades comerciais ban-
cárias. Diversas conversas com John Apostolides ajudaram-me a entender o
mundo dos empreendedores. Houve os telefonemas para e de David Loynd,
que me ajudou a escrever com algum realismo sobre os assuntos de alta tecnologia
da narrativa. E, ao fim de cada dia, havia minha amiga e esposa, Sue, que me
ouvia nas dificuldades e triunfos.
Eu quero, sem dúvida, estender minha gratidão às pessoas da Warner Books
por trabalharem comigo no desenvolvimento e na publicação de O desafio de
um novo negócio. Meu muito obrigado vai para Rick Wolff em particular, que
atuou como editor e organizou o lançamento do livro, e também para Rick
Horgan e Joann Davis por me proporcionarem a oportunidade de criar este
romance de nosso tempo.
De forma muito especial, quero expressar meu reconhecimento a Sharon
Friedman por seu apoio constante e seu encorajamento, que constituíram
inestimável ajuda.
Meu reconhecimento a todos vocês.
Outono
Por razões nunca explicadas, o vôo de retorno de Michael DiGabriel na-
quela noite de terça-feira de setembro partiu com uma hora de atraso de Los
Angeles. Quando o avião chegou à parte central do Texas, ocorria uma enorme
tempestade e a aeronave balançou bastante, sobrevoando Dallas por uma hora e
meia antes de pousar. No momento em que o avião chegou a Chicago, o vôo
estava com um atraso de três horas e Michael havia perdido sua conexão para
Bridgeford. Depois de uma batalha no balcão da companhia aérea, ele acabou
no quarto de um motel próximo do aeroporto O’Hare, onde conseguiu dormir
por quatro horas antes que a limusine da companhia viesse buscá-lo para pegar
o primeiro vôo disponível.
Tendo finalmente aterrissado na Grande Bridgeford, ele telefonou ao estú-
dio, falou com Tanny, comunicou-lhe que estava a caminho, desligou, aravessou
às pressas o setor de bagagens e saiu pela porta do estacionamento. Correu feito
louco para a cidade. Em certo ponto, numa reta da rodovia interestadual, sem
trânsito à frente, ele acelerou seu Taurus até cento e quarenta e cinco quilôme-
tros por hora. E tudo por nada.
Era justamente o horário do rush e o trânsito parou na ponte. Michael se
arrastou pelos últimos quilômetros, balançando a cabeça e murmurando maldi-
ções por todo o caminho até a rua Nove. Ao estacionar, eram oito e cinqüenta
e ele estava quarenta e cinco minutos atrasado. Apenas quarenta e cinco minu-
tos, mas ainda atrasado. Entrou correndo pelo prédio — a ponta da gravata em
cima do ombro, a maleta embaixo do braço, feito um jogador de futebol ameri-
cano —, tomou o elevador para o piso “LL” (o subsolo), e já transpirava ao
correr pelo hall em direção às portas de aço, duplas, com a inscrição BARKES
& COLLWIN PROPAGANDA — GRUPO DE PRODUÇÃO DE VÍDEO.
As pessoas que lá trabalhavam chamavam o lugar de “Caverna”.
Lá dentro ele encontrou toda a maldita equipe adormecida. Spider esta-
va estirado sobre a mesa da recepcionista, que ainda não tinha chegado.
Redmeat estava roncando no estúdio, com as pernas pendendo para fora da
porta de trás de um Buick que apareceria em um comercial programado para
9
mais tarde naquele dia. E Tanny Zoelle ocupava a melhor cama da Caverna, o
sofá dos clientes atrás da sala de controle. Ela dormia de lado com a Ikegami
aninhada entre o peito e os joelhos, com um braço sob a cabeça e o outro
sobre a velha câmera cinza. Michael passou de um por um, acordando-os com
um cutucão. “Vamos”.
Alguns anos atrás, Redmeat estava na mesa de áudio trabalhando com Steve
Paxton, que editava um programa institucional que deveria estar em um avião para
Nova York naquela tarde. Nessa época, Redmeat era apenas Bob Bates e Steve ainda
não era conhecido como Stoney. Eles tinham passado diversos dias e noites direto
na tarefa, e quando estavam acabando, por volta das duas horas daquela tarde quen-
te de verão, um dos aparelhos de vídeo pifou fazendo pfft-crack!
Steve e Bob descobriram que o problema era devido à água pingando de
um duto acima dos painéis do forro da sala de controle. Isso aconteceu por-
que, em nome da eficiência, o gerente de manutenção fez um ajuste no siste-
ma de ar condicionado do prédio e, devido ao calor do dia, ocorreu mais
condensação nos dutos do que o desumidificador podia agüentar. A água da
condensação pingou, passando pelos painéis do forro em cima do aparelho e
causando um curto-circuito.
Eles descobriram isso quando Michael voltava do almoço na cidade com
os dois clientes que encomendaram o programa. Michael abriu a porta da sala
de controle e encontrou-a meio desmontada, com três painéis do teto faltando,
e Steve em uma escada com a cabeça enfiada no buraco, gritando — Meu Deus,
estamos trabalhando em uma caverna!
Assim a Caverna ganhou seu nome. O programa, apesar de tudo, ficou
pronto a tempo de embarcar. Eles improvisaram um dos aparelhos portáteis
para terminar a edição. E, a partir daí, qualquer um que trabalhasse por um
tempo significativo na Caverna (e que também fosse aprovado pelos outros)
passava a ser parte do Povo da Caverna.
Havia Bob Redmeat1 Bates e Ed Spider Korakowski e Steve Stoney Paxton,
além de John Boner Leek e alguns free lancers regulares, Nick Neonderthal

1
Todos os apelidos estão, de alguma forma, relacionados à pré-história, aos Homens das cavernas.
Redmeat significa Carne vermelha; Spider é Aranha; Stoney é Pedregoso; Neonderthal é um tro-
cadilho com as palavras neon, tubo luminoso utilizado em painéis promocionais, e Neanderthal,
raça primitiva presumivelmente antecessora do homem moderno, termo também usado nos EUA
para designar uma pessoa primitiva, estúpida; Cave babe é, no caso, Garota das cavernas; Leprechaun
significa Duende, figura do folclore irlandês geralmente representada por um anão velho que
revela a localização de um pote de ouro a quem conseguir agarrá-lo; Leper, por sua vez, é Leproso,
ou pessoa relegada ao ostracismo pelo comportamento, opiniões ou caráter socialmente inaceitá-
vel; Bonehead é a pessoa tola, ridícula, estúpida; Snake significa Cobra; Wildman é Homem
selvagem, bárbaro; Cave Queen é a Rainha da caverna (N. do T.).

10
Urbanavich e Lisa Ooga-Booga MacAllister. Gwen Shavinsky, a recepcionista e
secretária do grupo, graciosa e afetadamente aceitou Cavebabe. Artie O’Connor,
o vendedor, insistiu para que todos o chamassem de Leprechaun, embora os
leprechauns aparentemente nada tivessem a ver com cavernas e, finalmente, ape-
sar de todo seu esforço, o apelido foi abreviado para Leper. Da mesma forma,
John Leek, o engenheiro do grupo, aquele que mantinha todos os equipamen-
tos eletrônicos em ordem, quis ser chamado “Chefe”, como em “engenheiro-
chefe”. Mas John era inegavelmente um sabichão e todos o chamaram de “Boner”,
o mesmo apelido que tinha antes que a história de caverna começasse, que na
verdade era uma abreviação de Bonehead. Em certa época, houve Gente da
Caverna com os nomes de Snake, Wildman, Ug e Cave Queen — mas, com o
tempo e as oportunidades, eles se foram.
Michael DiGabriel nunca recebeu realmente um apelido da Caverna,
mas mesmo antes dos apelidos pegarem, seu pessoal ocasionalmente o chama-
va de “Pai”. Isso não se devia apenas ao fato de ele dirigir o grupo, mas tam-
bém porque sempre se sentava à cabeceira da mesa nas reuniões, era sempre
ele quem recebia a conta do almoço e, nas filmagens distantes, sempre dirigia
a perua. Então, seu apelido era “Pai da Caverna”, mas não pegou muito bem.
Depois de um ou dois dias voltou a ser apenas “Pai” ou, na maior parte do
tempo, “Mike”. Algumas vezes ele se sentiu um pouco chateado com isso,
mas, afinal de contas, era ele o chefe. Tinha que aceitar que o clube era dos
outros, e não dele.
Tanny Zoelle também nunca teve um nome da Caverna. Tanny chegou
muito depois do auge dos apelidos e estava trabalhando com eles há cerca de
um ano. Ela se mudou de Nova York para lá, junto com a mãe, para criar seu
filho. Mas “Tanny” era um nome exótico o suficiente para desestimular a inven-
ção de um apelido da Caverna. “Tanny”, de fato, era uma adaptação de Tansy2,
um nome que sua mãe grega adorava e que ela própria mal tolerava, e não tinha
nada a ver com a cor de sua pele. De fato, era virtualmente uma piada. Com
exposição normal ao sol, sua pele tinha realmente uma tonalidade marrom como
uma noz, mas ela passava tanto tempo trabalhando na Caverna e em outros
locais fechados que, na maior parte do tempo, sua pele era de um branco-
pálido, ou até meio azulada.
Por seis meses a Caverna virou uma completa mania para os que trabalha-
vam ali. Era como um culto. Havia camisetas. Havia festas. Havia uma pintura
mágica de Caverna nas paredes dos corredores mais ao fundo, produto da mo-
notonia de sessões de edição que duravam a noite inteira. E claro que havia um
vídeo, produzido nas folgas entre os trabalhos dos clientes.

2
Planta com flores amarelas (N. do T.).

11
Diversas vezes “Papai” DiGabriel teve que estabelecer limites. Como quando
queriam pendurar estalactites de papel-machê no teto da sala de controle, e
também quando, apesar do padrão de vestir na Caverna ser informal, ele teve
que banir o uso de camisetas do “Povo das Cavernas” durante o horário comer-
cial em que clientes e outras pessoas pudessem aparecer. Na maior parte do
tempo, entretanto, Michael deixou que eles continuassem. Ele sabia, intuitiva-
mente, que precisavam disso. Eram, na maioria, jovens. Trabalhavam por lon-
gas horas naquele porão. Eles investiam livremente sua criatividade e energia
em projetos gritantemente comerciais e inimaginavelmente chatos. Eles preci-
savam de um nome legal para si mesmos.
De qualquer forma, a mania afinal se esgotou. As festas depois do expe-
diente tornaram-se comuns, a maioria das camisetas ficou nas gavetas, e muitos
dos apelidos da Caverna evoluíram. Spider e Stoney permaneceram, mas
Cavebabe virou apenas Babe e Redmeat, nas conversas, era freqüentemente
abreviado para Red. Leper tornou-se Lep, para o alívio de Artie O’Connor.
Boner também permaneceu. Depois do ressentimento inicial, John passou a
gostar de ser chamado assim3, porque, embora ligeiramente obsceno, empresta-
va conotações sexuais que de outra forma faltavam à sua reputação. Mesmo
assim, apesar desses ajustes, e da menor intensidade, a Caverna pegou. Mesmo
agora, anos depois, a identidade do lugar e do grupo permanece.

***
— Você ligou para o Barney? — perguntou Michael a Tanny Zoelle.
Ela terminou um enorme bocejo antes de responder: — Sim. Ele não
estava muito contente com você.
— O que ele disse?
Ela improvisou uma imitação de Barney Tillman, um dos clientes da em-
presa: — Temos a agenda cheia hoje! Tenho gente esperando por você agora! —
Tillman ficava nervoso com quase tudo, mesmo nas melhores circunstâncias.
— Eu disse a ele que estaríamos lá assim que possível.
— Bem, então vamos.
Saíram da Caverna em torno das oito e meia, com Michael dirigindo a
perua, como sempre. Spider e Redmeat estavam atrás, onde sentaram com os
olhos vidrados, tentando acordar. Tanny, na frente, mantinha-se acordada len-
do o script, a Ikki presa entre suas pernas. O resto do equipamento estava atrás.
Era hábito não se falarem muito durante as manhãs, e com a tensão
decorrente de começarem tarde, dessa vez estavam mais quietos que o nor-
mal. Michael mantinha seus olhos no carro à frente, e as duas mãos no volan-

3
Boner também significa ereção (N. do T.).

12
te. Cruzando o rio, ele os conduziu para fora da auto-estrada nove, correndo
pelo trânsito entre os faróis.
O movimento da perua dificultava a leitura de Tanny, e de qualquer forma
ela estava entediada. Eles estavam a caminho de mais uma gravação institucional.
Os programas institucionais constituíam o arroz com feijão do negócio de pro-
dução de vídeo, e a maioria deles era tão excitante quanto o termo sugeria.
Então ela colocou de lado o script e olhou para Michael. Ele estava correndo
mais que habitualmente, e geralmente ele corria mais que os outros carros. Ela
imaginou que uma conversa poderia relaxá-lo, fazê-lo correr menos, e então
perguntou: — Como estava a ensolarada Califórnia?
— Bem — disse Michael, ao mesmo tempo em que desviava a van de um
carro fazendo a conversão para a direita, passando a centímetros dele e sem ao
menos tirar o pé do acelerador.
Ela suspeitava que a conversa poderia revelar-se um erro tático, mas deci-
diu continuar: — Você não morou lá?
— É, em outra vida.
— E gostava? — Era uma pergunta boba, mas ela estava apenas tentando
fazê-lo falar.
— Sim, muito, eu simplesmente adorava a Califórnia —, respondeu ele
automaticamente. — Nem dá para falar tudo de bom que existe lá. — Ele
estava ultrapassando uma caminhonete enquanto falava, para poder mudar para
a pista da direita antes de alcançar o carro adiante deles, que estava parado
esperando para virar à esquerda. — Especialmente Los Angeles.
Michael conseguiu ultrapassar a caminhonete e Tanny começou a respirar
novamente.
— Foi lá que aprendi a dirigir. — Ele disse.
— Onde?
— Los Angeles. — Ele piscou para ela e sorriu.
Ela gostou do sorriso dele. Ele era um cara bonito, pensou, como um
homem mais velho. Ela suspeitava que Michael estivesse ao redor dos quarenta
anos, mas há alguns anos ele devia ser um gato. Agora ele tinha uma leve
protuberância acima da linha da cintura, sua face apresentava rugas e seu espes-
so cabelo preto tinha fios cinzentos. Ainda assim, tinha boa aparência. Seu
rosto apresentava uma qualidade escultural. Tinha mãos bem-formadas, dignas
de um modelo. Sua pele era de um tom mediterrâneo quente (com mais cor que
a dela). Além disso, ele ficava muito bem de terno — embora o daquele dia,
sendo o mesmo do dia anterior, estivesse menos alinhado.
Não que ela desejasse algum envolvimento romântico com ele. Bem, para
ser perfeitamente honesta, o pensamento passou por sua mente um par de ve-
zes, secretamente. Mas estava fora de questão. Ele era bem uns dez anos mais
13
velho, e era o chefe. Além de tudo, era casado. Ainda assim, havia uma química
entre eles praticamente desde o dia em que ele a contratou.
— E então como foi tudo? — Ela perguntou.
— Realmente bem. Quer saber? Comparado com o que podemos fazer na
Caverna, esse lugar foi uma... Jornada nas Estrelas. — Ele havia passado a véspe-
ra em um dos grandes palácios mundiais da tecnologia de vídeo, criando a
abertura e os efeitos para o programa que estariam gravando naquele dia. —
Embora não tivesse nada para você fazer.
— Por quê?
— Sem câmeras. Fizemos tudo com computadores e imagens eletrônicas.
Ela fingiu estar aborrecida. — Ah, grande coisa.
— Realmente, foi maravilhoso.
Ela fez uma voz infantil: — Você quer dizer totalmente quente ou o quê?
Ele olhou para ela com falso desdém. — Quente? “Quente” é anos 80!
Ninguém mais fala assim.
— Então como se fala?
— Não sei. Agora dizem...
— Legal —, respondeu Redmeat, saindo de sua letargia no banco de trás.
— Eu pensei que “legal” era anos 60 —, disse Tanny.
— Não ‘bacana’ era anos 60 —, disse Spider. — Legal era, acho, anos 50.
— Ei pessoal —, disse Michael. — Logo, logo “legal” terá passado e será
“bacana” novamente. — Tudo é, vocês sabem, parte do grande ciclo cósmico.
A densa vizinhança da cidade tinha sido agora substituída pelo subúrbio, e
eles começaram a passar por diversas ruas com casas amplas e bem-cuidadas e
shopping centers. Então o lado direito da rua abriu-se em um parque com
prédios modernos de concreto e vidro, ao fundo de um imenso gramado. No
centro do gramado havia um grande retângulo de mármore sobre um pedestal
contornado por arbustos decorativos. Gravado no mármore, em letras formais
de estilo romano, lia-se: ELECTRICAL & ELECTRONIC EQUIPMENT
CORPORATION, também conhecida como Três-E.

Após quatrocentos metros de gramado, eles viraram na entrada princi-


pal. Ali estavam as guaritas, em estilo militar, e o que havia era um pequena
fila de carros. Das sete às oito da manhã a fila invariavelmente ia até a rodo-
via, mas a hora do rush tinha acabado. Os motoristas à frente da van mostra-
vam os crachás de identidade de empregados aos guardas, que acenavam para
que o carro seguisse adiante. Quando Michael chegou ao portão, disse ao
guarda: — Olá, somos da Barkes & Collwin Propaganda, e viemos para tra-
balhar com Barney Tillman.
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O guarda checou em sua lista, e então voltou com quatro pequenos crachás,
cada um deles com um formulário e uma caneta presa por um fio, entregando-os
pela janela. — Encoste o carro e peça que cada ocupante preencha o formulário.
Quando o guarda se virou, Michael tocou a testa com dois dedos, fazendo
uma saudação de escoteiro-mirim e, obedientemente, seguiu a ordem. Eles es-
creveram seus nomes, datas de nascimento, nascionalidades, finalidade da visita
e assim por diante.
— Todas as vezes que chegamos aqui nos fazem passar por isso —, mur-
murou. Normalmente ele não se importava, mas dessa vez, estando tão atrasa-
do, incomodou. — Não entendo porque não podem nos dar crachás como a
todas as outras pessoas.
— Bem, provavelmente eles têm dez funcionários só para lidar com to-
dos esses formulários —, disse Redmeat. — Você quer que eles percam seus
empregos?
— Certo, aí eles escreveriam a seus deputados —, disse Spider.
— E as pessoas ainda se perguntam porque bombardeiros e satélites de
espionagem são tão caros —, disse Michael.
— A Três-E faz esse tipo de coisa? — Perguntou Tanny. — Pensei que
fizessem torradeiras.
— Eles fazem torradeiras. Bombardeiros, satélites de espionagem e torra-
deiras. É um grande negócio —, disse Redmeat.
— Bem, não é mais tão grande assim —, disse Michael. — No ano passa-
do eles ganharam apenas cerca de 100 milhões.
— Só 100 milhões!
— Com 12 bilhões de faturamento. Não é nem 1% de retorno sobre as
vendas, e este ano pode ser prejuízo.
— Acho que não vou chorar por eles —, disse Tanny.
— Você choraria se possuísse as ações deles. Eles costumavam faturar 14 bi-
lhões e lucravam cerca de 6% a 8% disso.
— Verdade? Então o que aconteceu?
— Cortes na área de defesa. E estupidez geral. É preciso muita torradeira
para recuperar a perda de um contrato de bombardeiros.
— Você tem ações da empresa?
— Minha mulher tem.
O guarda finalmente trouxe seus crachás de visitantes. Michael resistiu a
outro impulso de fazer a saudação. Ele tornou a ligar a van e seguiu ao longo da
vasta área.
— Sua esposa trabalha aqui, não? — perguntou Tanny.
— Por que você acha que ela tem ações da Três-E? Como investimento?
— Michael apontou para um prédio do outro lado do gramado. — Ela trabalha
no Cubo.
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O Cubo era a gíria da Três-E para o edifício do centro administrativo, um
cubo de vidro com oito andares. Havia quem sugerisse que a origem do nome
se devesse não à geometria do prédio, mas ao “Cubo de Rubrik”, uma insinua-
ção ao processo de tomada de decisão complexo e misterioso que ocorria do
outro lado do vidro, que impedia qualquer inspeção do interior do edifício.
— Verdade? Ela trabalha com Hal Bromman e todos os grandes? — per-
guntou Tanny.
— Bromman era o chefe dela quando dirigia o setor aeroespacial. Mas
desde que se tornou presidente e principal executivo ele está na mais alta estra-
tosfera. Eles não têm mais muito contato.
— O que a sua esposa faz? — perguntou Tanny.
— Eu não sei.
— Não sabe? Ela é sua mulher!
— Ela trabalha com os satélites de espionagem. A CIA teria que matá-la se
contasse o que faz —, comentou Redmeat com sarcasmo.
— Seu cargo —, disse Michael —, diz que ela é vice-presidente assistente
de planejamento estratégico de marketing. Quanto ao que ela realmente faz,
não tenho a mais vaga idéia. Ela começou em vendas, então foi para marketing,
e agora acho que ela apenas comparece a reuniões durante todo o dia.
Depois de diversas conversões por estacionamentos lotados, eles chegaram
ao edifício K. E lá estava Barney Tillman esperando bem atrás da porta de vidro
da entrada. Ele era um homem magro cujo corpo sempre pareceu a Michael,
um trançado de tensas cordas de piano, recobertas por pele. Mesmo a vinte
metros de distância Michael podia sentir sua impaciência.
— Olhe para ele —, disse Michael, enquanto punha a alavanca do câmbio
em ponto morto. — Ele provavelmente já trocou a roupa de baixo umas seis
vezes. Vai ser um grande dia, posso garantir.

Pelo final da manhã, Michael os havia trazido de volta ao cronograma. Ele


adiou uma cena para o dia seguinte, apressou-os nas outras e eles até puderam
tirar meia hora para o almoço.
Eles deveriam filmar o presidente da Divisão de Sistemas QRM, um cara
chamado Bob Garvey, às treze e trinta naquela tarde. Ao meio-dia e quarenta e
cinco começaram a instalar os equipamentos em um canto do departamento de
engenharia da QRM. Garvey deveria andar até entrar no enquadramento, falar
cerca de vinte segundos, sentar-se em uma estação de trabalho de engenharia,
falar durante outros trinta segundos aproximadamente e, depois, levantar casual-
mente e dirigir-se para fora do enquadramento. Por causa do andar, eles tiveram
que iluminar uma área ligeiramente grande. E então tiveram problemas para
16
eliminar a distorção causada pela tela do monitor da grande e bela estação de
desenho por computador que apareceria na gravação. Mas às treze e trinta,
estavam prontos. Garvey, porém, não apareceu.
Barney Tillman foi procurá-lo, mas voltou sozinho depois de vinte minu-
tos. Garvey estava em uma reunião com o supervisor da divisão. Eles teriam que
esperar, e esperaram. Às duas e quinze Garvey apareceu. Era magro, cabelo
prateado, meio alto, com a face muito enrugada. Vestia um terno azul, o que só
enfatizava ainda mais sua palidez. Parecia tenso, distraído, quase tremendo.
Entretanto, pediu desculpas pelo atraso, um comportamento raro para um exe-
cutivo da Três-E o que Michael apreciou.
— Maquie-o um pouco —, Michael pediu discretamente a Tanny —, e,
se puder, tente fazê-lo relaxar.
Tanny pediu a Garvey que sentasse e abriu uma maleta que parecia uma
caixa de equipamento para pescar, mas que continha estojos, esponjas de
maquiagem e pincéis. — Isso só vai fazer o senhor ficar mais parecido consigo
mesmo, acredite ou não.
— Uh-huh. Como faço para tirá-la depois que terminarmos?
— Oh —, disse ela —, batendo de leve em sua face com uma esponja —,
um pouco de gasolina geralmente resolve.
Ela riu e Garvey também.
— Não, apenas lave o rosto com água e sabão. Sai facilmente, sem proble-
mas — Pat, pat, pat, pat. — Você trabalha na Três-E há muito tempo?
— Quase toda a minha vida profissional. Mas só estou aqui em Bridgeford
há poucos anos.
— É? Onde esteve antes de se mudar para cá?
Tanny era uma mulher bonita. Rosto redondo, grandes olhos castanhos,
cabelos pretos com corte estilo pajem e franja, nariz bonito, lábios carnudos.
Garvey não tinha escolha a não ser olhar diretamente para ela. As atenções de
uma mulher bonita alcançaram o pretendido efeito calmante. Garvey começou
a relaxar.
O presidente da divisão conversava agradavelmente quando ela pergun-
tou: — Sua esposa gosta de Bridgeford?
— Não muito. Ela morreu seis meses depois de nos mudarmos para cá.
Tanny congelou, com a esponja de maquiagem a meio caminho. — Oh,
sinto terrivelmente.
Garvey franziu as sobrancelhas e um silêncio constrangedor se abateu so-
bre eles. Enquanto Tanny procurava pensar rápido em alguma outra coisa para
dizer, Garvey mudou de assunto: — A maquiagem é a sua especialidade?
— Não, sou operadora de câmera. Cameraman.— Ela sorriu novamente.
— Operadora de vídeo, se preferir. Mas também sou encarregada de fazer a
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maquiagem na maior parte das vezes. Algumas pessoas não se sentem bem se
um homem aplica maquiagem em outro, então normalmente executo essa tare-
fa, uma vez que sou a única mulher no grupo.
— Bem, imagino que alguém tem que fazer —, disse Garvey.
— Na verdade, Michael é muito melhor que eu na maquiagem.
Ela se virou e olhou para Michael que estava em pé por perto, fingindo
ajustar a câmera para não parecer que estavam esperando por Garvey. Agora ele
olhou para ela, mesmo com Garvey olhando em sua direção.
— Onde você aprendeu...
— Fiz teatro —, disse Michael. — Há muito tempo.
— Sério? Você foi ator?
— Por algum tempo.
— Só teatro ou também fez filmes?
— A maior parte do tempo, teatro, como ator. Depois, mudei para o
outro lado.
— Outro lado?
— Da câmera.
— Entendo.
— Trabalhei em alguns programas de televisão. Um par de filmes.
— Verdade? Alguma coisa que eu possa lembrar?
— Day and Night, foi um deles.
Garvey balançou a cabeça, sem lembrar.
— Acho que três pessoas, no total em todo o país o viram. Não teve
grande distribuição.
— Mas ganhou um prêmio, não? — disse Redmeat. Tanny tinha acabado
a maquiagem, mas Red estava prendendo o microfone sob o colarinho da cami-
sa de Garvey.
— Sim, ganhou —, disse Michael. — Algumas vezes ele é exibido na
televisão a cabo, geralmente tarde da noite.
— E seu outro filme? — Garvey perguntou.
— Nunca foi lançado.
Garvey perguntou: — E como você acabou... — Ele parou, percebendo
que a resposta poderia ser desagradável.
— Aqui em Bridgeford? —, disse Michael. — Bem, depois de perceber
que não iria ser o próximo Spielberg, aceitei um trabalho de professor na escola
de arte dramática da Universidade de Bridgeford. Infelizmente, depois de um
ano, o cargo foi extinto. Depois disso, eu tive uma entrevista na Barkes &
Collwin. Eles analisaram meu currículo e me contrataram como vice-presiden-
te dos projetores de slides.
Todos riram. Redmeat deu um passo atrás, tendo terminado com o
microfone.
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— De qualquer forma —, disse Michael —, comecei na agência como o
responsável pelo audiovisual, com dois projetores de slides tipo carrossel e, ah
— ele apontou para as luzes, a câmera, o pessoal atrás dele — meio que fui
tomado. Transformei-a num negócio de um milhão de dólares.
Garvey acenou com a cabeça. Um negócio de um milhão de dólares não
era um grande negócio em seu clube. — Bom para você.
Sim, claro, pensou Michael. — Bem, o que você diz sobre falarmos do
QRM-70 e que produto de qualidade maravilhosa ele é. — De repente, ele
subiu em uma cadeira próxima de forma a poder se dirigir ao resto do departa-
mento. — Nós vamos começar a filmar o Sr. Garvey agora. Agradeceríamos se
vocês pudessem manter o maior silêncio possível. Obrigado. — Ele desceu e foi
para trás da câmera. — Rode a fita, por favor.
Calmo ou não, Garvey foi terrível no início. Eles usaram cartões, mas
Garvey não conseguia falar sem mover os olhos e deixar transparecer que estava
lendo. Depois de duas tomadas, Michael reduziu o caminhar de Garvey a um
par de passos apenas. Melhorou, mas ainda era terrível.
Depois de mais algumas tomadas, Michael eliminou os cartões, ficando ao
lado da câmera e fazendo perguntas que levariam às mesmas informações do
script, permitindo que Garvey respondesse usando suas próprias palavras. Em-
bora fosse um péssimo ator, tinha, como a maioria dos executivos, a capacidade
de falar naturalmente e esse estilo combinava com ele.
Eles estavam quase terminando a sétima tomada, e Garvey estava melho-
rando, quando alguém chegou atrás de Michael e disse: — Por favor.
De relance, Michael viu Redmeat, que estava monitorando o áudio pelos
fones de ouvido, fazer o movimento que significa cortar o pescoço.
— Não, vamos manter a fita rodando —, disse Michael firmemente, sem
ao menos olhar para o intruso. — Mantenha o mesmo pensamento, Bob, você
está indo muito bem. Marque essa como 7-B. Bob, conte-nos novamente sobre
o compromisso com a qualidade da nova linha QRM-70.
Mas Bob Garvey, tendo reconhecido a pessoa agora em pé à esquerda de
Michael, já levantava. Michael se virou. Em pé, a seu lado, estava um homem
baixo, num elegante terno escuro. De suas filmagens no Cubo ao longo dos
anos, Michael reconheceu-o imediatamente: O chefe de gabinete do conselho
administrativo, Norman Dexter.
— Corta. Pare a fita.
— O Sr. Bromman gostaria de vê-lo no escritório dele —, disse o velho
calmamente a Garvey.
— Eu termino em alguns minutos.
— Ele gostaria de vê-lo imediatamente —, respondeu o velho.
Claramente embaraçado e incomodado pela interrupção, Garvey tirou o
microfone. Redmeat ajudou-o a desvencilhar-se do fio.
19
— Desculpe —, Garvey disse a Michael. — Deve ser urgente. Espero que
não demore.
O velho foi na frente e deixou o estúdio, seguido por Garvey.
Michael virou-se para Redmeat e Spider: — Vamos poupar as luzes.
Eles desligaram tudo e esperaram. Depois de alguns minutos, Barney
Tillman começou a se impacientar.
— Não podemos gravar alguma outra coisa até que Bob volte? — perguntou.
— Bem, na verdade não —, disse Michael. — Ainda não gravamos essa
cena e, se seguirmos adiante, desperdiçaremos tempo tendo que montar tudo
aqui duas vezes. E se o Sr. Garvey voltar enquanto estivermos gravando outra
tomada, ele terá que esperar por nós...
— Certo, certo —, disse Tillman.
Passaram-se dez, quinze, vinte minutos. Finalmente, depois de quase meia
hora, Tillman não agüentava mais. — É melhor eu ir ver o que está acontecendo.
Ele saiu e outros dez minutos se passaram. Michael começou a se sentir
sonolento. Um a um, cada membro da equipe começou a bocejar. Então, no
corredor, ouviram-se gritos e vozes exaltadas, mas eles não conseguiam enten-
der nada. A gritaria parou. Então ouviram-se vozes diferentes. Em seguida, elas
cessaram. Alguns segundos depois, uma mulher, batendo com os saltos no chão,
correu pelo corredor chorando.
— Que diabos está acontecendo? — perguntou Michael.
Um homem de camisa branca e gravata entrou no departamento e anun-
ciou, não para Michael e equipe, mas para os engenheiros em suas estações de
trabalho —, que Bromman havia despedido Bob Garvey.
Foi quase como se ele tivesse dito que Kennedy havia sido morto. Houve
um choque imediato, seguido por um murmúrio baixo, e depois todos os enge-
nheiros, todos no departamento começaram a falar. No meio disso tudo, Tillman
retornou.
— Acabamos de ouvir que o Sr. Garvey foi demitido —, disse Michael.
A aparência de Tillman era como se várias cordas de piano sob sua pele já
estivessem rompidas.
— Não tenho certeza do que isso significa... — disse Michael, referindo-
se à montagem para a gravação de vídeo. Eles deveriam desmontar tudo e gravar
uma outra cena ou o quê?
— O que significa? Tillman deu uma risada denotando choque, exaspera-
ção. — Significa que a maioria das pessoas nesta sala, neste prédio todo, perderá
os empregos! Significa que mil e quinhentas pessoas em nossa fábrica de White
Falls vão receber bilhetes azuis!
Mesmo antes de Michael conseguir absorver tudo isso, Tillman acrescen-
tou: — A linha QRM inteira foi cortada!
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— Não entendo...
— O que há para entender? A QRM é história! A maioria das pessoas que
tinham alguma coisa a ver com ela já é história!
Como uma criança, Michael perguntou: — Mas por quê?
— Por quê? — Tillman abriu os braços, desanimadamente levantou-os e
nada disse. — Não sei por que! Eles não me contam essas coisas.
Michael assumiu uma postura profissional. — Barney, não quero ser in-
sensível agora, mas...
— Mas você quer saber o que fazer com a conta.
— Bem... entre outras coisas, sim. Se o vídeo foi suspenso...
— Esse projeto não foi suspenso —, Tillman quase gritou. — Esse projeto
foi cancelado, certo? Você entendeu? Tudo relacionado ao QRM foi cancelado.
Certo? Coloque as fitas em uma caixa e mande-as para mim com a conta. Ok?
Agora tenho que voltar para o meu escritório. Tenho certeza de que esse não
será o único desastre do dia.
Quando Tillman abriu a porta para sair, puderam perceber que o prédio
soava diferente. Naquela manhã, quando chegaram, o ambiente emanava satis-
fação e ocupação. Agora era um burburinho de desordem.
Michael virou-se para a equipe. Seu rosto estava inexpressivo. Caminhou
lentamente para a cadeira mais próxima e sentou-se. A equipe olhou para ele,
esperando que lhes dissesse o que fazer. — Bem —, ele disse —, acho que é o
final da gravação.

A viagem de volta para o centro de Bridgeford foi silenciosa. Normalmen-


te ao final do dia eles brincavam uns com os outros e se divertiam. Ou fofoca-
vam sobre os clientes, ou ainda entabulavam uma discussão técnica sobre, por
exemplo, as qualidades de um determinado tipo de lentes. Mas naquele dia
ninguém conseguia conversar.
Que desperdício, Michael pensava. Ele havia pressionado a si mesmo e a
todos durante todo o dia, e agora se sentia mal por isso. Ele havia protestado e
discutido com os criadores dos efeitos especiais em Los Angeles, conseguindo que
tudo ficasse perfeito. Não importava mais, e ele ainda nem tinha recebido a fatura
desse trabalho, uma conta que seria bem alta. Que desperdício. Ele também esta-
va preocupado. O QRM, um belo negócio que se foi. Ele pensou sobre tudo isso
até Redmeat se inclinar, depois de sete ou oito quilômetros, para perguntar.
— Ei, Mike. O que vai acontecer, você sabe, agora que eles cancelaram o
vídeo?
— Significa que não vamos ter muito o que fazer por enquanto.
Spider deu um espetáculo ao chutar os sapatos dos pés e se espalhar no
assento. — Parece ótimo, para mim.
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— É. Vai parecer bom até que você esteja na fila dos desempregados. —
disparou Tanny. E para Michael ela disse: — Acho que o que Redmeat estava
perguntando, se é que posso ser mais direta, é se ainda teremos emprego no
futuro imediato. Se a Três-E começar a despedir um monte de pessoas...
Michael ficou irritado, para começar, com a pergunta. Ele não precisava
disso naquele momento. — É, você vai ficar bem.
— Nós vamos?
Michael olhou para Spider através do espelho retrovisor e disse: Ei, Spider,
há quanto tempo você trabalha para mim?
— Sete? É, acho que são sete anos —, disse Spider.
— Você ou alguma outra pessoa já foi dispensado enquanto trabalhava
comigo?
— Houve aquele cara, o Clifford.
— Não, o Clifford eu despedi por ser um ladrão. Houve outros que esti-
mulei a pedirem demissão, por razões diversas. Estou falando sobre trabalho
fixo de pessoas honestas e competentes. Eu não dei cobertura para vocês nas
situações boas e ruins?
Eles nada disseram, significando que a resposta era sim. Isso pareceu satis-
fazer Redmeat e Spider. Michael olhou para Tanny. E então?

Na rua Nove, Michael virou na entrada de seu prédio, manobrando por


entre caminhões de entrega nos fundos do edifício. A rampa de carga estava
bloqueada pelo guincho tipo plataforma que veio buscar o Buick que Stoney
Paxton e sua equipe de free lancers usaram para gravar o comercial da concessio-
nária. Ao menos ainda temos esse negócio, Michael pensou, por menor que seja,
enquanto estacionava.
Fazia parte da ética particular deles que qualquer um com uma mão livre
deveria ajudar, especialmente no fim do dia. Assim, todos pegaram alguma
coisa para carregar. Stoney estava logo atrás da porta. Ele tinha uma constitui-
ção sólida, era alto e magro, de trinta anos, com uma farta cabeleira cor de
areia, meio longa, partida ao meio. Stoney pôs a mão no braço de Michael
quando ele passou: — O filme da costa chegou pelo Federal Express esta
manhã. Dei uma olhada. Belo trabalho!
— Obrigado. Pena que ninguém jamais o verá.
— Por quê?
Ele explicou resumidamente, entrou na Caverna, arrumou sua maleta e se
dirigiu ao escritório, fechando a porta. Seu escritório era comum em muitos
aspectos, com mesa padrão de metal, três cadeiras para visitantes e um quadro
negro com um cronograma desenhado, mas, estando no subsolo, obviamente
não tinha janelas. Na parede oposta à mesa havia prateleiras com presentes
22
engraçados e projetos abandonados, reunidos ao longo de anos: um capacete de
bombeiro; uma máquina de cobrança de passagens de ônibus usada como piada
para pagar a equipe e dar aumentos; um modelo em escala de um Rolls-Royce
sem rodas sobre um pedestal; um gorro de Papai Noel; um pato chamariz reple-
to de buracos de bala; uma hélice de turbina a jato de aço inoxidável com uma
bela forma geométrica; um objeto cênico usado em seu primeiro filme industri-
al para a Três-E (sim, filme; ele o produziu há dez anos); e uma variedade de
outros objetos bizarros.
Michael se jogou na cadeira, apoiou os cotovelos na mesa e cobriu o rosto
com as mãos por um momento. Então, girou para ver o cronograma. Como se
fosse um grande esforço, ele se levantou e apagou as marcas de giz relativas à
QRM. O pó assentou no chão, e eliminado o QRM, olhou os buracos.
Ele suspirou, pegou o telefone e discou os quatro números do ramal de
Lyle Beekstra, vice-presidente e diretor regional da Barkes & Collwin Propa-
ganda/Bridgeford, seu chefe. Ao primeiro toque, desligou antes que alguém
atendesse. Detestava falar com Beekstra mesmo em boas circunstâncias. Ele
retardou a ligação por cerca de um minuto, com o fone numa mão e a outra no
teclado, pensando sobre o que iria dizer. Então pôs o fone no gancho. Pegou-o
novamente. Isso tinha que ser feito.
— Escritório do Sr. Beekstra.
— Ele está?
— Está em reunião.
— Aqui é o Mike da Produção de Vídeo. Ele já sabe sobre a QRM?
— Uh-hum. Sim, acho que é por isso que estão todos em reunião.
— Ótimo, falo com ele na segunda-feira.
Ele desligou e aproveitou o alívio por um momento. Depois discou um
outro número.
— Escritório de Regan DiGabriel.
— Ela está?
— Ela está em uma reunião.
— Diga-lhe que Michael ligou.
— Ela deve ligar de volta?
— Não, estou me aprontando para sair. Apenas diga a ela que liguei nova-
mente e que a vejo em casa à noite.
Ele estava quase pegando sua maleta quando Tanny Zoelle entrou.
— Você tem um minuto?
— Claro.
Ela fechou a porta e sentou. — Mike, eu não queria dizer... É que tenho
um filho para sustentar e minha mãe está no seguro social. Realmente quero
saber se devo procurar outro emprego. Por favor, seja honesto.
23
Michael esforçou-se para ser paciente. — Você quer procurar outro em-
prego?
— Não, não quero.
— Então relaxe.
— Mas o que aconteceu hoje...
— Olha, não posso prever o futuro. Mas algum trabalho vai aparecer.
Sempre apareceu —, disse Michael. — De qualquer forma, e guarde isto para
você, ok, existem outras pessoas aqui que iriam antes de você.
Com isso ela respirou profundamente e acenou com a cabeça. Parecia ali-
viada, e se levantou para sair.
Na porta, virou-se e disse: — Qualquer dia, eu gostaria de ouvir sobre sua
vida em Hollywood.
— Certo. Qualquer dia.
— O que você fez em Day and Night?
— Fui primeiro assistente.
— Alguma vez teve a chance de dirigir?
— Você quer dizer antes de vir para Bridgeford? Sim, uma vez.
— Verdade? Qual...
— Um que nunca foi lançado.
Ela hesitou. Claramente queria saber mais, porém estava com medo de
perguntar. — Talvez possamos conversar sobre isso qualquer dia. Esse sempre
foi o meu sonho. Sabe... como qualquer um neste negócio, eu acho.
— Uh-hum.
— Tenha um bom fim de semana.
— Vou tentar.

Michael chegou em casa às cinco horas, mesmo tendo parado no aeropor-


to para retirar sua mala (ela estava no carpete ao lado da esteira; Michael estaci-
onou ao lado da calçada, entrou, pegou a mala, jogou-a no porta-malas e par-
tiu). Estar em casa uma ou duas horas mais cedo que o habitual era a única coisa
boa decorrente da perda do projeto QRM.
Sua casa ficava em Deerfield, quatro saídas ao norte depois do centro da
cidade, pela rodovia interestadual, mais oito quilômetros a oeste por estrada
asfaltada. Deerfield estava para Bridgeford, em menor escala, como Marin está
para San Francisco, Bucks para Philadelphia, Westchester para New York, Ran-
cho Santa Fe para San Diego. Escolha a cidade, todas elas têm ao menos um
gueto dourado para os bem-sucedidos.
H. Albert Bromman morava em Deerfield. Mas Hal e Kitty Bromman
não eram exatamente vizinhos dos DiGabriels. Os Brommans viviam em
24
Deerfield Heights, onde havia muros de pedra e chácaras com vastos gramados,
caminhos demarcados e segurança particular. “Os Heights” localizavam-se no
alto dos costões do rio Maccagheny, em uma faixa estreita, com o rio a oeste e o
Deerfield Country Club a leste. Era ali que as antigas e verdadeiras fortunas se
encontravam. Os que lutavam, e também alguns cidadãos comuns que apenas
queriam um bom lugar para viver se estabeleciam em Deerfield, que cobria
uma grande área e incluía o centro da cidade.
Michael DiGabriel não tinha inclinação especial para viver em Deerfield
até se envolver com Regan Smith. Pouco antes de ficarem noivos, em uma tarde
ensolarada de domingo eles passavam pelos Heights a caminho da casa de ami-
gos. Regan indicava o trajeto e Michael dirigia sem nem ao menos perceber
onde estavam, já que ele nunca tinha passado por aquela estrada. A maioria das
casas nos Heights fica escondida atrás de muros e arbustos, mas Michael e Regan
fizeram uma curva e lá estava, completamente à vista, uma elegante casa de
pedra em estilo de fazenda com alpendre e venezianas verdes, com um pomar
nos fundos e uma cerca de madeira ao longo da estrada.
— É aqui que eu quero morar—, disse Regan.
— Muito bem —, disse Michael, tirando os olhos da estrada por um
segundo. — Parece muito bom.
— Ótimo —, disse ela, batendo na perna dele. — Você entra com o pri-
meiro milhão e eu contribuo com o resto.
— O quê? Neste lugar? Por uma casa de fazenda?
Ela riu exasperada. — O que você espera? — perguntou ela retirando a
mão. — Está bem na Burberry Road!
O que não significava nada para Michael naquela época, mas Regan ten-
tou explicar-lhe, citando nomes de famílias que moravam ao longo dessa estra-
da até o coração dos Heights. Muitos desses nomes também nada significavam
para ele, mas reconheceu uns poucos, nomes que tinha visto no topo do
organograma da Três-E ou que ouviu na agência. Eram nomes de bancos, os
nomes dos prédios do centro da cidade e das ruas, nomes cinzelados em pedra
nas bibliotecas e em prédios da universidade. Era ali que os donos originais
desses nomes viviam, em Deerfield Heights.
Michael ficou quieto pelo resto do caminho. Na casa de seus amigos — na
verdade, amigos de Regan — ele ficou calado e bebeu mais que todos.
— Qual é o problema? — Regan perguntou-lhe quando tiveram alguns
segundos a sós.
— Nada, estou bem.
Claro que na volta para casa eles tiveram uma briga, por causa da bebida.
Ele a deixou e foi para casa só. No dia seguinte ele se sentia amargo, fraco, o que
inicialmente atribuiu à ressaca. Mas era mais que isso. Regan não telefonou para
25
ele nem ele para ela. Ele entrou no carro e dirigiu a esmo, acabando na Burberry
Road, onde tentou descobrir o que o incomodava.
O mistério não era difícil. Quando ele deixou Los Angeles com trinta e
um anos, tinha abortado sua carreira cinematográfica e abandonado suas fanta-
sias, desistindo de qualquer ilusão de que algum dia seria rico. O que ele achava
bom. Nunca tinha sido sua meta acumular riquezas. Ele só queria fazer filmes e
talvez tornar-se famoso, subentendendo que, se fosse bem-sucedido, também
ganharia dinheiro. Bem, ele falhou, e o dinheiro, o dinheiro grosso, não estava
lá esperando por ele. Nunca estaria, imaginou.
Mas ele fez as pazes com isso. Ele caiu, se levantou, se envolveu com outra
coisa e se deu bem. Mais que bem. Ele era vice-presidente de um grupo. Ganha-
va $49 mil por ano, o que era um bom dinheiro nessa cidade. Era um pequeno
herói na Barkes & Collwin, tendo levantado o grupo de produção do nada a
alguma coisa. Ele dirigia um Porsche 944 Turbo e tinha uma carteira cheia de
cartões de crédito ouro. Costumava diverti-lo o pensamento de que em certo
sentido carregava 25 mil dólares no bolso de trás: a soma dos limites de crédito
de seus cartões. Ainda assim, quando ele dirigiu pela Burberry Road, vendo as
grandes casas através dos arbustos, tudo isso era... insignificante. E Regan Smith
sabia.
Regan Smith conhecia o dinheiro, embora ela própria não tivesse vindo de
família rica. Seu pai era um advogado de empresas, e seus pais estavam, como
ela dizia, “bem, mas não ricos”. Ela era bem preparada. Tinha freqüentado uma
escola “Senhorita Alguma Coisa” em Connecticut. Freqüentou Williams e ob-
teve seu MBA em Wharton. Ela viveu nas proximidades da riqueza durante
toda a vida. Entendia que a verdadeira riqueza não tinha absolutamente nada a
ver com carros ou roupas ou cartões de crédito ou brinquedos espalhafatosos ou o
preço da residência de alguém. Essas são apenas as imagens do povo sobre a
riqueza. A verdadeira riqueza é ter muito dinheiro para fazer ainda mais dinheiro.
Ele continuou a ouvir o tom de sua voz no dia anterior. Sim, ela estava
brincando sobre a casa de fazenda. E estava falando sério. Ela realmente esperava
chegar lá algum dia, ele podia senti-lo naquele tom. Mesmo agora, ela ganhava
mais que ele, de fato, bem mais. Quando descobriu isso pela primeira vez, reagiu
tranqüilamente. Ela ganhava $94 mil por ano. Bom para ela. Ele tinha um ego
saudável, não tinha? Ele poderia lidar com isso. E se eles casassem...
Com a Burberry Road bem para trás, ele continuou dirigindo. Para onde
estava indo? Em que estava entrando? Se os valores dela estavam direcionados
para Deerfield Heights, por que, em nome de Deus, queria se casar com ele?
Quantos jogos sujos ele teria que jogar — pois era assim que ele pensava em
dinheiro e sucesso naquela época: você jogava o jogo sujo e ganhava como
prêmio o sucesso — para chegar onde ela queria chegar?
26
Ele se sentiu como um impostor. Ele sentiu que era... bem, não sem valor,
mas valendo menos do que no dia anterior. As pequenas realizações de sua vida
realmente pareciam triviais. Ele se convenceu de que algum erro colossal de
emoções fora cometido. Ele dirigiu de volta, atravessando o rio, até a casa dela
e lá chegando tocou a campainha. Ela o deixou entrar.
— Acho que talvez devamos pensar em desmanchar tudo.
Ela pareceu assustada: — Por quê?
— Você realmente espera morar em Deerfield Heights?
Ela virou os olhos. — É isso que está devorando você?
— Veja, não sou milionário, e provavelmente nunca serei, a não ser que
ganhe na loteria, o que é muito improvável porque nunca jogo na loteria.
— Michael — ela pôs as mãos em seus ombros. — Não espero que você
me sustente nas coisas com as quais eu gostaria de me habituar. Ok?
— Então o que você espera?
— Eu... não sei. Espero que faça o melhor que você puder —, disse ela
vagamente. — Apenas isso.
Ela o pegou pela mão, fê-lo sentar-se no sofá, acalmou-o. Conversaram
sobre o assunto por dez minutos, fizeram amor por uma hora e casaram seis
meses depois. Logo depois, compraram uma casa em Deerfield.

A casa deles fazia parte de um novo conjunto chamado “The Meadows”,


uns poucos quilômetros dos Heights. E em Meadows nenhum quintal tinha
plantas que encobrissem as casas, ao contrário, tudo era feito para que a cons-
trução tivese a melhor vista possível da rua. Nos Heights as ruas geralmente
tinham os nomes dos proprietários originais das terras. Aqui em Meadows to-
das as ruas tinham os nomes de frutas ou flores. A casa deles ficava no conjunto
Flor de Cerejeira, um nome que fazia Michael se irritar todas as vezes em que
tinha que escrever seu endereço num envelope.
— O que tem de errado com Flor de Cerejeira? Regan perguntou uma vez
em que Michael tinha ridicularizado o nome numa festa.
— É um nome muito frufru.
— Bem, onde você quer morar? Na avenida Dia D? Na alameda Pit Bull?
A casa custou 442 mil dólares, uma soma que em Bridgeford, mesmo em
Deerfield, mesmo em Meadows, era alta. Eles pagaram 10% à vista e o restante
em prestações. Michael contribuiu com 15 mil dólares, que representavam to-
dos os centavos que ele pôde juntar, e Regan colocou 15 mil depois de instruir
seu corretor a vender algumas ações; e a diferença foi presente do pai dela. Com
isso, eles conseguiram uma casa de pedras com dois andares e garagem para três
carros; uma grande área acima da porta da frente; quatro banheiros com piso de
mármore; hidromassagem no banheiro principal; três lareiras; um grande deque
27
com piscina nos fundo e quatro mil metros quadrados de gramado e arbustos.
Uma hora depois de fechar o negócio, Michael, com as chaves nas mãos,
vagava pela casa desnorteado. Regan já tinha providenciado a ligação do telefo-
ne. Ela falava ao telefone com os pais, reclamando do empreiteiro, enquanto
Michael, andando de um quarto vazio para o outro, via passar pela mente as
lembranças dos cubículos atulhados e dos quartos com reboco danificado em
que ele passou a infância e das ratoeiras de seu tempo de ator. E agora isso. Ele
olhou em volta observando como era limpo, recendendo a pintura nova. Acei-
tou tudo sem questionamentos.
Havia quatro quartos na casa, o que em certo sentido era ridículo, porque
eles não tinham filhos. Regan afirmava, especialmente em público, que queria
filhos, mas ainda não tinha parado de tomar a pílula. Michael gostaria de ter
filhos, mas não pressionava a respeito. Enquanto isso, usavam o quarto princi-
pal como o quarto do casal, é lógico, usavam o segundo como quarto de hóspe-
des e Regan organizou o terceiro como o seu escritório em casa. O último
quarto era supostamente o escritório de Michael, mas de fato estava ocupado
com os móveis de seu velho apartamento.
Quando Michael trazia serviço para casa, normalmente trabalhava na sala
íntima, que na verdade era a sala de TV, seu cômodo preferido. Ele tinha uma
Sony de 36 polegadas ligada ao equipamento de som estéreo. Atrás dela, na
parede revestida de madeira, havia prateleiras com fitas de vídeo que ele filmou
ou comprou. Ele também tinha alguns filmes em disco laser e um aparelho de
videodisco próximo a um par de gravadores de vídeo VHS. Na parede lateral
havia mais prateleiras lotadas de novelas, dramas e livros de história — ele era
um discreto estudioso da Guerra Civil norte-americana. E havia a cadeira dele
— Regan chamava-a de sua cadeira Archie Bunker4, mas na realidade era uma
cara poltrona reclinável de couro. Quando trabalhava em casa, com scripts,
pastas de contas ou memorandos da agência no colo, ele inevitavelmente ador-
mecia em sua poltrona.
Foi lá que Regan o encontrou quando chegou em casa às sete. Ela veio e
chutou-o — não forte, só o suficiente para despertá-lo.
— Oi, olá.
— “Oi, olá” —, ela o imitou. — Onde, diabos, você estava na noite pas-
sada?
Ele percorreu às pressas sua mente entorpecida. A noite passada parecia
muito tempo atrás. — Eu estava voando pelo país com um bando de estranhos
por horas a fio.

4
Archie Bunker significa um operário com pouca instrução formal, opiniões ultraconservadoras,
racistas e machistas (N. do T.).

28
— Toda a noite?
— Não. Acabei em Chicago.
Ela largou sua bolsa. — O que você estava fazendo lá?
— Não sei! Havia uma enorme tempestade sobre Dallas e deu tudo erra-
do. Perdi minha conexão e me largaram em Chicago. Tive sorte de encontrar
um quarto num motel.
— Você poderia ter telefonado.
— É, poderia, mas você não teria atendido. — Era verdade. Ela sempre
desligava o telefone à noite, antes de ir para a cama.
Ela tirou o casaco e chutou os sapatos. Ela certamente era, se não bonita,
pelo menos uma mulher muito atraente. Loira natural; olhos azuis-claros um
pouco pequenos (usava lentes de contato) e pele clara; malares altos, com um
rosto um pouco comprido; um bonito nariz arrebitado; lábios grossos e um
corpo malhado em três sessões semanais de aeróbica, além do tênis. Regan pen-
sava em seu corpo como longe da perfeição: os lábios grossos demais; as coxas
também muito grossas, mas Michael não concordava.
— Você poderia ter deixado uma mensagem na secretária.
— Regan, minha linguagem naquela hora teria derretido a fita.
— Ou ao menos um correio de voz no escritório.
— Eu telefonei para o escritório, você não recebeu o racado? E por falar
em...
— Não mude de assunto. — Ela colocou as mãos nas cadeiras. — recado
apenas informava que você telefonou, não onde esteve durante toda a noite.
— Então você não estava preocupada comigo. Estava preocupada apenas se
eu tinha me divertido ou não.
Um pequeno sorriso de divertimento esboçou-se nos lábios de Regan, e
assim que Michael o viu soube que qualquer perigo real tinha passado. Ela
cruzou os braços no peito de um modo que levantou os seios, gesto que lembra-
va a Michael sua professora primária quando queria mostrar desaprovação.
— E então? — Regan perguntou.
— Então o quê?
— Divertiu-se na Cidade dos Ventos?
— Oh, sim. Peguei um par de colegiais e levei-as para o quarto.
— Espero que tenha usado camisinha.
— Acho que, realmente, gastamos uma ou duas dúzias.
Ela pulou para cima da poltrona e levantou a mão como que para dar uma
palmada nele, mas ele segurou seu pulso e puxou-a para cima de si. — Você...
— Ela tentou com a outra mão, mas ele a agarrou também. — É melhor que
esteja mentindo.
— Estou. Não usamos nenhuma camisinha.
29
Isso provocou-a novamente. Ela livrou uma mão e a levantou para bater,
mas ele aparou com o braço.
— Estou rompendo com você! — Ela disse.
— Você quer dizer que ainda não tinha rompido?
Ela tentou levantar-se, mas ele a segurou em seu colo.
— Me larga.
— Você vai ser boazinha?
— Boazinha? Você é quem anda aprontando com colegiais.
— Eu estava apenas brincando, querida. — Seu tom era sério e tranqüilo.
Ele escorregou a mão por baixo da saia dela, acariciando a coxa. — Você sabe
que havia apenas uma mulher em minha mente ontem à noite.
— É, então por que não ligou?
— Por que não liguei? Porque sabia que você estava ocupada.
— Ah, ocupada com que?
— Ocupada com outros homens.
Um novo olhar iluminou seus olhos. — Oh, sim. Todos aqueles homens. É.
— Quantos foram ontem? — Ele perguntou.
— Quantos?
— Aposto que você os pegou no clube de tênis, não foi?
Ela estava entendendo, mas não disse nada. Ele a puxou para mais perto e
começou a beijar seu pescoço. E disse: — Aposto que você vestiu a sua malha de
lycra, foi ao clube e deixou todos os treinadores pegando fogo.
— Como você sabe?
— Tenho meus meios.
Ela se inclinou e beijou-o na boca. Ele estava desabotoando a roupa dela.
— Então, quantos foram? Dois? Três?
— Quatro. — Ela disse.
— Quatro!
— Pelo menos. — Ela mordia carinhosamente sua orelha.
— Aposto que você fazia com três enquanto o outro olhava.
Ela sussurrou na orelha dele. — Sim.
Ele observou os dedos dela, com suas unhas vermelhas pintadas com per-
feição, desabotoando a sua camisa. — Então vocês... fizeram no clube ou vie-
ram para cá?
Ela sussurrou em seu ouvido: — Fomos ao Ás de Paus.
Ele teve que segurar o riso. Eles faziam piadas com o Ás de Paus, um motel
de alta rotatividade na estrada interestadual. — Você provavelmente fez os trei-
nadores pagarem.
— Claro.
Ela levantou a saia e montou nas pernas dele, tirando a blusa.
30
— Você foi para o quarto do trapézio ou da cama d’água em forma de
coração? — perguntou ele.
— Não, para a suíte do chicote e correntes. — Ela puxou as alças do sutiã
e desabotoou-o.
— Quem ficou com o chicote, você ou eles?
— Adivinhe!
— Mostrando seu estilo de gerência, heim? O que diriam de você em
Wharton?
— Fique quieto e faça.
Eles terminaram no chão, com as roupas jogadas ao redor. Quando aca-
bou, ele apoiou a cabeça na coxa direita dela e acariciou seus cachos loiros. Ela
ficou lá deitada olhando para o teto e depois de um minuto disse: — Você
realmente sabe apimentar.
— De vez em quando.
Ela se ergueu e se apoiou nos cotovelos. — E por falar em pimenta, o que
você está fazendo para o jantar?
— O que estou fazendo? Não sei. O que você tirou do freezer ontem à
noite?
— Eu não tirei nada. Eu esperava que você tirasse alguma coisa.
— Eu não estava em casa ontem à noite, querida.
— Bem, você chegou cedo em casa.
Ele sentou-se de costas para ela. Estava claro que a lua-de-mel acabara.
— Vamos sair — ele disse.

Vestindo-se, eles discutiram sobre onde ir. Michael insistia no Jimmy’s


Peking Palace, não porque quisesse comida chinesa mas porque queria usar seus
jeans e botas de cowboy. Regan dizia que o Jimmy’s era decadente e queria ir ao
Antoine’s, mais formal. Eles concordaram em ir ao Red Hart Inn, o melhor bar
yuppie de Deerfield.
— Vamos com o Porsche —, ele disse ao entrarem na garagem, onde havia
três carros: seu Porsche; o carro de “trabalho”, o Taurus; e o Lexus dela.
— Não, vamos com o meu carro —, disse ela, dirigindo-se ao Lexus. Ela
não conseguia dirigir o Porsche porque o câmbio era mecânico. — Você vai
beber demais e depois dirigir feito um idiota.
— Não vou beber demais —, ele disse, abrindo a porta do lado do moto-
rista do Porsche —, e nunca dirijo feito idiota.
Ela abriu a porta do Lexus e por um momento pareceu que sairiam com
dois carros, mas Michael, segundo a tradição de Le Mans, pulou no Porsche,
ligou-o primeiro e deu ré, virando-o de forma a bloquear o carro dela. Regan
bateu a porta de seu carro e entrou no Porsche.
31
— Por que você sempre tem que ganhar quando a questão é com que
carro vamos sair?
— Por que você sempre tem que ganhar em tudo o mais? — Ele perguntou.
Eles seguiram pela rua e Regan disse: — Que dia eu tive...
Então ele perguntou: — Ei, que diabos está acontecendo lá?
— Lá onde?
— Em sua empresa. Eu estava no prédio K gravando aquele vídeo de
marketing para a QRM...
— Ah, é mesmo —, Regan disse. — Esqueci que sua viagem foi para a
QRM, não foi?
— Bem, o que está acontecendo? O que você ouviu?
— Somente o que você provavelmente já sabe. Eles estão tirando a QRM
da tomada. Ela está perdendo dinheiro por quase dois anos. Houve uma reu-
nião hoje — eu não participei, mas aparentemente Hal Bromman disse: ‘É isso.
A festa acabou’.
— Eles não perderam tempo, não é?
— Não, não perderam. — Ela ficou quieta por uns segundos. — O que
aconteceu hoje não foi nada comparado com o que está por vir. O furacão Hal
apenas começou a soprar.
— E o que isso significa?
— Não conte a ninguém da agência, mas nós vamos cortar vinte e cinco
mil empregos ao longo dos próximos dois anos.
— Quantos?
— Vinte e cinco mil.
— Você está brincando.
— Não, não estou. E não conte para ninguém, ou eu poderei estar entre
eles.
— Vinte e cinco mil pessoas... — Michael balançou a cabeça. — É a
população de uma pequena cidade.
— É uma montanha de dinheiro, isso sim. O salário médio anual na Três-
E está em torno de quarenta mil dólares, incluindo benefícios. Imagine.
— Eu sei que é muito dinheiro, mas também é uma porção de pessoas
para demitir.
— Bem, tem que ser feito. Se eles não cortarem custos, não haverá mais
empresa e ninguém terá trabalho.
— Eles não podem fazer isso por meio de aposentadorias?
— É o que o Campbell quis fazer. Ele quis usar as aposentadorias e pelo
turnover normal, mas não foi rápido o suficiente. Foi por isso que o conselho
chutou-o e deu o posto máximo para o Bromman.

32
O dia transformou-se em um fim de tarde agradável e raios alaranjados de
sol atravessavam as árvores e atingiam o carro.
Eles ficaram em silêncio por um momento, e então Regan disse: — Você
devia ver o Cubo hoje, a partir do momento em que Bromman estabeleceu o
tom. Foi como uma grande competição de machos entre os principais executi-
vos. Eles iam correndo ao escritório de Bromman se vangloriar de quantos car-
gos poderiam cortar. ‘Eu posso cortar três mil’; ‘eu posso cortar cinco mil em
minha divisão’; ‘eu posso cortar seis mil e já no próximo trimestre!’.
Michael balançou a cabeça. — Quando vão anunciar isso?
— Não sei. Em breve. Ouvi hoje que gostariam de agendar a divulgação
de forma a causar o máximo impacto positivo no valor das ações.
— Impacto positivo?
— Claro.
— Vocês estão demitindo vinte e cinco mil pessoas e isso é uma boa notícia?
— Com certeza. A empresa vai economizar quase um bilhão de dólares
por ano com a medida.
— Economizar dinheiro, o imperativo econômico nacional! Qualquer coisa
pode ser justificada desde que se economize dinheiro! Se a Três-E quer econo-
mizar dinheiro, por que não vendem uma parte do terreno que usam como
gramado lá no escritório central?
— Seriam apenas uns poucos milhões. E, de qualquer forma, vender terre-
no não é economizar dinheiro.
— Por que não?
— Terra é um ativo, pessoas são despesas.
— Como é?
— Você não conhece contabilidade?
— Alguma coisa.
— Michael, se você vende terras, convertendo em dinheiro, e depois gasta
o dinheiro para cobrir despesas com salários, os ativos da empresa são reduzi-
dos. Você está perdendo dinheiro.
— E se despedir pessoas você estará ganhando dinheiro? Isso faz sentido?
— Se as vendas estiverem constantes ou em declínio, então o único meio
de crescer é pela redução de despesas.
— E acontece que as pessoas constituem a despesa mais fácil de cortar.
— Bem, o que você faria?
— O que eu faria? Tentaria abrir novos mercados. Se o bolo está ficando
menor, então asse um novo. Se as pessoas não puderem ser produtivas nos car-
gos atuais, então treine-as e coloque-as para trabalhar em alguma outra coisa,
algo para tornar o bolo maior.

33
— É mais fácil dizer do que fazer. Você estaria somando as despesas com
treinamento às da folha de pagamentos, sem mencionar o investimento neces-
sário para desenvolver um novo mercado, e todas essas despesas prejudicam a
última linha do balanço.
— A curto prazo prejudica o balanço, e Wall Street não tolera isso!
— Não são apenas os financistas. Muitos pequenos investidores são preju-
dicados quando os rendimentos declinam.
— Uh-hum, certo. Os pequenos investidores, todas aquelas pobres viúvas
e os pensionistas aposentados lá fora esperando por seus cheques de dividendos
chegarem pelo correio para que possam comprar comida de cachorro. É por
isso que Bromman quer demitir vinte e cinco mil pessoas. Eu sabia que tinha
que ter uma razão.
— Por que você está tão incomodado? — Ela perguntou.
— Por que você não está incomodada?
— Antes de se tornar tão moralista, olhe no espelho. Tenho mais de mil
ações da Três-E. Se elas subirem, nós estaremos melhor. E sobre os nossos outros
investimentos? — Ela estava sendo boazinha, dizendo “nossos”. A maioria do
dinheiro era dela, para começar. — Nós temos dinheiro no mercado de ações.
Você gostaria de conservar uma ação se ela não estivesse rendendo?
— Eu não tenho problemas com qualquer pessoa que ganhe dinheiro.
Quero dizer, todos gostam de ganhar dinheiro. Wall Street gosta de ganhar
dinheiro. Os empregados gostam de ganhar dinheiro. Hal Bromman gosta de
ganhar dinheiro. Por que tem que ser uma proposição tipo ganha-perde? Por
que não pode ser uma situação ganha-ganha?
— Porque se os empregados ganharem mais os investidores ganham me-
nos, e vice-versa. É simples assim.
— Mas por que tem que ser assim? Por que não pode ser que nos bons
tempos todos ganhem um pouco mais e nos tempos ruins todos — inclusive
Bromman — apertem os cintos?
— Eu não estou ganhando menos. E você sabe que os sindicatos nunca
concordariam com isso. Então, por que Bromman deveria?
— Acho que é esse o problema, não é? Todo mundo está apenas olhando
para si mesmo.
— Epa, o dinheiro que eu ganho para a empresa é que paga o meu salário.
— Sim, eu sei que é assim. Mas, por um momento, vamos dizer que o
pagamento não fosse uma quantia fixa. Vamos dizer que fosse variável. Se
você olhasse para o seu contracheque e visse que está menor, não iria começar
a fazer perguntas? Você não iria tentar se esforçar mais? Você não procuraria se
envolver mais? E se depois disso o pagamento aumentasse, isso não o faria
querer trabalhar ainda melhor? Pense a respeito disso. E se não existisse re-
34
muneração ou salário? E se todos ganhassem uma porcentagem do faturamento
líquido? Então todos iriam querer que a empresa fosse lucrativa, certo?
O Red Hart Inn apareceu na estrada, ao longo de uma curva. Enquanto
ele fazia a conversão para entrar no estacionamento de cascalho, sua mulher
estava dizendo: — Michael, você está sonhando. Veja, você gostaria que o seu
pagamento fosse variável?
— Se eu soubesse que sempre teria um emprego desde que a empresa
existisse; e se eu acreditasse que os números relatados fossem honestos; e se a
gerência me permitisse fazer o melhor trabalho que pudesse...
— É uma porção de “Ses”, Michael. Além disso, eu não sei o que iria
mudar. Se fizéssemos isso na Três-E — não que algum dia isso possa acontecer
— significaria apenas que todos ganhariam menos.
— Então todos estariam comprometidos com o faturamento, não estari-
am? — Ele desligou o motor, mas os dois ficaram sentados no carro por uns
momentos. — Tudo o que estou perguntando é: Por que o trabalho, a gerência
e os acionistas não podem ter os mesmos incentivos?
— Michael, o barco está afundando porque há gente demais nele. Alguns
têm que descer.
— E a Três-E vai jogar alguns deles no mar.
— Para que os outros possam sobreviver.
— Por que não construir mais barcos?
A questão apenas irritou-a. — Michael, todos esses pobres coitados a quem
você está dando tanta importância não se importam nem um pouco com a
empresa. Eles não se importam com os clientes. Eles com certeza não se impor-
tam com os investidores.
— Bem, por que deveriam? — Disse ele. — É justamente disso que estou
falando!
— Olhe, eu não gosto da idéia de demitir pessoas, mas a idéia de não
demiti-los é pior. — Ela abriu a porta. — Se você jogá-los no mar, eles vão
aprender a nadar. Pessoalmente, não vou perder meu sono por isso.
Não, Michael pensou, aposto que não.

O Red Hart estava lotado, com ombro tocando ombro nas proximidades
da porta. O canto do bar estava completamente abarrotado. O maître infor-
mou-os que a espera para a sala de jantar era de quinze a vinte minutos, mas que
havia lugares reservados disponíveis no bar. Ótimo.
Ele os conduziu e Michael viu que o bar na realidade não estava tão lotado
quanto parecia. Havia de um lado um par de bancos vazios. Ninguém estava
sentado neles. Assim que se sentaram, Michael viu — e ouviu — a razão disso.
Bob Garvey, cigarro em uma mão e um drinque na outra, estava na outra
ponta com uma dupla de ex-gerentes da QRM. Eles estavam em mangas de
35
camisa, gravatas afrouxadas ou sem gravatas. Pelo jeito, eles já estavam lá havia
algum tempo.
— ... E aquele bastardo, você sabe muito bem que ele vai receber seus dez
milhões este ano. Se você somar, é o que ele recebe, entre salário, benefícios,
bônus e vantagens. Em um ano ruim, um ano de prejuízo, é o quanto ele ga-
nha. O baixinho filho da puta.
Garvey estava falando em voz alta e não havia dúvidas quanto a quem se
referia. Um pouco mais sóbrio, um dos ex-gerentes disse alguma coisa que
Michael não pôde ouvir.
— Ofereci cortar meu próprio pagamento, se ele fizesse o mesmo. Contei
isso? Eu ofereci...
Um dos gerentes disse alguma coisa e o outro riu. Uma risada de raiva.
— Eu disse. — Garvey continuou. — Aceitaria um corte no meu paga-
mento mesmo que ele não aceitasse o mesmo para ele. Você sabe o que ele disse?
Ele disse: Eu já estou lhe dando isso.
Regan sabia o que estava acontecendo, mas fingia estar absorvida na leitu-
ra do menu. Michael sentiu uma cutucada sob a mesa. Não era uma cutucada
de flerte.
— Estou imaginando se não devemos sair —, Regan murmurou.
— Por quê? Ele está apenas aliviando a tensão —, disse Michael. — Eu
provavelmente estaria fazendo a mesma coisa nessas circunstâncias.
O garçom veio e anotou o pedido de bebidas. Quando Michael olhou em
direção ao bar novamente, parecia que Garvey e os outros dois lastimosos esta-
vam se aprontando para sair. Regan pareceu aliviada. Mas alguns minutos de-
pois, Garvey voltou. Ele tinha ido apenas até a porta para se despedir. Ele to-
mou seu assento, olhou em volta e os viu.
Ele veio, com o copo em uma mão e se movendo devagar para não entre-
laçar as pernas, como os bêbados fazem quando estão tentando manter a pose.
— Bem, Bem...
Regan ficou tensa. Michael também não estava relaxado.
— Você sabe, eu ia à casa dele, mas tem aquela.. aquela, sabe, cerca enor-
me ao redor e eu nunca conseguiria falar com ele. O filho da puta vive como o
ditador de uma república de bananas, você sabia? Então talvez você possa trans-
mitir minha mensagem.
— Acho que não nos conhecemos —, disse Regan.
— Ao diabo que não nos conhecemos. Você sabe muito bem quem eu
sou. Você estava naquelas reuniões no inverno passado... na primavera, sei lá.
Ele colocou seu rosto próximo ao dela. — Você é uma das contadoras de miga-
lhas do Bromman lá no Cubo, portanto, não me diga que não sabe quem eu
sou, certo?
36
Regan estava se desviando de seu hálito. Michael pôs a mão no ombro de
Garvey para afastá-lo, mas Garvey, apesar de todos os drinques que aparente-
mente tomou, não se moveu.
— Sr. Garvey, acho...
— E quem é esse? Seu namorado?
— Ela é minha esposa —, respondeu Michael. — Agora afaste-se, por
favor.
Garvey se endireitou. — Oh, sim, você é aquele cara do filme, do vídeo.
Vocês dois são casados? Não é de admirar que você consiga tantos negócios
conosco. É como funciona, não?
De todas as coisas que Garvey poderia ter dito, ele escolheu aquela com a
maior probabilidade de tirar Michael do sério. — Não, não é assim que funci-
ona, seu bundão. Não comigo. Eu não administro meus negócios assim.
Regan estava se esticando, procurando a garçonete. — Senhorita! — E
Michael tentava levantar-se, mas o espaço era estreito e ele não conseguia se
levantar completamente e Garvey não se mexia. Aparentemente não se sentin-
do insultado, Garvey calmamente pôs uma mão no ombro de Michael.
— Certo, minhas desculpas. Eu bebi um pouco, como você provavelmen-
te pode ver, e não estou no melhor dos humores, certo? Eu só quero que sua
esposa aqui transmita uma mensagem para Hal Baby. Você poderia fazer isso
para mim? Afinal de contas, é você quem administra os números que me mata-
ram, que deixaram duas mil e trezentas pessoas sem emprego, ao menos você
pode entregar uma merda de um recado, não pode? Eu quero que você diga
àquele monte de...
A garçonete apareceu. — Posso ajudá-la?
— Este homem precisa de um táxi —, disse Regan.
— O senhor terá que sair —, disse a garçonete.
— Diga àquele lixo que ele tirou a única coisa de minha vida que ainda
importava. Perdi minha esposa. Perdi meus filhos. Minha esposa está morta e fui
péssimo com ela. Meus filhos cresceram e agora eles estão sendo detestáveis com
os deles, como eu fui com eles. Sei que você não dá a mínima, mas é verdade.
Você diz ao filho da puta que eu não trabalhei sessenta horas por semana, ferrando
a minha família por vinte e sete anos, apenas para ser jogado fora como se fosse...
como...
O maître chegou para ajudar a garçonete. — Cavalheiro, nós chamamos a
polícia e agora o senhor tem que...
Garvey virou-se de repente e, intencional ou acidentalmente — seria difí-
cil saber— seu antebraço atingiu a garçonete e ela esparramou-se no piso sujo
feito de pranchas em estilo antigo do Red Hart.
— Hei! — Michael gritou.
37
Mas em um instante Garvey perdeu toda a beligerância. Sua boca perma-
neceu aberta e ele se inclinou para a garçonete que, lívida devido ao choque,
levantava-se. Ele estendeu a mão para ajudá-la, dizendo: — Oh, sinto muito!
Sinto muito mesmo! Não pretendia fazer isso, realmente não. Nunca bati numa
mulher, jamais. Seus lábios começaram a tremer. — Você está bem? Me descul-
pe, eu...
Michael agora estava em pé e perto de Garvey, ouvindo-o dizer repetida-
mente a mesma coisa. Oh, Deus, ele pensou. Então, gentilmente tomou-o pelo
braço, e Garvey deixou-se conduzir. — Vamos, Bob. Por aqui.
Michael conduziu o homem amedrontado pela saída dos fundos, descen-
do pelo hall e passando pelo toalete masculino e pela cozinha. Mas antes de
chegarem ao toalete, Garvey inclinou-se para a parede e pôs tudo para fora,
esparramando aquilo tudo pelo chão.
Quando estava melhor, Michael ajudou-o e levou-o para fora. Garvey sen-
tou-se na escada dos fundos, a cabeça entre os joelhos e esperaram cinco ou dez
minutos. Michael estava inseguro quanto a deixá-lo até que um táxi ou a viatu-
ra da polícia chegasse. Mas nenhum deles apareceu.
Garvey por fim levantou-se. Deu alguns passos, virou-se, tirou a carteira,
pegou todo o dinheiro e deu-o a Michael. — Você poderia, por favor, acertar a
minha conta? Desculpe-me... Pague-os por tudo e fique com o troco. Ele tinha
dado a Michael mais de cem dólares. Então, ele começou a andar em direção a
um Lincoln.
— Espere um minuto —, disse Michael — eu vou levá-lo.
— Não, estou bem. Minha cabeça está clara agora. Eu vou conseguir.
Garvey entrou no carro, deu marcha à ré, e foi embora. Michael ficou
olhando, guardou o dinheiro no bolso e voltou para dentro. O vômito já tinha
sido limpo. A garçonete estava de volta a seus afazeres como se nada tivesse
acontecido. Todo mundo estava comendo novamente. Até Regan. Ela tinha
uma salada em sua frente.
— Onde você esteve? — Perguntou ela, zangada.
— Eu estava só... ajudando-o a sair. Vejo que você se adiantou e fez o
pedido.
— Bem, o que você esperava que eu fizesse?
A garçonete veio. Ela explicou que o gerente estava pedindo desculpas e
queria oferecer o jantar como cortesia para eles. Michael apenas pediu uma
cerveja e a conta de Bob Garvey no bar. Ele acertou a conta e mandou a garço-
nete dividir o resto do dinheiro com o maître. Ela lhe ficou muito agradecida.
Era tão jovem e bonita, provavelmente uma colegial, trabalhando para ir à esco-
la e ter um futuro melhor.

38
Inverno
No começo do inverno o negócio de vídeo institucional em Bridgeford esta-
va, senão morto, comatoso. O trabalho para a Três-E, que constituía mais da
metade dos negócios de um ano típico para o grupo de produção de Michael,
cessou. Um ano antes, Hal Bromman havia anunciado a grande reorganização
corporativa da Três-E, que estava se aprofundando cada vez mais, e nenhuma das
divisões da empresa estava fazendo nada até que a reorganização se completasse.
O distribuidor do Buick entrou em concordata em novembro. Ele dificil-
mente poderia ser considerado uma conta principal, mas representava dinheiro
com regularidade, que agora tinha acabado.
Na metade de dezembro o cronograma no escritório de Michael estava
limpo, como se tivesse sido lavado. Ele normalmente esperava uma queda nos
negócios nesse mês, mas sempre havia uns poucos projetos que apareciam ou
que tinham sido adiados para o início do ano novo. Sempre, até agora.
A cada manhã, quando Michael entrava na Caverna, encontrava o ‘Povo
da Caverna’ sentado pelo estúdio, tomando café e batendo papo. Assim que ele
aparecia eles começavam a se mexer. Diversas vezes Michael teve vontade de
levantar a voz, mas o fato é que não havia quase nada para eles fazerem.
Então Michael chamou todo o Povo da Caverna para uma reunião no
estúdio e disse: — Tenho um importante projeto para todos vocês. Quero que
seja o melhor trabalho que vocês já fizeram. Quero que vocês façam um progra-
ma de vídeo para vender nossos serviços, do Grupo de Produção de Vídeo, ao
resto do mundo. Quero que mostrem o gênio criativo do grupo.
— Oh, disse Tanny Zoelle —, mostrando que entendeu o recado —, acho
que isso significa que não podemos gastar nada.
— Você entendeu —, disse Michael. — Não há orçamento para isso,
portanto, sejamos brilhantes.
Enquanto isso, durante aquelas primeiras semanas de inverno, Michael
passou o tempo fazendo coisas que detestava: telefonemas frios, apresentações
de vendas a empresas de sua área de mercado e relatórios de fim de ano para a
agência. Telefonemas frios significavam tentar falar com pessoas que na maior
39
parte das vezes não queriam falar com ele, e ele conseguia fazer dois ou três
desses telefonemas antes que um nó se formasse em seu estômago. As apresen-
tações de vendas eram algo que Michael normalmente apreciava (elas realçavam
seu lado teatral), mas os clientes em potencial eram normalmente pequenas
empresas longe da cidade, e Michael passou a metade de dezembro dirigindo
entre tempestades de neve para falar com alguém que, no fim, dizia: — Nossa,
eu não o deixaria vir até aqui se soubesse que é tão caro. Acho que se precisar-
mos de um vídeo teremos que pedir ao Jim que o faça com sua câmera domés-
tica. E os relatórios para a agência eram terríveis, porque os números eram
terríveis, e mesmo inflando as projeções tanto quanto possível, Michael temia o
que aconteceria quando Lyle Beekstra e os outros poderosos da agência lessem
esses relatórios.

Em janeiro, a retomada normal dos negócios não ocorreu. Por volta da


segunda semana do mês, o único projeto capaz de gerar receita que estava em
andamento era para o Bridgeford National Bank, um cliente que só não era
mais miserável por não saber como. Nenhum serviço era bom o bastante, ne-
nhuma fatura pequena o suficiente em que o BNB não pudesse encontrar algu-
ma coisa para reclamar.
O atual projeto para o banco era uma mensagem do presidente, Herbert
Gingway, para os clientes informando-os que em tempos de crise na economia
local tudo no Bridgeford National Bank estava “A-okay”. Houve uma grande
reportagem no Bridgeford Press sobre o efeito depressivo que a Três-E estava
provocando no mercado imobiliário local, e como uma instituição de poupan-
ça e empréstimo estava à beira da insolvência devido a um complexo de escritó-
rios suburbano que a Três-E, o principal inquilino, estava liberando. Então o
pessoal de relações públicas do BNB estava se colocando em ação para fazer
com que todos soubessem que o BNB estava bem. Eles mesmos escreveram o
primeiro rascunho, com trinta e duas páginas de texto a ser apresentado por
apenas uma pessoa, Herbert Gingway, e utilizando a expressão “A-Okay” sessen-
ta e quatro vezes. O Sr. Gingway leu o primeiro rascunho e decidiu que talvez
fosse melhor chamar a agência.
Michael, por sua vez, chamou Kyle “Hoona” Humphries. Kyle era um free
lancer que redigia a maior parte dos scripts para o grupo, tanto que tinha seu
próprio apelido na Caverna, “Kahuna”, originalmente um tributo a um dos
velhos filmes sobre surfistas, “Big Kahuna”, depois reduzido para “Hoona”. Ele
era um homem grande, o Hoona, com pelo menos vinte quilos em excesso e
substancial apetite por um número de coisas reprovadas pela elite saudável da
Sociedade Americana. Coisas como fumar, comer e beber. Sexo também estava
na lista, talvez no topo, mas sendo divorciado, gordo e na casa dos cinqüenta
40
anos, ele percebeu que as oportunidades para satisfazer esse vício estavam dimi-
nuídas. Ele afirmava compensar esse empobrecimento se dedicando com maior
zelo aos outros vícios.
Michael não se incomodava. Hoona era um bom redator de scripts, certa-
mente o melhor de Bridgeford. Na época das vacas gordas Michael tinha ofere-
cido a Hoona um emprego fixo, mas ele era independente demais para aceitar.
Hoona era quase tão anticorporativo quanto se podia ser e ainda viver em um
mundo corporativo. Ele ensinava redação criativa na universidade, um empre-
go que não pagava quase nada, e seu ganha-pão real era redigir scripts e outros
trabalhos que pudesse encontrar como free lancer. Michael apreciava a consis-
tência de Hoona: era sempre pontual nas reuniões, e sempre estava três dias
atrasado na entrega dos scripts. Nunca dois dias, raramente quatro dias, mas ao
menos três dias atrasado. Michael simplesmente encaixava os três dias no
cronograma, e quando os scripts chegavam, estavam tão bem escritos quanto
um texto institucional poderia estar.
Então Hoona Humphries reescreveu o script “A-Okay” em uma terça-
feira de manhã em meados de janeiro, e Michael e ele se reuniram com o cliente
para repassá-lo. A reunião começou às dez horas com Herb Gingway e três vice-
presidentes do BNB, dois advogados e Patrícia, a gerente de relações públicas
do banco. Foi ruim desde o início. Gingway anunciou que o segundo rascunho
estava muito “hollywoodiano” e todos (com exceção de Hoona e Michael)
concordaram. Gingway saiu às dez e trinta, ponto a partir do qual o pessoal do
BNB não concordou com mais nada e passaram a questionar cada palavra. Por
volta das onze eles estavam tentando reescrever juntos o script de Hoona. Um a
um os vice-presidentes e os advogados saíram, deixando Patrícia sozinha para
colocar o texto em ordem. A reunião com ela continuou até quase uma hora da
tarde. Michael convidou-a para almoçar, mas ela recusou e ele disse uma prece
silenciosa em agradecimento.
Hoona Humphries saiu pelas portas do banco como se estivesse pegando
fogo. Michael estava meio passo atrás, seguindo-o pela calçada. Apesar do frio,
Hoona afrouxou a gravata. Remexendo no bolso da camisa, pegou um cigarro e
acendeu-o. Ele não pode fumar durante a reunião, e agora inalava a fumaça
como se fosse sua salvação.
— Desculpe sobre o script —, disse Michael a Hoona, depois dele dar
algumas tragadas. — Faça o melhor que puder.
— Certo.
Michael pôs a mão em um dos grandes ombros de Hoona. — Vamos
almoçar.
Hoona continuou andando, dando outras tragadas em seu cigarro.
— Vamos, eu pago —, disse Michael. — Onde você quer ir?
41
Hoona parou no meio da calçada e olhou para a rua, como se alguns
quarteirões adiante estivesse o paraíso que ele nunca conseguiria alcançar.
— Qualquer lugar que você quiser —, disse Michael. — Smiley’s... Brass
Frog...
— Ah, dane-se —, disse Hoona. — Vamos direto para o Nick’s.
Hoona freqüentava o Nick’s quando se encontrava na cidade. Ele chamava
o lugar de sua filial. De fato, sabia-se que eles recebiam mensagens para ele.
O Nick’s ficava a uma quadra da Caverna, no térreo de um prédio de
escritórios. Abriu nos anos sessenta como uma lanchonete — duas dúzias de
bancos, com pratos econômicos no menu. Quando a agência de turismo loca-
lizada atrás da cozinha faliu, o Nick acrescentou reservados. Quando o florista
fechou, vieram as mesas. Ano a ano, à medida que outros varejistas afundavam,
o Nick continuava a se expandir. Seu grande avanço ocorreu nos anos oitenta,
quando, pela generosidade recíproca entre burocratas e políticos, Nick teve sua
licença para a venda de bebidas alcoólicas aprovada. Seu irmão, Lou, tocava o
bar enquanto seu primo, Vicki, cuidava do caixa e do restaurante. Então, quan-
do Hoona e Michael entraram, Michael perguntou: Você quer ir ao Lou ou ao
Vicki?
— Lou. E eles se dirigiram para o bar.
Uma cerveja Miller apareceu na frente de Hoona no instante em que suas
calças tocaram o vinil do assento. Michael pediu água mineral com gás e limão
e, enquanto Hoona estava cumprimentando seus amigos, Michael olhou para o
espelho atrás do bar e reconheceu o cara sentado a seu lado. Era Bob Garvey.
Ele era mais magro do que Michael lembrava, bem arrumado, usando um
bom terno caro. Michael deve ter congelado quando o viu, pois Garvey tam-
bém olhou para o espelho, e eles cruzaram olhares. Houve meio segundo até
que ambos percebessem que haveria uma conversa indesejada, mas ninguém
estava muito preparado para começar. Finalmente Michael acenou e disse: —
Como tem passado?
Garvey pôs o cigarro na boca, olhou de lado e estendeu a mão. — Tudo
bem. Sei que o conheço, mas...
— Michael DiGabriel. — Ele apertou a mão de Garvey.
— Garvey franziu as sobrancelhas, e seus lábios mexeram-se apenas ligei-
ramente, repetindo silenciosamente o nome. — Ah.. sim. — O presente ligado
a uma memória dolorosa. — Está certo. Como vão as coisas com você?
— Tudo bem. Quero dizer, poderiam estar melhores. Você está no centro
da cidade agora?
Garvey apontou para o teto. — Arrumei um escritório aqui em cima, no
terceiro andar. Tenho prestado algumas consultorias de vez em quando.
— Bom para você.
42
Um sorriso vincou o rosto de Garvey. — O que mais vou fazer? Pescar?
Até mesmo o golfe se torna chato se você jogar todos os dias.
— É verdade —, disse Michael. Ele olhou para o outro lado, inseguro para
onde levar a conversa. — Em que tipo de projetos você está atuando?
— Estou trabalhando para a Três-E no momento. É como um osso que
jogaram em meu caminho. Estou trabalhando na fábrica de White Falls.
Hoona entrou na conversa: — White Falls? Cara, aquilo está terrível ulti-
mamente. O centro da cidade é um amontoado de prédios vazios com placas de
madeira cobrindo as vitrinas. Tenho um amigo que mora lá. Ele não consegue
nem dar de graça a casa dele, de tão mal que está o mercado imobiliário.
— A Três-E vai reabrir a fábrica em White Falls? — Michael perguntou a
Garvey.
— Reabrir? Diabos, não. Eles estão me pagando para desmontá-la. — Ele
cruzou os braços contra o peito e soltou uma risada abafada. — Quinze anos
atrás eles me pagaram para montar a mesma fábrica. Agora, estão pagando para
ensiná-los como desmontá-la. Está tudo indo para o México.
— Como é?
— México. Todo o equipamento. Uma empresa de lá comprou. Estamos
desmontando toda a linha de produção, numerando todas as peças, embalan-
do, carregando os engradados em vagões e despachando tudo para a Cidade do
México.
Hoona continuou desse ponto: — Não era esta uma das fantasias paranói-
cas da Sociedade John Birch nos anos cinqüenta? Sabe, os comunistas estavam
para assumir o controle, desmontar todas as nossas fábricas e embarcá-las para a
Rússia?
Garvey riu e encolheu os ombros. — Não é raro atualmente. As fábricas
ficam velhas, você as vende para algum país do Terceiro Mundo, e eles conse-
guem operá-las por mais vinte anos.
— Verdade? Não vejo como eles podem ser competitivos —, disse Michael.
— É equipamento antigo.
— Oh, eles vão ganhar dinheiro, não se preocupe. Eles pagam barato a
fábrica, e a mão-de-obra também é mais barata. Diabos, eles não pagam bene-
fícios, eles não têm as mesmas leis sobre segurança e nem poluição. Eles nem
mesmo têm que comprar papel higiênico.
— Você está brincando!
Garvey levantou sua mão direita como se estivesse fazendo um juramento.
— Estive lá na semana passada. Eles me mostraram uma das fábricas já monta-
das e em funcionamento. Talvez com umas duas centenas de trabalhadores.
Bem, eu tive que urinar. O cara que me acompanhava pediu desculpas e apon-
tou para a porta dos fundos. Eu saí por lá e era apenas um buraco com um
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número espantoso de moscas zunindo por todo lado. De qualquer forma, você
entendeu. Se eles não têm nem que providenciar banheiros para os empregados...
— Eu não sabia disso. Quer dizer, que ia tão longe —, disse Michael.
— É assim. O que se pode fazer a respeito?
Garvey levantou seu drinque, acabou-o, e os cubos de gelo tilintaram quan-
do pousou o copo no balcão. — Como vai a sua esposa?
— Bem. Trabalhando mais do que nunca. Costumavam ser cinqüenta a
sessenta horas por semana. Agora chegam a setenta ou oitenta.
— Bem... ela é uma das que têm sorte. — Garvey desviou o olhar por um
segundo. Então, disse: — Escuta, sinto muito pelo....
— Não se preocupe com isso —, disse Michael. — São águas passadas.
— Outro? — Lou perguntou a Garvey.
— Não. — Disse Garvey, levantando-se. — Já estou de saída. — Ele
apertou novamente a mão de Michael. — Cuide-se.
— Você também —, disse Michael.

