Introdução

De quinhentos em quinhentos anos os seres evoluídos do universo se encontram em um conclave de Deuses. Cada um deles como um pastor de ovelhas cuida de seu rebanho, seu próprio mundo. Presidindo está Deus Todo Poderoso, que cuida de um planeta, o Planeta Terra. De longe sua altura em pureza. Estes poderosos seres divinos se unem com um propósito apenas, o de trocarem informações e o de evoluírem juntos os seus planetas. Rainaar é um entre muitos. Um jovem idealista que sempre admirou as formas e a natureza do planeta Terra. Porém seu mundo, Minlurd, é um mundo de magias e cavaleiros, magos, criaturas1 e dragões2, um mundo onde a magia está no lugar da tecnologia, seres místicos e situações impossíveis. Mas também é composto por homens. O mundo de Minlurd, criado por Rainaar, é composto de oito continentes, cinco oceanos e muitos países. O carvão não queima o suficiente, nunca se encontrou petróleo, os combustíveis fósseis são escassos. Há regiões onde árvores medem cinqüenta metros de altura e existem criaturas vivas de dez metros de altura, como os gigantes. Os primeiros a andar e representar os humanóides deste lugar multirracial. O conhecimento da magia evoluiu como a Era Industrial transformou o planeta Terra. O comum, neste lugar é estranho a terráqueos, e o oposto é verdadeiro. Mais novo que a Terra, Minlurd tem 3 bilhões de anos. Seu período de evolução também o fez conhecer a era glacial e os dinossauros que andavam juntos com os dragões de outrora. Próximo à época das estórias contadas neste segundo livro, Minlurd conheceu a destruição de perto por duas vezes. Em 1350AC3 as guerras místicas, travadas por magos desejosos do controle da magia no mundo, causaram quase a extinção do mundo conhecido. Depois em 1500AC místicos do continente de Leilov uniram-se na tentativa de conjurar seres superiores, demônios4. Estas criaturas nefastas avançaram e conquistaram todas as terras. Este período durou cinqüenta anos e é conhecido como O Cataclismo5. Por todo este período a humanidade viveu sob eterna escuridão e angústia.
(Criaturas) – Todos os seres vivos de Minlurd, que não humanos ou humanóides. (Dragão) - São criaturas conhecidas por diversos povos e civilizações. São representados como animais de grandes dimensões, de aspecto reptiliano (semelhantes a imensos lagartos ou serpentes). Existem antes das outras criaturas, humanos e humanóides. Seres superiores, podem alçar vôo, tem vastos poderes místicos e inteligentíssimos. Podendo viver até mais de dois mil anos. 3 (AC) – Antes do cataclismo. 4 (Demônios) - Cada um dos anjos caídos ou gênios maléficos do Infernum. Procura a perdição dos seres e criaturas de Minlurd. Sujeitos a Amdosias. Alimentam-se de energia vital dos seres de Minlurd. Ódio, rancor, perversão, corrupção são as ferramentas utilizadas por estes seres de poder superior. 5 (Cataclismo) – Período de 0C-55C. A invasão demoníaca a Minlurd. O continente dos Seis Reis tem este nome pela união de seis homens de ideais nacionalistas. Ao meio de seu reinado absoluto envolveram-se em pesquisa com o Império da Morte, afim de propagar a idade da morte de seu povo. Os feiticeiros necromantes em brigas fatoriais dividiram-se em duas facções recheadas de dinheiro dos cofres
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Porém os humanos foram salvos graças a eles mesmos. Um uníssono de mentes auxiliou o herói Co-on e este, com a ajuda dos Deuses de Minlurd libertaram os humanos do julgo demoníaco. Dentro deste contexto Rainaar o grande criador retornou as terras e nela permaneceu como divindade que é. Assim como o planeta Terra com suas estórias e caminhos, Minlurd é um mundo que não para, seguindo suas horas como giros de uma ampulheta de areia. No primeiro livro um homem de caráter duvidoso, um mercenário com poucos escrúpulos descobre o amor. Um simplório, um peão inteligente. No segundo livro um cavaleiro bondoso busca uma sociedade perfeita, ao tempo em que tem um embate com a justiça. No terceiro livro há apenas o amor, uma personagem de bondade pura luta para encontrar uma criança que trará a esperança aos homens. O quarto livro contará a estória de dois coadjuvantes citados nos livros anteriores que serão escolhidos democraticamente entre os leitores. O quinto livro e último desta saga, conta a estória de todos estes personagens lutando contra um poder estabelecido, de visão egoísta. Não mais contra a destruição a do planeta, mas sim contra nós humanos que somos desejosos, consciente ou inconscientemente de dominar e destruir. Como mais bem descrito seria, um mundo de fantasia com personagens reais... Boa leitura.

dos reis. O Império da Morte, estudiosos da vida além Minlurd. Patrocinados em seus estudos para propagar a vida. Criou-se um grupo conhecido como os Infernalistas. Facção esta desejosa de dominar seres inferiores e seus poderes místicos poderosos. E assim se deu o cataclismo em meados de 1499AC. Predito por sábios e ciganos. Os Infernalistas abusaram de suas liberdades e conjuraram o primeiro. O demônio fora preparado por Amdosias, no Infernum para abrir os portões para Minlurd. Pela própria vontade dos nativos daquele mundo. Logo os Infernalistas enganados pelas inteligentes criaturas, transformaram-se de mestres a servos. E os demônios abriram os portões para Minlurd.

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Capítulo 1 - Família
Um pássaro voa por árvores, pelos galhos das mesmas, rápido ele é, pois desvia de cada um deles com destreza e leveza. Mas o que faz dele diferente não é sua coloração laranja brilhante e sua cabeça negra, nem o seu bico levemente azulado e pontudo como uma pequena flecha, seu tamanho diminuto ou seus olhos negros audazes, e sim a despretensão com que voa, como se estivesse brincando, dançando sem compromisso. E desta forma o faz perfeitamente, sem erros, sem hesitação. Pertencente à espécie conhecida como icterus galbula, um oriole de nascença. E pousando em um galho de uma árvore envelhecida começa esta estória... A árvore serve de encosto para uma das pontas de uma rede, aparato este que se encontra um homem de grandes olhos e pensamentos vazios, um senhor de terras que descansa sua ocupada cabeça do peso das moedas de prata6 que prendem seus pensamentos. Gajão Durgovitch é seu nome, e a ele foi deixado por seu pai mais de quinhentos hectares de terras férteis na região conhecida como Derghemom. Sua propriedade rural estende-se por milhas de distancia e engloba uma colina ao norte repleta de árvores, um lago a leste chamado de Acor, que serve de descanso para o rio Noem, e ao oeste uma vasta planície de plantação de cevada. Gajão observa a chegada de uma de suas escravas, a mulher de pele negra e traços fortes, já havia sido mais magra, desde a sua ida para o trabalho na cozinha havia ganhado peso. - Mestre o jantar está servido – falava sem sotaque à língua que a muito aprendera. Já havia esquecido a sua língua natal. - Natalie está à mesa? – perguntava o patrão com a mesma forma ríspida com que sempre tratara seus escravos ou empregados. - Sim, mestre. - Diga que já vou. – Encerrava a conversa. A escrava se retirou rapidamente, tinha medo daquele homem, de cabelos cor de fogo e olhar intimidador. Gajão continuou a observar a sua propriedade, sua casa de dois andares se encontrava no meio de suas terras assim como a casa dos escravos, bem perto do canil de seus imensos cães. Seus empregados moravam aqui ou ali espalhados por seu terreno. Alguns moravam a sul, região virgem com muitos Álamos brancos, típicas árvores da região. Levantando-se da rede Gajão antes de adentrar a casa passa por seu canil e abre a porta. Os cães, quatro deles, ladram incessantemente, alegres de verem o seu líder entre eles.

6 (Moedas) – Dinheiro de Minlurd. Dividem-se em valores de cobre, prata, ouro e platina. Normalmente pelo câmbio constante não tem nomes específicos. Mas são cunhadas por cada região.

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- Como está Nathander? – fala o senhor de terras enquanto acaricia a cabeça do maior dos quatro. Nathander era o seu campeão, vencedor de vários torneios de rinha promovidos pelos outros fazendeiros do estado. Ele amava os cães talvez por acreditar que estes eram os únicos que o compreendiam sem hesitar, eram obedientes e nunca reclamavam da vontade de seu mestre. - Como está esta boca, deixa-me ver - fala enquanto mexe sem receio na boca de seu campeão. A ferida no lado direito do animal, perto de sua mandíbula havia sido feita há poucas semanas atrás. A luta havia sido contra o cão de seu inimigo confesso, Rastare, fazia fronteia com suas terras a norte, onde Gajão o observava do alto de sua colina. Sua barriga roncou alta e lembrou-se de Natalie. Era assim, só lembrava-se dos outros quando o interessava. Entrou em sua casa deixando seus cães e seus pensamentos competitivos de lado. Sua casa tinha dois andares e estava sendo coberta de era, as janelas grandes e altas permitam a entrada de sol quase que para todo o dia. A imensa sala de jantar era coberta de cristaleiras e tapetes pendurados na parede que descreviam parte da história da família Durgovitch. Lá estava ela, linda como sempre, Natalie. - Estava no canil, não é? – perguntava, mas já sabia a resposta. - Sabe que sim, porque então me enerva com estas perguntas sem sentido - não havia mais candura nas palavras dele, seu casamento havia acabado há muito. A beleza que havia nela tinha se esvaído quando em uma briga tempos atrás Natalie confirmou raivosa que casara com Gajão por causa de seu dinheiro, palavras ferem muito mais que um golpe de espada. Mesmo nesse mundo de magias. - Amanha irei à cidade, estamos precisando comprar mais escravos para a colheita deste ano. - Tivemos uma boa colheita? – seus olhos brilhavam um azul infinito, ela era linda, seus cabelos loiros e corpo longilíneo enfeitiçavam a Gajão. Parado ele esboçou um sorriso apaixonado, mas logo percebeu o conteúdo da pergunta e voltou a ficar distante. - Por favor, Gajão, tentemos parecer um casal feliz, pelo menos para que nosso filho possa nascer em um ambiente de felicidade. - Pode me dar essa certeza que será um menino? – o senhor das terras vibrava com a expectativa que fosse um garoto. - Posso. É um menino. - Natalie aprendera a falar assim com ele, nunca fora assim direta, mas o trato com homem tão agressivo requisitava técnicas de sobrevivência. - Não vejo a hora que ele venha para este mundo... Não vejo a hora. Está confortável? Tem tudo do que precisas? - Tenho, Amandia é uma ama seca e já fez parto antes, fez bem em comprá-la. - Tribais, pelo menos eles servem para algo, além de me enervar com a sua estupidez.

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- Gajão? - Fale mulher. - Gostaria de conversar sobre duas coisas se não se importa. – tremia levemente, treinara a tarde inteira pedir-lhe, em uma forma que não o enervasse. – Gostaria de conversar sobre o nome do menino e se eu posso ir juntamente com Amandia passear na cidade? Gajão a encarou friamente, achava que era mais um pretexto para gastar seu dinheiro em roupas fúteis. - Sabe que esta doente. Estou já gastando fortuna com aquele medico da cidade, para que fique bem e ao menino. Não irá. Quanto ao nome será Dedanogor, é tradição dos Durgovitch nomear o primogênito com a alcunha de seu pai. O nome pertenceu ao meu avô, natural de Vaarveig. A conversa acabara Natalie não conseguiria discutir com esse homem corpulento, sua energia para as discussões era tamanha que sempre conseguia o que queria, ela estava doente e não podia mais. O jantar continuou e nenhum dos dois proferiu mais uma palavra sequer. ξ O dia amanheceu ensolarado, logo cedo Gajão já estava a atrelar o cavalo para a viagem de dois dias até a cidade, juntamente com ele iriam quatro de seus mais fieis empregados e dois de seus ferozes cães para proteção. O senhor de terras era um homem corpulento de faces duras e determinação de aço. Fazia bem o que mais gostava, ganhar dinheiro, e o ganhava de todas as formas não importava quais. Comprava escravos vindos do oeste, como os homens Hulísticos da Costa Escarpada7, porém preferia os negros. Achava-os fortes para o labor e os admirava a coragem da vida. Este era Gajão, homem de poucas palavras e extrema atitude. Seus sentimentos restringiam-se a ter um medo inexplicável da insegurança, e esta para ele era a monetária. Tinha um esporte predileto, que somente a ele interessava: gostava de contar quase que diariamente seus ganhos e perdas. Porém sua maior decepção em vida era a de não saber lutar com armas. Tinha pavor por combates armados e prometeu a si mesmo que quando tivesse um filho, este nasceria entre aço e sangue. Como todo perfeccionista e gênio tornou-se rico, avarento e frio. Já possuía grandes hectares de terra, e alugava-os por preços injustos. -Dê a vida, o que a vida lhe dá. - Uma de suas frases. A vida sempre havia lhe dado um mundo coberto de pessoas gananciosas e aproveitadoras. E seguindo caminho despediu-se friamente de Natalie e rumou com seus empregados para a cidade de Derghemom. Entre os seus servos Impius era o mais devoto. Ele era aquele homem sem personalidade, que vive sobre o sucesso de outro. Uma espécie de escravo por opção, um sujeito franzino de rosto fino e mãos pequenas, não havia crescido muito quando jovem, mas tinha uma qualidade perto de seus inúmeros defeitos, tinha coragem e defendia aquele ao qual considerava seu mentor, Gajão.
7 (Hulísticos da Costa Escarpada) – Região leste do Império de Hule. Costa do Mar Zargoniano, próximo a Bullbara. Lar de homens duros e rústicos, nervosos e belicosos.

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- O que pretendemos comprar na cidade senhor?- perguntava Impius enquanto arrumava sua espada de pequeno porte em sua bainha presa ao cavalo malhado. - Precisamos de inúmeras coisas - começou Gajão, era sempre metódico e organizado, sabia exatamente o que gastar como e onde iria conseguir Como a colheita deste ano será farta, mais mãos terão que trabalhar, mais bois para a carga... - Por que não compramos de Rastare?-interrompeu bruscamente. - O que? Esta brincando?!- berrou Gajão. Os homens silenciaram e seus dois cães de guarda negros como um buraco vazio de caverna eriçaram o pelo, Impius apercebendo-se do seu deslize, tentou consertar. - Podíamos comprar mais barato dele senhor e depois até os trocamos no mercado, estamos indo para lá mesmo... Gajão percebeu o que Impius tinha tentado fazer, sabia também que de nada adiantaria se enervar, apesar de franzino o homem sabia lutar, e ele não. Preferiu remediar, ambos se respeitavam. - Deixe estar, deixe estar... – terminou a conversa. A viagem prosseguiu neste dia sem incidentes, à noite acamparam sob a gigantesca lua, conhecida como A Luz dos Viajantes8. Onde diziam que uma figura fantástica, o Mago Vermelho9, fazia lá sua morada. Não era bem uma estrada e sim mais uma trilha pelos campos, porém era alargada para a passagem das carroças cheias de grãos, verduras, frutas que viam das plantações vizinhas e inundavam Derghemom de tempos em tempos de produtos de altíssima qualidade. Diziam que Rainaar havia abençoado os campos Dergemones há muito tempo atrás, por terem sido eles que não adoravam outros deuses além deste considerado por muitos em Minlurd, o único. À noite sob o som dos grilos noturnos, os homens acenderam uma fogueira e sentaram-se para cozinhar o jantar, a conversa não tardou a começar. - Nas terras do sul dizem que uma imensa criatura esta devorando o gado dos fazendeiros - disse um dos homens. - À sul?- riu Gajão - Por que não ao norte? – referia-se a Rastare, e a sua vontade que seu pasto de bois fosse devorado pela besta em questão. - É verdade meu senhor, a criatura é grande e já matou três homens até agora, diziam que eram caçadores experientes. - Não mais caçadores que os meus. Rana, Xang venham a mim! - de forma ríspida chama os seus dois cães que imediatamente obedecem – Nenhuma criatura é páreo para os meus guerreiros. - fala gabando-se. - Com certeza senhor, mas e se a criatura estiver rumando para as suas terras neste exato momento? E sua esposa, meu senhor? – adverte um dos homens, calado até o momento.

8 (A luz dos viajantes) – O único satélite natural de Minlurd. Maior em tamanho que a lua terrestre. Dizem os mais sábios que o Mago Vermelho mora em uma das regiões da Luz dos Viajantes. 9 (Mago Vermelho) - O Mago Vermelho, um ser humano que nasceu bem antes do cataclismo. Ganhou status nas guerras místicas que ocorreram em 1350 AC, ou seja, há 371 anos atrás. Era um feiticeiro competentíssimo que conseguia controlar os elementos da magia, enquanto no local. Tão poderoso que se aproximava do divino.

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- Lá estará Nathander o meu campeão tomando conta de minha mulher, grávida de seus seis meses e esperando o meu filho que treinarei para ser meu sucessor e patrão de seus filhos. Compreende? - Ora, ora vamos comer, nada acontecera a nenhum de nós nem hoje nem amanhã. Estamos rumando para a cidade, não quero morrer antes de poder tomar a cerveja que tanto trabalhamos para plantar. - encerra a conversa Impius. A lua é tão grande como um pequeno planeta desabitado, e esta por sua vez, paira sob a cabeça destes homens, cada um deles traz um pensamento escondido. Gajão pensa sobre a criatura a pouco mencionada. E se realmente ela estivesse rumando para suas terras? Não estaria lá para proteger sua família e nem ao menos seu filho. E se fosse isso que os deuses desejavam? Tirar-lhe o herdeiro que sempre sonhara? Maldito empregado que lhe colocava pensamentos na cabeça. Assim que voltassem para casa, expulsaria a ele e a sua família de suas terras. E assim a noite passou, de manhã a criatura já havia se tornado um monstro para Gajão. Sentia-se inseguro, a emoção que ele mais odiava. Rumaram logo cedo, continuando sua viagem, Amandia era excelente cozinheira, seus bolos eram deliciosos e duravam por mais tempo, eram ótimos para serem levados em viagem. O tempo era estável não variava muito, portanto o sol continuou a brilhar neste segundo dia de viajem. Agora o Durgovitch já fazia seus cálculos mesmo montado em seu cavalo, experiente que era em contar seus ganhos e perdas. À noite já aos portões da cidade protetora, sabia quanto gastaria e o que faria para desembolsar menos...

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Capítulo 2 – A Grande Mãe
A capital deste reino era murada em toda a sua extensão. Havia um medo oculto de invasão de humanóides10 do norte, que sempre pairava na cidade, afinal em se tratando de espólios, Derghemom valia cada gota de sangue derramado. Após uma rápida parada nos portões da cidade e uma conversa com os guardas, já estavam dentro da barriga da Grande Mãe11, como era gentilmente chamada. Para aqueles acostumados com o campo o cheiro era forte mesmo tendo ruas largas parecidas com a arquitetura Maior. À noite as ruas eram iluminadas por tochas que iluminavam apenas o caminho à frente e uma infinidade de seres andava por esta cidade cosmopolita. Desde os humanóides, seres parecidos com humanos, gondes12, hienídeos13, brutals14, até um ou outro minotauro15. - Dizem que em Falia16, criaturas aladas andam pelas ruas da cidade tranqüilamente - disse Impius. - Lá é uma cidade de magos, tudo é possível, as ruas são iluminadas por magia, ficam acesas de dia e de noite. -acrescentou Gajão, que nunca se cansava de ver a diversidade de seres que existia em seu planeta, planeta esse que acreditavam os sábios ser o único com formas de vida do universo. - Veja o que é aquilo? – indaga um dos empregados extasiado. Todos olham para a praça que estão acabando de chegar, as árvores estavam escuras devido a pouca luz do fim da tarde, as sombras dominavam todo o espaço que outrora era de luz. Ao centro da praça uma imensa estátua de mais de dez metros de altura, brilhava prateada sob a luz dos viajantes. A estátua de quatro homens, cada um de costas para o outro, como se guardassem uns aos outros. Eram conhecidos há tempos atrás como os
(Humanóide) - É todo o ser que tem aparência semelhante ou que mesmo lembre um humano, não o sendo. Seres humanóides são bípedes de corpo ereto e possuem dois olhos, um nariz e uma boca na face dispostos com a mesma ordem da face humana. Se subdividem em raças como: elfos, anões, gondes, gnomos, homem-lagartos, minotauros, brutais, Hienídeo, centauros, elfos cinzas, trasgos. 11 (Grande Mãe) – Nome dado a cidade de Derghemom. A capital cosmopolita do reino que possui o maior volume de comercio em Minlurd. 12 (Gondes) - Uma raça de pequena estatura, cabeças horizontalmente ovais, orelhas pontiagudas para os lados. Não pesavam mais de cinqüenta quilos cada. Sua pele era grossa e verde, seus braços curtos não limitavam suas habilidades. Apesar do cérebro diminuto, em alguns lugares poderiam comparar sua inteligência a de humanos ignorantes, bárbaros. 13 (Hienídeo) - Um homem com a cabeça de hiena, rabo, pernas arqueadas como um canídeo. São humanóides de até um metro e setenta, pesando até noventa quilos. Seus corpos possuem pelagens de várias cores, e são musculosos. Agéis, ferozes, sem humanidade alguma. São a infantaria de muitas raças. Cultuam ao deus da guerra Thú. 14 (Brutal) - Humanóide de mais de dois metros e cinqüenta, pesadíssimos. Eram muito usados em guerra dois deles conseguiam derrubar um pelotão inteiro de infantaria. Hostis e bárbaros, cérebro pequeno, porém eram imprevisíveis, sempre tendendo a violência explicita. Cabeças quadradas e corpo fortíssimo. Lábios e nariz exageradamente grandes possuem pele como os humanos, alguns são muitos peludos. 15 (Minotauro) - O Minotauro possue corpo de homem e a cabeça de touro. O corpo de homem é proporcional ao seu tamanho e envergadura. Podendo atingir até dois metros e vinte centimetros de altura, com seus duzentos quilos de peso corporal. Possue pelagem curta de cores diversas e é muito musculoso. Na sua maioria são seres rústicos e ignorantes. 16 (Falia) – Magocracia. Um reino regido por feiticeiros. Sua capital fora erguida a volta do grande lago, e dentro dele. Torres altíssimas dominam este cenário onde luzes se acendem e apagam ao sabor da vontade e criaturas exóticas andam pelas ruas normalmente.
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Titans17, um grupo de aventureiros que havia salvo a cidade do ataque de hordas demoníacas na conhecida Guerra do Compacto18. Mas não fora essa belíssima homenagem da cidade o que realmente os chamou atenção. - Devolva as moedas de cobre desta senhora!- dizia com voz imperativa um cavaleiro de vestes brancas e armadura prateada com o símbolo de Rainaar, um pássaro oriole no peito da armadura de aço. Sua manopla segurava fortemente o punho de um homem barbudo. - Não seria prudente mexer com um membro da guilda da Irmandade senhor. – calmamente o ladrão alerta o cavaleiro de branco. Todos olham a cena, mas ninguém ousa fazer nada, afinal a guarda era paga para sujar suas mãos, porém assistir a um confronto sem ter que pagar já era um espetáculo. - O que não é prudente larápio é roubar pessoas indefesas. – provoca o cavaleiro que deve ter lá seus quase vinte anos, mas sua determinação demonstra uma segurança aquém de sua idade. - Deveria saber que um ladrão nunca rouba sozinho. - ameaça o também jovem prisioneiro, que tenta inverter o quadro com um rápido puxão de seu braço, totalmente em vão, o guerreiro é deveras mais forte. Das sombras, surgindo ao lado das pessoas que assistem, saem homens encapuzados. Já se ouve o som chiado de espadas curtas sendo desembainhadas, quatro delas. -Senhor este menino vai morrer, onde está a guarda? – fala sem repercussão, um dos empregados de Gajão. - Cinco contra um, uma covardia. – compadece Impius, mas nem tanto, pois não se oferece para ajudar no combate. - O garoto é que não deveria ter se metido nisso. – Gajão fala com desdém, porém admira-se com a coragem do rapaz. Mal espera ele que seu futuro garoto tenha idade de aprender a lutar e seja o guerreiro que ele nunca foi. Na praça a situação é bem diferente, enquanto muitos que observam se compadecem do ato heróico do jovem homem de armas, também pensam na loucura que é enfrentar um problema desses para proteger um completo desconhecido. Essa é a diferença primordial que separa o cavaleiro Celacious dos outros homens perante ele. Até mesmo alguns quereriam ter a intrepidez deste jovem rapaz, mas talvez por estarem a tanto tempo conformados com a sua vida nada fazem, de nada agem para ajudá-lo. Gajão aquém a estes pensamentos repara na intricada armadura do jovem, branca como o gelo das montanhas negras, com placas que se alargam para fora de seus ombros, como se fossem dois escudos laterais que protegem sua cabeça, seu elmo desaparece com o seu rosto, o tornando distante. Com tudo isso Celacious parece ser muito maior, lembrando até um pequeno filho de gigante.

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(Titans, 1480 AC – 5C) – Grupo de heróis e aventureiros de pouco antes do Cataclismo. Composto primordialmente por Sir Murdock (paladino, fundador da Ordem da Honra Imaculada), Gaulon (guerreiro 11 (continuação) - de coração nobre), Gaubecc (elfo com poderes místicos), Anacrucius (meio-elfo feiticeiro) e outros integrantes que se afastaram ou morreram ao lado deste grupo. 18 (Guerra do Compacto) – Período entre 50 C a 55 C (Cataclismo). Onde os seres de Minlurd lutaram lado a lado contra o julgo dos demônios que dominavam o planeta.

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Mas enquanto estão parados a admirar a cena, o mundo a sua volta continua em movimento, os cinco ladrões agora cercam o cavaleiro de Rainaar, e ao longe dois guardas da cidade fazendo ronda pensam se vão ou não dar ciência ao fato que esta para acontecer. Como num pulo o mais jovem dos ladrões cheio de adrenalina se joga em direção de Celacious em um golpe sem técnica e de muita atitude, rodando para direita e ao mesmo tempo desembainhando a espada até agora quieta, o homem de armadura pesada corta fundo a carne do aprendiz de furtos. Este cai ao chão gemendo de arrependimento pelo seu ato impensado. - Morra desgraçado!- grita para tomar bravura um deles e com sua espada curta tenta estocar o outrora intitulado protetor dos inocentes. É seguido por outro, ambos à frente do cavaleiro. - Que Rainaar os mostre o erro de seus atos - grita em retorno o jovem, sua voz embarga tremula uma fé que lhe traz calma, destemor e predestinação. Gajão ri das palavras e da cena, de longe logicamente acha aquilo tudo interessante. - Mas o porquê de se arriscar tanto por outros que talvez nem o agradeçam? – reflete o fazendeiro. Retornando do golpe anterior agora encara face a face os dois inimigos, levantando sua espada acima de sua cabeça prepara-se para desferir uma contusão violenta, porém demora-se por muito e um dos gatunos acerta-lhe com a ponta da espada em seu ventre. A armadura absorve grande parte do golpe, mas parte adentra e encontra a carne do guerreiro que mesmo com dor termina seu movimento. Descendo com ferocidade de uma fera ferida, Celacious acerta em cheio o ombro de seu algoz, cortando-lhe quase que por completo, fazendo com que esse desista do combate, não só hoje, mas de todos para o resto de sua vida. O segundo patife tenta acertar-lhe o braço, mas ao ver seu companheiro ceder erra por completo e apenas lhe resta ver o aço da espada longa do cavaleiro decepar-lhe a cabeça. Os dois restantes percebem com clareza que a situação se inverteu e decidem não vender suas vidas por míseras moedas de cobre, portanto correm em fuga. As pessoas ficam extasiadas, aqueles que esperavam ver um espetáculo de beleza e heroísmo, descobrem o gosto amargo que tem uma contenta e saem rapidamente da praça. Outros mais interessados em violência se deleitam com o sangue derramado e os órgãos expostos à brisa outonal do período. Mas o que poucos se apercebem é do gesto de Celacious, sangrando pela armadura o herói tenta encontrar a mulher que havia ajudado, a mesma não mais estava, nem perto dele, nem entre as árvores, há muito já havia fugido de lá. Mas o cavaleiro não a acusa, sorri por dentro do elmo, com sua face a pingar de suor. Ajoelha-se ao chão e profere uma oração a Rainaar. Retira sua manopla ao embainhar sua espada, de sua mão desnuda brilha uma luz azul serena e toca no jovem ladrão que havia ferido primeiramente. Toca-o no ventre e a luz o aquece, o abarca. Os olhos do jovem o encaram, sua face retorcida pele dor se ameniza e dele surge um tímido sorriso. Com a cabeça Celacious apenas faz sinal de desaprovação. - Não precisas disso, podes acreditar que o verdadeiro guerreiro é aquele que amanhece todos os dias e trabalha incessante para dar sustento a sua família. Hoje Rainaar deu-te uma nova chance, agarra-a e faz a diferença! –

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suas palavras eram fortes e atingiram a todos os presentes, apesar de poucos anos sua fé inabalável era algo a se admirar. Ficando de pé observa a todos e por todos é observado, nada fala, e de seu elmo profere um cântico enviando e pedindo perdão às almas daqueles que havia matado, e retira-se da praça por entre as árvores no mesmo silencio com que apareceu para salvar a ingrata donzela. Para Gajão aquilo tinha outro significado, admirava a habilidade e bravura do jovem cavaleiro de Rainaar, porém acreditava que sua causa era um desperdício. Fora ele talvez o único a perceber que o guerreiro havia sim procurado ao final do combate o rosto da donzela que salvara. Gajão acreditava estar certo. Certo de que os atos que fazemos devemos fazê-los para nós e ninguém mais. Cada um que cuide de si, e não atrapalhe o outro já era suficiente para este dono de terras. Com este pensamento e certeza chamou seus empregados e puxou a guia de seus cães para logo saírem dali e acharem uma estalagem para passarem a noite que chegava rápido no outono. O que Gajão não sabia era do sorriso expressado por Celacious, que não havia ficado triste e sim feliz por perceber que a donzela onde quer que esteja, estava a salvo. Demoraram um pouco até encontrarem na cidade uma estalagem que aceitasse cães, Gajão nunca iria livrar-se deles, ainda mais nesta cidade de larápios. Mal sabiam que o mesmo trazia consigo uma soma considerável em prata, tanto para a compra de mais duas carroças e cavalos de carga, como para a compra de escravos. ξ A cidade de Derghemom ou a grande mãe era imensa até mesmo para os padrões das outras regiões, tinha uma gama de seres e humanos a viver, enfiados ou em prédios apertados de três andares ou em vilas que cobriam quarteirões de tão grandes. Como já sabido as raças de humanóides eram inumeráveis e não era estranho ver um gonde a trocar mercadoria com um corpulento anão19. Suas ruas por vezes largas e cobertas de árvores, ou por vezes estreitas e sufocantes, suas praças com fontes ou estátuas, ou seus marcos como a grande arena dos campeões como era chamada, copia do circo máximo em Maior. Aqui diferentemente as lutas eram forjadas e mais parecia um teatro, com grandes homens musculosos e feras treinadas. O que a grande mãe era imbatível era no pré-requisito, diversão. Casas noturnas, prostíbulos, bordéis, casas de fumo, teatros, corridas de cavalo, jogatina. Tudo era motivo para se gastar boas danis, como era chamada a moeda de cobre local. Gajão e seus homens arrumam-se em seus quartos e descem para o jantar, uma perna de pernil com batatas em azeite e para beberem pedem a
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(Anão) – Raça de humanóides de estatura baixa e corpos fortes e musculosos. Não são belos, mas de força de vontade supremas, usam grandes barbas e seguem códigos de conduta estritamente severos. Vivem no subterraneo, e são mestres da pedra e do aço. Cultuam a BalGor, o deus da natureza morta.

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própria cerveja já fermentada. Uma grande Lupã20, nome que foi dado pela família Durgovitch há muito. A cerveja é elaborada com maltes especiais, escuros, extrato primitivo e fermentação geralmente alta, tinha sua coloração escura e alto teor alcoólico e de extrato, feita com cevada torrada, tem uma coloração mais escura e um sabor que associa o amargo do lúpulo com o adocicado do malte. Não só é apreciada pelos humanos mais a receita vendida há muito tempo por seu tataravô era de imensa aceitação entre os anões da distante região de BirGamam. A conversa girou em torno do cavaleiro da Praça dos Titans e logo adquiriram mais informações dos outros hóspedes que ao ouvirem a conversa, vinham logo afoitos por querer compartilhar sobre o herói. Celacious era o seu nome. Era um cavaleiro de Rainaar, um guerreiro que se entregava à causa do Deus da bondade e generosidade, e por isso ajudava os incautos e guardava os inocentes, não tinha lealdade a nenhum reino e juras a nenhum monarca, mas era completamente submisso a Rainaar e com ele, e por ele podia conjurar encantos de cura, de paz, e de providência. - Ah! E comida? Ele pode criar comida como essa?- Troçou Gajão enquanto pegava um bom bocado da peça de pernil. - Sim meu senhor, dizem que ele pode ajudar os esfomeados. - disse-lhe com os olhos a brilhar um conviva da estalagem. - De que lhe adianta tudo isso? Deve viver de esmolas e favores, daqueles que ajuda. - Não meu senhor – o intrometido por tanta admiração tornava-se deselegante, o Durgovitch nunca entenderia suas palavras, todavia começava a ficar claro, o comensal queria o irritar - Ele não precisa disso, a igreja o alimenta e os lordes lhe devem hospedagem. - Dormir na casa dos outros, quando não se tem a sua, que espécie de doença é essa. - Não meu senhor... - o homem parou, do outro lado da mesa Impius o encarava ferozmente, com os olhos vermelhos de uma raiva crescente pela ousadia do cidadão e já maculado pelo álcool, começou a levantar-se da cadeira de madeira. Mas não foi necessário, o conviva entendeu rapidamente e saiu sem despedir-se, com medo. Impius olhou com orgulho para seu chefe, que não retribui o olhar, apenas continuou a comer e beber e já guardava comida para seus animais que o esperavam no quarto. Mas a noite não acabou logo aqui, eles continuaram cada um a aproveitar a cidade, pois sabiam que não voltariam tão cedo. Impius continuou lá embaixo a comer e a beber da Lupã, já não pensava com tanta clareza e procurava entre os tantos do ambiente qualquer mulher com que pudesse entreter-se. Logo achou. Como um Mocho Real21 que acha

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(Lupã) – Cerveja produzida da cevada vinda dos Durgovitch. Espécie de cerveja de marca específica. (Mocho Real) – Criaturas raras, místicas. Podem alcançar até três metros de altura e caçar qualquer tipo de criatura. Dizem que alguns destes Mochos são seres inteligentes e conseguem comunicar-se com viajantes e questioná-los. Um jogo para estes animais, onde a resposta incorreta acarretaria em uma morte consentida. Tem sua própria organização social.

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sua presa até embaixo de neve, a prostituta encontrou seu novo e ultimo cliente. Saíram dali contentes, e já um tanto alcoolizados e caminharam pelas ruas da Grande Mãe até acharem um pequeno motel. Lá, Impius viu nos corredores a pressa de alguns que mal esperavam para adentrar no quarto e já faziam sexo ali mesmo nos corredores, em outro cômodo ouviu um gemido alto de uma humana e um hienídio. O cheiro de suor e a fumaça de drogas infestava o local. Em um quarto adentraram e lá Impius a obrigou a fazer coisas que ela só havia ouvido falar de clientes humanóides. Por vezes ela quis cancelar o programa, mas sob a lâmina da espada do sádico Impius acabou por ceder e por fim ali ficou para do quarto nunca mais sair. A cidade amanheceu em meio a um sol frio que trazia o vento das montanhas negras. Imaginava-se que após percorrer tantos quilômetros o vento não cederia seu gélido aspecto. Então com seria o vento da própria montanha? Somente um anão poderia responder isso. Os cães acordaram e lhe lamberam a face, rindo Gajão levantou-se e os afastou. Lá fora, o contraste de sua janela na fazenda a piar pássaros e agora o barulho ensurdecedor da multidão indo trabalhar. O café da manhã foi rápido, e todos perceberam a cara de ressaca do pequeno Impius, mas nada falaram. Na rua a situação era bem diferente, Gajão à frente a os guiar para a grande feira, seguido por seus três empregados a carregar seus pertences e a prata, e logo atrás montando guarda o único guerreiro do grupo, Impius. Os grandes cães haviam ficado no quarto a esperar, seria impossível trazê-los sem que eles mordessem algum gonde de sua altura. Por ruas cheias andaram, e mais uma vez o cheiro de suor os encheu as narinas destes homens do campo. Ao longe já ouviam as vozes dos vendedores a anunciar as suas mercadorias em alto e bom tom. Ao final de uma rua estreita, tiveram que pedir licença a um minotauro que estava parado bem no meio dela a olhar por cima da cabeça dos pequeninos humanos alguém ou alguma coisa. O humanóide media mais de dois metros de altura, possuía cabeça de touro em um corpo mássico de pelagem curta, não tinha pés e sim cascos grossos. Abriu-se a eles um imenso sitio envolto por prédios de três a quatro andares e ruas saindo por eles, era como se estivessem entrando em uma arena circular, e seus olhos demoraram se ajustar à quantidade de informação que receberam. A feira estava cheia de barracas, carroças, pequenos palanques onde os vendedores se assemelhavam a atores, porem exerciam a arte do marketing e sedução. Ouvia-se o som de feras enjauladas e na parte oeste alguns espécimes de criaturas estavam enjaulados também rodeados por estranhos feiticeiros que tinham seus servos a gritar lances para a compra de parte destas criaturas, com finalidades de experimentos mágicos. No meio uma vigia da guarda da cidade a tudo observava, com um destacamento de quarenta homens montados em cavalos trajando armaduras de cota de malha, escudos e porretes, também ao lado espadas caso a situação necessitasse.

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A leste perto de onde se encontravam uma infinidade de utensílios domésticos desde mesas de madeira de pinhais até louça vinda das distantes terras orientais do leste. Ao norte estava o que Gajão queria, o telheiro de Mandril, o melhor escravista da região. Caminharam com dificuldade dentro do emaranhado de corpos. Dentro deste oceano de pessoas e humanóides. Bandidos trabalhavam quase que invisíveis a bater carteiras ou a negociar nos becos ao lado, objetos ilícitos, ou alguma arma mágica de um herói que não existia. Não foram vitimas, destes por sorte, e logo chegaram ao palanque de madeira de Mandril que fazia arte da forma que vendia sua mercadoria viva. Mandril era um homem corpulento, um gordo com ossos grandes, sabia muito bem o que comprava e para quem vendia, diziam que chamava os escravos pelo nome, sem bem que para estes infelizes isso não era um bom trato. Avistou Gajão quando este chegou perto, tinha a vista ruim porem memória boa, deste avarento e rico senhor de terras, o tratou como se fosse um rei. - Bom dia a ti, Gajão se bem me recordo não és? - Senhor Gajão para ti! Homem de negócios, vim por saber que foi e continua sendo o melhor entre os mercadores de carne do país. – o Durgovitch aprendera com o seu pai, Dedanogor Durgovitch, se colocar e negociar como um bom político. Ele fora um homem severo, contudo nunca havia dispensado educação para o seu filho. - Enchem-me de orgulho teus elogios – Mandril abriu um sorriso. - Vim, pois preciso de mais homens para a colheita, o último inverno me tirou três deles para os braços de Amdosias22 e agora estou desfalcado. - Tenho aqui justamente o que precisas, são peças vindas recentemente dos reinos selvagens a sul, refugiados da última excursão dos Cavaleiros Achillanos23 de Maior. - explanou orgulhoso, Mandril. Maior era um país em eterna extensão e agora estava conquistando os reinos negros do sul, Sembalo, local selvagem e inexplorado. Os cavaleiros vinham com barcos não só feitos para navegar o bravio oceano Indigo, mas estas naus também podiam elevar-se a metros da água, levitando misticamente. Os cavaleiros trajavam armaduras de placas de aço, e lutavam contra o misto de medo e bravura dos selvagens que os consideram magos vindos do céu. Os selvagens, como eram chamados lutavam com lanças de madeira, escudos grandes e machetes antigas de ruínas de outrora, seus shamans lançavam suas magias antigas dos espíritos da selva, mas estavam sendo rechaçados, portanto o mercado estava cheio de homens, mulheres e crianças de cor negra, com rostos pálidos pelo horror da guerra e tristeza em seu coração. - Quero três fortes para o labor e uma mulher para procriar. - Queres uma mulher muito bem aparentada, senhor? – A pergunta de Mandril tinha duplo sentido. - Não! Vamos rápido, não gosto de ficar muito tempo neste mercado, fora sua mercadoria nada mais aqui me interessa.
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(Amdosias) – Como Rainaar é a criação, o deus supremo. Amdosias é a destruição, o revés de Rainaar. A ruína. O revés. 23 (Cavaleiros Achillanos) – Ordem de soldados de elite do reino Maior.

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- Tenho aqui dois caçadores e um agricultor, a mulher é essa bela mucama... - Apenas um deles, e o outro. Caçadores causam problemas. A mulher deixe-me vê-la. Impius sorriu, era lógico que seu mestre iria a ter com a selvagem, porém nunca contaria isso a um desconhecido como o vendedor de escravos. E logo após quem sabe ele não poderia tê-la também? Era um sangue suga, mas não se considerava assim. Mandril começara por vender bem, mas errara ao escolher os dois caçadores para Gajão ao fim iria apenas vender três em vez de quatro. Tentou empurrar outros, mas Gajão não cedia. Mandril amaldiçoou sua burrice. - Senhor. Sei que sua esposa esta a esperar um rebento não é? - Sim, será meu primogênito. - falou todo orgulhoso, seus olhos brilharam e o vendedor apercebeu-se disso. - Não queres um mentor para teu filho? Alguém que possa lhe ensinar as artes e a escrita? Tenho aqui um escravo letrado vindo ilegalmente de Hule, possivelmente um fugitivo da inquisição Hulistica24. Hule. Único reino que fazia frente à Maior belicamente. Lá bem a oeste rezavam por um deus antigo de nome Amdosias, a morte encarnada. O reino era constituído de pessoas duras e viciadas em trabalho e honrarias bélicas. Todos que pensavam diferentemente eram caçados pela inquisição. Gajão ficou a devanear por alguns instantes. - Mentor? Ele o seria. Mas e na arte da batalha? Quem ensinaria seu filho a ser o guerreiro que nunca ele fora? Impius? Não. Era bom em luta, mas pequeno e furtivo. Queria alguém que fosse corajoso, forte, destemido, líder, duro e que tivesse experiência. Quando o Durgovitch tencionara em abrir a boca, Mandril já sentira. Tinha o acertado em cheio e faria agora um excelente negócio. Porém nunca adivinharia o que se seguiu por depois e que até hoje o causa espanto. - Quero um mentor para o meu filho sim. - disse resoluto – Quero o melhor, o maior e mais desgraçado guerreiro que os Achillanos puderem trazer! – seus empregados o olharam com seus olhos arregalados. - Senhor... – Mandril parou como uma estátua em cima do palanque, as pessoas que ali estavam a ouvir a conversa e a sonhar em comprar um escravo um dia, acharam o grande homem barbudo um louco. - Ouviu-me Mandril! Quero e o quero rápido, não me importo o seu preço desde que seja por deveras bom. Confio na sua palavra e sei que o fará. Ou então conversarei com amigos que me devem uma soma por apoiá-los em suas campanhas e lhe arruinarei os negócios. – sabia o que estava falando, na democracia de Derghemom a única que adotava este regime, e sempre causava intermináveis discussões filosóficas, os cidadãos eram livres, até mesmo para destruir uns aos outros. Haja vista o próprio regime democrático, escravista. Mandril sabia, o homem era influente, pois sempre soubera onde investir suas moedas de prata. Apenas pode responder-lhe: -Sim senhor. Farei o meu melhor.
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(Inquisição Hulística) – O império de Hule é uma teocracia, regida por Zargonias. Um enviado dos próprios deuses. Qualquer religião que não seja o culto ao imperador e a Amdosias é caçada e massacrada dentro do território.

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Neste dia voltaram para a estalagem, os cães receberam seu dono com festa. Deu então folga aos homens para irem se divertir, seus empregados estranharam, e ficou no quarto, apenas descendo para comer. Em sua mente sonhava com o seu desejo a se realizar, seu filho seria sim o que ele queria. E estava cada vez mais perto de concretizar isso. Pensava também em Natalie, se estava em segurança, temia pelo monstro a solta nos arredores, mas tinha pavor em imaginar que Natalie poderia não ter um filho homem, se isso acontecesse seu casamento iria acabar, a mandaria de volta para seu casebre de onde a tirou. Por tudo isso, Gajão passou o dia em períodos de intensa alegria e outros de um enegrecido mau humor. Os únicos que conseguiam agüentá-lo eram seus grandes cães. ξ Mandril estava perdido. Sabia em seu âmago, mexera com a pessoa errada. Maldita a hora em que tentou usar suas técnicas de venda em uma pessoa tão obstinada como o prestigiado senhor de terras. Ele não era mais um. Agora precisava rapidamente de uma solução. Amanhã ele iria voltar, e não aceitaria um não como resposta. Com a mesma certeza que a grande lua iria por hoje desaparecer e dar lugar ao coração de Solarius25. Gajão Durgovitch iria acabar com o seu próspero negócio e nem sua pequena fortuna o salvaria incólume desta batalha de autoridade. Pois então havia de apelar para um plano desesperado e foi a ter mesmo na hora do almoço a embaixada Maior, em Derghemom. A embaixada se encontrava perto dos muros da cidade, parecia mais um grande forte, e por vezes na época do cataclismo26 serviu de base para autoridades e até heróis como os valorosos Titans. Lá conhecia outro homem influente. Um meio elfo27 de nome comprido e aparência arrogante, ele adorava falar sobre sua herança élfica de mãe e pai humano diplomata, mas não passava de um corrupto que vendia seus valores por moedas de prata e ouro. Adentrando sem dificuldades, foi ter uma reunião com esse meio homem, meio elfo, e lá comprou uma carga valiosíssima em prata e ouro, custaria caro para ele e custaria ainda mais caro para Gajão, mas se não estava enganado, o senhor de terras pagaria com extrema felicidade. ξ
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(Solarius) – O astro sol, o deus da luz. Cultuado em muitas nações. (Cataclismo) - Período de 0C-55C. A invasão demoníaca a Minlurd. O continente dos Seis Reis tem este nome pela união de seis homens de ideais nacionalistas. Ao meio de seu reinado absoluto envolveram-se em pesquisa com o Império da Morte, afim de propagar a idade da morte de seu povo. Os feiticeiros necromantes em brigas fatoriais dividiram-se em duas facções recheadas de dinheiro dos cofres dos reis. O Império da Morte, estudiosos da vida além Minlurd. Patrocinados em seus estudos para propagar a vida. Criou-se um grupo conhecido como os Infernalistas. Facção esta desejosa de dominar seres inferiores e seus poderes místicos poderosos. E assim se deu o cataclismo em meados de 1499AC. Predito por sábios e ciganos. Os Infernalistas abusaram de suas liberdades e conjuraram o primeiro. O demônio fora preparado por Amdosias, no Infernum para abrir os portões para Minlurd. Pela própria vontade dos nativos daquele mundo. Logo os Infernalistas enganados pelas inteligentes criaturas, transformaram-se de mestres a servos. E os demônios abriram os portões para Minlurd. 27 (Meio-elfo) – Nascituro de mãe elfa e pai humano. Relação rara entre raças. Possui algumas características élficas e outras humanas. Vive mais que um humano. Não é bem aceito na cultura élfica.

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A noite uma chuva fraca e o mesmo vento frio das montanhas negras. Os homens do campo tiveram dificuldade para dormir, uma festa familiar aconteceu na noite, e Gajão fez questão de ter parte de sua diária debitada pelo inconveniente. Na manhã nublada no caminho para o mercado, puderam vislumbrar uma comitiva de anões, trajados com armaduras e machados de guerra. As armas dos anões são artisticamente feitas, muitas possuem desenhos de rostos ou natureza morta. Alguns machados têm sua lâmina em formatos diferentes e diversos adereços. E de nada atrapalham o guerreiro menos habilidoso em seu manuseio. A comitiva que era escoltada por guardas Dergemones, vinha das Montanhas Negras e estavam a guardar um carregamento de pedras preciosas que a montanha exalava a cada buraco escavado. O local era fortemente guardado com suas fortalezas e suas aves voadoras gigantes, Tracias, estas eram usadas como carroças de transporte de tropas. A diferença é no coche, este preso na barriga da ave, e na sua frente vidro, invenção anã, permitia ao condutor a guiar sem problemas, um timão na proa deste coche estava ligado a cordames e roldanas atrelados a grande ave, fazendo-os obedientes aos comandos do anão piloto. Estas aves eram presentes do rei dos reis anões conhecido pelo mundo inteiro Bill StrongWill, o matador de elfos cinzas28. O unificador para os anões, o lunático para os humanos, e o veloz para ele mesmo. A praça estava cheia como sempre e novamente tiveram dificuldade para passarem por entre a multidão. Um enorme brutal estava a ser derrubado pela tropa de vigia, nervoso por ter sido roubado por um ladrão entre os pedestres. Essa cena por si só os atrasou um bom bocado para chegarem até a barraca de Mandril. Hoje havia uma diferença no palanque, um grande cobertor cobria uma jaula de animais. E ao seu lado Mandril a sorrir para Gajão e seus homens. - Meu caro senhor demorastes a chegar hoje. Pensei que estava mais ansioso por sua compra. – zombava confiante o mercador. - O que tem ai embaixo? Pedi-lhe um mentor não uma fera ou uma estranha criatura do deserto de fogo. - Ora, ora senhor, Mandril não vende feras, se bem que este poderia muito bem se passar por uma.- fazia suspense e falava, tentando com sucesso atrair o maior número de pessoas para começar o seu show. Gajão havia o feito suar e gastar muito, mas hoje ele mostraria quem era. E o faria pagar caro sua arrogância. - Apenas para abrir a cortina peço-te quarenta peças de prata! – a multidão de outras barracas e estantes virava-se para observar o espetáculo. - O que? Está brincando comigo? – Gajão começava a ficar colérico.Mostre logo o que me prometeu ou... - Acalma-te meu influente senhor. – tentava ganhar o amor da platéia que aumentava a cada palavra proferida mais alta.
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(Elfos cinzas) – Raça humanóide de elfos. O primeiro elfo, Zath, indignando-se com a subserviência a Nastar (o deus da natureza viva), rebela-se, fugindo para o subterrâneo e criando assim uma nova raça. São seres inteligentíssimos e dedicados as artes místicas. Por terem natureza rebelde, são belicosos e não necessariamente maus. Porém extremamente egoístas e tem com desdém as outras raças.

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Entre eles um humanóide parecido com um cão em duas patas e dois gondes, um centauro29 com as costas cheias de compras também já opinava com seus amigos ao lado. - Prometi sim te trazer o melhor guerreiro das terras do sul, mas vende-lo é outra estória! Acho que devíamos fazer um leilão para quem deseja tê-lo como guarda pessoal, ou para trabalhos forçados. Tive que o tirar das portas da arena dos campeões, estava quase a ser vendido para Maior na famosíssima Arena da Morte30! A multidão de súbito aplaudiu, até Mandril se espantou com seu carisma, ao longe se aproximava uma liteira carregada por dois brutals cinzas e traziam uma das mais ricas aristocratas de Derghemom, filha do antigo rei despojado, mas ainda cheia de privilégios por sua posição. Ela foi a primeira a falar coberta de seda púrpura comprada de elfos31. - Dou-lhe cinqüenta moedas para que tires a mortalha dessa jaula misteriosa! Gajão preocupou-se, não acreditava na armadilha que Mandril e o destino o pregavam. Por que para ele tudo tinha que ser tão difícil? Vitimou-se como sempre fazia. Pensou em usar Impius para afugentar de alguma forma a mulher sobre seda. Mas os brutals eram imensos e trajavam marretas de madeira grossa. Tombariam cinco humanos em cada investida se as tirassem do cinto. Teve medo, mas o usou da melhor forma que podia e sabia, com a cabeça. Queria que seu filho fosse o melhor. - Dou-lhe setenta moedas! – gritou resoluto. - Setenta moedas! Valha-me Solarius! - pensou Mandril. - Nem ao menos tirei a coberta! -Setenta moedas, senhor Gajão Durgovitch! – retrucou. Os espectadores olharam automaticamente para a liteira e de lá se ouviu. - Cem peças de moedas de prata! – mais aplausos, vários deles. O povo sabia que os jogadores apostavam alto com a moeda de prata da região e gostavam disso, para eles era como sonhar com o dinheiro alheio. Os larápios de plantão já começavam a se reunir em pontos estratégicos. - Cento e cinqüenta! – Gajão não estava brincando. Mesmo nessa região onde a democracia começava de forma estranha, ele já era avançado para seu tempo. A mulher conhecida por seus hábitos estranhos, de se reunir com feiticeiros e de sucumbir aos prazeres da carne como um vício, ficou em silencio por um bom tempo. A multidão também acompanhou calada. Alguns vinham dar tapas as costas de Gajão, eram rechaçados por um Impius atento a ladrões. - Duzentos e cinqüenta moedas de prata e quero ver fora a coberta agora! – desta vez ninguém aplaudiu, a ordem da menina mulher os lembrava o seu pai, o déspota que reinou por longos cinqüenta anos e fora deposto em uma guerra civil, que começou em 106DC.
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(Centauro) - Uma raça de seres com o torso e cabeça de humano e o corpo de cavalo. Podem atingir a altura de dois metros e pesar até trezentos quilos. Vivem próximos aos elfos e fazem aliança a eles. Podem ser encontrados em regiões humanas, mas são raros e apreciados por sua natureza exótica. 30 (Arena da Morte) – Em Maior, as arenas são cultuadas como esporte e diversão. A famosa Arena da Morte na própria capital, abriga jogos reais e sangrentos. Espetáculos de vida e morte. 31 (Elfo) - Humanóide de formas simétricas perfeitas, corpo esguio e delicado, um pouco mais baixo que humanos. Associados a beleza suprema, vivem em florestas e bosques densos. As artes místicas são naturais a todos desta raça. São seres sensveis, de longa vida, estreita ligação com a natureza e com a fauna.

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Todos então olharam para o senhor de terras que já estava vermelho, tanto pela contenta, como que por vergonha de estar no meio deste teatro que não queria ser ator. Então Gajão pensou. Pensou em seu dinheiro e seus sonhos, em como ficara rico e como de repente poderia perder tudo por um ato qualquer impensado. Nunca havia ficado em uma situação como essa, sempre planejava tudo de antemão e agora isso. Mas sentia estar perto de seu filho, perto de sua realização. Pela primeira e última arriscou-se, e por isso se arrependeu pelo resto de sua curta vida. - Quatrocentas moedas de prata! Silêncio completo, os espectadores perceberam então a distancia com que estavam desta briga. Alguns ficaram enraivados, outros o admiraram, os ladrões já faziam planos de roubá-lo. Mal sabiam que até com o seu líder ele era influente, pagava a guilda uma soma de proteção mesmo morando longe. Por isso seus negócios eram sempre concluídos, de uma forma, ou de outra. A liteira vira-se rapidamente e enfurecida sai do mercado, seus brutals quase atropelando os cidadãos. Mandril fica estarrecido com o que acabara de ouvir, brincando havia provocado um imenso crocodilo de um rio em Param Azi e agora este abria a boca para devorá-lo. Estranhamente esta cortina só foi levantada no final deste espetáculo. De dentro dela de pé, um colosso. Sua pele negra como ébano, brilha sob a luz do sol tímido, com as mãos segura as barras de ferro que lhe parecem gravetos se comparados a seus braços parecidos com toras virgens de carvalho maciço. Seu peitoral mais parece uma parede de pedra, e suas pernas duas colunas de mármore. De sua cabeça não nascem cabelos há tempos e seu rosto é pesado, fúnebre, sobrancelhas grossas acompanham olhos pequenos que parecem ainda mais fundos, o nariz é grande e achatado como se já o tivesse quebrado há muito. Ele olha para todos. Todos que o estão olhando, não desvia seu olhar cortante de ninguém da multidão, e muitos olham para outro lado. - Aqui está senhor Gajão - diz um tanto trêmulo Mandril, tanto pela emoção do dinheiro que recebera como pelo nervosismo que se passou há pouco. Este é Thorku-unamê, um chefe de guerra das tribos do sul. Foi necessário um destacamento inteiro de homens para capturá-lo, e não exageraria em lhe dizer que antes disso ocorrer, muitos pereceram a sua frente na batalha conhecida pelos Cavaleiros Achillanos32 como: Ngola-Mbole, Maka, Muxito33. O que eles não sabiam. O combate tinha se passado na mata densa perto de um templo, uma ruína, onde o Ngola-Mbole ou chefe de guerra tentou proteger seu shamã da fúria dos homens brancos. Muitos tombaram perante as armas dos soldados experientes da tribo de Thorku, mas por fim a magia dos feiticeiros de guerra Achillanos, os Mulóji34, conseguiu sobrepujá-los. Vários foram mortos, mas o grande líder foi preservado e seria um presente para o general Cratus35, líder da expedição conquistadora aos reinos negros do
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(Cavaleiros Achillanos) – Cavaleiros do reino Maior. Guerreiros corajosos que lutavam na linha de frente das invasões no continente de Sembálo. Soldados de elite. 33 (Ngola-Mbole) – Língua Sembálo. Significa: General de guerra. 34 (Mulóji) – Língua Sembálo. Significa: Magia.

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sul. Porém em meio à desorganização, fora enviado erroneamente para outro lugar e perdeu-se. Mas esse não é nem o começo da estória de Thorku-unamê o grande Ngola-Mbole das terras do sul que por erro ou manipulação do destino foi vendido para Gajão um senhor de terras do norte. ξ Partem naquele mesmo dia de volta para a fazenda. Os empregados fazem o restante das compras e as acondicionam nas duas novas carroças cheirando a madeira jovem, os cavalos também saídos de um estábulo e vividos para começarem a vida. Gajão estava diferente, gastava mais, sem ao menos se preocupar. Mesmo enquanto esperava seus servos, junto com Impius e seus cães. Olhava fixamente para os homens acorrentados a sua carroça, mas especialmente sorria para um, o gigantesco Thorku-unamê que nada falara o dia inteiro, apenas olhava assustado para os enormes cães de Gajão. Por dentro o agricultor estava feliz, muito feliz, seus planos estavam correndo bem, queria agora voltar logo para sua casa e encontrar Natalie, por este motivo não esperou nem mais um dia e partiram da enorme cidade mesmo de tarde não se demorando nem um dia a mais. A viagem de regresso foi mais rápida, demoraram por apenas um dia e meio e pouco conversaram, Gajão voltou a contar seus ganhos e perdas e voltou a ficar enervado, perdera a tão difícil alegria conquistada e ficou carrancudo, os escravos eram alimentados e sempre estavam sob a incansável vigília dos animais. Impius examinava minuciosamente o escravo guerreiro, achou que Mandril poderia tê-los enganado, pois sua primeira impressão foi boa, mas agora ele não passava de um pobre coitado, sua expressão era de pura tristeza e andava quase que cambaleando pela estrada. Percebia o medo que o escravo sentia dos cachorros de seu mestre e começa a duvidar de sua capacidade, tanto exacerbada por Mandril. ξ O outono em Derghemom faz cair rápido a temperatura, como se uma porta fosse aberta para o respirar das montanhas negras. O vento gelado cortava a pele acostumada a calor e suor dos escravos, as folhas já caiam ao chão e o barulho delas quebrando no pisar dos homens foi o suficiente para alertar a Nathander que o seu dono havia chegado. Latindo alto acordou Natalie que estava de cama doente fazia dois dias. Amandia recebe os cansados viajantes e Gajão leva seus cães para o canil, não antes de passar Thorku para a guarda de Impius, que por sua vez o leva diretamente para a senzala. Amandia se aproxima de seu senhor há medo em seu olhar e Gajão percebe. - Mestre, sua esposa o aguarda no quarto. - Por que ela não desceu para me ver? Estará tão cansada assim com os seus afazeres na casa?- debocha o homem de cabelos ruivos.
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(Cratus)- General líder da conquista a Sembálo.

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- Ela... - Amandia pensa - Ela esta doente senhor... O rosto de Gajão empalidece e sua boca se contorna como se tivesse sido golpeado por uma adaga. Seus olhos arregalam como se buscasse uma saída daquela situação. Mas uma vez o destino o pegava. Subiu correndo o lance de escadas que fazia uma pequena curva para a esquerda e passando pelos inúmeros quadros da família, abre a escura porta de carvalho do quarto. Mas é recebido com imensa alegria vinda de seu fiel amigo, afinal ele tinha tomado conta de sua dona pelos dias que foram necessários. E por isso nada compreende quando é enxotado do quarto pelo seu dono. Lá dentro envolta na seda da grande cama do casal esta Natalie, pálida e cansada, o único sinal de vida vem do rubor vermelho de suas bochechas e o brilho azul de seus olhos com a chegada de Gajão. Ele corre até ela a tomando nos braços. Ela esboça um tímido sorriso para com o seu marido. Ele em silencio e apreensivo olha para ela e com medo na voz diz. - O que houve? - treme seus lábios ao falar, não consegue suportar a desagradável surpresa que a fortuna lhe preparava incessantemente - Como? - Acalme-se meu homem...- dizia carinhosa, sentia o calor de seu marido, há muito ele não a abraçava - apenas uma gripe passageira, fiquei muito tempo lendo ao relento de nossa varanda, esperava ansiosa a sua cheg... - Maldita! Não pode fazer isso comigo! Disse-lhe que era para se cuidar na minha ausência, quero o meu filho bem e saudável, não um fraco e doente! – e a larga na cama. Da mesma forma que o machado corta a madeira, a marreta esmaga a pedra, o aço corta carne, nesse momento Gajão mata o sentimento de Natalie. Neste mundo místico de magias que curam e guerreiros que destroem, as palavras também como sempre na estória dos seres humanos tem o poder de curar e o de destruir...

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Capítulo 3 - O nascituro
Por mais três meses nossa estória se segue, dia a dia passando mais rápido que o vôo do oriole. Neste período Natalie adoece ainda mais, mesmo sob o intenso zelo medico que Gajão pode desfrutar. Thorku-unamê é constantemente vigiado por Impius e os cães, e já trabalha na roça com seu enorme vigor fazendo só, o trabalho de cinco homens. A colheita é proveitosa e Gajão retorna a cidade desta vez para ganhar e não para perder. A vida segue na grande fazenda dos Durgovitchs. Até o dia do nascimento de seu filho. Porém nem tudo e tão normal. Das imensas árvores de Minlurd, uma criatura meio carne, meio pedra andava pelo barro das recentes chuvas. Sentia um odor macio em seu focinho, estava com fome. Já havia matado, mais de seis humanos naquela região. Prezava por mais. Estava ainda mais feroz, por causa do grande período sem alimento. Tinha o tamanho de dois ursos grandes, sua aparência era de um ser doente, com carne pútrida e pendurada de seu corpo, sua própria carne. Seu cheiro de carniça afastava todos os animais de perto dele, não só pelo fedor, mas também pelo instinto de sentir na tal monstruosidade algo não natural, alguma experiência mal executada de um feiticeiro ou criada pelo próprio mundo cheia de ódio e ignorância. Cheirou carne quente a quilômetros dali, os escravos trabalhavam. Na fazenda do vizinho senhor de terras Rastare estavam na labuta homens de feições tristes e de mãos calejadas, colhiam dos campos o tão almejado trigo de seu mestre. A manhã já se despedia, a ceifa já estava feita e a batida quase terminada. Com os bastões os trabalhadores já formavam o palheiro. Estes mal sabiam, o mau que os espreitava a longa vista. Com seu focinho deforme, o meio lobo, meio urso, de longe os observava, com muita fome. Estavam os negros a trabalhar em grupos esparsos de quatro ou cinco, seguiam com pequenas carroças próximas ao trigo ainda quente do sol que os fazia crescer. Foi quando descendo a colina coberta de árvores, saltou das sombras dos arvoredos para a clara luz da manhã o monstro devorador de homens, e pulando sobre um escravo, cravou-lhe as garras cheias de terra e os dentes cheios de ódio. O escravo morreu na hora com o peso e a mordida da fera. Os seus companheiros de escravidão tentaram correr, mas a besta nem ao menos parou seu ataque para comer sua presa. Lançou-se então em um novo avanço, com uma pequena corrida, e uma patada certeira derrubou mais um homem. Ela não era um animal comum, tinha predileção por humanos, pois nem mesmo se ocupou do boi que era presa muito mais fácil do que os escravos que corriam assustados. Com muita calma e vil inteligência levou suas caças para dentro do mato e as devorou escondida embaixo de uma grande árvore caída. Onde uns perecem outros nascem.

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Em uma noite chuvosa, nasce o filho de Gajão. Mulóji para os negros da fazenda. Mau agouro uma criança nascida à noite sob chuva fria. Gajão bebeu até cair nesta noite, distribuiu fumo vindo das terras da estepe leste entre seus empregados e num ato histórico, entre os escravos. Fez questão de levar o rebento a uma caçada na manhã seguinte. O terreno ainda estava encharcado e os cães que os acompanhavam quase ficaram presos na lama fria. Com ele seguiu em seu cavalo, levando o bebê de forma insensata a sua frente na sela, iam Nathander, Rana e Xang os cães de confiança. Impius vinha logo atrás em outro cavalo, ele era a segurança de seu mestre. O menino não emitiu um só lamento, era como se ele não estivesse assustado, como se tudo aquilo já lhe fosse comum, seu pai orgulhoso comentava com Impius cada sentimento de felicidade que tinha para com o filho. - Veja! Ele está calmo no lombo do cavalo, nem teme os latidos dos cães a procura de caça. Impius apenas sorria, era verdade, o garoto havia trazido felicidade à casa dos Durgovitch. Embrenharam-se na mata a sul de sua fazenda e ficaram por lá até quase o fim do dia. Natalie em casa suava frio esperando por seu filho. Na volta trouxeram um gamo encurralado por Xang e abatido por Impius. O garoto trazia sorte a casa. Uma antiga tradição dos Durgovitch era nomear o primeiro filho com o nome do avô e assim foi que Dedanogor Durgovitch, filho de Gajão e Natalie teve seu primeiro dia de vida, em meio à caça e o sangue, em meio à vida e a morte. ξ Os dias se passaram mais felizes na fazenda, Gajão tratava Natalie melhor, orgulhoso de ela ter lhe dado um filho forte e firme de personalidade. Contudo sua esposa estava cada vez mais doente, como se tivesse usado todas as suas forças para trazer ao mundo o seu filho. O cuidado com ela tornou-se constante e Gajão, mais amável. Depois do nascimento de Dedanogor, gostava de passar as manhãs na varanda de sua casa olhando para tudo com olhos felizes. Seu filho havia nascido, grande e com o choro pesado. Da varanda podia observar os campos de plantação de levedo, eram como grandes ondas parecidas com os oceanos de Minlurd. Podia ver sua posse a trabalhar nos campos. Lá também estava sua esposa tomando seu sol medicinal abençoada por Solarius, e no colo dela seu rebento. Acenou para ambos e ela devolveu comum sorriso. Era como assistir aos feitiços de ilusão, conjurados pelos magos do oeste. O deus sol mandava um raio limpo e lindo até os dois. No campo, Thorkuunamê trabalhava mais um dia, puxava o arado em lugar dos bois, gostava disso, o escravo só havia ficado maior com a comida boa de sua fazenda. Ele realmente seria o melhor? Ele deveria se resguardar mais contra esse homem? Mais uma vez perguntas para o depressivo Gajão. A perna do escravo empurrava seus mais de 150ks de força bruta. Os escravos o tratavam diferente. Era como se eles soubessem de algo sobre este homem, algo da cultura daquela raça tribal, mais velha e mais respeitosa que a cultura dos homens Dergemones.

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Um servo de Gajão levava Nathander na coleira o rico Durgovitch sabia que Thorku nunca iria enfrentar o cão. Era um medo inexplicável que este escravo tinha do animal de quatro patas. Com um circo de ilusão em Falia, uma tela de pintura o fazendeiro presenciaria. Dos campos como um barco a singrar as ondas, a criatura saiu, mesmo a luz do sol que brilhava nos rostos assustados de sua esposa com seu filho. O monstro de quatro pernas trotava para pegá-los. Havia pouco que não comia, após sua ultimaúltima matança dos humanos da fazenda de Rastare, passou seu tempo a fugir dos caçadores que Rastare contratara para pegar a fera e mostrá-la a todos da região. Neste meio tempo conseguiu matar um ou dois destes caçadores. O coração de Gajão pulou na boca. Dor mais feral que esta, nunca mais sentiu. Com um mergulho a criatura pegou o braço de Natalie e a levantou para longe do bebe.bebê. A fera tinha gosto por humanos e o cheiro do bebêrecém nascido a deixava mais selvagem. O corpo de Gajão que assistia a cena começou a ceder, com seus olhos a fechar sem saber procurou Thorku, mas não foi à visão que o encontrou e sim seus ouvidos que escutaram o imenso guerreiro das tribos do sul soltar um forte brado de guerra. A criatura parou e de longe e olhou para ele. Tão viciados de vermelho eram seus olhos. Thorku-unamê encheu o peito de ar e quebrou com um chute a viga que segurava o arrasto da plantação. E dela arrancou uma tala de madeira que parecia uma lança de guerra. Como voa uma flecha para um escudo de um guerreiro, voou esta lança que cravou perfeitamente na perna esquerda do ser animalesco. Um guincho ouviu-se nas fazendas vizinhas. Alto e cruel doeu o ouvido de todos. Em sua boca ainda pendia Natalie presa pelo braço. O guerreiro arfa o ar mais uma vez e corre passadas decididas em direção ao monstro, segura em suas mãos à parte do arrasto que se corta a terra para plantio, uma imensa foice. O animal larga ao chão um corpo já falecido. O bebebebê esta abaixo das mandíbulas do monstro e a tudo presencia. O ser de carne e pedra roda seu corpo e se vira para encarar o que antes era apenas comida. PoremPorém rapidamente desce sua cabeça que se assemelha a de um lobo imenso e agarra com sua forte mandíbula a perna do negro, músculos fortes prendem e cortam a carne de Thorku, mas isso não faz o guerreiro vacilar. Impius que a tudo assistia como simples espectador, solta Nathander, que parte velozmente em direção a luta. E mordendo forte, o cão pendura-se no ventre do monstro, sem medo, sem titubear. Sentindo a gravidade, Thorku fica agora de ponta cabeça em relação ao chão, esta a ser levantado no ar pelo mal cheiroso ser, este se prepara para sacudir o humano e desta forma tentar cortar-lhe a perna. Os animais vivem por instintos selvagens, somente cabe ao homem viver por algo mais admirável, por atos e ações louváveis. Mas somente poucos que são testados conseguem sair vitoriosos, com só a calma dos grandes lutadores em situações adversas. Thorku-unamê segura com ambas as mãos e gira seu tronco mesmo piorando a dor em sua perna, e acerta com a grossa foice o rosto do animal, esta que era usada para capinar a terra agora era usada para ceifar vida. De

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dentro da barriga do bicho oriundo de algum lugar diabólico, um som seco como o de um ronco de fome e um cheiro forte de carne podre. Com o golpe maciço da arma e Nathander a pendurar e balançar o monstro cedeu. Renunciou. Renuncia ao que eram suas presas, soltousolta Thorku deixando-o caído no chão, e deudá dois passos largos para trás, . Nathander ainda o mordia e agora com as patas no chão, puxava o ventre da criatura, e este que se abriu fazendo-a tombar ao chão em espasmos de surpresa e morte. O gigantesco negro correu em direção ao bebefilho e a mulher de Gajão os tomou em seus braços e os tirou dali. Mancando, poremtodavia muito longe de parar, Thorku levou ambos à segurança da casa. Deixando Nathander a morder incessantemente o corpo já desfalecido do monstro-animal. Naquele dia ficou claro para todos que este homemThorku não era como eles, ele era especial e mesmo preso e perdido seria para sempre Ngola-Mbole o grande chefe de guerra das tribos do Sul. Gajão recobra os sentidos e já de pronto fica de pé com um pulo agarrandose na sacada. Nada vê a principio, mas logo abaixo perto da porta da entrada da casa grande, estão Thorku, Natalie caída, Amandia ao lado dela, Impius e Nathander e mais uns seis empregados. Ao longe cerca de quinze escravos rodeiam a fera que jaz morta sob o sol invernal. Voltando a si, o senhor de terras procura em desespero seu filho, este se encontra abaixo da varanda perto da porta, envolto em cobertores e chorando baixo. Entrando na casa e descendo velozmente as escadas Gajão desce para perto de seu filho. Agarra-o nos braços e louva por não te-lo perdido para sempre. - Obrigado Rainaar... -Murmura baixo. E já se volta para Natalie, agachando-se ao lado desta lhe fala baixo. - Meu amor nosso filho esta vivo, acorde e celebre comigo, Amdosias tentou nos tirar a nossa felicidade que nos uniu novamente como casal, mas não conseguiu. Mas Natalie não o responde, Amandia olha para seu mestre, seus olhos abertos, prestes a derramar lagrimas.lágrimas. Mas não é ela que fala. - A patroa esta morta, mestre.- exprime friamente o sádico Impius. Gajão o olha com reprovação enfurecida e com Dedanogor nos braços, examina sua esposa. Seus olhos estão meio abertos, e a força da cor dos seus lindos olhos azuis não se faz mais presente. - Seu braço fora quase arrancado pelo monstro senhor, ela perdeu muito sangue...- notifica detalhadamente o empregado antes de ser interrompido. - Cale-se! – Levanta Gajão com seu filho ao colo que com o berro do pai começa a chorar mais alto. Nathander encara o menino e rosna. Mas é Thorku que mesmo não entendendo aquela língua dos brancos, age. Com suas mãos grandes e cheias de sangue do monstro fecha os olhos abertos de Natalie e olha para Gajão com um olhar compadecido. - Retire esse negro da minha frente! – berra Gajão para Impius, que de imediato o açoita com o chicote. Nada faz Thorku, o chicote não o fere e ele não se move olhando fixamente para o dono da fazenda. De compaixão seu olhar muda para indignação, mas os únicos a compreender são Gajão e Nathander que rosna agressivamente para o guerreiro. Dedanogor chora mais alto. Impius domina Nathander na coleira e o instiga para cima de Thorku. O mesmo sai de costas olhando para o cão, com receio. Impius vangloria.

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- Vamos escravo! O que queria, parabéns do mestre? Você foi comprado para isso e só esta fazendo o seu trabalho. Se não fosse você aqui hoje, eu teria dado conta da besta fera. Vamos! Volte para a senzala! Gajão em silencio volta para dentro da casa, Dedanogor chora. O olhar do escravo guerreiro não sai de sua cabeça. A morte de sua esposa. Mais uma vez o destino o pegava. Não conseguia fugir, por melhor que fosse ele estava fadado a ser infeliz. Por esse motivo promete a si mesmo. - Agora eu compreendo. Nunca será dada a mim a felicidade completa. Sempre iram tentar tirar algo de mim. – ao falar para si Gajão retorna a varanda onde todos o observam.- A partir de hoje, também serei assim. Foste tu que quiseste assim - e olha para o céu azul e limpo de nuvens, enquanto aumenta o tom de voz.- Tu Rainaar que me dá e logo tira de mim! Pois chega! Nada mais será tirado de mim, nada! Farei de meu filho meu guardião e de minhas posses meu castelo!- Levanta Dedanogor para cima de sua cabeça como se fosse atirá-lo da varada, os empregados olham assustados.- Teu intento foi meu filho, mas não conseguistes! E nunca conseguirá, isso eu te prometo! Não tiraras meu filho de mim! Nunca! – berra para os céus, enfurecido Gajão Durgovitch. Ao longe voa um pequeno pássaro, e este passa por cima das telhas do telhado vermelho de telhas da grande casa da fazenda dos Durgovitchs.

