You are on page 1of 152
silvio meira no G1: 66 textos publicados em 2006 e 2007 silvio@meira.com , http://smeira.blog.terra.com.br ,

silvio meira no G1:

66 textos publicados em 2006 e 2007

silvio@meira.com,

http://smeira.blog.terra.com.br,

http://twitter.com/srlm

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

este arquivo contém mais de um ano de textos de silvio meira para o G1, desde o início do site noticioso da GLOBO até a última semana de 2007.

à exceçãoo de pequenas correções ortográficas, os textos estão publicados exatamente como foram à web no site; isso faz com que muitos dos links originais apontem para o nada, como é o caso da web no mundo inteiro.

a motivação para levar os textos de volta à rede, neste formato, é o desaparecimento do arquivo de publicações do próprio G1 em junho de 2009. eu deveria ter feito isso à época, mas o tempo

mais recentemente, me chamou a atenção um estudo da british library, publicado em beta, sobre preservação da memória digital pessoal. ao começar a escrever um texto sobre tal tema para meu blog no terra [que estou publicando em pdf a cada fim de ano, como forma de

me impus a tarefa de recuperar para mim mesmo [e uns poucos leitores] o que estava na rede e sumiu.

preservação

]

chega a ser curioso que já em 2009, meros três anos depois de começar, o G1 já estivesse [como, aliás, quase todos os sites] descartando conteúdo pelo qual, por sinal, pagou para publicar e que, por contrato, não estaria em nenhum outro lugar da web. é como se toda

como se só o aqui e o agora importassem.

informação fosse pontual, extemporânea, perecível

não acho não. há muita coisa nestes textos que penso até hoje, que ainda refletem minha opinião. outras tantas deixaram de valer e, por isso mesmo, são tão importantes quanto as que ainda valem: me mostram [e aos outros, que me lêem] que mudo. que mudo muito e erro muito. talvez mude tanto porque erro na mesma intensidade

anyway: aí estão os textos, para guarda e referência. as ilustrações são de leo aragão, que muito gentilmente permitiu sua reprodução aqui. grato, leo. o tag cloud, feito a partir de todas as palavras no arquivo, vem de wordle.net. e todos os erros, acertos, etc., claro, são meus mesmo.

boa leitura.

recife, abril de 2010

silvio lemos meira

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

silvio lemos meira, nascido em taperoá, paraíba ['55], é formado em engenharia eletrônica pelo ITA ['77], mestre em informática pela ufpe ['81] e phd em computação pela university of kent at canterbury, uk ['85]. casado com kátia betmann, é pai de cecília, diana e pedro.

meira é professor titular do centro de informática da ufpe, onde leciona engenharia de software e história e futuro da computação; é cientista-chefe do c.e.s.a.r, onde coordena o grupo de inovação e os esforços de gestão de conhecimento e redes sociais, métricas e estimativas em projetos de software e compartilhamento de informação P2P; é presidente do conselho de administração do portodigital e membro do comitê assessor de tecnologias da informação do mct; parceiro da rede avina, é colunista do terramagazine, onde escreve sobre tecnologias da informação e comunicação e seu impacto político, econômico e social; é ainda comentarista da CBN, no BITs da NOITE, às terças, às 22h40. meira é consultor independente de políticas e estratégias de informação, informática e inovação.

autor de mais de duzentos artigos científicos e tecnológicos publicados em congressos e revistas acadêmicas e de centenas de textos sobre tecnologias da informação e seu impacto na sociedade, publicados na imprensa leiga e de tecnologias da informação, meira já supervisionou [desde 1985] mais de noventa teses e dissertações de doutorado e mestrado. silvio meira foi pesquisador do cnpq por mais de 15 anos; foi membro dos conselhos d'o estado de são paulo e da philips latin america; concebeu e coordenou o programa temático multi-institucional em ciência da computação [protem-cc] do cnpq; criou e coordenou o programa de doutoramento em ciência da computação da ufpe; foi assessor da secretaria de política de informática do ministério de ciência e tecnologia; foi membro do primeiro comitê gestor da internet.br, da primeira comissão nacional de avaliação da educação superior [conaes] e presidente da sociedade brasileira de computação; foi consultor do world bank [infodev] e do united nations development program; foi um dos criadores e primeiro presidente do c.e.s.a.r, centro de estudos e sistemas avançados do recife, um dos criadores do porto digital, ecossistema urbano de informática no recife antigo e um dos três cientistas por trás do engenho de busca radix.com.

meira foi colunista [entre outros] do diário de pernambuco, jornal da tarde, agência estado e da revista eletrônica NO e do G1. recebeu, da presidência da república, as comendas da ordem nacional do mérito científico [1999] e da ordem de rio branco (2001). em 2006, recebeu do governo de pernambuco a mais alta comenda do estado, a ordem do mérito dos guararapes. em 2008, recebeu a medalha do conhecimento do ministério do desenvolvimento, indústria e comércio. meira participou do desenvolvimento de muitos empreendimentos inovadores e está atualmente envolvido com meia dúzia deles.

em 2005, silvio meira foi eleito, pela revista info, um dos três mais importantes evangelistas de tecnologias da informação do brasil. em 2007, a revista época o elegeu um dos 100 mais influentes brasileiros. em 2009, foi uma das entrevistas do “pensamento nacional” da HSM management e entrevistado do mês de janeiro da revista marie claire. meira é o entrevistado - novamente- do "pensamento nacional" da HSM management de março de 2010.

silvio meira é do carnaval e batuqueiro de maracatu: não aceita convites para nenhuma outra coisa, em janeiro e fevereiro, que não tenha frevo, caixas, abês, alfaias, gonguês e reis, rainhas e damas de passo nas ladeiras de olinda e no bairro do recife antigo, onde sai num monte *mesmo+ de blocos e toca n’acabralada. no resto do ano, brasil e mundo afora, meira faz palestras sobre inovação, criatividade, empreendedorismo, TICs e seus impactos sociais e econômicos, redes sociais, games e educação, sociedade da informação, políticas e estratégias de informação, motivação

veja silvio meira em http://twitter.com/srlm e http://smeira.blog.terra.com.br e, para entrar em contato conosco, use os endereços silvio@meira.com e masuki@meira.com ou ligue para auana carvalho no [81]34254714, auana.carvalho@cesar.org.br.

2

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,,

bbbn,,,,,, bbbn,,,,,, bbbn,,,,,, bbbn,,,,,, bbbn,,,,,, bbbn,,,,,, bbbn,,,,,, bbbn,,,,,, bbbn,,,,,, bbbn,,,,,, 3 

3

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Conteúdo

A

banda larga mudará nossa experiência de rede

8

Por que somos tão poucos na internet brasileira

10

Aviões não saem por aí, no espaço, como bem entendem

12

Grandes negócios na rede -chegou a hora, de novo?

14

Toda ciência é da computação

16

Deitada em berço esplêndido?

18

Pequena receita para um Brasil digital

20

Somos todos parte da infosfera; o controle de vôo também

22

Comunicação: acesso deveria ser público e aberto?

24

Vírus (virtual) ataca mundo (virtual)

27

Confusão Digital

29

O

Caos Aéreo Nacional: único exemplo?

31

Varejo virtual cresce e (tenta) aparece(r)

33

Lá vem chegando o

futuro

36

Mais previsões para a vida digital em 2007

38

Algumas previsões para software em 2007

40

4

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

O

futuro da internet é cada vez mais

você

43

Somos programas, somos e seremos programados

46

Second Life: ditadura e desastre ambiental

 

48

Mangue beat. Manguebeat.

 

50

IPTV. O que? Infinitas Possibilidades de TV

 

53

O

Carnaval e a Borda da Web

55

Ora (direis) ouvir

blogs!

 

58

A

nova aristocracia

60

Começar. E começar de

 

62

Vovó vendo TV

64

Drogáudio, o novíssimo ruído da internet

 

66

A ameaça do “Googlepólio”

 

68

Blogs: 10 anos de (r)evolução

70

O

trabalho do futuro (e o futuro do trabalho)

73

Nossa TV digital começa em dezembro

 

75

Pandora, caixinha difícil de controlar

78

Informática Esperta. Mesmo?

80

O

trabalho dos poderosos

e infelizes

82

Convergência digital

no celular

 

84

O

virtual, seu controle, nossas liberdades

86

Sucesso é Confusão

 

89

5

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Breve, num celular perto de você

92

A

nova indústria cultural

94

Tecnologia pra lembrar. Pra esquecer

96

A

Copa de Futebol e o Congresso de Robôs

98

Feira do Paraguai: liberou (quase)

100

O (verdadeiro?) impacto da web

102

A fuga dos anúncios

 

104

Movimentos no mundo móvel

106

Rádio digital: a decisão brasileira

108

De onde vem o futuro?

 

110

Há vida em Second Life?

112

Cada dia que passa

114

A

pirataria de software diminui. E daí?

116

Um Brasil que cresce como a China

118

Rádio Digital: a indústria acorda

120

O

esgoto é a solução

122

Pelas próprias mãos, com o próprio bolso

124

Deixando de existir

por um tempo

126

O

doutor e o controle remoto

128

Homens, Mulheres, Crianças e Novas Mídias

130

6

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

É preciso abrir os mundos virtuais

132

O

maior problema dos celulares

134

É informação? Deixe comigo, cuido de tudo

136

Nintendo detona a competição

138

A “bandinha” do Natal

140

MP3: padrão, grátis e legal no ano novo

142

Ano Novo, Tecnologia Nova: 3G

144

Feliz Natal, Brasil Digital

146

O

futuro das tecnologias da informação e comunicação

150

7

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

A banda larga mudará nossa experiência de rede 1

Parece que foi ontem, mas já vivemos mais de uma década de internet. Lá atrás, teóricos enchiam a boca para falar do “ciberespaço”, termo cunhado por William Gibson em 1982 e popularizado dois anos depois em seu famoso “Neuromancer”, o romance que criou o gênero cyber-punk. No livro, o ciberespaço é uma alucinação coletiva, consentida, por operadores, por crianças aprendendo

matemática

computadores do sistema humano pulo.

uma representação gráfica, abstrata, dos dados extraídos dos bancos de todos os

Daí pra metáfora do “ciberespaço” representar a internet foi um

Faz um certo tempo que não ouço ninguém de tecnologia falar de “ciberespaço”; ainda há filósofos, sociólogos e outros analistas se referindo ao mundo conectado como tal, mas parece que eles não estão entre os mais alucinados usuários da internet. Esta, a rede de todas as redes, que junta a que está instalada na minha casa com a do meu escritório, a sala em que eu dou aula na universidade, as máquinas e software deste portal e a sua máquina, de onde você, agora, tenta entender onde eu quero

chegar

era muito presente no começo [ao ponto de muitas bandas usarem a cacofonia dos modems de 14, 28 kilobits por segundo discando para os provedores!] está começando a desaparecer no cenário contemporâneo.

a internet simplesmente chegou e começou a conectar o mundo. De uma certa forma, ela, que

Banda larga, sempre ligada, que cada vez mais gente tem e que em breve será a única forma de nos

conectarmos, muda nossa visão e experiência da rede. Entramos em farmácias, lanchonetes, livrarias,

YouTube, MySpace e Globo Media Center abrindo, displicente, múltiplos tabs no browser

navegador não tem isso ainda? Mude para Internet Explorer 7 ou Firefox, hoje! Chego no aeroporto, abro meu laptop e não só tenho banda larga, mas sem fio, em todo Brasil e no mundo, como se estivesse em casa. Vez por outra, dá até mais trabalho em casa, porque lá o suporte -o cara que desenrolar quando o sistema dá pau- sou eu mesmo. A Internet pública, a que todos temos acesso, migra rapidamente para a dimensão das infra-estruturas da sociedade, como a energia elétrica, e nós só precisamos nos preocupar com ela quando há algum problema. Quando “dá pau”

seu

Mas quase sempre tudo está funcionando e os consoles de jogos estão conectados; os melhores jogos são contra [ou com] outros seres humanos, que estão por aí, entre os mais de seis bilhões de terráqueos. Todos os celulares vão começar a funcionar do mesmo jeito, pela e na internet, algum dia, mais cedo do que tarde, e nós vamos poder filmar aquele guarda pedindo propina e mandar direto pros sites de notícias, a rede servindo de prova do crime. Pode até não dar em nada, no começo, mas dentro de algum tempo os vigiados [nós] vão se revoltar contra os vigias [os múltiplos pedaços do Estado] e exigir-lhes uma conduta minimamente apropriada, como nossos empregados que são. Capaz até de conseguirmos vigiar de perto os representantes do povo, expelindo os caídos on-line, real time cassando mandatos por voto popular, na rede, na lata!

No curto prazo, é uma utopia. Mas olhe daqui a cinqüenta anos e imagine uma só coisa que não vai estar na rede. Uma. Seu tênis vai estar, a câmera da porta da sua casa, seu carro [e várias partes dele, independentemente], os sinais de trânsito, os aviões, barcos, navios, animais de estimação, fogões,

1 Atualizado em 19/09/2006 - 00:000

8

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

e, dentro dela e também na rede, o cacho de uvas comprado no supermercado. O selo do

produtor estará na rede, será percebido e identificado como tal e poderemos descobrir um bocado de

coisas sobre aquelas uvas que parecem tão belas e saudáveis eles existirem, então] a que elas foram submetidas.

geladeiras

como a quantidade de agrotóxicos [se

Talvez tenhamos muito mais coisas na rede. Dia destes eu pensei num olho artificial, nem tão punk assim, que tivesse uma resolução tão boa ou melhor do que um olho normal e pudesse ser colado, de alguma forma inteligente [pra não embaralhar a imagem!] no nervo ótico. Pra quem é muito míope ou

tem outros problemas visuais mais severos, este olho teria caído do céu, desde que você quisesse trocar seu velho olho por um novo em folha, digital. Mas ele teria mais: poderia [pois é um sistema

computacional] ter zoom e infra-vermelho. Quem não iria querer?

fios!] na rede e poderia upload tudo o que visse pros servidores onde estivessem suas contas

gravando, on-line, sua vida. Pra que tirar fotos? Pra que prestar atenção em algo que não sei quando e se vou precisar? Gravado na rede, pelo nosso olho conectado, tudo poderia ser recuperado sob

demanda

mas, na hora, estávamos com a atenção grudada noutra coisa. Ah, sim: como não poderia deixar de ser,

este olho ouviria, também, e ultra-som, porque é multimídia. Claro.

E mais: estaria conectado [sem

como o nome daquela pessoa que encontramos em algum lugar, que nos foi apresentada

Utopia? Previsão? Não, provável desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação, casadas com as ciências da vida, várias partes do que, em diversos graus de qualidade e completude, está começando a tomar forma em laboratórios mundo afora. Isso e muito, muito mais, que nos vai dar um trabalho muito grande quando formos pensar nas implicações para a vida, os seres humanos, seu comportamento privado e público e talvez até para a redefinição do eu, da noção de corpo, espaço e tempo. E da vida. Vai ser complicado, interessante e, acima de tudo, divertido.

Esta coluna vai ser sobre a sociedade da informação, que está começando a se tornar “a” sociedade em que vivemos, o espaço-tempo em que muitas das coisas descritas acima -e outras tantas que nem imaginamos, hoje - estão acontecendo ou vão acontecer. Não vamos falar de tecnologia pura; quando algum artefato, sistema, teoria ou aplicação aparecer por aqui, será sempre um motivo pra discutir seus possíveis impactos em nosso meio, o que seu uso vai mudar em nossas vidas, como o mundo vai [ou não] mudar por causa dele. O que vamos ganhar, o que perderemos e o que as pessoas que nem estão na rede estarão -e o que já estão- perdendo.

Uma vez por semana, sempre às terças, vamos nos encontrar por aqui. Terça que vem, pra começar, pra discutir porque somos tão poucos, no Brasil, se começamos, em 1995, no começo da internet comercial aqui, tão bem. Coisas do Brasil, que vamos discutir aqui com um distinto, e nem tão discreto assim, olhar da periferia.

9

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Por que somos tão poucos na internet brasileira 2

Se fosse o caso de dar um conjunto de respostas simples, mas que não explicam muita coisa, sobre por que o Brasil ainda tem tão pouca gente na internet, a lista de porquês até que não seria muito grande:

porque a geografia do Brasil é complexa; porque nossa infra-estrutura é precária; porque a população é pobre; porque nós não estamos fazendo bom uso de soluções sociais para criar mais acesso à comunicação e computação para quem não pode ter, em casa, um PC e um telefone; e, enfim, porque não temos políticas públicas para tratar com a intensidade devida o problema de inclusão digital no Brasil.

Esta lista dos porquês, se devidamente explicada, nos diria porque há menos de 15% dos brasileiros na rede, mais de dez anos depois do início de operação da internet comercial [a internet aberta, pois antes a rede só estava nas universidades e centros de pesquisa], um fracasso retumbante frente a outros países em desenvolvimento [o Chile e a Malásia têm mais de 40%]. Antes dos porquês, talvez devêssemos achar algo que deu certo por aqui, pra saber se temos alguma chance de mudar o cenário, no médio ou longo prazo, pois o curto prazo talvez já esteja perdido.

Pensando bem, um sucesso brasileiro muito importante é o controle da poliomielite: os primeiros surtos notificados da doença no país datam de 1911 e, mesmo havendo vacina disponível desde 1955, daí até a década de 1980, surtos de pólio eram sucedidos por “surtos de vacinação”. Vacinava-se parte da população afetada depois que o surto já estava em declínio e, como resultado, seguiam-se mais surtos, no mesmo ou em outros locais, e o ciclo continuava.

Entre 1976 e 1978, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, haviam ocorrido no Brasil [cerca de 110 milhões de habitantes, na época] mais casos de pólio do que na Índia [quase 700 milhões de habitantes]. Alguma coisa precisava ser feita, e foi: criou-se, em 1980, o Dia Nacional de Vacinação, uma operação pública, complexa e sofisticada que leva gotinhas a todos os pequenos brasileiros em todos os recantos deste gigantesco, diverso e confuso país. Mas, uma vez que, no fim da década de 1970, todos os lados da moeda resolveram acabar com a poliomielite, a vacinação nacional, no mesmo dia, deu resultado imediato: dos 1290 casos em 1980, caímos para 122 em 1981 e apenas 45 em 1982, o menor número da história registrada da pólio no Brasil. Em 1994, décimo-quinto ano da operação, o Brasil recebeu a Certificação da Erradicação da Poliomielite. Sucesso, aplausos.

Fim da história? Nada disso; continuamos vigilantes e vacinando crianças, país adentro, doze anos depois. O preço da saúde é a eterna vigilância e não acho que, qualquer que seja o governo, se ainda houver algum risco para a população, a interrupção do programa sequer venha a ser considerada, pois bastaria um único caso de pólio para derrubar o governo, mesmo no clima de aceitar quase tudo que uma parte do país parece viver. Se você quiser saber mais, a história da pólio no Brasil está aqui.

Sem entrar na numeralha que explica os detalhes da pobreza e geografia brasileiras, talvez baste dizer que metade da população não tem renda para ter um telefone fixo, que seja, em casa. Só isso já deixa metade do nosso povo fora da internet, se a solução que estiver sendo considerada for “cada um por

2 Atualizado em 26/09/2006 - 00:00

10

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

si”. Do ponto de vista da geografia, o país não é o mesmo em todo lugar: enquanto menos de 250 municípios com mais de 100 mil habitantes têm cerca de metade da população, há uns 40 milhões vivendo em cerca de 4000 cidades que têm menos de 20 mil habitantes. Quantas destas 4000 teriam ADSL de 1 megabit por segundo hoje e quantas, por demanda econômica, terão daqui a dez anos? A pergunta não é menos complexa se a mudarmos, nas cidades de mais de 100 mil que têm banda larga [e não são todas], para: quantos habitantes de suas periferias [e não são poucos!] estão na internet e podem usá-la, no seu dia-a-dia, como mecanismo de acesso a conhecimento, serviços, compras, entretenimento e a oportunidades [de trabalho, inclusive]?

Guardadas as proporções, as deficiências de acesso à informação, hoje, na era da informação e do conhecimento, têm a mesma -ou maior- gravidade dos problemas causados pela pólio antes do nosso sucesso na vacinação. Do meu ponto de vista já vivemos, e viveremos cada vez mais, do que podemos fazer com nossos cérebros; e uma das fontes mais preciosas de material para alimentá-los é a capacidade de busca e análise de informação, aumentada pela internet de maneira jamais conseguida por nenhuma outra ferramenta na história, com exceção da capacidade de ler e escrever.