Michael voltou para a Caverna por volta das duas e meia. Quando chegou
ao escritório, encontrou um bilhete no assento de sua cadeira. Mesmo sem lê-
lo, Michael soube que era de Lyle Beekstra. Aquela era a forma de Lyle deixar
mensagens. Ele as colocava nos assentos das cadeiras das pessoas, o que sempre
irritou Michael.
O bilhete dizia: M.D. — Procure-me o mais rápido possível — L.B.
Michael pendurou o sobretudo, amassou o bilhete e jogou-o com força no
cesto. Errou e simplesmente deixou-o no carpete.
Michael desceu para o vigésimo segundo andar e passou pelas portas de
carvalho e pela fachada de mármore cinza com letras douradas em alto relevo:
BARKES & COLLWIN PROPAGANDA. Ele disse alô para Laura, a recepcio-
nista, e seguiu para o fundo. Lyle estava lá, sentado à sua mesa com um número
do Advertising Age aberta. Michael bateu. Lyle olhou com frieza para cima. Ele
era um homem alto, magro, só ossos — uma vez, em uma reunião de staff, ele
levantou os braços para alongar-se e ao mesmo tempo respirou fundo, de forma
que todos ao redor da mesa puderam ver suas costelas aparecendo sob o puro
tecido branco da camisa — com um rosto estreito, cabelos vermelhos como
pimenta e óculos lembrando uma coruja, com armação de tartaruga. Ele estava
em mangas de camisa e usando seus famosos suspensórios vermelhos, uma moda
dos anos oitenta que ele insistia em preservar.
— Você queria me ver? — Michael perguntou da porta, desejando que o
que Lyle quisesse falar fosse algo que levasse apenas alguns segundos. Sua espe-
rança se desfez.
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— Entre e sente-se —, disse Lyle, que se levantou e fechou a porta. —
Você provavelmente sabe do que se trata.
Michael encolheu os ombros, não querendo ser voluntariamente arrastado
para alguma coisa que temia. Lyle suspirou e sentou novamente atrás da sua mesa,
inclinou-se para a frente e entrelaçou os dedos em cima do risque-rabisque.
— Bem, o assunto é o faturamento —, disse Lyle pacientemente. — Ou a
falta dele, em seu caso. Como você está em termos de perspectivas de negócios?
— Temos algumas oportunidades em vista.
— Então, sugiro que você as agarre rapidamente. No mês passado, seu
grupo fechou no vermelho. E já faz muito tempo que você está apenas um
pouco acima do ponto de equilíbrio.
— Eu sei disso. Por outro lado, você não ajudou nem um pouco ao elevar
os débitos relativos às despesas indiretas no meio do ano.
— Você não é diferente dos outros gerentes de grupo. Eles têm a mesma
carga que você.
— Não. Não realmente. Que tal os custos de aluguel? Seu espaço aqui em
cima vale trinta e dois dólares o metro quadrado. Meu espaço no subsolo vale
nove dólares o metro quadrado. Mas você utiliza a mesma média para todos, o
que faz com que os grupos de propaganda pareçam mais lucrativos. E os cha-
mados “custos executivos”? Eu sou atingido todos os meses com despesas admi-
nistrativas que operacionalmente nada têm a ver com meu grupo. Não é de
admirar que estejamos no vermelho.
Lyle agiu como se estivesse cansado. — Nós já passamos por isso antes,
Mike. A questão nesse momento é o faturamento. Se você tivesse faturamento,
sua cota nos custos da agência não importaria.
— Lyle, toda esta região está no meio de uma recessão e a Três-E não está
gastando no momento. O que mais você gostaria que eu fizesse?
— Se você não pode gerar receita, então você vai ter que cortar os custos
de modo equivalente —, disse Lyle. — Você sabe o que isso significa, não?
— Eu já cortei as horas de free lance...
— Não! Você deveria estar tomando outras providências! Ele suspirou de
desgosto. — Quero que você faça o oposto. Você precisa eliminar seu pessoal
em tempo integral e usar mais free lancers. Com free lancers não temos que
pagar assistência médica. Não temos que pagar benefícios. Se eles tiverem mai-
ores taxas diárias do que o staff permanente, qual o problema? Podemos repas-
sar os custos para o cliente. E temos muito mais flexibilidade para ajustar o staff
à carga de trabalho. Mike, já discutimos isso um mês atrás. Por que você não fez
nada a respeito?
Michael desviou o olhar em direção à janela, para a cidade. — Porque não
é desse jeito que eu quero administrar meu grupo.
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— Acho que você não tem muita escolha agora. Lyle se inclinou para trás
em sua cadeira e suspirou novamente, com maior tolerância dessa vez. — Estou
saindo amanhã para a reunião gerencial da agência em Hilton Head. Quando
voltar, na segunda-feira, quero a lista de suas reduções de staff, suficientemente
profundas para trazer seu grupo de volta ao azul. Ok?
— Lyle, se você pudesse apenas me dar mais um mês ou dois...
— Em outro mês ou dois, se a situação não tiver melhorado, nós teremos
que fechar seu grupo completamente. Eu lamento, mas é como são as coisas.
— Eu tenho um bom pessoal lá embaixo. O melhor da cidade, Lyle. Se
deixar eles irem...
— O rosto de Lyle começou a ficar vermelho como um morango. —
Mike, estou perdendo a paciência! Ou você faz os cortes no staff ou não estará
mais gerenciando o grupo de produção. Posso ser mais claro que isso?
Michael simplesmente levantou e se dirigiu para a porta.
— E mais uma coisa —, disse Lyle. Isso é estritamente confidencial. Você
não deve deixar que ventile uma palavra sobre demissões para ninguém. Está
entendido?
— Por quê? Por que não posso dar a eles ao menos um aviso?
— Porque eu disse que não! Lyle pegou a Advertising Age e a jogou, desajei-
tadamente, em direção a uma cadeira no canto, mas as páginas abriram e ela
caiu no chão. Lyle se controlou. — Porque é a política, Mike. Porque é como as
coisas são feitas. Porque quando as pessoas sabem que não têm nada a perder...
Apenas mantenha a boca fechada, Ok?
Michael saiu. Sentia os olhos de Lyle nas costas de sua camisa. No elevador
estava sozinho e, ao descer, disse em voz alta a si mesmo. —Não aguento mais
este lugar.

Quando as portas do elevador se abriram, ele se esforçou para sair e descer


para a Caverna novamente.
— Onde está Artie O’Connor? — Perguntou a Babe. Ela estava em sua
mesa de recepcionista sem fazer nada além de parecer bonita. Alguma coisa
sobre seu comportamento sempre sugeriu que Babe pensava que seu único pa-
pel na vida era ser bonita, e que por ter alcançado um estado de beleza, ela não
tinha que fazer mais nada.
— Não sei onde ele está —, disse Babe.
— O que você quer dizer com “não sei onde ele está”?
— Ele saiu para o almoço às onze e trinta, e não tenho mais notícias dele
desde então.
— Assim que voltar, preciso falar com ele.
Michael passou pela sala de controle. Stoney estava na mesa de edição,
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conversando com Tanny, que estava encostada contra a borda acolchoada do
console. Redmeat estava na mesa de áudio. Uma cena do vídeo promocional da
Caverna estava no monitor principal, mas os três pareciam estar simplesmente
batendo papo.
— Quando isso será finalizado? — Michael perguntou.
— Hoje ou amanhã —, disse Stoney encolhendo os ombros. — Você
conseguiu alguma outra coisa para a gente fazer?
— Não, não tenho mais nada —, disse Michael. — Eu preciso que o
maldito vídeo promocional fique pronto de forma que possa ir para a rua come-
çar a mostrá-lo e conseguir algum trabalho para se fazer neste lugar!
Ele foi para seu escritório e sentou com a porta fechada. Em um minuto,
ouviu-se uma suave batida na porta. Tanny pôs a cabeça para dentro. — Você
está bem?
— Michael suspirou. — Não, não estou.
— Por quê? O que está acontecendo?
— Nada.
— O Beekstra está fazendo pressão sobre você?
Michael suspirou novamente. — Não estou autorizado a falar sobre isso.
— Oh —, disse Tanny. E então as implicações lhe ocorreram. — Oh... —
Ela voltou para a porta. — Vou fazer o Stoney se mexer e devemos tê-lo pronto
ao final do dia. — Ela fechou a porta suavemente.
Michael começou a pensar sobre quem, entre eles, deveria cortar. Ele nun-
ca tinha feito isso antes e até pensar a respeito era difícil. Depois de alguns
minutos, pegou um bloco de papel e fez uma lista do staff, anotando o salário
anual ao lado de cada nome. Em seguida, começou a estabelecer prioridades
entre eles — quem deveria ficar no topo e quem deveria ir para baixo. Entretan-
to um sentimento amargo, doentio, vagarosamente foi tomando conta dele.
Faltavam três dias até segunda-feira. Três e meio, se ele contasse o que
sobrava da tarde. Qualquer coisa poderia acontecer. Um trabalho poderia apa-
recer. Um bom projeto, e não haveria necessidade de colocar ninguém na rua.
Ele pegou sua lista de telefonemas e o telefone.
Ele se atirou ao trabalho loucamente, continuando sem parar por uma
hora e meia, conversando, batalhando, tentando parecer tranqüilo e vigoroso,
quando de fato sentia vontade de cavar um buraco e hibernar. Para complicar,
conseguiu três compromissos, o mais próximo em duas semanas. Não vai fun-
cionar, uma voz lhe dizia. Não há tempo suficiente.
Finalmente, por volta de quinze para as cinco, ele saiu do escritório e se
dirigiu a Babe.
— Onde está Artie?
— Acho que foi para casa.
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— Você não falou que eu precisava falar com ele?
— Você disse se ele chegasse. Ele não voltou do almoço. Ele telefonou por
volta das três e meia para saber dos recados. Então, acho que ele foi para casa.
— Então você não disse para ele.
— Bem, você disse...
— Não importa.
Quando ele se virou, Babe disse: — Mike?
— O quê?
— Posso sair agora? Ela já tinha sua bolsa na mesa, pronta para correr
porta afora.
— Não, você não pode sair. Ainda não são cinco horas.
— Mas todo mundo foi embora.
Ele olhou para o hall. A porta para o estúdio estava aberta e as luzes apaga-
das. — Quando eles foram?
— Não sei. Meia hora atrás. Posso ir agora também?
— Não! Seu trabalho, Gwen, é ficar aqui até às cinco horas para atender o
telefone.
— Mas eu voltei do almoço dez minutos antes! — Ela estava sempre ten-
tando barganhar com ele como agora.
— Não importa. Quando for cinco horas você pode ir, e não antes.
— Ninguém vai telefonar —, ela disse, fazendo bico.
Ele se virou. É melhor você torcer para que alguém telefone — alguém
com dinheiro para gastar. Se alguém tivesse que ser cortado, os dois que ele mais
provavelmente demitiria seriam Babe e Artie O’Connor. Mas cortar apenas os
dois provavelmente não bastaria.
Ele entrou na sala de controles, mais para se certificar de que os equipa-
mentos haviam sido desligados e, de fato, a maioria ainda estava ligada. Stoney
tinha o mau hábito de deixá-los ligados a noite toda, o que não prejudicava os
equipamentos mas aumentava a conta de luz. Em cima da mesa havia um rolo
de uma polegada, a edição master do vídeo promocional. Ele leu a etiqueta e
sorriu: “Os maiores sucessos do Povo da Caverna”. Aquele era o nome que
tinham dado ao projeto. Aparentemente eles o tinham terminado.
Michael decidiu ver o filme. Depois de apenas alguns minutos, ele pôde
constatar que estava bom. Stoney usou alguns truques que faziam com que o
programa parecesse ter sido feito em equipamentos que custavam dez vezes
mais do que os que tinham disponíveis na Caverna. Muito demorado para
fazer, mas eles certamente tinham tempo para gastar.
O telefone começou a tocar. Depois de quatro toques, Babe não atendeu.
Michael olhou de relance para o relógio. Passava um minuto das cinco horas.
Babe já tinha ido. Dane-se.
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— Grupo de Produção da Barkes & Collwin.
— Oi, sou eu —, disse Regan. — Eu vou trabalhar até tarde hoje de novo.
— Sem problemas. Até que horas?
— Ao menos até oito ou nove, talvez até mais tarde. Bromman apresentou
o novo plano de organização corporativa ao conselho, e eles o aprovaram cerca
de uma hora atrás, graças a Deus. Mas temos alguns documentos para pôr em
ordem.
— Devo guardar o jantar para você?
— Não, já encomendamos alguma coisa aqui mesmo.
— Certo. O vejo em casa.
Cerca de dez segundos depois de desligar o telefone, a idéia lhe ocorreu, ao
atinar para o significado do que ela lhe dissera: a reorganização da Três-E estava
concluída. Será que eles vão precisar de um vídeo para falar ao mundo sobre ela?

Michael resistiu ao impulso de telefonar a Barney Tillman imediatamente.


Afinal de contas, Tillman provavelmente ainda não tinha ouvido as notícias, e
Michael não queria ser o primeiro a lhe contar. Assim, ele passou a noite de
terça-feira escolhendo as palavras que iria usar, e esperou até o dia seguinte. Ele
estava na cama, dormindo, quando sua esposa chegou em casa.
Na quarta-feira de manhã Michael pediu a Babe que mandasse Artie
O’Connor a seu escritório assim que chegasse. Então ele foi para o escritório,
fechou a porta e discou o número, mas Tillman estava em reunião. Michael
repassou mentalmente seu discurso.
Por volta das cinco para as nove, Artie bateu. — Cavebabe me disse que
você queria me ver.
Seu uso de ‘Cavebabe’ soou aos ouvidos de Michael como giz em quadro
negro. Artie disse o apelido para parecer ‘legal’, como um membro da equipe,
quando de fato não era.
— Certo —, disse Michael. — Entre.
Artie era meio baixo, talvez com um metro e sessenta e cinco ou um metro
e setenta, mas um cara bonito. Olhos azuis, cabelo claro. Sua boca tinha dentes
brancos perfeitos e um sorriso de comercial de creme dental. “Gritantemente
limpo”, foi como alguém da equipe uma vez o descreveu. Ele tinha uma pele de
salão de bronzeamento e suas unhas eram bem aparadas, parecendo cuidadas por
uma manicure profissional. Seus ternos e gravatas estavam sempre limpos e passa-
dos, mas sempre parecia que ele os tinha barganhado em uma liquidação.
Por outro lado, eles estavam pagando a Artie apenas cerca de $30 mil
dólares por ano, incluindo comissões sobre suas vendas. Artie se pagava e gerava
um pouco de dinheiro para a agência, mas não muito. E agora já havia passado
mais de quatro meses sem que Artie fechasse qualquer negócio.
49
— Como vão as coisas? — Michael perguntou-lhe.
— Bem, Mike, muito bem.
— O que você fez ontem?
— Ontem?
— Sim, conte-me sobre o seu dia.
— Por quê? Tem alguma razão?
— Eu apenas quero saber. Quero saber como você vai, e então, por que
não me conta o que fez ontem?
— Bem, eu tinha alguns compromissos e...
— Quem você foi visitar, digamos ontem à tarde?
— Bem, deixe-me ver. Ele puxou uma agenda de bolso da jaqueta, mas
Michael suspeitava que provavelmente não houvesse anotação alguma e nin-
guém agendado para o dia anterior à tarde. Ao invés de forçar o homem a
mentir, Michael mudou sua abordagem.
— A razão por que pergunto, Artie, é que precisamos de negócios. Eu
tenho uma equipe aí sem nada para fazer.
— Estou ciente disso, Mike, realmente estou. E que tal o BNB?
— Não é suficiente para manter todos ocupados. E nem está em produção
ainda. Precisamos de mais trabalho. Agora, quem você contatou nas últimas
semanas?
Artie folheou sua agenda por uns poucos segundos. — O hospital. Eles
estão parecendo realmente ter pressa. E o depósito de materiais para constru-
ções. Eles devem fazer alguma coisa. E... uhm... oh! Bridgeford Ferragens e
Parafusos! Tenho conversado bastante com eles.
— Certo, você tem conversado, muito bem. Mas quais são as probabilida-
des em curto prazo de transformar esses contatos em vendas?
— Eu não sei, Mike, eu realmente não sei. Quero dizer, bem, é inverno!
Ninguém quer fazer nada! — Seus lábios partiram-se e aqueles dentes brancos
apareceram em um sorriso de submissão. — Honestamente, tudo está realmen-
te devagar na cidade!
— Mesmo quando as coisas estão devagar, há negócios a serem feitos.
— Bem, Ok, mais um almoço com a responsável pelo marketing do hos-
pital e podemos conseguir alguma coisa. Eu realmente acho que eles estão quase
prontos.
— Bom. Então, marque esse almoço e feche a venda esta semana.
— Mike, você não pode pressioná-los assim! Você tem apenas que estar lá
quando estiverem prontos.
Frustrado, Michael apertou a parte superior do nariz, e a seguir cobriu os
olhos com a mão e parou. — Eu entendo, até certo ponto. O que eu realmente
quero, Artie, o que eu realmente preciso, é que você ganhe uma. Na verdade,
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mais do que ganhar uma. Preciso que você feche uns três ou quatro contratos.
Lyle Beekstra está no meu pé e é sério. Ok?
Artie engoliu. — Bem, Mike, você sabe que tudo o que eu trouxesse esta
semana não estaria pronto para produção por semanas, talvez um mês. Você
tem o planejamento da pré-produção e o script e...
— Entendido! Mas ao menos eu posso dizer ao Beekstra que alguma coisa
definida está saindo. Ok?
— Bem, vou fazer o melhor que puder.
— Eu temo precisar mais que isso. Eu preciso que você feche ao menos
uma venda.

Quando Artie saiu, Michael tentou contatar Barney Tillman novamente,


e desta vez, ele atendeu.
— Oi, Barney, é Mike DiGabriel.
— Oi, o que posso fazer por você? Era antes de meio-dia e ele já parecia
exausto.
— Bem, estive pensando e me surgiu uma idéia que gostaria de discutir
com você. Ocorreu-me que com essa nova organização corporativa...
— Você já sabe? Eu acabo de sair de uma reunião... Oh, está certo, sua
esposa provavelmente lhe contou.
— Bem, sim, para ser honesto ela mencionou o assunto.
— Vá em frente.
— Ocorreu-me que a Três-E vai ter que explicar a nova organização para
seus clientes — assim como para todos os empregados. Deveríamos começar a
trabalhar em um vídeo que a equipe de vendas possa levar para os clientes. Sabe,
apenas uma fita curta, de dez minutos, talvez com uma mensagem de Bromman
e uma clara explicação de como a Três-E está estruturada agora.
— Explique de novo —, disse Tillman. Michael explicou a idéia e
aprofundou-se um pouco mais nos detalhes.
— Mas realmente deveríamos nos mover rápido, de forma que o vídeo
possa chegar no momento certo —, concluiu Michael.
— Concordo —, disse Tillman. — Minha próxima reunião é sobre Co-
municações Corporativas, e vamos falar sobre um plano de mídia. Portanto,
espere que eu retorno a você sobre o assunto.
Michael desligou pensando que levaria alguns dias, talvez algumas sema-
nas antes de ter qualquer resposta sobre o assunto. Ele telefonaria repetidamen-
te, mas era assim mesmo com a Três-E: Uma idéia era apresentada e, se nada
acontecesse, levaria semanas ou, mais provavelmente, meses antes que alguma
ação fosse implementada. Para sua surpresa, entretanto, Barney Tillman retornou
o telefonema mais tarde no mesmo dia e disse: — Dale quer fazer o vídeo.
51
Dale Mazursky era o chefe de Tillman. Michael fechou os olhos e disse
uma prece silenciosa de agradecimento. Não era apenas um milagre que a Três-
E fosse querer o vídeo, mas também algum tipo de recorde o fato de Tillman ter
conseguido a aprovação de Mazursky tão rapidamente.
— Por que não nos encontramos amanhã cedo, digamos às nove horas,
aqui, e conversamos a respeito? — disse Tillman.
— Excelente idéia —, disse Michael. — Vejo você às nove.

De manhã estava nevando novamente, grandes flocos brancos flutuavam


vagarosamente até chegar ao chão. Michael, porém, estava tão bem humorado
que a neve realmente lhe parecia bonita, e fazia tanto tempo desde a última vez
que pegou a Auto-estrada Nove para ir à Três-E que a viagem adquiriu um certo
tom nostálgico.
Passada a guarita de segurança no portão da Três-E, a primeira coisa que
causou impacto foi a facilidade em encontrar vaga para estacionar. Nos bons
velhos tempos, mesmo o espaço para visitantes estava quase sempre lotado.
Agora ele tinha uma ampla variedade de escolha.
Dentro do Prédio A, onde ficava o escritório de Tillman, não havia mais
recepcionista. Colada no tampo da mesa vazia, contando apenas com um apa-
relho de telefone, havia uma folha de papel com nomes e ramais. As instruções
indicavam que Michael deveria discar o número do ramal da pessoa que queria
visitar.
— É o novo sistema —, disse Tillman. — Vá para a porta e eu libero a sua
entrada.
Esperando que Tillman apertasse um botão lá em cima, Michael bateu
palmas diversas vezes para ouvir o eco. Então notou a câmera de segurança em
um canto, próxima ao teto. O Grande Irmão estava observando. Finalmente
ouviu o clique metálico que permitia o acesso aos elevadores.
No andar de Tillman, Michael deu o primeiro passo e parou, estarrecido.
Ele estava olhando para algumas centenas de metros quadrados de espaço vazio.
Alguns meses antes diversas centenas de pessoas trabalhavam ali em um enorme
escritório panorâmico. Desapareceram as divisórias forradas com tecido; as me-
sas; cadeiras; computadores; arquivos; plantas; o burburinho e, claro, os seres
humanos. Apenas o carpete permaneceu, ainda marcado pelo peso dos móveis
ausentes, além da fiação das linhas telefônicas desligadas e alguns montes de
fiapos. A maioria das lâmpadas havia sido desligada, mas num canto havia uma
área isolada de luz, onde uns poucos sobreviventes ainda tinham emprego. Des-
se pequeno espaço, Tillman acenou, gesticulando para que ele seguisse em frente.
Eles se acomodaram na sala e Tillman disse: — Dale conseguiu ver
Bromman ontem, e Bromman acha boa idéia um vídeo e quer participar. Te-
52
mos uma reunião com Bromman agendada para as onze e meia para colher suas
idéias sobre o que pretende falar.
Para matar o tempo, Tillman discorreu sobre as bases da reestruturação da
Três-E, sobre o fato de não existirem mais “divisões” e “departamentos”, mas
“unidades de mercado” e “centros funcionais”. Um consultor convenceu o co-
mitê gestor da reestruturação que organização por “divisões” é muito militaris-
ta, e como o negócio de defesa será menos importante para a Três-E no futuro,
a nova nomenclatura ajudaria a criar mudanças culturais corporativas.
— Lembra da velha Divisão de Motores Industriais? perguntou Tillman.
— Carinhosamente.
— Bem, acabou. Pelo menos a maior parte dela. O que sobrou foi integra-
do à Divisão de Transportes e todo o conjunto agora se chama Unidade de
Mercado de Sistemas de Produtividade Global.
Por volta das onze e vinte ele se dirigiram para o Cubo pelo túnel. A
maioria dos prédios no conjunto administrativo da Três-E era ligada por túneis
ou passagens fechadas, e você poderia ir do Prédio A para o Prédio T, atrás, sem
ter que se expor às variações climáticas. Tal cuidado sempre inspirou em Michael
um sentimento de aconchego e proteção.
Quando chegaram ao último andar do Cubo, a reunião anterior de Hal
Bromman estava atrasada e ele ainda não estava disponível. Tillman e Michael
sentaram-se em poltronas de couro próximas à porta da sala. Depois de alguns
minutos de espera, Michael ouviu duas das três secretárias discutindo um pro-
blema logístico: Toby, o motorista, teria que ir de limusine ao aeroporto buscar
as lagostas vivas no avião da empresa, deixá-las na residência de Bromman para
o jantar festivo daquela noite e ainda ter tempo de apanhar o presidente no
clube, em torno das duas horas. Não, melhor não arriscar. Melhor enviar um
táxi para pegar as lagostas.
A porta de Bromman finalmente abriu — com silêncio e lentidão
fantasmagóricos, pois Bromman tinha uma chave sob a borda da mesa que
abria e fechava a porta por meio de um mecanismo eletromecânico. Dois vice-
presidentes da Três-E saíram, um bastante pálido e o outro com o rosto verme-
lho. Tillman e Michael entraram. A porta fechou-se silenciosamente atrás deles.
O aspecto mais evidente da aparência de Bromman eram seus óculos, cuja
armação era de um plástico claro e prateado, emprestando-lhe uma qualidade
fria como o gelo. De compleição física grande, tinha jogado futebol anos antes
na Yale — ou talvez fosse Princeton, uma dessas. Seus ternos eram feitos em
Londres, era o que todos diziam, e estavam sempre perfeitos. Ele vestia apenas
a camisa sem o paletó para a reunião com Tillman e Michael.
Bromman passou os pontos que queria em sua mensagem, que abriria o
vídeo, e a seguir disse a Tillman: — Diga-me novamente quem vai participar.
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Tillman leu a lista de vice-presidentes, e quando chegou a certo nome, Bromman
disse: — Não, não o quero nisso.
— Mas acho que ele espera... quero dizer, Dale já disse a ele...
— Bem, você vai ter que desdizer —, disse Bromman. — Não quero que
o filme esteja desatualizado quando for exibido.
— Ah, certo —, disse Tillman, consciente agora do que significava. Eles
passaram os dez minutos seguintes discutindo como poderiam desconvidar esse
vice-presidente sem que ele desconfiasse que seria demitido. Por razões que não
explicou, Bromman queria mantê-lo por mais um mês ou dois. Finalmente,
Michael apresentou uma solução que usou uma vez com outro cliente: Eles
gravariam o sujeito mas o deixariam fora da edição final.
— Bom —, disse Bromman. — Gosto da solução.
— Acho que, considerando o prazo de produção, isso deverá funcionar —
, disse Tillman. — Quanto nos custará a mais?
— Realmente nada —, disse Michael.
— Excelente —, concluiu Bromman.
Depois, Michael levou Tillman para almoçar. Eles deixaram o centro ad-
ministrativo e desceram a rua para um restaurante que normalmente atendia
uma multidão de pessoas da Três-E. Naquele dia, estava meio vazio.
Para surpresa de Michael, Tillman pediu um martini com vodca. A regra
da agência para bebidas alcoólicas no almoço estabelecia que, se o cliente se
abstivesse, você também deveria — mas se o cliente preferisse... Assim, Michael
acompanhou-o. Com meio martini, Tillman se abriu como se Michael fosse seu
único amigo, e falou sem a menor discrição sobre como odiava seu trabalho e
sobre o caos dos últimos meses.
— Ninguém está seguro —, disse Tillman, agitando os cubos de gelo e a
bebida no fundo do copo, e olhando para o movimento. — Ninguém. — Ele riu
subitamente. — Exceto Toby! Toby está seguro. Eles vão despedir mil engenhei-
ros, vão pôr na rua dez mil operadores de máquina e secretárias, mas Toby ainda
terá um emprego dirigindo a limusine de Bromman. Bromman vai se desfazer de
todo o laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento antes de perder a limusine. A
limusine, os aviões, o camarote no estádio, os clubes, ninguém toca nisso.
— É uma situação ruim — disse Michael, concordando com ele, mas
procurando não aumentar a agitação de Tillman.
— Imagine onde isso vai parar —, disse Tillman. — Já demitiram dez mil
empregados e estão planejando colocar na rua outros dez. Talvez vinte mil.
Antes era como se estivéssemos na IBM, a velha IBM. Quero dizer, ninguém
era demitido da Três-E. Certamente não, se estivesse na gerência. Agora não faz
qualquer diferença! Operário; executivo; sênior; novato; alta gerência; média
gerência; supervisor de primeira linha; secretária; zelador, não importa. Alguns
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vice-presidentes no Cubo decidem que não gostam dos números da sua divisão.
Esqueça. Você é história. Quero dizer, não importa que você não tenha controle
sobre tais números. Mesmo não tendo controle real, boom! Sua carreira acabou.
Adeus, foi bom conhecer você. — Ele então parou, mas de tal maneira que
Michael teve o pressentimento de que alguma coisa estava por vir. — Você tem
alguma vaga na agência?
— Para você?
Tillman encolheu os ombros e bebeu um gole de bebida. — Como eu
disse, ninguém está seguro. É bom deixar uma porta aberta para qualquer even-
tualidade.
— Você não quer realmente sair, quer?
— Há um ano, mesmo seis meses atrás, a resposta seria não. Mas é uma
empresa diferente agora, e eu a detesto. — Ele virou o rosto, olhou para a luz
cinza-clara vindo pela janela e disse: — Detesto meu trabalho. — Disse isso tão
baixo que Michael quase não conseguiu ouvir.
— Posso perguntar —, disse Michael. — Mas acho que não tem nada no
momento.
— Sabe —, disse Tillman, — mesmo que você consiga o projeto desse
vídeo, os orçamentos estão muito apertados.
— O que você está querendo me dizer?
— Bem, ajudaria saber que você pode cobrar o que for necessário, não
ajudaria? E, sabe, se precisar de um pequeno extra... sabe, para contingências ou
qualquer outra coisa... — Tillman levantou o copo.
— Barney, não sei no que estamos nos metendo, mas...
— Não estou querendo me referir necessariamente a Bridgeford —, disse
Tillman. — Quero dizer, que tal Nova York? Chicago?
— Acho que não tenho esse tipo de influência, Barney.
Tillman suspirou. — Então por que diabos estou negociando com você?
Foi como um tapa no rosto de Michael. Ele corou. Estava vendo uma
intenção no homem que nunca tinha visto antes. — Barney... eu...
Tillman levantou e deixou a mesa. Michael observou-o ir para o banheiro.
Passaram-se quatro ou cinco minutos e Michael ficou sentado lá, observando a
porta do banheiro e se preocupando.
Mas quando Tillman voltou à mesa, parecia ter se recomposto. — Pode-
mos fazer o pedido?
— Escute, Barney, não posso fazer nenhuma promessa...
— Não, esqueça. Não se incomode com o que eu disse. Certo?
— Eu posso, na verdade, fazer algumas investigações...
— Não! Apenas esqueça que eu cheguei a mencionar qualquer coisa. Es-
queça até mesmo que conversamos.
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— Está bem. Certo. Mas se mudar de idéia...
— Você viu o jogo de ontem?
Michael telefonou a Hoona assim que voltou à Caverna. Na manhã se-
guinte, sexta-feira, os dois trabalharam lado a lado em um esquema para o
script. Eles o terminaram no início da tarde. Michael juntou alguns números
para um orçamento e correu para entregar o pacote para a Três-E. Tillman
olhou por cima, questionou alguns itens do orçamento, balançou a cabeça e
disse: — Parece bom.
Michael e Regan saíram durante o fim de semana. Com o fim da reorga-
nização corporativa, Regan podia folgar um fim de semana inteiro, algo que
não fazia há meses. Eles foram a uma estação de esqui acerca de cento e vinte
quilômetros de distância. Michael foi quem mais esquiou. Regan desceu al-
gumas vezes, mas passou a maior parte do tempo nas banheiras do resort ou
na cama. Eles fizeram amor, outra coisa que não faziam há bastante tempo, e
não apenas fizeram, mas fizeram três vezes — e ainda uma vez mais na manhã
de domingo, um carinho especial para Michael, pois Regan detestava sexo de
manhã.
Eles voltaram no domingo à noite e havia duas curtas mensagens de Lyle
Beekstra na secretária eletrônica. A primeira pedia a Michael para telefonar para
Lyle em casa, e a segunda apenas pedia a Michael para encontrar Lyle no vigési-
mo segundo andar antes de qualquer outra coisa na manhã de segunda-feira.
— Você vai retornar o telefonema? — perguntou Regan.
— Não. Vou falar com ele amanhã cedo, — respondeu Michael.

Quando Michael chegou ao escritório na manhã seguinte, um leão-de-


chácara enorme, branco, metido num uniforme azul e botas de couro preto,
postava-se no interior do prédio, próximo à mesa de Babe. O cara tinha um
crachá dourado e um prendedor de gravata, também dourado, para sua gra-
vata preta. Em seu cinto de couro preto havia prendedores para cassetete e
algemas.
— Você é da B e C?
— Sim —, disse Michael. — E, diabos, quem é você?
— Segurança —, disse ele.
— Segurança para quem? — Michael perguntou.
O imbecil não entendeu a pergunta.
— Olhe, eu sou o gerente aqui —, disse Michael. — Você se importaria
em me dizer o que pediram que você fizesse?
— O Sr. Beekstra está nos chamando.
— Bem, não entendo por que ele não me informou.
O segurança encolheu os ombros, expressando indiferença, e mudou o
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apoio de uma perna para a outra. — Parece que haverá algumas demissões hoje.
Eu devo, sabe, assegurar que nada saia das instalações.
— Ah... entendo. Michael balançou a cabeça lentamente e entrou no es-
critório para telefonar a Lyle Beekstra.
— Alô, Lyle. É Mike DiGabriel. Você poderia, por favor, me dizer por que
tem um leão-de-chácara na minha recepção?
Lyle respondeu com uma pergunta: — Você fez a lista do staff como lhe
pedi?
— Bem, não, veja, não vai ser necessário...
Lyle suspirou. — Eu lhe falei na semana passada para montar uma lista.
— Lyle, eu comecei, mas...
— Certo, pegue o que você tem e venha ao meu escritório. Agora. Preciso
falar com você —, disse isso e desligou.
Michael começou a se dirigir para o elevador sem a lista, então pensou
melhor, voltou ao escritório e desenterrou a lista do meio da papelada em sua
mesa.
— Acho que você vai ter um dia curto —, disse Michael ao segurança
quando passou.
Ele pegou o elevador para o vigésimo segundo e foi para o escritório de
Lyle. Lyle acenou-lhe para que entrasse assim que chegou. Ele estava em sua
mesa, em mangas de camisa, o paletó pendurado em um cabide antigo atrás
dele. Era um dia de suspensórios vermelhos.
— Vamos ver a lista.
— Aqui está... mas você não vai precisar dela. Quero dizer, não é necessá-
rio demitir ninguém. Ele empurrou a lista por sobre a mesa na direção de Lyle.
— Por que não?
— Porque, no final da semana passada, conseguimos mais de sessenta mil
dólares em negócios e temos diversas razões para acreditar que conseguiremos
mais.
— Sério?
— Sim. Conseguimos um negócio significativo da Três-E. Conseguimos
ainda o projeto do BNB e, por minhas estimativas, devemos estar equilibrados
daqui a trinta ou sessenta dias, mesmo com o atual número de pessoas em
nosso staff.
— Bom, disse Lyle. — Você vai ter uma bela largada com Nova York,
especialmente sem os custos indiretos de pessoal.
— O que está acontecendo? — Perguntou Michael.
Ao invés de responder, Lyle apanhou a lista.
— Artie O’Connor? Ele é o seu vendedor, não?
— Certo. Nós o chamamos de produtor, mas ele realmente é... — Sua voz
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foi sumindo enquanto ele observava Lyle fazer um círculo em torno do nome
de Artie e escrever na margem “manter”.
— Olhando para Michael, Lyle disse com um sorriso: — Não vejo o seu
nome aqui.
— Bem, eu...
— Certo, você assumiu que ainda estaria na folha de pagamentos —, disse
Lyle. — Ok. Vamos acrescentar seu nome.
Beekstra escreveu o nome de Michael no topo da lista, circulou como
tinha feito com Artie e puxou uma linha para a palavra “manter”. A seguir,
circulou “Gwen Shavinsky” na lista e também puxou uma linha para “manter”.
Então, escreveu uma anotação: “Dispensar imediatamente todos os outros —
L.B.”, devolvendo a lista a Michael.
— Este é seu grupo de agora em diante —, disse Lyle. — Um vendedor,
uma secretária e você próprio. Quando terminarmos aqui, leve a lista para o
departamento de pessoal e peça-lhes que preencham a papelada.
— E os outros? O que está acontecendo?
— Você terá que falar com eles —, disse Lyle. — O emprego deles acabou
hoje. Eles estão sendo demitidos. É por isso que o guarda de segurança está lá
em baixo. Você tem alguns equipamentos valiosos e eu não quero que desapare-
çam. Acredite. Acontece em tais circunstâncias. Eu também acho que você deve
chamar um chaveiro antes do final do dia. A propósito, eu lamento. Sei que isso
é difícil para você. Mas se você vai ser um gerente...
— Lyle, mas e os negócios que acabamos de captar? Quem vai produzi-los?
— Serão feitos a partir de Nova York —, disse Lyle. — Telefone para Dean
Sholles. Ele é o responsável pelos serviços de produção de Nova York...
— Eu sei quem é Sholles! E o que você quer dizer com “serão feitos a partir
de Nova York”? Michael sentiu que começava a entrar em pânico. — Nós já
passamos o orçamento para os clientes! Será mais caro se forem feitos em Nova
York!
— Tenho certeza que Nova York vai honrar tais orçamentos, uma vez que
isso acontecerá durante o período de transição.
— Transição para quê?
Lyle sentou de novo em sua cadeira e disse: — Tomamos uma decisão em
Hilton Head. O comitê executivo estava me pressionando para cortar custos, e
acho que foi o próprio Bill Barkes quem levantou a questão da agência ter três
grupos diferentes de produção. Ele contou nos dedos: Um em Nova York, um
em Los Angeles e um em Bridgeford. Nenhum dos grupos é muito produtivo e
o seu está operando com prejuízo. Então a coisa lógica a ser feita é consolidar.
Seu papel, de agora em diante, será vender. Seu e de... qual é o nome? O’Connor.
Michael sentiu o estômago embrulhar.
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— Vamos fechar seu centro de produção e encontraremos um lugar para
você em outra parte do prédio. — disse Lyle.
— Fechar? Mas e o equipamento?
— Vai tudo para Nova York. Dean Sholles disse que vai manter o que
puder usar e dispor do resto. De agora em diante, quando você tiver que produ-
zir vídeo, vai trabalhar com Nova York e decidir com Dean se faz sentido trazer
uma equipe de Nova York ou contratar free lancers locais para fazer o trabalho.
Faz o mais completo sentido, Mike.
— Não foi isso o que você me falou semana passada.
— Na semana passada eu falei que você teria que cortar o staff —, disse
Lyle.
— Você me disse que a questão era o faturamento. Se tivesse faturamento
tudo estaria bem. Bem, eu consegui o faturamento.
— Vamos, Mike. Você conseguiu um projeto. O que é bom, não estou
menosprezando. Mas isso não vai lhe dar o volume, pelo que posso ver, para
justificar um staff permanente. Ok? Agora a gerência da agência tomou uma
decisão, e é isso o que vai acontecer.
— Você nem ao menos conversou comigo.
— Bem, eu tentei contatá-lo durante o fim de semana, mas você não
retornou a minha ligação, então... Olhe, deixe-me falar a partir da minha expe-
riência: uma vez que a decisão tenha sido tomada, é melhor agir rápido. Faça
rápido. Se demorar, a informação vaza e você terá mais problemas do que teria
de outra forma. Confie em mim. Acho que em alguns dias, Mike, você se sen-
tirá muito melhor.
— Lyle, eu formei meu grupo... a partir do nada. Comecei com dois pro-
jetores de slides. Há três anos tivemos o nosso melhor ano.
— Isso foi há três anos. Se olhar os seus números — como eu olhei — a
tendência é clara —, disse Lyle. — Olhe, você fez um bom trabalho. E é por isso
que o estamos conservando e lhe dando outra chance. Esta agência sempre se
orgulhou de ser boa para quem é bom. No seu nível salarial, francamente, Mike,
é um pouco difícil ser leal.
Michael estava em pé diante da mesa de Lyle durante todo o tempo. Agora
ele se sentia fraco, com a cabeça zonza. Ele se inclinou para uma das duas cadei-
ras de couro na frente da mesa e desabou sobre ela, com uma mão cobrindo
parcialmente o rosto.
— Mike, isso não é um mau negócio para você. Você não terá os embaraços
administrativos de tentar manter a produtividade de todas essas pessoas. Poderá
focalizar a venda e dirigir, no que você é realmente bom. Além disso, você estará
viajando mais. Irá para Nova York mais freqüentemente, poderá ver alguns shows.
Vou até facilitar as coisas para você. Se fizer um esforço sincero para reconstruir o
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negócio e treinar um substituto para assumir o seu lugar, vou pegar o telefone
daqui a um ano ou dois e falar com Bill Barkes pessoalmente para conseguir sua
transferência para Nova York — ou Los Angeles, à sua escolha. Mandá-lo de volta
para uma cidade de verdade, para variar. O que você me diz sobre isso?
— Não —, disse Michael, levantando-se.
— Como é?
— Eu disse não. Não vou demitir ninguém. Tivemos um trimestre ruim,
mas ninguém merece ser despedido por isso.
— Você teve mais do que um mau trimestre. Foi mais de um ano de baixa
rentabilidade. Seu grupo está afundando esssa repartição.
— Não vou fazer isso. Você tem que nos dar uma chance.
— O que você quer dizer com eu tenho que dar uma chance? Eu lhe disse,
a decisão foi tomada. Bill Barkes aprovou pessoalmente a decisão.
— Mas eu não. Você nem ao menos me perguntou.
— Eu não tenho que perguntar. — Disse Lyle. — Isso é um negócio, não
uma democracia. Agora, ou você demite essas pessoas, ou será insubordinação e
você mesmo será demitido.
— Não vou fazer. Eu me ralei tentando fechar negócios na semana pas-
sada...
— Certo, é assim —, disse Lyle. — Minha paciência se esgotou. Você vai
junto com os outros.
Michael piscou. Ele não esperava por isso. — Não, espere, ouça-me...
— Eu ouvi você. Você não me ouviu. — Disse Lyle. — Pela última vez,
você vai demitir essas pessoas?
— Eu disse não. Não vou fazê-lo. Você tem que nos dar uma chance.
— Então é assim —, disse Lyle. Ele se levantou. — Sr. DiGabriel, seus
serviços não são mais necessários aqui. Vou informar o departamento de Recur-
sos Humanos que seu vínculo empregatício termina imediatamente.
— Lyle, me ouça!
— Lyle balançou a cabeça. — Não. Eu lhe dei todas as chances do mundo.
Você não aceitou. Minha decisão é final.
Michael vagarosamente começou a perceber que a briga tinha realmente
acabado e que ele tinha perdido.
— Você tem uma hora para limpar seu escritório, remover seus pertences
pessoais e sair das instalações —, Michael escutou Lyle falar.
Algum tempo depois — apenas alguns segundos, mas ele achou que eram
minutos ou ainda mais — Michael estava no hall, afastando-se mais e mais de
Lyle. Em parte ele queria virar e dizer: — Não, eu aceito voltar. Desculpe. Não
quero isso. Mas não o fez, continuou a se mover. Sentia-se flutuar acima do
chão, como em algum tipo de experiência fora do corpo. Uma das pessoas da
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propaganda cumprimentou-o no caminho da saída, mas Michael apenas pas-
sou por ela. Ao virar o canto do elevador, ele subitamente sentiu uma náusea
crescente. Havia um banheiro no hall, mas quando Michael alcançou a maça-
neta, percebeu que a porta não abria. Ele não tinha uma chave para o banheiro
do vigésimo segundo andar. A recepcionista tinha uma, mas ele não iria voltar e
pedir. Olhou em volta, desesperadamente, e viu um cinzeiro de aço inoxidável
debaixo dos botões do elevador. Recostando-se sobre ele com a boca aberta,
olhou para aquele cinzeiro, mas um minuto ou dois passaram e nada aconteceu.
Nada veio para fora.

Ele estava colocando suas coisas em uma caixa de papelão da Xerox quan-
do Tanny Zoelle entrou.
— Mike, o que está acontecendo? Por que há um segurança ao lado da
porta?
Ele olhou diretamente para o rosto dela. — Lamento. Tentei fazer o que
pude. Eles estão acabando com nosso grupo.
Ela arregalou os olhos e não conseguiu dizer nada por um momento. En-
tão sua expressão mudou e ela olhou para ele com mais raiva do que ele jamais
vira nela, e com desprezo. — Você sabia o tempo todo, não sabia?
— Eu não sabia! — ele gritou para ela.
— Você tinha que saber! Você é o encarregado!
Ele lutou para manter a paciência. — Quem você pensa que eu sou, Deus
ou alguém parecido? Eu pensei que no máximo Beekstra me faria cortar uma ou
duas pessoas. Eu não sabia que ele tentaria me fazer despedir todos vocês.
Ela olhou como se quisesse dizer mais, mas não falou ou não pôde falar.
Ao invés disso, virou e saiu.
Michael rapidamente encheu a caixa com as poucas coisas com que se
importava. Ele pegou tudo, olhou ao redor por alguns segundos, com a caixa
sob um braço, sua maleta na outra mão, ele saiu.
Stoney, Redmeat, Spider e Boner estavam agora no hall fora do estúdio.
Tanny deve ter-lhes contado.
— Foi bom ter trabalhado com todos vocês —, disse ele, evitando seus
olhares. — Lamento que termine desse jeito. Boa sorte a todos vocês.
Redmeat levantou o braço para mantê-lo no lugar, mas não para apertar-
lhe a mão. — Espere um minuto, Mike.
Michael abaixou o rosto. — Eu não posso falar agora.
Ele foi andando. Eles o seguiram até a porta próxima à mesa de Babe,
onde estava o segurança.
— Alto —, disse o segurança, dando um passo, bloqueando o caminho e
apontando para a caixa: — Eu tenho que checar isto.
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Michael o deixou abri-la.
— Dia curto, hein? — Disse o segurança. Então, retirou uma fita de
vídeo da caixa: — O que é isso?
— É minha fita pessoal. Ele tinha clipes dos melhores programas que
produziu e dirigiu, que precisava para conseguir outro emprego.
— Não posso deixá-lo sair com isso —, disse o segurança. — Isso parece
propriedade da B e C.
Michael podia sentir os olhos dos outros nele. E disse: — Dê-me a fita.
— Ela tem que ser verificada. Você pode voltar depois para apanhá-la.
— Saia do meu caminho. Antes do segurança se mover, Michael o empur-
rou e passou, batendo em sua coxa com a maleta.
— Hei, senhor! Isso é agressão! — disse o segurança. — Eu poderia detê-
lo por agressão!
Michael abriu violentamente a porta e saiu para o hall, quase de encontro
com Artie O’Connor.
— Mike, Hei, Mikey! Consegui uma! Consegui uma venda! O hospital
quer que filmemos um vídeo para eles!
Michael passou raspando nele, que estava feliz feito um cachorrinho.
No estacionamento, quando tirou as chaves para abrir o carro, Michael
percebeu que suas mãos estavam tremendo. Ele pôs sua maleta e a caixa no
porta-mala do carro e resolveu caminhar, imaginando que precisava se acalmar
antes de dirigir.
Era o fim da hora do rush, e ele andou pelas ruas entre uma multidão de
pessoas descendo dos ônibus, correndo para o trabalho. Ele continuou andan-
do, subindo por uma avenida, descendo o próximo bulevar, seguindo o rio
onde o sol frio brilhava, e de volta para as sombras dos edifícios de escritório.
Ele andou por uma hora.Todos já estavam no trabalho, exceto ele. Virando a
esquina, encontrava-se na rua Mccagheny, ao lado do rio. Parou e olhou a água
verde. O rio se agitou à sua frente, mas ele viu o Oceano Pacífico, como tinha
visto do Píer de Santa Mônica, o primeiro lugar em que esteve depois de se
mudar para Los Angeles. Michelle, sua primeira mulher, estava perto dele, em-
bora não a tivesse encontrado há mais de um ano. Ele a viu sorrindo, sua face
jovem e fresca, com os olhos semicerrados devido ao brilho do sol, simplesmen-
te feliz por estar com ele. Ele se virou e olhou em direção à cidade grande e às
alturas escuras ao longe. Eu vou chegar lá, ele disse a si mesmo. Ele gesticulou,
apontando a costa curvada na direção de Malibu, e disse a Michelle: — Nós
vamos morar lá algum dia. — Ela passou o braço em torno de sua cintura. Ele
ainda podia sentir os dedos dela, limpos e finos, o esmalte liso das unhas quan-
do ele pôs sua mão sobre a dela, a pressão suave de seu quadril quando ela o
abraçou no píer. Ela realmente acreditava nele. Ele se virou e ali estava.
62
Ele viu o vapor branco de sua respiração contra a água marrom. Ocorreu-
lhe que deveria pular. Deu um passo indeciso na direção da ponte da rua Sete,
quando uma lufada de vento desceu pelo vale, não que fosse para detê-lo, pas-
sando cortante por ele. Aquilo já era suficiente. Seu rosto estava doendo, de tão
frio que estava. Ele virou para as quadras desagradáveis e duras da cidade, cru-
zou a rua, e voltou para o meio delas.
No caminho para o carro, passou pelo Nick’s. Olhando pela vitrine, pen-
sando em uma xícara quente de café, ele viu algo que nunca tinha notado em
todos os seus anos de trabalho no centro da cidade. O bar estava aberto.
Agora ele estava olhando para dentro de seu copo, para a vodca clara,
prateada, perguntando-se: Que diabos vou fazer?
Ele olhou para fora, para as pessoas na rua e sentou em seu banco, sentin-
do-se apartado do mundo geral das pessoas que viviam dias normais.
— Eu construí aquele negócio, disse a si mesmo.
Mas você não o possuía, respondeu uma voz. Você o construiu para eles, não
para si mesmo. Esse foi o seu erro. Você agiu como se fosse seu, mas não era.
— Eu não fui o único, ele respondeu.
— Sim, agora você está completamente ferrado.—
— Então o que vou fazer?
— Tome outro drinque. Está no script, não? Você perde o emprego, e deve,
supostamente, embebedar-se. Mais tarde pense o que fazer com o restante da vida.
Vá em frente e seja tolo.
Ele pediu outra bebida e Lou silenciosamente o serviu. Ele estava pensan-
do em Tanny e nos outros, imaginando quantos deles ele jamais veria novamen-
te. Estava pensando neles quando Redmeat passou, virou-se, veio direto para a
vitrine, colocou as mãos sobre as sobrancelhas e olhou para dentro. Atônito por
vê-lo, Michael apenas ficou lá sentado. Redmeat virou novamente, e foi embo-
ra pelo mesmo caminho de onde viera, deixando no vidro a marca de suas mãos
e rosto. Michael fez menção de alcançá-lo, mas se deteve. Não, ele realmente
não queria falar com ninguém no momento. Sentou-se novamente.
Mas Redmeat tinha visto Michael. Um minuto depois, todos eles entra-
ram pela porta do Nick’s: Redmeat na liderança, Tanny, depois Stoney, Spider e
Boner. Todos, exceto Babe e Artie, os dois que foram mantidos.
— Sim, é ele! Red exclamou. — Eu achei que fosse você.
— Nós vimos seu carro —, Boner disse —, e então sabíamos que você
ainda estava na cidade.
— Eles se reuniram em torno dele, e Michael lamentava ao mesmo tempo
em que estava muito feliz por vê-los. — Ei, Lou...
Os seis foram para o canto do bar e quando todos bebiam alguma coisa,
Michael levantou sua cerveja. — Bem... não sei o que dizer. Lamento.
63
Redmeat ergueu o copo. — Pessoal da Caverna para sempre.
— Certo —, disse Michael. — Ao Pessoal da Caverna para sempre.
Eles bateram os copos e beberam.
Houve um silêncio durante dez, quinze segundos, e então todos começa-
ram a falar. Michael sentiu medo e preocupação em suas vozes, tons de queixa e
raiva. Ele olhou para Tanny, e parecia que faltava algo nela. E faltava: a câmera.
Em qualquer lugar em que fossem, ela sempre trazia a câmera de vídeo com ela,
inclusive ao restaurante quando a equipe almoçava, deixando-a sobre a mesa ou
em uma cadeira livre entre eles. Isso era uma prática antiga em seus hábitos de
trabalho. Agora, faltando a câmera, parecia quase como se ela tivesse perdido
um pedaço do corpo.
Ela estava próxima dele, emburrada. Ela olhou diretamente para ele e dis-
se, sem muita emoção: — Ainda estou brava com você.
— Por que você está brava com ele? — Redmeat perguntou-lhe.
— Porque ela acha que eu estava escondendo —, Michael respondeu. —
Ela pensa que eu sabia o tempo todo que as demissões estavam a caminho.
— Ei, ele foi demitido da mesma maneira que nós —, Redmeat disse a
Tanny. — Se eles iam fazer isso, não contariam a ele mais do que a nós.
— Sim, exceto pelo fato de eu não ter sido demitido —, disse Michael. —
Eu pedi demissão.
— Você pediu demissão? — Perguntou Tanny.
— Não, tecnicamente acho que Beekstra me demitiu. Eu não concordaria
com o que eles decidiram em Hilton Head. Então ele me demitiu.
Ele contou a eles toda a história, os detalhes. Não tinham contado nada a
eles. O responsável pelos Recursos Humanos tinha descido alguns minutos de-
pois de Michael sair, dado a eles o aviso legal, mas nenhuma das razões.
— Mas você teve a chance de ficar —, Tanny disse a Michael.
— Sim, eu, Babe e Artie. Que time formaríamos.
A risada começou devagar e aumentou.
— Lamento —, disse Tanny a Michael, com uma mão na manga de sua
camisa.
— Esqueça.
— Bem —, disse Redmeat —, tivemos bons tempos na Caverna.
— Fizemos alguns bons trabalhos também —, disse Stoney. — Quero
dizer, considerando...
— Talvez atuemos juntos como free lancers ou alguma coisa parecida —,
disse Spider.
— Não eu —, disse Redmeat. — Eu não vou ser free lancer.
— O que você vai fazer? — Perguntou Tanny.
Redmeat encolheu os ombros. Ele não sabia. Nenhum deles sabia.
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Michael olhou cada um dos rostos, subitamente quis apenas sair, sair dali
e ir para casa, dormir por um ano ou dois e depois começar de novo, fazendo
alguma coisa completamente diferente. Ocorreu-lhe que essa poderia ser real-
mente a cena final para ele. Sua ligação com a carreira cinematográfica, que ele
havia perseguido por tantos anos, estava rapidamente morrendo. Quantas vezes
naqueles anos ele tinha se comprometido e feito as pazes com seu desaponta-
mento, se comprometido e feito as pazes? Tudo para acabar assim.
— Droga, eu poderia matá-lo —, disse ele em voz alta, e todas as cabeças
viraram para ele. Todos sabiam que se referia a Lyle Beekstra.
— Eu não queria matá-lo —, disse Redmeat —, mas gostaria de surrá-lo
até ele se borrar.
— Eu seguro e você bate—, disse Tanny.
A idéia de Tanny segurando Lyle Beekstra durante uma briga pareceu mui-
to engraçada a todos, exceto para Michael.
— Acho que devemos apenas pendurá-lo na janela do escritório pelos seus
suspensórios vermelhos —, disse Tanny.
— Hei, sim, isso é ainda melhor —, disse Spider. — É... sabe... não vio-
lento. Mas amedrontador.
— Não, não —, disse Stoney. — Vocês sabem o que eles dizem, não? Não
enlouqueçam, mas acertem as contas.
— E como devemos fazer isso? — Michael perguntou, ainda enlouquecido.
— Eu sei —, disse Tanny. — Vamos voltar, roubar o equipamento e co-
meçar nosso próprio estúdio.
— E como isso vai nos deixar quites com Beekstra?
— Bem, vamos ganhar milhões de dólares e, então, não terá mais impor-
tância.
— Certo —, disse Redmeat —, e então poderemos contratar um pistoleiro
que estoure Beekstra.
Uma grande gargalhada.
— Sabe —, disse Tanny, — poderíamos alugar equipamentos.
Em seguida ficaram quietos, todos tendo os mesmos pensamentos.
— É verdade —, disse Stoney. — Poderíamos alugar equipamentos.
— Desculpe —, disse Spider —, mas como vamos pagar para alugar tais
equipamentos?
— O papai aqui cuidará disso —, disse Redmeat, batendo no ombro de
Michael. — Ele sempre fica com a conta.
Outra risada, menor.
— E se juntássemos nosso dinheiro? — Perguntou Tanny.
— Que dinheiro? — Perguntou Redmeat. — Você quer dizer os nossos
cheques do auxílio desemprego?
65
— Beekstra disse que todos nós vamos receber um mês de indenização.
— Mesmo que aluguemos uma câmera e um aparelho de vídeo e algumas
luzes, e o estúdio? — Perguntou Boner. — E a pós-produção?
— Poderíamos alugar a sala ‘Fora do ar’ do Canal Sessenta e seis.
— Mesmo no Canal Sessenta e seis, não estamos falando de centavos.
— Ei, espere um minuto —, disse Tanny. — Que tal a Caverna?
— O que tem ela?
— Se Beekstra está fechando o grupo de produção, aquele espaço deve
ficar disponível para alugar.
— Você quer dizer —, disse Redmeat —, que poderíamos procurar o
proprietário do edifício e ver se podemos alugar a Caverna?
— Quem mais vai alugá-la? Não é exatamente espaço próprio para o
comércio.
— Quanto custaria? Spider perguntou.
— Nove dólares o metro —, disse Michael.
— O metro?
— Metro quadrado. Você aluga espaço comercial por metro quadrado. A
Caverna mede cerca de quinze por dezoito metros, cerca de duzentos e setenta
metros quadrados. A nove o metro quadrado, dá algo em torno de vinte e sete
mil dólares por ano, ou... — Michael fez as contas de cabeça. — Dois mil e
duzentos e cinqüenta por mês.
A cifra os intimidava.
— Eles aceitam Visa? — Perguntou Redmeat.
— Na verdade, nove o metro está bastante bom para o centro da cidade — ,
disse Michael.
— Bem, tem que ser —, disse Tanny. — É um porão frio, úmido.
— Sim, mas podemos pagar? — Perguntou Redmeat.
— Claro que podemos pagar —, disse Tanny. — Apenas temos que cobrar
de acordo, como em qualquer negócio. Certo, Mike?
— Espere um minuto —, disse Michel. — Vocês estão falando sério?
— Mike, eu preciso trabalhar —, disse Tanny. — Tenho um filho e minha
mãe para sustentar. O que devo fazer? Ser garçonete?
— Estou com ela —, disse Stoney. — Tenho família. Tenho que arrumar
alguma coisa rápido.
— Vou dizer uma coisa —, disse Redmeat. — Eu não quero ser free lancer.
Não quero aquela chateação.
Boner, sentado quieto em uma ponta, hesitantemente levantou a mão. —
Estou com vocês, se me quiserem.
— E você, Spider? — Tanny perguntou.
— Claro. Por que não?
66
Michael estava surpreso.
— Que tal você, Michael? — Tanny perguntou.
— Bem... dadas as alternativas...
— Ok, então é unânime. — Afirmou Tanny. — Vamos fazer!
— Espere —, disse Michael. — Você está esquecendo um pequeno deta-
lhe: Não temos nenhum cliente. Quero dizer, podemos alugar algum equipa-
mento, podemos falar com a imobiliária encarregada do aluguel da Caverna.
Mas até conseguirmos alguns clientes, não temos um negócio.
— E a Três-E? E o Barney Tillman? — Perguntou Tanny.
— A Três-E é cliente da Barkes & Collwin.
— E daí? Se não podemos roubar os equipamentos, por que não roubar
um cliente ou dois?
Michael coçou o queixo. — Não sei se seria ético.
— Dane-se a ética! — Disse Redmeat. — Beekstra acabou de nos colocar
na rua! Será que foi ético?
Michael pensou por um momento. — Acho que poderia telefonar para
Tillman. Ele se levantou e pôs a mão no bolso. — Alguém tem uma ficha?
Eles procuraram em seus bolsos e carteiras. Michael pegou a ficha de Tanny,
porque ela foi mais rápida e estava mais perto. Ele se dirigiu ao telefone público
ao fundo, próximo ao banheiro. Discou o número de Tillman, que ele sabia de
cor.
— Sim, eu soube —, disse Tillman. — Acabei de falar com Lyle ao telefone.
— Bem, como se sente a respeito?
— Como me sinto? Posso lhe dizer que não estou feliz. Não estou nem um
pouco feliz. Ele telefona, sem ter dado nenhum aviso de que alguma coisa esta-
va acontecendo, e anuncia o que fez! Ele não poderia ter me avisado com
antecedência? Eu não sei.
— Você não tem que tolerar esse tipo de coisa.
— Eu sei que não! Posso fazer todo o trabalho internamente! O que estou
mesmo tentado a fazer, exceto que ... bem, eles não são muito bons.
Michael inspirou, sentiu o ritmo de seu coração, e disse: Eu posso produ-
zi-lo para você.
— O quê?
— Eu posso fazer o vídeo para você.
— Como?
— Decidi formar minha própria empresa de produção. Você pode conti-
nuar comigo e nunca perder uma jogada. A estimativa de preço que lhe dei na
sexta-feira ainda vale. E você sabe que eu faço um bom trabalho.
— Sim, eu sei —, disse Tillman vagamente. — Diga-me uma coisa... você
estava planejando isso?
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— Absolutamente não.
— Então como vai produzi-lo? Onde vai editá-lo? Você não tem equipa-
mento, tem?
— Vamos alugar o equipamento. Temos bons contatos com uma série de
vendedores. Tenho certeza de que não será problema —, disse Michael, espe-
rando que fosse verdade. — Se tivermos problemas, faremos a edição no Canal
Sessenta e Seis.
— Quem é “nós”?
— Todo o pessoal de minha equipe. Eles estão comigo.
— Isso seria bom —, disse Tillman. — Não ter que trazer alguma outra
pessoa às pressas, quero dizer. Mas se você tiver que usar o Canal Sessenta e Seis,
seus custos não serão maiores?
— Se forem maiores, engoliremos a diferença.
— Eu... Eu tenho que pensar —, disse Barney. — Tem um número de
telefone em que possa encontrá-lo?
Michael não queria passar a ele o número de um telefone público. —
Posso lhe ligar de novo em uma hora ou duas?
— Veja só! Esse é o meu problema! Você nem mesmo tem um telefone, tem?
— Barney, terei todos esses detalhes resolvidos em alguns dias. Posso lhe
ligar de novo em torno das duas ou duas e meia?
— Vou estar numa reunião a maior parte da tarde. Telefone no fim do dia.
— Ótimo. Conversaremos no final do dia.
Todos os olhos estavam em Michael quando ele retornou ao bar.
— O que ele disse? — Perguntou Tanny.
— Está pensando a respeito. Tenho que telefonar de novo mais tarde.
— Ele está pensando? Nada mal para começar —, disse Redmeat.
— Será no final do dia ou talvez só amanhã cedo que saberei alguma coisa
—, disse Michael. — Ouçam, vamos acabar de beber. Sugiro a todos vocês irem
para suas casas. Amanhã cedo, todos que quiserem tomar parte nisso vão me
encontrar aqui para o café da manhã — no lado do Vicki, não no bar. Digamos,
às nove horas. Se Barney nos der o trabalho, então montaremos um negócio e
iremos trabalhar. Se não, acho que poderemos ir para o Prédio da Administra-
ção Estadual dar entrada nos papéis do seguro desemprego.
Aparentemente todos concordaram. Redmeat então levantou sua caneca.
— Um brinde antes de irmos —, disse ele. — Pela salvação da Caverna!
— Sim, salvem a Caverna —, disse Spider.
— À Caverna —, disse Michael.
Stoney foi o primeiro a sair. Depois, Boner. A seguir, Redmeat e Spider.
Ele prometeram estar lá na manhã seguinte. Finalmente, ficaram apenas Michael
e Tanny no bar.
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Ela pareceu estar esperando até que os outros se fossem, e quando estavam
sós, disse a Michael: — Lamento ter ficado brava com você.
— Está tudo certo.
— Eu não tinha entendido... Sabe, realmente, estou orgulhosa por você
ter resistido.
— Ah. Bem... foi só o jeito como aconteceu, só isso.
Eles ficaram quietos por um momento.
— Então acho que você não é mais o meu chefe —, disse Tanny.
— Não, acho que não.
— Sabe, acho que não devia lhe contar isso... — Ela estava balançando no
banco. — Mas já que você não é mais o meu chefe... eu meio que estive apaixo-
nada por você. Depois que começamos a trabalhar juntos.
Para Michael, a confissão foi um choque quase tão grande como se estives-
se sendo queimado.
— Eu sei que parece tolo —, disse ela. — Paixão! Eu, aos trinta e cinco
anos. Mas é o que aconteceu.
— Um-hum —, disse Michael.
— Mas já passou.
— Oh. A surpresa transformou-se em desapontamento. Ainda assim, ele
se sentiu compelido a dizer alguma coisa agradável. — Eu sempre achei você...
legal. Muito legal. Claro que nunca poderia admitir isso, porque...
— Porque estávamos trabalhando juntos.
— Certo.
— E além disso você é casado.
— Mas eu sempre a achei muito especial.
— Obrigada. — Seus olhos castanhos estavam brilhando suavemente en-
quanto ele falava, e então endureceram. Ela se aprumou no banco. Uma mão
gorda prendeu-se ao ombro de Michael.
— Aí estão vocês! Alguém se importaria de me contar o que está aconte-
cendo? Era Hoona. — Eu acabei de passar na Caverna, e as únicas pessoas lá
eram Babe e um cara trocando as fechaduras.
Michael olhou para Tanny. O momento de conseqüências imprevisíveis
tinha passado. Ele disse a Hoona: — Fomos ‘desativados’ esta manhã.
— Eu sei disso! — disse Hoona. — Babe estava limpando a mesa. Ela
disse que todos vocês foram despedidos e que estavam mudando a ela e ao
O’Connor para cima.
— É exatamente essa a história. Nós todos entramos pelo cano.
— Não posso acreditar nisso —, disse Hoona.
— Bem, é melhor ir andando —, disse Tanny. Ela tomou um último gole
de vodca, colocou o copo ainda com meia dose sobre o balcão e o afastou. Ela
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fez menção de pegar a carteira da bolsa, mas Michael disse: — Não, é por
minha conta.
— Tem certeza? Bem... até amanhã de manhã.
Ela saiu, e Hoona disse a Michael: — Por que eu não causo mais esse efeito
sobre as mulheres? Ele tomou o assento que ela ocupara e pegou um envelope
nove por doze. — Quero saber o que devo fazer com isso.
— O que é isso?
— O novo script para o banco. Você não se lembra? Tínhamos uma reu-
nião agendada com Gingway a uma e meia.
Michael agora lembrava. — E o seu script está bom?
— Que pergunta! Claro que está bom. Eu voltei ao tema do “A-okei” que
eles gostaram tanto, mas só o usei sete vezes. Eu contei.
Michael pegou o envelope e o abriu. Tirou o script e disse: — Ei, sabe de
uma coisa?
— O quê?
— Barney Tillman não é o único cliente que eu poderia roubar.
— O que você quer dizer?

Michael pagou a conta, e ele e Hoona cruzaram o hall para o lado do


Vicki. Pegaram um reservado e pediram o almoço. Michael bebeu café, comeu
um ‘Reuben’ e leu o script. A uma e trinta ele estava mais ou menos sóbrio, mas
um pouco ‘ligado’ devido à cafeína. Ele comprou alguns Tic Tacs no caixa, ao
sair, e engoliu metade a caminho do banco.
Eles se encontraram com Herb Gingway, Patrícia e somente um vice-pre-
sidente dessa vez.
Michael abriu a reunião perguntando: Lyle Beekstra falou com vocês?
Herb olhou para o vice-presidente, e este para Patrícia.
— Recebi um recado do Lyle —, disse Patrícia —, mas ainda não conse-
gui retornar a ligação.
— A Barkes & Collwin fechou o Grupo de Produção de Vídeo de
Bridgeford.
A notícia levou alguns segundos até que todos se acalmassem.
— O que isso quer dizer? perguntou Herb Gingway.
— Significa que eu e minha equipe de vídeo fomos demitidos.
— Então o que vocês estão fazendo aqui?
— Tínhamos uma reunião agendada. Imaginei que deveríamos aparecer.
Ele deixou que isso assentasse.
— Bem, quem vai fazer nosso vídeo?
— Provavelmente ele seria produzido pelo grupo de produção que eles
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têm em Nova York. É isso que imagino. Se vocês quiserem que seja produzido
pela Barkes & Collwin.
Herb foi o primeiro a entender nas entrelinhas. — Qual poderia ser a
alternativa?
— Estou formando a minha própria empresa de produção, que contará
com o mesmo pessoal que trabalhava comigo na B&C. Ficaríamos felizes em
aceitar o trabalho. Entretanto, se vocês quiserem usar a Barkes & Collwin...
bem, a escolha é sua.
Patrícia olhou para o vice-presidente. O vice-presidente olhou para Herb.
— Bem... — disse Herb. — Não acho que queremos nos envolver com...
Nova York.
— Você pode fazer o vídeo para nós? — Perguntou Patrícia.
— Certamente.
— Pelo mesmo preço? — Perguntou o vice-presidente.
— Absolutamente o mesmo.
— E teria a mesma qualidade e tudo? — perguntou Herb.
— Sim, eu garanto a qualidade da produção.
Herb, Patrícia e o vice-presidente entreolharam-se e gesticularam um as-
sentimento.
— Acho que gostaríamos que você fizesse o vídeo —, disse Herb. — Nós
nos sentimos à vontade com você. Vou falar com Beekstra. Ele vai entender.
A cereja do bolo foi que Herb adorou o script. — Bem, — ele disse depois
da leitura —, acho que estamos A-0kay! Agora, só umas pequenas mudanças...

No hall defronte ao escritório de Gingway, quando estavam saindo, Hoona


estendeu a mão a Michael e disse: — Congratulações. Parece que você está no
negócio.
Michael sorriu, aceitando o aperto de mão. — É, parece que você está certo.
Eles pegaram o elevador para o térreo, e ao se dirigirem para a rua, Hoona
disse: Você quer voltar ao Nick’s? Eu pago desta vez.
— Não, já tive o suficiente do Nick’s por um dia. Mas obrigado. Preciso
fazer um monte de coisas. Falo com você amanhã. — E quando Hoona saiu do
banco, Michael se dirigiu a uma mulher sentada em uma mesa no lado oposto
aos caixas.
— Posso ajudá-lo?
— Sim. Eu gostaria de abrir uma conta corrente empresarial.
— Certo. Por favor, sente-se.
Ela abriu uma gaveta e pegou alguns formulários. Michael pegou a carteira
que estava no bolso do paletó.
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— Quanto o senhor vai depositar para abrir a conta?
Michael colocou um cartão Visa na frente dela. — Dez mil dólares.
A mulher piscou. — Como um saque em dinheiro debitado no cartão de
crédito?
— Sim.
— Certo. E que nome o senhor gostaria que figurasse na conta?
— DiGabriel Vídeo Produções.
Soou tão bem quando ele proferiu essas palavras todas pela primeira vez.

Michael foi a um dos caixas depois de abrir a conta corrente e trocou


alguns dólares em moedas de vinte e cinco centavos. Depois foi a uma cabine
telefônica perto dos elevadores, pegou a lista de páginas amarelas pendurada em
uma corrente abaixo do telefone e folheou-a para encontrar o número da Imo-
biliária Dowtown.
Ele já conhecia o gerente, um sujeito chamado Denny Frieg. Michael cha-
mou-o pelo telefone, identificou-se e disse: — Por favor, a Barkes & Collwin
vai renovar o aluguel daquele espaço?
— No nível inferior oeste? Hum, não. Tecnicamente eles são os inquilinos
até o fim de março, mas o Sr. Beekstra disse que eles não iriam renovar e que
estaríamos livres para encontrar novos inquilinos. Por quê? O senhor conhece
alguém interessado?
— Na verdade, eu posso estar interessado.
— Oh, realmente?
— Estou começando minha própria empresa de produção.
— Entendo. Bem, o nível inferior oeste seria ideal para o senhor, não?
— Mas preciso de um lugar rapidamente. Não posso esperar até abril.
— Hum. Bem, o Sr. Beekstra me disse que eles vão precisar de algumas
semanas para retirar todos os equipamentos. Mas, de acordo com os termos da
locação, se eles liberarem o espaço antes do fim do contrato, podemos assinar
contrato com um novo inquilino. O que na verdade é do próprio interesse
deles, pois isso os livra da obrigação de pagar o aluguel durante os meses em que
o imóvel não estiver sendo usado. Assim, acredito que o senhor poderia prova-
velmente mudar no início do próximo mês. Eu poderia confirmar com ele para
ter certeza...
— Não, não é necessário —, disse Michael. — Deixe-me perguntar mais
uma coisa: Se eu fizer um depósito o espaço será meu assim que o desocuparem,
certo?
— Bem, se fizer um depósito e assinar um contrato de locação conosco,
não vejo por que não. Presumindo que a Barkes tenha removido todos os seus
pertences.
72
— Certo. Como disse, gostaria de me apressar em relação a esse negócio
—, disse Michael. — Por que não nos encontramos esta tarde?

No momento em que Michael chegou à Downtown, o preço tinha au-


mentado violentamente.
— Doze dólares o metro?
— Verifiquei meus registros —, disse Frieg —, e não tínhamos aumenta-
do o aluguel por quase cinco anos. É por isso que parece um salto grande. Na
verdade não é.
— Doze é um absurdo, Denny. É um porão!
— O nível inferior oeste, devo lembrá-lo, é um endereço comercial de
primeira.
— É um porão.
— Mas se ajusta perfeitamente às suas necessidades.
— Vamos olhar a questão pelo lado oposto —, disse Michael. — Ele não
se ajusta às necessidades de ninguém mais. A não ser que você o alugue como
depósito, vai ter que remodelar completamente o lugar. E ninguém neste mer-
cado vai pagar doze por um espaço para depósito.
Frieg abaixou os olhos, mas não estava fugindo. — Michael, você tem que
entender que estávamos dando à Barkes & Collwin um tipo de desconto por
alugarem dois andares inteiros no mesmo prédio.
— Veja, estou aqui agora, hoje, com um cheque e uma caneta. Não vou
pagar doze. Se eu sair sem o contrato, pode levar anos para você conseguir
alugar aquele espaço novamente. Você nem ao menos tem ocupação completa
nos andares de cima daquele prédio. E do jeito que está a economia desta cida-
de, não vai melhorar em futuro previsível.
— Eu poderia aceitar dez —, disse Frieg.
Michael pensou por um momento, pensou na importância que tinha não
ter que procurar outro lugar e lidar com todos os problemas que isso causaria.
— Então está bem. Dez.
— E é claro que vou precisar de um adiantamento correspondente a três
meses de aluguel.
Uma hora mais tarde, Michael conseguiu que ele abaixasse para dois me-
ses, e com contrato para um ano com opção de renovação até sessenta dias antes
do vencimento. Eles caminharam para frente e para trás em um grande número
de questões: exigência de seguro; serviços de limpeza; taxa de segurança e o
pagamento de uma cota sobre as áreas comuns do prédio, como o saguão de
entrada. Frieg ganhou a maior parte dessas batalhas, mas ao fim Michael pegou
um dos cheques provisórios que recebeu do banco e preencheu com o valor de
cinco mil dólares. Ao entregar a Frieg, ele pensou em quanto tempo aqueles dez
mil dólares levariam para desaparecer.
73
Frieg preencheu um recibo e informou-o de que o contrato de aluguel
estaria pronto para ser assinado em um ou dois dias.
— Eu gostaria que você me fizesse um favor —, Michael disse ao se levan-
tar para sair. — Eu apreciaria se você não mencionasse a Lyle Beekstra que eu
sou o novo inquilino.
— Por quê? Algum problema?
— Acho que não. Ao menos espero que não —, disse Michael. Eu gostaria
de dar a notícia a ele pessoalmente. Isto é, no momento apropriado.
Frieg leu no rosto de Michael. — Sim. Talvez assim seja mesmo melhor.

A última coisa que Michael fez antes de sair do centro da cidade e ir para
casa foi telefonar para Barney Tillman.
— Tenho que lhe confessar —, disse Tillman —. Estou me sentindo entre
a cruz e a caldeirinha. Essa situação é muito desconfortável. Ele parecia estar em
pânico. — Eu quero dizer que, pelo amor de Deus, esse programa envolve Hal
Bromman!
— E é exatamente por isso que você deveria deixar-me produzi-lo. —
Michael decidiu que era hora de ser agressivo. — Este não é o momento de
trabalhar com algum artista da Costa Leste. Eu já trabalhei antes com Hal
Bromman. Hal se sente bem comigo. Se você deixar a agência fazer o vídeo, eles
vão enviar alguém que não sabe sequer as informações básicas sobre a Três-E.
— Ok, sim, você está certo —, Tillman admitiu. Ele suspirou ao telefone.
— Conversei com Dale e ele disse que a decisão era minha. — Ele fez uma
pausa. — Vou ficar com você.
Michael sentiu-se levitar. Ficar com você, ele repetiu mentalmente, e fe-
chou os olhos. Sim. Obrigado.
— Vamos fazer um bom trabalho para você, Barney.
— Mike, não posso tolerar nenhum erro nesse projeto, não com Bromman
envolvido. Realmente, meu emprego poderia estar em jogo.
— Barney, não se preocupe. Tudo vai ficar bem. Vou me cercar de todas as
garantias.
— Espero que sim.

A ocasião, Michael achou, pedia uma garrafa de vinho, não importando


os drinques que ele tinha tomado no Nick’s. As coisas não poderiam ter ido
melhor, e ele estava celebrando. Quando chegou em casa, escolheu um belo
Chianti italiano na prateleira do canto da cozinha e o abriu. Ele andou pela
casa, com o copo na mão, glorificando o que tinha acontecido, fantasiando
sobre o que poderia acontecer, e freqüentemente pensando sobre os detalhes
práticos que deveriam ser enfrentados. Ao acabar o segundo copo ele ouviu a
74
porta da garagem abrindo. Sua mulher chegava em casa. A primeira coisa que
ele disse quando ela entrou foi: — Hei, adivinha o que aconteceu! Eu fui demi-
tido hoje.
O rosto dela ficou tenso. Ela deixou a maleta cair. — Você... o quê?
— Ou talvez eu tenha me demitido. Não tenho muita certeza. Mas estou
fora da agência. Fim.
— Meu Deus, Michael, o que aconteceu?
— Beekstra fez um acordo em Hilton Head com Bill Barkes. Ele me man-
dou despedir todo mundo exceto duas pessoas, O’Connor e a recepcionista —
que eram as pessoas mais fracas do meu grupo. De qualquer forma, ele iria me
transformar em um representante de vendas para o Grupo de Produção de Nova
York. Eu não poderia aceitar, então...
— Você não poderia aceitar? O que isso significa?
— Eu não demitiria a equipe, e então ele me demitiu.
Ela vagarosamente digeriu isso, e então pôs a mão na cintura e disse: —
Não posso dizer que o culpo, Michael! Eu também o demitiria! Por que você foi
fazer uma coisa dessas?
Ele tinha bebido demais e não conseguiu perceber que não estava condu-
zindo o assunto com Regan da melhor forma possível. Ao invés disso, ele disse:
— Ei, de que lado você está?
— Michael, você tem alguma idéia... Você percebe que do jeito que saiu
pode ser que você não tenha direito ao seguro desemprego?
— Eu não vou solicitar o auxílio desemprego.
— Então, como você vai pagar suas contas?
— Se você me deixar explicar...
— Vá em frente, estou escutando.
— Eu ainda não lhe contei as boas notícias. Tudo vai ficar bem. Vamos
começar nossa própria empresa de produções de vídeo.
— Nós?
— Eu e a equipe. Todas as pessoas que se reportavam a mim.
— Todos eles?
— Os que foram demitidos.
— Quantas pessoas são?
— Seis, incluindo eu.
— Você só abriu e os contratou? Em tempo integral?
— Bem... é, acho que sim.
— Você ‘acha que sim’?
— Nós estamos entrando no negócio juntos, é o que decidimos. Ainda
não acertamos todos os detalhes. De qualquer forma, outra boa notícia é que
consegui alugar a Caverna.
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— A o quê?
— Você sabe, a Caverna. Nosso estúdio no Edifício Mecklin. Eu o alu-
guei. O agente imobiliário quis aumentar o aluguel para doze o metro, mas eu
o fiz descer para dez.
— Quanto é isso?
— Bem, são duzentos e setenta metros quadrados, trinta mil por ano, dois
mil e quinhentos por mês.
A boca de Regan abriu e seus olhos arregalaram-se. — Dois mil e quinhen-
tos ... Oh, meu Deus, Michael!
— Qual o problema?
— Você é um grande idiota! — Ela gritou com ele. — Como você pôde
fazer isso sem falar comigo?
— Sem falar com você? Ei, senhora, eu não me reporto a você!
— Você percebe que é pessoalmente responsável pelo aluguel? O rosto
dela estava vermelho. — Se não puder fazer os pagamentos... Oh, meu Deus,
oh, meu Deus! Nós podemos perder a casa... tudo! Você percebe o que fez?
Ele retirou os óculos, foi direto para ela, e chegou tão perto que sua face
estava junto à dela. — Agora você me ouve. Esta manhã Beekstra arruinou tudo
pelo que lutei nos últimos dez anos. O dia começou como um dos piores de
minha vida e eu o transformei em um dos melhores. De tarde eu já tinha con-
seguido quase cem mil dólares em negócios. Você me ouviu? Cem mil. Nós não
vamos perder a casa. Não vamos perder nada. Droga. Se isso funcionar, daqui a
alguns anos podemos até comprar aquela estúpida casa de fazenda na Burberry
Road!
Ela se afastou e não disse nada por uns poucos segundos, e ele pensou que
talvez o que ele havia dito seria a última palavra. Talvez ela se calasse. Talvez ela
pelo menos concordasse. Em vez disso, ela disse calmamente: — Você está so-
nhando.
— Bem, por que não?
Regan fechou os olhos e levantou a mão. — Pare, apenas pare. Não consi-
go lidar com isso. Preciso de um minuto.
Ela foi para a mesa da cozinha, sentou e recusou-se a olhá-lo. Ela estava tão
contrariada que ele se sentiu triste por ela.
— Regan, eu teria falado com você, mas simplesmente não havia tempo.
Eu tive que me apressar.
Ela se levantou e saiu da cozinha. Michael pegou o vinho novamente,
bebeu o que estava no copo e serviu mais. Mas ao levar o copo aos lábios, parou.
Olhou para o vinho tinto, foi para a pia e despejou o conteúdo do copo ralo
abaixo.

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Depois de um minuto Regan voltou para a cozinha, aparentemente refei-
ta. — Tudo o que quero saber é o seguinte: Como você vai levantar o capital
para começar esse negócio?
— Saquei dez mil dólares como antecipação em dinheiro de meu cartão
de crédito.
— Jesus, fica cada vez pior!
— Eu precisava de dinheiro rápido!
— Dezenove e meio por cento de juros, Michael! Você foi realmente es-
perto.
— Será por apenas alguns meses.
— E por quanto tempo você acha que dez mil dólares vão durar com o
aluguel, seis pessoas na folha de pagamento e mais todas as outras despesas?
— Ok, o.k. Vou precisar mais. Imaginei que poderia vender alguns fundos
mútuos para conseguir o dinheiro.
—Uma ova que vai. Você não vai usar um centavo do meu dinheiro para isso.
— É meu dinheiro também!
— Não, não é —, disse ela calmamente. — Temos um acordo pré-nupcial.
Ou você não lembra?
Ele se enfureceu. Era a primeira vez que ela jogava isso na sua cara.
— Você disse que seria nosso dinheiro.
— Não importa o que eu disse. Não vou deixar você jogá-lo fora.
— Não estou jogando fora, estou começando um negócio!
— Não, com meu dinheiro não.
— Então vou vender o Porsche —, disse ele finalmente. O Porsche ainda
estava exclusivamente no nome dele. — E vou pegar o resto emprestado em
meus cartões de crédito.
Não, não havia nada que ela pudesse fazer para detê-lo. Ela fez uma cena,
esfregando a testa como uma mãe cansada. — Michael, estou tentando ser
racional. Estou tentando ficar calma. Ouça o que eu digo. Está claro que você
não pensou inteiramente nisso. Você não tem um plano de negócios, você não
tem um plano de marketing, você não tem capital suficiente...
— Fui despedido esta manhã! O que você quer que eu faça?
— O que todo mundo que perde o emprego faz —, disse ela. — Procure
outro!
— Não. Por que deveria? Eu consegui dois clientes. Consegui mais de cem
mil dólares em negócios. Por que deveria me humilhar por um emprego ven-
dendo seguros de vida?
— Está certo. Se você vai fazer isso, então pelo menos faça uma coisa
direito. Não contrate essas pessoas. Administre o negócio como único proprie-
tário e contrate as pessoas de que precisar como free lancers.
77
— Não. Era isso que Beekstra queria.
— Michael, você sabe o que vai acontecer? Se você contratar todas essas
pessoas, vai gastar todo o seu dinheiro antes de saber o que o atingiu! Você fez
uma análise de equilíbrio para essa empresa?
— Uma o quê?
Ela suspirou. — Uma análise de equilíbrio. Você a usa para determinar o
nível de vendas em que o negócio passa do lucro ao prejuízo.
— Não, Regan, ainda não fiz isso.
— Minha opinião, Michael, é que você está agindo impetuosamente.
— Regan, eu tenho clientes e tenho boas pessoas. Vou resolver o resto à
medida que caminhar.
— Então você estará sem dinheiro, estará enterrado em dívidas até as ore-
lhas, e assim que o dinheiro acabar todo mundo vai pular fora. Você é quem
está se comprometendo, não eles. Eles vão fugir e você ficará lá, encalhado e
com tudo o mais.
Ele não respondeu. Havia pontos válidos no que ela dizia.
— Michael, do jeito que as coisas estão indo, não tenho idéia se terei
emprego daqui a seis meses.
— Você não percebe? — Ele explodiu. — É por isso que estou fazendo
isso. Assim, posso tomar minhas decisões. Assim tenho algum controle sobre
meu futuro. Estou dizendo, esse negócio vai funcionar. Eu o construí uma vez,
e posso reconstruí-lo. Só que dessa vez eu serei o dono.
Ela ficou sem argumentos. — Vejo que não adianta tentar trazê-lo de
volta ao juízo. Olhe, eu trouxe trabalho para fazer em casa. Estou subindo.
Ela pegou sua maleta e foi até a porta da cozinha antes de se virar: não se dê ao
trabalho de fazer o jantar para mim. Agora não estou com fome e mais tarde
arranjo alguma coisa.
Ele fechou o Chianti, pegou um copo do armário, colocou algumas pedras
de gelo e serviu-se de três dedos de Stolichnaya. Foi para a garagem e entrou no
Porsche. Ele apenas sentou-se atrás do volante, e ficou ali bastante tempo, be-
bendo e pensando. Quando a vodca tinha acabado e ele estava com frio, saiu.
Ele aqueceu o jantar no microondas, e a seguir foi para a sala íntima. Pegou um
bloco de rascunho e começou a redigir um anúncio de jornal.
Eram nove horas quando o telefone tocou.
— Oi, é a Tanny. Estou interrompendo alguma coisa? Acabo de colocar
Jason na cama, e tinha que saber. Como foi?
— Estamos no negócio —, disse Michael.
— Certo! sim! — disse ela.

De manhã, passando um pouco das nove, havia seis pessoas em um reser-


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vado de canto no Nick’s. Michael já estava lá desde antes das oito. Ele se sentou
sozinho com um bloco de rascunho, uma lapiseira e uma calculadora, fazendo
listas de números, traçando colunas, suas estimativas dos custos de abertura e
despesas operacionais mensais. Ele fez isso e tomou café até os outros chegarem.
Essas são as boas novas —, disse Michael, depois de contar a eles todos os
eventos da tarde anterior.
— E quais são as más notícias? — Perguntou Redmeat.
— Eu não sei se são más notícias ou novidade ainda melhor. Depende do
ponto de vista de vocês. Não posso contratá-los como empregados em tempo
integral. Não tenho dinheiro suficiente para isso. É a realidade. O que estou
querendo fazer é admitir vocês como investidores e sócios da firma.
— Tipo, a parte dos investidores, o que exatamente quer dizer? — Per-
guntou Spider.
— Quer dizer que juntamos nosso dinheiro, como Tanny sugeriu ontem,
e então trabalhamos —, explicou Michael.
— De quanto dinheiro estamos falando? Perguntou Stoney.
— De quanto você pode dispor? retrucou Michael.
— Não muito.
O rosto de Spider expressava concordância.
— Vamos ser específicos —, disse Michael. — Quando abri a conta cor-
rente ontem, depositei dez mil. Se vender um de meus carros e raspar tudo que
tenho, posso juntar outros doze ou quinze. Vamos dizer quinze. Com isso meu
capital é de vinte e cinco mil. Se vocês puderem colocar cinco mil cada um,
teríamos cinqüenta mil dólares.
— Por que tanto? Perguntou Boner.
— É —, disse Spider —, por que você precisa do nosso dinheiro? Você
não disse que tinha captado cem mil dólares em negócios? Por que não pode
usá-los?
— Porque os clientes não vão nos dar esse dinheiro até termos executado
o trabalho. No meio tempo, teremos que comprar ou alugar muitas coisas para
fazer o negócio funcionar. Sei que um total de cinqüenta soa como uma mon-
tanha de dinheiro, mas veja o que temos que comprar. — Ele empurrou o bloco
de rascunho para o centro da mesa para que todos pudessem ver os números. —
Quando mudarmos de volta para a Caverna, não estará como vocês se lem-
bram. Estará vazia. Teremos que comprar ou alugar nossas próprias câmeras;
luzes; gravadores; switcher; tudo. Imagino que, apenas para sermos competiti-
vos, precisamos de quatrocentos a quinhentos mil dólares em equipamentos de
vídeo — sem mencionar coisas como telefones; mesas; grampeadores; clipes para
papel e, vocês sabem, coisas assim. É por isso que, se for fazer qualquer coisa além
do que um free lancer faria, preciso mais do que apenas o meu dinheiro.
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— Sabe —, disse Redmeat, ainda verificando a lista —, isso levanta a
questão: cinqüenta mil serão suficientes?
Michael sentou novamente. — Tenho que dizer, Red, que sempre achei
você mais esperto do que parecia. É uma boa questão. Para falar a verdade, não,
acho que não serão suficientes. Depende muito do tipo de contrato de aluguel
de equipamentos que vou conseguir negociar, mas não acredito que poderemos
comprar ou alugar tudo o que precisamos de uma vez. Teremos que fazer em
etapas. E é por isso que digo, se alguém puder arcar com um investimento
maior do que cinco mil...
Spider estava acenando que não com a cabeça. — Acho que posso entrar
nem mesmo com cinco.
— E sua indenização? — Perguntou Michael. — Ela deve representar
metade do total.
— O cara do departamento de pessoal disse que receberíamos uma inde-
nização, mais o tempo trabalhado e mais férias não gozadas —, disse Tanny. —
Isso deve representar três ou quatro mil dólares, pelo menos.
— Pessoalmente —, disse Stoney —, eu conseguiria algumas contas com
o dinheiro.
Michael estava irritado. — Bem, esse é o acordo. Se vocês quiserem entrar,
o cacife é cinco mil. Vocês decidem se topam ou não. Mas vou prometer uma
coisa... — Ele virou o rosto para a rua, para a vitrine, por um momento. Lá
fora, na luz cinza do inverno na cidade, as pessoas estavam caminhando. De
onde Michael estava sentado, podia ver uma alameda estreita que ficava do outro
lado da rua. — Não sei porque me sinto responsável por vocês... — A alameda ia
direto até o rio, e tinha uma luz mais clara. Ele queria estar lá, mesmo enquanto
falava. — Se vocês se juntarem a mim agora, prometo que sempre terão um
emprego desde que haja uma sociedade e negócios para se trabalhar. Vocês nunca
serão despedidos apenas para pôr mais dinheiro no meu bolso. Ou de qualquer
outra pessoa. Se tivermos tempos ruins, todos compartilharemos os problemas.
Eu corto o meu próprio pagamento antes de deixar qualquer um de vocês sair. E
espero que vocês façam o mesmo por mim. Tempos ruins, e todos sentiremos o
aperto. Tempos bons, todos dividiremos a riqueza.
— Mas não igualmente —, disse Stoney.
— Não —, disse Michael —, não igualmente. Eu entrei com mais, então
se a empresa der lucro, receberei individualmente mais do que você. Pelo mes-
mo critério, se nos endividarmos e tivermos prejuízo, eu terei uma cota maior
das dívidas.
— A propósito, quero que todos vocês saibam isso de antemão. Se decidi-
rem entrar, vocês não vão colocar seus cinco mil no banco. Com dois clientes
em carteira, agora parece bom. Mas é possível que vocês percam cada centavo se
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as coisas não funcionarem por alguma razão. E eu também. Por outro lado, se
conseguirmos ganhar um milhão de dólares e tivermos que dividi-lo, bem, en-
trando com cinco mil, vocês terão uma parcela de dez por cento da firma...
— Cem mil dólares —, disse Boner.
— Não está fora de questão —, disse Michael —, não se pudermos man-
ter os negócios em alta como estavam anos atrás.
— Além disso —, disse Redmeat —, como seremos pagos mensalmente?
— Imagino que acertaremos um pagamento base. Como sócio você tem
direito a retiradas contra os ganhos da empresa. Estabeleceremos uma retirada
mensal comparável a um salário que dê para viver, provavelmente menos do
que você estava ganhando na agência, mas devemos ter cuidado com nosso
dinheiro no início. Não será muito, talvez quinhentos por semana. Mas depois
de alguns meses, se estivermos indo bem, poderemos aumentar. Depois, no
final de cada trimestre, ou no final do ano, dividiremos os lucros. Uma parte do
que ganharmos, reinvestiremos no negócio para comprar equipamentos e tudo
o mais. O resto vamos dividir. Pode ser muito ou pode não ser tanto. Vai depen-
der de sermos bons ou não como empresários.
Michael encarou-os um por um. Havia esperança e ganância em cada um
deles.
— Então, o que vocês me dizem? Quem vai ficar comigo?
— Eu vou —, disse Tanny imediatamente. E perguntou: — E vocês?