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Capítulo 4 - Treinamento
Os dias se passaram, e estes viraram meses, destes findam seis anos. A fazenda cresce, Gajão tornara-se um perverso mestre de terras e aproveitava toda a situação para dela tirar proveito e lucro, sua moral havia se perdido desde a morte de sua esposa. Em um inverno rigoroso, Rastare perdeu sua plantação e teve que vender sua fazenda para Gajão para poder sustentar sua família que crescera. A família do Durgovitch era apenas seu filho e seus cães. Seu filho recebia estudo com professores particulares. Gajão estava quase que paranóico com segurança e raramente ia a cidade. A única coisa que era diferente era o convívio de Thorku e Dedanogor. Com seus seis anos seu pai já havia o colocado aos cuidados de Thorku, e oferecido a ele liberdade se tornasse o seu filho tão exímio guerreiro quanto ele. Não obstante, seus gostos incluíam a luta de cães. Os seus já estavam ficando velhos e Nathander não podia lutar, mas ao menos havia lhe dado um filhote Nathander II tão forte e feroz como ele. A contagem de seus ganhos e perdas também, agora apostava juntamente com outros fazendeiros ricos e entediados em lutas entre homens, uma espécie de pugilato. Por varias vezes testou Thorku nestas contendas, e por várias vezes surpreendeu-se ao vê-lo, rachar crânios com suas mãos de pedra. Havia uma disputa silenciosa entre eles. Seu escravo já era conhecido nas redondezas como Thorkyn, o esmaga ossos e suas lutas enchiam os cofres de Gajão de moedas de prata. Com o tempo, o agora Thorkyn, demonstrava não ser só uma máquina de luta, dentro daquela montanha de músculos existia um homem inteligente. Começou a aprender a língua dos homens brancos, aprendia com os escravos mais velhos da fazenda, estes o tratavam com muito respeito como se soubessem de algo que era estória apenas entre eles. Era comum na senzala os escravos adornarem o local onde Thorkyn ficava com flores e comida que eles mesmos traziam escondidos da cozinha. Virou até habito as cozinheiras habilidosas prepararem quase que pequenos banquetes para o importante escravo. Isso sempre aconteceu, mesmo antes dele ter matado a besta fera e ter ficado conhecido entre as fazendas. Só uma coisa não mudara com o passar dos anos, estranhamente para alguns, Thorkyn nunca havia tentado fugir, e seu medo pelos cães permanecia, mesmo convivendo com estes por tanto tempo. No começo Gajão entregou seu filho para Thorkyn e ambos se olharam, Gajão sentia certo desrespeito vindo do gigantesco homem, mas por vezes passada tentara doutriná-lo com o chicote nas mãos do feliz Impius e nada conseguira. Preferia então ignorá-lo, nem mais era guardado por seus empregados. Deixava-o solto na fazenda, algo não o permitia fugir, algo que Gajão nunca poderia imaginar. Mas estavam frente a frente após tempos. - Aqui esta meu filho Thorkyn, nosso trato esta selado, terá a liberdade se colocar meu filho em posição de ser um excelente guerreiro. - Tem certeza do que pedir pra mim? – falava já na língua dos brancos o homem vindo das selvas da distante sul.

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- Tenho. Tenho toda a certeza deste mundo ao meu lado. E confio a você a saúde deste menino que é meu e possui o nome de meu pai. - O menino será. O menino será. – restringiu-se a falar. Falava pouco, mas media cada palavra, assim como calculava cada golpe, nas lutas patrocinadas pelos fazendeiros. Gajão estendeu a mão e Thorkyn a apertou com força. No começo, o garoto era ensinado a se movimentar, desde movimentos rudimentares até complexos. Com o tempo o corpo de Dedanogor cresceu e Thorkyn o ensinava a como lidar com isso. Exercícios eram impostos de forma que o menino aprendia a gostar de fazê-los. Juntos Thorkyn e Dedanogor corriam nas estradas entre as fazendas, trilhavam no mato, escalavam árvores, nadavam no lago Noem. Tudo era um imenso parque para o garoto, que já tentava matar algumas aulas para mergulhar na água refrescante do lago em dias de verão. Thorkyn o repreendia. - O verdadeiro homem corre, pula, luta, vive e sabe o porquê de tudo. Só assim ele é pleno, só assim ele é. – dizia de sua sabedoria aprendida pelos shamans que o educaram na sua tribo em Sembalo. Até mesmo Gajão admirava o esforço do seu escravo, era como se Thorkyn já tivesse feito isso em um passado distante, era como se Dedanogor fosse o filho deste homem misterioso, reservado. O ciúme não tardou a aparecer e de vez em quando, sem mais ou menos, por puro capricho, Dedanogor ficava dias sem ver o seu tutor, este preso a correntes dentro da senzala. Neste período o guerreiro do sul ficava quieto, calado, aproveitava seu tempo para meditar, pensar em sua vida e na distante Sembalo lar de seus entes queridos e destruídos pelos traiçoeiros homens brancos que para ele, adoram se passar por Deuses. ξ O tempo passou em Derghemom, os anos vindouros seriam cobertos de novidades vindas da grande mãe, a cidade capital do grande território civilizado em Minlurd. A democracia crescia vertiginosamente diferente dos reinos que faziam fronteiras. Derghemom manteve-se como país forte, exportava mais do que importava. A distante Sembalo era colonizada por Maior, que também abria seus olhos para a vizinha Celeus, antiga colônia, agora independente. Os anões cresciam como potência nas mãos do xenofóbico rei Bill StrongWill. Os elfos de Sairim choravam a perda de seu território na época do cataclismo que assolou Minlurd por cinqüenta anos. O mundo se recupera das chagas do grande cataclismo, ocorrido à cerca de cento e trinta e oito anos atrás. Uma outra estória de seis reis, que uniram um continente inteiro, em uma nação, com uma única moeda, com uma finalidade escusa de reinar Minlurd pelo medo.

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Com a ajuda de feiticeiros vis e autoridades inescrupulosas tencionaram, após a descoberta de pergaminhos antiguíssimos, invocarem demônios36. Estes demônios seriam controlados pelos seis reis, mas o que não sabiam é que estes seres infernais têm o poder de conjurar mais seres como eles após estarem no mundo. O cataclismo começou no ano de 997 AC e somente após a intervenção divina e a força de vários heróis incógnitos Minlurd viu-se livre desse legado. Alguns locais foram muito afetados outros nem tanto. Derghemom havia perdido muitas vidas antes da salvação, portanto cada ano de crescimento era comemorado no dia feriado chamado de Gloria aos Heróis, onde cada habitante deveria ir até um desconhecido e agradecê-lo em sinal de respeito pela ajuda dos antigos. Mas isso é outra estória. Nos seis anos que se passaram, Hule como país cresceu e expandiu-se para o oeste, englobando grandes extensões de terra e os temíveis pântanos de Karkor, lar da raça mais guerreira após os brutals, os gigantescos homens lagartos37. Seu imperador era um resquício do cataclismo, chamava-se Zargonias38 o maldito e tinha mão de ferro, e influencia quase divina sobre seu império. Ao norte gelado os elfos de Morgranim já faziam planos para tomar sua antiga floresta e a grande árvore da vida chegava. Vinda ela mesma viva, andando por Minlurd numa caminhada de mais de 138 anos até o seu refugio ao lado dos elfos e da sua estrela mágica, caída dos céus há mil anos atrás, e que dava ao rei mago élfico poder amplificado de dezenas de feiticeiros juntos. - Mas são tantos lugares para se viajar. - dizia o jovem Dedanogor ao seu professor vindo da própria cidade para ensiná-lo. - Isso não é nem o começo meu jovem, Minlurd é maior do que pode imaginar, ainda há lugares que nem o mais ousado desbravador ousou mapear. - Como? – o rosto do jovem enchia-se com uma estranha luz comum na face dos alunos vívidos por conhecimento. - Poderia começar falando das gigantescas montanhas de Manaath39, a primeira e a maior montanha do mundo, Aquela que toca o sol, na língua anã. Lar das Tracias40.
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(Demônio) - Cada um dos anjos caídos ou gênios maléficos do Infernum. Procura a perdição dos seres e criaturas de Minlurd. Sujeitos a Amdosias. Alimentam-se de energia vital dos seres de Minlurd. Ódio, rancor, perversão, corrupção são uma das ferramentas utilizadas por estes seres de poder superior. 37 (Homens-Lagarto) – Humanóides de pele encouraçada. Medem cerca de dois metros e vinte a dois metros e cinqüenta. Corpos reptilianos com cabeça de crocodilo e caudas enormes. Pesados e fortes. Rivalizam apenas com os brutais em constituição. 38 (Zargonias) – Um resquício do cataclismo. De aparência humanóide, com seus dois metros de altura, e corpo magérrimo, sua cabeça é um crânio humano que exala forte fumaça cinza. Dizem ser das cinzas daqueles que já morreram. Dedos longos de imensas unhas compridas. Inteligentíssimo, um feiticeiro do além vida, um filho de Amdosias. 39 (Manaath) - Um vulcão extinto com 25 km de altura, 600 quilómetros de diâmetro na base e uma caldeira de 60 quilómetros de largura. Tem um declive suave. Aquela que toca o céu. A primeira maravilha do mundo, o primeiro lugar a ser tocado por Rainaar, quando este pousou em Minlurd. 40 (Tracias) - Águias gigantescas que serviam de armas militares para os anões. Um carroção era preso na barriga da ave. Cordas de cabelo de gigante presos as suas quilhas controlavam seus vôos por intermédio de um piloto anão. Em meio ao combate infantaria anã era despejada em cima de seus combatentes vinda por ar.

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Ela encontra-se no continente de Merá, na sua parte oriental. -continua exaltado o professor, feliz em conhecer rapaz, que apesar da aparência um tanto primitiva, com suas cicatrizes de garoto do mato e rosto rude, parecia possuir uma mente intacta como a dos grandes estudiosos. - Ou posso ainda lhe falar sobre o deserto de Ghundarak, vasto em extensão, infestado por uma fauna e flora carnívora e quem lá adentra de lá não volta mais. Dedanogor espanta-se com a afirmação vinda de um erudito, mas seu espírito desafiador já começava a florescer nesta época. - Que mentira. - diz seguro, o professor espanta-se.- Isso é mentira, na verdade alguém não quer que estranhos entrem neste deserto e então lançam este tipo de rumores. Apesar de intrigado com a atitude do aluno, talvez o mais maduro que já teve, o professor não pode perder a sua credibilidade e termina a aula relatando ao pai do menino, que por sua vez o coloca de castigo por indisciplina. O tempo passava rápido e como numa dança de uma canção lenta e romântica, o mundo de Minlurd crescia cavaleiros ganhavam fama e outros a perdiam. Aventureiros descobriam glorias e outros sumiam na escuridão. Reis caiam e outros ascendiam aos tronos disputados. Enquanto isso Dedanogor aprendia do professor, aprendia de Thorkyn, aprendia de Gajão, seu pai. Juntos na varanda de sua grande casa passavam tardes inteiras a conversar sobre as atitudes dos seres de Minlurd. - Compreenda filho, da mesma forma que meu pai fez por mim é meu dever, lhe fazer o melhor. Vivemos em um mundo cão, você tem de buscar o que desejas, pois ninguém o fará por você. Outros tentaram tirar de ti. Estranhos quererão enganá-lo, muitos tentaram lhe tratar como bobo. - Severo em seus conceitos, Gajão ensinava ao filho o que a vida havia lhe dado. E com o olhar do jovem a cerrar continuava sua explanação, transformando desta forma Dedanogor Durgovitch para sempre. – Seja sempre astuto, conte seus ganhos e amaldiçoe as suas perdas, guarde dinheiro, pois é ele que lhe trará conforto e segurança. É ele que comprara objetos e pessoas, com ele terá influência neste mundo onde idéias são compradas com dinheiro e o caráter muda conforme o brilho da moeda.- Gajão acreditava piamente em suas idéias, tinha muito em bens, mesmo achando que os Deuses conspiravam para sua pobreza. Sentia-se verdadeiramente um vencedor desta vida, e agora ao lado do filho forte e de espírito valente, rejuvenescia e se via nos olhos vivos e azuis como a de sua falecia esposa Natalie. A loucura da vida. Para muitos Gajão estava certo, para outros, completamente equivocado. De todos os tutores, Thorkyn era o qual Dedanogor mais amava. Seu mestre o permitia aventurar-se na mata, e o enchia de elogios quando estes eram cabíveis. Na verdade ele era o único a elogiar seu pupilo e a incentivá-lo diretamente, era como se Thorkyn o bárbaro do sul já tivesse lido os Analectos de Sophronistés41·. Portanto obtinha de volta maior dedicação que a dada ao estudo.

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(Sophronistés) - Famoso pedagogo do continente de Merá.

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Por volta dos doze anos de idade Dedanogor, começou a experimentar o sonho de seu pai para com ele. Começava então sua caminhada para se tornar um dos melhores guerreiros de sua era. ξ Era um dia de sol, na época do ano onde os mosquitos são abundantes e chuvas repentinas pegam os viajantes desprevenidos. Thorkyn leva seu aluno até a margem do lago Noem, onde antes já passaram tempos bons somente a nadar e a se divertir. - Hoje começa o seu verdadeiro treinamento garoto. Tudo o que fizemos até agora foi uma preparação para os anos a seguir, esta é a vontade de seu pai e por ela serei liberto e poderei voltar para casa. Se é que esta, hoje, só exista em meus sonhos. -Thorkyn estava diferente, falava com uma voz rouca e baixa, sua voz quando estava triste ou com saudades de casa. Também não estava brincando como Dedanogor pode perceber. - O que faremos hoje? Diga-me. Diga-me. - acreditava que iriam nadar e competir como já fizeram antes, a resposta assustou o menino. - Você irá me atacar. Como se a sua vida dependesse de me derrubar no chão. Você tem que me derrubar no chão da forma que achar melhor. - Era algo risível de se imaginar, um gigante de quase dois metros de altura, contra uma criança de seus doze para treze anos. Mas o gigante tinha um por quê. - Mas... Como assim?- Dedanogor sentiu no tom de voz de seu mestre que este estava a falar muito sério. - Agora! - Berrou Thorkyn resoluto. Todavia o menino continuou prostrado de pé, quase paralisado. Com uma das mãos Thorkyn deu-lhe um tapa que acertou o garoto na cabeça, com tanta força que o fez cair no chão. A dor era tamanha, sentiu que se tomasse mais um desses poderia morrer, o medo invadiu o seu corpo, mas sua expressão era de raiva. Com isso Thorkyn sorriu. - Levanta! - berrou. O garoto assim o fez, apesar de naquele momento não desejava mais obedecer ao seu mestre. Levantou-se, mas olhava para o chão, ainda tonto, e confuso não compreendia a agressão. - Olhe-me nos olhos! - gritou ainda mais o guerreiro negro. - Sempre olhe nos olhos daqueles que te agridem ou daqueles que te fazem bem. Pois estes estão juntos com você, seja no ódio ou no amor. Olhe para mim! Mesmo devagar o menino o fez, seu olhar era de ira e ao mesmo tempo medo. - É isso... Use esta raiva, ela é conhecida como a raiva dos guerreiros. Mas deve aprender a usá-la, se me atacar com esta raiva ela o consumira como um todo e não agüentará nem dois golpes, porém se transformá-la em força de vontade, então conseguira me derrubar. Derrube-me! Dedanogor pulou para cima das pernas do gigante, e pendurou-se nelas como se estivesse subindo em uma árvore. Thorkyn apenas retirou o garoto enraivecido de perto de si levantando-o do chão e o arremessando para longe. Dedanogor caiu de costas ao chão, parte dele dentro e a outra parte fora do lago, sentindo suas costas baterem no chão duro da margem do lago, olhou com a cabeça molhada para seu mestre de armas que balançou a cabeça em sinal de negativa.

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- Esta me desapontando. Faz mal uso da sua raiva. Atacou-me sem pensar. O homem que não pensa, não é completo, lembra-se? Era difícil ligar aquela lição, dada há tanto tempo atrás em uma tarde fresca, sentados os dois perto da casa da senzala e comendo o bolo de maça de Amandia, a tarde deste dia estranho, uma tarde de dores e medo. Dedanogor não conseguiria derrubá-lo sozinho, olhou para os lados e viu um pedaço grande de madeira de um galho de árvore que estava a boiar perto da margem. Entrou na água e nadou rápido até ele. - O que?! Está a fugir de mim?! É este o guerreiro que imaginei que fosse?! Um covarde?! - berrava Thorkyn de pé e enervado com a atitude. Sem nada falar o Durgovitch, voltou à margem com o cajado improvisado na mão. Thorkyn espantou-se. Com um grito lançou-se sobre o gigante e enfiou-lhe o cajado entre as pernas, depois correu segurando o cajado como se fosse uma alavanca em torno do guerreiro negro. O mestre de armas espantado com o ataque inesperado demorou-se a reagir. E foi assim que caiu ao chão Thorku-unamê. - Garoto, você me deixou feliz hoje. - Disse a gargalhadas, deitado no chão arenoso, o rude homem das tribos do sul. Dedanogor nada falou, seus dias de brincadeira haviam terminado. No dia seguinte as coisas pioraram ainda mais. Thorkyn levou o garoto até um cercado afastado da fazenda. Lá havia um cercado menor para separar os cavalos de seus filhotes, onde antes ficavam os potros. Em uma carroça veio um pequeno engradado, lacrado e dele ouvia-se pequenos pés a roçarem na madeira. Dedanogor observou a tudo aquilo assustado, estava só agora com o seu mestre depois dos serviçais da fazenda terem depositado o engradado no chão do lado de dentro do cercado. Sério Thorkyn disse: - Entre no cercado e mate qualquer coisa que estiver ali dentro. - as palavras saíram tão frias como o seu sentimento naquele momento. Mais uma vez o garoto não teve reação alguma. E isto enervou seu professor. Entrando na pequena arena, deu-lhe um tapa, porém surgiu um efeito ainda maior. Além de jogar Dedanogor ao chão a pancada foi tão pesada que o fez desmaiar. Mas este não acordou em sua cama macia, e coberto de cuidados. Acordou ali mesmo no chão duro do pasto onde estavam desta vez. Tonto, zonzo, confuso. Mal recobrava os sentidos e começava a ouvir a voz de Thorkyn novamente: - Se para todas as vezes que precisar agir tiver que primeiro receber uma agressão, então é melhor desistir e dizer ao seu pai a sua preferência em ser um erudito. Mate a criatura. - Mas mestre, eu nem sei o que esta lá dentro. Como poderei fazer isso? disse tentado convencer Thorkyn de seu insano intento. - Mestre, se eu o atacar, eu posso morrer. - agora pensava em sua própria segurança. - O guerreiro está fadado à morte no momento que desembainha a sua espada, ou toma uma decisão. Se não o matar ele o fará. - enquanto falavam de dentro da caixa o barulho parecia aumentar. - Mas se eu morrer e meu pai? O que acontecerá? - Engraçado, foi seu pai em pessoa que comprou esta criatura na cidade, ao meu pedido. - com essas palavras Dedanogor espantou-se. Ainda não tinha idade para compreender todas as facetas dos adultos, mas já começava a 32

entender que toda estória tem duas versões. Falando isso Thorkyn aproximouse da caixa e a abriu de supetão pulando para fora do cercado. Dedanogor paralisou, a pancada ainda doida e de sua cabeça vinha um zumbido agudo. Olhava fixamente para o caixote. Dele, vagarosamente saiu uma criatura mal cheirosa e comprida, uma lacraia gigante e avermelhada, de seus um metro e meio de comprimento com suas patas negras a movimentarse rapidamente em direção ao que seria seu suculento almoço. Suas antenas de um metro tateavam o chão, procurando o jovem, e já começava a levantar sua cauda traseira em sinal de advertência. O pequeno e inexperiente guerreiro, olhou em volta quase que como por instinto e encontrou algo ao longe que reluzia sobre o sol matinal, daquele dia. Quase como se repetisse a ação do dia anterior correu em direção do que poderia ser uma arma. Seu já forte coração devido aos exercícios impostos por seu mestre batia vigoroso em seu peito. O medo, agora o da morte o tomava, querendo paralisar seus membros e teve dificuldade para correr. O animal peçonhento continuava a avançar, cego usava suas antenas para procurar seu alimento, e suas mandíbulas mexiam-se com força já buscando carne, para cortar. Thorkyn observava a tudo sem se mexer, de longe também o fazia seu pai. Gajão estava só aguardando as noticias, pois sabia que este seria um teste crucial para determinar se seu filho seria ou não seria aquele que ele queria. No chão Dedanogor achou uma faca, era pequena, de cortar pão. Procurou por seu mestre, este estava sentado na cerca apenas olhando. Agora o filho de Gajão olhou de frente para o inseto gigante, a criatura não conversaria com ele, era matar ou morrer. Suas pernas teimavam em não se mexer com destreza. Dedanogor pensou - Não posso ser agredido novamente para depois reagir, tenho que fazer algo antes! - Mas o que? O monstro, vindo dos esgotos de Derghemom ainda fedia a fezes e começou a mexer-se mais rapidamente por entre o cercado. Quando então Thorkyn não acreditou no que viu. Com um berro, parecido com o dado no dia anterior, o jovem correu em direção a criatura, esta se virou e rapidamente começou a levantar sua cauda, mas antes disso o rapaz com uma corrida rápida, deu um salto e caiu sentado em cima da pele do animal peçonhento. Antes que pudesse escorregar dali, desferiu por diversas vezes e em pontos diferentes punhaladas com a faca que mesmo pequena cortava a pele do monstro e dele fazia sair um liquido branco e pastoso. A lacraia se remexeu e conseguiu libertar-se do menino, que a tentava a matar. Com suas mandíbulas lançou-se sobre ele e mordeu-lhe o ombro esquerdo, apenas para encontrar novamente dor nas punhaladas desferidas agora perto de sua cabeça. Dedanogor agora ferido acertava todos os golpes com muita força, penetrando fundo na carne fétida do monstro, e repentinamente o inseto gigante recuou, correndo com todas as suas patas tentou fugir rasteiro por entre a cerca. Mas foi fincado ao chão pela lança improvisada de Thorkyn e lá morreu. Dedanogor olhou para seu ombro e teve vontade de chorar, porém os olhos satisfeitos de seu mestre o fizeram mudar de medo e espanto para satisfação da vitória.

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- Parabéns meu aluno, com seu controle da situação venceu a sua luta e esta agora vivo. Lembre-se, sempre há uma forma de vencer, improvise, pense, e acima de tudo se esforce. Dizendo isso arrancou da morta criatura a lança e a tomou na mão. Mas ao longe ouviu um berro. - Pode largar a lança ao chão, negro! - era Impius que trazia Nathander na coleira. Estranhamente Thorkyn a largou e andou para trás. Todos voltaram para a grande casa da fazenda onde Gajão recebeu seu filho feliz, e Thorkyn voltou para a senzala, sobre os olhares de admiração de Dedanogor, afinal, seu mestre tinha uma lança e teria o salvado caso as coisas dessem erradas. Pelo menos, era o que ele imaginava... ξ Os dias se passaram em Derghemom, o verão saiu de cena dando lugar no palco ao outono. As árvores deixavam suas folhas caírem enchendo o chão em um tapete cor de cobre com faixas marrons. A fazenda ainda viva preparava-se para mais uma colheita. As terras de Derghemom eram conhecidas por sua fertilidade, a mesma fertilidade encontrada na mente deste garoto pupilo de Thorkyn, e de sangue um Durgovitch. O professor agora ensinava política. Estavam ambos sentados na sala de estar da fazenda, com estantes de madeira escura cheias de livros envolvendo a sala de poltronas grandes e confortáveis. - Neste mundo ao qual vivemos, várias pessoas tem idéias diferentes de como viver suas vidas. - continua o professor, em uma ou outra respiração, a frente deles pousado no chão da sala, um enorme mapa, desenhado por cartógrafos humanos e datado de 105DC. – Portanto temos os seguintes regimes conhecidos: Aqui em Derghemom temos uma república parlamentarista, nós somos os únicos no mundo de Minlurd a exercer este regime de governo. Em Falia existe a magocracia, um conselho de magos que exerce o poder do estado. Em Hule existe a teocracia, Zargonias é tido como um mensageiro dos deuses e reina supremo sobre o território. Em Param Azi o totalitarismo é o regime governante. Por sua vez em Celeus a monarquia predomina. Após sua independência do império de Maior em 90DC o território é regido por um rei... - Fala-me sobre Celeus.- diz ao respirar fundo o aluno entediado, apesar de preferir mais de mil vezes estar do lado de fora aprendendo a viver com Thorkyn, ele sabe que o homem completo é aquele tem o saber em si, portanto esforça-se a cada aula para aprender. - Celeus é regida pelo rei Marco Celeus, fica a sudeste de Derghemom próximo ao oceano Anárquico e faz fronteira com Maior. - E este rei, ele é bom para sua gente? Existem escravos em Celeus? - É um reino muito bonito, sua gente é livre. - diz o professor com meias palavras para não se comprometer. - Por que o reino Maior não o toma de volta, se esta tão perto? - Não há interesse por enquanto, o império Maior está agora preocupado nas suas excursões a Sembalo. - E o lucro com os escravos é claro. - o professor espanta-se com seu aluno precoce. A vida na fazenda muito ensinava ao garoto, que estranhamente não

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tinha o mesmo gosto de possuir escravos como seu pai. Para não continuar em terreno perigoso, o erudito muda seu assunto. Com seu pai era diferente, estranhamente diferente. Mais frio, mais seco, só falava em dinheiro, em posses, e um dia o surpreendeu. - Filho hoje você completa seus treze anos, lhe darei um presente e uma responsabilidade. -Disse Gajão. Encontrava-se perto da senzala, ao seu lado Impius, que desta vez não estava com Nathander II, afinal Thorkyn estava preso a correntes. - Qual é? - Dedanogor mudava a cada ano que se passava. Thorkyn já havia começado o treinamento com armas e os treinos eram bem mais rigorosos, isto refletia na personalidade do garoto. - Você agora é dono de trinta escravos da senzala, escolha-os e use deles da forma que preferir, é dado o momento de aprender como domar homens. cada palavra era pronunciada com um sorriso de Gajão. O silencio a princípio, depois o rosto do garoto muda de branco para vermelho, de vergonha pela frase que sai de sua boca, quase que sem pensar. - Ninguém é melhor que outrem. - O que disse? - pergunta Gajão completamente nervoso. - O senhor me ouviu. Ninguém é melhor que outrem, - Rapaz! Essas palavras são suas? Ou foram colocadas por... - o ciúme já há tanto o consumia, observar seu filho obedecer um escravo já era demais para pedir a Gajão, seria então impossível ver seu filho admirar o mesmo. - É o que eu acredito. - falou sem pestanejar o garoto, que mais se parecia um homem. - Mestre, como ousa o garoto responder-te. Permita-me ensinar-lhe uma lição. - Falou Impius que a tudo presenciava ao lado daquele que admirava, queria ter sido ele o filho daquele fazendeiro. - Pode vir magrelo! – berrou o jovem com força nos pulmões. Isso a todos desconcertou. Impius já por instinto quis sacar sua espada, mas percebeu que erro seria ferir o filho de seu patrão e conteve-se. Por sua vez Gajão havia parado de falar, e balbuciando. - Filho, como pode me decepcionar, assim? - Desculpe meu senhor, não quero fazê-lo, apenas não desejo este presente, não me agrada. - Mas... - Ninguém é melhor que outrem. - E dito isso deu as costas ao pai, indo para dentro da casa. Gajão ficou ali, inerte, nem ouvia as palavras de Impius que tentava encorajá-lo. A vida novamente tentava o pegar, ele podia pressentir isso, contudo não permitiria desta vez, nem que tivesse de pela primeira vez, matar para isso. ξ Os anos continuaram a vir sem trégua. O tempo passa rápido para aqueles que têm o que fazer, e naquela fazenda, trabalho era o que mais existia, ainda mais depois dela ter sido aumentada com a compra da fazenda de seu antigo rival Rastare. Os quatro anos que se passaram preparavam

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Dedanogor ainda mais. Mais uma vez com Thorkyn, seus treinamentos eram bem diferentes daqueles há cinco anos, quando começaram. Juntos mais uma vez, perto do lago Noem, era seu terreno de treino preferido. - Da mesma forma a qual um chefe pensa em todas as etapas, para comandar da melhor forma seus homens, assim também pensa o guerreiro. Thorkyn era inteligente, mesmo com menos da metade do conhecimento do jovem Dedanogor, conseguia se expressar de forma que apenas a sabedoria dos shamans poderia conceder. - Portanto ele deve escolher, se possível, intimidar seus inimigos, antes de combatê-los, desta forma minando sua força de vontade. Em minha terra eu usava duas enormes machetes, as encontrei em uma construção mais antiga que o mais velho shaman de minha tribo. Elas eram tão grandes que só as podia usar em lutas em terrenos amplos, quando na maioria das vezes usava minhas garras de macaco vermelho. O macaco vermelho42 era um enorme gorila carnívoro de pele avermelhada, não era muito comum em Sembalo, nem tão raro como o leão negro43, animal descomunal que vivia em selvas, estas criaturas eram da fauna de Sembalo e extremamente perigosas. - Eu entendo. - As palavras do experiente guerreiro eram absorvidas com voracidade pelo seu aprendiz. - Portanto te treinei em algo que se assemelha, a uma arma que impõe tanto o respeito como é ótima para usá-la em combate, a espada montante. E também no machado, ideal para usá-lo em qualquer situação, tanto para abrir portas, como para rachar crânios. Dedanogor segurava a espada de quase dois metros. O garoto, agora com dezessete anos, tinha um físico descomunal, de tanto treinamento e farta comida. Havia atingido a altura de um metro e noventa centímetros e pesava aproximadamente, seus cento e dez quilos. Parecia mais com Thorkyn, com músculos de aço, porem tinha a estrutura de seu pai, tórax largo e pernas grossas e pesadas. - Hoje vira comigo e lutará de verdade, mas este não será seu teste final, ainda tem que provar algo. -Qual será meu teste final? - Perguntava ávido por lutas o adolescente. - Tudo terá seu tempo, meu filho, tudo.- Era a primeira vez que chamava de filho seu aprendiz. E isto espantou tanto a ele como ao garoto, que encheu seus olhos de lágrimas. Da mesma forma que Thorkyn sentia nele o filho deixado em Sembalo, Dedanogor via neste homem tão exótico, o amor e dedicação a ele prestada. A noite tardou a chegar, enquanto isso Dedanogor, havia feito tudo o que seu mestre havia lhe pedido. Já se despedia de seu pai para dormir, e agora após ter pulado a janela de seu quarto, estava escondido, abaixo da carroça, com o estranho saco cortado em torno de sua cabeça, com apenas
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(Macaco Vermelho) – Envergadura de um gorila. Este macaco possuía garras afiadas nas mãos e pele avermelhada, tendendo para o ruivo. Forte e ágil como os símios, era temido em Sembálo e apreciado como criatura a ser vendida para comerciantes exóticos ou donos de casas de jogos de arena. 43 (Leão Negro) – Grande felino. Assemelha-se a um leão, sua coloração é negra e sua juba ébano. Um animal gigantesco mede cerca de cinco metros de largura e pesa até meia tonelada. Seu rugido é assustador e ferocidade conhecida. É conhecido como Amba em Sembálo.

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um corte para que pudesse enxergar, sua espada ao seu lado, quase arrastando no chão. Sabia pelo menos que não era uma noite comum, era à noite em que seu pai saia tarde, junto com alguns empregados. Impius e Nathander II o seguiam, levavam Thorkyn para uma outra fazenda, onde lá eles bebiam, e gastavam suas moedas de prata em apostas com seus lutadores em lutas de sangue. E desta vez ele iria finalmente ver porque seu mestre era chamado Thorkyn esmaga crânios. Primeiro ouviu sons, os empregados riam alto, era raro um dia de folga como esse. Iriam trabalhar juntando as moedas dos ricos fazendeiros e anotando as apostas, mas pelo menos sairiam da rotina da fazenda. Logo viu passar de perto a carruagem de seu pai, os cavalos trotavam rápidos e levantavam a terra seca daqueles dias, o capuz protegeu Dedanogor de não tossir e se entregar. Então ouviu a voz de Impius: - Vamos negro sujo, suba na carroça de uma vez. Hoje lutará para ganhar mais dinheiro para o seu mestre, e com certeza sairá bem ferido, pois o mestre decidiu lhe dar uma lição, a qual nunca se esquecerá. - A voz aguda do empregado e braço direito de Gajão era irritante. Eram palavras valentes e amparadas pelo som do rosnar de Nathander II. O cão era diferente de seu pai, o já morto Nathander, campeão de rinhas da região, este era um pouco mais encorpado e extremamente racista, queria atacar todos os escravos da fazenda, e possuía um ódio especial por Thorkyn. Era para este intento um verdadeiro cão de guarda. Os empregados terminaram de atrelar os cavalos enquanto Thorkyn subia na carroça, e saíram logo após. - A carroça esta pesada, parece que tem dois do negro aqui. - Disse um dos empregados. - Nada disso, é o peso do brutamonte com certeza, é tão bem alimentado que já pesa como um boi praticamente. - Respondeu o outro. E seguiram para fora da fazenda, todos riam alto já fazendo fofocas sobre os fazendeiros e suas apostas malucas. Dos onze que estavam na carroça, apenas cinco seres não riam, Thorkyn, Dedanogor, Nathander II e os dois cavalos que faziam força para puxar o incomensurável peso extra do oculto jovem que vinha abaixo. Uma hora durou o trajeto até a fazenda onde se ouviam barulhos de musica e de alegria. Os portões estavam abertos e serviçais armados guardavam esta entrada. A carroça passou sem problemas, afinal traziam com ela o guerreiro das terras do sul, a atração principal da noite. A sombra nas árvores só era afastada por um ou outro archote de fogo, colocado pelos empregados do anfitrião. Este um homem tão rico como Gajão, um inescrupuloso fazendeiro do ramo bovino, que além de matar bois para o corte, tinha predileção por homens lutando e sangue em abundância. A carroça virou para a direita, deixando um outro caminho exclusivo para os convidados à frente. Toda esta procissão já era conhecida por todos aqueles acima de Dedanogor, mas para o adolescente, cujo coração estava a pular em seu peito, tudo era novidade. O caminho para a direita subia levemente entre as árvores, permitindo aos passageiros e Dedanogor

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observarem abaixo. A luz existia em maior quantidade, entre as árvores via-se um palco de madeira, e uma pequena banda de cinco músicos e mais dois casais de dançarinos. Perto do palco, grandes mesas de madeira onde cabiam vários convivas, cinco mesas ao total, cada uma comportava dez pessoas, e todas estavam cheias. Não era um ambiente para se trazer as esposas, pois mulheres seminuas contratadas de algum bordel de Derghemom andavam em torno das mesas servindo muita cerveja, vinho, comida e luxúria. Duas grandes construções se destacavam, um imenso barracão de madeira que tinha duas portas distintas, uma no seu extremo sul, de onde saiam fumos quentes e cheiro forte de condimentos, a outra no extremo norte da construção, que dava para dentro de uma... arena. Mas a visão terminou com a chegada de árvores maiores e uma guinada para a esquerda, agora desciam desta pequena colina. E chegaram bem atrás do prédio, circulando a cozinha. Lá varias outras carroças rústicas estavam estacionadas e toda a sorte de vozes a rir. Era a festa, mais humilde, dos empregados. A parte do lado direito do prédio dava um tom penumbroso, escondendo os olhares dos empregados, dos fazendeiros festeiros. Para Thorkyn, um misto de medo, admiração, inveja e desconfiança. Dedanogor abaixo da carroça, esta já estacionada, só podia ouvir algumas conversas dos homens e o latido dos cães, estes lutariam primeiro na rinha, próxima a arena. Porém não ouviu o ladrar de Nathander II, este tinha seus olhos vidrados no negro guerreiro. O corpo do jovem doía, e estava cheio de terra, afinal havia passado uma hora abaixo se segurando para não cair no caminho, mas pelo menos ninguém sabia que estava lá, apenas Thorkyn. O som da música continuava, os risos ao longe dos patrões e os comentários dos empregados. Alguns deles já entravam na grande casa tanto para pegar comida, como para preparar os lutadores. Estes sairiam pela porta principal da construção diretamente dentro da arena. Mais uma hora se passou, Dedanogor já estava deitado abaixo da carroça, tentava descansar, mas ficava apreensivo a cada aproximação de um serviçal com um cão. Pois este poderia percebê-lo. Os lutadores já estavam todos dentro do grande armazém, e preparavam-se para lutar. Com o silêncio no pátio de fora, Dedanogor decide sair de baixo da carroça. Levantando-se vagarosamente, ainda com o saco na cabeça, olha por cima das carretas e só consegue ver um ou outro serviçal já um tanto embriagado pela cerveja disponível. Os sons que ouve agora são de brados e vociferações. As lutas já começaram. De cócoras movimenta-se escondido pelos carros de bois e vai circundando a construção por trás. Deste lado da parede de madeira não há luz mas consegue perceber mais a frente uma carroça encostada como se estivesse ali escondida. Perto dela um homem de pé faz a guarda e em cima dela, alguma criatura muito grande. Mais clamor vindo dos gordos fazendeiros é ouvido pelo apreensivo jovem. Então encosta na parede e vai vagarosamente pé sobre pé, caminhando até a carroça, o guarda de costas para ele, tenciona ir para onde acaba o prédio e onde estão ocorrendo às lutas. Mas para chegar até este homem, ele tem que passar pela criatura em cima da carreta. Bem devagar vai se aproximando, agora com os olhos já se acostumando as sombras lançadas pela parede desta

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parte do prédio, pode perceber que a criatura é um brutal de dois metros e vinte de altura, este está sentado no chão da carreta e ao seu lado um imenso martelo de pedra. Dedanogor passa por ele e este se apercebe de sua presença. Apenas vira sua cabeça para sua direção e emite um silencioso porém profundo som de tristeza. Ele é também é um escravo, pensa o jovem guerreiro. Sem temêlo, ou julgá-lo pelo monstro que é, Dedanogor inocentemente fala baixo para ele: - Não te quero mal, apenas deixe-me passar, preciso chegar ao fim desta parede. O humanóide de corpo largo, nada responde. E o ignora virando sua cabeça para o outro lado. A chance que ele esperava. Na ponta dos pés, rápido e resoluto vai à direção do guarda que de costas e encostado na parede, espia as lutas. Sabe Dedanogor que o verdadeiro guerreiro não finge atingir, este mira seu golpe e faz questão de acertar. Não se dá um golpe e não se golpeia ao mesmo tempo, a ação quando começa vai até o fim. A intenção torna-se a realidade para um guerreiro, pelo menos é assim que ocorre para os melhores, ou melhor, para aqueles que realmente tem a força de vontade para fazê-lo. Com estes pensamentos e esta vontade, o adolescente puxa sua espada e com a bainha acerta em cheio a nuca do homem de milícias, fazendo-o cair desacordado, o coração do jovem bate forte e continua a bater ao virar o prédio, e ver o que acontece a frente ao som de clamores dos embriagados fazendeiros. ξ Thorkyn estava esperando por sua luta da noite, sabia duas coisas: hoje seria uma noite diferente, Gajão havia preparado alguma surpresa para ele, e com certeza não seria algo agradável, a outra é que o garoto havia conseguido fugir da casa e estava ali, bravamente agarrado abaixo da carroça. Finalmente o jovem iria presenciar quem era o seu pai, Gajão. Não foi com espanto, que foi levado para dentro da enorme construção e, aguardado junto com outros guerreiros que o olhavam com admiração. Com uns já havia lutado e a estes cumprimentou, outros eram escravos como ele, recém comprados de alguma feira, alguns eram brancos vindos das terras do norte, outros eram negros, mas havia um que era diferente de todos, um enorme humanóide. Brutal era o nome de sua raça, estes seres podem chegar a até dois metros e noventa centímetros de altura e pesar até quatrocentos quilos. São seres descomunais com corpos largos e aparência humana, possuem uma pele parecida com a humana, a não ser por ter pelos longos e revoltos. Sua cabeça é acima do normal e quadrada, orelhas grandes e levemente pontudas e narizes e lábios exagerados que acompanham olhos ferozes. São conhecidos por amarem a batalha e glorificarem a violência. Provindos de Bullbara44, região de guerras constantes entre as raças humanóides, os brutais são considerados os campeões, verdadeiras infantarias de um humanóide só. O ser que estava de pé dentro do prédio não era diferente, tinha dois metros e quarenta centímetros e devia pesar seus duzentos e oitenta quilos,
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(Bullbara) – Continente oriental. Território humanóide. Região de guerras constantes entre os humanóides. Veneram ao deus Thú e lar das criaturas mais sanguinolentas de Minlurd.

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sua pele era cor de cobre e seu cabelo raspado dos lados e alto no meio. Começava em sua testa e terminava em sua nuca. Braços do tamanho de vigas de madeira e pernas mais pesadas que pôneis, trajava uma clava de madeira de dois metros cuja ponta terminava em um T. Todos ali presentes olhavam para ele, e este por sua vez não olhava para ninguém, apenas encarava Thorkyn incessantemente. ξ Lá fora o som de uma luta armada. Os senhores de terra presentes regozijavam de prazer ao ver seus peões darem a vida nas lutas que se seguiam, alguns destes mal sabiam empunhar armas, outros nem escravos eram, estes eram serviçais que tinham débitos com seus patrões. Débito de arrendamento de terras que nunca conseguiriam ser pagos, a única forma era arriscar-se nestas pelejas com armas onde o vencedor ganhava duas vezes, o perdão da dívida e é claro, a sua vida. Um homem retorna da arena para dentro do prédio, está coberto de sangue que nem é seu e com um grande ferimento na cintura, feito por uma espada com certeza. Seu rosto demonstra o pânico de um homem que passou pelo inferno. Os presentes se espantam, mesmo sabendo o que os aguarda, a visão daquilo que se tornará logo realidade faz com que seus pelos se ericem de medo. Apenas um sai vivo, pois os combates são mortais. Enquanto isso o dinheiro passa de mão em mão, em apostas regadas a muita cerveja, alguns apostam o preço de muitos escravos ou os serviços de famílias inteiras de serviçais, ou até a filha linda de um de seus empregados para o vencedor. Mas todos temem apostar contra Gajão, seu guerreiro é invencível e hábil, porém hoje isso poderia mudar. Thorkyn ouve dos empregados de seus patrões, que hoje um dos fazendeiros apostou alto contra Gajão, uma soma em dinheiro que faria qualquer outro tremer. E de repente Thorkyn fala a todos, após o homem, saído da arena, passar por ele: - Não nos conhecemos. Apenas estamos aqui, lutando com a raiva de nossos captores ou patrões. – Cada palavra vem após uma longa respiração. Com certeza muitos de nós poderíamos ser amigos em outras situações, mas não hoje. - Todos o olham, sua segurança é admirável. – Podemos ser peões, mas nunca seremos peões ignorantes. Que cada um de vocês faça um voto de honra para com outro, pois aquele que morrer pela mão do seu adversário hoje, estará mais próximo dele do que destes malditos que trocam nossas vidas por dinheiro. – Seu peito arfa com a puxada de ar e Thorkyn berra a todos os pulmões, até lá fora é ouvido pelos senhores de terra. – Eu faço este voto de honra a você criatura descomunal, vencendo ou perdendo morrerei como guerreiro! De você, apenas desejo o tratamento que daria a seu pior inimigo, não me tenha pouco, por ser eu um humano, pois eu garanto que irei matá-lo! O humanóide saído das cavernas de terras selvagens entende um pouco da língua Derghemom e espanta-se com as palavras deste humano de cor negra, a ele dá um berro gutural saído de sua boca grande. Por uns poucos momentos o alarido dá lugar ao silêncio.

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Todos ali dentro se sentem mais revigorados com as palavras deste estrangeiro das terras do sul, e também sentem que não estão ao lado de um mero plebeu e sim ao lado de alguém importante, e por isso também se sentem importantes... Imponentes... Dedanogor se maravilha com a visão à frente, de dentro do prédio cuja parede lhe serve de esconderijo, sai seu mestre de armas, seu pai adotivo, seu amigo. Resoluto, como se fosse o dono daquele lugar, o rei daquele pequeno espaço de terra. Thorkyn entra na arena portando duas grandes facas de cortar mato, pendurado em seus cabos tecidos de cor vermelha, veste apenas uma calça larga e tem nos pés absolutamente nada, de peito nu é praticamente tão bárbaro quanto seu oponente o humanóide. O brutal entra logo após ele, com os brados de homens próximos a cerca que rodeia e protege a arena. O brutal roda acima de sua cabeça a grande clava de madeira, provavelmente de carvalho e os homens perto da cerca berram seu nome: - Ignorantus! Ignorantus! Ao longe Gajão olha para tudo extasiado, não há como entender o que ele quer desta pequena guerra. A vitória, ou a derrota? Uma mulher é ajudada para entrar na arena, é uma das prostitutas, caminha até os guerreiros com muito medo e receio. Ela foi escolhida como a dama de sangue45, é ela na tradição antiga das batalhas entre gladiadores que escolhe o seu campeão. O campeão escolhido tem sua vantagem na aposta aumentada sejam lá quais as suas chances. A mulher de cabelos loiros sem querer ficar lá dentro por muito tempo, logo escolhe pelo mais óbvio, a descomunal criatura humanóide. Porém aos olhos daqueles de fora, ambos são grandes e fortes, dois imensos gorilas vermelhos se encarando, medindo um ao outro. Com a saída da mulher de vida fácil a luta começa. O cheiro na terra dura, daquele palco de morte, exala um forte odor de medo e sangue. Os dois começam por rodear um ao outro em círculos infinitos de apreensão e comedimento. Rodam suas armas a frente de seus corpos, demonstrando ao outro sua perícia na sua utilização. Um jogo de intimidações que visa minar a força de vontade do guerreiro oponente, lembra-se Dedanogor desta lição, ao ver seu mestre em ação. Golpes são soltos no ar, é fato que um já respeita ao outro e no jogo de músculos tão poderosos, um golpe apenas pode ser fatal. Mas o primeiro a realmente agir, para o espanto dos espectadores é o humano. Thorkyn finge ir para a esquerda continuando o circulo, mas ao invés disso pula rapidamente para frente rodando em círculos a sua fronte suas facas de mato. Para alguns é um golpe desesperado, mas o circulo delas atinge o peito do humanóide fazendo-o recuar com um urro. Dedanogor pode observar a luta de perspectiva diferente dos sedentários senhores. Ele consegue perceber no acerto de seu mestre uma força estupenda, a mesma empregada para puxar o arado no lugar de bois, o brutal sentiu o corte como talvez nunca havia experimentado assim, vindo de um humano.
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(Dama de sangue) - Mulher que escolhe seu campeão em um dado combate. Conforme as apostas são feitas, a proporção para o escolhido é aumentada sempre em dois.

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Isso não o faz se demorar a responder, sua clava é usada para estocar como um murro de uma grande mão, e só não atinge ao guerreiro negro por este pular para trás no último momento. Gajão mal pisca seus olhos, deseja do fundo do seu coração negro pela ganância que qualquer que seja o resultado da contenta, estará feliz. Se Thorkyn ganhar, encherá mais uma vez seu cofre de brandids, se o mesmo perder, terá finalmente o matado, e o retirado da influencia de seu filho, podendo ele mesmo, tê-lo, apenas para si. Os dois peões continuam a rodear um ao outro, desta vez ambos atacam ao mesmo tempo, o golpe de Ignorantus vem de cima, atingindo por inteiro a Thorkyn, o ¨T¨ de sua clava, crava no ombro do humano, que por sua vez diminui a distancia tão vantajosa para o brutal, por ser maior. Agora quem estoca é o guerreiro negro acertando o peito no meio do esterno de pedra do gigante humanóide. Berros vindos de todas as partes, os homens ricos agora em êxtase pela batalha que assistem, dão pequenos socos uns nos outros. Alguns preferem apertar as tão difíceis prostitutas e altivamente prometem que um dia farão aquilo. O brutal recua para ganhar espaço e com Thorkyn preso pela carne em sua clava o arremessa como um boneco para a direita, este para perto de Dedanogor que o fita extasiado. E balbucia: - Mestre... Thorkyn o procura na escuridão e apenas sorri. Ignorantus também sorri para os humanos que deliram com seus feitos e anda em direção ao seu inimigo. O guerreiro larga um de seus facões, pois um de seus braços já não responde mais. Fica de pé e levanta seu outro facão para o alto e solta um grito de guerra, que o trás de volta ao combate. Ignorantus abre seus olhos e não acredita no que vê. O humano está a correr em sua direção, o brutal tenta acerta-lhe com a clava, mas esta é demasiadamente grande para alguém que já se encontra tão perto. São dois golpes perfeitos de Thorkyn, o primeiro faz um pequeno arco descendente no peito da criatura cortando carne e vísceras, o segundo é a continuação deste arco agora para o lado oposto pegando a virilha e a coxa do humanóide, Thorkyn esta com um joelho no chão, este corte rompe veias e músculos. Só resta ao descomunal inimigo cair ao chão sem força nas pernas quase que por cima do humano. Os berros aumentam de intensidade, alguns gargarejam felizes as moedas que acabaram de ganhar, outros choram mágoas financeiras e duvidam agora da força milenar dos humanóides brutals. Porém ao chão inerte se encontra um guerreiro, que com certeza ganha menos que estes ricos fazendeiros. Thorkyn sabe disso e levantando-se da queda imposta pelo peso do corpo sem vida da criatura, chama a atenção para si, falando alto para que todos ali possam escutá-lo. Sabe ele que suas palavras lhe custaram caro, pois ninguém deseja ouvir e sim apenas assistir. - Eu sou Thorku-unamê, Mbola-Nbole das terras do sul. Hoje eu cumpro o meu tratado... - Não ainda não!- A voz vem de uma enfurecida boca, é Gajão ao longe que se aproxima da grade da arena chamando a atenção de todos. - Sua luta ainda não acabou! Acha que gastei rios de dinheiro para ver você ganhar de um simples brutal? Olhe para trás negro! Hoje você me deixa rico ou morre tentando! Você é meu escravo negrinho, e fará o que eu quiser!

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Saindo da porta e entrando na arena, outro brutal de dois metros e sessenta centímetros, este é maior em largura e deve pesar seus quase trezentos quilos. Carrega arrastando pela terra da arena um martelo de pedra pesadíssimo. Sua pele é da cor do cobre e não tem uma das orelhas. Da platéia ouve-se o berro dos mesmos homens, que com certeza já sabiam desta intriga. - Agressivus! Agressivus! Dedanogor espanta-se. É o mesmo brutal que estava na carroça, logo atrás dele. Thorkyn cambaleia para trás, assustado. Caiu em uma armadilha, agora entende que Gajão não permitira que ele saísse de sua fazenda com vida, o tempo e o ciúme lhe fez acreditar que seu inimigo é ele. Não há condições de ganhar mais uma vez, sua única saída agora é preparar-se para morrer com honra. O brutal viciado em sentir o cheiro da violência, olha para o céu e bate sua mão calejada no seu largo peito. Thorkyn olha para Gajão e o amaldiçoa. Pega seu facão no chão e o roda a sua frente. De repente... - Não! Nenhum homem deve lutar as minhas batalhas! Esta criatura é minha por direito e como filho de Gajão, eu, Dedanogor Durgovitch irei batalhar hoje! O silêncio impera. Os fazendeiros, os burgueses, os estudiosos, as mulheres, os empregados, não acreditam no que se segue. O mais inerte deles é o maior responsável por tudo isso. De sua vontade, veio Thorkyn, de seu desejo veio às lutas, de seu sonho veio o que agora o desafia, seu filho, o guerreiro que ele sempre quis ser, o homem que ele sempre admirou. Louco destino este que faz com que odiemos, aquilo que outrora amamos. Todos olham agora para o único que pode alterar o que esta por vir. Murmúrios de desconfiança, risos jocosos. - Pai. - Continua o rebelde garoto.- Quero lutar pela vida de Thorkyn. Quero lutar por um escravo que considero um amigo. - As palavras ferem a Gajão e a todos os ouvintes, alguns começam a vaiá-lo. -Não fale mais nada! – Mais uma vez tentam tirar dele, aquilo que tanto quis, Gajão sente o controle esvair-se por suas mãos que nunca viram a enxada. – Desejas lutar? -Sim, desejo lutar no lugar de Thorkyn. - Está ciente de que poderá não sair vivo desta arena?- As palavras proferidas pela boca seca de Gajão, o ferem na carne e na alma, mas sempre quis um filho de guerras e agora não poderia voltar atrás, se fosse fraco, perderia toda a sua influência e aceitação para com os outros que estavam a assistir. - Estou ciente do que quero e sei mais do que muitos aqui as conseqüências de meu ato. Porém não entro neste lugar para perder, o guerreiro não luta para a derrota e sim para a vitória. - Muitos dão risadas das palavras do jovem impetuoso. - Que assim seja meu filho. Você não me dá escolha. - Nunca houve escolha senhor. Nunca... Gajão olha perplexo para seu filho, ele é mais consciente do que pensava. A pequena multidão já começa a balburdia, que noite mais feliz para eles, é um espetáculo teatral e com um final violento e real. Um dos convivas berra para que logo comece, e o ignorante brutal avança acreditando que já lhe foi dado o aval. Thorkyn apenas pode berrar.

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- Esquiva! Esquiva! Dedanogor pula para a direita e sente no chão que estava a pouco a vibração de um pequeno terremoto. Agressivus desceu seu martelo para acertá-lo, mesmo ele estando de costas. Não há mais tempo, agora o jogo de Quatro Divisões46 havia começado, com a diferença de que ele seria jogado e a cada pensamento uma agressão entraria para atordoá-lo. Enfim este era o seu teste, sua avaliação final, ela determinaria se seu espírito era o de um lutador. Nos olhos vermelho sangue de Agressivus a expressão de uma criatura sedenta por violência e morte. Dedanogor Durgovitch desembainha sua espada montante. Respira profundamente como foi lhe ensinado por seu mestre e concentrase no objetivo que tem a seguir. O martelo de pedra é levantado, um pequeno pedaço dele fica no chão da arena, o impacto o quebrou. O brutal não esta nada contente, queria decidir a batalha com um só golpe e manter sua fama de dilacerador de homens. Mas não hoje, não com esse garoto de corpo musculoso e alma guerreira. Os brutals são ensinados desde pequenos a arte da luta e guerra, o mesmo havia acontecido com este humano. Como as palavras de Thorkyn, eles eram mais próximos do que imaginavam, mas somente um sairia com vida hoje. Agressivus coloca seu martelo em seu ombro e aproximando-se, acerta um chute frontal nos braços fechados pela espada de Dedanogor. Isso faz com que o humano quase caia ao chão, a seqüência deste ataque é novamente o martelo no ar e descendo como uma avalanche ao chão. Junto com o som do impacto o grito de alguns espectadores, Dedanogor escapa mais uma vez por pouco. - Não deixe ele me acertar, não deixe ele me acertar. - Pensa desesperadamente o jovem iniciante. Anda para trás, mas não ataca o gigante, esta ficando cauteloso demais, por ser menor tem de acertá-lo e sair de seu alcance, acertá-lo e sair de seu alcance. Os pensamentos surgem sempre duas vezes em sua cabeça, como se estivessem se auto - afirmando. Afinal um humano lutar contra um brutal, mano a mano já é algo extraordinário por excelência. O humanóide sente um fio de medo e cautela em seu adversário e projetando seu tronco para frente urra para amedrontá-lo, erro infantil, sem ao menos mirar o golpe por puro reflexo de querer afastá-lo, Dedanogor roda sua espada às cegas e acerta em cheio a cabeça quadrada do ser. O silêncio acompanha a cabeça rodar para a esquerda e o sangue da fronte de Agressivus espirra no rosto de alguns, que lá estão assistindo. Ereto, agora o brutal sorri enquanto coloca a mão dura em seu rosto cortado. Toma o martelo com suas duas mãos e parte para cima do humano dando golpes seqüenciais, como os do chute e martelo de cima, ou meio círculo para esquerda, meio circulo para a direita. Dedanogor a tudo assiste e só pode andar para trás enquanto bloqueia os golpes com a espada, que é levada quase para fora de suas mãos tamanha à força da criatura. Thorkyn observa seu pupilo de um metro e noventa centímetros com seus cento e trinta quilos ser encurralado pelo brutal que é ainda maior, outro já estaria caído ao chão.
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(Quatro Divisões) - Jogo que simula o conflito entre dois exércitos, cada qual composto de 16 peças passíveis de movimento em tabuleiro subdividido em 64 casas, e disputado com a utilização de intenso raciocínio lógico e estratégico.

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Finalmente um dos golpes da criatura atinge o jovem, quando este está a levantar sua espada para um contra ataque, o martelo pega em cheio em suas costelas do lado esquerdo, e alguns ouvem o barulho destas se partindo, fazendo com que o garoto caia para o lado. Dedanogor sente uma dor dilacerante, mas seu efeito é o de causar um aumento em sua fúria e uma vontade ainda maior de continuar a luta, com os ensinamentos de Thorkyn ele canaliza esta raiva de auto preservação em pensamento frio e calculado. Rodando para o lado levanta-se rapidamente, para o espanto de seu adversário e daqueles que assistem. Agarra-se a sua espada como se esta fosse uma corda que o segura ainda preso na vida, e não o permite partir para a morte. - Ainda estou de pé, cão! Você é muito lento para mim, posso agora perceber! – Todos estão extasiados com as palavras frias provindas da boca do rapaz com o tronco roxo pela pancada. – Vou derrotá-lo, pois já sei suas seqüências de ataque, quando estiver com o martelo para cima lhe estocarei no coração. – Ninguém compreende o que ouve, apenas Thorkyn que sorri do espírito de seu aluno, e Gajão que sente que o destino agora o agrada. - Tu só apanhar. – Impressionantemente o humanóide responde. Pela primeira vez o ouvem falar. – Palavras ser mentira, tu morrer hoje. Aqueles que esperavam ver luta e sangue, acabam por ganhar ainda mais, pai contra escravo, filho contra pai, filho lutando contra brutal e agora, um brutal falando. A platéia entra em delírio enquanto os mais gananciosos aumentam suas apostas. Dedanogor perde disparadamente. Enquanto isso, na realidade da arena o garoto teme por sua vida. Falou com o humanóide, mas não esperava resposta. Agora tem de continuar e aceitar os fatos, mas em nenhum momento pensa em fugir. Thorkyn esta lá o assistindo e acredita nele, e isso é o suficiente para dar-lhe forças para prosseguir. Ambos inimigos agora caminham vagarosamente um em direção ao outro, daqueles que acompanham ouvem-se berros de incentivo ao humanóide, somente um ou outro berra o nome dos Durgovitchs, seu pai não é um deles. Dedanogor olha para a torre humanóide em sua frente e o cumprimenta com a cabeça, este retribui o favor e agora olha para o humano de forma mais respeitosa. O guerreiro novato finta uma manobra para incitar o brutal, este por sua vez dá o chute frontal e levanta seu martelo para cima preparando a pancada seqüencial, contudo subitamente muda e dá novamente o chute, tentando enganar seu adversário. Dedanogor havia blefado, a batalha é feita de manobras astutas e audaciosas, no chute do humanóide ele golpeia e acertadamente fere a criatura no joelho quase decepando sua perna. O som de articulação se partindo para sempre e o berro de força do jovem fazem as testemunhas pularem de seus assentos em um arroubo de emoção. Agressivus cai como uma árvore ao ser cortada de sua raiz. E inocentemente tenta girar seu martelo de pedra para atingir o humano, mas só atinge ao chão, pois não há mais apoio. Dedanogor apenas o observa esvair-se em tentativas infrutíferas e gastar sua enorme constituição. Quando este se cansa, o adolescente de dezoito anos aproxima-se e novamente e o cumprimenta. O brutal compreende e fala pela segunda vez:

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- Hoje dois humanos ganhar de minha raça. São fortes, tenho prazer em morrer em suas mãos. - Homem, negros, brancos, brutals, ninguém é melhor que outrem. – Responde o menino. E falando isso lhe acerta a face com muita força, um naco de seu cérebro voa para perto da platéia que urra em enlevo. Alguns fazendeiros tentam partir sorrateiros, mas são pegos por aqueles que lhe tem crédito. Gajão abaixa sua cabeça, Dedanogor cai no chão da arena exausto e Thorkyn corre para auxiliá-lo. Impius vai até seu mestre com Nathander II e após vê-lo pagar sua aposta perdida, volta para a arena para colocar Thorkyn em correntes. - Pai, sem correntes para ele. Eu ganhei e agora ele é meu escravo. Fala Dedanogor com a mão nas costelas quebradas, e ainda no chão. - Chega! Não suporto mais suas insolências! Ainda sou seu pai e iremos para casa. Onde pensa que pode ir com ele? Ele é meu, comprado com o meu dinheiro. Você tem algum dinheiro com você para comprá-lo de mim? Não, pois tudo o que possuis é meu! Você é meu também e fará o que eu mandar. Garoto atrevido, como ousa! – A explosão de Gajão, faz com que todos se afastem dele, seu corpanzil parece ainda maior com a fúria que emana de seu rosto vermelho. Lembrando alguns até o rosto de cabelos ruivos de Co-on, antigo deus da guerra do compacto47. Assim é feito, Thorkyn volta ferido para a carroça, e Dedanogor segue taciturno, com ferimentos dentro da carruagem de seu pai. Como se Rainaar quisesse lavar aquele lugar pesado e vil, dos céus vem à chuva. Água forte e pesada tornando o terreno alagadiço e faz todos se abrigarem em suas casas. Mas não a Dedanogor, que após chegar à fazenda é cuidado pela velha Amandia, e segue para a senzala, para conversar com Thorkyn. Encontra seu mestre sendo medicado por um dos escravos que já fora aprendiz de curandeiro em sua tribo passada. Todos os escravos têm muito respeito e o estimam, por Dedanogor também, não estes vindos do medo, mas sim de um garoto que se coloca com igual a eles. Um criado também, das vontades de seu pai. Dedanogor mal consegue mover seu tronco, devido a pancada recebida em combate, mas maneja-se para se agachar perto de Thorkyn. - Mestre, perdão eu... - As palavras saem com dificuldade. - Não há nada a falar meu aluno, você foi o melhor. - Seu rosto é paz, e conformismo. - Mas senhor eu não completei o que me pediu. Nosso intento era o de libertá-lo hoje, e... - Me considero livre Dedanogor, hoje cumpri o trato com seu pai e partirei. – Sua voz permanecia firme e pacifica. Todavia sua aparência contradizia, seus ferimentos eram severos, ele não conseguiria ir muito longe nesta chuva. – Lembre-se, o batalhador não pede, ele faz, ele age. Diferentemente dos homens covardes que usam aqueles de coragem, eu lhe
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(O Compacto) - Documento assinado entre Co-on e Amdosias ao final da Guerra do mesmo nome. O declaração divina é um acordo que baliza a influência demoníaca entre os seres de Minlurd. Um tratado feito entre deuses para cessar a guerra. Não são reconhecidos por Rainaar, o deus supremo. O mesmo não compactua com o Amdosias.

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ensinei para que também seja você, um homem inteligente. Não permita ser escravizado física ou moralmente, seja dono de seu destino. Pegue-o pelo pescoço e diga para onde quer ir. Mas cuidado, o pior inimigo para estes poderosos é aquele que usa sua inteligência e ao mesmo tempo possui a fúria do lutador. Tal fúria nunca deve ser confundida com a raiva, ódio, ira, pois estes sentimentos consomem muito rapidamente. A fúria a qual eu te ensinei significa a força de vontade. Controle-a, molde-a, adapte, domine-a e será completo. Não julgue ninguém pela sua aparência, hoje aprendi que os brutals são mais honrados que muitos, até aos da minha antiga tribo. Não pré-julgue, pois o pior erro é o de subestimar os outros. Esteja sempre disposto a aprender, a ensinar, mas lembre-se não permita ser maltratado por estranhos, seja fiel a seus amigos, pois eles irão com você até os portões da casa de Amdosias. Apenas respeite os mais fracos e desafie os mais fortes, afinal, ninguém é melhor que outrem. – Thorkyn ao proferir estas palavras parecia ter mais idade do que realmente aparentava. As aparências enganam, e ele grande, forte, belicoso, era também um estudioso de sua tribo nas questões intrapessoais. - Meu senhor de armas, deixe-me lhe pedir que não parta hoje, não está em condições de viajar... – Suas palavras tentavam desencorajar seu professor, a esta altura, o jovem não sabia se suas desculpas eram baseadas em pensamentos racionais, ou se eram de medo de ficar só neste lugar que não amava. - Quer me ajudar, pela ultima vez? Agora te peço como amigo, pois como professor nada mais tenho a te ensinar. Sabe que eu só temo a um ser em toda fazenda. Mate por mim Nathander II, filho Nathander o cão de guarda da fazenda. - Por quê? Por que ele é o seu único obstáculo? - Ele é um cachorro. O melhor guerreiro do reino animal. Nem tão grande como o poderoso leão, nem tão pequeno quanto o rápido lince. Sua bravura é ainda maior que estes animais. São mais confiáveis que nós humanos, não imploram pela vida, seguem direto para morte se necessário. Em minha tribo são considerados sagrados, não posso atacá-lo. - Está me dizendo que todos estes anos, nunca tentou fugir, por causa do cão? - Não apenas. – Houve uma grande pausa, Thorkyn apenas olhava para o adolescente a sua frente, tão ferido como ele e ainda com os olhos a arder de vida. Os seus por sua vez, queriam se fechar na dor da saudade de seu filho deixado em Sembalo, mas sobre isso nada falou. – Fará isso por mim, meu amigo? Havia compreendido as palavras de seu professor, entendia que ele também havia ficado por causa dele. Também não tocou neste assunto, pois havia aprendido com seu pai, que certas emoções não devem ser incentivadas, só trazem enfraquecimento e um frágil espírito. Mal sabia, mas possuía a mesma alma fria dos Durgovitchs. - O cão já está morto, só que ainda não sabe disso. – Impetuoso, esse era Dedanogor. Thorkyn abre um imenso sorriso. Na grande casa, Gajão admirava o retrato pintado de Natalie. Seus olhos eram quase lágrimas, estava estranho hoje. Havia visto o concretizar de

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seu sonho, mas não se sentia completo, alguma coisa estava errada. Chamou por Impius, este veio rapidamente. - Onde esta meu filho? - Na senzala, senhor. – Impius tinha prazer em ver a decepção no rosto de seu senhor. Seu amor pelo patrão era quase sexual. - Mande Amandia preparar uma ótima refeição para o nosso campeão, mas antes traga o prato pronto para que eu possa aprová-lo. Mesmo achando estranho, o magro guarda costas assentiu. ξ A chuva continuava, os canis possuíam além de grades que separam os cães, casinhas feitas de madeira, para que os mesmos não sofressem ao relento. Dedanogor foi direto ao canil de Nathander II. Lá havia uma placa comprada há muito tempo por seu pai e nela estava escrita: Campeão de rinha, guarda do senhor da fazenda e devorador de escravos. Aproximou-se e já encharcado parou a frente do portão. Como que por instinto, Nathander II saiu de dentro de sua casinha, para a chuva. Rosnava baixo, não morria de amores pelo filho de seu dono. Ele cheirava a negros. Seus olhos estavam enegrecidos, e só se via a cor neles em meio a um ou outro trovão, que caia longe ao sabor da agitação da chuva. O humano do outro lado, não sentia medo nem remorso. Empunhava seu machado de lamina dupla e nada mais. Suas costelas ainda doíam, mas o prenuncio de um novo combate amorteceu suas dores. Nathander II sentiu o cheiro de adrenalina no ar e pulou contra o portão. Estava pronto. Ambos estavam. ξ Impius acompanhou Amandia que levou a comida até a senzala, seu patrão já havia examinado e adicionado um ingrediente extra. Esperou por um tempo do lado de fora, protegido na varanda da entrada. Entrou na senzala sem o cão, estranhamente não havia o encontrado em seu canil. Odiava aquele lugar onde os escravos viviam, na realidade odiava-os todos. Era o feitor e muitas vezes matou alguns no chicote sem conseguir conter sua raiva. Mas tinha medo do grande negro guerreiro, porém hoje, ele ferido, nada poderia fazer contra ele. Ao entrar na casa dos escravos, todos se afastavam dele receosos de serem pegos em seu sadismo macabro. No canto da casa estava Thorkyn, enfaixado, seu curativo ainda tinha sangue. Pegou o prato de comida das mãos franzinas de Impius e comeu com voracidade. - Gajão pede desculpas. E em troca permite sua liberdade, amanhã. Hoje pode se fartar com este manjar e amanhã devera partir para longe daqui. – As palavras tinham um leve toque de duplo sentido para aqueles inteligentes em entendê-las. Thorkyn replicou - Sim eu sei. Querendo seu patrão ou não já estou livre. – Era tamanha sua fome que já havia acabado de comer ao final da frase. - O que? Como é petulante negro! – Impius já não se continha mais. - E você? O que é você? – Falando isso se levantou, sentiu uma tontura, esta não provinha do ferimento, vinha de uma forte azia no estomago. A

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senzala silenciou. Todos observaram o clima estava tenso. Com a mão no estomago, Thorkyn continuou. - Escravista! Você é a escória da escória! Covarde desgraçado! Faz mal a aqueles que não podem se defender. Porta uma espada, mas com certeza deve tremer para usá-la. Fraco! Vive sob as asas de seu patrão, pois não tem capacidade para ser nada além de servo. – Mais uma vez sentiu-se tonto e parou de falar para respirar com mais força. Impius não acreditava em como ele ainda podia estar de pé. Após a luta e após ter sido envenenado com uma quantidade capaz de derrubar um grande homem-lagarto. Puxou sua espada e ameaçou - Não se aproxime ou eu lhe envio para os seus, mais rápido do que deveria. Negrinho! Quem pensa que é falando comigo assim? Coloque-se no seu lugar e senta sua bunda suja no chiqueiro que é o seu lar! De trás de Impius voou algo, que caiu na frente de ambos. Era um facão de cortar mato, grande e tinha fitas amarelas em seu cabo. - Thorcú-unamê! Thorcú-unamê! Thorcú-unamê! – gritaram vozes vindas de toda a senzala. Os escravos bradavam ao seu líder, vingança e satisfação por torturas passadas e vida desumana. Impius olhou para Thorkyn que já se abaixava para pegar a arma. Tremendo, o acertou nas costas, fazendo o cair fraco ao chão. O segundo golpe do oportunista visava acertá-lo ainda caído, mas rolando rápido no chão, o guerreiro negro aparou o golpe e o branco mercenário, sentiu a força de ter acertado uma parede de pedra. O som de clamor aumentou na senzala, este era abafado pela chuva e ninguém da grande casa ouviu o que lá se passava. Vagarosamente Thorkyn levantou-se dominando com a arma a posição de Impius. Estava muito tonto e já sentia a dor dos cortes no ombro e o novo nas costas. Como um Golias de ébano incansável e incentivado pelo som de seus irmãos levantou-se e preparou a manobra. - Pequeno e medroso homem branco. Sua ruindade acaba aqui. – Falou decidido. Com um movimento rápido e certeiro, desceu o facão no pescoço de Impius, inutilmente este tentou fugir e como movimento desesperado tentou bloquear o golpe, e espada foi quebrada e seu pescoço degolado com um só golpe do víndice guerreiro. O corpo de Impius caiu sem vida se estrebuchando, sem parar. Thorkyn engoliu seco e olhou para todos que revezavam sentimentos de felicidade e receio. - Estou livre... - Ele disse antes de cair ao solo. Este foi Thorcú-unamê Ngola-Mbole das terras do sul. Honroso como líder, digno como escravo. ξ Dedanogor retorna da sua luta com Nathander II. O cão havia o ferido na perna e agora tinha de mancar para prosseguir andando. O erro do cachorro foi o de ter se fixado em tentar arrancar a perna grossa e dura do jovem, deixando seu dorso livre para os golpes de machado. Não morreu rápido e o Durgovitch

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pode entender as palavras de seu professor sobre a coragem destes animais. Mas ele mesmo não sabia, já era ele, um animal também. Ouviu sons de lamentos vindos da senzala. A principio não compreendeu, não possuía uma boa intuição para perceber os nuances de emoções no ar, era mais racional. Ao entrar na casa dos escravos, todos o olharam com pesar. Lá dentro alguns servos estavam agachados em volta de um corpo. Parou. Sentiu as pernas mais fracas do que realmente estavam. Aproximou-se vagarosamente, os homens e mulheres que ali estavam, abriram caminho para ele passar. No final de um corredor de pesares, viu seu mestre, amigo, irmão de armas caído no chão gelado e úmido da chuva, que pingava das goteiras do teto. Uma gota caiu perto do corpo sem vida de Thorkyn, esta gota não vinha dos céus, vinha do rosto de um menino que aprendeu a ser homem, vinha de um homem que aprendeu a ser completo. Neste dia Dedanogor Durgovitch teceu lágrimas de sofrimento pelo fim da amizade verdadeira entre irmãos, pela perda de um pai. Ao lado de Thorkyn e com a chuva para abafar seu pranto o menino tomou o corpo em seus braços, mesmo cansado, a força o agraciou com mais um momento para que pudesse carregar o incomensurável Thorkyn. Levou-o para fora na chuva, os escravos o acompanharam até as margens do lago Noem. Exausto, Dedanogor pousou o corpo no solo enlameado. Seu sentimento variava entre dor e raiva. Chorava e subitamente parou, os homens que estavam ali não compreenderam e se assustaram quanto ele friamente falou: - Contem-me o que aconteceu? - Sua pergunta foi fria e sem sentimentos, usava a raiva para impulsioná-lo a agir. E eles contaram, falaram sobre Impius, falaram sobre a comida e sobre as últimas palavras de seu mestre. Ao ouvir isso o aluno relatou. - Não só ele, todos estão livres.- E com estas palavras partiu em direção a casa. Mancava forte, todavia não se atrapalhou no caminho e chegou à porta da frente rapidamente, deixando para trás escravos segurando perplexos, a leve linha da esperança. Subiu as escadas encharcado de água e resolução. No chão um pequeno rastro de sangue do ferimento na perna. Entrou no quarto de Gajão que dormia, e parou de frente ao retrato de sua mãe, iluminado pela vela e a luz vinda dos raios da janela. Natalie, mulher linda que nunca conhecera. - Teria ela sido uma boa mãe? Teria ela evitado tudo isso? Seria ele, hoje, um filho diferente por causa dela? Com certeza que sim - pensou Dedanogor. Então, olhou para o seu pai que dormia o sono dos injustos que não tem remorso. O jovem sentou-se molhado ao lado da cama, bem perto de Gajão. - E este homem? Quem ele realmente é? Havia ele tido uma vida parecida com a minha? Só havia ensinado sobre dinheiro e a não confiar nas pessoas, coisas que Thorkyn ensinou o contrário. Os brutals da arena foram mais respeitosos que muitos humanos que conheci. Impius está morto, Nathander II está morto, Thorkyn também. Tudo acabou nesta fazenda. Nem tudo, pois ainda há o senhor, Gajão... Mesmo transtornado, o jovem guerreiro surpreendeu-se com seus questionamentos desprovidos de emoção. Pensava racionalmente, pelo menos

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era a forma de pensar que havia aprendido. Olhou para seu pai. Uma gota de chuva carregada em seu cabelo caiu na face de Gajão. Este se mexeu como se a estivesse enxotando. Era assim que seu pai fazia. Livrava-se de quem não lhe interessava. E assim chegou sua vez. Com o machado na mão esquerda, e sua mão direita a acariciar o duro rosto deste homem, Dedanogor Durgovitch assassinou seu pai. Contudo por ele não chorou, agiu. - Rainaar tenha piedade deste que é o teu filho. Matei o pai que nunca tive. Hoje te enviei o assassino de meu mestre. De meu pai por escolha. Matei meu próprio feitor... Mulóji, para os negros da fazenda, mal agouro uma criança nascida à noite sob chuva fria. A mesma chuva que caia em seu nascimento há dezoito anos atrás, estava presente hoje. No dia em que nasceu um homem, tão frio quanto às águas de uma tempestade.