Aliás, vamos muito mal neste departamento: apenas 25% dos brasileiros com mais de 15 anos domina a

habilidade de ler e escrever. Na população, 8% são analfabetos “de pai e mãe”, como se diz em Taperoá,

e 38% são analfabetos funcionais *podem até “saber” ler, mas não sabem “o que fazer” com o que

lêem]; só 20% dos brasileiros completaram o ensino fundamental e médio. Para cada um de você, caro leitor, há outros três que não conseguiriam chegar até aqui, neste texto. Isso é uma tragédia nacional, pior do que o pólio, e muito pior do que só termos 14% das casas com internet.

A pergunta que poderia responder os porquês é

tudo, ao mesmo tempo, e o tempo é agora, antes que percamos para sempre uma vasta maioria dos

brasileiros. Em resumo, precisamos botar todo mundo na internet e usá-la intensamente, e para tudo

como mecanismo educacional; precisamos fazer isso em escala social, o que implica em tratar o problema da pobreza como parte da solução muitos dos mecanismos de acesso têm que ser

compartilhados e subsidiados, para quem não pode pagar; precisamos tratar o problema nacionalmente

um número muito grande de localidades e grupos de indivíduos só poderão entrar na rede, por muito tempo, via satélite, que custa caro e que vai precisar, mais uma vez, ser subsidiado.

e então, o que fazemos primeiro? A resposta é

E como fazer tudo isso? Nenhum segredo

inteiro, para todos os grupos de risco pessoas e comunidades que, por si próprias, não resolverão seu problema de acesso , como fizemos, enquanto país, no caso da pólio. Deixado como está, o problema

irá “se resolvendo” por si próprio, tão lentamente quanto nos últimos onze anos. Se estivéssemos tentando seriamente, tanto quanto nos quinze anos em que erradicamos a pólio, talvez só faltassem quatro anos para só ficar fora da rede quem realmente quisesse.

precisamos de políticas públicas, em larga escala, no país

E olha que as crianças não deveriam ter escolha, como não tiveram no caso da vacina. Internet na escola

deveria ser mandatória, como lápis, papel e livro. A única salvação dos responsáveis pela falta das tais

políticas é que os condenados por sua inexistência não sabem que estão condenados e os que sabem

não entendem porque

tão intensa como a da vacinação, pelo menos. E é isto que esta coluna vai fazer, entre outras muitas

coisas.

o que deveria levar-nos, nós que achamos que entendemos, a uma campanha

11

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Aviões não saem por aí, no espaço, como bem entendem 3

Fim de uma tarde de sexta, 29 de setembro de 2006. Tudo parece dentro dos conformes, até a eleição que se avizinha. De repente, um avião da Gol - fazendo o vôo 1907, 155 pessoas a bordo- se choca com um jato executivo em pleno ar, sobre a floresta amazônica, entre Brasília e Manaus. Choque de aviões no ar é muito raro [menos de 20, desde 1960] e, em lugares tão remotos e sem testemunhas, é muito difícil saber direito o que aconteceu. Mas o Ministro da Defesa, a julgar pelo noticiário do dia, anunciou, pouco tempo depois, que "deve ter sido um descuido da tripulação da Gol"

Só que aviões não saem por aí, no espaço, como querem e bem entendem: um conjunto de centros de controle de tráfego aéreo [em cada país] decide [e ordena] os caminhos por onde uma aeronave pode voar. Dada uma origem e um destino, o controle estabelece que rotas um avião vai usar, seja ele um Airbus 380 ou um Embraer Phenom. As rotas aéreas são túneis virtuais, no “céu”, dentro dos quais os aviões "controlados" por tais sistemas [de informação, operados por e dependentes de seres humanos] são obrigados a manter uma distância regulamentar uns dos outros. Assim, quando o leitor embarca de Brasília a Recife e o piloto diz que está voando na proa [direção] de Bom Jesus da Lapa, ele não o faz porque quer, mas porque um túnel no sentido Brasilia-Recife, naquela hora, para aquele vôo, passa por lá, numa altitude pré-determinada.

Há perguntas básicas a fazer, olhando para o “sistema de informação” ao redor dos aviões acidentados, antes de se chegar a uma conclusão:

1) Por que um jato executivo voava em rota de colisão com um avião comercial?

2) Será que o controle de vôo botou os dois em tal situação? Ou

3)

o

controle de vôo nem sabia que o jato executivo estava lá e

4)

não fez nada [ou não tinha condições de fazer] para tirá-lo de lá?

O ecossistema de aviação de um país minimamente organizado é um sistema de informação, cheio de computação, comunicação e controle por todo lado, dentro e fora dos aviões. Como vai ser, em futuro próximo, a malha viária das cidades: é provável que só consigamos minimizar os engarrafamentos das metrópoles quando tivermos controle “a priori” sobre que veículos podem estar em que ruas e quando. Um sistema de informação rudimentar para tal controle existe hoje em lugares onde há rodízio [como São Paulo] em função das placas ou onde se paga uma taxa de engarrafamento para entrar em certas regiões da cidade [como Londres]. Mas, no caso do ar, a situação é muito mais complexa e tem que ser tratada como tal. Afinal de contas, não dá [só] para multar um avião que está em rota de colisão com outro. A qualquer momento, pode haver centenas de aerovanes no ar, transportando dezenas de milhares de vidas [veja o tamanho do problema, nos EUA, aqui.

Nossas vidas, nos aviões, dependem de um grande, diverso e nem sempre devidamente conectado sistema de informação, cujo papel principal é garantir que toda aeronave no seu espaço aéreo saiba por que está onde está, ao mesmo tempo em que assegura que um avião qualquer não vai, de uma hora pra

3 Atualizado em 03/10/2006 - 00:00

12

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

outra, entrar no microespaço do outro. Se isso acontecer, a chance de uma catástrofe é muito alta, e foi

o que aconteceu com o vôo 1907, porque mesmo o sistema anti-colisão, instalado em todos os aviões mais modernos, é um último recurso, que nem sempre -como sabemos- funciona a contento.

Um dos casos recentes de colisão no ar, descoberta quase na hora pelo controle de tráfego aéreo e avisada aos pilotos, foi a que matou 59 pessoas quando um avião da DHL colidiu, sobre a fronteira suíço- alemã, com um Tupolev da Bashkirian Airlines: os dois pilotos mergulharam para evitar o desastre e a igualdade das ações foi o fim de todos os passageiros e tripulantes. Tanto os aviões daquele acidente como os da tragédia brasileira eram equipados com sistemas de alerta contra colisão; no caso dos Embraer Legacy e Boeing 737-800 do acidente de sexta-feira, os aviões tinham menos de um mês de uso

e seus sistemas tinha passado por todos os testes de fábrica.

Assumindo que nenhuma das duas tripulações envolvidas no acidente estava, deliberadamente, tentando bater no outro avião, a responsabilidade do acidente é da assimetria de informação entre os envolvidos: se os aviões e o controle responsável pela área soubessem, com a devida antecedência, do choque iminente, a comunicação entre as partes teria criado condições - eliminada a assimetria de informação -para que o desastre fosse evitado. Uma coisa que o Ministro da Defesa deveria estar fazendo, desde sexta à tarde, era garantir ao país que - seja lá o que tiver acontecido -haverá uma ampla investigação no sistema de informação [e controle] de tráfego aéreo, para dar certeza aos brasileiros que, ao entrarmos num avião, não estamos correndo os mesmos riscos do Gol 1907, por culpa de responsabilidades estatais que deveriam funcionar bem perto de 100% de eficácia e eficiência, o que não parece ter sido o caso naquele dia.

A região onde aconteceu o acidente de sexta-feira está entre as zonas de influência dos controles de

tráfego aéreo de Brasília e de Manaus; o acidente da DHL foi na interface dos controles aéreos da Alemanha e da Áustria. Lá, o papel de cada um dos controles no acidente foi objeto de muita discussão. Aqui, especialistas dizem que a região do acidente é uma “terra de ninguém”, apontando para a possibilidade de um dos dois centros de controle ter tomado uma atitude, em relação a um dos aviões,

sobre a qual o outro não teve conhecimento. Ou pelo menos não a tempo.

Estamos vivendo na era da informação. Isso não significa apenas que há computadores em todo canto e que podemos acessar a internet, mas que boa parte das nossas vidas e das coisas de que dependemos nas indústrias, serviços, saúde, segurança, transportes depende cada vez mais de informação e de seu processamento eficiente e eficaz. E que toda vez que isso não acontecer alguma coisa muito grave pode acontecer. Desde desaparecer dinheiro das nossas contas bancárias até aviões se chocarem no ar.

Tomara que não haja nada errado com o controle de vôo. Mas, como o governo não vem tendo a tradição de investigar [seja lá o que for] a sério e profundamente -apesar de todas as declarações em contrário-, meu medo de avião aumentará muito. Que tudo dê certo, nos nossos vôos, nem que seja por acaso

Agora, se não houver uma coluna aqui, semana que vem, procurem o Ministério da Defesa para reclamar

13

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Grandes negócios na rede -chegou a hora, de novo?

4

Estamos vivendo o terceiro ciclo da internet. O primeiro foi o da tecnologia, quase como demonstração das possibilidades, e durou 1990/91 até o advento da internet comercial nos EUA, em torno de 1995, quando só havia cinco milhões de computadores ligados à rede, mais da metade dos quais lá mesmo nos EUA. O segundo tempo da internet foi o das “primeiras companhias” e “grandes e ousados planos de negócios”, muitos dos quais eram também ingênuos, inexeqüíveis e, vistos com a sabedoria que a experiência nos dá, hoje, inverossímeis. Aí estão -entre 1995 e 2001- a Amazon.com, Yahoo!, eBay, PayPal, AOL, Netscape, um monte de coisas que a Microsoft fez e, é claro, Google [criado em 7 de setembro de 1998].

Entre as muitas coisas que deram errado para idéias boas e factíveis da segunda onda da internet, estava o simples fato da rede estar se formando naquela época: muitos planos de negócio dependiam de crescimento exponencial de usuários nos sites e não havia usuários porque, na rede, não havia usuários o suficiente. Em 1998, a penetração da internet nos EUA era de 30% [e computador em 50% das casas, contra 20% em 1992]; lá, hoje, 73% da população está na rede, 62% deles em banda larga

[eram apenas 21% em 2002]. No Brasil, 17% das casas têm computador e apenas 9.5% da população usa

a internet diariamente, segundo o CGI.BR.

Este ano, mais de 50 milhões de americanos já postaram alguma coisa na internet, incluindo vídeos para os usuários de banda larga. O que nos transporta à terceira leva de companhias da web, criadas a partir do rescaldo da bolha da internet de 2001 e do amadurecimento de padrões e tecnologias da segunda onda, como Java [uma linguagem de programação de computadores] e Apache [um servidor de páginas web]. Além disso, há novos modos de projetar e construir sistemas de informação na rede, o que se convencionou chamar de web 2.0, talvez traduzido por construção mais eficiente e eficaz de sistemas de informação na web, combinada com banda larga para os usuários.

Na web 2.0 estão coisas como netvibes.com, um ambiente para composição de fluxos de informação [que serve para centralizar a leitura de blogs, por exemplo], Skype, o responsável mais direto pelo fenômeno de voz sobre protocolo internet [VOIP], que é o envio de fluxos de áudio [e vídeo] pela rede, “de graça” *isto é, pagando só sua conta de banda larga+, sistemas de automação comercial como salesforce.com e os responsáveis pela notícia da semana, YouTube, empresa de 67 pessoas, fundada meros 20 meses atrás e comprada pelo Google pela fantástica quantia de US$ 1, 65 bilhão, o que resulta em uma agregação de valor de US$ 80 milhões por mês, no período.

Será que YouTube vale tudo isso mesmo? O Google tem tecnologia para fazer vídeo na rede, tem um site pra isso, muito mais gente de tecnologia em casa e todas as condições do mundo para destruir qualquer empresa “de internet” usando a inteligência de seus 8 mil colaboradores. Mesmo? Acontece

que YouTube, que mostra mais de 100 milhões de vídeos por dia, tem 60% do tráfego de vídeo da rede e

o Google só 10%. MySpace, rede social comprada por Rupert Murdoch por US$ 500 milhões, tem uns

25%. E o resto dos competidores não conta, pelo menos agora. Deter a melhor tecnologia do mundo é

pré-condição para uma empresa chegar ao mercado, mas nem sempre “a melhor” vence: quem tem

4 Atualizado em 10/10/2006 - 00:00

14

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

sucesso é o melhor “negócio”, principalmente do ponto de vista dos usuários

Quando Google veio ao mundo, o Altavista era o rei da busca, tendo destronado Lycos e Excite, por ser competente, multilíngue e simples. Era, inclusive, provedor de busca para Yahoo!. Mas a Digital [e depois a Compaq] não entendeu o poder do que tinha nas mãos e o resto é história. Os dois fundadores de Altavista trabalham, hoje, para o Google. No Google, também, nem tudo dá certo. O Orkut, por exemplo, é um fracasso retumbante em termos globais, com quarenta e cinco vezes menos tráfego do que MySpace [75% do mercado]; este, por sua vez, já vale mais do que Google pagou por YouTube.

Pouca gente sabe --antes de um negócio de tecnologia dar certo-- porque ele dará; depois, o campo fica lotado de analistas de passado a dar opiniões, a maioria sem nenhum fundamento. A aquisição que Google acaba de fazer é preventiva: o preço que Google poderia ter que pagar em perda de atenção, um dos itens que realmente conta na economia da rede, poderia vir a ser muito maior, principalmente se um dos outros gigantes da rede [como eBay, Microsoft, Amazon, Yahoo ou MySpace] entrasse no jogo. Ano passado, o eBay comprou o Skype [ou seus 100 milhões de usuários, 60 milhões ativos] por US$ 2, 6 bilhões por uma razão parecida: tinha que agregar gente, ou mais atenção, ou mais valor, aos seus 75% do mercado de transações entre consumidores, com exceção da China [onde o TaoBao tem 60%]. A China é osso duro de roer: o Google, que tem 44% das buscas no mundo, perde de 65% a 20% em Beijing para o Baidu.

Mas vamos voltar ao lado de cá do planeta, porque talvez o leitor esteja se perguntando o que deve fazer para ter a chance de descolar uma loteria como a sorteada para os dois caras que fundaram

YouTube. Primeiro, faça algo necessário: as pessoas em rede, com câmeras e celulares que filmam e banda larga, simplesmente precisavam do YouTube para mostrar suas produções para os amigos e, como se descobriu, para o mundo. Depois, faça o necessário sobre uma base tecnológica que possa tratar muitos milhões de usuários: isso não é simples nem barato e o dinheiro para tal dificilmente estará disponível em países periféricos como o Brasil. Terceiro, acerte no marketing: tecnologia de classe mundial é apenas o ponto de partida para você tentar vender o que faz. Se as pessoas não

gastarem tempo para entender sua tecnologia e usá-la

você está perdido.

Finalmente, cerque-se de quem entende de dinheiro. Os dois fundadores de Google [por que sempre

dois?

empreendedor chamada Sequoia Capital, uma das mais competentes do Vale do Silício e do mundo.

Quando o Google lançou ações na bolsa, a Sequoia ganhou tanto dinheiro [uns US$ 1,5 bilhão

não sabia o que fazer com ele. Mas não foi difícil encontrar: uns meses atrás eles fizeram um investimento de pelo menos US$ 11,5 milhões no YouTube e devem, de novo, estar sorrindo à toa, junto com os fundadores. Resumo da ópera: faça tudo certo e encontre os investidores certos também. Senão, mesmo que você tenha a melhor idéia, tecnologia e negócio da rede e do mundo, seu destino mais provável será a lata de lixo da história

]

receberam, no começo de sua aventura, US$ 12,5 milhões de uma empresa de capital

] que

15

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Toda ciência é da computação 5

Muitos anos atrás [uns 20!], eu disse -para escárnio geral da platéia num seminário do Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco, UFPE- que todas as áreas da ciência eram sub-áreas da computação. Para quem já era da área, naquela época, a introdução cada vez maior de informática - em todos os seus veios e meios, fossem computação, comunicação ou controle- em todas as áreas de atividade, presença ou funcionalidade humanas e, de resto, em tudo ao nosso redor, já significava que todas as áreas de interesse da ciência e do funcionamento da humanidade iriam ter uma componente dela muito importante, senão absolutamente fundamental.

Os anos se passaram: Seth Lloyd, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), postulou recentemente que o universo é seu próprio computador e que tudo o que vale a pena ser entendido em um sistema qualquer vem do entendimento de como tal sistema processa informação. No livro, a "New

Kind of Science", , o cientista Stephen Wolfram tem uma tese ainda mais radical [porque trata do que e

do como

tudo que está ao nosso redor [seja lá o que for] é computacional e, como se não bastasse, é

computado por autômatos celulares, pequenos arranjos de bits capazes de processar sua informação e

de seus vizinhos, no tempo, e tomar decisões simples a partir daí. Funciona para um monte de coisas

[clique aqui para usar um gerador de ringtones para celulares]. Será que resolve todas? enquanto, sabe.

]:

Ninguém, por

Na última edição de Educause Review, Sandra Braman trata parte do assunto [Transformations of the

Research Enterprise], especulando sobre computação, redes e dados nas demais ciências. Ela considera o tamanho do problema que vamos ter para capturar, transmitir, processar e administrar petabytes

[quatrilhões

como será o caso do novo acelerador de partículas do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), o Large Hadron Collider (LHC)--, transformando a física, por exemplo, em uma ciência intensiva, quase que

inteiramente dependente, de computação. Afinal de contas, segundo Lloyd, o que estaremos fazendo é construir computadores [ou programas de computador] para simular o comportamento de outros computadores "naturais" --o mundo lá fora-- cujo funcionamento queremos entender.

ou quinze zeros

'000.000.000.000.000] de dados que experimentos poderão gerar --

Uma coisa é certa: à medida que entendemos mais o universo ao nosso redor, boa parte dele pode ser modelada, e quase toda a modelagem que nós fazemos do universo de informação ao nosso redor é computacional.

2006: "Kornberg

chamadas RNA mensageiro

das células”

descreveu como informação é retirada dos genes e convertida em moléculas

estas moléculas transportam a informação às fábricas de proteínas dentro

O Nobel de Química foi dado, na verdade, para processamento de informação.

Isso se repete por onde quer que olhemos no cenário atual de ciência e tecnologia, e irá se espalhar, com o tempo, para toda a sociedade. Olhemos [literalmente] para astronomia. Sabe o que está para acontecer? Um único telescópio vai começar a gerar vinte terabytes de informação por dia.

5 Atualizado em 17/10/2006 - 00:00

16

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Aliás, por noite

tamanho de tal montanha de informação? Vejamos: um terabyte é um milhão de megabytes, ou 1.000.000 megabytes. Pra quem não é de informática ou ciências, é bom explicar que “um mega”

significa um milhão; ou seja, quando pensamos em um terabyte, estamos olhando para uma quantia que tem 12 zeros, o quase ininteligível trilhão. Costumava-se dizer, no passado [uns dez anos atrás] que a "Encyclopaedia Britannica" tinha cerca de um gigabyte [um bilhão de caracteres, contando as

imagens]

comprimir algo perto de um gigabyte de informação].

pois há de olhar para o céu noturno, excluindo a influência de nosso Sol. Qual o

e era mais ou menos verdade, porque uma versão da coisa cabia num CD [onde se pode

Olhando *mesmo!+ para os 20 terabytes por noite do nosso telescópio, e levando em conta que “um tera” equivale a 1.000 giga, é o mesmo que pensar num único instrumento de observação dos fenômenos do universo a gerar informação equivalente a 20.000 Britannicas, toda noite, noite após noite. O responsável por tal feito será o Large Synoptic Survey Telescope (LSST), um telescópio de 8.4 metros de diâmetro, americano, que ficará no norte do Chile [no Cerro Pachón], operacional em 2012, com uma câmera de três giga [bilhões!] pixels, uma resolução mil vezes maior do que a câmera digital média que está no mercado hoje, como a que você provavelmente usa para fotografar as estripolias de seus filhos. Cada “foto” do LSST, mil das suas. Já pensou?

Vamos saber muito mais sobre o universo quando o LSST começar a funcionar. Mas vamos, para tal, ter que aprender a tratar quantidades realmente astronômicas de dados. Um dos maiores projetos de astronomia do mundo, o Sloan Digital Sky Survey (SDSS) --levantamento digital do céu, funcionando há anos, financiado em parte pela Alfred P. Sloan Foundation]-- mostra "apenas" um lote de 12 terabytes de dados. Os resultados podem ser vistos no Skyserver. E isso é somente 60% do que o LSST vai gerar por noite.