No final todos ficaram, apesar a decisão de ter levado meia hora. Redmeat
entrou logo depois de Tanny. Ele simplesmente não queria ter que procurar
outro emprego e também não queria ser free lancer. Stoney, para surpresa de
Michael, foi o seguinte. Ele apenas disse: — Conte comigo —, sem exigir mai-
or persuasão e sem dar explicações. Boner quis saber que tipo de equipamento
ele teria para trabalhar, e Michael assegurou-lhe que poderia ter o que quisesse,
dentro das possibilidades financeiras. Spider foi o durão. Ele simplesmente não
sabia o que fazer. Seis meses de desemprego não soava tão mal para ele. Spider
tinha um cunhado na Flórida que afirmava poder encaixá-lo para trabalhar em
construção. Além disso, seu crédito era terrível. Ele não sabia como conseguir
todo o dinheiro de que precisava para entrar. Michael disse a ele que o barco
estava partindo. Se quisesse fazer parte da equipe, era melhor embarcar imedia-
tamente. Quanto ao dinheiro, se utilizasse sua indenização da agência, ele po-
deria fazer menores retiradas do que o resto do pessoal até quitar a dívida.
Spider embarcou e os seis pediram o café da manhã.
Não tendo verdadeiramente jantado na noite anterior, Michael pediu o
café do Nick Faminto, que incluía waffles, ovos, bacon, torradas, lingüiça e
uma generosa porção de batatas fritas com cebola, bem crocantes. Era um dia
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para unanimidades, e os outros cinco pediram o mesmo — até Tanny, que
comeu apenas uma pequena porção, dando o restante a Redmeat.
Todos estavam com alto astral naquela manhã. Concordaram que Stoney
se encarregaria do vídeo “A-okei”, uma vez que este deveria entrar rapidamente
em produção. Redmeat e Spider trabalhariam com ele no planejamento e orga-
nização. Boner procuraria no comércio por equipamentos usados. Tanny e
Michael lidariam com os aspectos empresariais da abertura da empresa — en-
contrar um contador, procurar um advogado, cuidar dos serviços de infra-es-
trutura, solicitar linhas telefônicas e assim por diante.
Depois do café eles se separaram, combinando se encontrar novamente no
Nick’s na sexta-feira de manhã, no mesmo horário e na mesma mesa, se estives-
se disponível. Michael e Tanny foram visitar algumas lojas no centro da cidade,
à procura de computadores e aparelhos de telefone, e depois tomaram cami-
nhos diferentes.
Michael chegou em casa à tarde. Ele tinha acabado de entrar quando o
telefone tocou.
— Alô?
— É o Lyle Beekstra.
Michael gelou. — Sim?
— Se você pensa que vai se dar bem com isso, está muito enganado.
— Se dar bem com o quê?
— O roubo da Três-E e do Bridgeford National Bank.
— Eu não roubei nada. Eles escolheram livremente a mim e a meu pessoal
para produzir os vídeos para eles.
— Seu pessoal?
Michael ficou surpreso com o quanto Lyle realmente sabia. — Sim. Todos
os que você despediu ontem. Estamos todos juntos novamente. Formamos a
DiGabriel Vídeo Produções.
— Bem... Não importa. Michael, parece que você esqueceu o acordo que
assinou anos atrás.
— Que acordo?
— O acordo que proíbe os membros da agência de fazer negócios com
os clientes por seis meses após o encerramento do vínculo com a Barkes &
Collwin. Todos os vice-presidentes e gerentes de contas têm que assinar esse
acordo. E tenho uma cópia com sua assinatura exatamente aqui na minha
frente —, disse Lyle.
Uma onda de choque percorreu o corpo de Michael. Ele então se lembrou
do acordo.
— Se você insistir nessas contas, a Barkes & Collwin vai mover uma ação
judicial contra você —, disse Lyle.
82
— E vou fazer o mesmo —, contra-atacou.
— Por qual motivo?
— Procedimentos impróprios de demissão. A situação ontem foi muito
mal conduzida. Acho que o advogado encontraria alguns pontos interessantes
para sustentar um processo contra a agência e quem sabe arrancar um milhão
ou dois.
Lyle não disse nada por um segundo. Bom! Ele provavelmente balançou
um pouco.
— Você não pode nos impedir de ganhar a vida depois de nos colocar na
rua do jeito que colocou —, disse Michael. — E você não pode impedir que os
clientes exerçam o direito de escolher o fornecedor com quem se sintam mais à
vontade. Eu não saí voluntariamente, e não saí com a idéia de levar negócios
comigo. Você quer me processar? Ótimo. Nós também vamos processá-lo. E
não apenas isso, eu vou chamar os jornais, vou chamar as emissoras de TV.
Vamos construir uma história para eles. É isso que fazemos para viver, você
sabe. Nós criamos imagens. Bem, você vai ter que gastar mais dinheiro para
reparar sua imagem e pagar os advogados do que jamais ganhou com um par de
projetos de vídeo.
— Você quer o banco? Pode ficar com ele —, Lyle disse finalmente. —
Eles são um saco e de qualquer forma nunca ganhamos dinheiro com eles. Mas
se você pensa que vai tirar qualquer parte da Três-E desta casa, pode se preparar
para as conseqüências.
— Barney Tillman me deu o trabalho ontem à tarde.
— Uh-hum. Bem, vamos ver —, disse Lyle. E riu com sarcasmo: — En-
tão você contratou todas aquelas pessoas?
— Não exatamente. Eles se juntaram a mim como sócios.
— Sócios? Todos? Você é mais burro do que eu pensei que fosse, Mike.

As semanas seguintes foram tanto nervosas quanto excitantes. Michael


passou bastante tempo se preocupando com Lyle. O que mais o incomodava
era que Lyle fizesse alguma coisa para impedir que eles mudassem para a Caver-
na a tempo. Não havia muitos locais para alugar em Bridgeford que pudessem
ser transformados em um estúdio aceitável para produção de vídeo. Assim, re-
zava para que Lyle não descobrisse, até depois do início do mês, a identidade do
novo inquilino da Caverna.
Ele também se preocupava com as pressões que Lyle possivelmente faria
para que Tillman devolvesse a ele o vídeo corporativo. Entretanto, o projeto
seguia adiante. Michael chamou Hoona e o colocou trabalhando no script, e o
pressionou fortemente para que entregasse no prazo. Ele imaginou que quanto
mais adiantados estivessem com o projeto, menor a probabilidade de Tillman
83
retirá-lo deles. Hoona atrasou apenas um dia o script, o que no cronograma de
Michael significava um dia de adiantamento. Tillman estava satisfeito não ape-
nas com a entrega no prazo, mas também com o conteúdo do script, e enviou
cópias para fazer modificações e dar aprovação.
Finalmente, Tillman mencionou no telefone, uma tarde, que de fato Lyle
havia telefonado. (Artie O’Connor também tinha telefonado, mesmo antes de
Beekstra, mas Tillman não tinha se incomodado em retornar seus telefonemas).
Lyle argumentou extensivamente sobre o projeto pertencer à Barkes & Collwin
e que Tillman não “tinha o direito” de entregá-lo a Michael. Mas Tillman con-
tra-atacou, informando que a decisão estava tomada, e que ele não estava dis-
posto a voltar atrás. Depois de ouvir isso, Michael relaxou.
Em meio às preocupações, Michael estava vivendo dias felizes. Era um
tempo de excitação, uma loucura para montar tudo de uma vez. Para o vídeo do
banco eles conseguiram alugar equipamentos por dia de uma empresa de Chi-
cago, e acertaram a edição com o canal Sessenta e Seis. Mas esse esquema era
caro, e eles precisavam urgentemente alugar equipamentos a longo prazo. Michael
estava negociando, pelo telefone, com três empresas, e todas elas enviaram fi-
chas cadastrais. Entretanto, para completar os dados solicitados nas fichas, eles
tinham que encontrar um contador registrado, que deveria escriturar os livros e
montar os demonstrativos financeiros.
Havia muitos assuntos que precisavam ser resolvidos. Tiveram que com-
prar livros de contabilidade, pois uma reunião de uma hora com o contador
não havia esclarecido quase nada. E também conseguiram um livro sobre como
montar um plano de negócios, que em verdade nunca conseguiram colocar no
papel. Tiveram que encontrar um advogado, inicialmente para redigir o contra-
to social (ele tentou convencê-los a adotar outro formato de sociedade, mas
Michael não mudou suas idéias), e também para aconselhamento a fim de não
serem processados. Tiveram que providenciar cartões de visita e papéis timbrados,
o que significava encontrar uma gráfica e, assim que tomaram conhecimento
do que a gráfica poderia oferecer, tiveram que encontrar um bom desenhista
gráfico que não cobrasse os olhos da cara. Tiveram que pesquisar os preços de
um computador, um aparelho de fax e de telefone, embora ainda não tivessem
uma linha telefônica. Tiveram que alugar mesas, cadeiras e um sofá para a sala
de recepção. Tiveram que comprar lápis, canetas, grampeadores, clipes para
papel e os todos os suprimentos comuns de escritório.
Eles tinham que lidar com o estado. Tinham que registrar o nome,
“DiGabriel Vídeo Produções”, junto à Receita Federal. Tinham que pagar as
taxas municipais pelo “privilégio” de abrir uma empresa. Tinham que conseguir
o número de registro no cadastro de contribuintes e os formulários para o paga-
mento das taxas (federais, estaduais e municipais), e instruções para o pagamen-
84
to dessas taxas, além das instruções para o recolhimento de impostos sobre os
pagamentos aos empregados, com os respectivos formulários, tudo resultan-
do em uma pilha de mais de trinta centímetros (Michael mediu-a com a
régua nova que compraram). Eles tiveram que comprar livros que explicassem
as instruções governamentais. E ainda tiveram que ler — bem, ao menos
folhear — todo esse material. E, além de tudo isso, havia todo um trabalho
por fazer.
Era também um tempo divertido. Michael e Tanny ficavam juntos bastan-
te tempo naquelas primeiras semanas, e um dia cruzavam a cidade de carro para
visitar um advogado. Michael tinha cortado o cabelo naquela manhã. Ele tinha
trocado o barbeiro habitual, de alguns trocados, num salão do centro da cidade,
por um barbeiro estilo antigo, de onze dólares, no Centro de Deerfield, mas
com resultado pior que o esperado — e por isso Tanny estava realmente zom-
bando dele.
— Não acredito que nossos clientes vão querer estar ligados a um skinhead
—, disse ela.
— Saia daqui! — Então, como se fossem duas crianças no playground,
brincando uma com a outra, ele agarrou a perna dela e empurrou o joelho em
direção à porta.
Assim que fez isso, ele percebeu que perdera o controle, e retirou a mão.
Houve meio segundo de silêncio, e então ele começou a gaguejar, — Descul-
pe... eu... eu não queria fazer isso, quer dizer... não tinha qualquer intenção
sexual ou coisa parecida.
— Bem, espero que não. — Ela disse com afetação e malícia.
O rosto de Michael revelava horror com seu próprio deslize, como se aci-
dentalmente tivesse derrubado uma xícara de café sobre ela, mas a tal ponto que
ela ficou admirada e resolveu zombar dele novamente.
— Sorte que já estamos a caminho do escritório do advogado. Posso pedir
para ele abrir um processo por assédio enquanto estivermos lá, e economizar
uma viagem.
Seu embaraço aumentou e ele apontou à frente: — Sabe, acho que aquele
ônibus é o seu. Vou parar depois da esquina para você descer.

Na tarde anterior à mudança para a Caverna os dois estavam na cidade e,


quando terminaram o serviço que estavam fazendo, foram ao Nick’s para almoçar.
— Posso perguntar algo pessoal? — indagou Michael.
— Claro.
— Quem era o Sr. Zoelle?
— Ela piscou, e depois sorriu. — Não existe Sr. Zoelle.
— Oh? Eu pensei que fosse o nome do seu ex-marido.
85
— Não, é meu nome mesmo. Ponto. Eu nunca fui casada.
— Pensei que havia dito...
— Conto a todo mundo que sou divorciada porque é mais fácil. Por causa
do Jason. A verdade é que nunca fui casada.
— Oh.
Os dois comeram em silêncio por alguns minutos.
— Eu consultei um psiquiatra uma vez —, disse ela. — Bem, um psicólo-
go. No meio da terapia, mudei o meu nome. Eu, ah... tive um problema com
meu pai. Também com minha mãe, mas principalmente com meu pai. Então
eu não queria o nome dele. Não sabia o quanto isto iria feri-lo. Mas de qualquer
forma troquei meu nome para Zoelle.
Ela poupou-lhe o trabalho de perguntar.
— Eu o inventei. Zoe é uma palavra grega que significa ‘vida’. E elle é o
pronome feminino francês. Gostei da forma como soavam juntos. Então adotei
Zoelle como meu nome. Claro, esqueci de informar ao banco e durante o pri-
meiro mês todos os meus cheques voltaram.
— Então quem é o pai de seu filho?
— Patrick, um fotógrafo. Fotografia de guerra era a especialidade dele.
Encontrei-o na África. Estava lá com uma bolsa para fazer um filme sobre fome
e guerra civil. Crianças morrendo de fome e com moscas pousando nos rostos.
Profissionalmente, foi a coisa mais difícil que já fiz.
Me estraçalhou. Mal podia pensar. Um dia me virei e lá estava Patrick.
— Ele tinha passado cerca de um mês nas montanhas, fotografando as
guerrilhas, e estava de passagem pelo acampamento para sair do país. Era boni-
to. Saudável. — Ela sorriu. — Tinha um corpo perfeito. Sotaque maravilhoso.
Era irlandês. Começou a carreira em Belfast. Mais que tudo, estava completa-
mente calejado em relação ao que me aterrorizava. Acho que me apaixonei dois
minutos depois de encontrá-lo. Ele era invencível. Dormi com ele na primeira
noite. Ele ficou lá alguns dias, e quando partiu, eu me sentia totalmente depen-
dente. É embaraçoso...
— E então ficou grávida?
Ela acenou com a cabeça. — Não. Ele partiu e eu voltei para Nova York.
Estava convencida de que nunca o veria novamente. Quero dizer, fiquei com-
pletamente desolada, mas me recompus. Então, é claro que ele me telefonou.
— Tanny olhou pela janela, e sua parte madura sorriu para a jovem. — Pensei
que era uma espécie de milagre ele ter me telefonado. Achava que a vida não
podia ser mais perfeita, depois que começamos a nos encontrar...
— Uma vez ele me passou gonorréia. Mas não tenho dúvida, mesmo ago-
ra, que ele se apaixonou por mim. Claro que eu estava loucamente apaixonada

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por ele. Realmente havia alguma coisa entre nós quando estávamos juntos. De-
pois ele teve que viajar a trabalho e....
Ele teve chance com muitas... bem, teve mais do que chance. Tenho certe-
za de que teve muitas outras. Sabe, uma vez terminei um excelente relaciona-
mento com um homem ótimo porque calhou de Patrick estar na cidade. Ele
iria embora, sabe, para o Afeganistão, Tailândia ou Somália. Três, seis meses no
máximo. Agora ele está na Bósnia. Sei apenas porque vejo os créditos de suas
fotos no Time.
Ele sumia e então me telefonava. Ou vinha a Nova York ou eu ia encontrá-
lo. Uma vez fui a Paris. Em outra ocasião, a Buenos Aires. Dançamos tango. —
Ela moveu a cabeça e os braços em uma pose. — Ele era realmente bom de
cama. Tinha que ser, com toda a prática que tinha.
— Depois que me passou gonorréia — oh, a propósito, sabe como desco-
bri? Patrick viajou para Moçambique ou Cambodja, um dos dois, e eu, pela
décima vez, imaginei que tinha acabado. Então comecei a sair com outro ho-
mem, e ele, coitado, me acusou de ser infiel. Depois disso comecei a ficar preo-
cupada se não tinha pegado AIDS dele, mas os testes deram negativo. Aquele
filho da ... Ele sempre teve sorte. Ele me contou sobre as vezes em que quase
morreu, mas nunca teve nada que não pudesse ser curado com antibióticos ou
descanso.
— Você quis engravidar ou foi acidente? — perguntou Michael.
Como se quisesse ignorar a pergunta, ela disse: — Sabe, uma vez um gru-
po de guerrilha colocou-o de joelhos com uma AK-47 apontada para a cabeça
dele, e ele conseguiu se safar na conversa, Jesus, que chance eu poderia ter?
— Nós nos encontramos por alguns períodos, ao longo de cinco anos. En-
tão jurei que tinha acabado completamente. Não estava com ninguém naquela
época, e então parei de tomar a pílula. Uma noite, ele me telefonou do aeroporto
Kennedy. Desliguei o telefone, mas ele veio mesmo assim. Durante o primeiro
mês eu fiz com que usasse camisinha. Então ele começou a falar em casamento.
Voamos para a Irlanda, para encontrar a família dele. Bem, você não encontra
contraceptivos muito facilmente na Irlanda, e é lógico que ele não levou nenhum.
Eu pensei: se acontecer, aconteceu. Afinal de contas, vamos nos casar.
Foi um fiasco. A família dele me tratou como se fosse uma prostituta.
Houve discussões. Íamos ficar três semanas, mas voltamos depois de duas. No
dia em que voltamos, Pat recebeu um telefonema. Era um de seus informantes
com uma dica de que Sadan Hussein estava concentrando tropas na fronteira
do Kuait. Ele partiu e, uma semana depois, percebi que minha menstruação
estava atrasada. Sabe o que é engraçado? Eu nem ao menos pensei que estivesse
grávida. Pensei que fosse um trauma normal, devido à sua partida. No segundo
mês, eu já sabia. O único problema é que não conseguia encontrá-lo. Finalmen-
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te, eu estava no quarto mês, e ele ligou de Riad. Ele ficou realmente furioso, e
disse: Se você tiver esse bebê, nunca mais vai me ver. Disse isso mesmo. Acho
que foi isso que me curou.
— Pensei em abortar. Tenho que admitir, mesmo considerando que ele é
um doce de garoto, que às vezes penso que deveria ter ido em frente com o
aborto. Havia muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Ganhei alguns prê-
mios, mas minha carreira não estava me levando a lugar algum, nada lucrativo
ou mesmo seguro. Um rendimento garantido estava cada vez mais difícil, e eu
estava cansada de mendigar oportunidades. Estava cansada de Nova York. O
lugar em que vivia era praticamente uma favela, e a cada ano ficava mais perigo-
so. Meu pai estava morrendo, e telefonei para minha mãe que, inacre-
ditavelmente, ofereceu apoio. Ela me disse: a decisão é sua, mas se for ter o
bebê, você não poderá criá-lo decentemente na cidade, não com o que ganha.
Ela estava certa. Ela disse: por que você não volta e encontra um emprego por
aqui? Foi isso que fiz. Voltei a Bridgeford, meu pai morreu e eu tive Jason um
mês depois.
— Pat me ligou uma vez, de Londres, e perguntou como eu estava me
arranjando. Nem sei como ele conseguiu me descobrir aqui.

Ela chegou à creche às cinco e meia. Havia um aviso preso à porta, comu-
nicando aos pais que o pagamento relativo ao mês seguinte estava vencendo.
Antes de pegar Jason ela foi ao escritório de Maxine, e preencheu um cheque de
quatrocentos e noventa e seis dólares.
Sempre que Tanny preenchia o cheque da creche ela pensava: Lá vai o
aluguel. Um apartamento decente, com dois quartos, e estacionamento, bem
mobiliado, custava a partir de quinhentos dólares nos subúrbios de Bridgeford.
Assim ela, mentalmente, sempre comparava o pagamento da creche ao aluguel
que teria que pagar para sair da casa da mãe. Pode ser que, quando Jason chegar
ao primeiro ano do ensino fundamental ela possa mudar, mas é duvidoso.
O aluguel, provavelmente, estará na casa dos quinhentos e cinqüenta ou
seiscentos dólares até lá, mais as taxas. E ainda haverá os trezentos dólares que
ela paga à mãe. Ela não poderia sair e parar de pagar à mãe, pois sua mãe não
teria outra forma de se manter. Na melhor hipótese, talvez pudesse diminuir de
trezentos para duzentos, o que seria suficiente, presumindo que as taxas de
serviços, como eletricidade e gás, permanecessem nos mesmos níveis de agora.
Jason estava zangado e irritado quando ela o pegou na sala das crianças de
três anos. Ele estava falando cada vez melhor, mas, quando estava de mau hu-
mor, ela tinha dificuldades para entendê-lo, especialmente quando estava cho-
ramingando. Depois de prendê-lo à sua cadeirinha e, já a caminho de casa, ele
choramingava de forma tão irritante que ela perdeu a paciência.
88
— Jason, qual é o problema?
Finalmente ela conseguiu arrancar dele. Cathy o havia empurrado e ele a
empurrara também. Mas Cathy, a pequena dedo-duro, o denunciara e ele foi
para o castigo.
Seu coração apertou-se por ele. Era um grande problema para o seu
mundinho, pois mesmo aos três anos de idade a vida pode se mostrar injusta.
Ela estava pensando numa forma de consolá-lo, quando Jason avistou o
McDonald’s na esquina. — Batata frita! Mamãe, batata frita!
Cathy tinha sido esquecida, mas uma nova crise surgiu. — Não é sábado,
Jase. Lamento. O ritual de todo sábado era ir ao supermercado e comprar um
“lanche feliz” no McDonald’s.
— Cheeseburger, mamãe, por favor, por favor!
— Certo, certo. — Ela sabia que não era certo, mas mesmo assim cedeu.
— Só desta vez.
Se ela não podia protegê-lo das brutalidades dos coleguinhas de classe e da
negligência dos funcionários da creche, ao menos poderia comprar-lhe um ham-
búrguer com batatas fritas. Por enquanto.

A casa de sua mãe ficava na Rua Betty, o nome da mulher do loteador. Era
uma área com casas construídas durante os anos cinqüenta, a maioria das quais
era agora habitada por aposentados ou pessoas próximas da aposentadoria, como
a Sra. Krynos.
Era uma vizinhança de verdade, pois havia pessoas em três ou quatro casas
em cada direção que se conheciam. Eles conheciam a situação. Todos sabiam
que a mãe de Tanny não dirigia, mas se a Sra. Krynos precisasse de uma carona
até o médico no meio do dia, os Haggarts ou os Peleskys a levariam. Tanto que,
durante tantos anos de hipocondria, a mãe de Tanny jamais teve que pegar um
táxi para ir ao médico. A Sra. Crabtree, geralmente, telefonava antes de ir a
alguma loja para verificar se Helen precisava de alguma coisa. Se o Toyota de
Tanny estivesse com um ruído estranho, chamava o filho de Colson, Joey, para
dar uma olhada. Estamos nos anos noventa, e ainda não existe nenhuma gangue
nas proximidades da Rua Betty.
Comparado ao East Village, onde Tanny tinha morado em Nova York, a
Rua Betty era cem vezes melhor para a educação de Jason. Mas quase todos os
dias, quando Tanny entrava com o carro e olhava para a casa em que cresceu,
sentia-se deprimida.
A casa era simples. Uma pequena área na frente, uma área maior e cercada
aos fundos. Fazia décadas que o vendedor de proteções laterais de alumínio
havia passado lá pela última vez. Os arbustos todos precisavam ser podados, e a
89
calçada de concreto, que ninguém usava, estava completamente rachada. Den-
tro havia três pequenos quartos, uma salinha, uma copa-cozinha pequena e um
banheiro. O porão inteiro havia sido transformado em um misto de lavanderia
e sala de reunião da família. Havia garagem para um carro. Não que Tanny
quisesse necessariamente mais que isso. Ela queria apenas sua própria casa.
Chegando à porta, as três ou quatro horas seguintes, de todas as noites,
eram um caos, com Tanny no meio, tentando invocar a ordem e preservar a
sanidade. Naquela noite sua mãe lançou-lhe um olhar acusador, assim que viu
os arcos dourados na sacola. Enquanto Tanny tentava explicar, Jason mudou o
canal da televisão, do Clube 700 para desenhos animados, o que provocou
reprimendas da avó e levou-o a procurar seu carro de bombeiros a fricção e a
empurrá-lo, ruidosamente, para a lateral já toda arranhada do aparelho de TV,
com a mãe dando-lhe uma palmada no traseiro e a mãe dela se arrastando para
a cozinha e perguntando repetidamente se macarrão com queijo não seria um
alimento mais saudável para o neto do que o que estava na sacola do McDonald’s.
Todo dia era a mesma luta, com Jason solicitando atenção total enquanto a mãe
precisava de alguém para conversar, depois de passar o dia inteiro sozinha.
— Mamãe —, disse Jason na mesa do jantar, enquanto a avó conversava
sobre suas verrugas (as novas). — Mamãe...
— O quê?
— Olha! — Ele derrubou o copo de leite, a maior parte em seu prato,
ensopando o hambúrguer, as batatas fritas e também o macarrão com queijo.
— Oh —, disse Tanny, — Que maravilha.
A avó não entendeu o que o comentário tinha a ver com suas verrugas.

No primeiro dia do mês eles tomaram posse do nível inferior oeste. Ao


retornar à Caverna, Michael ficou surpreso com o espaço vazio. Nada havia
para controlar na sala de controles. Na parede entre a sala de controles e o
estúdio havia buracos, dos quais ele há muito se esquecera — conduítes para a
passagem dos cabos. Ele pôs as mãos nos bolsos e simplesmente ficou parado.
Estava sentindo o mesmo choque que sentira ao entrar no andar vazio daquele
prédio da Três-E.
Ele se virou para os cinco sócios, que estavam atrás. — Bem, é nossa. Para
o melhor ou para o pior. Vamos começar a mudança.
Eles carregaram a maior parte do que compraram, até aquele momento,
na van de Redmeat, que agora estavam usando como carro da empresa. A van
estava estacionada nas plataformas de carregamento e Redmeat, Spider, Stoney
e Boner foram descarregar. Tanny ficou onde estava.
— Vai demorar um pouco para voltar ao que era, não?
— Sim, vai. — Disse Michael.
90
— Os móveis de escritório vão chegar amanhã. Ficará melhor com eles.
Michael acenou concordando e Tanny saiu da sala de controles. Um mi-
nuto depois Michael perambulava pelo estúdio. Ele pensava que Tanny tinha
ido ajudar os outros, mas ela estava no estúdio, olhando para o teto.
— Ao menos nos deixaram a grade. — Disse. Estava se referindo ao qua-
dro de aço preso ao teto, onde prendiam as luzes do estúdio.
— Faz parte do contrato de locação —, disse Michael, — Qualquer coisa
que você instalar que seja definitiva tem que ficar.
— Bem, vai nos poupar alguns trocados.
— É verdade.
Ele estava em pé próximo dela e pretendia sair, ver se havia alguma coisa
em sua antiga sala, embora esperasse que também estivesse vazia, quando ela
passou o braço em torno dele. Ela apenas escorregou a mão em torno da cintura
dele e gentilmente aproximou seus corpos, num bonito abraço. Ela nada disse,
apenas segurou-o daquela forma por alguns instantes, e então o soltou. Ele já
estava com uma ereção.
— Ei, Mikey? — A voz de Redmeat vinha do corredor. — Mike?
— Sim —, respondeu ele.
— Imagine. Eles deixaram o sofá dos clientes.
— Verdade? Onde?
— Está na caçamba de lixo.
— Bem, vamos tirá-lo de lá! — Disse Tanny.
A caçamba estava próxima das plataformas de carga, e o próprio Michael
entrou junto com Spider. O velho sofá dos clientes da sala de controles estava
em cima do lixo, e eles o retiraram e o levaram de volta para a Caverna. Coloca-
ram-no na sala de controles, no lugar certo, na plataforma acarpetada nos fun-
dos da sala, de onde os clientes poderiam observar os monitores, embora agora
não houvesse nenhum monitor. E tampouco clientes.
Tanny imediatamente se atirou sobre ele e apoiou os pés. — Ah! Agora me
sinto em casa novamente!
Isso melhorou o ânimo de todos. Eles voltaram e acabaram de empilhar
cartazes e malas no carrinho. Quando levaram essa carga para dentro, Michael
encontrou a caixa com os aparelhos de telefone.
Ele tirou um deles e ligou o cabo na tomada da parede da área de recepção.
— Bem, temos linha. É bom sinal.
Michael apertou alguns números no teclado.
— Está chamando!
Ele ouviu.
— Tillman.

91
— Oi, Barney. É Michael DiGabriel. Só queria informá-lo sobre o nosso
novo número de telefone. Você quer anotar?
— Sim.
Michael ditou o número, mas já estava sentindo alguma coisa diferente
em Tillman.
— Eu, ah, precisava mesmo falar com você —, disse Tillman.
— Ótimo. Como está a aprovação do script?
— Bem. Quero dizer, haverá as modificações de costume. Vou ter que
reescrever alguns trechos.
— Podemos encontrar-nos amanhã? Vou ver se consigo achar o nosso
redator de scripts.
— Não, acho que não será necessário.
— Ah, Barney, já tratamos disso antes. Você é um bom redator, não me
interprete mal, mas já chegamos antes à conclusão de que é melhor deixar que
um profissional...
— Mike, tive uma reunião com Dale Mazursky hoje de manhã, e temos
um problema. Quer dizer, eu não tenho nenhum problema, mas Dale tem. E,
ah... bem, lamento, mas fomos instruídos a trabalhar com a Barkes & Collwin
de Nova York para produzir o vídeo.
— Michael sentiu o sangue subir. Ele não conseguia dizer nada.
— Como você sabe —, disse Barney —, era você minha escolha para
produzir esse trabalho, mas... passaram por cima de mim.
— Entendo.
— Espero que isso não o atinja demais. Logicamente, pode cobrar-nos
pelo tempo e pelas despesas que teve com o projeto até agora. Tenho certeza
de que haverá outros projetos adiante, e certamente suas cotações serão bem-
recebidas.
— Certo.
— Então mantenha contato —, disse Tillman. — Novamente, lamento.
Não havia nada que eu pudesse fazer.
— Certo.
Michael colocou o fone no gancho e procurou um lugar para colocar o
aparelho, mas não tinha, não tinha mesa e nenhum outro lugar para o telefo-
ne. Deixando o aparelho sobre o carpete, sentou-se e se encostou na parede.

— Você sabe o que aconteceu, não sabe? — disse Regan. — Beekstra


telefonou para Nova York e contou para o Barkes, que telefonou para o Bromman.
O Bromman falou com o Norman Dexter, que por sua vez falou com o Dale
Mazursky. O Dale chamou o Barney e comunicou a decisão.

92
Era o que Michael havia suspeitado. Com uma vodca na mão, ele foi para
as grandes janelas da sala de estar. Estava escuro, e ele viu a própria sombra
sobre a neve no jardim.
— Você deveria ter previsto que isso aconteceria —, ela continuou. —
Francamente, é mais do que meio embaraçoso, pois sou sua mulher. Com cer-
teza não aumentou meus pontos no Cubo.
— E o que eu deveria ter feito, querida?
— Você não deveria ter começado a empresa. Ao menos não da forma que
começou. Você não pode simplesmente roubar um projeto grande, de prestígio,
da Barkes & Collwin e não esperar qualquer repercussão.

— A idéia original do projeto foi minha, Regan! Eu não roubei nada!


— Tudo que estou dizendo é que existem sérios relacionamentos comerci-
ais que devem ser considerados.
— E o que devo fazer então, entregar pizzas? Hein? Apenas porque Bill
Barkes é um — como é que se costuma dizer? — um ‘amigo pessoal’ de Hal
Bromman?
— ‘Amizades pessoais’ nada têm a ver com isso. Bill Barkes está no conse-
lho administrativo nacional. O presidente executivo nacional é Wendell Pecken,
e Dell está no conselho da Três-E. Não que Bill fosse pedir a Dell alguma coisa
como essa, mas Hal sabe que Dell conhece Bill. Dell tem que contar com Bill,
e Hal tem que poder contar com Dell. A conclusão é que, se Bill quer um
pequeno favor, por que não atender?
— Deus, a coisa toda me deixa doente.
— É como as coisas funcionam. Não é bom e nem é ruim, é assim. É
humano, e os seres humanos são políticos.
Ele andou diretamente para ela, que estava sentada no sofá, olhou para
baixo, e — Você simplesmente adoraria estar no clube dos grandes, não?
— Se eu gostaria de ser mais poderosa do que sou? Sim, gostaria. Eu sou
como todo mundo. Você sabe o que é o poder? Poder é ter a oportunidade de
fazer alguma coisa por outra pessoa — ou para eles. O próprio Hal Bromman
me disse isso.
— Uh-hum. Bem, sabe de uma coisa? Eles nunca vão deixá-la entrar. Você
acha que alguma vez vai sentar na cadeira de Bromman? Você acha que alguma
vez vai chegar perto? De jeito nenhum. Portanto, não defenda essa merda. Você
já bateu no teto de vidro, minha senhora. Pode até olhar mais para cima, mas
nunca chegará lá. E, enquanto tenta, eles vão se aproveitar de você, dia e noite,
fins de semana e feriados.
Ela olhou para cima, na direção dele. Finalmente disse: — Ao menos eles
me pagam muito bem por isso.
93
Ele sentiu um impulso de ser mau. Tinha vontade de esmagá-la. De puxá-
la pelos cabelos, de esbofeteá-la, de estuprá-la, de obrigá-la a fazer alguma coisa
repugnante, ou qualquer coisa assim. Ele sentiu esse impulso nas muitas vezes
em que conversaram ultimamente. Em vez de ceder ao impulso, ele tomou
vodca, e mesmo enquanto bebia, sabia que estava sendo demais. Mas isso era
melhor do que a outra alternativa.
De qualquer forma, o telefone tocou. Regan foi atendê-lo. Ela o chamou:
— É para você. De novo.
Michael pegou o fone: — Alô. Sim, é um Porcshe 944 Turbo. Tem ar
condicionado, teto solar, toca-fitas. Não, não tem CD player. Hum, cerca de
cento e quinze mil quilômetros. Não tem de quê. Ah, escuta, eu também estou
vendendo um Ford Taurus... Alô?

A nova Caverna ainda não tinha uma cafeteira. Então, na manhã seguinte,
Michael parou no Nick’s.
Ele estava no balcão, esperando para pedir, quando uma voz ao seu lado
direito disse: — Como estão os negócios de propaganda ultimamente?
Era Bob Garvey, sentado à frente de seu Café Nick Faminto, e com o
jornal da manhã aberto sobre o braço.
— Não estou mais trabalhando para a Barkes & Collwin —, disse Michael.
— Eles, ah, me liberaram. A mim e a maior parte de meu grupo.
— Oh, lamento saber —, disse Garvey. — Onde você está trabalhando
agora? Imagino que tenha um trabalho ou não estaria na cidade tão cedo.
— Abri uma empresa própria de produções de vídeos.
— Abriu?
— Sim. Nós até conseguimos o nosso antigo espaço no outro lado da rua.
— Bem. Bom para você. Sério. Desejo a maior sorte.
— Obrigado. Vamos mesmo precisar.
— Por quê?
Michael olhou direto para Garvey, o que não tinha feito até aquele mo-
mento. Garvey tinha se virado em sua cadeira giratória, e sua atitude indicava
que ele estava querendo ouvir.
A garçonete ainda estava ocupada com alguns clientes habituais no outro
lado do balcão. Michael sentou-se. — Pensando bem, você pode se identificar
com isso: A Três-E acaba de me ferrar muito bem ferrado...
Ele contou a Bob Garvey o que tinha acontecido. Quando terminou, ti-
nha pedido e dado conta de um café completo. Ao comer as últimas batatas
fritas, que tinha guardado para o fim, ele admitiu: — Não sei o que fazer agora.
— Ele olhou para Garvey. — Você é um executivo experiente, um consultor.
Algum conselho?
94
— É bom você conseguir novos projetos com urgência.
— Sem brincadeiras, Sherlock.
Garvey sorriu. Ambos sorriram.
— Ou conseguir mais trabalho —, disse Garvey —, ou arcar com o prejuízo
e acabar com tudo agora.
— Assinei um contrato de aluguel. Estou devendo um monte de dinheiro.
— Então sua decisão está tomada. — Garvey pegou o cheque, juntou
uma nota de um dólar que tirou da carteira como gorjeta e se levantou. — Se
souber de alguém que precise de seus serviços, aviso.
— Obrigado.

Alguns dias se passaram. Dias terríveis. Os outros ainda estavam traba-


lhando no vídeo do BNB, o ‘trabalho do banco’, como eles passaram a chamá-
lo. Michael tinha toda a Caverna para si mesmo. Ele dava telefonemas, manda-
va cartas e fazia o follow-up. Escrevia as cartas a mão em sua mesa e, depois,
como Babe não estava mais disponível, ele mesmo as digitava, imprimia, en-
contrava os erros e corrigia, imprimia novamente, imprimia o envelope e colava
o selo. Enquanto fazia isso, tentava manter a vivacidade no telefone. Podia
chegar a fazer dez ligações por dia, talvez entrar em contato com duas ou três
pessoas, e escrever três ou quatro cartas. Quando não estava tentando vender
seus serviços, estava falando com empresas de aluguel. Ele ainda não tinha con-
seguido um acordo de longo prazo para o aluguel dos equipamentos.
No final do dia, ia para casa. Tomava alguns drinques para relaxar. Ele
nunca esteve tão tenso. Regan chegava em casa, reclamava dele por algum mo-
tivo, jantavam quase em silêncio. Depois, ela subia para trabalhar ou ler. Michael
tomava mais alguns drinques e se preocupava. A combinação de álcool e preo-
cupações interferiu em seu sono.
Na tarde de quinta-feira ele ouviu barulho e Stoney apareceu na porta do
escritório de Michael, com os outros atrás. — Você conseguiu alguma outra
coisa para nós?
— O que você quer dizer?
— Qualquer outro trabalho. Acabamos de gravar no banco. — Ele parecia
chateado, parado lá, apoiando o peso contra o batente da porta. Os rostos dos
outros estavam acima de seus ombros.
— Não, ainda não consegui nada.
Stoney virou para a equipe. — Então acho que não há razão para qualquer
um de nós vir amanhã.
— Uma ova que não —, disse Michael. Ele se levantou e passou para o
outro lado da mesa. — Se vocês não estiverem fora a trabalho, espero que todos
estejam aqui.
95
— Por quê? O que tem para fazer? Vamos ficar aqui sentados de papo pro ar?
— Se não tiver nenhuma outra coisa, vocês podem atender a droga do
telefone.
— Mas, vai precisar de nós cinco para isso? — Perguntou Spider.
Estava parecendo um motim, até Tanny falar. — Eu vou vir.
— Eu também —, disse Redmeat.
— Acho que, por princípio, todos vocês deveriam vir —, disse Michael.
— Ainda há um monte de coisas para fazer. Tem software para ser instalado no
computador, e eu gostaria que alguém imaginasse como fazer a planilha de
cálculos. Temos que estabelecer um sistema de cobrança...
— Sim, para um cliente —, disse Stoney.
— A propósito, Stoney, como você vai se arranjar para fazer a pós-produção?
— Está tudo acertado. Domingo à noite. Red e eu vamos fazer a edição no
Canal Sessenta e Seis, das onze às sete.
— Você mostrou um copião ao cliente? Copião era o termo que Michael
usava para uma cópia preliminar com todas as cenas editadas, sem efeitos espe-
ciais ou acabamento profissional, apenas algo para mostrar ao cliente e conse-
guir sua aprovação quanto ao conteúdo.
— Como vou fazer um copião? — perguntou Stoney. Ele abriu o braço
apontando para a sala de controles. — Não há nada na sala além de um sofá!
— Cancele a sessão de edição no domingo à noite —, disse Michael, — e
amanhã compre um par de gravadores de vídeo. Depois transfira tudo das fitas
de uma polegada para as fitas cassetes de vídeo e faça um copião.
— Levará horas!
— Você tem algum outro compromisso? Veja, nos bons e velhos tempos,
em que tínhamos nosso próprio equipamento, era fácil fazer modificações. Mas
o que acontece agora, se o cliente não gostar de alguma gravação que você fez?
Stoney não respondeu.
— É, exatamente. No Sessenta e Seis estaremos pagando caro, e se o clien-
te quiser que modifiquemos alguma coisa, teremos que pagar outra sessão —
com nosso dinheiro. Então vamos primeiro fazer um copião. O que você diz?
Stoney nada disse. Virou-se e saiu para o hall. Os outros o seguiram, um
após o outro, exceto Tanny.
— Sei que a hora não é a apropriada —, disse ela —, mas quando vamos
receber?
— Você está certa, não é uma boa hora. — Ele olhou o calendário. —
Vamos começar a fazer as retiradas no dia quinze.
— Não sei se agüento até lá.
— Certo. Amanhã eu faço um cheque para você.

96
— E os outros? — Perguntou Spider, que ouvira a pergunta antes de se
afastar.
Michael imaginou que em nome da ética seria melhor ser flexível naquele
momento. — Sim, vou fazer um cheque para todos que precisarem de dinheiro.
— E quem não precisava?
Naquela noite estava exausto. Ele acabou o Stoly e começou a trabalhar
em Popov. Adormeceu em sua poltrona Archie Bunker e acordou às três da
manhã, não com dor de cabeça, mas com dor nas costas. A dor de cabeça o
atingiria pela manhã. Quando o rádio começou a tocar às seis, seu corpo se
recusava a mover-se. Mas ele tomou banho e foi para a cidade.
Entrou no Nick’s jurando que seus dias de vodca estavam acabados. Quando
sentou, Garvey lhe disse que parecia um morto-vivo.
— Acho que estou pegando uma gripe.
— Eu ia lhe telefonar mais tarde, se não o encontrasse esta manhã... — Ele
pegou a carteira e tirou um cartão comercial, e o colocou sobre o balcão ao
alcance de Michael. — Isso o fará sentir-se melhor. Carl Jenks. Conversei com
ele ontem sobre a Industrial Automation.
A Industrial Automation era a outra empresa, dentre as 500 maiores da
revista Fortune, que tinha sede em Bridgeford. Eram antigos fabricantes de
máquinas-ferramentas, e mais recentemente tinham entrado na área de robótica,
com resultados variáveis.
Eu já trabalhei para a Industrial Automation —, disse Michael. — Não
ultimamente, embora deva ter falado com o encarregado de marketing três ou
quatro vezes no mês passado.
— Carl é o chefe de serviços de assistência ao cliente. Seu pessoal instala e
dá manutenção às máquinas que a I.A. fabrica. Eles estão em todo o mundo.
De qualquer forma, lançaram um robô no ano passado que se tornou um pesa-
delo para a manutenção. Carl e eu chegamos à conclusão de que a maioria dos
problemas é causada pelos clientes que não seguem certos procedimentos ao
fazer a manutenção. Eu disse: por que você não faz um vídeo para ensinar aos
técnicos como fazer exatamente o que devem fazer? Carl achou uma ótima
idéia. Ele mesmo ia fazer o vídeo. Se vai produzir o vídeo, certifique-se de que
ele seja realmente comunicativo. E é aqui que você entra. A não ser que esteja
ocupado demais...
Michael pegou o cartão. — Vou telefonar-lhe imediatamente.
— Bom. Ele tem pressa. Aqui entre nós, acho que ele está mais preocupa-
do com rapidez do que em conseguir um preço baixo.
— Obrigado —, disse Michael.
— Não há de quê.

97
— Bob, posso lhe oferecer uma comissão por indicar o cliente, ou qual-
quer outra coisa?
Garvey balançou a cabeça. — Você não me deve nada. Apenas faça um
bom trabalho para o Carl, se ele o contratar.
Michael pegou a conta de Garvey. — Ao menos deixe-me pagar o seu café
da manhã.
Garvey encolheu os ombros, e então se inclinou para a frente, dizendo em
voz baixa: — Vou contar uma coisa. Estou disposto a ajudar qualquer um que
tenha sido ferrado pela Três-E.

Para o vídeo do robô da I. A. eles tiveram que ir a Conklintown, acerca de


duas horas de distância, a sede da fábrica da Conklintown Small Motors, um
dos clientes da I.A. Esse cliente usava o robô modelo 2001/MF. “MF” queria
dizer “multifunção”. Muitos clientes se referiam ao robô apenas como MF, e
diziam, por exemplo: “O MF não está funcionando de novo”. Michael sugeriu
que o vídeo ficaria melhor, se tivesse algumas cenas com o MF realizando algu-
ma tarefa produtiva, num cenário real, ao invés de apenas realizar as movimen-
tações num laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento. Então, Carl Jenks tele-
fonou ao gerente da fábrica em Conklintown, com quem a I.A. tinha um bom
relacionamento (apesar da Conklintown possuir um MF), e arranjou tudo.
Michael agendou uma gravação de um dia, planejando viajar até o local de
manhã, gravar durante quatro a cinco horas, e voltar no mesmo dia.
Eles saíram de Bridgerford por volta das sete horas da manhã de um dia
frio, mas ensolarado. Foram em dois carros: Redmeat, Spider, Stoney e Boner
na van de Redmeat, com a maior parte do equipamento, e Michael e Tanny à
frente e no Porcshe, que ele não conseguiu vender. Em Bridgeford a venda de
carros-esporte ocorre no verão. Ele conseguiu vender o Taurus em uma semana,
por nove mil e oitocentos dólares. Usou parte da venda para comprar pneus
apropriados para a neve para o Porsche, e depositou nove mil dólares na conta
corrente da empresa. Pegou seis mil emprestados de outro cartão de crédito e
também depositou na conta corrente, elevando sua contribuição para o capital
da empresa a vinte e cinco mil dólares, conforme prometido.
Durante o caminho, Michael e Tanny conversaram principalmente sobre
os negócios. Conversaram sobre Stoney, que recentemente vinha se comportan-
do de forma estranha. Eles também conversaram a respeito de conseguirem ou
não alugar o equipamento de edição de vídeo que queriam. Eles já tinham
negociado um leasing de dois anos de uma câmera Ikegami com a qualidade
exigida dos equipamentos de emissoras de TV, que estava aninhada no colo de
Tanny, um gravador de vídeo portátil de uma polegada e ainda baterias e um
tripé — cerca de cem mil dólares em equipamentos. Os pagamentos passavam
98
de cinco mil por mês, e eles ainda não tinham como editar o que gravavam. Um
fato que muito perturbava Michael era que muitos distribuidores de vídeo, que
corriam atrás dele quando estava na Barkes & Collwin, não mais o levavam a
sério agora que se tornara independente.
A terra estava marrom-amarelada, com manchas de neve nas encostas vol-
tadas para o norte e nas depressões do relevo ondulado. As estradas estavam
secas. A maior parte da viagem era pela Rota 24, uma auto-estrada de quatro
pistas. A pavimentação tinha uma tonalidade branca de sal dissolvido. Umas
poucas nuvens claras passavam rápido pelo céu azul. Eram muito rápidas. Tanny
observou diversas delas, e pensou que se moviam quase como numa seqüência
de lapsos de tempo.
Eles chegaram por volta de nove horas e encontraram Jenks, que na tarde
anterior tinha levado o gerente da fábrica e a mulher deste para jantar fora. Às
dez e meia já estavam gravando. Conseguiram um testemunho do subgerente
de produção sobre o MF, tipo “Quando está operando, é muito produtivo”.
Quando entraram na fábrica, o MF estava parado. Demorou meia hora
para encontrar o responsável pela operação do robô, que estava em outro lugar
ocupado com algo realmente importante, e outra meia hora para programá-lo
de forma a parecer que executava algo útil.
O MF não se parecia com os robôs de ficção científica, normalmente fei-
tos para lembrar seres humanos. Ao contrário, era principalmente um grande
braço mecânico vermelho, guiado por um computador. Michael gravou algu-
mas cenas gerais, e já passava de uma da tarde. Pararam para o almoço e foram
a um Burger King na estrada, próximo à fábrica.
Quando voltaram, por volta das duas horas, os flocos de neve dançavam
ao vento. Jenks perguntou se eles conseguiriam se arrumar sem ele, ao que
Michael respondeu afirmativamente. Então Jenks se despediu do gerente da
fábrica e voltou para Bridgeford.
A fábrica era grande, um edifício com laterais em painéis de aço sem jane-
las, de forma que eles não sabiam o que estava acontecendo do lado de fora. Um
pouco depois das três horas Spider e Stoney levaram algumas luzes de que não
mais precisavam de volta para a van e, quando retornaram, Spider disse: — Ei,
o céu está caindo. Já tem pelo menos dois centímetros e meio de neve acumu-
lados no chão.
Cerca de um minuto depois o preparador do robô chegou e perguntou
como estava indo. Michael informou-o de que iriam gravar mais duas ou três
tomadas e depois o liberariam.
— Bem, acho melhor serem rápidos, se pretendem voltar a Bridgeford
esta noite.
— Por quê?
99
— O rádio está avisando que há um alerta quanto a uma nevasca. Acabo
de vir do escritório. Estão falando de trinta e cinco centímetros de neve por
volta da meia-noite.
Michael e toda a equipe trocaram olhares. Não havia previsão de despesas
de pernoite e jantar no orçamento.
— Certo —, disse Michael —, deixe uma luz, a câmera e o gravador
comigo. E vocês arrumem tudo e saiam daqui o mais rápido que puderem.
— Eu fico. — Disse Tanny.
— Eles podem acomodá-la na van —, disse Michael, e para Redmeat: —
Não podem?
— Meio apertado.
— Ela pode sentar no meu colo —, disse Boner.
— Não —, disse Tanny. — Eu fico. Será mais rápido em dois.
— Pode ser uma longa viagem de volta no Porsche.
Ela não disse nada, e então Michael olhou para Redmeat que encolheu os
ombros e o assunto ficou decidido. Redmeat e os outros saíram depois de trinta
minutos. Michael nunca os tinha visto se aprontarem tão rápido.
Eram três e meia quando ele e Tanny acabaram. Havia cinco centímetros
de neve molhada sobre o Porsche. Ficou tudo apertado, com o pedestal da luz e
o tripé entre os assentos. Tanny acomodou-se com o banco tão recuado quanto
possível, o gravador entre as pernas e a câmera no colo. Com os limpadores de
pára-brisa ligados, eles partiram.
Depois de meia hora, estavam na entrada da cidade. O Porsche estava
indo bem, contanto que Michael fosse em marcha lenta e não parasse. Eles
alcançaram a Rota 24, quando Michael de repente disse: — Ai, merda. Segure a
câmera.
Um caminhão-reboque, de dezoito rodas, desgovernado, com o cavalo
mecânico e a carroceria formando um ângulo fechado, vinha deslizando late-
ralmente e direto para cima deles. Michael conseguiu parar o carro, mas como
em câmera lenta, o caminhão continuou vindo, chegando, e nada havia a se
fazer. Os olhos de Tanny fixaram-se nos enormes pneus que estavam na fren-
te, com porções de neve grudadas na enorme banda de rodagem, e as enormes
porcas de aço da roda apontadas diretamente para o pára-brisa. Ela fechou os
olhos.
Quando ela os abriu novamente, estava olhando para a grade inferior do
caminhão. Entretanto, não tinha havido impacto. O caminhão tinha parado e
a frente do Porsche estava exatamente debaixo do pára-choque maciço. O de-
sastre fora evitado por apenas alguns centímetros. O rosto de Michael estava tão
branco quanto a neve, mas apesar do susto ele conseguiu engatar a ré e afastar o
carro. Saiu, examinou a frente do carro e começou a rir. Levantou o rosto em
100
direção ao céu acinzentado e Tanny viu sua boca pronunciar as palavras “Muito
obrigado!” Ele e o motorista do caminhão trocaram algumas palavras — pala-
vras de alívio, não de raiva — e Michael voltou ao carro.
— Nem mesmo um pequeno arranhão! — disse ele. — Nossa! Podería-
mos estar mortos agora, e o caminhão nem encostou em nós!
— Michael.
— O quê?
— Vamos ficar em algum motel esta noite?
— Você tem certeza?
— Sim. Por favor, amanhã cedo continuamos.
— Bem... na verdade, acho que essa pode ser a melhor idéia que ouvi em
todo o dia.
Um quilômetro e meio à frente eles entraram no Lucky Shamrock Mo-
tor Inn.
— Queremos dois quartos —, disse Michael.
O funcionário, já colocando um formulário de admissão e um caneta no
balcão, balançou a cabeça. — Tenho apenas um quarto livre.
— Quantas camas? — perguntou Tanny.
— Duas camas de casal —, disse o funcionário, evitando olhar para eles.
Michael e Tanny se entreolharam.
— Tudo bem para mim —, disse ela.
— Vamos ficar —, disse Michael.
Ela sentiu um calor no rosto, e sabia que estava corando.

O quarto era no padrão de um Holiday Inn dos anos sessenta — pequeno,


decoração insípida, mas limpo. Ela telefonou para avisar a mãe. Antes da via-
gem, tinha combinado com um vizinho para pegar Jason na creche, de forma
que não havia problema quanto a isso, mas a mãe dela, de qualquer forma,
ficaria inquieta pelo fato de a filha não estar em casa. Michael ficou na janela
enquanto ela conversava com a mãe. Ela não mencionou que estava dividindo o
quarto com alguém.
— Você precisa telefonar para sua mulher? — Perguntou a Michael.
— Não, estou solteiro esta semana. Regan está em Nova York. Sabe, é
cedo, por que não tratamos de conseguir alguma coisa para jantar enquanto há
tempo? Não sei até que horas os restaurantes por aqui vão ficar abertos com esse
tempo.
O motel não tinha restaurante, mas havia um bar que servia refeições ao
lado. O café da manhã parecia ser a especialidade da casa, e então ambos esco-
lheram omelete à moda do oeste com batatas fritas. No caminho de volta Michael
notou um posto de gasolina próximo à estrada que também tinha uma loja de
101
conveniência — e que ainda estava aberta. Caminharam até lá, pretendendo com-
prar alguma guloseima para depois verem se havia algum filme na televisão, se não
faltasse eletricidade. Na verdade, a garrafa de vinho foi idéia dela.
Quando voltaram ao quarto, ambos ignoraram a televisão. Ao invés disso,
sentaram nas cadeiras lado a lado, sem sapatos, com os pés apoiados no aquece-
dor, em frente à janela, vendo a neve cair, comendo salgadinhos e bebendo
vinho nos copos de plástico que o motel deixava no banheiro.
A princípio conversaram sobre o clima e quanto tempo ia levar para volta-
rem na manhã seguinte. Então passaram a falar sobre a Três-E e sobre os sócios,
principalmente Stoney, e como ele tinha, ultimamente, provocado discórdia no
grupo.
Então Tanny tocou o braço de Michael e disse: — Muito bem, hoje temos
a noite inteira. Quero ouvir sobre a sua vida em Hollywood.
Michael franziu as sobrancelha, balançou a cabeça. — Não, não queira.
— Sim, quero. — Ela esperou, mas ele nada disse. Ela pegou a garrafa e
serviu mais vinho para ele. — Isto deve soltar a sua língua.
Ele sorriu, mas não se abriu. Quando ela estava quase certa de que ele não
diria nada, ele começou: — É difícil para mim falar a respeito disso.
— Não deve ter sido tão ruim, foi?
— Sim, foi.
Ele fez outra longa pausa.
— Bem, o que deu errado?
— O que deu errado? Minha infância.
— O que quer dizer?
Ele bebeu um gole de vinho. — Escuta —, ele disse —, Vou lhe contar a
parte fácil da história, que por acaso é verdadeira, e então vamos falar sobre
qualquer outra coisa, OK.?
— Fui para Hollywood quando tinha vinte e três anos e adorava Coppola.
E Scorsese. Scorsese era um semideus para mim, se é que você me entende, e
isso pode lhe mostrar a extensão do meu problema. Eu poderia ter adorado
Spielberg e Lucas, mas eles eram muito comerciais. Muito bem-sucedidos. Bem,
na verdade, não faria grande diferença.
— De qualquer forma, fui para Hollywood. Não conhecia ninguém e não
sabia quase nada. Abri o meu caminho a partir da rua. Realmente, abri o meu
caminho a partir da rua, e isso significa que me humilhei, e adulei, e cheirei, e
usei de todas as armas para seduzir e abrir caminho até as salas de estar e escri-
tórios das pessoas com influência e dinheiro. Enfim, fui recompensado. Tive a
chance de fazer meu filme.
— Havia problemas. — Ele sorriu. — Deus, como havia problemas. Pro-
blemas com o clima, problemas técnicos, problemas com o script, problemas de
102
talento. Problemas com o produtor, que estava explorando todo mundo, como
se descobriu. — O sorriso foi sumindo lentamente, e agora havia desaparecido
por completo. — Problemas comigo. Eu estava realmente me esforçando, e não
conseguia fazer. No início, provavelmente era eu que estava causando a metade
dos problemas, ou os tornando piores, porque queria que o trabalho fosse mui-
to bom. Fiquei firme e resolvi a maioria dos problemas, até que... no fim, ocor-
reu o pior problema de todos, o problema do dinheiro. Faltando três dias para
acabar as filmagens, dois estranhos vieram ao meu trailer e me entregaram uma
carta. Você não tem idéia do que representou para mim voltar para a Caverna e
ver aquele leão-de-chácara lá em pé.
Ela olhou para ele e ele tinha os olhos fechados, tão apertados que as rugas
ao redor estavam saltadas como pequenas lâminas. Ele ficou em silêncio por
cinco ou dez segundos, e ela percebeu que ele parou de respirar. Os segundos se
passaram, e ela pegou a mão dele e a esfregou com a sua. Finalmente ele deu um
suspiro, e uma única pequena lágrima apareceu em seu olho direito, próxima ao
nariz, e escorreu. Ele acariciou a mão dela, soltou-a e enxugou a lágrima com as
costas da mão.
Suspirou novamente! — Então, de qualquer forma...
— Então eles nunca lançaram seu filme, disse ela, esperando dar a ele uma
saída, um fim para a história.
Mas ele se controlou e continuou. — Não, isso é o que eu digo a todos.
Falo que o filme, o meu filme, nunca foi lançado. Não é verdade. Meu filme foi
terminado sem mim. Meu filme foi violado por idiotas. Tive que pagar para vê-
lo, e ele estava completamente fora do meu controle. Depois disso fiquei doen-
te por dias, semanas. A última parte dele estava absolutamente incompreensí-
vel. Eles souberam como me arruinar: colocaram o meu nome nele.
— Então fugi. Não imediatamente, mas cerca de um ano depois. Gastei
todo o meu dinheiro, a maior parte pagando advogados e outras coisas. Depois
fugi. Aceitei um emprego como professor em Bridgeford. Fui a um psiquiatra
por alguns meses. Deveria ter ido por mais tempo, mas alguns meses foi tudo
que pude pagar.
Ela olhava para ele. Ele parou.
— É isso — disse ele. — É tudo que vou contar.
Ela se sentiu aliviada e levantou. — Vamos sair para dar uma volta.

Eles saíram, e agora a neve se acumulava lá fora a uma altura de quase


trinta centímetros e continuava a cair em grandes flocos. Contra as luzes da rua,
os flocos eram escuros. Os carros no estacionamento pareciam montes brancos
em uma paisagem virginal. Havia silêncio, exceto pelo pipocar dos flocos de
neve molhados ao caírem.
103
O passeio mais fácil era pela auto-estrada. Uma máquina de limpar neve
tinha passado há algum tempo, e havia apenas alguns centímetros sobre a pista
de rolamento e nenhum trânsito, a não ser uma pick-up com tração nas quatro
rodas, e só.
O posto de gasolina tinha fechado, e suas luzes estavam apagadas. Eles
seguiram até um pouco adiante dele e depois voltaram. Não disseram nada um
ao outro, apenas alguns poucos comentários sobre como tudo isso era belo.
Ela começou. Ela teve a idéia, esperou até que estivessem perto do motel e
então de repente correu adiante, abaixou-se, fez uma bola de neve e atirou. Ele
não foi pego de surpresa. Ao mesmo tempo em que a bola o acertava no ombro,
ele estava fazendo outra. Eles trocaram projéteis, com os tiros dela sendo mode-
radamente precisos, embora ela não tivesse a força que ele tinha. Ele poderia
afastar-se e ainda atingi-la, enquanto os arremossos dela eram curtos. Então ela
fez o que seria lógico: fez a sua bola, correu direto para ele, sendo duramente
atingida no caminho, mas se aproximou e esmagou sua bola de neve bem no
rosto dele.
Eles começaram a atirar não bolas, mas punhados de neve um no outro.
Ela estava gargalhando e ele ria entre ameaças terríveis — “Saia desta! Você vai
levar! — e acabaram derrubando um ao outro como se lutassem. Ela pensou
que ele poderia então beijá-la, mas, embora parecesse que ele havia percebido,
não foi isso que fez. Ele apenas levantou e estendeu a mão para ajudá-la, mas ela
não aceitou.
— Ei, Sr. Michael, você não vai fazer um anjo na neve?
— Você pode fazer um para mim.
Ela fez. Então levantou-se e de mãos dadas voltaram para o quarto, embo-
ra a essa altura as mãos dele estivessem tão frias quanto as dela. Ela estava tre-
mendo e ambos estavam gelados. No quarto ela anunciou: — Vou me enfiar na
cama.
Foi ao banheiro, ligou o aquecimento, despiu-se completamente, pendu-
rou seus jeans para secar, secou o cabelo com a toalha, vestiu a calcinha e a camisa
de flanela, que estava quase seca. Quando ela saiu ele estava na cama, vestindo
apenas as roupas de baixo. O restante das roupas estava pendurado numa das
cadeiras perto da janela. Ele tinha fechado as cortinas, e parecia vacilante quanto
a olhar ou não, e então olhou rapidamente para ela e depois seus olhos desviaram-
se para a parede. Claro, nada havia para ver além de suas pernas, e mesmo elas
apenas por alguns segundos antes que estivessem sob as cobertas.
As camas eram lado a lado, com uma pequena passagem no meio. Ele
disse: — Bem... você gostaria de ver TV?
— Não especialmente, a não ser que você queira.
Ele não fez menção de ligar o aparelho.
104
— Michael...
— O quê?
— Estou gelada. Posso ir aí para me esquentar?
Como ele poderia recusar? Ele hesitou por um segundo, antes de suspen-
der as cobertas de sua cama para que ela pudesse entrar, e ela foi. Acomodou-se
perto dele, com suas costas no peito dele.
— Seus pés estão me congelando! — ele reclamou.
— Eu disse que estava gelada.
— Você não devia começar batalhas de bolas de neve.
Então eles ficaram quietos, começando a aproveitar o toque um do outro.
Ela gostou imediatamente de como eles se adaptavam juntos, como a cabeça
dela se ajustava imediatamente abaixo do queixo dele. Ela notou como a respi-
ração dele se tornou leve. Ela alcançou o criado-mudo e apagou a luz.
— Você vai ficar aqui? — ele perguntou.
— Você se importa?
Ele nada disse. Ela se virou para olhá-lo de frente no escuro.
— Você quer que eu saia?
— Bem...
Os dedos dela deslizaram pelo braço dele, passando pelo ombro e alcan-
çando o cabelo. Ela beijou seus lábios e ele correspondeu. Ainda assim ele estava
se controlando para permanecer afastado dela.
— Tanny...
— Sim?
— Precisamos falar sobre isso.
Ele estava sussurrando.
— Certamente.
— Agora estamos realmente ultrapassando os limites.
— Eu sei.
— Não é que eu não gostaria, mas...
— Oh, Michael, você é tão romântico —, disse ela, falando normalmente,
o que pareceu excessivamente alto no escuro.
— Não, o que eu quero dizer é que temos alguns problemas óbvios aqui
— sussurrou ele.
— Como o fato de você ser casado.
— Sim, e também o fato de estarmos juntos num negócio. O que quero
dizer é que, realmente, estamos abrindo uma caixa de Pandora. Isso pode acabar
em grande confusão.
Ela pôs a mão no peito dele e pôde sentir os pelos do peito sob a camiseta.
— Escute —, sussurrou ela —, agora somos apenas duas pessoas presas
por uma tempestade de neve. Não sei como dizer, mas... não quero desperdiçar
105
a chance. Ok? O que acontecer hoje, aconteceu. De manhã podemos voltar a
ser sócios na empresa, e eu não vou contar a ninguém se você também não
contar. Está certo assim?
Dizendo isso, ela abriu as portas para ele. As roupas íntimas voaram, vin-
das debaixo dos cobertores. Eles fizeram amor, se abraçaram, fizeram amor no-
vamente e dormiram. No meio da noite ambos acordaram simultaneamente e
começaram de novo. De manhã fizeram mais duas vezes antes de deixarem o
motel. Ela ficou lá deitada, relaxada, enquanto ele tomava banho, ela sentindo-
se mole, um pouco dolorida e totalmente solta, ouvindo a água ao mesmo
tempo em que observava a neve através de um vão entre as cortinas.

No caminho de volta para Bridgeford eles tiveram a primeira briga, pe-


quena, mas suficiente para transformar o que tinha acontecido em mais que um
acidente casual. Ele provavelmente estava se sentindo culpado, ela imaginou, e
um pouco nervoso.
— Prometa uma coisa —, disse ele. — Prometa-me que você jamais irá
me processar pelo que aconteceu.
— Por que diabos faria isso?
— Não sei, mas com todos esses casos de assédio sexual que têm surgido...
— Michael, se você não confia em mim, então não devíamos ter ido para
a cama e nem devíamos estar juntos num negócio.
— Eu sei! Confio em você! É só que... bem, você sabe...
Como se falasse com uma criança, ela disse: — Veja, Michael, quando a
mulher diz que está tudo bem, está tudo bem. Quando a mulher diz não, é
porque não deve acontecer. Entendeu? Por que é tão difícil para os homens
entenderem algo tão simples?
— A decisão não é só da mulher —, retrucou ele.
— Sim... Bem, você não me chutou para fora da cama, não é?
Ambos ficaram emburrados por alguns quilômetros.
— Me desculpe —, disse ela finalmente. — Você não tem nada com que
se preocupar.
— Eu não estava preocupado, apenas... esqueça.
— Foi bonito.
— Sim, foi.
— Estou quase com pena por não acontecer novamente.
— Sim...

A neve em Bridgeford não era nada comparável à de Conklintown —


apenas alguns centímetros, e já estava derretendo ao retornarem à cidade. As
106
estradas estavam livres. Eles se desviaram um pouco do caminho, parando na
casa de Tanny para que ela pudesse trocar de roupa (seus jeans ainda estavam
úmidos da brincadeira na neve da noite anterior). Michael esperou na sala de
estar e tentou conversar com a mãe dela, mas nem mesmo um comentário sobre
o tempo conseguiu animá-la a responder apropriadamente. Na televisão, um
homem com os olhos fechados e os punhos cerrados conduzia os ouvintes num
clima de oração.
Como não estavam particularmente apressados, Michael deixou Jason
mostrar sua vasta coleção de caminhões e carros de bombeiro. Depois eles o
levaram para a creche. Jason sentou no colo da mãe e olhou Michael atenta-
mente durante todo o caminho de cerca de três quilômetros.
Chegaram à cidade no começo da tarde. Michael e Tanny entraram na
Caverna e viram Babe sentada atrás da mesa da recepção. Tanny ia à frente e
quase passou direto — Babe parecia tão familiar sentada ali — antes de olhar
uma segunda vez.
Michael apenas parou em seu caminho. Babe sorriu. Por um segundo ele
não pôde falar. Mas depois disse: — O que você está fazendo aqui?
— Estou trabalhando para você de novo. — Ela disse como se fosse hierar-
quicamente superior a ele.
— Desde quando?
— Stoney me contratou esta manhã. Ele e os outros.
— Eles contrataram você?
— Barkes me dispensou na semana passada, mas alguém me disse que
vocês tinham iniciado tudo novamente. Então eu vim.
— Onde está Stoney?
— Não sei. Em algum lugar lá atrás.
Michael passou apressadamente por ela e seguiu pelo hall, entrando no
estúdio. Assim que ele entrou, Spider quase trombou com ele. Spider e Stoney
carregavam revólveres d’água e estavam correndo pelo estúdio tentando pegar
um ao outro. Boner brincava com um jogo no computador, e Redmeat estava
deitado de costas em cima da mesa de refeições da equipe, lendo um romance
de ficção científica.
Michael apenas ficou ali em pé, inseguro a respeito de qual atitude conde-
nar primeiro. Esse foi seu erro fatal. Porque Stoney assobiou e gritou: — Ei,
chegaram os pássaros do..., quero dizer, os pássaros da neve.
— O que aconteceu com vocês dois, hein?
— Se perderam na tempestade?
— Ei, Mike, Porsches não são bons para limpar a neve.
— Imagino que eles tiveram que abrir o caminho e empurrar a neve.
— Ôooo.
107
A mente de Michael disparou: O que está acontecendo? Como eles po-
dem saber? Eles não poderiam saber. Não havia jeito de saberem. Ele sabia que
estavam fazendo uma gozação com ele e Tanny, e também que ninguém real-
mente acreditava que alguma coisa tinha realmente acontecido — até aquele
momento, pois ele sentia seu rosto corar. Ele se virou, e Tanny estava atrás dele,
parecendo realmente culpada.
— Ficamos bloqueados pela neve —, Michael disse sem muita força, usando
a verdade como disfarce.
— Uh-Hum.
— É.
— Certo.
— Uma baita tempestade.
— Não importa —, disse Michael finalmente, mas sem o fogo persuasivo
de que precisava. — O que ela está fazendo lá fora?
— Babe?
— Quem mais?
— Ela precisava de emprego —, disse Stoney. — E nós precisamos de uma
recepcionista.
— E você disse a ela que estava contratada?
— Sim. Nós votamos —, disse Stoney. — Quero dizer, somos sócios.
Redmeat levantou da mesa e se aproximou. — Mike, ela faz parte do povo
da Caverna.
— É —, disse Spider —, não é essa a idéia que está por trás de tudo?
Uma coisa que Michael esqueceu foi que a equipe gostava de Babe. Eles, é
claro, não eram gerentes dela.
— Mike, havia três recados da Patrícia na secretária eletrônica quando
chegamos esta manhã —, disse Stoney. — E uma daquele cara do leasing de Los
Angeles. Não é antiprofissional ter clientes ligando e tendo que falar com uma
máquina?
Michael se virou para Tanny. — O que você acha?
Ela quis certificar-se de que as portas estavam fechadas. — É verdade,
realmente precisamos de alguém para atender o telefone. E digitar cartas e
tudo o mais.
— Certo, mas escutem —, Michael falou para eles —, vamos colocar
desta forma. Somos uma sociedade. O dinheiro que vocês levam para casa é
baseado nos ganhos da sociedade. O salário dela vai sair dos seus ganhos. Em
outras palavras, de seus bolsos. Ok? Vocês ainda acham que precisam dela?
Seus rostos mudaram. Michael podia ver um turbilhão dentro deles. O
problema, ele concluiu mais tarde quando pensou no assunto, era que eles já
tinham se comprometido. Isso e algo mais que ele não compreendeu completa-
108
mente na ocasião: Stoney foi capaz de transformar Babe em uma questão do
tipo “nós contra o Mike”.
— Ela não ganha muito, ganha? — Perguntou Spider.
— Quanto você disse que iria pagar a ela? — Perguntou Michael.
— O mesmo que ela ganhava antes —, respondeu Stoney.
— Pelo que me lembro, chega a dezoito mil por ano, mil e quinhentos por
mês. Mais benefícios. Você tem que pagar parte de Seguro Social dela, o seguro
de acidentes de trabalho, registrar os descontos de impostos sobre o ordenado
dela, e toda uma burocracia. Querem pagar por isso?
— Nós já falamos que ela está contratada —, disse Redmeat.
— Parece que estamos indo bem agora, em termos de negócio, não? —
Perguntou Boner. — Se piorar de novo, podemos dispensá-la, certo?
— Acho que devemos ficar com ela —, disse Tanny.
— Certo —, disse Michael. — Ela fica, mas eu não vou cuidar da papela-
da. Vocês decidem entre vocês quem vai cuidar do quê. Quem vai conseguir
todos os formulários, quem faz os registros e assim por diante. Não quero nem
tocar nisso.
— Eu faço —, disse Tanny. — Afinal, que mais tenho para fazer à noite?
Michael ignorou o comentário e estava louco com ela por ter se oferecido,
pois ele queria que a tarefa ficasse com Stoney. Ele olhou direto para Stoney
enquanto dizia: — E que nenhum de vocês assuma novamente esse tipo de
compromisso sem meu conhecimento. De agora em diante, se custar mais que
cem paus, quero saber com antecedência antes de haver algum gasto.
Tendo dito isso, ele se sentiu como se tivesse ganho a guerra. Exatamente
quando Babe abriu as portas do estúdio. Ela estava usando, Michael então per-
cebeu uma saia que meramente cobria o essencial, e suas pernas eram realmente
magníficas. A luz do hall era mais brilhante que a do estúdio e o efeito que sua
silhueta produziu foi dramático. Todos os homens, até mesmo Michael, satis-
feito como estava, tiveram a mesma resposta: um único, silencioso Uauuuu.
— Desculpe-me, Mike, mas Patrícia, do BNB, está ao telefone.
— Diga-lhe que já atendo.
A porta fechou vagarosamente, mas por alguns segundos todos observa-
ram-na partir, sibilando pelo hall. Assim que as portas de aço fecharam fazendo
pa-pfunc, Tanny disse, falando exatamente o que Michael estava pensando: —
Não é de se admirar que vocês a tenham contratado.
Michael foi à sua sala, pegou o telefone e disse alô a Patrícia.
— Você não sabe retornar as ligações? — Disse ela.
— Desculpe, estava fora da cidade ontem, e acabei de chegar ao escritório.
— Bem, eu estava começando a imaginar o que poderia ter acontecido, já
que não consegui falar com ninguém pelo telefone.
109
— Acabamos de contratar uma recepcionista. Não vai acontecer nova-
mente. Agora, o que posso fazer por você?
— Estava verificando sua conta ontem, e me pareceu que alguns desses
custos estão um pouco altos.
Merda, pensou Michael. Ele abriu a gaveta do arquivo e da pasta com a
etiqueta “faturas” ele pegou a única folha de papel.
— Certo!
Ele se preparou para o que veio a ser uma discussão de quarenta e cinco
minutos.

110
Primavera
Quanto tempo tem a empresa?
— Abrimos em janeiro. Três meses. Bem, quase quatro meses agora. —
Michael estava nervoso. Ele percebeu que se inclinava para a frente, e já estava
quase em cima da mesa do responsável pelos empréstimos do BNB, Ted Polleck.
Polleck não sorria nem mostrava desagrado, mas continuava a examinar as
folhas de papel, um balanço e uma demonstração de resultados, que Michael
lhe tinha passado por sobre a mesa. Era a primeira reunião que tinham e se as
roupas constituíam uma indicação, Polleck parecia ser qualquer coisa, menos
moderninho. Ele usava uma camisa branca com colarinho puído, e sua gravata
parecia saída de uma loja de antiguidades. Ele provavelmente estava na casa dos
trinta anos, mais novo do que Michael. Há três semanas Michael perguntou a
Patrícia quem, na divisão de empréstimos comerciais, era de fácil trato. Ela fez
algumas indagações e retornou a ligação, indicando o nome de Polleck. Talvez
tenha sido uma vingança dela.
— O que isso significa “vídeo produções”? Comerciais, vídeos de rock?
— Produzimos alguns comerciais de TV. Quero dizer, podemos produzir.
Não que tenhamos produzido desde que abrimos a empresa. Na verdade, pro-
duzimos o programa ‘A-okay!’ com Herb Gingway. Michael esperava que isso
pudesse quebrar o gelo.
Polleck levou um minuto para entender. — Oh, foi você que fez aquilo?
— Sim, foi nosso primeiro trabalho. Um dos primeiros. Fizemos outros
depois desse, é lógico.
— O Sr. Gingway estava bem no filme —, disse Polleck.
Isso era o que a maioria das pessoas dizia, se mencionassem qualquer coisa
sobre o vídeo ‘A-okay!’, que fora remetida aos clientes comerciais e também
exibida para os empregados do banco em março e abril passados. Na verdade,
era um filme maçante, mas Stoney tinha feito um bom trabalho com a ilumina-
ção, e Gingway realmente estava bem, e isso parecia ser o ponto de principal
importância para as pessoas que importavam.
— Por que você quer um empréstimo?
111
— Equipamentos. Precisamos comprar mais equipamentos.
— Então vocês precisam comprar alguns... o quê? Alguns videocassetes ou
câmeras ou...
— Não, veja, já temos os equipamentos essenciais para produção: uma
câmera, gravador, luzes, microfone, tripé. Alugamos tudo isso, mas precisamos de
equipamentos que nos permitam fazer nossa própria pós-produção. Sabe, edição.
— Uh-hum.
— Aqui... — Da pasta em seu colo, Michael retirou uma lista e tentou
deslizá-la pela mesa do funcionário do banco. — Esta é a lista dos equipamen-
tos que pretendemos comprar.
Polleck olhou rapidamente e franziu as sobrancelhas.
— Veja, eu poderia explicar... — Michael respirou e obrigou-se a se acal-
mar. — Nós realmente precisamos dispor de um conjunto de edição...
— Um o quê?
— Um conjunto de edição — um sistema que nos permita fazer nossa
própria edição com todos os efeitos necessários.
— Isso totaliza mais de um quarto de milhão de dólares em equipamentos
—, disse Polleck.
— Certo. E, acredite ou não, fui realmente muito econômico quando
elaborei a lista. Poderíamos certamente gastar muito mais do que isso, se acres-
centássemos alguns enfeites.
— Uh-hum.
— Mas fiquei com o que achei absolutamente essencial. Veja, para produ-
zir vídeo de alta qualidade técnica, precisamos de equipamentos de uma pole-
gada ao invés de três quartos de polegada ou Super VHS.
Michael podia ver pelo rosto de Polleck que nada disso tinha qualquer
significado para ele.
— Veja, o padrão de qualidade para as emissoras era o vídeo de duas pole-
gadas, mas foi reduzido para uma polegada. Agora, o formato de três quartos de
polegada é o antigo padrão industrial, mas é como um dinossauro do negócio.
E o formato Super VHS é um VHS de alta qualidade, mas muito limitado em
termos do que se pode fazer...
Polleck não estava mais tentando olhar para ele. Polleck não se importava.
— Portanto, o formato de uma polegada é o mais indicado profissional-
mente, porque pode fazer interface com tudo...
— Você disse que alugou sua câmera e todas as outras coisas. Por que você
não alugou tudo o que precisava?
— Pensei em examinar a possibilidade de comprar o equipamento de edi-
ção. Sabe, ao menos analisá-la. — Isso era torcer a verdade, pois todas as pro-
postas para alugar os equipamentos foram recusadas.
112
— Sua empresa é uma sociedade? Polleck perguntou, tendo voltado à fo-
lha do balanço.
— Sim, mas pensamos em transformá-la em uma sociedade anônima logo
mais. — Michael disse isso esperando que Polleck pudesse achá-los mais profis-
sionais, ou sérios, ou sei lá, se fossem uma sociedade anônima. Mas Polleck
estava dizendo que não com a cabeça.
— Seria melhor, do ponto de vista de um empréstimo, se continuasse
como uma simples sociedade.
— Por quê?
— Bem, como sociedade os sócios são pessoalmente responsáveis pelas
despesas da empresa. Podemos estimar seus bens pessoais e acrescentar na conta
até certo ponto. Se for uma sociedade anônima, normalmente não podemos
fazer isso —, disse Polleck. — O problema é que sua empresa não tem ativos.
— Bem, eu não diria que não temos ativos. Como disse, temos algumas
luzes de estúdio e os microfones sem fio e o tripé...
— Mas não ativos do tamanho do empréstimo que você está pedindo —,
explicou Polleck. — Se o banco emprestar dinheiro a você, preferimos ver ativos
valendo consideravelmente mais do que o valor do empréstimo. Michael estava
pensando numa resposta, mas Polleck achou que era falta de entendimento. —
Porque se sua empresa afundar, os ativos podem ser vendidos para recuperar o
dinheiro que o banco emprestou a você. Se a empresa é uma sociedade, os ativos
pessoais dos sócios também podem entrar em jogo, se necessário.
— Eu realmente não acho que isso seria necessário —, disse Michael.
— Sim, bem... — Polleck olhou para o balanço. — Quantos sócios tem a
firma?
— Seis.
O número surpreendeu Polleck de tal forma que ele mudou sua expressão.
— É... um bocado. Para uma empresa tão nova.
Do jeito que Polleck reagiu, Michael entendeu que ‘um bocado’ queria
dizer ‘ruim’.
Em defesa, Michael disse: — Veja, tínhamos trabalhado juntos na Barkes
& Collwin e foi por princípio que incluímos todos... Quero dizer, a idéia é que
somos todos proprietários da empresa, então nos anos ruins todos dividem os
sacrifícios e nos anos bons dividimos os ganhos.
Polleck olhou Michael como se ele estivesse falando uma língua diferente.
Uma língua estrangeira, talvez como russo.
— Você trouxe o seu plano de negócios?
— Ah, bem, veja, — disse Michael, intercalando um sorriso, — temos
estado tão ocupados tocando o negócio, que ainda não tivemos tempo de fazer
um plano de negócios. Mas planejamos fazer o plano, quero dizer, um dia...
113
Polleck colocou os relatórios financeiros de Michael sobre a mesa e em-
purrou-os com as pontas dos dedos, como se não quisesse mais ser importuna-
do por eles, relaxou os ombros, recostou-se em sua cadeira de couro. — Espero
que você não se importe se falar francamente.
— Não, por favor, fale.
— Mike, você nos procurou muito cedo. É de certa forma muito cedo
para você contrair um empréstimo. Certamente, conosco é muito cedo. O
Bridgeford National Bank é conhecido como uma instituição conservadora.
Por outro lado, não temos tido o tipo de problemas que muitos outros enfren-
tam. Agora, não estou dizendo que você não vai conseguir o empréstimo com
algum outro credor, mas as probabilidades são bem remotas. Mesmo se seu
cadastro for aprovado para um empréstimo, é melhor olhar direito onde está
entrando, porque os termos vão refletir os riscos, e neste momento você repre-
senta um alto risco.
— Espere um minuto, por que diz isso? — perguntou Michael.
— Primeiro, você não tem história.
— Mas eu tenho mais de vinte anos de experiência em produção de vídeo
e filmes profissionais.
— Sua empresa não tem história. Segundo, você tem muitos sócios que, se
ainda não são, podem vir a ser muito difíceis de manejar ao longo do caminho,
e levar a problemas.
— Temos um contrato social.
— Terceiro, você tem poucos ativos, e pouca receita.
— Bem, se pudéssemos conseguir um empréstimo, poderíamos comprar
alguns equipamentos e conseguir mais trabalho e todos seriam felizes.
— Mike, a função deste banco não é financiar novas empresas.
— Não entendi.
— Nós, da área de empréstimos comerciais, emprestamos dinheiro para
empresas estabelecidas que pretendam se expandir. Esse é o nosso principal
papel. Se você está aqui depois de apenas três meses, precisando de dinheiro
para comprar equipamentos, pode-se dizer que sua empresa está descapitalizada.
Você e seus sócios têm que ir mais fundo nos próprios bolsos, ou têm que
encontrar algum investidor externo. Ou talvez você tenha um tio rico que con-
corde em ser seu avalista pessoal — em outro banco, não no BNB. — Polleck
olhou para o relógio. — Tenho uma reunião dentro de alguns minutos, mas se
pudesse apenas dar um ou dois conselhos...
— Por favor, fale.
— Antes de tudo, monte um plano de negócios — não para mim, não para
outro credor, mas para vocês mesmos. Depois, consiga um bom desempenho por
um ou dois anos. Três seria ainda melhor. Depois volte e conversaremos.
114
— Pretendemos ir um pouco mais rápido do que isso.
— Sim, bem, se daqui a um ano estiver indo muito bem — como, por
exemplo, se a receita for três ou quatro vezes as despesas e retiradas — então
talvez possamos nos mover um pouco mais rápido.
Michael se levantou. — Então, em outras palavras, quando estivermos
indo tão bem que não precisemos mais do dinheiro, devemos voltar e conversar
com vocês.
— Parece que é assim que sempre funciona. — Ele empurrou os relatórios
financeiros sobre a mesa em direção a Michael.
Michael entendeu a dica, e abriu sua pasta. — Bem, de qualquer forma,
muito obrigado por seu tempo.
Ted Polleck estendeu-lhe a mão. — Boa sorte.