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Capítulo 5 – O soldado
Outrora, uma fazenda bonita, com estórias que poderiam ter sido mais belas que as que foram escritas pelas pessoas que nela residiam. Nos meses que se seguiram Dedanogor a colocou a venda. Não queria mais nada com aquele lugar. Vários fazendeiros de toda Derghemom vieram para comprá-la. Alguns, com boas intenções, outros acreditavam poder enganar o inexperiente jovem com promessas e permutas vazias de terrenos condenados pelo estado. Estes eram postos a chutes para fora da propriedade pelo firme garoto. O funeral de Thorkyn foi algo bonito para se ver. Foi enterrado perto da margem do lago, e em sua cova colocados seus pertences favoritos, pratos e pratos de comida, lenços de todas as cores e suas facas de mato. Foi Dedanogor que falou aos escravos novamente neste dia: - O homem nasce livre e morre livre. Thorkyn me ensinou que somos nós senhores de nosso destino e não outrem. Nós somos competentes pelo que acontece com nossas vidas e só depende de nossa força de vontade para que tenhamos sucesso ou sejamos senhores de nossos fracassos. Aquele que culpa o outro, é um fraco. Aquele que justifica demais está errado. O verdadeiro homem completo sonha, planeja e age. Venderei esta fazenda e partirei em minha vida, aquela que eu escolher, do zero. Os brandids que viram desta venda serão divididos entre todos aqui, escravos, servos, cozinheiras e todos os que trabalharam por seu sustento ao longo destes anos. Para mim, ficarei apenas com o dinheiro para roupas decentes, boas armas, uma boa armadura e comida até o meu próximo destino. Eu não tenho medo do que acontecerá comigo, pois serei eu que determinarei o meu futuro.Thorkyn meu pai, obrigado... O adolescente era digno de suas palavras e assim o fez. Libertou todos os escravos e passou a terra a quem era de direito, ateou fogo à mansão e partiu com o pouco que tinha para Celeus. Celeus era o reino onde não havia escravos, onde ele começaria sua vida. E então com seus quase dezenove anos de idade Dedanogor havia aprendido tanto de Thorkyn como de Gajão. Possuía o corpo forte de seu pai, os olhos azuis de sua mãe e a segurança de seu mestre de armas. Começou sua viagem indo em direção a sudeste. Desejoso por conhecer vidas novas, escolhe o reino de Celeus, cujo rei Marco Celeus não permite a escravidão em suas fronteiras, tal reino tem divisa com Derghemom. Nos seus primeiros dois dias de viagem a pé, já é avistado por uma caravana mercante que o convida para acompanhá-los, mas é na verdade oferecido um emprego como segurança da estrada. A caravana é grande e composta de vários veículos que levam desde seda e alimentos para a comercialização em outras regiões, como passageiros com sonhos e esperanças em novas terras e oportunidades. Em Minlurd esta forma de comboio mercante é comum, pois uma multidão de peregrinos, mercadores ou viajantes se reúnem para atravessar um determinado trecho com segurança. Também para o transporte em geral, pois 52

alia organização, com o controle de grandes quantidades de mercadorias sendo transportadas. Com a viagem veio o descanso, milagrosamente esta caravana não foi assaltada por nenhuma horda de ladrões e nenhum caravanista foi molestado. Mesmo estando eles a passar ao largo das montanhas Negras, por um região conhecida como, O Corredor48. Sul do reino anão de BirgGamam e ao norte de Falia. Certo dia Dedanogor acorda com o som de homens a falar alto e um barulho de cascos e rodas a passar pela estrada lateralmente ao acampamento noturno da caravana. Levantado-se sem ao menos lavar o rosto, o jovem de Derghemom, aproxima-se de dois homens bem mais baixos que ele, estes estavam a conversar a beira estrada, avistando uma outra caravana que vagarosamente passava. - Por que todo este falatório? O que esta acontecendo? Os homens o olharam, primeiramente impressionando-se com o tamanho do rapaz, em seguida comentaram irradiantes. - Ela. Ela esta nesta caravana. Talvez tenhamos a sorte de vê-la. - De quem estão falando? – Dedanogor perguntou com verdadeira inocência do fato. - Ela senhor. ¨A luz que brilha na escuridão¨... – divagou o primeiro. - Ela é linda... - disse o outro. - Talvez possamos ver sua compleição hoje. Dedanogor então se pôs juntamente com outros que estavam a conversar. Mulheres e até crianças estavam a procurar pela parte da caravana em que vinham os passageiros. Logo pode notar em uma das carroças adornos feitos de flores. Os homens empertigaram-se e as mulheres arregalaram os olhos, todos queriam ver quem era essa pessoa que há muito andava em Minlurd, pregando a bondade e igualdade entre os homens. Ela é conhecida por muitos nomes: A elfa dos esquilos. A luz do cataclismo. O avatar de Rainaar. Mas seu nome verdadeiro poucos sabiam. Não rezava a deus algum, mas era devota às virtudes inerentes nos seres, tinha uma predileção por Rainaar e respeitava muito Nastar, o deus dos elfos. Diziam que a própria natureza curvava-se para permitir sua passagem, e sua bondade era tamanha que era incompreendida por culturas de outros lugares. A carroça passava puxada por cavalos robustos e saudáveis. As pessoas procuravam excitados a figura da ninfa nas janelas. Apenas os mais altos conseguiram vê-la, entre eles Dedanogor Durgovitch, estes tiveram de se contentar em vê-la apenas de perfil. Seu cabelo negro estava preso por uma tiara de madeira, seus olhos verdes como as folhas raras de florestas virgens de Minlurd, brilhavam sob o sol alvorado e irradiavam em uma pele branca e límpida o caráter e virtudes a ela atribuídas. Dedanogor sentiu um frio na barriga e imaginou se um dia teria uma mulher tão bela como àquela ao seu lado.

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(O Corredor) – Estrada que passa bem ao meio de duas seções das Montanhas Negras. Uma na parte norte, fronteira de BirgGamam. E o outro na parte sul, fronteira com Falia.

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Continuaram a pacata viagem e Dedanogor teve todos os seus ferimentos curados, apenas deixando uma grande cicatriz a mais severa de todas, a dor da perda.

ξ Após quase um mês de viagem ao longo de noitadas servidas a cerveja Derghemom e a bravatas que nunca fizera, o jovem guerreiro chega a capital de Celeus, Carpes. E ao avistar seus enormes muros, sua vastidão em tamanho, seus prédios e vielas, o cheiro de suor. Cada rua com uma estória, cada casa com uma vida, cada vida seus amores. - E a minha?- Questionou-se o guerreiro gigante. Os pombos alçam vôo na praça plena, onde havia a estatua do monarca do reino. Dedanogor ficou petrificado com a gigantesca estátua. - Que homem audaz e corajoso havia de ter construído tal reino? Como conseguiu ser tão diferente dos outros monarcas e ter tido sucesso na sua independência contra a potência Maior? – eram reflexões de uma mente jovem, porém inexperiente. A cidade pulsava de vida, raças de seres humanos, humanóides fervilhavam nas ruas, gondes, hienídios, anões, um ou outro elfo e muitos humanos. Algumas pessoas vestiam longos mantos, como se quisessem esconder suas intenções, outros mesmo não sendo guardas locais, trajavam armaduras como se estivessem vindo de uma batalha. E ali permaneceu o garoto do campo, deitou-se ao lado da estátua, tomou a mão um pedaço de queijo, ainda fresco da cozinha da caravana que já o havia deixado em seu destino, e pôs a comer. Observou quando um homem se aproximava das pessoas da praça e em silêncio, furtava o pertence dos mesmos. Era como que, para ele, aquele homem se destacasse na multidão. Thorkyn o havia ensinado a sempre questionar o que entendia como errado, a não ser e não permitir, quaisquer forma de escravidão seja ela física, ou emocional. Em meio aos seus pensamentos Dedanogor não se apercebe do cão de rua que inocentemente aproxima-se dele, e como se dominado por um instinto de preservação, ele de súbito levanta. Levado pela emoção do prenuncio do combate, o cão o havia feito se lembrar de Nathander II, o gigante vai de encontro ao homem e incoerentemente toma o braço do bandido com força esmagadora. - O que faz? Rouba pessoas nas ruas? Qual é o teu motivo seu pequeno bastardo? – fala sem tremer. O homem que agora se percebe uma barbicha rala e o rosto fino, mais que rapidamente o acerta com algo cortante. Rasga o seu antebraço, fazendo-o soltar por reflexo medular. Para espanto do bandido o jovem musculoso para e fita seu braço, não há expressão de fúria em seu rosto, apenas de surpresa. Aproveitando a oportunidade o ladrão some na multidão.

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Dedanogor Durgovitch para, olha em volta da multidão que nada fez para ajudá-lo, e a forma que continuam caminhando, como escolhessem não intrometer-se na vida do outro e desta forma sobreviver, quietos, cada um em sua casa. Talvez rezando por algum deus esquecido que lhes permita passar pela praça diariamente sem serem vitimados. Senta novamente ao lado da estátua, já tampando o ferimento com um pedaço de pano que estava o queijo. Logo a noite se aproxima e o Durgovitch olha para o céu, não há tantas estrelas quanto via em sua fazenda em Derghemom, esta sozinho, isolado dos outros tanto em pensamentos como em personalidade. Dorme o sono dos cansados, no frio da pedra cinza ele deita suas preocupações de outrora. Pequenas reflexões de uma vã mente débil, e ele acreditava que poderia ser diferente com ele. Por que corre o sangue dos justos? Por que temem a própria dor, a dor de irmão de sangue? Com estes questionamentos foi acordado. Dois guardas cansados e com frio, conversavam há pouco sobre família. O jovem acorda rápido. Levantando, ocultamente saca sua adaga trazida de Derghemom. - De pé! – o primeiro guarda fala. – Levanta fecundo! Anda, não me atrapalha ou lhe darei um corretivo! – E falando isso tenta chutar com a bota pesada o corpo cansado do jovem. O segundo guarda tenta desarmá-lo. Com um leve passo para trás e uma flexionada dos joelhos o guerreiro sobe com velocidade a adaga corta firme fios de aço, couro e na carne do soldado. O primeiro guarda espantando manobra em direção a Dedanogor, sua espada quase o atinge. O jovem guerreiro sente o chamado a luta, sempre tão próxima a ele. Com um movimento do tronco, acerta seu ombro na mandíbula do segundo soldado que ainda agoniza do corte da rude adaga. Uma forte mordida se parte para não mais voltar. Este cai ao chão cheio de dores e arrependimento. Retomam a posição de guarda, Dedanogor e o primeiro soldado. Ambos se olham esperando o ataque do outro. Um ameaça, o outro também, mas não saem de suas posições. O soldado vacila e seus olhos tremem. Os olhos dos cães não titubeiam jamais. Dedanogor finta um corte, o soldado não tão hábil levanta a espada para defender-se do golpe que nunca existiu. Na oportunidade criada, o jovem estoca o estômago pouco protegido pela armadura do homem de armas. De sua carne sai uma espuma branca, ácida. Ele ainda consegue descer sua espada no ombro de Dedanogor que a sente como um golpe de marreta e não de corte. Seu braço dói, ainda é garoto e não se acostumou totalmente com a dor. O soldado anda para trás com a mão do estômago e olha para o jovem em súplica. Friamente o menino anda até ele e o degola, ele tinha os mesmos olhos azuis de seu pai. Apercebendo-se em volta da cena, distingue uma janela que se fecha, um cão ladra, passos de pessoas que correm. O garoto da fazenda larga ao chão a adaga coberta de sangue e corre. Corre por ruas e ruas sem fim. Como se estivesse a deslocar-se nos campos de seu pai. Cada vez a entrar mais para o intestino da grande cidade.

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Já está completamente perdido quando vira uma esquina apertada. Uma viela a sua frente, que dá em um beco talvez sem saída, na esquina uma estalagem e a visão de algo que já conhece, um brutal. Um brutal imenso como todos eles são. De costas e apenas iluminado pela tênue luz que pende do teto da estalagem do lado de fora. Uma de suas mãos segurava acima do solo um gordo hienídeo, e com a outra mão encostada no chão uma clava descomunal feita de puro aço. Ouve-se um estalar de ossos se partindo, um corpo cai inerte no chão de terra batida e o humanóide olha para trás avistando Dedanogor. Seu cabelo é ralo e espetado, tem uma coloração cinza. Ele o olha nervoso, pronto para o combate. - Não preciso lutar com você criatura. Estou perdido nesta louca cidade de homens que vivem juntos, mas estão todos separados por seus medos. - Diz ofegante Dedanogor. O Brutal nada fala, apenas vira-se de frente e encara o humano, mexendo sua cabeça como se não entendesse uma palavra sequer. O Durgovitch saca sua espada. - Pode vir pequeno! – o brutal fala em pobre língua da região Celíaca. Dedanogor entende também muito pouco, mas compreende ainda mais a clava se levantando em riste. Com esta o humanóide balança sua arma, dois giros no ar, o ultimo giro por um erro de cálculo acerta a viga da estalagem e esta se parte, rachando o teto do lado de dentro e causando um enorme barulho de madeira assentando-se. Para aqueles dentro do quarto no segundo andar, um terremoto esta acontecendo. O brutal olha estupefato para o seu próprio feito. Pessoas saem correndo de dentro da estalagem, e continuam pela rua que desce. Com esta falha Dedanogor acerta uma estocada no peito aberto do brutal que urra enquanto anda para trás de dor, sua pele é dura como uma armadura de couro, e a ponta da espada pouco penetra em sua carne. Barulhos ao longe, homens com botas pesadas a correr na direção dos dois combatentes. O humano se apercebe disso, guardas salvando outros guardas. Quatro deles descem em direção ao beco, vindo de onde outrora veio Dedanogor. Estes trajam armaduras de couro reforçado por aço, lanças em riste e espadas ainda presas as suas bainhas. O humano vai para o lado do brutal e berrando. - Não serei escravo, nem prisioneiro! O Brutal com a mão no peito que esta a sangrar levemente para e olhando para o humano e se virando para os guardas se junta em uma só voz. - Brutal nunca escravo! Os guardas da cidade se assustam, um empurra o outro como se nenhum deles quisesse estar à frente. Olham para o brutal, com medo, que gira novamente sua clava de aço deixando-os impressionados. Está nítido que estes homens não sabem lidar com a situação, gastam seu tempo e seu dinheiro com suas famílias e não ficam nos quartéis treinando o suficiente. Dedanogor observa sua formação, parecem mais novatos do que soldados experientes. Com isso em mente o jovem guerreiro coloca sua espada virada com a ponta para o chão e em um ato de ousadia se apóia nela, coçando seu nariz com desdém. Todos olham para ele, inclusive o brutal. Começa a pensar em Thorkyn e em como ele encarava sua vida de escravo. - Se ele se rebelasse poderiam os outros da senzala terem sofrido por seu ato? – reflete em meio ao clima tenso.

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Com isso em mente não vê quando um guarda é empurrado pelos seus amigos, e cai na frente da dupla. Este é arremessado para trás com um golpe da clava do humanóide. Cai em cima de seus companheiros, que tentam inutilmente ampará-lo. Os homens suam, esta escuro, a luz do lampião do teto quase caído esta se apagando. -Alto! – Brada uma voz firme e forte vinda de dentro da escuridão. Ele se aproxima severo, os guardas cansados pelos seus próprios medos abrem caminho para este recém chegado, aliviados estão. Sua armadura de placas de aço emite uma sutil luz azul, sua espada é desembainhada e ouve-se um leve zumbido vindo da lamina, também de brilho azulado. E ele retoma a falar. - Não haverá lutas hoje. – Diz seguro. – Qual o seu nome?- Dirigi-se a Dedanogor. – Tens documentos de cidadão Celíaco? Vendo-se ignorado por completo, por este homem de olhar severo e barba marrom escuro, o brutal reage. - Brutal nunca escravo! – Diz em tom alto. - Agora garoto! E o seu animal também! Documentos, agora! – O guerreiro torna-se nervoso. Ele não se intimida com o tamanho de seus oponentes, pensa Dedanogor. Há mais guardas se aproximando, estes também trajam armaduras de aço, espadas longas e escudos com o brasão Celíaco, a torre albarrã e a coroa, sobre ela. São oito contando com o líder, da armadura azul. Os primeiros guardas já se foram há tempos, cuidar de casos mais corriqueiros ou descansar em seu quartel, culpando os eventos desta noite. - Não tenho documentos. Sou de Derghemom e este aqui é meu amigo, fomos ofendidos por este humanóide e tomamos satisfação, nada mais. O homem de barba espessa olha para trás da dupla, e enxerga na escuridão o corpo abandonado do hienídio. - Seus guardas abusaram do poder de protetores das pessoas comuns e apenas nos defendemos. – Sua frase parece ter saído de um livro. Mas é só isso que este garoto de fazenda pode oferecer no momento, muita instrução e pouca vivencia. O líder da guarda especial se apercebe disso e o fita curioso. - Qual é o teu nome? – Pergunta. - Dedanogor Durgovitch. E este é meu amigo... - Enervous. – Fala o brutal com sua voz rouca e seu modo bárbaro. Sorri para o humano, nunca antes haviam ficado ao seu lado como hoje. - Meu nome é Alquemius, sou o capitão da guarda real de Celeus para assuntos especiais. Ou seja, somos nós que enfrentamos pessoas peculiares como você e seu amigo. – Alquemius se referia ao tamanho dos dois gigantes. – Como estamos até agora? Acompanha-nos pacificamente, ou teremos de nos machucar para conseguirmos levá-los? – Era bom com as palavras. Sabia conversar com guerreiros, os respeitava, fossem amigos ou inimigos. Dedanogor olha para o brutal que o olha de volta, esta claro que quem vai decidir agora é ele. Mal chegou a cidade e já arranjou uma confusão. Prefere racionalizar o problema, lembra-se de Thorkyn e pondera. Aprendeu que aquele que faz a tudo sem pensar, um dia morre burro. - É verdade que não existem escravos nas terras do rei Marco? E que todos são livres para ir e vir à hora que bem entendem? - É a pura verdade meu jovem, nos os Celíacos somos livres do julgo Maior graças ao nosso bom rei e, portanto fazemos nossas próprias regras. Entre

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elas, nenhum cidadão pode subjugar o direito de outro. – Relata orgulhoso de sua pátria Alquemius. - Seguiremos sem luta. Que nos seja dada à chance de nos explicarmos, e que meu amigo seja tratado assim como eu. Pois ninguém é melhor que outrem. Alquemius sorri das palavras do garoto. Enervous por sua vez, não entende, mas sabe que talvez, tenha achado um amigo. São levados até o quartel no lado norte da cidade, envolto em muros altos de quatro metros. Uma murada dentro da murada da cidade. Após passarem os portões de ferro entram em um extenso pátio, do lado esquerdo as cocheiras da cavalaria Celíaca, conhecida por possuir cavaleiros corajosos e habilidosos com suas montarias e suas armaduras pesadas e quase impenetráveis. Do lado direito as casernas dos soldados. Muitos estavam no pátio, descansando de um dia árduo de trabalho e outros se preparando para a ronda noturna, conversavam entre si e constantemente ouviam-se risadas de possíveis piadas contra o jeito de ser dos cidadãos de Maior. Tudo era muito grande para o inexperiente menino da fazenda. Escudos e espadas militares espalhadas em uma carroça aberta era onde os homens se armavam. Alguns olhavam o brutal que passava calado, apenas observando. Seguiram a frente entrando em outro portão de ferro, agora o local era mais nobre. Um jardim se escondia na escuridão e estátuas estavam espalhadas por ele, a luz vinha de longe, na parede dos também grandes muros, onde sentinelas armados com arcos e bestas vigiavam atentos o sono de seus companheiros. Não muito longe um grande prédio de pedra branca se elevava do terreno seco de terra. Uma escadaria ampla dava a uma varanda que suportava colunas de arquitetura Maior e uma estátua no meio da entrada aberta para os salões internos convidava a entrar. - Este é Marcos Celeus quando jovem. Seu futuro rei se assim decidirem, ou seu carrasco se preferirem. – Falava com humor negro, típico de Alquemius como eles iriam perceber. A estátua em mármore era tão bela quanto à da praça, Marcos retratado jovem na época da guerra da independência em 90DC vestia uma armadura com o símbolo da torre e a coroa. A diferença desta estátua a da praça era que esta parecia viva de tão perfeita, seu escultor deixou o soberano Marcos sem capacete, retratando seu rosto vivido e predestinado. Este olhava para cima em tom de maioridade, em seu cinto uma bela espada adornava sua figura e em seu braço esquerdo pendia o escudo, sempre preparado para defender sua vida e a de seus seguidores. Esses eram pensamentos que fluíam naturalmente na mente de Dedanogor e davam a ele um sentimento de admiração a aquele soberano que conquistou seu reino de forma tão nobre. - O que posso fazer para conhecer o rei? – Perguntou inocentemente. Os guardas que os acompanhavam riram dele, e o mesmo não gostou olhando-os com fúria. - Não é tão fácil assim garoto. – Respondeu seriamente Alquemius. – O rei não atende qualquer um que queira vê-lo, tens de provar teu valor para que

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tenha a possibilidade dele gastar seu tempo em conhecê-lo. – Suas palavras tinham certo peso de interesse no próprio Dedanogor. - E o que tenho de fazer para que isso aconteça? - Tens uma escolha. – Alquemius falava enquanto adentrava os salões das sentinelas reais, local que conhecia como a palma de sua mão. Percebia que o garoto era novo e não só era desprovido de medo, como gostava de lutar. Via nele potencial, parecia ser vivo e inteligente, ou era ele que o alistaria ou seria alvo para ser aliciado pela Adaga de Aço, guilda de ladrões muito competentes na região de Celeus, Maior e Derghemom. - Você é forte garoto. Muito. Tem espírito de guerreiro. Precisamos de um braço forte como o seu. – Os guardas que os acompanhavam espantaram-se com as palavras de seu líder. Um deles tentou contestar, mas foi logo interrompido. - Como disse, tem uma escolha. Posso esquecer o que aconteceu na praça e entender que foi legitima defesa, aqueles homens têm um currículo de abusos. Se estiver disposto a ingressar como soldado comum e trabalhar para o seu crescimento como guarda real. - Ou? – Continuou Dedanogor. - Ou, posso acusá-lo, como um forasteiro que adentrou em Celeus sem o conhecimento de suas leis e regras, o que não é uma desculpa para descumpri-las, e prende-lo por assassinato premeditado, colocando-o na cadeia por muitos anos. Vai adorar nossas prisões cheias de humanóides e seres desprezíveis. – Falou rápido Alquemius. - Escolho ser soldado, não tenho dinheiro e preciso trabalhar. E o sobre o Brutal o que acontecerá com ele? - Ele será julgado por destruição de patrimônio. E por agir sobre o Código de Bullbara49 dentro dos muros da cidade. Nós proibimos o código de Bullbara no reino de Celeus. Dedanogor sabia o que era aquilo, o brutal estava perdido. Bullbara a região dos humanóides, uma terra sem leis, onde reis subiam e caiam diariamente. Um país que desde tempos imemoriais conhecia a guerra, humanóides contra humanóides, sempre foi assim. Lá rezavam para Thú50, o deus da guerra. - Ele não sabia disso. – tenta defender o humanóide. - Não é desculpa para cometer o crime. Todos somos bem crescidos e respondemos por nossos atos. – Severo sempre, Alquemius. Enervous olhava a tudo, mas nada falava, em sua mente conseguia compreender a fala dos humanos, porém preferia não se intrometer, ele que era diferente de sua raça, havia sido agraciado com uma inteligência quase humana. Usava seu estigma de ignorante a seu favor. E na verdade testava esse novo amigo, sabia que não seria preso, mesmo que tivesse que abrir as portas ele mesmo com sua clava mágica conhecida como ¨Quebra parede¨. - Faremos assim. Eu me alisto como soldado e prometo que serei um exemplo entre eles. E você permite que o brutal fique comigo, também como soldado. Eu cuidarei para que ele não faça nada errado.

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(Código de Bullbara) - Uma norma não escrita que permitia a qualquer humanóide ofendido tomar a lei pelas próprias mãos e se vingar daquele que o ofendeu, desde que este o fizesse sozinho. (Thú) - Deus da guerra. A energia eterna. Competições, paixões grandes conquistas, são celebradas em nome deste deus. Também conhecido como o deus da vida. O vigor, firmeza, altivez.

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Tanto Enervous, como Alquemius ficaram felizes de ouvir essas palavras da boca do impetuoso jovem. Do lado do capitão Alquemius, essa era uma ótima idéia, o garoto já havia conseguido controlar o brutal a pouco na estalagem, um soldado brutal, seria excelente. Do lado do humanóide Enervous, ouvir estas palavras de um humano que mal o conhecia, e o estava protegendo, estranho sentimento, esquisito, contudo admirável. Sorriu dizendo. - Querer ser soldado, ganhar soldo e lutar com propósito, aceitar. Neste dia muitos foram os boatos que correram pelos corredores e salas do aquartelamento. Alquemius o tão respeitado capitão da guarda real, havia recrutado dois novos soldados para a guarda. Um era um brutal insano e o outro um assassino. ξ E assim o jovem Dedanogor esta em sua nova escola, aquela que o transformará por completo. Os dias passam, o treinamento físico é fraco para ambos. O treinamento de Thorkyn em um dia era quase o curso completo. Participam de competições internas dos soldados e são logo os campeões da cidade. Lutam com armas de madeira e armadura de palha e couro, mas sempre deixam alguns feridos. Vão a festas e divertem-se, começam a perceber um mundo de drogas e sexo. São condecorados por serviços prestados, prendem e matam sem pudor, e logo se tornam da guarda de elite do rei. ξ Um dia estão juntos comendo em uma taberna que serve comida típica de Derghemom, sozinhos como sempre. Os soldados mal falam com eles, são párias dentro de uma comunidade. O brutal olha de cima de seus quase três metros de altura o jovem humano. - Por que não me abandonou aquele dia em que nos conhecemos nas ruas escuras desta cidade de mentiras? Se não fosse por você estaria preso ou morto. – Um ano já havia se passado, entre patrulhas e combates esporádicos na cidade, hoje comemoravam a entrada para a guarda de elite. Enervous havia aprendido mais ainda a língua Celíaca e surpreendia a todos quando falava. - Uma das primeiras coisas que aprendi nesta vida é que ninguém é melhor que outrem. Isso me foi ensinado por um guerreiro de cor negra, tão ou até mais excluído pelos outros, como você. Foi-me ensinado que fora sua aparência, títulos, fama ou riqueza a verdadeira diferença está no espírito de cada um. Enervous, você para mim não é um brutal ignorante, é um amigo mais inteligente de outros que já conheci. – Respondeu Dedanogor em meio a uma garfada na peça de pernil que haviam pedido. - Quero que saiba que sou muito agradecido pelo que fez. Nunca esquecerei, mesmo sabendo que a memória de um brutal é curta e não guarda muitas coisas. – Terminou com uma grande risada, que fez com que os outros ali presentes parassem suas conversas e os olhassem com curiosidade.

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Menos um homem, que de longe, em um canto mais escondido por varias vigas da taberna, observava aos dois. Coberto pelo capuz de sua capa negra, em silêncio tomava um gole de sua taça de vinho. - Um brinde então as nossas conquistas e a liberdade!- Disse o único humano daquela mesa. - A isso eu prezo, a isso eu quero. – Respondeu o único humanóide daquele ambiente. E ambos levantaram suas canecas de cerveja de Derghemom e bateram com um alto som. O som alto como suas risadas no decorrer da noite de bebedeira. Eram assim estes dois, não possuíam família para voltar à noite após o trabalho, portanto gastavam seu soldo em noites de bebida e mulheres fáceis. Eram conhecidos em tabernas, e vez ou outra recebiam um pouco mais por fora dos donos destes locais ao expulsarem os clientes inconvenientes. Faltava menos de um mês para a cerimônia de promoção para a guarda do rei. Neste dia o próprio monarca Marcos Celeus iria ter com eles. Muitos dos soldados que dormiam no alojamento já os olhavam com inveja. Sempre foram tratados como diferentes, mas respeitados por seu tamanho e coragem. ξ Um dia de sol que ameaçava se por a qualquer momento. Dedanogor estava sentado em sua cama dura e bem feita. Olhava pela janela do dormitório, imaginando este dia, em que conheceria o rei. Pensava em como falaria com ele e de suas aulas de etiqueta, não queria parecer bobo. Enervous estava na cama ao lado, duas na verdade reforçada com ferro para não ceder ao seu peso. Ele também viajava em pensamentos, lembrando-se da diferença que era a civilização humana da realidade cruel na região de Bullbara. Ambos foram acordados de suas reflexões por uma porta que fortemente se abria. - Rápido! Soldado Dedanogor e soldado Enervous, estão sendo chamados ao jardim pelo capitão Alquemius da guarda real. Levantem-se e armem-se imediatamente. – O soldado entrara um tanto esbaforido e passava a informação mais rápido do que podia respirar, demorou-se alguns instantes até que retomasse o fôlego. Prontamente ambos levantaram-se e colocaram suas armaduras, armando-se. Os outros guardas lá dentro olhavam com inveja, um chamado de Alquemius. Todos queriam ser liderados por ele. Lá fora o sol de Solarius teimava em permanecer no céu, apesar do tardar da hora. Um carroção de guerra os esperava, nele mais quatro soldados da guarda de elite, trajavam armaduras de placas e portavam escudos. - Subam logo! São necessários na situação que esta a acontecer. – Falou com voz firme o capitão de armadura mágica. - Mas não somos ainda da guarda real – retrucou Enervous enquanto subia no carro fazendo este estalar com seu peso. - Sempre foram especiais e este é o dia para me provarem que não errei em brigar com meus superiores por recrutá-los. Enervous tire sua bunda humanóide gorda de cima da carroça e vá correndo ao nosso lado! – comanda Alquemius. Os outros guardas de feições duras e inclusive Dedanogor riram baixo, do que seu capitão falava tão seriamente. Enervous era muito pesado para ser transportado.

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A carroça puxada por quatro fortes cavalos partiu rapidamente do quartel, a frente dela em cima de seu cavalo, Alquemius abria caminho nas ruas de paralelepípedos construídas há trezentos anos atrás por engenheiros de Maior. As pessoas olhavam assustadas o passar do carro, mas o emblema do escudo gravado a cores do lado da carroça trazia segurança em seus corações. A guarda de elite Celíaca era conhecida por resolver seus problemas com competência. Enervous corria, ficara para trás, não era tão rápido como os cavalos, mas com certeza agüentava mais tempo este exercício que eles, sua constituição beirava o magnífico. - E então garoto, agora é pra valer, chega de prender pequenos bandidos ou bater em bêbados. – Fala um dos guardas para Dedanogor, suas palavras perdiam-se no vento que batia em seus rostos conforme os cavalos avançavam pelas ruas. - Não tenho medo de enfrentar o que conheço. Só temeria se fosse algo desconhecido. – Disse sinceramente Dedanogor, o soldado mais novo ali presente. - É sempre o desconhecido garoto, desde magos loucos por bebida, ou criaturas saídos dos esgotos. – Falou alto um terceiro, pois o barulho aumentava e a carroça pulava ao bater em pedras soltas na rua. Uma aljava com flechas para besta, mal aficionada, pulou para a rua espalhando-se ao chão. - É verdade. È sempre uma surpresa para nós. Lembra da vez que... - Cuidado! – Berrou a frente Alquemius para um pedestre distraído, este caiu no chão de pedras assustado com o cavalo e em seguida a carroça que passava em velocidade elevadas. - Estarei pronto para ser tão competente quanto aqueles que lutam ao meu lado. – Ele sempre foi bom com as palavras, os homens que conseguiram ouvi-lo e não estavam tão preocupados em se agarrar ao carro que voava rua abaixo, sorriram de orgulho deles mesmos. O cavalo passou por dois grandes edifícios e parou. Um alto relincho se fez ouvir, da força do comandante ao segurar o estribo do animal e fazê-lo parar de pronto. O carroção parou com menos destreza, passando Alquemius e entrando de vez na clareira de prédios que em seu centro ficava uma grande fonte, com seus seis metros de diâmetro. No meio dela uma estátua de uma ninfa elfica, linda escultura, que fazia jorrar de uma flauta em sua boca a água não tão límpida quanto à cena. Um cavalo chegou a patinar no paralelepípedo de pedra e quase veio abaixo, se não fosse pelas amarras que o prendiam aos outros. Todos olhavam perplexos, tentando encontrar o porquê do chamado. A fonte era rodeada de prédios de mais de cinco andares, construções bem grandes por sinal. A frente viam uma estalagem conhecida por seu alto refinamento, a esquerda pequenos prédios de lojas, com vitrines de vidro. Logo atrás deles o prédio da guilda de transportes, seja por mar ou terra. Metade de uma traineira que saia do prédio o adornando a altura de seus três metros. A esquerda um restaurante famoso por sua comida variada e pratos orientais vindos da distante Tao, mesas postas na rua estavam adornadas para servir o jantar.

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Sim, existiam pessoas neste largo de prédios, todas elas olhavam para a estalagem, nenhuma estava sentada à mesa ou na beirada da fonte. - O que ocorre por aqui? – Dizia em alto e bom tom Alquemius de cima de seu garanhão, já tomando a situação como sua e direcionando a atenção. Andava para frente e para trás, perto do prédio da guilda. -Capitão, capitão! – Dois guardas chegavam aos tropeções, vindos da estalagem, era nítido o rosto de desespero destes homens feridos. - Nos acuda senhor! – Pedia o segundo guarda, que mancava forte devido a um ferimento grave na perna. - Reportar! – Alquemius abafava os ânimos e trazia a realidade de volta destes corações atormentados. - Eles são quatro, senhor. Estão segurando um contingente de quinze homens dentro da estalagem. - Baixas? – Continuava frio o capitão. O silencio tomou a praça e pode-se ouvir o som de aço com aço, e vidro se quebrando vindo da estalagem. - Cinco mortos e quatro feridos, senhor. Eles... - Algum mago entre eles? – Dois cidadãos correram em direção aos guardas, foram impedidos pelos homens que já desciam da carroça, Dedanogor observava inerte a Alquemius, sua preocupação não era com a estória e sim com os fatos. - Não há magos senhor, só um deles é um padre, um padre de BalGor senhor. - São anões?! – Perguntou surpreso. - Sim , senhor! – São pequenos e mortais, eles... Alquemius virou-se para seus homens. - Homens! São quatro deles, nós somos sete... Onde está o brutal? – olhou para Dedanogor, este por sua vez olhou para a rua de onde vieram, nada. - Que seja! Humanóide imprestável! Somos seis e sabemos nossa função. Anões são adversários imprevisíveis e perigosos, mas nós vamos mostrar a eles que não se pode fazer o que se quer em Celeus. - Senhor? – Timidamente se dirigiu a ele Dedanogor. Era o único que em vez da tradicional espada e escudo, trajava uma espada de duas mãos montante presa em suas costas, e um machado em sua cintura. Alquemius somente o olhou de cima de seu cavalo, seus olhos abertos e atentos. - O sol já vai se por e logo estará atrás dos prédios. Logo teremos pouca visibilidade. Não é verdade que os anões podem ver no escuro? - Bem falado garoto, bem falado. Os anões têm melhor visão que a nossa no escuro por vivem abaixo da terra, em túneis. Vocês dois, acendam as lamparinas dos postes já por precaução. – O capitão se dirigia aos dois soldados feridos que acenaram com a cabeça. Olhou depois para o jovem soldado, que o olhava de volta. - Um estrategista. - pensou. - Homens, formação! Vamos entrar! – Sua voz era firme e de pronto os quatro soldados de elite formaram a ponta de um triangulo. Dedanogor sem saber o que fazer se colocou a frente. - Para trás garoto! Você hoje mais aprende do que faz. – A segurança do capitão era única. – Vamos homens! Nunca cansar! As pessoas já tinham se movimentado para perto dos soldados, em meio de empurra-empurra e alguns xingamentos, os dois soldados feridos já

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caminhavam para os postes da praça, afim de acendê-los para auxiliá-los se a batalha perdurasse. Os guardas da elite Celíaca liderados por seu capitão à cavalo, marchavam resolutos em direção a estalagem, contornando por hora a fonte da ninfa elfica. Da porta do hotel, a tropeções um soldado, saia segurando seu estomago, muito sangue e sua expressão era de pura dor. - Soldado a mim! – Berrou Alquemius enquanto galopava com seu cavalo em direção ao soldado. Parou ao seu lado e deu- lhe a mão para que este subisse no lombo de sua montaria. Foi assim que caiu na armadilha. Enquanto tentava ajudar o guarda ferido, não viu a saída de um dos anões pela porta que rodando seu machado acerta a perna da montaria. Fazendo-o despencar no chão por cima do soldado ferido. - Capitão! – Um dos soldados grita de desespero. Ao mesmo tempo, o vidro da janela superior se quebra e dele junto com cacos a voar, surge um segundo anão que cai de forma graciosa, como se amparado por alguma magia, na frente da pequena tropa. Esta armado até os dentes, com uma armadura negra e cinza, escudo de grossa madeira e um machado de batalha de lamina dupla. Sua barba é negra como a noite que se aproxima, e seus olhos demonstram uma fúria louca e distante. Por um momento os homens que vão à frente titubeiam e ele os ataca, com um golpe forte na perna, ferindo gravemente um dos guardas de elite. - Nunca cansar! – Pode ser ouvido vindo de não muito longe, saindo de baixo do cavalo e desembainhando sua espada de aura azul mágica. – Nunca cansar, homens! Não será hoje, não será hoje! – Alquemius encara face a face o anão de barbas brancas, este parece ser o mais velho do grupo e com certeza o seu líder, traja armadura e uma marreta de aço como arma. O soldado agora jaz abaixo do cavalo. - Chega de mortes, mestre anão! Vamos resolver isso pacificamente. – Mesmo com estas palavras, os dois se estudam e andam em círculos, com suas armas altas e sua guarda preparada. Logo atrás, os homens já se recuperam da investida do louco anão e o rodeiam, Dedanogor puxa sua espada montante, e quase que instantaneamente o circulo se abre e os dois são deixados a sós para lutarem. - Stra Darf, Num Darf!51 – Brada o anão de barba negra que traz consigo um colar onde estão penduradas mãos de hienídeos, o cheiro de carniça se faz presente. - Antes de chegar a mim, te farei sangrar. – Fala calmamente Dedanogor, palavras de intimidação que não funcionam para este estrangeiro vindo de Manaath. O anão avança, mas com um giro rápido Dedanogor faz bom uso das aulas de esgrima e acerta o guerreiro no ombro, fazendo-o deslocar-se alguns passos e abrindo sua armadura, onde se pode ver agora seu braço peludo e sangue do corte. Mas apesar de pequeno o corpo de um anão é robusto e muito forte. O anão apenas sorri e continua. Agachando e diminuindo ainda mais seu tamanho, ele acerta o jovem guerreiro na tíbia fazendo quase seu osso partir em dois. A dor é dilacerante e diminui a vontade de lutar. Como render-se fosse uma opção para não mais sentir dor. Mas para aquele que foi ensinado por Thorkyn
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(Stra Darf, Num Darf) – Língua anã. Significa: Nascer anão, morrer anão!

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e forjado pelo ódio do seu pai Gajão, finca seu pé de novo ao chão, e ignorando a dor levanta sua espada ao ar, para como uma avalanche descer sobre o elmo do pequeno, mas não menos perigoso adversário. - Nada queríamos, com a confusão em terras humanas. Mas ela nos perseguiu até aqui. A desconfiança de sua raça chega até ser desrespeitosa. – Dizia o anão de barbas brancas, adornadas por anéis de ferro grossos que a seguravam em um penteado austero. Continuavam a medir-se, e vez ou outra um golpe era desferido no ar, e aparado pelo outro. - Alguns não compreendem os valores da raça dos anões, filhos de BalGor, aquele que veio da pedra. São ignorantes e não são desejosos de melhorar. – Falava respeitosamente Alquemius, mesmo estando pronto para qualquer que fosse a reação, deste anão mais velho. - Sempre que temos que vir á território humano, nos preparamos, despimos nossos orgulhos, e ponderamos mais de duas vezes nas situações vindouras. Mas hoje foi demais! – Argumentava de dentro de sua armadura de pedra, adornada com desenhos e entalhes, da melhor forma que os anões fariam. Ele estava realmente bravo, deveria ter sido desrespeitado por alguma calunia ou algo semelhante, pensava Alquemius. Não era difícil deixar um membro desta raça nervoso, valorizavam por demais a honra e o respeito, a graus até às vezes incompreensíveis para as pessoas comuns. - Desde já em nome de Celeus, peço-te desculpas e uma chance para repararmos o erro aqui cometido. Mas também de antemão, alerto que as ações aqui tomadas, como a morte de nossos soldados será levada em consideração no julgamento final. – Sabia tratar seus inimigos este nobre capitão, tanto em conversa como em luta. A espada montante de Dedanogor acerta o ombro, no lugar do elmo, ombro este já ferido, o anão solta um berro rouco no ar. Sangue espirra e tendões são partidos. Com combatentes tão fortes, um único golpe pode decidir uma contenta. Um dos guardas de elite tenta se esgueirar por trás, um sibilo no ar é seguido de uma flecha de besta que atinge suas costas, berrando de dor ele se atira ao lado da fonte. Os homens olham para todos os lados, mais duas flechas voam e resvalam nas armaduras de dois soldados distintos. Um anão de barba rala e chapéu pequeno se colocou em uma das janelas e já prepara com sua besta a próxima flecha. - É melhor desistir filho de BalGor, ou te arrancarei o braço. – Diz alheio ao que esta acontecendo a sua volta, Dedanogor Durgovitch. - Humano... ainda nem comecei com você. – Fala pela primeira vez em Derghemom este anão de faces duras. Com isso tenta acertar novamente a perna do rapaz, que num pulo evita o golpe de ultima hora. Dedanogor olha com outros olhos este adversário, corajoso, incansável e... louco. Mais um anão surge, agora vindo da janela do piso térreo. Este sai dela em um pulo e cai de pé, perfeito como um ginasta. Sua barba ruiva, adornada com anéis de ferro, contrasta com sua vestimenta cor de cobre que cai até suas botas e como arma possui apenas uma maça, nas vestes o símbolo de BalGor, uma grande montanha, com o cume de aço. - Por que lutamos filhos de Rainaar? Por orgulho, ou por fé? – Sua pronuncia na língua Celíaca era perfeita e o som da sua voz soava como um trovão para todos na praça.- A vida já não é difícil o suficiente para lutarmos

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raça contra raça, nestes tempos que sucedem o grande cataclismo? – Ele era instruído, mas nem todos na praça entendiam suas palavras. O anão tinha grandes sobrancelhas ruivas, estas pareciam tão despenteadas como a juba de um leão. Caminhou até a montaria de Alquemius, que estava caída ao chão ferida. Observou o soldado que inerte se encontrava abaixo dela. Mexeu a cabeça em sinal de desaprovação. O cavalo ferido levanta a cabeça para olhar, e com medo relincha. Alheio a tudo Dedanogor luta por sua vida, o anão louco, agora começa a endurecer os músculos do rosto como se estivesse em muita dor. Os homens a sua volta soltam palavras de encorajamento. Mais dois golpes de espada são desferidos, ambos encontram o aço da arma do oponente. Berros e aclamações a cada golpe desferido pelo jovem guerreiro. Um dos golpes acerta em cheio o escudo do anão de barbas negras e o parte, mesmo este sendo de madeira maciça. Os soldados de elite exclamam alto. Dedanogor sente-se bem e orgulhoso, finta golpes que fazem o anão do colar de mãos de hienídeos, recuar. Os guardas continuam a incentivá-lo e o jovem guerreiro, avança prestando atenção nos clamores. Esse fora seu erro. Concentrado no combate e apenas nisso, o anão do machado de lamina dupla dá rápidos passos para frente mirando na perna magoada do humano. Seus golpes são rápidos e certeiros, o primeiro falho, o segundo é aparado pela gigantesca espada de Dedanogor, o terceiro acerta em cheio e faz o guerreiro cambalear, o quarto golpe acerta fazendo-o cair, o quinto já é mirado no peito do adolescente... Um barulho de sino ecoa em todo o largo deste lugar. Ao mesmo tempo em que o cavalo relincha, o aço contra aço explode na frente dos soldados de elite que perplexos assistem uma imensa clava de puro aço acertar a armadura negra e cinza do anão louco. Este é arremessado para trás e só para, por causa da parede da estalagem, que quase se parte com o peso do guerreiro anão. - TuRan! – Berra o anão de barbas brancas que esta frente a frente com Alquemius. De pé no meio do circulo dos soldados de elite e com Dedanogor caído perto de si, à figura imponente de Enervous o brutal, suando muito e ofegante, traz pendurado em seus ombros e pescoço, um varal com roupas ainda presas que devem ter sido arrancadas por ele ao correr atrás da guarda de elite. Um silencio no lugar dos brados de guerra e de luta, toma o lugar repentinamente. As pessoas que se escondem dentro do restaurante, àqueles que estão atrás do vidro da guilda de transportes, alguns agachados do lado esquerdo da fonte da bela ninfa, todos observam a cena. Anões olham para humanos e os humanos olham para os anões. Histórias de raças distintas e parecidas em relação a encarar a vida com trabalho e dedicação. Diz um ditado em Derghemom, que todo o anão tem um pouco de humano e vice e versa. Agora a tensão paira sobre o intangível do brio e altivez. TuRan, o anão do colar de carne, encontra-se desmaiado no chão. Dedanogor caído e sangrando muito. - BalTrum aonde vai? – Fala o anão da armadura de pedra. - Acalma-te DorIan. – Com muita calma na voz e carisma no andar. BalTrum caminha resoluto até o humano caído, o brutal se posiciona para atacá-lo, porem as sobrancelhas ruivas se levantam em sinal de calma. Abaixa-se e reza baixo para o Deus dos anões. De suas mãos uma luz azul e

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forte brilha na noite que esta a cair. Toca a perna, que agora tem uma cor roxa devido ao sangue no local. A mão pequena toca na perna que brilha o azul da cura. - Senhores da guerra, fazem a paz agora aqui, antes que almas inocentes sejam maculadas pelo aço do orgulho e da discórdia. – Fala em tom brando o anão de vestes largas. O toque ameniza a dor de Dedanogor que olha estupefato o anão clérigo. Já pode andar e levantar, e é o que faz. - Obrigado. – Balbucia timidamente, o humano. Perto dali, Alquemius e o anão de barbas brancas e armadura de pedra, DorIan, se encaram mutuamente. Em seus olhos há apenas a tentativa de compreensão do que ali aconteceu. O primeiro a quebrar o silencio desta vez é o anão. - Concordo com BalTrum, os nervos a flor da pele de mentes treinadas para o combate, perdeu-se em algum momento. - O que realmente aconteceu senhor DorIan? – Questiona Alquemius ao seu não mais adversário. Já abaixando sua espada brilhante e a embainhando. - Houve um momento na conversação com o estalajadeiro hoje, que ele queria cobrar mais caro para lavar nossas roupas, pois como ele mesmo disse: ¨Como todos os anões, vocês só tomam banho, uma vez por mês e portanto suas roupas são imundas¨. Alquemius olhou surpreso. Todo aquele acontecimento funesto, havia ocorrido por causa de um motivo tão torpe. - Estamos à disposição agora para quaisquer investigações e depoimentos. – Disse decidido DorIan. Alquemius olhou para seus homens, Enervous e Dedanogor de pé aguardando suas ordens. - Homens! Levem estes anões, com respeito e o decoro que eles merecem. Os guardas de elite não se apressaram para acatar as ordens, BalTrum ajudou TuRan a ser colocado na carroça. O anão de barba rala desce do terceiro andar da estalagem, e se juntou aos outros. DorIan, olha com reverencia para Alquemius e o acompanha pacificamente. No largo da fonte da ninfa, as pessoas que assistiam aplaudem a guarda com entusiasmo, seu líder o capitão Alquemius era um homem que tinha a fama de sempre resolver os problemas, e era um espelho das virtudes de seu rei, Marco Celeus. Voltaram à guarnição escoltando os quatro anões, eles eram um grupo em serviço do reino de Manaath, seu nome era ToraLar, ou Quebra Trovão. Na realidade eram um dos muitos grupos de aventureiros do mundo de Minlurd, em busca de fama, glória, descobertas arqueológicas, dinheiro ou poder. Estes grupos se formavam com pessoas de habilidades espetaculares e propensão para o perigo. Havia até um sindicato para eles que requeria nos reinos e países de Minlurd, desde isenção a impostos, até reconhecimento público.

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Capítulo 6 - Elite
O cotovelo grosso esta apoiado na mesa de madeira velha, a mão segura a cabeça, perdida em cobranças. - Fale comigo Dedanogor, ainda esta pensando naquela luta? – Meses se passaram, tanto Enervous como Dedanogor foram nomeados guardas de elite de Celeus, em uma singela cerimônia na grande capital Carpes, a qual o rei não apareceu. - Ainda, meu amigo humanóide, ainda. – Responde enquanto levanta seus olhos azuis, herança de sua mãe. - Homem, muitas lutas já se passaram depois desta, e se saiu muito bem em todas. Fomos até condecorados com a flor de lis, por nossa resposta ao chamado do dever. Se bem que às vezes eu nem sei por que estou ali, o que eu só quero é... – termina a frase com uma risada alta e rouca, o gigante humanóide de Bullbara. Dedanogor ri baixo de seu amigo brutal, estão na estalagem preferida de ambos, O Porco que Guincha, cheia de maus elementos e famosa pela sua cerveja Derghemoniana. - Errei amigo, errei em não me concentrar no combate. Fiquei orgulhoso demais pelos elogios do momento e não me preocupei no desafio a frente. Perdi o foco naquele momento, e perdi o combate. Só não morri graças a... - Graças a você novamente, que se não tivesse me tratado tão bem, não teria um brutal ao seu lado. E vamos reconhecer, eu luto assim hoje, meio que despreocupado, pois sei que você vai estar cobrindo o meu lado. E onde por Amdosias esta minha cerveja? Roco?! – Berra alto, sem se preocupar em incomodar os outros clientes. Um homem baixo, com os ombros caídos e cabeça quase quadrada, se aproxima dos dois rapidamente. Ele não só os conhece como guardas de sua amada cidade, mas também por protegerem a estalagem, contra as guildas de ladrões de Carpes. - Sim Enervous, desculpe a demora. Quer outra rodada? A décima estou certo? – Roco sempre contava as cervejas de Enervous, mesmo impressionado pela constituição dos dois, já havia os visto muito bêbados e brigando por nada, contra outros, ou até entre eles. - Vamos Roco, de a cerveja para este mostro dos pântanos de Clay, antes que ele comece a reclamar. Roco, onde está o nosso peixe com batatas? – Dedanogor já havia mudado seu humor, seu amigo brutal fazia a vida ficar mais leve. Violenta, mas leve. - Já está saindo senhores, sem custo algum. – Responde misterioso o estalajadeiro. - Sem custo? Desde quando nos dá presentes seu porco ganancioso? Quer algo de nós, mais uma vez não é? Vamos, me diga logo qual é o homem que lhe deve, para fazermos mais uma vez as suas cobranças. – Zombeteia Dedanogor, acostumado a estes trabalhos esporádicos, que lhes rende uma ou duas peças de prata da divida do próprio devedor. - Não jovem guerreiro, desta vez não sou eu que lhes pedirá favores, mas sim uma figura ilustre, nobre, que está aqui à procura de vocês especificamente. Está aqui os aguardando há dois giros da ampulheta antes de chegarem. 68

Os dois olham em volta da estalagem de paredes de madeira. A luz é fraca, a pedido dos próprios freqüentadores deste local. Alguns deles são procurados da guarda e sentiam-se inquietos antes, com a presença dos dois, mas descobriram que eles fora de suas armaduras e horário de serviço, não estão nem um pouco preocupados com quem é ou deixa de ser ladrão. - Não vejo ninguém de diferente aqui hoje. – Desdenha Dedanogor, olhando em dúvida para seu companheiro de armas e bebedeira Enervous. Este por sua vez termina em um gole o resto de sua cerveja, e afirma com a cabeça. - Ele é um membro da casa de Vooca, uma família nobre da cidade, mas que está em luta para não perder sua nobreza. – Relata interessado na sua própria inteligência, Roco. Em Carpes, capital de Celeus se localiza a sede de todas as famílias de nobres, compostas da casa de Celeus, parentes do rei e regentes do poder atual. Antes uma família do império de Maior. A casa de Zadre, uma família de nobres ávidos pelo poder e detentores de vários pedaços de terras em toda Celeus. A casa de Ristan, aristocratas de pensamentos conservadores e conhecidos por seus poderes políticos através de intrigas. A casa de Limpis, uma burguesia rica que comprou sua entrada no mundo da nobreza de Celeus. E por último a casa de Vooca, nobres decadentes com pouca força e quase sem privilégios. - Um Vooca? – Pergunta Dedanogor para espanto, tanto de Enervous, quanto de Roco. O estalajadeiro permanece de pé, porem ainda é mais baixo que ambos sentados. – O que um Vooca quer com seres desprezíveis como eu e meu amigo? – Dedanogor se perde em pensamentos, seus anos de estudo com os professores de Derghemom, e as palavras de Thorkyn sobre o homem completo, o fez sempre manter sua mente em exercício. Por isso era respeitado entre os outros membros da guarda de elite. Sabiam eles que ele era um brutamontes, mas seu silencio não demonstrava ignorância e sim uma inteligência sinistra. Ele era constantemente indagando por Alquemius na feitura dos planos táticos e já ascendia a mais uma promoção. - Eu não sei dizer, mas acho que já iram descobrir, pois ele esta vindo para cá. – Dizendo isso Roco se retira, já ouvindo os pedidos nervosos de outros clientes, ávidos por comida, ou melhor, por bebida. Uma grande figura caminha até a mesa de ambos, Enervous puxa para seu lado sua inseparável clava, ignorando o sinal negativo de Dedanogor. - Senhores, permitam-me apresentar-me, eu sou o Baronete Hireegard, membro da casa de Vooca e... – A estranha figura coberta dos pés a cabeça por um manto de tecido fino e preto se vê interrompida por uma risada nervosa vinda do brutal. - Então é isso que nós merecemos? Até eu sei que um baronete é uma dos mais baixos títulos da nobreza. – E continuou a rir. Dedanogor permaneceu sério encarando a figura, que coberta por seu capuz não demonstrou a ira interna que o consumia por tamanha falta de educação. - Sente-se. – Disse resoluto Dedanogor, observava cada movimento do intitulado Baronete Hireegard e já olhava os espaços abertos entre as mesas, em caso de luta.

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- Obrigado. – Respondeu cortês Hireegard, enquanto sentava-se, porem mantendo-se coberto pelo capuz. – Espero que me entendam, permanecerei com o capuz apesar de saberem quem eu sou. Não posso ser visto neste ambiente. – De seu manto Dedanogor já podia avistar coberta uma espada longa e olhando atento para os lados, percebia que ele estava sozinho, aparentemente. Enervous terminou sua risada para si mesmo. E olhou a séria expressão de seu companheiro humano, tornando-se sério e amedrontador. - Posso começar a nossa conversa dizendo que a dupla, já possui uma reputação de serem bons naquilo que fazem. São profissionais respeitados e suas condecorações ao longo deste tempo, já demonstra isso. – Educado Hireegard continuava a falar. Enervous riu baixo cheio de orgulho, entretanto Dedanogor retrucou. - Parece acompanhar nossos passos há tempos, pelo jeito que fala. Já o vi também. Gosta de andar por estes ambientes, vez ou outra, e contrata também prostitutas para satisfazê-lo, sejam mulheres, ou homens. – Cada palavra foi falada, olhando para o centro escuro do capuz, como se estivesse mirando os olhos ocultos do baronete. Tanto Enervous quanto Hireegard jogaram suas cabeças para trás em sobressalto. Como ele sabia tanto? – Pensava Enervous. O humano tinha olhos vívidos, que nunca paravam, virava ou mexia, estava a conversar com pessoas de reputação duvidosa. E parte de seu soldo era gasto no que Dedanogor chamava de: informação importante. O brutal se alegrou com seu companheiro e tentou ser também inteligente. - Isso mesmo. Estamos sabendo de seus problemas. – Jogou com as palavras o imenso brutal. - Estão? – Hireegard, perguntou assombrado. Havia dúvida em sua cabeça, já que Dedanogor havia falado a verdade. Ele, apesar do titulo, gostava de se relacionar com prostitutas em vez das fáceis mulheres da corte. E também gostava de meninos. Dedanogor olhou para Enervous, como se estivesse o censurando, mas mudou de idéia e continuou com a farsa do amigo. - Ele fala a verdade. Temos informantes por toda Carpes, que tanto nos informam o esconderijo de um larapio procurado, quanto das fofocas da corte. - Das fofocas e muito mais... - Enervous começou a se empolgar, e foi cortado por um olhar critico de Dedanogor. - Minha vida está em ruínas, é verdade. - Baixou sua cabeça, e o capuz deslizou um pouco para trás expondo um pouco de cabelo comprido e loiro. – Minha família já não é tão forte como antes, são todos uns fracos, e estamos perdendo poder para os Ristan. Sei que trabalham bem e estou precisando de seus serviços. - Não somos mercenários da espada, temos um emprego e... - Somos mercenários sim. – O brutal interrompeu a Dedanogor de forma agressiva. – Vendemos nossas armas a Celeus e nossos serviços ao rei. Ou vai me dizer que faz isso por amor à pátria? – Às vezes, Dedanogor podia ver a determinação de Thorkyn em seu amigo humanóide. Sorriu consigo mesmo em perceber em Enervous os nuances de inteligência, estranho a sua raça. - Perdão senhores, não achei que esta questão iria levar a um levantamento moral da sua parte. Pensei que já eram resolvidos nestes assuntos. – Lindas palavras, pensou o narcisista Hireegard.

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- O que? – Perdeu-se na conversa Enervous. - Diga logo do que se trata, e talvez possamos chegar a um acordo. Já que meu amigo me fez abrir os olhos para novos horizontes. – Dedanogor já pensava do que se tratava, olhou para os lados e agora percebeu que havia sim uma figura que os olhava de longe, sentada em uma mesa e de costas para uma das paredes. O lampião acima dela havia sido apagado propositalmente, mas pelas curvas, era uma mulher. - Primeiro me diga o nome dela. – Disse certo que estava em suas deduções. - Ela quem? – Perguntou dissimulado Hireegard. - Você sabe quem. – Afirmou mentiroso Enervous, olhando para Dedanogor com cumplicidade sarcástica. - Ela deve ser uma guarda pessoal, ou tem três pernas abaixo da mesa. E esta muito interessada na nossa conversa. - Não consigo esconder nada de vocês. Impressionante. São realmente profissionais. - Não venha com discursos políticos, eles servem bem para a corte, não para nós. Quem é ela, o que quer de nós e de quanto estamos falando? O baronete Hireegard levantou seu braço para cima e fez um sinal no ar, chamando a figura atrás dele. De pronto ela se levantou e caminhou até eles, suas formas e feições surgindo e ficando mais claras a cada lampião que passava. Dedanogor abriu os olhos, como se estivesse vendo um prato suculento, ela era linda. Seu corpo era forte como o de uma atleta, com coxas fortes e grossas, sua armadura era pequena e ágil, deixando a mostra partes sedutoras de seu corpo. Seios firmes e médios sustentavam-se em um tronco esquio. Sua pele morena pelo sol e seu cabelo maravilhosamente preto. Muito preto, e era preso bem ao alto como a crina dos cavalos. Brilhava à luz artificial da estalagem. Seus punhos estavam cobertos por braceletes, usava botas altas e em seu cinto adornado pendia uma espada curta. Com cabo trabalhado por ferreiros que sabiam seu trabalho. A estalagem parou para vê-la passar. - Esta é Sâmara. Minha recente empregada e que se vocês aceitarem trabalharam juntos neste serviço. – Disse orgulhoso o Baronete. - Boa noite. – Disse seca. Seus olhos pintados de negro e levemente puxados, encontraram o de Dedanogor, e o jovem guerreiro a olhou com êxtase. Sua sobrancelha era fina e dava a ela um olhar maléfico. Seus olhos eram negros como seu cabelo. - Bo-a no-i-te. – Disse gago o humano de algumas lutas. Enervous riu alto novamente enquanto ela ajeitava sua arma para se sentar com eles. - Bem, já vi que falar com vocês é o mesmo de ser despido por prostitutas profissionais. São muito bem informados. E acredito que terão sucesso nesta pequena missão. Enervous ouvia tudo atento e com grande entusiasmo. Hireegard continuou concentrado nas palavras. – Há um casamento para acontecer, a principio minha sobrinha Gabrielle Vooca iria se casar com o Marques Furgenlaine Celeus e isso devolveria prestigio a nossa casa, porém o idiota do Marques de espírito fraco se apaixonou pela geniosa Nadia Ristan, e já estão a arranjar os preparativos.

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- Vamos ver se eu entendi. Com Nadia fora do caminho, Furgenlaine iria lamuriar-se pela perda da amada e tornando-se ainda mais fraco. Estaria então exposto a um ataque de Gabrielle, que por ter sido trocada iria perder toda a sua ingenuidade e após terem casado iria tornar a vida dele em um inferno. – Completou Dedanogor, com os olhos vidrados em Sâmara. - Conhece um pouco as mulheres senhor Dedanogor? – Disse ela com o olhar malévolo e zombeteiro. O guerreiro enrubesceu. - Perfeito. É isso mesmo. Não quero saber como, apenas tirem esta mulher do caminho e lhes recompensarei em prata. – Hireegard estava feliz, já conseguindo ver o futuro sendo salvo. - Quanto? – Disse Dedanogor fugindo do olhar penetrante de Sâmara. – Quanto nos paga, por este serviço? E quais as informações que nos dá sobre onde ela esta? O Baronete estava acostumado a negociações, porem estes não eram mercadores das feiras de Carpes, eram mercenários que não tinham nada a perder. Somente sua reputação, pensou. - Posso lhes dar duas coisas. Um pagamento para cada um equivalendo duas vezes o seu soldo mensal. E a promessa que se tiverem êxito, seu sucesso será passado para todos aqueles que estão com problemas. - Duas vezes o nosso soldo! Dedanogor pense o que poderíamos comprar... – Enervous estava animado e quase quebrou a cadeira reforçada que tinha sido arrumada especialmente para ele. - Duas vezes? Para ser pego por uma guarda e ir para a prisão? Você me faz rir Baronete. Cinco vezes e fechamos acordo. – Dedanogor tinha o sangue Durgovitch e havia aprendido com seu pai a negociar sem escrúpulos, principalmente quando uma das partes tem um interesse emergencial. Sâmara o olhou, interessada. - Não tenho todo este dinheiro, como disse estamos quase falindo e... - ria nervoso Hireegard. - O problema não é meu Baronete, cinco vezes o nosso soldo em prata. – Dedanogor olhava ainda para o capuz coberto imaginado se o homem abaixo dele, estava suando de nervoso ou de raiva. Hireegard pensou no que aquele casamento seria para a sua família e o quanto ficariam ricos com os dotes da família. Pensou em pedir emprestado para a guilda de ladrões conhecida como a Irmandade da caveira. - Quatro vezes é o que eu posso oferecer. - Certo. Aceitamos. Metade agora e metade depois. – Enervous ria feliz, orgulhoso de seu amigo e vendo a pilha de moedas crescer em sua frente. – E imagino que Sâmara deva ter um aumento também, no que vocês combinaram. Se ela vai conosco, não quero ninguém com inveja dos meus ganhos e pensando em me apunhalar pelas costas. – E piscou para ela metido. Ela devolveu o olhar com desprezo, mas por dentro estava feliz. - Está certo. Dê-me, uma semana para conseguir o dinheiro. Voltaremos a nos falar aqui mesmo, daqui a uma semana. Enquanto isso cuidado e não contem a ninguém sobre a nossa conversa, ou nunca mais me verão de novo. O Baronete e sua guarda levantaram-se da mesa juntos, e seguiram caminho por entre as mesas até a saída, sem olhar para trás. Dedanogor acompanhou os passos da mulher guerreira, passo a passo. E por final virouse para seu amigo e disse, quase abafado pelo barulho dos outros clientes que hora cantavam, hora falavam alto.

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- Que mulher... - Quanto dinheiro... - retrucou seu amigo brutal. ξ O Baronete caminhou por ruas escuras. Carpes era uma cidade gigante, mas nem se comparava a capital do império de Maior, ou Derghemom a grande mãe, ou a incomensurável cidade de Hule, que como se dizia por aqueles que nela estiveram, era: uma cidade dentro de outras cidades. Desta vez estava sem Sâmara, ela não deveria presenciar seus contatos do submundo do crime. Mulher estonteante aquela. Trabalhava para ele há pouco tempo, e ele já havia tentado seduzi-la com seu jeito nobre e sua etiqueta, mas nada havia conseguido, ela era dura como pedra, e certeira em suas palavras, resignouse. Com estes pensamentos chegou a ruas cada vez menores. Conhecia-as de memória. Nos tempos antigos, quando precisar de um lugar para fugir de seus medos e desaprovações da mãe. Era um homem marcado pela noite eterna. O cataclismo havia feito seus filhos e ele era um deles. Na época em que o mundo era dominado pelos demônios, sua mãe se envolveu com um que tinha aparência humana, ou pelo menos podia se tornar humano. Já haviam se passado mais de 150 anos que esta época havia acabado. Rainaar e seus anjos haviam salvo a todos e outros pequenos deuses como Co-on, foram importantes para a expulsão e extermínio dos demônios que ficaram. Mas aqueles que nem a natureza saberia explicar permaneceram. Ele era um deles, um filho, meio homem, meio demônio. Sua mãe morrera há muito, mas deixara para ele dinheiro por ser uma nobre da casa Vooca e um tutor. Cresceu só, e com aqueles que dele só queriam o dinheiro. Sua face carregava a marca daquela época, seu lado direito um lindo rosto humano de cabelos loiros e olhos azuis. Seu lado esquerdo um emaranhado de carne podre que cismava em cheirar mal, mesmo banhada com perfumes caros vindos de Mang Po, seu olho esquerdo era como se fosse feito de vidro. Tinha um toque frio, que só não afastava as prostitutas, e um apetite insaciável por sexo. Chegou perto de um beco que cheirava a urina e tinha dois gatos vagabundos lambendo-se mutuamente. Não havia luz, só aquelas vindas do segundo andar do prédio. Caminhou para dentro do beco, em meio à escuridão. A frente um amontoado de entulhos encostados na parede, desde mobília velha, até roupas deixadas por mendigos exigentes e um pouco de lixo vindo das janelas dos apartamentos. Caminhou resoluto para cima da mobília, e passou por ela como, se esta não existisse. O entulho era feito por magia, era uma ilusão permanente. A frente deparou-se com uma porta de ferro, a marca da caveira pintada de branco faria qualquer um recuar, mas não este homem amaldiçoado. Parou a frente dela e disse em tom baixo. - Amanhã tentarei ser uma pessoa melhor. Hoje apenas me festejarei, com os mortos aos meus pés. Essa era a senha, a porta se abriu em um ruído alto e longo de ferro roçando com ferro.

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Hireegard foi recebido por um homem de aparência suja, e forte como um touro. - Desejo falar com Sarnias. Diga-lhe que é o Baronete Hireegard. - Mais um nobre. – O homem falou com desprezo, enquanto virava-se de costas e descia as escadas em um corredor de pedra. Hireegard ficou ali esperando, com medo de que alguém pudesse aparecer, da porta podia ver o beco, mas sabia que aqueles que olhassem para ele só veriam o entulho ao longe, olhou para cima por instinto. Quatro arqueiros estavam lá, no teto dos prédios de três andares, vigiando a entrada. Sentiu-se seguro, onde muitos tremeriam de medo, sentiu-se feliz. ξ Uma semana se passou, Dedanogor sumia de vez em quando do quartel, e nunca falava a Enervous aonde estivera. O brutal sabia que o humano havia pego todas as suas economias, e gastado em alguma coisa. Dedanogor era um sujeito estranho ele achava. Mal falava com os outros da sua própria raça. Porem gastava giros de ampulheta em conversas interessadas com informantes do submundo. Ele mesmo, por causa do jovem guerreiro, já conhecia pelo menos uns quatro informantes. Eles também trabalhavam para as guildas de ladrões de Carpes. ξ Na cidade eram ao todo quatro guildas. Os Sem Nome eram um bando de ladrões das antigas, que dominavam o porto, e o contrabando, sabiam de cor todas as leis de Celeus e como burlá-las. Havia também os Filhos de Prax, alusão ao deus da paz, porém seus membros eram especialistas em roubar casas ricas e seqüestros. Terceira em descrição, mas não em hierarquia, estava a Adaga de Aço, associação composta de ladrões das antigas, mestres em golpes e extorsão, eram a mente das organizações tanto em experiência, como em capacidade. A quarta corporação, a mais perigosa, a Irmandade da Caveira, roubo, assassinato, prostituição, e o controle das drogas eram todos de competência destes homens. Eram tão organizados que os Sem Nome e os Filhos de Prax, prestavam seus respeitos a eles.

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Capítulo 7 - Mercenário
Reuniões no senado em Maior, conversas intermináveis nas mesas de bar em Celeus, discussões calorosas no transito de carroças em Derghemom, mas são poucos os que agem nesta vida. Como sempre a história é feita, não pelos fortes, mas por aqueles que possuem atitude. Qual a sua atitude em face ao perigo? - falou baixo para si mesmo Dedanogor. Ao seu lado agachada estava Sâmara. Vestida com um manto negro que lhe cobria o corpo forte de curvas estonteantes. Estavam ambos atrás dos arbustos que cobriam os muros altos da mansão dos Ristan. A mansão situava-se dentro da cidade e era como uma fortaleza, guardada por homens armados e cães. - Os cães lutam até a morte sabia? São os melhores guerreiros do reino animal. Se comandados por um mestre de fibra, vão até o fim em suas tarefas. – falou com sabedoria adquirida de seu mestre Thorkyn. Sâmara apenas o olhou em silencio. Dedanogor estava diferente do jovem que havia conhecido há uma semana atrás na taberna: O porco que guincha. Aquele jovem de vestes simples e músculos de aço agora estava vestido com uma estranha armadura de couro negra e seu rosto coberto por um estranho capuz, de onde somente se via seus olhos azuis que brilhavam com muita força à luz da lua de Minlurd. Sua voz era de um tom decidido e calmo, calma demais para a situação que enfrentariam, adentrar a casa dos Ristan, que possuíam guardas bem treinados e munidos com armas militares de Celeus. Temia ela que lá dentro, houvesse até homens vestindo armadura de batalha completa, roubada ou comprada ilicitamente dos arsenais Celíacos. - Agora! – Disse imperativo Dedanogor com a cabeça voltada para cima como se possui-se uma audição mágica. Sâmara afastou-se por um metro para fora das folhagens, o suficiente para deixar seu braço livre da vinhas e plantas que cismavam em tentar prender seus movimentos. Rodando em círculos longos e com força, arremessou o gancho que trouxera, este amarrado a uma corda feita de cabelos entrelaçados de gigantes das estepes de Maior, forte o suficiente para agüentar o peso de um brutal. Ainda com o gancho no ar, com muita destreza e velocidade puxou o gancho de metal, coberto com tecido e algodão, para o cume do muro, e um som oco e surdo se fez. Estavam agora prontos para subir. Um sorriso leve brotou da boca de Dedanogor, a mulher era boa, em todos os sentidos. Foi o primeiro a subir, conseguia suportar o seu peso com facilidade, e rapidamente escalou o muro, deitando na superfície. Logo foi seguido pela guerreira que veio tão rápida quanto ele. Era um muro de quase quatro metros, o lado sul, aquele o qual haviam escalado, dava para um jardim de arbustos lindamente podados em várias formas, desde quadrados, círculos e até um ou outro parecendo uma ave. A única luz vinha de um ou outro poste, que queimava, como nas ruas da cidade, a óleo. O pior momento era esse no muro, nos jardins os arbustos eram grandes e os cobririam. Ao longe bem ao norte deles, uma pequena casa, e atrás desta, imponente, uma mansão de três andares, com quartos que serviriam de

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moradia para muitos familiares. Algumas janelas tinham luz, mesmo estando eles escondidos pelas horas da madrugada. - Os nobres dormem até tarde. Devem estar em alguma orgia. – Dedanogor diz rindo baixo para Sâmara, esperando alguma reação. Tentando aproximá-la de seu mundo. Ela nada responde, em silêncio desde que se encontraram em uma rua determinada pelo Baronete. Dedanogor fica nervoso. Será que ela o considera uma criança? Mal ela sabe, que ele está muito a frente dela nesta missão. Enquanto observam, ela recolhe a corda que serviu para a subida e começa a passá-la para o outro lado do muro para servir de descida. Dedanogor se move para a corda e sua imensa espada, presa a suas costas, bate no muro, emitindo um som que eles não queriam fazer. - Sua espada vai nos atrapalhar! – Fala irada, porem baixo, a guerreira mercenária, pela primeira vez. - A espada vem comigo! – Responde no mesmo tom, o guerreiro da guarda palaciana. Ela me trata como amador! Vou provar a ela e só. - pensa Dedanogor, querendo respondê-la, mas não o faz. No chão de pedras soltas, corre até um dos arbustos, este em forma de um pássaro gordo, e chama por ela. Sâmara demora um pouco mais, observando atentamente o jardim. As dezenas de metros dali, três guardas caminham na direção de Dedanogor. Sâmara pensa em não descer agora, ou até mesmo de abandonálo. Mas sem saber o porquê, mesmo com os erros deste pretensioso jovem, alguma coisa nele espira que sabe o que esta fazendo. Pensando isso, desce também. - Três guardas vindo em nossa direção. –Fala Sâmara enquanto chega ao lado dele que esta agachado nos arbustos, prendendo melhor sua mochila. – Vamos pelo lado esquerdo, beirando o muro. - Não. Deixa que venham. – A frieza na voz dele, a deixa espantada. - Como assim?! Está louco? – Não só espantada, como perplexa. – Nós não podemos atacá-los, nós apenas temos que desviar deles e ir até... - Desviar deles? E quanto a nossa saída daqui? Vamos desviar deles também? Vamos fazer o seguinte, vamos ¨desviar¨ do nosso alvo também e ir para casa dormir. Não estava dando certo. Assim que essa loucura terminasse, ela diria a Hireegard o quanto ele fora, amador e irresponsável. Isso se não morressem ali. O som das vozes dos guardas já começava a se fazer ouvir. Contavam uma piada sobre o quanto os habitantes de Maior eram burros, piadas estas comuns entre os Celíacos. Sâmara estranhava a ausência dos cães, tão comuns em mansões de largos jardins como essa, sabia até que em algumas mansões, não só cães, mas criaturas comprados de aventureiros eram usados também como guardas. Perdida nestes pensamentos mal pode perceber quando seu companheiro levantou-se e saindo da cobertura do verde, prostou-se no meio da trilha de pedras soltas, a frente dos três homens. Os olhos da guerreira abriram para tentar entender este jovem. Louco ou gênio? Da resposta dependeria sua vida hoje.