Os problemas e oportunidades para realizar eScience *“ciência em rede”

experimental e computacional de fazer ciência, baseado em quantidades quase sempre imensas de dados] serão motores muito importantes do desenvolvimento das teorias e tecnologias de computação, comunicação e controle nas próximas décadas. Elas serão usadas como suporte à realização de qualquer tipo de ciência ou tecnologia.

fusão dos modos teórico,

Em breve, não haverá um "e" antes de eScience; a informática simplesmente estará imersa nas ciências

todas, como leitura e escrita estão, hoje. E todas as ciências serão da computação note ou precise saber explicitamente.

sem que ninguém

Em resumo, toda a ciência é ciência da computação. Simplesmente porque o universo [inteiro] é computacional. Esta tese, que poderíamos chamar da universalidade da computação, estará na base de quase tudo, em ciência e tecnologia, e será discutido com muito fervor nos próximos muitos anos.

17

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Deitada em berço esplêndido? 6

A compra de YouTube pela Google liberou uma torrente de notícias e comentários na internet, fazendo

lembrar os “bons tempos” em que quase tudo o que era feito na rede -inclusive grandes besteiras- era notícia. O fato é que a Google pagou um monte de dinheiro pelo site de vídeos, coisa que já comentamos aqui no G1. Muito do resto é conversa, mas uma parte faz sentido.

Don Dodge [do time de negócios emergentes da Microsoft] tem uma análise muito interessante em seu

blog sobre por que o YouTube não vale a fortuna que foi paga por ele. Na verdade, ele diz também que

o FaceBook [um site de relacionamento que concorre com MySpace] vale mais do que YouTube, que já

está sendo chamado de SueTube… algo como ”Processe o Ttubo”, porque o dono, agora, tem renda pra pagar processos… Vai ver, Mark Cuban, aquele que disse que só um idiota compraria YouTube, estava certo. Dodge faz algumas contas baseadas na possibilidade de monetizar visibilidade e tráfego do YouTube, algo que não está nem um pouco perto de acontecer e compara com o que está por trás e no futuro do FaceBook, segundo ele um site de muito maior potencial. O fato é que Google não pagou por

nenhuma tecnologia, comprou uma comunidade.

A discussão no blog de Dodge, um respeitado analista de novos negócios, é ainda mais interessante: as pessoas perguntam porque a Microsoft --estranhamente?-- não está comprando ou criando alguma

comunidade… do tipo e tamanho do YouTube, por exemplo. E o sentimento parece ser que a empresa de Redmond está analisando o cenário para, alguma hora, aparecer com a comunidade que mata todas

as comunidades *o chamado “winner takes all” – o vencedor leva tudo

subconjuntos muito significativos dos usuários da rede fazem parte de comunidades que já têm uma

cara de “winner takes all”, e estes ganhadores têm outros donos

].

Ocorre que o tempo passa e

que não a Microsoft.

Mas… é bom olhar em outras direções e ver, por exemplo, o que a Microsoft está fazendo com jogos e suas conseqüências para convergência digital. O Xbox Live e o Marketplace [mais do que uma comunidade, um mercado de coisas associadas a jogos…+ ao redor do console, porta de entrada de uma grande comunidade de uso e prática de entretenimento global [que tem até “moeda” própria, os “Microsoft Points”…+, são muito mais do que muita gente está pensando.

Há sete milhões de Xbox360 no mercado e 60% de seus donos está no Xbox Live [XBL], onde uma subscrição básica sai por US$ 50 por ano [contas: no momento, o XBL gera pelo menos US$ 200 milhões por ano]. A operação de vendas em torno do console ainda é deficitária [fala-se que a empresa perde entre US$ 50 e US$ 125 por console vendido] mas a receita empata com a despesa em 2006, incluindo jogos e serviços. E a Microsoft está apostando no lucro no setor em 2007, com 15 milhões de consoles no meio do ano *US$ 450 milhões de renda só no XBL…+, e talvez uns 75 milhões em 2010 *faça as contas…+.

Como é que isso vira uma comunidade? Só de jogos, já é; será ainda maior com a idéia de vender [mais barato+ “episódios” de jogos, como se fossem partes de séries de TV, pois 80% dos jogadores não chega nos níveis finais dos principais jogos e não vêem razão para pagar o preço inteiro de certos jogos. Mas

6 Atualizado em 25/10/2006 - 00:00

18

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

pegue o Xbox, ponha um navegador e uns drivers e você tem uma máquina que está na internet

ver vídeos de graça no YouTube; bote uma interface a mais e você tem uma TV digital [se for pelo ar, como as TVs das nossas casas; se for pela rede IPTV-- não precisa de muito mais, pois já foi lançada a

versão com HD/DVD+. E o Zune, o iPod da Microsoft, é compatível com o Xbox, o sistema de “pontos” do Marketplace, com o Live.com e com sabe-se lá mais com o que está em estoque na máquina de Redmond. Inclusive com o Vista, o próximo Windows

pra

Isso sem falar de coisas como celulares mais sofisticados *“smartphones”+ rodando Windows Mobile,

que eram 3 milhões no fim de 2004, foram 6 milhões em 2005, serão 12 milhões este ano e a Microsoft espera dobrar a conta de novo ano que vem. Como? Conectando as coisas em XBL para sincronizar

dados, fazer download de jogos, jogar também em celulares.

gastando os tais “points”

ou grátis, para incentivar Windows

Pra montar e manter isso é preciso gente brilhante e dinheiro, e muito dos dois, combinados com um plano muito bom e detalhadamente executado. Depois de dizer publicamente que Google está tornando difícil o recrutamento de talento de primeira linha , para a Microsoft, o CEO Steve Ballmer anunciou que vai aumentar sua aposta em pesquisa e desenvolvimento, dos US$ 6,2 bilhões [R$ 13.3 bilhões] de 2005- 2006 [julho a junho] para US$ 7,5 bilhões [R$ 17 bilhões] em 2006/2007, 15% do faturamento de US$ 50 bilhões no período. Para se ter uma idéia do tamanho de tal esforço de Pesquisa&Desenvolvimento, se os recursos prometidos para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [FNDCT] do governo federal para 2006 forem efetivamente liberados e gastos, a República investirá R$ 1,2 bilhões, perto de US$ 500 milhões -ou quinze vezes menos do que os fabricantes de Windows- em pesquisa e desenvolvimento.

Resultado: talvez a Microsoft não esteja nem aí pro que está acontecendo nas comunidades da internet, a menos de sua própria família Live.com, porque é em boa parte de lá que espera construir o que talvez tenha sempre sido o sonho da empresa, uma “internet” dela. Isso deu errado lá no começo da internet porque, na época, não havia nenhuma internet sobre a qual a internet da Microsoft pudesse rolar. Agora, há. E pode dar certo, pois a empresa está construindo “sua” rede a partir de princípios bem fundamentados de rede, serviços, usos, usuários e receitas recorrentes. Dará certo? Não sei. Se Redmond não cometer os mesmos erros da America Online (AOL), talvez.

Uma coisa, porém, é certa: a Microsoft não está deitada, em berço esplêndido, esperando que o futuro chegue. Pode até não ser o maior vitorioso da guerra pelo domínio da internet, mas vai lutar todas as batalhas e atacar sempre, em muitos cenários, até o fim. Que não parece nem um pouco próximo.

19

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Pequena receita para um Brasil digital 7

Nos próximos anos, quem não tiver banda larga não terá internet. Como chegaremos lá se estamos,

ainda, com apenas 10% dos brasileiros na rede? seguir uma receita bem simples.

Pode ser mais fácil do que parece, se conseguirmos

Primeiro, pegue os governos recém-eleitos e mais os prefeitos e convença-os a articular uma grande coalizão nacional em prol de escolas -- todas -- ligadas em banda larga, em todo território nacional, seja lá onde for, da mais remota localidade à mais sofisticada cidade. Por quê? Porque a maior e melhor parte do futuro ainda está nas escolas, que ainda por cima são pólos naturais de atração das famílias de qualquer comunidade. E porque a internet -- em banda larga, nas escolas -- pode ser de um incalculável valor pedagógico para aulas, experimentos, redes sociais de aprendizado e como mecanismo para pais, mestres e alunos publicarem suas histórias e lições de vida, em vídeo inclusive.

Tem mais: os laboratórios de informática das escolas deveriam estar livres para jogos, sempre que não houvesse nada mais “sério” acontecendo por lá. O uso lúdico da rede não pode ser menosprezado, pois além de incentivar o uso de informática por todos, pode ser o celeiro de talentos que revelará programadores e engenheiros de computação (pois tudo na vida é computação, como já dissemos

aqui

tempo. O resto eles fazem.

).

É só ajudar os garotos e garotas em lógica e um pouco de linguagens de programação e dar-lhes

Daí, é só deixar os laboratórios das escolas digitais abertos 24 horas por dia, mais sábados domingos e feriados, de tal forma que a comunidade deles se aproprie e ela mesma os proteja, como parte de sua própria infra-estrutura. As escolas, os alunos, seus pais, parentes e amigos deveriam ser o centro natural de uma política de inclusão digital de muito amplo espectro.

Segundo, procure e fomente a diversidade. Tanto nas soluções para as escolas como para o resto da infra-estrutura digital da sociedade. Em todo país, em muitos estados e cidades, dezenas, talvez centenas de soluções estão sendo testadas e usadas com variados graus de sucesso. Recursos públicos, doações empresariais, trabalho de organizações não-governamentais, “lan houses” da periferia, de muito baixo custo e preço (normalmente porque informais) estão “dando um jeito” no problema de inclusão digital, na escala que seus meios permitem, sem criar, no entanto, o impacto digital nacional em que a rede serviria de mecanismo amplo de inclusão social, cultural e, certamente, econômica.

Parta destas soluções, descubra quais são replicáveis e fomente-as devidamente, de preferência olhando com mais carinho para aquelas que demonstrarem uma maior possibilidade de sustentação autônoma. Não que se queira só estas mas, uma vez identificadas e devidamente fomentadas para evoluírem por si próprias, pode-se concentrar o maior esforço e recursos públicos nas situações onde a sustentabilidade ainda está muito distante.

Olhar com carinho para as tentativas já em curso teria, também, a vantagem de premiar seus idealizadores e promotores. Incentivar soluções sustentáveis, descobrindo o que mais elas precisam para se tornar micro-empresas, teria o efeito colateral de criar, no próprio negócio de inclusão digital,

7 Atualizado em 31/10/2006 - 00:00

20

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

inclusões econômicas em várias escalas. Ainda mais, é bem capaz de haver muitos modelos de negócio de franquias sociais, de razoável valor econômico, no meio deste negócio de inclusão digital. Não houvesse negócio no mundo digital, as empresas de telefonia não estariam tão assanhadas fazendo negócios de infra-estrutura hoje em dia.

As teles estão comprando -- fazendo uso de seu tamanho, muito maior -- distribuidoras de sinal de TV a cabo. Seu objetivo é ter, no mesmo pacote e conta, TV (digital, no cabo), internet e telefone (fixo e móvel). Só que TV a cabo é coisa pra muito poucos, já que não há combinação de densidade e renda, exceto em poucos centros mais ricos, que pague a conta convergente de TV, internet e telefonia. Por isso, durante muito tempo, vai ser preciso tratar convergência digital, na escala social, como um processo inclusão e não, simplesmente, como um mercado. E esta talvez seja a parte mais complicada da receita e onde o angu pode acabar em caroço.

Quase no fim da receita, temos que levar em conta TV digital. Não parece muito, hoje, mas TVD poderá ser, se usada como mecanismo de interação, além de sistema de distribuição de áudio e vídeo de qualidade, um potente aliado a levar serviços públicos e privados à sala dos espectadores, simplificando sua vida, aumentando seu raio de ação de uso de informação e criando novas e poderosas formas de inclusão digital. Para que dê certo, é preciso envolver a indústria de TV na receita, tanto do lado das emissoras quanto do lado dos equipamentos, tão cedo quanto possível, tornando públicas as especificações do sistema brasileiro e discutindo amplamente os potenciais modelos de negócio e seu

fomento (sim, pois até na Itália o governo banca parte da conta de TV digital

).

Ao fim, mas não menos importante, deve-se levar em conta a criação de oportunidades para a indústria nacional. Muito se fala, há muito tempo, de política industrial por aqui, mas muito pouco se faz que possa criar -- nesta história de inclusão digital -- soluções nacionais de classe mundial. O mercado de informática é quase sempre global em seus padrões, dispositivos e escala. Tivéssemos a coragem de tentar, em nossa receita, coisas que pudessem resolver, de forma inovadora, problemas associados à inclusão digital que ocorrem não só aqui mas em países outros, em todo mundo, alguns até mais ricos do que o nosso, criaríamos também um mercado para a inteligência e indústria brasileira, tanto quanto fizemos em outras áreas de negócio.

Juntando tudo: escolas em banda larga, abertas a todos, são soluções sociais praticamente imbatíveis para os problemas de inclusão digital. Diversidade e sustentabilidade são itens essenciais de qualquer programa para botar o povo na rede, e a indústria e serviços, além de governos e ONGs, podem trabalhar em conjunto para apoiar os que não têm meios e transformar em negócios o que for possível. Pode não ser tudo, mas são bases muito razoáveis por onde começar um grande programa de cultura digital popular. Coisa que faz muita falta em quase todo lugar deste Brasil imenso

21

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Somos todos parte da infosfera; o controle de vôo também 8

Já se disse nesta coluna que tudo na vida é computação e, hoje, vamos dizer que vivemos dentro de um universo de informação, a infosfera. Luciano Floridi, filósofo da Oxford University, cunhou o termo para representar o universo de todos os documentos, operações sobre os mesmos e agentes que realizam tais operações. Quando o leitor vai a um caixa eletrônico, ele é o agente que realiza um conjunto de operações sobre um documento, uma conta bancária (a sua, se tudo estiver dentro dos conformes).

Quando se liga para um número 0800 pedindo ajuda para um serviço, o mesmo acontece: somos

agentes, associados a determinados documentos, que devem, ou deveriam, corresponder aos serviços pelos quais pagamos e neles estamos realizando operações, possivelmente correspondidos pelos

atendentes (outros agentes

forma a atender nossos novos ou mudados desejos, como inserir ou retirar canais de TV paga do nosso

do outro lado da linha, que mudam o status dos nossos documentos, de

)

serviço (e conta) ou mudar o contrato (um documento) de nosso serviço de celular.

Se estamos mesmo vivendo nessa tal de infosfera, a rede de todas as coisas, inclusive nós próprios, os exemplos são tantos e tão perto de cada um que poderíamos passar o resto da vida a desfiá-los, um a um. Seria demais para a paciência do leitor. Fiquemos com um quase lugar comum dos últimos dias, o caos aéreo nacional, que aconteceu porque um número de agentes, os controladores de vôo, resolveu diminuir o número de documentos sobre os quais fazem operações simultaneamente, forçando uma parte das aeronaves a ficar no solo, esperando a disponibilidade de agentes para tratá-las

É importante notar que o controle de tráfego aéreo não controla o tráfego aéreo

sobre o mesmo. Os aviões são quase autônomos, eles próprios pequenas esferas de informação -- se comparadas com a infosfera maior -- sobre os quais outros agentes, seus pilotos, realizam operações que, quando dão errado, levam a conseqüências nefastas como a do vôo Gol 1907. Na sexta-feira do desastre, os agentes envolvidos não compartilhavam os mesmos documentos (seu conhecimento da informação era assimétrico) o que os levou a não tomar as decisões e realizar as operações que teriam evitado o maior acidente da aviação brasileira.

mas a informação

A infosfera, como identificada por Floridi, é cada vez mais parte da infra-estrutura da humanidade e nós

acabamos de descobrir, aqui no Brasil, que a parte dela que está relacionada ao tráfego aéreo tem sérias deficiências, que não começaram há quinze dias, o que certamente não é privilégio do setor, no país.

Mas que pode levar a pelo menos uma pergunta interessante: será que não poderíamos desenvolver agentes artificiais para controlar o tráfego aéreo? Ou seja, será que o trabalho dos controladores não poderia ser feito por software?

Esta pergunta está sendo feita em outros contextos, desde a cabine dos aviões até o assento dos motoristas nos automóveis, passando por tudo o que se move e muita coisa que está aparentemente parada, como a distribuição de energia elétrica e o controle de sinais de trânsito, além do diagnóstico e tratamento de doenças de todos os tipos. E há muita coisa que software certamente pode fazer, hoje. Mas há alguns limites que não devem ser esquecidos, sob pena de aumentarmos em demasiado o risco

8 Atualizado em 07/11/2006 - 11:08

22

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

de alguma coisa atingir o ventilador, como dizia a minha vó.

Primeiro, os problemas decisão tratados pelos controladores são muito complexos e em tempo real, o que significa que você tem o tempo dos acontecimentos para resolver o problema. Não adianta ter a

melhor solução três minutos depois de uma colisão; é melhor ter uma razoável muitos minutos antes. E

o mesmo, claro, valeria para o software. Segundo, tirar o controlador do circuito significa colocá-lo de volta, para resolver problemas mais graves, pois um sistema automatizado de controle de tráfego aéreo certamente teria limitações. O que nos levaria a ter um controlador sempre preparado e em prontidão, mas sem tomar decisões, a não ser em situações muito graves, o que é um contra-senso, pois talvez ele

não tivesse tempo (o tal tempo real

)

para entender a situação quando fosse chamado a resolvê-la.

Nos EUA, onde há quinze mil controladores, que chegam a ganhar mais de US$100 mil por ano (contra

menos de US$20 mil no Brasil?), muitos bilhões de dólares já foram gastos em tentativas de informatizar

o controle de tráfego aéreo, com sucessos, digamos muito parciais. O radar auxiliado por computador é

um dos resultados do investimento, mas não vai haver, nos próximos dez anos, um sistema capaz tirar dos controladores o papel de principal agente informacional do sistema de tráfego aéreo, e sim vários

tipos de software e hardware que poderão auxiliar muito seu trabalho, num ambiente onde haverá cada vez mais demanda por viagens aéreas.

Isso significa, lá na América, que eles terão que contratar mais dez mil controladores de vôo até 2015 e

o plano para tal é público e está neste link, em .PDF (envie para alguém que você conhece no governo e peça uma cópia do equivalente brasileiro).

Se o leitor tiver curiosidade sobre o que faz mesmo um controlador, há um jogo na internet (veja aqui) que dá uma idéia bem básica de como a coisa funciona. Para quem quiser algo muito mais sofisticado, faça um download deste outro e controle o aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, usando telas e comandos que parecem muito com as realmente usadas no controle de vôo. Se você gostar do assunto,

pode até virar controlador aqui no Brasil e ajudar a resolver nossos problemas

de trabalho nos EUA e ganhar dinheiro de verdade com seu recém-adquirido conhecimento.

ou conseguir um visto

Lá nos EUA, aliás, esta história de “infosfera” está sendo levada a sério mesmo: a US Air Force redefiniu sua missão para incluir como área operacional, além do ar e do espaço, o ciberespaço, que já tem um comando específico e é considerado essencial, pois a guerra, segundo o general da área, “é dados” Resta saber como foi que esquecemos, aqui, que o tráfego aéreo “era dados”, também, e tratados por seres humanos.

23

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Comunicação: acesso deveria ser público e aberto? 9

O passado recente do Brasil ensina que o Estado é uma desgraça como provedor de qualquer coisa. Será que é, ou precisa ser, sempre assim? Principalmente para infra-estruturas que, por outro lado, parecem ser naturalmente públicas?

Imagine, por um breve momento, que todos os prédios da cidade estão ligados à rede de infra- estruturas municipais. Dela fazem parte as ruas, o metrô, as encanações de água, esgoto e gás e os sistemas de eletricidade e comunicações. Como assim? Da cidade não são apenas as ruas, quando

muito? Não, cidades já fizeram mais, até no Brasil; foram instituidoras e proprietárias, em muitos casos

e por longo tempo, de sistemas de comunicação. Em Arcoverde, PE, na década de 60, era assim, até a estadualização e nacionalização impostas pelo golpe de 64.

Vamos, pois, voltar a pensar: o que são as ruas, numa cidade? Seriam redes de acesso, locais, públicas e

abertas?

troncos rodoviários.

Certamente são locais, de acesso aos mais diversos pontos do local, conectadas, aqui e ali, a

São bens públicos, no sentido econômico: todos se beneficiam de sua existência, ao mesmo tempo em que nenhuma entidade individual receberia benefícios suficientes para provê-las de forma universal. E são abertas, porque todo e qualquer tipo de serviço pode ali ser realizado -- por agentes de mercado, inclusive e principalmente --, de forma competitiva, mediante o pagamento de taxas -- públicas e transparentes -- para manutenção e evolução da infra-estrutura.