Já na rua, Michael viu que estava chovendo pesado. Seu guarda-chuva


estava a dez quadras de distância, trancado e seguro no Porsche. Uma hora antes
o céu estava apenas feio e cinzento, e sem qualquer outra indicação de que
poderia mudar o típico céu de Bridgeford durante a primavera. Agora não ape-
nas chovia, mas o céu estava realmente desabando. O termômetro no letreiro
do BNB sobre a calçada indicava nove graus, mas parecia mais frio devido à
umidade. O letreiro deu a hora certa: 14:26h. Michael tinha passado dias se
preparando para essa reunião com Polleck, e ela terminara em menos de meia
hora. Ele colocou a pasta na cabeça e começou a andar.
A chuva escorria por sua manga, mas ele quase não a sentia, por estar
transpirando devido à reunião com Polleck. Não pela conclusão ter sido dife-
rente do que bem no fundo esperava, mas porque se sentia como se tivesse
levado uma bronca, sentia não ter sido levado a sério. Ele esperava que Polleck
fosse ao menos ficar com o balanço, fosse abrir uma pasta para sua empresa,
fornecer um formulário para ser preenchido, alguma coisa — não apenas devol-
ver tudo ao fim da reunião. Estava ressentido pela rapidez com que Polleck
tinha mudado de uma atitude polida para paternal. O pior, entretanto, era que
Polleck estava certo.
A DiGabriel Vídeo Produções tinha sobrevivido ao inverno e, mais do que
de equipamentos, eles precisavam de dinheiro — não apenas para os equipa-
mentos, mas para o aluguel, para eles mesmos, para tudo.
A ironia era que em termos de vendas, estavam se mantendo. Carl Jenks
— C.J., como gostava de ser chamado — tinha ficado tão impressionado com
o vídeo sobre a manutenção do robô que encomendou um programa terrivel-
mente maçante, mas lucrativo, de uma hora sobre manutenção de máquinas-
ferramentas. Em março, Michael ouvira uma dica quente de que uma das em-
presas de TV a cabo estava procurando alguém para produzir comerciais para
115
empresas locais. Michael apressou-se e negociou um contrato de um ano, com
facilidade surpreendente. E, milagre dos milagres, a Fairview Buick ressuscitou
dos mortos. Eles tinham um lote de Regals e Roadmasters e estavam prontos
para anunciar.
O problema era que a DiGabriel Vídeo Produções ainda tinha que ser
paga pela maioria dos serviços que executara. Embora Patrícia tenha esquenta-
do as orelhas de Michael ao telefone, exigindo explicações sobre cada item co-
brado, o BNB pagou em trinta dias. Mas o cheque deles foi o único que entrou.
O vídeo sobre a manutenção do robô havia sido concluído em março, mas já
era maio e ainda não tinham recebido. Aconteceu que C.J. saiu da cidade por
algumas semanas, e a fatura permaneceu sobre sua mesa até que voltasse. Não
apenas isso, mas a Industrial Automation, que costumava pagar pontualmente
dez dias após receber a fatura, seguiu a Três-E e aumentou seu ciclo de paga-
mento para quarenta e cinco a sessenta dias, para reduzir os custos. A empresa
de TV a cabo era ainda pior, pois não apenas as produções eram de baixo custo,
mas chegava a demorar até cento e vinte dias para receber um cheque deles,
razão por que tinha sido tão fácil conseguir o negócio, pois nenhum dos outros
produtores da cidade queria saber deles. Ao menos com essas empresas, entre-
tanto, havia uma expectativa razoável de que algum dia os cheques chegassem.
Michael voltou furioso depois da primeira gravação para a Fairview Buick, pois
eles tinham oferecido pagar a produção não com dinheiro, mas pela permuta
por um Roadmaster usado. Para receber em dinheiro teria que esperar seis me-
ses, talvez mais, talvez nunca recebesse se eles fossem da concordata direto para
a falência.
Entretanto, a companhia telefônica, a empresa de eletricidade, a imobili-
ária, a empresa de leasing, a receita federal e Babe Shavinsky (para citar apenas
alguns) esperam ser pagos pontualmente. Também os sócios de Michael. Pela
primeira vez em sua carreira, Michael entendeu o que significava fluxo de caixa.
Na Barkes & Collwin, se um cliente pagasse a fatura atrasado, não era problema
— ao menos não era problema dele. O pagamento dos empregados sempre
aparecia a cada duas semanas. Ele nunca tinha visto uma conta de luz, pois isso
ia direto para o departamento de contabilidade. As faturas que ele recebia eram
simplesmente assinadas e enviadas para serem pagas. Ele nunca teve que se pre-
ocupar com a disponibilidade de caixa, pois isso era função do tesoureiro. Ele
agora se sentia culpado em não ter sido mais prestativo acerca das necessidades
de alguns fornecedores com que lidava, quando pediam que uma fatura fosse
paga rapidamente. Mais de uma vez ele mesmo deixara uma fatura enterrada
em sua mesa por mais de uma semana, para que pressa?
A duas quadras da Caverna, Michael olhou para a calçada à frente e teve a
pior visão que poderia ter naquele momento. Na direção contrária vinham Lyle
116
Beekstra e Barney Tillman. Juntos. Com guarda-chuvas. Automaticamente, por
instinto, Michael virou à esquerda, na esquina, andando tão rápido quanto
possível, apesar de ir na direção errada. De jeito nenhum ele queria ficar frente
a frente com os dois, especialmente não naquele momento.
Algumas semanas antes Michael estava folheando a coluna “Pessoas em
mudança” do Bridgeford Press e viu a fotografia de Barney Tillman. Próximo
daquela coluna o anúncio de que Tillman estava saindo da Três-E e entrando na
Barkes & Collwin, em Bridgeford. Lyle tinha contratado Tillman como “Ge-
rente de produções especiais de vídeo”, para substituir Michael e servir como
contato local para o grupo de produção de Nova York. Tinha sido uma jogada
brilhante da parte de Lyle, e Michael o detestava ainda mais por isso. A Três-E
estava lentamente começando a gastar de novo, mas todo o trabalho em vídeo
até o momento tinha ido para a Barkes & Collwin ou tinha sido produzido
internamente pelo inepto departamento de audiovisuais da Três-E. Todo mun-
do na Três-E conhecia Tillman e, embora muitos não gostassem dele pessoal-
mente, estavam acostumados a trabalhar com ele, e ele estava seguro de que
continuaria a receber as encomendas.
Michael parou na próxima esquina, olhando sobre o ombro para ter certe-
za de que conseguira evitar a dupla dinâmica, e pensar para que lado iria. O
caminho de volta para a Caverna ia ser complicado, porque ele não queria
passar em frente ao Nick’s. Hoona deveria estar lá e eles deviam a ele algo na
casa de oitocentos dólares pelos scripts. Hoona tinha sido diplomaticamente
polido a respeito do atraso no pagamento, mas estava ficando embaraçoso. Além
disso, outra preocupação que estava roendo as entranhas de Michael era a leal-
dade de Hoona.
Diversas vezes, nas últimas semanas, Hoona tinha sido visto no saguão do
prédio — não a caminho da Caverna, mas subindo, e só poderia estar indo para
o escritório da Barkes & Collwin, provavelmente para se encontrar com Tillman.
E não era tudo. Corria o boato de que Hoona estava aceitando trabalhos de
Will Churik (o que era surpreendente, pois Churik, sempre miserável, normal-
mente escrevia seus próprios scripts). Também se dizia que Hoona estava corte-
jando o departamento de audiovisuais da Três-E. Michael não poderia conde-
nar Hoona por nenhuma dessas ações, pois o homem tinha que comer (e beber
cerveja). O que assustava Michael era a real possibilidade de que, quando os
negócios realmente voltassem à Caverna, Hoona poderia não estar disponível.
Como free lancer, Hoona tinha que dar preferência ao cliente que lhe oferecesse
o fluxo de trabalho mais estável. Como Michael não podia mais garantir isso...
Ele subiu a rua Oito até a Jackson, cortou por uma viela, foi abordado por
um bêbado pedindo dinheiro para a passagem de ônibus, cruzou a rua Nove,
desceu outra viela e entrou pela plataforma de carga.
117
Descendo para o hall ele leu o próprio nome na porta: DIGABRIEL
VÍDEO PRODUÇÕES. Cada vez que o via, sentia verdadeiro orgulho. Ulti-
mamente, entretanto, imaginava por quanto tempo continuaria a vê-lo.
Abriu a porta, esperando ver Babe na recepção. Ao invés disso, sua cadeira
estava vazia e um balde de plástico estava sobre a mesa. Havia água pingando do
teto, ploc - ploc. Os ombros de Michael caíram.
— Filha da...
Ele contornou a mesa vagarosamente, olhando com cara amarrada para as
gotas claras que pingavam. Satisfeito que o balde parecia estar cumprindo sua
finalidade, Michael se dirigiu para o estúdio. Mas o estúdio estava escuro. Aquele
era certamente o principal problema que enfrentavam: naquele momento não
tinham absolutamente nenhum projeto agendado.
— Tem alguém em casa? — gritou ele.
Da sala de controles veio a voz de Tanny: — Estou aqui.
Ele detestava entrar na sala de controle, porque ela não passava de uma
piada em relação ao que tinha sido. Desde que retornaram, nenhum cliente
tinha se sentado no sofá dos clientes. Até agora, eles tinham feito a maior parte
das edições no Canal Sessenta e Seis — e pago um preço salgado por isso. Agora
tinham (em mesas utilitárias, do tipo com pernas dobráveis de aço) um par de
gravadores de videocassete de três quartos de polegada, um controlador de edi-
ção com dez anos de uso, uma mesa de áudio feita em casa, e um switcher Grass
Valley do final dos anos setenta, no qual era impossível criar o efeito dissolver
com suavidade. Boner tinha reunido esse equipamento, e feito um serviço in-
crível, com poucos milhares de dólares. Nada estava sendo usado. Tanny estava
deitada no sofá dos clientes lendo a “Publicação 505 da Receita Federal - Reten-
ção e Estimativa de Impostos”.
Cheguei à conclusão —, disse ela —, de que não abrimos a empresa para
ganhar nosso sustento. Estamos nos negócios para dar aos advogados e burocra-
tas o que regulamentar. Ela deixou o livreto cair no chão. — A propósito, os
canos estão pingando novamente.
— Sem brincadeiras. Alguém chamou a manutenção?
— Sim, chamei —, disse ela em tom monótono. — O responsável pela
manutenção está a caminho, assim espero.
— Obrigado. Onde está todo mundo?
— Os meninos não voltaram do almoço.
Michael olhou o relógio. — Ótimo. Cadê a Babe?
— Ela foi para casa.
— Ela o quê?
— Ela disse que não poderia trabalhar com um balde em sua frente. E
você sabe qual é a melhor parte? Fui eu que tive que ir procurar o balde para ela!
118
Se ela não pode nem ao menos fazer isso por si só, imagine pegar o telefone e
chamar a manutenção!
Michael caiu em uma das cadeiras giratórias e esfregou a testa. Ele estava
morrendo de vontade de dizer: Eu avisei.
— Realmente, Mike, ela espera que todos façam tudo por ela. Exceto ir ao
correio. Não é engraçado como sempre acabam os selos ou é necessário tirar
uma cópia às quatro e quinze todas as tardes? Sabe, semana passada eu pedi a ela
que digitasse alguma coisa e ela realmente ficou indignada.
— Escuta, foram vocês que quiseram contratá-la.
— Eu? Eu disse que precisávamos de uma recepcionista. Não quis dizer
que tinha que ser necessariamente ela.
Michael levantou a mão. Chega. — A correspondência chegou?
— Sim, e não há nenhum cheque. Eu já conferi.
— Deus, quando aqueles idiotas vão nos pagar? — Ele dizia isso quase
todos os dias durante o último mês.
— Como foi no banco? — Perguntou Tanny.
— Como esperado. Ele nem ao menos considerou conceder um emprésti-
mo.
— Estamos mal, não?
— Muito mal.
Ela levantou os joelhos e pôs as mãos entre eles. — O que vamos fazer?
— Não sei.
Ela ouviu alguma coisa. — Não é o telefone?
— É. — Ele pegou o telefone na sala de controle — a campainha estava
desligada — e antes de pegá-lo disse: — O que você acha? Será a Três-E com
um projeto de um milhão de dólares?
Não era.
— DiGabriel Vídeo... Sim, alô... olá, Sr. Krebs, como está hoje?
Assim que Tanny ouviu “Krebs”, fez uma careta. Howard Krebs tinha tele-
fonado diversas vezes nas últimas três semanas. Ele trabalhava para a Sunset
Leasing, de quem tinham alugado a câmera e o gravador. Tanny tinha atendido
a uma das ligações na semana anterior, quando Michael estava fora, e ele não
tinha sido nada agradável.
— Uh-hum... uh-hum. Certo. Sei que estamos. Bem, como já disse, de
fato, também estamos esperando ser pagos por diversos de nossos clientes. En-
tão, entendo perfeitamente sua posição... Bem, é isso, até sermos pagos, não
posso autorizar a emissão de um cheque para o senhor... Acho que é seu proble-
ma, Sr. Krebs... Não, por favor, entenda, não estou minimizando, absoluta-
mente. Apenas não posso enviar o pagamento no momento. Se o senhor pudes-
se apenas esperar... Eu realmente não sei até quando. Gostaria de saber. Espero
119
que seja apenas uns poucos dias. Pode ser que demore algumas semanas... Veja,
estou apenas tentando ser franco com o senhor, ok? Eu poderia mentir e enro-
lar, dizendo que o cheque está no correio, não poderia? Mas não acho que isso
seria muito bom para nosso, ah, para nosso... relacionamento. Honestamente,
temos toda a intenção de pagá-lo o mais rápido possível... Bem, não sei se
prometer ao senhor um pagamento parcial é realista... Agora, espere! Se o se-
nhor nos tirar o equipamento, não vai ajudar nenhum de nós, vai? Veja, se o
senhor pudesse apenas nos dar um pouco mais de tempo... Certo, deixe-me ver
o que conseguimos fazer e eu retorno ao senhor, o mais tardar, no fim da sema-
na. Certo, certo! Vou telefonar-lhe amanhã de tarde!... Ótimo. Obrigado. Ele
bateu o telefone e gritou alguma coisa que seria obsceno se compreensível.
Tanny estava encolhida no sofá. Ela esperou alguns segundos para ele se
acalmar, e então perguntou baixinho: — Qual é a história?
— Ele está ameaçando tomar os equipamentos de volta, a não ser que
receba ao menos metade do que devemos a ele até a próxima segunda-feira.
— Estamos apenas um mês atrasados, não é?
— No meio da próxima semana serão dois meses. — Ele continuava a
esfregar a testa.
— Você acha que ele está falando sério?
— Na terça-feira estaremos devendo a ele mais de dez mil dólares. O que
você acha?
— Acho que deveríamos ter sido mais cuidadosos na escolha de quem
alugar.
— Ninguém mais queria negócios conosco, Tanny! Você não lembra?
— Bem, o que o Krebs vai fazer? Ele não pode simplesmente entrar aqui e
pegar a câmera, pode?
— Não sei, nunca passei por isso antes.
— E se simplesmente dissermos que não vamos devolver a câmera?
— Então, acho que ele chama a polícia. Ou um profissional em retomada
de bens que não foram pagos. Ou qualquer outra coisa, não sei! A agitação o
levou a se levantar durante a conversa ao telefone, e então ele se atirou de volta
à cadeira giratória e tapou o rosto com as mãos.
Como que atraída pela gravidade, ela foi até ele. Ela ficou na frente dele e
correu os dedos por sua grossa cabeleira negra. Ele congelou assim que ela o
tocou, mas quanto mais ela o tocava, mais ele relaxava. Ele abraçou as pernas
dela. Ela deu um beijo maternal em sua cabeça. Abruptamente ele levantou e
beijou-a na boca, um beijo longo, passou seus dedos pelos cabelos dela e come-
çou a beijar a face, descendo em direção ao pescoço. Ela fechou os olhos e
deixou-o continuar por um momento. Em seguida ele desabotoou o primeiro
botão da calça jeans dela.
120
Ela pôs as mãos sobre as dele, detendo seus dedos. — Não, por favor.
— Eu preciso de você.
— Não, dissemos que realmente não faríamos. É melhor parar, como con-
cordamos.
Ela se afastou e abotoou novamente o jeans.
Seu olhar estava visivelmente abatido. — Não me provoque assim nova-
mente.
— Eu não estava provocando.
— Está tudo louco —, ele murmurou.
— Eu o amo, me desculpe.
Ele abriu as mãos e as levantou à altura dos ombros, como que se renden-
do, como que dizendo: O que você quer? O que você quer que eu faça?
Então eles ouviram o canto. Vinha do hall inferior, e aumentou de inten-
sidade quando a porta da frente abriu, vozes masculinas arrastadas cantando:
“Hai-ho! Hai-Ho! Somos do víde-o!”
Os meninos retornaram e, pelo som, tinham tomado algumas cervejas e
comido alguns hambúrgueres. A cantoria parou de repente. Fez-se um silêncio
como se tivessem parado para observar, e em seguida Redmeat disse: Prontos?
Um, dois, três...
E, em uníssono: “Meu Deus, estamos trabalhando em uma caverna!”
Eles tinham encontrado o balde.
Michael saiu e só olhou para eles: Redmeat, Spider, Stoney e Boner. Nos
últimos meses a dinâmica de grupo da equipe tinha mudado. Tanny, que costu-
mava se juntar a eles, não estva mais unida a eles. Boner que, nos tempos áure-
os, junto com Artie O’Connor, era o bode expiatório do grupo para propósitos
gerais e alvo de piadas, cresceu em popularidade. Ele ainda era o tecnicista que
sempre dá foras, mas Redmeat em particular tomou-o sob sua proteção. Eles
estavam fazendo piadas sobre a possibilidade de se formar uma estalactite, e
Michael estava se divertindo — até que viu Stoney.
Stoney parecia sério e sombrio, como se estivesse meio bêbado. Ele olhou
diretamente para Michael. — O banco vai nos dar um empréstimo?
— Você nos daria um empréstimo?
— Estou fazendo uma simples pergunta, Mike.
— Não, eles não vão nos dar um empréstimo. E, a propósito, a empresa de
aluguel quer o equipamento de volta se não pagarmos alguma coisa até segunda-
feira. Como vocês todos são sócios, devo também dividir as boas notícias.
Stoney cruzou os braços no peito. — Então está acabado, não está?
— Eu não diria isso.
— Então estou dizendo. Quero pular fora.
Os outros de repente ficaram sóbrios.
121
— O que você quer dizer com pular fora? — perguntou Michael.
— Apenas isso. Quero sair. Acho que devemos dissolver a sociedade.
— Acho que é melhor conversarmos —, disse Michael.
Para Michael, Stoney foi um dos maiores desapontamentos dos últimos
meses. Há algum tempo, quando estavam na Barkes & Collwin, apesar de ser o
chefe dele, Michael o considerava um amigo. Até Tanny chegar, Stoney era a
pessoa que Michael considerava um igual, em termos profissionais. Depois de
contratar Tanny para operar a câmera, Michael tinha dado a Stoney o título de
produtor/diretor e tinha deixado que ele desenvolvesse uma segunda equipe de
free lancers. Ele via Stoney como seu substituto, se a agência tivesse lhe permi-
tido seguir uma carreira fora do porão do edifício.
Mas assim que a sociedade se formou, Michael começou a ver, com relu-
tância, uma falha séria em Stoney. Embora fosse um bom profissional, Stoney
não tinha qualquer inclinação para o aspecto administrativo do negócio. Michael
repetidamente tentou delegar tarefas gerenciais a Stoney — cuidar de uma par-
te da burocracia e tarefas como juntar alguns números sobre custos, de forma a
poderem controlar melhor os preços que cobravam — mas Stoney sempre en-
contrava um jeito de se eximir da responsabilidade. Ele simplesmente não se
envolvia, ou fazia apenas um trabalho parcial, ou dizia abertamente: “Não
entendo nada disso. Não é isso o que eu faço.”
Eles todos entraram no estúdio, e sentaram à mesa que chamavam de
“mesa de almoço”, com Stoney em uma ponta e Michael na outra, os outros
entre eles.
— Certo, confirmo que temos problemas —, Michael abriu a reunião. —
Problemas sérios. Mas também acho que é muito cedo para considerar o fim.
— Mike, encare o fato. A empresa não está deslanchando —, disse Stoney.
— Foi uma idéia ruim desde o início. Não sei sobre ninguém mais, mas estou
fora. — Ele fez uma pausa, durante a qual a palavra “fora” pesou para todos. —
O que quero dizer é que há uma hora em que é preciso encarar a realidade.
— Então talvez você devesse examinar a realidade —, disse Michael. — A
realidade é que ganhamos quase cento e vinte e seis mil dólares em negócios
desde janeiro. Na minha opinião, não é mau para iniciantes.
— Então onde ele está? — perguntou Stoney. — Onde está todo esse
dinheiro? Não em meu bolso, posso garantir.
— Bem, tivemos despesas. Estou falando no que cobramos, não em resul-
tados líquidos.
— Mike —, disse Tanny —, quanto temos agora?
— Quanto em dinheiro? A última vez que verifiquei, era cerca de duzen-
tos paus.
— O quê? — Exclamou Redmeat. — Espera aí! Como pudemos acabar
122
com todo o dinheiro com que começamos, mais o que ganhamos, e ter ficado
só duzentos?
— É, que diabos está havendo aqui? Você passou a mão no dinheiro, Mike
ou o quê? — Perguntou Stoney.
— Michael levantou-se. — Mais uma insinuação como essa e você estará
fora, na rua, querendo ou não... provavelmente vai sair pela janela.
— Mike... — Tanny tinha uma mão no braço de Mike. Mike estava de pé.
— Mike, vamos, o que é isso?
— Coloquei mais dinheiro nisso que qualquer um. Tenho mais a perder
que qualquer um. Não preciso fazer este tipo de merda. — Ele estava apontan-
do o dedo no ar em direção a Stoney. — Eu não tinha que abrir esta sociedade,
você sabe.
— Não tinha? Parece que me lembro de algo um pouco diferente. Parece
que você não tinha dinheiro para fazer isso sozinho. Você precisava de nosso
dinheiro para começar.
— Podemos, por favor, voltar ao assunto principal? — Pediu Tanny.
Mas Stoney a ignorou. — Você chama isso de sociedade, Mike, mas é o
nome de quem que está lá fora na porta, hein?
— Ah, então é isso. É isso que está realmente incomodando, não é? Meu
nome está na porta porque meu nome é o que tem mais reconhecimento na
comunidade de negócios de Bridgeford.
— É, certo, Mike. Estou notando como o telefone não pára de tocar feito
louco, porque todo mundo o conhece.
— Pare! — gritou Tanny. — Isso é o que menos precisamos. Vocês dois
batendo a cabeça um contra o outro.
— O que quero saber —, disse Redmeat —, é o que aconteceu com todo
o dinheiro.
— Você quer os números? Ótimo. Alguém tem uma calculadora?
Boner, é claro, tinha uma em seu relógio de pulso.
— Você tem os números na ponta da língua? — Tanny perguntou a
Michael.
— Eu os tenho examinado por semanas. Está pronto? Começamos com
cinqüenta mil — vinte e cinco meus, e cinco de cada um de vocês. Esse era o
capital inicial. Recebemos dezenove mil, novecentos e oitenta e cinco — arre-
donde para vinte mil.
— Espere um minuto, você acabou de dizer que eram cento e vinte e
tanto, não foi? — Perguntou Red.
— Nós cobramos um total de cento e vinte e cinco mil e novecentos e
tanto. Arredonde para cento e vinte e seis. O que recebemos é outra história. O

123
único dinheiro que recebemos foi do BNB, que arredondando chega a vinte. O
resto é o que os contadores chamam de “contas a receber”, o que significa que o
dinheiro nos é devido, mas ainda não o recebemos. Ok? Então você soma esses
dois números — vinte mil em dinheiro recebido das vendas e cinqüenta mil de
capital inicial — e você chega a setenta mil dólares. É esse o total de dinheiro
que entrou no negócio desde que começamos.
— Ainda é uma bela soma de grana. Para onde foi tudo isso? — Insistiu
Redmeat.
— Aluguel, para começar. Dois mil e quinhentos por mês. Pagamos dois
meses adiantados, mais os três meses que estamos aqui. O que dá...
— Doze mil e quinhentos —, disse Boner.
— Então teve a câmera e o gravador da Sunset Leasing. Estamos pagando
dois mil e seiscentos e trinta e quatro paus para o Krebs todos os meses, mais os
dez por cento que pagamos adiantados. Os móveis de escritório, que custam
cento e quarenta e um por mês, bem barato considerando o resto. Há o apare-
lho de fax — quinhentos e tanto — e a copiadora, outros mil e oitocentos. As
linhas de telefone fixo mais o telefone celular nos custam entre duzentos e tre-
zentos por mês. Mais os dois computadores, a conta de eletricidade, e assim por
diante. Mais a Babe, que tem custado mil e quinhentos por mês em salários
mais impostos e seguros. E nós. Pagamos a nós mesmos mais de vinte e quatro
mil desde que começamos.
— Ok, ok. —, disse Redmeat com impaciência —, quanto no total joga-
mos fora?
— Em termos gerais, cerca de noventa e cinco mil. Embora eu não disses-
se que jogamos fora. Não é como se tivéssemos dado uma grande festa ou qual-
quer coisa do gênero.
— Noventa e cinco? — Perguntou Boner, apontando para sua calculado-
ra. — Como é possível? Nós tínhamos apenas setenta para gastar.
— Certo —, disse Michael. — Estamos cerca de vinte e cinco mil no
vermelho.
— No vermelho? O que isso significa? Perguntou Tanny.
— Devemos mais de dez mil para o canal Sessenta e Seis pelo uso da ilha
de edição. Devemos ao Hoona oitocentos e trinta pelos scripts. Também estamos
um mês atrasados no leasing da câmera, que é de cinco mil, duzentos e sessenta
e oito por mês. E temos uma pilha de contas de abril em minha mesa, que não
pudemos pagar, totalizando cerca de mil e quinhentos paus.
Boner apertou o sinal de igual com a ponta do dedo. — Você está certo.
Mais de vinte e cinco mil. — Ele olhou para eles. — No vermelho.
Tanny segurou a cabeça. Redmeat balançou a sua e disse: — Eu não fazia
idéia...
124
— Onde você esteve nas últimas semanas? — Michael perguntou a ele. —
Eu disse que o dinheiro estava apertado!
— Eu sabia que estava mal. Mas não sabia que estava tão mal assim!
— Por que ainda estamos sentados aqui? — Perguntou Stoney. — Acabou.
Mike você está nos dizendo que estamos quebrados. Então que seja. Estamos
acabados.
— Não. Não estamos acabados —, insistiu Michael. — Estamos em mau
estado, com as costas na parede, mas não podemos parar agora.
— Mike, você está sonhando! Não temos trabalho. Não temos dinheiro.
Estamos afundados em dívidas até o pescoço. Então, acabou!
— Detesto admitir —, disse Redmeat —, mas acho que ele está certo. Acho
que deveríamos acabar com isso e seguir em frente. O que mais podemos fazer?
— Ficar firmes até sermos pagos. Buscar mais negócios. Imaginar meios
de fazer o negócio funcionar. Veja, a Industrial Automation nos deve um bom
dinheiro. Assim que esse dinheiro sair, devemos ficar bem por algum tempo.
Stoney virou os olhos. — Oh, sim. Por quanto tempo?
Como se estivesse na escola, Boner levantou a mão. — Posso fazer uma
pergunta? Eu não entendo. Como a I.A. pode nos dever todo esse dinheiro e
não pagar? Como podem fazer isso conosco?
— É —, disse Redmeat —, não podemos processá-los ou fazer alguma
coisa?
— O processo legal —, disse Michael —, move-se devagar e não vale a
pena. Muito antes de chegar à corte já teríamos sido pagos e não teríamos um
caso. Além disso, se tentarmos processá-los, ou mesmo se fizermos muita pres-
são, nunca mais receberemos encomendas deles. E os bastardos sabem disso. É
por isso que agem assim. O que consegui saber é que nos próximos dois meses
deveremos receber o dinheiro.
— E como vamos viver até lá? — perguntou Redmeat.
— Não sei, Red. De algum jeito temos que nos segurar.
— Não eu —, disse Stoney. — Estou fora disso. Mesmo se recebermos.
Não consigo sobreviver com o que estamos levando para casa. Então, até logo.
— Ele se levantou.
— Espere um minuto! — disse Michael.
— Estou saindo. — Ele olhou para eles, um por um. — Alguém mais? Eu
quero dizer, isso é loucura.
— Steve, isso não é um trabalho em que você pode simplesmente se demi-
tir. É uma sociedade. Você não pode simplesmente sair.
Mas, com um sorriso no rosto, Stoney foi para a porta.
— Ei, você assinou um acordo como todos nós. Estamos todos no mesmo
barco. Você não percebe? Eles podem vir atrás de nós pelo dinheiro.
125
— Eles que se ferrem. E você também. Estou fora.
Michael, exasperado, observou-o sair, como os outros também observa-
vam. A porta do estúdio abriu e ainda não tinha fechado quando Spider se
levantou da mesa.
— Onde você pensa que está indo?
— Stoney está certo, Mikey. Isso é besteira. Eu vou para a Flórida.
Spider segurou a porta antes de ter fechado e a abriu com tanta força que
formou uma pequena brisa. Quando ela bateu ao se fechar, Spider já estava na
esquina.
— Eu não vou fechar, — disse Michael rapidamente aos três restantes. —
Não sei sobre o resto de vocês. Não posso forçá-los a virem trabalhar aqui de
manhã. Mas eu não vou fechar.
Redmeat olhou para o tampo marrom da mesa, inerte, riscado, marca-
do, e disse: — Mike, eu acho que a coisa mais esperta a fazer é terminar a
sociedade, concordar que acabou, e quando o dinheiro sair, acertamos com
todos a quem devemos, dividimos o que sobrar, se sobrar, e seguimos nossos
caminhos separados.
— E fazer o quê?
— Não sei. Talvez possamos administrar as coisas como, você sabe, uma
associação livre de free lancers ou algo assim.
— Red, você é quem não queria ser free lancer. Não lembra? E você,
Tanny, pelo que me lembro, não queria acabar como garçonete de coquetéis.
Boner, acho que você é que tem as melhores perspectivas de emprego de todos
nós. Você sempre pode entrar para o reparo de aparelhos de televisão. E eu,
acho que vou ser corretor de imóveis, ou de seguros de vida! É isso aí!
— Não, eu fico. Por um lado, tenho muito dinheiro aqui para fugir. Meu
nome está em muitos pedaços de papel. Mas essa não é a razão mais importante
de eu permanecer. Ouçam-me: no último inverno juntamos nosso dinheiro e
compramos uma oportunidade. A oportunidade não estava livre de risco, e
acredito que fui franco com vocês quanto a isso. Neste momento a situação
parece realmente ruim. Mas a carruagem não parou. Ela ainda é nossa. Ainda
temos a oportunidade. Saia agora, e ela se foi. Se ficarmos juntos, podemos
encontrar um jeito de fazer isto funcionar.
Ele olhou de um para outro de seus parceiros, mas viu apenas dúvidas e
desilusão em seus olhos.
— Acho que tenho que pensar a respeito —, disse Redmeat.
— Por que não consideramos a situação por um dia —, sugeriu Tanny. —
Vamos voltar ao assunto amanhã. Talvez as coisas pareçam melhores.
Os três remanescentes levantaram-se e saíram. Tanny, ao passar, pôs a mão
no braço de Michael e esfregou-o levemente. Depois de saírem, Michael ficou
126
sozinho sentado no estúdio. Ele queria levantar e ir para casa, ou ao menos à sua
sala, mas não tinha energia. Então ficou lá sentado por cinco, dez, vinte minu-
tos. Ficou sentado, simplesmente olhando as cadeiras vazias. Finalmente con-
venceu-se de que tinha forças para se levantar. A última coisa que fez antes de
ir para casa foi esvaziar o balde da mesa de Babe.

Ele temia ir para casa. A primavera não tinha derretido o gelo dos senti-
mentos entre ele e sua mulher. Eles se viam e falavam apenas alguns minutos a
cada dia, quando o faziam. Ela estava fora da cidade a maior parte do tempo.
Imediatamente depois da reorganização, sua carga de trabalho diminuiu, mas
em questão de semanas ela estava trabalhando pelo mesmo número de horas de
sempre. Tenho que trabalhar tantas horas porque sou muito importante, era o que
sua atitude sugeria. Em qualquer dia havia cinqüenta por cento de chances dela
estar viajando. Quando estava na cidade, saía de casa entre seis e sete da manhã
e normalmente retornava entre oito e nove da noite. Os fins de semana iam do
início da tarde dos sábados até o meio da tarde dos domingos. Eles não faziam
sexo. Nos últimos quatro meses Michael tinha sido perversamente fiel. A única
vez que fez amor foi com Tanny Zoelle.
Normalmente, quando Michael e Regan falavam um com o outro, a con-
versa girava sobre assuntos como lavanderia, listas de compras, manutenção dos
carros, os aspectos práticos de suas vidas. O tom dela, nas ocasiões em que
perguntava como o negócio estava indo, deixava aparente que ainda achava que
ele era um idiota por começar um negócio do modo como começou. Ele daria
a ela as boas notícias. Agora teria que contar que o negócio falhou. Que ele
tinha falhado.
Sim, Regan, você estava certa, ele pensou. E Stoney, e Spider, e Lyle Beekstra e
Ted Polleck e todos os outros. Você estava certa e eu fui um idiota. Me ferrei. Ele se
torturou com tais pensamentos durante todo o caminho até Deerfield.

O Lexus estava na garagem quando ele chegou em casa. Perfeito, ele pen-
sou. Ela tinha que resolver não trabalhar até tarde justo naquela noite. Ele subiu
para tirar o terno e a encontrou na cama. Ela era uma protuberância sob as
cobertas, com as costas para a porta. Estava quieta e em silêncio, e ele pensou
que estivesse dormindo. Ele pendurou o paletó, tirou a gravata, começou a
desabotoar a camisa. Ouviu-a fungar. Ele espiou e viu que seus olhos estavam
abertos, vidrados e vermelhos nos cantos.
— Você está bem?
— Não.
— Está doente?
Ela disse alguma coisa que ele quase não pôde ouvir.
127
— O quê?
— Estão cortando meu cargo —, ela disse mais alto.
Seus dedos pararam assim que chegaram ao último botão de baixo.
— Eles ofereceram alguma outra coisa?
— Não. Estou sendo cortada.
Um monte de sentimentos passaram por ele em poucos segundos. O pri-
meiro foi preocupação. Por que, querido Deus, isso tinha que acontecer agora?
Como vamos pagar as contas? Então ele se sentiu bravo com ela, se sentiu superior.
Agora ela sabe como é. É bom para ela. Depois ele sentiu tristeza. Você vai ter que
ser legal com ela, não importa como ela o tratou. Apenas porque ela agiu como uma
puta não quer dizer que tenha que ser estúpido. O trabalho era tudo para ela.
Tudo isso se passou silenciosamente. Um momento depois ela se virou,
não o encarou diretamente, mas levantou-se sobre o cotovelo. — Eles vão me
dar um pacote de indenização. Muito bom, acho. Inclui um ano de pagamento.
Não é como se fôssemos parar na rua. Devemos ficar bem.
Então ela balançou as pernas sobre a borda da cama e se sentou.
Ela apertou os punhos e bateu nos joelhos. — Mas depois de tudo que fiz
por eles!
Michael sentou-se na cama perto dela, e a abraçou. Ela se encostou nele e
colocou a mão em sua perna. Depois de um minuto, ele deitou na cama, e ela se
encolheu e repousou a cabeça no ombro dele. Não chorou, mas ficou assim por
algum tempo. Enfim, ele achou que ela havia adormecido e tentou sair de de-
baixo dela, mas ela acordou.
— Você quer jantar? — Perguntou.
— Não. Quero apenas dormir. Apenas me deixe dormir.
Ele a cobriu e terminou de se trocar. Ele desceu e aqueceu seu jantar no
microondas. Então tomou uma vodca on the rocks, e esperou que ela levantas-
se. De certa forma, estava aliviado. De certa forma, sentia-se obrigado a omitir
o próprio desastre.
Ela dormiu, ou ao menos ficou na cama, toda a tarde. Michael foi para a
sala, abriu sua maleta e tirou o livro sobre plano de negócios. Sentou-se em sua
poltrona reclinável e começou a ler. Isto é, tentou ler, mas a maior parte do
tempo ele pensou, bebeu e ficou preocupado. Sua mente corria entre as possibi-
lidades e não chegava a lugar algum.

Lá pelas dez horas Tanny finalmente tinha colocado Jason na cama, ajuda-
do a mãe no banho, limpado a cozinha e a sala, e agora começava um tempo só
seu. Abriu o armário mais alto e tirou da prateleira de cima o maço de Marlboro
e fósforos.

128
Ela pegou o cinzeiro sob a pia, sentou-se à mesa e tirou um cigarro do
maço. Riscou um palito de fósforo. Ao deixar sair de sua boca a fumaça, com a
cabeça inclinada para trás, a própria fumaça subia em forma de novelo até o
teto desbotado, manchado e com fendas.
Era essa a única hora do dia em que fumava. Sentava-se à mesa, fumava, e
deixava a mente vagar livremente contendo preocupações, contrariedades e fan-
tasias. Noite após noite, ela se permitia tais pequenos pecados ao ficar só, senta-
da na diminuta cozinha. Depois ela lavava o cinzeiro, colocava tudo de volta no
lugar e ia para a cama.
Algumas vezes imaginava Michael lá, à mesa, fumando com ela, apesar
dele não fumar e apesar de ele provavelmente não gostar dessa idéia. Ela gostava
de imaginar os dois conversando e fumando e eventualmente indo juntos para
a cama. No momento, entretanto, na maior parte do tempo, ela só pensava em
como as coisas estavam indo mal. Se a empresa afundasse, e tinha quase certeza
de que isso ocorreria, o que ela poderia fazer? Não tinha idéia. A preocupação
acompanhou-a durante toda a noite.

Quase ao final do sonho, Michael estava vagando perdido em uma confu-


são de canos, num pesadelo de encanador. Ele tinha a sensação de estar na
Caverna, embora o lugar não parecesse com a Caverna. Ele estava tentando
fazer com que os canos funcionassem direito, virando uma válvula e então ou-
tra, mas tudo o que fazia só piorava o problema. Havia muitas pessoas em torno
dele no início, mas quando tentou conversar com elas, todas foram embora.
Então tudo ficou muito quieto, como se alguma coisa realmente horrível estivesse
para acontecer. Todas as pessoas tinham sumido de repente e, no sonho, ele estava
só. Ouviu um barulho. Quando olhou, um grande cano de aço pareceu começar
a respirar — alargando-se e contraindo-se, alargando-se e contraindo-se, como se
fosse estourar e destruir tudo. Michael acordou molhado de suor.
Ele foi ao banheiro. Ao voltar para a cama, viu que Regan não estava mais.
De súbito sentiu medo. De cuecas, desceu para o andar de baixo, mas não
conseguiu encontrá-la. E viu a porta da garagem aberta. E lá estava ela, sentada
em seu carro, no assento de trás, no escuro da garagem, uma porta aberta, a luz
interna acesa.
— Regan! O que você está fazendo?
Ele a assustou.
— Nada.
Para seu alívio, o carro não estava ligado, que foi o que primeiro passou
por sua mente. Ele foi até ela. O piso estava frio sob seus pés.
— O que você está fazendo aqui fora?
Ela estava com uma camisola de flanela e de chinelos. — Deixei minha
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maleta. — De fato, a sua maleta de couro, cor de vinho, estava próxima, sobre
o assento. — Queria pegá-la.
— São quatro horas da manhã. — Ele estendeu a mão para ela. — Vamos,
volte para a cama.
Ele a pegou pela mão e a conduziu como a uma criança confusa, uma mão
na dele e a outra agarrando a maleta. Ele teve que tirá-la dela e colocá-la sobre a
mesa da cozinha. Ele a colocou na cama e entrou sob as cobertas pelo outro lado.
Ela veio por cima dele, aninhou-se, pôs uma perna sobre a dele e a cabeça sobre
seu ombro, e ele brincou com o cabelo dela, acariciou a face e beijou-lhe a cabeça.
Em poucos minutos ele pôde senti-la relaxar. Finalmente tinha pegado no sono.
Michael, entretanto, estava acordado. Ficou assustado ao encontrá-la da-
quele jeito. Enquanto sua mulher ressonava suavemente em seu ombro, ele
respirava curto, olhava a escuridão e continuava com suas preocupações — com
a empresa; com ela; com dinheiro; havia uma montanha de problemas diferen-
tes; se devia ou não ter limpado as calhas; como encontrar um serviço de advo-
cacia mais barato; como tirar os pneus de neve do Porsche; se os outros iriam
sair e outras coisas com que pudesse se preocupar. Ele se preocupou até enxergar
o teto sobre eles, cinza e granulado. Justamente quando estava quase se conven-
cendo a levantar-se e tomar um banho, caiu num sono paradisíaco.

Michael acordou novamente às oito e trinta. Lembrava de com os dedos


ter procurado o rádio depois de este tê-lo acordado às quinze para as sete. Regan
tinha se virado e estava dormindo de bruços.
Ele chegou à Caverna alguns minutos antes das dez e sentindo-se
estranhamente leve, conformado, relaxado. Assim que pôs a mão na maçaneta
para entrar na Caverna, ficou curioso em saber se alguém tinha aparecido para
trabalhar.
Babe estava lá, sentada ao lado de sua mesa. Assim que o viu, levantou-se
e pôs as mãos nos quadris. — Como posso trabalhar com um balde na minha
frente?
Michael sentia a tentação de despedi-la no ato, mas ao invés disso disse: —
Deixe-me perguntar-lhe uma coisa: Você quer manter o seu emprego?
— Bem... hum?...
— Eu disse: Você quer manter o seu emprego?
— Bem... sim.
— Sente-se aqui. — Ele apontou para as cadeiras de visitantes. Babe sen-
tou-se com as mãos no colo e as pernas cruzadas. Ele sentou-se ao lado e incli-
nou-se, ficando ainda mais perto dela. — Veja, estamos sobre uma camada de
gelo fino, aqui na empresa. Você está na parte em que o gelo é mais fino ainda.
Eu preciso de todo meu tempo para imaginar um jeito de manter a empresa
130
aberta e funcionando. Se perder meu tempo em resolver o seu pequeno proble-
ma com o balde, não terei tanto tempo para resolver problemas mais importan-
tes, como vamos pagar você, por exemplo. Entendeu?
— Mas como posso trabalhar com um balde...
— Ache um jeito.
— Quero dizer: O que devo fazer? — Choramingou ela.
Michael suspirou. — Por que você não me diz? Como você pode resolver o
seu problema?
— Meu problema? Por que é meu problema?
— É sua mesa, não é?
— Mike, eu não sei o que fazer!
Michael tirou a carteira e puxou a borda de uma nota de um dólar, de
forma que ela pudesse ver. — Não me sobraram muitas dessas, mas vou apostar
um dólar, em dinheiro, que se você pensar a respeito, você pode resolver o
problema. Vamos apostar?
Ela pareceu ofendida e divertida ao mesmo tempo.
— Estou falando sério —, disse Michael. — Eu quero que você resolva
isso.
— Bem... Eu poderia pedir aos meninos para empurrar a mesa para mim.
— Ei! — Disse Michael. — Não está mal para um começo.
Ela estalou os dedos, querendo o dólar.
— Ah, não. — Michael balançou a cabeça. — Isso é um começo. Não é a
solução. Quero que você resolva todo o problema.
— O que mais posso fazer?
— Vamos, suponha que fosse meu problema. O que você acha que eu
faria?
Ela encolheu os ombros. — Chamar a manutenção?
— Grande! A questão é que já fizemos isso. Ninguém veio. O que mais
podemos fazer?
— Telefonar para o proprietário.
— E?
— Dizer-lhe que há um vazamento e que a manutenção não está fazendo
nada a respeito.
— E?
— Pedir que ele mande que venham.
— Excelente!
— Então devo telefonar-lhe?
— Sim, é o que eu estava querendo sugerir.
— Qual é o número do telefone deles? — Perguntou Babe?
— Ele mostrou os dentes e imitou um rosnado.
131
— Certo, certo, só estava brincando! Vou procurar.
Ele encontrou os outros — Tanny, Redmeat e Boner — no estúdio. Obvi-
amente estavam irritados por ele estar atrasado.
— Estávamos trocando idéias se você havia fugido para o México ou qual-
quer coisa assim —, disse Tanny.
— Eu não tenho dinheiro suficiente para comprar gasolina que dê para
chegar à fronteira. De qualquer forma, me desculpem, perdi a hora.
Redmeat foi direto ao ponto. — Então, o que vamos fazer?
— Eu vou tomar uma xícara de café —, disse Michael. — Depois vamos
conversar.
Eles sentaram ao redor da mesa da equipe, e Michael, com a caneca na
frente, recostou-se e disse: — Minha decisão pessoal é esta: eu fico. Por bem.
Esta pequena aventura pode não ser grande coisa. Podem existir problemas.
Pode não ser o negócio ideal. Mas é meu. E de vocês, se vocês quiserem ficar. Eu
não sei se a empresa vai sobreviver. Se falhar, começo outra. Se for à falência,
que seja. Digo a vocês, vou vender lápis na esquina das ruas Nove e Jackson
antes de voltar a trabalhar para tipos como Bill Barkes ou Lyle Beekstra ou Hal
Bromman ou como empregado para qualquer um. Porque com minha própria
empresa, eu ao menos sei o que está acontecendo. Eu ao menos tenho algum
controle. Posso tomar decisões que façam sentido. Realmente, não estou preo-
cupado em ficar rico. Só quero controle sobre minha vida e meu trabalho.
Vocês podem fazer o que quiserem, mas é assim que me sinto em relação a este
negócio.
Houve silêncio à mesa por três ou quatro segundos.
— Eu só quero dizer —, disse Tanny —, que não importa o que aconteça,
acho que fizemos o que era certo ao começar a empresa. Mesmo que afunde, era
a coisa certa a se tentar.
— É, mas tentar não é suficiente —, disse Redmeat. — Diabos, temos
que ganhar dinheiro!
— Acho que todos concordamos com isso —, disse Boner.
— Certo —, disse Redmeat —, digo que esperemos mais um mês ou dois,
ou o quanto pudermos, e então veremos como estamos indo e tomamos a
decisão. Se fecharmos agora...
— Então o que precisamos fazer —, disse Tanny —, é bolar um plano
para relançar a empresa.
— Ótimo —, disse Redmeat. — Por onde começamos?
— Parece-me que devemos começar pelo pior problema que temos, que é
dinheiro em caixa —, disse Michael. — Até conseguirmos dinheiro, não pode-
mos fazer planos. Não podemos fazer qualquer esforço sério de marketing. Não
podemos financiar projetos. Na verdade, não podemos fazer nada. A Industrial
132
Automation nos deve um bom dinheiro. Eles nos devem mais de noventa mil
dólares pelos dois vídeos que fizemos para eles.
— Não podemos simplesmente telefonar para eles e explicar a situação?
— Perguntou Tanny.
— Bem, já estou falando com eles em dias alternados há algumas semanas
—, respondeu Michael. — E é como falar com uma parede.
— O que eles dizem a você?
— Você sabe, aquela enrolação geral —, disse Michael. — Nunca consigo
falar com a mesma pessoa duas vezes. Eles dizem que só emitem cheques em
alguns dias do mês, mas ninguém sabe ou ninguém nos conta em que dias e
qual a nossa posição na lista. Não importa com quem fale, ouço essa lenga-
lenga de que não é mais política da empresa pagar em dez dias. Um dos mais
inocentes funcionários de lá me disse que pode levar até noventa dias. Oh, e há
aquela grande desculpa burocrática de todos os tempos: se fizermos uma exce-
ção para você, teremos que fazer para todo mundo, dizendo que apenas o
controller pode autorizar o pagamento de um cheque adiantado em relação ao
cronograma. Bem, telefonei para o controller, mas não consegui passar pela
secretária dele.
— O que é um controller? — Perguntou Redmeat.
— O contador-chefe —, disse Michael. — Não sei mais o que fazer.
Redmeat empostou a voz, sugerindo violência. — Vocês querem que eu vá
fazer pressão?
— Bem, é uma idéia —, disse Tanny.
— Não, não podemos fazer isso —, disse Michael. — Além de nos man-
darem pra cadeia, nunca mais conseguiríamos fazer negócios com eles.
— Que tal se os levarmos à justiça? — Perguntou Boner.
— Bem, o problema é que não faz tanto tempo assim. Faz só seis ou sete
semanas que mandamos a fatura. Pelos padrões atuais, eles estão dentro de um
tipo de período de graça. E se formos muito agressivos na cobrança, o controller
provavelmente telefonará ao nosso contato e dirá para não fazer mais negócios
conosco. E eles sabem que sabemos. É isso que me deixa louco.
— Acho que devemos falar com esse controller —, disse Tanny. — Qual é
o nome dele?
— Charles Willard. Mas, mesmo que consigamos, um simples pedido de
pagamento não vai funcionar. Precisamos de alguma coisa que quebre aquele
estado mental burocrático do ‘apenas diga não’.
— Que tal um leão-de-chácara de dois por quatro? — Sugeriu Redmeat.
— Não, desista dessa linha de pensamento.
— E se... — Tanny começou, e então parou.
— E se o quê?
133
— Bem, e se tirássemos alguma coisa da conta, tipo liquidação...
— Você quer dizer oferecer-lhes um desconto?
— É. Sabe, se eles pagarem agora ao invés de daqui a dois meses.
— Não é má idéia —, disse Michael. — De fato, é bastante comum ofe-
recer um desconto de dois por cento pelo pagamento em dez dias ou trinta dias
ou qualquer que seja o prazo. Mas duvido que dois por cento sejam uma isca
para eles.
— Talvez pudéssemos oferecer dez por cento —, disse Boner.
— Dez? Assim já é demais —, disse Tanny.
— Que tal cinco por cento? Deve ser suficiente para despertar interesse —,
disse Redmeat.
— Cada ponto percentual vale cerca de novecentos dólares —, disse Boner.
— Então cinco por cento seria equivalente a um desconto de quatro mil e
quinhentos.
— Eu ofereceria três ou quatro por cento no máximo —, disse Tanny.
— Eu poderia começar com quatro e então oferecer cinco se ele não topas-
se —, disse Michael.
— Ok —, disse Tanny, e os outros pareceram concordar.
— Mas há outro problema: eu não consegui falar com ele pelo telefone.
— Que tal mandar uma carta?
— Muito demorado e sem o impacto suficiente.
— Por que não vamos vê-lo? — Disse Redmeat.
— Se ele não conversa comigo ao telefone, não vai marcar uma reunião.
— Bem, ele não fica só dentro da sede da empresa. Ele tem que sair algu-
mas vezes. Você o reconheceria pessoalmente?
— Sim, ele estava no vídeo que fizemos. Lembro dele —, disse Michael.
— Então vamos um pouco antes da hora do almoço e esperamos fora do
edifício. Se ele for almoçar... nós o abordamos —, disse Redmeat.
— Ele vai ter que falar com a gente —, acrescentou Boner.
— Todos nós? — Perguntou Michael.
— Se formos todos, não haverá como não impressioná-lo. — Disse Tanny.

Aproximadamente às onze e quarenta e cinco eles estavam juntos, do ou-


tro lado da rua, em frente ao prédio da administração da Industrial Automation,
um ‘arranha-céu’ cinza-escuro na Terceira Avenida do centro de Bridgeford.
Michael estava procurando Charles Willard (“Chuckie”, como já o estavam
chamando) e recomendando aos outros como se comportar se ele aparecesse.
— Estilo jornalista —, Michael disse a eles —, Ok? Lembrem-se disso.
Vamos fazer como se fosse uma entrevista de rua, só que sem câmera. Nós
vamos até ele, não bloqueamos o seu caminho, não tocamos nele, só ficamos
em torno. Se ele se mover, nos movemos junto. Se parar, nós paramos também.
134
— Por quanto tempo? — Perguntou Boner.
— Até ele nos dizer a hora do dia.
— É ele? — Perguntou Tanny, apontando um homem que tinha acabado
de sair pela porta principal.
Michael semicerrou os olhos. — Não, não é ele.
Eles esperaram por meia hora.
— E se ele não sair para almoçar?
— Então vamos tentar alguma outra coisa —, disse Michael.
Logo depois Tanny apontou de novo, provavelmente pela vigésima vez.
Ela tinha a melhor visão de todos eles. — Será que...
— É ele! — Michael tocou-a no ombro. — Vamos!
Eles estavam usando todas as armas que tinham. Depois de alguma discus-
são, concordaram que Tanny seria a primeira a abordá-lo. Era provável que
Chuckie, eles supunham, se sentisse menos ameaçado se fosse abordado por
uma mulher.
— Desculpe-me, Sr. Willard?
— Sim?
— Estou tão contente em tê-lo encontrado! Temos algo muito importante
para dizer-lhe.
E então, bum, Michael e os outros estavam em torno dele. — Sr. Willard,
sou Michael DiGabriel, da DiGabriel Vídeo Produções, e esses são os meus
sócios.
— O que é isso? — Chuckie ficou a encarar um por um do grupo.
— Senhor, precisamos conversar sobre algo muito importante — Michael
estava tirando do paletó uma cópia da fatura. — Esta é nossa fatura e ela foi
enviada para a sua empresa há mais de oito semanas...
— Eu não sei o que está acontecendo —, disse Chuckie —, mas não
resolvo meus negócios na calçada. Agora, se me derem licença...
Willard começou a andar — e Michael e os outros foram andando também.
— Também não gostamos de resolver negócios assim, Sr. Willard, mas
estamos tentando contatá-lo já há diversas semanas e não conseguimos.
— Se quer conversar comigo, agende um encontro...
— Senhor, será que trinta segundos do seu tempo valem três mil e seiscen-
tos dólares?
Willard olhou para ele.
— Três mil, seiscentos e onze dólares, para ser preciso —, disse Michael.
— E trinta segundos é tudo o que peço.
Willard parou.
— Senhor, tenho certeza de que alguém em sua posição entende a impor-
tância do fluxo de caixa. Somos uma empresa pequena e precisamos muito
135
receber por nossos serviços, o mais rápido possível. Agora, o prazo de nossa
fatura é dez dias...
— Esses podem ser seus termos, mas não é nossa política...
— Eu entendo, Sr. Willard, mas esta é uma situação especial. Precisamos
de dinheiro imediatamente, e vamos oferecer um desconto especial — quatro
por cento de desconto ou duas vezes o habitual para pagamento à vista, sobre o
total da fatura se recebermos um cheque nas próximas vinte e quatro horas.
— Bem... Tenho certeza de que podemos incluí-los em nosso próximo
lote de emissão de cheques.
— Sr. Willard, nós temos famílias —, interrompeu Tanny, dizendo o seu
texto. — Tenho um filho de três anos de idade. É muito importante sermos
pagos agora.
— Com certeza um desconto de três mil e seiscentos dólares cobriria as
inconveniências de se emitir um cheque —, disse Michael —, isso cobre qual-
quer ganho que teria no mercado financeiro — não é?
Passaram dois ou três segundos.
— Certo —, disse Willard, dobrando a fatura e colocando-a no bolso. —
Quando voltar do almoço, vou dar uma olhada e ver o que posso fazer. É tudo
que posso prometer.
— Obrigado, muito obrigado. Posso telefonar-lhe esta tarde?
— Assim que soubermos de alguma coisa, peço à minha assistente que
faça um contato.
Willard distanciou-se, com um coro agradecido a segui-lo: — Obrigado,
Sr. Willard! — Apreciamos seu empenho! — Obrigado!
Ele virou a esquina.
— Miserável —, murmurou Tanny.
— E agora? — Perguntou Redmeat.
— Fizemos tudo o que podíamos —, disse Michael. — Agora temos que
esperar.

Eles foram ao Nick’s para almoçar.


— Se realmente recebermos o dinheiro —, disse Tanny —, qual será o
próximo passo?
— Depois de pagarmos todo mundo, você quer dizer? — Disse Michael.
— Incluindo nós mesmos, espero. — Disse Redmeat.
— Depois disso, obviamente, teremos que encontrar trabalho bem rápido
—, disse Michael. — Acho que vou simplesmente continuar telefonando para
as pessoas, continuar batendo nas portas. Alguém deve, eventualmente, nos
deixar entrar.
— Em outras palavras, o mesmo velho esquema —, disse Tanny.
136
— Você tem uma sugestão melhor?
— Michael, não quero criticá-lo...
— Mas?
— Tenho pensado se uma parte dos nossos problemas não se deve a... ao
fato de ainda administrarmos o negócio como se estivéssemos na Barkes &
Collwin.
— Não tenho certeza se entendi bem—, disse Michael.
— Ok, não estou falando só para chatear, mas quando ficamos por conta
própria, foi como se tivéssemos mudado a empresa para um pouco adiante no
mesmo quarteirão. Na verdade, não estamos fazendo nada diferente de há um
ano, quando trabalhávamos para a agência. Ou seja, fomos demitidos porque
os negócios não estavam satisfatórios. Bem, ainda não estão satisfatórios, e aqui
estamos sem nada para fazer.
— Não estou certo de que isso seja verdade —, argumentou Michael. —
Concordo que existem coisas que poderíamos estar fazendo melhor, mas acho,
principalmente, que só temos que trabalhar duro...
— Não, ah-ah, Mike —, disse Redmeat. — Acho que ela tocou num
ponto interessante, ela colocou o dedo na ferida. Desde o começo temos agi-
do como se o negócio estivesse apenas em recesso. Certo? Você ficou louco
com Beekstra por nos excluir, achando que era apenas uma questão de tempo
e esforço antes dos negócios voltarem e tudo ficar como costumava ser e po-
dermos simplesmente seguir em frente. Só que não é apenas uma recessão.
Isso vai além da quantidade de trabalho duro que poderíamos chegar a fazer.
É mais básico do que isso.
Surpreendido por essas posições bem pensadas, Michael mordeu seu san-
duíche de carne com queijo e considerou como devia responder. — Ok, eu
escutei. Mas pode haver muitas razões pelas quais os negócios estejam indo
devagar. Você sabe, os orçamentos... De qualquer forma, se nos comprometer-
mos com a empresa, acho que ela vai, dar uma virada. Não vai?
— Quer saber qual é o meu maior medo? — Perguntou Tanny. — Meu
maior medo é que Stoney e Spider estivessem certos ao pular fora. Me preocupa
que talvez o certo seja pegar o dinheiro e correr. Não colocá-lo na empresa, mas
embolsá-lo e fazer outra coisa.
É —, disse Redmeat. — E se nos comprometermos com a empresa, como
você diz, trabalharmos feito loucos, e não adiantar? Quero dizer, e se falhar
tudo, porque existe alguma coisa básica errada com a empresa, para começar?
— Ei, você vai continuar com a discussão sobre se devemos ficar com a
empresa? Pensei que já tínhamos acertado isso.
— Mike, você continua a pensar em termos de preto ou branco —, disse
Tanny —, tem que ser fora ou dentro, ligado ou desligado. Acho que todos
137
concordamos que queremos continuar com a sociedade, mas isso não significa
que devemos continuar fazendo as coisas do jeito que sempre fizemos.
— É —, disse Boner —, talvez precisemos fazer uma... ah, fazer uma...
como é que se chama?
— Reengenharia —, disse Tanny.
— É isso.
— Argh! — disse Michael, quase engasgando. — Não falem essa palavra,
reengenharia! — E falando alto agora. — Reengenharia é o que estão fazendo
na Três-E! É por isso que estamos na atual confusão. É por isso que esta cidade
está em recessão! É por isso que minha mulher e todo mundo perderam o
emprego!
— Uma ova que é —, disse uma voz — Era Bob Garvey, vindo do caixa.
— Como é? — disse Michael.
— Eles não estão fazendo reengenharia, estão apenas fazendo downsizing
—, disse Garvey. — Eles podem até chamar de reengenharia, mas não é o que
estão fazendo.
— O resultado é o mesmo —, retrucou Michael. — Não é?
Como se tivesse sido convidado, Garvey veio até a mesa. — O efeito pode
ser o mesmo — as pessoas perdem o emprego. Mas não se pode dizer que a
causa disso tenha sido necessariamente a reengenharia.
Michael recostou-se, pronto para ouvir de Garvey uma explanação proli-
xa, pois ele podia se tornar prolixo com muita facilidade.
— Veja, reengenharia é um processo perfeitamente válido e desejável. Você
sabe o que é?
— Sei, é uma palavra bonita para despedir um monte de gente para eco-
nomizar dinheiro. — respondeu Michael.
— Não, isso é redução de custos. Reengenharia é pegar uma folha de
papel em branco e perguntar a si mesmo como o negócio pode ser melhor
planejado — não levando em conta os hábitos e políticas atuais, as vacas sagra-
das e assim por diante.
— É —, disse Redmeat —, é isso que precisamos fazer.
Michael balançou a cabeça. — Não tenho tanta certeza. Por que temos
que reinventar o negócio?
— Porque —, disse Redmeat —, o negócio está afundando.
— Todos concordam que seu negócio está afundando —, disse Garvey. —
A questão é: Por quê? E o que podemos fazer a respeito? Garvey tirou uma caneta
Cross do bolso do paletó e pegou um guardanapo de papel. — Não sei se isso vai
ajudá-los a responder a essas questões ou não, mas me parece que a primeira coisa
que temos que fazer é, colocando em seus termos, ver o cenário todo.
— Um plano geral, disse Tanny.
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— Seja o que for —, disse Garvey. Abriu o guardanapo e traçou uma linha
horizontal ao longo da borda inferior. — Vamos dizer que essa linha seja o
tempo. — À esquerda, desenhou uma linha vertical. — E aqui temos o merca-
do, medido em dólares. — Do ponto de intersecção das duas linhas, Garvey
desenhou outra linha inclinada, começando à esquerda e subindo, gradualmen-
te no começo e depois abruptamente, até um platô largo mas irregular, depois
caindo gradualmente. Garvey apontou para a segunda linha com a ponta da
caneta. — Aqui temos os crescimentos e quedas do mercado.
— Que mercado? — perguntou Michael.
— Qualquer mercado. Seu mercado. O que você definir como seu mercado.
— O mercado de produções de vídeo em Bridgeford.
— Se for esse o seu mercado, ótimo. Embora você deva ser cuidadoso ao
definir qual é o seu mercado. — Garvey apontou para a extremidade esquerda
da linha do tempo. — De qualquer forma, há cem anos, ou há cinqüenta anos,
não havia mercado. Porque, na verdade, não havia câmeras de vídeo e nem
televisores. Certo?
— Certo.
— Não existia a tecnologia. Mas, então, num determinado ponto — quan-
do? Talvez trinta anos atrás? — alguém em Bridgeford pagou para que fosse
gravado algum tipo de vídeo, e o mercado começou. — Garvey apontou para o
ponto em que a linha do mercado começava a subir e seguiu a subida. — E ele
cresceu e se tornou maior. — Abruptamente Garvey redesenhou um pedaço da
linha para fazer uma variação. — Realmente, estou certo de que não foi um
crescimento suave. Se você realmente pesquisar o crescimento ano a ano, vai
encontrar degraus de crescimento muito rápido e platôs de muito pouco cresci-
mento, mas a tendência ao longo do tempo seria de crescimento.
— Como uma montanha —, disse Tanny.
— Certo, sim, deve parecer um pouco com um montanha. Até chegar ao
ponto máximo...
— Então a Três-E começou a cortar —, disse Michael.
— Então o mercado começou a encolher, ficar menor. — E algum dia —,
disse Garvey, apontando para a extremidade direita —, o mercado para produ-
ções de vídeo em Bridgeford acabará completamente, embora ninguém saiba
quando. Talvez isso vá acontecer daqui a dez anos. Talvez aconteça daqui a mil
anos. Não se sabe.
— A montanha está coberta de neblina —, disse Tanny.
— Ôoo! —, disse Redmeat. — Essa foi boa!
— Em todo caso, é verdade, você não pode prever exatamente o que vai
acontecer. Você só conhece a tendência atual, que agora, pelo que entendo, é de
baixa. Quanto ao futuro, o mercado pode cair como um penhasco. Ou ele pode
139
começar a crescer novamente. Ou ele pode estabilizar-se nesse nível de ativida-
de menor, e ficar assim por muito tempo.
— O que isso tem a ver com reengenharia? — Perguntou Michael.
— Nada —, disse Garvey. — Não diretamente. Mas para tomar qualquer
tipo de decisão estratégica sobre sua empresa, seja reengenharia ou qualquer
outra coisa, você precisa saber onde está nesse esquema e aonde quer chegar. Se
não for assim, você pode acabar fazendo coisas que levem a conseqüências mui-
to infelizes. Faz sentido?
Michael assentiu com a cabeça.
— Então você tem que saber onde está nessas montanhas do mercado.
Quanto da montanha você tem? Quem tem o resto dela? Se o mercado está
crescendo, quem virá para tomar uma parte dele? Se a montanha está diminuin-
do, quem sairá?
— Parece-me —, disse Tanny —, que nossa montanha está diminuindo.
Você está dizendo que devemos pular fora?
— Não, não estou dizendo isso, absolutamente —, disse Garvey. — Tal-
vez vocês devam, talvez não. O tamanho da montanha e a tendência de cresci-
mento não importam.
— Verdade?
— Você pode ganhar dinheiro e ser lucrativo não importa para onde o
mercado esteja indo. É tudo uma questão de como você monta ou remonta sua
empresa. De como você adapta o negócio às circunstâncias. Em um mercado
declinante, você precisa manter os custos cada vez menores. Em um mercado
em expansão é o contrário. Você precisa aumentar a capacidade — mais vende-
dores, mais escritórios, mais trabalhadores na produção, de forma a atender
mais clientes. Seus custos vão subir, porque aumentar a capacidade é normal-
mente muito caro, mas, se estiver fazendo isso do modo certo, seus resultados
estarão aumentando ainda mais rápido. E dessa forma estarão aumentando os
lucros a longo prazo.
— Algo muito importante é o quanto da montanha é sua. — Garvey
desenhou uma linha vertical na intersecção com a linha do tempo e a rotulou de
“hoje”. — Vamos dizer que essa linha meça o mercado total neste ano. Qual
tamanho você diria que tem o mercado de produções de vídeo em Bridgeford
neste ano?
— Não sei —, disse Michael.
— Esse é um número muito importante para se estimar. Apenas para
efeito ilustrativo, dê um chute razoável.
— Talvez três a quatro milhões de dólares —, disse Michael.
— Para sua informação —, disse Garvey —, é um mercado muito peque-
no, em termos relativos. Em relação ao mercado mundial, não é nem mesmo
140
uma montanha, é uma mera colina. O que está ok. Depende de quanto dele é
seu e de coisas como quais são os seus custos. Quero dizer, se você tiver todo ou
quase todo o mercado para si, terá um faturamento de quatro milhões.
— Poderíamos lidar com isso —, disse Redmeat.
— Se os custos estiverem de acordo. Se seus custos forem de cinco mi-
lhões, você terá um problema. Se seus custos forem de dois milhões ao ano...
— Estaríamos muito confortáveis.
— Então, quantos concorrentes você tem?
— Bem, há o Will Churik. Barney Tillman, é lógico, na Barkes & Collwin.
Há o Canal Sessenta e Seis. Há um monte de free lancers. E há o Dick Fritz. Ele
é um artista comercial que mudou para a fotografia, e nos últimos anos, come-
çou a produzir vídeos. E nós. Esses são os principais.
— E então quanto daqueles três milhões você vai conseguir este ano?
— Não sei —, disse Michael. Ele olhou em torno para ver quem estava
próximo e poderia ouvir. — Baseado no que fizemos até agora... talvez quatro-
centos mil dólares no ano todo.
— Então vocês têm de dez a doze por cento do mercado. Quem está com
o resto?
— Bem, a Barkes & Collwin, se eles têm a Três-E, e se a Três-E começar
a gastar novamente, eles terão um milhão, talvez um milhão e duzentos e
cinqüenta.
Tanny ficou de boca aberta. — É um bocado de dinheiro.
— Por que você acha que sugeri que iniciássemos esta pequena aventura?
— Perguntou Michael. — Dá para ganhar uma quantia decente.
— Certo —, disse Garvey —, eles têm um terço do mercado. E os outros?
— O Canal Sessenta e Seis talvez fature setecentos e cinqüenta mil, talvez
um milhão. O Churik talvez consiga, pelas minhas estimativas, meio milhão
por ano. Dick Fritz fica com duzentos e cinqüenta mil a meio milhão. O restan-
te fica com os free lancers.
— Pelo que estou entendendo, então —, disse Garvey —, você passou de
um sapo grande em um laguinho a um sapinho num laguinho que pode estar
secando.
— Estamos misturando metáforas.
Garvey piscou.
— Estávamos falando de montanhas e agora você está falando de sapos e
lagos —, disse Michael —, mas, sim, é uma afirmação justa.
— Bem... Tenho que voltar ao trabalho —, disse Garvey —, mas vou
deixar vocês com algumas estratégias básicas sobre as quais talvez vocês queiram
pensar um pouco.
— A primeira, e mais óbvia, é que vocês podem tentar ganhar participa-
ção à custa dos outros. Vocês podem conseguir uma parcela maior da colina,
141
tirando um ou mais dos outros de cima dela. Pelo que você falou, se conse-
guisse trinta por cento de participação, — cerca de três vezes o que têm agora
— estariam indo bem. A maneira de conseguir isso é imaginando o que é
mais importante para os seus clientes — as três ou cinco principais caracterís-
ticas — e, para usar o que está na moda, vocês fazem uma reengenharia na
empresa para oferecer esses valores de modo melhor, mais rápido e mais bara-
to do que O Canal Sessenta e Seis, ou Tillman, ou Fritz Dick ou qualquer que
seja o nome, jamais poderá fazer. É a estratégia ao estilo do futebol america-
no. Empurre-os para fora do campo. Sem dó nem piedade. É a estratégia
número um.
— A estratégia número dois é procurar maior faturamento no mesmo
negócio, mas fora do mercado local. Em outras palavras, se você não pode
tomar toda a colina em que está, tira um pedaço de todas as colinas ao redor.
Bridgeford é uma cidade de tamanho médio. Há um monte de cidades médias
ao nosso redor com negócios que valem seus telefonemas.
— Certo —, disse Michael. — Temos procurado fora de Bridgeford, mas
sem muito resultado. Um de nossos problemas é que quanto mais longe vamos,
maiores são os nossos custos de vendas e de serviços.
— Bem, vocês teriam que cobrar preços que cobrissem os custos e o fator
inconveniência. E para fazer isso vocês têm que ser excelentes, não há dúvida.
Lembre-se de que, se seguirem essa estratégia, vocês vão concorrer com mais
Fritz Dicks e Canais Sessenta e Seis em cada um dos mercados locais. Em todos
eles haverá pessoas que fazem o que vocês fazem. Então, vocês têm que entrar
fazendo coisas que o pessoal local não faça bem ou nem faça. Vocês não podem
chegar e dizer: ‘Somos tão bons quanto eles’; e esperar que resulte em alguma
coisa. Vocês devem chegar com alguma coisa altamente desejada pelo cliente e,
se possível, única.
— Como o quê? — Perguntou Redmeat.
— Esse é um problema que vocês têm que resolver —, disse Garvey. —
Estou apenas falando de estratégia, que é a parte mais fácil. A parte difícil é
chegar àquele valor único, que é onde entra a reengenharia, a criatividade e o
fator esforço.
— O que, de certa forma, me leva à estratégia número três. A outra coisa
que deve ser considerada é mudar para uma montanha totalmente nova. —
Garvey desenhou outra linha inclinada à esquerda, descendo e cruzando a pri-
meira linha inclinada que subia. — Veja, sempre há mais do que uma monta-
nha. Há cinqüenta anos não havia vídeos que pudessem ser gravados em
Bridgeford, mas havia... o quê?
— Filme. Dezesseis milímetros para gravações industriais. Trinta e cinco
para comerciais.
142
— Mas quando o vídeo decolou, o filme declinou. Alguém ainda grava
filmes?
— Pouco. O Churik ainda tem uma câmera Arriflex que ele ocasional-
mente ainda usa —, disse Michael —, mas não freqüentemente por aqui.
— Algum dia, embora esse dia possa estar distante, alguma outra coisa vai
substituir o vídeo. — Garvey traçou uma terceira linha inclinada, indo em
direção à direita da primeira, subindo, cruzando-a e chegando bem acima da
montanha original. — Alguma coisa como...?
— Multimídia —, disse Boner. — Multimídia baseada em computador.
— Ok, se essa é a próxima montanha e vocês podem vê-la subindo, então
talvez seja para lá que vocês devam estar se mudando. Especialmente porque
não pode haver garantias de que vocês não serão expulsos da colina em que
estão. Agora, é arriscado de qualquer jeito. Se vocês ficarem com produção de
vídeo...
— Teremos que enfrentar uma batalha montanha acima —, disse Boner.
— E se pularem para a próxima montanha, pode acabar nem sendo bem
uma montanha. Pode ser um formigueiro. Ou podem ser as próximas Monta-
nhas Rochosas. Não se sabe. E se chegarem lá primeiro, podem ter a chance de
dominar o terreno.
Garvey pôs a caneta de volta no bolso. — Essas são as estratégias a consi-
derar. Não estou dizendo qual é a melhor ou se alguma delas é certa para vocês.
Vocês podem chegar a uma estratégia melhor e, a propósito, essas três não são
excludentes. Elas se sobrepõem. Mas uma palavra de cautela: não tentem perse-
guir todas ao mesmo tempo. Escolham uma estratégia principal e a sigam. —
Ele se levantou. — Boa sorte a vocês. Piscou e saiu.

De volta à Caverna, Michael se dirigia na frente dos outros para a porta, mas
encontrou a entrada parcialmente bloqueada por uma escada. A parte inferior de
um homem de botas e macacão os saudava. Baldes e ferramentas cobriam o chão.
Babe estava atrás de sua mesa, agora em nova posição, e quando Michael entrou
ela sorriu maliciosamente e estendeu a mão, com a palma para cima.
Michael também sorriu. — Já está consertado?
— Não, estará.
— Bem, está perto. — Ele tirou a carteira. Quando colocou a nota de um
dólar na mão dela, acrescentou: — Bom trabalho.

Eles decidiram, como não tinham nada melhor a fazer, que continuariam
a conversar sobre a empresa, e então sentaram-se em volta da mesa.
— O que vocês acharam das três estratégias citadas por Bob Garvey? —
Perguntou Michael.
143
— Achei que a segunda, conseguir negócios em outras cidades, não faz
muito sentido —, disse Redmeat. — Não para nós. Não estamos conseguindo
trabalho suficiente nem aqui em Bridgeford, como vamos conseguir em outras
cidades onde ninguém nos conhece?
— Concordo —, disse Michael. — Que tal as outras duas?
— A terceira foi a que mais me chamou a atenção —, disse Redmeat. —
Vamos imaginar o que vai ser a próxima grande novidade e oferecê-la antes de
qualquer outro.
— É, ela me atraiu também —, disse Tanny.
— E a mim também —, disse Boner.
Michael estava de certa forma surpreso com isso, mas resolveu deixá-los
prosseguir um pouco. — Ok, então quais são as tendências?
— Em vídeo?
— Em qualquer coisa na qual, em tese, poderíamos ser competentes.
— Vídeo digital —, disse Boner. — Efeitos gerados por computador.
— É —, disse Tanny —, mas se não podemos comprar um sistema de
edição em uma polegada, certamente não podemos tocar nesse tipo de sistemas
também.
— Ok, mas vamos continuar —, disse Michael. — O que mais está acon-
tecendo?
— Toda a atividade de vídeo doméstico —, disse Redmeat. — Câmeras,
VCRs, antenas parabólicas, cabo.
— Certo.
— Jogos de computador —, disse Tanny.
— Ei, agora você está falando de verdade —, disse Boner. Ele era, como
todos sabiam, um aficionado por jogos de computador. — Isso seria realmente
demais, produzir jogos de computador.
O entusiasmo de Boner deu a Michael uma idéia. — É, vamos conversar
sobre isso por um momento. O que vocês gostariam de fazer? Quero dizer, se
tivéssemos escolha, qual seria o meio de ganhar a vida que vocês escolheriam?
— Como disse, eu gostaria de produzir jogos de computador —, disse
Boner. — Ou ao menos realizar os testes preliminares.
— E você, Tanny?
— Eu gostaria... — ela começou. Encontrou coragem. — Se você quer
saber minha primeira escolha, gostaria de ser uma artista de vídeo. Do tipo que
comecei a ser, quando morei em Nova York. Ou, além disso, gostaria de traba-
lhar como fotógrafa em filmes para cinema. Ou ao menos em filmes para a
televisão. Ou qualquer outra produção visual criativa que não seja propaganda
ou vídeos institucionais, embora, obviamente, prefira qualquer uma dessas op-
ções a ser garçonete, por exemplo.
144
— Ok. Red?
— Eu gostaria de ser engenheiro chefe de áudio em algum estúdio de
gravação supercolossal, de alta tecnologia. Ou gostaria de ser produtor de al-
gum dos melhores artistas de jazz.
— Uh-hum —, disse Michael. A resposta de Redmeat mostrou mais am-
bição do que Michael teria atribuído a ele. — Isso é interessante.
— Ou —, Redmeat continuou —, que diabos, já que estamos sonhando.
Gostaria de ser um milionário. Construir meu próprio estúdio, lançar minha
própria marca. É o que faria se tivesse dinheiro.
— E você, Mike? — Perguntou Tanny.
— Eu? Bem, estou cansado de blá, blá, blá. Cansado de vídeos institucionais.
Eu costumo pensar que gostaria de dirigir novamente — filmes ou televisão,
não a merda que fazemos. Mas não teria que ser isso. Acho que poderia ser qual-
quer tipo de programação criativa, alguma coisa visual, contanto que tivesse en-
tretenimento ou valor cultural. Sabe, não seria ótimo produzir alguma coisa que
vendesse por seus próprios méritos? Sabe, um programa que as pessoas quisessem
ver, ao invés de comerciais nos quais as pessoas nem prestam atenção.
— Talvez seja isso que devemos fazer —, disse Tanny. — Parece que todos
nós queremos fazer projetos criativos. Então, por que não podemos?
— Dinheiro —, disse Michael. — Estamos sempre voltando a isso. Preci-
samos de dinheiro para o desenvolvimento.
— E que tal a Internet? — Sugeriu Boner.
— O que tem ela?
— A Internet está indo cada vez mais para a área gráfica e de vídeo. Se você
está procurando por uma tendência, que tal?
Então Redmeat disse: — Que tal multimídia?
— Como CD-ROMs?
— Apresentações em multimídia —, disse Redmeat. — Esse tipo de coisa
estaria mais em nossa linha, e é a próxima onda do futuro, você sabe.
— Quem seriam os clientes? — Perguntou Michael.
— Não sei. A Três-E. Ou a I.A. O mesmo tipo de clientes que temos
agora. Sabe, podíamos fazer aquelas apresentações de vendas que rodam em
computadores portáteis. Acrescentando vídeo, gráficos, áudio, tudo.
— Em outras palavras —, disse Tanny —, uma apresentação institucional
com outro nome. Pensei que queríamos escapar desse tipo de coisa!
— Opa, espere —, disse Michael. — Talvez haja algumas possibilidades aí.
— Sabe —, disse Boner —, podemos comprar alguns computadores mui-
to bons por muito menos do que custaria instalar uma ilha de edição de uma
polegada.
— É, mas é isso mesmo que queremos fazer? — Perguntou Tanny.
145
— Não —, disse Michael —, mas talvez esse tipo de coisa seja a ponte à
qual gostaríamos de chegar. Entramos em multimídia com clientes corporativos
e, se formos bem-sucedidos, usamos o dinheiro que gerarmos para desenvolver
nosso próprio tipo de programação. Vídeo interativo, ou jogos, ou quem sabe
programações educacionais.
— Isso não seria tão mau —, disse Tanny.
— É —, disse Redmeat.
— Além disso —, disse Michael —, não posso pensar em ninguém em
Bridgeford que esteja fazendo multimídia no momento. Não ainda, pelo me-
nos. O Canal Sessenta e Seis com certeza não está. Will Churik não está. Se
você olhar em todos os estúdios de arte da cidade, mesmo Dick Fritz, nenhum
deles está com multimídia ainda.
— Então, por que não nós? — Perguntou Boner.
— Michael franziu as sobrancelhas. — O problema, como sempre, é tem-
po e dinheiro. Haverá uma curva de aprendizado — e não sabemos agora com
qual inclinação. Vamos ter que desenvolver um programa demonstrativo —
tanto para aprendermos como montar uma dessas apresentações, como para
mostrar aos clientes.
— Mike, se não fizermos algum movimento em qualquer direção —, disse
Tanny —, não sairemos do lugar.
Michael pensou por um momento, e então disse: — Você está certa, va-
mos ao menos dar uma olhada nisso. Boner... eu gostaria que você assumisse
isso. Quero que você aprenda tudo o que puder ser aprendido sobre multimídia
o mais rápido que puder.
— Certo.
— Imagine como podemos colocar um vídeo na tela de um computador,
e tudo o que precisamos, tecnicamente, para fazer acontecer. Enquanto isso...
Ele olhou para Redmeat. — Talvez você possa ajudá-lo.
— Certamente.
— E Tanny, que tal se eu e você nos concentrarmos nas vendas? Nós temos
que conseguir sem falta e rapidamente um grande projeto de vídeo que nos
permita atravessar o verão. Sua ajuda seria útil.
— Sem dúvida, vou ajudar —, disse ela —, mas o previno, não entendo
muito de vendas.
— Ensino você à medida que as fizermos —, disse Michael. — E gostaria
que todos nós empregássemos algum tempo todos os dias das próximas sema-
nas montando um plano de negócios. Talvez nos sentemos todas as manhãs por
cerca de uma hora, ou talvez no final das tardes. Gostaria que tivéssemos um
plano com a concordância de todos. Nada rebuscado, nada muito elaborado,
mas um plano para nós mesmos que delineie para onde queremos ir e como
vamos chegar lá. Ok? Vamos montá-lo.
146
A porta do estúdio abriu e Babe apareceu. — Desculpe-me, Mike. A se-
cretária de um senhor chamado Willard está ao telefone. Ela disse alguma coisa
sobre um cheque que estaria pronto.

Todos os quatro foram pegar o cheque. Era certamente um desperdício de


mão-de-obra, embora Michael não os teria impedido por nada.
Quando chegaram ao décimo oitavo andar do prédio da I. A. e se aproxima-
ram da recepcionista, Michael à frente, havia de fato um envelope branco número
dez marcado com tinta azul: “DiGabriel & Associados — em mãos”. Dentro do
envelope tinha um cheque no valor de oitenta e seis mil, seiscentos e sessenta e um
dólares e oitenta e quatro centavos, assinado pelo próprio Charles Willard.
No elevador, Michael deixou-os passar o cheque de um ao outro, para que
cada um deles pudesse ver, para que cada um deles pudesse tocar. Eles passaram
os dedos sobre os números em alto-relevo.
— Espero que seja o primeiro de muitos como este, ou ainda maiores. —
Disse Michael. — Agora vamos depositá-lo no banco.
Foi idéia de Tanny tirar uma cópia colorida do cheque. Eles pararam em
seguida em uma grande loja de artigos gerais e compraram uma moldura de três
dólares para colocar a cópia do cheque. Então foram ao Bridgeford National
Bank e fizeram o depósito. Com um suspiro de alívio, um suspiro coletivo, eles
se afastaram do caixa do banco.
— Acho que devemos celebrar —, disse Tanny.
— Bem, tenho que telefonar para o Krebs e todos os outros para avisá-los
de que os cheques estarão no correio amanhã —, disse Michael. — Mas vocês
três podem me esperar no bar do Nick, que irei encontrá-los assim que terminar
as ligações.
— Para mim está bom —, disse Redmeat.
— Mike, vou com você —, disse Tanny. — Posso preencher o cheque para
o Krebs enquanto você telefona para ele.
Então se dividiram, Redmeat e Boner indo para o bar enquanto Michael e
Tanny voltavam para a Caverna.

A porta da Caverna estava fechada. Michael pegou sua chave e abriu para
que entrassem. Babe havia ido embora.
— Dane-se ela! — Disse Michael. Justo quando pensei que estava conse-
guindo fazer com que entendesse. — Ele se virou para Tanny. — Vou ter que
despedi-la. Detesto fazer isso, mas... — Louco de raiva, ele balançou a cabeça.
— O que você acha?
Tanny não respondeu. Michael estudou a expressão de seu rosto, que esta-
va em algum ponto entre expectativa e travessura.
147
— Qual o problema?
— Nada.
— Bem, é melhor telefonar ao Krebs.
— Só um minuto... — Ela apertou o botão na maçaneta, trancando a
porta.
— O que você está fazendo?
Ela se aproximou dele, escorregou as mãos por dentro de seu paletó e
deixou-as suavemente em sua cintura, inclinando a cabeça para cima. — Você
quer saber o que acho? Acho você fabuloso.
— É? — Murmurou ele.
— Uh-hum.
— Acho que o amo —, disse ela, com as mãos se movendo pelo corpo
dele. — Acho que gostaria de ter você dentro de mim, apenas mais uma vez.
— A seguir eles ficaram se beijando desesperadamente. Lábios, língua, em
todos os lugares — na boca, bochechas, pescoço, testa, sobrancelhas, orelhas —
e as mãos de um explorando de forma selvagem o corpo do outro. Quando
terminaram as preliminares, apenas se abraçaram e se apertaram um contra o
outro.
— Onde? — Perguntou Michael.
Ela pegou a mão dele, puxando-o pelo corredor. — Vem...
Ela o puxou para dentro da sala de controle e fechou a porta. Sem maiores
explicações, abriu o fecho da cinta dele. Cada um despiu o outro, abrindo fivelas,
desabotoando, desatando as roupas do outro — como se estivessem competindo
para deixar o outro nu. Quando estavam nus, com satisfação, pressionaram seus
corpos novamente, beijaram-se outra vez, agora mais lentamente.
Tanny começou a beijá-lo, formando um caminho pela frente do corpo
dele e parando apenas quando estava de joelhos. Ela pegou o membro dele na
boca, e Michael ficou com os pés ligeiramente abertos, acariciando os cabelos
dela, olhando para ela e para o que fazia. Observando-a, sentindo o que estava
sentindo, cada suspiro era como um gole de licor.
Ela ficou nisso por cerca de um minuto, mas em ambos havia um sentido
de imediatismo, da necessidade de se mover rapidamente e seguir em frente,
para não perder a oportunidade. Então ela se levantou e o puxou, desta vez não
pela mão, para o sofá de clientes. Ela se deitou, com um pé no carpete e outro
suspenso, bem acima do encosto do sofá.
— Eu tinha a fantasia de fazermos isso aqui, neste lugar —, sussurrou ela.
Ele se ajoelhou entre as pernas dela e posicionou-se cuidadosamente so-
bre ela.
— Eu o amo, Michael —, sussurrou ela ainda mais baixo no ouvido dele.
Ele apenas a beijou. A seguir, com um movimento, penetrou-a.
148
Dirigindo para casa, começou a sentir-se culpado. Quando entrou na co-
zinha a casa estava quieta. Ele passou cinco minutos lá parado, sem decidir
nada, apenas em pé no meio da cozinha, como se uma força invisível o estivesse
impedindo de subir para o quarto, onde suspeitava que sua esposa estivesse.
Finalmente ele a ouviu.
— Michael? É você?
— É, sou eu.
Nada mais. Ela só queria saber. Ele se serviu de vodca. Já tinha tomado
uma depois de tudo, no Nick’s. Mas agora ele realmente queria, quase conscien-
temente, amortecer aquela estranha mistura de emoções, culpa, desejo sexual e
prazer. Com o copo na mão, subiu.
A televisão estava na Oprah, a única fonte de luz no quarto. Regan esta-
va na cama, assistindo. Ela quase não olhava para ele. Com poucas exceções,
era aí que ele iria encontrá-la ao voltar para casa, todos os dias durante todo o
mês ou quase.

149
Verão

Michael tomava café na cozinha numa manhã de junho quando Regan


apareceu, surpreendendo-o. Eram sete horas. Pelo que podia lembrar, nesses
últimos dias ela raramente tinha se levantado antes do final da manhã. O ciclo
de sono dela se tornou irregular. Ela ia dormir tarde, dava uma cochilada duran-
te a tarde e ficava acordada durante a noite. Na noite anterior ele acordou apro-
ximadamente às três e meia porque ela estava assistindo televisão. Reconheceu o
filme — Ali MacGraw e Ryan O’Neal em Love Story — ele se virou na cama
com um gemido e voltou a dormir.
— Bom dia —, disse ele.
— Ôi.
O rosto dela estava abatido e o cabelo despenteado. Estava nua da cintura
para baixo, usando apenas uma camiseta que tinha encolhido na secadora. En-
tretanto, com terrível tristeza, ele percebeu que não sentia atração por ela. As
pernas nuas e o punhado de pêlos cor de palha suja completamente à vista —
uma visão que, há dois anos, o teria excitado instantaneamente — desta vez,
não lhe causaram qualquer excitação.
Ela foi até o armário, pegou o pacote de tostitos, já pela metade, e come-
çou a comer. A simples observsção causou enjoo nele..
— Como você consegue comer isso a esta hora?
— Estou com fome.
Ela já estava engordando, ele constatou. Com medo de dizer qualquer
coisa, virou as costas para ela e acabou o café.
Quase ao sair, teve uma idéia. — Você tem algum plano para hoje?
— Por quê? — Ela perguntou entre duas mordidas no biscoito.
— Estava pensando se você poderia me fazer um favor.
— Tenho que trabalhar em meu currículo.
Isso era o que ela dizia fazer há mais de uma semana. Michael abriu sua
maleta e jogou sobre a mesa uma pasta fina com uma dúzia de folhas brancas de
papel.
150
— Estava pensando que você poderia ler isso e fazer alguns comentários.
— E o que é isso?
— É o nosso plano de negócios. — Ele fechou a maleta, e se dirigiu para
a porta da garagem. — Leia, se tiver oportunidade. Se não estiver ocupada
demais.

Na cidade, na parede externa da Caverna, próximo da entrada, havia uma


nova marca: ARCHANGEL PRODUÇÕES.
Depois de muita discussão e diversas argumentações, eles mudaram o nome
da empresa. Elaboraram uma longa lista de possíveis nomes antes de se decidi-
rem por esse. Consideraram várias combinações de seus próprios nomes, mas
ficava muito esquisito. Finalmente, reduziram a lista de possibilidades para
Bridgeford Vídeo Produções (muito restritivo, geograficamente); Visual Produ-
ções (muito insípido); VideoCave (muito exótico) e Archangel Produções.
Archangel era fácil de memorizar, até certo ponto dramático, o que era bom
para o tipo de negócio e ainda fazia referência e prestava um tributo a Michael,
embora indicasse não ser ele a empresa. Os sócios ficaram razoavelmente satis-
feitos. Michael, embora racionalmente soubesse que chegou a um bom termo,
ficou deprimido quando viu o novo nome no lugar.
Babe estava em sua mesa quando Michael chegou à caverna. Ele não a
demitiu, embora tenha chegado perto. Ela alegou ter levado uma carta ao cor-
reio na tarde em questão, tendo depois tomado o ônibus para casa.
— De agora em diante —, Michael disse a ela —, as idas ao correio não
são mais obrigação sua. De agora em diante, se você sair daqui sem a minha
permissão ou de algum dos sócios, será demitida. Você é paga para permanecer
nas dependências da empresa por sete horas e meia, e esperamos que fique aqui
todo esse tempo.
Babe aceitou, com mau humor. Durante os dias seguintes ficou fria com
todos, entretanto, permaneceu em seu posto. Uma tarde, quando Michael esta-
va fora em uma visita de vendas, ele deliberadamente telefonou para a Caverna
às quatro e cinqüenta e nove. Babe atendeu o telefone.
Ele começou a pensar nela, algo que nunca tinha feito desde que a contra-
tara. Sempre tinha havido tantas outras coisas com que se preocupar. Então,
entretanto, chegava a ponto em que ele sentia que tinha que transformá-la em
boa funcionária ou despedi-la. Eles não podiam sustentar o luxo de uma recep-
cionista ao estilo antigo. Até certo ponto, ele gostaria de ter sido mais firme
consigo próprio e de tê-la simplesmente demitido. Claro, ele teve problemas
em fazer isso, e então comprou um livro sobre empowerment, e levou-o para
casa para ler à noite.
Nos últimos dias ele tinha feito um esforço consciente para prestar um
151
pouco de atenção a ela. Tinha dito a ela, tantas vezes por dia quanto fosse
possível fazê-lo com sinceridade, as coisas que tinha feito bem. Ele não fazia
escândalo, nada excessivo, mas, sempre que possível, Michael usava a palavra
“bom” ligando-a a qualquer coisa que Babe tinha feito direito.
— Bom! Vejo que chegou no horário.
— Você cometeu dois erros nesta carta, mas o restante está bom.
— Foi bom o tom de voz que ouvi quando você atendeu ao telefone.
— Você voltou do almoço no horário. Bom.
— Não encontrei nenhum erro naquela carta. Muito bem!
Naquele dia, enquanto dirigia para a cidade, decidiu que iria tentar levar o
processo um passo adiante. Ao chegar à porta, parou em frente à mesa de Babe.
— Como vai? — Perguntou Michael.
— Ok.
— Bom —, disse ele. — Ouça, ah, estou querendo conversar com você. —
Puxou uma cadeira para perto da mesa dela e se sentou. Podia-se ver que ela ficou
tensa. — Não é nada tremendamente importante, é só que já estamos trabalhan-
do juntos há vários anos, e eu ainda acho que não a conheça muito bem.
Babe cruzou os braços.
— Sabe —, continuou ele —, tivemos um desentendimento bastante sé-
rio há algumas semanas, e pensei simplesmente que, se nos conhecêssemos me-
lhor, e talvez se nos comunicássemos um pouco melhor, bem, poderíamos ter
menos desentendimentos no futuro.
Ela expressou um leve assentimento. — O que você quer saber?
— Bem, como foi que você decidiu ser recepcionista?
— Eu só... Não sei.
— É uma ocupação que você sempre quis?
— Ah..., caia na real!
— Bem, você queria ser recepcionista?
Ela se ajeitou na cadeira giratória por um momento antes de responder. —
Eu queria ser modelo. Quando estava no colegial.
— Uh-hum. Você chegou a tentar?
— É, mas... sou muito gorda.
A afirmação o surpreendeu. — Babe... Gwen, se há alguém neste país que
não é gordo demais...
— Não estou querendo dizer que seja gorda, mas... comparada às modelos
profissionais... De qualquer forma, é muito difícil encontrar trabalho como
modelo por aqui.
— É. Posso entender isso —, disse ele. — Está difícil até conseguir traba-
lhos de produção em vídeo nesta cidade.
— Posso lhe perguntar uma coisa?
152
— É claro.
— Como é que a gente está indo? — Perguntou ela. — Quero dizer a
empresa e tudo o mais.
Ele ficou muito contente por ela ter perguntado, por demonstrar algum
tipo de interesse pela empresa, embora mais tarde, ao pensar a respeito, tenha
achado a pergunta dela simplesmente natural.
— Estamos indo bem no momento. Nossas contas estão pagas. Não cor-
remos o risco de fechar as portas na semana que vem, embora realmente preci-
semos conseguir alguns bons projetos. Mas isso me leva ao próximo assunto
que gostaria de discutir com você. Foi você que digitou o plano de negócios. O
que achou dele?
— Eu? O que eu achei? — A face dela tornou-se inexpressiva. — Na
verdade nem o li. Apenas digitei.
— Por que não imprime uma cópia do plano, para você? Não leve para
casa ou qualquer outro lugar, pois a informação é confidencial. Mas leia-o aqui
e pense a respeito. Pense como seu trabalho poderia se adaptar melhor com o
que vamos fazer.
— Eu não consigo acompanhar...
— Tente pensar em como poderíamos transformar o seu trabalho de uma
despesa em uma forma de ganhar dinheiro.
Isso claramente era um novo território mental para ela.
— Vamos nos reunir com freqüência para discutir o plano e os negócios.
Gostaria que você participasse dessas reuniões. Ok?
— Se você quiser... Quero dizer, pensei que você quisesse que eu atendesse
o telefone e ficasse na recepção.
— Eu quero. Vamos ter que nos adaptar para que ainda possa fazer isso.
Mas gostaria que você participasse para que tenha uma idéia do que é este
negócio.
— Certo —, disse ela, como se fosse: Para mim tanto faz.
— Bom —, disse ele. — Vou me lembrar do que você disse sobre seu
desejo de ser modelo.
— Por quê?
— Bem, nunca se sabe. Talvez algum dia precisemos de uma modelo.

Michael foi para o fundo da Caverna e encontrou Hoona no cubículo que


eles montaram para ele em um canto da sala de apoio, uma área de depósito que
limparam. Há algumas semanas, depois de terem recebido o cheque da I.A.,
Michael foi ao Nick’s no final da tarde, encontrou Hoona em seu canto habi-
tual e com um floreio colocou o cheque do pagamento de Hoona sobre o bar,
dizendo: — Ta-ram!
153
— Bem, disse Hoona, finalmente!
Enquanto Hoona dobrava o cheque e o colocava no bolso da camisa,
Michael sinalizou a Lou para que lhe servisse uma cerveja. Então perguntou a
Hoona: — Como se sentiria se recebesse um cheque da gente em base regular?
— O que aconteceu? Você conseguiu a conta da Três-E?
— Não, ainda não. Entretanto, ia convidá-lo para se juntar a mim e aos
outros na Caverna como sócio.
Hoona riu. — O quê? Acha que fiquei louco?
— Talvez.
— Ok, isso tem sido levantado em diversas ocasiões. Então, o que poderia
me convencer a me juntar ao seu bando de piratas?
— Trabalho constante e a chance de ganhar um bom dinheiro.
Hoona esticou o lábio inferior e acenou com a cabeça. — Mas você tem
trabalho estável para oferecer? Vocês não têm sido exatamente bem-sucedidos
ultimamente.
— Não, não temos, e em parte é por isso que estou fazendo o convite.
Inicialmente gostaria que você nos ajudasse com o marketing — um folheto,
press releases, talvez desenvolver algumas idéias para a promoção de vendas, fazer
algumas visitas de vendas, esse tipo de coisa. Não está livre de risco, mas deve-
mos saber em alguns meses se o negócio vai decolar ou não.
Hoona balançou a cabeça. — Não sei, Mike. Estou começando a arrumar
algum trabalho estável com o Churik.
— É, mas ele nunca vai pagar para você tanto quanto nós.
— Mas menos ele me paga!
Essa foi um pouco dura, e Hoona sabia que se expressou mal.
— Desculpe. Mike, gostei do convite, e por um lado é tentador. Para falar
a verdade, estou um pouco cansado de trabalhar sozinho. Por outro lado, se
vocês afundarem depois de alguns meses, tenho que começar tudo de novo. O
Churik pode pagar pouco, mas...
— Ele está ferrando você.
— Se eu fechar a porta para ele, pode ser que ele não me deixe abri-la uma
segunda vez.
— É, mas se você se juntar a nós e o negócio der certo...
Hoona levantou o copo. — Sem dúvida que preferiria trabalhar com vocês,
mas... não sei.
— Deixe-me dizer uma coisa. Estamos montando um plano de negócios
exatamente agora. Guarde isso para você, mas não vamos mais ficar apenas em
produção de vídeo. Vamos caminhar em novas direções. Agora, não posso ga-
rantir que teremos sucesso, mas posso garantir, honestamente, que estou bas-
tante otimista sobre nosso futuro. Acho você um cara muito criativo, talentoso,
154
e acredito que teríamos melhor chance de conseguir se você estivesse conosco
em tempo integral.
Hoona não se convenceu completamente com isso.
— Ok —, disse Michael. — Não posso negar que também gostaria de
afastá-lo da concorrência. Olhe, vou fazer uma oferta única. Por princípio, acho
que todos na firma deveriam arriscar uma parcela do próprio capital. Para os
outros entrarem, colocaram cinco mil. Mas se você se juntar a nós agora, pode
entrar apenas com o trabalho, contanto que fique conosco pelo menos por seis
meses. Terá uma parte do negócio e, se chegarmos lá, o negócio poderá valer
bastante.
— É, mas você me conhece, Mikey. Eu sou um filho da mãe independente.
— Contanto que o trabalho seja feito, não me importo com seus hábitos
pessoais —, disse Michael.
— Tenho que pensar —, disse Hoona.
— Ótimo. Enquanto estiver pensando —, disse Michael —, considere o
fato de que, se chegarmos a desenvolver programação para entretenimento —
quem sabe, talvez até um filme de ficção — você estaria na posição de ser o
principal redator.
Hoona coçou o queixo, olhou para o bar e chamou: — Lou, traga mais
duas aqui para nós.