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Dedanogor saiu de trás do arbusto e parou de frente aos guardas, estes vestiam uma armadura de bandas, forte e cara, usavam espadas longas, mas sem escudo. Apenas um deles tinha um pequeno preso em seu antebraço direito, deveria se canhoto. Com a calma adquirida dos ensinamentos duros de Thorkyn, tirou vagarosamente da bainha, sua imensa espada montante, e a colocou em riste a sua frente, chamando para o combate os três empregados da casa. Todos baixaram a viseira de seus elmos, demonstrando que não cederiam mesmo pela visão de um gigante encapuzado, apenas um deles em vez de baixar seu elmo, procurou desesperado em seu cinto um apito. Dedanogor percebeu a fragilidade de seu plano, se fossem chamados outros, logo o jardim estaria apinhado de homens armados, querendo ganhar uma bonificação por matar ladrões. Mas não houve tempo, para o assovio de socorro do apito de metal. De trás do gigante de músculos de aço, uma adaga voou certeira e mortal, parando seu trajeto maligno na garganta do guarda, cortando seu ar e tirando sua vida. Os dois restantes, trataram de checar com as mãos livres, seus elmos mais uma vez. O capuz de Dedanogor enrugou-se por causa do largo sorriso que saiu naturalmente. - Obrigado. Agora estes são meus, cheque se há mais alguém se aproximando. – Disse resoluto enquanto enrijecia seus músculos. Sâmara entendeu que seu sexto sentido feminino estava certo. Havia algo de diferente neste menino-homem. Não havia medo em suas palavras e ele não parecia ser bravateiro como outros homens que havia conhecido. Obedeceu em silencio. Mas curiosa por ver o que aconteceria Os guardas começaram a se movimentar, cada um indo para um lado, o canhoto para a esquerda, e o outro para a direita. - Já treinaram juntos- pensou Dedanogor. -Então melhor assim, um depende do sucesso do outro, para me vencer. - O pensamento era racional e contrastava com a emoção do prenuncio do combate, que batia forte em seu peito na forma de seu coração. Rodou com ferocidade a espada de dois metros visando acertar o canhoto. Este tentou esquivar-se, enquanto o outro estocava Dedanogor. Mas o golpe não visava o canhoto como eles puderam perceber. Continuando o giro em um pulo, Dedanogor roda sobre si mesmo, como um pêndulo mortal, pegando o guarda da direita, no meio do seu movimento acertando-lhe abaixo dos braços elevados, cortando aço e quebrando costelas. Fazendo-o cair de joelhos ao chão de pedras soltas que se afastam como almofadas. O guarda canhoto dá dois passos para trás. Seus braços tremem de nervoso. Assiste como se paralisado, o guerreiro encapuzado acertar a cabeça de seu amigo ainda de joelhos, fazendo o elmo ser arrancado com violência de sua cabeça e rolar metros à frente, acomodando-se nos arbustos. Olha então para trás e vê caído morto seu outro amigo, com uma adaga no pescoço e o apito ainda na mão. Voltando sua atenção para o gigante, o observa parado, inerte, segurando ainda em riste sua espada descomunal. Este, apenas mexe sua cabeça em sinal afirmativo e parte com velocidade para cima do guarda. Golpes fortes são recebidos por bloqueios fracos, logo o canhoto está com sua espada no chão, sem força mais para revidar a energia assassina, deste guerreiro de armadura de couro negro. Dedanogor não tem piedade, e acerta

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ao canhoto guarda, no pescoço, decapitando-o, em uma morte quase que permitida. A poucos metros dali, escondida no arbusto que esta preso o elmo de um dos guardas, Sâmara analisa seu companheiro nesta missão. Frio, impiedoso e... - Sâmara. Não fique parada ai, me ajude a esconder os corpos. – Diz nem ao menos ofegante, o Durgovitch. Ela ajuda. E ambos escondem todos os três corpos, na vegetação arbustiva. - Bem armados, bem alimentados, bem pagos. Péssimos lutadores. – Exprime orgulhoso, de sua atuação, o jovem. - Ele está querendo se mostrar para mim- pensa com um leve sorriso a guerreira de seus 23 anos. Vou dar a corda que ele quer para se enforcar. - Você é forte. – Afirma. Dedanogor olha para ela surpreso. Surpreso e feliz. Mas não é com a força que ele irá impressioná-la. Não a esta guerreira, de personalidade forte. Sâmara pega sua adaga da garganta do guarda, e limpando-a nas vestes dele, seguem agachados, protegidos pelo labirinto arbústeo. Aproximam-se sorrateiramente da pequena casa térrea. No telhado plano um lugar para uma guarita, provavelmente um arqueiro. Mas ninguém se encontra ali hoje. Vindo do lado sul, como estão agora, eles tem dois caminhos. Um é pelo lado esquerdo da casa térrea, lá avistam um jardim de arvoredo pequeno, com luzes mais esparsas e uma estátua de um homem, agora irreconhecível. Este jardim dá para a entrada principal da mansão, virada para o lado oeste. Quatro sentinelas se encontram prostrados ali. Vestem armaduras e carregam também lanças. O outro caminho segue para o lado direito da casa térrea, casa esta baixa, porém de estrutura larga. - Aqui é onde ficam os empregados da mansão. Mais para a direita se une aos estábulos dos cavalos da família Ristan. Vamos por este lado. – E dizendo isso já começa a se movimentar ainda agachado e segurando a espada atrás das costas, embainhada. Sâmara sente um leve arrepio em seu corpo. O jovem a está surpreendendo a cada passo. E logo ele que ela já havia classificado na estalagem, como um ignorante. Agora se arrastam por baixo das janelas dos cômodos da casa térrea de paredes brancas. De uma ou outra janela, ouvem-se vozes baixas de empregados, que por algum motivo não conseguem dormir. Chegam sem problemas até o fim da construção, só tendo agora a esquina escura como desafio. - Deixe eu espiar. – Sâmara retira o capuz negro de seu manto, e apresenta-se vestida uma cota de malha que envolve seu rosto com uma máscara de anéis de aço. - Está muito escuro. Deixe que eu vá primeiro. – Fala autoritário Dedanogor. - Não. Eu posso enxergar no escuro. – Ela puxa uma pedra lisa e opaca de seu bolso e a coloca no olho esquerdo. A pedra emite um leve brilho amarelo, quando ela pronuncia palavras inteligíveis para Dedanogor. - Magia... não é a primeira vez que eu vejo, mas...

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- É sempre uma visão magnífica, não é. – Concorda com os pensamentos do jovem. – Vamos é apenas um beco entre a casa e o muro, mas espere, à frente eu posso ver os canis, próximos a esquina da grande mansão. Seria melhor voltarmos... e agora? – Pergunta a Dedanogor, enquanto guarda a jóia no bolso da calça de pano grosso. - Não há o que temer, os cães não vão ladrar hoje. - Como assim? – A pergunta fica no ar, enquanto Dedanogor entra no beco resoluto. Sâmara o segue com medo. Sua confiança pode acabar nos levando a ruína, pensa. Mas então por que ela o segue tão facilmente? Homens já gastaram horas de conversa para levá-la para jantar. Este pirralho de seus dezenove, vinte anos, fala duas palavras e ela o segue. Ela começa a ficar com raiva. No fim do beco, há apenas um poste de luz a óleo que cisma em queimar iluminando um canil, silencioso. Feito de grades de ferro, como uma jaula, é dividido em sete pequenos espaços onde ficam os cães. Eles apenas encontram duas figuras. Um homem careca caído ao chão, seu crânio foi esmagado por algum objeto pesado. Os cães estão todos dentro do canil, parecem mortos. Mas estão apenas dormindo, ao lado dos sete animais, um pedaço de carne mal cheiroso. - Enervous já está aqui. Vamos. – Sâmara entende agora. Foi por causa deste planejamento que Enervous os deixou e seguiu por outro caminho, antes de chegarem à mansão. Seguem a passos calculados, esta parte do chão é de terra batida. As janelas térreas da mansão à frente, são todas da cozinha, nesta parte de trás do terreno. Os cães devem comer as sobras, acabam servindo também como grandes lixeiros da casa. - Pensa Dedanogor. Agora andam próximos ao muro, cobertos pelas trepadeiras que crescem indiscriminadamente por algum motivo, ou por simples descuido, não é podada há tempos. Lutam passo a passo por entre as gavinhas, que como pequenos fios de corda tentam impedir-lhes o movimento. Nas janelas superiores existem algumas que são varandas, cada uma com seus três metros de altura uma da outra, são ao todo três andares. - Aquele é o nosso quarto, Nadia Ristan dorme ali. – Aponta para o alto Dedanogor. O indicador de sua mão coberta por uma luva negra e comprida, sinaliza uma linda varanda no segundo andar. - Espere, o quarto está iluminado. Ela ainda está acordada. E você disse que Enervous está aqui. Onde ele está? – Fala apreensiva a guerreira. - Não se preocupe com ele. Preocupe-se em nos colocar lá em cima. Jogue o gancho na varanda do terceiro andar. - Ela vai acabar ouvindo o barulho. E se ela estiver perto da sacada? – Mais uma vez, Sâmara pensava em como o plano do inexperiente garoto parecia estar sendo formado, conforme iam andando. - Vamos! Jogue o gancho ou eu o farei. – Dedanogor olhava para ambos os lados, como se estivesse esperando alguém aparecer. Sâmara deu com os ombros e começou a rodar o gancho com a corda em seus braços de músculos torneados e resistentes. Mais uma vez, com uma única tentativa ela conseguiu acertar o parapeito do balcão do terceiro andar.

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Um som oco, se seguiu e ambos ficaram imóveis, esperando que alguma figura viesse até a janela verificar o barulho. Nada aconteceu. - Eu primeiro. - Disse ela resoluta. Dedanogor apenas obedeceu. Sâmara subiu como uma aranha, seus pés vestidos em longas botas negras galgaram as paredes, à medida que seus braços trabalhavam freneticamente para subir na corda. Entrou pela sacada em um mergulho. Ao começar sua escala, Dedanogor pode ouvir sons de luta, sons estes que o fizeram subir como um macaco desesperado por alcançar o topo. - O que você fez mulher? – Falou ofegante, enquanto firmava-se na varanda com os braços inchados pelo esforço repentino. No quarto de paredes de pedra, e mobiliado com quadros em todos os quatro cantos, uma escrivaninha estava caída ao chão, e vidros de perfume e cremes vindos da distante Mang Pô, esparramados no chão de tapete branco e felpudo. Na cama de dossel que era coberta por um fino tecido de coloração azul celeste, estava um corpo de mulher que contrastava com o lençol branco, por causa da poça vermelha vinda de uma cicatriz no pescoço. Mesmo vermelho que se encontrava na lamina da espada de Sâmara, que estava a revirar a escrivaninha caída, ávida por encontrar jóias. - O que você fez mulher? Não mato mulheres, nós deveríamos... – já recuperava o fôlego e falava prestando atenção à porta do quarto, esperando que ela fosse aberta a qualquer momento. - Mas eu mato. – Respondeu com um largo sorriso, Sâmara. Que nem sequer olhava para Dedanogor, sorria na verdade para uma caixa repleta de jóias que acabara de encontrar. Apesar do som de luta, a mansão permanecia silenciosa, mas logo passos foram ouvidos no corredor, e ao longe, uma voz levemente masculina já perguntava alto por sua ama. Sâmara continuava sua busca por jóias com sua ganância aumentando a cada vasculhada no quarto. Já estava deitada olhando por baixo da cama. Dedanogor tratou de verificar se o quarto estava trancado. - Chega mulher. E agora? Eu não tinha planejado isso. – Falava para si em crescente desespero. Sâmara percebeu-se disso e provocando-o disse. - O que foi? Pensei que fosse melhor que isso. Não sabe improvisar? Não sabe trabalhar sobre pressão? Dedanogor olhou sério para a mulher, que continuava sua procura por riqueza. Sorte dela não poder ver sua expressão séria, coberta pelo capuz já molhado de suor. A ganância dela o fazia lembrar de seu pai, Gajão. Uma de suas máximas era: ¨Para se ganhar dinheiro, deve-se saber estar no lugar certo, na hora certa, e não titubear¨. Talvez fosse isso que Sâmara, estava fazendo. Mas a idéia de seu pai sobre isso, não era a de furtar. Mas sim de saber aproveitar quando um agricultor tivesse um filho doente e precisa-se de dinheiro rápido para pagar um medico, e vendesse seus pertences por preços inferiores, preços estes que ainda eram barganhados por Gajão. Na idéia de obtenção máxima de vantagem. Escrúpulos, seu pai não os possuía. - Madame? Madame Nadia? A senhora esta bem? – A voz levemente masculina, soa fechada atrás da porta. No batente mais luz vinda desta voz, que provavelmente carrega uma vela. Sâmara olha para Dedanogor assustada. De baixo de sua cota de malha, ele pode ver os olhos felinos desta guerreira, que espera apenas uma ordem.

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- Madame Nadia, vou abrir esta porta, estou ficando apreensivo. – Continua a voz efeminada.- Por favor se esti... A frase é interrompida, com uma força estupenda Dedanogor atravessa a porta com sua espada e empala o criado, que morre na hora. - Agora tenho algum tempo para pensar. – Volta a sua frieza habitual enquanto abre a porta para colocar o corpo do criado para dentro. Sâmara sorri, imaginando que ela tem também mais tempo para saquear. Dedanogor senta na cama, e seu peso faz a madeira gemer. Olha para a porta da varanda e para suas botas. Essa é uma boa hora para testá-las. ξ - O que está me dizendo? – diz com os olhos á brilhar, enquanto conversa com Sarnias. A ingenuidade do garoto, às vezes, contrastava com sua inteligência e sua frieza. - Garoto, veja bem, - adorava se sentir o professor, ainda mais de um homem como Dedanogor, tão ansioso por ensinamentos – existem feiticeiros que dominam a forças que não conseguimos compreender. Eles usam estas forças, para sua vantagem, seja adivinhando futuros, mudando o clima, hipnotizando pessoas ou até em guerras com magias que podem desfazer um homem vivo. - Mas então por que eles criam estes objetos mágicos? Se eles detêm todo o poder. Por quê? – Cada palavra era absorvida com entusiasmo, em suas aulas com os professores, este assunto era abordado de forma filosófica, não pratica. - Por quê? Ora, por causa de dinheiro, fama, que seus nomes fiquem gravados nos anais da história. Nunca ouviu falar no colar da visão da águia de Mastrodentilis? Ou no manto invisível de Bastor? - Não. – O interesse aumentava a cada nome pronunciado por Sarnias. E visões magníficas destes objetos e seus feitos se criavam inocentes na mente do jovem. -Vejo agora que a única coisa que lhe falta é experiência. Experiência de vida, pois a curiosidade você já possui. Estes objetos existem, não tão raros como imagina, nem tão comuns como gostaria. Na realidade tenho um aqui comigo. – A face esquia de Sarnias, juntamente com o seu pontudo nariz se alargaram em um sorriso maroto. - O que é? Me diga? Quanto é? O que é? Quanto? – Todos os ensinamentos de seu pai foram por água abaixo neste momento. - Calma, calma. – Sarnias tinha agora toda a atenção do jovem gigante, puxou com suas mãos de dedos compridos e unhas grandes, um grande saco de pano que envolvia algo, debaixo da mesa. – Aqui. Olhe com os seus próprios olhos. O jovem guerreiro arrumou melhor sua espada para poder se abaixar e pegou o saco, abrindo-o como um garoto desembrulha presentes no seu dia de aniversário. O conteúdo eram duas botas militares negras, de couro de algum animal, ou monstro.

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- Eu lhe apresento, as botas de fuga de Mingrabim. Fique são suas, um presente meu para você. – O jovem as segurou com força, já se imagina as calçando, e o que elas podiam fazer. - Mas... - continuou o pequeno homem de corpo magro e cheio de cicatrizes -...por isso ficará me devendo um favor. Dedanogor acenou que sim com a cabeça perdida em pensamentos. Sarnias conteve-se, como um dos lideres da Irmandade da Caveira, seria deveras interessante, ter este gigante como aliado, ainda mais por ser ele da guarda de elite da cidade. ξ - Mulher, já é passada a hora de fugirmos. – As palavras são proferidas em meio ao silencio de um quarto onde se encontram quatro pessoas, dois delas vivas e duas mortas. – Se você não parar de encher sua bolsa com estes brincos, gargantilhas e anéis, lhe deixarei aqui. Qual é a sua escolha? – Falando isso Dedanogor levanta-se rapidamente da cama, a madeira range de alivio pelo peso que sustentava. Sâmara para e olha nos olhos azuis do jovem. Seus olhos contrastam com a beleza das jóias por ela tomadas deste quarto da família Ristan. O garoto tem a fala firme, e desta vez é uma destas falas. Pelos atos que ela viu até agora responde rapidamente e para a surpresa de Dedanogor: - Vamos. Sem ter mais o que falar, o gigante se aproxima da mulher e a toma nos braços com estranheza facilidade. Ela a tudo isso permite. Indo até a sacada do lado de fora eles olham para o muro que os separa da liberdade sem punições. - Eu também possuo algo mágico que pode nos levar... -porém é interrompido por Sâmara que coloca seu fino dedo no lábio de Dedanogor interrompendo suas palavras de justificativa, e com um balanço de não com a cabeça, dá a ele a confiança devida. Com um sorriso só daqueles acostumados com as aventuras da vida o jovem toma distancia e pula para o parapeito da varanda e com muita força para além do muro. Ambos pulam mais alto do que o esperado e sobem no ar por mais quatro metros, o suficiente para verem atrás de si as telhas do teto da mansão dos Ristan. Abaixo com o vento da noite batendo em seus rostos, observam o que parece ser uma linha traçada no chão , o muro visto do alto e seus arbustos, logo seus olhos enchem-se de visões de perspectivas diferentes, a rua já aparece e se aproxima, conforme descem do pulo em parábola. A luz que brilha do postes noturnos só ilumina o chão, a frente outra mansão com seu muro também tão grande e fronteiriço. Logo, caem no chão de paralelepípedos, com suavidade da queda de gatos, e com as pernas fortes de Dedanogor a aparar o equilíbrio, estão novamente a serem iluminados pela luz dos postes, que derrama claridade em ruas desertas a esta hora da madrugada em Celeus. Feliz fica o garoto ao saber que suas botas de fuga são verdadeiramente mágicas e que podem fazê-lo pular, como um grilo talvez. Mas seus pensamentos sobre pulos em outras situações são interrompidos pelo roçar das rodas de madeira de uma carroça alugada que vem ao seu encalço, nela Enervous guia dois cavalos cansados com o peso que carregam. Logo,

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Sâmara e Dedanogor estão na parte de trás do coche, envoltos em grandes panos que cobrem, não só a eles mas também, as caixas de carne envenenadas. ξ Dias se passam, Dedanogor não vê mais Sâmara nem ao menos o Baronete Hireegard. A família Ristan chora a perda de sua filha Nadia. Uma pequena investigação é formada porém só conclui que ela fora morta, por acaso, no ataque dos assaltantes. Enervous lembra ao amigo humano, sempre antes de irem dormir nas camas duras do quartel, sobre o encontro deles com a dupla e seu pagamento final. O brutal já havia gasto a metade do que havia ganho em farra e ansiava pelo resto das moedas. - Como o dinheiro vai embora rápido. – Pensou alto o humanóide de pele endurecida pelo sol. – Da próxima vez, precisamos pedir mais. – Sorriu sozinho, já imaginando quanto pediria e o que faria com a sua riqueza. Dedanogor deitado em sua cama, só pensava em uma coisa. - Que mulher era aquela? - Sâmara havia matado sem a sua anuência, e mesmo assim ele não conseguia ficar bravo com ela. Só conseguia imaginá-la naqueles mesmos lençóis de seda, nua, a chamar por ele... -Um porco guincha alto, mas aqui com certeza, ele ficaria rouco, pois não conseguiria ganhar de vocês! – Fala alto Enervous para seus colegas de bebedeira na sua segunda casa, a estalagem O porco que guincha. Dedanogor também esta sentado a mesa, observando tudo e a todos. - Pensamentos pequenos, grandes pensamentos, a vida é cheia disso. Há aqueles que conseguem pensar do menor para o maior, e desta forma a tudo entenderem. A realidade é só uma questão de saber dividir em pequenas partes, e depois unir as informações em um cenário maior. Meu pai sempre falava isso. Os três homens que ali estão, companheiros de bebidas em noite quentes ou frias, param de falar e olham para Dedanogor, seus rostos parecem estar de frente para o sol, pois cerram seus olhos, como se tentassem englobar as palavras ali ditas. Enervous, talvez entre eles seja o que mais compreende as palavras de seu amigo. Logo quebra a calma leiga, contando uma piada sobre as particularidades dos cidadãos do império Maior. As risadas se fazem presentes, onde a bebida é farta e quem paga é o interlocutor das mesmas anedotas. Dedanogor alheio, mas gosta do clima de escárnio que o cerca. Procurando novamente nas mesas pouco iluminadas algo que chame sua atenção. Um ranger de porta que se abre e um empurrão decidido, chama a atenção de todos na taberna. Vagarosamente vão entrando homens cobertos por armadura. Não aparentam nenhuma expressão, pois seus rostos estão cobertos por elmos fechados. Cinco ao todo, trazem consigo no peito a insígnia da Ordem da Honra Imaculada52, uma cor branca muita forte em forma de um
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(Ordem da Honra Imaculada) – A Ordem da Honra Imaculada criada em 50 C (Cataclismo) por Sir Murdock, com o objetivo de mostrar luz mesmo sobre a escuridão daquele período. Os cavaleiros

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punho fechado em um fundo circular negro. Ordem esta de temerários cavaleiros da época do cataclismo. Grandes heróis da guerra do compacto saíram das fileiras desta ordem. Junto com eles, vestindo uma roupa branca cerimonial, um menino de não mais de seus 12 anos. Apresenta-se com o cabelo bem curto, pele morena, um corpo mais forte que a idade, porém sua estatura é a media dos cidadãos Celíacos, um metro e quarenta centímetros, um pouco menor que um anão. Seu emblema é diferente, no peito traz o símbolo de Rainaar, um pequeno pássaro oriole. Seu rosto traz marcas de um menino arrogante, que contrastam com sua veste cerimonial de coroinha de Rainaar. Estão aqui por algum motivo peculiar. A mesa de Dedanogor e Enervous para também por poucas quedas de areia de uma ampulheta. Logo voltam a se olhar e esperar a próxima piada. - Me parece que é o garoto que comanda estes homens. Uma criança que lidera guerreiros, com certeza veio aqui para brincar de esconde-esconde. Fala alto Enervous, sem se preocupar se será ouvido ou não. Havia uma lide eterna entre os soldados de Carpes, guarda de elite, guardas, ordens de cavaleiros, seguranças, gladiadores. Os guerreiros nunca conseguiam ficar em paz um com os outros. - Não é nada disso, ele está aqui por algum motivo particular. – Falava para si mesmo, em meio às risadas exageradas dos homens em sua mesa. – Para trazerem uma criança a este reduto, somente se fosse de extrema necessidade. Assim o seria se quisessem achar alguém que não conhecessem. Ele é uma testemunha. Isso mesmo, testemunha ocular, eles estão aqui procurando por alguém. – Terminando seu fôlego ao falar Dedanogor já procura por sua arma, e a puxa levemente com o pé para perto dele. Os outros nem se apercebem disso. Os cinco homens que trajam escudos e maças estão falando com o taverneiro. O garoto apenas olha para as mesas, como se estivesse procurando por alguém. Seu olhar preocupado cruza com o de Dedanogor e ambos se notam. Apesar da idade o menino, não desvia o olhar do guerreiro que é muito maior que ele. - O garoto tem um olhar ferino. – Fala para si em pensamentos. – Como é insolente, mal sabe ele que não se deve encarar estranhos como eu. Porém o adolescente de seus onze, doze anos continua a olhar para o gigante, este acompanhado de outro, o brutal Enervous. - O que foi meu amigo? – Enervous se apercebe da preocupação do seu amigo humano e olha na direção do garoto e os cinco outros guerreiros, com um rosto de poucos amigos. – Eles o estão incomodando meu irmão? – Enervous começa a se levantar, mas é impedido pela mão forte de Dedanogor. - Não, eles não estão atrás de nós. Fique aqui meu parceiro, não nos cause mais problemas. – Apesar de feliz com a atitude de seu companheiro não humano, Dedanogor fica espantado quanto à disposição desta raça, de sempre se lançar em batalhas não importando o motivo. Tinha sorte de tê-lo como amigo.

nascidos na época do cataclismo tinham como principal missão expurgar as hordas demoníacas e trazer fortuna favorável aos humanos da Merá Ocidental.

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Tanto os cinco homens bem armados como o garoto de vestes solenes, já parecem não mais se aperceber dos que ali estão, e partem rapidamente para as escadas, seguindo a direção do dedo apontado do taberneiro, que logo vem em direção da mesa dos gigantes. Ofegante aproxima-se. – Eles... estão atrás de um homem... Enervous o impede de continuar a falar, com a grande mão que cobre não só a boca como o rosto inteiro de Roco. Fazendo isso olha para os homens que estão na mesa com eles e com um sinal de sua cabeça, eles saem. - Fale Roco. Quem são? E o que querem? – Questiona a dupla. Tomando ar, Roco continua. – Eles estão atrás de Mirgama o feiticeiro da Aliança. Ele está instalado no terceiro andar em dois quartos, para ele e para seus guardas pessoais. - Ele esta sendo acusado de algum crime? O que eles disseram? – Fala rápido o jovem humano. - Não disseram nada, apenas que evitasse a subida de quaisquer pessoas por hora, eles tentaram pegá-lo desprevenido. Deram-me isso. Na mesa Roco coloca um pergaminho que contêm o selo da Ordem da Honra Imaculada. - Eu já vi estes cavaleiros antes. – Fala, tirando da sua memória Enervous. – Devemos fazer algo? Afinal somos da guarda de elite Celíaca. – As últimas palavras são proferidas com orgulho e justificam o que Enervous realmente deseja, uma boa luta com justificativa e sem preocupações de represália. - Não. – diz secamente Dedanogor. Tanto Roco, quanto Enervous, até os homens da mesa do lado que ouvem a conversa disfarçadamente se espantam. - Mas Dedanogor... - tenta argumentar o brutal. - Não temos nada a ver com isso. Estamos de folga, nossa ajuda não foi pedida e eu não luto com feiticeiros a não ser que tenha tempo para estudá-los ou uma boa justificativa. Sabe Enervous, eles podem com um movimento da mão e palavras misteriosas fazer você ou eu virar uma galinha, ou até um peixe. Um peixe fora da água isso sim, para morrermos sem ar. Eles são amdosiamente inteligentes. Não nada faremos. Enervous fica carrancudo, pensativo, sobre o que falou seu amigo humano. Roco volta ao trabalho rezando que ao menos os cavaleiros saibam o que estão fazendo e que não destruam a sua estalagem. Nesta seqüência de eventos entram no porco que guincha mais duas figuras. O baronete Hireegard e outro humano, vestindo um manto que lhe cobre o rosto e a cabeça. Enervous esta a falar com os mesmos amigos que agora estão na mesa ao lado. Mas Dedanogor atento os vê chegar e sinaliza para eles, como se houvesse necessidade. - Boa noite senhores. - Sorri o baronete, o manto também lhe cobre parte do rosto, mas Dedanogor pode desta vez ver que a metade esquerda do baronete é como se fosse uma imensa cicatriz, ou carne podre. Sentando-se sem cerimônia e puxando uma cadeira para seu convidado de estatura pequena, continua. – Eu os congratulo pelo excelente serviço. E também... - Onde está o resto do meu pagamento? – Interrompe abruptamente Enervous. – Vai me agradecer? Agradeça com prata! – Sorri infantil com os olhos a brilhar. Busca em Dedanogor acolhimento em suas palavras, mas seu amigo

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humano apenas encara incessantemente a figura encapuzada ao lado do baronete. - Sim, sim, meu amigo brutal, aqui esta o restante. – Diz todo simpático Hireegard. Político como aprendeu a ser, logo puxa três pequenos sacos presos ao seu cinto e os coloca na mesa, ao som titilante das moedas. Com velocidade voraz, o brutal segura os sacos com dificuldade por causa do tamanho e desastrado faz um cair que abrindo-se, espalha moedas pelo chão da estalagem. As pessoas que ali estão sonham com este tipo de acontecimento, afinal dinheiro achado, não é roubado. E corpos se jogam na esperança de pegar algumas moedas, que rolam ao chão. O baronete e seu convidado a tudo assistem perplexos com a cena de desespero das pessoas, por um bocado de moedas de prata. Dedanogor observa como um cachorro de guarda a reação dos dois. Enervous levanta-se e pegando sua clava de aço com habilidade a roda no ar e dá um urro para todos ali presentes. - O dinheiro é meu! Devolvam agora moeda a moeda, ou morram ricos! Seus olhos são puro sangue da ira de quem perdeu o que mais ama. Todos ficam paralisados. Na seqüência do urro, uma explosão se dá nos andares de cima da estalagem. Um som ensurdecedor, faz com que as pessoas se desesperem e comecem a fugir dali aos tropeções. Até mesmo os amigos de bebida de Enervous fogem, alguns segurando firmemente algumas moedas achadas. O baronete Hireegard segura no braço de seu convidado, ainda oculto pelo manto, mas transparecendo o medo, pois seu corpo treme. Logo Hireegard que tenta entender o que acontece e ao mesmo tempo tentando passar segurança ao seu possível cliente, procura o olhar de Dedanogor. Este por sua vez o esta encarando e diz, calmo e frio. - Fiquem aqui. Isso não é problema nosso. Logo acabara sem mais alvoroço. – Dizendo isso olha para seu amigo brutal que observa as pessoas saindo à carga da estalagem, e seu dinheiro saindo com elas. Extremamente nervoso, o brutal tenta achar um culpado para tudo isso. Com os olhos arregalados de ira da um urro ao ar e corre em direção as escadas, com sua clava de aço e seu orgulho ferido. - Enervous! Não! – Dedanogor tenta inutilmente impedir seu amigo brutal, mas ele não o ouve e parte para o terceiro andar. Hireegard e seu convidado levantam-se para partirem dali. Dedanogor vê a situação desmoronar, a ultima coisa que gosta é de perder o controle da situação. - Esperem. Quem é esta pessoa? Onde está Sâmara? - Sâmara não pode vir, ela está... indisposta. Temos que ir logo haverá guardas e nós não queremos ser encontrados aqui, neste antro. – Fala Hireegard. - O melhor momento para conversarmos é agora. Eu sou um guarda de elite, lembra-se? Fale, se você veio hoje com mais uma pessoa é porque quer algo. Nosso serviço foi tão bom assim, para nos trazer mais trabalho? Como está sua sobrinha Gabrielle Vooca? Consolando o Marques Furgenlaine Celeus? O baronete olha estupefato este gigante guerreiro. -Ele não tem modos, desta forma vai acabar me entregando - pensa.

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- Sim, sim, vai muito bem obrigado. – Nervoso com as palavras de Dedanogor olha para seu amigo encapuzado e espera sua aprovação. Nervosamente este olha para as escadas onde um som de luta de armas se dá e diz com uma voz firme, que contrasta com seu tamanho. - Seja breve. Dedanogor sorri. Seu pai, havia lhe ensinado a dobrar homens e a controlálos, talvez. - O trabalho que vocês fizeram foi excelente. E por esse motivo tenho mais um serviço para nós. – Logicamente o baronete não podia elogiar mais, na realidade o trabalho fora tão bem feito que os guardas da cidade acreditaram que aquilo foi um roubo e que Nadia Ristan estava no lugar errado na hora errada, e por isso foi morta. – Nós devemos recuperar a estátua de KarranDor. - O que é isso? - KarranDor um anão ferreiro que viveu na época do cataclismo. Dizem que ele fez armas para vários heróis daquela época. Em seus últimos dias de vida criou uma estátua em homenagem a Co-on, deus do cataclismo. Antes de morrer há escritos sobre sua vida que relatam que KarranDor viu o próprio deus a abençoar seu presente com poderes místicos de proteção e providencia. - E onde está este artefato? – Dedanogor já começava a se interessar. - Encontra-se na floresta do chão oculto em Maior. – disse a figura encapuzada, com uma voz fina e assustada. - Quem é você? – pergunta diretamente o jovem que desconhece a etiqueta. - Não interessa. Estamos falando de algo em torno de quinze mil moedas de prata. – Continua sorridente Hireegard, no seu lado do rosto humano a felicidade de ter encontrado uma saída para a possível miséria da família Vooca, e do seu lado do rosto meio demoníaco a felicidade de saber que a soma é ainda maior e que ele recebe parte dela, haja vista ter achado a pessoa certa para estes serviços. Dedanogor arregala os olhos, assim como fez anteriormente seu amigo brutal. – Quinze mil moedas de prata. É o suficiente para comprar cavalos, armaduras, até um apartamento em Celeus. Ou gastar tudo em bebidas e mulheres... Mulheres... Sâmara - pensa como uma criança o jovem nascido em uma fazenda em Derghemom. - Vamos logo com isso. – Diz o homem desconhecido envolto no manto marrom, que continua a olhar para as escadas. E volta e meia ouvem o som de algo batendo nas paredes da estalagem. Alguma luta deve estar sendo travada por diversos homens. Há muita movimentação nos andares de cima. Apesar do nervosismo de Hireegard e seu companheiro oculto, Dedanogor continua seus questionamentos alheio ao que acontece. Sua convivência em um ambiente de eternas diligências o torna ainda mais frio, confiante. A estalagem treme, uma das paredes do andar de cima parece ter cedido e pó cai do teto em cima das únicas figuras no andar de baixo, demonstrando que nem tudo esta calmo assim. - Aceite logo! – Grita a figura desconhecida de manto. Dedanogor sorri. – Me dêem seis meses. - Assim será. A metade do dinheiro será entregue daqui a uma semana. Aqui mesmo, se esta estalagem ainda estiver de pé. – Fala o sujeito.

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- Está bem, está bem. Aqui daqui a uma semana. – Falando isso ambos saem rapidamente do porco que guincha. Dedanogor para um pouco e pensa no que acabou de fazer. Não está muito feliz com o que acabou de aceitar. Afinal, aceitou o trabalho como guarda e não deveria estar compactuando com serviços ilícitos, mas é muito dinheiro... Pensando isso se retira da estalagem. Enervous? Ele sabe muito bem se cuidar...

ξ A cidade floresce na primavera. Os parques internos, os jardins das mansões, até mesmo os vasos de plantas que cismam em não cair das janelas dos moradores, enfeitam a cidade, deixando-a colorida. A semana passa rápida, como em um piscar de olhos. Enervous encontra-se acamado recuperando-se da luta com o feiticeiro e seus asseclas. Recebe a visita de um nobre, um cavaleiro da ordem de Rainaar, este o agradece o brutal pela ajuda prestada na luta contra Mirgama. Dedanogor estranha. – Por que um dos cavaleiros de Rainaar está aqui, se na estalagem apenas se encontravam cavaleiros da Ordem da Honra Imaculada? – porém não questiona ao cavaleiro diretamente preferindo perguntar sobre o grande herói da cidade, o cavaleiro Celacious. Sempre teve curiosidade por este guerreiro, aclamado entre os homens, adorado pelas mulheres, um símbolo do heroísmo e um campeão do rei. - Quem é este homem? Por que seus feitos o precedem? – Desdenha abertamente Dedanogor ao homem a sua frente. - Ele é um cavaleiro de Rainaar, um guerreiro que se entrega à causa do Deus da bondade e generosidade. Usa sua espada e seu espírito a favor daqueles que não podem lutar por si próprios, é um abençoado. –Responde com veemência o cavaleiro um pouco mais velho que ele, vividos entre os treinamentos e escrituras antigas, sobre a vinda dos demônios a Minlurd. – Neste momento em que nos falamos, Sir Celacious deve estar em Falia, nos Bosques de Cerveira juntamente com mais de 50 soldados à frente de uma expedição, para salvar uma vila em ataque constante por hordas de criaturas. Dedanogor o observa, não esta acostumado a conversar com pessoas como ele. Ambos se entreolham, o cavaleiro pensa em como seria útil trazer este gigante a causas mais nobres e sem medo pergunta. - Me chamo Sir Voragor. Gostaria de fazer um convite. Seria deveras interessante para a nossa ordem, que nos conhecesse. O que acha? Dedanogor o olha de cima abaixo, Sir Voragor não está vestido com armadura, mas veste uma roupa nobre e uma túnica com o símbolo da ordem, o pássaro oriole, para distingui-lo entre os cidadãos. O guerreiro não o deve ordenança, mas sabe que um pedido de uma das ordens de cavaleiros, deve ser bem vista por qualquer guarda que se preze. - Não, obrigado. Tenho minha vida aqui e estou feliz com ela, não desejo me embrenhar em nenhum pântano atrás de criaturas que nos tratam como escória. – Não havia vontade em Dedanogor de seguir nesta vida de escravidão, sendo mandado por um deus que não acreditava e com uma vida

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de eterna servidão. Era assim que ele via a situação. Era senhor de seu destino e se quisesse podia largar tudo e viajar para outras terras se assim quisesse. - Assim seja. – Sir Voragor, de nada gostou das palavras daquele arrogante guarda. – Quem ele pensava que era? Ignorantes, as pessoas são estúpidas porque querem. – Refletiu enervado o cavaleiro. Sua emoção transparecendo em suas bochechas vermelhas. Enervous riu da situação. E o cavaleiro se retirou resignado. ξ

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Capítulo 8 – Forjador de idéias
E então Dedanogor Durgovitch lembrou-se da sua última missão. Precisa ocultar sua identidade. Um saco na cabeça não era o ideal para este fim. Recordou-se dos ensinamentos de Thorkyn e sobre o homem e sua armadura. Sobre a armadura do espírito em resguardar-se. Sobre estratégia de combate e sobre tentar quebrar o espírito do guerreiro antes mesmo da luta vindoura. Pensou então em unir ambas as vontades, uma armadura que colocasse medo e ao mesmo tempo ocultasse o seu usuário. Pesquisou nas bibliotecas de Carpes no reino de Celeus, e se encantou com um estilo em particular. A grande armadura de campo de batalha pesada, usada por cavaleiros que montam em grandes bestas. Fechada com um elmo de viseira que esconde o rosto, escondendo assim as emoções daquele que a traja. Negra, ela deveria ser negra para demonstrar o espírito daquele que se luta. Por estes motivos Dedanogor foi procurar um ferreiro competente em Celeus, encontrando em duas semanas, Lemo ¨Da Mão Pesada¨. Era uma pequena casa, cismava em estar em pé ao meio de dois pequenos prédios de quatro andares, na Rua dos Cartéis, um bairro comercial em Carpes. Havia sempre a reclamação infrutífera da quantidade de fumaça que saia daquela pequena casinha pelos moradores vizinhos. Por este motivo que a calha foi alongada até o terraço de um dos prédios. A fumaça proveniente do trabalho árduo do mestre Lemo e seus aprendizes, escapava pela alta chaminé improvisada. Dedanogor leu as noticias da cidade, fixadas semanalmente pelos aprendizes de Lemo na parede externa da loja. Desta forma o ferreiro chamava atenção para a sua loja, sendo ela um centro de reuniões, para aqueles que buscavam informação e acabavam por se lembrar de comprar algo. Dedanogor leu atento sobre as notícias do futuro casamento do Marques Marcus Celeus e Gabrielle Vooca. Riu baixo para si mesmo, e ideou que as outras pessoas que lessem aquilo, nem ao menos imaginariam o quanto de estória havia por trás daquela noticia. Fantasiou se outros acontecimentos seriam assim. Leu também sobre a expansão Hulistica no oriente. Hule território teocrático, imperado por Zargonias, lar de homens duros e viciados no trabalho, se igualava belicamente apenas ao império Maior. Lembrou-se das aulas que teve em Derghemom, sua terra natal, saiu de lá por ser um lugar escravocrata. Sorriu novamente, segurava a vida pela rédea e agora tinha grandes desafios pela frente. Seria conhecido por isso. Bem ou mal o seria, mas precisava continuar, inovar, evoluir, lembrava-se sempre dos ensinamentos de Thorkyn. Cheio de pensamentos adentrou a loja. De pedra e madeira foi construído este estabelecimento, porém seu produto principal era o aço. O pequeno pássaro, símbolo de Rainaar estava preso à porta, e na parede à frente ao lado de escudos e espadas a mostra o símbolo de BalGor, uma montanha cujo cume era de aço. BalGor, deus dos anões e senhor da pedra, dos metais e de toda a natureza morta. Um homem mais velho se encontrava como vendedor, olhou para o gigante que entrara, já tentando imaginar o que o levava ali. 90

- Pois não senhor? – Perguntou por entre a sua grande barba branca. - Vim falar com Lemo ¨Da mão pesada¨. – Falou Dedanogor enquanto olhava um certificado entalhado em pedra, afixado na parede. Um atestado de que Lemo havia sido um aluno de uma das escolas de ferraria anã. - Por qual motivo, senhor? – O ancião filtrava estes clientes que às vezes vinham de longe apenas para comprar mercadoria feitas pelo meticuloso Lemo. - Diga a ele que tenho interesse em desafiá-lo com algo novo e de difícil manuseio. – Dedanogor imaginava que despertar o interesse de um artista, sempre lhe conseguiria a atenção. – E que tenho dinheiro, para pagar por isso. - Dinheiro não é problema para mestre Lemo. – Arrogantemente respondeu o empregado de longa data, e falando isto saiu pela porta dos fundos, deixando Dedanogor sozinho. Enquanto aguardava, o ainda novato guerreiro olhou curioso para os objetos de ferro ali expostos. Elmos de construção relativamente simples, umas cotoveleiras ou umas joelheiras, meias-grevas, pontas de lança ou de virotão, alabardas, machados, maças, mesmo espadas de baixa qualidade. Um outro quadro com uma inscrição dizia: O conhecimento, se não compartilhado, não serve para nada, estiola e encarquilha. - Quem é, e o que desejas de mim em minha loja? – Interrompe a leitura de Dedanogor. O homem era pequeno, compacto, se não fosse pela altura, pareceria um anão. E a barba negra que tinha, demonstrava que era um amante desta raça. Da barba pendiam anéis de ferro presos a ela em nós intricados, como os anões. Contudo era humano, e talvez se ressentisse por isso. Sisudo, continuou. – O que é tão diferente, que você ache que eu já não tenha visto ou ouvido, jovem guerreiro? Deixe-me adivinhar. É mágico? Se veio por este motivo deixe-me lhe dizer que Lemo não trabalha... - Meu nome é Dedanogor Durgovitch, mestre Lemo. Sou filho de fazendeiros, mas não sou um tolo. Pertenço à guarda de elite de Carpes. Sei que objetos mágicos são feitos apenas por feiticeiros, ou elfos. O que vim lhe pedir é mais palpável, mais digamos... humano. – Interrompe sem preocupações Dedanogor. – Entrei aqui com o intuito de encomendar uma armadura, que somente, acredito o senhor poderia fazer. Mas ao ler o seu quadro, mudei de idéia e lhe peço que me ensine a trabalhar com o ferro. O ancião de barbas brancas que tinha trazido Lemo de dentro da loja, ouvia a tudo aquilo perplexo com o diálogo que ali acontecia. - Quer ser o meu aprendiz? - Sim. - Como vai conseguir trabalhando na guarda de elite, ter tempo e disposição para vir aqui e aprender? – Perguntou sério, Lemo. - Eu arranjo. – Respondeu com a impetuosidade dos jovens, ávidos em ter com a vida. Lemo não ficou contente com a resposta, achou o jovem gigante insolente. Iria aceita-lo sim, mas lhe ensinaria uma lição. - Então está bem, eu lhe aceito... - Ótimo. Quando começamos... - Cortou a fala de Lemo mais uma vez. Fazendo isso, o fez explodir em raiva. - Em primeiro lugar jovem, nunca mais me interrompa! Você fala, quando eu terminar de falar! Em segundo lugar espero que tenha uma disposição tão

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ferina quanto o seu atrevimento! Virá aqui todas as tardes e fará o que eu mandar! Nem que passe dias apenas a carregar baldes de urina para a forja! – E dizendo isso saiu pela porta dos fundos esbaforido e batendo alto os pés no chão. Ali só ficaram um Dedanogor envergonhado e um velho ancião um tanto quanto risonho. ξ Os dias se passaram na velocidade de galope de um garanhão de corrida de Paran Azi. De dia Dedanogor trabalhava de plantão na guarda de elite, sem muitas preocupações a não ser uma diligencia contra um esconderijo dos Sem Nome, uma luta contra seus capangas humanóides. E a tarde entrando para a noite ia até a loja de Lemo, onde ficava a fazer tarefas, pouco dignas. As fazia sem reclamar, os anos de treinamento com Thorkyn o haviam ensinado a ser humilde e respeitoso para com os seus professores. Lemo acabou por se espantar com este menino-homem, havia feito mal julgamento dele. O esforço do jovem era admirável. Mas era tudo cansativo para Dedanogor, de dia ouvia incessantemente as palavras de Alquemius. - Nunca cansar! - Em seus treinamentos extenuantes, a noite as ordens de Lemo, que possuía a mesma fibra dos anões e não tinha nenhuma piedade. O estresse contido, Dedanogor descontava nos criminosos que eles prendiam. E seu respeito aumentava entre a caserna dos quartéis. Mas a realidade era outra. Secretamente ele havia pago a Lemo e este construía sua armadura negra. Sem fazer perguntas o forjador aceitou o adiantamento de duas mil moedas de prata, sem questionar. Lemo era assim. Dedanogor havia contraído uma dívida com os cofres de Hireegard. Que de muito bom grado, emprestou a quantia, sob a promessa de pagamento em serviços. Dedanogor havia aprendido, tanto de Thorkyn como Gajão, que o verdadeiro homem que pensa e age, deve sempre se ater aos detalhes, tendo desta forma uma visão detalhada da situação para depois enxergá-la como um todo, e então o domínio de todas as fases de evolução de uma situação. Gastara horas intermináveis a repassar todos os pormenores da missão passada com Sâmara e sua experiência em combate com os criminosos de Carpes. Para a próxima missão, estaria bem mais preparado. Lemo, da mão pesada ensinou seus segredos a Dedanogor, mas que também reforçou os ensinamentos de Thorkyn sobre o trabalho árduo e perseverança. Mais de cinco meses se passaram até que a armadura estivesse pronta. Seu desenho era magnífico, Lemo havia se superado. Toda negra a armadura era, toda fechada, em seu peitoral um desenho de uma criatura, que só poderia vir, se existisse, de algum abismo infernal. As manoplas eram grandes. Nas juntas havia sempre um detalhe prateado, como uma linha que fazia fronteira entre as articulações. Intricados desenhos também enfeitavam vez ou outra seções da armadura. Todos feitos em alto relevo. Fazia pouco barulho ao se movimentar, diferentemente das armaduras tão pesadas como ela. Uma obra prima de

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Lemo, porém como alguma de suas peças, não poderia ser exposta a público, afinal seu intuito não era a beleza, e sim a morte. Dedanogor treinou com ela escondido, fora da cidade, nos campos de Celeus. Enervous o auxiliava nestes períodos. - O caminho que estou traçando para mim, é o que realmente quero? – Refletia sozinho ao meio de corridas que dava pelos bosques vestindo a armadura, se acostumando com o seu peso. Era observado de longe por animais que fugiam desta figura amedrontadora. Parou certa vez a quilômetros de Celeus, era uma pequena vila, tão pequena que mal se passaria por uma. Pela primeira vez saiu dos bosques e caminhou até ela, vestido para a morte. Era noite. Parou no meio desta vila e contou seis casas. A leste uma casa maior com dois andares, uma espécie de estalagem, para pessoas que desejavam apenas um lugar de eterna paz e quietude. A vila estava longe da rota de comércio, se escondendo a leste nas montanhas Harmalinas. Pacata só remetia a ele uma vida de tranqüilidade. A oeste duas casas para alugar. Uma poderia até ser transformada em uma forja. Riu baixo e se imaginou-se morando lá, casado e trabalhando como forjador. Não, aquela não era a vida que ele desejava. Partiu rápido deixando para trás pensamentos que o seduziam, mas não eram para ele. Não percebeu que de dentro de uma das casas ao norte, com as luzes apagadas, era observado por uma mulher de cabelos ruivos, que tinha ancestrais elficos em sua família, e que teve um arrepio estranho ao ver àquela figura aparecer. - Vangardesh... – pensou a meia elfa, meio humana de seus 160 anos...

ξ

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Capítulo 9 - Sabotador
A areia da ampulheta em Param Azi, leva os homens das tribos a uma guerra franca. Hule cresce em majestade, e torna-se a polícia do mundo. Sua inquisição Hulistica tenta se espalhar além do seu continente, e busca entre outras coisas converter os seres de Minlurd a adoração a Zargonias, que dizem ser um semi-deus andando entre os seres. A inquisição tem como seu principal inimigo, os clérigos do deus do compacto, Co-on. Como diria um estudioso de Falia: - O tempo é um meio continuo e indefinido, no qual acontecimentos parecem suceder-se, em momentos irreversíveis. O bater das asas do pequeno pássaro que nestas terras, representa os olhos do deus seu criador, dita os dias e meses seguintes. A vida seguiu por mais seis meses. Dedanogor ensinou Enervous a ler. Façanha digna de condecorações. Mas tudo foi feito entre eles, em segredo. Hireegard continuava oferecendo trabalhos esporádicos. A armadura negra de Dedanogor já estava começando a ficar conhecida entre as rodas de criminosos na cidade. Todos sabiam que ele era um cobrador de dívidas, um assassino, um mercenário. Mas não havia um nome, sua fama se perdia pelas bocas dos larápios e guardas da cidade... Para Enervous, o humano se estressava demais. De dia corriam atrás de ladrões sob os gritos do capitão Alquemius. – Nunca cansar! – Berrava com todo o oxigênio em seu peito, mantendo os homens incansáveis. À tarde Dedanogor seguia para a ferraria de Lemo, onde mais uma vez trabalhava com força, sobre o árduo fogo da forja. Bem a noite seguia com ele pelas ruas e avenidas da grande cidade atrás de lordes ou burgueses cheios de dinheiro que deviam, a quem não era correto dever. A tudo Enervous observava. Não era raro terem conversas que espantariam até o mais estudado dos homens de Celeus. Pois este nunca acreditaria que existisse um brutal que conversaria de igual com um humano. O mais engraçado, é que este mesmo estudioso, ficaria estupefato ao saber que o brutal em questão, Enervous tornou-se um voraz leitor da biblioteca de Carpes. Lugar este que já era conhecido como uma atração à parte. E seu saber ler se devia a apenas uma pessoa, o próprio Dedanogor. ξ Era mais uma daquelas noites. O sol já havia saído de cena, para brilhar em outro país no mundo de Minlurd, deixando Dedanogor, Enervous e Sâmara juntos mais uma vez. Haviam sido convidados para a casa do baronete, pela primeira vez. Com certeza mais um trabalho estava por vir. A casa do baronete não era tão diferente das casas em que eles assaltaram. A única diferença era que a família Vooca, mesmo estando em ascensão, não possuía guardas pagos. Também não era preciso, tinham os olhos atentos da irmandade da caveira a protegê-los, afinal, eram aliados comerciais. Foram levados até a grande sala, comum naquela região, o ambiente era cheio de poltronas esparsas e macias. O chão era coberto por um grande 94

tapete de pele, possivelmente de alguma besta morta por caçadores gananciosos. Os sofás dividiam a atenção, com pequenas mesas que continham artigos diversos. Caixas de fumo, bibelôs de vidro, cartas, e mais cartas vindas de todo o continente de Merá. Porém nas paredes não havia quadros, era nua e lisa como os sentimentos de seu dono. O mordomo os deixou confortáveis na sala e se retirou. Enervous permaneceu de pé, observando as mesas e tentando ler o que havia nas cartas, sem as pegar. - Essa carta é vinda da distante Mang Pó. O que será que ela relata Dedanogor? – Curioso o brutal estava a léguas de distancia de seus irmãos de raça. - Acho que o baronete tem conexões com outros países, caro amigo. – Dedanogor sempre respondia as perguntas de Enervous com cuidado e atenção. Era apenas no quartel ou nos bares que ele caçoava de seu amigo, sem parar. Sâmara olhava para tudo, segurava firme sua espada curta, arma esta que ela nunca se separava. - O que será que Hireegard preparou para nós hoje? O que você acha Sâmara? – Sempre que podia o jovem falava com a guerreira. Já fazia algum tempo que não se viam. E ele sentia saudades de estar perto dela e de seu jeito bravio. - Não sei. Acho que nossa fama está aumentando conforme estamos conseguindo cumprir todos os nossos trabalhos. - Graças a vocês. – Disse de pronto Dedanogor. Sâmara sorriu, e ainda era mais bela quando fazia isso. – Graças a sua liderança também. Dedanogor enrubesceu. Enervous segurando uma das cartas com as grandes mãos, olhou para seu amigo e troçou. - Que cor é essa? Vocês humanos parecem até camaleões de vez em quando, vivem trocando de cor. Era nítido o embaraço do jovem. Tentou articular alguma coisa, mas foi interrompido por Hireegard, que entrava na sala, altivo. - As mulheres têm uma capacidade incrível, em respeito a atingir de forma sublime, um homem. Com o elogio, Sâmara alegrou-se. E o devolveu. - Seu gosto é muito bom. Sinto-me bem em sua casa. - É uma casa confortável? – perguntou o anfitrião. - Sim é boa. – Disse Enervous, soltando a carta rapidamente para não ser pego em flagrante. Dedanogor apenas assentiu com a cabeça. Em sua mente passavam-se centenas de pensamentos. Era como se ele refizesse a cada momento uma estratégia para um acontecimento inesperado. E se Hireegard os atacasse agora? Se estivesse planejando algo mais nefasto, como os enviar para uma missão suicida e ganhar os lucros? O que era este envolvimento do baronete com a Irmandade da Caveira, guilda de assassinos? Enervous atentou para seu amigo humano e o viu fitando o baronete. Sabia o que significava aquele olhar perdido. Acreditava que seu irmão de armas estivesse ficando paranóico. Afinal não parava nunca. Com um grunhido o chamou de volta. Sâmara e Hireegard conversavam.

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- A arquitetura daquele apartamento na Rua Sócroles é linda. Estou pensando seriamente em fazer uma oferta para comprá-lo. Por isso preciso de mais trabalhos. – Sâmara terminou. Hireegard ponderou e arrumando sua grande capa de pele, disse. – O estilo é pré-cataclismo, antes da guerra do compacto. Eu conheço um homem que pertence ainda a este tipo de escola. Gostaria que eu os apresentasse? Ele poderia decorar o interior de sua casa. - Lógico, lógico. – Ficou exultante. O mordomo entrou com os aperitivos, a bebida era da consistência do mel, mas era alcoólica. - O que é isso?- Perguntou Dedanogor enquanto sorvia o liquido com prazer. - Chama-se Jimboiá. Uma bebida característica da região de Papao, no continente de Merá. - Quero mais. – Enervous soltou. - Sirva-se. Em minha casa meus amigos se fartam. – Disse o baronete enquanto apontava para uma mesa onde estava à bandeja com a bebida. - Quando fala isso, até começo a acreditar. – Brincou Dedanogor. - Pois acredite. Estamos juntos já faz alguns meses, e posso dizer que nossa aliança só estreita minha vontade de querê-los bem. - Por que nós, o tiramos da lama. – Provoca o guerreiro. - Não deixa de ser verdade. Como eu também o tirei da mediocridade que seria sua vida. – devolve o baronete. - Parem com isso. Estamos juntos hoje e devemos comemorar isso sim. Agradecer a Hireegard por ter nos dado uma visão maior e a Dedanogor por ter nos guiado até essa visão. – Diz política e interessadamente Sâmara. - E eu? O que eu dei? – Pergunta Enervous enquanto segura a garrafa de Jimboiá perto dos enormes lábios. - Você meu amigo. Você me dá esperança. – Responde em meio ao silencio Dedanogor. Ninguém ali presente entende, nem ao menos Enervous, mas este por sua vez assente e vira a garrafa. O mordomo se aproxima. - Barão. O convidado já chegou. Todos se entreolham, enquanto Hireegard permite ao mordomo deixa-lo entrar. - Hoje senhores. Hoje vamos conhecer mais um membro da nossa frutífera aliança, que vai nos mostrar um novo horizonte. – Completa o anfitrião. Ao meio as poucas luzes da grande sala, o mordomo encaminha uma figura magra. Enquanto ela se aproxima, sua compleição demonstra-se ainda mais esquálida. Mas não era um humano que estava a entrar. Era um elfo. Corpo magérrimo, feições perfeitamente simétricas, como a de todos os elfos. Apesar da magreza transparecia ser de boa constituição. Só uma coisa era a diferença primordial, entre considerá-lo um elfo completo. Este era de uma coloração cinza negro. Todos o olharam de cima a baixo. Era comum a todos, saber que diferentemente dos humanos de cor negra, proveniente na sua maioria de Sembalo e Param Azi, os elfos desta coloração eram todos de vil natureza.

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Para Dedanogor havia um abismo de diferença em considerá-lo parecido em cor com Thorkyn se em honra era totalmente eqüidistante. - Boa noite, humanos, brutal. Meu nome é Niblihim, sou um elfo escuro e venho do longínquo continente de Hule. Será um prazer servi-los no que sei fazer. - E o que sabe fazer? – Interveio Dedanogor, enquanto olhava severamente para Hireegard. - Sou um feiticeiro. Todos, com exceção do baronete que já o sabia, arregalaram seus olhos. - Um feiticeiro elfo escuro, vindo de Hule? Todas as palavras usadas para descrevê-lo tinham de ser usadas com cuidado. Hireegard. O que ele estava tramando? - Com todos estes pensamentos se apertando dentro da cabeça de Dedanogor, um deles saiu. - Hireegard, o que pretende? Sem querer ofendê-lo senhor. – Disse enquanto olhava para o elfo. – Mas sabemos a espécie sem caráter que são. Hireegard onde está nos metendo, acho que suas visões ficaram turvas e perdeu-se nelas. - É verdade. Não gostamos de elfos escuros. Cinzas ou negros, vermelhos ou amarelos, também. – Falou nervoso o brutal Enervous, já pisando mais forte para perto do elfo. - Acalmem-se todos. Cheios de prejulgamentos. Se fosse assim Enervous nunca o teria contratado, por saber como os brutais são ignorantes e não saberiam levar uma ordem a diante. Niblihim é uma exceção, assim como você. – A voz de Hireegard imperou na sala, afinal era sua casa. Enervous parou a meio caminho, já com a mão a repousar na clava de aço. Olhou para Dedanogor, este nada fez. - Sou o que sou e nada tenho a dizer a não ser isso. Dinheiro é pouco para o que vamos conseguir. Juntos poderemos conquistar muitas coisas. Podemos ser... reis.- O elfo falava pouco, mas quando o fazia era certeiro em suas palavras. Todos calaram-se entreolhando-se em um mar de dúvidas que tinha como a maior onda deste mar, Dedanogor. Sua vida estava tomando um rumo por ele desconhecido, mas que o fazia querer pagar para ver... ξ Os dias se passam enquanto o grupo cavalga em direção a seu objetivo. Desta vez estão juntos: Dedanogor, Enervous, Sâmara, Niblihim e Hireegard. Todos estão a cavalo, salvo Enervous que caminha, e Hireegard que segue em uma carroça coberta, esta leva os equipamentos. Armas, armaduras, alimentos, sacos de dormir, entre outros. Dedanogor pensa no que está fazendo. Olha para o elfo que cavalga em um cavalo temeroso do seu próprio cavaleiro. Niblihim é um mistério. Calado, tem uma segurança estranha. Cavalgam por estradas esquecidas a muito, chão este feito de pedras da era do cataclismo. As noites foram com o tempo ficando mais escuras, enquanto a estrela se escondia com receio de olhar. Dedanogor observava a todos com olhos preocupados. Preocupação esta que lembrava os medos anteriores de Gajão.

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O forte se esquia por 20 metros das paredes das mesmas pedras da estrada cavalgada. Hireegard, de pé no coche da carroça, avistava a presença da fronteira de Maior. - Estamos chegando. À frente teremos problemas. Um grupo que não quer ser visto, nem ouvido. Como passaremos nesta fronteira? Sâmara o olha. Repete no falar o que outrora pensara. – Por que não estamos viajando pela floresta? - Não! Floresta não! – profere as palavras sem pensar, o recôndito elfo negro. Em seguida levanta a fina sobrancelha escura assustando-se com o seu feito. Dedanogor logo disso se apercebe. O elfo deveria ter um medo sombrio das folhagens e terra da floresta. Preferiam esta raça, sempre as coisas de pedra. Como os anões cultivavam a natureza morta. E sabia que anões tem um ódio escondido deles, e ainda mais raivoso era o ódio escarnado dos elfos da floresta, daqueles de quem, ¨Zath¨, o próprio tirara o segredo. - Difícil seria andar nas florestas. Demoraríamos séculos. Exprime Enervous alheio a Niblihim. - Alto! – Todos obedeceram. A mente de Dedanogor já começava a arquitetar. Hireegard, entretanto começava a odiar esta mudança de liderança. - Sâmara, desmonte, caminhe pela esquerda e prepare o seu arco, como só você sabe fazer. – O jovem mudava a cada missão, isso ela podia perceber. Ávido por informações, e controle, era este homem. - Ela pensava. Aceitando e vestindo o eventual capuz de malha na cabeça, a mulher guerreira assente a ordem. - Enervous, prepare-se para um assalto frontal às portas da fortaleza. O brutal já rodava no ar sua clava de aço mágica e exprimindo um sentimento alheio ao desta raça, ele conseguia proferir as palavras mágicas que acionavam o poder da clava. - Quebrar muralhas. - Falava sem saber, em outra língua. - Niblihim. Não somos feitos como milícia ainda, nos consideraria como um pequeno exército. – Fala calmamente para o feiticeiro demonstrando no rosto esquio, o espanto pela forma com a qual o humano sabe articular. Portanto te pergunto. O que poderia fazer por nós? O mago sorri. Gostou da forma com que foi tratado pelo humano. Logo, tornou-se a postular sobre o que poderia fazer. Até ser interrompido por Dedanogor e resumir sabiamente. - Posso fazer com que nós passemos sem fazer barulho ou trabalho. Mas não poderemos atacar ou a magia não funcionara. - Não gostei desta magia. – Disse o brutal. Afinal Enervous estava há tanto ansioso para ver os poderes deste mago, mas tinha que ser algo estrondoso, mortal. Todos parados olharam para Dedanogor, até mesmo Hireegard sorrindo esperava por uma resolução. Dentro da armadura negra o filho de Gajão se transformava ainda mais, tornava-se mais frio, meticulosamente maligno. - Perfeito mago. Vejamos de que sabe. Niblihim nem esperou a frase ser completada. Pulou do cavalo com agilidade impar. E sacou de um dos seus cintos de pequenas bolsas, pó. Arremessou sobre ele mesmo, e derramou um líquido a sua volta. Com cânticos de palavras difíceis o pó subiu ao ar e... Nada ocorreu.

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- Invisível? Quer dizer não visível? - Questionou o brutal, enquanto olhava para todos procurando aprovação. Sâmara acenou que sim para Enervous. - Vamos então. Logo saberemos se Niblihim é competente ou não. – completou. O guerreiro de armadura negra adora cada vez mais aquela mulher. Seguiram então vagarosamente, cada um com sua responsabilidade de montaria. Conforme o forte ia se aproximando, perceberam o quão guarnecido estava o lugar. Além dos muros, cravados acima, bestas que apontavam para um alvo no céu, ou na terra. Ele estava localizado bem no meio da passagem para adentrar a floresta das raízes. A floresta do chão oculto, onde nunca antes foi visto a terra negra, abaixo de um emaranhado de raízes. Estas se estendiam ao terreno, de vários tamanhos e calibres, umas sobre as outras faziam uma estranha estrada para dentro da floresta. Com criaturas tão características como ela mesma. Lá dentro a talvez quilômetros de verde, um santuário de Co-on, o deus do cataclismo. Lá uma estatueta deste deus feita pelas mãos de KarranDor um fantástico artesão do aço, feita em homenagem a Co-on. Dizem que tal estatueta possui poderes mágicos, capazes estes de abençoar o local impedindo a entrada de quaisquer criaturas maléficas. Tal artefato valia toda a prata desta missão. Algo em torno de 15 mil moedas. O grupo seguiu para perto do forte. No caminho avistaram uma guarnição que descia a estrada. Eram ao todo vinte soldados. Homens da nação Maior. Trajavam escudos grandes e lanças, pequenas espadas pendiam de seus cintos. Maior, uma nação de conquistadores, conhecida por seu exercito invencível e suas cidades organizadas. O pequeno grupo ficou tenso, de pronto todos já estavam com as mãos em suas respectivas armas. Hireegard sinalizou para que saíssem um pouco da estrada de pedra e esperassem a passagem da tropa. Assim foi feito. Os soldados passavam marchando por eles, sem ao menos olhar para o lado. Todos, exceto Enervous ficaram extasiados. O brutal, como todos de sua raça, ficava triste ao perder contendas. Seguiram caminho subindo a pequena colina e passaram também sem problemas pelo lado direito do forte. Até Sâmara sorriu quando avistou um soldado na guarita que olhava diretamente para ela, mas não a enxergava de verdade. Antes mesmo de um giro da ampulheta passar, estavam na fronteira da floresta do chão oculto. - Daqui não podemos ir de cavalos, muito menos de carroça. Os animais podem ficar com as patas presas no emaranhado de raízes deste solo. Vamos ter de prosseguir a pé. Enervous vamos colocar as mochilas. – Dedanogor exprimia as ordens enquanto caminhava em direção a carroça, visando seus pertences. - Poderíamos levar um cavalo pelo menos. Se ele se ferisse azar o dele, assim teríamos como levar mais coisas. Estaríamos mais preparados. – Hireegard também exprimia ordens enquanto preparava o tal cavalo para a viagem.

negro.

- Estamos invisíveis agora, podemos prosseguir. - Disse-lhes o elfo

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Apenas Sâmara parou em dúvida de quem obedecer, Enervous já estava perto da carroça a colocar sua mochila de soldado e carregá-la com comida. Muita comida. Niblihim estava parado absorto, olhava para a entrada da floresta. As árvores estavam muito juntas umas das outras, formando uma espécie de muralha. O medo passava na mente do elfo negro, como um vento que arremata casas em um furacão tropical. Mas Niblihim enfrentaria mais uma vez este medo, checou então seus bolsos e mochila conferindo todos os ingredientes para seus feitiços. - Leve o cavalo e siga só. Não será sobre minha liderança que verei um cavalo morrer de forma estúpida. – De armadura vestida, o filho de Gajão empunha respeito, e suas palavras eram mais fortes. Hireegard desistiu e colocou sua mochila, apesar de não estar acostumado a carregar seus próprios pertences. Os cavalos ficaram para trás, amarrados por uma corda grande que os permitia pastar, e água de tonéis trazidos pela carroça, mas este aparato só duraria alguns dias, ou menos se alguma criatura os atacasse. Entraram na floresta seguindo uma fila Paranziana, um atrás do outro. Na frente Dedanogor, seguido por Sâmara, Niblihim, Hireegard e na retaguarda Enervous. Os troncos das árvores eram muito próximos um dos outros neste começo de caminhada, o chão nem podia ser visto, as raízes antigas como o mundo de Minlurd se estendiam por todas as direções. A viagem seria difícil. Todos seguiam o jovem guerreiro. Ele havia estudado tudo o que pode sobre esta região. A floresta do chão oculto, apesar de mística não era de larga extensão, portanto sabia que rumando ao norte encontraria o templo, e nele a estátua. Pelo menos era assim o plano inicial. No primeiro dia sentiam que tinham avançado apenas algumas centenas de metros e montaram acampamento perto de um enorme tronco envelhecido. Enervous e Dedanogor montaram suas cabanas, como bons soldados Celíacos e tiveram de ajudar os outros. Niblihim trouxe o fogo á fogueira com apenas um movimento de mãos. O fogo se extinguiu sozinho. Todos olharam para o elfo esperando dele, explicação. Mas este refez os movimentos e o fogo nasceu novamente. Para se extinguir mais uma vez. Desta vez Niblihim proferiu palavras desconhecidas em uma língua muito antiga, olhava para a mata, como se buscasse por algo. Ao final falou – Não será possível termos fogo aqui. A floresta não nos permitirá. - Esta querendo nos dizer que este lugar esta vivo? – Perguntou Hireegard. - Todas as florestas são vivas, senhor. – Respondeu o elfo, com um misto de admiração e receio. – Até mesmo as pedras são vivas se formos nos aprofundar no assunto. Dedanogor foi mais prático. - Pode nos fornecer alguma luz? Fiquei sabendo que magos podem... - Por favor, senhor, não compare magos, cada um é um ser único e diferente na forma e na ação. - Desculpe, não queria compará-lo. Afinal ninguém é melhor que outrem. – Respondeu o guerreiro, sabia ele sobre magos serem pessoas orgulhosas, e isso era algo que não gostava.

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- A escuridão não é problema para mim, posso ver tudo, tão perfeitamente como vocês vem em uma noite iluminada de uma taberna humana. Mas sei o quanto é ruim ficar sem um dos sentidos, portanto... - Mais uma vez Niblihim tirou de seus muitos bolsos uma espécie de pote, dentro dele dezenas de pequenos vaga-lumes, cismavam em estarem vivos. Abriu o pote, tomando o cuidado de pegar apenas um, e o levantou acima da cabeça proferindo outras palavras estranhas. A luz do vaga-lume aumentou e de repente pareciam estar em uma sala iluminada por um grande candelabro. Um a um do grupo respirou fundo de admiração. Apesar do elfo pertencer a uma raça de má reputação, ninguém podia negar que a sua aquisição, seria no futuro um diferencial entre o sucesso ao fracasso. Hireegard se aproximou de Niblihim e se pôs a perguntar sobre inúmeras coisas. Os outros foram dormir, com Enervous no primeiro turno de vigia. ξ No período em que, a noite caia rápida para os aventureiros, centenas de metros à frente o templo de Co-on existia inexpugnável. Sua forma grandiosa era a de um trono vazio. A porta posicionava-se na base do trono, onde ficariam as pernas do antigo deus do cataclismo, as janelas se prostravam a volta do trono, pequenas, retangulares e altas. O edifício tinha ao todo 20 metros de altura, porém não ultrapassava o cume das árvores, que cismavam em serem mais eminentes. As escadas para a base do templo estavam envoltas de raízes sendo uma delas estranhamente alta e formava-se como se fosse uma estátua de um humano. Este, parado de costas para o templo, como se estivesse fugindo do lugar. Mas da mesma forma que incautos são presos no cerce de sua intenção. A outros, brilha a luz de lampiões dentro do próprio templo. Cinco figuras encontram-se dentro do trono de Co-on, envoltas pelas sombras das paredes centenárias e com um único objetivo, salvaguardar a estátua feita por KarranDor. Destes, quatro são guardas sagrados vindos da fronteiriça cidade de Dwalin, lar do deserto e dos gênios magos. O quinto chama-se Anand Brushpur um monge de Co-on. Ordem monástica de homens devotos ao culto deste deus antigo e possuidores de poderes sobre o corpo, capazes de andar pelo ar e arrematar um oponente com golpes de seus poderosos punhos. Em sua testa ele traz o símbolo do louva-deus, animal sagrado para os monges, e é o líder deste grupo. ξ O dia voltou a reinar por entre as árvores da floresta. Continuaram a caminhar por entre as raízes aéreas e vez ou outra viam a sombra de um animal radicícola. - Quanto tempo, para chegarmos ao templo? – perguntou a impaciente Sâmara. - Acredito em mais um dia de viagem. – Respondeu o paciente Dedanogor.

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Enervous mais quebrava as raízes á esquivá-las, disse em tom pomposo. - Assim que chegarmos, chegaremos. Porém o único a rir foi Dedanogor , adorava o humor escrachado do amigo. Hireegard suava dentro da máscara e vez ou outra a tirava para limpar o misto de suor e pus que lhe saia da face. O que poucos viam, a não ser pelo observador Niblihim e Dedanogor, que ao passar por algumas flores, estas murchavam como se sugadas por algo vil, emanado por ele. Sâmara já contava os gastos de sua parte dos lucros. E tentava deduzir sua parte do pagamento desta expedição, por comer menos, por exemplo. A viagem prosseguiu sem problemas, fora uma vez ao meio dia quando almoçavam a ração fria, sentiram uma espécie de pequeno tremor vindo de dentro das raízes. O alarde terminou, pois este foi um evento isolado. A noite chegou mais fria, sem fogueira, apenas podiam contar com seus casacos de pele para esquentá-los. Sâmara demonstrava irritação, mas desta vez manifestou calada. Dedanogor bebia juntamente com Enervous, vinho trazido de Celeus e sobre os olhares de Hireegard eram julgados. Niblihim tinha o primeiro turno de vigia e este colhia pedaços de raízes e plantas e os guardava em sua sacola com muito cuidado. Mal sabiam, mas a metros dali encontrava-se seu objetivo. Cânticos soavam do templo trono, onde homens rezavam ao seu deus por terem conseguido encontrar o tão almejado objeto. De dentro da construção, a pedra fria era aquecida pelo coração dos homens que ali estavam. ξ O monge Anand a preceito conduzia a oração. Os cinco haviam viajado desde a capital em Dwalin fazia meses. Não era correto um artefato de tamanha importância estar em mãos desconhecidas, dentro do território Maior. Portanto para evitar as fronteiras guarnecidas, percorreram resolutos, as traiçoeiras montanhas de Granito, estas defendiam á norte o grande império. Escalaram, caminharam, perduraram contra o frio e os ventos traiçoeiros. Lutaram contra gigantes e trolls. Começaram a expedição como sete, agora eram cinco, sendo um deles admirado pelos outros quatro. O monge os havia salvado inúmeras vezes, e sentia com o coração de uma criança, a perda de cada um dos outros dois guerreiros Dwalianos. Agora aqui estavam, salvos e prontos para retornar a casa, com o tão importante objeto. ξ A manhã começou estranha, Sâmara havia acordado assustada, sonhara com um ataque ao acampamento por uma espécie de criatura saída das raízes. Esta parecia com um besouro gigante com grandes mandíbulas entrecruzadas em forma de foice. O único a ficar realmente temeroso foi Niblihim. A viajem prosseguiu e mais para o fim da tarde avistaram o templo. A construção era envolta por algumas raízes e Hireegard imaginou há quanto tempo ele estava ali. Deram a volta ao largo pela construção, até encontrarem

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a porta. A imagem da figura humana encoberta por raízes fez o coração de todos gelarem. - O que pode ter acontecido aqui Niblihim? – Questionou Dedanogor curioso. O feiticeiro não falou apenas olhava fixo para toda a construção e baixo murmurou algumas palavras enquanto pegava algo pegajoso dos bolsos. Todos responderam sem emitir som, apenas Enervous olhava boquiaberto para o enorme trono. - Nossa, imagine o tamanho deste deus, ele era gigantesco! - disse antes de ser calado pelo olhar de reprovação vindo de seu amigo. - Silêncio! Não estamos sós. Existem outros dentro do templo. – falou com força o pequeno elfo negro. - Quantos são? Pode saber mais? – preocupado perguntou Dedanogor, não conseguia imaginar que os guardas de Maior estivessem dentro do templo a proteger a relíquia. - Mais de três, é o que consigo ver. Um deles tem uma aura tão poderosa, que ofusca se houver outros. - Poderoso... quem poderia ser? – perguntou-se Hireegard baixo. Como não conseguia elaborar nenhum plano de ação, disse em tom de desafio. – E agora líder? Dedanogor olhou para ele de cima a baixo. Não era o tipo de soldado que gostaria ao seu lado. Se pudesse, montaria um time imbatível. Ele, Enervous, Alquemius, Thorkyn... riu. Os outros olharam assustados a reação completamente inesperada de seu suposto líder. Apenas Enervous riu com ele, fazia idéia do que ele poderia estar pensando. - Ultimato. Vamos fazer um ultimato. Assim saberemos quem são eles. Afinal se vieram até aqui, não desistiriam tão facilmente. Há algo mais neste templo que não nos contou Hireegard? - Nada mais de importância, a não ser a estatueta mágica de Co-on, que nos rendera muito dinheiro. – falando isso Hireegard incentivava a ganância em todos, sabia ele. – Colocaremos Enervous para fazer um assalto frontal a estrutura enquanto... - Se alguém tiver de fazer um assalto frontal este será você. – interrompeu Dedanogor. – Não rezo para este deus, mas não gostaria de destruir algo tão belo. - Eu não me importo. Posso derrubar parte da estrutura com minha clava de aço. – respondeu profissionalmente o brutal. - Eu sei que sim. Façamos o seguinte, você será meu plano de apoio, caso eles não se rendam. Prepare-se ao meu sinal para um ataque lateral a estrutura, assim que entrarmos você ataque pelo flanco. - Posso ajudar. – falou o elfo de pele escurecida. – Possuo um feitiço comprado secretamente da Tríade. - A Tríade? A sociedade de magos de guerra? Você é um societário? – interrogou Sâmara. - Não. Mas com dinheiro se compra tudo. Como estamos em um lugar ermo, posso usar este feitiço sem problemas. - E o que ele faz? Em termos práticos. - Ele chama-se: Batismo de fogo.