Essa, pelo menos é a teoria das ruas. Estamos fartos de saber que ruas estão cheias de buracos e sem sinalização, inundam, o dinheiro das taxas que pagamos para que existam e funcionem apropriadamente desaparece com freqüência e por aí vai. Mas não é assim em todo lugar e não precisa sê-lo, aqui, para sempre. Na Suécia, onde este artigo foi escrito, os carros em que andei não toparam

com um simples buraco e os sinais de trânsito funcionavam todos

manhã, não cortou o sinal vermelho, no meio do nada, a caminho do aeroporto.

e o motorista do táxi, às 5 da

Na Suécia, como na Islândia, Noruega, Finlândia, Holanda e outros países, “cidades” são empresas públicas e são “donas” de sua infra-estrutura, o que inclui a possibilidade de cuidar do acesso local às comunicações de forma pública e aberta. Estocolmo tem uma subsidiária só para isso, a STOKAB, cujo plano de curto prazo é levar fibra ótica a todos os endereços da capital. O que nos obriga a perguntar: o que levaria um dos mercados urbanos mais ricos do mundo [metrô, R$ 6/hora; hotel uma estrela, R$ 500/dia] a decidir pela construção de uma infra-estrutura pública de acesso banda larga?

O metrô de Estocolmo é parte da infra-estrutura do lugar; R$ 6/hora é subsidiado por impostos urbanos

entre os mais caros do mundo, porque o metrô serve a todos. O hotel não tem subsídio e por isso custa

tão caro

mundo, em Estocolmo, pode ter um carro e mantê-lo na rua (e por isso o metrô), nem todos podem

e metade é talvez imposto, parte do qual acaba no metrô

Da mesma forma que nem todo

9 Atualizado em 14/11/2006 - 17:17

24

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

arcar com o custo de instalação de fibra ótica até seu domicílio ou empresa. Se a cidade não entrar no jogo, somente as maiores empresas e os bairros mais ricos terão banda larga de alta performance (e a semelhança com cidades brasileiras, então, não seria coincidência).

Resultado? Um número crescente de cidades (e não de países, nem mesmo estados) na Europa, América

e Ásia está instalando banda larga (mesmo, de 100 megabit/s pra cima!) como parte da infra-estrutura

do lugar e como incentivo à instalação de negócios, que podem ser tornados muito mais competitivos

pela via de mais e melhor comunicação. Brigham City, nos EUA, parte de uma rede de treze municipalidades instalando banda larga, começou a fazê-lo depois de perder uma companhia

responsável por US$ 23 milhões em salários na cidade de 17 mil habitantes, por falta de infra-estrutura

decente de telecom

“oportunidades comerciais”.

porque a incumbente de telecomunicações não via, no lugar, grandes

Aí é onde está o perigo e a real oportunidade para as cidades: as teles não vêem mais “oportunidades” no acesso local, transformado em z0mm0dity (zero-priced commodity, ou commodity de preço zero) pela internet e só irão investir localmente -- se houver altos retornos, de preferência com baixos investimentos. Como, então, chegaremos em Saljarnarnes (Islândia), onde qualquer um, pai, aluno cidadão, pode consultar o professor de matemática de plantão sobre juros compostos, usando áudio,

vídeo e rascunho eletrônico, aplicação disponível na intranet da cidade, o professor de plantão na casa

dele (talvez), a pessoa em seu negócio ou casa? Parece ficção científica; não é

primeira cidade do mundo totalmente ligada em fibra ótica, pela prefeitura. Parece que o povo gostou. O prefeito acaba de ganhar um segundo mandato.

Saljarnarnes é a

O melhor é que, no caso da cidade islandesa, a municipalidade não gastou um centavo, pois a empresa de energia elétrica montou a nova infra-estrutura. Isso pode ser replicado? Sim, mas não em todo lugar. Em zonas rurais da Holanda, a equação tem outra solução: a cidade fornece a fibra, cooperativas agrícolas se unem, tratores rasgam o chão e deitam cabos, usuários marcam o terreno para evitar acidentes futuros. O futuro, aliás, é o que a fibra traz: para as crianças, centenas de megabit por segundo, em casa, significam desde conexão de alta qualidade com os amigos distantes (dois quilômetros, a dez graus abaixo de zero, é muuuito longe), com o professor de plantão, é vídeo sob

demanda e jogos, em alta resolução

campo pra cidade. No Brasil, serão outras equações para diferentes regiões e cidades.

o que pode fazer muita gente pensar duas vezes antes de sair do

Alta tecnologia transforma o impossível em commodity. Inovação é mudança de comportamento das pessoas como produtoras e consumidoras. Inovação acontece no mercado, causada por agentes

econômicos ou mudança de regras de negócios. Alguma hora, vamos ter que reescrever as nossas regras de telecom. Aí, seria bom estabelecer condições legais, claras, para que cidades e comunidades fizessem

o que as teles nunca irão fazer: usar alta tecnologia e inovação para criar ambientes onde cada ser humano possa se tornar mais capaz e o lugar, como um todo, mais, muito mais competitivo.

Se nem nos lugares mais ricos do mundo as teles estão criando infra-estruturas de comunicação, de alta qualidade e velocidade e de alcance universal, não será aqui que irão fazê-lo. Muito menos se quisermos acessos locais rápidos, públicos e abertos. As cidades e comunidades precisam assumir este papel. Isso seria inovação combinada com alta tecnologia e, acreditem, seria muito bom também para as teles, que poderiam se concentrar no que lhes dê mais retorno sobre investimento, afinal o único discurso que o capital, verdadeiramente, entende.

Se não der certo pelas vias legais, podemos partir pra desobediência civil, o que cidades e comunidades,

25

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

em países mais hostis, com teles poderosas, estão fazendo. Dá uma boa briga, com resultados aparentemente muito bons, sempre; na pior das hipóteses, cria-se a consciência da importância do acesso público, aberto e universal, a infra-estruturas essenciais ao desenvolvimento sócio-econômico. Na melhor, a consciência se torna realidade e a lei muda. E todo mundo ganha

26

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Vírus (virtual) ataca mundo (virtual)

10

Vírus é uma (quase) forma de vida que pode atrapalhar muito o mundo físico em que vivemos. Mas complica muito mais quando surge em mundos virtuais, como uma forma de vida

Qualquer programa de computador pode ser tratado, em última análise, como um mundo virtual. Um caixa automático, destes que a se encontra em qualquer esquina, é um banco virtual, no sentido em que fazemos lá uma boa parte das coisas que, antes, tínhamos que ir ao banco de verdade, de pedra e cal, para fazer. Numa escala maior, a internet é um conjunto de sistemas de hardware e software que implementa uma grande biblioteca -- virtual e programável -- de produtos e serviços. Passa o tempo e um número cada vez maior e mais interessante destes mundos vai sendo criado e colocado à nossa disposição, à medida em que uma parte cada vez maior da sociedade vira serviço e tais serviços são informatizados.

Em tal contexto, tinha que haver algum mundo realmente virtual como Second Life, um universo completamente imaginado, inicialmente sem nenhuma relação como o mundo físico, de verdade, que

nos cerca. Para entrar no lugar, instale um software cliente em sua máquina, crie um caracter (um

“avatar”) e um nome para ele, associado a uma das famílias que habita o lugar e

aprender a navegar na interface, que lhe tornará parte real do mundo virtual e lhe possibilitará interagir com representações de coisas e humanos ao seu redor, você se tornará um cidadão de um outro universo, em condições de agir como na sua vida real aqui fora (mais ou menos) e, melhor, fazer coisas

que você -nem ninguém- pensariam por aqui.

pronto. Depois de

Second Life é uma criação inspirada no livro "Snow Crash", de Neal Stephenson, onde ficção e realidade interagem sobre uma infra-estrutura de software (o “metaverso”) na qual parecem acontecer, no texto, coisas mais interessantes do que no mundo aqui fora. Snow Crash é, ao mesmo tempo, o nome de um vírus que, no livro, sai do metaverso e afeta as pessoas, como uma gripe do frango virtual. Second Life é um sucesso: tem mais de um e meio milhão de habitantes, 40% dos quais ativos e, a qualquer momento,

é fácil encontrar 15, 20 mil pessoas usando o sistema simultaneamente. Nem que seja só por curiosidade, vale a pena ver.

O que dá pra fazer lá? Muito: construir edifícios, desenhar objetos (roupas, por exemplo), vendê-los,

lançar clips, ir à balada, fazer reuniões (como a IBM), montar agências de notícias (a Reuters tem uma),

ter um blog e, como talvez fosse inevitável, é lá que a Endemol vai lançar um BigBrother virtual (e você

pode participar); há histórias de adultério, contratação de detetives e por aí vai

escrever software. Pra tudo. Quando você cria alguma coisa (sua propriedade intelectual virtual), ela é uma representação, em software, de algum conceito.

e, claro, é possível

Uma das “coisas” que uma turma criou, recentemente, foi um copiador-genérico-de-qualquer-coisa, usando o qual é possível capturar, para si, qualquer coisa que um outro tenha criado, sem ter que remunerá-lo. Confusão mundial (lá) sobre propriedade intelectual, possibilitando uma discussão muito interessante sobre copyright, sua validade, uso, remuneração, etc. Esta semana, outro software pipocou em Second Life: um griefer (estraga prazeres em ambientes virtuais) liberou no ambiente um worm

10 Atualizado em 21/11/2006 - 10:00

27

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

(software malicioso de replicação e propagação próprias) chamado grey goo. A coisa instalava anéis dourados girando no ambiente, cuja interação com os (avatares dos) usuários criava ainda mais anéis e assim por diante, levando à exaustão dos (2700+) servidores que mantêm o universo funcionando. A Linden Labs (dona do pedaço) teve que fechar (literalmente), por algum tempo, o mundo virtual, para desabilitar grey goo e suas artes. Antes que o mundo parasse por completo, foi preciso dar um reboot por lá

Pensando bem, esta era uma capacidade de Second Life que poderíamos ter no nosso universo físico, real: dar um reboot no que não funciona por aqui, como o controle de tráfego aéreo. Mas algo podia desandar seriamente, se tal "funcionalidade" estivesse por perto. Como? O worm que andou solto em Second Life era uma "coisa" que foi terminada pelos administradores do sistema; dependendo do grau de sofisticação da tal "coisa" (ou agente, possivelmente inteligente), ele poderia ser parte importante de um ambiente que não fosse antroprocêntrico, ou seja, centrado em seres humanos.

Num mundo de avatares, não vai dar para diferenciar -- para quase todas razões práticas -- um agente artificial de um natural. O primeiro poderia ser um avatar controlado por software e o segundo, um

outro, controlado por um humano. O primeiro seria uma “coisa” e o segundo

um “de nós”.

que, numa sociedade de informação e numa internet cada vez mais de “coisas”, elas poderiam ter direitos. E se um dos direitos de agentes informacionais fosse o de não terminação sem "justa causa", a simples discussão do conceito de justa causa poderia levar a surpresas e conflitos muito interessantes. E levará: um número cada vez maior de sistemas autônomos já controla e interfere no ambiente ao nosso redor e, em futuro nem tão distante assim, seu impacto sobre nossas vidas será enorme. À medida em que isso aconteça, estes sistemas ofenderão interesses, ao mesmo tempo em que atenderão outros e a pressão para que seu funcionamento seja pautado em uma ou outra direção, ou mesmo para que sejam "desligados", será muito grande.

provavelmente estava se divertindo muito com sua criação

brincadeira. Lidar com agentes informacionais e suas características, dentro de um contexto onde eles não possam ser terminados pelos administradores do sistema sem razão aceitável pela comunidade ao

seu redor, vai ser uma das mais complexas atividades da sociedade da informação dos agentes produzindo e processando informação for artificial.

e dá pra pensar que era contra o fim da

quando a maioria

Breve, acontecerá num mundo real bem perto de você. No virtual, já acontece agora.

28

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Confusão Digital 11

Embaladas pela noção de que, alguma hora, todos os meios e mídias serão um só, empresas de

comunicações e telefonia estão aprontando uma verdadeira confusão os separe.

digital. Até que a convergência

O noticiário mundial anda cheio de notas, reportagens, entrevistas e promessas de convergência digital,

com cada empresa prometendo mais do que outra. Teles prometem YouTube em seus celulares, TVs a cabo entregam telefonia como parte do pacote, provedores de acesso querem fornecer TV via protocolo

IP e, claro, quando houver, TV digital há de ser, segundo quase todos, interativa. A ponto de o

espectador poder receber uma chamada telefônica, pela TV, bem no meio daquele capítulo intenso da novela.

Convergência digital, visto pelo lado da maioria das empresas de mídia ou do que costumava ser chamado de telefonia, parece ser um fazer tudo (todas as formas de mídia e comunicação) sobre sua plataforma física, qualquer que seja, para todos os públicos, desde que eu -- a empresa -- tenha controle sobre o que eles -- os usuários -- fazem.

Mas isso não vai dar certo, em último caso, porque não irá satisfazer justamente o tal do usuário, responsável pela renda e negócio da empresa. Por que não? Primeiro, talvez devêssemos concordar com uma definição de convergência, à qual podemos chegar através de exemplos. O que é um telefone? No passado, era um equipamento com um dial, microfone e fone de ouvido, conectado por fios a uma central telefônica. Bem no passado, era analógico e vez por outra funcionava. Hoje, é uma aplicação, responsável pela transferência bidirecional de áudio entre dois pontos, à qual podem ser agregadas funcionalidades de tantos tipos que, em muitos casos, escondem o tal telefone.

Esta aplicação, tanto como emeio, transferência de arquivos, interação com páginas web, rádio e TV, é possibilitada porque um conjunto de serviços -- protocolos específicos para suportar cada tipo de aplicação -- construído sobre uma infra-estrutura (processadores, roteadores, cabos, redes dem sio, satélites) que, em última análise, realmente movimenta os bits que tornam possível nossas conversas. Então, por trás da convergência, está uma rede estruturada em camadas: infra-estrutura, lá embaixo, serviços essenciais sobre ela e, no topo, as aplicações que usamos e pelas quais queremos - eventualmente -- pagar. Convergência digital é transformar em infra-estrutura, serviços e aplicações, usando padrões abertos e inter-operáveis, o que antes eram sistemas particulares, fechados, cada um de um operador diferente.

E onde entra a confusão digital? Na hora em que uma operadora de celular (Verizon, nos EUA) avisa que vai prover YouTube a seus usuários, ao invés de convergência, é confusão. Por quê? Se fosse convergência, como o celular é um dispositivo que deveria estar funcionando sobre uma rede aberta, a

operadora nunca precisaria dizer que vai -- ou não -- oferecer uma aplicação na telinha do meu celular.

O problema seria somente meu: YouTube é um site, tem um endereço, eu vou lá e vejo o que quero.

Como nós fazemos com nossos browsers. A menos que o leitor esteja na China, Irã, Cuba e outros países que censuram a internet, a escolha do que ver é livre. A internet é, por definição, convergente. A rede das teles, ainda pensada como telefonia, não é.

11 Atualizado em 02/12/2006 - 08:25

29

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

As operadoras, de fato, controlam o padrão de experiência que seus usuários têm na rede, deixando- lhes, na prática, pouca escolha. Para que tivéssemos convergência digital real, lá, era preciso primeiro “abrir” as operadoras para a rede. Em outras palavras, seria preciso que elas se vissem como as provedoras de infra-estrutura que realmente são. Compare, por exemplo, com as empresas de eletricidade: nenhuma delas tem a coragem, hoje, de dizer o que nós podemos ligar ou não nas tomadas. Fazemos o que queremos. Num passado distante, até que tentaram. Mas não deu, como não vai dar, no longo prazo, para as empresas de telecom.

O mesmo acontece com as redes de TV a cabo: apesar de ter alguma escolha dos canais que posso assistir, não tenho (pelo menos aqui em Recife) nenhum canal de Angola ou Senegal. Por quê? O

distribuidor controla os sinais (digitais) entram em sua rede

os canais que já pré-escolhidos. Haveria uma grande audiência para uma TV do Senegal no Brasil? Provavelmente não. Mas se o mundo fosse mesmo convergente -- e não confuso como os operadores o tornam --, um pequeno número de espectadores, poucos milhares, tornariam lucrativo ver o Senegal, via IP, no Brasil.

de tal forma que só posso escolher entre

Olhando para as atuais infra-estruturas e serviços (teles e outros) de entrega de aplicações (de telefone

a TV e internet) em nossas casas e empresas, não só cada ator que fazer tudo, mas quer, também,

controlar tudo e, especialmente o que, como e quando o usuário vê, ouve ou tem acesso. O mesmo pode acabar acontecendo com TV digital, dependendo do caminho que escolhermos: os “operadores” de TV digital, os canais, podem querem ter o mesmo grau de controle que, hoje, as teles e os

operadores de cabo têm, ou gostariam de ter, sobre seus espectadores.

É bom lembrar, e saber, que os espectadores, clientes e usuários estão fugindo das infra-estruturas e serviços fechados para sistemas abertos, onde podem definir, escolher e usar o que querem e bem entendem. As experiências que os usuários querem ter os incluem não só como atores, mas, muitas vezes, como diretores e até como construtores de seus serviços. Foi assim que surgiram Skype, YouTube, blogs e as muitas redes sociais que, hoje, ameaçam a mídia clássica e as velhas redes de telecomunicações.

Pode ser que a confusão digital continue ainda por muito tempo. Mas ela não há de durar para sempre. Mais hora, menos hora, teremos um mundo convergente sobre a mesma plataforma de computação, comunicação e controle, estruturada em termos de infra-estrutura, serviços e aplicações que podem ser usadas como, quando e por quem queira, sem interferência de “programadores centrais”. Se as teles algum dia pensaram que poderiam ser redes de TVs e vice-versa, cada um e todos controlando os usuários de suas “convergências”, parece que não vai dar.

Se alguém vai programar o futuro do usuário-espectador, é ele mesmo. E cada operador vai achar, breve, seu novo lugar na convergência de negócios que será criada pela convergência tecnológica. Afinal, confusão não é um bom negócio para ninguém.

30

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

O Caos Aéreo Nacional: único exemplo? 12

A economia se transforma em serviços, a sociedade vira software. O insumo fundamental para seu

funcionamento é informação: correta e disponível quando se precisa dela. Só que o Brasil ainda precisa acordar para a era da informação.

Bem no começo de outubro, escrevemos aqui sobre o acidente com o Gol 1907, que hoje se sabe ter sido apenas a pequena ponta do gigantesco iceberg da crise de tráfego aéreo que abala o país. Quem pesquisar os últimos meses do noticiário no G1 e qualquer outro lugar descobrirá facilmente a extensão do problema, aí incluídos os acidentes que quase aconteceram. Só para relembrar o artigo anterior, aviões voam imersos em um ambiente de informação em tempo real: o papel de todos os sistemas de informação e controle ao seu redor é garantir o percurso entre dois pontos, numa rota qualquer, em segurança.

O caos aéreo é uma dantesca -- e bem brasileira -- mistura de falta de planejamento, investimento e

educação. Não projetamos o crescimento da demanda por informação e seu controle em conseqüência do aumento do tráfego aéreo, em conseqüência do que não fizemos os investimentos necessários para tratá-lo. Ainda mais, não passamos os últimos anos educando gente para o difícil e tenso trabalho de controlar aviões. Não se pode laçar alguém na esquina e torná-lo um controlador de vôo em algumas horas, dias ou semanas.

Como diria um dos meus professores, “a diferença entre a civilização e a barbárie é a manutenção”. Por absoluta falta de manutenção, previdência e providências, a impressão de barbárie que o Brasil passa ao mundo, em suas piores horas, só é ultrapassada pelo nosso despreparo no tratamento de emergências. Há dois meses, um serviço essencial ao funcionamento do país, o transporte aéreo, está mergulhado em profundo caos e a maioria das autoridades responsáveis parece só ter acordado para a gravidade e urgência da situação depois que os principais aeroportos do país simplesmente fecharam.

Sabendo que informação é tão crítica para viagens de avião e, mesmo assim, estava sendo tratada há

anos com o desleixo que, hoje, sabemos, talvez seja hora de perguntar: que outras facetas da economia

e sociedade nacionais estão padecendo de um apagão informacional? Até que ponto o caos instalado --

há décadas -- na previdência social não é, em boa parte, um apagão de informação, impossibilitando análises e tomadas de decisão que pudessem minorar o problema? Em que medida o roubo, puro,

simples e à luz do dia, dos recursos públicos (inclusive da previdência

informação e da falta de transparência com ela é manipulada?