Havia mais alguns passos a percorrer. Redmeat e Boner, particularmente,


fizeram muito barulho quanto a deixar Hoona entrar sem a contribuição inicial
para o capital da firma que os outros tiveram que fazer. Ainda assim Michael
permaneceu firme e eles cederam. Uma semana depois da primeira discussão,
Hoona era um novo sócio. Ele entrou dizendo: — Nunca fui muito esperto em
negócios. Contem comigo.
Hoona trouxe seu computador pessoal para a cidade, e geralmente era o
primeiro a chegar pela manhã. Ele gostava de chegar cedo, por volta das seis
horas, fazer a maior parte de seu trabalho do dia, almoçar entre meio-dia e meia
e uma hora, voltar, terminar tudo, e sair aproximadamente às três, para poder
tomas algumas cervejas no Nick’s e então pegar o ônibus para casa.
Michael conversou com ele alguns minutos. Hoona estava trabalhando
num folheto e tentando conseguir alguma publicidade para eles. Estabeleceu-se
que se não houvesse scripts para serem produzidos, a tarefa de Hoona seria o
marketing. Enquanto estavam conversando, Tanny Zoelle entrou.
— Oi. Ei, Mike, posso falar com você por um minuto?
Eles foram para a sala dele. Ela fechou a porta ao entrar, foi direto para ele
e o beijou na boca.
— Senti sua falta ontem —, sussurrou ela.
155
— É, também senti a sua —, disse ele, com um traço de impaciência. —
Você pode, por favor, abrir a porta?
O caso deles estava indo, por assim dizer, a todo vapor. Tanny começou a
tomar a pílula, o que de certa forma deu um tom oficial para a intimidade entre
eles. Ela também se tornou bastante desinibida, beliscando a bunda dele ao se
cruzarem no corredor; tocando-o com os pés durante as reuniões; e beijando-o,
ou procurando fazê-lo, sempre que tinham cinco segundos a sós. Ela era especi-
almente fogosa durante a manhã, o que tanto agradava quanto perturbava
Michael. Ele apreciava o afeto dela e tendia a ser uma pessoa matutina em tal
matéria, mas o segredo ainda não tinha vazado, pelo que ele sabia, e queria
manter assim.
— O que você estava fazendo ontem? — Perguntou ele.
— Fui a White Falls, visitar uma empresa chamada Exerific, que produz
aparelhos para exercícios físicos. Bicicletas ergométricas, simuladores de escada,
esteiras rolantes, e diversos instrumentos de tortura desse tipo.
— E como foi?
— Me reuni com uma mulher chamada Mindy Markovic, responsável
pelas comunicações mercadológicas. Mostrei nosso vídeo de demonstração e
tudo o mais.
— E foi bem?
— Não sei. Acho que ela não ficou muito impressionada.
— Qual o tamanho da empresa?
— Humm, deixe-me pensar. Havia dois prédios. Um de escritórios e o
outro para a produção das bicicletas ergométricas. O prédio da fábrica talvez
tenha a metade do tamanho do prédio K da Três-E. E o escritório...
Ele percebeu que ela estava dando uma descrição visual. — Não, eu me
refiro ao faturamento.
— Oh. Não sei. Não perguntei isso a ela.
Como se desfalecesse, Michael deixou a cabeça cair em direção ao peito.
— Tanny!
— Bem, esqueci! Quero dizer, simplesmente não me ocorreu perguntar!
— Você tem que descobrir essas coisas —, disse ele, fingindo impaciência.
— Eu disse, não sou boa em vendas! De qualquer forma, pensei que você
fosse me dar umas aulas.
— Sei, sei. É que estive ocupado com o plano de negócios.
— O plano agora já está terminado, não?
— Certo, vamos lá. Vou lhe dar uma aula rapidinho.
Ela se inclinou para a frente e sussurrou: — Devo fechar a porta novamente?
— Uma aula rapidinha de vendas —, respondeu ele, também sussurrando.
— Você não precisa de aula sobre o outro assunto.
156
Ele se sentou novamente e pensou por um minuto.
— Deixe-me fazer uma pergunta: O que você acha que é a coisa mais
importante a se ter em mente sobre vendas?
— Não sei —, disse ela. Então chutou: — Nunca volte atrás no preço.
Ele balançou a cabeça. — A coisa mais importante, na minha experiência,
é se saber de antemão, e ter em mente, o que se pretende conseguir em cada
contato com o cliente. Antes de se encontrar com um cliente em potencial,
você deve estabelecer, e manter na mente, como gostaria que o encontro termi-
nasse.
— Vou explicar —, disse Michael. — A venda é um processo. Você come-
ça no ponto A, segue para o ponto B, continua no ponto C, e termina no ponto
D. Começa sem nada e sem conhecer a pessoa, o cliente. Segue o processo e
então finaliza, se tiver feito tudo certo, com um relacionamento mutuamente
satisfatório, lucrativo.
— Como se fosse um relacionamento amoroso?
— Bem... é. Acho que existem paralelos —, concedeu ele. — Agora, pode-
se dividir o processo de venda em tantas etapas quantas se quiser, mas acho que
a vendas tem quatro fases ou quatro passos básicos. Qual você acha que é o
primeiro?
— Pegar o telefone e contatar o cliente.
— Não, você tem que primeiro saber a quem contatar, certo? Então, o
primeiro passo é encontrar essa pessoa.
— É, é isso. Os quatro ‘Es’! Sabe: encontrá-los, examiná-los...
— Certo, certo. — Ele estava tentando manter o rosto sério (sem conse-
guir totalmente). — Na verdade você chegou bem perto. Exceto pelo último E.
Você não pode esquecê-los.
Tanny armou um sorriso, fez cara de falsa inocência e disse: — Ah, mas no
fim devo enrabá-los, não?
— Não! — Disse ele. — Vamos, leve a sério.
Ela levantou as sobrancelhas. — Estou pronta.
— É... De qualquer forma, primeiro temos que encontrá-los. É aqui que
entra a pesquisa de mercado, a propaganda, e tudo o mais. Para continuar com
sua analogia, equivale a vestir-se bem e ir ao baile, a um singles bar ou outro
lugar qualquer em que tenha chances de encontrar a pessoa que está procuran-
do. Acabamos de passar essa fase. Temos nossa lista de clientes em potencial,
conhecemos as pessoas com as quais queremos falar. Então estamos no baile.
Agora estamos prontos para a fase dois.
— Examinamos, sentimos —, disse Tanny.
— Não sentimos fisicamente, mas procuramos sentir através de perguntas
sutis. Você tem que examinar o cliente intelectual e emocionalmente. O que é
157
importante para ele? O que ele está realmente procurando? Isso é suficiente para
manter o nosso interesse? Eles estão imaginando se podem confiar em nós e se
somos realmente a melhor escolha.
— É como se fosse a fase em que se faz a corte.
— Certo. É o cinema o jantar e longas conversas ao luar — se der certo,
haverá um novo encontro no sábado seguinte à noite. Em alguns negócios, a
fase da corte é muito rápida. Algo como: “posso lhe pagar um drinque, queri-
da?” Em nosso negócio, isso não funciona muito bem. Mas em outros, a venda
é um caso de uma noite só — algumas vezes está tudo bem, porque é só isso que
ambos desejam. Em nosso negócio, como na maioria dos negócios que envol-
vem a venda de empresa para empresa, a corte é relativamente longa. Pode levar
de alguns meses a alguns anos até que alguma coisa aconteça.
— Verdade?
— Oh, sim, acredite. Você vai descobrir como um homem se sente. Por-
que, embora queira que as coisas se decidam, não pode apressá-las. Se pressio-
nar demais, estraga tudo. Quero dizer, estamos cortejando os bons, e temos
intenções sérias. Não estamos atrás de aventuras. Agora, muito de vez em quan-
do, você pode ter sorte, entrar na primeira reunião e ouvir: — Queremos fazer
um vídeo. — Mas não é muito comum. Assim, temos que ser pacientes, mos-
trar-lhes que somos quem estão procurando, fazê-los se sentir confortáveis e,
quando estiverem prontos...
— Faça-os subir pelas paredes.
— É, o terceiro E. Vou amenizá-lo, chamando-o de “enlace”. É aí que está
a verdadeira sedução, a consumação, o sexo da venda. Você pergunta. Você
fecha a venda, como se diz, e entrega as mercadorias como prometido. Se tiver
feito tudo direito, você estará satisfeito, eles estarão satisfeitos...
— E tudo termina em sorrisos repletos de prazer, enquanto se fuma um
cigarro.
— Ou algo assim. O quarto E, no nosso tipo de negócio, não é “esqueça-
os”. É “enlace-os novamente”. Depois que você fez amor uma vez, quer continuar.
Presumindo que seja satisfatório para ambos, você quer que o relacionamento
continue. Porque dá um trabalho danado ter que encontrar novos amantes. Sem
falar das despesas envolvidas. É por isso que, no caso de produtos de consumo, as
marcas são tão valiosas. Elas equivalem a um bom casamento com cada um dos
clientes. É como se fizesse amor uma, duas ou mais vezes por semana, e todas as
semanas, ano após ano. Por isso, o quarto “E” — serviços ao consumidor, relações
com os consumidores — é muito importante. Queremos fazer tudo que for razo-
ável para manter os clientes como clientes, para manter o amor.
— Então são esses os quatro “Es” da venda: encontre-os, examine-os, en-
lace-os e enlace-os novamente e muitas vezes mais. Agora, você lembra o que
falei no início?
158
— Você estava falando sobre... Desculpe, esqueci.
— A coisa mais importante é saber o que você quer em cada passo. Quan-
do estiver encontrando os clientes possíveis, seu objetivo é encontrar os bons.
Então, no primeiro contato, você deve fazer certas coisas.
— Nos primeiros momentos você deve se relacionar com eles em um nível
social, conversando sobre o tempo, o trânsito ou esportes, alguma coisa amena.
Você deve criar uma boa primeira impressão. Você também deve começar a
descobrir algumas coisas sobre eles, sem ser ofensivamente direto. E também
deve deixar que eles comecem a descobrir algumas coisas sobre você, sem forçá-
los. Os verdadeiros artistas da venda fazem com que pareça que estão apenas
jogando conversa fora, quando na verdade têm um programa sério a ser cum-
prido. De qualquer forma, ao fim do primeiro contato, você deve sair tendo
realizado as coisas que estabeleceu.
— É, deixar uma boa primeira impressão e tudo isso —, disse Tanny.
— Sim, e o que mais? Você não quer saber também se eles valem o esforço
de prosseguir? Você quer saber se eles já fizeram algum vídeo antes ou se são
novatos. Você quer ter uma idéia de quanto eles podem pagar. Você quer saber
se eles são quentes ou se são apenas um número a ser guardado no cantinho da
agenda. Certo?
— Ok.
— Porque você não vai querer gastar tempo e energia com um cliente em
potencial que no fim não lhe dará o que você precisa. Você vai prosseguir o
relacionamento com os que mais provavelmente lhe darão amor, e em grande
quantidade. Certo?
— É.
— Tem alguma coisa errada?
— Não, tudo bem.
— De qualquer forma, em cada reunião, tenha em mente o que você... o
que você quer alcançar. No segundo e terceiro encontros você continua a cons-
truir o relacionamento. Você começa a agir como se eles já fossem clientes.
Então calcula quanto tempo será necessário para fechar a venda. Finalmente
chegará o encontro em que você sabe que é chegado o momento, que sairá da
reunião com o pedido.
— Como vou saber quando chegar a hora?
— Você tem que ser o juiz —, disse ele.
— Michael...
— Hum?
— O que vai acontecer conosco?
Os olhos dele piscaram. Em seguida ela pôde ver a exasperação no rosto
dele.
159
— Desculpe, esqueça —, disse ela rapidamente. — Vamos conversar so-
bre isso em outra hora. — Ela tentou fazer uma piada: — É muito cedo para
fechar a venda, não é?
Tanny sorriu, mas Michael não.

Quando Michael chegou em casa às seis horas, o pacote de tostitos estava


vazio e a cozinha, em compensação, estava limpa — não era um bom sinal,
pensou. Ele duvidava que a mulher tivesse feito qualquer coisa para comer na-
quele dia. Subiu para o quarto, imerso em sombras, e encontrou Regan dor-
mindo no escuro. Todas as janelas estavam fechadas, e o quarto estava em silên-
cio exceto pelo ruído do ar condicionado.
Michael começou a trocar de roupa, mas parou. Com a camisa desaboto-
ada, ao lado da cama, olhou para a mulher. Sentou-se na beirada da cama,
esticou-se e tocou no cabelo dela. Ela se mexeu levemente. Ele inclinou-se para
beijar o rosto dela. Ela levantou-se de súbito e se sentou, dando um pequeno
grito e batendo com a testa no queixo dele.
— Aiii! Ele viu estrelas. Droga!
Regan esfregou a testa. Ela estava ofegante. — Pensei que alguém estava
querendo me estuprar —, murmurou.
— Não, eu estava apenas... Esqueça.
Ela se virou na cama, como se fosse voltar a dormir. Ele continuou a trocar
de roupa. Ele vestiu uma camisa pólo e apalpou o queixo, que estava doendo.
— Ei, que tal comida chinesa hoje?
— Não —, respondeu ela, meio enterrada no travesseiro. — Mas vá em
frente se quiser.
— Que tal pedirmos para entregar? — Sugeriu ele. — Vamos, do que
gostaria?
— Nada. Não estou com fome.
— Que tal pedirmos alguma coisa para viagem do Jimmy’s Royal Delight?
O Jimmy’s Royal Delight era o favorito dela. Ela murmurou alguma coisa.
— Bom, então é do Royal Delight. Você quer sopa Wonton?
— Não —, respondeu ela, agora virando-se. — Eu disse que não estou...
— Suspirou. — Certo, vá em frente. Eu tomo um pouco.
Ele telefonou e fez uma encomenda para retirar. A caminho do Jimmy’s
Peking Palace, pensou sobre as duas mulheres. Suas duas mulheres. A princípio
pensou em termos comparativos: Regan era mais bonita, Tanny mais apaixona-
da. Regan, apesar de mais velha, tinha um corpo melhor, mas Tanny era melhor
amante. Regan, embora ele nunca tenha levantado a questão contra ela, nunca
conseguia chegar ao clímax com Michael dentro dela. Tanny chegava ao clímax,
qualquer que fosse o jeito de fazer amor que Michael escolhesse. Regan, nos
160
bons e velhos tempos em que faziam sexo, era propensa a ficar deitada como
uma deusa na cama, deixando que ele satisfizesse a ambos. Tanny era mais o
tipo que procurava o orgasmo, mexendo, mexendo, mexendo, estivesse por
cima ou por baixo dele, intensamente até soltar um pequeno e forte “hum...”
que significava tê-lo encontrado.
Esperando no Jimmy’s até que a garçonete o notasse, Michael estava sor-
rindo como um gato feliz. Ocorreu-lhe um pensamento. Ele desejava que no
futuro distante, no momento de sua morte, quando supostamente sua vida
deveria passar como um filme defronte de seus olhos, aquelas cenas apaixonadas
com Tanny estivessem no último rolo.
— Posso ajudá-lo?
— Sim, encomendei pelo telefone uma porção dupla de Royal Delight.

Quando chegou em casa, Regan tinha conseguido sentar e colocar as per-


nas para fora da cama.
— Venha, está esfriando.
— Você não pode trazer aqui para cima?
— Não.
Ela suspirou. Levantou-se como se tivesse engordado cinqüenta quilos nos
quadris. Ele ajudou-a a vestir o robe. Tendo ficado na cama o dia todo —
diversos dias, na verdade — ela não estava cheirando muito bem.
Estavam na cozinha e, normalmente, Regan insistiria em comer com
pauzinhos. Naquela noite ela escolheu um garfo.
Estavam em silêncio à mesa. Observando a mulher escolher a comida no
prato, sentado no lado oposto da mesa, Michael sentiu algo complexo e terrível
desenvolvendo-se em seu interior. Ele sentiu pena — por ela ter perdido o empre-
go e por seu mundo ter se dilacerado. Sentiu desprezo — pela aristocrata empre-
sarial, a perfeita mulher de carreira, a yuppie extraordinária, que agora mal podia
se levantar da cama. Raiva, por ela lhe proporcionar tão pouco do que ele precisa-
va. Raiva, ainda presente, por tê-lo pressionado quando ele começou sua própria
empresa. Raiva, por ela estar engordando. Culpa de sentir raiva por ela estar en-
gordando. Culpa de não sentir desejo por ela. E intensa culpa por estar tendo um
caso com Tanny. Dúvida de si mesmo, de que seu julgamento pudesse ser deses-
peradamente suspeito até mesmo por ter casado com ela. Vergonha por ter, há
pouco tempo, se permitido compará-la sexualmente com sua amante. Preocupa-
ção com o que poderia acontecer se Regan descobrisse o que estava havendo —
preocupação com o que aconteceria a ela, estando no estado em que estava, e
preocupação com o que isso poderia significar para todos.
Entretanto, ao juntar tudo isso, a conclusão inevitável, o rio formado por
todos esses afluentes, era que ele ainda tinha consideração por ela. Não tinha
161
certeza se ainda a amava. Mas decisivamente ainda se preocupava com ela. Ela
ainda era importante na sua vida. Isso lhe ocorreu enquanto os dois comiam
silenciosamente seus Royal Delights.

— Li hoje o seu plano de negócios —, disse Regan inesperadamente.


Ele foi como que arrancado de sua auto-análise. — Leu? Que bom! O que
você achou?
— Bem, está meio... Não quero usar a palavra “amadorístico”...
Vá em frente —, pensou ele —, insulte-me.
— Está, sabe, meio informal —, disse ela. — A maioria dos planos de
negócios é mais extensa.
— Uh-hum. Não tivemos tempo de fazê-lo mais extenso. Regan, não é
um plano para os bancos, foi escrito apenas para nós mesmos, para mim e meus
sócios, para esclarecer nossos pensamentos.
— Então está bem —, disse Regan. — É claro que você deixou algumas
coisas de fora.
— Como o quê, por exemplo?
— Os relatórios financeiros. Um plano de negócios deve sempre incluir
um balanço, demonstração de resultados, projeções de fluxo de caixa, um de-
monstrativo de fontes e aplicações do capital, e assim por diante.
— Vamos acrescentar. O que você leu é apenas um rascunho. O que mais?
Ela pensou por um momento, durante o qual apanhou a embalagem de
comida para viagem e começou a escolher os pedaços de lagosta e camarão, os
melhores. Normalmente isso teria irritado Michael, mas naquela noite deixou
passar.
— Vocês fizeram um bom trabalho ao identificar quem são os seus clientes
e por que eles compram de vocês. Mas na verdade não diferenciaram muito
entre a experiência desses clientes.
— O que você está querendo dizer?
— Bem, algo como: eles estão comprando de vocês uma solução completa
para o problema que enfrentam? Ou estão comprando apenas um serviço de
vídeo que é uma parte da solução?
No início, ao ouvir isso, ele pensou que ela estava falando das minúcias
acadêmicas que aprendeu no curso de MBA, mas deixou que continuasse.
— Esse tipo de classificação pode lhe mostrar um monte de coisas, como
gerar chamadas de vendas, estabelecer preços, criar pacotes ou não...
— Como é isso?
— Juntar serviços num pacote único e com um preço total, ou oferecê-los
separadamente — vende os serviços e estabelece o preço de cada um deles sepa-
radamente, cobrando... um serviço “à la carte”, em outras palavras.
162
— Ah. E sobre a geração de chamadas? É o que estamos tentando fazer no
momento.
— Bem, se o tipo de cliente que você está procurando é um novato, que
não tenha muita experiência, uma das melhores maneiras de gerar chamadas é
oferecer conhecimento gratuitamente — como informações básicas, conselhos
grátis, esse tipo de coisa. Por outro lado, se o cliente for um veterano, alguém
experiente que tenha comprado o produto antes e saiba muito bem o que ne-
cessita, então ofereça um serviço gratuito para conseguir a chamada.
— Vamos ver isso de novo?
Ela limpou os lábios e se inclinou para a frente. — Ok, eu sou gerente de
um departamento e quero que meu pessoal seja mais produtivo. Então estou
lendo uma revista, e vejo um artigo que diz que se os computadores de meu
pessoal estiverem ligados em rede eles serão mais produtivos. Parece que vale a
pena examinar, mas não entendo nada de computadores, e também não sei
nada sobre redes, e não há ninguém em minha empresa que entenda. Sou nova-
ta nisso, e não sei a quem recorrer.
— Então recebo, pelo correio, um folheto intitulado Dez passos para mon-
tar uma rede local por baixo custo, da empresa XYZ Computadores e Sistemas.
Volto a consultar a revista, e um engenheiro da XYZ é citado no artigo. Leio o
folheto, que é bem escrito, inclui conselhos práticos e explica o processo de
instalação de uma rede. Então quero saber mais, e telefono para a XYZ — ou,
quando um vendedor da XYZ me telefona, estou disposto a conversar com ele.
É assim que se usam informações grátis para gerar chamadas de vendas. Fun-
ciona principalmente com clientes que sejam novos em alguma área.
— Que são facilmente enganados.
— Bem, isso algumas vezes acontece. — Ela inclinou a cabeça para trás e
seus olhos azuis refletiram a luz do pôr do sol. — Agora, por outro lado, diga-
mos que eu seja um cliente experiente.
— Você já foi enganada.
— Sim, comprei da XYZ, montei uma rede deles e passaram-se quatro ou
cinco anos. Agora tenho experiência, seja boa ou ruim, sou uma veterana. Sei o
que significa uma rede Ethernet. Também sei o suficiente para entender que
minha tecnologia está ficando desatualizada. A rede está lenta. Existem proble-
mas de compatibilidade, ou seja lá o que for. Então quero uma rede melhor.
— Recebo, pelo correio, uma carta da empresa ABC Sistemas de
Informática oferecendo uma análise grátis de minha rede, que vai identificar
áreas problemáticas e sugerir soluções. Então telefono para a ABC, ou envio um
cupom, ou seja lá o que for. O que a empresa ABC está fazendo é oferecer um
serviço grátis para gerar uma chamada de vendas. Isso tende a funcionar melhor

163
com o cliente veterano ou experiente, porque o cliente deve ter algum conhe-
cimento para apreciar a oferta.
— Como isso se aplicaria à minha empresa —, perguntou ele.
— Depende de seu cliente. Se você estiver vendendo para o departamento
interno de áudio e vídeo ou para alguém de marketing que tenha feito um
monte de vídeos antes, então você deve mandar uma carta oferecendo um ser-
viço grátis. Não sei o quê, talvez um script ou alguma outra coisa grátis.
— É caro demais.
— Bem, qualquer coisa. Por outro lado, você diz em seu plano que quer
entrar em multimídia. No momento, é uma área relativamente nova, provavel-
mente está no mesmo ponto em que estava a TV corporativa dez ou quinze
anos atrás. As pessoas não vão ter muita experiência e estarão procurando al-
guém que lhes mostre o caminho. Por um especialista...
— Então oferecemos...
— Conhecimento grátis. Talvez você deva escrever um artigo para alguma
revista profissional sobre algum aspecto da multimídia. Lógico, você tem que
convencer a revista a publicá-lo e mostrar suas credenciais. Então poderá conse-
guir cópias do artigo e enviar para clientes em potencial. Ou, talvez, deva escrever
um pequeno livro com o título Multimídia de A a Z, ou então fazer um disquete
e o distribuir. Ou também pode montar um evento, como um seminário.
— Uh-hum. É uma idéia.
— De qualquer forma, posicione-se como especialista. — Ela se recostou,
relaxando ao falar. — Claro que também há todo tipo de ramificações. Se estiver
lidando com novatos, terá que enfatizar o trabalho de distribuição pessoal, e terá
que cobrar proporcionalmente. Terá que considerar em seu preço a curva de apren-
dizado dos clientes. Existem muitas questões a considerar. Quem vai fornecer os
computadores portáteis nos quais as apresentações serão exibidas? Quem vai ins-
talar o software? Quem vai ensinar os vendedores a usar a multimídia diante dos
clientes? Se pegar o serviço, você terá que fazê-lo e tudo isso será fator de custo.
— Em poucos anos será diferente. A multimídia será conhecida, e você
estará tentando estabelecer relacionamentos com usuários experientes, especial-
mente aqueles que lhe oferecerem trabalhos repetitivos. Será como foi com o
videocassete. Há dez ou doze anos eu estava numa reunião gerencial e ninguém
sabia como inserir a fita no aparelho de videocassete. — Ela começou a rir. —
Verdade! Colocavam a fita ao contrário e o aparelho continuamente a cuspia de
volta! Fui eu que percebi e resolvi o problema, e você sabe como sou com deta-
lhes técnicos! E eram gerentes da Três-E! Provavelmente eu tinha o menor salá-
rio na sala e...
Ela parou ali, no meio da sentença, como se alguém tivesse puxado o fio
da tomada. Cinco, seis segundos se passaram.
164
— Qual o problema —, perguntou Michael.
Os cantos de sua boca se retraíram, e o rosto dela se transformou, como se
fosse uma velha menininha. Três ou quatro lágrimas escorreram dos olhos de
Regan. — Quero o meu emprego de volta!
Ela se despedaçou, e Michael ficou sem saber o que fazer.
— Eu o quero de volta! — Continuou dizendo, e: — Não é justo!
Michael foi, finalmente, capaz de alcançá-la do outro lado da mesa. —
Vem cá.
Ela contornou e sentou no colo dele. Ele a abraçou e acariciou sua pele
através do robe — com algum vigor, pois isso era assustador para Michael. Ele
nunca a tinha visto tão fragilizada.
— Eu fiz tanto para eles —, dizia ela. — Não é justo.
— Eu sei —, disse ele. — Você vai ficar bem. Você vai encontrar outro
emprego.
— Onde?
— Não sei, mas você vai encontrar. Você é uma mulher muito esperta.
Ele puxou gentilmente a cabeça dela para seu ombro.

Chegou o mês de julho, e o verão ficou mais quente. Numa manhã de


sábado, aproximadamente às oito e meia, Michael e os outros encontraram-se
no Cineway. O Cineway era um daqueles complexos de cinemas suburbanos
tipo multiplex, com seis, oito, doze salas sob um mesmo teto. O Cineway ficava
nos arredores de Westerville. Eles pagaram trezentos e cinqüenta dólares de
aluguel por uma das salas, e, graças às preces de Michael, o assistente da gerên-
cia chegou no horário para abrir as portas. Eles estacionaram a van de Redmeat
na parte de trás, e começaram a descarregar, levando tudo para dentro pela saída
de incêndio. Começaram a montar.
A sala não tinha palco, e eles tiveram que montar um. Montaram tablados
— madeira compensada sobre estruturas de sessenta centímetros por um metro
e vinte, com trinta centímetros de altura, cobertas com carpete barato. Junta-
ram os tablados lado a lado na frente da tela, e então de cada lado montaram
dois grandes monitores, os maiores que puderam alugar.
Montaram três mesas, duas à direita e uma à esquerda, e as cobriram com
toalhas. Na mesa da direita, Babe começou a dispor crachás com os nomes na
primeira mesa, enquanto Hoona cuidava da garrafa do café e ajeitava os biscoi-
tos.
Na terceira mesa Boner montou o computador. Próximo, colocaram o
VCR e o gravador de vídeo de uma polegada. Tanny trouxe a câmera. Eles
estenderam cabos e fizeram as conexões das fontes de vídeo para um switcher
caseiro (construído por Boner) que levaria aos monitores o sinal desejado. Ti-
165
nham trazido alto-falantes, um amplificador e um microfone sem fio do estú-
dio, e também os conectaram. Então, durante vinte minutos, ouviu-se o som
de fita isolante — fita adesiva — sendo desenrolada e aplicada, colando os
cabos no lugar, no chão.
Michael ensaiou a sua fala e checou suas anotações. Redmeat testou o
switcher para ter certeza de que quando pressionava esse ou aquele botão a ima-
gem desejada realmente aparecia nas telas. O trabalho de Boner era fazer a
figura certa do computador aparecer quando chamada, e ajudar no que fosse
necessário. Boner tinha conhecimentos para construir o switcher, mas não tinha
nervos para operá-lo numa apresentação ao vivo.
As primeiras pessoas começaram a chegar por volta das dez horas. O pa-
lhaço chegou às dez e quinze, e alguns minutos depois os Peleskys, um casal de
aposentados, amigos da mãe de Tanny. O palhaço e os Peleskys deveriam cuidar
das crianças. Desde o início, tinha sido decidido que, por realizarem o evento
num sábado, o convite deveria ser estendido às esposas e famílias. Eles tinham
discutido brevemente a possibilidade de alugar uma segunda sala e exibir um
filme da Disney para as crianças, mas isso custaria no mínimo mais setecentos
dólares, enquanto o palhaço custava cento e cinqüenta e os Peleskys estavam lá
em troca de ingressos para o cinema.
Babe foi mandada ao saguão para servir como recepcionista oficial e enca-
minhar as pessoas para a sala certa. Elas entravam, pegavam os crachás, serviam-
se de café e biscoitos e se sentavam. Às dez e meia daquela manhã de sábado em
meados de julho, Michael subiu no pequeno palco, em frente de uma tela bran-
ca e viu cerca de oitenta rostos. Pegou o microfone e disse: — Bom dia. Sou
Michael DiGabriel da Archangel Produções e gostaria de dar as boas-vindas a
todos vocês que prestigiaram nosso seminário sobre como criar apresentações
profissionais em vídeo e multimídia...

Michael foi furtivo em relação à criação do evento. Isto é, ele fez com que
os outros tivessem a idéia. A partir do que sua mulher havia dito, ele deduziu
que uma boa estratégia para conseguir novos clientes em potencial deveria ter
por base: atrair os inexperientes, oferecendo conhecimento grátis, e atrair os
compradores veteranos, oferecendo um serviço grátis.
Conforme tinha sido estabelecido no plano de negócios, o principal meio
para eles crescerem seria alcançando empresas menores. As pessoas nas empre-
sas menores, raciocinou Michael, não teriam especialistas no staff para ajudá-
las com coisas como vídeo e multimídia. Eles seriam, provavelmente, menos
experientes. (Ou, ao menos, teriam mais probabilidade de necessitar ajuda e
assessoria externa). Portanto, algo como um seminário, ele pensou, deveria
ser atrativo.
166
Mas ele permitiu que os outros chegassem à idéia por si mesmos. De fato,
a semente original da idéia foi de Babe. Um dia, estavam todos sentados no
estúdio, fazendo um brainstorming sobre formas de promover o negócio. No
brainstorming, disse-lhes Michael, qualquer idéia, não importando quão estúpi-
da pareça, é válida. A intenção era conseguir muitas idéias, depois reduzir e
escolher entre as melhores. Todos os outros estavam fazendo sugestões sobre
formas diferentes de anunciar (fazer uma mala direta, colocar um anúncio no
jornal, pôr um anúncio na revista da cidade, ou nas páginas amarelas), quando
Babe levantou a mão, hesitante.
— Tenho uma idéia. Por que não fazemos uma festa e convidamos todo
mundo que conhecemos?
— Ok —, disse Michael. E, ah, como isso nos ajudaria?
— Bem, no último lugar em que trabalhei, antes de ir para a Barkes. Eram
esses caras que vendem ações.
— Corretores de ações? — Perguntou Michael.
— É, acho que é isso que diziam ser. De qualquer forma, estavam sempre
dando festas. Eles as chamavam “seminários”, mas na verdade eram coquetéis.
Então pensei que talvez pudéssemos fazer isso.
— Ei —, disse Michael —, realmente não é má idéia.
Ele foi ao quadro e escreveu: “Festas/Seminários”.
Babe assumiu uma posição mais alta na cadeira, enquanto Tanny deu uma
olhada que parecia dizer: Você deve estar brincando.
Depois de vinte minutos, entretanto, estavam conversando sobre que tipo
de seminário deveriam oferecer, porque sempre voltavam à idéia de Babe. Ou
antes, Michael sempre os conduzia de volta a ela.
Discutiram as questões táticas: deveriam cobrar ingresso para cobrir as
despesas? Quando deveria ser o seminário e onde? Quanta informação deve-
riam passar?
A última questão foi a que causou a mais acirrada discussão. Se eles divul-
gassem informações demais, não estariam cortando o próprio pescoço? Não
estariam transformando clientes em potencial em clientes auto-suficientes?
— Não podemos dizer tudo o que sabemos. É impossível —, disse Michael.
— Temos anos de experiência.
— Não, em multimídia não temos —, disse Redmeat.
— Daqui a um mês, quando acontecer, saberemos mais do que qualquer
outra pessoa. Além disso, temos talento, o que eles nunca terão.
Eles estabeleceram três pontos básicos: o seminário deveria ser gratuito,
divertido e curto. Sendo “grátis” e “divertido”, ajudaria a atrair as pessoas, que
era o ponto principal. Sendo “curto” deixaria os verdadeiros clientes em poten-

167
cial querendo mais. Assim haveria abertura para futuros seminários, se o pri-
meiro fosse bem-sucedido, e ajudaria a abrir a porta para contatos mais sólidos.
Mantiveram a duração do seminário em uma hora e meia. Longo o suficien-
te para que valesse a pena a viagem, mas suficientemente curto para que os pre-
sentes não se sentissem trabalhando em benefício do grupo que os convidou. E
haveria um presente no final: ingressos grátis para qualquer um dos filmes em
exibição no Cineway naquela tarde. Venha ao seminário e assista à matinê.
Foi essa a razão de terem escolhido um sábado. Negociaram muito com
todos os cinemas, e o Cineway ofereceu o melhor negócio: ingressos ao custo de
matinê, e teriam que pagar apenas pelos ingressos realmente utilizados.
Enviaram convites a cerca de duzentas pessoas, e oitenta apareceram. Já
teriam considerado o evento um sucesso se apenas a metade disso tivesse com-
parecido.
Foi bom porque, para eles, o investimento foi do tipo em que se aposta a
empresa. A montagem do evento estava custando quase dois mil dólares —
muito dinheiro, dada a situação de caixa. E isto apenas em relação ao que tive-
ram que desembolsar, pois se o tempo deles fosse incluído... bem, nenhum
deles queria pensar sobre o verdadeiro custo.
Passaram uma grande parte de junho e metade de julho preparando tudo.
Apenas a compilação da lista de pessoas levou mais de uma semana, mesmo
com quatro deles trabalhando. Michael e Tanny folhearam sistematicamente as
páginas amarelas, pegando os nomes e números de telefone das empresas que
poderiam ser clientes em potencial. Hoona e Babe telefonaram para cada em-
presa para conseguir os nomes dos contatos. Depois de enviarem os convites,
telefonaram para cada pessoa na lista para confirmar se vinham. Nesse meio
tempo, Boner e Redmeat mergulharam na multimídia, aprendendo tudo o que
podiam a respeito. Tinham aptidão técnica e não era difícil para eles, mas ti-
nham apenas algumas semanas para se tornarem especialistas. Foi um aprendi-
zado autodidata relâmpago, e esssa era a prova.

Michael fez a abertura com uma visão geral, de vinte minutos, sobre como
montar uma apresentação de vídeo/multimídia — o processo que começa com
o estabelecimento de objetivos, elaboração do script, gravação, edição e transfe-
rência do vídeo editado para cassetes ou para um computador. Em seguida ele
apresentou Tanny que mostrou-lhes as técnicas básicas de câmera e dicas sobre
produção. Isso levou meia hora, sendo que dez minutos foram empregados para
explicar as vantagens do uso de equipamento profissional em vez de câmeras
vídeo de pessoal. Fizeram um pequeno intervalo, e concluíram com uma dis-
cussão sobre multimídia e como fazer para que um vídeo seja reproduzido em
um computador.
168
— Alguns de vocês —, disse Michael, ao fazer o encerramento —, devem
achar que temos uma intenção não declarada ao montarmos esse evento de
hoje. Bem, nós temos. Francamente, gostaríamos de conhecê-los melhor. Nossa
mensagem comercial é simples. Muitos de vocês ficarão satisfeitos em realizar
internamente sua própria produção de vídeo, e isso está ótimo para nós. Mas,
de tempos em tempos, vocês podem querer produzir alguma coisa especial ou
um pouco mais sofisticada. Talvez precisem de ajuda com a edição, ou talvez
queiram acrescentar alguns efeitos especiais. Ou talvez estejam muito ocupados
e desejem que alguém realize toda a produção. Esperamos que vocês pensem em
nós quando tais ocasiões surgirem.
É isso. Há refrescos e um lanche leve esperando por vocês e, enquanto
estiverem lanchando, ficaremos felizes em conversar individualmente e respon-
der a suas perguntas. Então, se quiserem assistir à matinê, podem se dirigir a
qualquer uma das salas de exibição. Nós já compramos os bilhetes para vocês,
portanto, divirtam-se.

A maioria das pessoas ficou. Havia vinho branco, cerveja e refrigerantes.


Hoona ficou encarregado com antecedência para buscar, numa lanchonete pró-
xima, um sanduíche de dois metros, dividido em fatias de dois a três centíme-
tros, que tinham encomendado e serviram como almoço.
A primeira pessoa que se aproximou de Michael foi um homem que disse:
— Isso foi muito bem conduzido.
— Obrigado —, disse Michael, ao mesmo tempo em que lia o nome no
crachá: Peter Chechman. — Obrigado pelo elogio, Peter. Onde você trabalha?
— Três-E —, disse Chechman. E sorriu ao estender a mão. — Já ouviu
falar da gente?
— É, vocês são aquela pequena empresa nos arredores da cidade.
— Certo. Mas me diga... você organiza reuniões?
— Bem... sim, organizamos. Claro, organizamos reuniões.
Chechman colocou um cartão comercial na mão de Michael. — Por que
você não me telefona na semana que vem? No próximo mês estaremos trazendo
algumas pessoas para uma atualização técnica já várias vezes adiada. De qual-
quer forma, quero que seja especial, e desde que tive o meu pessoal reduzido,
não tenho idéia de quando terei tempo para organizar as coisas.
— Ótimo. Telefono na segunda-feira —, disse Michael.
Boner estava demonstrando uma apresentação em multimídia no compu-
tador quando uma pessoa se aproximou e disse: — Faço parte de uma comissão
especial, e estamos procurando um palestrante. Estava pensando se você pudes-
se fazer uma apresentação mais curta da mesma demonstração que fez aqui.
Embora devesse estar ajudando nas vendas, Tanny procurava passar desa-
169
percebida em um canto — felizmente sem sucesso. Alguém se aproximou dela
e disse: Foi realmente muito bom!
— Oh, obrigada.
— Deixe-me fazer uma pergunta.
— Claro.
— Vocês já fizeram vídeo para feiras comerciais?
— Hum... — Ela acenou para Michael, mas Michael estava ocupado,
conversando com Peter Chechman. — Hum... claro que fizemos. Quero dizer,
é sem dúvida algo que podemos fazer.
— Meu nome é Ken Sonders e trabalho numa empresa chamada Exerific.
— Sim! Tive uma reunião com Mindy Markovic há algumas semanas!
— Certo, ela me passou o convite para o seminário. De qualquer forma,
participaremos de uma exposição no próximo inverno...
Oh Deus, pensou Tanny. Oh Deus, isso está realmente funcionando.

— Ouça, estaremos organizando os preparativos para uma reunião que


será patrocinada pela Três-E —, Michael disse a Babe na quarta-feira seguinte,
depois de ter conversado com Peter Chechman. — Gostaria que você me aju-
dasse nos preparativos.
Babe fez seu gesto característico com os ombros. — Ok.
— Bom, disse ele.
— O que tenho que fazer?
— Bem, você pode começar tomando algumas notas. — Ele esperou que
ela pegasse um bloco e uma caneta, e disse: — Vai ser uma reunião bem grande.
Comparecerão cerca de duzentas pessoas. Vamos ter que arrumar acomodação
nos hotéis, transporte do e para o aeroporto, dois almoços e cafés da manhã
completos. Haverá também um audiovisual bastante elaborado a ser feito, mas
vou colocar Redmeat cuidando disso. Gostaria que você trabalhasse comigo nas
outras coisas. Que tal começarmos com uma lista de hotéis? Gostaria que você
organizasse uma lista de hotéis e dos melhores motéis da cidade, telefonasse a
todos eles e descobrisse quantos apartamentos têm disponíveis para dezesseis e
dezessete de setembro.
— Onde devo encontrar a lista? — Ela perguntou.
Michael suspirou, e disse: — Aposto um dólar que se você pensar a
respeito...
Babe sorriu. — Ok, ok.

Babe era cabeça dura. Michael estava determinado a fazer, naquele verão,
com que a mulher valesse mais do que pagavam a ela ou a demitiria. A reunião
da Três-E era um teste para ambos: para Babe e para ele mesmo.
170
Ele tinha que enfrentar uma batalha em duas direções. Uma era contra os
hábitos profundamente arraigados de Babe: seu hábito de agir como secretária
burra, sua falsa incapacidade, seus pequenos jogos manipulativos para escapar
da responsabilidade, sua deliberada desconsideração, sua preguiça. A outra frente
era uma guerra particular contra sua própria raiva.
Toda vez que Babe se fazia de boba, toda vez que errava, toda vez em que
não fazia alguma coisa que devia fazer, Michael ficava louco. Era natural. Entre-
tanto, para gerenciar de uma forma que pudesse transformá-la, ele tinha que se
colocar acima de sua própria fúria. Toda vez que ela lhe perguntava alguma
coisa estúpida, os monstros dentro dele queriam atacar e pisotear até reduzi-la a
uma sangrenta massa disforme.
Ela misturava as coisas, algumas vezes errava totalmente, mesmo quando
checava com ele a cada dez minutos. Em certo momento, ela confundiu os
números para as acomodações nos hotéis, errando por uma margem de dezesseis
quartos. A carta de confirmação para o serviço de limusines no aeroporto con-
tinha datas erradas. Ela informou a um fornecedor de alimentos que havia sido
contratado, quando ele, de fato, nem sequer tinha apresentado uma cotação
para o serviço.
Michael teve que conter seus próprios sentimentos. Muitas vezes pergun-
tou a si mesmo por quê. Por que não deixar que os monstros a atacassem? Por
que não explodir e gritar? Por que não esmagar o ego dela, pequeno e tolo, sem
piedade? Mas, em cada vez, uma outra voz, mais calma, talvez um pedaço de
Deus remanescente em seu interior, dizia: Você tem que dar uma chance a ela.
De qualquer forma, se gritasse, ele nunca a encontraria onde queria que
ela estivesse. Ele perderia e teria que demiti-la. Ela recuaria e se fecharia em sua
muda estupidez sem fazer nada, e ele teria que demiti-la e, pior, teria que, em
dado momento, começar de novo com outra pessoa.
Além disso, Babe estava correspondendo. Ele encontrou o erro sobre os
hotéis antes, mas arrumou as coisas de tal forma que ela teve que checar nova-
mente os números, o que fez com que ela encontrasse o próprio erro. Ele fez a
mesma coisa com a carta para o serviço de limusines. Ela aos poucos foi se
comprometendo com a inteligência. Ele apontou a impropriedade dela com o
fornecedor de alimentos, mas a seguir conversou sobre o que fazer. Ele fez com
que ela telefonasse novamente ao fornecedor, e fez com que ela enfrentasse o
problema. Ele perdeu outra aposta de um dólar.
Ele estava sempre transformando respostas em perguntas. Ao invés de di-
zer a Babe o que fazer, Michael perguntava como exatamente ela tinha planeja-
do fazer. Não era tão ineficiente quanto podia parecer — embora não se pudes-
se ter certeza com a mesma rapidez, por exemplo, se se desse uma ordem a ela.
Chegou o dia em que Michael estava em sua sala e a ouviu falar ao telefone com
171
um dos gerentes de hotel. Devido ao tamanho do grupo, eles não poderiam
fazer reservas para todos num único hotel e tiveram que dividir entre o Marriott
e o Hilton.
Havia silêncio na Caverna e Michael ouviu Babe dizer: — Sabe, o Mark
do Marriott disse que ofereceria café ao nosso grupo. Bem, se eles podem ofere-
cer, não vejo porque vocês também não possam.
Ela está jogando um contra o outro, ele pensou, e eu nem mesmo falei com ela
sobre isso. Ele olhou em direção ao teto branco e sussurrou: Sim!
Ele começou a sentir um prazer quase paternal pelas pequenas conquistas
dela, quando ela saiu de sua cadeira e andou para o centro da sala, dizendo ao
Hilton: — Bem, se você não vai oferecer o café, eu simplesmente terei que me
entender com o Ramada.
— Bom —, ele disse a ela —, isso foi realmente muito bom. Eu vou me
certificar que a Três-E saiba por que não vai ter que pagar o café da manhã para
duzentas pessoas.
Contudo, ensinar Babe foi apenas uma pequena parte daquele verão.

A Exerific ficava em White Falls, e para chegar lá, eles tiveram que passar
pela velha fábrica da Três-E. Era um lugar enorme, do tamanho de alguns hangares
de avião encostados um no outro. Tinha aquela palidez opaca, escurecida, de
um lugar outrora movimentado e que agora estava abandonado. As ervas dani-
nhas já estavam crescendo pelas rachaduras do concreto do estacionamento, e
os painéis de madeira cobrindo as janelas estavam começando a se deteriorar.
Uma cerca mal instalada cercava o perímetro, e as placas da imobiliária estavam
afixadas nela.
Tanny ia no Chrysler Imperial modelo 1973 de Hoona, que estava um
pouco mais apresentável que seu Toyota, mas o ar condicionado do velho carro,
naquela manhã quente de verão, não estava funcionando com toda eficiência.
Hoona ligou a ventilação no máximo, mas Tanny ainda estava transpirando.
Ela usava o mesmo vestido que usou no funeral de seu pai, o melhor que pos-
suía. Ela ia com as pernas abertas, tentando ventilar o máximo possível todo o
náilon que usava, esperando que não houvesse uma mancha molhada em seu
vestido quando finalmente saísse daquele banco de vinil.
Michael juntou os dois, esperando que se apoiassem mutuamente. Eles se
apresentariam como uma dupla. Tanny deveria fazer a maior parte das pergun-
tas, enquanto Hoona deveria tomar notas. Mas ela já se sentia como se estivesse
sendo tutelada por Hoona, e se ressentia com isso. E Hoona parecia estar enca-
rando a visita como um simples passeio pelo campo.
A Exerific ficava num prédio de concreto de um único pavimento, afasta-
do do centro, quase fora da cidade, sem quase nada em volta além de plantações
172
de milho. Mas havia carros estacionados nos dois lados da estrada. Hoona teve
que estacionar a van entre eles, pois todas as vagas para visitantes estavam ocu-
padas e não havia outro lugar mais perto. Depois de chegarem à recepção, en-
contraram ao menos cem pessoas preenchendo formulários, enfileiradas nos
degraus, movimentando-se de um lado para o outro. Quando finalmente che-
garam à mesa da recepcionista, automaticamente ela lhes deu os formulários
como se eles quisessem candidatar-se a um emprego.
— Não, estamos aqui para uma reunião com Ken Sonders —, disse Tanny.
— Ele está esperando vocês?
— Sim, está. Desculpe, mas o que é tudo isso?
— O departamento de pessoal publicou um anúncio no jornal de hoje —
, disse a recepcionista. — Temos uma vaga para operador de empilhadeira.

— Bem, admito —, disse Ken —, que fiquei muito bem impressionado


com o seminário de vocês.
— Obrigada —, disse Tanny.
De um lado de sua mesa, Ken tinha um sofá e duas cadeiras moderada-
mente confortáveis. Tanny e Hoona estavam sentados no sofá.
— Tentei alguns dos truques que você nos mostrou com minha câmera de
vídeo em casa, e até minha mulher admitiu que minhas gravações das crianças
ficaram melhores.
— Bom.
— Então fiquei imaginando, sabe... que outras habilidades vocês têm a
oferecer.
— Bem, eu não estou certa do que você está querendo saber —, disse
Tanny.
— Sabe, apenas para uma referência futura.
Nesse ponto, Tanny pensou: Não me diga que viajamos até aqui neste calor
apenas para bater papo. — Bem, fazemos todos os tipos de produção em vídeo.
Você não queria conversar sobre uma feira comercial?
— É... —, disse Ken vagamente. — Talvez não devesse ter mencionado
isso. Veja, feiras e exposições não são, oficialmente, minha área.
Confuso, Hoona permaneceu em silêncio. Tanny inclinou-se para a frente
e disse: — Ken, acho que você vai ter que se abrir um pouco para podermos
chegar a algum lugar...

— Então ele nos deu algumas informações básicas —, Tanny contou a


Michael. — Ken é o gerente de vendas. Todos os vendedores se reportam a ele,
e ele se reporta a Tucker.
— Tucker? — Perguntou Michael.
173
— Tucker é vice-presidente de marketing e vendas —, disse Hoona.
— Certo —, disse Tanny —, e tem a Mindy.
— Mindy?
— Mindy Markovic. Ela é a pessoa com quem me encontrei na primeira
vez. Ela é encarregada de comunicações de marketing — propaganda, relações
públicas, promoção de vendas, catálogos, folhetos, todo esse tipo de coisa. E as
feiras e exposições. É aí que há um problema.
— Como?
— Mindy também se reporta a Tucker, e aparentemente Ken e Mindy não
se dão muito bem. Ele deixou claro que gosta dela como pessoa, mas profissio-
nalmente ela é, ah...
— Ela não é muito séria —, disse Hoona.
— Certo. Mas Tucker acha que ela é um gênio —, disse Tanny.
— A quem Tucker se reporta? — Perguntou Michael.
— A Glen Sorenson, que fundou a empresa há vinte anos. De qualquer
forma, politicamente, devemos ter contatos com Mindy, porque feiras e exposi-
ções são sua responsabilidade.
— Ok, então por que não podemos fazer isso? — Perguntou Michael.
— Porque, em primeiro lugar, não consegui nada com Mindy —, disse
Tanny. Em segundo lugar... bem, é complicado.
— Uma coisa que aprendi em minha carreira —, disse Michael —, é que
quando se trata com corporações, nada é simples. Vá em frente.
— Acontece que nas últimas feiras os vendedores se queixaram do estande
da Exerific, que estava um pouco ultrapassado. O próprio Ken o acha pouco
atrativo. O problema é que Tucker quer ficar com ele por mais uns dois anos
antes de descartá-lo e gastar um monte de dinheiro em algo totalmente novo.
— O que eles querem —, disse Hoona —, é uma reciclagem, um
embelezamento no velho display de apresentação. Querem fazer alguma coisa
com vídeo, multimídia, ou o que for, usando a velha estrutura como cenário.
— Mas Mindy não quer fazer isso? — Perguntou Michael.
— Na verdade a idéia da reciclagem foi de Mindy —, disse Tanny. — O
problema é que ninguém gostou das idéias dela.
— Ou, mais precisamente, das idéias que seus fornecedores tiveram —,
acrescentou Hoona. — Ken disse que não foi inteiramente culpa dela. Ela acio-
nou novamente o construtor original do estande, e assim que ele descobriu que
eles não queriam um novo estande, perdeu parte do entusiasmo.
— Acho que esse construtor de estandes mostrou-se muito pouco coope-
rativo —, disse Tanny. — Se você não tiver alguns milhões para gastar, eles não
querem lhe dedicar nenhum tempo. Então — você vai adorar isso — Mindy
procurou ninguém mais que... — Ela levantou a mão para Michael, com a
palma para cima, e esperou que ele completasse a sentença.
174
Michael encolheu os ombros. — Não sei.
— Barkes & Collwin!
Michael sentou-se.
— E Barney Tillman levou-a para Nova York —, continuou Tanny. — Ele
a levou para um jantar regado a vinho, levou-a a um show na Broadway, progra-
ma completo. E imagino que funcionou. Ela quer entregar o negócio para a
Barkes — mesmo apesar de ninguém mais na Exerific ter ficado impressionado
com o que Barney e o pessoal de criação da Barkes apresentaram.
Hoona, contendo o riso, falou: — Ei, Mike, você sabe qual foi a grande
idéia deles? Instalar monitores dentro do estande e mostrar um vídeo sem fim
com os comerciais de TV da Exerific.
Michael riu. — É, muito criativo.
— Então —, disse Tanny —, foi dessa forma que Ken colocou a questão:
Se nós aparecermos com uma idéia boa como champanhe e com preço de vinho
espumante, ele vai falar com Tucker e fechar questão.
— Hum. — Michael coçou o queixo. — Muito interessante. Apenas...
me parece que nós vamos fazer o papel de pião no jogo político de Ken.
— Sim, eu definitivamente acho que Ken tem seus próprios planos —,
disse Tanny. — Por outro lado, perguntei que tipo de orçamento ele tinha em
mente. Ele disse que qualquer coisa na casa de seis dígitos seria aceitável, desde
que a idéia valesse o preço.
Michael arregalou os olhos. — Ok, disse ele —, serei um pião.

Com Michael apressando, eles marcaram uma reunião para fazer um


brainstorming sobre a Exerific. Michael gostava de brainstormings, enquanto
Tanny era menos entusiasta. Mas ela não tentou dissuadi-lo. Algum tempo
depois ela começou a pensar como Michael tinha assumido o controle, como
ele reunia todos ao redor da mesa, e como ele conseguia fazer com que a reunião
funcionasse. Ele pediu a ela que explicasse a todos sobre a Exerific e o que eles
queriam, o que foi feito. Então Michael pegou um pincel atômico azul e disse:
— Certamente temos algumas idéias.
— Que tal modelos? — Disse Redmeat.
— Como assim?
— Sabe, nós contratamos algumas modelos e elas usam as bicicletas e tudo
e... você sabe...
— Ok —, disse Michael. Principalmente por ser a primeira idéia apresen-
tada ele a escreveu, mesmo sem pensar muito. Nesse ponto eles já tinham inves-
tido em um suporte para flip-chart e um bloco de folhas.
— Que tal modelos masculinos? — Disse Babe.
— Bem, um de cada —, disse Redmeat.
175
— Espere um minuto —, disse Michael. — Um dos critérios aqui é que as
idéias deveriam ter alguma coisa a ver com vídeo e produção de vídeo — algu-
ma coisa cuja implementação esteja em nosso campo de especialização. Porque
queremos que o resultado disso tudo seja uma proposta que os ajude a ser um
sucesso nessa feira e que também faça com que ganhemos dinheiro. Então te-
mos que ligar a idéia de modelos com algum tipo de conceito em vídeo que
possamos criar. Ok? Que tal algumas outras idéias?
— Gravamos alguns modelos usando equipamento Exerific —, disse
Redmeat.
— Brilhante —, disse Tanny, com evidente sarcasmo.
— Que tal uma parede de vídeo? — Sugeriu Boner. — Sabe, uma grade
de monitores ao longo do fundo do estande. Uns doze deles, tela grande, quatro
no sentido da largura por três de altura. Quero dizer, tem sido feito, mas...
— Certo, mas o que estará passando nos monitores?
— Modelos! — Disse Redmeat.
— Modelos masculinos —, acrescentou Babe.
— Vocês dois só pensam naquilo —, disse Michael.
— E se instalarmos uma câmera no estande? — Disse Hoona.
— Para quê?
— Bem, as pessoas gostam de se ver na TV...
— Algumas pessoas —, disse Tanny —, não todas.
— ... e então as gravaríamos usando os equipamentos da Exerific.
— Ok, continuem —, disse Michael.
— Talvez pudéssemos oferecer a fita a elas como lembrança. Quero dizer,
podemos comprar algumas caixas de fitas VHS virgem e gravar as pessoas... não
sei, talvez fazendo palhaçadas ou alguma outra coisa.
— Com as modelos —, disse Tanny. — As esposas deles realmente iriam
gostar.
— Sabe, poderíamos criar um vídeo de exercícios usando os equipamen-
tos da Exerific —, disse Hoona.
— Ok, está ficando melhor —, disse Michael. — Como o usaríamos no
estande?
— Bem, poderia ficar passando ao fundo, e também poderíamos distri-
buir cópias durante a feira. Talvez tivesse uma mensagem de vendas como parte
do programa.
— Ei, vamos lá —, disse Redmeat.
— Isso está realmente muito bom —, disse Michael. — Mas vamos tomar
outro curso. Quando vocês pensam em exercícios, ginástica, atletismo e assim
por diante, que imagens vêm à mente?
— Suor —, disse Babe.
176
— Músculos —, disse Redmeat.
— Músculos desenvolvidos —, disse Boner.
— Grandes músculos salientes —, disse Hoona.
— Grandes protuberâncias —, disse Tanny.
— Ora, vamos lá!
— Faces agonizantes —, disse Tanny. — Com dentes cerrados.
— Afastem o foco um pouco, e o que vocês vêem?
— Pessoas... andando de bicicleta.
— Pessoas correndo.
— Uma aglomeração de futuros yuppies.
— Cruzando a linha de chegada —, disse Hoona.
— É, rompendo a fita na linha de chegada —, disse Tanny.
— Certo, bom! — Disse Michael. — Cenas de vitória! — Ele esfregou as
mãos. — Continuem, dêem mais.
— Vitória, com multidões de pessoas gritando, aplaudindo —, disse Tanny.
— Uma corrida —, disse Redmeat.
— Talvez seja isso —, disse Boner. — Vamos montar um tipo de corrida.
— No equipamento deles? Não sai do lugar —, disse Redmeat.
— Bem, talvez possamos ligar duas bicicletas Exerific com um computa-
dor, de alguma forma que dois corredores possam apostar uma corrida um con-
tra o outro.
— É, bom! — Disse Michael, apontando para Boner. — Como podemos
criar uma corrida para eles?
— Não sei. Talvez a resposta seja alguma forma de videogame.
— Certo. Não sei se temos conhecimento para fazer isso, mas vamos igno-
rar esse pequeno detalhe no momento —, disse Michael. — Vamos desenvolver
formas alternativas. Alguma outra coisa vem à mente?
— Que tal uma montagem? — Sugeriu Tanny. Podemos comprar algu-
mas cenas velhas em branco e preto, e combinar com algumas tomadas em
cores — algumas do estoque, algumas que vamos gravar — e editar tudo numa
montagem, criando um efeito geral.
— Talvez possamos passar tudo isso numa parede de monitores, voltando
ao que eu disse antes —, disse Boner.
— É —, disse Tanny —, e teríamos um monte de imagens diferentes
passando simultaneamente no fundo do estande, criando um todo pulsante,
energizado.
— Ôooo! — exclamou Hoona. — Gosto disso.
Michael escreveu simplesmente Montagem. — Vamos tentar ainda outro
ângulo disso. Vamos ver isso do ponto de vista dos usuários. Alguém já usou
equipamentos do tipo que a Exerific produz?
177
— Eu usei —, disse Tanny. — Quando morei em Nova York, as ruas eram
bastante perigosas — onde eu vivia eram. Então num inverno comprei uma
bicicleta ergométrica.
— E como era?
— Monótono. Se você quer saber a verdade.
— É —, disse Hoona —, sabe, o problema é que você nunca sente que
está realmente experimentando a atividade que essas máquinas supostamente
devem simular. Quero dizer, seus músculos podem estar trabalhando como se
você estivesse andando em uma bicicleta real, mas seu cérebro nunca tem a
impressão de que você está indo a algum lugar. Normalmente, eles fornecem
um minúsculo mostrador de cristal líquido, que informa quantos quilômetros
você teria percorrido se estivesse realmente indo a algum lugar, mas não é muito
satisfatório.
— É, tentei assistir TV —, disse Tanny —, o que ajudou. Mas, sabe, lá
está você assistindo o noticiário ou uma comédia relaxante enquanto se esfalfa
em sua rotina de exercícios... — Ela pensou por um momento. — É uma dis-
tração, não uma motivação. É alguma coisa para ajudá-lo a agüentar, não para
envolvê-lo mais naquilo que está fazendo. Entende?
— Acho que sei o que você está querendo dizer —, disse Michael.
— Se eu estivesse em uma corrida de bicicletas real —, ela continuou —,
estaria tanto física quanto mentalmente envolvida. Eu ia querer ganhar. Mas
quando você usa uma Exerific ou similar, não há muita graça nisso. Não há
linhas de chegada, platéias aplaudindo.
— E se... — ia dizendo Boner.
— O quê?
— E se fizermos alguma coisa com o equipamento da Exerific?
— Alguma coisa?
— É, quero dizer, e se simularmos com vídeo uma corrida real de bicicle-
tas? Ou uma competição de esqui? No vídeo teríamos grandes paisagens, uma
linha de chegada, multidões gritando e tudo o mais.
— Continue falando.
— Vídeo subjetivo —, disse Tanny. — Teríamos que filmar do ponto de
vista do usuário...
— Certo, e teríamos que sincronizar a velocidade do vídeo com a veloci-
dade com que o usuário pedalasse a bicicleta. Faríamos um sistema interativo
—, disse Boner. Deveríamos pôr um monitor na frente da Exerific e fazê-lo de
tal forma que realmente parecesse que o usuário estivesse pedalando pelos cam-
pos ou remando num lago ou o que for.
— Você quer dizer —, disse Redmeat —, que se eu pedalar mais rápido, o
vídeo passa mais rápido?
178
— É. E podemos até ser capazes de fazer com que pareça que estão ultra-
passando outros ciclistas.
— Como se estivesse realmente ganhando —, acrescentou Tanny.
— Podemos fazer isso? — Perguntou Hoona. — É tecnicamente possível?
— Qualquer coisa é tecnicamente possível —, disse Tanny. — É uma
questão de tempo e orçamento.
— Bem, não há nada no momento, nada comercialmente disponível —,
disse Boner. — Quero dizer, há reprodutores de laser disk, drivers de CD-ROM
e diferentes tipos de processadores gráficos, mas nada que esteja pronto na pra-
teleira de uma loja e que faça o que estou falando. Não pela quantia que o
cliente tem para gastar. Por outro lado, tenho um software em meu Mac de casa
que poderia ser adaptado...
Ele estava olhando na direção de Michael, mas vendo diagramas
esquemáticos, fios, circuitos integrados, resistores, capacitores, portas de I/O,
DIP switches e talvez muito mais.
— E acho... —, disse Boner —, que poderia construir algo que faria isso.

Uma semana depois eles tinham montado uma gambiarra para demons-
trar a idéia.
Tanny e Redmeat saíram da cidade e encontraram uma alameda quieta e
reta. Alugaram uma cadeira de rodas, e Tanny sentou na cadeira com a câmera
no ombro e o gravador no colo enquanto Redmeat a empurrou pela alameda
(uma forma barata de realizar gravações em movimento com suavidade, sem
solavancos, dispensando o aluguel de um carrinho específico e todo o aparato
de uma Steadicam). Red empurrou até perder o fôlego, cerca de oitocentos
metros. O único problema foi que tiveram que fazer a gravação três vezes, por-
que os carros sempre paravam para perguntar se eles precisavam de ajuda.
No estúdio, com um fundo infinito azul, eles colocaram uma bicicleta de
corrida sobre rolamentos. A bicicleta estava suspensa a partir do teto, por fios, e
os rolamentos sob os pneus estavam ligados de forma que, ao pedalar, girava
não só a roda traseira, mas também a da frente. Michael vestiu-se como ciclista,
com capacete e calção, e usou um número nas costas. Subiu na bicicleta e peda-
lou em velocidade constante, enquanto Tanny e Redmeat gravaram a partir do
ponto de vista de um ciclista que estivesse atrás. Na apresentação, usando um
switcher e uma técnica chamada chroma key, eles combinariam as duas imagens:
de Mike na bicicleta e da estrada no campo para fazer com que parecesse que
havia uma corrida em andamento.
Enquanto isso, eles tinham pedido a Ken Sonders que lhes emprestasse
uma bicicleta ergométrica da Exerific. Boner montou uma caixa que controla-
ria a velocidade de reprodução da fita de vídeo proporcional à velocidade da
179
polia da bicicleta ergométrica. Ele comprou um transdutor, um dispositivo que
converte o movimento da polia girando em um sinal elétrico, e com um cabo
acoplou o transdutor no eixo da polia à caixa de controle. A caixa de controle,
então, comandaria o reprodutor de vídeo, fazendo com que a fita passasse rápida
ou lentamente. Isso foi possível com algumas pequenas adaptações no reprodutor
profissional que usavam. Então, quanto mais rápido alguém pedalasse, mais rápi-
do giraria a polia e mais rápido o reprodutor passaria a fita. Se pedalasse mais
lentamente, o reprodutor de vídeo também diminuiria a velocidade da fita, simu-
lando a mudança de velocidade. Eles colocaram um grande monitor à frente da
bicicleta ergométrica e, lá estava: chamaram o sistema de videobike.
A primeira vez em que Michael experimentou, ficou fascinado. — Uáu,
isso é ótimo. Uma bicicleta virtual.
Em velocidades baixas a imagem piscava, pois percebia-se cada um dos
quadros da imagem do vídeo, mas Boner afirmava que poderia suavizar eletro-
nicamente o efeito.
— Sabe, isso pode levar a muitas possibilidades —, disse Michael.
— Oh, sim —, disse Tanny. — Seria possível simular uma corrida pelo
parque Yosemite, ou pela praia, ou através dos Alpes.
— Visualmente, poderia ser qualquer trecho linear —, disse Boner. —
Qualquer paisagem em que pudéssemos fazer uma tomada contínua, de ponto
a ponto.
— É —, disse Michael —, pensando nos aspectos técnicos envolvidos. —
Conseguir essa gravação perfeitamente contínua pode ser, vamos dizer, um de-
safio. Mas não é impossível.
— Nem teria necessariamente que ser um passeio pelo campo —, disse
Tanny. — Poderia ser um passeio pela cidade. Através de Paris. Ou por
Manhattan.
— É, para saber quanto você poderia durar antes de ser atropelado por
um táxi.
— Isso! Inventar um jogo! É!
— Que tal uma perseguição entre polícia e bandidos? — Disse Redmeat.
— E se simulássemos a Tour de France?
— É, isso seria demais!
— Bem, vamos com calma, devagar com o andor —, disse Boner. — Para
fazer uma corrida ao invés de apenas um passeio pelo parque, teríamos que
processar mais de um sinal de vídeo. Porque seria necessária uma fonte de vídeo
para o cenário, mais uma alimentação para cada um dos corredores. Para isso
seria necessário um processamento muito maior, mais inteligência artificial para
os competidores virtuais. Seria definitivamente um desafio! — Ele fez uma pau-
sa. — O que não significa que não possa ser feito, é lógico.
180
Ainda sentado na videobike, Michael colocou a mão no queixo e ficou lá
pensando por um momento. — Se eles gostarem, vamos pedir ao advogado que
faça uma carta para que eles e nós assinemos deixando claro que possuímos
todos os direitos sobre a videobike, inclusive o nome. Qualquer hardware ou
software que criemos para isso será de nossa propriedade, e não deles.

A reunião da Três-E para o Chechman ocorreu sem qualquer problema.


Houve alguns pequenos furos, mas nada desastroso. Michael estava por perto
durante todo o tempo e mobilizou todo o pessoal da Caverna para que ficasse
de plantão e checasse o andamento de diversas partes da logística. Mas na maior
parte do tempo, ele quis ficar nos bastidores e deixar Babe lidar com os peque-
nos problemas que apareceram. Ele fez com que ela fosse o centro, e se Tanny
tivesse uma pergunta, ele fazia com que ela se entendesse com Babe. Ele fez com
que Babe fosse o centro nervoso, e só tomou a frente quando ela estava tendo
problemas sérios. Ele só teve que intervir duas vezes, a primeira em uma confu-
são com um dos hotéis em relação ao pagamento, e a outra, quando um dos
participantes estava tentando intimidá-la para que ela conseguisse um quarto
mais caro para ele. Foi o batismo de fogo de Babe, e ela saiu dele sem queima-
duras, embora um pouco chamuscada.
Na tarde do encerramento, enquanto Redmeat estava desmontando os
audiovisuais, e Michael e Babe estavam conferindo a lista de tarefas a serem
feitas na fase de desmontagem, Peter Chechman aproximou-se de Michael e lhe
estendeu a mão.
— Um trabalho extremamente profissional. Obrigado.
— Bem, eu é que agradeço. Na verdade é Gwen que merece todo o crédi-
to. Ela esteve encarregada da logística.
— Bom trabalho —, Peter disse a ela. — Achei que tudo correu muito
bem.
Babe começou a corar. Ela não sabia como lidar com o cumprimento.
Ficou tão embaraçada que pediu desculpas e foi checar alguma outra coisa.
— Então é verdade o que ouvi, que você trabalhava na Barkes & Collwin?
— Peter perguntou a Michael.
— Por alguns anos, sim.
— Que bom que você saiu.
— Por quê?
— Você não soube? Eles realmente pisaram na bola com aquele vídeo
corporativo sobre a reorganização.
— Não, não soube. O que aconteceu?
— Foi uma confusão total. Eu estava conversando com um amigo meu no
Cubo e ele disse que eles tiveram três diretores diferentes.
181
— Verdade?
— O primeiro, que trouxeram de Nova York, se envolveu numa discussão
aos gritos com Bromman. E não sei se isso é cem por cento verdadeiro ou não,
mas estão dizendo que Bromman jogou-o para fora da sala na base da violência
física.
— Uáu.
— O segundo... qual era o nome dele? Começa com T.
— Barney Tillman.
— É, Tillman assumiu e tentou conduzir as coisas, mas ele não sabia o que
fazer e acabou numa grande confusão. Então eles trouxeram um terceiro dire-
tor, que não seguiu o roteiro ou o reescreveu ou alguma coisa parecida. Seja o
que for, acabou com um grupo de sapateadores ao longo de todo o vídeo.
— Sapateadores?
— Sapateadores. Eles sapateiam e cantam os nomes das novas unidades de
mercado e sapateiam novamente. É terrível. Completamente terrível. Não há
quase nenhuma informação útil. É apenas um amontoado de frivolidades boni-
tinhas, e ninguém põe as coisas em prática. Eles enviaram alguma coisa em
torno de mil cópias desse vídeo e ninguém põe as coisas em prática.
— E aposto que a conta foi astronômica —, disse Michael.
— Ah, essa é a melhor parte — ou a pior, acho. É, a conta supostamente
passa de um milhão de dólares, e Bromman está tão enfurecido que ele está se
recusando a pagar.
Michael abriu a boca. — Ele está fazendo a agência engolir o prejuízo?
— É. Bem, ele provavelmente vai acabar pagando uma parte. Mas mesmo
que a Barkes absorva todo o custo, todo mundo sabe da história, todo mundo
está com medo de usar os serviços deles agora. Soube que mesmo a conta de
propaganda está em perigo.
Então Michael começou a gargalhar alto. Ele batia palmas.
Embora não desaprovasse, Peter Chechman lançou um olhar questionador
a Michael, intrigado pela razão do homem estar tão feliz.

Num dia daquele verão quando Michael chegou à sua casa encontrou sua
mulher na sala de estar com o nariz enfiado num livro e a mesinha para o café
lotada com mais livros, todos com a monótona e barata capa dura típica de
livros de biblioteca, com inscrições em tinta branca, assim como pilhas de
cópias de artigos de revistas. O livro à sua frente tinha o título Aplicações
Pneumáticas Básicas e Avançadas.
— O que está acontecendo, você está cansada de romances?
— O headhunter me telefonou hoje. Tenho uma entrevista para um em-
prego.
182
— Excelente! Qual é a empresa?
Ela lhe disse o nome, mas Michael não a conhecia. O negócio principal da
empresa é equipamentos pneumáticos, mas eles também estão envolvidos em
movimentação de materiais e extrusão de alumínio.
— Legal.
— Guarde o comentário até ouvir a faixa salarial.
— Qual é?
— Mais do que eu ganhava na Três-E.
— Muito legal.
— O cargo está vago há quase um ano. O cargo seria o de vice-presidente
de marketing. Bons benefícios. Muitas viagens, o que, você sabe, não me excita
mas também não me aborrece. Eles têm alguns negócios internacionais interes-
santes. E eles vão oferecer um acordo em que, se não conseguirmos vender a
casa em seis meses, eles a comprarão de nós.
O contentamento de Michael cessou. — Mas onde fica essa empresa?
— Cleveland. E não fique emburrado.
— Desculpe-me, Regan, mas por que você está considerando um trabalho
como esse?
— Cleveland tem alguns subúrbios muito bonitos.
— Estou certo que tem, mas eles ficam em Cleveland. O que significa que
não estão em Bridgeford. Você não está esquecendo que eu tenho compromis-
sos aqui?
— O que você espera que eu encontre em Bridgeford? Quero dizer, uma
vez que você descarte a Três-E... Michael, ninguém por aqui vai oferecer nada
que pudesse me interessar. Eu teria que esperar anos pelo tipo de trabalho que
quero.
— Tenho uma empresa aqui que eu estou tentando tocar!
Agora ela lançou o olhar: Seja sério. — Meu salário inicial teria seis dígitos.
— Se você me der alguns anos, posso chegar a ganhar essa quantia —,
disse ele.
— Nós não temos alguns anos! Não podemos sustentar esta casa, Ok?
Não depois que meus benefícios acabaram. Você entendeu?
— Honestamente, Regan, estamos na iminência de alguma coisa, sabe,
realmente boa...
— Você está tocando uma operação proletária. Vamos encarar. É proletá-
ria, Ok?
Ele piscou para ela. — Eu não a chamaria proletária.
Ela se levantou, sem retrucar, apenas contornou o sofá, virou as costas para
ele como se estivesse se controlando para não explodir, o que realmente fazia.
Finalmente ela disse: — Você percebe que se tivermos que vender esta casa ao
183
preço corrente do mercado, pode ser que não consigamos cobrir o saldo da
hipoteca?
— Temos que viver nossas vidas em torno de um pagamento de hipoteca?
— O que mais vamos fazer?

Eles tiveram a mesma discussão, em voz alta, pseudo-racional, durante os


oito dias seguintes. Eles bateram nos mesmos pontos, cada um diversas vezes, e
não chegaram a lugar algum.
Entre as discussões, Regan se preparava. Ela leu tudo que conseguiu en-
contrar sobre a empresa. Foi à biblioteca da escola de administração e leu o
relatório anual da empresa. Usou o computador da biblioteca para fazer uma
pesquisa no banco de dados e leu todos os artigos que encontrou. Ela os procu-
rou na Value Line, na Moody’s, na Hoover’s e na Dun & Bradstreet. E decorou
os nomes de todos os diretores da empresa. Montou uma planilha no computa-
dor de casa e brincou com alguns números que encontrou. Ela pensou que
linha de ação recomendaria, se tivesse uma posição de responsabilidade como
produtora de alumínio extrudado.
Quanto mais se preparava, mais poderosa se sentia. Ela tinha certeza de
que eles iriam querer saber se ela tinha alguma pergunta, e então transcreveu
cuidadosamente algumas questões que fariam com que ela parecesse inteligente
mas não arrogante. Pensou no que eles provavelmente iriam perguntar-lhe, e
ensaiou as respostas. Uma vez que descobrissem como ela era esperta, profunda,
e capaz, iriam lhe oferecer o emprego em uma salva de prata. E ela o colocaria à
frente de Michael.
Ela passou a noite imaginando se ele iria segui-la, e o que aconteceria se
não o fizesse. Mas lá pelas três ou quatro horas da manhã ela se convenceu de
que no fim ele tomaria a atitude que era, não somente a mais esperta, mas a que
ele tinha que tomar.
Ela o conhecia. Ele estava se enganando, e sua empresa iria afundar. Este
ano, ano que vem — vai afundar. Ela estava contente por ele ter pedido conse-
lhos a ela, mas não tinha jeito de ela mergulhar nas fantasias dele. Essa era mais
uma de suas nobres cruzadas, como a carreira de diretor, e como foi no caso
desse esforço fatídico, ele iria se consumir perseguindo-o. Então ela teria muito
dinheiro, dinheiro estável e ele, no fim, iria para onde ela fosse. Ele encontraria
um emprego numa agência de propaganda local e estaria lá para ela. Porque se
não fosse, o que mais lhe restaria fazer?

Logo cedo na manhã do dia marcado, Regan DiGabriel estava sentada à


frente de sete homens brancos com faces de pedra, todos usando óculos, ternos
escuros com gravatas listradas, camisas brancas e de barba feita. Parecia que
184
todos freqüentavam o mesmo barbeiro. Eles de um lado da mesa, e ela do ou-
tro, sentados em cadeiras colocadas distante da borda, de forma que pudessem
todos olhar para ela.
— Bem, Sra. DiGabriel, por que não começamos com a senhora nos fa-
lando um pouco sobre si —, sugeriu o homem que estava no centro.
Ela começou: — Bem, eu me graduei com louvor pela... — Depois de
toda aquela preparação, ela não conseguia se lembrar em que faculdade havia se
formado. — Pela...
— Em seu currículo diz... Wharton?
— Sim, lá defendi minha tese de pós-graduação. Onde consegui meu MBA.
Mas me graduei em administração de empresas em... hum... Williams! Sim,
Williams. Ela olhou para o lado e procurou sorrir. — Desculpe-me, faz mais de
quinze anos que passei por isso. Uma entrevista como esta, quero dizer, e acho
que estou um pouco nervosa. — Ela abriu um sorriso mais largo, o que normal-
mente funcionava com os homens.
Os olhos que a examinavam através dos óculos não mostraram simpatia,
nenhum caloroso “não há problema”.
Ela contou a eles sobre o que fez na Três-E. Suas responsabilidades. Suas
promoções. Suas realizações. Depois de meia hora, eles começaram a disparar
perguntas. O que você faria se descobrisse que um cliente em um país estrangei-
ro tentasse usar de corrupção e receber propina de um vendedor que estivesse
sob sua responsabilidade? Você poderia dar um exemplo do método Bayesiano,
conforme usado em estimativas estatísticas? Você alguma vez aplicou a teoria
dos jogos em suas análises de marketing e, se usou, como foi? Duas horas disso
e ela não conseguiu impressionar.
No final, o homem no centro empurrou os óculos mais para cima no nariz
e disse: — Bem... obrigado, Sra. DiGabriel. Por favor, mande-nos a conta de
suas despesas de viagem.

Exausta, ela voou de volta a Bridgeford. Michael estava em casa.


— Como foi? —, perguntou ele.
— Disse a eles que não estava interessada.
Ela pôde ver o alívio, só pelo jeito como ele abaixou levemente o queixo e
nada mais disse.
Depois do jantar ela esperou até que Michael estivesse na cama e então
apanhou um de seus velhos livros-textos e procurou em Método Bayesiano. —
Droga. — Ela havia errado. Confundiu com teste Bernoulli. Ela enxugou uma
lágrima com as costas da mão e foi para a cama. De manhã, juntou todas as
cópias de artigos de revistas sobre a empresa, tudo sobre alumínio extrudado, e
jogou no lixo.
185
Aproximadamente depois de quinze minutos de apresentação na Exerific,
Tanny viu em seus rostos que eles tinham gostado. Boner instalou a videobike
ao lado da mesa de conferências, e ela estava funcionando perfeitamente. Babe
estava na bicicleta, com suas lindas coxas ligeiramente brilhantes de suor, peda-
lando, e o vídeo estava na frente dela movendo-se proporcionalmente às peda-
ladas, “ultrapassando” outros ciclistas que apareciam ao longe na estrada, cres-
ciam e saíam do campo de visão à medida que Babe os deixava para trás, virtu-
almente. Eles editaram a fita para durar uma hora. Michael estava no switcher
portátil, posicionado atrás do ombro de Babe. O switcher misturava o sinal do
vídeo da pista no campo ao sinal do outro vídeo, dos corredores com suas
bicicletas. Com movimentos de mão no switcher, Michael fazia parecer que
Babe estava competindo com outros ciclistas e ganhando a corrida.
— Agora, é claro que —, Michael avisou o pessoal da Exerific —, na
época da exposição, teremos um software que fará o que eu estou fazendo,
mantendo o controle da posição relativa dos corredores e coordenando os dife-
rentes sinais de vídeo.
— Então será como em uma corrida real —, disse Ken Sonders.
— Oh, pode apostar —, disse Michael.
— Mas não haverá nada como bloqueio ou estratégia —, disse Tucker, o
vice-presidente de marketing e vendas, um homem que combinava a elegância
formal de um estudante uniformizado com um ar casual. Vestindo uma camisa
branca feita sob medida, muito amarrotada, e velhos mocassins esportivos mar-
rons, ficou de lado, com a mão no queixo, meio que escondendo um sorriso.
— Não, isso exigiria um programa de inteligência artificial —, disse Michael
—, e isso está além do que podemos fazer no momento.
— É só para uma exposição —, Sonders disse a Tucker.
— Eu sei, assim está bom —, disse Tucker. — Acho isso ótimo. Tinha
visto simulações com vídeo antes e tinha visto jogos de computador sobre cor-
ridas de bicicletas. Mas nunca tinha visto os dois combinados de forma a ter
vídeo realista em tela grande e o aspecto lúdico. Muito impressionante.
Com este endosso, Michael sabia que a venda estava quase no bolso. Qua-
se. Todos estavam felizes, exceto Mindy Markovic. Ela estava com a testa con-
traída. Somente Markovic parecia não ter se impressionado. Ela estava um pas-
so atrás de Tucker, e um tanto insatisfeita. Mas Tucker estava sorrindo aberta-
mente, e então Sonders também começou a rir. Sim, estava parecendo bom.
Então Tanny arruinou o clima perfeito.
— Bem, o que você acha? — Perguntou ela. — Quero dizer...
Que erro dizer isso. Eles estavam hipnotizados, e sua pergunta, simples e
idiota, quebrou o encanto. Tucker e Sonders gostaram da coisa, e agora Tanny
estava pedindo para que pensassem, para que fossem racionais, e subitamente
186
Markovic dava um passo à frente, abria a boca, pronta a dar sua opinião, que
provavelmente estaria longe de ser elogiosa.
— Quero dizer —, disse Tanny, apontando um ponto em um canto da
tela, — será que devemos acrescentar um mostrador indicando os quilômetros
percorridos?
Recuperação brilhante da parte de Tanny, mas tinha parado o coração de
Boner por um momento.
— Dá para fazer isso? — Perguntou Tucker.
— Você consegue fazer isso? — Michael perguntou a Boner.
— Bem... sim, posso fazer.
— Você gostaria que acrescentássemos? — Perguntou Michael.
— Lógico. Seria ótimo —, disse Tucker.
—Tanny, você poderia tomar nota?
Era uma técnica de fechamento que Michael estava utilizando, embora
não fosse a que pretendia aplicar. Ele pressionava a Exerific para especificar suas
preferências, e quanto mais especificavam, mais a venda caminhava para o fe-
chamento. Michael até conseguiu que eles discutissem entre eles sobre o que
queriam.
— Sabe, não estou muito convencido se devemos encher a tela com um
monte de números —, disse Sonders.
— É, mas seria legal mostrar os quilômetros percorridos e talvez o ritmo
cardíaco —, disse Tucker. Talvez cada um deles em um canto superior? Certo?
— Bem, lógico, por que não? — Disse Sonders.
— Mindy, o que você acha? — Perguntou Tucker.
— Acho que a tela é pequena demais —, disse Markovic.
— Podemos instalar um monitor maior —, retrucou Michael.
— Pode? — Perguntou Tucker.

— Ah, lógico, só trouxemos esse porque era mais fácil de transportar. Você
gostaria de um maior?
— Lógico.
— Vou anotar —, disse Tanny.
— Então, quem vai ser nosso contato principal? — Perguntou Michael.
Era uma pergunta arriscada, devido às implicações políticas, mas ele deci-
diu fazê-la. Tecnicamente, Markovic deveria ser o contato principal deles, por-
que era ela a encarregada das providências gerais para a exposição. Mas foi Sonders
quem deu a idéia.
— Espere um minuto —, disse Markovic. — Você não vai conversar com
a Barkes & Collwin antes de decidirmos sobre uma das propostas?
Sonders olhou para Tucker e Tucker finalmente falou: — Eles já não apre-
sentaram as idéias deles?
187
— Sim, mas pedimos algumas modificações e eles ficaram de retornar —,
disse Markovic.
— Não gostamos do que eles trouxeram —, esclareceu Sonders. — Foi
por isso que pedimos modificações.
— Ainda assim, devemos a eles e a nós mesmos a oportunidade de ver
como ficou, sabe, antes de tomarmos uma decisão.
— Obviamente, isso é com vocês —, disse Michael. — Mas tenho que
adverti-los que se querem isso em tempo para a exposição, realmente temos que
tomar providências agora. Já estamos apertados quanto ao prazo.
Tucker assentiu e então olhou para Markovic. — Vou ser honesto com você.
Não gostei da Barkes & Collwin. Quem era aquele cara que eles enviaram?
— Barney Tillman —, disse Markovic.
— É, ele não me impressionou muito bem —, disse Tucker. — E parece-
ram terrivelmente caros. — Ele olhou para Tanny. — A propósito, quanto isso
vai custar?
— Vai ficar dentro de seu orçamento.
— E quanto é isso? Perguntou Tucker.
— Podemos fazer por cerca de cento e vinte —, disse Michael.
Markovic pulou ao ouvir a cifra. — Mas não é esse o nosso orçamento.
Está um pouco acima do orçamento.
Sonders veio em defesa. — Eu disse cem mil como parâmetro.
— Bem, espero que saia de seu orçamento, não do meu —, disse Markovic.
— Uma grande parte da despesa é a produção de vídeo —, explicou
Michael. — Porque planejamos gravar na Nova Inglaterra com a folhagem de
inverno e o investimento em produção é alto. Se gravarmos localmente...
Tucker acenou com a mão. — Não, assim está bem. Sei quanto custa para
se gravar comerciais de televisão. É por isso que não os gravamos com tanta
freqüência nesta empresa. Presumi que o custo disso seria similar.
— De fato —, disse Michael —, você pode facilmente gastar meio mi-
lhão, um milhão ou mais num comercial para uma rede de televisão.
— Certo —, disse Tucker —, então você está nos oferecendo um bom
negócio. É isso que está querendo dizer?
— Estamos tentando —, disse Michael.
— Certo, mas deixe-me fazer outra pergunta: Qual seria o custo para
vocês fazerem o mesmo tratamento em vídeo para todos os nossos produtos?
— Todos os seus produtos?
— Não apenas para a Bike-a-Rific —, disse Tucker —, mas também para
o Ski-Rific, para treinamento em corridas de cross-country; o Stair-Rific, simu-
lador de escadaria e nosso Row-a-Rific, a máquina de remo.
Tanny sentiu-se ligeiramente tonta.
188
— Bem —, disse Michael —, vamos nos sentar à mesa que eu vou pegar a
minha calculadora.
À medida que os outros começaram a se dispersar, ouviu-se a voz resfolegante
de Babe: — Posso... posso parar agora?
— Não —, brincou Tucker. — Você está fazendo um serviço tão bom,
que acho que deveria continuar.

— Duzentos e quarenta e nove mil dólares! — Disse Tanny. Ela e Michael


estavam fora do saguão da Exerific, à luz do sol, sozinhos. — Dá para acreditar?
Teria sido mais, mas no fim Tucker decidiu não fazer o vídeo para todos os
produtos. Apenas a bicicleta e a esteira rolante teriam o tratamento de vídeo
completo. Ainda assim, eles tinham dobrado o valor da venda e Tucker não
poderia estar mais feliz.
— Só espero que seja suficiente —, disse Michael.
— Tem que ser —, disse Tanny. — A melhor parte é que vamos receber a
metade adiantada. Isso deve nos manter longe de problemas por alguns meses.
Os dois estavam esperando por Babe e Boner. Babe estava no banheiro, se
trocando. Boner estava pegando alguns desenhos técnicos com um dos enge-
nheiros da Exerific, para que pudessem modificar o transdutor para cada uma
das novas máquinas.
Tanny puxou a manga de Michael. — Quero dizer uma coisa. Três coisas,
na realidade. Primeira, você foi incrível.
— Obrigado.
— Segunda, eu amo você —, sussurrou ela.
Ele sorriu.
— Terceira, estou com um tesão terrível.
Ele riu. — Dizem que fechar uma grande venda é a maior diversão que
você pode sentir dentro de um terno de executivo.
— Preferia que no seu caso você sentisse tudo isso, mas sem terno, pelado.
— Então podemos nos divertir ainda mais? A logística pode ser um pouco
difícil...
Ela disse com os dentes cerrados: — Michael, estou sentindo que vou
explodir. Nunca antes foi assim. Você tem que fazer alguma coisa.
Ele pensou um minuto. Eles mereciam uma tarde livre, achava ele. Além
disso, Regan estava fora da cidade para outra entrevista de emprego, e não vol-
taria até o dia seguinte.
— Por que não deixamos os outros em Bridgeford e dizemos que vamos
sair para pesquisar locações —, disse Michael. — O que seria quase a verdade.
— Sim, parece bom. Se pudermos esperar até lá...

189
Eles entraram no Motel Ás de Paus aproximadamente às duas horas, e
pegaram um quarto nos fundos para que o carro não fosse visto da estrada.
Tanny era uma mulher selvagem — Ela ficou por cima e cavalgou-o. Gozou
como um homem — rápido — e o abraço apertado dela ao chegar ao clímax
levou-o às alturas quando ela gozou. Mas não era suficiente. Ela continuou
em cima, cavalgando-o agora gentilmente, mantendo-o dentro dela e duro. A
segunda vez foi devagar e demorou. E foi barulhento, quando ela finalmente
chegou ao ponto. Ela gemia, pulava em cima dele, tudo estava pulando e
tremendo, os seios, o cabelo dela, a cama, e ela chegou lá antes dele. Ele
deixou que ela descansasse em cima dele por um minuto, depois mudou de
posição e penetrou-a por trás. Ela tinha feito a maior parte do esforço, e ele
ainda tinha muita energia. Ele despendeu a energia bombando dentro dela,
olhando para baixo, para as costas nuas e para as mãos e a cabeça dela no
travesseiro. Quando terminou, ele cuidadosamente deitou por cima, seu pei-
to sobre as costas dela, apoiando a maior parte do peso nos cotovelos. Ele
beijou a parte de trás do pescoço, e o rosto dela, e então percebeu que ela
estava quase adormecida. Ele rolou para o lado, afastou-se e eles dormiram
juntos, se encostando, até que o telefone celular, no bolso do paletó de Michael,
começou a tocar.
— Não atenda —, resmungou Tanny.
— Não, é melhor atender. — Ele pulou da cama e agarrou o paletó do
encosto de uma cadeira, e puxou o telefone. — Nunca se sabe. — Apertou o
botão. — Alô, Archangel Visual.
— Michael?
— Sim.
— Oi, é Peter Chechman da Três-E.
— Sim, Peter, que posso, ah, o que posso fazer por você?
— Tem alguma coisa em vista.
— Oh?
— Um projeto. Um possível projeto. Estava pensando se seria possível nos
encontrar.
— É lógico. Quando?
— Bem, o mais rápido possível. Estou saindo esta noite e vou viajar por
quase duas semanas. Então seria bom encontrá-lo esta tarde, se der para encai-
xar em sua agenda.
— Uh... sem problemas. Posso passar aí esta tarde, se você quiser.
— Seria ótimo. Não tenho nenhuma reunião agendada para o resto do
dia, e vou trabalhar em meu escritório. Apenas ligue para o meu ramal quando

190
chegar à recepção, que eu providencio para que você suba.
— Estarei aí em aproximadamente quarenta e cinco minutos.
Ele desligou o telefone e o colocou de volta no bolso do paletó. Virou-se e
olhou para ela, nua; pernas ligeiramente abertas; o triângulo de pelos negros;
pele branca e quente; a barriga pequena; peitos pequenos com grandes bicos
morenos; braços ao lado do corpo; dedos ligeiramente curvados; cabelos pretos
longos e espalhados pelo travesseiro; seu rosto bonito; seus olhos castanhos olhan-
do para ele.