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- Fará os homens saírem do recinto? Pode danificar o nosso item que viemos buscar? – entrou no diálogo Dedanogor. Pensava rápido e já começa a esmiuçar todas as hipóteses. - O objeto é feito de aço, não o é? Nada fará a ele, apenas a carne. – falou com frieza o feiticeiro. Dedanogor chegou a dar um passo atrás. Afinal deviam ser humanos que estavam ali dentro. E o elfo tratava com um desdém maléfico. Mas mesmo assim assentiu com a cabeça, não estava ali para brincar. - Aguarde o meu sinal e falando isso caminhou resoluto até próximo às portas do templo, desviando das raízes que pareciam mais fortes e maiores neste lugar. Dentro do templo Anand sentiu um frio na barriga. Já estava acostumado a este sentimento, lhe trazia perigo. - Preparem-se para um combate, há alguém do lado de fora. - disse em alto tom, os homens obedeceram de pronto colocando suas armaduras de peito de aço e seus compridos escudos e lanças. Já conheciam aquele homem o suficiente para não questionarem seu instinto. E feito isso ouviram uma língua desconhecida a falar do lado de fora, como se os tivesse chamando. Dedanogor falava em Derghemom, língua conhecida de muitos, por serem este povo, comerciantes vorazes e conhecidos em toda Minlurd por suas viagens comerciais. - Saiam imediatamente! Queremos falar com vocês! Anand entendia esta língua, como um monge de Co-on teve ensinamento suficiente para falar mais de três idiomas importantes do continente de Merá. Olhou para seus homens com calma e pediu que estes o esperassem enquanto ele, saia pelas enormes portas de pedra do templo. Dedanogor trajava sua armadura negra, e estava sem o elmo, espantouse ao ver o homem que saia pelas grandes portas do templo. Careca, muito musculoso e vestia apenas uma calça comprida, seu tronco estava nu e estava de pés descalços. Do cume de sua cabeça lhe descia um rabo de cavalo trançado que terminava perto do joelho. Tatuagens lhe cobriam todo o corpo exposto, era como se o tivessem o coberto como um livro, mas pela distancia não conseguia enxergar em que letra o haviam feito. - Estamos aqui pela estatueta de Co-on, feita pelo lendário mestre anão KarranDor. Vim de Celeus para tomá-la! – sem pausas, sem hesitação. - Me chamo Anand, sou um monge de Co-on e vim de Dwalin, com o mesmo intuito! – com a mesma calma. De longe atrás de algumas árvores, Sâmara, Niblihim e Hireegard arregalaram os olhos. - Um monge de Co-on! – exclamaram. Estes guerreiros eram temidos até pelos hulísticos e sua inquisição os perseguia. Mais para a esquerda o brutal Enervous ouvia a tudo, admirava seu amigo, por estar mais uma vez à frente em batalha. De dentro do templo os homens que acompanharam o monge até aqui, entreolhavam-se em estima pelo líder que seguiam. Dedanogor sabia com quem estava falando. Os monges apesar de raros, eram estimados. Como guerreiros e como portadores fanáticos da palavra daquele deus.

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Mesmo assim continuou. Sua mão começava a procurar pelo elmo negro, seu machado pendia morto em seu cinto, mas logo tudo estaria acabado em questão de poucos minutos. Quinze mil moedas de prata... - Nos de a estatueta e parta em paz. Do contrário, haverá luta e mortos. Anand parou por alguns momentos. Sabia que isto estava por acontecer. Da mesma forma a informação viajava para aqueles com dinheiro suficiente para comprá-la. Assim que os espiões do Sheik de Dwalin souberam onde estava a estatueta, outros também o saberiam. Mas um dia, e ele já estaria voltando para casa, e não precisaria lutar contra estes homens. - Mercenário. Sua vida não vale o preço desta contenda. Nem que o cataclismo voltasse hoje, e o próprio príncipe demoníaco Rune me ameaçasse, não moveria um palmo sequer deste lugar. – disse Anand. Com estas palavras Dedanogor colocou o elmo. Era o sinal para Niblihim. Sâmara já estava preparada com o arco e flecha hirta a ponto de atirar a qualquer momento, mirava absorta para a porta, esperando alguém sair. De todos era a única a utilizar armas de longo alcance, Dedanogor e Enervous tinham treinamento em bestas de alcance curto, mas não eram mais competentes que ela. Pela primeira vez ouviram Niblihim gritar, sua voz saia esganiçada enquanto proferia palavras de poder místico. Anand pulou e chegou de forma impressionante ao pé do assento do trono templo a mais de dez metros de altura de onde estava Dedanogor. Que por sua vez já estava de elmo e espada em punho. Um som de ar sendo puxado para dentro do templo se fez, e repentinamente um outro seguido deste mesmo ar sendo expulso para fora, ao meio de fogo, caos, tecido e carnes queimados. Anand esbugalhou os olhos pelo barulho da explosão ocorrida dentro do templo em sucessão a balbúrdia de gritos de dor e desespero dos soldados do deserto. Como peças de um dominó que caem em seqüência mortal, todo o templo tremeu na sua parte oeste, quando uma parede fora derrubada pela clava de aço de um enorme humanóide. Porém o fogo tentou sair por esta fresta buscando mais oxigênio do lugar de onde se encontrava, impedindo a entrada do brutal, que agora se ocupava de retirar as cinzas que lhe caiam no corpo volumoso e teimavam em queimá-lo. Da porta saiu um homem desfigurado pelo fogo que ainda estava grudado a ele, mal saiu aos tropeções e foi atingido por uma flecha seguida de outra vinda da floresta, caiu inerte no chão de raízes. Anand Brushpur, monge de Co-on do louva deus, e ex-líder desta expedição. - Não! – com esta confissão em sua garganta, pulou afoito de cima do trono para baixo em um giro mortal, parecendo um prego de marceneiro que crava na madeira. Atingiu Dedanogor em cheio no peito e este caiu como um boneco no chão de raízes. Com um segundo pulo e caminhando no ar por alguns metros voou em direção a Enervous. O brutal viu a chegada do monge e girou sua clava para acertá-lo, Anand desviou dela no ar como uma serpente e urrando ao céu com uma palavra de poder, desferiu um golpe na nuca do brutal paralisando-o de imediato. Rolando pelas raízes e com Dedanogor a levantar-se o monge finalizou o gigantesco humanóide com um chute em sua traquéia, Enervous foi ao chão como uma estátua. Agora o berro vinha do guerreiro de negro, corria na

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direção do monge com a espada acima de sua cabeça. Da floresta duas flechas voaram em direção ao guerreiro das montanhas de Granito e este as agarrou com as mãos jogando-as fora. Em seguida desviou facilmente da espada gigante, que não conseguia acreditar em seu amigo brutal derrubado. Dedanogor respirava ofegante por entre a armadura, não conseguia mais pensar com cautela, apenas cogitava o ataque incessante. Ficou pasmo ao ver o braço esquerdo do monge transformar-se em um grande escudo feito de aço prateado. E foi este mesmo escudo que aparou o segundo golpe do guerreiro de Celeus. Sentiu a armadura envergar ao chute poderoso do homem de tronco nu e refletiu que talvez tivesse encontrado seu algoz. Mais dois homens saíram do templo, ambos arrastavam-se para fora e foram atingidos por uma espécie de luz negra vinda da floresta, e pereceram ali mesmo, longe de casa. Niblihim regozijava com a proximidade do término da missão bem sucedida. Sua mão estava negra e fria. O baronete Hireegard a tudo assistia, feliz por não ter de mexer um dedo, e na expectativa no resultado do confronto entre os dois guerreiros. Dedanogor pensou rápido e jogou sua espada para o monge que em um ato impensado a tomou pela mão, na seqüência sacou seu machado negro e desferiu um golpe mortal no crânio quase careca de seu inimigo, que por sua vez conseguiu segurar parte da pancada, mas o restante arrancou-lhe uma lasca de sua cabeça, atingindo o osso. Defendeu-se como um bote de cobra saída de suas mãos em direção a traquéia do guerreiro de negro, mas a armadura o salvou. Dedanogor empalideceu ao ver a cabeça do monge regenerar a ferida em questão de segundos. - Nunca cansar! Nunca cansar! – na cabeça do homem-menino, do guerreiro-fazendeiro, do guarda-assassino, as palavras tinham força. Ensinadas por Alquemius o capitão da guarda de Carpes. - E agora? – concentrava as idéias de como vencer este oponente. Agora começava a pensar como Thorkyn o ensinara. Concentração. Discernimento. Um soco lateral de Anand rachou seu elmo e o atingiu na cabeça, por alguns instantes ficou tonto. Mas com dois passos largos para trás voltou sua atenção a aquele homem de muitas habilidades. Com um rápido movimento arrancou o elmo da cabeça, fitando seu oponente com o rosto descoberto. Seu coração batia forte e Dedanogor podia senti-lo na garganta. Porém, contra todas as escolhas... sorriu. Gostava daquilo. Apreciava a violência e era devocionista do combate. Para este já homem, o combate exprime a máxima do agir. Atirou-se com destreza e concentração impar para cima do monge de Co-on, este também treinado na arte da guerra e das contentas. A luta foi incessante e perdurou por vários minutos, os espectadores que ali estavam observavam pasmos a constituição incansável dos dois combatentes. Nenhum lado cedeu, o monge, um fanático religioso, contra um homem com vontade de ferro. E da mesma fé que faz as montanhas tremerem dos homens crentes, Dedanogor sobrepujou seu inimigo com um golpe seco no meio do peito do monge. O machado rachou osso, como o faria com a madeira. Anand não acreditou enquanto era envolto pela escuridão e perdeu os sentidos.

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Muito ferido e com o braço do escudo quebrado, Dedanogor arrancou o machado de seu inimigo, levantou a arma aos céus e rumou sua lâmina rachando o peito e acertando o coração do monge, com força assassina. - Morre hoje devoto de Co-on! Seu deus não o protegerá da ganância dos homens! O elfo sorvia a cena com êxtase sádico, e de sua boca fina proferiu. – Vangardesh... Sâmara que estava um pouco acima, pendurada em um galho, que também presenciava o cenário, descendo de seu posto, perguntou. - O que disse elfo? - Vangardesh... O carteiro da desgraça. Seu amigo humano tem o coração de um demônio. Sâmara surpreendeu-se com as palavras. Esta constatação assustaria qualquer um, menos a ela. Excitou-se. Dedanogor correu em tropeções em direção a Enervous, este continuava caído ao chão. As mesmas raízes que cobriam o solo bebiam do sangue destes homens nem vis, nem bons, apenas homens a lutar pelo que desejam... A noite caiu rápida como se quisesse esconder a vergonha do que havia acontecido naquele lugar sagrado. Niblihim e o baronete pilhavam as sobras do que o fogo havia poupado. A estatueta feita de aço reluzente já se encontrava bem acomodada em uma caixa trazida apenas para ela. Sâmara saia de dentro do templo com dois candelabros pesados de ouro e foi interrompida de seus sonhos de seda e jóias pela visão de Dedanogor atendendo seu amigo brutal, sem ao menos se importar com o braço quebrado. - Vamos embora daqui. Outros poderão vir. É melhor retornarmos rápido. – disse Hireegard enquanto vestia a mochila com a estatueta dentro. - E Enervous? Ele não esta em condição de viajar agora. – questionou Sâmara carrancuda e pensativa. - Deixe-o ai. Ele sabia dos riscos desta missão e é responsável pelo seu destino. – a frieza da voz de Hireegard fez Sâmara gelar por dentro. - Dedanogor? – a mulher guerreira chamou pelo líder. - Hireegard esta certo. – respondeu o guerreiro ferido. – Ele é dono de seu destino. . – E falando começou a juntar o seu saco de dormir, com o do brutal, amarrou cordas e improvisou uma liteira. Cortando parte da corda amarrou o braço quebrado no corpo, e com apenas um braço começou a amarrar-se na carroça inventada. Sâmara foi até o seu lado e o ajudou no intento. Niblihim estava ocupado cortando o rabo de cavalo do monge e o guardando em uma das sacolas. Antes de partirem, Sâmara olhou fixamente para Dedanogor, já sem armadura e arrastando o amigo. O mesmo devolveu o olhar com o ardor de uma pessoa descansada. - Que homem. – ela pensou. Desde o primeiro dia em que o conheceu na estalagem, O porco que guincha, tinha uma idéia sobre ele. Essa idéia foi se modificando com o tempo enquanto ele mostrava seu espírito forte e

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convicções de aço. Ruborizou. Dedanogor apercebeu-se e sorriu. Sâmara pela primeira vez em sua vida, desviou o olhar e partiu a frente. ξ A volta foi mais longa à vinda. Enervous gemia baixo seu pescoço já grosso agora estava inchado e tinha uma coloração roxa. Mas o mais preocupante era o golpe dado em sua nuca. Apesar de nenhum dos dois homens o ajudarem, Dedanogor podia contar com Sâmara, que vez ou outro lhe trazia água do odre ou o ajudava na transposição das raízes mais altas. Por quatro dias viajaram. Hireegard não reclamou, nem Niblihim, não por compaixão a Enervous, mas por não quererem uma discussão com o guerreiro. Ao fim do quarto dia saíram de dentro da floresta. Porém encontraram no lugar das montarias apenas caos. Alguma criatura havia os devorado, a carroça estava intacta, mas a cena de um dos cavalos cortado ao meio e um rastro dos outros animais mostrava que eles haviam sido arrastados para dentro de um buraco enorme nas raízes. Isso deixou Sâmara assustadíssima. Talvez seu sonho não estivesse tão sem fundamento. - E agora? A carroça não tem mais cavalos e ainda temos uma longa viagem até Celeus. Nosso líder está um farrapo e carrega um corpo sem vida. – o baronete voltou-se para Dedanogor com o rosto em fúria, um cheiro ruim exalava dele a mais de sete dias sem tomar banho. - A missão está completa. Cada um pode ir agora sem mistérios até o forte e comprar cavalos para o regresso á Celeus. Eu seguirei com a carroça onde levarei Enervous. Não peço ajuda a ninguém. Apenas o valor de minha parte na comissão quando chegarmos à capital. – E dizendo isso Dedanogor subiu na carroça sem cavalos, e puxou seu amigo brutal para cima com muita dificuldade. O baronete assentiu com a cabeça e caminhou juntamente com Niblihim em direção ao forte. Mas apesar de tudo compraram mais dois cavalos para puxar o coche. A viagem para a capital de Celeus, Carpes, foi silenciosa. Dedanogor cuidou de seu amigo preocupado com o cessar dos gemidos. Enervous mal se movimentava. Vez ou outra sentava para comer vagarosamente a comida. Dedanogor estava inquieto, sentia que o amigo nunca mais voltaria a ser o mesmo. A ferida havia sido devastadora para o seu cérebro. Sâmara o ajudou muito, mas também dividiu sua atenção a fazer contas no que gastaria seu dinheiro. Em uma das tantas noites ao relento Dedanogor sentiu alguém se aproximando de seu saco de dormir. - Não estou bem para conversar. – secamente avisou. - Não vim conversar. – a voz agora era doce, mas firme, como uma guerreira decidida. Dedanogor virou-se, sob a luz do luar e a fogueira onde faltava madeira para alimentá-la, viu Sâmara. Ela vestia uma blusa comprida que vinha até suas pernas musculosas. Por baixo estava nua, seu corpo firme fazia com que a roupa tomasse uma forma perfeita. Caminhando soltou os cabelos negros e deitou-se ao lado do gigantesco guerreiro.

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- Me enganei ao seu respeito e por isso peço-lhe desculpas. Quando o conheci ainda era um garoto, mas provou-me ser um homem feito de aço e com um coração coerente. De agora em diante o chamarei de Vangardesh. - Vangardesh? Por que este nome? – Dedanogor achava tudo aquilo muito estranho, mas seu coração batia tão forte que suas frases saiam tremidas. - É sua alcunha. O nome que caracteriza o seu ser. – Quanto mais falava, mais excitada ficava. E resumiu. -Se me quiser serei sua. – E dizendo isso o olhou de forma atraente de uma mulher que sabe o seu poder sobre os homens. Dedanogor não poderia expressar-se com palavras, elas não vinham em sua boca. Tomado pelo desejo, a abraçou em volta de seu braço bom e sobre a ¨Luz dos viajantes¨, a possuiu sem pudores. ξ Em Carpes todos se retiraram para suas casas. Sendo que Niblihim se hospeda novamente na mansão de Hireegard. Dedanogor voltou ao quartel com Enervous para que os médicos e clérigos pudessem tratá-lo. Com a divisão de lucros da empreitada o filho de fazendeiro guarda a parte de Enervous em um banco conhecido como: ¨O grande Baú¨. Lugar este que empregava humanóides e magos para cuidarem de seus bens. Alguns bancos faziam uso de armadilhas mortais, este além disso usava da magia para afastar os ladrões mais ousados. Com uma parte de seu ganho, pagou a Lemo. Procurou curandeiros e até chegou a questionar um membro do Império da Morte, conclave de magos estudiosos no campo de magias necromânticas. De um humanóide sem cérebro, conseguiu que seu amigo voltasse a ter o mínimo raciocínio, ou seja, um típico brutal. O único problema era que se antes Enervous era agressivo em combate, desta vez ficava ensandecido e atacava quem estivesse em sua frente, amigo ou inimigo. Mas nunca a Dedanogor, estranhamente, nunca ele.

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Capítulo 10 – O prego se fixa
¨Aquele que faz a tudo sem pensar, um dia morre burro ¨ Os dias se sucederam e há eles o tempo se curvou. O período de 151DC há 158 DC, foi marcado pelo início de duas guerras. A Guerra Cinza. Bill StrongWill rei anão de Manaath, decretou guerra aos elfos cinzas de toda Minlurd. Avançando tanto suas tropas aéreas, aves gigantes que carregam anões, e sua infantaria pesada para as fronteiras de Manaath. O monarca adentrou no túnel de Yasa que levava diretamente para o Território Salvático. Dentro desta passagem subterrânea descomunal, existem inúmeros sub-túneis que levam a mistérios inexplorados. Vários pontos estratégicos são utilizados pelos sombrios elfos cinzas. No oriente o Oceano Xanegoli, fica tenso com as fragatas de guerra de Mang Po, Bu e Mang Ru que formam uma aliança para enfrentar a poderosa Tao. A zona de comércio do oriente fica em xeque na conhecida Guerra Inerte. Dedanogor continuou suas missões como Vangardesh e logo preferiu sair da guarda de Carpes. Afinal, trabalhava menos e ganhava absurdamente mais como mercenário. Já estavam começando a aceitar incumbências constituídas de viagens a regiões fora de Celeus. O trabalho com a guarda necessitava de autorização para folgas grandes. Pediu a exoneração a Alquemius, que de pronto não aceitou. Mas ninguém dizia não a Dedanogor naquela época. Seu ego inflado pela competência de seus trabalhos, e seu esforço impar em realizá-los o tornaram bastante presunçoso. Um belo dia retirou-se dos quartéis e foi morar em uma pequena casa em Carpes, juntamente com Sâmara. Enervous já havia sido demitido, devido a sua condição atual. Não era possível controlar a avalanche de violência e sangue que ele havia se tornado. O baronete continuava a arquitetar e arranjar encontros que resultavam em missões ilícitas e lucrativas. E disto tirava seu soldo. Havia aumentado de poder tão logo aumentou seus cofres, escondido de Vangardesh possuía escravos sexuais, e influencia na corte Enervous diminuía sua participação, pois algumas incumbências eram arriscadas e sigilosas. Dedanogor arranjou um trabalho para ele de segurança noturno em um armazém de mercadorias contrabandeadas de Derghemom. E o visitava constantemente. Ele e Sâmara agora moravam juntos em uma humilde casa nos arredores do muro leste, porém dentro de sua casa o luxo espúrio era abundante. A necessidade se fez e precisaram dar um nome a este grupo de mercenários, por sugestão de Niblihim denominaram-se, os Sabotadores. E desta forma eram conhecidos no continente de Merá. Estes sete anos trouxeram muito dinheiro e excessos. Vangardesh se firmou como líder, seguido de uma fervorosa fã, Sâmara. Niblihim também exercitava seus poderes místicos, com experiências nefastas e uma vontade impar de conhecimento.

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ξ Solarius o Deus Sol, irradia sob o relógio de sol colocado na colina leste do porto de Carpes, as horas de um mês, do ano de 158 DC. Dedanogor é o único a cavalo, cujo nome é Bicudo. Este nome lhe fora dado, por nunca recuar a nenhuma situação. Obedecendo cegamente seu mestre, o cavalo já realizou proezas como cavalgar com ele para dentro de uma infantaria de humanóides, na missão de Lekar em 155 DC. A baía do porto de Carpes abria-se por cinco quilômetros de extensão. Vários barcos estavam ancorados. Alguns aguardavam sua vez para descarregar. Eram conduzidos por práticos. Homens que vinham a nado, mergulhando do longo das rochas a leste. Estes indicavam o melhor caminho a seguir, para entrar nas docas. Algumas destas embarcações não possuíam remos e não poderiam entrar com as velas hasteadas. Pequenos stiffs com vários homens remando, ocupavamse de guinchar estas embarcações. Os sabotadores andavam juntos. Desviando de caixas, arcas, jaulas, e de inúmeros produtos que estão a ser descarregados nos guindastes de madeira e corda presos ao chão do estaleiro. Bicudo enerva-se, um gonde passa por entre suas pernas, rodeando as muitas pessoas que ali se encontram, desde escravos acorrentados em fila vindos de Sembalo, como marinheiros, estivadores, guardas e contadores, que com suas pranchetas com papel e tinta, controlam a mercadoria vinda de fora. As conversas são freqüentes, afinal, notícias de todo o mundo passa por ali. Enquanto os Sabotadores trafegam abrindo seu caminho na multidão, ouvem inúmeras conversas. - O Deserto de Gondagarak é tão gigantesco que aquele que entra nele, não mais sai. O próprio deserto tem o poder de se expandir engolindo o viajante incauto. Estas caixas estão repletas de jarros de óleo de pedra de lá, e estão sendo enviadas para Mang Po. - Você acredita nisso? Devem ser viajantes muito inexperientes que se perdem e contam estas estórias... Isso se eles sobrevivem é claro! Na risada da dupla. Dedanogor desvia Bicudo de uma jaula grande e totalmente lacrada. O animal relincha. Um som abafado segue-se em seguida de dentro dela. Dois estivadores estão a amarrá-la para ser içada pelo guindaste. E seguem em sua conversa. - ...O lago dos sonhos... Um dia ainda irei lá, dizem que ele se encontra a volta de uma floresta em Reno. É um local de reflexão e entrega total, aqueles que bebem de sua água dormem, e sonham... Todas as suas perguntas são respondidas ao acordar, se desperta para uma nova vida, uma nova chance... - Todas as suas indagações são solucionadas? A conversa é interrompida pelo trabalho, prioridade neste caso. Mais conversas são ouvidas até a chegada ao cais certo. Um bote os aguarda. - Dedanogor, como vai levar Bicudo? – Sâmara pergunta com preocupação genuína. Desde que comprou este cavalo há três anos atrás Dedanogor o leva em todas as missões.

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- Ele vai conosco, nem que eu tenha que pagar um navio só para ele. – o guerreiro se encontra sem a armadura. Já é procurado pela guarda como mercenário inimigo do rei. Porem não compreende este titulo dado, haja vista que suas missões não têm fim político, e sim monetário. Para ele poderia roubar um nobre em um dado mês e ser contratado pelo mesmo para outra incumbência no mês seguinte. - O dinheiro não faz distinção. Ele é um estado por si só. – pensa alto. Enervous segue em silêncio profunda, vez ou outra dá pequenos grunhidos de insatisfação quando um humano desavisado esbarra na confusão organizada do porto de Carpes. Niblihim e Hireegard chegaram mais tarde, ambos seguiram na carruagem de baronete. Apesar dos freqüentadores das docas já terem visto de tudo, um elfo cinza é sempre uma figura que se destaca na multidão. - Não se preocupe senhor. Seu cavalo será levado no próximo bote, destinado a levar as bagagens e mantimentos para a viagem. – O marinheiro que acalma ao trio, não esta tranqüilo. E fica ainda menos quando os três sacam suas armas olhando para trás, assustados por um barulho estrondoso vindo do estaleiro. Mas é apenas um acidente não incomum. Um guindaste desabou, não conseguindo suportar o peso de uma grande jaula fechada, cedeu machucando muitas pessoas. Pelo menos a prisão deste animal ou monstro não rachou. O grupo segue no bote, deixando para trás o cavalo ainda relinchando excitado pela movimentação no porto de Carpes. Seguem para o barco de nome O Voador. Só mais a tarde, com a chegada de Niblihim e Hireegard a nau parte para o Oceano Anárquico. O som de inúmeras aves anuncia a saída do barco do porto. Talvez elas imaginem que esta embarcação as levará para uma fartura de peixes. Ou estejam indicando o caminho certo para o Mar Anárquico. Mas não este navio, o Voador segue com uma tripulação sombria, para um destino ainda mais escuro. Ela navega para o continente conhecido como Reinos Caóticos. Nome este muito apropriado, haja vista, não possuir uma unidade ou estado único e sim composto por várias cidade-estado, regidas por piratas, larápios, foragidos de várias nações por sentenças proferidas. O lugar tinha renome de ser um dos ambientes mais corruptos de toda Minlurd. O interior do continente era inexplorável, uma cadeia de montanhas circundava o litoral deixando o âmago deste continente esquecido para os auto intitulados reis. Afinal era muito mais lucrativo, pilhar e controlar o Oceano Anárquico com investimentos em embarcações de pirataria, do que embrenharse no meio da mata fechada para o desconhecido. Os Reinos Caóticos tinham uma defesa espetacular contra as frotas bélicas de nações como Maior, Mang Po, Celeus entre outras. A quilômetros antes da costa o continente era açoitado por ventos fortíssimos que nunca cessavam. Nunca. Alguma energia mística mantinha todo o litoral dos Reinos Caóticos protegido por este cinturão de mais de cem quilômetros de largura, 56 milhas náuticas, com ventos duros e incansáveis. Apenas alguns poucos conseguiam pilotar os barcos na corrente certa deste maremoto infinito. Esses pilotos eram riquíssimos em Merá e venerados no Oceano Anárquico. Faziam a ponte entre saídas e entradas neste continente misterioso.

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Hireegard observava Anacrucius. Havia pagado caro aos Os Sem Nome, para localizarem um capitão experiente. A missão desta vez, encomendada por um diplomata de Mang Po era a de entrarem no continente dos reinos e aventurar-se até uma das montanhas, próximo a cidade de Agulha. O capitão tinha lá seus cinqüenta anos, sua pele era morena e enrugada do sal das águas Anárquicas. Seus vastos cabelos brancos davam a ele uma aparência extravagante, ainda mais com um corpo musculoso de tanto nadar e trabalhar. Um homem de poucas palavras e muita energia. Era cego de um dos olhos de tanto olhar para o sol com seu quadrante, onde se verificava pela angulação em relação a este astro e conferencia em livros, a latitude da embarcação. A tripulação não era de muita confiança. Bucaneiros, patifes e piratas infestavam o navio o Voador. Só tinham fidelidade ao dinheiro e amor a sua própria ascensão. Porém a fama dos Sabotadores os deixaria seguros naquele infame convés. Sâmara estava de pé na amurada segurando apenas uma corda que estava tesa, presa ao mastro traquete. A guerreira de seus vinte e nove anos chama a atenção de toda a tripulação por seu corpo de curvas perfeitas. Dedanogor a observa sem ciúme. Repara que sua mulher olha para o caminho adiante, como se se impulsiona a todos do grupo a fazer o mesmo. Ri. É o tipo de mulher que ele respeita. Caminha em direção a Hireegard, que está a conversar com o capitão, Anacrucius. Anda sem dificuldade pelo tombadilho, Enervous também está na amurada, porém sua atividade é menos honrosa. Enjoado pela oscilação da embarcação, despeja pela boca o conteúdo do almoço. Que não foi pouco. - Quantos dias até a chegada ao cinturão de maremotos? – Dedanogor olhava para os dois. Sempre fitando os olhos, fazia questão de estudar cada reação dos interlocutores. O capitão tencionou responder, mas Hireegard foi mais rápido. – Aproximadamente dois meses de viagem com ventos bons. Teremos tempo de sobra para preparar nossa campanha a essas terras sem lei. – Como o baronete amava coordenar e comandar. Ele mesmo se parabenizava por sua inteligência. - Já comprei todos os mapas possíveis e impossíveis sobre a região. Teremos trabalho de sobra. – Dedanogor pensava sempre na frente. Em todos os pormenores de uma ação e como executá-la com o máximo de eficiência e o mínimo de esforço. Havia aprendido com Thorkyn que o mais forte não significava o mais fadigado. Hireegard fechou o rosto. Não gostava quando Dedanogor tinha a última palavra. Não gostava que ele e Sâmara estavam bem juntos. Queria ela. Na verdade queria tudo para si. Andava sem capuz no navio mostrando livremente sua máscara que lhe cobria apenas metade da face. Os marinheiros apenas vigiam este grupo de figuras excêntricas. ξ As semanas passaram rápido no começo. Além de terem em suas tarefas que ajudar a tripulação, quase sempre passava uma embarcação ou outra. Desde navios mercantes litorâneos vindos de Reno, Brita, Derghemom,

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Dwalin. E até oceânicos vindos de Edo, Mango Po, Param Azi. Também enxergam ao longe as famosas fragatas Celíacas, rápidas, leves e com alto poder de fogo, provindo de suas catapultas. Tanto o capitão quanto a tripulação do Voador, preferiram afastar-se destas visões. O costume em fugir das autoridades era inerente nesta embarcação. Contudo o barco navegou por dias e noites, que começaram a tornar os momentos maçantes. Mesmo sobre intensa atividade entre os membros do grupo que passam e repassavam movimentos de luta juntos, a tediosa rotina estava deixando todos exaltados. A tripulação acostumada a roubos e pilhagens, tinha ordens expressas de apenas servirem como transporte, pois arriscar a missão em atacar um navio mercante seria jogar fora todo o ouro recebido dos Sem Nome. Em menos de um mês a bebida alcoólica já tinha acabado, e desentendimentos já eram comuns. Enervous passava quase o dia a dormir. Não gostava do navio, mas acompanharia Dedanogor para onde este o pedisse. Niblihim preferia ficar trancado em seu quarto, odiava o céu aberto e o sol escaldante, preferia sair apenas à noite para dar uma volta pelo convés e conversar com o seu grupo. Hireegard passava o dia com o capitão, discorrendo sobre o Oceano Anárquico e as políticas das fronteiras marítimas. Sâmara era objeto de desejo de toda a tripulação. Onde quer que fosse, era despida com os olhos. A atitude de Dedanogor de respeitar a todos, causava brigas entre o casal. Ninguém é melhor que outrem, não funcionava naquela nau de pilantras. O céu limpo e sem vento permitia a tripulação lançar-se em desafios de jogos de azar a dinheiro. Dedanogor jogou com eles. O jogo consistia em dados que atirado pelo tombadilho deveriam somados dar um número específico para a sorte, havendo outra soma para o azar. O dinheiro mudava de mãos rapidamente assim como as conversar mudavam de bocas. - Se continuar jogando assim, vai tirar todas as moedas do pagamento de Scurf! – dizia em alto e bom tom um marinheiro de seus quarenta anos. Nesta idade, tendo sobrevivido tanto tempo já era considerado um lobo do mar. - Eu vou pedir um crédito para o capitão! – respondeu Scurf à gargalhadas. Ele era o segundo em comando, o imediato. Tinha trinta anos de idade e era o mais alto de todos, seu gosto por lutas e sangue era bem conhecido. Trajava sempre uma maça a tiracolo, adorava abrir a cabeça de seus adversários. Todos estavam rindo e zombando um dos outros. Dedanogor entre eles. Era sua vez de jogar. - Cuidado garoto ou vai amassar os dados! – Um marinheiro brincou com Dedanogor. Seus vinte e cinco anos aproximados lhe conferiam uma estatura de um metro e noventa centímetros e pesava aproximadamente, seus cento e trinta quilos de músculos de aço, tórax largo e pernas grossas. Mesmo impondo respeito com seu tamanho, o convívio gerava uma intimidade mentirosa. Dedanogor jogou os dados e o número de azar apareceu. - Assim vai perder todo o seu salário também! – provocou Scurf. O menino homem levantou e deu seu lugar a outro.

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- Se ele apostar a mulher dele. Vai ter crédito de sobra! – um comentário sem nome saiu do meio dos homens que ali estavam. Todos riram confirmando a frase. Dedanogor preferiu calar-se e rir com eles. Afinal estavam ali para se divertir. Porém seu coração bateu forte. Mais dois marinheiros foram jogar disputando entre si o dinheiro ganho. - Se continuarmos assim neste marasmo. Vamos virar gaivotas do mar. - Eu não agüento mais limpar o convés e guardar as cordas. Quero ação! Algum barco para pilhar. Mercadores imbecis para tirar todo o dinheiro e me divertir com suas mulheres! - Os homens exprimiam o que estava em sua natureza. Estavam insatisfeitos por servirem apenas de guias turísticos. Eram piratas sanguinários. Dedanogor começou a perceber a falha na contratação de Hireegard. Como ele esperava controlá-los durante os meses de viagem? Mas não podia permitir um assalto a qualquer navio, arriscando ser perseguido por naves bélicas. A missão era sigilosa, precisavam ir e voltar em segredo. Tiraram Dedanogor de seus pensamentos o chamando, já era sua vez novamente. Desta vez disputaria contra Scurf. - Jogue primeiro. – disse enquanto terminava de raciocinar. O primeiro imediato jogou os dados com força. Os números da sorte lhe sorriram. O azar acompanhou Dedanogor na sua vez de lançar os dados. Com isso tencionou levantar-se. - Podemos apostar mais alto. – falou Scurf em tom sombrio. Dedanogor o encarou, já começava a não gostar de sua expressão. – Eu aposto todo o meu pagamento nesta viagem e você... Aposta uma noite com sua mulher. Quem ganhar leva o prêmio. Os homens ficaram em silêncio. Até mesmo não se ouvia o som do mar a bater no casco do navio. Dedanogor sorveu as palavras. O ímpeto o faria pular para cima de Scurf. Controlou-se. Ele já estava ganhando esta luta. Decidiu-se por tomar para ele a vantagem, desde o começo. Respirou fundo, ganhando tempo para reformular seus pensamentos, suplantou as emoções para raciocinar com mais competência. - Prefiro disputar outra coisa. – disse sério. – Vamos apostar a sua vida. Se antes havia o privação de sons agora uma explosão de ruídos se fez. Os homens excitados já começavam a apostar quem seria o vencedor. Scurf não se deu por vencido. - Vamos apostar as duas coisas garoto. O vencedor fica vivo e acompanhado. – o sorriso de dentes amarelos, demonstrava a maldade nos pensamentos do imediato. Gargalhadas no convés, todos ali eram culpados de seus próprios pensamentos mesquinhos. Dedanogor sentiu-se mal, por estar rodeado de tamanha corja. Mas sabia que tinha sido sua escolha estar ali. Sua e de mais ninguém. Ambos sentaram-se de cócoras um ao lado do outro. O primeiro a jogar os dados seria Scurf. Os marinheiros se amontoavam uns em cima de outros. Pagamentos futuros já estavam concorrentes em um ímpeto de loucura graças à morosidade da viagem. Os pequenos cubos de marfim foram jogados acertando a amurada e voltando para os jogadores. - Sete! – Berrou um dos marinheiros.

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Tapas nas costas de Scurf demonstravam que ele já estava na frente. Cabia a Dedanogor agora empatar, ou perder. O jovem guerreiro tomou os dados na mão, apertando-os com força estupenda. Scurf já colocou a mão na empunhadura de sua maça, sempre presa ao seu cinturão. Ao sair o resultado já acertaria este jovem na cabeça e clamaria seu prêmio. Teria todos como testemunha, não temia represálias. Dedanogor estendeu o braço musculoso a sua frente e deixou cair o pó que outrora eram os dados. - Perdi. – Sorriu jocosamente. Tudo aconteceu muito rápido. Scurf, já preparado levantou-se tomando sua maça na mão direita e acertou de raspão a cabeça de Dedanogor. Isso já foi o suficiente para fazer jorrar sangue na platéia de marinheiros atrás deles. O jovem levantou-se tonto e com a mão esquerda segurou o braço da maça de Scurf. Uma disputa de força começou. Dedanogor auxiliou a sua parte, desferindo uma cabeçada no nariz do experiente pirata. Estavam quites até aquele momento, ambos vertiam sangue por suas faces. Os espectadores abriram uma roda entre os combatentes. Proferiam palavras obscenas e incentivos para aquele onde seu dinheiro gerasse lucros. Dedanogor soltou seu aperto, permitindo ao imediato desferir mais um golpe. Porém esquivou-se facilmente pulando para trás. Ainda estava tonto da pancada na cabeça, que poderia ter matado um homem comum. Mas não a este guerreiro já experimentado em luta. Olhou em volta procurando algo que pudesse usar com arma. Encontrou um grande anzol do tamanho de um braço. Tomou-o do chão e mais uma vez Scurf tentou acertá-lo com a maça assassina. Foram dois golpes seguidos, um esquivado com o corpo, o outro aparado pelo anzol recurvado. Scurf estava nervoso, tinha pretendido matar o garoto rapidamente, até mesmo se os dados tivessem dado empate. A luta estava estendendo-se demais, logo estaria cansado, seu adversário era mais novo que ele e tinha uma aparência de ser um cavalo em constituição. Preferiu atacar incessantemente, assustando-o. O que Scurf não sabia, era que quanto mais tinha tempo para pensar em batalha, mais este jovem estudava tática, montava planos de ação e os executava com coordenação impar. Afinal este fora treinado para a guerra, não para a vida no mar. Duas manobras com a maça em círculos verticais e o gancho já repousava no peito de Scurf. O mesmo não entendeu estupefato, como aquilo havia acontecido. Foram seus últimos pensamentos antes de fechar os olhos e seguir para os portões de Amdosias. Ofegante Dedanogor olhou para os homens fixamente. Aquele momento poderia ser atacado por todos se não se colocasse firmemente. - Ninguém é melhor que outrem! – gritou. – Não tentem mais tomar vantagem de mim ou de meus amigos. – referia-se aos Sabotadores, mas só conseguia imaginar Sâmara e Enervous. – Ou morreram assim como este verme do mar! – Em sua última frase percebeu que se excedera. Ofendeu aos piratas que juntos começavam a sacar suas adagas escondidas e caminhar lentamente em sua direção. Dedanogor amaldiçoou suas palavras e a forte emoção que o tomara. Olhou para a maça de Scurf caída ao seu lado e já começava a contabilizar suas chances. Uma adaga muito mais bonita das que trajavam os ladrões voou certeira até o mastro principal, cruzando a fronteira que dividia os combatentes. Em

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conseguinte, um urro gutural saía da boca de Enervous que estava a segurar sua clava de aço em seus ombros. Sâmara já tomava em suas mãos suas duas espadas curtas. Os piratas pararam de súbito. E como um cardume de tainhas que se dispersa do ataque de predadores vorazes, o grupo de malfeitores se desfez. Dedanogor agradeceu a Enervous e Sâmara com um sorriso de alivio e alegria. Amigos... Dedanogor começou a perceber que liderar um grupo de mercenários não era só ser competente para cumprir as missões juntos, mas também mantê-los ativos e interessados. Começou a colocar Enervous para nadar, ao lado do navio por pelo menos duas horas por dia, mantendo assim o vigor físico do brutal e seu humor. Entrou, mesmo que sem muita vontade, em conversas com Niblihim aproveitando para extrair dele todo o conhecimento que tivera de uma educação rica. Cuidava de Sâmara com mais cuidado mantendo seus desejos em dia e seu conforto. Com o Hireegard era diferente. O baronete nunca lhe deu oportunidade. Ele odiava a liderança de Dedanogor, tentando sempre a todo o custo desacreditá-lo perante o grupo, em todas as oportunidades que tinha. Mas enquanto tivessem sucesso como mercenários que eram, nada poderia ele fazer. O barco se aproximava do cinturão de maremotos. Os homens trabalhavam a toda a carga preparando o navio para a passagem de mais de cinco dias de tormentas. O incidente acontecido há semanas atrás já era estória antiga e todos se respeitavam, pelo menos por agora. Da gávea do Voador o pirata de plantão avistou o inicio do cinturão. Nuvens negras e pesadas estendiam-se no horizonte. Raios podiam ser vistos acertando o mar, escondidos atrás das nuvens e em lampejos no canto do olho. Não era um cenário bonito de se ver, mas para o capitão Anacrucius era. Em toda a viagem só haviam o visto entediado, a não ser com as conversas com Hireegard, sempre relacionadas a consumo e riquezas. Mas agora o capitão do Voador parecia estar mais vivo que nunca. Gritava em alto e bom tom ordens para todos os marinheiros. Estes por sua vez movimentavam-se com muita destreza no tombadilho, que já começava a ficar escorregadia devido à chuva fina que caia enquanto se aproximavam do cinturão. Logo Enervous já estava na amurada colocando para fora, sua insatisfação desta viagem. Niblihim preferiu refugiar-se nos quartos, já havia protegido todos os seus pertences, tanto dos sacolejos do barco, quanto da água se esta cismasse em entrar. Do lado de fora, Sâmara, Dedanogor e Hireegard, faziam questão de experimentar esta sensação, observando atônitos a aproximação da tempestade. Mal o Voador entrou na fronteira do cinturão, já aborcou para bombordo de uma forma que sua amurada quase tocasse as águas do Oceano Anárquico. O capitão comandava o leme e soltando-o fez com que o navio se aprumasse sozinho. Estavam com as velas triangulares cheias, porém haviam trocado seu pano. Agora usavam outro tecido, feito diziam os piratas por tecedeiras de Mushi. As fibras são colhidas manualmente. Sendo que a forma manual de coleta é feita normalmente nos arbórea e trazia um produto muito mais livre de

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impurezas. As fibras são, de facto, pêlos originados da superfície das próprias sementes. Estas por sua vez provindas de uma espécie rara de planta, parecido com o algodão era muito mais resistente. O segredo vinha não só da semente desta rara planta, mas também da competência das tecedeiras de Mushi. Para os piratas era uma dança já conhecida, para os Sabotadores era um exercício muito difícil ficar equilibrado no convés. A chuva caia com força deixando a todos ensopados, os raios desciam longe, mas o barulho era ensurdecedor. Ainda era dia além do cinturão, mas dentro dele tudo estava escuro, um grande lampião estava aceso preso ao mastro principal. Sâmara trazia do quarto de Niblihim outro muito mais luminoso que o primeiro. - Presente de Niblihim. Uma luz que nunca se apaga. – O lampião queimava sem o advento do óleo de baleia do primeiro. Era uma luz mística que brilhava fortemente, deixando todo o convés iluminado. Um raio caiu perto do barco, deixando toda a região próxima com a claridade do dia. Uma grande onda vinha oculta de boreste. - Homens! Orçar para bombordo! – Anacrucius proferia as ordens em meio a um sorriso. Hireegard agarrado, ao corrimão da escadaria da ponte sobrelevada na popa, já estava achando o capitão um louco. Ele pretendia deslizar por sobre a onda? Preferiu não se aventurar mais. Desceu para os quartos onde de lá não sairia. Ainda mais abaixo, Bicudo, o cavalo de Dedanogor estava protegido em uma baia improvisada por fardos e fardos de feno, mesmo assim era raro nestas viagens um animal daquele porte sobreviver. A chuva incessante fez Dedanogor perder-se em pensamentos. Um dia de chuva perdeu seu tutor e seu pai. A chuva trazia mau agouro para ele. Poderiam morrer no Oceano Anárquico, naufragados, como muitos outros barcos que já se aventuraram aqui. Não era assim que queria morrer. Não fazia a mínima questão de saber para onde iria após a morte. Havia muitos deuses para se escolher a morada. Deixava as respostas para os clérigos de Rainaar ou para os magos do Império da Morte. Sociedade de necromantes que visavam estudar a morte. Ele era apenas Vangardesh, o carteiro da má notícia. Era isso. Desejaria morrer em combate. Nada, além disso. Ouvindo as ordens do capitão, decidiu ajudar a tripulação de mais de trinta homens. Sua força descomunal foi de grande valia. A onda gigante acertou o Voador enquanto este fazia a manobra para encará-la de costas. Enervous que estava agarrado à amurada a borcar seu almoço, quase foi arremessado para fora do barco. Porém segurou com tanta força na madeira do Voador, que a fez estalar e esmagando no formato de duas mãos que nunca mais sairiam dali. Sâmara brincava de pé, agarrada a nada. Confiante no seu equilíbrio e destreza sem igual. O navio emborcou e ganhou velocidade. Anacrucius que estava ao timão, controlava o barco. As velas ficaram folgadas. O Voador agora explicava seu nome. A onda quebrava atrás deles. Como no jogo de dados proibido pelo capitão após o incidente, Anacrucius escolheu o lado mais fraco da onda e esta morreu no Oceano Anárquico logo a frente. Não houve vibração de alegria vinda da tripulação, era como se tudo isso fosse normal. O capitão do voador

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continuou suas ordens enquanto o barco já começava a manobrar mais uma vez. A rotina continuou por mais quatro dias. Enervous estava doente de tanto enjôo. E um brutal enfermo é algo raro de se ver. Repetia para si palavras como – Nunca mais, nunca mais... Dedanogor e Sâmara ajudavam os piratas e por isso ganharam mais respeito dos mesmos. Não conseguiam ficar parados diferentemente de Niblihim e Hireegard, que sumiram em seus quartos durante este período. Era nítido agora porque os Reinos Caóticos estavam tão bem protegidos. Na manhã do quinto dia saíram do cinturão. Encontraram um sol forte e ventos fracos. Atrás deles a massa de nuvens negras se distanciava. Em todo o horizonte podiam ver o lugar infernal de onde tinham saído. O barco estava necessitando de muitos consertos, mas agüentaria a viagem até os Reinos. Os homens jogaram um tonel de vinho de primeira, ao mar. Agradecendo a Nastar pela viagem bem sucedida. O cavalo de Vangardesh, Bicudo, estava passando bem. Nervoso e agitado pela viagem, mas gozava de boa saúde. Prefeririam desembarcar longe da cidade mais próxima. Foram levados de bote para um pequeno porto de uma vila costeira. Não havia navios de patrulha. Não havia lei ou ordem naqueles Reinos. Cada um vivia como preferisse, livre. Logo encontraram uma estalagem improvisada, ávida por hóspedes, haja vista, todos preferirem a segurança das cidades grandes como Agulha e Maca. Todos sem exceção banharam-se no conforto do local e trocaram de roupas. Reuniram-se para comer na sala comum da casa – estalagem. O único que foi direto para cama, Enervous, só desejava dormir em um ambiente que não se movesse ao sabor das ondas. Sâmara estava perfumada como de costume, assim como Hireegard que já tirara os trapos da viagem e colocado uma roupa apropriada para seu posto de baronete. Niblihim vestia o tradicional manto negro, que escondia seu rosto com um capuz grande. Dedanogor vestia a parte do peitoral de sua armadura e vinha com sua espada montante em suas costas. Foi interrogado por Hireegard. - Idiota. Não traje sua roupa de guerra neste lugar. Vão pensar que é algum bandido, ou algo do gênero! - O mais ignorante é você baronete. Faz questão de se vestir como alguém de posses. Neste território de ladrões e piratas, estou mais parecido com eles do que você! – respondeu Dedanogor sem se enervar. Ele estava certo, Hireegard tinha que admitir. Os poucos convivas do lugar observavam a todos os forasteiros. Em especial a Sâmara e a ele. Dedanogor era mais um entre eles. - Talvez tivesse sido mais prudente se desembarcássemos na cidade de Agulha. Pelo menos lá estrangeiros são comuns. – Sâmara colocara sua opinião. Já estava cansada com as eternas discussões dos dois. Achava até

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que eles já haviam se acostumado a isso, e era uma forma de manterem suas mentes alertas. Mais uma verdade nestes artistas da mentira. Ambos gostavam de porfiar a opinião do outro. Duas cabeças pensam melhor que uma. Hireegard de uma forma mais orgulhosa e Dedanogor em sua eterna verdade de que ninguém é melhor que outrem. - Que viagem... Não é a toa que os Reinos Caóticos estão protegidos de quaisquer nações. Nenhuma frota de navios sobreviveria no cinturão de maremotos. – Sâmara tentava mudar de assunto. Não queria ter que entrar no navio novamente. Seria melhor agora seguir viagem mesmo por terra. - Por este motivo também não conseguem ser um território sólido. Só alguns navios conseguem ir e vir. Não há aliados além mar. Tem que contar apenas com a sua população local. – Dedanogor ponderava sobre o continente. Não havia reinos fortes. Apenas alguns países que liderados por piratas tentavam se manter independentes em um lugar onde não havia necessidade para tal. O pensamento da população já era o de liberdade. Não eram conhecedores de grandes conquistadores ou guerras longas. - Um bom líder poderia construir um país por estes lugares... – Hireegard já começava a esboçar em sua mente, mais uma possibilidade. Seus pensamentos foram interrompidos quando um garçom aproximando-se com as bebidas, derrubou um dos copos no colo do baronete. - Idiota! – berrou Hireegard, enquanto levantava secando-se com seus inúmeros lenços. - Perdão senhor... – o garçom tremia de medo. Havia se assustado com o rosto disforme do baronete. A máscara não estava bem colocada e mostrava parte do rosto pustulento deste homem-demonio. Dedanogor apontou para a mascarilha e Hireegard a ajeitou desculpando o garçom. Niblihim retomou o rumo da conversa. - É impressionante como o resultado de fatores separados pode alcançar o sucesso. Madeira vinda de Sairim, forte para agüentar solavancos da força de trabalho do vento nos mastros. Velas de tecido de Mushi, a experiência do capitão e a bússola mística que sempre aponta para a direção dos Reinos. Se não fosse por ela nunca chegaríamos. - Impressionante era como o elfo podia ficar calado por semanas, mas quando falava fazia a todos calar. A bússola mística que sempre aponta para o continente de Kraken. Nome do território dos Reinos Caóticos. Ninguém havia pensado nisso. Como um navio se direciona em meio à tempestade? Os Sabotadores eram perfeitos. Sempre um integrante apontava um nuance de detalhe, que podia ter sido esquecido ou não observado pelo outro. Dedanogor estava satisfeito. A comida chegou e todos comeram famintos, a primeira refeição quente em semanas. ξ Compraram quatro cavalos e uma carroça. Era muito equipamento para ser transportado. Barracas, corda, refeições para um mês, panelas, colchões, cobertores, ataduras, alguns bálsamos, abençoados por clérigos de Rainaar. Não que alguém rezasse diretamente para o deus criador, mas os líquidos

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tinham propriedades místicas de cura. Era nítido em qualquer inspeção, que estavam indo participar de alguma exploração. Mas não havia guardas nestas estradas, se é que podiam ser chamadas de estradas, estavam mais para trilhas bem abertas e com nenhuma engenharia envolvida. Era uma deficiência de um território sem um governo para administrá-lo. Os Sabotadores só estavam atentos a ladrões ocasionais. Porém a visão de guerreiros como Dedanogor, Enervous e Hireegard, já afastava os oportunistas. As trilhas eram movimentadas, no caminho cruzaram com mercadores, que venderiam até a mãe por um bom preço, piratas mercenários, padres do deus Solarius e Nastar, famílias que se mudavam constantemente, devido à falta de trabalho nas cidades. Afinal era um antro para malfeitores e ladrões, aqueles que tentavam uma vida honesta, acabavam tentando juntar dinheiro para uma viagem para fora dos Reinos, ou mudavam-se para o interior. Nada disso interessava aos Sabotadores, que evitaram desde a compulsão de compras de Sâmara, até a tentativa de conversão dos clérigos de Nastar para com Niblihim. - Muito bem Hireegard. Estamos a dois dias de Agulha. Pode agora nos passar todas as instruções de nossa operação? – perguntou Dedanogor. Hireegard havia feito mistério sobre a missão. Justificou dizendo que havia membros dos Baldeadores, interessados nesta operação. Esta sociedade de feiticeiros tinha um lema: Informação é poder. Seus integrantes podiam ler mentes e prever futuros possíveis. Portanto era melhor apenas um do grupo possuir a informação, do que arriscar tudo com mais três mentes conscientes. Ele não contava Enervous. - Muito bem. Agora que estamos a salvo de termos nossas mentes reviradas como páginas de livros, posso contar o conteúdo de nossa vinda aos Reinos Caóticos. – ele sempre fazia um discurso, que inevitavelmente irritava Dedanogor, muito mais objetivo. Cônscio disso continuou. – Nossa tarefa consiste em executar duas obrigações para com o nosso empregador. Primeiramente devemos encontrar uma caverna nas montanhas a norte da cidade da Agulha. Lá adentrando temos que achar o ídolo de Valupa. - Quem é Valupa? – pela primeira vez depois da viagem Enervous falava. Já estava bem melhor dos dias de náuseas e vômitos. Era o único sem cavalo, andava a pé com sua clava de aço em seus ombros largos. - Valupa. Príncipe demoníaco que na época do cataclismo reinou aqui no continente de Kraken. Naquela época onde Minlurd era dominada pela noite eterna e hordas de criaturas inferiores. – respondeu Niblihim, visivelmente resumindo a informação. - Entendi... – era difícil saber se Enervous havia entendido mesmo, ou estava com preguiça de pensar. Era outro brutal que andava com eles e não o velho Enervous de antigamente. - De qualquer forma não encontraremos resistência, como na missão do trono de C0-on. A caverna é um dos grandes segredos guardados... – continuou seu misterioso relato o baronete. - Como assim? E qual é o outro segredo? Conte logo Hireegard! – Sâmara já estava sem paciência. Sua curiosidade era aguçada a cada palavra do baronete. Estava adorando esta missão. Era diferente das outras tantas, onde Dedanogor e Hireegard esmiuçavam cada detalhe. Essa era mais

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excitante que as demais. Olhou para Dedanogor. O menino havia se tornado um jovem, forte como um touro e rosto duro. Desejou-o. Iria o procurar a noite. - O verdadeiro encargo é o de seqüestrar Ícaro... – era com malícia e perversão que Hireegard se demorava nas palavras. Estava sorvendo cada surpresa do grupo como se exaltasse cada detalhe do objetivo. – Ícaro é o caçula de uma linhagem de três irmãos. São todos filhos de Titubes... - Titubes?! O pirata mor da cidade de Agulha?! – Dedanogor estava estupefato. Que maldita missão era essa? Viajar até os Reinos Caóticos, roubar uma estatueta de um demônio e raptar o filho de um dos piratas mais sanguinários do Oceano Anárquico! Isso era loucura... - Teremos que levá-lo para Maior. Ele deverá ser entregue são e salvo para contrabandistas, de onde será levado, junto com a estátua, para Mang Po. - Hireegard! Seu louco desgraçado! Você nos enviou para a uma situação... - Cinqüenta mil moedas de ouro. – Hireegard interrompeu Dedanogor com palavras baixas e calmas. - O que?! Repita isso! – Exaltou Sâmara, seguida por Enervous. - Cinqüenta mil moedas de ouro. – Repetiu no mesmo tom. Os Sabotadores calaram-se. Em cada cabeça uma sentença de como usufruir do dinheiro colocado na mesa subjetiva. Ninguém mais pensava em como alcançá-lo, e sim como gastá-lo. O único ainda não contente foi Dedanogor. Roubar, raptar, lucrar. Já estava ficando cansado disso. ξ Os Sabotadores viajaram por mais dois dias. Dormiram ao largo da trilha, abrigados dos elementos por suas barracas. Não havia a necessidade de fazerem turnos de vigia para se proteger, haja vista um único feitiço de Niblihim que os alertaria caso alguém ou alguma coisa, entrasse no perímetro do acampamento. Já eram bem mais experientes de quando começaram há oito anos atrás. Consideravam-se profissionais e a demanda aumentava a cada ano. Sâmara deitou-se todas as noites com Dedanogor e fizeram amor todas às vezes. Consideravam-se um casal, com momentos altos e baixos, como a quase separação em 152DC, devido a um suposto envolvimento de Dedanogor com uma nobre da casa dos Ristan, onde ela fora resgatada por eles. Porém Sâmara era apaixonada por Dedanogor, que preferia chamá-lo de Vangardesh, nome que a excitava e o trazia para o universo de morte e lucro que ela tanto apreciava. Para Dedanogor ela era espetacular, uma mulher que se virava sozinha, um espírito guerreiro, não precisava de ninguém. Mas não sentia o mesmo. Ele não era fiel a ela. Continuava se aventurando com prostitutas das ruas de Celeus. Buscando talvez uma juventude que lhe era tomada pela seriedade em seus trabalhos. Mas isso não era algo que ele gastava muito tempo imaginando. Seus pensamentos perdiam-se nos treinamentos de Thorkyn e manterse disciplinado. Porém ultimamente estava questionando-se demais. Talvez fosse a idade. Mas era muito novo com seus 26 anos.

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- Qual são os seus sonhos? – perguntou Dedanogor deitado dentro da barraca, com a cabeça de Sâmara repousando em seu peito, após o coito. - Eu... – Sâmara estava achando Vangardesh estranho. Não era de seu feitio ficar com a cabeça cheia destes conteúdos. Era prático. Atentava-se sempre no plano a seguir, nos passos certos a tomar, nas inúmeras possibilidades e vertentes de ações que poderiam ser escolhidas. E não em sonhos, realizações futuras, destino, e outras coisas. Respondeu rapidamente. – Quero ser mais rica que aquelas aristocratas da corte de Celeus, e quero você ao meu lado para sempre. – Beijou-o apaixonada. Dedanogor devolveu o beijo, mas não a opinião. Gostava dela, mas algo lhe dizia não ser ela a mulher de sua vida. A noite continuou tanto para estes amantes, como para os trabalhadores que dormem o sono justo, como para os ladrões que trabalhavam neste período. Sempre neutra, indiferente ao conteúdo das relações humanas que ela abriga, a noite. Não foi difícil encontrar a caverna. Os mapas dados a Hireegard, e a navegação precisa de Niblihim, fizeram com que o grupo achasse a gruta ao entardecer do terceiro dia. Tinham saído da trilha por quase três horas. Os cavalos estavam irrequietos, com exceção de Bicudo, este permanecia sereno. A proximidade com a caverna escura deixava em todos os animais uma apreensão sinistra. Dedanogor desmontou e vestiu sua armadura. Enervous colocou-se a frente. - Eu vou. – disse resoluto. - Vamos juntos. – relatou Vangardesh, já de armadura. A caverna era pequena para os dois. Só entraria um de cada vez, isso com o brutal abaixado. Havia pouco espaço para movimentação. Seria preferível até Sâmara ou Niblihim, mas nenhum dos dois aceitaria entrar sozinho. - Não. – pela primeira vez, Enervous discutia uma ordem de Vangardesh. – Eu vou sozinho. O guerreiro de armadura negra deteve-se por um instante. Tentava entender a decisão de seu amigo de armas. Fazia tempo que o brutal não era levado a sério por seus outros companheiros. Desde o incidente na luta contra o monge. Desde que havia ficado mais... lento. - É melhor não Vangardesh. – intrometeu-se Hireegard, como sempre fazia. – Não sabemos onde está o ídolo, em que altura da caverna, se há armadilhas ou algum tipo de criatura guardiã. É melhor você ir com ele. – obviamente o baronete não se colocou como voluntário. Lutava somente quando necessário. Os Sabotadores esperaram uma resposta. - Ele vai da forma que deseja. Vá meu amigo, nos traga o ídolo de Valupa. – decidiu Vangardesh, para o desespero dos outros. Mas ele sabia que esta seria a chance de Enervous redimir-se de seus comportamentos ignorantes, típico dos brutais comuns. - Como é a estatueta? – Enervous dirigia-se para Hireegard. Tentava parecer mais sério, carrancudo. Imaginando que isso lhe traria a confiança do grupo.

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- Do tamanho de um braço. Provavelmente estará cravejada de jóias. Cuidado, não a quebre. – Hireegard estava nervoso, mas sabia que o brutal faria de tudo para acertar, confiou. Enervous prendeu sua clava em suas costas. Vestia duas tiras de couro grosso em x, que lhe cruzavam o peito nu e peludo. Virou-se, sem nada a dizer e sumiu na escuridão da gruta. - Que Solarius nos ilumine... – pediu Sâmara. ξ Enervous tinha a altura média dos brutais, dois metros e trinta de altura, porém era um pouco mais maciço, pesava 320 quilos. Seu corpo coberto por uma pelagem cinza e curta, seu cabelo ralo, cabeça quadrada, um crânio pesado. Seus braços alcançavam os joelhos e tinham a circunferência de troncos de madeira. Andou com dificuldade no começo, abaixado, toda a hora arranhava-se nas paredes que não continham sua largura. Porém logo o corredor de pedra e terra úmida começou a se abrir, dando lugar a uma caverna mais ampla. Enervous estava há dez metros de altura da sala interna que se abria abaixo dele. A formação irregular das pedras criava plataformas de pedra por toda a extensão desta galeria. O brutal começou a acostumar-se com a escuridão. Não havia trazido luz, ninguém o aconselhou a isso. Agora era tarde, não voltaria por nada neste mundo. Contudo sua raça tinha habilidade para lidar com a falta de luz, podiam ver melhor que qualquer humano, mas não com tanta definição como um anão. Prosseguiu. Começou a pensar. Sua cabeça doía com este exercício. Antes era algo tão fácil de fazer, agora muito mais difícil. Corda, tocha, comida... Não trouxe nada. Tinha entrado tão rápido na caverna, afoito para mostrar serviço, que esquecera de se preparar. Vangardesh nunca faria isso. Admirava aquele humano que sempre esteve ao seu lado. Enervous entendeu que não poderia ficar parado, demoraria mais tempo e quando a fome o tomasse, pois sempre estava com fome, ficaria desesperado. Seria breve, teria que pensar rápido e contar com suas habilidades naturais. Pulou em uma das rochas que estava a três metros de distancia e três metros abaixo. Por um erro de cálculo, escorregou na margem desta e caiu mais cinco metros até atingir outra. - Maldição! – urrou, sua voz causou um eco só, alto para todos que estivessem por ali. Cairá sentado. Quase não sentiu dor. Os brutais tinham um alto limiar à dor física. Mas isso não era vantagem. Podiam andar com braços ou pernas quebrados, sem nada sentir e com o tempo inutilizariam estes membros, se não os tratassem. Levantou-se resoluto. E pulou os dois metros restantes até o chão da galeria. Caminhou por entre as formações rochosas, tomando cuidado com as inúmeras pedras que estavam no caminho. Já acostumado com a escuridão, percebeu dois caminhos distintos. Um corredor alto para a direita e outro baixo, pequeno para a esquerda. Sua decisão foi a menos improvável. Falou para si. - Se há um guardião, e ele ainda está ai, deve ser porque não conseguiu sair. Lado esquerdo. Mas se conseguiu sair e não está mais lá então o lado direito é o caminho mais seguro. Mas... e se não houver guardião? E como ele se alimenta? E... - sua cabeça voltou a doer. Começou a ficar irritado. - Maldita

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a hora que decidi vir sozinho! Tenho que pensar em tudo! - Embravecido deitou-se e seguiu pelo caminho da esquerda. Arrastou-se por vários metros, percebeu que a rocha estava ficando mais úmida, insetos e pequenos aracnídeos infestavam o lugar. Os meandros deste caminho já davam várias voltas com aclives e declives. Começou a sentir-se mal, estava há muito tempo rastejando neste lugar fechado e não encontrava um fim. Volta e meia sua clava ficava enganchada em alguma rocha, sua perna já tinha sido picada por vários pequenos insetos. Porém Enervous continuou. O limite dos brutais está acima de várias raças de Minlurd. Talvez se a raça reproduzisse como os humanos, seriam eles a raça conquistadora do mundo. Fora isso, a palavra dita a Vangardesh não podia voltar-se contra ele. Buscaria o ídolo, onde quer que ele estivesse. ξ Do lado de fora a noite começou a tomar seu turno. Enquanto aguardavam Enervous, os Sabotadores armaram acampamento longe da caverna. Afinal, se fossem descobertos não entregariam um dos objetivos da missão. O outro objetivo estava sendo discutido ao pé da fogueira, criada em um estalar de dedos de Niblihim. - Temos um mapa da cidade de Agulha? – perguntou Dedanogor ainda com a armadura, mas sem o capacete que lhe cobria o rosto. Hireegard abriu um largo sorriso. A face demoníaca tinha o lado da boca desproporcional, dentes afiados vertiam da maxila que dividia espaço com dentes humanos, também estava sem a sua máscara. Colocou no chão o mapa da cidade. - Ótimo. Como podemos ver, Hireegard já pensou em tudo. – Dedanogor não conteve a chacota. – E agora? Qual a sua idéia baronete? - Em primeiro lugar acredito que podemos aproveitar o feriado de celebração da cidade para atacarmos. Estamos adiantados em cinco dias. Já devem estar preparando as comemorações para o dia mais importante do ano, para eles. - Que feriado é esse? – Sâmara estava ainda mais bonita, sob a luz que provinda da fogueira. A penumbra deixava suas curvas ainda mais acentuadas. - O dia de São Miguel. – respondeu de pronto Hireegard, que a admirava em segredo. - Um santo? – Sâmara percebia os olhares do baronete, mas nunca sentira nada por ele a não ser repulsa por seu estado físico. - Não... – Hireegard riu alto. – Na verdade São Miguel é um nome dado a ele pelos próprios moradores. Miguel Cernante era um pirata antigo que salvou a cidade do julgo do demônio Valupa há mais de 106 anos atrás. Pode se dizer que o pirata é um herói da Era do Cataclismo. - Um bandido herói? Impossível... – Interrompeu Dedanogor. – Heróis são feitos de virtudes, paixão pelo próximo, sonhos impossíveis. – Estranhamente pensou em Sir Celacious o cavaleiro de Rainaar conhecido em Celeus por seus atos de bravura e proteção ao próximo. Este sim era um herói, sem nada a receber auxiliava com suas palavras ou a espada, a todos que necessitassem. Sentiu-se bem ao pensar nele. Balançou a cabeça desviando estes julgamentos na medida em que ouvia Hireegard.

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- Nem sempre. As vezes heróis são pessoas que estão no lugar certo, na hora certa e realizam feitos necessários para outros. - Gostei desta explicação. Então podemos dizer que somos heróis para nossos contratantes se levarmos Ícaro e o ídolo para Mang Po? – ao final da frase, Sâmara já contabilizava os lucros e pensava na compra de um apartamento para ela e Vangardesh na cidade Maior. - Sim, não deixa de ser. – respondeu satisfeito Hireegard. Dedanogor calado já imaginava como podiam capturar o filho do dono da cidade. ξ Uma luz tênue chamou a atenção do brutal. Parecia estar chegando ao final deste comprido túnel. Não agüentava mais se sentir uma minhoca na terra. Alias, não suportava mais esta missão. Navios... nunca mais entraria em um. Só de pensar na viagem de volta, já estava preferindo ficar por lá mesmo. Será que teriam emprego para ele? Foi privado de suas reclamações por um rosnado fundo, vindo do fim do túnel. Havia alguém ou alguma coisa ali. Estava agora em outra galeria de seus dez metros cúbicos. Uma tocha estava acesa no lado oposto, iluminando uma alcova de onde se avistava uma pequena estatueta em forma de um sapo sentado. O teto estava escuro e era dele que Enervous podia ouvir o rosnado. Sem nada dizer puxou sua clava para sua mão e a rodou no ar. Então havia mesmo um guardião. Nem queria saber sobre como ele foi parar ali, ou que tipo de criatura era aquela. Foi em direção ao ídolo. Hireegard estava certo a estatueta tinha jóias espalhadas por todos o seu corpo. Era feita de ouro e tinha o formato de um sapo, porém com feições que se assemelhavam ao de um humano. - Um humano-sapo? – pensou enquanto tirava o objeto de dentro de sua alcova. Neste exato momento algo desceu do teto em cima do brutal em uma velocidade impressionante. Enervous não teve tempo de reagir, apenas protegeu o ídolo abraçandoo e virando-se de costas. A criatura caiu cravada nas costas larguíssimas do brutal, arranhou ferozmente com suas garras e saltou para longe do outro lado da galeria. O brutal levantou-se rapidamente e pode encarar finalmente o guardião. A criatura era só carne e músculos, não havia pele que a envolvesse. Estava em posição de cócoras, braços e pernas arqueadas de similaridade humanas que terminavam em imensas garras de quatro dedos. Seu tronco era humano, mas seu rosto era análogo ao de um abutre. Tudo sem pele e na proporção de dois metros de altura. Dois humanóides fitando-se abaixo da terra. Enervous não sentiu medo algum. Ou talvez por não entender que lutava contra um ser demoníaco deixado naquele lugar, por dezenas de anos para cuidar da única imagem de Valupa em Minlurd. Ou talvez por ser um brutal ignorante que só pensava na luta que logo travaria. Na realidade ele estava feliz. A batalha era o único lugar que se sentia em casa. Raça esta nascida sobre a benção de Thú. Colocou o ídolo de volta. Segurou firmemente sua clava de aço e proferiu. – Quebra paredes. – a clava aumentou de tamanho ganhando mais

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um metro. Sua arma havia sido ganha por ele em uma luta solitária contra um gigante nas colinas de Dwalin, enquanto caminhava para Celeus. Mas isso é outra estória. O ser demoníaco saltou novamente com os braços abertos. Seus golpes eram poderosíssimos e poderiam cortar um humano se este estivesse sem armadura. Antes que pudesse acertar, Enervous rebateu o corpo do homemabutre com um golpe que o enviou de volta onde estava. Mas desta vez o destino foi à parede. Um guincho alto pode ser ouvido se alguém estivesse perto da entrada da caverna. ξ - Nossa chances são melhores se dividirmos o grupo. – relatou Dedanogor enquanto estudava o mapa da cidade e da fortaleza, que era a casa do pirata. – Faremos assim, Sâmara e Niblihim infiltram-se na mansão e abrem caminho para mim e Enervous. Nós tomaremos de assalto e sairemos com o Ícaro... - Perfeito! Eu cuidarei da nossa rota de fuga. – Hireegard estava satisfeito, não precisaria estar na linha de frente mais uma vez. Porém o baronete era realmente bom e tinha competência para esta incumbência. Portanto Dedanogor calou-se. - Não seria melhor, neste caso, raptarmos o menino sem que ninguém soubesse? – Niblihim expressava-se raramente, sabia que todos dariam atenção a ele. Mas odiava ser o centro das atenções e ainda ter que responsabilizar-se por possíveis falhas. Para não tê-las, preferia abster-se. - Sim. Isso seria o ideal. Mas a mansão estará apinhada de piratas mercenários de Titubes. Se formos descobertos... lógico! Excelente Niblihim! – o elfo ficou todo pomposo. – Eu e Enervous seremos a distração, a isca. Na realidade, você e Sâmara raptaram Ícaro. – Dedanogor estava adorando o plano formado na hora. Estava até gostando da participação de todo o grupo, do que quando o fazia sozinho, horas e horas de estudos e maquinações. Niblihim por sua vez praguejou para si, por ter falado. Agora sua incumbência era ainda maior e estaria colocando a sua vida em risco, mais do que antes. Hireegard estava adorando aquilo. Se houvesse oportunidade, poderia deixar Vangardesh e Enervous para trás, assim mataria dois problemas de uma vez só. A parte do lucro aumentaria, e se livraria dele para sempre. Excitou-se com estes pensamentos. Mas também precisava dele para outras missões. Ficou confuso com estas opiniões, mas pensaria sobre isso depois. Dedanogor olhou para todos. Imaginou o elfo chateado e o baronete a maquinar traições. Conhecia seu grupo de mercenários. Sâmara também estava excitada, aguardava o desfecho de tudo isso, estava adorando esta aventura. ξ O som provindo do bico da criatura fez com que as orelhas de Enervous estourassem. Sangue vertia de seu tímpano e não ouvia mais nada. Rodou sua clava no ar, chamando o oponente novamente. Porém o demônio não pulou desta vez, veio correndo rasteiro e agachado, suas pernas musculosas lhe

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concediam muita velocidade. Acertou abaixo do braço esquerdo do brutal cortando carne e três costelas. Continuou a movimentar-se enquanto desviava facilmente da clava de aço. Desta vez veio por trás cortando as costas novamente. Três grandes cortes de um metro abriram a carne do brutal que urrou de dor. Enervous não conseguia acertar nada, a não ser o chão de pedra da caverna. O demônio era rápido demais. Mais dois golpes da criatura e um corte no rosto e outro na perna direita. Estava esvaindo-se em sangue. Sua boca já espumava de raiva e dor. Estava onde queria estar no meio de uma batalha sangrenta, entre a vida e a morte. Se perdesse a batalha, morreria como um brutal, em luta. Sentiu-se vivo, como há muito não sentira. Lutar contra humanos não era um desafio. O demônio afastou-se por um momento. Não havia saída, Enervous tinha que mudar sua tática. Sua cabeça doía. - Maldito monge de Co-on! – berrou, mas não ouvia suas próprias palavras. Em um ato de desespero teve uma idéia. Começou a rodopiar sua clava acima de sua cabeça, deixando seu corpo totalmente vulnerável. Isso era como atirar carne aos tubarões. A criatura excitada com o cheiro de sangue, e o festim com sua presa já quase vencida avançou voraz contra o brutal. Enervous recebeu cinco golpes das garras do demônio até ter certeza de que sua mira estava certa. Desceu sua arma mística do rodopio suicida e cravou a cabeça do abutre no chão de pedra, esmagando o bico, estourando olhos, rachando o crânio. ξ Todos espantaram-se com a chegada de um brutal encharcado de sangue e grandes cortes pelo corpo. Hireegard sentiu um grande alivio ao ver o ídolo nos braços de Enervous. Dedanogor correu até ele que por sua vez não parou para falar com o amigo. Chegou até Hireegard, entregando a estatueta de Valupa. Depois foi até Niblihim e lhe deu o que seria um braço com uma imensa garra. Após isso caiu ao chão. Estava em glória. Dedanogor sorriu e correu para ajudar com seus ferimentos. Os bálsamos místicos seriam de grande valia agora. ξ Os Sabotadores entraram na cidade, separados para não criar suspeita. Vangardesh chegou sozinho montado em Bicudo. Vestia sua armadura completa, não fazia questão de esconder-se aqui. Sâmara chegou com Niblihim, traziam a carroça. Enervous chegou também sozinho, já havia se curado da luta contra a criatura demônio, apenas estava enfaixado esperando suas grossas costelas cicatrizarem. Ele faria o papel de um mercenário humanóide a procura de trabalho. Hireegard voltou para o barco o Voador, para preparar juntamente com o capitão Anacrucius o plano de fuga.