),

não depende da inexistência de

É bem verdade que, nas últimas décadas, houve progressos consideráveis no tratamento de informação

no Brasil. Algumas de nossas instituições públicas são verdadeiros centros de excelência em gestão de informação, especialmente -- como convém aos bárbaros -- no lado da arrecadação. O problema é que

informação tem um ciclo de vida: ela é gerada em algum lugar, capturada de alguma forma, processada

de várias maneiras, transmitida e apresentada em muitos lugares, preservada -- ou não -- e mantida sob

sigilo (ou publicada) e, depois de passar por vários ciclos, algum dia é terminada

à história, de alguma forma.

se não for necessária

12 Atualizado em 09/12/2006 - 10:38

31

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Este ciclo de vida da informação funciona como uma corrente: o elo mais fraco é quem determina quão forte é o todo. Basta um único ponto de falha para termos problemas, potencialmente graves, no sistema inteiro.

Hoje, uma sociedade aparentemente democrática é aquela em que os cidadãos têm direito a voto e onde as conseqüências de seu desejo são representadas, transparentemente, nas articulações que fazem o país funcionar. Daqui a algum tempo, serão democráticas as sociedades em que a assimetria de informação entre o poder e os cidadãos for mínima. Já há indícios desta tendência hoje: quanto mais bem resolvido é um país, mais direito à informação têm seus cidadãos. Mas o que ainda ocorre por trás dos panos é muito mais do que vemos aqui da platéia.

Não que queiramos, como passageiros, controlar o tráfego aéreo. Há razões, inclusive de segurança, para que não tenhamos acesso aos dados do controle de vôo em tempo real. Mas não deveria haver

nada que nos impedisse olhar o tráfego aéreo do passado

vôo depois que ele terminou. E ter acesso a um simulador que mostrasse como nosso avião saiu de Recife para São Paulo e quase bateu em outros aviões duas ou três vezes. Ou como foi tranqüila a

viagem.

por exemplo, de ter acesso aos dados de um

Tampouco se quer controlar, no miúdo, os gastos públicos; afinal, há servidores nossos lá, responsáveis pelo bom gasto da montanha de dinheiro que o estado recolhe, queiramos ou não. Mas aqui deveria ser possível, aos cidadãos, olhar bem mais de perto e em um bom nível de detalhe o que ocorre com as finanças de estados, municípios, da federação e muitas de suas empresas. Não só não atrapalharíamos a realização das obras e serviços públicos, mas poderíamos ajudar muito.

Um número de cidadãos -- nossos representantes -- já tem acesso a parte dos dados sobre os gastos públicos. Mas é pouco. Cada um poderia ser um “controlador”, não de tráfego aéreo, mas dos gastos públicos. O acesso à informação sobre os orçamentos públicos e sua execução -- e não a dados consolidados, como o déficit tal e o superavit qual -- seria uma maneira moderna de diminuir a assimetria de informação entre o poder e o cidadão, entre o político e o eleitor, capaz de renovar a face da democracia no país e no mundo.

Utópico? Pode ser. Mas não custa nada propor. E tentar. A política e a gestão pública não serão sempre estróinas e corruptas; se forem, o país não se sustenta e elas perecem com ele. Transparência é, em quase tudo, transparência de informação. Transparência depende de gestão competente do ciclo de vida da informação relevante para a administração pública e, sendo este o caso, é fácil começar a introduzir

o cidadão no ciclo de vida da informação pública

honesta e competente, não há porque temer o cidadão.

porque se a gestão dos processos públicos for

Já se vê pequenos sinais da sociedade da informação amanhecendo. A pressão popular e a competência pública serão essenciais para que informação seja parte intrínseca de nossa sociedade. Quando for, será quase impossível um apagão aéreo, pois muita gente vai notar, bem antes que ocorra, e haverá providências. E vai ser muito mais difícil roubar a previdência e fraudar licitações. Demora, mas vamos chegar lá. É só acordar

32

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Varejo virtual cresce e (tenta) aparece(r) 13

Fusão das Americanas on-line com o Submarino cria um pequeno gigante virtual, cuja pretensão é fazer bonito no mercado de varejo em geral. Além de sua própria energia, vai precisar do que mais?

O mercado de varejo no Brasil supera R$ 200 bilhões este ano e seu líder, as Casas Bahia, vai faturar uns R$ 12 bilhões, R$ 450 milhões gastos em marketing. Pra se ter uma idéia do alcance de tal investimento, anúncios das Casas Bahia são vistos na TV em todo Pernambuco, onde não há uma só loja da rede. Outro grande nome, o Ponto Frio, fatura R$ 4 bilhões em 2006, dos quais R$ 90 milhões destinados a marketing.

No mundo dos tijolos, estão no mesmo mercado grandes cadeias de supermercados e incontáveis pequenos varejistas, cujo diferencial é conhecer o cliente (no) local, que compra quase na “caderneta”, como nas bodegas da década de 60. Redes como a Insinuante, nascida na Bahia, se orgulham de sua base de três milhões de clientes, “numa região em que nem todo mundo possui comprovante de renda ou de endereço".

Sem comprovante de renda e sem endereço é, quase certamente, sem internet, como a vasta maioria dos brasileiros. Segundo o cgi.br, perto de 70% da população nunca usou a rede; uns 30% usaram nos três meses anteriores à época da pesquisa (PNAD 2005) e apenas 10% usava a rede diariamente. Entre os usuários, 80% nunca fizeram uma compra on-line, basicamente por falta de confiança no meio. Tragédia brasileira, pois confiança se dá através de experiência. Como pouca gente tenta, como construir as ligações de confiança que levariam a uma internet de comércio, além dos serviços que tão bem presta, pela rede, uma boa parte do setor público?

Mas a pesquisa do IBGE não é só sobre pessoas. Entre as empresas, 70% está na rede, 60% tem conexão banda larga e 30% faziam vendas pela internet; 75% das que vendiam on-line afirmaram ter custos menores do que em suas operações concretas. Ou seja, as empresas estão se conectando, estão vendendo -- pouco -- e esperam vender -- muito mais -- pela rede. Os indivíduos é que estão por fora: a vasta maioria não tem rede e a compra eletrônica, entre os que têm, é muito abaixo do que talvez pudesse ser.

Olhando para este pequeno mundo dos que compram on-line, há uma grande novidade. As duas maiores lojas virtuais do país, americanas.com (R$ 1 bilhão de vendas, até setembro) e submarino.com (R$ 600 milhões) fundiram suas operações, criando a B2W, um pequeno grande líder na web, responsável por 20% do faturamento do setor. Ou mais. Dependendo de em quem se crê -- e o Brasil é muito ruim de dados --, a B2W é muito maior; há quem diga que o varejo eletrônico é só 2% do total, uns R$ 4 bilhões, e aí a B2W seria 40% do comércio na web. Mas o que nos interessa, aqui, é que a fusão não é para evitar o ataque de uma terceira ou quarta loja abstrata, mas para atacar os líderes do mundo concreto.

Segundo Fernando (Teco) Sodré, diretor de negócios da Mixer, “a fusão não gera uma concorrência ainda a altura de faturamento dos grandes varejistas no Brasil. Mas tá coçando e não vai mais parar de

13 Atualizado em 16/12/2006 - 11:36

33

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

coçar. O que era só um nome virou também uma força de compra com os fornecedores. Arma simples. Negociação: diferencial do varejo.” O que nos leva de volta às Casas Bahia: o líder do varejo, quase dez vezes maior que a B2W, nem loja virtual tem e, desde sempre, usou uma política de prestações através de carnês que só podiam ser liquidados na loja, para atrair o cliente de volta ao lugar onde, esperando na fila, podia comprar mais. Ainda hoje, isso representa mais de 70% de suas operações.

O mercado da B2W/americanas/submarino é o público da classe A/B, a galera que tem internet, e quase

só, entre estes, quem tem banda larga. As Casas Bahia e companhia apontam noutra direção, pro povo que nem sabe o que é a rede, não porque não queira, mas porque não pode. Cada macaco -- ou

vendedor -- no seu galho. Só que a fusão americanas/submarino aponta pro futuro: no passado, não havia comércio eletrônico, só comércio. No futuro, não haverá comércio, só comércio eletrônico (que

será chamado de

comércio, pura e simplesmente).

A B2W olha pra um futuro onde, para competir, as redes serão nacionais e o volume de vendas onde a

sobrevivência só está garantida se seu tamanho parecer com, pelo menos, o Ponto Frio de hoje. Senão seu poder de barganha não será nem suficiente para evitar que a Brastemp (e outros fabricantes de eletrodomésticos) entrem no seu mercado local, o que não ocorre, hoje, para não bagunçar a cadeia de valor. O que não é garantido para sempre. A Brastemp está quietinha, testando seus produtos on-line, sem nenhum marketing, porque os canais de distribuição concretos, de redes como a Casas Bahia, ainda são responsáveis por quase a totalidade das suas vendas. E isso também não está garantido para sempre.

Ou está? No começo da internet, mais de um especialista em comércio garantiu que a rede era o fim dos atravessadores: empoderado pela internet, cada produtor apareceria direto ao consumidor final, maximizando o retorno de seu investimento na produção de seja-lá-o-que-fosse. Mas quem quer, ou consegue, escolher entre mil produtores de alface? Os custos de transação de tanta liberdade trouxeram de volta, e em estilo, lojas virtuais como americanas.com e submarino.com, responsáveis por articular, na rede, a oferta e demanda por todos os tipos de serviços e bens, especialmente os vendidos pelas livrarias, lojas de mídia, eletrodomésticos, enfim, commodities que eu e você, leitor, sabemos como são e, uma vez tomada a decisão de compra, iremos atrás do preço mais baixo.

O negócio da B2W, a partir da rede mas, claramente, para fora dela, é ter o preço mais baixo para

qualquer coisa que seja vendida pela concorrência concreta em qualquer lugar do país. E não só: como

uma boa parte do que ela vende faz mais sentido, ou só faz sentido, na web, em lugares onde livrarias e

outros tipos de lojas não existem

B2W dependem, no Brasil, do aumento significativo da penetração da rede para se tornarem negócios do tamanho -ou maiores- do que as Casas Bahia.

e nestes lugares, também, não há internet

redes virtuais como a

Hoje, por mais auspiciosos que sejam os sinais, não há a menor chance disso acontecer. No médio prazo, é aquela história de políticas públicas. Coitado do país onde elas são frágeis como as que vemos no Brasil. Se botarmos muito mais gente na rede, haverá muito mais clientes na B2W e outros varejistas virtuais. Será que isso quer dizer que eles vão acabar com as Casas Bahia?

Talvez não; a galera de lá não nasceu ontem e deve estar esperando sinais de que a rede pode se tornar bem mais de 2% do varejo nacional. Ou seja, como tudo o que se vende on-line equivale a 1/3 do que as

Casas Bahia vende em suas lojas

bem que as Casas Bahia podem esperam que a rede, a bem dizer,

34

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

fique pelo menos do seu tamanho antes de entrar no jogo. Mas a partida é complexa e tem morte súbita na regra; quem entrar depois da janela pode não ter a menor chance, independente do seu tamanho no mundo aqui fora. Daqui a dez anos saberemos o que aconteceu. Até lá e boa sorte a todos

35

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Lá vem chegando o

futuro 14

Os fins dos anos deveriam ser como qualquer fim de mês. Mas nossos rituais de passagem que fazem

com que não sejam

e um destes rituais é imaginar como serão os próximos meses, ou o ano novo.

É muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. A frase de Niels Bohr (prêmio Nobel de

Física de 1922) revela parte da complexidade de lidar com o futuro. Mas, como nós todos viveremos (ainda) uma boa parte de nossas vidas por lá, vale a pena arriscar alguns palpites sobre o que pode -- e não sobre o que vai -- acontecer nos distantes idos de 2007. Lembrando, claro, que nunca ninguém volta

às previsões do fim do ano anterior quando se faz um balanço do que verdadeiramente aconteceu no ano que passou.

Aliás, o que aconteceu no ano que passou? A Vivo “mudou” para GSM, por exemplo, o que não era nenhuma novidade. Todas as operadoras do Brasil e quase todas, no mundo, que ainda estão na segunda geração de celulares usam GSM (a Vivo usava, e ainda usa, em boa parte, CDMA). Muitos comentaristas previam, e há muito tempo, que a Vivo, na prática, não tinha escolha, principalmente depois que alguns dos principais fabricantes de celulares do mundo anunciaram que não ofereceriam mais aparelhos CDMA.

Este era o tipo da previsão fácil de fazer há vários, pelo menos quatro, anos: “este ano a Vivo vai desistir da plataforma CDMA” . Mas só aconteceu em 2006 e, em verdade, levará anos para acontecer, pois há muitos, muitos milhões de usuários de CDMA, como ainda os há de TDMA, noutras operadoras, tecnologia da primeira geração digital, que pode levar de três a cinco anos para desaparecer completamente

Outras coisas importantes aconteceram em 2006, claro, e pouca gente previu: a fusão Americanas.com/Submarino.com foi uma delas, indicando que investidores no negócio de varejo virtual querem competir com o varejo de pedra e cal. E muitas outras coisas não aconteceram, e algumas delas até foram previstas, como o Brasil não ter progredido muito nos índices mundiais de inclusão digital. Aliás, desde 2004, quando o índice da revista “The Economist” começou a ser computado, nós saímos do 36º, perdendo dois lugares no segundo ano e mais três no terceiro, para acabarmos em 41º em 2006.

Isso importa? Se sim, que previsões podemos fazer para 2007? Será que vamos cair mais alguns lugares?

A primeira resposta é sim, isto importa muito, pois mede quão preparado o país está para o mundo e

economia digitais. A segunda é talvez, segundo a boa norma estabelecida por Bohr. A ameaça mais próxima é a Argentina (claro!) em 42º lugar; o Chile (31º) e o México (39º) já nos passaram e parece que não temos chances de alcançá-los. E o problema não é que o Brasil não avança, é que os outros estão indo mais depressa, como de resto é qualquer competição.

Nós avançamos muito em computadores pessoais neste ano; pelo menos em computadores pessoais que a Receita Federal vê, destes que pagam impostos ou são isentos deles. A diminuição da fúria arrecadatória sobre o principal instrumento de digitalização real da sociedade, que ainda é o PC (daqui a

14 Atualizado em 23/12/2006 - 09:51

36

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

quanto tempo vai ser o celular? Faça sua previsão

computadores vendidos legalmente no Brasil, o que não significa que o número de computadores vendidos, no total, tenha aumentado significativamente. Se bem que, segundo analistas de mercado, serão vendidos sete milhões de PCs em 2006 (contra 5,4 milhões em 2005), 50% dos quais nas “feiras do

)

aumentou consideravelmente o número de

Paraguai” do Brasil (que desovaram cerca de 70% das máquinas em 2005). Difícil é saber quão precisa é

a medida da sonegação e do contrabando

Deixando tais preciosidades prá lá, por enquanto, isso pode mesmo ter sido uma evolução, este ano.

Pode nos deixar fazer a previsão de que mais brasileiros, pessoas físicas e empresas, terão acesso à internet e seu conteúdo e serviços, como consumidores e provedores. Quantos? Segundo a PNAD 2005, somente 10% dos brasileiros tinham acesso diário à internet. Assuma que metade dos sete milhões dos PCs vendidos este ano são “novos” (não substituem um já existente, com acesso à rede) e que cada um

é usado por pelo menos duas pessoas. Arredonde, dobre o número para 2007 e

de 2007

milhões de pessoas, coisa que dá muito bem pra fazer com cinco milhões de PCs a mais.

conclua que

no fim

15% dos brasileiros estarão na internet? 5% de nós, a mais, na rede, todo dia, seriam uns dez

O problema é que a conta da internet discada pode ser muito maior que a prestação do PC e a banda

larga, conta fixa, disponível só aqui e ali, não vai nem tão cedo ter preço e cobertura pra botar este povo todo na rede. Ou todas as micro e pequenas empresas que precisam de internet para seus negócios isso porque as médias e grandes já estão na rede. Resultado: o chute, feito nas mesmas bases da PNAD 2005, para o número de brasileiros na rede em 2007 fica limitado aos 15% do nosso faz-de-conta acima, 1% a mais ou a menos. Fim do ano que vem, se vocês lembrarem, podem me cobrar o erro na previsão,

e tomara que eu esteja errando pra muito menos.

Com tanta, ou tão pouca, gente na rede (pelo menos aqui no Brasil), o que é que eles vão fazer? Ah este é o resto da previsão, que é o que todo mundo que eu conheço, no mundo inteiro, está tentando fazer. Pra onde vai a mobilidade e o mercado celular? A web vai se tornar móvel, como já o é para os jovens, no Japão? O que vai acontecer com software e, especialmente, com Windows Vista? Será que software (inclusive Vista) vai sofrer algum impacto de aplicações rodando dentro de browsers, em particular coisas que parecem com Office? Será que software vai começar a se tornar commodity que escala software como serviço vai vingar? E o conteúdo? Mais do que em 2006, 2007 será o ano dos

e em

blogs?

Não são poucas as perguntas e as respostas, para cada uma, são muitas. Tantas que ninguém pode tratar mais que umas poucas e, destas, talvez acertar uma pequena parte, especialmente nas previsões para o ano que vem. Porque um ano é muito e, ao mesmo tempo, muito pouco tempo para qualquer coisa. Tendências aparecem num ano e podem ser destruídas no outro. É disso que vamos falar na última coluna do ano, semana que vem: o que começou a pintar em 2006 (ou antes) que pode virar padrão em 2007 e o que está, talvez, pra começar a desaparecer nas próximas doze luas. Feliz Natal e até lá.

37

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Mais previsões para a vida digital em 2007 15

Na última coluna do ano, continamos especulando sobre o mundo e o Brasil digital no ano que vem. Tomara, aliás, que seja um ótimo ano (digital) para todos nós, usuários e excluídos deste grande país.

Nossas previsões para 2007, coisa inevitável de fazer e errar, quase sempre, começaram na semana passada, numa coluna que terminava assim: Pra onde vai a mobilidade e o mercado celular? A web vai se tornar móvel, como já o é para os jovens, no Japão? O que vai acontecer com software e, especialmente, com Windows Vista? Será que software (inclusive Vista) vai sofrer algum impacto de aplicações rodando dentro de browsers, em particular coisas que parecem com Office? Será que

software vai começar a se tornar commodity

conteúdo? Mais do que em 2006, 2007 será o ano dos blogs?

e em que escala software como serviço vai vingar? E o

Perguntas complexas, especialmente no contexto brasileiro. Pra começar a conversa sobre o futuro, temos mais de 100 milhões de celulares, pelo menos 75 milhões dos quais pré-pagos e nas mãos de pessoas cuja renda não lhes dá folga para usar a rede celular como plataforma de conectividade digital de forma ampla. E há pouca evidência de que os outros 25 milhões de pós-pagos estejam dispostos a

gastar o que as operadoras querem cobrar pelo tráfego de dados

fixo e banda ilimitada, mas que dependem de Blackberries que custam R$1.200, mais R$79.90 de conta por mês. Isso não vai ser, nem tão cedo, um mecanismo de universalização de acesso a nada.

apesar de já haver pacotes de preço

Mas, no mundo todo, veremos cada vez mais gente usando a web pelos celulares, uma tendência

irreversível, porque estamos todos, e quase o tempo todo, em movimento, e precisando de informação

sobre as coisas e pessoas que deixamos paradas noutros lugares

onde queremos ir. No topo de SMS, tecnologia de quinze anos atrás, tá na hora de chegar algo como MSN a todos os celulares: já conectaria pessoas, mais diretamente, mesmo que fosse só texto, no começo. Isso pode rolar nos próximos anos, em escala, antes dos celulares terem (todos) GPS, mapas e estarem na rede para nos dizer chegar onde temos que (e não necessariamente queremos) ir.

e sobre o lugar onde estamos ou para

O danado é que ainda não chegamos nem no ponto onde SMS funciona direito: mandei uns 300 no

Natal e, no levantamento feito depois, pelo menos dois em cada dez não chegaram ao destinatário. Os

perdidos, em sua quase totalidade, eram para celulares de outras operadoras

querermos mais coisas nos celulares, poderíamos prever -- e pedir encarecidamente, às operadoras -- que 2007 seja o ano em que, finalmente, todos os SMS enviados no Brasil chegarão ao destino sãos e

salvos, sem passar por alguma linha vermelha das comunicações

Ou seja, antes de

tomara.