Peter Chechman estava no edifício K, que abrigava a agora finada divisão


QRM. O edifício K tinha perdido a recepcionista, como todos na sede da Três-
E, exceto o Cubo. Na entrada, Michael encontrou a familiar mesa vazia em um
saguão vazio com instruções para que os visitantes telefonassem para o ramal
desejado. Michael telefonou e falou com Chechman.
— Apenas suba —, disse Chechman.
— Mas alguém não tem que me deixar entrar?
— A porta deve estar aberta. Tente. Eu o encontro no hall dos elevadores.
De fato, quando Michael olhou para a porta encontrou um pequeno pe-
daço de madeira impedindo que ela trancasse. Ele entrou e pegou o elevador
para o terceiro andar. Chechman estava lá.
— Bem, imagino que a velha cultura corporativa esteja mudando —, dis-
se Michael. — Desde o tempo em que trabalhei com a Três-E, vocês sempre
foram rigorosos com a segurança.
— É uma necessidade! — Disse Chechman. Os empregados por toda a
Três-E —, explicou ele —, estavam cansados de ter que interromper o que
estavam fazendo para admitir visitantes, e passaram a prender fita nas fechadu-
ras ou colocar listas telefônicas entre a porta e o batente. Não importava que
terroristas ou espiões industriais pudessem entrar e sair à vontade, não importa-
vam os memorandos e discursos contra tais práticas, o novo sistema era muito
trabalhoso, e as pessoas estavam sabotando.
— E é o que deveriam fazer —, continuou Chechman. Ele segurou o
braço de Michael. — Sabe, no fundo sou um radical.
Quando eles chegaram ao escritório, Chechman perguntou: — Você sabia
que eu agora tenho um novo trabalho?
— Não, não sabia.
Chechman recostou-se em sua cadeira e pressionou as pontas de seus dedos
esticados. — Sou o novo ministro da cultura. — Sorriu ele. — Cultura corporativa.
O propósito de meu trabalho é acelerar o ritmo de aprimoramento.
— Acelerar o ritmo de aprimoramento?

191
— Sim. Melhoria de desempenho.
— Eu pensava que esse trabalho fosse de Bromman.
Peter riu. — Sim, bem... realmente, é trabalho de todos. Mas isso não
importa. O que eu realmente sou é um promotor. Supostamente devo promo-
ver idéias, comportamentos, programas, incentivos — qualquer coisa que ajude
a transformar este paquiderme, este mamute industrial em uma empresa ágil,
esperta como um cavalo de corrida, apta a crescer, em termos de ganhos, e
continuar crescendo durante o século XXI.
— Qualquer coisa que eu puder fazer para ajudar...
— Conhece o Grupo Comercial de Eletrônicos?
— Um dos cinco grupos de negócios formados pela nova organização. É
composto pelo que era a Divisão de Circuitos Impressos e a Divisão de Con-
troles Digitais.Bom! Ao menos não tenho que explicar tudo isso a você. De
qualquer forma, eles estão promovendo uma grande conferência em Atlanta
em novembro próximo. Acabei de descobrir. Sem querer. Estão convidando
gerentes de suas operações em todos os lugares — por todo o país e mesmo do
exterior.
— Para discutir sobre?
— Grupos de trabalho autogeridos. Você sabe o que é?
— São grupos de trabalhadores administrados por eles mesmos. Não de-
pendem de um supervisor para tomarem as decisões do dia-a-dia.
Chechman acenou positivamente. — Está suficientemente perto. De qual-
quer forma, sou um grande fã dos grupos autogeridos. Estamos quase conven-
cendo Bromman, eu diria que ele está noventa por cento convencido, de que
devemos adotar grupos de trabalho. Mas fazer com que o resto da empresa ande
nessa direção é outra história. Você não pode empurrar uma coisa como essa
garganta abaixo das pessoas. Se tentar, eles vão tomar providências para que a
idéia nunca seja bem-sucedida. Você tem que envolver as pessoas, de forma que
a idéia se torne algo que elas queiram fazer. Ok?
— Então o GCE está fazendo uma conferência sobre grupos de trabalho.
O que é ótimo. O problema, um dos problemas, é que eles estão convidando
apenas o próprio pessoal. Você sabe, o resto da empresa que se dane.
— O segundo problema é que eles só estão convidando gerentes. Você não
pode implementar grupos de trabalho só com gerentes. Tem que envolver os
trabalhadores. É essa a idéia. Mas é muito caro, para não mencionar que é
inteiramente impraticável enviar tanto trabalhadores quanto gerentes para
Atlanta. Então eles só estão mandando os gerentes.
— Então temos o terceiro problema. Não haverá qualquer follow-up. Pelo
que posso dizer, não. Eles vão gastar centenas de milhares de dólares para levar
esses gerentes de avião, e vão deixar os gurus fazerem o trabalho. Eles vão
192
incentivá-los com a idéia de grupos de trabalho, mandá-los para casa e nada vai
acontecer. Por quê? Porque quando voltarem ao trabalho, quando estiverem
prontos para fazer alguma coisa, terão esquecido a maior parte do que foi dito
na conferência. Eles não terão as informações críticas naquele momento.
A frustração tomou conta dele, e Chechman inclinou a cabeça para trás,
permanecendo assim um momento até recuperar o controle.
— Estou nesta empresa há vinte e dois anos —, disse ele. Vi isso acontecer
muitas e muitas vezes. Presume-se que pela razão de as pessoas terem sido ex-
postas a uma boa idéia, a idéia foi implementada.
— Tipo da abordagem evangélica —, disse Michael. — Traga as pessoas
ao templo, motive-as com religião, e eles serão automaticamente bons cristãos.
— É isso! — Disse Chechman. — É exatamente isso. Então, alguns anos
depois, alguém percebe que é um pouco mais complicado do que presumiram.
De qualquer forma...
— Finalmente, fui capaz de conseguir alguém que os convencesse a me
deixar gravar os trabalhos. Dessa forma, podemos ao menos mostrar às pessoas
que não foram convidadas o que aconteceu.
— Ok, sem problemas —, disse Michael. — Posso gravar toda a conferên-
cia para você, do começo ao fim, embora... — Ele parou.
— O quê?
— Bem, espero não estar atirando em meu próprio pé ao mencionar isso,
mas se tudo que você precisa é um registro do evento, o departamento de
audiovisuais da Três-E... — A voz de Michael silenciou, porque Chechman já
estava balançando a cabeça.
— Não —, disse ele. — Não, nosso pessoal de AV não vai fazer isso. Eu
me vali deles no passado, em diversas ocasiões. Eles são bons para, sabe, filmes
sobre solda a arco e coisas similares. Preciso que isso seja mais do que um regis-
tro do evento, como você colocou. Preciso que isso venda as idéias dos grupos
de trabalho.
— Ótimo, não precisa dizer mais nada —, observou Michael. Foi um jogo
calculado mencionar o departamento interno de AV, pois sentiu que devia mos-
trar que tinha o melhor interesse de Chechman em mente. Agora ele estava em
suas mãos. — Deixe-me mencionar algumas coisas que me ocorreram, enquan-
to você falava. Embora, talvez, você não queira segui-las, ou talvez não haja
verba suficiente para segui-las. Mas deixe-me expô-las e você será o juiz.
— Antes de tudo, você vai ter todas essas pessoas, essas pessoas dispendiosas
que compõem a gerência, indo para a conferência. Qual será o conhecimento
que terão sobre grupos de trabalho autogeridos quando chegarem?
— A maioria não saberá muito. É por isso que eles vão à conferência —,
disse Chechman.
193
— Por que não pisar no acelerador? Por que não tentar ensinar a essas
pessoas um pouco antes de chegarem? Se eles aparecerem sem saber nada, vão
apenas ficar lá, sentados como uma turma de crianças comportadas à frente do
professor. Se adiantarmos a eles as idéias básicas do conceito, ao menos alguns
aparecerão prontos para fazer perguntas inteligentes, enquanto estiverem na
conferência...
— Enquanto os especialistas estiverem diante deles, ao invés das pergun-
tas surgirem quando já estiverem no avião retornando para casa —, disse
Chechman. É, gosto disso.
— Agora, não estou dizendo que tem que ser um vídeo. Poderia ser um
folheto ou qualquer outra coisa. Mas poderíamos montar um vídeo de cinco
minutos, que cobrisse o básico: o que é grupo de trabalho autogerido? Por que
é importante? O que o conceito significa em termos de seu trabalho no dia-a-
dia? Esse tipo de coisa.
— Então eles assistem ao vídeo e captam o principal da idéia.
— Certo. E uma vez que tiver o vídeo, poderá usá-lo novamente, depois
que a conferência terminar. Você pode encomendar algumas cópias extras, e se
cruzar com alguém que não sabe nada sobre grupos de trabalho, poderá enviar
uma cópia pelo correio.
— Gosto disso. Estava planejando fazer um memorando, mas isso é me-
lhor.
— Quanto à conferência, podemos gravá-la do início ao fim, mas acaba-
remos com horas e horas de filme. Agora, podemos editar tudo em, digamos,
um programa de uma hora. Seria um bom primeiro passo. Mas outra coisa que
você poderia fazer é criar um banco de dados em multimídia sobre grupos de
trabalho.
— Um banco de dados em multimídia? O que você quer dizer com isso?
— Um banco de dados multimídia passaria em um computador, ao invés
de passar num aparelho de vídeo. Teria videoclipes, mas também teria textos e
gráficos, talvez fotografias, como num livro. Nós organizaríamos todo o mate-
rial sobre grupos de trabalho de forma hierárquica. As pessoas poderiam come-
çar com uma visão geral e obter informações detalhadas sobre o que lhes inte-
ressar.
— Então teria mais do que um vídeo da conferência?
— Certo, poderia ser um tratado completo sobre o assunto. Talvez tivesse
uma meia dúzia de casos sobre grupos de trabalho. Talvez tivesse testemunhos
em vídeo de pessoas que pertençam a esses grupos. Talvez contratássemos al-
guns atores e estabelecêssemos um exercício de simulação. De fato, poderíamos
transformar a simulação num jogo ou torná-la interativa. Em outras palavras,
seria como um jogo tipo role-playing em computador, exceto que o assunto
194
seria grupos de trabalho. Faria com que as pessoas se envolvessem ativamente, ao
invés de apenas fazê-las permanecerem lá como espectadores.
— Tanto poderia ser em CD-ROM como pela rede de computadores.
— Intranet —, disse Chechman. — Muito interessante.
Essa foi uma das primeiras vezes em que Michael ouviu o termo “intranet”,
mas não deixou que isso o detivesse. — Podemos fazer de qualquer forma.
Algumas partes contrataríamos, como programação ou computação gráfica. Mas,
com segurança, posso produzi-lo para você.
— Quanto custaria uma coisa assim?
— Bem, por que não planejamos o que será necessário para fazer o traba-
lho com a melhor qualidade possível? Vou estimar o custo, e se acabar saindo
caro demais, podemos tirar alguns enfeites. Ou você poderá reservar uma verba
do orçamento do ano que vem para o projeto.
— Para dizer a verdade —, disse Chechman —, provavelmente não temos
verba para o que você está sugerindo. — Ele novamente pressionou as pontas
dos dedos e assumiu uma expressão pensativa, contraindo as sobrancelhas. —
Por outro lado, as idéias que você trouxe são boas. — Ele colocou o dedo no
queixo e olhou para o teto por alguns segundos, e disse: — Vamos fazer assim:
colocaremos alguns parâmetros. Se conseguirmos montar um projeto sério e
que seja eficaz como meio de ensinar as pessoas e vender a elas a idéia de grupos
de trabalho... bem, de alguma forma, vou arranjar o dinheiro para levá-lo adi-
ante.

Encontrar o carro de Regan na garagem quando chegou em casa foi ape-


nas a primeira surpresa de Michael. Uma calcinha dela estava no chão da cozi-
nha, exatamente onde ele não poderia deixar de notar. Marrom, estilo biquíni,
a favorita dele. Ele parou e pegou-a. Um metro e meio adiante, outra, lilás. A
próxima era uma calcinha preta. Oh, não, ele pensou. A trilha deixava a cozinha
e seguia pela sala de jantar. Um dos sutiãs dela estava pendurado no lustre. As
calcinhas continuavam até a escada e subiam. Regan estava no topo.
Ela parecia a prostituta de seus sonhos. Lingerie vermelha. Meias e liga,
sem calcinha. O monte de pêlos loiros dela estava com reflexos vermelhos. Em
cima, uma pequena camisola transparente. Ela tinha uma garrafa de champa-
nhe na mão direita e uma taça na esquerda.
— Conseguiu o emprego? — Perguntou ele.
Ela desceu um degrau — seus movimentos estavam fluidos, um pouco
demais. Ele notou que a garrafa de champanhe continha apenas um terço. —
Quem se importa.
Ele subiu a escada, com um pouco de medo que ela caísse. Parou um
degrau abaixo dela, o que os colocou face a face.
195
— Como foi a entrevista?
— Horrível. — Ela encolheu levemente os ombros. — Quem se importa.
Consegui antecipar o vôo de volta e tomei uma decisão no avião. Quero ter
um bebê.
— Quando?
— Bem, gostaria de começar a trabalhar nisso imediatamente.
— Pensei que estivesse tomando a pílula.
— Parei de tomar. Há alguns meses. Não estávamos... você sabe, fazendo
sexo.
— Então você deixou. E agora quer... um bebê?
— Certo. — Ela passou os braços ao redor do pescoço dele, e o beijou.
Depois o beijou novamente, um longo beijo, e a língua dela entrou forte e
fundo na boca dele. Ele a aceitou com os olhos arregalados. Quando ela tirou a
língua, disse: — Você me conhece. Uma vez que tenho algo em mente...
— É, bem... suponho que poderíamos conversar a respeito disso.
Ela começou a desafivelar a cinta dele. — Olhei no calendário e fiz alguns
cálculos... — Ela estava abrindo o zíper da calça dele.
— Sabe, para estimar quando estaria ovulando. — Ela levantou a cabeça e
sorriu quando as calças dele caíram. — E adivinha!
— Você está ovulando.
Ela sentou no último degrau, deitou para trás, apoiando-se nos cotovelos,
esticou as pernas abertas. — Que tal, garotão?

Nada aconteceu. Eles tentaram por meia hora e ele não conseguia uma
ereção. Ele não estava certo se queria ou não, mas tinha medo de não querer.
Finalmente, depois de uma estimulação oral, ele foi suficientemente homem.
Depois disso, ele passou a ter problemas para dormir à noite. Não era
apenas porque a Caverna tinha de um dia para outro ficado com excesso de
trabalho. Claro, eram suas preocupações com Tanny e com sua mulher, com o
que aconteceria se ela ficasse mesmo grávida. Aproximadamente às três da ma-
drugada de uma noite ele chegou a uma decisão.
Ele decidiu contar a ela, e perguntou se poderia falar com ela depois do
trabalho. Ela estava ocupada com os preparativos para a Exerific e ele não queria
interrompê-la. Ela lembrou-o de que tinha que pegar o Jason na creche, mas
disse que telefonaria para a Sra. Haggart, para ver se ela poderia pegá-lo. Uma
hora depois ela enfiou a cabeça pela porta entreaberta do escritório dele para
dizer que sim, ela poderia tomar um drinque ou o que fosse. Quando os outros
saíram naquele dia, ele fechou a porta e foram para a rua.
— Está uma linda tarde —, disse ele. — Vamos andar ao longo do rio.
— Certo.
196
Eles andaram silenciosamente pela Avenida Truman, escura pela sombra
dos prédios. O sol interpunha faixas douradas nos vãos dos prédios ou ruas
perpendiculares. Em algum ponto, quase inconscientemente, ele escorregou
sua mão na dela. Quando chegaram ao fim da Avenida Truman, alcançaram o
ar livre, quente e brilhante, e lá estava o rio.
Michael localizou um banco vago, de frente para a água. Ele a conduziu
para lá e sentou-se com ela, sua mão ainda segurando a dela. Por um minuto,
nada disse. Ele tinha brincado com as palavras durante toda a tarde, experimen-
tando várias formas, tanto que agora não sabia como começar.
— Existe alguma coisa sobre o que você queria falar? — Tanny perguntou.
— Sim, há. — Ele olhou por mais um longo momento para o rio verde e
brilhante. Então disse: — Tanny, você sabe que eu amo você.
Ela apertou a mão dele. — Eu também amo você.
— Eu queria que você soubesse disso. Eu realmente amo você.
Ela sorriu e encostou a cabeça no ombro dele. Então ele mudou de posição
para ver melhor o rosto dela.
— Aconteceu —, disse ele. — Sei que não deveria, mas aconteceu. Imagi-
no que porque trabalhamos juntos, porque somos sócios e tudo, apenas ficou
mais forte.
— Temos passado juntos por um bocado de coisas —, disse Tanny. —
Sinto como se você fosse o meu melhor amigo.
Ele abaixou os olhos. — Obrigado. Eu sinto a mesma coisa.
Ela alcançou o rosto dele e ajeitou alguns fios de cabelo soltos sobre a
orelha e os colocou de volta no lugar, dizendo: — Penso em você todas as
noites. Penso em como seria ter você do meu lado, apenas estar com você...
— Eu também penso em você, mas... bem, você sabe a situação.
— Oh, Michael. Eu sei que é duro para você. Sei que vai ser duro, quero
dizer, deixá-la. Mas vou ajudá-lo. De todas as formas que puder. Qualquer coisa
que você precisar... — Ele tinha abaixado os olhos novamente. — Realmente,
estarei ao seu lado. Vamos superar.
— Não.
— O quê? Qual o problema?
— Não, Tanny. Acabou. Tenho que terminar. Lamento.
Foi como se ele fosse uma cobra que a tivesse acabado de picar. Ele viu isso
no rosto dela.
— Não quero magoar você, mas... Você sabe que se eu não fosse casado,
pediria você em um minuto. Mas casei com Regan. Em muitos aspectos deseja-

5 WASP: White Anglo-Saxan Protestant significa Anglo Saxã, Branca e Protestante (N. do T.).

197
ria não ter casado. Mas casei com ela e a amo. Talvez não tanto quanto amo
você, mas casei com ela antes. Ela é arrogante, ela é uma WASP5 esnobe, mas
precisa de mim, especialmente agora que perdeu o emprego. De qualquer for-
ma, ela quer um bebê, Tanny, e se ficar grávida e eu a deixar, bem, não consigo
ver como isso pode terminar bem.
Tanny tinha cruzado as pernas e virado o corpo, afastando-se dele no ban-
co, mas Michael continuou falando, apenas pondo para fora.
— Eu simplesmente não poderia lidar com um divórcio no momento.
Simplesmente não poderíamos. Financeiramente eu não poderia. Emocional-
mente eu não poderia. Além disso, casei com ela. Você sabe como sou a respeito
de compromissos com as pessoas. Provavelmente sou um dos poucos... De qual-
quer forma, sinto que tenho que continuar com ela. Não é que queira machu-
car você. Nunca faria isso intencionalmente.
O corpo dela teve uma pequena convulsão. Ele imaginou que ela estivesse
chorando, e estava. Ele colocou a mão no braço dela.
— Por favor não chore.
Ela pulou como uma mola retesada. — Tire suas mãos horríveis de mim!
— Ela saiu do banco — e ele a seguiu de perto, cada passo sincronizado com os
passos dela. Dois, três, quatro passos, então ela se virou e o encarou. — Seu
merda miserável! — Gotas de saliva e lágrima pingaram em sua camisa e grava-
ta. — Dane-se você no inferno! Afaste-se de mim! — Ela começou a andar a
passos largos novamente, e ele ainda a seguiu, embora alguns passos atrás. Qua-
tro, cinco, seis passos. Novamente ela se virou. — Você me pediu para ficar
depois do trabalho! Você me trouxe até aqui para isso? Por que diabos você não
me contou antes?
Com menos energia, ela começou novamente, mas não tão rápido, e não
foi tão longe. Parou e olhou para o rio. — Meu Deus, eu sou tão burra. Vocês
são tão mentirosos. Primeiro Tony, depois Pat. Agora você. Deus, odeio todos
vocês.
Ele estava louco para abraçá-la, mas estava com medo. — Tanny, pare.
— Pare você! Se você não fizesse amor com ela, ela não ficaria grávida!
Aposto que não pensou nisso, pensou?
Ela foi andando de novo. Dessa vez ele deixou que fosse. No meio do
caminho para a rua ela se virou e ele ainda permanecia no mesmo lugar.
— Se você tocar em mim novamente vou processar você! — Ela gritou
alto, mais alto que o ruído do tráfego, suficientemente alto para que toda
Bridgeford ouvisse.

198
Outono
— Ok, vamos lá! Todo mundo a postos! Estamos perdendo a luz! —
Michael abaixou o megafone e olhou o sol de outono com os olhos
semicerrados. A luz estava simplesmente perfeita, tanto o matiz quanto o
ângulo, e não duraria mais de meia hora. Estavam nas montanhas e as folhas,
com a luz dourada do sol, resplandeciam suaves tons amarelos, vermelhos e
marrons nas encostas. — Cara, gostaria que pudéssemos usar filme. Vídeo
não vai fazer jus a essas cores.
Tanny, que estava sentada no Jeep, resmungou alguma coisa que não de-
notava entusiasmo. Michael decidiu ignorar, pois ela tinha estado mal-humorada
durante todo o dia.
— Como eles estão lá embaixo? — Ele perguntou a Hoona. — Estão
prontos?
Hoona pegou o walkie-talkie e conversou com Babe, que estava embaixo,
do outro lado da ponte coberta. Todos estavam lá para essa gravação, menos
Boner. Ele estava na Caverna, trabalhando na parte técnica da videobike e aten-
dendo os telefones.
— Ela está dizendo que agora há tráfego na estrada e que o Oficial Bradley
quer deixar os carros passar.
— Não, temos que fazer isso agora. Diga-lhe para falar para o Oficial que
precisamos de mais dez minutos, e então ele pode deixar o trânsito passar.
Eles estavam usando uma estrada asfaltada de duas pistas que descia con-
tornando a encosta da colina e abruptamente cruzava o rio, por uma ponte
coberta.
— O Oficial Bradley diz que temos que deixar o trânsito passar —, disse
Hoona.
— Diga-lhe que é tarde demais, os ciclistas já estão descendo. — Michael
virou-se. — Ciclistas, assumam a posição agora! Vamos!
Eles tinham contratado o Clube de Ciclismo de Berkshire para que os
membros comparecessem com suas bicicletas, de capacetes e com números afi-
xados às costas.
199
Michael pensou melhor e disse a Hoona: — Diga a Babe para levar o
Oficial Bradley para o lado e, ah, dizer que não vamos nos esquecer dele.
Ele pensou que não seria bom contrariar o Oficial, apesar de estarem pa-
gando uma pequena taxa para que a estrada fosse fechada enquanto gravavam.
Pensando em fazer um esforço para animá-la, ele virou-se para Tanny.
— Eu não pareço o Coppola? “— Diga ao Oficial que não nos esquecere-
mos dele”.
— Para o Coppola eles teriam fechado todas as estradas do estado —,
murmurou ela.
— Babe quer saber o que você estava querendo dizer —, informou Hoona.
— Hora extra —, disse Michael. — Ok, comece.
Ele subiu na lateral do Jeep, na frente do qual montaram uma Wescan, um
equipamento sofisticado que parecia um grande e redondo globo ocular. A
Wescan serve para eliminar vibrações e permite tomadas estáveis de objetos em
movimento. Custa algo na casa de meio milhão de dólares, mas tinham alugado
esta em Nova York.
O Jeep tinha vindo de Bridgeford, grátis (emprestado pelo irmão de
Redmeat). Ele não tinha capota, exatamente o que precisavam. Michael podia
ficar em pé atrás, segurar-se no ‘santo antônio’ e ter uma visão completa, tanto
da ação quanto do monitor de vídeo — e, como não estavam usando o som
ambiente, podia dar instruções pelo megafone. Mais tarde acrescentariam o
áudio, com ruído de pneus de bicicletas e música.
Redmeat estava dirigindo o Jeep, e ao seu lado estava Herman, o operador
da Wescan incluído no valor do aluguel. O monitor estava seguramente afixado
entre eles. Michael ficou atrás de Redmeat, e Tanny foi relegada ao assento de
trás, onde exercia a função de diretora-assistente, ligando e desligando o grava-
dor de vídeo de uma polegada e fazendo anotações em uma prancheta sobre
cada tomada. Completamente ocupada.
— Ok, ciclista líder, vai! — Ele contou mentalmente até três. — Ciclista
número 2, vai! — Contou novamente. — Ok, agora todos os outros ciclistas. E
lembrem-se de se espalharem desta vez. Vão!
Eles já tinham feito a gravação de diversas formas. Eles fizeram uma dúzia de
tomadas só com a estrada vazia sem ciclistas. O plano era usar uma dessas grava-
ções como fundo e então adicionar eletronicamente, pelo computador, os ciclis-
tas. Assim, a perspectiva e as posições relativas dos corredores estariam corretas.
Agora estavam gravando os ciclistas em diversas seqüências e posições. Depois,
durante a pós-produção, escolheriam a melhor seqüência e uma empresa da
Califórnia removeria a estrada, as árvores, as montanhas, e o céu. Então combi-
nariam a gravação perfeita da estrada como fundo com a gravação perfeita dos
ciclistas em primeiro plano, e o cliente, esperavam, ficaria maravilhado.
200
— Solte a fita —, disse Michael.
— Rodando.
Michael esperou até que a última bicicleta estivesse a uns vinte metros à
frente na estrada, e então bateu no ombro de Redmeat. — Agora.
Redmeat acelerou, e a seguir segurou, o melhor que pôde, para manter a
velocidade constante em trinta e oito quilômetros por hora. Era nessa veloci-
dade que eles alcançariam e ultrapassariam todos os ciclistas ao chegarem na
ponte coberta. As primeiras gravações foram desastrosas, com os ciclistas sa-
indo na frente e acabando antes da câmera. Então, quando Michael finalmen-
te conseguiu que eles reduzissem a velocidade, o Jeep passou todos os ciclistas
e acabou com muita vantagem. Agora Michael achava que eles estavam bem
sincronizados.
Eles foram estrada abaixo, com Michael gritando instruções pelo megafone,
chamando a atenção dos ciclistas pelo número em suas costas ou pela roupa que
usavam.
— Número quarenta e sete, permaneça à esquerda! Vamos passá-lo pela
direita! Número doze, vamos passá-lo pela esquerda! Vamos, faça parecer que
está numa corrida! Incline-se para a frente! Pedale com ânimo!
Tudo estava indo bem, até que Michael exclamou: — Oh, merda, o que
eles estão fazendo lá? Eram dois pedestres à beira da estrada. Aparentemente,
tinham acabado de sair da floresta, e pararam para observar o que pensaram ser
uma verdadeira corrida de bicicletas.
— Devemos cortar? Perguntou Tanny.
— Não, continue rodando. — Ele levantou o megafone. — Ei vocês,
batam palmas! Vamos, aplaudam!
Com uma expressão confusa no rosto, os dois atenderam ao pedido.
— Isso! Continuem aplaudindo, continuem aplaudindo! Obrigado!
Saíram da curva, e lá estava a ponte coberta digna de um cartão postal, e
restava apenas um ciclista para ser ultrapassado.
Ok, encoste nele! Um pouco mais rápido, um pouco mais! Ciclista líder,
estamos ultrapassando pela esquerda!
Ultrapassaram-no, dez metros antes de mergulharem na caverna escura da
ponte coberta e emergirem do outro lado, onde, esperando por eles, estavam o
Oficial Bradley, Babe e meio quilômetro de trânsito parado, encabeçado por
uma pick-up.
— Corta —, disse Michael.
Enquanto o trânsito passava, Michael olhou de novo para a montanha, ima-
ginando se valeria a pena uma nova tentativa. Mas agora as sombras estavam
muito longas, muito profundas. Ele pegou o megafone. — Ok, terminamos.

201
— O que isso significa? Perguntou Babe.
— Significa “vamos dar o fora daqui.”
Michael pegou o walkie-talkie de Babe e disse a Hoona para trazer a van
para baixo. Babe começou a entregar envelopes com cheques aos ciclistas e aos
oficiais de polícia que administraram o trânsito. Redmeat estava desconectando
cabos e enrolando-os para que fossem empacotados. Michael o ajudava, quan-
do notou que Tanny havia desaparecido. Ela tinha se afastado deles. Michael a
viu perto da ponte, sentada no guard rail, de costas para eles, olhando para
baixo, para a correnteza do rio.
Ele foi até ela. Tinha uma questão técnica, e queria esclarecê-la com ela.
Quando a alcançou, viu que ela estava com os olhos molhados e zangada.
— Qual o problema?
— Nenhum.
— Você está bem?
— É, estou ótima —, disse ela, mas não virou o rosto para ele.
Ok, chega disso, ele pensou. — Bem, vamos nos arrumar e sair daqui.
Temos que pegar o avião.
— Só preciso ficar sozinha um minuto.
Ele decidiu deixá-la só. Acabaram de carregar a van e estavam quase pron-
tos quando Tanny se juntou a eles.

Aproximadamente uma hora depois do pôr do sol, Redmeat e Hoona


estavam na estrada, voltando para Bridgeford, Hoona dirigindo o Jeep e Redmeat
seguindo na van, como em um comboio. Herman estava a caminho de Nova
York com a Wescan.
Michael, Babe e Tanny estavam a caminho de Albany, onde pegariam um
avião. Babe sentou na frente com Michael, que estava dirigindo o carro aluga-
do. Babe estava um pouco agitada, falando principalmente de Herman, que em
sua opinião era muito bonito, e que havia lhe contado histórias de produções
em todo lugar, do Caribe às Montanhas Rochosas do Canadá. Michael ouvia,
embora sem muita atenção, e de vez em quando tentava ver o rosto de Tanny
pelo espelho retrovisor. Tanny estava atrás, mal-humorada.
Depois de terem feito o check-in, estavam sentados na sala de espera próxi-
ma do portão de embarque, quando Babe decidiu ir ao banheiro.
— Achei que ela foi bem hoje —, Michael disse a Tanny, quando Babe se
afastou.
Tanny murmurou algo baixo, com o tom indicando que ela não se impor-
tava. Ela cruzou as pernas.
— Realmente —, disse Michael —, acho que ela melhorou muito nos
últimos meses.
202
Agora Tanny cruzou os braços e se recusou a olhar para ele.
Era demais para ele. — Certo, que diabos está acontecendo?
— Você realmente tem um problema com controle, não?
— Eu? Acho que estou me controlando muito bem. Na maior parte das
vezes. Por que o comentário?
— Não estou falando de você se controlar —, disse Tanny com voz ácida.
— De fato, é este o problema. Você sempre tem que estar no controle.
— O quê? — Ele afastou o rosto. — Olhe, se você ficou irritada, poderia
por favor me dizer por quê?
— Este deveria ser o meu projeto.
— E daí. É o seu projeto.
— Eu poderia ter dirigido hoje.
— Ah! — Ele balançou a cabeça e virou os olhos. Agora entendia o que
estava acontecendo. — Bem, se quiser minha opinião sincera, não estou com-
pletamente certo disso.
— Não apenas poderia ter dirigido hoje, como poderia ter feito um traba-
lho melhor —, disse ela.
— Oh, verdade? E o que você teria feito diferente?
— Teria começado mais perto da ponte. Teria agrupado bem mais os cor-
redores. Do jeito que você fez houve muitas lacunas. E teria mudado o
enquadramento para deixar o rio de fora.
— Foi o rio que fez a gravação valer a pena, minha querida. A visão do rio
no início dá ao observador a noção de para onde está indo! O rio é a expectati-
va, enfatiza a idéia de objetivo, de conquista!
— Balela. Isso é para uma feira comercial. Ninguém liga a mínima para
expectativa. Não vão prestar atenção ao rio, provavelmente nem o verão. Isso é
vídeo em pequeno formato, Mike. Você ainda está pensando em termos da
relação nove por dezesseis, da película cinematográfica. Você nunca fez o ajuste
mental para vídeo.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Tenho feito essa merda por
mais de dez anos. Sei perfeitamente o que pode ser feito na relação de três por
quatro. E não entendo qual é a sua queixa. Antes...
— Antes, você sempre dirigiu. Sei disso. Talvez esteja na hora de eu ter
uma chance. Você já pensou nisso?
— Tanny, estão em jogo aqui coisas mais importantes do que o seu ego.
— Por falar nisso, aquela referência ao Coppola! Você se atreve a se com-
parar com ele?
— Foi uma piada, Tanny!
Ela mexeu as mãos. — Certo, desculpe. Deixa pra lá. Lamento me ter
referido a ele.
203
— Tanny, alguma vez você já dirigiu?
— Existe uma primeira vez para tudo.
— Bem, tínhamos apenas um dia para fazer direito. Não havia espaço
para erros, e não dava tempo para aprender fazendo.
— Eu deveria ter o direito de falhar. Você teve essa chance, não teve?
— Sim, e é por isso que estou aqui.
Então Babe reapareceu, bonita como sempre. Tirou um romance da bolsa
e começou a ler.

Os três sentaram-se juntos no avião, Michael no meio e Babe no corredor.


Tanny e Michael não trocaram uma palavra até metade da viagem, quando
Babe estava conversando com alguém do outro lado do corredor (um vendedor
de produtos farmacêuticos divorciado, que tinha seu próprio avião e normal-
mente não viajava em vôos comerciais. Ele tinha dito isso logo no início da
conversa).
— Desculpe —, murmurou Tanny a Michael depois de certificar-se de
que Babe não podia ouvir. — Desconfio que o ofendi.
— Por sorte tenho um ego forte —, murmurou ele em resposta.
— Você foi realmente muito bom, Michael. Eu poderia ter feito um pouco
diferente... se tivesse tido a chance... mas não desconsidero nada do que você fez.
— Estou bem consciente de que não sou Coppola e nunca serei.
— Desculpe... — Ela queria acariciar a mão dele, mas não se atreveu a
fazê-lo.
— Olhe —, disse ele depois de um minuto —, fico perfeitamente satis-
feito em pular fora neste ponto. É seu projeto. Você o administra. Tenho
outras coisas com que me preocupar, como a Três-E. Então, você conduzirá
por sua conta. Se quiser minha ajuda, terá que pedir. Apenas me informe do
que está acontecendo.
— Ótimo.
Ele acenou como se tivessem feito um trato. Virou-se para localizar o car-
rinho de bebidas. Tanny se acomodou no assento e olhou para fora, para a
escuridão. Ela o imaginava dizer repetidamente: Você conduzirá o negócio por sua
conta. Podia senti-lo junto a ela, na cadeira ao lado, quase sendo inevitável
encostar-se nele, com os assentos do avião tão próximos como são hoje em dia.
Fechou os olhos e fingiu que estava dormindo. Sentiu frio. Ela mexeu lenta-
mente a perna, como se não soubesse o que faria, até sua coxa encostar na dele.
Mas ele afastou a perna.

Michael chegou em casa tarde, muito depois da meia-noite. Tentou entrar


em silêncio, mas isso não era o que importava. Regan ainda estava acordada na
204
cama, assistindo à reprise de uma partida de tênis na televisão a cabo. Seu horário
de dormir ainda estava descontrolado, embora estivesse menos deprimida no úl-
timo mês. Ela tinha até cozinhado para eles — boas refeições, um tipo de comida
que nunca antes tinha tido tempo para fazer, incluindo sopas com receitas caseiras
e frutos do mar frescos que havia comprado no mercado durante o dia.
— Como foi? Perguntou ela.
— Ótimo.
— Minha menstruação veio.
Ele sentiu um desapontamento, mas sorriu. — Estou me lembrando quando
essa era uma boa notícia. — Ele desabotoou a camisa. — Bem, tentaremos
novamente em algumas semanas.
— Algo mais aconteceu hoje. Recebi um telefonema de Gary Lio.
— Quem?
— Gary Lio. Ele tem uma empresa em Los Angeles. Ele montou a empre-
sa vendendo equipamentos hospitalares. É um supervendedor.
— Como você o conhece?
— Ele vendeu a primeira empresa dele para a Três-E, há cinco ou seis anos,
por uma fortuna. E nem é tão velho. Eu estava envolvida nas negociações. Ape-
nas na parte relativa aos números, não na negociação propriamente dita. De
qualquer forma, me encontrei com ele, e acho que ele gostou de mim. Então
telefonei a ele alguns meses atrás para fazer contato, quando comecei a procurar
emprego.
— E?
— Ele telefonou hoje. Ele não tem nada definitivo, mas me ofereceu um
projeto de consultoria. Seriam alguns meses de trabalho estável, em tempo in-
tegral.
— Ah-hum.
— E por um preço fixo. Dez mil por todo o projeto, mais despesas. A
única coisa é que vou ter que viajar. Pode ser que esteja na estrada quando...
você sabe...
— Estiver ovulando. — Michael sentou na beirada da cama. — Pensei
que ficar grávida fosse prioridade no momento.
O brilho do jogo de tênis refletia-se no rosto branco da mulher. — Bem,
imaginei que um mês ou dois não farão muita diferença. E esse seria um bom
começo para um negócio de consultoria.
— Você quer ter um bebê?
— Bem... sim... embora admita que estava bem deprimida no dia em que
tomei a decisão. É que... aqui é tão tedioso. Você só pode ler muitos livros, você
só pode assistir muita televisão. Não sei como minha mãe fez, todos esses anos
em casa.
205
Michael olhou para o carpete do quarto. — Não sei... acho que você pro-
vavelmente precisa de alguma coisa assim, que traga você de volta ao equilíbrio.
Por que não vai em frente?
Regan assentiu. — Eu já disse a ele que aceitava.
— Oh, fico feliz que tenhamos conversado a respeito.

De manhã, quando Tanny entrou na Caverna, com a mente ocupada pelas


inúmeras coisas que tinham que ser checadas, administradas, trabalhadas, en-
controu Boner em posição fetal no chão do estúdio, sem vestir nada além de
sapatos e cueca. A videobike estava ligada, mas a tela não mostrava nada além
de ruído.
— Oh, meu Deus... — Ela pensou que ele estivesse morto. A princípio
estava com medo de tocar nele. Mas não havia sangue e ele estava respirando.
Ele estava dormindo.
Ela cutucou seu ombro diversas vezes. Finalmente ele despertou. Assim
que a viu, seus lábios se curvaram e parecia que estava passando mal.
— Você ficou aqui a noite inteira?
Ele assentiu. Sentou-se e colocou o rosto entre os joelhos. Disse alguma
coisa que ela não entendeu.
— O que foi?
— Eu disse: “Não fui para casa nos últimos dois dias”.
— Por quê? Qual o problema?
— Não vai funcionar —, gemeu ele, com a cabeça ainda entre os joelhos.
— O que não vai funcionar?
— A videobike. Ela está quebrando.
— O que está querendo dizer? Pensei que tinha dito que havia planejado
tudo!
— Pensei que tivesse. Pensei que ela estaria funcionando quando vocês
voltassem. Mas... — ele apontou vagamente com as mãos, desanimadamente,
na direção da videobike... — ela fica quebrando. Não sei o que fazer.
— O que exatamente você quer dizer com “quebrando”?
— Aqui, veja. — Ele se levantou lentamente, e pressionou o botão “reset”
na videobike. A tela ficou clara e surgiu a imagem da gravação de testes que eles
tinham feito. Boner sentou-se no selim e começou a pedalar.
Tudo parecia bem. — Bem, qual é o problema?
— Continue observando. — Ele parecia exausto, mas pedalou mais
rápido. De súbito, a imagem na tela começou a pular e tremer, como se
alguns quadros tivessem sido cortados da gravação, aleatoriamente. Ficou
assim por cinco a dez segundos, e então a imagem congelou. Depois de
mais alguns segundos, mesmo a imagem congelada sumiu, e a tela se encheu
de ruído, como estava quando Tanny entrou.
206
— Tentei de todo jeito —, disse Boner. — Tentei com o programa, tentei
diferentes variáveis, diferentes configurações.
— Bem, como consertamos? Perguntou Tanny.
— Não sei se dá para consertar.
Tanny captou bem essa informação. — Você está querendo dizer que não
dá para consertar?
— Não estou dizendo que não dá, mas não sei como. Estou só sendo
honesto. Seus gestos eram exasperados. — Tentei por semanas imaginar como,
e não sei mais o que fazer.
— Por semanas! Como você pôde ficar sem falar nada?
— Pensei que poderia fazer funcionar.
— Boner, em julho você disse que poderia dar conta disso. Você disse que
podia montar.
— Isso foi em julho. Eu não estava mentindo. Só não sabia! Não sabia que
ia ser tão difícil.
— Ela se virou, irritada demais para continuar a olhar para ele.
Eles ouviram a porta abrir e fechar. Boner levantou-se e começou a procu-
rar suas roupas. Michael apareceu.
— Que diabos está acontecendo? Ele estava olhando para Boner. — Por
que você está vestido assim? Ou despido, melhor dizendo?
— Fiquei pedalando a noite toda —, disse Boner —, e eles desligaram o ar
condicionado ontem à noite às sete horas —. Ele achou as calças e vestiu-as.
— Ele está aqui há dois dias —, disse Tanny. — Michael, temos um pro-
blema.
— Oh?
— Ele não consegue fazer funcionar —, explicou ela. — A imagem fica
pulando ou alguma coisa assim. Boner não tem certeza se vai conseguir con-
sertar.
Michael abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não disse. Calou-se, e
olhou diretamente para Tanny. Ela viu uma frieza tomar conta do rosto dele.
— Bem —, disse ele finalmente —, acho que você tem um problema. É
melhor imaginar alguma coisa.
Tanny colocou as mão na cintura. — Podemos conversar?
Eles foram ao escritório de Michael, enquanto Boner se vestia.
— O que devo fazer? — Perguntou Tanny. — Ele diz que não sabe como
consertar.
— Bem, também não sei como consertar —, disse Michael. — Ontem à
noite você disse que esse projeto era seu. Ótimo. Seu projeto, seu problema.
Procure saber como consertar.
— Eu não sei se há solução! — Gritou ela.
207
— Então pense nas opções. — Seu rosto e sua voz estavam duros. Ele
apontou para um bilhete rosa avisando sobre uma chamada telefônica. — Vê
isso? Peter Chechman telefonou ontem. Se for o que eu penso que deve ser, não
vou ter tempo para lidar com o seu problema. Agora, se me desculpar, tenho
que dar alguns telefonemas.
— E eu tenho mais três dias de gravações marcadas! Sem mencionar a pós-
produção! A edição que tem de ser feita. Como vou dar conta de tudo isso e
ainda lidar com... Oh, seu filho da.. — Tanny explodiu. Mas não terminou. Ela
voltou ao estúdio.
Queria gritar com Boner, mas ele tinha uma aparência patética. Ela foi até
a videobike, com o ruído ainda pipocando na tela. Ela tomou consciência de
como estava apavorada.
Que diabos você vai fazer? Perguntou a si mesma.
— Venha aqui e me diga exatamente tudo o que sabe sobre o que está
saindo errado. — Ela disse a Boner.
Uma hora e meia depois, e ela ainda não tinha uma clara compreensão do
que estava acontecendo. Ou não estava acontecendo. Boner não conseguia mais
manter os olhos abertos. Ela disse a ele para ir para casa e dormir. Então, preo-
cupada que ele pudesse acidentar-se, decidiu ela mesma levá-lo.
Quando estava para deixá-lo em frente ao prédio onde morava, ela teve
uma idéia. — Que tal a Internet? Você não a utiliza?
— Sim, algumas vezes.
— E se você consultá-la, ou sei lá o que se faz, e fizer perguntas? Veja se
alguém pode oferecer alguma sugestão.
Boner levantou a cabeça. É... Se houver alguém que saiba resolver o proble-
ma, eu provavelmente posso localizá-lo pela rede. Pode ser uma boa tentativa.
— Depois de dormir —, Advertiu-o, Tanny.

Boner dormiu até o meio da tarde. Quando acordou, ligou o seu compu-
tador do quarto de hóspedes, e escreveu um pedido de ajuda técnica. Espalhou
o pedido em vários grupos de discussão na Internet e em alguns fóruns dos
serviços comerciais on-line.
Em vinte e quatro horas tinha recebido dúzias de respostas, de conselhos
gerais a uma sugestão para que aceitasse Cristo em sua vida, passando por cur-
rículos de cursos para desempregados. Uma das respostas sugeria que ele verifi-
ca-se em uma das chat rooms ou salas de bate-papo virtual da América OnLine,
nas quais cyberpunks da multimídia podiam normalmente ser encontrados. Sem
muita esperança Boner encontrou a sala em questão.
Esperou por uma chance de entrar na conversa em andamento, e relatou
seu problema. A princípio foi ignorado. Depois alguém sugeriu que ambos
208
mudassem para outra “sala” menos lotada, em que pudessem ter uma conversa
privativa. Durante quarenta e cinco minutos Boner teve uma longa conversa
online com alguém cujo nome na Internet era “FM”, digitando suas observa-
ções e lendo as dele, ao aparecerem na tela do monitor. FM fazia perguntas
inteligentes e detalhadas, e finalmente pediu que Boner lhe enviasse pelo modem
o programa da videobike.

— desculpe mas não posso fazer isso —, respondeu Boner


não posso ajudar se não conhecer o programa!
onde você mora?
você quer dizer fisicamente?
sim.
moro onde o judas perdeu as botas, numa cidade chamada Bridgeford...

FM tinha estatura média, era magro, aproximadamente vinte e cinco anos


de idade, longos cabelos alourados com um rabo de cavalo, óculos retangulares
com armação não muito grossa e olhos azuis. Sua pele parecia cerosa, translúcida.
Usava calças e camisa do mesmo tecido e tênis de corrida, sem gravata e sem
camiseta. No bolso da camisa levava uma caneta e uma lapiseira, nada excessi-
vo. Trouxe seu próprio computador portátil, um PowerBook. Um pequeno
brinco enfeitava sua orelha esquerda.
Ele entrou na Caverna, olhou ao redor e disse: “Isto é legal! Eu poderia
trabalhar aqui por semanas e não ouvir nem um ruído!”
— Você é o... FM? — Perguntou Tanny.
— É, é meu nome na tela, um deles. Na minha identidade o nome é
Franklin Maynard. Tenho um irmão chamado Andy. Um de seus nomes na tela
é AM.
— Então, quais são suas qualificações? — Tanny perguntou.
— Bem, minha tese de mestrado foi sobre algoritmos de compressão de
vídeo para aplicações em difusão.
— Uh-hum.
— Uso computador desde os dez anos de idade e me graduei em ciências
da computação no Carnegie Mellon. Ao me formar, fui contratado pela Três-E
e trabalhei no laboratório de pesquisa e desenvolvimento. Mas não me dei mui-
to bem lá. Realmente, eu teria me mudado há algum tempo, mas minha namo-
rada era gerente de rede na universidade.
— Você ainda trabalha para a Três-E?
— Não, fui despedido no ano passado. O que foi bom. Eu realmente não
me adaptei lá. Estavam procurando uma razão para se livrarem de mim. Desde
então, só trabalho quando tenho vontade. Sempre consigo trabalhos diferentes
209
através dos amigos ou encontro alguma coisa na Rede. Sabe, há sempre alguém
que precisa de algum programa. Para falar a verdade, não sou realmente ambi-
cioso, só curioso a respeito de um monte de coisas.
— Bom, é isso. Em que tipo de confusão vocês se meteram?

FM e Boner passaram horas sobre o programa da videobike. Tanny descul-


pou-se e não os acompanhou a maior parte. Eles estavam falando em linguagem
C. Grego teria feito muito mais sentido para ela.
— Bem, rapazes, qual o veredito? — Perguntou ela, voltando ao estúdio,
onde os dois estavam sentados em cadeiras giratórias na frente do computador
de Boner.
— Dá para consertar — disse FM. — É só uma questão de recursos.
— Que tipo de recursos?
— Tempo. Vou precisar de aproximadamente seis meses.
— Temos seis semanas. Apenas seis semanas.
— Uau. Isso torna as coisas urgentes. Bem, então vou precisar de alguma
ajuda.
— Diga-me o quê —, disse Tanny.
— Vou precisar de — você quer tomar nota? — uma Silicon Graphics
Indy...
— Quanto custa?
— Oito mil e quinhentos, no mínimo. Já que você começou com uma má-
quina Intel, não que eu recomendasse esse caminho — provavelmente escolheria
RISC, se fosse eu que tivesse começado isso — vou precisar de três PC’s Pentium.
Eu quero screamers6 e preciso que esteja em rede. Vamos precisar de discos rígidos
de quatro megabytes e monitores de vinte e uma polegadas, e ao menos trinta e dois
megas de RAM. Estime um total de vinte a vinte e cinco. Scanner de mesa será
ótimo. Algumas placas de captura de vídeo e outras, mais quatro.
— Mil?
— Sim. FM segurou o queixo com o polegar e o indicador. — Oh, não
vamos esquecer das licenças. Precisaremos de licenças para o Windows NT e C-
Plus-Plus, que dá três mil e quinhentos para os dois.
— Alguma coisa mais?
— Ainda não falamos sobre o wetware. — Disse FM.

— Setenta mil dólares para wetware7? E que diabos é wetware? — Pergun-


tou Michael, e com um tom de voz que não era baixo.
6
Screamers é uma extensão da linguagem de computação Common Lisp (N. do T.).
7
Wetware é jargão de informática, que se refere aos recursos humanos ou o sistema nervoso humano
em contraposição ao software e hardware (N. do T.).

210
— Dois programadores de software, que ele vai indicar, além dele mesmo.
Ele quer vinte mil para cada programador. Trinta mil seria o pagamento dele —
, disse Tanny. — Ele diz que eles vão ter que trabalhar muito, algo como dezesseis
a dezoito horas por dia, para acabar a tempo.
— Jesus. O total está bem acima de cem mil.
— Bem, você pediu opções. A meu ver, existem três. Uma, devolvemos o
dinheiro para a Exerific.
— O que os deixa na mão —, disse Michael. — E também não nos deixa
numa posição muito boa.
— Dois, nós os convencemos a aceitar alguma coisa mais simples. Uma
apresentação básica em multimídia ou vídeo.
— O que não os deixará muito felizes, uma vez que estão esperando pelo
que prometemos.
— Ou três, aceitamos a proposta de FM.
— Ele garante os resultados?
— Ele disse que sim, ao menos o que se refere ao próprio trabalho. As
outras despesas não são problema dele.
Michael se levantou e andou em volta de sua mesa por um minuto. —
Estou querendo enforcar Boner no próprio cinto. Ele não poderia fazer isso. Ele
deveria ter dito alguma coisa.
— Mas ele não disse, e aqui estamos.
— O que você acha? — Michael perguntou a ela.
— Eu voltaria à Exerific e admitiria nosso erro. Estamos atolados até o
pescoço.
Michael pressionou as pontas dos dedos uns contra os outros e pensou um
momento. — Não, se esse cara diz que pode resolver o problema, acho que
devemos seguir em frente. Não ganhamos nada se voltarmos à Exerific e recu-
sarmos o negócio. De fato, todos perdem. Vendemos a eles a idéia, e temos que
honrar.
— Mas isso vai realmente comer o nosso lucro. Eu nem mesmo sei se
vamos ganhar algum dinheiro com o projeto.
— Vou falar com... qual é o nome dele? FM? Vou falar com ele e tentar
convencê-lo a fazer por menos. E temos que nos certificar de que seremos os
proprietários quando estiver pronto. Acho que há mais aqui do que apenas uma
exposição. Eu realmente acho que podemos ter alguma coisa aqui se pudermos
fazer com que funcione.

Gary Lio conduziu seu Jaguar pelo Wilshire Boulevard, virou na entrada
do estacionamento próximo de seu prédio e estacionou na sua vaga. Ele não era
alto, tinha aproximadamente um metro e setenta, e era esguio, mas não bonito.
211
Sua cabeça era meio achatada, e parecia um pouco grande para o corpo. Seus
cabelos castanho-claros eram curtos. Seus olhos eram pequenos e estreitos, o
nariz, afilado, os lábios pareciam talhados a navalha. Ele tinha a pele bronzeada,
devido ao fato de ser proprietário de diversos salões de bronzeamento. Gostava
de ternos italianos e gravatas claras de seda, com desenhos extravaganes, como a
verde e lilás que usava naquele dia.
Apesar de tantos anos na Califórnia, ele ainda tinha um jeito de andar
nova-iorquino — rápido, sem parar e sem olhar para ninguém— e onde quer
que fosse, parecia que antes dele chegava o aviso de que todos deveriam sair da
frente. Ele entrou e pegou o elevador para o último andar. Saudando-o, ao
passar, estava a fachada de mármore cor de laranja com as letras douradas de
bronze: LIOCO, INC.
Ele estava a ponto de abrir a porta da frente quando alguma coisa na
fachada chamou sua atenção. Alguma coisa estava diferente. Ele ficou lá um
minuto, tentando descobrir o que era. Eram as plantas. Antes havia samam-
baias e outras belas folhagens — Gary não sabia os nomes — e agora elas ti-
nham sido substituídas por cáctus.
A recepcionista, Deana, uma jovem de vinte e dois anos, estonteantemen-
te bonita, estava à sua mesa. Gary entrou e disse a ela: — O que aconteceu com
as plantas?
O rosto dela pele clara, perpetuamente imperturbável, momentaneamen-
te ensombreceu-se. — O senhor está se referindo...
— Estou falando sobre os cáctus, ou o que for. Quero saber o que aconte-
ceu às samambaias.
— Eu não sei. O jardineiro as trocou.
— Bem, telefone e faça com que ele volte aqui. Quero que volte a ser
como era. Quem ele pensa que é, trocando sem falar comigo?
— Não sei. Ele disse alguma coisa sobre o senhor ter cortado o pagamento
dele e que os cáctus necessitam menos cuidados.
— Bem, você telefona e diz àquele idiota para voltar aqui, e se ele me
cobrar dobrado, está despedido!
Gary dirigiu-se ao escritório. Sua secretária, Marquita, estava à sua mesa
próxima à porta e, ao passar, ela lhe disse: — Regan DiGabriel está esperando
você.
— Quem? Oh, certo, certo.
Gary entrou apressado e lá estava Regan, vestindo um tailleur branco for-
mal, e blusa de seda azul clara, sentada no sofá. Ela levantou quando ele entrou,
e estendeu a mão. Gary Lio olhou-a de cima a baixo e deu um grande sorriso.
— Regan! Bem-vinda à Los Angeles! — Ele disse. — Venha e sente-se.
Marquita!
212
Marquita apareceu placidamente à porta.
— Eu gostaria de um suco de morangos com gelo e, como você já sabe,
meia colherzinha de mel —, disse Gary. — Regan, você gostaria de alguma
coisa?
— Certamente. Quero o mesmo, mas sem mel.
— Temos uma pequena cozinha nos fundos, com uma dessas máquinas de
suco —, explicou Gary. — Muito populares por aqui. De qualquer forma, você
está pronta para começar a trabalhar?
— Absolutamente.
— Ótimo. Vou começar com algumas informações básicas sobre a LioCo,
depois trataremos do problema em questão. Como você sabe, comecei com
leasing e vendas de equipamentos médicos. Comprei uma das empresas para
quem vendia, e acabei vendendo a empresa para a Três-E com... bem, com um
lucro bem interessante. No momento, a LioCo tem investimentos em diversas
pequenas e médias empresas, principalmente, mas não exclusivamente nas em-
presas médicas — de saúde — de condicionamento físico. Por exemplo, temos
algumas propriedades no sul da Califórnia e no centro do Colorado. Você e seu
marido esquiam?
— Sim, esquiamos.
— Bem, acontece que a LioCo possui um alojamento de esqui muito
bonito em Vail, e algumas vezes permitimos que empregados e amigos da em-
presa o utilizem. Se estiver interessada podemos, sabe, fazer uma reserva para
vocês.
— Obrigada, talvez possamos acompanhar você e sua mulher algum dia.
— Bem, eu e alguma amiga talvez. Não sou casado.
— Verdade? Estou surpresa.
— Bem, eu fui. Quatro vezes, na verdade. Nenhum casamento durou.
Marquita entrou trazendo o suco de morango gelado.
De qualquer forma —, disse Gary —, nosso foco principal aqui na LioCo
é, teria que dizer, a saúde humana. Temos uma empresa que aluga software
médico para computadores. Temos uma pequena parcela em um conglomerado
de biotecnologia. Temos um interesse menor numa franquia de um centro de
condicionamento físico chamado Viking Torch. Você poderá ler mais a respeito
deles mais tarde.
— Eu já li —, disse Regan.
— Oh? Ótimo. Bem, um de nossos maiores investimentos é a Lio Athletics,
uma empresa que fundei para vender acessórios esportivos. Os pesos para ginás-
tica Day-Glo, por exemplo. Você ri, mas é um dos campeões de vendas. Mais
monitores de batimentos cardíacos a bateria para corredores, esse tipo de pro-
dutos.
213
— Bem, há três anos abrimos o capital da Lio Athletics, retendo uma
participação de vinte por cento. Durante os últimos dezoito meses, entretanto,
a rentabilidade está caindo. Minha intuição, que sei muito bem ser a verdade, é
que a gerência não estimulou o crescimento das vendas tão agressivamente como
eu fiz quando administrava a empresa pessoalmente. Infelizmente, não tenho
mais autoridade para simplesmente entrar e fazer as mudanças necessárias. Te-
nho que montar um caso para o conselho e o conselho tem que votar... bem,
para fazer o que tem que ser feito.
— Bem, é aqui que você entra, Regan. Quero que você faça uma análise
completa, objetiva, que leve a um relatório extenso e baseado em números du-
ros que sustente a minha posição. Normalmente eu não meto o nariz em assun-
tos administrativos do dia-a-dia, mas não estou disposto a ignorar a situação e
deixar que meu investimento desça pela descarga da privada, perdoe-me a ex-
pressão. Tenho aprovação do conselho para que você entre e converse com to-
dos que quiser, faça as perguntas que quiser. Marquita!
Marquita apareceu.
— Você está com o arquivo que montamos sobre a Lio Athletics pronto
para a Regan?
— Está aqui —, disse Marquita.
— Ótimo —, disse Gary. — Regan, vá e encontre uma sala em qualquer
lugar e leia esse documento por inteiro. É um documento grande, deve levar a
maior parte do dia. Então à noite, no jantar, vou explicar com quem você vai
deverá conversar e que perguntas deverá fazer. Não esqueça o suco de morangos.
Ele observou Regan sair. Assim que ela virou o corredor, ele sentiu a velha,
familiar, quase incontrolável excitação. A coceira, como chamava. Gary Lio
olhou o relógio e tomou uma decisão. — Marquita!
Ela apareceu novamente.
— Peça que alguém fique na recepção e diga a Deana para vir aqui.
Sem qualquer expressão, Marquita assentiu e desapareceu. Um minuto
depois Deana apareceu na porta. Gary acenou para ela. Ela trancou a porta
atrás de si e foi em sua direção enquanto ele tirava a carteira.
— Só uma rápida.
— Certo. Como você quer?
— Você sabe do que gosto quando estou com pressa.
Ele pegou uma nota de vinte e colocou na mão dela.
— Gary...
— O quê?
— Você sabe o quê. É trinta.
— Não tenho um desconto pela freqüência?
— Você já tem esse desconto.
214
Ele abriu a carteira para que ela visse. — Tudo que tenho é cinco e outra
de vinte. Ainda não fui ao banco.
Ela pegou a outra de vinte. — Eu devolvo o troco.
Gary virou os olhos. Ela se virou para que ele abrisse o zíper do vestido
dela. O vestido caiu de seus ombros no carpete. Ela deu um passo para fora
dele. Como dançarina que tinha sido, ela dobrou as notas e as prendeu sob a
liga. Ajoelhou-se na frente dele e abriu suas calças.
— Quarenta e nove anos de idade e ainda insaciável —, disse Gary. —
Quantos outros caras podem dizer isso, hein? Mmm. Éee. A propósito, você
telefonou ao cara das plantas sobre os cáctus?
Deana tirou o pênis da boca. — Sim, telefonei.
— O que ele disse?
Novamente ela o removeu. — Disse que tentaria passar amanhã.
— Bem, você telefona a ele novamente e diz que estou enfurecido e que o
quero aqui hoje. Ou terei simplesmente que cancelar o contrato dele.
Uma terceira vez. Ela disse: — Veja, você está ficando mole. Você quer isso
ou não?
Ele ficou quieto enquanto ela fazia seu trabalho. Três minutos depois, Gary
balançou e caiu em sua cadeira giratória para se recuperar. Ele fechou o zíper das
calças. Deana apanhou o vestido e foi para o armário de bebidas de Lio para
lavar a boca com Absolut.
— Não se esqueça de telefonar para aquele cara novamente —, ele disse a
ela quando saía. — E não se esqueça dos dez que me deve! — Gary Lio esfregou
as mãos. — Certo, o que temos a seguir?

Lá fora, a quilômetros de distância, as grandes ondulações de Chicago


elevavam-se no terreno plano. Tanny estava feliz em vê-las. Durante todo o dia
ela e Boner haviam dirigido, a maior parte do tempo por campos planos e sob
um céu cinzento e feio. O pouco que ela e Boner tinham para conversar havia se
esgotado há horas. Boner dirigiu a maior parte do tempo, e ele dirigia exata-
mente a setenta quilômetros por hora. Era um tormento. Ela tinha dirigido
duas vezes, mas a van tinha sido planejada para homens, e mesmo com o assen-
to todo para a frente, seus pés mal tocavam os pedais, e suas costas doíam depois
de uma hora dirigindo o monstro. Era final de tarde. Eles estavam quase lá. O
sol de novembro estava abaixo das nuvens a oeste e emitia alguns raios dourados
através do concreto da cidade, e os vidros dos grandes edifícios os refletiam, em
certos ângulos, com um tom de intenso coral alaranjado. O céu por trás ia do
cinza escuro ao preto. Seus olhos adoravam tudo isso, mesmo sentindo intenso
e crescente medo. Quanto mais os edifícios cresciam, maior o medo. Então
Boner perguntou: — Para que lado? Para onde tenho que ir?
215
— A Dan Ryan. Você tem que pegar a via expressa Dan Ryan.
Ela tinha o mapa em seu colo. Atrás estava todo o equipamento para a
exposição da Exerific, aproximadamente quarenta mil dólares em monitores de
tela grande, reprodutores de disco e computadores. Assustador. Apenas quando
estava tudo carregado ela pensou no seguro, se estavam cobertos, e não havia
tempo para telefonar ao agente. Essa era apenas uma preocupação entre uma
infinidade.
Ela ainda via o rosto de menininho de Jason chorando, o jeito que ele
olhou quando ela estava saindo. Dessa vez seria o maior período em que ficaria
separada de Jason desde que havia nascido. Ela tinha pacientemente explicado a
ele que voltaria com um presente e que enquanto isso ele ficaria com a vovó, e
ele tinha ficado bem até ela vestir o casaco — então ele fez um escândalo por
não poder ir junto. Vinte minutos depois, quando ela finalmente saiu pela
porta acenando, ele ainda estava chorando no colo da avó, que tinha o rosto
franzido. Ela tinha que ir. O que mais poderia fazer? Esse era seu projeto, ela
tinha que ir a Chicago. Mas sua mente continuava a lhe mostrar os dois rostos:
o rosto vermelho, de sofrimento, banhado em lágrimas do filho, e o rosto enru-
gado, acusador de sua mãe. Ela estava zangada com a mãe, mesmo sendo grata,
e não conseguia parar de se preocupar se isso causaria algum problema para
Jason. Mas a psique de Jason era apenas uma pequena preocupação.
FM e seus dois programadores free lancers fizeram por merecer o paga-
mento. Depois de dois dias no projeto, eles descartaram tudo que Boner tinha
feito até ali, e começaram a desenvolver um novo programa. Tanny recorreu às
pílulas para dormir e aos relaxantes, caso contrário não conseguia dormir. En-
quanto estava nas Montanhas Rochosas do Wyoming, com uma câmera presa
ao corpo, fazendo as gravações para a Exerific, tendo que lidar com os proble-
mas causados pela umidade nas lentes e pelo frio intenso nos equipamentos
eletrônicos, no fundo preocupava-se se tudo não seria em vão, talvez nunca
conseguissem fazer a videobike funcionar. Mas ao voltar de uma edição no
Canal Sessenta e Seis em uma tarde, FM e seus programadores tinham a base do
software rodando num dos PCs, embora por poucos segundos. FM até mesmo
afirmou que foi um programa relativamente simples de ser elaborado. Eles pas-
saram três semanas aprimorando e checando o programa.
Dois dias antes, em White Falls, eles haviam montado uma videobike real
para Ken Sonders, Tucker e Mindy Markovic. Ligaram, puseram um videodisk
no reprodutor, e funcionou. Podia-se até pedalar ao contrário e o vídeo passaria
em reverso. Entretanto, havia alguns pequenos problemas. Em velocidades bai-
xas, o vídeo pulava um pouco. O vídeo não conseguia acompanhar se se peda-
lasse na maior velocidade possível. E com o poder de processamento limitado,
a máquina podia mostrar apenas um ciclista concorrente por vez, ao invés de
216
uma porção deles ao mesmo tempo. Mas a coisa funcionava, e o vídeo realmen-
te estava bom. O cliente ficou um pouco impressionado.
Agora, Tanny pensava, tenho apenas que agüentar até o fim da exposição e
teremos terminado.
— Você tem que pegar a Eisenhower —, disse ela a Boner.
— O quê?
— Entre na pista da direita! Você tem que pegar a próxima saída. Não,
pare!
Ela estava com o rosto virado para olhar pela janela, e tinha um carro ao
lado. Quarenta mil dólares de equipamento de vídeo esmigalhado, sem seguro,
espalhado por toda a Dan Ryan, em um instante. — Pare! — Boner pisou no
freio. — Por que você brecou?
— Você me mandou!
Uma buzina soou atrás. Os carros os circundaram.
— Ok, está livre. Mude para a faixa da direita agora! Onde estava Michael,
o ás do volante, quando ela precisava dele? Michael estava em Atlanta com
todos os outros. Estavam gravando a conferência “Implementando a reengenharia
da Três-E” que tinha ocorrido durante toda a semana anterior. — Leste, Boner,
leste! Você tem que pegar a Eisenhower leste, não oeste!
E Boner timidamente conduziu a van para o acesso leste. Ela podia ver,
pelo espelho retrovisor lateral, o trânsito bloqueado por eles. Michael estava
voltando para Bridgeford naquele dia e, se nada urgente ocorresse, ele iria a
Chicago na terça-feira, apenas para fazer relações públicas com o cliente.
A Eisenhower virou Congress. Os olhos de Tanny passavam dos nomes
das ruas para o mapa e do mapa para os nomes. Ok, lá está a State. Agora vem
a Wabash.
— Esta é a Michigan, vire aqui. Não, vire à direita!
— Bem, você tem que me dizer!
— Desculpe-me!
Finalmente, graças a Deus, lá estavam eles na van em estado deplorável de
Redmeat, estacionada na curva em frente do Hilton, com um porteiro unifor-
mizado esperando. Ela colocou uma nota de dez dólares na mão do porteiro e
imediatamente dois carregadores apareceram com carrinhos. Eles fizeram altas
pilhas de equipamentos nos carrinhos e então a van saiu, com um manobrista
no volante (— Boner, você pegou o tíquete? — Sim) e, como uma pequena e
estranha caravana, eles foram devagar pelo carpete, entre as pessoas no saguão
lotado, com Tanny assegurando-se de que nada caísse, entrando por uma porta
sem identificação, prosseguindo por um corredor e entrando na cozinha do
hotel, chegando a outro hall de elevadores, descendo um andar ou dois e saindo
na área de exposição.
217
Quadras e mais quadras de estandes, placas de identificação e luzes estavam
diante deles. Os carregadores empurraram os carrinhos pelas ruas vazias. A expo-
sição seria inaugurada na manhã seguinte às nove. A maioria dos estandes estava
montada e deserta. Poucos estavam sendo terminados. Apenas ao passar por um
estande inacabado, Tanny podia sentir a pressão no ar, as vibrações da ansiedade.
Então ela viu um grande letreiro acima de todo o estande: EXERIFIC! Em
luzes animadas, simulando fogos de artifício estourando a partir do ponto de
exclamação. Ao menos o estande estava montado, pois uma das preocupações
de Tanny era chegar e encontrar uma estrutura vazia, sem nada ter sido feito.
Também os produtos Exerific estavam todos nos devidos lugares.
Eles começaram a descarregar os carrinhos. Tanny estava pegando um par
de notas de vinte para os carregadores, quando Boner cutucou seu ombro.
— Eles fizeram os buracos errado.
— O quê?
— Os três buracos nos painéis. Onde os monitores deveriam ser encaixa-
dos. Silvertree cortou-os errado.
Ela olhou e sentiu o sangue subir. Logo no início tinha sido decidido que
a Silvertree Designs cuidaria da montagem do estande da Exerific, principal-
mente devido às regras do sindicato. Devido a questões logísticas e em parte à
atitude da Silvertree, não havia sido feito um modelo em escala real do display
com os monitores de vídeo. A Silvertree tinha recebido as dimensões para os
buracos que deveriam ser cortados na parede do fundo do display. Cada um dos
grandes monitores de vídeo deveria ser encaixado nos buracos, de forma que
nada aparecesse além da tela e da máscara em torno dela. Bem, os buracos
foram feitos de fato, mas com a medida maior na vertical ao invés da horizontal.
— É só pedir que todas as pessoas girem a cabeça noventa graus para o
lado, como estou fazendo —, disse Boner, demonstrando.
— Isso não pode estar acontecendo —, disse Tanny. — Como eles pude-
ram fazer tamanha burrada?
Ela deu a Boner o dinheiro da gorjeta, agarrou a bolsa e foi procurar um
telefone. Os telefones mais próximos estavam fora da área de exposição, num
canto próximo da cafeteria. A Silvertree Designs deveria, supostamente, ter um
gerente na área para supervisionar, mas uma hora depois tudo o que Tanny
tinha conseguido fazer foi deixar duas mensagens numa secretária eletrônica,
não tendo sido capaz de entrar em contato com ninguém.
Ela voltou ao estande da Exerific e encontrou Boner sentado em sua male-
ta. — Por que está aí sentado? Não pode começar a montagem?
— Já fiz tudo que podia —, disse Boner. — Não posso fazer qualquer
outra coisa até que os monitores estejam montados, e os monitores não podem
ser montados até que...
218
— Merda! — Tanny disse entre os dentes. Ela olhou o relógio. Eram seis
horas da tarde, quinze horas para a inauguração da exposição. — Certo, fique
aqui, e não saia.
Para poder ir ao quarto utilizar o telefone, ela foi ao balcão e registrou-se
como hóspede do hotel. Ela não tinha mala (sua mala ainda estava na área de
exposição), e não precisava de carregador. Ela foi para o décimo oitavo andar e
encontrou o quarto, mas teve dificuldades com a fechadura da porta. A chave
era uma daquelas parecidas com um cartão de crédito que você insere na fecha-
dura, e a primeira vez que ela fez isso a porta não abriu. Teve vontade de chorar.
Suas mãos estavam tremendo. Ela se acalmou e tentou novamente. Dessa vez a
pequena luz verde acendeu e a maçaneta virou. Ela entrou e não olhou para
nada no quarto além do telefone ao lado da cama.
Ela pegou os números na bolsa e começou a ligar. Tentou os números que
tinha e deixou mais mensagens em secretárias eletrônicas. Então abriu a lista
telefônica de Chicago, procurou o número de Andy Murphy e discou. A secre-
tária eletrônica atendeu.
Ela disse: — Aqui é Tanny Zoelle. Há um grande problema no estande da
Exerific. É um erro seu e se não for consertado esta noite, vou comprar um taco
de beisebol e vou para a sua casa quebrar todas as janelas. Ela deixou o número
para que ele pudesse retornar a ligação e desligou.
Voltou para a área de exposição. Boner ainda estava sentado na maleta. Ele
encolheu os ombros assim que a viu, pois obviamente ninguém que poderia
resolver o problema tinha aparecido até o momento. A área estava quase com-
pletamente deserta, só havia alguns guardas de segurança e, mais à frente, na
mesma rua do estande da Exerific, algumas pessoas retocando o acabamento no
estande de um fabricante de roupas esportivas. Tanny foi até eles, sem saber o
que dizer, mas tinha que tentar alguma coisa.
Dentro do estande estava um homem alto de camisa branca, com um bip
no cinto. Tanny se dirigiu a ele.
— Desculpe-me, sei que não é sua responsabilidade, mas não sei a quem
recorrer. Veja, estou trabalhando para a Exerific, e o fornecedor que montou o
estande fez uma burrada. Não estou brincando. Eles fizeram os buracos errados.
E temos que ter isso pronto para funcionar de manhã, não consigo localizar
ninguém e estou a ponto de pular pela janela, realmente estou. Gostaria de
saber se você tem alguma sugestão. Se conhece alguém que eu pudesse chamar
pelo telefone. Estou fazendo qualquer coisa. Bem, não qualquer coisa. Eu quero
dizer, pago o que quiser. Na verdade, tenho que fazer alguma coisa. Eu simples-
mente preciso que o problema seja resolvido. Por favor.
Ela despejou essas palavras e o homem ficou olhando para ela, preocupa-
do, confuso e encantado, tudo ao mesmo tempo.
219
— Ok. —, disse ele. — Ok, não sei se posso ajudar, mas vou dar uma
olhada. Meu nome é Jack Steetz, qual o seu?
Ela o levou ao estande da Exerific e explicou o problema. Eles conversa-
ram por um minuto. Ele tirou a fita métrica do bolso e eles constataram que as
dimensões estavam corretas, apenas haviam sido invertidas. Ele foi para trás do
display e examinou a construção, voltou e colocou a mão no queixo.
— Bem... não posso chegar exatamente na mesma cor. Ele estava batendo
com o dedo médio no rosto. — Mas tenho um azul royal que vai combinar bem.
— Quer dizer que dá para consertar?
— Oh, sim, sem problemas. É modular. Se não fosse modular, eu não
tocaria. Mas podemos consertar.
— Graças a Deus.
— Tenho os materiais que servem. Vou colocar alguns operários traba-
lhando nisso. Vamos trocar os painéis, mas não é tão difícil. Agora, o único
problema é que...
— O quê?
— Vai ficar caro.
— Quanto?
— Não sei exatamente. Não consigo dar uma cifra final até que esteja
pronto. Mas você compreende que estamos falando de um trabalho urgente,
que deverá ser executado por pessoal sindicalizado numa noite de sábado e no
centro de Chicago.
— Não me importa —, disse ela. — Apenas, por favor, conserte.
— Já entendi.
— Por que vocês dois não vão jantar e voltam lá pelas dez, onze horas?
Devemos ter isso em ordem até lá.

Não estava em ordem até às onze, mas Tanny jantou camarões grelhados,
aspargos frescos com molho holandês e salada. Boner preferiu um bife. Ele
contou a ela que era apenas a terceira vez em que ia a mais de cento e cinqüenta
quilômetros de Bridgeford. Ele quase tinha entrado para a marinha, mas seus
pais o tinham convencido do contrário, e assim ele foi para a escola técnica. Ela
o deixou falar e continuar falando, enquanto ficava sentada, bebia seu vinho e
deixava-se envolver por sua renovada fé na humanidade.
Depois do jantar ela voltou ao quarto e a luz vermelha no telefone piscava.
A mensagem era que Michael tinha telefonado.
— Bem, não fique preocupado —, disse ela quando retornou a ligação
—, tudo está sob controle novamente.
— Você quer dizer que as coisas ficaram fora de controle em algum mo-
mento?
220
Ela contou para ele o que tinha acontecido e ficou satisfeita por ele ter
ficado tão enfurecido quanto ela a respeito do erro.
— Como eles puderam cometer uma burrada dessas? — quis ele saber. —
Bem parece que você conseguiu ajeitar as coisas. Escute, se tiver qualquer coisa
que eu puder fazer, telefone. Não importa a hora.
Ela se sentiu segura apenas por ter conversado com ele. Sentiu que tinha,
ao menos, um aliado. Ela se acomodou na cama outra vez e, assim que o fez, o
telefone tocou.
Era Andy Murphy. — Ocorreu algum problema?
— O problema que existia não existe mais, porém não graças a você —,
disse ela. Então começou a espremê-lo, e concluiu com: — E você vai ter que
arcar com o custo de tudo isso. Escutou? Foi um erro seu, por culpa sua, você
não estava por perto para corrigi-lo e vai ter que pagar o conserto!
Ela o ouviu dar um longo suspiro do outro lado. — Senhorita Zoelle, se
houve um erro, me desculpe! Para ser honesto, não estou muito familiarizado
com o seu estande. Não é uma desculpa, apenas um fato. Estou atendendo uma
outra pessoa cuja sogra faleceu na semana passada, e temos três exposições acon-
tecendo simultaneamente em Chicago neste fim de semana. Montamos o display
da Exerific hoje de manhã, e passamos o resto do dia no McCormick Place,
onde estou agora. Há alguma coisa que possa fazer pela senhorita esta noite?
Ela pensou. — Não, como já disse, arrumei outro fornecedor para fazer o
reparo.
— Certo. Novamente, desculpe. Não sei o que dizer a respeito do custo,
pois é uma decisão que não estou autorizado a tomar. Vou conversar com meu
chefe. Um de nós vai passar por aí durante a exposição e vamos analisar isso.
Vou passar o número de meu pager, para o caso de necessitar alguma outra
coisa. Basta entrar em contato.
— Boa idéia. Por que eu não tinha esse número desde o início?
Tanny tentou cochilar, mas não conseguiu. Aproximadamente às dez e
meia ela desceu para a área de exposição, para checar como estava indo, e nada
tinha sido feito. Às onze horas não havia qualquer sinal de Jack Steetz ou qual-
quer outra pessoa. Ela fechou os olhos e começou a rezar silenciosamente.
Eram cerca de onze e quinze e o tempo tinha virtualmente parado. Por
que ela tinha ido jantar? Que coisa idiota para se fazer, ela falou para si mesma.
Não devia ter deixado que ele saísse de sua frente até que o trabalho estivesse
pronto.
E pelo que tinha dito ao Murphy, a responsabilidade não era mais dele.
Como ela pôde fazer isso a si mesma?
Às onze e quarenta e cinco ela foi ao banheiro e vomitou os camarões e
aspargos. Por alguns segundos depois disso, se sentiu bem.
221
Procurou um telefone público e tentou o pager de Murphy. Enquanto
esperava que ele retornasse o chamado, preparou um discurso humilde e conci-
liador. Mas ele não ligou de volta.
Já bem depois de meia-noite ela desistiu e voltou ao estande da Exerific
pensando no que diria ao cliente de manhã, e lá em frente ao display estava um
carrinho com três painéis revestidos com tecido azul royal. Três homens de
macacão estavam removendo os painéis com problemas.
— Aí está você —, disse Jack Steetz, vendo Tanny e sorrindo para ela.

Eles terminaram às três da madrugada. Jack e seu pessoal acabaram apro-


ximadamente à uma e meia, e Boner teve que instalar o equipamento. Aproxi-
madamente às duas e cinqüenta Boner começou a pressionar os botões para
ligar os aparelhos. Ela não prendeu a respiração, mas seu fôlego estava curto. Os
ventiladores das caixas de controle começaram a funcionar com um ruído baixo
e estável. Então, uma a uma, as imagens dos videodiscos apareceram nas telas,
estabilizaram e pareciam maravilhosas. Ela e Boner testaram tudo, e tudo funci-
onou. Desligaram os equipamentos. Tanny andou pelo estande durante os dez
minutos seguintes, sentindo-se leve.
Eles organizaram tudo e foram para seus quartos. Tanny solicitou à telefo-
nista que a acordasse pela manhã, e também ajustou o despertador, por segu-
rança. Mas, para sua frustração, percebeu que não conseguia dormir. Ela mu-
dou de lado, ficou de bruços, de costas, tentou com um travesseiro, depois com
o outro, e até trocou de cama. Ligou o relógio para ver o mostrador vermelho,
e passava um pouco de quatro horas. Em desespero ela tentou um jogo mental,
e isso finalmente aliviou a tensão o suficiente para que pegasse no sono.
O telefone tocou e pareceu não parar mais, mas ela enfim conseguiu aten-
der. Era sua chamada para despertar às seis e meia. Ela se sentiu anestesiada.
Desligou e se virou, e o despertador começou a tocar. Seis e quarenta e cinco.
Ela o desligou, mas ainda não conseguia se mexer. Fechou os olhos. Quando os
abriu de novo o marcador vermelho indicava sete horas e seis minutos da ma-
nhã, o que a assustou o suficiente para fazê-la sentar-se.
Ela telefonou para Boner, que estava no quarto ao lado, para assegurar-se
de que ele estava acordado e se aprontando. Quando ela estava no meio do
banho, ele telefonou para dizer que estava descendo para ligar os equipamentos
e fazer uma última vistoria em tudo.
— Ótimo —, disse ela —, eu encontro você lá embaixo.
Depois de tirar, com o ferro de passar, algumas rugas de seu vestido, vestir
uma meia-calça, a combinação, pentear o cabelo, maquiar os olhos, colocar o
vestido, olhar-se no espelho e sair do quarto, já eram oito e quinze.

222
Ao passar pelo saguão do hotel, Glen Sorensen, o presidente da Exerific,
estava lá, em pé, parecendo um diamante num colar formado por vendedores
de terno. Ken Sonders, Mindy Markovic e Tucker também estavam lá. Todos
com uma expressão feliz no rosto.
— Oi, olá! — Disse Tanny. — Bom dia!
Sorrindo continuamente, ela apertou as mãos de todos. Ela já tinha se
encontrado com Sorensen durante o desenvolvimento do projeto, mas Tucker,
de qualquer forma, a apresentou novamente. Depois de algumas gentilezas,
Sonders puxou-a para o lado.
Ele parecia tenso. — Eu ainda não tive chance de ver o estande. Está tudo
pronto para começar?
— Tudo instalado.
— Ótimo. Estamos esperando que um cliente venha juntar-se a nós, e
então vamos passar pela área de exposição no caminho para o café da manhã.
— Vejo-o lá, então. — Disse Tanny.
Ela desceu para a área de exposição e, ao chegar ao estande viu que Boner
estava com uma caixa de controle para fora, no chão. Tinha tirado a tampa, seu
equipamento de teste estava perto e as pontas de prova em suas mãos, enquanto
observava o movimento dos ponteiros no mostrador. Ela apressou-se, correndo
tanto quanto seus saltos permitiam.
— Que diabos você está fazendo? — perguntou ela.
— Acho que um dos circuitos de clock está danificado.
— O cliente vai estar aqui em um minuto!
— O vídeo estava tremendo!
— Por que não estava tremendo ontem à noite?
— Não sei!
— Com licança. — Três pessoas muito bonitas, um homem e duas mu-
lheres, em roupas de ginástica, estavam em pé ao lado de Tanny. — Somos da
Unbelievable Models. Acho que foi você que nos contratou.
— Só um minuto! — Tanny disse com nervosismo. — Fiquem esperando
naquela área! — De volta a Boner: — Eu preferia ter o vídeo tremendo do que
toda a coisa desmontada!
— Pensei que tivesse tempo até as nove!
— Eles estão a caminho daqui agora!
— Merda —, disse Boner. O que era surpreendente, pois Boner quase
nunca falava palavrões.
— Tanny começou a recolocar a tampa.
— Não ainda. Tenho que ajustar os jumpers.
Tanny procurou alguma outra coisa para fazer. — As outras máquinas
estão Ok?
223
— Pelo que sei, sim.
Ela ligou as outras duas máquinas, chamou dois dos modelos e gritou: —
Subam e comecem a pedalar!
Tanny olhou para o corredor. Lá vêm eles, um amontoado de ternos com
a cabeça grisalha de Sorensen no meio.
— De quanto tempo você precisa? — Ela perguntou a Boner.
— Não sei. — Disse ele. Então pensou e disse: — Três ou quatro minutos.
Seis ou sete seriam fantásticos.
Ela deu outra olhada para o corredor. Eles estariam lá em menos de um
minuto. Boner ainda tinha ferramentas pelo chão, o monitor estava branco e
não havia garantia de que a coisa funcionasse ao ser ligada. O que ela poderia
fazer? Correr e cair desfalecida no chão, debatendo-se como se estivesse tendo
um ataque? Não, ela teve como que uma visão deles pisando em seu corpo
inerte. Ela olhou pelo estande, procurando qualquer coisa que pudesse ajudar.
Viu então a bolsa que continha a câmera VHS.
Ela tinha trazido essa câmera simplesmente para fazer uma gravação do display
que pudesse ser usada para promover o serviço deles mesmos. (Vê? Esse é o tipo
de trabalho que fazemos. Não preste atenção naquele homem fazendo reparos!).
Ela pegou a câmera da bolsa e foi pelo corredor apressadamente, apesar dos saltos.
— Oi! —, ela chamou a atenção deles. — Vamos gravar este momento
para a posteridade!
— Não seria melhor se estivéssemos todos na frente do estande? — Per-
guntou Sonders.
— Não, não! Exatamente neste lugar em que vocês estão está perfeito!
Uma bela cena com a exposição inteira ao fundo! — Ela já estava com a câmera
no ombro e gravando. — Assim. Sorriam todos! — Ela observava os segundos
passando no visor da câmera, que pareciam correr em câmera lenta, enquanto
sua mente voava. — Sr. Sorensen, talvez o senhor pudesse apresentar todo o
pessoal.
Querendo ser gentil, Sorensen virou-se para o cliente. — Bem, ah... eu
gostaria de apresentar Sam Felix, presidente da Fit-N-Fun, o franchising de
clubes de saúde que mais cresce na América...
Tanny passou um minuto desse jeito. Ela percebeu, no rosto de Sonders,
que ele estava ficando irritado, mas ela ainda tinha que mantê-los aí alguns
minutos e estava ficando sem idéias.
— Sr. Sorensen, eu poderia gravar uma cena com o senhor sozinho, por
favor?
— Ora, vamos —, Sorensen resmungou.
Mas Tanny já estava afastando Glen Sorensen dos outros. — Só vai levar

224
alguns segundos... ali, sim. Ela levantou a câmera novamente. — Como o se-
nhor é simpático, Sr. Sorensen!
— Obrigado. A propósito, pode me chamar de Glen. Estamos entre ami-
gos, aqui.
— Bem, Glen —, ela disse baixinho e sem parar de sorrir —, vou lhe
pagar um jantar no restaurante de sua escolha se você conduzir o grupo ao
estande pelo caminho mais longo.
O rosto de Sorensen abriu-se em um largo sorriso e ele começou a rir. —
Eu estava percebendo que você tentava nos atrasar!
— É só porque tivemos uma dificuldade técnica de última hora, e não
quero que você e seu cliente se sintam embaraçados.
— De quanto tempo você precisa?
— Três ou quatro minutos seria absolutamente maravilhoso.
Sorensen afastou o punho e olhou o relógio. — Dou a você cinco minu-
tos. Ele passou o braço pelos ombros dela num abraço paternal, conduziu-a de
volta ao grupo e disse: — Vou dizer-lhes o que vou fazer. Estou tão confiante de
que a Exerific tem o melhor display da exposição que vamos passear pelos estandes
dos concorrentes para vocês constatarem como são fracos comparados ao nosso.
Ele soltou Tanny, dando uma piscadela, e conduziu o grupo através do
corredor para o lado esquerdo. Tanny achou que Sorensen havia sido condes-
cendente, mas no momento não podia pensar nisso.
— Quando isso acabar... — ela resmungou consigo mesma, voltando para
o estande. Quando isso tiver terminado, ela prometeu a si mesma, não vai mais
querer trabalhar com exposições, nada a ver com videobikes, e, se depender
dela, nada a ver com gerenciamento.
Três minutos depois, a Nova Inglaterra estava em todas as três telas e Boner
tinha guardado as ferramentas. Os modelos estavam fazendo a parte deles. Quan-
do Sorensen, Sam Felix e os vendedores chegaram, tudo estava perfeito.
— Mas o que é isso? — Perguntou Felix. — A imagem é maravilhosa! Faz
você se sentir como se estivesse lá!
Felix experimentou pessoalmente a videobike. Quando saiu, foi até
Sorensen.
— E então? Quando vocês vão lançá-las no mercado? — Perguntou ele.
— No mercado? Oh, elas são apenas para a exposição. Não, não temos
planos de produzir nada como isso. Seria caro demais.

Seja o que for que Boner tenha visto, não teve maiores conseqüências. As
máquinas trabalharam quase à perfeição. Tanny concluiu que a causa da tremi-
da no vídeo tinham sido os nervos de Boner.
Enquanto isso, todos que os viam o display da Exerific ficavam curiosos e
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atraídos. O pessoal da Exerific era todo gentilezas e sorrisos: — Ei, gostaria de
experimentar? O preço é só um cartão comercial. Vamos, experimente.
Nem todas as reações eram positivas: — Era só o que faltava —, disse uma
mulher —, outra distração de alta tecnologia, custando uma fortuna.
— Alguma coisa que não podemos comprar —, disse o companheiro.
— Isso é o que deve ser feito como fruto da imaginação! — queixou-se um
homem.
Tanny começou a pensar nessas pessoas como puritanas, para quem os
exercícios tinham um certo significado religioso.
Mesmo alguns membros da equipe de vendas da Exerific tinham reclama-
ções. — Desvia a atenção do produto! — Queixou-se um gerente de vendas. —
Todo mundo está olhando para a tela, não estão notando as características da
Bike-a-Rific!
Mas todos que passaram pararam para olhar. Eles ficavam lá, encantados,
na beirada do estande, como as pessoas na calçada de uma loja de utensílios
domésticos nos dias dos primeiros aparelhos de televisão. Algumas pessoas até
aplaudiam e gritavam quando o ciclista cruzava a linha de chegada. Havia sem-
pre muita gente, próxima ao display — e a multidão se auto-alimentava, pois as
pessoas paravam para ver o que as outras estavam olhando.
Tanny levou Sonders para o corredor, pediu que ele olhasse para os dois
lados e disse: — Você percebe que a Exerific está atraindo a maior multidão
entre todos os expositores? É incrível.
Sonders ainda estava resmungando sobre as dificuldades técnicas, mas,
um pouco mais tarde, quando Sorensen veio novamente, Tanny viu que Sonders
chamou Sorensen para o corredor e disse: — Glen, você percebe que estamos
atraindo mais gente do que qualquer outro expositor?
— Incrível —, disse Sorensen.
O único problema era que o pessoal da Exerific estava apavorado pelo fato
de ter que lidar com computadores, vídeos e com toda a parafernália técnica.
Esse era o trabalho do pessoal contratado para ajudar.
— Quero ter um de vocês por perto o tempo todo —, Sonders disse a
Tanny. — Apenas para o caso de... bem, só por precaução.
Então Tanny assumiu o primeiro plantão e mandou Boner de volta para a
cama. No final da manhã daquele primeiro dia ela estava quase dormindo em
pé — cansada ao ponto da insensibilidade — quando se virou e quase trombou
com Jack Steetz.
— Opa —, disse ele, pondo a mão no ombro dela. — Como vai?
— Estou me sentindo um zumbi num filme de George Romero.
— Acho que, então, é melhor não convidá-la para jantar.
— Não, especialmente hoje à noite.
226
— Que tal depois? O seu caderninho de danças já está lotado para toda a
exposição?
Estava surpresa. Ela estudou o rosto dele por um momento. Ele não é de se
jogar fora, concluiu. — É um convite de negócios ou pessoal?
— Bem... a empresa vai pagar a conta, mas não posso dizer que seja de
negócios.
— Nesse caso, que tal amanhã à noite?
Ele pegou um cartão comercial e circundou um número para o qual ela
deveria ligar. — Se você não puder, avise-me. Se não ligar, eu a encontro no
saguão às sete horas. — Quase saindo, ele acrescentou: — Sabe, acho que você
conseguiu montar um dos melhores displays da exposição. Então ele se inclinou
e disse no ouvido dela — Mas não conte aos meus clientes.
Ela ficou morrendo de cansaço ainda por uma hora ou quase. Duas vezes
ela quase caiu no sono. Boner chegou para rendê-la a uma hora da tarde. Ela foi
para o quarto e nem mesmo tirou a roupa. Adormeceu três segundos depois de
se deitar.