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A cidade da Agulha era diferente das outras. Pequena, com suas casas dividas entre madeira ou pedra. Quem tinha mais dinheiro ou mais influência, morava perto do porto, ou margeava a encosta com mansões. Tudo era bem diferente de uma rua para outra, casas mais bonitas dividam espaço com casebres. Não havia iluminação nas ruas, pois não havia um governo que se preocupasse com isso, porém um muro estava sendo construído, provavelmente Titubes estava decidido a construir um império. Nas ruas pessoas andavam a pé. Somente os ricos tinham cavalo. Por este motivo, ou por sua armadura, Vangardesh era observado a cada esquina. Fora isso somente havia humanos bem e mal vestidos. Visitantes chegavam de todos os lugares dos Reinos. Muitos ávidos para participar desta única noite de festividades e indecência. Vários navios estavam ancorados no porto. Os navios oceânicos tinham o mesmo tamanho do Voador. Outros deveriam ser navios costeiros de mercadores, estes mais largos estavam em maior número. Vendia-se realmente de tudo no porto. Desde escravos, a grãos, tecidos, armas, drogas, ou seja, tudo que era pilhado dos navios mercantes do Oceano Anárquico. Reno, Brita, Celeus, Maior, Dwalin, Papao, Edo, Mang Po. Era o centro mais cultural do mundo de Minlurd. Sem regras, sem leis, sem decência. No centro da cidade podia-se avistar uma imensa construção murada. Era a única da cidade. Uma mansão de quatro andares. A casa de Titubes. Fora construída como um navio dando uma aparência folclórica. Toda a cidade esta sendo enfeitada, desde tecidos pendurados nas janelas das casas, até a lampiões coloridos colocados em pontos importantes da Agulha. Como na estátua de São Miguel, próxima a mansão de Titubes, ou na Praça dos Peixes do lado esquerdo do porto. Todos estavam preparando-se para a noite, que prometia muita bebida, libertinagem e alegria. Sâmara e Niblihim registraram-se na única estalagem do lugar. Ambos com nomes falsos. Niblihim vestia um de seus disfarces místicos. Por intermédio de um feitiço, podia mudar sua face e passava por um humano. Vangardesh, deixou Bicudo na estrebaria e ficou no bar, estaria de passagem pela cidade, tomando um navio para a Maca. Enervous não conseguia andar pela cidade ser ter alguém olhando, ou se afastando dele. Logo alguns humanos vieram falar com ele sobre um possível emprego. Estava acontecendo rápido. Questionaram de onde ele tinha saído e o brutal respondeu. - De uma caverna. Já era o suficiente para eles. A noite começou a chegar, enquanto os moradores da região preparavam-se para a festa, tanto se arrumando, quanto preparando seus estômagos com azeite para a bebedeira que seguiria. Niblihim e Sâmara preparavam-se para outra tarefa. Ela vestiu sua armadura de couro preta, colada em seu corpo, só a usava para missões como essa, à noite. Despiu-se sem pudores na frente de Niblihim, o elfo nem se ateve ao fato. Achava esta humana particularmente bonita, mas não chegava aos pés da elfas cinzas de sua cidade. Vangardesh bebia vagarosamente, disputava a atenção do garçom ao restante dos convivas, alguns moradores da Agulha, outros forasteiros de

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cidades vizinhas. Sua espada montante trajada nas costas e seu tamanho chamavam a atenção tanto para o respeito, quanto para o desdém. Era óbvio que Vangardesh queria ser notado. Os habitantes de Agulha começaram a deixar suas moradias. Homens, mulheres, algumas crianças, todos estavam fechando suas casas e logo se formou uma procissão para o porto, onde Titubes dentro de seu barco, O Retaliador, iniciaria as festividades. Era chegado o momento. Niblihim e Sâmara iriam principiar a missão. Não tinham certeza se Ícaro fora deixado na mansão em forma de navio, ou se estava no barco O Retaliador. Tinham que arriscar. O infante tinha apenas três anos de idade. Talvez Titubes não quisesse expor seu filho ao perigo, deixando-o com ele nesta noite sem limites. A dupla conduziu a carroça coberta pelas ruas, parcamente iluminadas pelos lampiões festivos e multicoloridos, observando enquanto crianças de todas as idades corriam soltas e livres, em grupo ou sozinhas. Talvez estivessem indo para o objetivo errado. Passaram por um infante que chorava encostado no muro, provavelmente abandonado por uma família cujo interesse era a diversão. Nenhum dos dois parou para ajudá-lo. ξ - Você bebe pouco. Por quê? – perguntou o taverneiro, ao meio dos clientes que pedem cada vez mais bebidas, no intuito de embeberam-se para o inicio da grande festa. - Não posso entorpecer minha mente com álcool se o meu objetivo é outro. – Vangardesh responde sem encarar o taverneiro. Este se retira, não entendendo ou não querendo nem saber. O gigante guerreiro levanta-se e sai da taverna ao meio de olhares de curiosos. Alguns acreditam que ele possa ser um dos mercenários contratados de última hora para fazer a segurança de Titubes e sua comitiva. Outros que ele é mais um ladrão neste território sem lei. Na estrebaria Vangardesh sela Bicudo e sai montado nele. Na rua, moradores já estão arrevessando bebida em excesso, encostados nas paredes das casas. Confusões já começam a acontecer, quando jovens piratas excitados pelo prenuncio da solenidade civil, sem limites, bolinam e mexem com a mulher de um ou outro também irmão de profissão. Isso sem a festa ter começado. Vangardesh nada censura. Apenas sorri. Talvez ele mesmo participasse desta, se este fosse o seu lar. Mas graças a Rainaar não é. Uma cidade sem leis, não é um lugar a ser acreditado. Encontrando uma rua mais calma, na parte leste da cidade, o guerreiro de negro deixa Bicudo levemente amarrado a travessa criada para este fim. Seu cavalo sabe cuidar de si, e será sua rota de fuga. Bicudo já estará virado para a saída da cidade, de onde terá que fugir mais ao fim da noite. Este plano está sendo formado na medida em que caminha. O improviso dentro de uma situação já preparada é uma coisa excelente. Agora, o improviso quando não há organização prévia é um risco. Os Sabotadores estavam arriscando muito, Vangardesh não estava gostando disso. ξ

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O elfo cinza e a guerreira de quase trinta anos, conduzem a carroça vazia, por entre as ruas apertadas da Agulha. Atrasam-se com a quantidade de pessoas que estão a caminhar em direção ao porto. Todos os olhares são desviados para a carroça, o único corpo estranho neste corredor de gente. Sâmara sente-se desconfortável do lado de dentro da carroça, mas quem está conduzindo é Niblihim, que absorto pelo disfarce místico, interpreta um condutor apressado. Chegam à mansão em forma de navio de um gosto duvidoso provindo da visão arquitetônica do próprio Titubes. Apenas no portão principal há dois guardas vestidos de qualquer forma, possivelmente piratas descontentes por terem sido deixados de fora da comemoração. - Entraremos pelos fundos? Ou pela porta da frente? – Niblihim pergunta secamente. Na cabeça do elfo cinza, as duas possibilidades são plausíveis e abrem braços para mais opções e escolhas. - Como assim? Não é melhor pularmos o muro e entrarmos sorrateiramente? – Sâmara sente-se tranqüila ao lado do feiticeiro. Admira sua inteligência na mesma proporção a de Vangardesh, mas o elfo perde em coragem. Por isso espanta-se com a pergunta. - Se o contingente do exercito pessoal de Titubes, está em diminuto. Não haverá problemas. Vamos. Sâmara já prepara suas mortais espadas curtas para um possível saque rápido. A carroça dobra a esquina mais uma vez e transita até o portão principal. Os guardas já desconfiados de verem o mesmo veiculo por duas vezes, seguram as espadas atentos. De cima da carroça Niblihim direciona sua atenção a um deles. - Por favor. Gostaríamos de entrar. Trazemos comida e bebida para as amas e filhos de vosso patrão. O segundo pirata caminha em direção a carroça enquanto o primeiro encara o disfarçado elfo. Sâmara está sentada dentro do veículo, percebendo a sombra do guarda que vem para a parte de trás. Ela prepara uma de suas adagas mortais. - O que Niblihim está fazendo? – pensa nervosa. - Queremos entrar, por gentileza, abra os portões. – é imperceptível para o guarda-pirata os gestos místicos que o feiticeiro faz. E também é impressionante com ele se sente bem falando com este condutor de carroças. Uma paz interior o toma, como se ele estivesse ao lado de um ente querido de sua família. Um sentimento há muito perdido por este mercenário-ladrão. Quanto mais ele permite, mais forte vai ficando esta sensação, até tornar-se fixação. - Abra. Por favor... – termina o encantamento o elfo. No momento em que o segundo pirata abre a cortina de pano para ver dentro da carroça, recebe no olho uma surpresa mortal, vinda das mãos de Sâmara. Que já pula do veiculo puxado por dois cavalos, colocando com esforço, o corpo do guarda para dentro da mesma. Enquanto isso, os portões estão sendo abertos pelo melhor amigo de Niblihim... ξ

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Vangardesh caminha em direção ao cais. Segue segurando o capacete e com uma única arma, sua espada montante de quase dois metros de altura. Está vestido com armadura completa, e talvez por isso as pessoas abrem espaço para ele passar. Já no porto, recebendo no rosto o vento gelado do Oceano Anárquico caminha mais para oeste, ficando bem próximo da nau de Titubes. As docas estão apinhadas de gente. Corpos colados uns nos outros tentando enxergar o navio O Retaliador, cujo dono Titubes, abrirá as festividades. No mar, barcos maiores e menores também têm sua lotação comprometida com a quantidade de curiosos e festeiros. Alguns ancorados ao largo do Retaliador, outros navegando perigosamente ao sabor do vento noturno que refresca a multidão. Vangardesh espreme-se junto com o povo, alguns esbarrões seguidos de empurra-empurra, um oceano de pessoas. O guerreiro tem como vantagem sua armadura, que assusta, e sua altura que concede benefício para enxergar melhor. Mesmo assim começa a perceber a fragilidade de seu plano. O barco está há apenas dois metros de distancia do deque mais próximo, porém quinze homens estão fazendo guarda, para não permitir a aproximação de ninguém. Em cima do Retaliador mais um contingente de trinta homens e... Um brutal. - Enervous está com eles! Ele conseguiu, este brutal desgraçado! – Vangardesh anima-se. Afinal o destino poderia estar o ajudando. ξ A dupla entra na mansão. O pátio interno é enfeitado com uma grama rala e bem cortada. Uma belíssima fonte encontra-se no meio do pátio. Afinal o pirata parecia ter certo gosto. A entrada para o navio dava-se por uma rampa de pedra que terminava no que seria o casco, no meio dele. Niblihim estava errado em relação à guarda pessoal de Titubes. Vinte homens passeavam pelo pátio interno e estranharam a entrada daquela carroça. Alguns começaram a se aproximar. O guarda encantado por Niblihim colocou-se a frente explicando que eram enviados pelo próprio Titubes para cuidarem de seus filhos. Ele estava mentindo para garantir o salvo conduto do feiticeiro. Niblihim às vezes espantava-se com o poder de seus feitiços. Apesar da situação desvantajosa Sâmara estava calma, Niblihim saberia o que fazer. Mas ainda havia diversos problemas a serem sanados. Como desceriam da carroça com Sâmara vestida para o combate? O corpo dentro da carroça poderia ser descoberto a qualquer momento. Logo veio a resposta. - Sâmara coloque a roupa dele e tente o esconder ai dentro. Venha para fora assim que puder. – o elfo estava calmo, seu intelecto superior estava trabalhando para manter o controle da situação. A grande vantagem da situação era a velocidade com a que a mente de Niblihim resolvia os problemas. - Obrigado Nastar. – Sâmara agradeceu ao deus da natureza viva, e divindade dos elfos. Mal sabia que os elfos cinzas não oram para ele e sim para Zath, deus da escuridão, primeiro elfo cinza de Minlurd. Niblihim chamou seu recém amigo para uma conversa, enquanto descia da carroça. Os outros guardas andavam pelo pátio, observando tanto os

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muros, quanto a porta que ainda estava aberta. Porém, toda a atenção voltouse para Sâmara quando esta desceu da carroça com roupas provocantes. Ela havia rasgado a roupa do pirata morto e criado uma bermuda curtíssima e uma camisa de igual tamanho. Uma maravilhosa maltrapilha. Ambos subiram rapidamente a rampa de acesso à mansão, ao passo que o primeiro pirata levava a carroça para a rua da Agulha. - É impressionante. É quase como um feitiço como os homens olham para você. – disse o elfo conforme chegavam à entrada. Ambos carregavam consigo embrulhos. Sâmara trazia sua roupa de couro, simulando um presente. - Obrigada. – Sâmara estranhou. Era raro Niblihim fazer observações como essa. Dentro da mansão um grande salão abria-se na frente dos recém chegados. Duas largas escadas faziam um arco em semi-círculo dando passagem as varandas internas superiores. Um imenso tapete vermelho cobria o chão, no meio deste o símbolo de Titubes, uma caveira vendada. - Que mal gosto... – Sâmara sabia que hora ou outra Titubes a decepcionaria. – Mas por quê uma caveira vendada? - É nítido perceber a brincadeira do pirata mor. Perspicaz. Sâmara preferiu não perguntar. - Pois não senhores? Em que posso ajudar? – uma mulher de uniforme vinha na direção dos dois, carregava uma vela apesar da casa ser iluminada por lampiões caros. - Boa noite senhorita. Viemos a mando de Titubes, verificar se tudo está bem. Somos mercenários contratados por ele. – Niblihim falava com muita fluência a língua comum entre os viajantes, o Derghemom. - Estranho. O senhor Titubes nada me falou sobre isso. Como passaram pelo pátio? – a feição da criada estava tornando-se carrancuda a medida que falava. Sâmara sacou uma de suas espadas com uma agilidade demoníaca. Em um só golpe, cortou o pescoço da mulher que caiu no chão sem vida. - O que está fazendo? Como? E agora como vamos... - Ela ia nos denunciar. Não havia saída. - O rastro de sangue vai nos denunciar Sâmara. Você não pensou nisso... - Enquanto o tapete for vermelho, não. Niblihim calou-se, ela não entenderia. Assim como não entendeu o recado da caveira. Titubes como todo pirata amava este símbolo. O detalhe da venda na caveira era de que ele atacaria sem olhar, ou seja, faria mal a quem fosse. Seguiram resolutos para dentro da mansão. Todo encontro casual, ou não, era resolvido com um ataque surpresa de Sâmara, ou um raio místico negro saído dos dedos magros de Niblihim, que atordoavam sua vítima na hora. Sâmara terminava o serviço na seqüência. Não deixaram testemunhas. Encontraram um quarto com seis crianças dormindo. Ao tempo em que Sâmara assentava o corpo de um guarda atrás da porta, Niblihim entrava no quarto sem cerimônia. Acordando as crianças, que assustadas chamavam seus pais. Facilmente o elfo as fez calar. - Quem é o filho de Titubes? Quem é Ícaro? Nenhum infante respondeu. Todos se olhavam, variavam em idade, o mais novo com cinco anos ao mais velho com treze. Niblihim estava ficando

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impaciente. Seu feitiço de encantamento não duraria muito tempo, logo seriam descobertos. - Vamos Ícaro, onde está você? Seu pai pediu que viéssemos buscá-lo. Querem a sua participação na festa. - O senhor é um mentiroso! Nem é contract...nem é empregado do tio! – o mais velho levantou-se da cama e falou rispidamente com Niblihim. Provavelmente o garoto já possuía o humor do tio, Titubes. - Senhor... – uma segunda criança também levantou-se. - Cale a boca Adônis! Não conte nada a ele! – disse o primeiro. - Vamos Niblihim! Vamos! – Sâmara ouvia passos de movimentação vindos do pátio, alguma coisa estava acontecendo lá embaixo. O elfo, ainda com seu disfarce místico expressou um movimento na direção do mais velho, mas conteve-se. O menino ia falar. - Senhor. Ícaro já está lá no barco... – terminou Adônis. - Você é muito burro! Não devia abrir sua boca! – o mais velho estava irritadíssimo. O rosto de Niblihim caiu, assim como o seu disfarce. As crianças que achavam que estavam falando com um humano, começaram a chorar ao ver o elfo cinza de pé dentro de seu quarto. As estórias que tinham ouvido sobre essa raça, eram terríveis. Ao mesmo tempo uma corneta soou muito alta, vinda do pátio da mansão. Haviam sido descobertos. - Niblihim! - gritou Sâmara. O elfo foi até a porta. - Ícaro não está aqui. - O que?! - Precisamos fugir. As crianças choravam, a trombeta soava, passos rompiam até onde eles estavam. Tudo estava caindo por terra. Sâmara não estava mais gostando desta aventura. ξ Quando Titubes apareceu no convés, a multidão saudou com entusiasmo. Ele era um homem novo, com seus trinta e poucos anos. Magro, tinha estatura média. Seu cabelo comprido era negro e liso como o das mulheres do oriente. Usava uma roupa multicolorida e um chapéu gigantesco que lhe cobria parte do rosto. Um sujeito elegante. Os mercenários dentro do navio movimentavam-se em certa desordem. Vangardesh pode perceber que Enervous não estava satisfeito, afinal estava dentro de um barco novamente. O brutal olhava fixamente para Titubes. Desta forma podia entregar-se. O pirata mor da cidade de Agulha levantou seus braços e a aglomeração de pessoas silenciou. Era nítido seu controle sobre a população. - Boa noite marujos! – todos responderam exaltados. – Estamos reunidos aqui para celebrar um grande dia! O dia de São Miguel, patrono de nossa cidade! A multidão continuava muito excitada em falar durante o discurso de Titubes. Comentários eram feitos, por diversas pessoas, exprimindo emoções concordantes. - Ele é um grande capitão. - Com ele esta cidade se erguerá como a melhor. - Devemos muito a Titubes.

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- Ele é lindo... Vangardesh os ouvia por todos os lados. Era perceptível a admiração de todos para com este líder. - Silencio marinheiros! Estamos aqui hoje reunidos, para homenagear este herói da resistência humana, em uma época onde a noite era eterna! Nós filhos de Rainaar éramos vitimas de criaturas nefastas! Era impressionante como Titubes sabia trabalhar com as palavras. Sua posição de líder na cidade, não se dava apenas pelo seu braço forte como fazedor da lei, mas também por ser um excelente comunicador. Durante o longo discurso de Titubes sobre as virtudes de São Miguel, Dedanogor lembrou-se das palavras de Thorkyn sobre o homem que pensa e age. ¨- Lembre-se, o batalhador não pede, ele faz, ele age. Este pega no pescoço do destino e o direciona para onde tem vontade. Ninguém é melhor que outrem. ¨ O código de honra de Thorkyn. Um escravo negro na terra de brancos. Seu tutor e pai por opção. Ensinou-o que todos são iguais, que cada ser possui habilidades e características próprias que o distinguem como único. Não há divisão entre os homens a não ser em nossos próprios pensamentos egocêntricos. Um condutor de carroças pode ser um melhor dançarino que um nobre da corte. Um ator de teatro pode ser mais astuto que um ladrão das ruas. Somos responsáveis por nossos fracassos e sucessos conseguinte a nossa decisão de agir por eles. Thorkyn o criou como um agente causador, móvel, gerador, origem, e não um indivíduo passivo, sofredor, apático. Portanto ninguém é melhor que outrem, na medida em que qualquer um pode ser o que deseja, quando realmente faz a opção e compromete-se com ela. - Hoje sou resultado de minhas próprias decisões. – reflete Vangardesh em meio ao murmúrio da massa de pessoas. – Algo me aperta em volta do pescoço, como se me dissesse que o caminho não é esse. – Dedanogor coloca a mão em volta do pescoço e simula a retirada de um objeto, como uma corda a apertá-lo, ou uma corrente. No mesmo momento lembra-se de seu pai e suas declarações acerca do mundo. ¨- Vivemos em um mundo cão, você tem de buscar o que desejas, pois ninguém o fará por você. Outros tentaram tirar de ti. Estranhos quererão enganá-lo, muitos tentaram lhe tratar como bobo. ¨ Nisto tanto Thorkyn como Gajão concordavam. Homens sem escrúpulos usam as pessoas de coragem para com elas alcançar seus objetivos. Não era isso que Titubes também desejava? Ou estava realmente querendo construir uma nação honesta naquele continente corrupto? Isso não importava. Queria completar sua tarefa. O dinheiro falava mais alto mais uma vez. A recompensa pelo rapto de Ícaro o faria ganhar muito mais influencia em suas rodas de amigos do submundo. Mais luxo, mais conforto, mais informações. Um passo a frente de seus concorrentes e inimigos, assim como o seu pai lhe ensinara. O nome do deus criador foi clamado inúmeras vezes e Vangardesh não pode deixar de pensar em Sir Celacious. Titubes usava o nome de Rainaar, mas seu propósito era outro, Sir Celacious já não o fazia. Quais eram as recompensas para este guerreiro? E quem era ele dentro deste imenso jogo?

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A multidão ouvia absorta, cada palavra proferida por seu líder. Alguns entendiam vocábulo a vocábulo, mas a grande maioria não, apenas achava bonito o que lhe era proferido. O discurso de Titubes tinha conteúdo, era como se ele tentasse se redimir de todo o mal que causara no passado com aquelas palavras de esperança. Mas era um elóquio vazio, pois a única forma que ele conhecia de chegar a seu objetivo, era pela força. O discurso se prolongou por mais algum tempo. Cidadãos outrora interessados começaram conversas paralelas, já se perdendo do grande foco, que eram as mensagens de seu líder. Cônscio disso, Titubes começou a falar mais alto. - Então, tendo a honra de celebrar a centésima terceira festa de São Miguel, eu...! – Titubes parou de falar e um suspense silencioso tomou conta de todos. O pirata mor olhava para as escadas de seu navio. Vinda do porão uma criança de não mais de cinco anos de idade, cabelos loiros e pele branca. Titubes o tomou nos braços, beijando-o, levantou o garoto acima de seu chapéu, voltou-se para a multidão disse. - ... Ícaro, filho de Titubes principio as festividades! A turba clamou alto lançando os braços para cima em êxtase de alegria e júbilo. O único a ficar pasmo foi Vangardesh. Todo o planejamento estava indo por água abaixo, ou na expressão comum em Minlurd, tudo estava nas mãos de um Elemental53 da água. Como foi burro em deixar-se levar por Hireegard. Uma fraqueza começou a tomar seu corpo. Estava quente, suava por baixo da armadura negra. - Não! – pensou alto. Afastando de si as emoções que o derrubariam. As pessoas já estavam começando a se espalhar pelo porto e pela cidade, buscando bares, ou vendedores de bebidas e drogas que vinham de todos os lugares dos Reinos para lucrar com os excessos da população. São Miguel deveria estar revirando-se no túmulo, por patrocinar estas imoralidades. Logo este ex-pirata que aprendeu o quanto estava errado em seu caminho de vida, enquanto lutava contra os demônios. Dedanogor não teve mais dúvidas, precisava agir. Colocou seu elmo e transformou-se definitivamente em Vangardesh. - Titubes! Titubes! – berrou mais alto do que pode. Abriu-se um buraco em sua volta, a população afastava-se daquele que agora vestido totalmente para combate, se dirigia a nau, O Retaliador. Toda a atenção voltou-se para ele. - Eu sou Vangardesh o Impiedoso! Estou aqui para matá-lo! Saia do lado dos seus macacos adestrados e venha lutar como homem! – poderia ser uma loucura imensa tomar esta atitude, mas dentro da mente estrategista de Vangardesh, ele sabia o que estava fazendo. Eram quase cinqüenta homens contra um. Mas não contavam com a surpresa de ter Enervous contra eles. O usaria na hora certa.
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(Elemental) – Seres de pura energia. Cada qual referente ao seu estado natural. Fogo, terra, ar, água. Os elementos em seu estado místico mais poderoso. Tem vontades próprias, mas se controlados podem oferecer fonte de energia quase que inesgotável. Podem ser conjurados para a serventia de feiticeiros. Não só em seu formato natural, mas também em outras configurações, entre elas a forma humanóide. Em 720 AC na era das grandes descobertas místicas em Minlurd foram os primeiros a serem controlados por místicos.

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- Quem é o bravateiro que esta falando isso?! – Titubes berrou do outro lado. Facilmente achou um gigante vestido com uma armadura intrincada e completamente fechada. Não é possível que ele esteja verdadeiramente sozinho. Sabia que sua cabeça valia muitas moedas de ouro por toda a Minlurd. Mas um caçador de recompensas, sozinho? Faria um teste. – Homens matem-no! Os quinze piratas mercenários que estavam no cais correram para a direção de Vangardesh que já estava sacando sua espada montante. O rodearam facilmente. O gigante segurava sua espada com as duas mãos. E por um momento ninguém se aproximou. O ego às vezes faz os homens lançarem-se em desafios impossíveis. Três piratas correram em direção ao guerreiro tentando acertá-lo. Mas para Vangardesh havia a vantagem do alcance de sua espada. Dois homens morreram com golpes duríssimos antes de chegarem até a distancia de suas próprias armas. O terceiro acertou apenas as costas protegidas pelo metal pesado e duro da armadura. Mudando de direção, custou a Vangardesh um soco de sua manopla, para afundar o rosto deste pirata. - Doze! – berrou o guerreiro, contabilizando quantos faltavam para matar. Os piratas lutavam sem proteção alguma. Estavam vestidos com roupas e nenhum tinha ao menos um escudo. Afinal, estavam acostumados a saques e pilhagens a barcos mercantes, e não a guerra contra guerreiros profissionais. A multidão ávida por assistir a carnificina que se iniciava, começou a empurrar os mercenários para perto do algoz negro. Vangardesh aproveitou a oportunidade para atacar. Avançou para cima de dois piratas que estavam virados tentando segurar a turba, estocando o primeiro e partindo o segundo ao meio. Seus golpes eram muito fortes e sua espada de quase dois metros lhe dava um balanço mortal. - Dez! – sua intenção era a de propagar o medo. Tamanha sua vontade e segurança que estava começando a acontecer. A vantagem dos números estava diminuindo muito rápido. Nenhum dos homens tencionou avançar. Enervous apenas ansiava pelo sinal combinado. Não tirava os olhos de Titubes e do garoto. Que naquele momento estava parado na murada do navio, observando a tudo com medo nos olhos. O pirata mor, regente da cidade da Agulha, presenciava a tudo com indignação. - Vamos seus vermes do mar! Quer dizer que nenhum de vocês consegue matar um homem lutando só?! Cinco correram em direção a Vangardesh, desordenados, sem comando. O guerreiro rodou em cima de seu próprio centro com sua espada a sua frente, três foram lançados para trás, o quarto com a força do golpe já reduzida fez com que Vangardesh perdesse o equilíbrio, quase caindo de costas. Mas os treinamentos de Thorkyn abrangiam uma gama imensa de deslocamentos e conhecimento corporal. Vangardesh diminuiu seu centro de gravidade, colocando-se na posição de três apoios. O pé esquerdo no chão com a perna flexionada, o joelho direito e a ponta da bota direita também apoiados no chão. Desta forma deu, mesmo sem intenção, permissão para o último que vinha afoito acertando-lhe com a maça, o elmo de sua armadura. O guerreiro, natural de Derghemom já estava completamente imerso no combate, mesmo tonto com a pancada, ainda respirava pelo nariz.

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Levantou-se empurrando com o ombro o quinto pirata, que estava muito próximo. Mais três oportunistas vieram. Dois ataques resvalaram na carapaça negra, o terceiro acertou na fenda da armadura do ombro esquerdo, fazendo Vangardesh sentir o corte da espada deste inimigo. Por ira, o guerreiro poderia já tentar responder a mágoa voltando-se contra este que o feriu. Mas estrategicamente não o fez, preferindo voltar seus ataques para o oponente mais próximo. Com duas manobras assertivas, matou mais um. - Nove! – berrou enquanto voltava-se para os quatro, fazendo movimentos com a espada, como se estivesse em um treinamento. Estes titubearam e foi o momento em que Vangardesh avançou. Um golpe alto, seguido de mais dois talhos que terminavam com o guerreiro novamente na posição de três apoios. Três caíram logo após sua movimentação. - Seis! – berrou na frente do pirata, que de pé, alcançava a mesma altura que Vangardesh com um joelho no chão. O pirata correu para a multidão. Fugindo do assassino de negro. Titubes percebeu que estava perdendo a luta e berrou. - Aquele que o matar, será coberto em ouro! – sua intenção não era somente de incentivar seus mercenários, mas também a turba, imaginando que esta poderia linchar o mercenário assassino. O discurso há pouco proferido, sobre sua vontade de proteger a população, não se refletia em suas ações. Os homens hesitavam, a multidão empurrava-os para cima do guerreiro. Vangardesh percebeu que estava demorando por demais. Já não era mais o objetivo que o incitando a lutar e sim o seu próprio ego. Repensou sua estratégia. Usou as botas de Mingrabim, não para a fuga, e sim para o ataque. Saltou em direção ao cais, elevando-se ao ar por cinco metros de altura, pousando suavemente na madeira que crepitou com o seu peso. Tinha a sua frente O Retaliador e nas suas costas uma passagem onde só caberiam dois homens por vez. Mais um pulo e estaria no deque do navio, bem perto de Titubes e seu objetivo. Porém voltou-se para os cinco homens restantes que vinham correndo em sua direção. Titubes sorriu com sua sorte mudando. - Ataquem! – enviou seus trinta guardas que por meio de uma rampa pequena desciam do navio, indo de encontro a Vangardesh. E foi assim que o carteiro da desgraça elevou sua espada, acima de sua cabeça dando o sinal para que Enervous fizesse o que fazia melhor. O brutal bateu com a mão no peito algumas vezes, um cumprimento que os brutais faziam a Thú, o deus da guerra. E com a clava em mãos derrubou três, com o seu primeiro golpe. Muitos puderam ouvir ao longe, uma corneta a trovejar pelos céus escuros da cidade da Agulha. Titubes estava perplexo. De uma festividade onde angariaria mais seguidores na sua causa, para uma derrota maciça de seu império. Estava perdendo toda a sua armada pessoal para estes dois brutamontes, e a corneta informava que sua casa estava sendo assaltada. No deque do Retaliador homens eram arremessados para o mar, com corpos esmagados e desfalecidos, nas docas Vangardesh ceifava a vida dos guardas restantes. Seus homens dividiam-se caoticamente em descer a rampa

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e permanecer no deque. A visão do brutal insano, atacando sem preocupar-se com sua própria segurança era assustadora. Titubes pegou seu filho pelo braço e pensou em fugir. Preferiu enviá-lo para o porão do navio, enquanto atrairia seus algozes. Era um homem corajoso, que já lutará contra criaturas e humanóides antes. Sacou sua cimitarra, arma preferida de lamina larga e curvada e berrou. - Vangardesh! Estou aqui! Venha me pegar! O guerreiro impiedoso havia matado todos os piratas. Sete corpos jaziam no chão de madeira e na água. O sangue deixava a água do mar com um avermelhado sinistro. No navio haviam ainda treze homens, Enervous já tinha dado conta de mais de quinze. - Impressionante... - ponderou Vangardesh. E levantou sua espada acima de sua cabeça novamente. Este era o segundo sinal. Enervous berrou alto. - Quebra paredes! – e a clava de aço aumentou seu tamanho. O brutal mirou no chão do navio e acertou com força. Caindo para os porões com o buraco criado pelo golpe. Ninguém entendia mais nada. Titubes não emitiu nenhum comando. Apenas tentava entender o que se passava. Do fundo do barco ouvia-se um som de paredes de madeira rachando e uma movimentação enérgica. Mais um estrondo e o navio começou a fazer água. Enervous estava afundando o Retaliador, ao tempo em que já estava com o menino Ícaro em seus braços entrando na água para iniciar um nado. Vangardesh aguardou a confirmação. O navio só poderia ser afundado antes de Enervous ter certeza que estava tudo certo. E neste caso significava o rapto com sucesso do menino. Vangardesh preparou-se e correndo para o porto saltou mais uma vez, sem nada dizer. Descreveu um arco de três metros de altura, por quinze de comprimento. Parecia um grilo humano, saltando por cima da multidão paralisada. O astuto Titubes então percebeu. Não era atrás dele que o mercenário de armadura e o humanóide recém contratado estavam. Era algo que ele possuía. Seu filho, Ícaro. Mas por quê? Enquanto os homens berravam, tentado se equilibrar em um navio que afundava, aguardavam as ordens de seu capitão, cujos olhos arregalavam-se conforme sua mente construía a verdade dos fatos. De acordo com a vidente que sempre consultava, moradora de uma vila próxima, Ícaro era uma benção de São Miguel e traria esperança e renovação. O ajudaria em seu sonho, que era o de construir um império nos Reinos Caóticos. Mal sabia Titubes que não só ele, mas outros tinham o conhecimento deste menino abençoado. E o queriam para fins mais macabros. - Não! – berrou alto para os céus. Aquele que já tirara vários pais do seio de suas famílias incendiara vários lares, matando filhos e filhas de outrem. Era como estivesse agora, pagando um débito, que não queria quitar. Titubes correu para a murada do Retaliador e pode perceber o quanto estava correto. O brutal nadava a toda velocidade, no mar gelado do Oceano Anárquico, carregando seu filho com ele. O garoto que tinha o brio do pai, não chorava, apenas esforçava-se para permanecer acima da água. Titubes clamou por navios próximos, mas estes não conseguiam alcançar Enervous a nado, com o

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vento fraco que batia em suas embarcações, ou estavam muito bêbados para remar ordenadamente, e perderam o brutal na escuridão da noite. Vangardesh por sua vez corria facilmente nas ruas vazias da cidade em pânico. O som de gritos e ordens vindas do porto distanciava-se ainda mais conforme o guerreiro movia-se sem dificuldade. Estava cansado pelos combates, mas longe da exaustão, devido ao seu sempre disciplinado treinamento. Agradeceu sua teimosia e desconfiança eternas, quando planejou, mesmo que desorganizado, planos secundários, caso o infante estivesse com o pai no barco. Rapidamente alcançou seu cavalo Bicudo, encontrando dois homens desmaiados caídos próximos a ele. Possivelmente dois bêbados que tentaram roubá-lo. A marca de cascos em seus peitos demonstrava como o animal sabia cuidar de si. Montando em Bicudo, Vangardesh parte da cidade da Agulha a todo galope em uma missão de inúmeros erros. Onde tarefas mal planejadas desde o seu início tornaram seus agentes, quase vítimas de situações não controláveis. ξ Vangardesh encontra-se com os Sabotadores cinco dias depois na mesma vila que desembarcaram. O Voador resgatou Enervous fora da entrada do porto da Agulha, como haviam combinado. Sâmara e Niblihim fugiram pelos muros da mansão em um episódio de muito suor e sorte. Encontrando-se com o Voador em um bote escondido a meio caminho da vila. O último a ser embarcado no navio, Vangardesh e Bicudo o fazem com pressa. Naus fiéis a Titubes já patrulham desesperadas a costa dos Reinos verificando quaisquer embarcações que porventura estejam em mar. Tropas de homens a cavalos correm pelas estradas de terra a procura de um homem de armadura negra. Logo O Voador esta navegando de volta para o cinturão de maremotos e em direção a Maior, todos estavam muito satisfeitos. Hireegard com o ouro e o sucesso da empreitada. Sua fama de competente aumentaria mais e já estava com dinheiro suficiente para comprar seu baronato em Celeus. Sâmara também pensava na compra do apartamento em Maior para ela e seu homem. Cuidando de Ícaro durante a viagem e o protegendo a mando de Dedanogor, das investidas de Hireegard. Niblihim refugiou-se no cômodo do navio estudando ao máximo tanto o ídolo, quanto o membro do demônio presenteado a ele por Enervous. Sua mente excitava-se com a pesquisa do oculto e só isso para ele já bastaria. Dedanogor refletia sobre tudo o que haviam passado, repassando passo a passo e criando novas situações e como as resolveria. Estava feliz por um lado, mas insatisfeito por outro. Seu resultado final sempre causava em alguém alguma perda, ou desgraça. Seu caminho estava correto? Irritava-se com estes constantes questionamentos. Lembrava-se do dia em que fora convidado por um cavaleiro de Rainaar, a entrar na ordem. E se tivesse optado por esta vida? Porém sabia o que era, e que fora sua escolha, desta forma deveria sempre responsabilizar-se por seus atos.

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O único descontente era Enervous, teria que passar muito tempo no mar, entre enjôos e fraquezas, odiava esta viagem. Mas uma coisa não podia deixar de pensar, o que faria com todo aquele ouro... ξ

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Capítulo 11 – O segundo
¨ Dê a vida, o que a vida o dá¨. Gajão Durgovitch Oito anos de muita fartura e tarefas perigosas se passaram. Os Sabotadores já eram mais conhecidos ainda como um grupo de mercenários caros e competentes. Desde trabalhos pesados, como em missões de espionagem e assassinato. Em conseguinte o mundo de Minlurd continuava seu curso, nas rotações do astro rei e deus Solarius. Pela vida e morte de Nastar o deus da natureza. As transformações de BalGor, o deus da natureza morta. As maquinações de Thú o deus da guerra. A difusão de Pax54 o deus da paz. Tudo isso regido pela criação, Rainaar, e a destruição, Amdosias. A guerra Cinza trouxe muitas baixas de ambos os lados, anões e elfos cinzas se odiaram ainda mais como resultado. A peste Gondionica55, começada em Brita por uma horda de gondes infectados assolou os reinos vizinhos. Afetando humanos e humanóides sem distinguir raça. Os preços de produtos básicos como os cereais, grãos e vegetais aumentou demasiadamente no episódio da perda de lavouras extensas em Derghemom, devido a uma praga descomunal de gafanhotos. Diziam alguns que era Rurr56 o príncipe demônio que andava pelas terras. Mas da mesma forma que Amdosias faz seus intentos, Rainaar também se remete. Os elfos de Sairim mandaram sua árvore anciã caminhar entre o território de Derghemom semeando vida nas glebas. E logo tudo se normalizou. No continente de Sembalo, as expedições de exploradores descobriam novas civilizações. A tudo Dedanogor lia nas paredes da forja de Lemo, no dia em que foi visitá-lo em Carpes.

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(Pax) - Deus da paz. A ausência de conflitos. Celebrações, festas, amor. Panteão de Minlurd. Também conhecido como o deus da morte. O descanso final. 55 (Peste Gondionica) - A peste Gondionica (166 DC), começada em Brita por uma horda de gondes infectados com uma rara doença assolou os reinos vizinhos. Afetando humanos e humanóides sem distinguir raça. Um resfriado e mal estar para os da raça gonde, porém uma doença mortal para os humanos. Morreram mais de quinhentos mil habitantes de Brita em uma época que se acreditava ser um castigo divino. 56 (Rurr) – Ser humanóide da raça dos demônios. Uma criatura de tamanho humano, porém com asas cinzas semelhante a dos morcegos e grandes presas pontiagudas, corpo musculoso também acinzentado. Cabeça humana com expressão grotesca, um assassino, voltado para os pecados da carne, como o sofrimento do corpo e a extinção da vida.

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Agora, morava em um apartamento em Maior, capital do império do mesmo nome. Estava na cidade a mando da Irmandade da Caveira. Um pedido que não se podia negar. O encontro deu-se na estalagem combinada, a antiga ¨O porco que guincha¨. Mantida parte com o dinheiro e proteção da própria Irmandade. Vangardesh entrou na estalagem de madeira e muitas lembranças vieram a sua mente. Não era mais um garoto de vinte anos. Mas um homem de trinta e três. Seu corpo marcado por cicatrizes de lutas antigas demonstravam seu espírito. Logo é recebido pelo filho de Roco, o novo dono, desde que seu pai se aposentou devido à idade avançada e o coração fraco. - Senhor Vangardesh, por aqui, por favor. – mesmo sem a armadura era esse o nome que era conhecido. Vangardesh o impiedoso. Aquele que não se apieda, ausente em compaixão. Essa era sua fama. Se sua missão era matar, matava. Se era roubar, roubava. Não voltava atrás, nunca. Passou por três revistas, revelando apenas o machado negro que portava sempre quando em vestes normais. Sentado em um canto, protegido por mais cinco homens bem armados e um cachorro de aparência monstruosa, estava Sarnias. Estava bem mais velho. Os anos de drogas e bebedeiras haviam cobrado seu preço, antes magro, agora estava magérrimo e tinha uma aparência cadavérica. Porém seus quinze anos de liderança a frente da guilda mais temida na Merá ocidental o permitia uma imagem poderosa. - Como vai Vangardesh? Ou poderia chamá-lo de Dedanogor? – a voz é rouca, devido a garganta doente, de tanta fumaça de ópio. - Como vai Sarnias? Não larga o osso por nada neste mundo não é? – Dedanogor abusava de sua fama e sorte. Sabia disso, mas sentia-se seguro, onde muitos tremeriam. - É verdade. Mas também se eu o fizer, assim como Rocco o fez para com seu menino, quem cuidará dos interesses da Irmandade? – e dito isso olhou fixamente para Dedanogor. - Estou aqui hoje, para cuidar de quaisquer interesses que a Irmandade tenha. – Dedanogor estava consciente de onde estava e com quem estava lidando. Não importava se xingasse Sarnias, desde que fizesse o que ele, ou melhor, o que a Irmandade da Caveira ordenava. Como era competente em seu trabalho tinha cacife para falar. - Direto ao assunto como sempre. Gosto de você rapaz. – Sarnias levantou o braço, era tão fino quanto um graveto de madeira. Seu corpo só estava vivo, graças aos esforços do Império da Morte57 e de clérigos de Amdosias. Um dos capangas trouxe um tubo de marfim. – Quero que mate alguém para mim. – disse segurando o tubo que caberia um pergaminho. - Quem já está morto? – Dedanogor perguntou, presunçoso. - Celacious. O guerreiro maduro jogou a cabeça para trás. Nunca esperaria por isso. Celacious? O cavaleiro de Rainaar? Conhecido por lutar pela justiça e ajudar os necessitados?
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(Império da Morte) – Escola de feiticeiros com mesmas tendências. Estes magos estudavam a necromancia. A passagem da morte e outros planos de existência. Os estudiosos do fim da vida.

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- O que ele fez? - Vejo dúvida em seus olhos Vangardesh? – Sarnias provocava. Acostumado a falar com autoridades de todos os lugares, gostava deste jogo de dissimulações e intrigas. - Não há dúvidas. Apenas espanto. – disse duramente Vangardesh. Voltado a ação, pensava rápido para agir em seqüência. - Digamos que ele se envolveu em algo que não deveria, e agora vale mais morto que vivo. Permitirei que escolha ou não. Aqui está a nossa proposta. – e com isso entrega o tubo de pergaminho. Em silencio Vangardesh abre o conteúdo do tubo de marfim. Há um pequeno papel feito da pele de algum animal, ou homem. Nele esta escrita a quantia de cem mil moedas de ouro. Sarnias ri da expressão assombrada de Vangardesh. - Ou podemos dizer que você e seu grupo de mercenários estão quites com a Irmandade da Caveira, não nos devendo mais nada. Dedanogor sabia que era um ardil astuto. Hireegard havia feito muitos empréstimos com a guilda de ladrões. Recebeu a influencia necessária para compra de seu baronato há um ano atrás e também tinham a proteção da Irmandade, pois nunca foram molestados por nenhuma outra guilda. Informações, contrabando, a lista era extensa de dependência. Sarnias era um ladrão das antigas, sua palavra valia muito mais que ouro. Mas Celacious era um desafio absurdo. Um guerreiro muito mais calejado que ele, experimentado em batalha tanto na guerra contra com seres demoníacos. Ainda mais tinha poderes místicos concedidos a ele por merecimento perante seu deus. Seria um teste a altura. E ainda teria a oportunidade de conhecê-lo. Era como lutar contra um de seus ídolos. Sorriu. - Aceito. – e dizendo isso devolveu o pergaminho. Subentendendo o acordo. – Peço apenas uma condição para esta tarefa. - E qual é? – Sarnias estava curioso. Gostava de pessoas como Vangardesh. Tinham seus próprios sonhos e metas, não eram sangue sugas de vontades alheias. - Ele tem que me convencer que merece morrer. - Sim, sim. – riu alto como pode. – Ele o fará, não se preocupe. O resto da conversa foi sobre estórias passadas, informações sobre a cidade e seus caminhos. Não mais tocaram no assunto da visita e a madrugada se encarregou de esconder a trama. ξ Celeus comemorou Sir Celacious, com solenidade civil e grandes festas nas casas de nobres, como os Celeus e os Ristan. Seu nome era confundido com o do reino, mas nada tinha a ver, Celacious, assim como Dedanogor, havia nascido em Derghemom.

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Vangardesh chamou Sâmara e Enervous para esta missão. O baronete Hireegard o levaria a festa. Os Torneios Celíacos58 estavam acabando este ano, toda cidade despedia-se em uma festa só. A noite era diferente das experimentadas nesta estação de ano. Estava estranhamente mais quente que as noites primaveris. E suas brisas geladas. Dedanogor saiu da estalagem mais cedo, passando na loja de Lemo. Lá cumprimentou os empregados que o conheciam de longa data e gostavam daquele homem descomunal, simples e que os tratava como iguais. Todos viram quando a carruagem nobre estacionou a porta da loja. Ela trazia o símbolo da casa nobre dos Vooca. Dedanogor entrou na carruagem de cavalos bem alimentados, levando consigo apenas o machado oculto em um saco. O baronete não estava só, com ele usando um lindo vestido estava ainda mais bela Sâmara. A roupa era quase transparente e mostrava as formas estonteantes da guerreira, que agora mais parecia à esposa de Hireegard. Dedanogor a olhou com reprovação. - Está linda. – Não conseguindo se controlar. - Hoje me passarei por acompanhante de Hireegard. – respondeu Sâmara. Hireegard sorriu com escárnio. Dedanogor ficou furioso, mas tentou não demonstrar. Calado prosseguiu a viagem. A mansão era nos arredores da cidade, em um bairro mais afastado, somente aqueles que possuíam cavalos ou carruagens moravam aqui. Era muito longe para se andar a pé. A mansão ocupava o tamanho de dois quarteirões. Seus muros eram altos como todas estas casas, e de trinta a trinta metros uma guarita. A parte leste da grande casa era quase toda de jardins, e a parte oeste era dividida no grande casarão de seus mais de vinte quartos, a casa dos empregados e os estábulos, com uma pequena pista de corrida, paixão do senhor da casa, um nobre de nome Enfri Limpis. A festa estava sendo dada no casarão. Um grande arco convidava a todos, após a aceitação da entrada deste, luzes eram emanadas com mais força que o restante dos jardins. Várias carruagens de nobres de Celeus lá estavam. Alguns destes, grandes pensadores, outros que só desejavam a vida de festas e arrogância. Dedanogor sempre teve apreço a esta pátria que não a dele. Mas por ser contra a escravidão de homens, seja física ou mentalmente, ele a jurou bandeira, da sua forma. Tudo era do mais alto requinte, o chão lustrado por uma empregada ávida a receber os trocos daqueles homens. Na mesa do hall de entrada para os saguões principais, estavam criados e mesas que dispunham do nome de cada um dos convidados, com um pequeno presente daquela casa de nobres, era o símbolo de Co-on, um machado de prata envolto a um circulo de runas douradas. Após a saída do casal, Dedanogor desceu da carroça agarrado ao seu saco. Franziu os olhos em direção a casa, a luz forte o ofuscava. - Hei! – Uma voz no meio do tumulto, dos cocheiros e empregados dos convidados. Um homem careca, branco e de estatura pequena, porem largo

58 (Torneios Celíacos) - Competições com corridas, natação e jogos de lutas. Que incluíam o pugilato, as lutas com o escudo e a espada e as famosas justas. De dois em dois anos os torneios Celíacos enchiam as cidades e vilarejos de alegria. Os dias dos jogos davam sempre no verão.

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como um tronco. No cinto trajava uma espada curta, e nas costas um escudo de madeira. Dedanogor o cumprimentou. Somente ele o ouviu, o Baronete já olhava a sorrir para a entrada da casa, e Sâmara deslumbrada apreciava a pintura do teto. - Nós vamos nos reunir ali perto da entrada para um joguinho de cartas deseja vir? – o cumprimentou passando a mão em uma cabeça sem cabelos. – E ai? Vai entrar com eles? Na excitação de Hireegard e Sâmara, Dedanogor respondeu. – Vou, o patrão me quer junto. - Não se preocupe... - disse com escárnio - Afinal Celacious está aqui. – completou com desdém o guerreiro careca. O sorriso no rosto de Dedanogor fez o homem suspeitar. E enquanto os três iam à direção da porta. O guerreiro careca, os olhou de cima abaixo. Podia pressentir que naquele saco, o homem trazia consigo alguma arma. Virou-se e foi jogar cartas, afinal seu trabalho era só de trazer seu patrão até aqui... Dedanogor olhou estupefato, sentiu-se um verdadeiro caipira, lembrando-se de sua juventude e observou Sâmara em silencio. – Sou apenas um caipira da fazenda. – Pensou consigo. Num ímpeto de vontade disse a ela, em meio às luzes que refletiam os quadros pintados no teto. A luz de Co-on a brilhar sobre a grande escuridão. Co-on deus guerreiro, da época do cataclismo, sua devoção era enorme em Celeus. No quadro seguinte puderam ver os anjos, a descer sobre ondas de criaturas nefastas, e arremeter-se em luta. Ao tempo para a terceira gravura, foram presenteados pelos criados de Enfri a objetos que deveriam pendurar no pescoço e deixá-lo a mostra, era o símbolo de Co-on. - Isso é algo divino... – falou baixo a guerreira. Acostumada aos gostos simples de Dedanogor, gostava de estar com Hireegard, este sabia como impressionar uma mulher. E continuaram a observar as pinturas. A terceira gravura era o desenho de Co-on e Amdosias apertando as mãos. O bem compactuando com o mal. O compacto que salvaria o mundo das trevas. Dedanogor terminou a frase a tempo de olhar para a gravura acima. - Engraçado, não gostei desta pintura. – Falou para Hireegard que nem ao menos o ouviu. Isso era uma coisa que Dedanogor gostava em Enervous, por pior que fosse a coisa que ele dissesse o amigo sempre estaria ouvindo. Pensou em Enervous e o que ele estava fazendo. ξ Enervous saiu mais cedo do trabalho naquela noite. Já era chefe da guarda dos armazéns apinhados de mercadoria contrabandeada. Morava em um conjunto de apartamentos em um bairro mais humilde em Carpes, específico para humanóides. Tinha como vizinhos alguns poucos como ele e muitos gondes que o tratavam como rei. De um dos armazéns pegou uma carroça, lembrou-se da época do quartel e de quando andavam de carroça da guarda, nas noites de folga, na época, era a única forma de Dedanogor o levar para casa após uma noite de bebedeiras.

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Conduziu pelas ruas de Carpes carregando vários sacos grandes, escondidos por uma imensa lona que cobria toda a parte de trás do coche. Já estava acostumado aos olhares daqueles humanos, que o viam como uma incógnita. Sabia ele que os humanos acreditavam que todos os brutais eram nascidos para a guerra, e que a qualquer momento ele poderia se voltar contra eles em fúria. O que estes humanos não sabiam é que os brutals são sobreviventes. Muito mais que um humano o seria. Os elfos como os anões, prestavam respeito a esta raça nascida nos vulcões de Bullbara. O deus Thú também um brutal guerreiro. Entre os humanóides eram reis, e entre os humanos apenas máquinas de matar. Sorriu para si mesmo, era sempre assim, Enervous o pensador, como fora apelidado em seu clã. Gostava de Dedanogor, ele era como ele. Ambos seres inteligentes e subestimados. Nos sacos trazia as peças da armadura negra de seu amigo. Também levava um escudo. Não foi parado por nenhuma guarda de ronda. Afinal ele ainda era conhecido na cidade como Enervous o gigante. O guarda palaciano. Sorriu de novo, adorava fantasiar estas coisas. E conduziu a carroça firmemente em direção a vila de Enfri Limpis. ξ Os salões eram ainda maiores por dentro que vistos de fora. Segurando forte o amuleto presenteado Sâmara disse com grande felicidade. - Hireegard, eu amo isso, obrigada por me proporcionar estes prazeres. – Os olhos negros dela brilhavam enquanto ela olhava ávida para um salão cheio de pessoas bem vestidas e reunidas em rodas espalhadas pelo imenso saguão. Hireegard sorriu, vestia uma máscara de marfim que lhe cobria metade do rosto. Para todos o baronete havia sofrido um acidente quando criança, portanto trajava esta máscara em ocasiões sociais. Dedanogor examinava a tudo com muito interesse. Criados bem vestidos serviam bebida e petiscos, um deles serviu vinho aos três e observou irritado enquanto Dedanogor sorveu o copo em um gole. Hireegard tentava disfarçar o nervosismo, afinal já imaginava o que poderia acontecer caso o guerreiro falhasse. Mesmo com todos estes anos de convivência, permitia-se ainda duvidar das capacidades de Dedanogor, provavelmente para não se achar inferior. Sâmara pelo contrário sorria a todos que a olhassem, e não eram poucos que o faziam, de tão feliz que estava em sentir-se importante, em sentir-se alguém, nesta casa de nobres. O saguão dava vazão para várias partes da mansão, uma escada larga que ascendia em quase espiral levava aos andares superiores, na parede desta, vários quadros de membros da família Limpis. A oeste uma porta dupla que dava para uma grande sala de jantar onde logo seriam servidos. Cozinha e do lado de fora os estábulos. A leste outra porta dupla, que levava os curiosos a sala de estar da casa, com prateleiras repletas de livros na sua maioria economia, visto que a família Limpis era conhecida por ser sobretudo

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burguesa. Mais a leste outras pequenas salas de leitura e do lado de fora, os jardins. Viam-se várias pessoas a conversar, todas bem vestidas. Conversas animadas regadas ao bom vinho trazido das vinícolas de Hule. Um centauro de armadura branca apenas que lhe cobria o peitoral, com um rabo de cavalo amarrado atrás da cabeça que lhe caia nas costas de sua parte animal, esta coberta por uma toga com o símbolo da Ordem da Honra Imaculada. Quatro elfos gêmeos muito bem vestidos e trajando flores multicoloridas presas em suas vestes. Um homem em armadura quase completa, polida com vigor. Este era Celacious rodeado de pessoas que lhe admiravam. Estes seis eram os destaques desta festa. Celacious aparenta ser bem mais novo do que sua verdadeira idade. Já beirando os cinqüenta e cinco anos. Seus cabelos brancos bem cortados, já vencem dos antigos fios castanhos. Possui olhos verdes e profundos. Assim como sua experiência de vida. - Quem são estes elfos? – Perguntou Sâmara enquanto terminava de beber de seu copo de cristal. - Eles são diplomatas de Sairim, o reino élfico, bela senhora. – Respondeu um homem de quarenta anos, trajado com uma toga, roupa característica do reino Maior. E se aproximando deles continuou olhando para um Hireegard irritado. – Uma festa muito bonita. Não acham? Espero que possam aproveitar a tudo, sem chamar muita atenção. – Disse em um tom quase imperativo. O rosto deste homem tinha rugas e traços fortes, mostrando que deveria ser um homem que tomava várias decisões importantes em sua vida. Seu cabelo já era quase todo branco, apesar da idade e do dinheiro gastos em misturas mágicas para rejuvenescimento. Hireegard franziu a testa, afastando do rosto sem querer a máscara que quase caiu. – O que você está fazendo, vindo até aqui falar comigo?!- falava baixo, controlando o tom da voz que com certeza em outras ocasiões estaria mais alto. – Ninguém pode nos ver conversando juntos! O homem sorriu com desprezo. – Já faz tanto tempo que você não é convidado para uma festa destas que até perdeu a etiqueta de como se comportar. Como você pode trazer este gigante até aqui e esperar que ninguém o perceba. Idiota, mande-o ir lá para trás com os empregados, ele tem cara de soldado e não de nobre! Uma ou outra pessoa percebeu a baixa discussão que ali acontecia. Mas o lugar estava cheio de gente que também ria e conversava alto, e não deram tanta importância a isso. Dedanogor não ouviu o conversa, pois não conseguia tirar os olhos de Celacious que agora estava ao lado do centauro dividindo atenção. O filho de Gajão analisa a intricada armadura branca como o gelo das Montanhas Negras, com placas que se alargam para fora de seus ombros, como se fossem dois escudos laterais que protegem sua cabeça, e sem querer pensa em seu pai. Lembra-se de que ele um dia lhe contou uma estória sobre um homem que lutou contra cinco outros, mas isso foi há muito tempo atrás. È interrompido por Hireegard.

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- Dedanogor, você deve sair. – Ao seu lado ainda está o homem de toga branca e olhar sisudo. Dedanogor olha para todos e apenas segura seu saco e amuleto ganho. - Você está chamando muita atenção, deve esperar lá fora. Só de altura, você, Ônix o centauro cavaleiro e Celacious são os únicos. E também sua cara e roupa não estão ajudando muito. – Exprime seu pensamento, o amigo de Hireegard. Dedanogor olha para os três, Sâmara está calada e apenas o olha. O homem de toga, definitivamente é alguém conhecido. Dedanogor o reconhece como sendo afiliado a Aliança. Ordem de cidadãos ricos e influentes que não participam de roubos comuns, e sim de corrupções contra o estado e sua população. Talvez ainda piores que os ladrões comuns que são verdadeiros no que são. Possivelmente ele tenha parte no que irá acontecer hoje. Um dos mandantes. Em vez de ficar bravio, o guerreiro nada manifesta. - Sou bom para o serviço sujo deles, mas não sou bom para estar ao lado deles. Interessante. - Vira-se e sai da casa em direção as carroças. Sâmara e Hireegard sorriem e vão a ter com os outros convidados. As risadas atraem Dedanogor Durgovitch. Homens rudes estão a jogar cartas perto da casa de empregados a oeste da mansão. Lá ele encontra uma mesa posta do lado de fora, que dá uma boa visão da cozinha e das janelas da sala de jantar. Duas mesas repletas de homens, em uma delas destaca-se um minotauro, raça de humanóides, de mais de dois metros, menor que um brutal, corpo humano, pele e semblante de touro, não têm pés mas sim cascos, seus chifres são adornados e demonstram virilidade. Não são provenientes de Bullbara mais sim do oceano Anárquico. O minotauro olha para Dedanogor e o cumprimenta com a cabeça, assim também o faz o careca que o chama para sentar-se. Pronto, aqui ele sabe que estará entre os seus. - Me chamo Marce, sou guarda pessoal de Milady Alebranda Ristan. E de vez em quando também dou um trato nela. – Com isso Marce desata a rir alto sem pudores. Alguns o seguem, o minotauro nada demonstra. - Sou... – Dedanogor pensa, que espalhando seu nome não seria algo muito inteligente de se fazer, mas por outro lado teria álibis caso algo acontecesse. – Dedanogor guarda costas de ricos burgueses e nobres. – Suas palavras tinham um pouco de ressentimento, sobretudo ao descrevê-los como ricos, como se segregasse as pessoas. Sob a luz da lamparina, pregada na parede da casa dos empregados, os rostos dos outros homens demonstraram um vinculo silencioso, afinal todos estavam ali com o mesmo objetivo. Ganhar um dinheiro extra para sustentar a si mesmo ou a sua família. Neste ambiente Dedanogor se sente bem, ao lado de homens claros, simples, porém honestos no que são. Entre risadas e olhares respeitosos as horas passam. Um ou outro problema na mesa ao lado, um dos homens tenta trapacear no jogo de cartas, mas é pego e quase espancado pelos outros. Na mesa de Dedanogor, Marce e o minotauro são os melhores ali, jogam o famoso jogo chamado pôquer. Entre blefes e apostas o mercenário pensa no tipo de pôquer jogado politicamente entre os homens daquela festa. Fica ressentido. Mas é dissuadido pela visão que não só ele como todos os trinta homens ali enxergam. Vindo do meio das árvores uma linda mulher de cabelos negros soltos que batem abaixo de seu ombro fino porém musculoso, em um longo

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vestido que abre bem no meio de sua coxa forte. Usa uma tiara de jóias, confeccionada por exímios joalheiros. Marce mais esperto olha para o gigante a fim de perceber sua reação. Dedanogor esta extasiado, observa sem pudores o andar desta bela mulher que traz consigo um copo de vinho e um prato de comida. - Desculpem-me. – Diz se relatando a todos. – Não sabia que estava juntos com estes homens mas falarei para a dona da casa servi-los. Nosso jantar está começando. E dá um beijo na boca de Dedanogor. Os homens e inclusive o não humano minotauro falam todos juntos ao mesmo tempo. Palavras de agradecimento e elogios feitos para uma mulher que sabe do seu poder para com eles. Se apercebendo disso, Dedanogor se levanta toma o copo e o prato, a pega pelo braço e a leva para longe. - Obrigado. Pensei que você nunca iria sair de lá, ainda mais para vir me servir. – Fala enquanto olha para os olhos negros de Sâmara, que estão a brilhar. - Fiquei com dó de você, do jeito que o amigo de Hireegard o tratou. – Provoca enquanto passam pelas carruagens na porta principal, indo em direção aos jardins. - Compaixão? Por mim? – Sorri com menosprezo Dedanogor. Ao passo que examina toda a região que se encontra, procurando por guardas da mansão, e a visão das guaritas ao longo do muro. – Não quero dó de você, quero...- e falando isso a segura pelo braço deixando cair na grama, o prato de comida. - Não me trate como uma de suas antigas concubinas. – interrompe enquanto desvencilha-se dos braços fortes dele. – Sinto que está nervoso hoje, está me lembrando quando você era jovem e inexperiente. - Eu estou nervoso. Ansioso. Como nunca me senti antes de uma luta. - Tudo bem, tudo bem. Viu o que fez a comida que lhe trouxe. Acabou de desperdiçar um excelente faisão ao molho marinhado. Não vou buscar outro, agora vai ter que comer com os outros. - Vai conseguir trazer Celacious até os jardins? – Friamente volta a ser Vangardesh. - O que você acha? – Sâmara seduz com um olhar lascivo. - O traga para perto daquele átrio.- E falando isso aponta para um lugar mais afastado, perto dos muros. - Verei o que posso fazer. – E dizendo isso Sâmara se vira e sai em direção a grande casa, sorrindo disfarçadamente. Dedanogor a observa partir. Com o som de um sino de ouro, os convivas são chamados para a grande ceia. A mesa é comprida e acolhe um montante de 30 a 40 convidados. Está farta com pratos de entrada. Todos se sentam, as conversas enchem o salão. A sala é adornada com quadros de caçadas dos bosques que circulam a cidade. Aumentando ainda mais a fome dos convidados. Sâmara retorna e alguns olhos a observam. Sua beleza altiva e selvagem, sempre despertava a curiosidade de alguns homens. Ao se aproximar de Hireegard que conversa sentado ao lado de uma lady de fartos seios e decote, consegue perceber o comentário que o amigo do baronete faz enquanto este passa por trás da cadeira dele.

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Apercebe-se também do olhar de um homem. Celacious. Seus olhos azuis a fitaram por um momento e ela retribuiu, com a cor negra dos seus. Por um momento que pareceu uma eternidade, ela se sentiu sendo despida por aquele homem de esparsos cabelos brancos e uma barba pequena meticulosamente cortada. Sâmara não sabia dizer, se estava sendo examinada por algum tipo de poder divino que a ele era atribuído. Diziam que Celacious conseguia ver a alma das pessoas, se havia bondade nela, ou apenas a escuridão. Ou então se ele estava a olhando como mulher. O cumprimento com a cabeça do homem de um metro e noventa e músculos distantes da sua idade, a fizeram parar de divagar. O jantar prosseguiu. As conversas eram centradas em colóquios, visando mais os elfos gêmeos, que demonstravam uma educação deslumbrante. Ônix o centauro tinha um espaço reservado para ele, pois seu tronco de cavalo, não era feito para sentar-se a mesa, como os demais. Vez ou outra, Celacious sondava Sâmara, como se estivesse tentando adivinhá-la. Ela já sábia disso, apenas devolvia o zelo, mirando sedutoramente em seus olhos. Por dentro seu coração disparava, imaginando o enredo que se seguiria. Mais tarde quando os drinques já estavam sendo servidos, os convivas já mais acomodados, espalhavam-se pela grande casa. Na melhor oportunidade, habilidade que tinha nata, Sâmara aproximouse de Celacious o cavaleiro que até então estava sempre rodeado, por donzelas ávidas, nobres fascinados, ou burgueses interessados. - Vejo que finalmente teve um tempo para si, mas sem sentir compaixão, vim também importuná-lo um pouco. – Disse a guerreira de músculos tesos, que em outras ocasiões nunca, daria o primeiro passo. O sorriso de Celacious era sincero e ele a respondeu do alto de seu tamanho. – Para mim, reuniões como esta, são oportunidades de divulgar o que ações fazem, e palavras apenas enfeitam. Sâmara sorriu sem jeito. – Que homem! – Pensou. Mas entendia parte do que ele havia falado como um discurso, algo decorado. - Não precisamos ficar nestas formalidades, apenas vim aqui para uma conversa mais simples, menos informal. – Falou de pronto. Agora o sem jeito era o próprio cavaleiro. – Desculpe-me senhorita, se a ofendi. É que às vezes sou interpelado, por pessoas que apenas desejam ouvir o que já sabem. - Posso desculpá-lo então, se me acompanhar até os jardins e me contar sua impressão desta festa. A verdadeira impressão por favor... E assim com um tigre se lança em sua presa, a guerreira de espada à venda, conseguiu o seu intento. ξ Na rua do lado oeste da mansão dos Limpis, um humanóide de nome Enervous desce da carroça, e na rua coloca uma barricada somente usada pela guarda da cidade, desta forma fechando a rua.

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A guarita da mansão dos Limpis, mais próxima que observa do alto, questiona inocentemente Enervous. - O que está acontecendo? - Um assassinato senhor. – Responde o brutal com um sorriso maroto e maligno. - Como assim? Quando foi isso? – O guarda da guarita nada compreende. - Agora. – A resposta é ao mesmo tempo um sinal. Um zumbido é seguido por mais três e logo o guarda cai de cima do muro para uma queda aparada nos braços do Brutal. De baixo dos panos da carroça, quatro homens regozijam pela perfeição nos tiros de besta. Enervous assoviou para além dos muros, e recebeu um outro silvo como resposta. De trás da carroça, pegou os sacos e os arremessou por cima do muro. Depois olhou para os homens que estavam vestidos com armadura de couro enegrecida, e pomposo disse. - Vamos, temos que continuar nossa patrulha. ξ Nos jardins, ambos caminhavam e conversavam, sendo seguidos por olhares curiosos e intriguistas. Mais afastados agora, embrenhados nos jardins e escondidos dos outros pela vegetação, seguiam tão envolvidos no assunto que estavam, que ata mesmo Sâmara não se apercebeu de ter chegado ao átrio. Celacious parou por um momento e de súbito segurou no cabo da espada dizendo com o rosto tenso. - Há algo errado aqui. – Por seguinte muito rápido e com uma força que machucou o braço de Sâmara a segurou pelo punho. – O que esta fazendo mulher? Isso é alguma cilada? - Me solte. – Disse ela assustada, e sentindo-se mal por estar tão vulnerável. - Solte a mulher Celacious, ela nada sabia, é comigo que você ira conversar hoje. – A voz saia de dentro de um elmo completamente fechado, e se não fosse pela luz da lua, mal se veria o gigante que apareceu de dentro das folhagens, trajando uma armadura negra assustadora. - Criatura vil, devo avisar-te. Se vieres para fazer mal, as pessoas da festa. Irá perecer ai mesmo onde estás! – Fala convicto Celacious, enquanto fala, solta Sâmara, que por sua vez se retira do local rapidamente. Normalmente Dedanogor sorriria com as palavras deste velho guerreiro, mas não hoje. Estranhamente o menino criado em uma fazenda e em meio a violência, sente-se irritadamente inseguro na presença deste homem. - Não vim fazer mal a ninguém. Exceto você. Vim aqui para matá-lo, mas antes quero ter uma conversa com você. Quero que me prove que estou errado em fazer isso. – Por mais estranheza que as palavras de Vangardesh tenham causando, ele tenta permanecer firme. Celacious franze o cenho, e pedindo mentalmente a Rainaar, utiliza seu poder para entender este homem. O silencio impera, e pode-se ouvir o estridular dos grilos que cismam em roçar suas asas na tentativa de atrair fêmeas. Ao longe o som distante de conversas e risadas. O homem de muitas batalhas quebra o silencio nervoso.

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- Tens uma alma assassina garoto, é uma pena. Mas vejo também que dentro de ti há uma esperança de alguém que entende aqueles que não podem sozinhos. – Celacious usou seu poder e está impressionado com a força que tem este guerreiro. Que mesmo um adulto, ainda é um garoto para este homem de seus cinqüenta e quatro anos. - Todo o homem tem o dever de saber se defender. São as mulheres e crianças que ainda não o sabem fazer. – Fala com convicção Vangardesh. - Vejo-me em você. Vejo-me jovem e inexperiente, perdido em questionamentos e dúvidas. Posso ajudar-te. . Permita-me. – Celacious sente neste a força de vários soldados. Não só pela compleição física do mesmo, mas por sua postura e segurança. - Não, não o permito. Perceba que você, não só acredita que o seu caminho é o único como quer forçar as outras pessoas a segui-lo. E se elas não quiserem Sir Celacious? Irá bradar sua Espada Justiceira59, acreditando que este ser não é livre e sim maléfico? Vangardesh se referia a espada mágica do cavaleiro. Conhecida como a Espada Justiceira. Uma arma mágica feita com a capacidade de discernir o justo do injusto. Abençoada por algum deus do passado. Era usada pelo grãomestre da ordem, Sir Celacious e era um ícone, um ponto de referencia entre os cavaleiros da ordem de Rainaar. - Não tenho essa pretensão. – E com essa fala o cavaleiro dá um leve sorriso, que para alguns poderia ser interpretado de duas formas: Humildade ou arrogância. A sensação de Celacious é de total insegurança e desprezo pela imaturidade de suas próprias ações. Um frio antigo na espinha, que não voltava há tempos, o faz relembrar de sua fraqueza para com as mulheres. Sua atenção para Sâmara, lhe rendera um contato aberto com o inimigo. - Este era o gigante que trajava um saco na entrada da festa - pensou Sir Celacious. A trama tinha sido completada. – Eu tive a chance de não participar disso. Poderia ter acabado com tudo isso antes. Vangardesh continua em silencio, esperando. - Vejo que sua maldade vai além da minha percepção. Jamais poderia imaginar que Vangardesh o demônio, conseguiu dominar um guerreiro tão cheio de vida. É esse homem que vejo perante mim. Volte para casa meu filho esse é o momento de arrepender-se. - Vangardesh? Não sou dominado por ninguém. É por minha própria vontade que venho aqui hoje. Entendeu minhas palavras há pouco? Vim para matá-lo. Onde está o seu orgulho? – Dedanogor provoca, não conseguindo entender as palavras daquele cavaleiro acerca de Vangardesh. - Meu orgulho, meu filho? Há muito tempo se tornou adubo de plantas. Plantas essas que enchem os olhos das mais belas damas de alegria. Sem orgulho eu posso fazer o senhor sorrir, e não com devassidão, mas sim um sorriso de agradecimento. - Você fala como um político. Palavras bonitas e ação injustificada. Eu sou pura ação. Não melhor nem pior que ninguém. Considero-me um peão60do
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(Espada Justiceira) - Espada de tamanho mediano, com dois gumes. Feita de platina e perfeitamente confeccionada. Possui energia mística, e consagrada pelo alto clero de Rainaar e dada de presente a Sir Fhorgrim pelos serviços prestados. Tem o poder de discernir o justo do injusto. 60 (peão) - No jogo das Quatro Divisões, a peça de movimento limitado, a qual se desloca só para frente, de casa em casa, à exceção do seu primeiro movimento, no qual pode deslocar-se uma ou duas casas

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jogo das Quatro Divisões61, que sabe se mover mais casas do tabuleiro. Portanto não me venha com discursos fanáticos. E por que cisma em mencionar este nome? - Os únicos discursos que eu perco, quem perde é Rainaar. Pois ele deixa de ter um filho, aqui entre nós. – Responde o cavaleiro. Por dentro da armadura Dedanogor empalidece. Percebe nas palavras do paladino, um tom seguro e preciso de ameaça. Automaticamente pensa em seu pai, mas as palavras do cavaleiro soam nítidas e fortes. - Agradece ao teu deus, por felizmente permitir que situações como estas, acabem nas palavras sabias deste senhor presente. – Cara a cara, estão os dois, duas figuras inertes no campo de flores e espadas. - Já é hora de dar um passo para trás. A noite é bela para perder, derramando sangue. Faça deste momento um momento de aprendizado, ainda é jovem. - Entendi. Mas quem de seus asseclas lhe disse, que eu gostaria de suas palavras? – Como um aluno arrogante e perverso Dedanogor escolhe as palavras certas para tentar justificar um ataque ao paladino, mas ao invés disso sente paz nas palavras do experiente guerreiro. - O seu coração é frio e ainda bate e imagino o desejo de continuar batendo durante o próximo inverno. – Continua o cavaleiro de Rainaar. - Sinto nas suas palavras ameaça e paz. Mas pense velho. Se já cheguei, por que deveria eu voltar? O dinheiro poderá ser gasto com a sua igreja. Portanto morra por ela. – Dedanogor continuava seu ataque ao paladino. - É por dinheiro que vem até aqui? - Finalmente acertaste. A problemática toda, ò grão mestre, é em saber por que eu vim até aqui. Por que eu aceitei esta incumbência. - Me diga, me fez curioso. – Seguro está Sir Celacious. - Vim por acreditar que ninguém é melhor que outrem. Com toda a sua luz Sir Celacious, ofusca á outros que querem também ser. E quem falou que és o melhor? Teus dizeres já estão ultrapassados, isso era discurso para a época do cataclismo. - Então atualize também o seu discurso. Quem disse então que sou o superior? Quem é melhor que outrem? Porque sou superior ao senhor, se não sou melhor que outrem? - Dedanogor se assusta. - Se me tiras a vida neste instante cai em contradição em suas palavras. Por que o seu corpo em pé com vida é mais sensato que o meu jazido ao chão? Então não levante a espada e não seja melhor que ninguém. Não fale que meu discurso é desatualizado, se o seu que o é. - Eu... - Sem palavras, pela primeira vez. O impetuoso Dedanogor Durgovitch que na caserna era conhecido como o impetuoso, perde sua impetuosidade e vira o antigo aluno de Thorkyn. - Apenas sou um instrumento, se não do meu deus então de um bem maior. Ajudo na medida em que posso enxergar problemas. E os resolvo sem pedir por dinheiro ou gratidão. Há muito entendi na providência e generosidade minhas recompensas. - As palavras de Sir Celacious eram proferidas com força e fé. A figura prostrada naquele jardim era a de um guerreiro experiente, que já havia passado por muitas lutas. Aquele guerreiro de armadura negra o estava
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(Quatro Divisões) - Antigo jogo, sobre um tabuleiro de 64 casas, alternativamente pretas e brancas, no qual dois parceiros movimentam 32 peças ou figuras de diferentes valores, em geral esculpidas em madeira, massa, prata. Sendo 16 para cada jogador: 1 rei, 1 rainha, 2 torres, 2 bispos, 2 cavalos e 8 peões.

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ajudando pensou. Assim como o demônio Vangardesh havia falado somente para ele, naquele incidente há muito tempo atrás. - Quer me dizer então, que entende minhas palavras? Ninguém é melhor que outrem? – Fala com uma voz mais calma, que continua vindo da mesma armadura negra de outrora. - Sim. Concordo contigo e lhe peço desculpas se de alguma forma me comportei de maneira descortês. – A humildade do paladino, fez sentir em Dedanogor uma acentuada dor no peito, como um remorso. - Prefere perder a luta há lutar? – Dedanogor está confuso. Nunca esperaria estas respostas vindas de um oponente. Não imaginava que Celacious era assim, tão nobre, tão simples. - Sim. Se queres ser melhor que eu, então eu lhe digo que o és. Desisto da luta se te fará feliz. Mas prometa que não fará mal a ninguém aqui presente. - Eu... prometo. – o líder dos Sabotadores está sem palavras. – Mas irá desistir de uma luta? Que tipo de guerreiro é você? - Protetor, humilde, honroso. Não combato apenas por mim, mas por todos que precisam de ajuda. Neste caso, você. – Celacious estava sendo genuíno em seus sentimentos de abnegação. - Eu não preciso de você! Nunca precisei! Sempre fui senhor do meu destino. Não há necessidade de me ajudar em nada. – Dedanogor brigava consigo mesmo. - Se não há então por quê queres que eu te prove o contrário? Foi o senhor que me pediu para provar-te que não é certo me matar. Apenas lhe digo isso, se venceres a luta e eu perecer hoje, não sou eu apenas que perde. Mas toda Minlurd. Troca-se mais uma vez a generosidade pelo egoísmo. Vangardesh está calado. Preso em lembranças das conversas com seu pai e com Thorkyn, os dois únicos modelos que teve em sua infância violenta. Thorkyn, a eterna ação e com a consciência de seu pai. Será que foi por isso que o matou? Tentando eximir-se de uma vida de usura e sangue, mas acreditando em seu interior que seu vaticínio fosse outro? Titubeou como nunca fizera antes, este homem que tinha a alcunha de O Impiedoso. Celacious aproxima-se cautelosamente e coloca sua mão no elmo daquele que a pouco era um inimigo confesso. - Sinto que há uma ligação forte entre você e seu pai, isso é bom. – Completa o cavaleiro. Já começa a proferir um cântico enquanto sua mão inicia um brilho azul. Magia. Da mesma forma fria que os soldados contam suas mortes em reuniões de taberna. Dedanogor fala. – Essa é uma verdade que nunca quis assumir. Matei meu pai para fugir disso. A mão de Celacious para a meio caminho. Por um momento eterno, dúvidas pairam na cabeça do antigo guerreiro. Seus cabelos brancos contam quantas vezes criaturas nefastas tentaram enganá-lo. Sua pureza para com este homem poderia ser sua ruína, assim havia dito o demônio Vangardesh, naquela batalha antiga. Por um capricho a mesma mão que pousaria na cabeça de Dedanogor é levada a Espada Justiceira. E em segredo Sir Celacious pergunta a espada à famosa pergunta entre os cavaleiros da ordem: Justo ou injusto?