Falando de gente, e gente com celular na mão, o sucesso de redes sociais como MySpace e Orkut expôs uma killer appplication da internet: conectar pessoas (através de informação pessoal e capaciade de interação) e não pessoas a informação. A vasta maioria dos seres humanos, ainda bem, é muito mais interessante, para outros humanos, do que artigos sobre a influência de Jean-François Lyotard no varejo

na hora, a foto do cão abandonado na praça, à espera de alguma boa alma entre nossos amigos com

Estas redes, mais cedo do que tarde, vão migrar para o celular, pois queremos compartilhar,

15 Atualizado em 30/12/2006 - 07:42

38

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

espaço para mais um em casa.

Redes sociais e celulares nos darão de volta, em breve, uma boa parte da gregariedade que perdemos, com o tempo, justamente por causa de nossa alta mobilidade pessoal no mundo moderno e da falta de conectividade de que ainda sofremos, nele, apesar de todo o progresso da técnica. Temos que levar em conta que a tela do celular, pra muitos, especialmente mais jovens, é a primeira e não a terceira tela, como querem alguns (as outras duas são o computador na internet e a TV). Quando os celulares de preço mais baixo tiverem telas de maior resolução, mais memória, mais capacidade para rodar software mais complexo (como os necessários para MP3 e TV digital) e mais (muito mais!) tempo de duração de bateria, seremos uma extensão dos nossos celulares, que serão nossa conexão como o mundo real que deixamos em alguns lugares lá fora.

O mesmo efeito, por sinal, pode ser conseguido com celulares muito mais simples -minha preferência pessoal- e banda muito mais larga e mais barata, de preferência a preço fixo. Universalizando banda larga móvel, o celular poderia passar a ser um browser, puxando da rede o pouco que rodaria localmente e deixando para os servidores, da internet e operadoras, o problema de processar o que ele vai nos apresentar. Mas o que está começando a acontecer agora e vai continuar em 2007 e depois, no entanto, são os celulares mais complexos, como poderá vir a ser o fone-com-iPod (ou coisa que o valha) da Apple, que fará a maior parte de suas transferências de dados acoplado ao computador, em casa.

Estamos chegado ao fim do ano e da coluna e só falamos, até aqui, de redes: de comunicação móvel e sociais. Acontece que estas duas tecnologias, uma de trinta anos que começa a maturar e se universalizar e outra novinha, que ainda estamos começando a entender e descobrir seus múltiplos usos, têm um potencial, em conjunto, de afetar muitas outras. Na verdade, quase todas as outras. Uma empresa -por exemplo- é uma rede social de propósito específico, imersa nas suas redes de valor, que têm seus fornecedores, seus clientes e usuários, competidores e por aí vai. Uma escola é outra rede social, onde cada turma, ou sala, é uma rede em si. Tudo em que nós, humanos, estamos envolvidos, são redes.

Tecnologias de suporte à nossa performance dentro destas tantas redes a que pertencemos, possibilitando o aumento ou extensão das nossas capacidades de participar e colaborar para o desenvolvimento das mesmas serão essenciais para o funcionamento de um universo onde estamos naturalmente distribuídos, com interesses cada vez mais glocais: de fazer as coisas para o mundo, mas de tal forma que possam ser ajustadas, ou adaptadas, para a cultura, costumes e usos locais. Nosso “local” vai ser cada vez mais a nossa rede social, à qual estaremos conectados onde estivermos, na rua,

na chuva, na fazenda

ou numa casinha de sapê.

Semana que vem vai ser 2007 e vamos continuar aqui, neste mesmo dia e canal, brincando de prever o futuro. Até lá e um Ano Novo muito mais simples para todos e suas redes sociais. E, falando em celulares, esqueçam deles ao dirigir, pelo menos: o caminho fica, desnecessariamente, muito mais complicado

39

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Algumas previsões para software em 2007 16

Mais um ano começa e este, em software, está sob o espectro de Vista, o novo sistema operacional da Microsoft. Segundo alguns, será o “último grande software de seu tipo”. Mesmo? Por quê?

Este já é o terceiro do que pode vir a ser uma longa série de textos em que se brinca de prever o futuro das tecnologias de informação e comunicação, apelando para a proteção do patrono dos oráculos, Niels Bohr (aquele do ditado “é muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro”).

Este capítulo é dedicado aos próximos anos do software e, pra começar, poderíamos tentar definir o que, mesmo, é software

Segundo Mike Mahoney, professor de Princeton e um dos principais historiadores de tecnologia, a computação tem uma natureza essencialmente tríbia: entre a matemática que torna os dispositivos possíveis e a eletrônica que os realiza, a programação é o que a torna intelectual, econômica e socialmente útil. A computação, pois, se apóia em ciência da computação, engenharia eletrônica e engenharia de software; as duas primeiras estão razoavelmente bem resolvidas e seus avanços são notáveis. A terceira “parece” com engenharia, quando comparada com a eletrônica mas ainda é, em boa parte, arte, ou artesanato. Seja o que for, é um mercado gigantesco.

Em 2006, os de pacotes de software, aqueles feitos para distribuição em massa como Windows e Office, venderam US$ 250 bilhões, metade dos quais nos EUA. O “resto”, software para corporações, que pode exigir desenvolvimento de sistemas saindo do zero -a partir de especificações da empresa- passa de

US$600 bilhões

mesma economia, que valem, hoje, cerca de US$ 1.2 trilhões. Junte tudo, são US$ 2 trilhões por ano, algo bem maior que todo o Brasil, só que crescendo, hoje, a uns 10% ao ano.

Isso sem contar os serviços habilitados por software, normalmente incluídos na

Difícil, portanto, prever o que vai acontecer num mundo deste porte. Mas estamos aqui para correr

riscos, certo? Vamos lá: a primeira surpresa do ano (e vem do ano passado) é que a lista dos vinte

(segundo lugar, Intel Core 2 Duo,

das pessoas processarem documentos, devido às funcionalidades e facilidades que oferece. Isso depois de reaprendermos a interface, segundo PCW a parte mais revolucionária do software. Mas inovação, como ensinava Peter Drucker, se dá no mercado; pode ser muito prematuro, portanto, a PCW dar um

primeiro lugar em inovação a um programa que está entrando no mercado e ninguém sabe como vai se comportar.

Office 2007. Segundo a revista

quarto, Nintendo Wii), a “nova” suíte de Redmond mudará a forma

Mas eu também testei Office2007 em junho/06 e achei que o software é uma variante bem mais resolvida e elegante de Office. Faz um monte de coisas muito bem, trabalha junto com Windows Live e tem uma grande chance de ser um sucesso, mesmo contra a quantidade de variantes gratuitas de office- na-web que faz uma ou outra pequena parte do que o software da Microsoft faz em nossos desktops.

16 Atualizado em 06/01/2007 - 14:52

40

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Aliás, pra combater os office killers que estão na web a Microsoft deverá, mais cedo ou mais tarde (depende da aceitação e receita do próprio Office2007), botar Office2007 na web: tá pronto, e rodando, neste link. Resumo, até aqui: Office2007 vai ser muito importante, em 2007 e depois. Até porque a Microsoft tem, ela própria, um office killer, na web.

A infinidade de serviços que imita partes de Office, na rede, vem de um modelo de oferta de software

chamado SaaS, ou Software as a Service (Software como Serviço), que correspondeu a apenas US$ 3 bilhões em negócios em 2005 e prevê-se que quadruplique até 2010, o que fará o setor inteiro ter o tamanho de um trimestre da Microsoft, hoje. Mesmo com a presença de firmas importantes, como a salesforce.com (500 mil usuários, US$ 130 milhões de faturamento em 2006) SaaS ainda depende de muitas coisas para ganhar escala. Como infra-estrutura, pois não temos banda, no mundo, ainda, para fazer com que a maioria -ou uma boa quantidade- das coisas que rodamos “em casa”, ou “na empresa”, rode lá longe. SaaS vai acontecer. Mas não em 2007 ou nos próximos cinco anos, numa dimensão em que haja mais software como serviço do que “software”.

O que nos leva a Windows Vista, Linux e, porque não, sistemas operacionais como serviço. Quer ver

como é? Abra uma conta grátis em YouOS, sétimo da lista de inovações da PCW. Trata-se de um sistema operacional, como se fosse uma pequena parte de Linux ou Windows, no seu browser. Na realidade, é um sistema operacional mesmo, só que rodando num servidor não importa onde, que você pode usar no seu browser em qualquer lugar. Mas deixemos isso pra daqui a pouco. Em agosto passado, na LinuxWorld, representantes expressivos da comunidade de software aberto disseram em alto e bom som que o tempo pra Linux ganhar mais mercado era até o começo de 2008, quando Vista começaria a monopolizar o mercado de PCs, depois de passar pelos testes práticos de compatibilidade, segurança, entre usuários reais, principalmente corporativos.

Eric Raymond chegou a prever que o mercado de Linux seria uns 10% nos países ricos e 15% nas economias periféricas o que, se verdade se tornar, garante a dominância de Windows por uns dez a quinze anos mais e rendas gigantescas para a Microsoft. O maior inimigo de Vista é Vista, os restos de Windows do passado e a própria Microsoft, cuja campanha anti-pirataria, segundo o IDC, poderia estar sendo feita pela comunidade de software livre. Linux tem mais de 300 distribuições competindo entre si

e este cenário não deverá mudar no futuro próximo. Assim, a Microsoft brigará contra si própria, nos

próximos três anos, para inserir Vista em todas as máquinas novas que forem produzidas no planeta e contra os piratas que farão o mesmo para todas as já existentes (e um bom número das novas).

E YouOS e assemelhados (contra Vista e Linux)? Nos distantes idos de 2004, escrevi que

na próxima

era do software, quase não haverá software, pelo menos não à vista do usuário. O que faz todo o sentido do mundo: software não é e nunca vai ser simples. Para que a maior quantidade de pessoas venha a poder usá-lo, é bom que esteja fora do alcance, pelo menos do ponto de vista de instalação, licenças, fontes e tudo o mais. Porque o que importa, no fundo, é o que o usuário faz com ele, e não o que ele é. Isso está começando a acontecer agora, e vai ganhar uma velocidade muito grande nos próximos anos

Continuo assinando embaixo e reafirmo que, num futuro não muito distante, a “briga” entre software fechado e aberto será vencida por software como serviço, deixando os dois a ver navios. Ou não: um dos competidores da salesforce.com, sugarcrm.com, distribui, de forma aberta, o software que usa para prestar seu serviço, como garantia, acima de tudo, de sua transparência e continuidade do serviço ao usuário.

41

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Pode ser, no fim, que todo o software volte a ser aberto, como era até uns trinta anos atrás. Mas será serviço e saberemos, direitinho, o que faz, pois teremos o código, sem nenhum interesse -ou meios- para prover o serviço de forma economicamente viável. Mas esta previsão, se rolar, não é para 2007, é de longo, longo prazo. Falando nisso, aliás, semana que vem tem mais conversa sobre o tal futuro.

42

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

O futuro da internet é cada vez mais

você 17

Gente, de todo tipo, pensamento e expressão, é a coisa mais interessante da rede. E vai continuar sendo. E, no futuro, de forma muito mais intensa.

Nossa conversa sobre o futuro continua, esta semana, falando sobre os indivíduos e a internet -- e como

a rede transformou radicalmente a opinião e a performance individuais. O futuro da rede é cada vez mais seu e meu e, a menos que o império do mal resolva cercear nossos direitos de comunicação e expressão, a internet certamente será lembrada como um marco revolucionário na história da humanidade. Se sobrevivermos ao aquecimento global e conseguirmos escrever a tal história.

É começo de ano no Brasil -- dez anos depois do advento da internet comercial -- e a Justiça de São

Paulo resolve bloquear um site de vídeos, a pedido de duas pessoas que estavam transando na praia, na

frente de todo mundo. O bloqueio dura pouco, mas o suficiente para nos incluir na pouco honrosa lista dos países que censuram a internet, como Cuba, Irã e China. Este triste evento é apenas um marco da presença da rede na vida das pessoas e delas, por sua vez, na rede.

É claro que todo mundo tem o direito de transar na praia, e muita gente o faz, na maioria das vezes

tomando providências para não ofender o que se convencionou chamar de “moral e bons costumes”. Se um anônimo qualquer protagoniza a cena, dificilmente haverá interessados em gravar e disponibilizar sua performance num lugar qualquer, para consumo dos curiosos. Mas se os envolvidos forem figuras públicas, haverá atenção e o sucesso será imediato e em muito larga escala. O que também pode acontecer se a aparição do nosso (ex-)anônimo for competente, inusitada ou merecer nossa atenção por seja lá que razão a hora ditar.

No mundo pré-internet o “caso da apresentadora transando na praia” mereceria no máximo uma foto meio sem foco numa revista de fofocas e notas aqui e ali, em colunas idem. Na internet, o mundo é pequeno, os boatos se espalham na velocidade da luz e o controle da sociedade sobre as fontes de informação e suas conexões é muito, mas muito pequeno. Como a Justiça descobriu muito rapidamente no caso do vídeo armazenado no YouTube. Aliás, YouTube é apenas uma das milhares de fontes onde se pode ver o tal vídeo. A menos que outras coisas muito mais interessantes, do mesmo casal ou de outros, apareçam na rede em futuro próximo, é muito provável que os dois seja perseguidos, para sempre, pelo tal vídeo.

A razão básica para tanto auê é que somos antropocêntricos: a raça humana é centrada nela mesma,

perigosa e quase que suicidamente interessada quase que só no que ela é e faz. A idéia de desenvolvimento sustentado, por exemplo, é uma tentativa de impor alguma ética e moral, sobre homens e mulheres, que inclua o mundo e as outras coisas vivas ao nosso redor. Para o nosso próprio bem, por sinal. De resto, seja lá o que humanos estiverem fazendo, haverá muitos outros interessados. Na rede, então, isso pode atingir massa crítica (a ponto de todo um micro-universo da rede saber, ver e comentar) muito rapidamente, pois a internet é uma máquina de publicação e formação de comunidades como nunca houve na história do planeta.

A revista Time escolheu “You” como a personalidade do ano de 2006; este “You” é cada um de nós,

17 017 - Atualizado em 13/01/2007 - 07:47

43

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

pessoas da rede, capazes de furar o bloqueio dos cartéis corporativos de criação e distribuição de informação e, com muito pouca energia, mudar o sentido do que se diz e discute na sociedade moderna, perpassada para sempre por mecanismos de comunicação e relacionamento que subvertem as hierarquias do passado.

Há quem diga que haverá 100 milhões de blogs em 2007, e que isso será o limite. Eu discordo; blogs são pontos de encontro, pequenas comunidades de expressão que podem ser tão pequenas quanto uma única pessoa, que não precisa, no presente, de um leitor sequer. Haverá tantos pontos de encontro na rede quantos humanos conectados houver e, dentre estes, quantos estiverem dispostos a deixar suas impressões, nem que sejam seus vídeos de praia (com ou sem sexo), sobre sua passagem pela Terra. Em 2007 haverá um bilhão de pessoas na rede e a tal previsão nos permite deduzir que apenas 10% deste povo têm algum interesse em registrar alguma coisa na rede.

Vai haver mais gente na rede, muito mais. No longo prazo -- que tal 2050? -- quase todos estaremos na rede. A população do planeta, então, estará perto de 9 bilhões; exclua, digamos, 3 bilhões que talvez não tenham idade ou não queiram ter nada a ver com a rede e teremos 6 bilhões, quase a população de hoje, online de alguma forma. Mesmo se apenas 10% estiverem interessados em participar da rede como autor, e não só como leitor, teríamos mais de meio bilhão de blogs ou seja lá qual for a forma de expressão pessoal que esteja predominando então. Mas eu acho que seremos muitos mais. De 2 bilhões

de blogs pra cima. Sobre tudo e todos, desde a vida dos seus cachorros até meu observatório particular

sobre a qualidade da água no Rio Capibaribe sexo em público. E publicar em algum lugar.

passando por gente especializada em filmar quem faz

Esta presença e conexão maciça de pessoas, vindas de todas as facetas territoriais, econômicas, culturais, políticas e sociais, vai mudar radicalmente as formas de pensar, articular e operar a sociedade, incluindo novas formas de educação, produção e remuneração pessoal e coletiva (“meu blog” pode ser de engenharia de software, e nós podemos estar “negociando” código ou serviço baseado nele), de representação e administração dos coletivos, de estruturação da própria sociedade.

Todas as mudanças radicais de tecnologias, formas e meios de comunicação foram sucedidas, depois que as mesmas foram absorvidas pelas sociedades, por mudanças tão ou mais radicais nas próprias sociedades. Foi assim com a fala, com a escrita, com a imprensa, com livros e jornais, telégrafo, rádio e TV -- e será assim com a internet.

Mas numa outra escala, de intensidade muitas ordens de magnitude acima do que vimos até agora. Porque a rede distribui poder, achata hierarquias e nos deixa, a cada um, criador e consumidor de conteúdo, em posições em que nunca estivemos na cadeia de valor de informação, no mundo: no controle.

É por isso que há, por outro lado, muita gente, instituições e países querendo “controlar” a internet; tal controle, em último caso, significaria o controle dos próprios homens e mulheres na rede, tentando perpetuar algo tão humano como nosso antropocentrismo: a vontade e quase necessidade de uns de nós quererem dominar os outros, privando-os de sua liberdade de escolha e do risco e oportunidades de decidirem o que é melhor para eles e para todos nós, em conjunto.

Ano novo, vida nova, novas esperanças. Prevejo, aqui do começo de 2007, que as forças do bem serão

44

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

vitoriosas e que, no longo prazo, teremos muito mais blogs e muito menos controle. Mas é bom lembrar que o futuro não vem, nunca, de presente. Temos que trabalhar arduamente, todo dia, para que ele aconteça.

45

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Somos programas, somos e seremos programados

18

Estamos entrando na internet, mas não só. De muitas formas, estamos começando a nos (re)programar, o que cria possibilidades (e riscos) muito grandes. E no futuro próximo.

A era da informação, segundo Peter Drucker, não começou com a informática ou a internet, mas antes,

na Segunda Guerra Mundial. Até então, vivíamos a era da energia, ao redor da qual estavam centrados os negócios e a atividade científica, tecnológica e inovadora. As palavras de ordem eram mais forte, mais rápido, mais potente, num universo de pressões, temperaturas e velocidades. O domínio da tecnologia nuclear e a possibilidade de simular processos estelares deram um ar de fim-da-história ao mundo da energia e, a partir daí, os processos biológicos passaram a dominar o cenário e estes, apesar de baseados em energia, estão organizados ao redor de informação e seu processamento.

Nós, não por acaso, somos sistemas biológicos de muito alta complexidade. Sendo sistemas biológicos, somos organizados ao redor de informação e seu processamento, o que afeta cada pensamento e ação de qualquer ser humano. Como estamos há algum tempo falando de futuro, talvez fosse interessante investigar quais são os horizontes (humanos) de intervenção e modificação nos subsistemas “naturais” que nos compõem. Nem pense o leitor que arriscarei uma resposta. Ao invés, usarei um exemplo recente para discutir que tipo de “mods”, ou modificações, podemos introduzir em nossos corpos e

vidas “naturais” e, usando por base a história de intervenções que estamos fazendo há séculos, deixarei

a pergunta em aberto, para cada um pensar e responder como quiser.

Três quartos da população do planeta têm problemas de visão mais de 30% são míopes e quase 20% têm astigmatismo. Há dois mil anos, não era possível corrigir a visão, na prática, mas já havia tentativas várias; os primeiros óculos, mais ou menos na forma em que conhecemos hoje, foram feitos na Itália, no século 13. Hoje ninguém está nem aí para quem usa óculos ou não e eles são um auxílio estático elementar para a visão, usados em massa. Na Idade Média, podem ter mandado muitos à fogueira, pelo “uso de instrumentos do demônio para tentar interferir nos desígnios divinos”. Não ver bem não é um castigo dos céus, é resultado da forma como uma parte do nosso corpo processa luz; óculos (e depois, lentes de contato) são “mods” aos quais nos acostumamos com o tempo e que se tornaram, inclusive, moda.

Até aí, tudo bem. Óculos são apêndices externos ao corpo e -- tirando, por enquanto, aqueles das forças especiais -- passivos. Mas que tal pensar em modificar coisas complexas como o sono? Um artigo sobre o assunto, na revista New Scientist, começa com Modafinil, droga que não está à venda no país e que, tomada antes de dormir, transforma um sono de 4-5 horas (ou menos, para alguns) em um descanso correspondente a 8-10 horas de boa cama. Este tipo de “mod”, resultado do uso de drogas que reprogramam funções corporais, pode ser muito relevante para quem trabalha com conhecimento (porque quase sempre tem um projeto atrasado pra entregar), soldados, gente que quer estar atenta, pra quem precisa fazer hora extra ou simplesmente pra quem quer “viver” muito mais, ou seja, dormir muito menos.