Ela conversou com Michael pelo telefone na segunda-feira à noite. Michael


disse que iria chegar, direto de Atlanta, na quarta-feira de manhã. Antes de
desligar, ele cumprimentou Tanny por lidar com as coisas do modo como tinha
feito.
O estande continuava atraindo grandes multidões. Uma vez, sem razão
aparente, o vídeo de uma das máquinas começou a rodar mais lento, mas Boner
simplesmente pressionou o botão de reset e o vídeo voltou ao normal. Isso
aconteceu três ou quatro vezes durante a exposição, mas sem contar essa peque-
na falha, a exposição logo se tornou maçante. Tanny percebeu que estava ansi-
osa para jantar com Jack e torcendo que nenhum dos dois o cancelasse.
Ninguém cancelou. Ele estava esperando às sete, no saguão, como prome-
tido. Pegaram um táxi para o Chez Paul, um dos melhores restaurantes de Chi-
cago, se não do mundo.
Durante o jantar, Tanny começou a relaxar. Foi uma excelente refeição —
lombo de cordeiro, uma garrafa de Chateau Margaux, e uma boa companhia.
Jack falou a maior parte do tempo, mas escutava quando ela dizia alguma coisa.
Ele sabia contar histórias, e tinha muitas histórias de guerra sobre suas aventuras
no negócio de exposições comerciais. Ele assegurou-lhe que a emergência pela
qual ela passara duas noites antes era um problema até pequeno, comparado a
algumas situações que ele já tinha enfrentado.
Ele, uma vez estava preparando a COMDEX, a grande exposição de com-
putadores, em Las Vegas, e seu cliente era uma das maiores empresas do setor.
Doze horas antes da exposição abrir, o presidente da empresa declarou que não
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estava gostando do projeto do estande. Jack teve que trabalhar toda a noite,
com pessoal dobrado — teve até que levar de Los Angeles, por avião, alguns
artesãos especializados, para ter mão-de-obra suficiente para realizar o trabalho.
— E você conseguiu terminar a tempo?
— A tinta ainda estava molhada, mas terminamos.
No desenrolar da conversa, perceberam que os dois tinham algumas coisas
em comum. Ambos viveram em Nova York na mesma época, e não apenas em
Nova York, mas por alguns anos no East Village, a três quadras de distância um
do outro. Nenhum deles lembrava, é lógico, de jamais ter visto ou encontrado
o outro.
Jack era formado em arquitetura, e tinha ido para Nova York para traba-
lhar em sua área, mas não teve sorte. O mercado de trabalho para arquitetos
estava parado quando ele chegou, e depois ficou ainda pior. O pouco trabalho
que ele encontrava era desanimador: especificações para um sistema de ventila-
ção para um shopping center perto de Toledo, e coisas do tipo. Mas ele dividia
um apartamento com algumas pessoas de teatro. Através deles ele se envolveu
com um projeto e construção de cenários para algumas produções fora da
Broadway. Nessa época, encontrou uma mulher, se apaixonou e decidiu se ca-
sar. Com o casamento veio uma maior necessidade de segurança, e Jack precisa-
va de um trabalho fixo. Os projetos de cenários para espetáculos teatrais em seu
currículo facilitaram uma colocação como construtor de estandes em Boston.
Ele e a mulher mudaram para lá. Em aproximadamente um ano surgiu uma
vaga para gerente de contas e Jack a aceitou. Mas a nova posição significava que
ele tinha que estar sempre na estrada. Sua esposa reclamou, ameaçou deixá-lo.
Ele trocou de trabalho, aceitando uma pequena diminuição no salário, e eles se
mudaram para Chicago. Seis meses depois de chegarem à cidade, a esposa lar-
gou-o definitivamente.
— Há quanto tempo foi isso? — Perguntou Tanny.
— Há aproximadamente dois anos. E você? Como foi que você saiu de
Nova York?
Ela lhe contou a respeito de Patrick, mas deixou de fora a parte relativa a
Jason. Ela disse que tinha mudado para Bridgeford para ajudar a mãe. Ela men-
tiu, de fato, mas o que importava? Ele não precisava saber. De qualquer forma,
sua história foi abreviada pela chegada do carrinho de sobremesas, que trazia,
inclusive, bananas carameladas.
Do Chez Paul eles foram ao edifício John Hancock, subiram ao bar loca-
lizado no último andar, e ficaram numa mesa com vista para as luzes da cidade.
Ela tomou um Bailey’s e ele um Drambuie. Conversaram sobre livros e filmes.
Ele perguntou se ela já tinha lido Spartina, de John Casey, e quando ela respon-
deu que não, ele pediu o endereço residencial dela, dizendo que mandaria um
228
exemplar. Ela escreveu nas costas de um cartão comercial e, antes de guardar no
bolso, ele olhou dos dois lados, como se contivesse dicas importantes a respeito
dela.
Pegaram um táxi e passearam calmamente pelo Loop8, com Jack e o moto-
rista competindo pelo papel de guia turístico. O motorista tinha mais prática
em descrever os locais, e depois de algum tempo Jack se sentiu satisfeito em
sentar mais próximo dela para que ambos pudessem olhar pela mesma janela.
Em algum ponto do passeio eles deram-se as mãos.
Jack contou a ela a história da Torre Sears e de como ela acabou tendo
aquela forma estranha. Tanny ouvia, mas também pensava. Ela gostava dele,
mas não tinha certeza de ter superado o caso com Michael. Preocupava-se em
ter algum outro homem dentro dela e sentia-se estranha, mas ela também tinha
sentido esse medo depois de Patrick. Os prédios e as luzes passavam lá fora, e a
mão dele estava quente. Quantas outras chances como essa ela teria?
— ... Então o pessoal da Sears disse: É, seria legal ter o edifício mais alto
do mundo, mas não precisamos de tanto espaço e nunca seremos capazes de
alugar. Então o arquiteto veio com essa idéia de tirar blocos do retângulo básico
e colocá-los uns em cima dos outros como num bolo de casamento.
Ela apertou a mão dele e aproximou-se de seu ouvido. — Você gostaria de
ganhar um presente esta noite?
— Não seria nada mal —, respondeu ele.

Michael chegou ao Chicago Hilton às dez da manhã, vindo de Atlanta.


Ele pegou seu crachá na entrada e desceu para a área de exposição, onde
encontrou o estande da Exerific sem qualquer dificuldade. Era o que tinha
uma multidão na frente. Boner estava lá. Michael achou estranho vê-lo de
terno e gravata.
Boner fez para Michael um relatório de dez minutos sobre os problemas
que tiveram, a maioria dos quais tinha ficado para trás. Michael deixou-o falar,
imaginando que Boner estivesse apenas descarregando. Então Boner lembrou-
se de outra coisa.
— Esse cara está querendo falar com você —, disse ele, tirando um cartão
de visita da carteira. — Ele esteve aqui ontem à tarde e novamente hoje.
Michael leu o cartão. — Olaf Ullman?
— É um cara grande e loiro. Sotaque sueco ou parecido. Parece que ele é
um dos palestrantes aqui. De qualquer forma, ele viu as videobikes e ficou
louco. Começou a perguntar ao pessoal da Exerific quanto custavam e quando
estariam disponíveis.

8
Loop (the Loop) é o nome dado à principal área comercial de Chicago (N. do T.).

229
— Hum.
— Quando disseram a ele que essas eram apenas para a exposição e que
não havia planos para produzi-las para vender, o cara ficou meio aborrecido. Ele
é meio esquisito, para falar a verdade. O pessoal da Exerific chegou mesmo a
falar para ele se mandar. De forma gentil. Então, quando ele estava indo embo-
ra, eu fui até ele, me apresentei e lhe contei que fomos nós que desenvolvemos
o projeto. Bem, ele me deu o cartão e disse que queria falar com você quando
chegasse. Ele disse que estava indo ao museu de arte esta manhã, mas ele tem
que falar em um almoço aqui, então estará de volta, provavelmente, às onze.
Michael começou a telefonar para o quarto de Ullman às dez e meia e,
finalmente, conseguiu um retorno às dez e cinqüenta e cinco. Ullman, satisfeito
com o contato, disse a Michael que esperasse perto dos elevadores, que ele
desceria imediatamente. Depois de seis ou sete viagens do elevador, lotado de
pessoas, um gigante loiro, com um peito enorme, abaixou a cabeça para sair do
elevador.
— Você é Olaf Ullman? — Perguntou-lhe Michael.
— Você é o homem do vídeo?
— Sim, sou.
A mão de Michael perdeu-se na palma de Ullman quando se cumprimen-
taram. Viram duas cadeiras estofadas desocupadas e se sentaram. Sem qualquer
demora, Ullman começou a falar sobre ele mesmo. Ele se descrevia como um
treinador de treinadores. Tinha PhD. em psicologia esportiva, e era sócio de
uma academia.
— Onde? — Perguntou Michael.
— Na parte baixa de Manhattan. Perto de Wall Street —, disse Ullman.
Ele tinha um pouco de sotaque, e “Wall Street” saiu mais como “Vahl Street”.
— Michael fez que entendeu.
Você sabe qual foi a minha reação quando vi pela primeira vez a máquina
que você construiu? — Continuou Ullman. — Disse para mim mesmo. Sim!
Sim! Eles a montaram! Eles materializaram a minha idéia! Porque eu mesmo
concebi esse mesmo produto há dez anos. Mas há dez anos era muito... — Ele
gesticulou vagamente com as mãos. — Muito difícil tecni-ca-mente montar
alguma coisa como essa. Agora, vocês fizeram! Fantástico! Ele se inclinou e
aproximou seu rosto anguloso do de Michael. — Você sabe qual é a parte da
anatomia mais importante, no que se refere a exercícios? É, claro, a mente! Se
você puder condicionar a mente para acreditar no que está fazendo, então todo
o resto acontece. Mas se ignorar o papel da mente, então o exercício é muito
difícil. Muito, muito difícil — mesmo impossível para muitas pessoas.
— Sim, eu sei o que você quer dizer —, disse Michael.

230
— Toda a minha carreira foi uma luta — uma guerra! — contra os
nazistas do exercício —, disse Ullman. — Você sabe do que estou falando? —
Ullman ficou rígido. — Hum - doz! Hum - doz! — Ele estendia o braço direi-
to repetindo saudações no estilo do Terceiro Reich, e carregando no próprio
sotaque. — Focês dodos prrezizam vazer ezerzíus zemprre to messmo cheito. Ou
cerrão fuzilados!
Ullman relaxou. — Realmente, é assim que muitos na área têm aborda-
do a questão. Rigidez! Conformidade! Não é de se admirar que tantas pessoas
não consigam se exercitar. E se rebelem! Não, eu digo que o exercício deve
alimentar o espírito humano, não esmagá-lo sob expectativas falsas e confor-
midade rígida!
— Sim, agora vejo o que você está querendo dizer —, disse Michael.
— O exercício é uma jornada para a liberdade! — Ullman senrenciou,
com o punho cerrado. — E essa máquina que você criou proporciona a habili-
dade para simular a verdadeira jornada, para que a mente possa acreditar me-
lhor no que está fazendo. É maravilhoso! Maravilhoso! Agora, diga-me, quais
são os planos para o futuro?
— Bem, construímos as videobikes especificamente para a exposição, mas
eu realmente tinha pensado em vendê-las como produto.
— Quanto?
Michael hesitou. — Eu ainda não tenho uma lista de preços, mas estava
pensando que, provavelmente, teríamos que cobrar cerca de seis mil cada uni-
dade, para que fosse lucrativo.
Ullman não estava muito satisfeito. — Bem... parece demais. Você não vai
conseguir vender muitas a seis mil, devo alertá-lo quanto a isto.
— Esse preço seria apenas para as primeiras. Depois, poderíamos baixar o
preço.
— Certo, certo, as primeiras sempre custam mais. Posso compreender
isso. O que os seis mil incluem?
— Tudo. Monitor, disk drive, videodiscos, a própria bicicleta.
— Não, não, não venda dessa forma. Não inclua a bicicleta. Todo mundo
tem bicicletas. Venda apenas a parte de vídeo. Assim vai baixar o preço. Mas
certifique-se de que conseguirá adaptar sua máquina às bicicletas que já estão
em uso no mercado. Então, agora estamos falando de cinco mil. Isso inclui a
instalação?
— Poderia incluir.
— Suponha que eu encomendasse uma agora. Quando iria recebê-la?
— Em alguns meses. Mas não vendo só uma.
— Por quê?

231
— Porque apenas uma não é suficiente para que se pague —, disse Michael.
— Teria que ter uma encomenda de ao menos cinco unidades para cobrir os
custos.
Ullman estalou os dedos, que pareciam troncos de árvores. — Cinco... a
cinco mil?
— Sim.
— Incluindo instalação?
— Ok.
Ele balançou o corpo para frente e para trás. — É... parece um pouco caro.
— Não, de jeito nenhum. Não, se considerar que sua academia seria a
primeira do mundo a usar a Archangel videobike —, disse Michael.
— O que mais?
Michael riu. — Temos um redator muito bom em nossa empresa. Vou
pedir a ele que produza um texto e outros tipos de materiais promocionais
sobre a videobike, citando você e sua academia, sem qualquer custo adicional.
Ullman assentiu. — Você vai produzir outros videodiscos para a máquina?
— Se houver encomendas suficientes para justificar. Eu teria que vender
muitas máquinas para isso, ao menos quinhentas ou quase —, disse Michael.
— Mas se fizer novos discos, lhe ofereço cópias gratuitamente, por até um ano.
— Quero que a manutenção esteja incluída.
Michael balançou a cabeça. — Não, vou lhe oferecer uma garantia básica
cobrindo a manufatura do equipamento — não a bicicleta, mas o que vende-
mos — por até um ano. É o mais longe a que chegarei.
Ullman sorriu. — Assim está bom. — Ele estendeu a mão. — Vou ter que
conversar com meu pessoal, mas considere vendido. Quero cinco delas.

Tanny acordou pela primeira vez quando Jack estava saindo, aproximada-
mente às três e meia da madrugada. Ela ouviu a fechadura da porta abrindo,
abriu os olhos e viu a silhueta dele contra a luz amarelada do corredor. Então o
quarto ficou escuro novamente e ela teve dois pensamentos: Ele foi legal, e eu
nunca mais o verei novamente.
A segunda vez que acordou foi aproximadamente às oito e meia, quando a
camareira bateu à porta. Ela a dispensou e colocou na porta a etiqueta de NÃO
PERTURBE. Ela voltou para a cama e adormeceu segundos depois.
Na terceira vez acordou sozinha. Para sua surpresa, passava das dez horas.
Não que se importasse, pois ela não tinha que descer para a exposição até o
meio-dia. Ela se virou e ficou curtindo a preguiça. Teve recordações da noite
anterior. Sorriu, ao lembrar de Jack entrando apressadamente na farmácia na
State Street, enquanto ela esperava no táxi, se sentindo indecente. Sentiu a
habitual mistura de culpa e tristeza por saber que seria somente por uma noite,
232
mas tinha sido uma noite divertida e a tristeza não ofuscava a satisfação de ter
dormido com ele. Pena que ele não morava em Chicago, e ela estava em
Bridgeford.
Ela tomou um banho demorado, e aos poucos foi tendo uma sensação
maravilhosa, como não se sentia há meses. Ela se enrolou nas macias toalhas
brancas do hotel e secou o cabelo. Ligou o rádio enquanto fazia a maquiagem.
Dançou um pouco enquanto passava o vestido. O telefone tocou.
— Oi, sou eu.
— Você acabou de chegar?
— Não, já cheguei há algum tempo —, disse Michael. — Tenho grandes
novidades. Você vai descer logo?
— Daqui a pouco. Você quer subir?
Ah, por que tinha dito isto? Assim que as palavras saíram de sua boca, ela
desejou não ter dito nada.
— Quero, se não for inconveniente.
— Hum... me dê cinco minutos.
Agora ela tinha que se arrumar voando. Arrumou as cobertas da cama;
juntou a roupa de baixo e enfiou-as apressadamente na mala; encostou a porta
do banheiro; vestiu-se, lutando para fechar o zíper de trás. Ele bateu à porta
exatamente quando ela estava calçando os sapatos.
— Como foi em Atlanta?
— Nada mal —, disse Michael. — Acho que estamos bem com o Pete, e
eu já estou ouvindo comentários de pessoas próximas deles, o que significa que
poderemos receber algumas encomendas no ano que vem.
— Ótimo.
— É, mas a notícia realmente boa é esta: acabei de receber uma encomen-
da de cinco — ouça bem, cinco — videobikes de um guru da ginástica que tem
uma academia em Manhattan.
— Oh, Michael, isso é fantástico, que bom para você!
— Bom para todos nós. Tanny, foi a venda mais fácil que eu já fechei.
— Você vai contar para a Exerific?
— Acho que deveria.
A preocupação passou pelo rosto de Tanny. — Não tenho certeza de como
eles vão reagir ao saberem que você vendeu o sistema que os tornou tão bem-
sucedidos na exposição.
Michael encolheu os ombros. — O sistema é nosso. Além do mais, não o
estamos vendendo a um concorrente deles.
— Nós todos vamos jantar com Ken hoje à noite. E talvez com Glen, se
ele puder, mas eu duvido. Vamos ver se você está certa ou não.

233
— Então... — Ele se esparramou numa cadeira perto da janela. — Você já
começou a pensar no que gostaria de fazer depois que a exposição terminar?
— Eu gostaria de sair por uma semana. Depois disso... qualquer coisa que
tenha que ser feita.
— Como você se sentiria envolvendo-se com o marketing e as vendas da
videobike? — Perguntou Michael.
Tanny balançou a cabeça, mas sorriu. — Não acho que eu tenha queda
para fazer isso.
— Ora, vamos. Alguém tem que fazer.
— Quanto eu teria que viajar?
— Provavelmente muito.
— Não posso, Michael. Não posso fazer isso com Jason. Ou com minha
mãe. Posso sair por alguns dias de cada vez, mas não acho que seja certo tornar
isso um hábito. Já é suficientemente ruim ter que trabalhar em tempo integral.
Sou tudo o que ele tem e tenho que estar disponível para ele.
— Entendo. — Disse Michael. Ele deu um longo suspiro e expirou lenta-
mente pela boca. — A questão é que temos uma oportunidade real aqui. Eu
sinto isso. Tenho sentido o tempo todo que a videobike pode ser o pulo do gato
que estamos querendo. Mas temos que nos esforçar.
— Por que você mesmo não cuida do assunto?
— Eu cuidaria, mas estou preso cuidando da Três-E. Foi bastante duro
conseguir a conta de novo. Não posso ignorá-los agora. Não até que a videobike
realmente decole.
— Não sei porque Babe me disse isso —, disse Tanny —, mas há aproxi-
madamente um mês ela me disse que gostaria de tentar vendas.
— Ela me disse a mesma coisa. Adoraria tentar mas, para dizer a verdade,
ainda não confio completamente nela. Ela melhorou muito mas... simplesmen-
te não acho que ela consiga dar conta.
— Bem, tem o Hoona.
— É, certo. Ele bebe, fuma, pesa cento e quarenta quilos. Perfeito para
vender um produto para ginástica.
Tanny riu. — Não sei o que dizer. Os únicos que sobraram foram Red e
Boner, e nenhum deles quer trabalhar com vendas.
— É tão frustrante. — Queixou-se Michael. — Aqui estamos com o que
pode nos tornar milionários, e não temos a pessoa certa para capitalizar a opor-
tunidade.
O telefone tocou. Tanny foi até o criado-mudo, entre as duas camas de
casal, e atendeu. — Ok, mande-o subir.
— Quem era?

234
— O chefe da portaria. Recebi algum tipo de encomenda. Ele está man-
dando um mensageiro trazer.
— Isso me lembra —, disse Michael —, que tenho que telefonar para a
Caverna, só para checar. Posso usar seu telefone?
Enquanto ele telefonava, Tanny estava na frente do espelho passando ba-
tom. Estava pensando como era bom os dois conversarem assim. Suas relações
estavam lentamente voltando ao normal. Eles quase não se viram no mês ante-
rior, pois ela teve que trabalhar feito louca para que a videobike ficasse pronta e
ele esteve ocupado com a Três-E. Ela não podia ficar com raiva dele para sem-
pre, e não queria. Então foi legal conversar sobre negócios, no quarto dela.
Ela observou o rosto dele e se voltou para o outro lado. Ele estava olhando
alguma coisa sob o criado-mudo. Ele estava com o fone na orelha, mas estava
vendo alguma coisa e seu rosto tinha a mais triste das expressões. Ela deu um
passo adiante, para tentar ver o que ele estava olhando, e viu as camisinhas
usadas e os envelopes de papel azul metalizado no fundo do cesto de lixo, de
resto vazio, debaixo do criado-mudo.
— Obrigado, Babe. Telefono para ele mais tarde —, dizia Michael. — É,
tenho o número dele. — Ele desligou.
A princípio ia fingir que não tinha visto nada, mas Tanny, que sentia a pele
se aquecer ao corar, disse: — Lamento, você não deveria...
— O quê? Não, está Ok. — Ele tentou sorrir. — Parece que você teve
uma noite divertida ontem.
Seguiu-se um momento desconfortável de silêncio. E então o mensageiro
bateu na porta.
Tanny pegou um dólar da bolsa. O mensageiro segurava uma caixa longa
e estreita de papelão, envolta com uma fita de seda cor-de-rosa, o tipo de caixa
que todos sabem o que contém. Michael a viu.
— Ei, nos encontramos de novo lá embaixo no estande da Exerific —,
disse Michael. — Desça quando estiver pronta.
Ele saiu rapidamente. Com a caixa na mão, Tanny tentou convencer-se de
que o que ele tinha visto foi o que ele merecia. Mas sua satisfação foi curta e falsa.
Ela se sentou na cama e esforçou-se para prestar atenção na caixa.
Rosas brancas, cabos longos. Uma dúzia. Eram bonitas, tinham sido envia-
das por Jack.

No caminho para casa, Michael começou a ficar deprimido. Até Chicago,


ele manteve em sua mente uma fantasia, completa fantasia, que de alguma
forma e apesar de tudo, inclusive de sua própria rejeição, ele e Tanny ainda
poderiam acabar juntos. Ele tinha procurado deixar de lado essa fantasia, mas

235
ela estava lá, em sua mente. Indo para casa percebeu que tinha pensado até que
as brasas do antigo amor poderiam, de alguma forma, transformar-se em reno-
vadas chamas na Cidade dos Ventos.9 Não era para ser. Nunca mais aconteceria.
No quarto dela, a fantasia acabou.
Agora ele tinha apenas a mulher, e estava verdadeiramente preocupado
que talvez nem ela ele conseguisse manter. Regan não era uma dona de casa.
Michael não conseguia entender por que tinha aceitado o desejo aparente dela
de se tornar mãe em tempo integral e mulher de negócios apenas em meio
período. Ele a conhecia, e deveria saber que os papéis tinham que ser invertidos
para que Regan ficasse satisfeita com sua vida.
O projeto para Gary Lio estava quase terminando. Tinha sido bom para
Regan e ruim para o futuro do casamento, pelo que Michael podia perceber. O
projeto levou-a a querer voltar ao trabalho. Ele tornou-a importante novamen-
te, o pagamento foi bastante bom e fê-la voltar a um mundo em que ela era
forte. Mas em Bridgeford as oportunidades do mercado de trabalho ainda eram
escassas e assim permaneceriam por anos. Provavelmente nada no nível dela
apareceria. Se Lio ou qualquer outra pessoa oferecesse a ela um trabalho em
tempo integral ela poderia muito bem partir. Essa era a preocupação de Michael.
Se ela partisse, ele teria perdido Tanny sem motivo.
É engraçado como a mente funciona. Uma idéia que tinha ocorrido a
Michael meses atrás, e que tinha esquecido, de repente voltou quando estava a
caminho de casa. Voltou com tal força e urgência que parecia completamente
nova.
Na Caverna, assim que todo o equipamento da exposição tinha retornado,
Michael pediu a Redmeat se ele podia emprestar a van e se o ajudaria a carregar
as videobikes.

— Quero usar a videobike em casa por uma semana —, disse Michael.


— Que diabo é isso? — Regan perguntou, com as mãos na cintura.
— É uma videobike.
— O que é videobike?
— Estou falando dela com você há meses.
Ainda examinando, ela começou a andar em torno da máquina. — É isso
que você fez para aquela exposição em Chicago? O que ela está fazendo em
nosso quarto?
— Pensei que você gostaria de experimentar.
— Eu?

9
Chicago, Illinois (N. do T.).

236
— Sim. Vá em frente, experimente.
Ela passou uma perna acima do selim. Ele mostrou como ligar e demons-
trou os diferentes controles de vídeo. Ao começar a pedalar ela teve a mesma
reação que todo mundo.
— Isso é legal —, disse ela. — Muito melhor do que ficar olhando para o
nada ou tentando ver TV. Ao menos faz você pensar que realmente está indo a
algum lugar. Nós vamos ficar com esta?
— Você gostaria?
— Quanto custa?
— Quanto você acha que deveria custar?
— Não sei. Alguns milhares, suponho. Não podemos ficar com uma de
graça?
— Não. Não por enquanto. Regan, você não acreditaria nas reações que as
pessoas tiveram em Chicago. Nós fomos o ponto alto da exposição. — Ele
estava deliberadamente aumentando a velocidade. — As pessoas vieram me
perguntar se montaríamos algumas para elas.
— E o que você disse?
— Já aceitei uma encomenda. Estou pensando em entrar pesado no ne-
gócio.
— Quem vai montá-las para você? Quero dizer, você não entende nada de
manufatura.
— Tenho algumas pessoas em mente, e pretendo conversar com elas. —
Na verdade, ele já tinha conversado com Bob Garvey, mas como sabia que
Garvey não era uma das pessoas preferidas de Regan, não quis mencionar o
nome dele.
— Que tal o seu cliente, Exer... alguma coisa? Eles não entrariam no negó-
cio com você?
— A Exerific não está interessada.
— Não está interessada?
— Tivemos um jantar em Chicago com o presidente da empresa e as
principais pessoas do marketing. Eu esperava conseguir arranjar algum tipo de
joint venture com eles. Um dos caras, Tucker, estava me apoiando, até que
Glen, o presidente, disse que não estavam interessados, Glen dizendo que os
modelos mais vendidos são os mais baratos, e eles se deram mal em diversas
ocasiões, tentando vender produtos com todo o tipo de acessórios. O que me
causa algumas dúvidas, para falar a verdade. Por outro lado, eles são mecânicos.
Você fala em “realidade virtual” ou em “vídeo” ou “computadores” eles entram
em pânico.

237
— Bem, mesmo que você conseguir alguém para montá-las para você,
quem vai vendê-las?
Michael sorriu. — Fico feliz que tenha perguntado.

Um mês depois Regan estava em Los Angeles e Babe estava com ela. Esta-
vam indo pela estrada I-405, em direção a Orange County, onde ficava
Trimlimbs, supostamente uma academia exclusiva.
Depois de Regan ter concordado em entrar para a Archangel como direto-
ra de marketing da videobike, a primeira pessoa para quem telefonou foi Gary
Lio. Seu projeto para ele tinha ido bem. Ela descobriu que ele era muito exigen-
te e temperamental, mas nada que não tivesse encontrado muitas vezes antes na
Três-E. Quando ela terminou o relatório final, Gary transmitiu-lhe seu maior
cumprimento: “Super!” Ele tinha um cheque pronto para ela antes de ela tomar
o avião de volta a Bridgeford.
Ainda assim, quando ela telefonou para ele sobre a videobike, Gary deu a
ela uma resposta desapontadoramente fria. Ele concordou em se encontrar com
ela, mas pelo seu tom ela podia dizer que ele não estava nem um pouco ansioso.
Como tinham que ir para a Costa Oeste de qualquer forma (todos concorda-
vam que esse era um produto que, a princípio, não poderia ser vendido por fax
ou telefone. A venda tinha que ser feita pessoalmente), Regan marcou outros
compromissos. Depois de trinta ou quarenta telefonemas, ela conseguiu agendar
meia dúzia de reuniões para a semana em que estariam em Los Angeles e outras
três ou quatro em San Diego para a semana seguinte.
Coisa boa. Regan telefonou do hotel perto do aeroporto na manhã da
reunião, apenas para confirmar, e Marquita desculpou-se e informou que os
planos de Gary havia mudado de repente. Ele não estaria disponível, mas tenta-
ria agendar alguma coisa para outro dia naquela semana. Isso foi na segunda-
feira, e na quinta-feira eles ainda não tinham se encontrado. O primeiro com-
promisso sobre a videobike em San Diego seria no sábado. Regan estava furiosa,
mas nada podia fazer.
No primeiro dia em Los Angeles Regan viu que Babe era fraca como co-
piloto. Então Regan assumiu o papel e Babe passou a dirigir. Ela também não
era a melhor motorista do mundo, concluiu Regan, mas era melhor dirigindo
do que dando indicações. Regan tinha um mapa das ruas da Grande Los Angeles
aberto sobre as pernas e com a unha vermelha do indicador traçava sua rota. —
Você já, já terá que ficar na pista da direita.
Babe mudou para a direita, provocando uma ruidosa buzinada da pick-up
ao lado delas.
— Regan, você deve me dizer quando esiver Ok!
238
— Bem, você deve olhar!
— Não estou acostumada com um carro tão grande!
De fato, ela não estava dirigindo um automóvel, mas uma Ford Explorer,
que tinham alugado devido ao espaço para carga. A videobike ocupava muito
espaço.
As duas mulheres não gostavam uma da outra. Para economizar dinheiro,
elas estavam dividindo o mesmo quarto, e isso não ajudava. À noite, elas janta-
riam juntas em silêncio, mal se falando, e então voltariam para o quarto, e Babe
iria imediatamente para a cama, viraria de costas e fingiria dormir, ou usaria
alguma desculpa para sair. Na noite de terça-feira, Babe tinha saído às oito e não
tinha voltado até quase três — Regan soube disso porque estava acordada quan-
do Babe bateu na porta. (Regan trancara a fechadura).
— Onde você esteve? — Regan perguntou a ela.
Babe não respondeu, apenas tirou a roupa e caiu na cama, deixando a
resposta para a imaginação de Regan. No dia seguinte, Babe parecia um zumbi,
e quase as matou ao fazer uma conversão à esquerda com o trânsito fluindo.
Nada tinha dado muito certo para elas. Cada visita tinha sido muito pare-
cida com as demais: muito interesse e entusiasmo, até saberem o preço. Essa era
a principal objeção: cinco mil dólares a unidade, um preço muito alto para os
clientes com quem estavam falando.
Entretanto, não poderiam reduzir o preço. Não apenas os componentes
individuais eram caros — como comprar um computador pessoal econômico —
mas os custos de vendas seriam altos. Precisava de duas pessoas para levar a máqui-
na de um lado para o outro e colocar na frente dos compradores em potencial,
uma para montar e demonstrar o equipamento e uma para falar com o cliente.
— Você a vê? — Perguntou Regan.
— Vejo o quê?
— A academia! Fica a duas quadras adiante à esquerda.
Babe cruzou a estrada e entrou no estacionamento, parando na primeira
vaga livre que ficava a uns quinze metros da entrada. Elas saíram e Regan abriu
a porta de trás com sua chave, tirou sua maleta, e começou a andar.
— Desculpe-me princesa —, disse Babe. — Eu gostaria de uma mão aqui,
se você não se incomodar.
— Vou entrar para me certificar de que o gerente está pronto para nos
receber.
— E como posso tirar isso daqui sozinha?
Regan voltou para a Explorer, colocou a maleta no chão. No fundo estava
a bicicleta ergométrica, seguramente presa em um carrinho vermelho para que
pudesse ser transportada mais facilmente. Atrás dela, no interior escuro, estava
a caixa azul de equipamentos, contendo o monitor, reprodutor de discos e a
caixa de controles, assim como os cabos e suportes.
239
Ao se aproximar para ajudar Babe a levantar a bicicleta ergométrica e o
carrinho, Regan disse: — Este é seu trabalho.
— Você quer que eu machuque as costas?
Elas puseram a bicicleta no chão. Regan colocou as mãos na cintura. —
Não, eu não quero que você machuque as costas, mas se não pode fazer seu
trabalho, então volte para Bridgeford! Seu trabalho é me ajudar e se não pode
fazê-lo, vou contratar outra pessoa.
Babe imitou Regan, colocando as mãos na própria cintura. — Você é uma
cadela!
— O quê? O que você disse?
— Não é de admirar que ele a tenha traído.
Regan congelou, boca aberta, por quase dois segundos. — Quem?
— Quem você acha?
O olhar de Regan desviou-se de Babe, e Babe então entendeu o que tinha
feito.
— Lamento —, disse Babe. — Imaginei que você já soubesse...
A mão de Regan ergueu-se e atingiu o rosto de Babe.
— Eu não dormi com ele! — Gritou Babe.
— Quem, então?
— Tanny! — Disse Babe. — Todo mundo sabia. Ninguém disse nada,
mas todo mundo sabia o que estava acontecendo. Eu só pensei que ele tivesse
contado a você... ou que alguém tivesse...
O ar estava frio, mas em sua raiva Regan estava transpirando. Ela de re-
pente sentou-se na maleta, que se inclinou quando ela colocou seu peso, e quase
perdeu o equilíbrio. Uma mulher bem vestida, que aparentemente era cliente
da academia, vinha entre os carros estacionados, observando a cena.
— Acho que agora acabou —, disse Babe —, como que para reparar o
dano. — Sei que agora ela está saindo com um cara chamado Jack.
Regan respirou diversas vezes e recuperou o fôlego. Levantou-se. — Te-
mos um compromisso...
— Você quer que eu faça? — Perguntou Babe. — Quero dizer, há alguma
coisa que eu possa fazer?
— Não, você já fez o suficiente.
Juntas, as duas mulheres levaram as peças da videobike, com os saltos de
Regan batendo no asfalto, e os tênis de Babe sem fazer qualquer barulho. Na
entrada, Regan segurou a porta aberta para ela.
— Obrigado —, disse Babe friamente.
Lá dentro, Regan dirigiu-se a uma recepcionista adolescente: — Oi, tenho
uma reunião com o Sr. Burkett.
— Ele não está.
240
— Ele volta logo? Temos uma reunião agendada.
— Oh, bem, acho que ele não volta mais hoje. Deixe-me conferir. — Ela
pegou o telefone e verificou com o escritório. — Lamento, mas ele já foi embo-
ra. Deixe-me ver se alguma outra pessoa pode atendê-la. — Novamente ela
pegou o telefone. Então disse a Regan: — Brandy vai falar com vocês. Ela é uma
das assistentes de gerência.
Elas esperaram dez minutos por Brandy. Enquanto isso, Babe montou a
videobike lá mesmo, perto da recepcionista. Finalmente uma mulher alta e
muito magra apareceu. — Oi, sou Brandy, a gerente-assistente. Como posso
ajudá-la?
Regan deu instruções e explicou tudo sobre a possível reunião.
— Oh, lamento —, disse Brandy. Ela riu nervosamente e agitou as mãos.
— O Sr. Burkett teve algum tipo de emergência familiar.
— Bem, talvez você pudesse nos conceder um momento para demonstrar
a videobike...
— O quê?
— A videobike —, repetiu Regan, com traços de nervosismo transparecendo
em sua voz. — É o último avanço em tecnologia de exercícios.
— Deixe-me demonstrar —, Babe disse sem nenhuma preparação.
Ela suspendeu a perna sobre o assento, mas Brandy balançou a cabeça. —
Não, não é necessário. Acho que entendi. É como ver televisão enquanto você
pedala.
— É mais do que apenas televisão, Brandy. É completamente interativo
—, disse Regan.
— Uh-hum.
— Babe olhou para Regan como se dissesse: Você está perdendo tempo.
— Quanto essa coisa de vídeo custa?
— Você não gostaria de experimentar primeiro? — Perguntou Regan.
— Diga-me agora —, disse Brandy —, porque se for caro não tem senti-
do... sabe, há me pessoas esperando.
— Quatro mil, novecentos e noventa e nove dólares por unidade —, disse
Regan.
Brandy quase perdeu o fôlego. — Por isso? Você está brincando.
— Descobrimos que o vídeo faz uma grande diferença na motivação.
Brandy gesticulou com a mão. — Nossos clientes já são muito motivados.
Eles têm que ser, com os preços que pagam.
Regan virou-se para Babe. — Puxe o plugue.
— Quero dizer, realmente —, disse Brandy —, eu pensei que talvez, sabe,
se custasse uns cem dólares como um acessório ou alguma coisa assim...
— Cem dólares? — Disse Regan. — Uns cem dólares? Você é de Ohio?
241
Brandy levantou-se. — Sandusky. O que isso tem a ver com o nosso as-
sunto?
Enquanto voltavam a um Holiday Inn próximo ao aeroporto no trânsito
de fim de tarde, Babe disse: — Vamos ser honestas, senhora DiGabriel. Não
estamos nos dando muito bem.
— Concordo cem por cento.
— Acho que gostaria de ir para casa.
— Ótimo, você pode telefonar para a companhia aérea quando chegar-
mos ao quarto.
— Você vai conseguir alguém para ajudá-la em San Diego?
— Com certeza eu me arranjo.
— Acho que ela o seduziu. Não sei se faz diferença ou não...
— Não faz.
— Ele realmente é um homem legal.
— Ele é uma grande merda.
— Por favor, não conte a ele que fui que lhe contei.
Regan inclinou a cabeça para trás, contra o encosto. A essa altura, ela
simplesmente não ligava mais.
— Por favor, ele tem sido muito bom para mim —, continuou Babe.
— Não vou contar para ele —, Regan resmungou.
Quando elas estacionaram do lado do Holiday Inn, Babe começou a abrir
o bagageiro. Elas estavam trazendo a videobike para o quarto todas as noites,
por segurança. Mas Regan disse: — Deixe aí. Espero que seja roubada.
No quarto, Babe telefonou para a companhia aérea. Acontece que tinha
um lugar num vôo noturno de longa distância partindo em algumas horas.
Babe fez uma reserva. Regan estava aliviada. Ela não tinha certeza de como
passaria a noite se elas tivessem que ficar juntas. Ela perguntou a Babe se preci-
sava de uma carona até o aeroporto, mas Babe disse que ia pegar um ônibus
direto. Tanto melhor.
Enquanto Babe arrumava as malas, Regan telefonou e encomendou uma
salada de lagostas e uma garrafa de Chardonnay. O serviço de quarto chegou
exatamente quando Babe estava para sair. Babe esperou até o homem ter ido
embora, e então disse: — Lamento.
— Está bem. Pode ir. E, Babe, não conte aos outros sobre o que aconte-
ceu. Diga apenas que você machucou as costas. Vou tratar desse assunto do meu
próprio jeito, no momento em que eu considerar apropriado. Certo? Tenha
uma boa viagem de volta.
Babe parecia satisfeita com isso. — Bem, boa sorte.
Regan tomou um copo de vinho e disse em voz baixa para a porta fechada:
— Eu vou pegar vocês. Vou pegar todos vocês.
242
Eles não queriam que ela entrasse para a empresa. Ela sabia disso. Michael
conversou com eles a respeito do assunto. Ele tinha convencido os outros que
ela não iria receber um salário, trabalharia por uma comissão mais reembolso de
despesas. Ela receberia trinta por cento do bruto em cada venda que concluísse.
Mas Michael contou a ela o ressentimento deles, pois achavam que ele de algu-
ma forma estivesse ganhando dobrado: ganhando sua parcela da receita, que era
a maior de todos eles, e beneficiando-se com a porcentagem dela, presumindo
que ela realizasse as vendas. Bem, isso ia mudar, ela prometeu solenemente.
No meio de seu segundo copo o telefone tocou. Ela pensou em não aten-
der, mas ele continuou tocando. Ela não sabia o que diria se fosse Michael.
— Alô?
— Regan? Gary Lio! Lamento nosso desencontro no início da semana,
mas você sabe que essas coisas acontecem, e hum... De qualquer forma, na
segunda-feira eu não sabia que você era famosa!
— O que você disse?
— Talvez você ainda nem saiba que é famosa. Não é o seu produto que
está na capa da Fitness Week? Qual é o nome, a videobike?
— Da edição desta semana?
— Da edição que chegou hoje. Nós somos anunciantes, e acho que rece-
bemos no escritório alguns dias antes de todo mundo. De qualquer forma, é
uma bela cereja em cima do bolo.
— Obrigada. — Ela sabia que Hoona estava tentando convencer o editor
de Fitness Week (que, por acaso, tinha visto a videobike em Chicago) de que a
máquina era uma novidade que merecia uma reportagem. Uma semana antes
de Regan sair de Bridgeford, Hoona afirmou que a história estava na pauta, mas
que não sabia quando seria publicada — e também não havia nenhuma proba-
bilidade de a videobike aparecer na capa.
— Eu ainda não vi —, disse ela. — A cobertura é ampla?
— Algumas páginas. Escute, por que não nos encontramos? Faço uma
cópia para você.
— Eu realmente não sei. Aconteceram algumas coisas e meus planos estão
meio suspensos no momento...
— Que tal esta noite? Adoraria vê-la novamente. O que me diz?

Ela disse sim, não devido à história da revista, não pela videobike, mas
porque bem no fundo ela não queria ficar sozinha. Uma hora e meia depois ela
estava fazendo a conversão da Wilshire e entrando no estacionamento ao lado
do prédio de Gary Lio. Ao entrar na vaga, um homem de origem hispânica
apareceu à janela. Ela o reconheceu. Era Enrique, um dos empregados de Lio.
— O Sr. Lio disse que você precisaria de ajuda para levar alguma coisa?
243
Ela deixou que Enrique cuidasse da videobike. Lá em cima, Gary Lio
cumprimentou Regan. Ele usava uma camisa branca, abotoaduras de ouro e
uma chamativa gravata vermelha e laranja. Ele mostrou um número da Fitness
Week e deu a ela um exemplar. Era uma bela história de duas páginas, com fotos
e citações de Olaf Ullman, que eram quase endossos — mais a foto na capa.
Michael, ela notou com irritação, fora extensivamente citado.
Um minuto depois, suando, Enrique empurrava a videobike para dentro
do escritório de Gary e o ajudou a montar. Regan desculpou-se. Sem Babe, ela
não tinha certeza de como montá-la. Mas Gary e Enrique imaginaram como
fazer, sem problemas. — Parece que este conector vai aqui, e temos que ligar...
ligamos isso, ligamos aquilo, e... aí está.
Regan, com grande entusiasmo, fez uma demonstação. Gary também ex-
perimentou.
— Muito interessante, muito interessante —, disse Gary.
Ele fez perguntas. Regan se esforçou para se concentrar. Ela nem ao menos
estava tentando vender. Finalmente Gary perguntou a Regan se ela estava se
sentindo bem.
— Sim, estou bem. É só que passei... um dia verdadeiramente ruim. Des-
culpe-me. O que você estava perguntando?
— Estava imaginando se há planos para acrescentar um monitor embuti-
do para o ritmo cardíaco. Mas não importa. Tenho uma superidéia. Por que não
vamos saborear um maravilhoso jantar juntos? Apenas relaxar um pouco. Sabe,
trabalhamos juntos esses meses, mas não tive a oportunidade de realmente
conhecê-la como... como pessoa. Vamos apenas esquecer o mundo dos negócios
por algumas horas e aliviar um pouco a tensão.
— Isso é exatamente o que preciso —, disse Regan —, sorrindo pela pri-
meira vez desde que chegou.
— Certo, então. Vamos deixar tudo aqui como está. Mais tarde nos preo-
cuparemos com isso.
Eles já estavam no elevador quando Gary disse. — Oh, droga. Espere aqui
um minuto. Esqueci algo.
Ele voltou para dentro e encontrou Enrique. — Telefone para o Freddy
Wing e diga-lhe para vir. Combinei com ele uma hora atrás e ele está esperando
o recado. Provavelmente já serão dez horas, quando eu a trouxer de volta. E
você fique com ele até ele acabar. Não o quero espionando nada além do que
deve espionar. Ok? — Ele deu um tapinha nas costas de Enrique. — Ok, bom
homem.
Gary correu de volta para o elevador. — Certo, vamos embora.

Eles pegaram o Jaguar de Gary. Regan acomodou-se no assento de couro e


assumiu totalmente o papel de passageira. Em todo o caminho para Malibu,
244
Gary conduziu a maior parte da conversa. Ela não se incomodava. Era mais
fácil apenas deixá-lo falar.
Após aproximadamente um minuto e meio, Gary tinha acabado todo o
seu estoque de assuntos leves e voltou a falar de negócios, embora de um jeito
informal. — ... E foi aí que tomei a decisão de entrar para o mundo dos negó-
cios. Tinha vinte e nove anos e a intenção de ser milionário aos quarenta. E deu
certo. Essa era a minha meta: ser milionário aos quarenta e poder me aposentar
em grande estilo por volta dos cinqüenta. E poderia. Vou fazer cinqüenta no
ano que vem e, se quisesse, nunca mais teria que trabalhar nem um dia em
minha vida. O que você acha disso?
— É maravilhoso.
— E você sabe como consegui? Tornando o mundo um lugar melhor.
Verdade! Bem, pode parecer... como é a expressão? Déjà-vu, lugar-comum? Mas
é verdade. A estrada para a riqueza neste país, se não em todo o mundo, é a
criação de valores que tornam o mundo um lugar melhor. É lugar-comum, mas
é verdade, e é isso mesmo que quero dizer.
O tom laranja do pôr de sol que se aproximava tingia o bulevar, refletindo-
se nos prédios, carros, pessoas e no ouro do relógio dele, enquanto dirigia com
a mão esquerda sobre o volante. O restaurante tinha vista para o mar e estacio-
namento contava com manobristas. O manobrista veio correndo e disse: —
Boa noite, Sr. Lio, como está hoje?
Sentaram-se no terraço. O sol tinha acabado de se pôr e a luz era suave,
típica daquele momento entre o pôr do sol e o escurecer propriamente dito.
Um garçom aproximou-se e Gary encomendou: — Um tango fresco.
— O que é isso? — Perguntou Regan.
— Vodca e suco de tangerina espremido na hora. Eles fazem especialmen-
te para mim aqui.
— Vou querer um desses também.
— Bem, onde eu estava? Oh, sim. Era o ano de 1978. Recebi o telefonema
de uma nutricionista. Uma professora da universidade, aqui na Califórnia. Ela
desenvolveu um plano de dieta fantástico, e ela mesma procurou fazer as ven-
das. Sabe no que deu? Em nada. Mas vamos pular adiante até hoje. Sabe onde
ela mora, hoje?
— Onde?
— Na Riviera. Não estou brincando. Acabei de receber um telefonema
dela outro dia, pois ela queria saber como eu estava. E na primeira vez que ela
falou comigo, o plano de dieta dela era um fracasso.
Quando o garçom trouxe os drinques, Gary levantou o copo — À riqueza
através de uma saúde melhor.
Muitos tangos frescos depois, eles encomendaram o jantar.
— ... Então, em 1987, nós nos tornamos globais com a Lion’s Diet Two,
245
um programa para a perda de peso dirigido a homens e nutricionalmente comple-
to. Foi um sucesso? Deixe-me contar...
— Gary...
Ele parou.
— Desculpe-me —, disse ela. — Acabei de descobrir hoje que meu mari-
do teve um caso com uma mulher que trabalha com ele. Lamento, mas não
consigo me concentrar em negócios agora.
— Oh... Bem, então, por que você não desabafa?
Regan estava no limiar das lágrimas.
— Sério, desabafe. Falar faz bem. Olhe para mim. Sou o cara mais feliz
que conheço. Vá em frente, ponha para fora.
— Nem sei por onde começar.
— Bem, como você descobriu que o canalha a estava traindo?
Ela começou devagar. Gary Lio de fato a ouviu, fazendo perguntas de vez
em quando. Quando o garçom trouxe as entradas, Gary devorou um peixe
espada, enquanto Regan escolheu um fabuloso mahi-mahi10 grelhado e mal o
experimentou. Ela começou a chorar. Gary estendeu o braço e segurou a mão
dela. Ele pediu um lenço ao garçom e o ofereceu-o a ela.
— Obrigada. — Ela o levou aos olhos. — Desculpe-me, tenho que ir à
toalete.
— Lógico, sem problemas.
Assim que Regan saiu da mesa, ele pegou um telefone do bolso do paletó,
abriu-o, digitou um número. — Enrique? Gary. Como está indo? Certo. Diga
ao Freddy para não ter pressa. Diga-lhe que quero um trabalho completo e que
telefono de manhã. Certo.
Ele pressionou os botões novamente e deu um segundo telefonema. —
Kelly? É o Gary. Doçura, desculpe-me, mas vou ter que cancelar hoje à noite.
Um problema de negócios. É, combino com você novamente em outra ocasião.
Ok? Tenho que desligar.
Então deu um terceiro telefonema.
— Rosa? É o Sr. Lio. Não é definitivo, mas esta noite eu posso chegar um
pouco mais tarde. Você poderia por favor fazer minha cama com lençóis de
seda? Hum, os pretos. Por favor, certifique-se também de que ao menos um dos
quartos de hóspedes esteja arrumado. Não, apenas nós dois desta vez, eu e uma
colega. Sim. Obrigado.
Ele colocou o telefone de volta no bolso do paletó. Sinalizou para o gar-
çom para que trouxesse a conta, e quando chegou, assinou em baixo e devolveu.
Regan voltou para a mesa, abriu um sorriso e se sentou.
10
Prato Havaiano, feito com um tipo de golfinho (N. do T.).

246
— Lamento muito.
— Não é nada. Vou contar um segredo. De vez em quando, eu pegava
uma de minhas ex-mulheres me traindo. Então sei pelo que você está passando.
Será que você aceitaria um conselho de um velho profissional? Descobri com a
experiência que, para lidar com corações partidos, a melhor coisa a fazer é agitar
até não agüentar mais.
Regan não pôde resistir e riu.
— É sério. Vamos a algum clube noturno.
— Não... Realmente, tenho que voltar ao meu hotel.
— Ora, vamos! O que você vai fazer, voltar para o quarto e assistir televi-
são? Não tem nada de bom esta noite, confie em mim. Vamos, ouça o Dr. Lio!
Sei que esta não é a melhor noite da sua vida, mas vamos sair daqui. Vamos
deixar que a cidade nos entretenha por um tempo.
— Bem...
— Já sei!
— O quê?
— Encontrar algumas celebridades!
— Onde?
— Alguns clubes, pontos que conheço. Vamos, vamos sair daqui e agitar.

Eles foram a cinco lugares e viram talvez doze celebridades, na maioria


completamente desconhecidos para Regan. Gary Lio conhecia-os todos — não
pessoalmente, garantiu a ela, mas sabia quem cada um era.
Ele dirigia o Jaguar através da confusão de escuridão e luzes da cidade. Ela
não tinha idéia de onde estava. Com as voltas que ele fez, ela chegou a pensar
que eles estavam andando em círculos.
Ele parou o Jaguar em um ponto escuro, isolado. Regan preparou-se para
sofrer um assédio, mas ao invés disso Gary mexeu debaixo do painel e abriu um
compartimento secreto. Tirou um pequeno estojo de couro ornamentado.
— Minha farmácia —, brincou ele.
Ele alinhou duas carreiras de cocaína num espelho embutido sob a tampa da
caixa. Ofereceu uma a Regan. Ela recusou, e então ele mesmo cheirou as duas.
Ele espirrou. — Ah, muito melhor.
Ele recolocou a caixa no devido lugar e fez um discurso sobre como nunca
gostou de Nancy e como sabia que a cocaína era politicamente incorreta, mas,
e daí? Ele ainda a apreciava como a uma das mais finas iguarias e, olhe lá! Ele
estava absolutamente certo de que era a Mercedes de Sly Stallone.
Pararam nas proximidades, mas como não puderam localizar Stallone por
perto, Gary sugeriu: — Por que não vamos à praia?
247
Ela pegou no sono no banco do passageiro e dormiu a maior parte do
caminho, o que não era problema porque o passeio durou mais de uma hora.
Ela acordou com o pescoço duro. Estavam na Rota Um, e à direita havia a mais
completa escuridão — o oceano.
— Onde estamos?
— Acabamos de passar por Newport Beach.
— Não é muito longe?
— Eu disse que íamos à praia. Você não perguntou qual.
— Gary, onde estamos indo?
— Para minha casa de praia, logo na saída de Laguna Beach. Tenho um
apartamento na cidade para a semana, mas nos fins de semana venho para cá.
Você vai gostar, confie em mim.
Pela primeira vez, ela se sentiu um pouco constrangida com ele.
— Não vou dormir com você —, ela disse secamente.
— Eu não pedi que você dormisse. Realmente, pedi? Minha casa tem seis
quartos. Você escolhe qualquer um que quiser.
— Eu gostaria de voltar ao meu hotel.
— Lamento, mas ele está uma hora atrás no caminho em que viemos —,
disse Gary. — Olhe, você pode fazer o que quiser, chamar um táxi, qualquer
coisa, mas minha casa está a um quilômetro e meio e eu vou para lá e vou
dormir. Pensei que fôssemos nos tornar bons amigos, não que fosse tentar fazer
alguma coisa que você não quisesse. É só que, no seu estado mental, pensei que
seria bom um período mais prolongado de divertimento.
— Eu não iria tão longe.
— Eu levo você de volta amanhã de tarde —, ele disse.
— Eu tenho compromissos amanhã.
— Veja, tanto você quanto eu sabemos que não vai dar mais para continuar
na empresa de seu marido. Acabou. Então, seus compromissos não importam.
Relaxe. Seja minha hóspede.
Ela se sentou de novo. Abriu a janela e deixou o ar fresco do escuro banhar
sua face. Gary fez uma conversão à esquerda e subiu uma pequena colina. De-
pois de diversas curvas fechadas, ele pressionou um botão acima do pára-brisa.
Adiante, iluminado pelos faróis do Jaguar, um portão de segurança abria-se
deslizando.
Uma casa branca em estilo espanhol, bem grande, surgiu à frente, e as
luzes acenderam-se enquanto eles subiam. Havia colunas com reboque branco
flanqueando a entrada e uma lâmpada com tonalidade amarelada suspensa por
uma corrente de ferro batido. Gary deixou o carro estacionado em frente e eles
subiram por degraus revestidos de ladrilhos, entraram na casa por uma porta
frontal de dois metros e setenta centímetros com ferragens de latão e vidro
248
lapidado. No meio do grande painel de vidro da porta havia uma gravação
elaborada com um tema floral, tendo ao centro um escudo com um grande L.
O hall de entrada abria para uma sala que parecia um átrio com balcões
em três lados. Para além dos balcões estavam, presumivelmente, os quartos.
Uma lareira digna de um castelo feudal dominava a sala. Sobre o chão de cerâ-
mica terracota havia um tapete oriental que não era pequeno nem muito gran-
de. Algumas telas, com tamanhos variando de grande a enorme, pendiam nas
paredes com pinturas abstratas. Gary gostava de arte que contivesse traços for-
tes, agressivos.
— Vamos deixar o tour para outra ocasião. Você gostaria de me acompa-
nhar num cappuccino na varanda?
Rosa mantinha a máquina pronta, de forma que tudo que Gary tinha que
fazer era ligar o botão. Ele derramou o cappuccino em pequenas xícaras brancas
e com uma colher acrescentou o leite cremoso. Eles saíram da sala por portas
deslizantes de vidro e foram saudados pelo piscar das luzes de Los Angeles, com
o corte brusco da curva sólida do Pacífico. Eles apoiaram suas xícaras em cima
da mureta de proteção e ficaram próximos um do outro no escuro. Por um
minuto, nenhum deles conversou.
Então Regan se virou para Gary: — Posso perguntar-lhe uma coisa? Como
é possível você não estar envolvido com alguém?
— Normalmente estou. O dinheiro faz com que um homem feio pareça
bonito. Mas para falar a verdade, desisti de romances há muito tempo. De negó-
cios, eu sempre entendi. Com dinheiro, fui muito feliz. Com mulheres... amor...
nunca tive muita sorte. Embora ainda mantenha a esperança de que isso mude.
Regan deslizou a mão pela cintura dele e inclinou-se para perto. Ele se
sentiu diferente, novo. Ela percebeu em um momento amedrontador que, gos-
tando ou não, sua vida em Bridgeford tinha ficado para trás. Seu casamento
com Michael tinha acabado com tanta certeza quanto sua carreira na Três-E.
Mesmo que ela pudesse juntar os pedaços de forma que parecesse sua antiga
vida, naquele momento, ali em pé com Gary Lio, ela não via possibilidade
alguma. Sentia que tudo estava mudando. Tinha sido tola e tinha falhado. Ela
apertou Gary levemente, e por uma fração de segundo tremeu como se estivesse
com frio, quando de fato estava apenas com medo. Gary passou o braço em
torno dela.
Ela se virou, fechou os olhos, jogou a cabeça para trás, e esperou que ele
beijasse sua boca, mas ela deixou que a cabeça pendesse muito para trás e ele a
beijou no pescoço. Ele não era tão alto quanto Michael. Tudo ia ser diferente.

Regan abriu os olhos às nove e meia na manhã seguinte. Ela estava sozinha
numa enorme cama de carvalho com dossel, deitada entre lençóis de seda pre-
249
tos. Ela se espreguiçou com luxúria e sentiu o estímulo sublime da seda em sua
pele nua. O que estava fazendo ali? Onde estava... Ela pulou da cama e disse em
voz alta para si mesma: — Oh, meu Deus, o que eu fiz?
Ela prestou atenção ao que sentia entre as pernas. Sim, eles certamente
tinham feito, e ela estava completamente desprotegida. Começou a se punir.
Como ela pôde ter permitido isso?
Lembrou-se de Gary Lio e do que tinham feito. Então descobriu que não
apenas Gary Lio tinha sumido, mas suas roupas também. Ela estava totalmente
nua, e, que ironia, estava com a aliança de casamento no dedo.
Ela andou pelo quarto, procurando, mas tudo que encontrou foram seus
brincos e braceletes de ouro no criado-mudo. Ela usou o banheiro de Gary.
Tinha um bidê. O boxe era revestido de mármore branco.
Então ouviu uma suave batida na porta. Regan correu para a cama e se
cobriu com os lençóis de seda preta. — Quem é?
Uma mulher pequena, magra, de pele morena, entrou no quarto carregan-
do uma bandeja de vime. Na bandeja havia uma xícara de café, pires, guardana-
po de linho, colher de prata, um delicado açucareiro e um pote de creme, e um
pequeno buquê de amores-perfeitos num pequeno vaso de cristal.
— Olá, imagino que você queira tomar café.
— Sim! — Regan sentou-se. — Sim, por favor.
— Ou prefere chá? Eu posso trazer.
— Não, café está bom. Muito obrigada.
— Eu, Rosa. Você...
— Regan.
— Oh, gosta do velho presidente?
— Não, não exatamente. Desculpe-me, mas onde está o Gary?
— Ele joga golfe.
— Ok. Você, por acaso, sabe o que aconteceu com minhas roupas?
— Eu limpo —, disse Rosa, ajeitando a bandeja no colo de Regan. — Fica
pronta daqui um pouquinho.
Durante tudo isso, o lençol escorregou e um dos seios de Regan ficou
exposto. Mesmo desviando os olhos, Rosa reajustou o lençol, preservando a
intimidade de Regan.
— Oh... muito obrigada —, disse Regan.
— Não há de quê. O desjejum logo estará pronto. Trago para cá?
— Claro, por que não?
— Gary volta ao meio-dia. Ele pediu que espere. Aproveite até lá, Ok?
Quando Rosa saiu, Regan ajeitou-se de novo no travesseiro. A seda em sua
pele era quase demasiadamente agradável. Ela saboreou o café, muito bom.

250
Pelas janelas do quarto ela podia ver o azul brilhante do Pacífico. Onde deveria
estar agora? Ela nem fez muito esforço para lembrar. De qualquer forma, era
tarde demais.

No final da manhã Regan estava na varanda, sentada em uma cadeira de


vime fartamente estofada, olhando o Pacífico azul, uma jarra de Bloody Mary e
um copo na mesa, ao alcance de sua mão. O dia estava ensolarado e o mar
ondulado. Ela usava calções brancos e uma camiseta de algodão em estilo mari-
nheiro. Rosa tinha arrumado para ela. Rosa afirmou que mantinham roupas
esportivas para os hóspedes, mas Regan suspeitava que elas tinham sido deixa-
das por alguma das ex-esposas de Gary, mas ela não se incomodava. E daí? Não
havia muito que importasse aquele momento.
Gary apareceu. Ainda estava usando roupas de golfe: calças largas em um
tom pastel de amarelo e camisa pólo verde. Com a brisa, ela nem tinha ouvido
o ruído do carro de Gary retornando.
— Bem, olá.
— Você parece estar bem —, disse ele.
Regan pendeu a cabeça para trás, apoiando no encosto estofado. — Acho
que poderia ficar aqui para sempre.
Gary riu e sentou-se.
Regan levantou seu Bloody Mary. — Está muito bom. Quer um?
— Não, obrigado. Como você está?
— Tudo bem. Ainda estou muito irritada. Com Michael. Com todos
naquela estúpida firminha dele. Deus, gostaria de...
— Deixe-me contar uma coisa a partir da minha própria experiência —,
disse Gary. — O sucesso é a melhor vingança.
Regan não ficou confortada. — Estive pensando bastante.
— Sobre?
— Sobre o desperdício que tem sido minha vida até aqui. Todas aquelas
semanas de sessenta, setenta, oitenta horas na Três-E. Sabe qual era minha meta?
Eu realmente tinha um monte de metas. Eu queria ser a primeira mulher a ser
presidente de uma unidade de negócios da Três-E. Nem mesmo de toda a
corporação, apenas uma unidade de negócios. Quero dizer, aqui estamos, nos
anos noventa e ainda não aconteceu. Mas minha grande meta era uma casa em
Deerfield Heights.
— Onde?
— É a Bel Air de Bridgeford.
— Gary sorriu. — A Bel Air de Bridgeford. Bem...
— Sim, engraçado, não?
— Você se sentiria bem conversando um pouco sobre negócios?
251
— Realmente não.
— Apenas ouça um momento. Como a videobike já estava montada em
meu escritório, pedi que um associado meu desse uma cuidadosa olhada nela. Ele
confirmou o que eu já tinha pressentido, que é um... um produto interessante.
— Sim, mas Gary... você estava certo, no que disse ontem à noite. Não
quero ter nada a ver com videobikes ou Archangel ou nada deles. Nem mesmo
quero voltar a Bridgeford.
— Bem, não seja precipitada. A videobike tem algum potencial.
— Gary...
— A Archangel entrou com pedido de patente?
— Sim, entrou.
— Alguma vez você e Michael discutiram sobre a venda dos direitos da
videobike? Sabe, o copyright do software, os direitos das patentes e assim por
diante?
— Não, ele quer desenvolvê-la.
— Quanto ele poderia querer para vender a videobike?
— Ele não a venderia. Na verdade, em algum momento, só de passa-
gem, sugeri isso a ele, e sei que ele nem ao menos levaria tal hipótese em
consideração.
— Suponha que eu ofereça a ele, vamos dizer, um milhão de dólares. Não
que eu vá oferecer, mas apenas suponha.
— Michael está convencido de que a videobike vale, no total, muitos
milhões de dólares. Você teria que fazer uma oferta muito alta.
Gary resmungou.
— Por que você não as encomenda da Archangel e as revende? De fato, ele
pode aceitar algum acordo de venda.
— Por que ele deveria ganhar um dinheiro que eu poderia estar ganhan-
do? — Perguntou Gary.
— Porque assim ele seria capaz de pagar uma pensão para mim.
— Sério, Regan, o que você acha que aconteceria se eu pegasse o telefone
e fizesse a Michael uma encomenda para mil videobikes?
— Ele ia se borrar todo. Desculpe, mas é o que ele ia fazer.
— Exatamente. Ele não saberia como estabelecer o preço para uma enco-
menda desse tamanho, sem falar em como produzir esse número enorme. Que-
ro dizer, eles são amadores! São uma empresa de serviços. Não têm idéia de
como administrar estoques, como lidar com os fornecedores especializados em
produção, nada disso. A única medida inteligente que tomaram foi contratar
você para marketing e vendas! Não, se eu tentasse comprar deles através da
Archangel, estaria comprando problemas. Haverá atrasos nas entregas, proble-
mas de qualidade... esqueça.
252
— No que você está pensando?
— Vejo um produto quente. O problema é: ele não é meu. Então, quais
são minhas opções? Bem, tanto posso comprar o produto... quanto fazer o meu
próprio.
— Se tentar comprar o produto, terei problemas. Porque a empresa que
possui o produto nunca será capaz, por si mesma, de desenvolver todo o seu
potencial. Se tentar, essa empresa vai, com grande probabilidade, dar com os
burros n’água e falir. Mas ainda assim a empresa — e imagino que você esteja
certa — é provavelmente muito burra para aceitar uma oferta razoável e correr.
— Mas para fazer o seu próprio produto, você vai se envolver com outro
tipo de problemas.
— Sim, mas são problemas que posso controlar melhor —, disse Gary. —
Sabe, tenho contatos por todo o mundo do condicionamento físico. Posso levar
esse produto, em seis meses, mais longe do que a Archangel poderia levar em
cinco anos. Isso se conseguir criar a LioCycle suficientemente rápido...
Regan levantou o Bloody Mary dela novamente, tomou um gole, abaixou-
o. Ela sentou-se por alguns momentos, e disse: — Quero que meu cargo seja o
de presidente.
Gary Lio inclinou-se, pegou o copo dela e bebeu dele. — Você é muito
esperta. Uma mulher muito esperta. Quase tão esperta quanto sexy.

Em Bridgeford, para surpresa de Tanny, um exemplar de Spartina chegou


pelo correio duas semanas depois da exposição de Chicago. Ela achava que Jack
esqueceria daquela promessa. Esperava que ele esquecesse completamente dela.
Entretanto, tinha o livro dele nas mãos.
Ele enviou junto um bilhete. Esperava que pudessem se encontrar nova-
mente logo. Não tinha escrito com caligrafia cursiva, mas em letra de forma,
clara, forte, com as mãos firmes de um ex-arquiteto. “Nunca fiquei tão atraí-
do por uma mulher logo de início quanto por você”. Não era poesia, mas
cada vez que lia aquela frase ela tinha aquela sensação de atordoamento, de
prazer difuso.
Infelizmente, ela não tinha contado a ele sobre Jason. Com grande cora-
gem, ela telefonou para ele em Chicago e contou a respeito de seu filho. Ele
escutou e ficou quieto por um momento.
— É com o... qual é mesmo o nome dele, daquele cara, Patrick?
— Sim.
— E ele apenas saiu e deixou você?
— Sim.
— Que homem desprezível.

253
— É.
Ele ficou quieto novamente por um momento, e depois disse: — Tenho
que fazer algumas viagens nas próximas duas semanas. Pode ser que consiga dar
uma passada em Bridgeford. Sabe, ficar por uma noite. O que você acha?
— Acho que seria simplesmente maravilhoso.
Quando Tanny contou à sua mãe sobre a visita de Jack, ela perguntou
onde Jack iria ficar. Em um motel, Tanny disse a ela. Por que ele ia ficar num
motel? A mãe quis saber. Por que Jack não poderia ficar lá, na casa deles?
— Porque —, disse Tanny —, acho que gostaríamos de dormir juntos, e
para falar a verdade não acho que nos sentiríamos confortáveis com você por
perto.
A mãe dela piscou os olhos três ou quatro vezes. — Bem, vou para a cama
cedo.
Então ocorreu o milagre de, apesar de toda a conversa da mãe de Tanny
sobre a moral cristã fundamentalista, Jack dormir na cama de Tanny — e com
Tanny — sob o teto da mãe dela. Jack trouxe a Jason um novo caminhão de
bombeiros, mas Jason ignorou-o. Ao invés disso ele observou Jack por algumas
horas, e então expressou sua aprovação perguntando-lhe se ele queria brincar
com os caminhões.
Ainda assim, quando Jack saiu, Tanny não tinha grandes esperanças. Ela
tinha visto seu rosto quando ele olhou ao redor durante sua visita, olhou para a
casa, para a cidade, para a vida dela. O olhar em seu rosto dizia: isto é um buraco.
Quando ela não teve notícias dele por alguns dias, ela aos poucos foi concluin-
do: É isso. Ele não vai voltar.
Então ela voltou do trabalho para casa uma noite e a mãe dela, toda entu-
siasmada, saudou-a na porta. — Veja! Veja o que chegou para você hoje!
Ela apontou para o vaso. Eram vermelhas dessa vez.

Cedo, como sempre, Michael foi para a cidade. O céu azul e sem nuvens
do outono tinha se tornado cada vez mais o cinza indefinido do início do inver-
no. Ao andar pela rua, Michael sentia o ar de novembro, úmido e frio, como se
a neve estivesse a caminho. Ele foi para o Nick’s, desabotoou e pendurou sua
capa de chuva e sentou-se próximo do mais novo sócio da Archangel Produ-
ções, Bob Garvey.
Inicialmente Michael tinha se aproximado de Bob simplesmente para
engajá-lo como consultor. Logo no início das conversas, entretanto, ficou claro
que a Archangel não tinha dinheiro para pagar alguém do quilate de Bob. Mas,
ainda assim, eles continuaram conversando — casualmente e, normalmente,
no café da manhã. Quanto mais Bob ouvia sobre a situação, mais intrigado

254
ficava com as possibilidades. Não apenas as possibilidades em termos da
videobike, mas a idéia de uma segunda chance. Para ele mesmo. Ele viu não
apenas a oportunidade de construir e gerenciar uma operação com potencial
considerável desde os alicerces, mas também a chance de não terminar sua car-
reira com um fracasso.
Uma tarde, Bob telefonou e convidou Michael para um drinque. Eles
se encontraram no Nick’s, no lado do Lou, e no meio da primeira dose
Michael percebeu que estava em uma negociação — que Bob estava dando
dicas evidentes de que queria tomar parte na ação. Demorou algum tempo
até que Michael entendesse os motivos de Bob. Mas Michael não precisava
saber dos motivos para compreender intuitivamente que se tratava de algo
que deveria apoiar. Durante a segunda dose, já estava certo de que Bob
entraria na empresa. A questão era com quanto entraria e qual a parcela da
empresa teria em troca do capital investido. Depois da terceira dose, ambos
foram para casa, cada um pensando que tinha negociado bem com o outro,
cada um deles com medo de ir além e ceder demais no calor da negociação.
Eles apertaram as mãos no final do café da manhã do dia seguinte. Bob
teria uma participação de vinte e cinco por cento da firma, em troca de um
investimento em dinheiro correspondente a quinze por cento dos ativos
circulantes da empresa. A diferença seria considerada investimento com o tra-
balho. Depois de terminar o projeto de consultoria que estava em andamento,
Bob iria trabalhar para a Archangel em tempo integral. Ele seria responsável
pelas áreas de produção e serviços da videobike. Além disso, foi acertado que a
Archangel se transformaria em anônima assim que possível, e que cada sócio
receberia uma quantidade de ações correspondentes a seu investimento inicial.
Se a videobike fosse um sucesso, Bob poderia aumentar sua participação, acu-
mulando até trinta e cinco por cento das ações da empresa, com a permissão
dos outros acionistas.
Em poucas semanas ficou claro a todos que Michael tinha feito um bom
negócio. Bob estava planejando a futura produção da videobike com maestria e
de uma forma que Michael e os outros não tinham possibilidade de organizar
por si próprios. Melhor ainda, agora os dois homens viam um ao outro como
amigos.
— Como vão as coisas? Michael perguntou ao se sentar.
Bob empurrou um exemplar do jornal da manhã por sobre o balcão. O
jornal estava dobrado, aberto na página de negócios. Bob apontou com o indi-
cador uma manchete. — Você viu isso?

255
BARKES FECHA ESCRITÓRIO DE BRIDGEFORD
PERDA DA CONTA DA TRÊS-E É O MOTIVO

A Barkes & Collwin Advertising fechará seu escritório em Bridgeford no


final de dezembro, depois de sofrer uma significativa perda em sua principal
conta, a Três-E Corp., informou ontem um porta-voz da agência.
Um dos pilares da comunidade de propaganda na cidade por mais de uma
década, nos últimos meses a B&C perdeu várias parcelas da conta da Três-E
para agências concorrentes, tanto da cidade de Bridgeford como de fora.
— Estamos extremamente orgulhosos de nossa associação com a Três-E
através dos anos —, disse Lyle Beekstra, vice-presidente e responsável pelo es-
critório de Bridgeford da B&C.
— Entretanto, chega uma hora em que se torna impossível justificar as
despesas de um escritório para prestar serviços para um único cliente.
As partes restantes da conta da Três-E serão atendidas por Nova York, disse
Beekstra.
Aproximadamente cem pessoas serão dispensadas como resultado do fe-
chamento do escritório da B&C.

Michael levantou sua xícara de café e empurrou o jornal de volta a Bob. —


Obrigado, leio o resto depois.
— Pode ser um bom momento para renegociar o aluguel —, disse Bob.
— Bem pensado.
— Você não parece muito feliz. Eu tinha pensado que essa novidade faria
você pular de alegria.
— É estranho como as coisas viram algumas vezes.
Bob sentiu alguma outra coisa. — Qual é o problema?
— Estou preocupado com minha mulher.
— Pensei que ela estivesse na Califórnia.
— Ela está. O problema é que perdi contato com ela. Achei mau sinal
quando Babe voltou antes e sozinha. Mas estava terminando aquele projeto
com Chechman. Eu realmente estava me esforçando com aquilo, e além disso a
unidade comercial deles quer ir em frente com aquele projeto de hipertexto e
querem que cuidemos da parte de vídeo, e assim tínhamos isso em vista. A
propósito, você estava fora da cidade, mas eu fechei com FM ontem à tarde.
— Você fechou? Bom.
— É, ele vai começar em alguns dias. Bem, acho que o papel dele será
transformar o circuito básico da videobike numa máquina de jogos virtual.

256
Você entende o que estou falando? Existem muitas possibilidades nisso. Que-
ro ligar esses fanáticos em rede, de forma que as pessoas — possivelmente em
lugares diferentes — possam competir umas com as outras. Eu já tive algumas
conversas com donos de lojas de videogames e estou sentindo que há um forte
interesse por parte deles. Mas vamos precisar de alguns especialistas na parte
gráfica logo, logo, e não me refiro a técnicos, mas artistas. Tanny está se me-
xendo quanto a isso, mas realmente precisamos de alguém que venha e seja
rápido...
— Espere um minuto. O que aconteceu com sua esposa?
— Bem, não tenho tido notícias dela e ninguém sabe onde ela está.
— Isso não é bom.
— Não, não é. Finalmente reservei um tempo ontem e pressionei Babe
para que me contasse o que aconteceu lá realmente.
— E?
Michael virou o rosto.
Bob colocou a mão nas costas de Michael. — Ei, calma. O que está acon-
tecendo?
Michael suspirou profundamente. — Eu tive um caso com Tanny Zoelle
na última primavera. Ou ela teve comigo. Não, não posso jogar a culpa em
Tanny. A culpa foi minha.
— Bem, acabou agora, não?
Michael olhou para ele.
— É —, disse Bob —, Eu também ouvi alguma coisa. Há meses.
Michael afastou o olhar. — Então ocorreu que Babe e minha mulher tive-
ram uma discussão em Los Angeles e Babe jogou isso na cara dela.
— E agora Regan está sumida.
— Eu não sei o que fazer —, disse Michael. — Eu não sei se chamo a
polícia ou se dou mais um tempo ou o quê. Fiz com que Babe telefonasse para
as pessoas no itinerário dela. E descobrimos que Regan cancelou todos os com-
promissos em San Diego. É só por isso que não estou mais preocupado ainda.
Não é que ela não apareceu, ela realmente cancelou todos eles. Fico imaginando
se o problema é que ela só precise de algum tempo sozinha.
— Bem, se houver alguma coisa que eu possa fazer...
— Obrigado. Sabe, eu realmente não estou em pânico com isso. Imagino
que se alguma coisa realmente ruim tivesse acontecido, a esta altura eu já sabe-
ria... Vou dar mais um dia ou dois, e então, se não tiver notícias dela, talvez
procure um detetive particular ou alguma coisa assim.
— Detesto perguntar —, disse Bob —, mas o que acontece com nossa
empresa em geral e à videobike em particular se ela se divorciar de você?

257
— Nada grave, espero. Ela não se juntou a nós como sócia, como é o seu
caso. O que temos é apenas um contrato simples de prestação de serviços com ela.
— É, mas e se ela der entrada no pedido de divórcio, ela não pode lutar
pela sua parte na empresa?
Michael abaixou a cabeça. — Nem quero pensar nisso.
— Bem, espero que tudo fique bem.
— E que tal os circuitos integrados e as placas de circuito impresso? Como
está indo essa parte?
— As placas entram em produção esta semana. Eu vou congelar o desenho
dos substratos dos circuitos integrados hoje ou amanhã o mais tardar. Qual é a
nossa posição de caixa? Eu tenho que pagá-los logo.
— Não é ruim —, disse Michael. — Na semana passada tínhamos quatro-
centos mil.
Bob ficou duro. — Ela não tem acesso a isso, tem?
— Jesus Cristo! —, Disse Michael, tendo um sobressalto e derramando o
café. Então ele se lembrou. — Não, não, está tudo bem. Ela não pode assinar
cheques. — Ele pegou um punhado de guardanapos e limpou o café. Ele deu
um tapinha no braço de Bob. — Cara, não me assuste desse jeito!
— Você está abalado e muito nervoso.
— Estou abalado e nervoso.
— Não vai comer nada?
— Não, só tomo o café.
— Você já derrubou todo ele... É, droga, temos que ir trabalhar.
— Certo. É tudo que me resta.
— Oh, pare de se culpar. Ao menos lhe resta alguma coisa.

No último dia de novembro, Michael teve uma reunião pela manhã com
Peter Chechman na Três-E. Ele levou Chechman para almoçar e voltou para a
cidade à uma e meia. Babe lhe disse, quando entrou, que Tanny queria falar
com ele.
— Recebi um telefonema meio estranho agora há pouco —, Tanny lhe
disse. — Uma mulher telefonou e perguntou se fabricamos a videobike, e de-
pois fez uma porção de perguntas. Ela perguntou de você. Perguntou os preços.
Perguntou quem eram os principais clientes da videobike. Respondi, honesta-
mente, que ainda não tínhamos vendido muitas unidades. Quando perguntei
quem ela era, ela quis manter a identidade em sigilo e só disse que trabalhava
para uma grande empresa de renome nacional. A última coisa que ela pergun-
tou foi se daríamos desconto para uma encomenda grande.
— E o que você disse?

258
— Diga-me quantas quer encomendar e depois podemos conversar.
— Bom. Ela deixou algum número de telefone?
— Não, não deixou. Quando perguntei, ela apenas disse que alguém pro-
vavelmente iria fazer contato conosco. Despediu-se e desligou.
— É estranho. Me informe se ela ligar de novo.
Tanny estava se virando para sair quando Babe apareceu.
— Uma mulher está ao telefone dizendo que alguém chamado Sam Felix,
da Fittings International, deseja falar.
Tanny arregalou os olhos. — Não é Fittings. O nome é Fit-N-Fun
International. — Ela se voltou para Michael. — A Fit-N-Fun é o maior cliente
da Exerific. São eles que compraram as duas bicicletas em Los Angeles.
Michael pegou o telefone. — Alô?
— O Sr. Sam Felix vai falar. Por favor, um momento.
A linha ficou muda por cinco ou seis segundos. Michael olhava para lá e
para cá, gesticulando para que Tanny se sentasse.
— Mike? Sam Felix. Como vai?
Nossa, é como se fôssemos velhos amigos, pensou Michael. — Bem, Sam, e
você, como vai?
— Bem, muito bem. Deixe-me ligar o viva-voz. — A qualidade do áudio
mudou. — Ainda aí, Mike?
— Ainda aqui, Sam.
— Mike, deixe-me apresentar algumas pessoas que estão comigo em meu
escritório. Primeiro, Joel Goldstein, que é vice-presidente e diretor de operações
dos centros de condicionamento. Susan Abercrombie, nossa vice-presidente de
marketing. Troy Sullivan, nosso vice-presidente de finanças. Gloria Pellagrini,
que trabalha para nossa agência de propaganda. E alguém que acho que você
conhece, Olaf Ullman, que é consultor e um velho amigo meu.
— Alô, Mike!
— Olá, Olaf —, disse Michael. — Como estão as videobikes?
— Estamos esperando que você faça novos videodiscos!
— Então o que posso fazer por todos vocês? — Perguntou Michael.
— Mike, você não tem idéia de como foi difícil localizar você! Tentei
encontrá-lo através da Exerific e, bem, foi só por conhecermos Olaf que con-
seguimos o seu número. Mas, pelo que sei, sua empresa é a criadora da
videobike. Bem, alguns de nós aqui na Fit-N-Fun estamos bastante impressi-
onados com ela. Nós a vimos em andamento na academia do Olaf e acho que
pode haver interesse dos próprios clientes da Fit-N-Fun. Diga-me, qual é sua
a disponibilidade?
— Não entendi, poderia repetir?
— Quantas você tem em estoque?
259
— De quantas você precisa?
— Bem, ah, isso depende do acordo que fizermos quanto à entrega.
— Não sei se estou acompanhando. De quantas você precisaria e quando
precisaria delas?
— Que tal quatrocentas unidades em primeiro de janeiro?
— Bem... hum, me desculpe por um segundo. — Michael colocou a mão
sobre o fone, olhou para Tanny e disse: — Eles estão falando de quatrocentas
unidades. Acho que vou desmaiar.

Freddy Wing era asiático-americano e quando Regan encontrou-o pela


primeira vez, ela, sem qualquer outra razão além do estereótipo, achava que ele
falasse mal o inglês, quando na verdade era nascido em Los Angeles e falava a
língua tão bem quanto ela. Ele estava perto dos trinta anos, tinha constituição
miúda e era muito magro, com braços que pareciam palitos, como revelavam as
camisas de manga curta de que ele gostava. Sua nova área de trabalho era atrás
de uma porta de segurança na parte de trás dos escritórios da LioCo. Freddy
Wing, Regan DiGabriel e Gary Lio estavam sentados em cadeiras de plástico
em torno de uma pequena mesa de fórmica. Peças eletrônicas da videobike
estavam espalhadas pelo local.
— Veja —, disse Wing —, deve haver pelo menos uma meia dúzia de
empresas trabalhando no que a videobike já faz. Daqui a dois ou três anos,
videodigital com movimentos completos e em tela grande a partir de compo-
nentes comuns de microcomputadores PC serão lugar-comum. Mas, neste exa-
to momento, a videobike é a única máquina que conheço que chegou lá.
— É por isso que temos uma oportunidade aqui —, disse Gary, falando
mais para Regan.
— E a melhor parte é que o potencial vai muito além de apenas um pro-
duto para exercícios —, disse Wing. — O sistema de vídeo da videobike, se
você quiser, pode ter muitas aplicações — jogos, multimídia para empresas,
possivelmente até uma placa gráfica de alta qualidade.
— Mas precisamos nos mexer rápido —, acrescentou Gary. — Não pode-
mos deixar a Archangel ou alguma outra nos bater no mercado.
— O que precisamos —, disse Wing —, é do código-fonte.
— O quê? — Perguntou Regan.
— Você sabe como se cria um software?
— Bem... realmente não.
— Quando você está desenvolvendo um software —, disse Wing —, isto
é, depois que organizou as coisas em um fluxograma e tudo isso — você começa
digitando as linhas do programa usando uma linguagem. Como BASIC,
260
FORTRAN, Pascal — todas elas são linguagens de computador. Atualmente, a
linguagem preferida por muitos programadores é a linguagem C. Que é a que,
assim eu acho, foi usada para desenvolver o programa da videobike. Então você
digita, digita, digita usando o teclado — números, letras, pontuação. Só que
você não está escrevendo em inglês, está escrevendo em C. Você compreende?
— Acho que sim —, disse Regan. — É como se eu soubesse francês e
tivesse um amigo em Paris que não falasse inglês, e se eu quisesse me comunicar
teria que escrever uma carta em francês, não em inglês.
— Certo —, disse Wing. — Mas quando você está escrevendo software,
uma vez que tenha digitado as linhas do código, o computador ainda não as
entende. Tudo que um circuito de computador entende são voltagens altas e
baixas. Ligado e desligado, zeros e uns. Chama-se código binário. Então deve
haver outro passo, que traduza o código do programa, que as pessoas podem ler
na tela, escrito em C, em zeros e uns que a máquina entende. Esse passo é a
compilação. Uma vez que o código seja compilado, você não pode lê-lo, mas o
computador pode. Se você quiser ler ou fazer modificações ou consertar alguma
coisa, seja lá o que for, é preciso voltar ao código na linguagem-fonte.
— E isso não está na videobike que temos aqui? — Perguntou Regan.
— Não —, disse Wing. — O que está dentro da caixa de controle da
videobike é um circuito integrado especial chamado EPROM.11 O EPROM
tem o código, mas ele está compilado. O código-fonte estaria no computador
de desenvolvimento da Archangel em Bridgeford. Agora, é verdade que pode-
ríamos aplicar engenharia na videobike e eventualmente chegar muito perto de
como ela funciona. Mas isso exigiria seis meses, talvez um ano, ou ainda mais
que isso.
— E o programador que escreveu o software para a videobike? — Pergun-
tou Regan. — Eu sei quem é. Por que simplesmente não o contratamos?
— Porque ele provavelmente iria querer muito dinheiro —, disse Wing.
Gary colocou a mão no pulso minúsculo de Wing para silenciá-lo. —
Regan, se ele não aceitar a oferta, ou mesmo se aceitar, teremos revelado nossos
planos. O mais simples, o mais eficaz em termos de custo, é você conseguir uma
cópia do código-fonte.
— Como eu poderia fazer isso?
Gary encolheu os ombros. — Isso é com você. Eu sugeriria que você vol-
tasse para Bridgeford, talvez como se nada tivesse acontecido, e...

11
EPROM - Erasable and Programable Read Only Memory, um tipo de circuito integrado que, uma
vez conectado ao circuito elétrico, funciona como memória apenas de leitura, mas que pode ser
programada e apagada através de técnicas especiais (N. do T.).

261
— Não posso fazer isso. Tenho certeza de que Michael já sabe que alguma
coisa está errada.
— Então você diz a ele que quer voltar. Diga-lhe que pensará em dar uma
segunda chance. Então, uma noite, você trabalha até tarde. Depois que todo
mundo tiver saído, você faz uma cópia do código-fonte.
— Não sei —, disse Regan.
— Regan, nós não vamos roubar o código —, disse Gary. — Nós simples-
mente queremos olhar o código de forma que possamos chegar à nossa própria
versão, legal, que não viole nenhum copyright ou patente. É tudo. Uma vez que
saibamos como eles o fizeram, podemos contornar as questões legais e mesmo
chegar a uma versão melhorada. Mas temos que ter o código-fonte para fazer
isso, e se não o tivermos — bem, há pouco sentido em prosseguir, porque não
teremos vantagem.
Regan levou isso em consideração.
Gary se inclinou para a frente e colocou sua mão nas dela. — Estamos
torcendo as regras? É, talvez. Mas estamos agindo de forma que no fim possa-
mos fazer a coisa certa! De qualquer forma... você disse que queria ir à forra,
não disse? Bem, isso vai ser muito mais lucrativo do que pedir uma pensão.

No novo escritório dela, a duas portas de distância do de Gary Lio, Regan


sentou-se olhando o telefone por meia hora. Ela até fez anotações sobre o que
deveria falar a Michael. Ela ponderou as táticas. Deveria atacar e mantê-lo na
defensiva? Ou deveria parecer como se estivesse querendo perdoar? Sem tomar
uma decisão, ela pegou o telefone e fez a ligação.
— Boa tarde. Archangel Produções. — A voz de Babe.
— Michael DiGabriel, por favor.
— Regan?
Droga. — Sim, Oi.
— Onde você está? Está todo mundo preocupado.
— Estou bem. Deixe-me falar com Michael.
Dez segundos depois, Michael pegou o telefone. — Regan?
— Oi, Michael. — Ela manteve o tom neutro.
— Como você está?
— Já estive melhor.
Ele suspirou. — Eu também. De onde você está falando?
— Ainda estou em Los Angeles. Fiquei no Ritz.
Nenhum comentário da parte dele.
— Você me machucou muito, Michael.
— Sim, Babe me disse...
— E vim a saber através dela o que não contribuiu para diminuir a dor.
262
Outro suspiro. — Lamento. Não sei mais o que dizer além de que lamen-
to muito, muito mesmo. As coisas simplesmente aconteceram. Elas saíram fora
de controle. Terminei tudo no verão, e realmente achei que o melhor seria não
contar para você.
— Certo, simplesmente varrer para debaixo do tapete.
— Não queria magoar você.
— Bem, você magoou.
— Bem, novamente, lamento. Por que você não volta para casa?
— Sim. Quero voltar, mas tenho que dizer que não sei se as coisas podem
voltar a ser como antes entre nós.
— Em muitos sentidos —, disse Michael —, isso seria bom.
— Bom?
— Quero dizer, que elas não sejam como eram. Tenho pensado muito e
cheguei ao menos a uma conclusão: que há muito tempo não estou feliz com o
nosso casamento. Mas também que eu ainda amo você. Gostaria de tentar no-
vamente, se você quiser.
Inesperadamente, os olhos de Regan se encheram de lágrimas. Nenhum
dos dois falou por alguns segundos. Então ela se controlou e disse: — Neste
momento não posso, honestamente, dizer que amo você. Mas vou voltar para
casa daqui a um dia ou dois, e vamos ver o que acontece.
— Certo. Eu posso aceitar isso.
Ela olhou para suas anotações. — Presumo que meu emprego ainda esteja
disponível.
— Sempre estará! — A voz de Michael ficou excitada. — Eu queria que
você tivesse telefonado antes, pois tenho grandes novidades que estava queren-
do contar.
— O que é?
— Você está sentada? Regan, conseguimos um peixe grande. Você já ou-
viu falar da Fit-N-Fun? É a segunda maior rede de academias do país. Bem,
acabamos de chegar a um acordo com eles no valor de 1,1 milhão de dólares.
Estão comprando quatrocentas videobikes.
Regan levantou-se. — Como aconteceu isso?
— Muito rápido. Lembra do que falei sobre o Olaf? Acontece que ele
presta consultoria para a Fit-N-Fun. Bem, Sam Felix, que viu a videobike em
Chicago, usou-a novamente na academia do Olaf, conversou com o pessoal de
marketing, com o pessoal de finanças, com alguns gerentes das academias, e eles
decidiram não perder tempo. Estão embarcando com os dois pés. Vão se
posicionar antes que todos os outros tenham a mesma idéia.
— Oh, meu Deus...
— É excitante, não? A única coisa é que temos que instalar todas as qua-
263
trocentas unidades nos centros de condicionamento até a primeira semana de
janeiro.
— Por que tão rápido?
— Segundo Sam Felix, o interesse do consumidor em condicionamento, e
particularmente em perder peso, tem um pico anual que ocorre logo depois das
festas de dezembro. É quando todo o mundo toma suas decisões de ano novo.
Depois de se entupirem de comida nos feriados, estão preparados para se arre-
pender. Assim a Fit-N-Fun consegue a maioria dos clientes novos durante ja-
neiro. É por isso que temos que instalar no começo do mês. Eles vão promover
a videobike como incentivo para a adesão de novos clientes. De fato, eles vão
comprometer um grande orçamento de propaganda com esse objetivo. Quero
dizer, a oportunidade é simplesmente incrível!
— Mas Michael, como você vai conseguir ter o produto até lá?
— Bem, o prazo é muito, muito apertado. Mas Bob Garvey e eu nos
sentamos e fizemos todo o planejamento. Chamamos todos os fornecedores.
Eles vão ter que fazer muitas horas extras, mas parece que realmente podemos
fazê-lo. O que nos salvou é que já tínhamos encomendado as placas-mães e os
circuitos integrados especiais, com o software gravado neles, mesmo antes do
Felix telefonar. Tudo que tivemos que fazer foi aumentar a quantidade. De
qualquer forma, estamos indo em frente. A propósito, espero que você não se
importe em trabalhar com Bob Garvey.
— Por quê?
— Ele está conosco em tempo integral. Vai ser o gerente de produção.
Para falar a verdade, não acho que poderíamos conseguir sem sua experiência.
De qualquer forma, o Garvey montou um plano logístico que, acho, vai real-
mente funcionar. Isso é, é incrível como todas as partes estão se encaixando!
— Sim, é... maravilhoso.
— Lógico que é. Ei, corra pra casa, ok? Sinto sua falta e há trabalho mais
que suficiente para todos, acredite.
— Certo. Hum... telefono quando souber detalhes do meu vôo.
— Tchau. Amo você —, disse ele.
Ela simplesmente desligou. Assim que o fez, ela correu para falar com
Gary Lio.
Ele estava furioso. Pela primeira vez, ela o viu realmente bravo. — Por que
você não conversou com ele antes?
— O que você esperava, Gary? E, além de tudo, você e eu só nos entende-
mos sobre a minha posição ontem à tarde! Se você simplesmente tivesse concor-
dado com os meus termos desde o início...
— Não importa! — Ele só faltou gritar. — Olha, vou dizer o que você tem
que fazer. Você tem que... voltar para lá. Você vai conseguir uma cópia do
264
código, e vai desviar os trabalhos. Não me importa como faça, mas agora você
tem uma dupla missão. Quero o código e quero essa coisa da Fit-N-Fun sabota-
da. Você entendeu?