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- Injusto. – Responde em sua mente a espada encantada. Um brilho dourado já pode ser visto de sua lamina. E por sua vez, o paladino se afasta do guerreiro de negro. - Criatura vil. Tentaste me reduzir a ignorância. Mas teu plano é falho e perecerá por isso. – Termina o dialogo o grão mestre da ordem de cavaleiros de Rainaar. Dedanogor estupefato está. E observa sem palavras a atitude do cavaleiro. - Então tudo foi um plano dele para deixar-me vulnerável. – Pensa. – Como pude ser tão estúpido? - Thorkyn deve estar se revirando na terra de vergonha. - Porém dentro da armadura a boca aberta de susto, transforma-se em um sorriso. E desembainhando sua enorme espada profere. - Ninguém é melhor que outrem. Ambos de espadas a mostra a luz da lua que junto com a noite presenciam esta contenta. O cavaleiro já está com a espada a frente exigindo distancia enquanto profere um cântico para seu deus, o criador deste mundo, Rainaar. Dedanogor fala baixo para si mesmo. - Essa será a minha melhor luta. È agora que deixamos de lado as palavras para tornar tudo ação. – Com uma grande inspiração, Dedanogor começa a se mexer. Rodeia seu inimigo olhando com atenção enquanto o mesmo é irradiado por uma luz dourada. – Magia. Ele está usando algum tipo de feitiço... Seu pensamento é interrompido quando ao sabor do vento gelado da noite excitante, lhe traz a tona ao perceber em um rápido ataque de Sir Celacious. Dor. Seu ombro sente a pancada do braço pesado do cavaleiro. A armadura não permitiu o corte na carne. - Criatura vil. É uma pena ver um humano se entregando por tampouco. Fama? Glória? O que o senhor acredita? Dedanogor se concentra na luta e nela somente. Lembra de sua derrota para aquele anão há muitos anos atrás, se não fosse por Enervous, estaria morto. O paladino Sir Celacious continua seu discurso enquanto ambos rodam em torno do outro e desferem golpes de estudo. O cavaleiro é rápido em seus ataques que aumentam seu dano á Dedanogor a cada nova investida. A espada é muito grande. Lembra-se dos ensinamentos de Thorkyn com a lança. – Domine a luta, marque o ritmo. – Fala Dedanogor dentro da armadura. Então se levanta de pronto de seu quase dois metros de altura. E rodando a espada como um guilhotina mortal acerta o paladino bem na cintura. Na segunda cambaleada ele desfere um segundo golpe rápido e preciso. O joelho do cavaleiro é partido em dois enquanto ele cai de lado na grama que os cerca. A Espada Justiceira cai ao longe dos punhos cerrados do paladino. Caído de barriga para cima, Sir Celacious em meio à dor e dúvida lembra-se daquela noite. ξ Uma grande varanda voltada para uma cidade devastada, dois cavaleiros de Rainaar estão caídos no salão deste andar, de suas armaduras prostrados corpos inertes.

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A cidade de Param Azi pode ser vista de seus mais de trinta metros da torre de Mir Idir, o feiticeiro conjurador. Este jaz morto perto de seu balcão enfeitado com lençóis de seda multicoloridos. Saindo de dentro do feiticeiro, finalmente Sir Celacious exausto e pingando sangue de vários ferimentos, encontra-se com seu verdadeiro objetivo. O demônio que se apossou do corpo do ganancioso conjurador. Uma sombra grande e com formato humanóide. Seu tronco é uma enorme capa e seu rosto esquio como um rato e olhos que mais parecem à viseira de um elmo, malignamente declinados. Todo sombra, sem detalhes a não ser os sentimentos de repulsa e nojo que irradiam para a sensibilidade do cavaleiro. - Enfim. – diz de dentro de seu capacete, o homem de seus um metro e noventa de altura. O demônio ri, como se tivesse a ciência de algo, que não o paladino. A Espada da Justiça brilha nas mãos deste guerreiro do bem. - Prepare-se para ser exterminada criatura. Esta arma será teu limite. - Esta arma é uma mentira. – diz em meio às gargalhadas sarcásticas, a sombra infecciosa. - Não penses em voltar para o lado de Amdosias, vil criatura. Pensa sim na proximidade de teu fim. – com estas palavras o cavaleiro apercebe-se que ambos estão a caminhar cada vez mais para fora da torre saindo para a varanda. O céu escuro de poucas estrelas permite a figura do demônio sumir ainda mais da vista treinada do guerreiro de Rainaar. - Chamo-me Vangardesh, paladino humano. E com este nome sou conhecido nas profundezas do Infernum62. Como o carteiro da desgraça. O humano feiticeiro apenas foi um instrumento para atrair-te até aqui. – fala com uma profunda voz a figura, que hora está, hora não se encontra. - Conheço as palavras de tua laia. Todas fraudulentas, assim como sua existência em Minlurd. – caminha resoluto para o vento que esta livre para bater nesta área da grande torre. Cortinas de uma seda vinho batem ao sabor deste ar, separando docemente a varanda da grande sala de corpos caídos atrás do cavaleiro. - Antes de morrer então peço, ouça-me. Um último pedido de redenção. a criatura jogava baixo, sábia em suas palavras. Os demônios eram conhecidos por sua inteligência e habilidade com a fala. - Não posso recusar isso. Diga antes de lhe enviar para a morte verdadeira. – disse em tom sombrio Sir Celacious. - Tu morrerás no exato momento em que a tua justiça será confrontada com um ser em eterna mutação. Seja ela evolutiva ou regressiva. Quando tiveres a dúvida em teu coração, tu morrerás. E assim serei perpetuado. – e satisfeito o demônio Vangardesh termina a frase, ao tempo em que sua figura contrasta com a noite. Sem uma palavra proferir o paladino dá o golpe derradeiro. A Espada da Justiça crava na figura funesta e dela ouve-se um gemido de dor e prazer. Mal consegue enxergar o paladino em meio a pouca luz, ao vento que remexe as cortinas e o pensar de um futuro de falso juízo.
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(Infernum) - Lugar em que se encontram os que morreram em estado de pecado, expressão simbólica de reprovação divina e privação definitiva da comunhão com Rainaar.

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ξ - Fácil demais. - Pensa o jovem Dedanogor. Sir Celacious está caído olhando para algo acima. Dedanogor continua concentrado olhando diretamente para seu alvo. – Como ele pode ter caído tão rápido? Enquanto isso Celacious olha para o céu coberto na escuridão, seguindo em seus pensamentos a dúvida que paira incessantemente em seu raciocínio. O que ele vê vai alem da compreensão de pessoas simples. Ele no fundo sabia quando seria o seu fim. Naquele dia, em sua vida, na batalha contra aquele demônio ele se permitiu duvidar. E sua ultima visão é a de uma enorme espada a descer no meio de seu peito... ξ Com um leve assovio, recebe de volta outro vindo do lado de fora do muro que segrega pessoas. Desta forma Dedanogor, percebe que Enervous está perto. Olhando para o alto da parede, Dedanogor arqueia suas pernas fortes e dá um pulo que nenhum homem faria. Com maestria salta mais de cinco metros, caindo do lado da rua como um gato, que cai do telhado. Do lado de fora encontra uma carroça, nela Enervous e mais quatro homens. Então Dedanogor pega o saco que havia trazido desde o começo da noite, e dele retira outros pequenos sacos, entregando um a um, para os quatro homens de negro. - Aqui está o pagamento pelo serviço de hoje. E um pequeno extra pelo trabalho bem feito. Os homens agradecem e descem a rua afoitos para gastar, ou guardar os ganhos. Enervous retira a barricada de madeira da rua, a colocando na carroça, enquanto Dedanogor retira rapidamente sua pesada armadura negra ensangüentada. Voltando a ser o homem nascido em uma fazenda em Derghemom. - E ai? Matou o cavaleiro? – Pergunta sem consciência o brutal. - Sim. Ele está morto. – Solta a frase. - Foi fácil pelo visto, está pouco ferido. – Franze a testa de pele dura, o amigo surpreso, enquanto examina o corpo do amigo. - Estranhamente simples... – Dedanogor fala olhando para o céu escuro de poucas estrelas. Atacou com vontade obstinada e venceu. Estava abismado com como tudo passou tão rápido. Celacious o chamara de um nome...Vangardesh...- imaginando bons grados vindos do sucesso da missão, disse. - De agora em diante não me chame mais de Dedanogor. Meu nome é Vangardesh. – o guerreiro está eufórico, mistos de felicitação pelo término da empreitada, e do outro lado uma mágoa de ter agido para piorar Minlurd com menos um herói. Enervous continua. – Certo, Vangardesh. Estamos ricos então? - Sim meu amigo. Estamos ricos. – E com estas palavras uma lágrima escorre quieta e tímida pelo rosto mais duro do homem que hoje, cresce, transforma-se.

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ξ A morte de Celacious repercutiu não só na cidade, mas em todo o continente de Merá. Mas somente em países fronteiriços com Celeus, como Maior, Falia, Derghemom, Brita, BirGaman, os boatos espalhavam que um guerreiro de armadura negra e coração frio, havia feito tal façanha. Nada disso perturbou a cabeça do guerreiro, pois seu intuito em cumprir aquele trabalho era outro, e não fora o dinheiro

ξ

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Capítulo 12 - As torres idênticas
¨Miragem de uma ilusão sedutora, Trindade de pessoas análogas Vertigem de tentação súbita Trivialidade do cotidiano¨ Vangardesh possuía um apartamento em Maior, capital do império do mesmo nome. Estava com trinta e três anos de um corpo sólido e uma cabeça madura. A noite brilhava sob a luz de inúmeras estrelas, nem era preciso acender muitos lampiões. Deitado no divã de sua varanda no apartamento do terceiro andar olhava para os céus e repetia para si. – Hule... Sâmara chegava trazendo em uma bandeja dois cálices do vinho vindo dos Ducados Ermos, haviam dispensado a empregada, queria esta noite apenas para os dois. Sâmara com trinta e seis anos, sempre fora mais velha que seu amante, mantinha o corpo esbelto com disciplina alimentar e física, seus muitos cremes vindos da próxima Papao, até da distante Mang Po a mantinham com a pele jovem e sedosa. - O que esta pensando meu amor? – perguntou enquanto lhe entregava um dos cálices. - Hule minha guerreira. Estou pensando no império de Hule. E de nossa nova missão. A principio a considerei impossível. Mas pensando melhor, existem falhas que podem ser somadas a nossa capacidade e desta forma teremos sucesso. - Acalme-se, veja o quanto já conseguimos. Lembra-se? O assassinato do cônsul Agralio Tibas no império de Maior. – relembrava a guerreira. - Espionagem, prudência, e ação. Eu comprei Bicudo nesta época. – Saudosamente recorda-se o sazonado guerreiro. - Um cavalo tão guerreiro quanto você, meu amor. – exalta Sâmara. - A recuperação das jóias de Gualu na cidade humanóide de Lekar, nas montanhas de Granito. – Vangardesh sorriu. - Nós comandamos uma força de soldados da milícia de Maior. Hireegard ficou tão excitado que mal continha seu apreço ao poder. – Sâmara apercebeu-se da mudança na feição de seu namorado e logo mudou de assunto. - A floresta Lúgubre do reino de Falia, onde caçamos uma criatura para a sociedade mágica, Proibis. Lembra-se? - Lógico. Lá onde Niblihim se desesperou e sumiu na floresta por três dias, para depois aparecer incólume, mas muito mais retraído, pusilânime. – ao falar sobre isso Dedanogor para por um momento tentando entender o que poderia ter acontecido ao feiticeiro. - As dunas de areia branca de Dwalin. Fomos atrás do cetro de Renenutet, linda aquela rainha morta há séculos atrás... - Sâmara silencia também se recordando de que quase havia morrido nas mãos do fantasma da rainha. – Pena não termos conseguido trazer o cetro. Dedanogor mantém-se calado, tinha suas dúvidas com relação a isso, soube por intermédio de seus contatos da Adaga de Aço, que alguém havia sim, comprado um cetro caríssimo naquela época, e acreditava que Hireegard os havia traído, mas, não tinha provas. 160

Levantado o cálice para o alto, Sâmara continua. - No continente dos Ducados Ermos em Bella, resgatamos aquela rameira, filha da família nobre dos Ristan, de uma associação de ladrões, que a havia seqüestrado. Devíamos ter deixado ela por lá, para ser estuprada por aqueles porcos. O gigante sorri com o corpo largado no divã de madeira nobre. A jovem Ristan havia se apaixonado por ele, causando furor na sua relação com Sâmara. - Do que está rindo? – pergunta ela furiosa. - Estou rindo da segunda vez em que fomos a Falia, na capital, a cidade a volta do lago. Ajudamos aquele feiticeiro senador a derrubar a concorrência para a sua reeleição. – desconversa ele. - Sim, matamos dois feiticeiros, um deles encantou Hireegard e ele se voltou contra nós... - Perdendo um braço para aprender. – interrompe secamente Dedanogor. - Não devia se orgulhar disto, afinal ele é nosso aliado... - Aliado? Estaria melhor ao lado dos homens lagartos dos pântanos de Clay. - Vamos esquecer isto. E a nossa viagem às ilhas Três Pontos, onde roubamos um cofre lacrado e o devolvemos para um estadista de Maior? – e ao relatar isto Sâmara perde-se em pensamentos das praias belas e clima agradabilíssimo. - Excelente lembrança. A mesma missão que eu tive de pagar pelo fracasso de entregar um cofre quase vazio. A guerreira aquieta-se, e pensa em algo para mudar o assunto infeliz. A conversa que havia ouvido de Niblihim com um membro da Irmandade da Caveira em Derghemom aquela época nunca a fez esquecer que o culpado havia sido o feiticeiro. Ele roubara o cofre e retirara documentos importantes deste, mas nada contou a ninguém, com medo do grupo acabar. Dedanogor a encara como se soubesse de algo, antes de ruborizar ela continua. – E quando fomos contratados como milícia do reino de Celeus para expulsar um avanço dos guerreiros de Vaarveig, por mar? - Ficamos a frente do comando de uma frota de guerra... – e de súbito Dedanogor desata a rir. – Levamos Enervous nesta missão e ele espantou a todos nadando e atacando sozinho, uma embarcação de marinheiros de Vaarveig. – termina a frase em uma seção de risos e de rememorações. - O rapto do filho de Titubes... - Nosso nome é sinal de competência, e hoje recebemos este convite de um famoso estadista de Maior que quer patrocinar uma expedição até as Torres Idênticas em Hule. – Sâmara falava e bebia o vinho tão famoso pelo seu paladar. - Correto. Ele apenas quer que nós roubemos o coração de Asmodeus. Uma das jóias mais caras do mundo de Minlurd. Sabe-se lá, o que podemos encontrar dentro das torres? - As lendas dizem que nas torres idênticas encontram-se não apenas um, mas vários tesouros, de eras antigas de reis que sucumbiram na grande expansão do império de Hule. – ao falar isso, os olhos de Sâmara brilharam um negro ganancioso. - Sim, mas também em seus andares moram criaturas profanas, demônios e guardas fanáticos. Apenas como guardiões destes tesouros. E

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para piorar a situação, as torres localizam-se dentro da capital. – como sempre Dedanogor já ponderava sobre o custo beneficio da missão que haviam aceitado. - A grande capital de Hule. Uma cidade dentro de outras cidades. Pode imaginar Vangardesh? O quão belo deve ser este local. – Sâmara continuava a pensar apenas nas coisas boas. Irradiava a varanda de excitação jovem e já olhava para seu companheiro como o homem que a levaria a glória e ao prazer... E deitando-se sobre ele, terminou a conversa. ξ Na mansão do Vooca em Carpes, Niblihim entrava em seu estúdio particular, construído por Hireegard para que o mesmo pudesse estudar as artes arcanas sem ser interrompido. Prateleiras cheias de objetos e pedaços de criaturas ou até de humanos envolviam a sala. Ao meio, mesas largas com livros abertos comprados ou roubados, com o dinheiro dos trabalhos passados. Era um paraíso para um feiticeiro. A porta possuía um forte encantamento que somente permitia a entrada do elfo negro e ninguém mais. Desde o incidente da floresta Lúgubre há anos atrás Niblihim havia se tornado temeroso da própria sombra e cada passo era calculado, para tornar sua vida mais segura. Há dias atrás quase recusou o trabalho de Hule, por temer demais por sua vida. Mas a simples presunção do que poderia encontrar nas salas da torre lendária, fazia sua mente mergulhar em fantasias místicas de poder e glória. Aproximando-se de uma das mesas, abriu o livro já com a página marcada, as folhas amarelas contavam a idade deste tomo. Começou a ler sobre a jóia conhecida como o coração de Asmodeus. Ela era remota da época do cataclismo há 170 anos atrás, dizia-se ter sido extraída do peito vermelho de um demônio poderoso de nome Asmodeus. Ele dominou durante quinze anos o território hoje conhecido como Param Azi, e um grande herói local o matou no ano de 53C. O coração cristalizou e transformou-se em pedra, nela existe a possibilidade de parte do poder de Asmodeus estar contido, e aquele que a possuir também deterá parte desta maravilhosa força. Niblihim para por um momento e tomando um grande fôlego, fala. Imagine a capacidade mística desta jóia, por Zath, imagine isso Niblihim. ξ O baronete Hireegard voltava para casa no fim da tarde, após um dia inteiro de conversas nos salões do castelo de Carpes. Há anos não era tratado com tanto respeito, desde sua incursão neste tipo de trabalho, conhecera muita gente. E o sucesso de seu grupo, os Sabotadores, havia lhe rendido amigos e poucos inimigos. Era temido agora, e por ele todos tinham deferência. Refletindo alisa o cabelo molhado com o braço direito, o único que tem desde o episódio em Falia há dois anos atrás. A chuva caia fina neste fim de tarde, os vendedores cansados de um dia exaustivo, arrumavam suas barracas com velocidade para voltarem para suas casas, antes de serem encharcados pela chuva fraca, mas constante.

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Da janela de sua luxuosa carruagem, Hireegard pensava na sua família. Os Vooca que estavam na beira da extinção, o veneravam. O dinheiro era bem vindo e enchia os cofres da linhagem. Se baronato recém adquirido começava a crescer e oferecer oportunidades para os naturais de Celeus. A nova incumbência era em Hule e receberia muito, muito dinheiro por isso, seria a grande virada, aliados em Maior e um cofre cheio para comprar quem quisesse. Sorriu, estava sem a sua máscara tão característica, e sua imensa boca do lado demoníaco abriu-se em um mar de dentes pontiagudos que ele cismava em raspar para parecer mais humano. Era uma cria da guerra do cataclismo e sabia disso. Sentia-se bem consigo e já começava a devanear na sua recompensa quando chegasse a casa, lá estavam o aguardando duas meninas de não mais de dezesseis verões e um garoto mais velho, seus escravos. ξ Sentado em um banco reforçado, e encostando suas largas costas na parede gelada do armazém, Enervous força-se a pensar sobre sua situação. Há tempos não consegue mais raciocinar, sentindo altas dores de cabeças e logo se esquecendo do que havia iniciado por fazer. Sabia que gostava daquele humano. – Qual era mesmo o seu nome? Dedanogor- lembrou-se, mas sabia que logo esqueceria novamente. Sonhava com livros mas as páginas estavam sempre em branco. Às vezes era cumprimentado por uns, mas não se lembrava deles. A guarda da cidade o olhava desconfiado. – Por quê? – Começou a suar. Um cachorro ladrou ao longe e logo mudou seu foco de pensamento, levantou-se e voltou a vigiar o armazém que trabalhava. Sabia que logo receberia algumas moedas de prata e poderia gasta-las em algum bar, bebendo e rindo com os ocasionais amigos. Estava feliz. Mas algo ainda persistia em sua cabeça, como um pernilongo que cisma em picar para se alimentar. ξ Hule a terra de Zargonias o maldito. Desde que os demônios foram expulsos de andar pelas terras em 55C. Ao fim da batalha do Compacto e da vinda do deus guerreiro Co-on, para assumir onde outros deuses brigavam entre si. O Compacto feito por Amdosias (o mal absoluto) e Co-on (o deus guerreiro). Os demônios haviam sido banidos, mas poucos conseguiram enganar o tratado feito pelos deuses, ele havia conseguido. Zargonias, O Maldito era conhecido. Era o rei de um regime teocrático, era adorado pela forma, competência, e seriedade de seu governo. Sua aparência era um tanto assustadora, o corpo esguio, alto e magro, com dedos finos e cadavéricos. Seu rosto é o de uma caveira e de seu crânio é expelido incessantemente um vapor de cor acinzentada. Dizem que são as cinzas dos mortos. ξ

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Os Sabotadores se encontram em um navio rumando para o continente de Hule, o ano 165DC. Dedanogor sentado a proa observa no horizonte a cidade de Carpes distanciando-se e tornando-se mar. O oceano Anárquico. - Hoje é o começo de nossa última empreitada, eu presumo. – diz Hireegard enquanto se aproxima do preocupado guerreiro. – Com o que vamos ganhar, não será necessário trabalhar mais. Como gastará este dinheiro Vangardesh? Os olhos de Dedanogor estão perdidos além mar. E nada responde. - Estou falando com você. Dedanogor pensa na vila de poucas casas. Lugar onde treinava anteriormente com a armadura e por causa dela pensa na forja que poderia construir ali. Talvez fosse melhor pensar em uma aposentadoria em um lugar calmo, saindo da loucura da vida em Maior. Mas Sâmara não aceitaria esta decisão. Por um instante vê-se a vislumbrar aquele local bucólico. As pessoas eram puras e inocentes no saber.– Quem eram elas? -Como? - O que disse? – Ele retorna naqueles sonhos e vira para Hireegard dizendo. - Sim eu pegaria o dinheiro e gastaria todo ele... Com o rosto demoníaco o baronete da casa do Vooca sorri. – Com todo aquele dinheiro, eu compraria metade dos burgos de Carpes e estaria feliz. Dedanogor olha para aquela criatura. – Que ser e este que anda ao meu lado? Não há fim para sua ganância? ξ O Oriole voa pelo outro lado da Bacia de Indigo, leste do Mar Zargoniano. Um colar, como uma corrente, brilhante, luzidio de prata, reluz sob uma grande arca. Nas Torres Idênticas este pássaro voa. Olhando acima as janelas abertas ao céu. Cada uma delas medindo mais de três metros. Um falconídeo avista o oriole e por possuir asas pontiagudas e finas, o falcão, arremata-se contra o pássaro. O oriole de coloração laranja brilhante voa rápido e começa a contornar as torres de duzentos e dez metros de altura. As torres são feitas de tijolos alaranjados, pesados tijolos erguidos com o sangue dos escravos. As janelas estão sempre próximas ao teto, e as salas circulares que acessam as escadas, tem o seu pé alto e um raio de dez metros. Esparsas salas envolvem estas gigantescas torres. O falcão sobe em altura e calcula a distancia entre ele e sua presa, acompanhando a direção do vôo do pequeno pássaro, e neste momento eles passam por entre as torres. A parte mais fantástica das Torres Idênticas, não são elas em si, mas sim a extraordinária estátua de Asmodeus que as segura. Feita de ouro e prata, com mais de cinqüenta metros de altura, a figura estende seus braços encostando-se a cada torre como se as estivesse separando. O oriole dá uma guinada para a direita e entra dentro de uma das janelas. Adentra então em uma grande sala coberta de tapetes de todas as cores, alguns estão empilhados um sobre os outros criando a sensação na sala de pequenos morros. Esta é iluminada por um castiçal diminuto para o

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tamanho do lugar, tornando o ambiente seriamente penumbroso. A pequena ave faz rodopios ágeis no tempo em que descende para o chão, pousando suavemente em um tapete de várias cores. O silencio é interrompido pelo roçar de fibras têxteis à medida que um dos tapetes se move em direção a ave de bico levemente azulado. E de supetão pula em cima do oriole mostrando embaixo dele uma boca enorme coberta de pequeninos dentes pontiagudos e olhos severamente malignos. Outros tapetes também começam a se movimentar em direção ao primeiro, demonstrando que nesta sala há um misto de vida e morte. Mas o oriole já esta longe, a altura que as criaturas-tapete se encontram e se agridem em um frenesi alimentício. Saindo pela janela alta em forma de triangulo, o veloz pássaro agora enfrenta novamente o falcão que o esperava do lado de fora, pousado em um parapeito das janelas superiores. O vento frio sopra entre as penas das aves, mostrando a elas a verdade entre caça e presa. Com um pio forte e sem pio algum o falconídeo atira-se em voraz velocidade contra o pássaro de peito quase dourado e cabeça negra. Descendo verticalmente com as garras em riste a ave de rapina perde o pequeno pássaro em velocidade, o que outrora seria impossível, acontece. O oriole volta a ascender e some da vista do falcão distanciando-se com mística velocidade sob a luz do crepúsculo vespertino. Um outro silvo é ouvido a metros abaixo e com isso o falcão peregrino volta-se para o seu dono e pousando em seu braço, o ladrão contratado pelos Sabotadores fala. - Podemos ir. Vangardesh o olha debaixo de sua armadura. Conseguindo mesmo sob ela sentir o frio do lugar onde se encontram. Todos estão ocultos em uma viela á metros das Torres Idênticas. Os outros vinte e nove ladrões contratados espalharam-se de forma metódica entre os telhados e muitos já estão a descer um largo escoadouro, que leva para debaixo da rua e dos prédios. - O cheiro é pútrido. Realmente, não posso esperar aqui? – Fala o cauteloso Niblihim. - Precisamos de você. Já conversamos sobre isso. Afinal, você quer ou não quer receber a sua parte no soldo? – Os olhos de Sâmara estão brilhantes, mesmo abaixo do capuz de malha que ela veste é possível avistar a excitação que se encontra. - Mas nossa missão não é apenas acompanhá-los e certificar-se de que eles tragam a jóia? Arquitetei até como eliminar os sobreviventes para aumentar nosso lucro. – Niblihim se refere aos trinta ladrões experientes contratados a dedo por Vangardesh e Hireegard. - Pense no que podemos encontrar dentro das torres. Com certeza há muito mais para se ter e vender... - Não Sâmara! Também já conversamos sobre isso, vamos ficar perto, mas não tão perto. Não entraremos nas torres. – Diz com certa indecisão Dedanogor. Desde que colocaram os pés no continente de Hule, vem tendo sonhos estranhos sobre uma vida pacata, uma vida sem lutas, apenas trabalho e resignação. Sâmara olha para o seu líder, há tempos não é enfrentado por Hireegard, pelo menos desde que este perdeu o braço para ele, naquela missão em Falia. Como ela gostaria que o baronete o fizesse ver a necessidade de aproveitar a oportunidade de entrarem nas torres.

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- Vamos! - O líder dos ladrões vestido todo de preto chama a atenção de todos e desce pelas escadas enferrujadas e úmidas para os corredores subterrâneos. O falcão voa novamente para esperar seu mestre, o céu crepuscular inicia a missão. Vangardesh não tem dificuldades em descer as escadas, apesar destas rangerem reclamando de seu peso. Sua armadura negra, já fora modificada inúmeras vezes por ele e Lemo, e mesmo o ferreiro avesso a trabalhos ilícitos, nunca se intrometeu na vida de seu aluno. Agora o conjunto de armas defensivas que vestem o guerreiro de alma enegrecida, é uma obra prima de mentes experientes tanto na teoria quanto na prática. Seu peso é mais leve que o normal, fazendo com que o seu usuário possa movimentar-se como se estivesse com pouca proteção. Em seu cinturão pende O coveiro, nome este do machado negro mágico, encontrado por Dedanogor na cidade humanóide de Lekar. Seus poderes ainda não totalmente examinados por Niblihim, mas já se apresentava como uma arma notável dando mais segurança ainda ao experiente guerreiro. Sâmara levava consigo suas duas espadas curtas gêmeas, suas adagas certeiras e seu arco e flecha. Hireegard continuava com sua grande espada, apesar de agora possuir um braço a empunhava com ele, com uma força misteriosa. Também trajava armadura de combate, cheia de ornamentos e com o símbolo da casa Vooca. Niblihim vestia roupas ágeis, nada do tradicional manto, trajava ao invés destes, uma calça comprida, uma blusa de seda elfica que possuía a mesma fortaleza de um peitoral de placa de aço, seu cinto de muitos bolsos, e um cetro pequeno de poder místico, retirado do tesouro de Renenutet na missão em Dwallin. Todos estavam bem preparados. Os ladrões contratados estavam equipados com material de primeira, armadura de couro enegrecido, espadas curtas, bestas e arcos. Adagas de montes, cordas, ganchos, todos os aparatos de latrocínio. Tudo isso, patrocinado pelos Sabotadores, a missão era ousada, mas os lucros seriam fantásticos. Muitos morreriam hoje, mas destes também acreditavam que sairiam vivos. Uma esperança gananciosa. Os homens desciam em montes para o escuro subterrâneo de Hule. O Dejeto era o nome de uma criatura única no local. Diziam a muitos que antes mesmo do cataclismo chegar. A criatura já andava sã, sobre os tijolos repletos de urina. Este não seria o único perigo que encontrariam ali. Os corredores eram escuros, porem as esquinas tinham um leve ardor de lamparinas. O anão aguardava à medida que acendia estes antigos lampiões. Era o anão que mantinha a besta longe, há tempos, que a deixava ao largo, assustada. Seu nome era NaTur Strongbull. - ¨Heya¨. - ¨Heya¨. – Fala em um tom mais agudo o elfo negro Niblihim. O anão olha um tanto quanto desconfiado, era um devoto do rei Bill Strongwill. Os anões odiavam a raça dos elfos negros. - Não falo com elfos negros. – e assim o eram, de nada mais falaria NaTur, apenas atacaria ao elfo na próxima fala. Cônscio disto Vangardesh intercedeu. - Sou líder desta expedição, agradeço a prestação de serviço de desde já te pago suas cinco mil, moedas de prata. E dizendo isso, olhou para todos os homens que estavam nos corredores.

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- Isso é pouco, perante o que vão pilhar hoje. Suas vidas começaram a mudar a partir do dia que aceitaram esta missão. Ao dizer isso Dedanogor lembrou-se de seu pai. Sâmara que já visualizava as cores de jóias do tesouro da torre olhava para aquele menino que virou homem, e sorriu. O anão olhou para o humano de armadura negra, e percebeu que este tinha de andar curvado, seu tamanho era imenso. Logo avistou seu machado por gostarem, esta raça, deste tipo de arma. Havia um brilho negro e maligno, e o anão sentiu isso notando que havia magia, vinda do machado assim como a sua própria arma, o seu martelo. Niblihim e o próprio Dedanogor, haviam sentado juntos e estudado tudo o que puderam sobre as Torres Idênticas. Assim como era claro para os dois que apenas Zargonias e seu séqüito de mais alto escalão, poderia andar por aquelas torres. Portanto era como um grande cofre a céu aberto. Começaram então a procurar relatos escassos em Hule. Como o elfo era natural daquela região, conhecia tipos mais escusos para contatar por um preço. O cônsul de Maior havia pagado muito bem. Usaram um montante de mais de 300 mil moedas de prata. Sendo que a jóia Coração de Asmodeus valia mais de 3 milhões para qualquer sociedade mágica. A Tríade já havia oferecido mais de 4 milhões em um lance enviado até mesmo para os Sabotadores. O anão virou-se e começou a caminhar. Ele levaria Os Sabotadores e toda a comitiva de 23 ladrões que os acompanhava. Os sete dos trinta anteriores haviam ficado para trás, como em alerta para os outros que passavam por baixo deles. As galerias eram largas, os corredores se dividiam em dois, um do lado oeste e o outro a leste, no meio destes, um íngreme canal de cinco metros de altura. Canal este onde passavam mais dois metros de água corrente. Os dejetos de todos os cidadãos Hulísticos passavam por ali. Mesmo quando andavam em cinco fechando um corredor sentiam o cheiro forte que emanava da águas que corriam abaixo. A arquitetura era linda, entrementes, a todo aquele olfato. Vez ou outra se via tijolos de porcelana, e nestes desenhos pequenos feitos por artistas de outrora. - Como estamos? – perguntou o guerreiro de armadura ao ladrão que vinha ao lado dele. O dono do falcão. - NaTur, nos disse, a frente mais alguns metros, começaremos a passar por corredores repletos de armadilhas. – explicou o líder dos larápios. - Ainda bem que temos um anão! – riu com um som abafado pelo metal negro de sua armadura. Todos sabiam, ainda mais os ladrões, que até o mais infantil anão tem um conhecimento de pedra, mais que um geólogo humano. Enquanto andavam Sâmara aproximou-se. - Tenho muito orgulho de ser sua mulher. Ele olhou-a não confiando em suas palavras, sabia o amor daquela mulher por riqueza, e quanto decorava a moda das cidades em que passaram, para tentar mostrar na outra. Imaginou uma mulher que o amasse por ser ele, filho de Gajão e Nicole. Fazendeiro, guerreiro, assassino. Mais uma vez a vila que visitava às vezes, perto de Celeus, veio tumultuar seus pensamentos. A vila escondida, localizava-se em uma região longe das caravanas e próxima a grande represa Celíaca.

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Colocou a mão no peito como se segurasse uma corrente e com os olhos esbugalhados de susto olhou para Sâmara. - Amor, por favor, vamos entrar nas torres. – disse ela com um tom meigo na voz. - Se entrarmos nosso soldo não estará mais garantido. Poderemos morrer naquelas salas. - Eles iram morrer. – disse ela tentando enganá-lo. - Não me diga que esta com pena deles? Você pensa comprar o que? - Aquele navio que vimos da baronesa Thaísa Zadre. Imagine, poderíamos viajar de férias para as ilhas do Oceano Anárquico. - Ao terminar a frase, ela sabia o que havia feito. -Vangardesh deve estar sorrindo para mim debaixo daquela armadura - pensou ela. - Esta disposta a arriscar nossas vidas pelo lucro daquelas torres? – perguntou severo. - Estarei ao seu lado, Niblihim também o quer e assim Hireegard. - Fala com eles por trás de mim mulher? – A voz de Vangardesh foi ouvida por alguns. Sobrepujando a voz do humano, o anão bradou: - Alto! – e dizendo isso apontou para uma parede, que até aquele momento parecia como uma qualquer. O anão caminhou até ela, e com seus punhos firmes deu três socos seguidos inspecionando a parede. Nesta encontrou um som mais oco. Olhou para todos com ar de gravidade. - Esta armadilha é uma linha de dardos. Todos passaram agachados. – e com isso dito NaTur agachou-se e arrastou-se de forma engraçada para frente. Muitos riram, outros ficaram em silencio. Do grupo do primeiro escalão, apenas Hireegard esboçou algo. E com isso dito, dois ladrões andaram retos e orgulhosos pelo corredor. Não acreditavam no anão, e queriam mostrar-se para os demais. Da parede um som de uma grande mola batendo soltou, de pequenos e escuros buracos, projéteis do tamanho de um punho em direção aos ladrões, estes morreram na hora. Perfurados na altura do peito. Como se houvessem sido atingidos por bestas enfileiradas. O silencio imperou ainda mais. Logo todos estavam se arrastando. Hireegard resmungou, mas deitou-se com mais receio dos dardos a estragar sua roupa. O único a verdadeiramente andar empertigado foi o mesmo o qual ninguém se aproximara. Os dardos foram lançados com a mesma forma. O estoque era finito, mas longe de acabar. Os dardos que iriam atingir ao elfo negro, foram refletidos para um escudo de luz alaranjada e caíram ao chão, quentes e fumegando. Calados os ladrões deixaram cair seus queixos para o elfo negro. Ele caminhava calmo e escrevia em uma espécie de bloco de notas, detalhes que como informação poderia ser vendida no futuro. Vangardesh tinha ciência, através de seus espiões no submundo do crime, da guilda Adaga de Aço, que o elfo mantinha um fundo alto de um grande montante de dinheiro para comprar algo. Provavelmente uma posição no reino escuro dos elfos acinzentados.

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Como estava a andar enquanto os outros se arrastavam, Niblihim atravessou primeiro, chegando a passar pelo guia anão, sem o olhar, desdenhoso. E assim se seguiu por mais um quilômetro à frente. O anão sabia o lugar de cada uma das armadilhas. E desviavam de todas elas, ao passo que caminhavam no subsolo da grande cidade. - Talvez NaTur seja o mais espião de todos e passa a informação para o próprio rei dos anões Bill Strongwill. -Vangardesh pensou. – Tenho dois grandes coringas em minhas mãos hoje, o anão NaTur e o elfo negro Niblihim, um odiando o outro, um mais necessário que o outro. Ninguém é melhor que outrem. – falou baixo para consigo, mas Sâmara pode escutá-lo, calada e envergonhada da descompostura dada por seu namorado. As armadilhas variavam em um misto de paredes esmagadoras, projéteis, e plataformas que se moviam e jogam os incautos para o canal ao meio. No caminho mais dois ladrões ficaram para trás, por não terem prestado muita atenção às instruções de NaTur. Chegaram então ao que parecia o fim do corredor. Um paredão vedava o prosseguir. Do corredor do lado leste, onde se encontravam apenas uma pesada porta de ferro, com um símbolo acima da porta que brilhava com luz própria. O som era maior neste lugar vindo do canal abaixo, o paredão tinha uma abertura apenas para a passagem do esgoto, a quatro metros abaixo de onde todos estavam. - Esta armadilha é mágica, uma espécie de sinal, símbolo. Para avançarem somente descendo para o canal e mergulhando nas águas. Meu trabalho acaba aqui. Boa sorte a todos. – Enunciou NaTur, ao mesmo tempo que afastava-se mais para trás e ficou parado observando a todos, apoiado em seu martelo comprido. - Eu posso examiná-la Vangardesh? – Niblihim questionou seu líder. O condutor agora era Vangardesh, estavam sozinhos, com tudo que tinham estudado. Era hora de colocar em prática sua experiência e parcimônia. Sabia ele que um erro era a certeza da morte, ou pior, de serem descobertos e encarcerados nas masmorras de Hule, onde teriam um fim inimaginável. - Com cuidado feiticeiro. – virou-se então para o líder dos ladrões e ordenou. – Mande seus homens descerem e verificarem o tamanho da abertura no canal. O ladrão assentiu com a cabeça e dois de seus homens puxaram bestas modificadas, que estavam atreladas a cordas, e com dois disparos distintos prenderam-nas do outro lado da parede do corredor oeste, criando uma ponte de cordas. No tempo análogo que se passou, o feiticeiro examinou o símbolo místico, evocando feitiços próprios para isso, e os ladrões usando a ponte de cordas desceram para as águas correntes do canal abaixo. Aproximaram-se todos de Vangardesh para relatar, e este olhava para Sâmara em silencio profundo, ela por sua vez cabisbaixa. - Existe uma possibilidade de quebra deste feitiço. Mas também há espaço para uma falha de cálculo e o erro seria o mesmo que forçar a porta. – falou o feiticeiro. - As águas estão fortes lá embaixo, uma grade de ferro côa alguns detritos, mas homens poderiam passar entre elas, o problema é... – titubeou

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um dos ladrões, estava molhado pelos respingos de água, ou o que fosse líquido que havia o molhado. - O que é? – falou ríspida Sâmara. - O corredor não segue no mesmo nível, estamos falando de água que esta caindo como se fosse uma cachoeira mais para baixo. - Ou uma grande câmara, desceremos mais ainda as entranhas de Hule. – filosofou Vangardesh. - Se Enervous estivesse aqui, poderíamos ter derrubado uma das paredes e passado. – exprimiu suas palavras pela primeira vez Hireegard. - Não. Ele não tem condições para esse tipo de trabalho, seria arriscado demais trazê-lo. Não o sacrificaria, por nenhum dinheiro do mundo, diferente de você. – Vangardesh não estava brincando. Hireegard calou-se. Com a anuência do líder os homens começaram o trabalho de descer as cordas, o primeiro ladrão, gostava de alturas, desceu pela corda e entrou na enxurrada de água que descia pelos canais. Logo todos estavam bem, porem bem molhados pela experiência. Agora se encontravam mais abaixo em uma imensa câmara abria-se nas paredes que seguravam o piso das ruas de Hule. Em seu centro uma piscina redonda aonde a água vinda dos canais encontrava-se ali por vários outros corredores. Desceram e separaram-se em grupos. Os olhos de todos se viraram ao avistar o guerreiro gigante que por sua vez, contemplava o teto da colossal câmara, o teto que era na verdade o subsolo da torre oeste das torres gêmeas. - Vamos. Vamos. Vamos. – gritava a todo pulmões por meio do ruir das águas a se chocarem na piscina. Os ladrões jogavam suas pequenas mochilas ao chão e começavam a montar com muita perícia grande bestas com cordas atreladas ao fim de suas setas de um metro. Vangardesh virou-se para Niblihim e fez um sinal com as mãos, o elfo começou a proferir um feitiço. Puxou dos bolsos um pedaço de pano com algo escuro envolvido. O elfo começa a levitar e continua a proferir as palavras. Logo, esta próximo ao teto e toca-o, este desaparecendo. Um buraco onde passaria um cavalo é criado. O som da voz do elfo, foi interrompido pelo disparar de setas ao sobrecéu. Quatro delas prenderam ao cimento, cordas que levavam a todos para dentro da torre. Tiros disparados para o interior do buraco criado, adentrando a torre. Caixotes caem na piscina vindos do buraco criado na torre. O primeiro a subir é o líder dos ladrões, sua perícia é tamanha que se assemelha a um macaco subindo um tronco de árvore. Em um ímpeto de coragem ou ganância súbita, Niblihim que ainda esta levitando entra no buraco no teto, pousando no piso da torre. O elfo já avista uma escada no canto da sala circular, neste piso não há nada apenas caixas com mantimentos para alimentar a todos da torre. Caixas de todos os tamanhos e tipos, algumas delas emitem som, como se houvessem criaturas vivas presas lá dentro. - Devem ser a comida de alguma criatura. – explica Vangardesh, à medida que termina sua escalada pela corda. Mesmo trajando armadura completa, armas e equipamentos sobe sem dificuldades devido a sua força tamanha. Com presteza todos sobem e se reúnem em meio as caixas.

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Sâmara e Hireegard, que fora içado para cima, avistam uma caixa menor e tentam abri-la, revelando apenas um frasco e uma nota em língua desconhecida. - Começou. – diz Sâmara com um largo sorriso e os olhos a brilhar e as mãos no frasco. Hireegard concorda com a cabeça. Os ladrões sobem à frente, e os Sabotadores atrás. Calmamente degrau a degrau os primeiros ladrões experientes, procuram por armadilhas ardis e quaisquer sinais estranhos. Um deles caminha pelas paredes como uma aranha, devido ao objeto mágico que lhe é característico. Ainda estão no subsolo das ruas Hulísticas, mas dentro da torre oeste. - Vamos parar por aqui. – diz com certa firmeza Vangardesh. - Não. – a voz sai mais na forma de um pedido e dito isso Hireegard ruboriza. Na seqüência do ato, Sâmara continua. - Vamos continuar meu amor, o que temos a perder? - Nossas vidas, por exemplo. – sem querer, Vangardesh pensa novamente na vila distante no reino de Celeus. - Mas não é sempre assim? Imagine meu amor, os tesouros guardados dentro desta torre. Niblihim paira acima da cabeça do casal no grande corredor redondo das escadas e continua a conversa. -Toda a expansão de Hule pelo continente agora com o mesmo nome. Todos os reinos, toda a riqueza de eras atrás, a soma do tesouro, da história, da glória e da derrota. O pecúlio de países do passado, seus objetos mágicos com ou sem valor histórico. Não é só a jóia Coração de Asmodeus que nos fará ricos, se continuarmos e saquearmos este lugar junto com os ladrões estaremos milionários. E eu sabia disso quando me aliei a vocês no passado. Lembra-se de minhas palavras? Podemos ser reis com estes tesouros. Tanto Sâmara como o baronete alegram-se e desvanecem com as palavras do elfo negro. Alguns ladrões ouviram a conversa e também sorriem por estarem ali. Vangardesh titubeia e começa a pensar no que poderia fazer com o dinheiro, afinal de contas já estavam os Sabotadores dentro da torre, seria uma questão de apenas ir um pouco mais adiante. Sem pensar, pôs a mão esquerda no peito como se segurasse uma corrente invisível e olhou para cima. Sentiu prazer desta vez, e refletiu que poderia assentar sua vida com Sâmara e viver dos lucros provindos deste ultimo trabalho. Desta forma se afastaria de Hireegard e poderia chamar Enervous para morar perto dele. Celeus? Derghemom? Maior? Onde poderia morar? Desta vez estranhou por não ter a imagem da vila mais uma vez em sua cabeça. Com um sinal silencioso chamou o líder dos larápios, que dava ordens ao ladrão pendurado na parede. Ao tempo que este se aproximou disse-lhe. - Os Sabotadores continuam a marcha ao lado dos seus homens. Levem adiante seu plano primário, estaremos atrás os seguindo, seremos sua retaguarda e também sua arma secreta. Mas lembre-se, não tente nos usar de engodo. Estaremos observando. Sâmara beijou Dedanogor na face do capacete frio. O ladrão dono do falcão assentiu com a cabeça feliz, mais homens, mais força de reação. Enquanto Niblihim e Hireegard regozijavam de júbilo e ambição.

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Os Sabotadores subiam as escadas e puderam ouvir um começo de uma frase em Hulístico, sendo interrompido na inspiração súbita ao fim do barulho de setas provindas de bestas sendo disparadas. A quadrilha de seus dezenove homens era experiente e não brincava em serviço. O melhor que as moedas de prata vindas do império de Maior podia comprar. A escadaria dava uma volta completa na torre e demoraram um pouco até chegarem a mais um andar. Passavam por cima dos corpos de cinco guardas das torres, mortos pelas bestas. Dedanogor observou que estes trajavam uma armadura negra cujo peitoral era o rosto de alguma criatura maléfica, com uma enorme boca com dentes que saltavam para fora da veste e olhos profundos maledicentes. Um saiote também negro e ombros largos e pesados acompanhavam o traje, espadas bem trabalhadas e escudos de madeira e aço temperado estavam caídos ao chão. Porem a face não era coberta por elmos e mostrava desnuda rostos aflitos e fieis, fanaticamente leais. - Cuidado, mais temperança. Temos ainda a cilada como aliada. Mas logo, pelo número de homens, saberão que estamos aqui. E pelo que vejo, estes homens lutarão até a morte. – disse Vangardesh em um ímpeto de liderança. - Não são os guardas humanos que temo, e sim as criaturas. Andando livremente, vigiando. – respondeu o líder dos larápios. Uma porta de mais de três metros de altura, separava os saqueadores da curiosidade além. Todos podiam escutar claramente as vozes de soldados provindas de trás da porta. Os ladrões já começaram a se preparar para uma armadilha, mas foram interrompidos por Dedanogor, no tempo em que sinalizava para Niblihim. Dois gestos separados: o dedo indicador em riste no meio da boca e as duas mãos juntas com os dedos entrelaçados mesmo com a dificuldade das manoplas negras. O elfo levitou em silencio até próximo a porta, conjurou um feitiço sem proferir as palavras que saiam em um silencio mortal. As vozes dos soldados por trás da porta calaram-se. Fez-se então uma inquietação agitada. Niblihim continuou a proferir palavras mágicas, conjurando mais um feitiço. Sâmara já conseguia entender pouco das palavras e disse para si em uma perplexidade satisfeita: - O encanto do silencio e o Batismo de Fogo... Um clarão se fez abaixo da porta e uma sensação de calor tomou a todos na escadaria. A madeira começou a estalar e logo a porta estava em labaredas de fogo. O grupo de saqueadores afastou-se e pode ver um corpo saindo da entrada já aberta sem fazer som algum, até que estivesse degraus próximo a eles, onde finalmente o lamento da morte com fogo chegou aos ouvidos de todos. A sala acima estava em chamas e tudo que havia nela de vivo, estava morto. A quadrilha de mercenários contratados fitaram Niblihim e em respeito desviavam os olhos quando este passou. Onde muitos estariam perplexos com a cena macabra, estes invasores das Torres Idênticas de Hule, comemoravam taciturnos. Afinal sala a sala, a torre teria de ser vencida. Após saírem deste salão de fumaça, mobília e corpos queimados os homens sobem mais um lance da escadaria, agora dando uma volta e meia na circunferência da torre. Continuam uma marcha vagarosa temerosos das possíveis armadilhas oportunistas e receando ainda mais pelos temidos estratagemas mágicos.

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Não há portas para a entrada deste imenso salão oval no seu lugar encontra-se um arco e então todos os vinte e três mercenários apercebem-se que chegaram ao andar térreo da torre. Um grande arco dava entrada ao salão, a torre tinha como base 70 metros de diâmetro. Este lugar assemelhava-se ao museu em Derghemom e Falia. De primeira vista mesmo sob a luz fraca emanada das tochas com fogos encantados, avista-se uma imensa estátua de um dragão vermelho de mais de 10 metros de altura. Envoltos em círculos de postes atrelados a fitas coloridas, balcões apresentavam a algum público matutino, tesouros da estória de Hule. Não se equiparava ao Grande Museu Hulístico, no epicentro desta monstruosa cidade, mas possuía objetos únicos. Mais uma vez alguns homens começavam vagarosamente a entrar, inclusive os Sabotadores, salvo Vangardesh que olhava para as próximas escadas que levariam as verdadeiras salas de tesouros. Hireegard aproximou-se da estátua, esta se centrava a tudo e dava como bifurcações outros lugares para se andar. O que era estátua percebeu o instruído baronete não o era. A realidade de ver um dragão morto era raríssima no ocidente. Era mais comum e até alguns se diziam amigos destes no oriente, Tao era o local mais indicado para se conhecer seres evoluídos que andam com outras raças em Minlurd. Acima de si, Hireegard já pode ver o elfo negro aproximar-se em direção aos olhos do dragão, ainda a levitar estava. Niblihim aproximou-se do olho esquerdo. Excitou-se. Tomou uma adaga linda nas mãos e acertou a jóia decidido. Ela saltou-lhe a mão e o elfo desceu rapidamente com um sorriso maligno na boca de lábios finíssimos. - Esta começando. - disse, agora a olhar para Sâmara abismada com outra peça em exposição. Uma modelo de cera vestida com roupas tecidas pelos elfos das Florestas Sem Sombra em Hule. - Sabotadores! – fala alto o líder. – Estamos subindo para a jóia! Niblihim recuar. Hireegard ao meu lado. Sâmara cuide de Niblihim! Sâmara sorriu enquanto voltou para a formação que já estava acostumada dos treinamentos incessantes que ele os fazia repetir. Mas talvez o que manteve ela viva e cada vez mais rica ao lado deste homem. O tão protegido mago aproxima-se do baronete da monarquia Celíaca e o agradece, sinalizando com a cabeça. A escadaria sobe e três voltas são dadas até estarem distante da estátua do dragão cujo nome Fisbralá estava escrito em uma plaqueta que ninguém leu. Alguns homens começam a se entreolhar. Na cabeça Dedanogor ouve vozes que se assemelham a brados. E avista Sâmara, esta não o percebe. Levanta uma das mãos e chama os ladrões nos assovios outrora combinados. Onictur, líder dos ladrões para ao som e assim fazem os outros. - Recuar. Este também é por nossa conta. – Apesar destas palavras, preferia ele estar ao lado de seu confesso irmão Enervous. Por um momento pensa em trazê-lo para morar com ele ao final de tudo isso em uma vila próxima a represa de Celeus. Balança a cabeça afastando tais pensamentos no tempo em que coloca as mãos no cabo de aço do machado negro.

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Hireegard puxa para ele a ira que lhe mantém vivo, sente-se mais forte nesta torre, sabe que isto tem a ver com a sua estória de meio-demonio. Mas espera descobrir mais. - As mãos que abrem as ordens, também abrem os caminhos. –fala para si Vangardesh, o que também lhe dissera Thorkyn. E com as manoplas negras aproxima a mão no grande anel de bronze da porta de mais de cinco metros. Para o espanto de muitos, o guerreiro gigante de negro tem força para romper o peso da madeira maciça e sozinho entra na sala escura. Agora, o som das vozes pode ser ouvido por todos. O barulho era parecido com o trovar de homens de guarda. A escuridão profunda, e suas criaturas ficam em silencio a entrada do guerreiro. Nas paredes, dezenas de sombras caminham nervosas. Antigos guerreiros fanáticos guardiões das Torres Idênticas e lacaios de poder menor de Zargonias. Com o machado e o escudo profere a palavra que Niblihim o ensinara sobre seu machado e o mesmo permeia a sala com uma fraca luz delatora. As criaturas aparecem em um misto de formas de humanos e humanóides que serviram nestas salas. Um deles de aparência Nórdica e com tranças fantasmagóricas pula em cima de Vangardesh que com uma rápida esquiva de posição o deixa passar acertando-lhe as costas com o machado e provocando um alto brado dos fantasmas presentes. - Hireegard! – chama em tom de alerta. Sabia que ao contrario do baronete, Enervous nunca o deixaria lutar sozinho. O baronete entra com estrondo, seu corpo esta maior e já rasga parte da roupa. Segura a espada viciadamente com a face demoníaca a tentar tomar seu rosto humano. Ataca uma das sombras com facilidade e grita. – Sinto-me forte, sinto-me como se estivesse em minha casa! Ambos lutam pela sala e quando acertados pelas criaturas sentem um frio percorrer suas espinhas. Os ladrões da porta tentam em vão matar as sombras com flechas normais. Mais um morre ao ser agarrado para dentro e morto a cabo de espadas do além. A ultima criatura cai, perfurada pela seta mágica de Sâmara. - Esta gastando alto comigo! – brinca o líder dos Sabotadores, enquanto em um ultimo golpe desferido mata a ultima sombra deste salão circular. Niblihim entra em seguida conjurando sob ele luz mágica que ilumina uma sala vazia, completamente desabitada. - Onde estão os guerreiros Vangardesh? – pergunta Sâmara. - Eles foram afastados para algum lugar no além vida, mas não se engane, eles voltaram. – responde resumidamente o líder. Niblihim continua: - Eles já estavam mortos antes mesmo de chegarmos aqui, somente a sua fé os mantêm, mesmo presos no além vida até cumprirem o seu trabalho. E pelo jeito sua ocupação será eterna enquanto a torre existir. - Esta querendo dizer que eles são escravos? – curiosa estava a guerreira. - Sim, escravos no além vida. – terminou o elfo. - Que Rainaar tenha piedade destes homens. – rogou Dedanogor. Os Sabotadores surpreenderam-se com o seu líder, não estavam acostumados a estes rompantes de compaixão. Porem mais abalados estavam com Hireegard. O baronete havia crescido em tamanho e força, seu rosto demoníaco já cobria quase toda a sua face anteriormente humana. A torre

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estava transformando-o e ele orgulhosamente demonstrava sua satisfação através de um largo sorriso de sua bocarra repleta de dentes. As escadas continuam um incessante subir. Uma volta completa na torre e estão próximos a segunda porta, ao segundo andar. ξ Desperta com um toque macio em seu braço esquerdo, esta deitado em uma cama de casal, grande até mesmo para o seu tamanho, sentada ao seu lado uma mulher lindíssima sorri lembrando-o do sorriso maravilhoso dado a ele por uma elfa, e recorda-se da sua viagem pelo ¨Corredor¨ das montanhas Negras a caminho de Celeus pela primeira vez. Um raio de sol do fim do dia brilha por trás dela, entrando pela janela de cortinas claras iluminando seu cabelo e demonstrando-o ruivo. Seu sorriso é perfeito e suas sardas ruborizam ao vê-lo. O brilho do fundo azul dos mares é a tradução para os olhos daquela mulher. - Bom dia meu marido. – Ela diz com voz sutil. Em um supetão de energia Dedanogor coloca-se sentado na cama e observa o quarto em que se encontra. Esta em uma casa e não é na cidade, devido ao cantar de pássaros nas árvores perto da janela. O quarto é decorado por uma mulher e ele consegue ver um grande armário com uma das portas abertas, vê calças e botas que caberiam nele. A mulher assusta-se com a mudança de posição do seu marido, e logo pergunta. - Teve sonhos ruins novamente meu amor? – seu sorriso é verdadeiro e mexe a cabeça com um inocente encanto. Dedanogor olha em seu próprio peito nu e apercebe que nele pende uma corrente de prata grossa que fulgura ao passar pelo raio de sol matinal provindo do ambiente fora. Automaticamente coloca sua mão direita na corrente e a sua esquerda segura o braço daquela linda mulher. Sente-se absurdamente bem, comovendo-se de uma felicidade e um estado de consciência plenamente satisfeita, seu corpo pesa e ele volta a dormir, ouvindo a voz doce que lhe lembra sua mãe, porém provinda da bela jovem ao seu lado. – Isso, durma mais um pouco meu amor. Foi apenas um sonho ruim... ξ A porta tem o mesmo tamanho da anterior e desta vez o puxador tem uma forma especifica. Uma mão em forma de concha, com a palma desta virada para o guerreiro negro. Uma das janelas da torre distante do chão por oito metros de altura, ilumina com raio da lua a porta a frente, dando um ar mais misterioso ainda. Novamente Vangardesh é desejoso de ser o primeiro. Quanto a Onictur, não há problema visto que seus homens estão a salvo, pelo menos por enquanto. Hireegard ofega em altas exalações de ar. - Sinto-me mais forte a cada passo, deixe-me entrar primeiro. Desta vez Vangardesh cala-se em proveito a Hireegard. O lorde da casa Vooca, abre a porta segurando na mão puxando-a para cima das escadas. Um sopro quente sob seus cabelos brancos os faz voar ao sabor do ar sufocante.

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A sala é iluminada por uma pálida luz de cor avermelhada. O chão é de uma pedra vermelha, lustrada até parecer gelo de tão escorregadia. Fogueiras espalhavam-se pela sala e em cada uma delas cerca de cinco criaturas do tamanho de anões, com as cabeças chatas e sem pescoço, nuas e segurando nas mãos ossos quase sem carne. Sua pele é cinza e contrastava com o vermelho tão vivo neste lugar. Mais ao longe um fogueira maior acalenta um trono feito de ossos, nele esta sentado uma criatura grande de três metros de altura, completamente nua assemelhava-se às formas humanas, tronco e quatro membros. Mas não possuía cabeça e nem pescoço, no lugar destes tinha uma protuberância arredondada. No lugar de mãos, garras de três dedos, com unhas como laminas das espadas curtas de Sâmara, as pernas terminavam em pés descomunais também de três dedos, três laminas. A visão mais macabra da criatura é o seu tronco, no lugar do peitoral três cabeças humanas, presas entre a carne da criatura. No lugar do estomago e intestino o corpo abre em uma imensa boca repleta de dentes. Estas se mexiam incessantemente, mas o som que veio saiu sim, de uma das cabeças humanas, cuja expressão era de um pânico eterno. - Filho, aproxime-se de mim. – a voz referia-se a Hireegard que caminha já para dentro da sala. As pequenas criaturas acinzentadas soltam guinchos de prazer e excitação. Na seqüência entrou Vangardesh, seguido de Niblihim e mais dez ladrões, Sâmara entra logo após já com seu arco e flecha prontos para disparar. - Isso, entrem, na casa de Gorgo, o primeiro guardião. Eu os saúdo e os convido. – fala eloqüentemente a segunda cabeça. Hireegard caminha resoluto de espada baixa e já se encontra na metade do caminho para o demônio Gorgo. - Não ouçam suas palavras! Não lhe dêem atenção! Ao logro e a morte ele os levará! – com a voz aguda, Niblihim alerta a todos, a vista que começa a conjurar um feitiço. - Hireegard! Seu maldito volte aqui! – grita Vangardesh enquanto caminha em direção a ele e a um grupo de criaturas. Estas deixam o baronete hipnotizado passar, porem fecham caminho para o guerreiro de negro. Sem exprimir palavras Hireegard esta fascinado pela criatura a sua frente, já pode sentir sua força aumentar, uma ambição antes nunca desejada, mas agora louco para se fartar dela. - Venha filho, senti você no momento que entrou neste lugar de poder. Venha, posso lhe dar tudo o que desejas. – e dizendo isso a terceira cabeça terminou seu discurso e Hireegard parou. Olhando para o seu braço amputado, chorou ao vê-lo crescer novamente. Vangardesh nada manifestou, cônscio de seu objetivo, andando mudou para um trote e desembainhando sua espada montante, deixando cair seu escudo, foi à carga em direção as criaturas acinzentadas. - Niblihim! – gritou Sâmara assustada. O feiticeiro era competente, onde muitos estariam arrebatados de medo, ele agia. Um feitiço de luz saindo de seu cetro atingiu Hireegard nas costas e o fez olhar para trás, como se houvesse recuperado a consciência. O baronete balançou a cabeça como se afastasse mosquitos de cobiça, e percebeu assustado onde estava.

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Vangardesh seguia como um aríete derrubando e matando as criaturas que se punham em seu caminho. Os ladrões tomaram finalmente coragem ao ver um dos líderes arremessar-se contra o perigo e em uma única voz, atacaram. Sâmara caminhava com destreza, enquanto atirava certeiras suas flechas, matando criaturas que tentavam se aproximar do gigante guerreiro. - Patéticos mortais! Sua ambição pelos tesouros é a comida de que preciso. – ao final do rápido discurso da primeira cabeça, Gorgo levanta-se do trono de ossos de oponentes caídos e caminha em direção a Hireegard com os braços já a se mexer como duas foices a segar o trigo. Juntos lutaram Vangardesh e Hireegard. Dedanogor pode perceber nos golpes fortes do baronete o quanto ele queria matar a criatura. Ou por ela ter tentando dominá-lo, ou como se ele fosse ganhar algo com isso. Mais rapidamente do que esperavam, a criatura de três metros tombou ao chão, não agüentando o combate com os dois guerreiros, e a soma da flechas que lhe eram atiradas. Todas as criaturas da sala jaziam no chão vermelho e as fogueiras agora ardiam para novos donos. Arfando pelo combate, Vangardesh aproximou-se da fogueira próxima ao trono. No meio das labaredas viu fascinado uma imagem irreal, uma floresta, de árvores verdes brilhante e o som de pássaros.

ξ A floresta. Os pássaros continuam o seu cantar melodioso. Dedanogor esta de pé encarando as árvores, ofegante, captando ar como se estivesse ao final de uma luta exaustiva. - Dedanogor! – uma voz rouca e familiar, é Enervous que encontra-se atrás de seu amigo. - Enervous! Você! – e dizendo isso Dedanogor corre para abraçá-lo enquanto percebe que ambos vestem aventais e luvas de couro, vestimenta de ferreiros. Enervous espanta-se com o abraço caloroso do amigo. Mas já esta acostumado com esta mudanças de comportamento, há alguns dias. Dedanogor olha em volta. Contou seis casas. A alguns metros a frente uma casa maior com dois andares, uma espécie de estalagem. Sentiu uma estranha paz. Próximas a ele duas casas, uma era habitada, da outra saia da chaminé um fumo acinzentado que subia junto ao cheiro característico de uma forja. - O que esta acontecendo meu amigo? Por um momento estou nas Torres Idênticas... ajude-me estou confuso... - Acalme-se, meu amigo. Venha deixe-me pagar-lhe uma bebida, vamos descansar um pouco do trabalho. Ambos caminham para a estalagem a frente, Dedanogor pode notar que esta sujo de fuligem, com certeza estava trabalhando naquela ferraria. Mais três casas, examinou a caminho da taverna. Duas ao norte, sendo uma delas lindamente decorada, com a planta hera, que lhe cobria todas as paredes e quase ao teto. E para sul um moinho antigo que fazia fronteira a um rio mais

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extenso, que passava ao largo da vila. Ao entrarem na estalagem foram logo sendo servidos por um senhor bem idoso, os cumprimentou como se já os conhecesse há anos. - Dedanogor, Enervous. Uma pausa do serviço? Venham até a sua mesa predileta, logo trarei as cervejas. A mesa em questão era a maior do estabelecimento, e já havia uma cadeira especial feita provavelmente para suportar o peso do brutal. - Quem é esse? Ele me conhece? Fale amigo, você é agora a única coisa que não me deixa ficar louco. Fale! – a ânsia de Dedanogor por informação não era infundada, afinal estava sentindo-se tonto e confuso, perdido, e de todos, ele não gostava de sentir-se assim. - Muito bem. Em primeiro lugar, prazer. Meu nome é Enervous. – e dizendo isso começou a rir alto. Dedanogor levantou-se da cadeira em um estrondo de ira deixando-a cair para trás. Ficou encarando Enervous, e pensou em sua espada, mas ao mesmo tempo sentiu-se seguro e sorriu de volta. Por algum motivo estranho, estava deveras feliz e realizado. Da cozinha saíram Gernon, o velho dono da estalagem, sua mulher Burna e suas duas belíssimas filhas Taíssa e Michelle, toda a família, assustada com o barulho. Gernon afastou a mulher da porta da cozinha e veio logo trazer duas canecas cheias de cerveja vinda de Derghemom, a preferida de seu maior cliente. Enervous parou de rir e pediu para que o amigo sentasse. Falando para Gernon, assim que este chegou à mesa. - Não se preocupe velho, ele esta ¨naqueles dias¨. - Novamente? Ó senhor, é uma pena, espero sinceramente sua recuperação. – respondeu o velho homem com compaixão. Dedanogor continuou a não entender e tomou a cerveja em um gole só, amenizando sua sede de informação e fazendo Gernon sair para buscar mais. O teto da estalagem era alto e com as vigas de madeira que seguravam todo o segundo andar parecia ainda maior. As janelas abertas traziam luz para este salão. - Comece. A última vez que o vi, não sabia pronunciar mais palavras conexas e estava devagar em reflexão. – Uma afirmação questionadora, haja vista que o mesmo brutal, agora se assemelhava ao antigo Enervous, antes do combate com o monge de Co-on. - Desde muito tempo atrás, antes mesmo do tempo em que vocês me convidaram para morar neste lugar, tu vem pagando professores de Celeus apenas para me tratar. Por isso a ti tenho eterna gratidão. - Vocês? Eu e Sâmara? - Não! Você e sua esposa Diana. O queixo de Dedanogor despencou e sua boca ficou entreaberta. A mulher que o havia acordado. A mulher de cabelos ruivos. Ela era sua mulher. Olhou novamente para o peito e viu abaixo do avental, a corrente de prata estava lá. Tocou-a com as mãos e pensou em tirá-la, mas por algum motivo, teve a impressão de que ela era o seu amuleto da sorte. Pois mesmo sem entender o que acontecia, estava bem, feliz. Ficaria com ela, por enquanto. - Sou casado... Esta vila fica perto da represa de Celeus? - Isso! Esta começando a se recordar meu amigo?

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Dedanogor parou por alguns instantes, mesmo para a sua mente acostumada ao fantástico, era muita informação, muitas novidades. Viu Gernon aproximar-se com mais uma caneca e este lhe disse. ξ - Quer um pouco de água? – perguntou Onictur. Estava surpreso com aquele guerreiro de armadura negra e sua coragem. Por dentro dava graças a Amdosias por ter os Sabotadores ao seu lado e imaginou-se burro, por ter aceitado a missão e ter acreditado que poderia cumpri-la com sua quadrilha. - Você esta bem, meu amor?- perguntou Sâmara ao se aproximar da fogueira. - Sim. Eu acho que sim. - tonto estava o guerreiro. - Devemos parar por alguns momentos, perdi mais três homens neste combate. - disse Onictur. - Não vamos parar! Seguiremos em frente, posso sentir nosso objetivo se aproxima. – disse Hireegard em meio à arrogância. - Dedanogor também não esta bem. Seria melhor apenas darmos uma pausa de alguns grãos na ampulheta e... - defendeu Sâmara. - Não. Estou bem. Vamos prosseguir. – e para si mesmo perguntou onde estaria indo tudo isso. Mas a visão da vila não lhe saia da cabeça, era como se desejasse muito estar naquele lugar. Os Sabotadores continuam a subir pelas escadas de pedra, olhando de volta um largo corredor que circunda sempre para a direita. A porta se aproxima e o rumor da pedra se movendo é o que prenuncia a chegada do terceiro andar. Sâmara segura no braço de metal de seu namorado e o pergunta. - Amor, esta tudo bem contigo? – sua mente paira a dúvida de outrora em que ela havia percebido o quanto ele estava estranho. Temia por seu amado, mas também receava por estarem naquele local sem o seu líder são. Vangardesh atento ao som acima, olha para baixo, para sua guerreira. – Sâmara me ama pelo que eu sou, ou pelo que eu posso dar a ela? – indaga-se pela segunda vez e assusta-se com o fato. – O que é o amor verdadeiro de uma mulher? –tentando olhar em Sâmara a elfa da viagem de longa data. Nada. - Sim estou bem mulher. Atenta acima! – diz forçando a voz como as palavras grossas de Thorkyn. Não só Sâmara se mobiliza com a ordem, assim Niblihim, assim Hireegard. O baronete sente o peito batendo junto com o ruído da rocha, e o momento de felicidade e prazer encontram-se com ele. Um ou outro ladrão da quadrilha de Onictur, o assistem assustados. O elfo negro continua sua escalada, de posse dos olhos de um dragão vermelho, ele sorri com o poder que lhe é dado de presente. O olho do dragão lhe dá mais poderes, mais feitiços. Novamente o místico conjura o escudo alaranjado em volta de si, os ladrões dividem a atenção com Hireegard, observando maravilhados. Sabem sobre os dardos quentes das paredes do subsolo de Hule não o terem atingido, e o que ele fez na porta queimando os soldados sem voz. A porta tem um arco de um marrom escuro, ornada na pedra estão às inscrições. Niblihim aproxima-se ainda levitando. - Fale feiticeiro o que nos espera agora? – pergunta Vangardesh.

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Niblihim lê os sinais. – Aquele mortal aventurando-se adentro, deve repensar sua vida, deve repensar aquilo que é. Dividindo a atenção com as batidas na pedra secular. Vangardesh aproxima-se do corrimão, uma fênix é o brasão da maçaneta de ouro. Preparando-se em sua armadura ele pensa. ξ - Bom dia. - disse ela mais uma vez. - Bom dia. – respondeu ele. - Estou morto? – perguntou cansado. – Bobo. – enquanto ela respondia a pergunta, um largo sorriso estampou-se em seu rosto. Dedanogor pode quase tocar a mão no oceano dos olhos azuis. Sentado na cama de sua casa, olhou a mulher ao seu lado dizendo. – Obrigado. – Obrigada você. Então diz Dedanogor. - Eu a amo minha senhora dos sonhos. Sinto-me realizado. Meus pesadelos são minhas suplicas de perdão a aqueles que fiz mal, e peço para que todos eles possam ter o que tenho hoje. Meu coração chora. - Uma lágrima escorre do rosto duro daquele homem. Parando ele a encara um tanto quanto ameaçador. Sente vergonha em estar fraco. – Não tenha vergonha de mim meu amor, eu te amo e te respeito para sempre. - Dedanogor pode ver nos olhos daquela mulher a fidelidade cã, dos animais de seu pai Gajão. – Enfeitiçado estou, porém muito mais feliz. O que é esta corrente em meu peito? E se tirá-la? Voltarei para aqueles a qual não gosto mais? – pensa em meio aos braços da linda mulher. O dia a dia seguia na vila Celíaca, forja a forja trabalhavam Dedanogor e Enervous na labuta do aço. - Temos que entregar um carregamento de espadas, façamo-las duras e com lâminas duplas. - Mas duras, as lâminas ficaram cegas Vangardesh. - O humano ri feliz, seu amigo Enervous volta pouco a pouco a tornar-se inteligente. - Façamo-las um pouco mais leves então. À noite os dois encontravam-se na mesa do bar de Gernon e falavam e riam com conversas que nenhum dos outros entenderia. ξ A porta do terceiro andar. Vangardesh a abre segurando a fênix com força. Enquanto busca olhar para dentro. - O que há neste lugar? Aparentemente uma árvore cobre todo o teto da sala, e no centro um taludo tronco de madeira coloca-se, fazendo da sala dois corredores que devem se encontrar atrás do tronco. Nas paredes laterais desenhos escuros de árvores, provavelmente pintados por elfos. Os sons ouvidos das rochas a roçar provem estranhamente de luzes escuras que saem da raiz da árvore ao centro, passam por toda a extensão da sala, sobem ao teto e voltam a se encontrar com a árvore, agora em seus

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galhos acima. A árvore então fala em meio ao ruído baixo das pedras, a árvore emite misticamente, o som da fala. - Eu sou o príncipe Karrdoin, da Floresta Sem Sobra de Hule. Libertemme e eu os permitirei subir para o quarto andar. Hireegard entra na sala, e com ar desdenhoso diz. – E se apenas passarmos cortando a madeira, príncipe Karrdoin. – a larga boca estendia-se e o baronete babava em cima dos próprios panos nobres que vestia. O braço já estava metade crescida neste momento. - Silencio Hireegard. – bradou Vangardesh. Os dois se encaram e Hireegard abaixa a cabeça. – Príncipe Karrdoin, eu sou Vangardesh conhecido nos territórios do ocidente. Nós somos os Sabotadores. Queremos o coração de Amdosias, se puder nos ajudar eu o liberto. Caso contrário, morrerei lutando para matá-lo. - Nada mais é fantástico para a mente aguçada deste homem que continua lúcido apenas pela ciência dos ensinamentos de Thorkyn sobre concentração e o pensamento racional de Gajão. A floresta estremece, vozes de animais recuando e grunhindo. O machado negro de Vangardesh pulsa em sua mão. O príncipe do reino de outrora narra sua estória. - Não há necessidade de constrangimento, pois morto já estou. O único sentimento que me prende neste mundo é o favor que lhes peço. As luzes continuam a piscar e a sair e voltar para a árvore no centro da sala. Todos os espectadores atônitos já começavam a entender o do porque das inúmeras risadas das pessoas próximas antes da missão que aceitaram, ao saberem da pilhagem, considerada suicida. O príncipe sem trono continuou. – Estou encerrado neste senso de esperança. Essa expectativa doentia de um acontecimento inexistente. Hoje sei de minha condição e de que meus súditos nunca mais retornarão. Morrerão em vão, por um motivo torpe. Peçolhes então a permissão apenas de partir em paz. Cônscio de minha derrota, ciente da perda do meu reino, para o que hoje é Hule. A corrente fixa-me neste lugar, atando-me a esperança. Por favor, retirem-na de mim. As luzes continuam a aparecer e desaparecer no lenho. E deste surgiu um busto também de madeira. A figura da estátua era a de um elfo extremamente lindo. Suas feições delicadas contrastavam com vários adereços presos a suas orelhas pontudas e amarrados em seus cabelos cinzelados como raízes caídas ao redor de seu rosto. A única coisa que lhe não estava talhada era uma corrente de prata envolvendo seu pescoço fino. Vangardesh estremeceu. Sua visão turvou e novamente ele não sabia onde estava. A corrente brilhante... Caminhando como um líder ele agiu. E ao chegar perto da estátua do elfo lhe retirou a corrente e sem poupar movimentos a colocou em volta do pescoço musculoso. - Assim está feito. – disse antes de desmaiar.

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Capítulo 13 – A Vila de Eltas
Havia tempos que Vangardesh pagava professores Celíacos, para tentassem reanimar seu amigo. Aulas e aulas para que Enervous voltasse a raciocinar novamente, como era. Vangardesh demitia e contratava professores vindos das universidades Celíacas e de Derghemom. Mas foi um deles em Falia que impressionou nas lições. Enervous começou a ser ele mesmo, e vez ou outra voltava a biblioteca. Dedanogor agradeceu ao homem com prata. Chamou então seu amigo como um suporte secreto. Uma espécie de plano B. O brutal caminha nos esgotos Hulísticos. Encontra o fim do corredor com a porta e o símbolo e decide pular no rio. Facilmente nada nas águas e voa para baixo deslizando e caindo na cachoeira, seu peso bate no chão e este racha a pedra abaixo da água. Apenas uma pequena dor em sua armadura, Enervous levanta do rio incólume, apoiando na amurada com uma força esmagadora pula e sai do rio caindo a dois metros à frente. Continua então olhando para cima e vê um buraco e caixas caídas. Uma espécie de sapo gigante passa por ele dentro do rio. Enervous examinando o teto vê agora as cordas, outrora colocadas. Corre em direção as caixas no centro e pula, acertando a lateral de uma caixa, apóia-se tocando na ponta da corda. Urra. O arpão de aço no teto começa a desprender-se, afasta então com a mão e caminhando entre as caixas que quebram em seus pés consegue pegar a ponta de outra corda. E agora tem dois apoios, escala rapidamente com as mãos enquanto as varas de aço fincadas no teto começam a ceder. Rompendo-se ao salto enquanto ele atira-se ao chão do buraco, caindo lateralmente e deslizando pelo chão, até bater em uma das caixas quebrando. Revela uma criatura pequena que cai em seu peito, com a mão a aperta e ela guincha, com o polegar trespassa a criatura que cospe sangue. Rosna. Olhando para cima levanta-se rapidamente com a sua mochila, armadura e clava de aço. Observando o arco das escadas que sobem, ele urra. Enervous caminha nas escadas lascivas avante de encontro ao seu amigo. Caminha sem medo do perigo, sua boca já treme e escorre saliva, meio besta, meio humanóide. ξ Tanto Enervous quanto Dedanogor estão sentados na mesa do bar de Gernon. Riem alto e sem preocupações em meio a cerveja vinda de Derghemom e comprada diretamente da cidade de Carpes em Celeus. Dedanogor arruma os cabelos oleosos e compridos à medida que o brutal volta a contar sobre as Torres Idênticas e como salvou seu amigo após ser deixado para trás pelos Sabotadores. O plano de apoio desenvolvido por Dedanogor funcionará perfeitamente. Vez ou outra ficava novamente esquecido de tudo e todos. Mas o malte da cerveja de sua terra natal o fazia relembrar de sua vida antiga.