Claro que drogas como esta não são as primeiras a nos modificar ou reprogramar: pense em

18 Atualizado em 20/01/2007 - 15:24

46

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

anticoncepcionais, em uso há décadas. Ou em AAS, cujo princípio ativo é conhecido há séculos e que usamos para reprogramar os receptores que nos dão a sensação de dor de cabeça. A diferença, agora, é que uma gama de medicamentos está sendo desenvolvida usando informática como auxílio essencial e pensando no corpo humano -- incluindo o cérebro -- como uma “máquina” programável. Veja o que diz

Russell Foster, biólogo do sono do Imperial College London: “quanto mais entendermos sobre o relógio

de 24 horas do corpo, mais seremos capazes de mudá-lo

desligar o sono usando fármacos iria querer tal “reprogramação”?

em 10 ou 20 anos seremos capazes de

” Mas

será que vai ser bom -- ou melhor -- viver sem dormir? Você

Modafinil está no mercado há sete anos e vende mais meio bilhão de dólares de pílulas por ano, tornando-se uma droga de “estilo de vida” para uma quantidade cada vez maior de pessoas. Outras substâncias ainda mais poderosas estão a caminho: CX717, inicialmente desenvolvida para ajudar pacientes do mal de Alzheimer, está sendo considerada pela Defense Advanced Research Projects Agency (Darpa) como um mecanismo para manter soldados acordados e alertas por muito tempo. Testes em macacos mostram níveis de atividade, em macacos “drogados” que não dormem há 36 horas, acima de macacos não tratados e que dormiram normalmente.

Modificar o ciclo de sono é apenas a porta das possibilidades de programação do cérebro. Cada remédio destinado a funções cerebrais liga, desliga, minimiza ou magnifica a ação de receptores de algum tipo. Mas pode ser que “tomar remédio” seja, em futuro próximo, coisa de um passado distante. Nos laboratórios, há novidades: dc brain polarisation, ou polarização do cérebro usando corrente contínua, por exemplo, é uma técnica para tentar controlar regiões do cérebro com hardware que pode ser embutido num capacete, usado por pilotos, soldados e… por você mesmo, no escritório, fábrica ou balada.

Os efeitos são melhoria de fluência verbal, atenção, memória e tempos de reação motora. E controle das áreas responsáveis pelo sono. Como acessório de moda, vai ficar esquisito e terá que ser usado com muito cuidado: quando a bateria acabar, seja lá o que você estiver fazendo, poderá cair duro de sono. O

que pode ser o ponto de partida para os próximos níveis de “programação”

cérebro se reprograme de maneira mais permanente para uma ou outra função, como dormir menos.

como fazer com que o

O cérebro humano contém um número imenso de neurônios, que formam redes cujas capacidades aprendemos a admirar nos últimos milênios. Admiramos mas, em sua maior parte, ainda não entendemos. O fabricante de Modafinil ainda não publicou o que sabe (ou não) sobre seu funcionamento. Há quem diga que é um acaso. Mas estamos para saber muito mais e isso terá pelo menos duas conseqüências: a tentativa de criar inteligências parecidas com a nossa e o aumento da capacidade de nos programarmos, que acontecerá bem antes e criará possibilidades muito mais amplas do que as permitidas pelas limitadas alternativas químicas que usamos hoje.

Vai demorar? Vai. Quanto? Algumas décadas, talvez. Enquanto isso, é esperar para Modafinil e similares

aparecerem (legalmente) por aqui

ou a menos, em nossas limitadas funções cerebrais

e ficar imaginando o que gostaríamos de ter, ou programar, a mais

47

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Second Life: ditadura e desastre ambiental 19

Universo virtual é um software-como-serviço totalmente controlado por uma empresa privada que faz o que bem entende com seus habitantes. Ainda por cima, gasta tanta energia por avatar quanto o Brasil por habitante.

Second Life é o mundo virtual mais interessante que há por aí e muito tem se falado dele nos últimos tempos. Inclusive aqui no G1 que, a exemplo, da Reuters, tem uma sucursal por lá. A novidade tem gerado discussões importantes sobre o futuro da vida na e com a internet, e foi tratada nesta coluna quando sofreu um ataque de vírus que acabou “derrubando” o mundo inteiro. Até aí, tudo bem. Mas há pelo menos um lado negro em Second Life. Ou dois.

O maior sucesso entre os mundos virtuais tem suas virtudes e problemas. O maior deles, além de coisas simples que deveriam funcionar (ou não) no software que implementa o lugar, é Second Life ser “governado” por um ditador benevolente ou, segundo um número cada vez maior de habitantes, pela ditadura de seus “donos”, o Linden Lab. Second Life é um serviço implementado por software, disponível em um endereço internet, a usuários que “aceitem” suas regras de uso, que se tornam na prática a constituição a que estão sujeitos seus habitantes.

Ditaduras normalmente promovem quem não as incomoda e de quebra servem de meio ou apoio a seus propósitos. E perseguem implacavelmente quem as questiona, como os habitantes de Second Life que têm sofrido restrições nos seus direitos básicos (como o de expressão livre). Tal é o caso de Prokofy Neva, que foi banido do blog oficial do Second Life depois de ter sofrido outras restrições, em função de suas críticas aos donos e governantes e a habitantes que puxam vocês-sabem-o-que dos mesmos. Neva está sendo escolhido para punição exemplar na mais antiga tradição dos governos acharem um exemplo para amedrontar o populacho, o que na maioria das vezes dá resultado no curto prazo mas é uma tragédia no longo.

Isso leva a uma oportunidade: porque não escrever -- e prover como serviço -- um mundo virtual aberto? Cujo software seja aberto, para o qual as regras do mundo correspondente sejam democraticamente escolhidas e administradas? Esta pode não ser uma coisa periférica para nosso mundo real. Por quê? Um número cada vez maior de regras e operações da sociedade está sendo codificado em software e sendo provido como serviço. É isso que o Linden Lab faz com Second Life: é um serviço de informação, codificado em software, provido por uma empresa privada que usa, para tal, as regras que quer e bem entende. Larry Lessig tem um excelente texto sobre as possíveis conseqüências deste tipo de coisa, em larga escala, na sociedade.

Pode muito bem ser que determinados “serviços de software” do mundo real (como Second Life) decidam que alguns usuários não devam ter todos os direitos dos outros. Que alternativa terão eles se não houver outros provedores, de preferência abertos, regulados por constituições definidas pela sociedade como um todo e sem uma polícia informacional?

19 Atualizado em 27/01/2007 - 06:30

48

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Temos que prestar mais atenção no que está acontecendo em lugares como Second Life. Porque o que acontece por lá pode vir a rolar, em escala muito maior, num pedaço do mundo real bem próximo do nosso par login/senha. Esta ameaça, claro, é uma grande oportunidade para que nos organizemos para criar nossos próprios (mundos, movidos a) software-como-serviço, abertos e verdadeiramente democráticos. Seria um exemplo de como uma ameaça lá no Second Life vira uma oportunidade do lado de cá da telinha.

O

outro lado potencialmente negro do Second Life, que também deveria ser discutido no mundo real, é

o

gasto de energia do ambiente. Fazendo a conta em energia elétrica, Second Life é tão caro, per capita,

quanto o Brasil. Em uma troca recente de opiniões sobre o assunto, Nicholas Carr começou a responder uma pergunta de Tony Walsh sobre a sustentabilidade de Second Life como modelo de negócios e do ponto de vista ecológico. Na linha negócios, há prós e contras, pensados e escritos por muita gente boa.

Na vertente ecológica, Carr fez uma contabilidade energética básica e descobriu que o consumo anual de energia de um avatar do Second Life (1.752kWh, se ficar no ar o ano inteiro) é mais ou menos o mesmo de um brasileiro médio, que fica hoje em 1.884kWh. O site tem 4.000 servidores, mais as máquinas dos usuários. Olhando em termos de aquecimento global, o consumo equivalente em CO2, por avatar, é 1.170kg/ano. O número é surpreendente, porque grande. Se for por aí mesmo, os mundos virtuais (e não só Second Life) terão dificuldade para se sustentar no mundo real. Até porque sua conta de energia pode torná-los ecologicamente inviáveis e, por conseqüência, como modelo de negócios.

Voltando para o começo do artigo, talvez faça sentido juntar as duas discussões: estamos cada vez mais informatizados, por sistemas que usam regras às quais nos submetemos sem saber de todas as suas implicações. Você sabe quais são as “leis eletrônicas” do seu banco? O meu“não se responsabiliza por quaisquer danos, perdas ou despesas oriundas da conexão, demora na transmissão de dados, falhas de desempenho, falhas de equipamentos, vírus e quaisquer outros danos decorrentes da utilização inadequada dos Canais Eletrônicos”. Aí está escrito que falhas ou problemas de desempenho nos equipamentos deles se tornam problema meu, se eu não conseguir pagar minhas contas.

Ainda mais, quanto meu banco gasta de energia pra tocar seus sistemas de informação? E o governo, os supermercados? De que adianta ter meu cheque em papel reciclado, e propaganda disso na TV, se lá no data center estão contribuindo -- e muito -- para o aquecimento global? Google, que tem um uso estimado de energia entre 20 e 30 megawatt/hora, está muito preocupado com o problema, está instalando 10 megawatt de energia verde para sair da lista negra dos ecologistas (e de todos nós).

Talvez devêssemos olhar para os serviços informatizados ao redor e perguntar, sempre, quais são suas regras de uso e seu gasto de energia, seu custo ambiental. E pressionar para que as regras sejam decentes e o ambiente, sustentado, pois, mais cedo do que tarde, quase toda nossa vida estará informatizada.

49

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Mangue beat. Manguebeat. Manguebit. 20

O movimento mangue mudou a história da música e da expressão artística no Recife nos anos 90. E foi essencial na criação da atitude que resultou no Porto Digital, o sistema local de inovação de tecnologia de informação do Recife.

Dois de fevereiro é dia de Iemanjá. É meu aniversário, também. E foi num domingo, no dia em que Chico Science estava indo de Recife a Olinda, naquele fim de tarde de sol em 1997, pra ver a Cabralada tocar. Esperamos, esperamos, o maracatu era energia pura, a Treze de Maio lotada, mas Chico nunca chegou. Chico nunca chegou e, no fim da noite, eu estava no necrotério, com Sonaly Macedo, onde Chico tinha ido parar depois de um acidente inacreditável no Salgadinho. Foi o pior aniversário da minha vida.

O povo do mangue, nome de beat tão interessante quanto a batida propriamente dita, renovou a cena

musical do Recife e de boa parte do Brasil como se fosse um big bang. Chico, 04, Mabuse, Renato L, Lúcio Maia e tantos outros teóricos e práticos do movimento botaram nossas vidas de ouvido pra baixo.

A trilha de quase tudo, aqui, era de repente daqui mesmo e pra mim, que começava a entender o

encanto de alfaias, abês e loas dos maracatus de baque virado, o beat do mangue era como se fosse meu. E não era só eu, muito mais gente tava na mesma onda, atitude, jeito de enxergar o mundo, de misturar as idéias, de achar que muito, muito mais era possível.

Dois anos antes daquela tarde de maracatu em Olinda, virei professor titular do Centro de Informática da UFPE, numa cerimônia tradicionalmente precedida por um conjunto de câmera executando Bach, Mozart e similares. Pois pra mim foi Júlio Glasner no som, detonando Computadores fazem Arte (artistas, como dizia Chico, fazem dinheiro) quando entrei no auditório e Da Lama ao Caos depois do

discurso de posse e antes da cana que durou dois dias

organizando posso desorganizar/

Tudo de acordo com a letra: “

eu me

eu

desorganizando posso me organizar”.

Nosso lema na informática da UFPE era e ainda é Ciência & Gréia. Ou Competência com Irreverência. Dá no mesmo. No começo da década de 90 nós também estávamos achando que não só era preciso mudar, mas que era possível mudar. O caldo de cultura que se pensava, via e ouvia no delta do Capibaribe, principalmente depois que o movimento mangue começou a tormar forma e nós começamos a nos ver nele e como parte dele, era a base de onde muitos de nós tiramos idéias e energia para começar uma aventura de tecnologias da informação que continua sendo construída, como a mesma força de antes, até hoje. E que não dá sinais de voltar atrás.

Recife sempre teve empresas de software. Sempre, aqui, significa desde a década de 60, quando a maioria dos leitores não tinha nascido e eu ainda jogava bolinha de gude. E tinha empresas porque havia uma demanda regional sofisticada e capaz de sustentar empresas locais que viriam a ter caráter nacional décadas depois. Mas a globalização começou a pegar a periferia com todo seu poder de destruição e renovação, bem no tempo do movimento mangue, na década de 90. Foi o fim dos bancos locais e regionais, a falência das pequenas indústrias, o fim dos incentivos da Sudene. Enfim, o fim de muitos sonhos, planos e projetos.

20 Atualizado em 02/02/2007 - 08:59; este texto foi encomendado pela editoria do G1 e entrou para a coletânea que comemorava os dez anos da morte de Chico Science num acidente de trânsito, em RecifOlina, em pleno dia de Yemanjá.

50

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

E os acadêmicos de Recife tinham sonhos, planos de construir centros de ensino e pesquisa que

contribuíssem para o crescimento da economia local, para a geração de emprego tecnológico, para a criação de novas empresas. Mas a globalização tirava nosso tapete a cada dia e os alunos que formávamos tomavam o rumo do Rio, São Paulo, Seattle e Londres. Foi aí, nesta mesma época, que o povo da tecnologia, tanto os mais novos quando os mais velhos do que Chico, resolveram mudar o jogo. Se Chico fazia para o mundo, por que não nós, também?

Se a economia local -- que demandava uma informática local -- estava desaparecendo em suas formas clássicas, porque não apostar em uma informática de classe mundial, feita aqui mas para o mundo, atraindo para cá problemas complexos e criando demandas locais que poderiam não só manter muitos dos nossos melhores cérebros aqui mas, ao mesmo tempo, atrair gente de fora pra cá, como tanta gente que estava sendo tragada pra Recife por causa, exatamente, do mangue beat? Se nosso mangue “bit” fizesse o mesmo, poderíamos, com o tempo -- quem sabe?- - tornarmo-nos muito mais relevantes

A partir do começo dos anos 90, Recife atraiu o Softex (programa nacional de software), a RNP (Rede

Nacional de Pesquisa), vários programas de pesquisa cooperativa em TICs nas universidades, as empresas de software se fortaleceram e aumentaram em número, suas associações se tornaram mais sólidas, o C.E.S.A.R (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife) apareceu, gerando (hoje) mais de 600 empregos em TICs e atuando diretamente na criação ou renovação de mais de trinta empreendimentos. Em 2000, o esforço desembocou no Porto Digital, sistema local de inovação situado no antigo bairro do Recife, o mesmo do Bar Fogão onde o povo do mangue bebia sempre.

O Fogão desapareceu. Mas cento e tantas empresas de software e de sua cadeia de valor vieram para o Porto Digital, trazendo mais de três mil pessoas que tornam vivo, de dia, o bairro que só existia à noite, quando os caranguejos com cérebro faziam uma festa em algum lugar.

O mangue não é mais o mesmo. A batida ideal que Chico procurava gerou muitas batidas possíveis, de Otto a Silvério a Cordel a Mombojó a Carfax, entre muitas outras. A busca de Chico fez renascer os maracatus, base de muitas de suas batidas, que estavam mais prá lá do que prá cá antes dele. Hoje há muitas dezenas de batuques ativos, formados depois que as alfaias -os pesados tambores de madeira do Nação Zumbi- ganharam o status dado pelo mangue. É como se um pedaço da África tivesse, de novo, desembarcado aqui, cheio de esperança, seus tambores embalados de alma e vida.

Para nós, de tecnologia, foi e é o mesmo. Aprendemos com Chico e o povo do mangue que é possível conceber, criar e fazer aqui. E levar tudo, pro mundo, a partir daqui. Estamos e vamos continuar fazendo isso. Com parabólicas e fibras óticas apontadas para o mundo, os pés no mangue, na periferia, na história da qual não podemos e não queremos fugir, fazemos do e no Recife o liquidificador de coisas ao qual nada é imune. Entra dia, sai ano, haverá alguém escrevendo um manifesto. Outro alguém atrás de mais uma batida ideal. Outros escrevendo software, gente fazendo design e interfaces, uns tantos testando, outros criando robôs, fazendo circuitos integrados, celulares, o que vier.

Ainda acho que não é uma boa idéia lembrar a morte pra comemorar vidas. Mas assim manda a tradição. Prefiro comemorar aniversários, como se estivéssemos todos vivos. Como Chico está. Na Cabralada, domingo passado, depois do ensaio, o batuque continuou tocando bases do CSNZ de 1994. Mas não é só: mais do que na música, o legado de Chico vive em todos os que lutam, nas suas muitas periferias, para fazer muito mais do que os poucos centros do mundo dizem que eles deveriam se limitar

a fazer. Viva Zapata, viva Sandino, viva Zumbi!

51

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

A coluna de Silvio Meira foi publicada excepcionalmente nesta sexta-feira, em vez de no sábado, como de costume, em memória aos dez anos da morte de Chico Science

52

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

IPTV. O que? Infinitas Possibilidades de TV

21

IPTV vem aí. Pra ficar. Pelo menos onde houver banda larga de verdade, vai tomar o lugar de todas as outras formas de ver o mundo na telinha. E isso vai ser muito bom. Pelo menos pra quem estiver do lado de cá da caixa

Bill Gates anunciou ao mundo, em Davos, que IPTV vai mudar o mundo da TV em cinco anos. Cabra otimista. Devia estar falando apenas dos países muito ricos, onde banda larga é larga mesmo. Aqui de onde eu (tento) ver o mundo, há horas em que a “banda larga” não dá mais de 200kbps. Parece sinal de fumaça. Os cinco anos de Gates, aqui, podem vir a ser dez, quinze ou mais, no pior caso, que é o da Anatel continuar parada, sem cobrar performance e tampouco universalização de serviços das operadoras.

Mas o que interessa aqui é Gates dizer, mais uma entre as muitas vezes em que tem repetido, que vídeo

pra frente, mais e mais

espectadores vão querer a flexibilidade oferecida por vídeo online e abandonarão a TV aberta, com sua

programação fixa e anúncios interrompendo os programas”. Tal tese não chega a ser novidade (alguém vendo YouTube por aí?) e Gates ao dizer isso, cumpre seu papel de garoto propaganda, pois a Microsoft tem interesses gigantescos em IPTV e está montando uma vasta rede mundial de alianças para disseminar a tecnologia e seu uso.

online e a fusão de PCs e TVs vai mudar a experiência “televisiva” e que “

daqui

Qualquer um que tente entender pode citar muitas diferenças entre IPTV (TV via internet, sobre protocolo IP) e TV normal, aberta, mesmo que digital. Com vantagens para a primeira, pois a qualidade é a mesma ou melhor que TV digital e, nela, quem controla a “programação” é você, espectador (ou usuário) e não o “programador central”. Contexto, agregação, armazenamento, busca e recuperação de conteúdo serão muito mais importantes do que horário. Mas IPTV precisa de banda larga de verdade, e uma experiência de uso multicanal, picture-in-picture, gravando outro programa ao mesmo tempo, vai pedir vinte megabit por segundo ou mais.

Banda larga, muito larga, é na verdade a grande vantagem de IPTV: vendo tv na rede, você está na rede, claro. E pode combinar com seus amigos ver o mesmo programa e interagir com eles, enquanto o show, futebol ou novela está rolando. A interação não precisa ser pela infra-estrutura de IPTV; se seu set top box deixar, ou se você tiver IPTV num PC, pode rolar em Skype ou qualquer outra coisa que você queira. Só é preciso ter banda larga (de verdade) nas duas direções… principalmente se vocês estiverem querendo ver uns aos outros numa (por exemplo) torcida virtual muito real, na sala de cada um. Ou se o “programa” -- o que pode ser muito mais interessante -- forem vocês. Uma câmera na mão e banda larga à disposição e cada um será, pelo menos, um canal.