Michael DiGabriel recebeu Regan-o -Iceberg, no aeroporto com um pe-


queno buquê de rosas. Ela agiu como se ele tivesse dado a ela uma nota de um
dólar, e esqueceu o buquê no carro quando entraram em casa. Depois que as
flores foram encontradas no dia seguinte, eles nunca mais se entenderam.
Ele fez uma tentativa de fazer amor com ela. Tentou abraçá-la e ela disse:
— Ainda não estou pronta para isso. Ele não tentou novamente. Eles dormiram
na mesma cama, distantes um quilômetro um do outro.
O trabalho era a única ocasião em que parecia haver alguma esperança.
Eles iam para a Caverna juntos. Ela era cordial com todos, exceto com Tanny, o
que era compreensível. Ela também era um pouco fria com Bob Garvey, mas
isso também era compreensível. Era profissionalmente simpática quando em
companhia de Michael. Com os outros — Babe, FM, Boner e Redmeat — ela
era francamente amigável. Ela deu a Babe um presente de reconciliação, um par
de pequenos brincos de jade comprados em Rodeo Drive.
Para agradável surpresa de Michael, Regan estava muito interessada em
tudo o que tivesse a ver com a venda para a Fit-N-Fun. Ela memorizou os
nomes dos principais diretores, estudou a organização, fez todas as perguntas
que podia sobre a posição deles no mercado. Então, pediu que Michael a dei-
xasse cuidar dos contatos com o cliente — eles falavam quase todos os dias, e
algumas vezes até três ou quatro vezes por dia, com a Fit-N-Fun. Michael achou
um sinal muito positivo em todos os aspectos, que Regan quisesse se envolver.
Mas quando ele tentou convencer o cliente a aceitar a mudança, Roger Grenn,
o principal elo de ligação com a FNF, vetou a proposta. Grenn, e Michael não
poderia culpá-lo, recusou-se a lidar com um intermediário, especialmente na-
quele momento. Michael era o presidente, e Grenn queria Michael.
Na guerra fria do casamento deles, Regan encarou a recusa de Grenn como
rejeição, culpou Michael pelo desprezo e em seguida começou a batalha.
— Regan, ele não quer trocar os cavalos no meio da corrida.
— Ele não me quer porque você não me apóia —, acusou ela.
— Eu apoiei sim! Como você pode dizer isso?
— A verdade é que você não quer que eu me envolva.
— Sim, eu quero. É a única parte decente do nosso relacionamento.
Foi uma pequena troca de chumbo, com ambos saindo com poucas bai-
xas. Michael finalmente exercitou a diplomacia, prometendo trabalhar para que
ela entrasse no negócio da FNF.
O estúdio, a esta altura, não era mais um estúdio. Foi tomado por Boner
265
e FM com seus computadores. Regan começou a passar muito tempo ali con-
versando muito com Boner, fazendo uma porção de perguntas sobre computa-
dores. Boner, que gostava e agradecia qualquer atenção feminina, adorava ex-
plicar cada pequeno detalhe.
— O que é isso? — Regan perguntou, apontando uma abertura retangular
numa das máquinas Pentium.
— Isso é o drive para backup em fita. Ele copia e comprime os arquivos do
disco rígido. Dessa forma, se alguma coisa acontecer com o disco rígido, por
exemplo se algum arquivo for acidentalmente apagado ou se o próprio drive
quebrar, temos uma cópia de segurança.
— Ele usa fita?
— É. Uma dessas. — Ele mostrou a ela um cartucho de fita, que parecia
com um cassete de áudio, só que menor. — Aqui, deixe-me mostrar como
funciona.
— Você poderia usar isso para transferir arquivos de um computador para
outro? — Perguntou Regan. — Como se eu quisesse mudar os arquivos deste
para aquele computador ali?
— Bem, essas máquinas estão ligadas em rede. Mas se não estivessem, sim,
você poderia fazer desta forma. Contanto que ambos os computadores tivessem
o mesmo tipo de drive. Drives diferentes têm formatos de fita diferentes.
— E de que tipo é este?
— Colorado.
— E é caro?
— Ei, FM —, perguntou Boner —, quanto custa um drive de fita?
— Não sei, menos de quinhentos.
FM estava no Indy, com seu monitor de alta definição de vinte e uma
polegadas, trabalhando em uma perspectiva que iria delinear com precisão um
corredor virtual perseguindo outro.
— Sabe —, disse Regan —, eu estava pensando: onde você guarda o pro-
grama da videobike?
— Está no disco rígido. — Usando o mouse, Boner chamou um diretório
de arquivos. — Aqui. Está num subdiretório chamado ‘VB’.
— Todos esses arquivos constituem o programa?
— Não, o VIDBIKE é o programa principal.
— Esse é... como é que se chama? O código-fonte?
— Não, VIDBIKE é o arquivo compilado, em linguagem de máquina. O
código-fonte está nesses arquivos aqui embaixo. — Ele apontou o mouse para
outro subdiretório.
— Entendo. — Ela estava sentindo, durante toda a conversa, alguma coi-
sa como um feixe de raios laser em suas costas. Ela se virou e FM ficou olhando
para ela.
266
— Você não precisa se envolver com nada disso —, disse ele.
— Eu sei, eu sei! — argumentou Regan. — Eu só estava curiosa.
FM manteve o olhar fixo. — Uh-hum.

— Ok, vocês estarão na estrada em poucas horas —, disse Michael —,


então seria uma boa idéia que todos repassássemos o plano.
Eles se sentaram ao redor da mesa da equipe no estúdio — Michael, Tanny,
Redmeat, Boner, Hoona, Babe, Bob Garvey, FM e Regan DiGabriel. Ver todos
juntos — sua ex-amante; sua mulher alienada; o que restou de sua antiga equi-
pe; um executivo demitido da Três-E sentado ao lado de um gênio dos compu-
tadores também demitido —, fez com que Michael se sentisse nostálgico e
maravilhado.
— Antes de entrar nos assuntos totalmente práticos —, começou ele —,
quero dizer que podemos nos sentir orgulhosos de nós mesmos. Há seis meses,
alguns de nós sentaram aqui nesta mesma mesa sem saber se permaneceríamos
ou não nos negócios. Há menos de um ano, a maioria de nós perdeu o emprego
na Barkes & Collwin. Hoje, é a Barkes & Collwin que está deixando a cidade.
E nós ainda estamos aqui.
— Não apenas isso, mas temos um futuro. Esta nossa pequena empresa
foi de zero a um milhão e meio de vendas em menos de um ano. Temos uma
coisa que pode mudar a natureza dos produtos para exercícios, que pode criar
um mercado inteiro para nós, o mercado dos esportes virtuais. No próximo
ano, os negócios com a Três-E poderão ser meras cerejas em um bolo bem
grande. Talvez até tenhamos que sair dos negócios de produção de vídeo, para
podermos concentrar nossos recursos na videobike.
— É tudo, pessoal. Este é o sonho americano. De fato, é melhor do que
isso. Porque não é um sonho. É a nossa realidade. Nós a estamos criando. Estamos
fazendo com que aconteça. Mas não podemos nos dar ao luxo de cometer erros.
A venda para a Fit-N-Fun é a nossa grande jogada. Temos que acertar.
Ele deixou que isso assentasse.
— Certo, aqui está o plano. Vamos começar com Sherburne, Nova York.
Uma empresa lá está fazendo os circuitos impressos. Em cerca de três horas,
Bob e Boner vão embarcar num avião, viajar para Syracuse, e estarão em
Sherburne amanhã de manhã. Eles irão verificar a qualidade, embalar as placas
em caixas, voltar para o aeroporto e viajar para Austin, no Texas, levando as
caixas como bagagem pessoal.
— Em Austin, eles irão levar as placas para a HiTex Manufacturing
Company, onde os componentes eletrônicos comuns — os circuitos integrados
de memória RAM; os resistores; as portas de I/O; e todos os outros componen-
tes serão montados nas placas. FM vai se encontrar com eles em Austin, na
267
volta de Palo Alto, Califórnia, trazendo os circuitos integrados de vídeo. Ao
mesmo tempo em que Bob e Boner estiverem voando para o leste, para
Sherburne, FM estará voando para o oeste. Ele vai verificar o relatório de testes
dos chips gráficos, receber a entrega, colocá-la numa maleta e voar para Austin.
— Simultaneamente, Redmeat terá alugado um caminhão e irá até
Cleveland, onde em algum ponto nas planícies ele vai encontrar uma pequena
oficina metalúrgica que contratamos para fazer as caixas de aço para nós. Redmeat
vai deixar uma amostra, pagar a primeira parcela à metalúrgica, voltar ao cami-
nhão e dirigir até Baltimore. Em Baltimore há um depósito lotado de repro-
dutores de videodisco, que conseguimos comprar num negócio da China. Red
vai achar o depósito, carregar o caminhão, dirigir de volta a Cleveland e pegar as
caixas, que então já deverão estar prontas.
— Enquanto estes eventos estiverem ocorrendo, um navio porta-contêineres
estará cruzando o Oceano Pacífico. Toque o apito do navio, por favor.
Redmeat obedeceu.
— Obrigado. Um de seus contêineres está carregado de monitores de com-
putador, procedentes de Taiwan. Tivemos um entendimento com o importador
para comprar quatrocentos deles. O navio deverá atracar nas docas de Long
Beach, Califórnia, no dia treze de dezembro. Até lá, Hoona e eu estaremos em
San Diego. Lá alugaremos outro caminhão, cruzaremos a cidade, e pegaremos
as fontes de alimentação, que estão vindo do México. Depois seguiremos para
Los Angeles. Na manhã do dia quatorze os monitores terão sido liberados pela
alfândega e estaremos lá para receber a entrega. De acordo com nossos cálculos,
poderemos encher um caminhão com quatrocentos monitores e as fontes de
alimentação, que não são muito grandes, e ainda vão restar uns cinco centíme-
tros para fechar as portas.
— Ok, estão me acompanhando? Assim que pegar os monitores, Hoona e
eu sairemos pela Interestadual Quinze. No dia seguinte, se tudo der certo, e é
melhor que dê, Boner, Bob e FM deverão receber as placas-matrizes concluídas
pela HiTex. Eles terão, então, alugado um outro caminhão. Uma vez que tive-
rem as placas, seguirão para o norte.
Na mesma quarta-feira, aqui em Bridgeford, Babe e Tanny vão alugar
um quarto caminhão. Já que o caminhão terá um câmbio automático e um
banco de motorista ajustável, elas me garantem que darão conta do recado.
Então, carregarão o caminhão com ferros de solda e todas as ferramentas de
que precisamos, mais as caixas de videodiscos; presilhas de montagem; porcas
e parafusos; cabos de força; tudo o que deverá ter chegado até esse momento.
Depois dirigirão até Cedar Rapids, Iowa, onde há uma empresa fazendo os
cabos especiais de vídeo de que precisamos. Elas irão pegá-los na quinta-feira
e seguir para o sul.
268
Enquanto isso, aqui em Bridgeford, uma pequena empresa, que existe
graças aos nossos amigos da Três-E, estará terminando uma parte essencial. A
Circuitos Integrados Maccagheny está produzindo as memórias ROM, que con-
terão o software da videobike. As memórias ROM serão os únicos componentes
que não estarão disponíveis a tempo para a HiTex inserir nas placas-mães. Regan
DiGabriel, que estará aqui na Caverna atuando como central de informações,
irá retirá-las na Maccagheny no final da tarde de quinta-feira, colocá-las numa
pasta e levar com ela para o aeroporto.
— Então, Hoona e eu estaremos indo para o leste. Redmeat estará indo
para o oeste. Teremos Boner, Bob e FM indo em direção ao norte, assim como
Tanny e Babe estarão indo para o sul. Finalmente Regan estará indo pelo céu.
Para onde estaremos indo? É lógico, para Kansas City!
— Na tarde de sexta-feira, dezessete de dezembro, todos os quatro cami-
nhões estarão no Big Buffalo Motel logo na saída da estadual Setenta, em algum
lugar a oeste de Kansas City. Ali, montaremos as quatrocentas caixas de contro-
le para as quatrocentas videobikes. Por que o Big Buffalo? Porque os quartos são
de bom tamanho e baratos e podemos reservar uma porção deles a um preço
muito bom. E por que Kansas City? Principalmente porque fica bem no meio
do país. Nossa agenda é tão apertada que um dia a mais ou a menos é crítico.
Pensamos em fazer a montagem em Austin, mas fica muito ao sul. Nos custaria
ao menos dois ou três dias extras ao volante.
— Bob Garvey fez uma estimativa de que com todos nós realizando o
trabalho, levar aproximadamente dez horas para montar todas as quatrocentas
caixas de controle, mais umas duas horas para carregar os caminhões e iniciar as
quatro rotas de distribuição. Partiremos no domingo logo cedo. É absoluta-
mente necessário que comecemos a distribuição no domingo, dezenove de de-
zembro, ou nunca terminaremos a tempo, o que significa que perderemos o
bônus que a Fit-N-Fun nos pagará se todas estiverem instaladas até três de
janeiro.
— Bem vocês fizeram um monte de sorteios para decidir quem vai com
quem e para onde. FM e Hoona tiraram os números menores e foram os pri-
meiros a escolher. Eles pegaram a rota oeste que começa em Denver, segue para
Phoenix, entra na Califórnia e termina em Seattle. Babe e Boner pegaram a rota
do sul, indo pelo Texas, e mais para o sul até a Flórida. Sortudos. Redmeat e
Bob vão pegar a rota do meio, que praticamente segue a estadual Setenta duran-
te todo o tempo até Washington, D.C. E Regan e eu vamos pela rota norte, que
começa em Des Moines e acaba em Boston. Cada rota tem quinze ou dezesseis
cidades. Então vamos ter que trabalhar bem e rápido.
— Tanny Zoelle, depois de ajudar Babe a dirigir o quarto caminhão e nos
ajudar a montar as caixas, voltará para casa. Ela, afinal de contas, tem um filho
269
e, entre todos nós, é quem precisa estar em casa no Natal. Durante a semana do
dia vinte ela estará aqui na Caverna, comendo bombons e atendendo ao telefo-
ne. É só brincadeira. Então, aí está.
— Agora, todos teremos pagers e todos nós vamos ter cópias do itinerário
dos outros, com reservas em motéis e números de telefones. Devemos ser capa-
zes de nos comunicar uns com os outros se alguma coisa não der certo. Vamos
rezar para que isso não aconteça.
— É claro que isso vai comprometer os feriados de todos nós. Em outras
circunstâncias, poderíamos contratar pessoas para fazer isso para nós. Mas a
oportunidade bateu em nossa porta. Temos que fazer o trabalho. Além do mais,
quem é mais confiável do que as pessoas que estão nesta mesa?

Tanny fechou as fivelas da mala e carregou-a para baixo. Ao colocá-la pró-


xima à porta, observou a realidade atingir o rosto de Jason, transformando o
que era suavidade em uma confusão de pequenas e duras rugas, por onde as
lágrimas logo correriam.
— Oh, por favor, não de novo —, disse ela para si mesma. — Jason, vem
aqui.
Jason não daria um passo na sua direção.
Então ela se aproximou e ficou de joelhos na frente dele. Abraçou-o por
alguns momentos e o segurou pelos ombros para uma conversa cara a cara. — A
mamãe tem que ir, ok?
Ele balançou a cabeça, não estava ok.
Então ocorreu-lhe, sem mais nem menos, uma bela mentira.
— Escute, você sabe onde eu estou indo?
Novamente ele balançou a cabeça.
— Bem, mamãe recebeu um telefonema do Papai Noel.
Ele olhou para ela com suspeição, mas acreditando.
— Sim. Mamãe recebeu um telefonema do Papai Noel, e ele está tendo
problemas para acabar todos os brinquedos que está fazendo para o Natal. Ele
pediu à mamãe para ir ao Pólo Norte ajudá-lo. Sim, é isso. A mamãe está indo
para o Pólo Norte por uns poucos dias para ajudar o Papai Noel.
— Posso ir junto? — Perguntou Jason.
— Não, me desculpe, querido. Você tem que ficar aqui e fazer companhia
para a vovó, ok? Escute, é muito, muito frio no Pólo Norte. Você não ia gostar
de lá.
Ele pensou sobre isso. — Você vai ficar com frio?
— Não, estou levando um casaco muito quente. Vou ficar bem. E você
sabe de uma coisa? Como a mamãe vai ajudar o Papai Noel, aposto que ele vai
trazer para você alguns brinquedos extras no Natal.
270
Dessa idéia ele gostou.
— Ok? A mamãe vai contar ao Papai Noel, e o Papai Noel vai pôr alguns
brinquedos a mais no trenó dele para você. O que você gostaria que fosse?
— Power Rangers.
— Acho que o Papai Noel já vai trazer Power Rangers para você. O que
mais você gostaria?
— Caminhões.
— Bem, pense sobre quais caminhões quer. Ok? A mamãe vai telefonar
todos os dias do Pólo Norte para você, assim que chegar lá, e você poderá me
dizer o que quer que eu peça para o Papai Noel. Você vai sentir falta da mamãe?
Ele acenou com a cabeça inclinou-se para a frente e abraçou-a.
— Eu também vou sentir sua falta. Muito. — Ela disse para ele. Ela o
abraçou e logo olhou direto para o rosto de sua mãe, que estava olhando para ela.
— Se ao menos você fosse encontrar uma pessoa boa —, disse a mãe.
— E então o quê? — Perguntou Tanny. Ela se levantou. — Eu encontrei
um homem bom. Diversos deles. E não aconteceu nada de bom.
Elas ouviram um carro entrar na rua. Tanny olhou. Era o táxi que a levaria
para o estacionamento da empresa de aluguel de caminhões.
— Oh, lá está um dos ajudantes do Papai Noel —, disse Tanny para que
Jason escutasse. — Tenho que ir!
Ela saiu apressada, gritando: — Tchau, mamãe ama você, seja bonzinho
com a vovó!
Acomodada no banco de trás do táxi, ela olhou uma última vez pela janela
enquanto o carro se afastava. Ele estava no colo da avó.
Querido Papai Noel, ela disse no caminho para a estrada, por favor, me
traga para o Natal o dinheiro para que eu possa dar a entrada numa casa própria. E
o suficiente para comida, gasolina e seguro saúde. E Jack. É tudo que realmente quero.

Na noite anterior à partida de Michael para a Califórnia, para grande sur-


presa dele, Regan perguntou, sem demonstrar emoção: — Você quer fazer amor?
— Bem... estou um pouco tenso —, respondeu ele. — Mas, sim.
Ela parecia feita de plástico debaixo dele. Depois começou a chorar. Ele
presumiu que fosse por causa de Tanny. Achou que talvez fosse um bom sinal,
que talvez ao chorar ela estivesse chegando a alguma coisa.
De manhã ele disse a ela: — Vejo você em Kansas City.
— Certo —, disse ela.

Algumas vezes as coisas dão certo. Tudo deu certo com Michael e Hoona.
Eles voaram para San Diego, pegaram um táxi para a locadora de caminhões,

271
preencheram a papelada e estavam a caminho. Chegaram ao depósito antes de
ele fechar, lidaram com mais papelada, e uma empilhadeira carregou as fontes
de alimentação para o caminhão. Sem problemas.
De bom humor, eles foram para a Interstate 5. Nem mesmo o trânsito de
Los Angeles estragou seu humor. Eles chegaram a Long Beach e passaram a
noite no Queen Mary. Tomaram algumas cervejas com o jantar, mataram o
tempo, fizeram uma excursão pelo navio e foram dormir cedo.
De manhã, encontraram o agente importador. Houve alguma demora,
mas apenas umas poucas horas. No começo da tarde os monitores já estavam na
carroceria do caminhão, e eles estavam na estrada de acesso ao porto, indo para
o leste.
Desde o tempo em que morou em Los Angeles, Michael tinha associado
fracasso e acontecimentos ruins a essa cidade. Ele ia para lá com freqüência, mas
nunca gostou do lugar, nunca. Agora, dirigindo em direção ao interior, com
Hollywood à esquerda e o centro da cidade à direita, ao pegarem a curva que os
levaria para o leste, ele sentiu como se sua vitória estivesse enfim ali adiante,
além de Pomona.

Os empregados da empresa de mudança estavam na casa, no beco das


cerejeiras em flor, na quinta-feira de manhã. Regan já tinha, então, as caixas
embaladas e empilhadas ao longo das paredes de cada quarto. Ela mostrou a eles
o que pegar e o que deixar. Ela deixou para ele a velha mobília de solteiro, é
lógico. Ela deixou a televisão, os livros dele, sua poltrona Archie Bunker. Ela
pegou a mobília da sala de estar e a da sala de jantar. Pegou a lavadora, a secadora
e o forno de microondas. O refrigerador e o fogão ela deixou, principalmente
porque não queria limpá-los, e de qualquer forma compraria novos na Califórnia.
A mesa de cozinha e as cadeiras ficaram, pois ela pegara a mobília da sala de
jantar e estava tentando ser justa. Da mesma forma, ela pegou a cama deles, mas
deixou o colchão de molas para ele.
Os empregados da empresa de mudanças sabiam o que estava acontecen-
do. Eles eram polidos, mas havia mau humor e reserva na forma em que olha-
vam para ela. Eles acabaram no início da tarde. Ela saiu para dar uma olhada no
fundo da carroceria tipo baú, antes que eles fechassem as portas. Ela só queria
verificar se eles tinham embalado tudo com cuidado, e tinham. Ela até ficou
admirada quanto espaço tinha sobrado.
Quando Regan estava voltando para casa, uma vizinha cruzou o gramado
para conversar. — Oi, você está se mudando?
— Sim. — Regan primeiro teve um branco e não conseguia lembrar do
nome da vizinha, Cathy. Elas tinham conversado apenas umas poucas vezes
durante anos. — Sim, estou indo embora.
272
— Oh, puxa, parece que todo mundo está saindo de Bridgeford. Sua casa
vai ser posta à venda?
Regan teve a vontade de se aproveitar dela, mas hesitou. — Sim, em breve.
— Se puder, me informe por quanto vai vendê-la. Para onde você vai?
— Los Angeles.
Cathy olhou para Regan como se ela estivesse indo para Plutão. — Oh,
querida. Espero que tudo dê certo com vocês lá. É que, simplesmente, parece
que eles têm tantos problemas por lá.
— Arrumei um novo emprego.
— Entendo. Bem, boa sorte para vocês. Lamento que não tenhamos tido
a oportunidade de nos conhecer melhor.
— Sim, bem... — Regan encenou um sorriso, feliz que a pequena entre-
vista tivesse acabado, e aliviada por Cathy não ter perguntado de Michael. —
As coisas hoje em dia são assim, eu acho.
Depois que os carregadores saíram, Regan andou pela casa com seus novos
espaços vazios. Ela estava procurando alguma coisa de valor que não desejava
deixar para trás, embora agora já fosse tarde demais para qualquer coisa muito
grande. Ela também sentiu vontade de chorar, mas estava com pressa e não
podia esperar as lágrimas que, ela pensava, deviam tomar parte naquilo. Ela
tinha que ir para o centro da cidade.
Quando trancou a porta da frente, sabendo que provavelmente seria a
última vez, sentiu-se realmente triste. Ela relembrou a felicidade que sentiu ao
entrar por aquela porta de mãos dadas com Michael, e o sentimento a lembran-
ça finalmente a emocionou. Pela primeira vez ela se perguntou se estava mesmo
fazendo o que era certo. A esta altura, entretanto, a decisão estava tomada.
Ela foi para a Maccagheny Circuitos Integrados às quatro horas. O
supervisor de produção mostrou a ela os relatórios de teste, que atestavam a
qualidade. Então ele entregou a ela uma caixa de papelão. Dentro havia tubos
de plástico antiestático contendo os ROMs. Ele abriu a caixa para mostrar a ela.
Pareciam besouros pretos e achatados cheios de pernas. Ele perguntou se ela
queria contá-los. — Não. — Respondeu ela.
Como o número não apareceria em nenhuma conta telefônica, ela fez
uma ligação para Gary Lio de um telefone público num shopping center. Ela
informou a ele o número do vôo em que iria e a hora da chegada. Também
contou como ia copiar o código-fonte usando o drive de backup do computa-
dor. Eles conversaram alguns minutos sobre isso, depois Wing entrou na linha
e fez algumas perguntas técnicas. Então ela disse a ambos: — E, como bônus,
eu estarei levando comigo uma caixa de ROMs — é assim que se chama? Sãos
os chips que contêm o software da videobike.
— Ótimo! — Disse Wing. — É um bônus legal.
273
— Super —, disse Gary. — Perfeitamente super.
Quando ela estacionou o Lexus dela na cidade, quase teve um ataque de
pânico. Ocorreu-lhe que não tinha feito um plano para o carro, e ela estaria
embarcando num avião em três horas a partir daquele momento. O que iria
fazer? Não podia apenas deixá-lo na garagem. Michael tomaria posse. O fato de
ter negligenciado totalmente um detalhe importante a perturbou. Havia outras
coisas que ela tinha negligenciado? Ela decidiu que iria simplesmente colocar o
carro no estacionamento de longo período do aeroporto e resolver o problema
na Califórnia.
Dentro da Caverna, Regan ligou o computador de Babe e começou a
escrever sua carta de demissão, uma carta emocional, tentando fazer com que
sua partida parecesse uma atitude justificada de alguém oprimido. Meia hora
depois ela apagou tudo, decidindo que a carta poderia revelar demais. Ela co-
meçou de novo e ficou em três sentenças. Infelizmente, quando tentou impri-
mir, a impressora não cooperou. Ela imprimia a carta de lado e quase sem
deixar espaço para a margem esquerda. Depois de várias tentativas, a impressora
continuava a fazer a mesma coisa e, totalmente frustrada, ela desligou o compu-
tador. Olhou em volta e para sua surpresa viu uma boa e antiga máquina de
escrever IBM Selectric sobre uma mesinha lateral. Ela pegou uma folha de pa-
pel em branco no carro e secreveu:

A quem possa interessar:


Por meio desta, renuncio ao meu emprego na Archangel Produções, com
efeito imediato, devido a razões pessoais relacionadas ao rompimento de
meu casamento.

Isso. Ela assinou e fez uma cópia para si mesma. Mas a copiadora causou
problemas, pois levou dois minutos para encontrar o botão para ligar escondido
na parte de trás. Em seguida escreveu um bilhete pessoal a Michael, comuni-
cando que o casamento havia acabado. O advogado dela entraria em contato.
Ela colocou o bilhete e a carta de demissão oficial na mesa dele, olhou o relógio
e descobriu que tinha menos de duas horas para seu avião decolar.
Ela foi para o estúdio e ligou o computador que Boner chamava de “servi-
dor”, e nem se importava com o que isso quisesse dizer. Ela ligou o monitor e
observou a tela. A primeira coisa que apareceu foi uma caixa de diálogo cinza
com a frase:
Por favor, digite a senha.
A senha, que ela sabia por observar os dedos de Boner no teclado diversas
vezes, era “Godzilla”.
Ela digitou “Godzilla” e pressionou enter.
274
A inicialização continuou. A tela usual da área de trabalho do Windows
apareceu no monitor. Bom, finalmente tudo estava correndo bem.
Ela encontrou o ícone para o software de backup e deu um duplo clique.
Não foi difícil encontrar o software entre os menus que apareceram. Ela seleci-
onou o diretório “VB” e “Todos os arquivos”, e assinalou a caixa “Incluir
subdiretórios”. Ela abriu a bolsa, pegou um pequeno disquete que tinha com-
prado, tirou da embalagem e a inseriu na abertura existente na frente do servi-
dor. Ela pegou novamente o mouse e clicou no botão marcado “Iniciar backup”.
Outra caixa de texto cinza apareceu na tela, em que se lia:
Você solicitou acesso a um arquivo protegido. Por favor, digite a senha.
Ótimo, isso novamente, pensou ela, digitando “Godzilla”.
Uma nova caixa apareceu:
Senha inválida. Digite novamente.
Vagarosamente, cuidadosamente, ela digitou de novo “Godzilla”. E de novo,
a segunda caixa apareceu:
Senha inválida. Digite novamente.
Ela se recostou na cadeira e sentiu o coração batendo no peito. Então teve
uma idéia: Talvez o computador quisesse a senha em letras maiúsculas. Ela pres-
sionou “Caps Lock”, digitou “GODZILLA” e pressionou enter.
O computador apitou. Uma caixa de texto vermelha apareceu com as fra-
ses:
Acesso negado. Programa encerrado. Contate o operador do sistema.
Ela ouviu o som de discagem em um telefone multi-seqüencial, cujo signi-
ficado lhe escapou. O que o computador estava fazendo?
Com o mouse ela fechou a caixa vermelha e então abriu o gerenciador de
arquivos. Se ela não podia fazer uma cópia de todos os arquivos do diretório,
talvez pudesse apenas copiar os principais arquivos de que precisava. É, isso
funcionaria. Mas a mesma coisa aconteceu. Ela tentou uma série de possibilida-
des no espaço em branco na tela e acabou com a caixa vermelha informando:
Acesso negado...
— Merda! — Disse Regan. Boner nunca mencionou nada sobre uma se-
gunda senha.
O telefone começou a tocar. Ela o ignorou. Deixe que o serviço de atendi-
mento cuide do assunto. Ela sentiu que começava a transpirar. Alguns minutos
depois, permanecia sentada tentando imaginar o que fazer, quando ouviu a
porta da frente abrir e o tilintar de chaves. Ela correu para o hall.
— Quem é? — Gritou ela.
— Segurança!
Ela saiu. Um guarda de aparência paternal estava perto da mesa de Babe.
— Sim?
275
— Acabei de receber, lá em cima, um telefonema de um cara. Ele disse que
vocês estavam com algum tipo de problema nos computadores aqui em baixo e
que eu deveria verificar.
— Não, está tudo bem! Eu trabalho aqui. Eu, ah, acho que eu mesma
resolvi.
— Oh. Bom. Porque, para dizer a verdade, eu não ia saber o que fazer.
Qual é o seu nome, para que possa dizer a ele?
— Regan DiGabriel.
— Ok. — O guarda se virou e saiu.
— Obrigado por vir verificar! — Ela gritou para ele.
— Não há de quê.
Ela sentiu pânico. Devia ter acionado alguma coisa que fez com que o
computador fizesse uma ligação através do modem para FM ou Boner ou talvez
mesmo para Michael. Eles saberiam que alguma coisa estava acontecendo e que
ela estava envolvida. Ela tentou engolir, mas sua boca estava seca. Por alguns
momentos ela pensou em abandonar todo o plano e simplesmente cair fora.
Não, ela não poderia fazer isso. Ela tinha que conseguir o software. Voltou
ao servidor. Ela olhou para ele, praguejou, esperneou. Ela se forçou a pensar.
Onde iriam guardar a segunda senha? Tinha que haver algum registro. Nin-
guém, nem mesmo um gênio dos computadores confiaria tal coisa à memória.
Estava provavelmente escrita numa folha de papel, e essa folha de papel esta-
ria... onde?
Ela se virou para a mesa de Boner. Revirou os papéis e bilhetes tipo “Post-it”,
e não encontrou nada. Tentou abrir a gaveta dos lápis, mas estava trancada. Ela
procurou nas gavetas abertas, mas depois de cinco minutos de procura, a única
coisa notável que encontrou foi uma cópia da Penthouse escondida por trás das
pastas.
Droga, o tempo estava se esgotando! Ela foi para a mesa de FM. A gaveta
dos lápis abriu facilmente. Ela vasculhou seu conteúdo: elásticos, etiquetas para
disquetes, uma foto de uma mulher de bermudas (provavelmente a namorada),
uma calculadora científica, um Discman Sony e uma tira de papel dobrada.
Os dedos dela agarraram a tira de papel, desdobraram e, estava escrito em
tinta preta com letra de forma: CAPTKIDD.
Ela se sentou na frente do teclado. Seguiu novamente o processo para fazer
a cópia de backup. Quando a caixa de texto cinza apareceu na tela digitou
“CAPTKIDD”. Um novo box de diálogo apareceu na tela, perguntando: “Você
tem certeza, Companheiro?”
Regan estudou as palavras. Companheiro? Ela concluiu que tinha que ser
algum tipo de piada entre FM e Boner. Ela clicou no botão “sim”. A tela ficou
branca imediatamente. Então abriu-se uma nova janela, indicando que o pro-
276
cesso de backup estava em andamento. Com certeza, a luzinha verde no drive
de fita estava acesa. Em um canto da nova janela, uma caixa indicava: “Tempo
restante: 37 minutos”.
— Oh, não! — Regan olhou o relógio. Ela não tinha idéia que levaria
tanto tempo. Ia ficar muito perto da hora de embarcar. Durante os trinta e sete
minutos ela andou de um lado para o outro, irritada, na frente do computador,
e observou a pequena linha vermelha que mostrava o progresso do backup
movendo-se muito devagar da esquerda para a direita.
Finalmente apareceram na tela as palavras: “Backup completo”. Ela retirou
a fita do drive, colocou na bolsa, desligou o computador. Ela tinha que sair de
lá rápido. O avião estaria decolando em menos de uma hora. Ela correu porta
afora, e nem mesmo a trancou. Correu para o carro, voou pela estrada interes-
tadual, rezando para que não fosse parada por um guarda. Quando ela entrou
correndo no estacionamento do aeroporto de Bridgeford, tinha menos de quin-
ze minutos.
Regan entrou no avião quando eles estavam para fechar a porta. Ela tinha
reservado um assento na primeira classe. Acomodou-se e, pela primeira vez em
semanas, tentou relaxar. O comissário de bordo era simpático e trouxe um copo
de vinho branco.
Em algum ponto sobre as montanhas Rochosas, ela se lembrou. Tinha
deixado a caixa com os ROMs no assento traseiro do carro dela.

Em Colorado, o pager de Michael apitou. Aproximadamente dezesseis


quilômetros à frente tinha um posto de gasolina, e enquanto Hoona enchia o
tanque, Michael telefonou para o número que o pager indicava.
— FM falando.
— Aqui é Michael. O que houve?
— Alguma coisa estranha aconteceu agora há pouco. O servidor da Caver-
na ligou para o meu laptop.
— E o que significa?
— O servidor está programado para fazer isso se alguém tentar fazer algu-
ma coisa que o sistema considere ilegal. Nesse caso, o código de erro que recebi
indicava que alguém estava tentando acessar o programa da videobike sem a
senha correta. Quando isso acontece, um programa de segurança é acionado
automaticamente e o modem faz a ligação.
— Você ligou para a Caverna?
— Sim, mas o serviço de recados atendeu. Eles não sabiam de nada. En-
tão, eu tentei a segurança do prédio.
— O guarda foi verificar?
— É. O guarda disse que Regan estava lá.
277
— Bem, ela tem permissão para estar lá. Qual é o problema?
— Bem, primeiro, por que ela estaria ligando o sistema de desenvolvi-
mento?
— Não sei. Suponho que ela tenha uma razão.
— Ok, então você não está preocupado?
Michael fez uma pausa. — Bem... não sei. Admito que as coisas entre
mim e minha mulher não têm sido exatamente idílicas. Mas não acho que ela
tentaria ... não acho que ela sabotaria o sistema ou qualquer coisa assim.
— Ou copiasse o software da videobike.
— Copiá-lo? Não vejo o que ela poderia ganhar...
— Escuta, isso não tem nada a ver com sua mulher. Não, não é verdade.
Não posso negar que tive um pressentimento ruim em relação a ela...
— Do que você está falando? — Perguntou Michael.
— Já que estaríamos fora, eu me encarreguei de adicionar uma proteção
extra. Isto é, um cara como eu tem que cuidar do seu ganha-pão.
— Ok, desembucha, o que você fez?
— Nada! Eu só instalei uma couraça extra ao redor dos diretórios VB.
Qualquer pessoa com a senha correta não terá qualquer problema para acessar o
programa da videobike.
— E qual é a senha correta?
— Ficarei feliz em contar a você quando voltarmos a Bridgeford.
— Eu sou o presidente da empresa —, disse Michael. — Você vai me dizer
agora.
— Você promete que vai guardar para si?
— Eu prometo que vou fazer o que julgar ser o melhor interesse da empresa.
— E para a sua mulher? Você vai contar para ela?
— Você está me deixando irritado.
— E para a sua mulher?
— Não, eu não considero que seja do melhor interesse da empresa que ela
saiba a senha. Agora me diga.
— A senha correta é PIRATA.

O avião de Regan aterrizou em Los Angeles às nove da noite, horário do


Pacífico. Gary Lio e Wing estavam esperando por ela no portão. Gary a recebeu
com um grande sorriso e abriu os braços para dar as boas vindas. Ela o beijou na
boca e, enquanto se abraçavam, sussurrou em seu ouvido: — Senti sua falta.
— É, o mesmo aconteceu comigo —, disse Gary.
Com o braço ao redor dos ombros dela, ele a virou em direção à área de
retirada de bagagem. Wing estava quieto, andando do outro lado dela, e parecia
um pouco embaraçado.
278
— E então, como foi? — Gary perguntou.
— Consegui. Está bem aqui —, disse Regan —, batendo na sua bolsa.
— Excelente! — Lio, com o braço ainda em torno dela, deu uma pequena
apertada nela. — Sem problemas?
— Oh... não, nada realmente.
Gary ficou tenso. — O que aconteceu?
— Nada! Realmente, deu tudo certo. Nem vale a pena falar a respeito.
— Você tem certeza?
— Sim! O pessoal da mudança chegou na hora e tudo está indo para o
depósito e... foi legal.
Gary sorriu e apertou-a novamente. — Então você caiu fora.
— Sim, pulei fora. O Michael vai levar o choque de sua vida. Eu quase
fico triste por ele. — Ela levantou o queixo. — Não, não fico. Ele está tendo o
que merece. Todos eles estão.
— É, do jeito que ele tratou você —, disse Gary. — E os ROMs? Estão em
sua mala?
— Não, eu... decidi não trazê-los —, mentiu.
Gary diminuiu o passo. — Você não os trouxe?
— Não. Eu os deixei em Bridgeford. Não quis que houvesse nada físico...
bem, nenhuma ligação física.
Gary Lio parou no meio do terminal. Ele estava obviamente muito bravo.
— Você me disse... — Ele recuperou o fôlego. — Wing, ela precisa voltar para
pegar?
— Bem, teria sido bom ter ao menos algumas amostras...
— Será que conseguimos um vôo para ela voltar a Bridgeford hoje à noite?
— Perguntou Gary.
— Não! — Disse Regan. — Eu não vou voltar a Bridgeford. Estou exaus-
ta. Preciso de um banho quente e uma boa noite de sono, e se puder evitar,
nunca mais ponho os pés em Bridgeford.
As pupilas de Gary Lio ficaram como pequenas e frias lâminas de aço. —
Espero que você faça o que tiver que ser feito.
— Gary, desde que tenhamos o código —, disse Wing. — É isso que é
essencial.
Gary considerou isso, e então começou novamente a andar.
Eles esperaram silenciosamente, perto da esteira, pelas malas dela. Regan
apontou-as quando chegaram, e Wing as retirou. Gary ficou só olhando, ainda
irritado.
Enrique estava esperando na entrada com uma grande Mercedes branca
de quatro portas. Gary tomou o asssento dianteiro. Wing colocou as malas no
porta-malas, e então sentou atrás, junto com Regan.
279
Assim que a Mercedes estava em movimento, Gary olhou para Regan. —
Dê a cópia a Wing.
Regan hesitou.
Gary explodiu. — Eu quero que ele comece a trabalhar nisso agora! Dê a
cópia a ele!
— Certo, certo! Ela abriu a bolsa e entregou a fita cassete. Wing colocou
no bolso da camisa.
Ao invés de seguir para o sul pela I-405, Enrique pegou a rampa que ia
para o norte, e Regan notou. — Nós não vamos para Laguna?
— Não, vamos ficar no apartamento esta noite —, disse Gary.
Tentando melhorar o humor, Regan disse: — E eu que estava preparada
para saborear um dos Bloody Marys de Rosa.
Gary disse alguma coisa tão baixo que apenas Enrique ouviu, e caiu no
riso. Regan tinha a impressão que Gary tinha dito algo obsceno. — O que foi?
— Nada —, disse Gary. — Você só vai ter que agüentar.

O apartamento era em Santa Monica e Gary tinha a cobertura. Regan


tinha ficado com ele ali algumas vezes antes dela voltar a Bridgeford. Enrique
carregava as malas. Gary mal olhava para ela.
Finalmente a sós, Gary tirou o paletó e jogou-o sobre o sofá. Regan estava
emocionalmente exausta e o comportamento dele estava se tornando terrível
para ela.
— Sabe —, começou ele —, se você quer viver a vida, se você quer o
melhor...
— Gary, por favor. Não faça isso comigo. Você não sabe pelo que passei.
— Não faça isso? E o que você fez comigo, hum?
— Lamento sobre os ROMs.
— Eu espero perfeição. Se você faz uma promessa, é melhor que cumpra.
Você sabe quantas mulheres — diabos, quantos homens — gostariam de estar
na sua posição agora? Então não me diga uma coisa e faça outra.
Enquanto ele continuava com seu discurso violento, ela se sentou no sofá,
cruzou as pernas e depois cruzou os braços. Ela olhava para esse homem bravo
ali do outro lado da sala, e de repente foi como se tudo em sua consciência
tivesse mudado de colorido para branco e preto. Ele não ama você, disse uma
voz. Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui?
Entretanto, ela estava ali. Ela cobriu o rosto com as mãos e esfregou a
testa. Ela notou que Gary ficou quieto. No campo de visão dela apareceu a mão
dele, segurando uma pequena caixa embrulhada para presente, com uma fita
dourada em volta.
— O que é isso?
280
— Pegue —, disse ele.
Dentro da caixa tinha um único diamante em uma bela corrente de ouro.
— É bonito. Obrigada.
Uma hora mais tarde ela estava na cama perto dele, nua mas ostentando o
diamante e a corrente de ouro. Gary, de costas para ela, roncava feliz. Ela estava
acordada, insatisfeita e cansada demais para fazer algo.

Eles chegaram aos escritórios da LioCo às nove horas na manhã seguinte.


Freddy Wing só faltou trombar com eles quando entraram.
— Como está indo? — Gary perguntou a ele.
— Bem... Eu passei tudo que estava na fita para o disco rígido —, disse
Wing —, mas... hum, Regan, quando você entrou no avião, você deixou a fita
na bolsa quando passou pela segurança no aeroporto?
— Não, eu tirei para que fosse examinada manualmente —, respondeu
Regan. — Por quê?
— Porque quando tentei abrir os arquivos que pareciam ser o código-
fonte, bem, é apenas lixo.
— Você está brincando —, disse Regan. — Você deve ter feito alguma
coisa errada.
Wing, irritado mas com paciência, disse: — Não, não acho. Venham e
vejam vocês mesmos.
Ele os levou para o escritório dele, onde um PC estava ligado, sentou-se
e abriu um dos arquivos da videobike. A tela ficou cheia de blocos com as
letras F e M.
— Vê? A maioria dos arquivos é a mesma coisa. Apenas um punhado de
arquivos com bobagens, brincadeiras. Ele fechou aquele arquivo e chamou uma
listagem do diretório. — Os únicos arquivos legítimos no disquete que você me
deu, Regan, são alguns arquivos gráficos, bastante grandes, e este programa
aqui. — Wing apontou para um arquivo na tela chamado CKVIDEO.EXE.
— Deve ser ele —, disse Regan. — Você tentou rodá-lo?
— Não —, admitiu Wing. — Achei melhor perguntar primeiro a você.
— É o programa principal! — disse Regan, tentando soar como se enten-
desse. — Vá em frente, tente rodá-lo.
Então Wing colocou o ponteiro do mouse sobre CKVÍDEO. EXE e clicou
duas vezes.
A tela ficou preta por cinco ou seis segundos, o LED do disco rígido acen-
deu com a cor verde, e então apareceram na tela imagens mostrando um ho-
mem e uma mulher fazendo sexo anal.
Regan deu um pulo. Wing, ainda na cadeira, começou a se afastar do
computador. Gary Lio colocou a mão no queixo e observou com uma expressão
divertida que logo desapareceu.
281
— O que é isso? — Perguntou Regan.
— Você está perguntando para mim? — Disse Wing.
— O que parece? — Disse Gary.
O vídeo pornô acabou sem um clímax, e na tela apareceu um vídeo dife-
rente — FM de peito nu, usando um lenço vermelho sobre o cabelo, seu brinco
de ouro na orelha, uma espada de marinheiro de brinquedo na mão esquerda.
Ele falou, com o áudio ligeiramente fora de sincronismo com o vídeo.
— Ha, ha, ha! Olá, companheiro. Aqui é o capitão Kidd. Você tentou
fazer uma coisa feia, não tentou? Você tentou piratear o meu programa. Tsk,
tsk! Espero que não tenha nenhum dado valioso em seu computador, porque
enquanto você estava apreciando o show, acho que seu disco rígido foi pro lixo!
FM aproximou-se, de forma que seu nariz parecia estar quase tocando a tela. —
E não foi só isso: você estava sendo filmado quando fez a cópia. Assim, sei quem
você é. Se tocar em meu teclado novamente, vou processar você, encontrar você
e quebrar seus dedos. Ha, ha, ha!
Então o vídeo pornô de sexo anal voltou.
— Você não pode parar isso? Suplicou Regan.
Wing tentou a combinação das teclas “CRTL - ALT - DEL”, mas o vídeo
continuou passando. Ele pressionou o botão de reiniciar. Quando o computa-
dor reiniciou, ao invés dos comandos usuais, a tela se encheu com a mensagem:
Ha, ha, ha. Todos os Piratas devem ser enforcados.
Ha, ha, ha. Todos os Piratas devem ser enforcados.
Ha, ha, ha. Todos os Piratas devem ser enforcados.

Linha após linha, após linha. Wing finalmente desligou o computador.


Regan olhou para o lado, procurando por Gary, que já havia saído.
Regan correu para a sala de Gary e entrou direto. Gary estava em sua mesa.
— Estou tão embaraçada —, disse Regan. — Não sei o que dizer.
— Você não sabe? Bem, eu sei. Ele se levantou e gritou —, Cai fora daqui!
O volume dos gritos dele a petrificou.
— Você tinha um trabalho! — Ele contornou a mesa e foi direto para ela.
Você não o executou! Nós poderíamos ter ganho milhões. Mas você estragou tudo!
— Espere... por favor... Eu posso voltar a Bridgeford. Posso encontrar um
meio de conseguir o código-fonte. Talvez Wing possa vir comigo dessa vez. Se
nada mais der certo, eu posso pegar os ROMs e nós podemos fazer a tal coisa
reversa... seja o que for.
— Uáu. — Gary estava na frente dela. Eles tinham aproximadamente a
mesma altura e ele olhava diretamente nos olhos dela. — Foi realmente um erro
escolher você. Pensei que você fosse esperta. Mas você é a puta mais burra que
conheci em muito tempo.
282
A palavra “puta” a enfureceu. — Como você pode me dizer isso?
— Você faz uma cópia e nem ao menos verifica se deu certo? Não é burrice?
— Como você queria que eu fizesse isso?
— O acordo acabou. Saia.
— Nós temos mais do que um simples acordo, você sabe.
Ele apenas olhou para ela.
— Ótimo —, disse ela. — Então vamos acertar tudo.
— Deixe um endereço para correspondência. Vamos enviar uma fatura
para você cobrir os danos no computador, mais minhas outras despesas.
— Oh, não! É você que me deve! Você me deve pela passagem de avião,
pelo meu tempo...
— Wing! — Gary deu um passo em direção à porta. — Chame Wing
aqui! — Mas Wing estava logo ali, provavelmente imaginando o que deveria
fazer. — Wing, não é verdade que tínhamos um entendimento com a Sra.
DiGabriel que ela deveria negociar com a Archangel e nos fornecer uma cópia
licenciada e legal do software deles?
— Absolutamente —, disse Wing. — Está correto.
— E o que ela nos trouxe ao invés disso? Uma cópia pirateada! Então
tentou nos vender, não percebendo que tinha sido flagrada no ato! Não sei,
Wing, será que deveríamos chamar a polícia?
— Isso é com você, Gary.
Regan começou a se afastar deles. — Não posso acreditar...
— Gary chamou: Enrique! O homem corpulento apareceu prontamente.
Enrique, o relacionamento comercial da LioCo com essa consultora está termi-
nado. Certifique-se de que ela pegue a bolsa no escritório dela e nenhum outro
pertence pessoal. Depois a escolte até a porta. Informe a recepcionista e a segu-
rança do prédio que ela não deve ser admitida nas instalações sob qualquer
pretexto.

O Big Buffalo ficava a quatrocentos metros da estrada Interestadual Seten-


ta. De alguma forma, em sua mente, Tanny formou a imagem de uma placa
com um búfalo em tamanho natural na frente do lugar, talvez até montada
num mastro para poder ser vista a quilômetros de distância, mas não era o caso.
Havia um letreiro, de plástico retangular, com BIG BUFFALO em pequenas
letras pretas e MOTEL em enormes letras vermelhas, e esse era todo o esforço
de marketing do estabelecimento. O próprio motel era de pedra vermelha, e
tinha o formato de U, com as pontas para a rodovia. Os aparelhos de ar condi-
cionado individuais pendiam da janela da frente de cada apartamento. Um
campo ao lado, a certa distância, tinha amplo espaço para os caminhoneiros

283
estacionarem suas carretas, quando não havia muito barro. Além de um posto
de gasolina com lanchonete perto da estrada, não havia mais nada. Além do
motel, as duas pistas de asfalto seguiam por entre uma vasta planície ondulada,
com grama alta e campos de milho. Planície que se estendia pelo horizonte,
aparentemente levando a lugar nenhum.
Tanny fez a conversão e os pedriscos estalaram sob os pneus. Ela estacio-
nou perto do escritório, na ponta da perna esquerda do U. Babe olhou com
uma expressão de horror para o motel e os arredores e disse: — Deus, como
alguém pode viver aqui?
— Como você pode ver —, disse Tanny —, não são muitos.
O plano era usar um dos quartos, dos onze que estavam alugando (o que
não representava nem mesmo a metade da capacidade total do Big Buffalo),
para depósito de materiais, dois para a montagem, um para estoque de produ-
tos acabados, e os demais como dormitórios. Todos tinham seu próprio quarto,
já que eram baratos: dezenove dólares cada um.
Duas horas depois, Redmeat chegou. Eles compraram algumas latas de
refrigerantes em uma máquina próxima do escritório e conversaram um pouco
no quarto de Tanny. Tudo tinha ido bem para Redmeat, exceto por uns peque-
nos problemas. Ele tinha se perdido em Baltimore e tinha sido abordado pelos
membros de uma gangue, que queriam saber o que levava no caminhão. Eles
chegaram a segui-lo por algumas quadras (por sorte, estavam a pé), e ele tinha
atravessado alguns sinais vermelhos para se livrar deles. Admitiu que ficou um
pouco assustado.
Almoçaram na lanchonete do posto de gasolina cuja comida era terrível e
disseram que nunca mais comeriam ali a não ser que estivessem mortos de
fome. De volta ao motel, cada um foi para o seu quarto e dormiu. Não havia
nada para se fazer até que os outros chegassem.
Tanny estava quase dormindo quando o telefone perto de sua cama tocou.
Era Jack.
— Oi, como vai? Não sabia se você já tinha chegado, mas decidi tentar.
Tanny se sentou, meio excitada e contente por ele ter ligado. — Você está
no trabalho?
— É meu horário de almoço.
— Como você está?
— Solitário.
— Ah. Também sinto sua falta.
— E então, como está indo?
— Babe acha isto uma grande aventura. Ela nunca tinha feito nada igual.
Ela só tinha ido a mais de vinte quilômetros de Bridgeford uma vez em toda a
vida.
284
— Verdade?
— É, ela é como uma criança. Se ela não fosse tão cabeça-de-vento, não sei
nem o que dizer. De qualquer forma, dois dias na cabine de um caminhão com
ela... estou contente que tenha acabado. Pobre Boner. Ele vai ficar com ela toda
a viagem até a Virgínia. Oh, Jack, essa foi boa! Fomos escoltadas por todo o
Missouri por cerca de quinze jamantas! Era um verdadeiro comboio.
— Por quê? O que estava acontecendo?
— Eles estavam verificando as duas “andorinhas” de fora do pedaço! Babe
estava adorando. Eu estava meio incomodada no início, e depois pensei: e daí?
Pisquei para um deles.
— Não?!
— Verdade.
Eles conversaram assim por quase uma hora antes de Jack se convencer de
que tinha que voltar ao trabalho. Ela levou quase dez minutos para fazer ele
desligar, pois ele queria tanto ficar com ela, era o que dizia. Quando finalmente
conseguiu que ele desligasse, ela estava atordoada com tanta adoração a longa
distância.
Ela queria dormir, mas não conseguia, e concluiu que estava muito excita-
da depois do telefonema de Jack. Ela puxou o outro travesseiro para junto de si,
fingindo que era ele.
Ela acordou com vozes e agitação. Redmeat e Babe estavam lá fora conver-
sando com FM, Boner e Bob Garvey. Os garotos do Texas tinham chegado.
Tinham trazido com eles uma caixa de cerveja Lone Star — bem, meia
caixa ao chegarem. Todos estavam com uma. Não era uma cerveja especialmen-
te boa, mas era autêntica.
Assim que terminaram a primeira rodada e estavam discutindo onde po-
deriam renovar a provisão, pois a Lone Star logo terminaria, um caminhão saiu
da estrada. Michael, é lógico, estava ao volante.
A primeira coisa que Hoona disse, depois de descer da cabine foi: — Não
tinha idéia de que este país fosse tão grande! — A segunda coisa que disse foi:
— Aquelas cervejas estão geladas?
Ele pegou duas, abriu uma e a passou para Michael. Abriu a outra.
Michael levantou sua cerveja. — Bem, estamos todos aqui.
— Conseguimos —, disse Boner.
Em pé entre os caminhões, bebendo cerveja no estacionamento do Big
Buffalo, todos estavam meio chapados e contentes de ver os outros, contentes
em se soltar um pouco. Estavam conversando, fazendo piadas, contando histó-
rias. Então Michael olhou ao redor.
— Onde está Regan?

285
Todos os rostos permaneceram impassíveis.
— Não sei —, disse Tanny.
— O vôo dela deveria chegar à uma hora da tarde —, disse Michael. — Já
passa das cinco. Ela tem que estar aqui.
— Ela não telefonou —, disse Babe.
Michael foi ao escritório para reconfirmar, mas não havia qualquer mensa-
gem para eles. Ele pegou a chave para seu quarto, entrou e telefonou para a
Caverna, mas foi atendido pelo serviço de recados sem obter qualquer notícia
de Regan. A secretária eletrônica atendeu quando ele telefonou para casa. Ele
digitou o código, mas a única mensagem era do corretor de ações de Regan,
perguntando quando deveria enviar os formulários. Meio estranho.
— Talvez ela tenha perdido o vôo —, sugeriu Redmeat quando Michael
voltou para jundo dos outros.
— Ela não perderia —, disse Michael —, e se perdesse certamente teria
telefonado e deixado uma mensagem de qualquer jeito.
— Não há nada que possamos fazer no momento —, disse Bob. — Vamos
comer alguma coisa. Talvez tenhamos alguma notícia quando voltarmos.
Havia uma churrascaria a oito quilômetros na estrada. Lá dentro, caras
com botas e chapéus de caubói. Eles encomendaram outra rodada de drinques
e bifes mal passados e bem passados. Todos comeram bifes, mesmo Tanny, que
normalmente não comia carne. Até ela gostou quando o dela chegou. Bob Garvey
afirmou que o dele foi o melhor bife que comeu em toda a sua vida. Tanny se
lembrou, vendo o grupo que formavam, dos velhos tempos, quando eram ape-
nas uma equipe de vídeo. Eles saíam pela estrada e, quando a noite chegava,
comiam juntos e se divertiam. Ela pensou um pouco em família — uma família
boa, não necessariamente aquela em que havia crescido. Então ela olhou para
Michael e ficou triste.
Michael estava claramente desatento durante todo o jantar. Ele participa-
va um pouco da conversa, e novamente se distraía um minuto depois. Uma vez
ele se levantou para telefonar para o Big Buffalo de um telefone público.
Quando voltaram para o motel, ainda não havia notícias de Regan. Michael
tentou novamente telefonar para a Caverna e de novo ligou para casa.
Os outros estavam jogando cartas no quarto de Bob Garvey. Michael en-
trou e disse: — Preciso que alguém me leve até o aeroporto. Vou voltar para
Bridgeford. Alguma coisa deve ter acontecido. Estou realmente preocupado.
— Com ela ou conosco? — Perguntou Bob.
— Com todo mundo.

Ele pegou o último vôo de Kansas City para Chicago devido a um cance-

286
lamento, pois estava em lista de espera. Do aeroporto O’Hare, ele conseguiu
um lugar numa pequena linha aérea que fazia a ponte até Bridgeford com um
Fokker. Ele andou até o estacionamento e entrou em seu Porsche. Se tivesse
olhado ao redor antes de entrar, poderia ter visto o Lexus de Regan, estacionado
uma rua adiante.
Ele dirigiu para casa. Era quase meia-noite quando pressionou o controle
remoto para abrir a porta da garagem. Ele notou que o carro dela não estava lá.
Quando entrou na casa, já esperava pelo que encontrou. Essa possibilidade
tinha-lhe ocorrido enquanto estava voando para Bridgeford. Ainda assim, foi
como se a vida estivesse sendo drenada de seu corpo ao andar de um cômodo
vazio para outro.
Terminou no quarto. Ela tinha deixado os colchões sem os lençóis, sobre o
carpete. Michael desabou sobre eles. Ele queria dormir, qualquer coisa para
evitar a situação que estava enfrentando. Ao invés disso, ele se manteve em
movimento.
O telefone, pela falta do criado-mudo onde normalmente ficava, também
estava apoiado sobre o carpete, próximo dos colchões. Ele pegou o fone e cha-
mou o serviço de auxilio à lista. Então discou o número do vizinho.
— Alô, Cathy? É Michael DiGabriel, seu vizinho. Eu a acordei? Lamento
terrivelmente, mas é uma emergência. Minha mulher, parece...que se mudou.
Uh-hum. Oh, você falou com ela? Ela disse para onde estava indo? Los Angeles.
Bem, não devo ter problemas para encontrá-la. Ela disse mais alguma coisa,
qualquer coisa sobre... Não, é uma completa surpresa. Realmente, não tinha
idéia. Sim, bem, obrigado. Sim, eu informo quanto... quanto eu... conseguir.
Obrigado, Cathy. Boa noite.
Ele rolou para fora do colchão, levantou-se, desceu, abriu a porta da gara-
gem, entrou no Porsche. Ele queimou os pneus no asfalto do beco sem saída.

Encontrei a porta de vocês aberta ontem à noite —, disse o guarda a Michael


enquanto ele assinava o registro. — Vocês deviam ser mais cuidadosos.
Ao contrário de sua casa, a Caverna parecia reconfortantemente em or-
dem quando Michael entrou. Ele sentiu-se aliviado— até que encontrou as
cartas dela em sua mesa.
No estúdio, próximo a um dos teclados, ele encontrou a embalagem de
plástico de um cassete de fita Sony QIC e uma tira de papel branca. Michael
ligou para o Big Buffalo e acordou FM.
— Há um pequeno pedaço de papel aqui que parece ser sua caligrafia.
Apenas uma palavra C-A-P-T-K-I-D-D. Significa alguma coisa para você?
FM começou a rir. — Ela mordeu a isca!
— O que significa?
287
— Algo que aprendi com os hackers12 é que se o intruso pensa que final-
mente conseguiu o que quer, ele — ou ela — vai pegar o arquivo e ir embora.
Por outro lado, se você tornar superdifícil e os frustrar, então, bem, eles podem
roubar o disco rígido ou mesmo o computador inteiro.
— Ok, me poupe dos detalhes filosóficos.
— O mais provável é que ela não tenha conseguido pegar o código-fonte.
Se ela usou aquela senha, ela levou um monte de arquivos cheios de lixo e uma
surpresa enorme. A propósito, se você quiser ter certeza de que foi ela, Boner e
eu escondemos uma câmera no alto, na armação da luminária. Ela é ativada por
um sensor de movimento. Ela está gravando você exatamente agora.
Michael procurou na armação acima dele mas não conseguiu encontrar.
Ele acenou com desinteresse. — Isso não importa. Eu tenho certeza de que foi
ela, mas no momento os ROMs é que são mais importantes.
— O que você vai fazer?
— Realmente não sei.
Ele desligou e foi para seu escritório. Muitos meses antes, devido ao fato
de terem que alugar equipamentos especiais como a câmera Wescam de tempos
em tempos, tinham comprado as listas de páginas amarelas de Nova York e Los
Angeles. Michael pegou a lista de Los Angeles e jogou sobre a mesa. Ele abriu na
parte de motéis. Com um suspiro, pegou o fone e começou a discar. Duvidava
que tivesse sorte, mas o que mais podia fazer?
Aproximadamente às duas e meia da madrugada, no vigésimo oitavo tele-
fonema, muito depois de ter tentado o Bonadventure, o Ritz, o Beverly Wilshire
e todos os lugares que sua mulher poderia escolher, ele tentou o número de um
Best Western perto do aeroporto.
— Preciso encontrar um de seus hóspedes, Regan DiGabriel. É uma emer-
gência, houve uma morte na família —, disse ele à telefonista do motel.
Houve uma pausa. — Vou ligar para o quarto dela. Um momento...

Ela havia descido e estava na calçada perto do Wilshire Boulevard, na


frente do prédio de Gary, quando percebeu que a mala dela ainda estava no
apartamento. Então ela quis subir de novo, mas o guarda a impediu. Ele final-
mente permitiu que ela interfonasse, e ela falou com Deana.
— O Sr. Lio não vai atendê-la.
— Eu estou no saguão! Só quero a minha mala, que está no apartamento
dele!
Ela esperou na linha. Quando a voz fria de Deana voltou, ela foi instruída

12
Hackers são usuários de computadores que tentam invadir sistemas alheios sem autorização (N. do T.).

288
a passar no dia seguinte. Foi a humilhação final. Regan gritou ao telefone. Deana
desligou na cara dela.
O guarda permitiu que ela chamasse um táxi. Ela disse ao motorista para
levá-la ao aeroporto. Depois de chegar, ela não tinha idéia do que fazer ou para
onde ir. Ficou sentada por duas horas perto do local da bilheteria do aeroporto,
sem conseguir tomar qualquer decisão. Em um momento ela começou a cho-
rar, a soluçar abertamente. Centenas de pessoas passavam por ela.
Finalmente ela decidiu ir para casa, não para Bridgeford, mas para a casa
dos pais em Connecticut. Quando tentou reservar um lugar, entretanto, não
havia nenhum disponível a não ser que ela quisesse tentar a lista de espera. A
culpa era dos feriados.
— Bem, há um vôo partindo amanhã, com uma escala em Kansas City.
— Não! Não quero ir via Kansas City.
— Bem... todo o resto está completamente lotado.
Regan finalmente saiu do balcão de reservas. Ela saiu e pegou o primeiro
transporte de cortesia dos hotéis que passou. Ele a levou para o Best Western.
Era noite. As luzes estavam apagadas e as cortinas fechadas. Ela estava
acordada na cama com as cobertas cobrindo a cabeça. Tinha passado a maior
parte da tarde assim, embora em um momento tivesse atirado as cobertas para
o lado e andado com raiva pelo quarto. No fim dormiu por quatro ou cinco
horas. Não tinha comido nada durante todo o dia. Estava faminta, mas não
queria encarar ninguém, nem mesmo o garçom do serviço de quarto.
Ela tentou não pensar. Procurou apenas ficar lá na cama. Desejou não ter
um cérebro. Em algum momento tentou convencer-se de que tinha ficado lou-
ca. Seria bom estar louca. Se estivesse louca, poderia perder o contato com a
realidade. Então não teria que encarar o que tinha feito. Que bom, ser uma
incapacitada mental. Poderia ser perdoada. Poderia jogar a culpa de tudo na
insanidade. Talvez pudesse, simplesmente, ficar ali mesmo até que as autorida-
des fossem notificadas, e profissionais amistosos, carinhosos, competentes, vies-
sem para levá-la a um lugar onde pudesse se tratar.
O telefone tocou. Como prova irrefutável da ação persistente da sua sani-
dade, ela pegou o telefone e atendeu.
— Onde estão os ROMs? — A voz de Michael estava dura, porém calma.
Regan apenas segurou o fone por três ou quatro segundos.
— Não desligue na minha cara, Regan. Eu posso ir até aí, portanto, é
melhor me ajudar...
— Estão no banco de trás do meu carro —, disse Regan —, com a voz se
exaurindo.
— E onde está o seu carro?

289
— No aeroporto. Estacionamento de longo período. Mais ou menos no
meio.
Michael suspirou. — Obrigado.
— Lamento.
— Por que você fez isso?
— Não quero falar sobre isso. Vou ficar louca se falar.
— Regan —, disse ele —, por que você não volta para casa?
— Não posso.
— Por que não?
— Não quero mais continuar casada com você.
— Bem, também não acho que queira continuar casado com você, mas
você parece estar num estado lastimável, e não gostaria de que algo realmente
ruim acontecesse com você.
Isto a fez chorar novamente.
— Vamos, docinho, apenas volte para casa e vamos pensar no que fazer.
— Não. Vou para a casa da minha mãe.
— Você poderia ir para Kansas City.
— Eu não acho.
— Ainda preciso de alguém que me ajude com o caminhão —, disse ele.
Não houve resposta.
— Certo. Eu tenho que ir. Você tem certeza de que está no banco traseiro?
— Se não estiverem, então eu não sei onde estão.
— Diga alô para sua mãe por mim.
— Michael?
— O quê?
— Nada. Boa sorte.
— Se cuide.

O piloto do Beechcraft era um velho veterano do Vietnã, um cara legal,


pelo menos parecia, e contente com o trabalho. Michael e ele conversaram
durante a primeira hora. Ele falou de seus negócios, sobre como conseguia viver
decentemente transportando vários executivos pelo país.
— Agora, na Três-E, eles montaram uma força aérea particular —, disse o
piloto —, mas eu fico com o excedente, sabe, se o Hal Bromman estiver ocu-
pando os Gulfstreams. Mas principalmente são os menores. Como você. Quero
dizer, caras que têm empresas menores, é isso.
Michael encontrou o Lexus de Regan sem problemas. Ele tinha uma chave
do carro, o abriu e ali estava a caixa no assento de trás. Por um momento ele
pensou em pegar o Porsche e dirigir direto até Kansas City. No momento, ele
estava bem acordado, com a ânsia de recuperar os ROMs. Ele tinha um detector
290
de radar no porta-luvas. Mas ele e Hoona tinham começado o dia — o dia
anterior, na verdade — num motel a leste do Colorado. Mesmo com poucas
paradas e em alta velocidade, Kansas City ficava a pelo menos dez horas de
carro de Bridgeford. A razão prevaleceu.
Ele começou a ligar para as empresas aéreas assim que chegou em casa.
Quando descobriu que o primeiro vôo para Chicago com lugar disponível seria
às sete e cinqüenta da manhã seguinte, começou a entrar em pânico. Estava
procurando o número de uma das empresas aéreas locais quando notou um
anúncio nas páginas amarelas do táxi aéreo daquele cara. Eram três e meia da
madrugada, mas ele telefonou assim mesmo, mas uma secretária eletrônica aten-
deu. Ele desistiu e foi para a cama. Às sete e meia o telefone tocou. Às nove,
estava no aeroporto municipal de Bridgeford. Às dez e quinze, Michael e a caixa
de ROMs estavam no ar.
Sobre a parte oeste de Illinois, Michael pediu desculpas, recostou a cabeça
e fechou os olhos. Mas no Missouri, os ventos fortes começaram e Michael
acordou com os solavancos. O piloto mudou de altitude repetidamente, procu-
rando ares mais calmos, mas a despeito do céu azul e ensolarado, uma tempes-
tade estava se formando e se aproximando, o que tornava difícil encontrar uma
camada tranqüila. Em dado momento, Michael teve que colocar a cabeça entre
os joelhos, tentando manter o pouco que tinha no estômago. À medida que se
aproximavam de Kansas City, podiam ver as barreiras maciças de nuvens ao
longe, na planície, nuvens densas que eram cinza-escuras embaixo e iam fican-
do brancas no alto.
— Parece que vocês vão ter um bocado de neve —, gritou o piloto.

Se trinta anos de administração da produção tinham ensinado alguma


coisa a Bob Garvey, era a importância do trabalho. O que fosse que estivesse
parado — pessoas, estoques, dinheiro, máquinas — era ruim. E quando todo o
grupo ficava sem fazer nada, era muito ruim. A velocidade individual podia
variar, e isso não era problema. Alguns recursos poderiam ficar livres em algu-
mas ocasiões, e isso também não chegava a ser um problema. Mas o essencial
era manter as coisas caminhando. O grupo como um todo tinha que continuar
avançando, continuar realizando.
Então, de manhã, Bob estava de pé às seis horas. Às seis e meia já estava
batendo nas portas das pessoas. Às sete horas, ele estava organizando os que já
estavam prontos. E pelas oito horas eles já tinham desmontado as camas de dois
quartos e as entulhado nos banheiros. Montaram as mesas de armar e as cadei-
ras que Babe e Tanny tinham trazido de Bridgeford. Ligaram os ferros de solda
e aumentaram a iluminação com lâmpadas extras. Eles descarregaram os esto-

291
ques dos caminhões e os organizaram. E ao receberem o telefonema de Michael,
estavam prontos.

Por volta do meio-dia, ouviram sinos de trenó. Bob Garvey abriu a porta.
Lá estava Papai Noel, chacoalhando um cabresto de rena.
— Hô, hô, hô! Feliz Natal! — Papai Noel entrou e começou a distribuir
chicletes e salva-vidas. — Hô, hô, hô! Digam-me, alguém conhece uma Tanny
Zoelle?
— Bem aqui, Papai Noel —, disse Tanny. Ela sabia que era Jack.
— Bem, Papai Noel tem uma surpresa muito especial para ela!
Tanny levantou-se. — Vocês nos perdoam por um minuto?
— Suspenda o pagamento dela! — Disse FM. — Ela é uma desertora!
Tanny levou Jack para o seu quarto.
— Jack, o que você está fazendo aqui?
Ele deu um grande abraço de Papai Noel, tirou a barba e a beijou. — Eu
pensei em fazer uma surpresa para você —, disse ele.
— Bem, você fez. Mas estamos trabalhando. Temos que continuar com
isso até acabar. E o pior é que está faltando uma parte. A mulher do Michael o
deixou, acabamos de descobrir. Ao menos assim parece, e... estou feliz em ver
você.
— Eu sei que você está trabalhando. Depois de falarmos ontem, eu sim-
plesmente não quis esperar mais. Tenho mais férias do que posso gozar, então
resolvi sair pelo resto do ano. Apenas queria ficar com você... E dar-lhe isto.
De seu saco de Papai Noel ele tirou uma pequena caixa, revestida de velu-
do. Tanny olhou para ela antes de pegar. Olhou para ela por mais um momento
antes de abrir. Uma pedra sobre uma aliança de ouro. Seus grandes olhos casta-
nhos ficaram enormes quando ela viu a jóia. Por alguns segundos, ficou perdida
olhando para as facetas. — É maravilhoso —, ela conseguiu dizer.
— Você quer casar comigo?

Quando o táxi chegou no Big Buffalo, a uma e meia da tarde, Michael não
teve qualquer recepção imediata. Ele saiu e estava pagando, com a caixa de
ROMs firme entre os pés para impedir que uma rajada de vento a levasse, quan-
do a porta de um dos quartos abriu.
Bob Garvey deu um passo para fora e disse: — E por falar em produção
just-in-time...
Michael entrou na fábrica improvisada. Os outros estavam sentados às
mesas, trabalhando numa linha de montagem para a produção de caixas de
controle.
— Bem-vindo à nossa oficina —, disse FM.
292
— Alguém trouxe o molho? — Perguntou Michael, levantando a caixa de
ROMs. — Eu trouxe os chips13!
Houve risos e gritos. Bob Garvey tirou Boner da linha, entregou-lhe os
ROMs e o mandou para o outro quarto, para inserir os chips nos aparelhos
semiprontos.
Michael estava olhando por sobre os ombros deles, perguntando como
estava indo o trabalho e quando esperavam terminar, quando finalmente notou
um rosto novo. — E quem é este?
Ele estava sentado perto de Tanny, trabalhando na linha como os outros.
— Eu acho que vocês dois ainda não se encontraram —, disse Tanny. —
Este é o Jack. Ele é meu... ele é meu noivo.
Eles apertaram as mãos. — Muito prazer —, disse Jack.
— É. Parabéns.
— Ele acabou de chegar, faz apenas uma hora —, disse Tanny. — Então o
colocamos para trabalhar.
— Vamos ver —, disse Michael, pegando a mão esquerda dela. Tanny
levantou-se, e estendeu a mão. — Uáu. Que pedra. Que bom para você.
Ele realmente deu um jeito de parecer verdadeiro. Por um momento deu a
impressão que iam se abraçar, mas isto não aconteceu.
— E então qual foi a história com a Regan? — Perguntou Redmeat.
Michael abriu a boca, mas não saiu nenhum som. Ele fez um gesto, e
então virou de costas. Finalmente ele conseguiu dizer —, É uma longa história.
Depois eu conto para vocês. — Ele saiu do quarto para o ar livre.
Redmeat o seguiu. — Ei, você está bem?
— Preciso me deitar um pouco —, disse Michael. — Não consegui dor-
mir muito bem a noite passada.
Redmeat colocou a mão no bolso de seu jeans e deu a ele a chave de seu
quarto. — Aqui. Uma das camas nem sequer foi tocada.

Michael dormiu o resto da tarde. Acordou com a mão de Tanny sobre seu
ombro e o rosto dela sobre o dele.
— Mike... vamos, acorde. Já estamos de saída.
— Quem?
— Todos nós. Estamos deixando o motel. Acabamos tudo e os caminhões
estão carregados.

13
Chip significa uma lâmina muito fina. A palavra tanto pode ser usada para alimentos (batatas fritas
em fatias finas, por exemplo), como para lâmina de material semicondutor que sustenta um
circuito integrado (como os ROMs - Memórias apenas de leitura - em questão). No caso, a frase
sugere um trocadilho entre as duas acepções da palavra (N. do T.).

293
— Por que agora?
— Tem uma grande tempestade a caminho. As previsões falam em sete a
dez centímetros de neve nesta região, mas muito mais ao norte. FM e Hoona já
saíram. Eles vão deixar Denver para depois, vão cortar para o sul pelo norte do
Texas até Albuquerque. Temo que você vá pegar a pior parte, na rota do norte.
Michael sentou-se.
— Jack e eu conversamos sobre isso —, disse Tanny. — Ele vai com você,
ao menos até Chicago.
— Não, eu não preciso...
— Mike, você precisa de alguém.
— Não ele.
— Não há ninguém mais.
— É... — Michael ficou em pé.
— Amanhã, quando estiver de volta a Bridgeford, vou dar alguns telefo-
nemas e ver se algum dos free lancers pode encontrar você em algum lugar da
sua rota.
Lá fora a neve caía pelo ar cinzento. Nuvens brancas saíam pelo escapa-
mento dos três caminhões restantes, com os motores em marcha lenta. No
quarto de Bob Garvey ocorria uma discussão de última hora sobre logística.
Michael juntou-se a eles, enquanto Tanny devolvia as chaves para o escritório.
Ele sentiu como se Bob estivesse no comando, e como se ele estivesse ali apenas
por acaso, mas Michael não se importava, dadas as circunstâncias. Conversa-
ram por alguns minutos, e então chegou a hora de partir.
Redmeat e Bob foram os primeiros. Michael estava olhando para eles ao
saírem, e virou-se exatamente a tempo de ver Boner quase bater a traseira de seu
caminhão no motel. Babe gritou para ele parar, o que ele fez quando faltavam
três centímetros para bater. Babe acenou adeus, e Michael, pela primeira vez em
décadas, se benzeu.
Ele subiu no quarto caminhão e o levou até o escritório. Tanny subiu.
— Onde está Jack? — Perguntou Michael. — Ele não vai conosco?
— Ele levou o carro de volta para o aeroporto. Vou encontrá-lo. Você tem
que pegar a Interestadual Vinte e Nove em direção ao norte de qualquer forma,
e... além disso, eu queria algum tempo com você.
Tendo dito isso, ela se calou. Michael não fez qualquer comentário. Ele
estava ocupado, dirigindo mas havia uma outra razão.
— Lamento pela Regan —, Tanny disse finalmente. — Sei que a culpa é
minha.
— Não culpe ninguém além de mim mesmo —, disse Michael.
— Para onde ela foi?

294
— Não quero falar a respeito dela, para ser franco. O impacto ainda não
me atingiu totalmente, e não quero que atinja.
A neve ainda não cobria o concreto. Via-se no céu azul-escuro, a leste, o
brilho do entardecer. Devido à tempestade que chegava, o céu a oeste estava
cinza-escuro.
— Tenho que dizer isso —, ele disse a ela. — Nunca vou lamentar a nossa
aproximação.
— Nem eu.
— Então você ama esse cara? — Ele perguntou a ela.
— Sim. Muito.
— Bom. Então a empresa conseguiu alcançar ao menos um resultado po-
sitivo durante este ano.
Ela pensou sobre isso. — É verdade. Se não fosse pela empresa, eu nunca
teria ido a Chicago.
Ele se inclinou e beijou-lhe a face.
— Chega mais para perto —, disse ele, estendendo o braço. — Pelos
velhos tempos.
Então ela deixou-se escorregar para perto dele. Ele passou o braço pelos
ombros dela. Ela apoiou levemente a mão esquerda sobre a perna dele. O anel
de diamante parecia novo e fresco. Eles seguiram pela interestadual juntos, des-
se jeito, sorrindo como recém-casados.

295
Solstício de
inverno
No terceiro dia depois do Natal, dois anos depois, Michael DiGabriel
estava no escritório dele lendo as novas páginas do script de Hoona. Estava
tentando se concentrar com a porta fechada. Ele ouviu um barulho vindo de
fora, muita conversa, e pensou ter ouvido a voz dela, mas achou que não. Então
ouviu novamente, levantou-se e abriu a porta.
— Veja quem veio nos visitar —, disse Babe.
Lá estava Tanny. Ele congelou e olhou para ela. Ela estava mais gorda. O
cabelo dela mais cinza, mesmo depois de apenas dois anos. Os seios, também,
estavam maiores do que ele podia se lembrar. Ela estava segurando, perto do
seio esquerdo, um bebê em traje de neve azul.
— Oi, olá —, disse Michael.
— Oi.
— E quem é este com você?
— Este é Jack Júnior.
Jack Júnior olhou para Michael com seu rostinho corado, com seus peque-
nos olhos escuros. Jack Júnior não ficou muito impressionado.
— Entre por um minuto, vem ver minha nova toca —, disse Michael a ela.
— Uáu. Legal. E veja a vista que você tem agora. Ela foi à janela para dar
uma olhada no centro de Bridgeford e no Rio Maccagheny. — Melhor do que
antes.
— Você sabe de quem era este escritório? Lyle Beekstra. — Gesticulou ele,
mostrando o espaço. — Eu estava em pé ali quando ele me despediu.
Ela bateu no braço dele. — Ao vitorioso o espólio da guerra.
— Desde que ele possa pagar o aluguel. — Ele foi para trás de sua mesa e
disse: — Sente-se.
— Não posso ficar muito. Minha mãe ficou com o Jason. Eu só vim para
a cidade para me livrar um pouco dela.
— E então, como é a vida em Chicago?
— Boa —, disse Tanny. — Realmente boa. Compramos uma casa nova
296
no ano passado. É legal, mas é um pouco longe da cidade. Jack está trabalhando
muitas horas por mês, e a distância não torna as coisas mais fáceis. Eu gostaria
que ele tirasse férias. Ele deve vir para se reunir a nós amanhã. A propósito...
você parece bem. Parece que você perdeu peso.
— Tenho feito um monte de testes na videobike.
— E como a videobike está indo?
— Realmente bem. Fechamos negócios com as três principais franquias e
estamos perto de fechar com mais duas. E vamos lançar uma versão para o
consumidor, para poder ligar no aparelho de televisão. Bob Garvey está admi-
nistrando tudo isso.
— E como está o Bob?
— Está bem. O escritório dele é perto do aeroporto. Ele tem cerca de
cinqüenta pessoas na folha de pagamento. É responsável por todo o hardware,
tanto o desenvolvimento quanto a produção.
— Vocês ainda são amigos?
— E por que não deveríamos ser?
— Porque os dois precisam ser cachorrões.
— É, bem... nós nos entendemos. Bob agora é presidente-executivo.
— E você?
— Você quer saber qual é o meu título? “Presidente do Conselho e Czar da
criação”.
Tanny riu. — Você está falando sério?
Para provar, ele pegou um de seus cartões comerciais de uma bandeja so-
bre a mesa e deu-o a ela.
— Isso é ótimo —, disse ela. — Então vocês estão indo bem?
Ele hesitou. — Estamos ganhando um monte de dinheiro. Estamos do-
brando a cada ano. As vendas no primeiro ano foram de mais de um milhão.
No segundo ano passaram de dois milhões. Este ano passamos de quatro mi-
lhões. Para o próximo ano oito milhões é uma possibilidade real. E nossa renta-
bilidade sobre esse faturamento tem sido bem satisfatória.
— Uáu! Então você não está mais dirigindo o caminhão?
Michael riu. — Não, há muito tempo não fazemos isso. Com o sorriso
apagando, ele viu passar rápido, num flash, a viagem inteira: os flocos de neve
caindo, as cidades, as luzes dos carros em sentido contrário, sua própria mão
bombando gasolina, as pessoas olhando-o instalar as máquinas, um céu perfei-
tamente azul depois da tempestade, o oceano. A última parada foi em Newport,
Rhode Island, ele tinha estacionado o caminhão fora da cidade e andado pela
praia gelada, olhado para as mansões ao longo da costa coberta de neve e para a
água azul-escura até o vento queimar seu rosto, sentindo o intenso prazer de ter
cumprido a tarefa e de estar sozinho.
O sorriso se foi, e ele perguntou: — Você está trabalhando?
297
— Não, não no momento. Devo procurar alguma coisa em um mês ou
dois, só para manter-me bem.
— Nós temos vagas, aqui.
— Não... acho que não.
— Você saiu cedo demais, Tanny. Se o produto continuar fazendo sucesso
por mais um ano ou dois, todos os sócios originais vão estar bem por toda a
vida. Eu já cheguei lá. Se decidir vender minhas ações, posso sair por aquela
porta e só ficar assistindo jogos pelo resto da vida.
— Que bom para você. Entretanto, não consigo enxergar você como um
aposentado de pijamas — disse ela. — Bem, se tivesse ficado, eu provavelmente
não teria tido este aqui. — Ela levantou um pouco o bebê.
Os dois sorriram um para o outro. Houve um silêncio. Michael abriu a
boca e estava quase falando “eu sinto sua falta”. Mas justo neste momento Jack
Júnior começou a chorar.
— Desculpe-me — você não se importa, não é? — Perguntou ela. Ela
levantou a blusa. Era a hora de Jack Júnior se alimentar no seio dela.
— Nada que você não tenha visto antes, certo?
— Verdade. — Ele se permitiu olhar para ela, e queria muito dizer que
gostaria que as coisas tivessem sido diferentes, que desejava que a vida tivesse
um botão de retrocesso, que pudéssemos editar nossos erros, deixando-os de
fora, que o diamante no dedo dela fosse dele, e até a criança — mas enquanto
ele estava juntando tudo isso em sua mente houve um silêncio e, para preencher
esse silêncio, Tanny perguntou: — E os outros, como estão indo?
— Hum... bem, ok. A velha gangue está se saindo bem. Hoona ainda está
bebendo e fumando, fumando e bebendo. Ele tem um ataque do coração espe-
rando por ele, mas seus scripts ainda são bons. Babe é minha assistente, e agora
também uma das acionistas. E Redmeat está indo bem. Ele se casou, você pro-
vavelmente já sabe.
— Eu soube. Recebi um convite, mas não pudemos vir.
— Boner está trabalhando com o grupo de Bob Garvey. Não estou certo
se o ego dele se recobrou desde que admitimos FM. E FM tornou-se um dos
principais elementos para a nossa operação. Eu gasto um terço de meu tempo
tentando gerenciá-lo. Mesmo assim, tenho sorte quando consigo saber o que
está acontecendo.
— Você está fazendo algum trabalho para a Três-E?
— Nada há mais de um ano. Dissemos adeus a eles. Você ouviu sobre a fusão?
— É, alguma coisa. Não é grande novidade em Chicago.
— Bem, Bromman tinha que fazer alguma coisa. O certo é que ele cortou
a organização até os ossos, e então o monstro não tinha mais músculos para
fazer nada. Ele cortou as perdas deles, mas não estava fazendo a empresa crescer.
Há rumores de que o conselho estaria pronto para colocá-lo na rua.
298
— E... por falar em Três-E, você tem notícias da Regan?
— Você nunca imaginaria onde a encontrei. Eu estava no aeroporto O’Hare,
tendo que esperar duas horas pelo próximo vôo. Então estava observando as
pessoas e ali estava ela, passando bem na minha frente. Quase não a reconheci,
mas chamei pelo nome e ela parou. Andei com ela até o portão de embarque.
— E como ela está passando?
— Está trabalhando com vendas. Conseguiu um emprego numa grande
empresa de telecomunicações. Suspeito que o pagamento seja bom, mas é um
passo atrás para ela. Ainda está morando com a mãe em Connecticut. Está
namorando um corretor de ações, divorciado. Disse que fez tratamento para a
depressão, e que está fazendo terapia há mais de um ano. Ela disse que seu
terapeuta ajudou-a a ver como tinha raiva dos homens, ou alguma coisa assim.
Nós só tivemos alguns minutos para conversar, pois o embarque para o vôo dela
já estava aberto quando chegamos ao portão. Ela disse que me telefonaria qual-
quer dia, mas não telefonou.
Tanny balançou a cabeça. — Lamento.
— Por quê?
— Ainda me sinto responsável.
— Eu não culpo ninguém além de mim mesmo. O que está feito, está
feito.
Jack Júnior adormeceu. Tanny o acomodou, cobriu-o e colocou-o no om-
bro. — Um corretor de ações, hein, é, parece combinar com ela.
— Para dizer a verdade, estou contente que ela esteja namorando alguém.
— Então eu vou ter que provocar a Babe para saber dos detalhes ou você
vai me contar?
— Contar o quê?
— Como está sua vida amorosa?
— Você está olhando para ela —, disse Michael, abrindo os braços para o
escritório. — Minha mulher e minha amante.
— Você não está se encontrando com ninguém?
— Não tenho tempo.
— Eu não acredito em você —, disse ela.
Ele abriu as mãos. — O que posso dizer?
— Que você ainda está magoado.
Ele pensou nisso. — Sim... talvez esteja.
O telefone tocou. — Foi feita a maquiagem? Certo, eu desço logo. — Ele
desligou e se virou para Tanny. — Eu tenho que descer para a Caverna. Por que
você não vem junto? Vai poder dar um alô ao Red.
— Ótimo.
Ele saiu da sala na frente. Tanny despediu-se rápido de Babe e seguiu Michael
para o elevador.
299
— Este é o nosso próximo grande risco —, disse Michael.
— O que é?
— Vai ser um filme interativo.
— Verdade?
— Você entende o que eu quero dizer com isso? É como um videogame
passando no computador, mas o espectador participa e determina o desfecho.
— Qual é o tema?
— Um romance.
— Verdade?
— Hoona e eu desenvolvemos o script em parceria.
— Os dois românticos.
— Eu conheço o tipo de história, mesmo que não funcione comigo. De
qualquer forma, conseguimos fechar um acordo com um dos maiores distribui-
dores de jogos. FM já escreveu o programa. Esperamos ter o produto nas prate-
leiras no próximo inverno.
No subsolo ela se sentiu estranha, caminhando pelo corredor que lhe era
familiar, na velha Caverna. Mas estava contente em ver que o estúdio novamen-
te parecia um estúdio, com luzes e uma câmera montada em um pedestal, um
monitor, uma equipe. Sob as luzes estavam dois atores, um homem e uma
mulher em roupas inglesas do século dezenove.
Michael levou-a à sala de controle. Redmeat estava à mesa de som e deu a
ela um grande alô. Além dele havia outras pessoas cujo papel lhe parecia fami-
liar, mas as pessoas eram estranhas para ela. Estavam se preparando para gravar,
e ela só pôde conversar com Redmeat por alguns segundos. Ele a convidou para
sentar atrás dele, no sofá de clientes.
— Estamos prontos? — Perguntou Michael. — Vamos começar.
Gravaram uma tomada de cena, mas Michael visivelmente não estava sa-
tisfeito com o resultado. Ele pressionou o botão de comunicação. — Estou
saindo.
Sem nem mesmo olhar para Tanny, ele saiu da sala de controle e entrou no
estúdio. Exatamente quando eles estavam para gravar de novo, Jack Júnior co-
meçou a chorar. Tanny ficou com medo que ele chorasse alto e estragasse o
trabalho deles, e por isso despediu-se de Redmeat falando baixinho. Michael
ficou no estúdio e não a viu sair.
— Rode a fita —, disse ele pelo microfone.
Naquele inverno a mãe de Tanny quebraria a bacia e morreria em conse-
qüência do acidente três meses depois. Depois que a casa da mãe fosse vendida,
Tanny não teria mais motivos para voltar a Bridgeford.
— Agora lembrem-se, vocês dois. Eu quero determinação —, disse Michael
para os atores. — Ação...

300
Faça sua própria
PESQUISA DE MERCADO
Paul Hague e Peter Jackson

PESQUISA DE MERCADO pode parecer uma tarefa difícil


que precisa de muito preparo intelectual e treino.
Este livro, no entanto, revela por meio de uma linguagem muito
direta que as habilidades necessárias para a boa pesquisa de merca-
do são muito mais acessíveis e fáceis de adquirir do que se poderia
imaginar.
Os autores descrevem e analisam essas habilidades com a ajuda
de muitos exemplos e recomendações úteis.
“O objetivo da pesquisa de mercado é auxiliar nas decisões de
marketing e aprimorá-las. Em qualquer tempo, tomar decisões
acertadas depende de disponibilidade de informações confiáveis
e do bom uso que se faça delas. Isso se aplica a todos os departa-
mentos de uma empresa, incluindo finanças, produção, recur-
sos humanos e marketing”.
A EMPRESA ÁGIL
Adriano Gomes
“As matérias deste livro nos passam
uma visão clara de como atingir as
metas desejadas, mesmo em meio a
tantas turbulências”.
Cláudio Guardabassi - Diretor-Presidente da
Claumar Importação e Comércio Ltda. SP

“Talento, criatividade e bom humor


são características marcantes deste
trabalho”.
Laura Salviano Fayad - Sócia e Diretora Financei-
ra da Cintos e Acessórios Armadilha - SP

“O trabalho de Adriano Gomes tem


uma exposição científica e não sub-
jetiva, sendo bastante profissional”.
Vittorio E. Primo Rossi Jr. Diretor Comercial do
Grupo Primo Rossi - SP

E
ste livro é como a gravação de uma conversa em cinco
capítulos. No primeiro, o autor desfaz de vez quaisquer
dúvidas sobre a importância das finanças numa empresa,
tranqüilizando interlocutor e leitor ao afirmar e demonstrar que
as finanças não são algo tão difícil de se entender. No segundo a
conversa gira em torno da necessidade de aumentar a fatia de
clientes. O terceiro capítulo, é todo ele dedicado aos colabora-
dores. Sem eles não há produção, negócios, resultados, lucros.
Já no quarto e no quinto capítulos, o consultor-escritor envolve
o empresário e os seus colaboradores na conversa sobre a neces-
sidade de refletir muito e de planejar sempre a fim de que o
futuro não os pegue desprevenidos.