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Haviam voltado incólumes de Hule, fugitivos forçados pelo estado de confusão de Dedanogor. O brutal estranhará seu amigo no começo, o humano estava diferente, mas no fundo ainda era o seu velho companheiro de guarda de tempos esquecidos. Logo ao chegarem a Carpes, Dedanogor procurou por uma vila para morar. Encontrou uma muito mais rápido do que o brutal imaginaria. Ela estava a menos de quinze quilômetros de distancia da capital, porem encontrava-se escondida na parte norte da represa Celíaca e próxima as montanhas. Era abastecida pelo rio Zadret que desembocava no açude. Foi lá que Dedanogor Durgovitch conheceu Diana Eltas. Um dia de sol como outro qualquer, onde os raios banham a esmo lugares naturais que se transformam vistosos sob a luz do astro. Apelidado pelos moradores deste singelo lugar como a, Fonte dos Eltas. Onde a floresta se encontra com o rio Zadret, uma pequena praia simulada, um abraço entre a terra e a água. Dedanogor nada nas águas daquele lugar, feliz por conseguir contemplar os pormenores da natureza, a atenção aos detalhes tão bem ensinados por seu pai Gajão Durgovitch. Nunca antes o guerreiro havia pensado tanto em seu pai. Em passeios pelos arredores de sua nova morada, como este, tentava ponderar os por quês daquele fazendeiro, e o que ele queria tanto dele, como filho. E foi ao meio de reflexões de auto conhecimento que avistou alguém o espionando por entre as folhagens. Sem o mínimo decoro, Dedanogor sai da água semi-nú e caminha até a margem. Seu corpo é marcado por sua vida de mercenário, seus músculos de ferro dividem a atenção com cicatrizes de batalha. A jovem ruboriza e tenta afastar-se oculta nas folhagens. Ao virar-se de costas para fugir ela não percebe a velocidade de Dedanogor que a alcança e a segura pelo ombro. Diana levanta-se vagarosamente sentindo a pressão das mãos de aço daquele recém chegado a vila. Ao virar-se para ele, já esta completamente vermelha, tornando-a uma figura exótica, comparando a seus cabelos também rubros. A face de Dedanogor empalidece. - E ela. As mesmas sardas dos sonhos de outrora, os mesmo olhos azuis no vasto oceano. O cabelo... – imagina e fala em meio a um quase ranger de dentes. - Você. - Desculpe-me senhor. Eu... - ela mal consegue falar de tanta vergonha. A pele da jovem é branca e delicada, seus seios contrastam com sua postura, estes são atrevidamente proeminentes. Seu corpo é todo harmonia. - Seu nome... por favor. – o guerreiro é educado, em oposição ao seu tamanho e compleição. - Diana. Diana Eltas... - ela diz com um leve sorriso. Apesar de estar assustada com este homem semi-nú a sua frente, sente, em meio a paz e excitação, que esta protegida. - Senhora, perdoe-me. – e dizendo isso corre para a praia em direção as suas roupas, as colocando sem jeito. Diana ri. Acha graça no grandalhão e ao mesmo tempo tem por ele uma curiosidade oculta. Mas quando Dedanogor volta-se em direção a ela, não mais a encontra ali.

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O tempo passa na vila de Eltas e com conversas descobre que ela é filha do casal que deu origem a vila. Sua mãe uma mulher de descendência élfica e humana. Seu pai apenas humano já morto, por doença. Vez ou outra a avista na vila e esta foge quando ele tenta ter com ela uma conversa. Em meio à construção da forja e noitadas no bar de Gernon, impaciência cresce dentro do estomago de Dedanogor e se transforma em frio quando a avista ajudando sua mãe nas tarefas domésticas. Continua suas caminhadas e nados no rio Zadret, sempre a refletir sobre seu passado de lutas, busca pela glória, e lucro, seu presente longe do seu bando, e em seu futuro sempre encontra Diana a trazê-lo de forma leve e esperançosa de uma vida melhor. Em um dia aquém, terminada a construção da forja e já com encomendas vindas diretamente da loja de Lemo, vai a casa dos Eltas e impacientemente pede a mão de Diana em casamento. - Sou um ferreiro, trabalhador sigo minha vida sobre os prenúncios da honra e da palavra. Dou minha palavra a senhora, farei sua filha a mulher mais feliz de Celeus, se me permitires. Ou morrerei, pois mais dói ficar longe dela a suportar as cicatrizes que trago comigo. - Não sou eu que decidirá isso meu senhor. Minha filha foi criada como uma mulher livre, e é a ela que deves provar seu valor. – exprime a anciã meio humana, meio élfica, que sente por este homem um calafrio de nervosismo e ao mesmo tempo uma felicidade de paz. Ela acha que já o viu antes, mas não se lembra de onde. Diana permite a aproximação daquele homem, sente verdade nas palavras dele e desta forma tornam-se amigos. Com o tempo Dedanogor mostra a todos o quanto é trabalhador e honesto. Qualidades que diferem de seu passado negro. Suas caminhadas são às vezes na presença de Enervous, o brutal acompanha seu amigo na labuta do ferro, mas vez ou outra parte só para fazer algum trabalho escuso. Retornando sempre a Eltas, cheio de moedas de prata. ξ

Dois anos se passam. O ano de 168DC é findada a Guerra Cinza, após 17 anos de embate entre as nações de elfos cinzas e anões. Não há alianças, nem tratos, os teimosos anões decidem empregar táticas menos dispendiosas. Os cofres do reino estavam se esvaziando, enquanto os elfos obscuros aliavam-se, clamando ajuda a Hule. Manaath também tinha uma nova preocupação, um imenso dragão de cor dourada havia se entocado na borda sul da grande montanha. Hule aliava-se também a Param Azi na ajuda ao avanço constante dos humanóides de Bullbara com seus reis que desciam e subiam a trono. Nada disso era sabido pela vila de Eltas, o paraíso bucólico continuava entocado com sua nascente. 184

Onde estão Dedanogor e Diana, como sempre conversam sobre a vida e suas experiências. Diana ouve extasiada os feitos daquele guerreiro, mas vez ou outra interrompe para questionar os valores morais que culminaram nas atitudes relatadas na estória. Quase sempre Dedanogor não consegue responder. A corrente de prata brilha em seu peito e Diana admira o ornamento que este homem nunca troca, nunca retira. - Você nunca me falou sobre a sua mãe e seu pai. Só me conta de sua vida, e mesmo assim com censura. Por quê? – pergunta inocente Diana. Em meio a um sorriso acanhado. - Diana, você tem os olhos de minha mãe e o cabelo de meu pai, é difícil olhar para você e não lembrar deles. - Mas nunca fala deles. Como ela era? E ele? Gajão e Nate... - Natalie. Ela era enferma. Morreu quando eu ainda tinha poucos tempo de vida. Amandia, escrava de meu pai na época, disse-me que ela morreu salvando-me do ataque de uma criatura das florestas. Não duvido desta estória. Diana abriu mais um sorriso, era impressionante para Dedanogor o quanto existia de felicidade dentro dela e como era fácil para ela exprimi-los. - Sua mãe devia ser uma mulher forte. Para salvar-te ainda que enferma. E seu pai? - Não quero falar sobre isso. – a carranca era fácil de se perceber, Diana porém, não recuou. - Por que não? Está entre amigos agora. Não te quero mal perguntando estas coisas, só te conhecer mais um pouco. Afinal se queres ser meu marido, então este é o mínimo que lhe peço! – exclamou ela. Da fisionomia carregada Dedanogor passou para uma de maravilha. – Então pensas em casar comigo? - Apenas se puder conhecer o verdadeiro Dedanogor Durgovitch, este que esta escondido sobre o aço e o rosto severo. Dedanogor empalideceu, era mais fácil enfrentar hordas de humanóides à esta mulher. Vagarosamente permitiu-se relaxar e lembrou-se de Sir Celacious, mas desta vez não se sentia inseguro. Começou então a falar sobre o pai, e uma de sua frases prediletas. Dê a vida, o que a vida lhe dá. Narrou tudo, falando abertamente pela primeira vez, sem medo de esconder as informações que lhe corroíam, fazia longa data. Contou sobre os cães raivosos de seu pai, a fidelidade doentia do empregado Impius, as plantações de cevada, o rio Noem e o lago Acor onde aprendeu a nadar, e sobre Thorkyn. Diana pode ver a admiração de Dedanogor a Thorkyn. Muito mais do que a de seu próprio pai. E assim ela chorou, as lágrimas desceram o seu rosto por toda a violência e frieza com que Dedanogor havia sido criado. - Você se tornou naquilo que mais tentou se afastar, tornou-se guerreiro perfeito. O guerreiro dos sonhos de seu pai. Com estas palavras Dedanogor começou a afastar-se para trás, mas Diana o impediu aproximando-se dele com calma, tocou os seus lábios no dele com graça e gentileza, e sussurrando baixo disse-lhe. - Agora tudo isso acabou. Esta a salvo, aqui no nosso paraíso, lhe farei o homem mais feliz de toda Minlurd.

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E com isso beijaram-se, carinhosa e demoradamente. O primeiro beijo. Tudo o que Dedanogor tinha sonhado, estava acontecendo, e ele só pode agradecer, suaves lágrimas lhe escorriam do rosto e seu peito arfava de felicidade. ξ A ampulheta do tempo tem de ser movida em algumas casas de comércio em Derghemom. Em alguns interrogatórios em Maior a ampulheta e mexida várias vezes para enganar o suspeito. Em Falia ela mexe-se sozinha. Mas o tempo como as estações regidas por Rainaar são mutáveis, inconstantes. Os anos se passaram na vila de Eltas, Dedanogor casou-se com Diana em cerimônia simples. Lemo veio de Carpes juntamente com o capitão Alquemius a quem Dedanogor se correspondeu pedindo desculpas e perdão. Nestes anos maravilhosos Dedanogor continua a trabalhar arduamente, as vezes viajava para Carpes para ter com Lemo. Esqueceu todos os seus contatos anteriores e se esconde quando na cidade. Sua vida em Eltas é o paraíso em Minlurd. Diana o presenteia com quatro filhos. Nathander, Thorkyn, Magot e Nell. Havia dado o nome para o primeiro filho do cão de seu pai, Dedanogor fez questão de não seguir a tradição, da família Durgovitch, dando ao primogênito a alcunha de seu avô. O segundo filho logo nascera e tornara-se o nome de seu mestre. Aos outros dois permitiu-se rindo as vontades dela, e a estes se transformaram em Magot e Nell. Nathander o primogênito nasceu de parto difícil e Dedanogor prometeu a Rainaar que se nascesse saudável o mandaria para o clericato. Thorkyn o mais robusto era a cara do pai, nasceu já enfezado e pronto para brigar, Magot nasceu quieto e sisudo, Nell o caçula deixou o casal sem dormir cinco dias seguidos por causa de seus choros e energia. Os garotos eram logicamente travessos, vez ou outra Thorkyn e Nathander levavam seus irmãos como seus súditos, em buscas de peripécias inventadas pelos bosques da vila. Voltavam com alguma criaturinha que haviam capturado, ou aventuras incríveis a contar. Magot reclamava sobre prenderem os animais, era mais parecido com sua mãe. Thorkyn era um tanto quanto maléfico e o fazia lembrar de como era Dedanogor há muito tempo atrás. Nathander observava o animal incrédulo, tentando entender se ele conseguia se comunicar com ele. Nathander sempre tinha pensamentos extravagantes e criativos. E Dedanogor já pensava em colocá-lo na escola de padres de Rainaar. Nell sempre o mais jubiloso não parava quieto nunca. A casa dos Durgovitch era conhecida por sua alegria, os pais sempre apaixonados. Não era de se estranhar a humildade com a qual Dedanogor tratava a esposa, como se ela fosse um presente. E também a ferocidade no trabalho que este homem demonstrava para dar aos seus filhos uma vida digna e de muita educação.

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Dedanogor contratou um professor para morar perto deles e este ensinava aos filhos, matérias estudadas apenas pelos descendentes nobres de Carpes. Colocou Diana de volta aos estudos e também se permitiu relembrar seus tempos de garoto prodígio em Derghemom. Tratava seus filhos por igual, mas era caridoso e severo com cada um. Irradiava-se com a energia de seu mais novo, Nell. Travava conversas mais inteligentes com Magot. Via-se e expressava conselhos a Thorkyn. Admirava Nathander. Seu rebento mais velho era o misto da alegria da mãe e a força do pai. Sabia que ele estava predestinado a agir. A ser um agente causador no mundo assim como ele havia aprendido a ser. Só tomava cuidado com o seu segundo, Thorkyn, este exprimia uma vocação para a violência maior do que os outros. Sempre chamava sua atenção, mais se preocupava para não tira-lo a força, não o rebaixar. E desta forma seguiu criando seus filhos e amando sua esposa. A corrente sempre trajada e o grande baú sempre lacrado. ξ O vento frio das montanhas Harmalinas traz sempre novidades. E foi um dia com este que um cavaleiro adentrou a vila de Eltas. Foi de encontro a grande casa. Casa esta de Gernon e sua família. Questionou sobre Dedanogor Durgovitch aquele raro cavaleiro cujo símbolo no peito de sua armadura era o de um pequeno pássaro. O mesmo pássaro estava em seu escudo, era o símbolo de Rainaar. Gernon ajoelhou-se em sinal de respeito, mas foi levantado pelas mãos caridosas do guerreiro de armadura. Logo caminhou até a porta da forja, o cheiro da fumaça viciada que saia dali, só era contrastado pelo aroma de folhas de eucalipto. O vento passa assoviando por entre as paredes das casas, jogando a fumaça para o lado e fazendo dela surgir à figura de um gigante, Dedanogor. - Senhor Vangardesh? – pergunta o cavaleiro segurando com a mão esquerda, as rédeas de seu cavalo. Um cavalo diferente dos demais. De cor azeviche, com uma crina e rabo brancos. Ouvindo este nome Dedanogor para a meio caminho. O símbolo deste homem não lhe é estranho. - Quem é você? Recordo-me sim de um homem que usava este símbolo de Rainaar. – responde apreensivo. - Eu sou Sir Lethargic senhor Vangardesh o Impiedoso. Dedanogor percebe a espada que pende do cinto do cavaleiro de armadura prata. É a mesma espada com a qual Celacious conversou naquela noite, na mansão nobre dos Ristan. O guerreiro de seus quase 40 anos olha para o lado observando a forja, Enervous está fora, foi à cidade comprar material. - Cavaleiro... - Silencio senhor! Estou armado e demando vingança. Esperarei enquanto busca seu traje de combate, mas não conversarei contigo.

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O Durgovitch assusta-se e por um momento move-se para trás. Procura em pensamento a sua espada. Porém repara no guerreiro a sua frente e imagina que este pode ser o filho de Celacious. - Era seu pai? - Não senhor Vangardesh o Impiedoso, mas ele foi o meu tutor. Sir Celacious, paladino de Rainaar, grão mestre da ordem de cavaleiros. Hoje, eu busco a vingança pelo alto vil, cruel que fizestes ao meu tutor. Dedanogor percebe que o cavaleiro pode estar chorando atrás do elmo da armadura de batalha, mas continua mesmo assim, desmontado, incólume para atacá-lo. - Eu não quero uma luta, apenas... Um alto som de ferro sendo malhado é ouvido enquanto Sir Lethargic voa metros a frente, ao lado da casa da forja. Enervous brada enquanto acaba o golpe com a sua clava de aço, vindo ele sorrateiro de trás da casa dos Durgovitch. O acertou por cima de seu cavalo multicolor, não ferindo o animal, apenas fazendo o humano ser arremessado de forma violenta. - Perdão irmão! Demorei a chegar! – ofega com as palavras e o golpe oportunista. - Alto Enervous! O brutal para de súbito. O guerreiro caído de barriga no chão vira-se, esta começando a se levantar quando sente gravemente a dor nas costas da pancada imoral. Lethargic observa a fidelidade do humanóide. - Este é Enervous. Perdoe meu amigo, ele estava apenas visando minha proteção. – enquanto fala Dedanogor caminha em direção ao cavaleiro, que por sua vez levanta-se rapidamente, receoso de outra investida. Já tocando na bainha de sua espada. Dedanogor apercebe-se do fato. Não pode permitir que novamente seja confundido com o errado, ao estar tentando fazer o certo. Pensa em sua família e o quanto perderia se não os visse mais, morto por uma contenda equivocada. Lembra-se da luta com Sir Celacious e o momento em que o mesmo desistiu de combatê-lo. Arregala seus olhos em sinal de iluminação, agora conseguiu compreender o que o cavaleiro estava tentando fazer. Por esse motivo e para não haver dúvidas, ajoelha-se perante Sir Lethargic. Enervous olha estranho, seu amigo já vem se comportando assim há algum tempo, mas a vida deste humanóide nunca foi tão feliz. E desta forma contrariando sua raça, ajoelha-se também perante o cavaleiro. - Perdoe Sir, este homem que vos fala. Imagino que se não tivesse assassinado seu tutor, por causa de fama e dinheiro, ele poderia estar salvando vidas. Como estas. – e aponta com os braços as casas da vila em que se encontram. – Portanto peço-te perdão, aceito a desonra e posso ajudarte se assim quiser, pagando estes pecados do passado, que me afligem a noite, e agora, de dia também. O suposto cavaleiro de Rainaar surpreende-se. Estava nervoso e temeroso pela própria vida, sabia ele do combate difícil que teria pela frente se Vangardesh o enfrentasse, mas estava pronto para morrer com honra, se assim fosse. Nas escolas das mesas de madeira em Carpes, havia ouvido do grão mestre que todo o erro carregado de arrependimento não deve ser tratado de forma leviana, pois é a máxima do aprendizado do crescimento.

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Momentos de silencio se passam, Diana e os filhos já estão ao lado de fora a presenciar o acontecimento. Lethargic fita a família parada a porta. Toca no cabo da Espada Justiceira, pensa então em proferir a famosa pergunta a arma. Porém não o faz. Sente dúvida em relação à resposta e como que para iluminar suas reflexões abre a viseira do elmo revelando um rosto hesitante de seus não mais de 30 verões. Por fim pronuncia. – Talvez tenha chegado atrasado de minhas viagens, vejo hoje que Vangardesh não existe mais, dando lugar a este homem pai de família, ciente da importância do amor para com os outros. - Ninguém é melhor que outrem. – interrompeu de forma sábia Dedanogor. Lethargic evidencia o falado mexendo a cabeça, juntamente com uma expressão de amabilidade. – Portanto se arrependido está, quem sou eu para não respeitá-lo. Está perdoado. Meu senhor ficaria feliz em ver isso. - Obrigado cavaleiro. – revela humildade nas palavras o agora marido, ferreiro, pai. Sir Lethargic mais nada diz fechado em seu elmo com os seus pensamentos, monta seu cavalo e parte vagarosamente para longe da vila. Deixando um Dedanogor leve e um Enervous confuso. - Estes humanos... – reflete para si, com um misto de admiração e desentendimento o brutal.

ξ

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Capítulo 14 – O elo
A grande rainha do pólo norte de Minlurd, a Feiticeira do Gelo63, vence a campanha de Edo e anexa suas terras mais este país. Em Tao o culto ao dragão ganha mais adeptos. Xanegoli64 protege seu povo. Hule engrandece sua economia, sob o império de Eligius65, ao tempo que participa de quatro guerras. O mundo não para assim como o bater de asas de um beija-flor. A vida na vila de Eltas segue. O paraíso intocado. O ano de 177 d.c a 180 d.c Dedanogor trabalha com mais afinco para os seus filhos, o mais velho com onze anos já começa a ser preparado para ir ao convento, Thorkyn é treinado secretamente pelo pai. Magot sobressai nos estudos e Nell o mais novo com seus cinco anos brinca incessantemente nos bosques e na represa próxima à vila. E por mais uma vez os ventos frios cessam o correr do tempo, eles trazem ao adormecido o despertar, ao sonhador, a realidade, ao distraído, receio. Neste dia de manhã quente e tarde fria, a família Durgovitch prepara-se para um piquenique na Fonte de Eltas. Diana esta á arrumar toda a comida envolvendo-a em panos limpos. Pedaços de bolo a torta salgada são envolvidos para o deleite das crianças presentes. Sua mãe a ajuda, mas desta vez não os acompanhará. Nell consegue furtar um pedaço e corre de Thorkyn que já deseja puni-lo. Nathander e Magot estão ao lado de fora já arquitetando a aventura que iriam encontrar. Dedanogor trabalha na forja, precisa terminar um peitoral de placas cerimonial, uma encomenda muito cara para deixar para depois. Porem retorna a sua casa para vê-los partir, se terminar a tempo se unirá a sua família mais tarde. Ao entrar na casa avista sua mulher e sogra embalando o almoço. O sol fraco porem constante entra pela janela, fazendo brilhar os cabelos vermelhos de sua esposa, e quando ela o avista, seus olhos azuis brilham fortes de admiração por seu marido. - Ó princesa da minha vida. Obrigado por quereres estar ao meu lado. Permita-me ser seu protetor, permita-me levar-te por segurança neste caminho,
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(Feiticeira da Neves) – Uma elfa cinza criada pelas mesmas Guerras Místicas (1350 a.c) que o Mago Vermelho venceu só. Uma humanóide de 327 anos de vida e habilidades invejáveis com misticismo e energias provindas da natureza gelada de Kaamos. Com seu manto transparente e seu corpo élfico simétrico, a feiticeira encantava a tudo e a todos. Seus desejos eram grandes, enquanto reinava no norte pólo de Minlurd. 64 (Xanegoli) – Um título. Como um rei ou imperador. Dado ao mais capacitado dragão vivo de Minlurd, que ascende ao divino. 65 (Eligius) – Uma experiência de Zargonias que com muito êxito invocou um elemental de fogo consciente, superior. O fogo puro envolto em uma armadura de platina mágica. General em comando de toda a nação de Hule. Tinha personalidade própria construída a partir de suas observações aos seres humanos.

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e tu continue trazendo-me a alegria de cada dia aqui em Minlurd. – recita com tom formal, um sentimento cotidiano. Em troca ela o toca e seu rosto repousa no ombro forte do marido. Dedanogor sorri para si e permite-se sonhar de quando era menino na fazenda de Gajão Durgovitch, poderia ele, hoje, tentar ser um pai melhor. - Obrigado – repetiu novamente, convicto, de que nada aconteceria a eles. O vento estava batendo incessantemente na janela. Dedanogor trabalhava na forja, Enervous estava viajando. O guerreiro pensava em sua família no piquenique, porem malhava o ferro com força, carecia terminar a peça para estar com eles, precisava merecer estar ao lado deles. A porta da forja sempre ficava aberta, mas por causa do vento estava fechada. E dela ouviu o bater na madeira anunciando um convidado não esperado. - Quem é? – perguntou imaginando se não era Thorkyn devido à força ao bater. Poderiam ter desistido devido à mudança de tempo, ficou feliz. - Não reconhece os amigos? – A voz era de Hireegard. Dedanogor ficou estático. E dizendo isso abriu a porta de súbito. Mais atrás esta o mago Niblihim, envolto em um manto cinza com capuz, não se vê o rosto, mas aparenta sair fumaça preta de onde seria sua face. Em sua mente Dedanogor ouve. - Vangardesh por quê? – Dedanogor afasta-se um passo da porta. - Esta poderoso mago. - responde em sua mente também. Palavras não são ouvidas entre os dois. - Alguns continuam seus caminhos, outros desistem, não posso culpá-lo por ser inferior a mim. Vangardesh cala-se, pensa em sua mulher e seus filhos. Precisa mandálos embora, sua mente turva. – Entrem! – fala tomando a situação pelas rédeas. Logo atrás de Sir Hireegard que entra sem cerimônias, esta Sâmara, mais velha, não só pelos seus anos, mas também pela vida de excessos que tanto ama. Porem continua com o corpo rijo e agora aparenta estar até mais sexy. Ela o encara, fazendo Dedanogor tremer. - Porque nos abandonou. Por que me renunciou, amor? –seus olhos estão enfurecidos. Ela examina a forja, como se estivesse buscando por algo. – Dez anos de relacionamento, deixados nos esgotos Hulísticos. Como pode? Hireegard, que agora sustenta uma garbosa medalha de Carpes no peito. Apaga o fogo da forja, com o balde de água que encontra. Como um alto chiado, o aço esfria, na medida em que o vento se encarrega de levar a fumaça embora. - A corrente! Ele ainda a veste! – grita Sâmara para Hireegard, obviamente o novo líder. – Por favor Vangardesh, ouça-nos, você esta enfeitiçado, permita que Niblihim... - Vejo que sua vida melhorou deveras. – escarnece o baronete. – É até engraçado nós o encontrarmos aqui. Uma vilinha pobre com gente ignorante. Parabéns. Você se superou. – e dizendo isso ri, gargalha saboreando a visão que sempre achara deste homem. Um peão, como outro qualquer. Por dentro Dedanogor sente vontade de vomitar. O frio gelado arrematase contra sua face fazendo-o acordar de um sonho lindo. Porém sabe que não

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pode provocá-los, precisa ganhar tempo para poder raciocinar melhor. Observa enquanto Sâmara o estuda atenta a qualquer reação. - Niblihim, coloque senso na cabeça dele. O livre do julgo deste objeto que já aprisionou um príncipe. – ela diz procurando palavras amenas, para o seu orgulho ferido. Ao mesmo tempo Hireegard continua sentindo um prazer quase sexual pelo estado do desventurado Vangardesh. – Foi difícil mesmo, nem os seus contatos da Adaga de Aço sabiam onde você estava, Enervous não contou a ninguém. Mesmo não perguntando gostaria de lhe contar que estamos bem. Não conseguimos roubar a jóia em Hule, perdemos todos os homens do bando de Onictur e tivemos que fugir para continuarmos vivos. Que espanto tivemos ao saber de nosso honorável líder. Ele havia sumido! Mas estamos bem há doze anos que não nos vemos, é muito tempo... - Hireegard! Agora não é hora para isso! Ele não estava e não esta em são consciência. Niblihim! – Sâmara parece estar enlouquecida, seus olhos vidrados em Dedanogor, buscam trazê-lo de volta dela. Ao perceber isso Dedanogor lembra-se de Diana e seus filhos, e sente dor em seu estomago. O mago começa a proferir palavras desconhecidas e a gesticular sob o manto. Todos param aguardando algo. Na mente de Dedanogor a confusão começa a crescer em morada. - Que vida é essa que eu escolhi para mim? Pacata, simples, humilde, pobre. Rica, honrada, feliz, completa. - Vangardesh! Volte para nós, viemos lhe salvar! Venha meu amor, volte para mim! – grita a guerreira madura, vendo o seu amado apoiar-se em uma mesa com os pensamentos desordenados. Niblihim continua a gesticular. - A corrente, tire-lhe a corrente! – grita alucinada a mulher. Ao tempo que Hireegard se aproxima, Dedanogor o segura pelas vestes na altura do pescoço, empurrando-o com força em direção a Niblihim, fazendo cessar o feitiço. Atônitos, todos ficam com a atitude deste. - Não! – berra o guerreiro gigantesco. – Não vão tirar de mim o que construí. A verdade! Não! Saiam de minha casa. Sumam da minha vida. Nada tenho e quero ter com vocês. Minha mulher é outra, sou casado! - Não! – Sâmara avança enfurecida para cima dele, e segura por Hireegard que a tudo assiste rindo. - Então é assim? Usou-nos e não nos quer de volta. Que assim seja maldito, mas não ouse por os pés em Carpes novamente ou... - ameaça Hireegard. - Desgraçado! Filho de uma rameira! Você me enganou! Eu o odeio! – Sâmara perde o controle e grita ao mesmo tempo em que chora. Por pouco menos de meia ampulheta eles se encararam, lembrando de conversas informais nas mesas das estalagens que se hospedavam em meio as suas missões, até o momento de hoje. Dois instantes separados por uma dezena de anos. A distancia os transformava em desconhecidos. Nenhuma palavra foi proferida, a não ser as de Sâmara, que xingavam incessantemente, ao tempo em que tentava em vão relembrar Dedanogor dos momentos de felicidade ao seu lado. Este permaneceu incólume, negando com a cabeça os pedidos do grupo.

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Hireegard então se afasta segurando uma Sâmara desolada, Niblihim o segue sem falar e nem ao menos olhar para trás. E desta forma os Sabotadores vão embora de Eltas. Deixando para trás um Dedanogor ofegante e cansado. Que os observa até não conseguir os avistar mais. Senta-se por alguns minutos, e reacende a forja, reforçando sua decisão. Continua a trabalhar, deixando para trás suas dúvidas e medos. Olha fixo para a corrente de prata e agradece aos céus por ela. A tarde passa rápido, o malhar do ferro afasta o acontecido, mas traz novos pensamentos. Em um bater de aço contra aço, sente uma pontada no estomago. Como se estivesse sendo ferido no abdômen. - Será que ela não sabe que já é hora de voltar? – Dedanogor enrubesceu, por um momento arregalou os olhos e olhou para espada, na arca negra que guardava sob correntes ao chão da forja. Saiu pela porta ao frio ao meio da vila, largando no chão seu manto de ferreiro e disse: - Onde esta você, mulher? Pegou o martelo da forja e ainda com as luvas de ferreiro correu para a floresta. Correu ao encontro do rio. - Onde está você?! – voltou a bradar enquanto corria pelos arvoredos e arbustos do bosque da represa Celíaca. Um frio cortante sentia em seu estomago. Correndo na floresta Celíaca, Dedanogor encontrou o lugar, todo ele estava queimado. Procurou aflito por algo que não queria encontrar. Desmaiou, caindo como uma árvore ao ser serrada de sua raiz, ao enxergar a cena dos corpos carbonizados a sua frente. Acordou em algum momento já pronunciando. - O batismo de fogo... – lembrou-se de Niblihim e seus olhos tornaram-se vermelhos. Um elo da corrente se quebra, mas esta não se desfaz. O choro não passa e a noite reclama seu lugar nesta cena infeliz. Uma tocha se aproxima carregada pelo velho, Gernon. Em seu braço traz dois de seus filhos, Thorkyn e Nathander sobreviventes. Dedanogor os abraça e aperta-os contra seu corpo, fraco pela dor da perda. Agradece então a Rainaar por eles terem perdurado ao seu passado maculado. Dedanogor enterrou Diana, Nell e Magot. Sozinho os levou a Fonte de Eltas e nunca mais nenhum aldeão ali pisou. ξ O pai continuou a trabalhar, assim como o seu amigo Enervous, que não mais viajou. As noites no bar do Gernon eram regadas a muita cerveja e violência gratuita de um Dedanogor bêbado e desolado. Mas ele continuou, por seus filhos seguiu na labuta, pesaroso, mal humorado, infeliz, bêbado. E dia a dia no oficio de ferreiro prosseguiu. De dia um viciado pelo trabalho, a noite um bêbado vagabundo. Lembrava de Diana diariamente, o quanto ela o havia mudado, fazendoo amar a sua família e amando-o como ele era. Seguiu sua vida, gastando seu tempo a ensinar seus filhos e como pai formou-se em excelência. E assim por dois anos Dedanogor não deixou nada faltar a seus filhos, até que estes por sua vez cresceram e o deixaram para talhar seu próprio

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futuro. Enviou Nathander para o clericato com seus 13 anos. Thorkyn um ano mais novo foi morar com Lemo em Carpes, onde aprenderia, do melhor, a arte do oficio de forjador. Continuou só na forjaria. E só, piorou mais ainda. Nem Enervous conseguia mais agüentá-lo. Gernon e família tentavam em vão, não vender mais bebida a ele, mas acabavam cedendo. Passava horas na casa da mãe de Diana relembrando-se de cada detalhe de sua amada. Perdia-se nos bosques ao pé das montanhas Harmalinas e era sempre resgatado bêbado, por seu amigo brutal. Tinham brigas constantes e vez ou outra se agrediam com socos físicos e verbais. Por fim Enervous aumentou seu trabalho fora de Eltas deixando Dedanogor mais vezes sozinho, a lamuriar da vida. Até que um dia como outro qualquer. Ao trabalhar em sua função, o malhar do ferro, a forja devolveu uma lasca acertando o peito de Dedanogor e fazendo-o rugir de dor. Com o martelo devolveu a agressão acertando não a pederneira que estava a fazer, mais sim ao aço incandescido. O calor subiu e um estilhaço acertou seu olho em cheio fazendo-o desmaiar de dor. Ao levantar só, mais uma vez, apercebeu-se de seu olho queimado. E começou a ponderar que nunca mais enxergaria com ele novamente. O pensamento cresceu e tornou-se buliçoso. - Dê a vida, o que ela lhe dá. - falava com a mão no olho esquerdo supurado. – Parece que o senhor meu pai, me amaldiçoou antes de morrer pela mão de meu machado. - Serei sempre como tu. O fui em ser covarde para amar, e agora continuo o sendo em nunca ter tudo o que eu quero. Em algum dado momento a vida me retirará algo. Para sempre. Nunca serei feliz, sempre haverá algo para cessar minha boa fortuna. – logo pensou em atordoar as indagações com a cerveja e já se preparava para ir à taberna de Gernon, mais uma vez. A porta abriu com força, do batente dela surgiu Thorkyn exatamente como era antigamente. O grande guerreiro Mbola-Nbole das terras de Sembalo, com seu grande nariz achatado e seu corpanzil musculoso. Dedanogor tonteou pela visão do sopro criador de seu mestre. - Meu mestre... – Dedanogor não conseguia se expressar e conseguinte desatou a chorar. – Mestre, a vida tirou de mim... - Silencio! – intimou Thorkyn, seu olhar severo pousou sobre o agora, menino. - Algumas pessoas descobrem que são resultado de suas próprias escolhas, outras nunca descobrem, vitimizam-se. – fala sábio, com o mesmo tom de voz que ensinava a seu pupilo. - Quem é você? Quem é aquele que toma a vida pelas rédeas? - Mas mestre não há mais vida, ela foi tirada de mim. Diana... - Não te ensinei para ser igual ao seu pai, ensinei-te para ser melhor. Não és tu aquele que reflete e censura, reflete e lamenta. Tu foi feito para ser aquele que pensa e age. Um agente causador. - Tudo me leva a pensar que a corrente me deu, assim como tirou. – e falando nisto Dedanogor segura nos elos do ornamento carregado por todos estes anos como um amuleto da sorte. - Tire-a. - Mas se o fizer perderei ainda mais, voltarei a ser o que eu era... – o aluno esperou mais uma explicação, mas esta não veio do professor. Thorkyn

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continuava estático, agora mais parecendo uma simples imagem. Até desaparecer por completo. Um turbilhão de escolhas passaram na cabeça de Dedanogor, o livre arbítrio dado a todos por Rainaar separava, o livre ao escravo. Em meio a tudo, a corrente escorregou do peito deste homem e caiu ao chão em estardalhaço. E então ele percebeu. - Vivi com meus filhos e nunca deixei que os faltasse nada, sempre os protegi e os eduquei para tornarem-se hoje, o que eu nunca fui. Por este motivo fiquei em Eltas para dar-lhes educação e não desgosto, porem a corrente caiu de meu peito, a lasca de aço queimou minha cara mais forte hoje fazendo enxergar a verdade novamente. Ganhei meus dias e os perdi olhando para algo que não existe mais, a violência sempre vai me perseguir, pois foi ela a minha escolha. - O cheiro do pecado trouxe de volta a besta do julgo final e por meio deste findaram minha mulher e dois de meus filhos. Diana nunca deixou me faltar nada e tampouco reclamava de nossa precária vida, a ela devo muito, obrigado. Ela me ensinou que também podemos escolher ser felizes. - Não volto hoje a ser, o homem de outrora. Ninguém é melhor que outrem. Estamos em constante mudança, para melhor ou para pior só nós mesmos podemos determinar. Hoje volto a fazer minhas predileções e como sempre, com competência, escolho ser o que sou melhor, um instrumento de morte. Sabotadores! Pagarão cada um por cada vida tirada de mim! Vangardesh o Impiedoso está de volta!

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Capítulo 15 - A vingança
Seu primeiro encontro é em uma loja de cosméticos Agro-Azul em Carpes. Descobre que uma vez por semana, o agora barão Hireegard vai ao local pegar suas encomendas de produtos vindos de Maior, e Tao. Tal conhecimento conseguido por intermédio de suas conexões com o submundo, Polios um ladrão mendigo informante da Adaga de Aço. Vangardesh o espera dentro da loja já com o seu dono preso e amordaçado nos fundos. Quando o aposentado mercenário e consultor da corte de Carpes chega ao balcão é surpreendido pelo imenso guerreiro. - Nada vai curar a sua cara monstruosa. Deixe que todos possam ver o quão feio você é. – devolve os comentários jocosos de Hireegard, há tanto feitos. O barão fica mais branco que a sua cor natural. Nunca esperaria este tipo de armadilha. Para ele Vangardesh estava preso à aquela vila próxima à represa. O guerreiro veste sua característica armadura negra, lustrada com a força de quem se preparou para a situação. Hireegard sabe que Vangardesh está muito a frente dele, tanto em combate, como em determinação. Faz anos desde que bradou sua espada em sua última missão. - Vejo que não traja mais a corrente em seu peito. Talvez agora possa entender todo o acontecido. Não estamos mais juntos, graças a você, os Sabotadores não existem mais. Deveria estar feliz. - Não há felicidade em mim hoje. Somente depois de matá-lo, darei gargalhada ao ar. Uma vez tomei teu braço, hoje, tomo tua vida. – as palavras de Vangardesh tinham peso, o barão já o havia visto lutar inúmeras vezes, ele era um oponente formidável. - Não desejas saber todo o nosso passado? Não estas curioso por saber o que fizemos na sua ausência? – e falando isso balança a cabeça em sinal negativo. – Não, este não é o verdadeiro Vangardesh, é apenas um devaneio do que fostes. – Irrita-se Hireegard. - Pela primeira vez desde que te conheço, concordo com a tua colocação. Nunca fomos de conciliar um com o outro. – Hireegard sorri anuindo. – Não sou o mesmo, e em semelhante período o sou. Mudei pelo amor, para tê-lo, e ser dele possuidor. Mas minhas escolhas anteriores me fizeram perde-lo. Portanto estás certo, mas juro por tudo o que já roubamos, matamos ou extorquimos, você está morto, só que ainda não tem ciência disso. Hireegard dá um passo para trás, procurando em seu cinturão a espada. Não a encontra. A deixou dentro de sua carruagem do lado de fora da loja. Vangardesh atira-se por sobre o balcão e a luta se inicia. Fora da loja, passantes ouvem sons ensurdecedores e presenciam uma luta titânica. Vangardesh tem a vantagem a princípio, mas logo começa a sofrer com a força demoníaca da criatura, meio homem meio demônio. Quando é arremessado pela parede quebrando quinze centímetros de cimento é que percebe a dificuldade, e como ficara muito tempo parado. Tal fato afugentaria qualquer guerreiro porem não a este homem magnífico. Sua força é ainda maior e seu lema ensinado na antiga escola de cadetes Celíacos, Nunca Cansar, é o seu guia. E desta forma vira a luta para o 196

seu lado. Ambos estão caídos do lado de fora da rua movimentada. Transeuntes param para assistir está contenda vindita. Os guerreiros se levantam e trocam socos poderosos. A máscara do barão voa arremessada por um cruzado certeiro de Vangardesh. O público repudia a visão do rosto asqueroso do meio demônio. Hireegard sente vergonha e tenta esconder-se, preocupando-se mais com a sua aparência à luta, não repara na mão que segura a espada montante. A lâmina carregada de emoção transpassa para fora das costas do barão, rompendo carne, vísceras e roupa nobre. Vangardesh encrava ainda mais a arma de dois metros de comprimento, na medida em que se aproxima da face retorcida do barão. - Morra, criatura demoníaca. Suas férias em Minlurd há muito espiraram, volta para a casa de Amdosias, onde lá, muitos estão esperando para saudar suas dívidas contigo. – e com esta frase final desce a arma por dentro do filho da casa de Vooca, quase o partindo ao meio. O musculoso homem com o corpo banhado de sangue meio negro meio vermelho, toma de volta sua espada a embainhando, ajoelha-se ante o corpo já morto, o abraça com força, alguns chegam a ouvir uma forte coluna se partindo, e levantando-se berra. - Vangardesh o Impiedoso clama esta morte para ele! O som da guarda já estava mais próximo, uma guarnição de dez homens, provavelmente homens de Alquemius. Ouvindo isso Vangardesh monta com habilidade seu cavalo e galopa para longe de Carpes... ξ Seu segundo encontro é em uma mansão nos arredores de Maior, exatamente no protetorado de Hatis na cidade com o mesmo nome. Seu alvo é Sâmara antiga companheira de batalhas e também, de cama. Vangardesh continua tendo ajuda de seus contatos da Adaga de Aço que expandem seus negócios em Maior. A mansão de boa construção, sob medida com detalhes de edifícios Maiores e contornos da decoração Hulística. Um chafariz com a estátua de um grande guerreiro se encontra na entrada e há muito verde com plantas trazidas de todo o continente de Merá. O guerreiro não pensa ao amarrar seu cavalo nos portões de ferro enquanto os abre sem cerimônia. É recebido por dois corpulentos guardas pessoais, antigos guerreiros da Companhia de Mercenários das Garras Vermelhas, onde Sâmara começou sua carreira. Companhia esta, muito ativa ainda em Maior e Dwalin. Vangardesh continua a andar em passos largos em direção a entrada principal, ambos os guerreiros sacam suas armas e aguardam o intruso, em posição estratégica. Impassível, O Impiedoso segue até os dois e puxa sua imensa arma rapidamente antes mesmo de que ambos possam tocar o chão, já mortos, continua sua caminhada até a porta de madeira da mansão. Passando por plantas de até cem anos de vida e na estátua do guerreiro, ele para. A estatua é dele mesmo. - Que Rainaar perdoe esta mulher - ele pensa. Ao abrir a porta não encontra menos do que já esperava. Sâmara conhecida por sua eterna ganância tem sua mansão ricamente decorada. No hall de entrada armaduras completas e cromadas talvez por magia, um lindo

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tapete vindo do continente de Zoll, provavelmente dos habilidosos tecelões da Península de Xan Mi. Suas observações são cortadas quando houve barulhos de botas que descem as escadas, de madeira das árvores que nascem ao longo do rio Pilion. Os guardas do segundo andar avistaram os corpos caídos na entrada. Estes param ao sopé das escadas e avistam o musculoso guerreiro já de posse de sua espada montante, fazendo movimentos de guerra. Aos solavancos eles correm para atacá-lo, desorganizados, afoitos. Vangardesh abre espaço na sala chutando mesas e cadeiras. O primeiro morre facilmente, empurrado pelos seus companheiros ao descerem das escadas. O segundo e o terceiro caem ao mesmo tempo cortados por um só golpe transversal da espada assassina. Os últimos dois guardas param e começam a rodear o guerreiro de armadura negra assustadora. Vangardesh pula com suas botas de fuga de Mingrabim, para a escada. Desta forma fazendo com que apenas um possa atacá-lo por vez. E eles aceitam o convite estratégico, e morrem por sua imperícia na espada ante a tão competente e resoluto oponente. Vangardesh começa a subir as escadas parando apenas por causa de uma adaga de brilhantes e rubis pendurada na parede, ele deu tal adaga quando juntos fecharam o acordo com a reeleição do senador em Falia. - Ao meu lado podemos tudo, sem mim não podes nada. - pensa sobre a frase que havia dito a ela naquele dia sob o entardecer na cidade de Lind, em Falia. Naquela época eram amantes fervorosos, lutavam juntos e amavam juntos com a mesma intensidade. -Ao meu lado podemos tudo, sem mim não és nada. - uma voz de cima da escadaria. Era ela, a linda Sâmara vestida em um robe de seda de Dios, agora com os seus cinqüenta e poucos anos bem vividos em um corpo bem mais novo. -Dedanogor é você? - questiona a mulher enquanto se aproxima. Em sua vida somente duas mulheres mexeram com este frio lutador, Sâmara e Diana. Abre então o seu elmo e a fita com seus olhos azuis. Agora e nunca houve necessidade de conversa entre os dois, não é com delicadeza que ambos de atracam e retiram suas roupas. Da mesma forma que Dedanogor sabe retirar sua complexa armadura a mulher também o sabe. Vão rapidamente para cama de lençóis finos e adornos na madeira feitos por um excelente escultor da escola Maiores de arte. Para os dois existe agora somente esta cama e nada mais. Dedanogor nem chega a perceber a pele de urso Morgranim, ao chão de pedra, nem o armário de madeira de lei de Sairim. Talvez tenha reparado na varanda de mármore com uma luneta virada para a cidade, mas não a pequena tropa de vinte guardas pessoais da própria Sâmara que vem correndo para dentro dos portões juntamente com seu líder e atual amante. Ycarus um experiente guerreiro batedor em sua época dos Garras Vermelhas. Os dois se amam loucamente e trocam frases de puro êxtase e violência. Mas a lembrança destes tempos áureos está distante em Dedanogor Durgovitch. Diana foi o seu paraíso, perdido nas mãos de seu antigos amigos, os mesmo que o juraram fidelidade eterna. - O que fez, Sâmara? - pergunta ao meio dos gemidos de excitação da mulher que outrora amou. A mulher conta, tudo. Por necessitar deste homem que a traz de volta a uma vida de puro prazer, conta também o paradeiro de Niblihim, e geme de pura loucura e total descontrole.

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– Era necessário... para fazê-lo acordar... – fala Sâmara entre uma exaltação e outra. - Me fazer acordar? – pergunta Vangardesh. – Me fez acordar, de um sonho maravilhoso, onde minha felicidade tinha um nome, Diana. Com esta frase que faz com que os olhos e o corpo da guerreira se retesem em ódio, Dedanogor Durgovitch ataca, estrangulando-a. A mulher continua a gemer de dor e excitação enquanto o guerreiro a aperta e penetra em seu corpo. Antes de morrer Sâmara sussurra com o gozo, o gozo da morte. Levantando-se e vestindo a sua armadura, fecha seu elmo e voltando a ser Vangardesh o Impiedoso. Sai da casa e depara-se com vários corpos caídos ao chão, mortos e feridos de uma contenta há pouco. Passa pelos sobreviventes sem titubear e é acompanhado por olhares de admiração e medo. Ao sair pelos portões monta em seu cavalo e acena sua cabeça. Os homens antes paralisados agora correm para dentro da mansão, fizeram o trabalho impedindo quaisquer interrupções ao plano de seu contratante, agora ele parte enquanto os membros da Adaga de Aço saqueiam a mansão... ξ O Golias de negro chega a Falia na cidade de Jigaltar. Lá, já estivera outras vezes na companhia de seu grupo os Sabotadores. Lembra-se da vez que entraram na floresta Lúgubre para caçar uma criatura que mais se assemelhava a um pequeno lagarto com asas. Deveriam levá-lo vivo, um ou mais deles se possível. Mas o que não sabiam na época era o quanto à floresta em si era diferente, com seus criaturas e feiticeiros ermitões. Lá onde Niblihim se perdeu do grupo, logo ele que tinha um medo inexplicável destas regiões. Algo a ver com seu medo inerente de ser capturado por elfos. Estes odiavam mais os elfos negros que os próprios anões de Manaath. Mas agora, Hireegard e Sâmara estavam mortos e ele precisava pegar Niblihim o macho elfo negro da Casa de Marfiria a Tenebrosa. Ele que se lançou fora de sua origem e aventurou-se no mundo dos humanos. Sempre foi um feiticeiro competente, seus pensamentos lógicos e frios predominavam em todas as situações de difícil tratado. Sempre sereno e seguro explicava por horas ininterruptas lições de sua cultura para os que o davam ouvidos. Mas não estava lá para estas boas lembranças, Vangardesh estava lá porque desde seu encontro com Sâmara, imaginava e conjecturava como montar um plano perfeito para emboscar tão desconfiado feiticeiro. Não havia como atacá-lo rapidamente, Niblihim era tão paranóico com a sua segurança que andava na rua com alguns capangas. Ou cegos aprendizes, ou guardas mercenários que cobram pouco por suas vidas. Vangardesh deveria elaborar um plano certo e preciso, pois só teria uma chance de pegá-lo antes que o feiticeiro elfo fugisse para nunca mais ser visto. Por alguns dias o guerreiro se hospedou em uma humilde e esquecida taberna, e observou a mansão do mago, uma fortaleza de pedra vindas, estas, das Montanhas Negras. Os guardas tinham um brasão próprio e cavalos fortes. Havia também dois lagartos gigantes e carnívoros, alguma compra no mercado negro. O gigante com suas conexões com o submundo, pagou bem pela informação prestada, sobre os esgotos do local.

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Era mais um dia comum ao feiticeiro ainda jovem, hoje era o dia de ficar em casa e desfrutar a vida, enquanto aguardava o pagamento de seu novo empregador, um comerciante de peles raras, pela eliminação de seus concorrentes e espionagem mágica. Porém neste dia Niblihim correu para fora de casa... Foi correndo ao banco, para rapidamente resgatar seu dinheiro e itens mágicos e viajar por uns tempos para o emaranhado de ilhas a sul de Falia. Uma carta fora o motivo, uma carta que o assustou de tal forma fazendo-o nem ao menos se preparar decentemente para a viagem. Em sua vil mente fizera um mal tão grande que se culpava ao fugir de tal problema, e alguém sabia disso fazendo-lhe ameaças. Niblihim foi com dois aprendizes e seus cinco guardas bem treinados. Estes sabiam como se defender e defende-lo, tinham até treinado juntos em caso de um ataque mais perigoso. No banco, sacou o dinheiro e o depositou na conta de seu aprendiz, pegou parte dele e rumou para a sala de segurança dos itens mágicos. Esta sala diferente dos outros bancos repletos de armadilhas para os larápios fora construída sobre um espaço de magia morta, ou seja, nada que era mágico funcionava ali. E por esta sala e a segurança que a ela era atribuída que o banco era famoso, e caro. Lá Niblihim entrou sozinho, pois desconfiava dos próximos a ele. Como de costume viu as três grandes estátuas que guardavam a entrada da grande sala. As estátuas eram gigantescos seres de bronze com espadas ainda maiores e armadura completa, nunca havia reparado antes, tamanha a pressa, naquele momento teve lembranças que não conseguiu deduzir. Ao entrar na sala de mesas de rocha, cortada e gavetas e gavetas com os bens mais importantes de diversas pessoas, muitos deles mágicos, sentiu-se inseguro, porem feliz, logo estaria em viagem para bem longe daquela carta. Sozinho Niblihim abriu a sua gaveta, 663. Encontrou todos os seus itens, inclusive seu cetro da missão em Dwalin. - Pena que não chegara à usá-los, pois estará morto antes de passar por esta porta -disse uma voz abafada, na porta da sala famosa. Niblihim não compreendeu a princípio. - Como entrou aqui? Foi você que me mandou a carta? - perguntava em controle o feiticeiro. - Sabia que ao ser defrontado correria para banco para cuidar dos seus bens preciosos, portanto fiz um acordo com o encarregado, amigo de uns amigos meus. - continuava o guerreiro que tirava parte do pó bronze da armadura. - Portanto eu só devo me livrar do seu corpo que eles ficam com as suas coisas, disse-lhes para não se preocuparem, pois, quando tiver acabado com você nem a vadia da sua matriarca vai achar suas cinzas! –com estas palavras entra na sala golpeando violentamente o elfo negro. Niblihim que estava preparado ao sair, descobre-se agora totalmente indefeso, por causa da condição da sala. Não há tempo para conversas, o mago tenta reagir com feitiços rápidos, mas todos eles falham dentro deste local, Vangardesh impiedosamente golpeia a carne negra do elfo fazendo jorrar o sangue vermelho-prata e grosso tão peculiar nessa raça. Na mente do guerreiro, imagens de atrocidades cometidas, alteram seu comportamento já violento. Dedanogor Durgovitch ataca sem defender-se, completamente insano pelos pensamentos obscuros que lhe vêem a mente. O

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golpe decisivo e desferido na testa do elfo já sentado no chão, com um pendulo de cima para baixo, rachando o cérebro outrora poderoso do mago, em um naco de carne quente. Ainda vivo com metade do rosto o elfo tenta se levantar e cambaleando cai por fim no chão gelado. Vangardesh embainha sua espada montante e dá um pequeno assobio para o lado de fora da sala. Dois funcionários do banco o ajudam a trocar de roupas e a sair, por uma saída exclusiva para eles. O gerente receberá seu dinheiro que nunca chegou a ser realmente transferido para o aprendiz, os aprendizes e os guardas ficariam sabendo da fuga do seu mestre com todo o dinheiro e seus itens e os que tentassem investigar por si próprios desaparecem sem deixar pistas, os funcionários ganharam sua parte em ouro, todos dormiriam felizes hoje... ξ O inverno chega a Eltas de forma intensa e perene. O ano de 182 DC tem um dos mais rigorosos invernos de todos os tempos. Anos se passaram e hoje está a trabalhar na forja um Dedanogor mais velho, mais feliz. O vento gelado das montanhas Harmalinas corta o som do aço sendo malhado, com seu assovio harmônico. O som de bater na porta faz Dedanogor assustar-se. - Seria Thorkyn meu filho a me visitar? Ou Enervous que não vejo a muito? – questiona-se o guerreiro experimentado em luta. Há tempos permitese sonhar baixo e desfrutar cada momento, sem orgulho ou vergonha. Mas da porta surge uma figura coberta de neve, o branco da estação só serve para aumentar o brilho da armadura deste cavaleiro de Rainaar. Tirando o capuz que lhe protegia da estação, o cavaleiro dez anos mais novo que o ferreiro destina. - Preciso do senhor. Peço a quitação do débito prometido. Pois juntos a isso colocaremos...

FIM

O pássaro voa ao longe, atento a tudo e a todos. Voa com agilidade e sapiência. Feliz, sem julgamento, nem culpa, neste mundo sem bem e mal, apenas de homens...

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(Outrora)

Linha do tempo.

1500AC 0DC 132DC (Começo) -------------------/-----------------/---/-----------------/-----------0 – 55 C AC – Antes do cataclismo. (Invasão de demônios). C – Durante o cataclismo. 0-50 C dominação das criaturas infernais. 50-55 C - Guerra do Compacto. DC – Depois do cataclismo.

ξ

Panteão em Minlurd. Por ordem decrescente.

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Rainaar – Deus maior. O Criador. Amdosias – Deus maior. O Destruidor. Nastar – Deus da natureza viva. Adorado pelos elfos. BalGor – Deus da natureza morta. Adorado pelos anões. Thú – Deus da guerra. Adorado pelos humanóides. Pax – Deus da paz. Xanegoli- Criaturas místicas evoluídas de prosélitos orientais. Adorado em Tao e Mang Po. Rei dos dragões. Sentinelas – Anjos de Rainaar. Príncipes Infernais – Anjos de Amdosias. Co-on – Deus guerreiro do cataclismo. Autor do Compacto. Solarius – Deus do sol. O sol. Asmodeus – Príncipe Infernal adorado em Hule. Zath – Deus aranha. Adorado pelos elfos negros. Mago Vermelho, dragões, Zargonias, Cavaleiro Branco: Seres de extremo poder em Minlurd.

ξ

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Glossário:
(Criaturas) – Todos os seres vivos de Minlurd, que não humanos ou humanóides. (Dragão) - São criaturas conhecidas por diversos povos e civilizações. São representados como animais de grandes dimensões, de aspecto reptiliano (semelhantes a imensos lagartos ou serpentes). Existem antes das outras criaturas, humanos e humanóides. Seres superiores, podem alçar vôo, tem vastos poderes místicos e inteligentíssimos. Podendo viver até mais de dois mil anos. (AC) – Antes do cataclismo. (Demônios) - Cada um dos anjos caídos ou gênios maléficos do Infernum. Procura a perdição dos seres e criaturas de Minlurd. Sujeitos a Amdosias. Alimentam-se de energia vital dos seres de Minlurd. Ódio, rancor, perversão, corrupção são uma das ferramentas utilizadas por estes seres de poder superior. (Cataclismo) – Período de 0C-55C. A invasão demoníaca a Minlurd. O continente dos Seis Reis tem este nome pela união de seis homens de ideais nacionalistas. Ao meio de seu reinado absoluto envolveram-se em pesquisa com o Império da Morte, afim de propagar a idade da morte de seu povo. Os feiticeiros necromantes em brigas fatoriais dividiram-se em duas facções recheadas de dinheiro dos cofres dos reis. O Império da Morte, estudiosos da vida além Minlurd. Patrocinados em seus estudos para propagar a vida. Criou-se um grupo conhecido como os Infernalistas. Facção esta desejosa de dominar seres inferiores e seus poderes místicos poderosos. E assim se deu o cataclismo em meados de 1499AC. Predito por sábios e ciganos. Os Infernalistas abusaram de suas liberdades e conjuraram o primeiro. O demônio fora preparado por Amdosias, no Infernum para abrir os portões para Minlurd. Pela própria vontade dos nativos daquele mundo. Logo os Infernalistas enganados pelas inteligentes criaturas, transformaram-se de mestres a servos. E os demônios abriram os portões para Minlurd. (Moedas) – Dinheiro de Minlurd. Dividem-se em valores de cobre, prata, ouro e platina. Normalmente pelo câmbio constante não tem nomes específicos. Mas são cunhadas por cada região. (Hulísticos da Costa Escarpada) – Região leste do Império de Hule. Costa do Mar Zargoniano, próximo a Bullbara. Lar de homens duros e rústicos, nervosos e belicosos. (A luz dos viajantes) – O único satélite natural de Minlurd. Maior em tamanho que a lua terrestre. Dizem os mais sábios que o Mago Vermelho mora em uma das regiões da Luz dos Viajantes. (Mago Vermelho) - O Mago Vermelho, um ser humano que nasceu bem antes do cataclismo. Ganhou status nas guerras místicas que ocorreram em 1350 AC, ou seja, há 371 anos atrás. Era um feiticeiro competentíssimo que conseguia controlar os elementos da magia, enquanto no local. Tão poderoso que se aproximava do divino. (Humanóide) - É todo o ser que tem aparência semelhante ou que mesmo lembre um humano, não o sendo. Seres humanóides são bípedes de corpo ereto e possuem dois olhos, um nariz e uma boca na face dispostos com a mesma ordem da face humana. Se subdividem em raças como: elfos, anões, gondes, gnomos, homem-lagartos, minotauros, brutais, Hienídeo, centauros, elfos cinzas, trasgos. (Grande Mãe) – Nome dado a cidade de Derghemom. A capital cosmopolita do reino que possui o maior volume de comercio em Minlurd. (Gondes) - Uma raça de pequena estatura, cabeças horizontalmente ovais, orelhas pontiagudas para os lados. Não pesavam mais de cinqüenta quilos cada. Sua pele era grossa e verde, seus braços curtos não limitavam suas habilidades. Apesar do cérebro diminuto, em alguns lugares poderiam comparar sua inteligência a de humanos ignorantes, bárbaros. (Hienídeo) - Um homem com a cabeça de hiena, rabo, pernas arqueadas como um canídeo. São humanóides de até um metro e setenta, pesando até noventa quilos. Seus corpos possuem pelagens de várias cores, e são musculosos. Agéis, ferozes, sem humanidade alguma. São a infantaria de muitas raças. Cultuam ao deus da guerra Thú. (Brutal) - Humanóide de mais de dois metros e cinqüenta, pesadíssimos. Eram muito usados em guerra dois deles conseguiam derrubar um pelotão inteiro de infantaria. Hostis e bárbaros, cérebro pequeno, porém eram imprevisíveis, sempre tendendo a violência explicita. Cabeças quadradas e corpo fortíssimo. Lábios e nariz exageradamente grandes possuem pele como os humanos, alguns são muitos peludos. (Minotauro) - O Minotauro possue corpo de homem e a cabeça de touro. O corpo de homem é proporcional ao seu tamanho e envergadura. Podendo atingir até dois metros e vinte centimetros de altura, com seus duzentos quilos de peso corporal. Possue pelagem curta de cores diversas e é muito musculoso. Na sua maioria são seres rústicos e ignorantes. (Falia) – Magocracia. Um reino regido por feiticeiros. Sua capital fora erguida a volta do grande lago, e dentro dele. Torres altíssimas dominam este cenário onde luzes se acendem e apagam ao sabor da vontade e criaturas exóticas andam pelas ruas normalmente. (Titans, 1480 AC – 5C) – Grupo de heróis e aventureiros de pouco antes do Cataclismo. Composto primordialmente por Sir Murdock (paladino, fundador da Ordem da Honra Imaculada), Gaulon (guerreiro

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de coração nobre), Gaubecc (elfo com poderes místicos), Anacrucius (meio-elfo feiticeiro) e outros integrantes que se afastaram ou morreram ao lado deste grupo. (Guerra do Compacto) – Período entre 50 C a 55 C (Cataclismo). Onde os seres de Minlurd lutaram lado a lado contra o julgo dos demônios que dominavam o planeta. (Anão) – Raça de humanóides de estatura baixa e corpos fortes e musculosos. Não são belos, mas de força de vontade supremas, usam grandes barbas e seguem códigos de conduta estritamente severos. Vivem no subterraneo, e são mestres da pedra e do aço. Cultuam a BalGor, o deus da natureza morta. (Lupã) – Cerveja produzida da cevada vinda dos Durgovitch. Espécie de cerveja de marca específica. (Mocho Real) – Criaturas raras, místicas. Podem alcançar até três metros de altura e caçar qualquer tipo de criatura. Dizem que alguns destes Mochos são seres inteligentes e conseguem comunicar-se com viajantes e questioná-los. Um jogo para estes animais, onde a resposta incorreta acarretaria em uma morte consentida. Tem sua própria organização social. (Amdosias) – Como Rainaar é a criação, o deus supremo. Amdosias é a destruição, o revés de Rainaar. A ruína. O revés. (Cavaleiros Achillanos) – Ordem de soldados de elite do reino Maior. (Inquisição Hulística) – O império de Hule é uma teocracia, regida por Zargonias. Um enviado dos próprios deuses. Qualquer religião que não seja o culto ao imperador e a Amdosias é caçada e massacrada dentro do território. (Solarius) – O astro sol, o deus da luz. Cultuado em muitas nações. (Cataclismo) - Período de 0C-55C. A invasão demoníaca a Minlurd. O continente dos Seis Reis tem este nome pela união de seis homens de ideais nacionalistas. Ao meio de seu reinado absoluto envolveram-se em pesquisa com o Império da Morte, afim de propagar a idade da morte de seu povo. Os feiticeiros necromantes em brigas fatoriais dividiram-se em duas facções recheadas de dinheiro dos cofres dos reis. O Império da Morte, estudiosos da vida além Minlurd. Patrocinados em seus estudos para propagar a vida. Criou-se um grupo conhecido como os Infernalistas. Facção esta desejosa de dominar seres inferiores e seus poderes místicos poderosos. E assim se deu o cataclismo em meados de 1499AC. Predito por sábios e ciganos. Os Infernalistas abusaram de suas liberdades e conjuraram o primeiro. O demônio fora preparado por Amdosias, no Infernum para abrir os portões para Minlurd. Pela própria vontade dos nativos daquele mundo. Logo os Infernalistas enganados pelas inteligentes criaturas, transformaram-se de mestres a servos. E os demônios abriram os portões para Minlurd. (Meio-elfo) – Nascituro de mãe elfa e pai humano. Relação rara entre raças. Possui algumas características élficas e outras humanas. Vive mais que um humano. Não é bem aceito na cultura élfica. (Elfos cinzas) – Raça humanóide de elfos. O primeiro elfo, Zath, indignando-se com a subserviência a Nastar (o deus da natureza viva), rebela-se, fugindo para o subterrâneo e criando assim uma nova raça. São seres inteligentíssimos e dedicados as artes místicas. Por terem natureza rebelde, são belicosos e não necessariamente maus. Porém extremamente egoístas e tem com desdém as outras raças. (Centauro) - Uma raça de seres com o torso e cabeça de humano e o corpo de cavalo. Podem atingir a altura de dois metros e pesar até trezentos quilos. Vivem próximos aos elfos e fazem aliança a eles. Podem ser encontrados em regiões humanas, mas são raros e apreciados por sua natureza exótica. (Arena da Morte) – Em Maior, as arenas são cultuadas como esporte e diversão. A famosa Arena da Morte na própria capital, abriga jogos reais e sangrentos. Espetáculos de vida e morte. (Elfo) - Humanóide de formas simétricas perfeitas, corpo esguio e delicado, um pouco mais baixo que humanos. Associados a beleza suprema, vivem em florestas e bosques densos. As artes místicas são naturais a todos desta raça. São seres sensveis, de longa vida, estreita ligação com a natureza e com a fauna. (Cavaleiros Achillanos) – Cavaleiros do reino Maior. Guerreiros corajosos que lutavam na linha de frente das invasões no continente de Sembálo. Soldados de elite. (Ngola-Mbole) – Língua Sembálo. Significa: General de guerra. (Mulóji) – Língua Sembálo. Significa: Magia. (Cratus)- General líder da conquista a Sembálo. (Demônio) - Cada um dos anjos caídos ou gênios maléficos do Infernum. Procura a perdição dos seres e criaturas de Minlurd. Sujeitos a Amdosias. Alimentam-se de energia vital dos seres de Minlurd. Ódio, rancor, perversão, corrupção são uma das ferramentas utilizadas por estes seres de poder superior. (Homens-Lagarto) – Humanóides de pele encouraçada. Medem cerca de dois metros e vinte a dois metros e cinqüenta. Corpos reptilianos com cabeça de crocodilo e caudas enormes. Pesados e fortes. Rivalizam apenas com os brutais em constituição. (Zargonias) – Um resquício do cataclismo. De aparência humanóide, com seus dois metros de altura, e corpo magérrimo, sua cabeça é um crânio humano que exala forte fumaça cinza. Dizem ser das cinzas daqueles que já morreram. Dedos longos de imensas unhas compridas. Inteligentíssimo, um feiticeiro do além vida, um filho de Amdosias.

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(Manaath) - Um vulcão extinto com 25 km de altura, 600 quilómetros de diâmetro na base e uma caldeira de 60 quilómetros de largura. Tem um declive suave. Aquela que toca o céu. A primeira maravilha do mundo, o primeiro lugar a ser tocado por Rainaar, quando este pousou em Minlurd. (Tracias) - Águias gigantescas que serviam de armas militares para os anões. Um carroção era preso na barriga da ave. Cordas de cabelo de gigante presos as suas quilhas controlavam seus vôos por intermédio de um piloto anão. Em meio ao combate infantaria anã era despejada em cima de seus combatentes vinda por ar. (Sophronistés) - Famoso pedagogo do continente de Merá. (Macaco Vermelho) – Envergadura de um gorila. Este macaco possuía garras afiadas nas mãos e pele avermelhada, tendendo para o ruivo. Forte e ágil como os símios, era temido em Sembálo e apreciado como criatura a ser vendida para comerciantes exóticos ou donos de casas de jogos de arena. (Leão Negro) – Grande felino. Assemelha-se a um leão, sua coloração é negra e sua juba ébano. Um animal gigantesco mede cerca de cinco metros de largura e pesa até meia tonelada. Seu rugido é assustador e ferocidade conhecida. É conhecido como Amba em Sembálo. (Bullbara) – Continente oriental. Território humanóide. Região de guerras constantes entre os humanóides. Veneram ao deus Thú e lar das criaturas mais sanguinolentas de Minlurd. (Dama de sangue) - Mulher que escolhe seu campeão em um dado combate. Conforme as apostas são feitas, a proporção para o escolhido é aumentada sempre em dois. (Quatro Divisões) - Jogo que simula o conflito entre dois exércitos, cada qual composto de 16 peças passíveis de movimento em tabuleiro subdividido em 64 casas, e disputado com a utilização de intenso raciocínio lógico e estratégico. (O Compacto) - Documento assinado entre Co-on e Amdosias ao final da Guerra do mesmo nome. O declaração divina é um acordo que baliza a influência demoníaca entre os seres de Minlurd. Um tratado feito entre deuses para cessar a guerra. Não são reconhecidos por Rainaar, o deus supremo. O mesmo não compactua com o Amdosias. (O Corredor) – Estrada que passa bem ao meio de duas seções das Montanhas Negras. Uma na parte norte, fronteira de BirgGamam. E o outro na parte sul, fronteira com Falia. (Código de Bullbara) - Uma norma não escrita que permitia a qualquer humanóide ofendido tomar a lei pelas próprias mãos e se vingar daquele que o ofendeu, desde que este o fizesse sozinho.
1 (Thú) - Deus da guerra. A energia eterna. Competições, paixões grandes conquistas, são celebradas em nome deste deus. Também conhecido como o deus da vida. O vigor, firmeza, altivez. 1 (Stra Darf, Num Darf) – Língua anã. Significa: Nascer anão, morrer anão! 1 (Ordem da Honra Imaculada) – A Ordem da Honra Imaculada criada em 50 C (Cataclismo) por Sir Murdock, com o objetivo de mostrar luz mesmo sobre a escuridão daquele período. Os cavaleiros nascidos na época do cataclismo tinham como principal missão expurgar as hordas demoníacas e trazer fortuna favorável aos humanos da Merá Ocidental. (Elemental) – Seres de pura energia. Cada qual referente ao seu estado natural. Fogo, terra, ar, água. Os elementos em seu estado místico mais poderoso. Tem vontades próprias, mas se controlados podem oferecer fonte de energia quase que inesgotável. Podem ser conjurados para a serventia de feiticeiros. Não só em seu formato natural, mas também em outras configurações, entre elas a forma humanóide. Em 720 AC na era das grandes descobertas místicas em Minlurd foram os primeiros a serem controlados por místicos. (Pax) - Deus da paz. A ausência de conflitos. Celebrações, festas, amor. Panteão de Minlurd. Também conhecido como o deus da morte. O descanso final. (Peste Gondionica) - A peste Gondionica (166 DC), começada em Brita por uma horda de gondes infectados com uma rara doença assolou os reinos vizinhos. Afetando humanos e humanóides sem distinguir raça. Um resfriado e mal estar para os da raça gonde, porém uma doença mortal para os humanos. Morreram mais de quinhentos mil habitantes de Brita em uma época que se acreditava ser um castigo divino. (Rurr) – Ser humanóide da raça dos demônios. Uma criatura de tamanho humano, porém com asas cinzas semelhante a dos morcegos e grandes presas pontiagudas, corpo musculoso também acinzentado. Cabeça humana com expressão grotesca, um assassino, voltado para os pecados da carne, como o sofrimento do corpo e a extinção da vida. (Império da Morte) – Escola de feiticeiros com mesmas tendências. Estes magos estudavam a necromancia. A passagem da morte e outros planos de existência. Os estudiosos do fim da vida. (Torneios Celíacos) - Competições com corridas, natação e jogos de lutas. Que incluíam o pugilato, as lutas com o escudo e a espada e as famosas justas. De dois em dois anos os torneios Celíacos enchiam as cidades e vilarejos de alegria. Os dias dos jogos davam sempre no verão.

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(Espada Justiceira) - Espada de tamanho mediano, com dois gumes. Feita de platina e perfeitamente confeccionada. Possui energia mística, e consagrada pelo alto clero de Rainaar e dada de presente a Sir Fhorgrim pelos serviços prestados. Tem o poder de discernir o justo do injusto. (peão) - No jogo das Quatro Divisões, a peça de movimento limitado, a qual se desloca só para frente, de casa em casa, à exceção do seu primeiro movimento, no qual pode deslocar-se uma ou duas casas (Quatro Divisões) - Antigo jogo, sobre um tabuleiro de 64 casas, alternativamente pretas e brancas, no qual dois parceiros movimentam 32 peças ou figuras de diferentes valores, em geral esculpidas em madeira, massa, prata. Sendo 16 para cada jogador: 1 rei, 1 rainha, 2 torres, 2 bispos, 2 cavalos e 8 peões. (Infernum) - Lugar em que se encontram os que morreram em estado de pecado, expressão simbólica de reprovação divina e privação definitiva da comunhão com Rainaar. (Feiticeira da Neves) – Uma elfa cinza criada pelas mesmas Guerras Místicas (1350 a.c) que o Mago Vermelho venceu só. Uma humanóide de 327 anos de vida e habilidades invejáveis com misticismo e energias provindas da natureza gelada de Kaamos. Com seu manto transparente e seu corpo élfico simétrico, a feiticeira encantava a tudo e a todos. Seus desejos eram grandes, enquanto reinava no norte pólo de Minlurd. (Xanegoli) – Um título. Como um rei ou imperador. Dado ao mais capacitado dragão vivo de Minlurd, que ascende ao divino. (Eligius) – Uma experiência de Zargonias que com muito êxito invocou um elemental de fogo consciente, superior. O fogo puro envolto em uma armadura de platina mágica. General em comando de toda a nação de Hule. Tinha personalidade própria construída a partir de suas observações aos seres humanos.

A Grande Mãe – Cidade de Derghemom. A luz dos viajantes – A lua de Minlurd. Amdosiamente- Diabolicamente. Arena da Morte – Arena de jogos mortais e reais, Império de Maior. Arena dos Campeões – Espetáculos forjados, Derghemom. Analectos de Sophronistés – Famoso pedagogo do continente de Merá. Atheus – Deus dos descrentes de magia. A luz que brilha na escuridão- A elfa dos esquilos, a luz do cataclismo, a avatar de Rainaar. Bradit – Moeda de prata de Derghemom. BalGor- Deus dos anões, vindo da pedra. Bicudo- Cavalo de Vangardesh, ganhou este nome por sua coragem. Coração de Solarius – O sol. Código de Bullbara – Norma, não escrita. Qualquer humanóide ofendido pode tomar a lei nas próprias mãos, sozinho, e exigir vingança. Tríade – Sociedade de magos de guerra. Societário. Costa Escarpada – Hule. Território a leste, próximo ao continente seis reis. Deserto de Ghundarak – Vasto em extensão. Sembalo. Danis – Moeda de cobre de Derghemom. Deserto de Fogo – Dwalin. Altíssimas temperaturas. Dama de Sangue – Mulher que escolhe seu campeão em um dado combate. Se apostas houverem, esta se encarrega de aumenta-las para o escolhido. Da mão pesada- Nome dado a Lemo, mestre ferreiro, devido a sua maestria na arte da forja. Espada Justiceira- Espada mágica de Celacious, a arma tem o poder de discernir entre o justo e o injusto. Flor de Lis – Medalha do chamado ao dever, Celeus. Floresta Sem Sombra – Hule. Lar do príncipe Karrdoin, destronado em 15DC. Fisbralá – Nome do dragão vermelho exposto no museu das Torres Idênticas em Hule. General Cratus – Líder da expedição conquistadora a Sembalo. de Hule. Heya- Um antigo comprimento usado pelos anões da montanha de Manaath. 208

Lupã – Cerveja dos Durgovitch. Lekar – Cidade humanóide nas Montanhas de Granito. Montanhas Negras – Cordilheira de montanhas em Derghemom. Montanhas de Granito – Localizam-se no Império de Maior. Mulóji – Magia negra, mau agouro. Expressão usada em Sembalo. Morgranim – A árvore que anda a mais de 138 anos. Montanhas de Manaath – Aquela que toca o céu. A primeira maravilha do mundo. Marcos Celeus – Na revolução de 90 DC consagrou-se rei e separou Celeus do Império de Maior. Montanhas Harmalinas – Vila de Eltas. O Dejeto – Criatura dos esgotos da cidade de Hule. O Corredor- Corredor das montanhas negras, Derghemom e Celeus. O grande baú- Banco famoso em Celeus, Derghemom, Maior. Usa armadilhas e magias para afastar os criminosos. Praça dos Titans – Heróis do início do cataclismo, Derghemom. Proibis – Sociedade mágica de conjuradores. Pântanos de Karkor – Império de Hule, lar dos homens lagartos. Quebra parede- Wall Breaker, clava de aço de Enervous, mágica. Rune – Demônio do assassinato, proferido por Anand monge de Co-on. Zath – A aranha deus dos elfos negros.

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