O modelo de TV digital aberta supõe que uma pequena parte da atividade do usuário vai ser interativa e que, claro, o “canal” controla a programação. Isso significa que o programador central continua definindo o que o público vai ver e que não há tempo de TV suficiente para atender às demandas específicas de todas as micro-comunidades de espectadores. Em IPTV, desde que as aplicações estejam disponíveis, TV deixa de ser TV e passa a ser um conjunto de aplicações multimídia, interativas e verdadeiramente multidirecionais, sobre a plataforma IP. Você pode parar a programação enquanto vai ao banheiro; pode trazer vídeos, sob demanda, para seu set top box enquanto vê outro programa… não

21 Atualizado em 09/02/2007 - 17:44

53

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

que você precise, porque alguma hora sua banda vai exceder 100 megabits por segundo, e isso dá pra bem mais do que dois vídeos simultaneamente.

Mas a parte mais interessante é que IPTV pode ser o tratamento ideal do long tail de entretenimento, aquelas milhões de demandas individuais ou de pequenas comunidades que nunca conseguirão se tornar “horário” de nenhuma estação, porque a audiência será sempre muito pequena para justificar o patrocínio. IPTV muda quase tudo: um relatório recente de Bear Stearns diz que no futuro agregação e contexto e (não necessariamente) conteúdo serão os reis do entretenimento. Se eles estiverem certos, o mercado do futuro não vai ter as mesmas empresas que estamos vendo hoje de jeito nenhum. Porque a tecnologia está mudando a equação de criação de conteúdo, tanto ou mais do que muda o processo de sua distribuição. Os mercados (dois, audiência de um lado e criação de outro) vão se fragmentar muito mais e os nichos serão ínfimos; ganhará quem conseguir filtrar e empacotar a miríade de alternativas disponíveis, dar-lhes contexto e agregar experiência e valor aos mesmos.

Haverá TV aberta daqui a vinte anos? Sim. Terá a mesma importância de hoje? Não. Especialmente onde IPTV for uma alternativa real para o usuário. Porque posso estar interessado somente nas provas de natação da olimpíada e ter a visão apenas das câmeras da piscina, em tempo real, mesmo que não haja áudio ou competição e só gente treinando. Tal “programa” jamais encontrará patrocinadores ou espaço na grade de programação normal. Pense em dez canais de TV aberta. Pense em 200 canais via satélite. Imagine, agora, um número infinito de canais de TV em banda larga. Incluindo a câmera daquela barraca na praia de Maracaípe, pra você ver quem está pegando onda enquanto você está no trampo.

Só tem um pequeno problema: do jeito que a Microsoft, entre outras, está montando seu negócio de IPTV, as operadoras de telecom têm um papel fundamental… É por lá que os “canais” passam e a “interação” volta e onde os vídeos que se pega, sob demanda, estão hospedados. Há uma variedade de explicações para tal decisão, como o fato da tele administrar a qualidade de serviço da rede para garantir a performance das aplicações… o que pode detonar, de vez, qualquer princípio de neutralidade da rede. Mas é bem mais provável que haja teles no meio do campo porque suas redes são fechadas e as aplicações e conteúdo, lá, ficam teoricamente mais seguras (e nós não podemos instalar nada) e porque teles têm uma longa experiência e história de precificar e cobrar pelo uso dos seus serviços, coisa que as TVs ainda não entenderam que vai ser fundamental no futuro. As teles sabem onde os clientes estão e lhes enviam contas telefônicas desde que J. P. Morgan financiava Graham Bell no fim do século 19.

Em Davos, Gates estava anunciando também -- que seu (novo) negócio é mídia e interação. Que o mercado de PCs e seu software está mudando e que sua aposta passa a ser a fusão PC-game-TV na sala, servindo de infra-estrutura pra tudo o que a família faz. Segundo ele, rodando software da Microsoft e, se tudo cer certo, em hardware Microsoft. Há quem ache o contrário e chute que, em 2010, a Apple será maior do que a Microsoft. E que Steve Jobs, ao invés de Bill Gates, vai ser a atração de Davos. Isso se não estiver na cadeia

54

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

O Carnaval e a Borda da Web 22

É carnaval e o colunista vai sumir nos blocos e maracatus do Recife e Olinda. Mas a coluna fica no ar pra falar da borda, do futuro, das inovações necessárias e possíveis na web. Bom carnaval!

Eu sei que é sábado de carnaval e que eu talvez devesse estar escrevendo aqui sobre a folia. Mas vocês que estão tendo tempo para ler esta coluna, hoje e esta semana inteira, não estão brincando carnaval e quase certamente têm muito pouco interesse no que eu teria a dizer sobre maracatus rurais e de baque virado, a saída do Eu Acho é Pouco, a “ficada” do Siri na Lata e as performances no Enquanto isso na Sala de Justiça. Sem falar no que rolou no Quanta Ladeira, que este ano tem Elba Ramalho e uma música “tema” só pra ela, cantada por Chico César. Para quem quiser ver, ouvir, saber e brincar, o endereço e tempo são um, dois: Recife e Olinda, fevereiro de qualquer ano. Ano que vem, se já querem saber, dia de Iemanjá é sábado de Galo da Madrugada e o mar e o povo do Recife, e não graças ao aquecimento global, vão ferver.

Mas é o colunista que está no carnaval, e não a coluna

rede, a partir de um texto de John Battelle, que escreve o ótimo Searchblog. A pergunta de Battelle é onde está a borda da web? Onde estão e quais são os lugares onde a rede, a web “antiga”, dos protocolos e serviços primários, e a “nova”, de serviços, interativa, leve, “2.0”, não chegou, não se tornou a forma padrão de fazer as coisas ou onde, quando chegar de verdade, vai mudar de vez a forma de fazer as coisas?

e hoje vamos discutir as “bordas” da web, da

É bom lembrar que podemos medir o tempo, aqui na Internet, na forma 10DW, ou dez anos desde a web. E não precisamos dizer que ela mudou muito do mundo e, onde virou padrão e forma de fazer as coisas, mudou tudo. Há quanto tempo você não entra numa fila de banco pra pagar uma conta? Eu nem me lembro mais da minha última vez. Mas ainda falta muito, tanto em diversidade quanto em

intensidade e universalidade, para a web ser “a” forma de fazer as coisas

do engarrafamento das ruas de nossas cidades no painel dos carros, dando sugestões coerentes e

inteligíveis, em tempo real, sobre a melhor forma de chegar em casa, mesmo que por um caminho muito mais longo e original?

cadê, por exemplo, o mapa

Aqui no carnaval de Recife, em muitas partes da cidade, o trânsito toma ares de São Paulo em seus piores dias e não há quase nada a fazer. Chegar nas concentrações dos blocos é sempre um feito magnífico e nós, pernambucanos, teríamos muito a dizer -- e fazer -- sobre a integração da web, carnaval e trânsito. Quando não fosse possível, mesmo com a ajuda de mashups (integração de informação e serviços, na web) chegar antes do bloco sair, bem que o estandarte poderia ter GPS, para localização, integrado com áudio, vídeo e uma medida (mais um mashup) da animação da saída.

Mas, como a coluna não é sobre o carnaval, vamos tentar levar a coisa a sério: o texto de Battelle assume que a web está em todo lugar. Em quase todo, eu diria, está. Mas a intensidade e disponibilidade são muito desiguais; a rede que integra e disponibiliza áudio e vídeo ainda não chegou na maioria dos lugares de países como o Brasil. Isso torna impossível, para muita gente, fazer uso intensivo de coisas como YouTube, pois vídeo demanda muitas centenas ou mesmo milhares de kilobit

22 Atualizado em 16/02/2007 - 17:27

55

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

por segundo e isso só está disponível para muito poucos. Aí está uma “borda” óbvia da web:

universalização do acesso em banda larga, para que a maioria das coisas sobre as quais se ouve falar de web 2.0, multimídia, sejam possíveis aqui e em outros países menos aquinhoados, a preços que se possa pagar.

Mas não é só banda que falta. Pense em celulares. A web não chegou lá, devera, mesmo nos melhores lugares. Ou o custo é caro demais ou, quando suportável, os serviços, conteúdos e seu casamento com mobilidade são primários. Tirante voz, o principal uso dos celulares é o envio de mensagens de texto, o que os coloca numa era pré-web e mesmo pré-internet, coisa de 20 ou mais anos atrás, quando o máximo que se conseguia fazer em rede era mandar formas limitadas de emeio. Há um espaço enorme de oportunidades de casamento da web com mobilidade e certamente veremos muito disso nos próximos anos.

Mobilidade tem a ver com espaço; integrar a web com celulares (e carros, trens, aviões, bicicletas dá uma certa liberdade espacial digital. Outra borda da rede são funcionalidades que dependem do tempo ou mexem com ele. Quanta coisa poderíamos querer fazer e não temos tempo? Não somente no sentido da escassez, mas da disponibilidade. Temos tempo noutra hora, mas não no momento em que as coisas estão rolando. Integrar nossa disponibilidade com o conteúdo que queremos ver, ouvir ou produzir vai ser muito importante e demandará ainda muita inovação e serviços. Coisas como IPTV, que discutimos aqui na semana passada, vão mudar o mundo e se tornarão padrão em pouco tempo, ameaçando inclusive os modelos broadcast, abertos, de TV, mesmo o digital.

) nos

Juntando espaço, tempo e integração de áudio e vídeo, há muitas razões para supor que vamos ver inovações, na web, que possibilitem interação de qualidade, entre muitas pessoas separadas por distâncias de milhares de quilômetros. Já cheguei a viajar dez horas de avião para participar de uma reunião de três horas. Juntando o mesmo tempo pra voltar pra casa e as esperas e traslados nos aeroportos, lá se vão trinta horas, o que reduz o uso útil de meu tempo a menos de 10% do total. Mexer com espaço e tempo integrando áudio e vídeo pode, entre outras coisas, diminuir a demanda global por transporte, limitando uma das principais causas do efeito estufa. Taí uma outra borda muito importante da rede.

Viajar pra conferências e reuniões é apenas um caso extremo de ir para o trabalho. Novas formas de trabalho, possibilitadas por usos inovadores da web, poderiam reduzir significativamente a necessidade das pessoas baterem o ponto em algum lugar onde, por absoluta falta de alternativa, todos têm que estar juntos. Isso não quer dizer que o trabalho vai ser feito em casa, coisa que pode ser impossível para muitos. William J. Mitchell, professor de arquitetura do MIT, escreveu em 1999 um pequeno livro (e- topia: Urban Life, Jim--But Not As We Know It), no qual discute como os pontos de encontro mais importantes da humanidade -- as cidades -- podem ser redesenhadas com e pela Internet. Ao invés de informatizar o que existe, sobre as estruturas que existem, impondo à rede a ordem da cidade, Mitchell propõe que pensemos como as estruturas leves e flexíveis da rede poderiam ser usadas para desconectar os aglomerados urbanos, ao mesmo tempo conectando, reconectando e reunindo pessoas (veja slides de Mitchell, sobre o livro, aqui.

Nossas grandes cidades estão em crise profunda. Não bastassem trânsito, enchentes, violência e poluição, agora somos engolidos por buracos pequenos e grandes. O que Mitchell já dizia sete anos atrás, bem antes da micro-revolução de web 2.0, é que a Internet pode muito bem ser o novo fio

56

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

condutor das interações humanas, reestruturando o mundo físico no qual ela própria está embutida. Mais cedo ou mais tarde, vai ser por aí mesmo. É capaz até de mudar muito e, quem sabe, melhorar o carnaval. Pensando bem, tomara que só melhore fora dos meus blocos e maracatus. Dentro, se melhorar, estraga. Feliz carnaval a todos

57

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Ora (direis) ouvir

blogs! 23

Há um mundo inteiro de conteúdo lá fora, na web, e nosso maior problema não é só encontrá-lo. É descobri-lo dentro de contextos que façam sentido, agregado a outros conteúdos que façam sentido em conjunto. Aí é que entra

Olavo Bilac começa seu mais famoso soneto dizendo

senso!” e continua: “E eu vos direi, no entanto,/ Que, para ouvi-las, muita vez desperto/ E abro as

brasileiro letrado que não saiba pelo menos a abertura, escrita pelo príncipe dos poetas numa época em que ouvir estrelas não fazia o menor sentido. A não ser na cabeça e na alma do grande parnasiano.

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o

janelas, pálido de espanto

Publicado em 1888 na coletânea Via-Láctea, é difícil encontrar um

De uns tempos para cá, à medida em que a disponibilidade de banda larga foi se tornando maior, o conteúdo multimídia --aquele além do texto, puro e simples-- começou a ser a estrela da internet e nós começamos a nos acostumar a ouvir e ver na rede muita coisa que aconteceu, ou acontecerá, no rádio, na TV ou no cinema. Ou, melhor ainda, que não aconteceu e nem vai acontecer lá, fazendo aí a rede seu maior papel, o de conectar pares. Ou interessados: certa cena de sexo na praia, por exemplo, não passou e nem vai passar na TV nem tão cedo.

Todos e cada um de nós temos nossas fontes de conteúdo na internet. Tem gente que passa horas em YouTube, vendo os vídeos, como se diz na minha terra, mais “abestados” do mundo. Ou ainda mais tempo vendo os programas e filmes inteiros disponíveis em smashing telly, um exemplo de “wist” ou web list, onde pessoas escolhem e, muitas vezes, editam conteúdo à mão para o formato web. Um bom exemplo é o excelente documentário de Richard Dawkins (inteiro, quase duas horas) The God Delusion ou “o” filme de ficção Alphaville, de Godard, feito em 1965, que não está em quase lugar nenhum na web.

Se você não está vendo, deve estar ouvindo muita coisa boa. Como RecifeRock, que dá um noção muito boa das mais de trezentas bandas --a maioria desconhecida do grande publico, no Recife e fora dele-- que povoam a cena de música roqueira e assemelhada, nova e velha daqui de MauritsStadt. Ou SomBarato, um audio blog novo que tem de Itamar Assumpção a Cartola e Chico Science, passando por Siba e Dilermando Reis, em versões muito difíceis, ou impossíveis, de encontrar. RecifeRock, tem uma licença Creative Commons e boa parte de suas faixas não está publicada em nenhum outro meio que não a internet; SomBarato aponta para repositórios de arquivos que têm discos e CDs inteiros, servindo mais como um “diretório” de conteúdo.

Aqui começa nossa verdadeira história: no meio de tanto “imaterial” disponível na rede, publicado por tanta gente, que conteúdo é interessante e, ainda mais, me interessa? O caos é a norma da rede, hoje:

um dia, as coisas existem; no outro, não

produzida por tanta gente que a enxurrada de conteúdo é inadministrável para um mortal comum que

só tem 24 horas no dia. Ou menos, se fizer qualquer outra coisa além de navegar.

um dia estão aqui, no outro acolá; e mais, é tanta coisa

Tem gente como Anthony Volodkin pensando nisso. Ele --que ainda é a banda de um só por trás do

23 Atualizado em 24/02/2007 - 00:00

58

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

projeto-- pôs no ar há algum tempo, mas talvez você ainda não tenha visto (e ouvido!), Hype Machine, um serviço que procura links pra MP3 mundo afora (quase nada no Brasil), publica uma lista quase instantânea do que está achando na rede, aponta para os blogs onde os links estão e descobre se estão à venda em Amazon, eMusic ou iTunes. Mas não só: Hype Machine “sintoniza” um blog, uma busca e os últimos links agregados por ele pra você como se fosse um playlist. O “tocador” do site manda a música no contexto, ligando o que você ouve ao blog e ao texto, no blog onde o link está, sobre a canção. Assim, você pode “ouvir” uma busca por Fela Kuti (114 links, menos de 10 ativos), um blog como Mars Needs Guitars (centenas de links ativos) ou deixar Hype Machine ir “tocando” pra você o que ele estiver encontrado nos blogs que varre.

Teve quem dissesse que o site era o “novo” Kazaa. Não é, não há troca de conteúdo lá, nem estímulo para que haja. Ao contrário, Volodkin ganha uma percentagem quando alguém compra uma música que ouviu no site; seu modelo de negócios depende das pessoas comprarem --e não copiarem-- música. Mas é possível, claro, ir atrás dos links que estão nos blogs e, dependendo do que você fizer, pode ser ilegal no país onde você mora. Independentemente disso, trata-se de um jeito muito inteligente de criar um diretório de música dinâmico, na web, adicionando contexto e agregação de uma forma muito esperta. Semanas atrás apontei, nesta coluna, usando uma apresentação da Bear Sterns, que agregação e contexto, ao invés de conteúdo, poderão ser as coisas mais importantes do futuro (de negócios de conteúdo) da rede. Depois de ler este texto, vá comparar Hype Machine com seu ambiente e comunidade de “troca” de conteúdo multimídia, pra ver as diferenças.

Hype Machine está na lista dos sites mais importantes --e interessantes-- de música do jornal inglês "The Observer", entre muitas outras. O site está entre os melhores da última Mashup Unconference e faz por merecer. No topo disso, Om Malik, um dos principais analistas da onda de web de serviços (ou web 2.0) está se perguntando se 2007 é o ano dos mashups de música, pois o segundo lugar da Mashup Unconference também é do mesmo tipo. Como se não bastasse, tem gente de música e investimento dizendo que… “Hype Machine é a melhor coisa que aconteceu à música desde os Rolling Stones!” A frase é de Fred Wilson, investidor e roqueiro.

Se você quiser saber mais sobre os vinte anos de criatividade e empreendedorismo do criador e do site dê uma olhada na Business 2.0 de outubro passado. Mas bom mesmo é ler e ouvir Hype Machine que é, há algum tempo, uma de minhas “rádios” prediletas… Vá lá. Você provavelmente nunca (ou)viu nada igual.

Voltando ao começo, bastou a criatividade de um poeta para “ouvir” estrelas e se perpetuar no imaginário nacional. Um menino, de seu quarto de estudo em New York, cria e mantém, sozinho, um serviço inovador que empresas de centenas ou milhares de pessoas não conseguiram imaginar ou fazer funcionar.

Se ele fez, qualquer um dos meninos-programadores-que-gostam-de-música poderia ter feito nos quartos de seus apartamentos em Recife, São Paulo ou Rio ou qualquer outro lugar do Brasil. Certas horas eu me pergunto porque não fizeram ou porque não estão fazendo outras coisas, diferentes, mas tão criativas quanto. Será que perdemos, depois de Bilac, a capacidade de “ouvir estrelas” ou, neste caso, blogs?

59

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

A nova aristocracia 24

Um grupo não muito pequeno de pessoas está por trás das tecnologias de informação e comunicação que tornam a internet uma realidade. Seriam eles a aristocracia da rede, da informação e da comunicação?

O escritor Luís Fernando Veríssimo é um usuário competente da internet. Não só ele, mas gente que passa por ele e bombardeia nossos emeios com escritos “assinados” por LFV. Segundo Veríssimo, que entende o caos da rede de hoje, enquanto não o processarem por isso, tudo bem.

Veríssimo é o entrevistado da revista Mídia com Democracia de janeiro de 2007 (pegue aqui o .pdf) e a conversa acaba assim: “MCD Como o senhor avalia as novas ferramentas de comunicação eletrônica do ponto de vista da democratização da comunicação? Veríssimo Há uma democratização da comunicação evidente, mas também me parece que se formou uma espécie de aristocracia mundial, ligada não por laços de sangue nobre, mas pelo domínio da nova tecnologia. E uma aristocracia que raramente larga o computador e vai para rua ver como vive a humanidade real. E é meio assustador pensar no poder que eles estão acumulando sem sair de casa.

Como a resposta parece de Veríssimo, está ao lado de uma foto dele, impressa numa revista séria (que tenho em papel de verdade), ele deve ter dito isso mesmo. Pois bem. Aristocracia vem do grego aristokratía, αριστοκρατία. Aristos significa “os melhores”, mais capazes, mais competentes. E kratía é poder, governo, “dar” ou definir as regras. Por outro lado, a aristocracia era “os bem nascidos”, que iriam mandar sem serem necessariamente melhores, mais capazes ou competentes. Este é o siginificado que a palavra tem hoje, meio longe do original grego.

Veríssimo usa as duas acepções em sua resposta, e se assusta ao pensar que uma certa população da rede é, hoje, uma aristocracia, um grupo que tem poder pelo seu conhecimento e habilidades essenciais ao funcionamento do mundo digital. Quem são? Programadores, engenheiros de software, pilotos da rede, de sua confiabilidade, performance e segurança, hackers em geral, do bem e do mal e mais todo mundo que domina as tecnologias da informação e comunicação acima dos mortais comuns, como nós, que só sabemos navegar, publicar um texto, foto ou vídeo e buscar, encontrar, trazer, instalar um software e usá-lo, isso se não houver o que configurar.

Até aí, novidade zero: na história, em qualquer época, houve aristocracias do saber e competência… os “codificadores” atuais, exemplificados pelos programadores de todos os tipos, são apenas a aristocracia da hora. Com uma gigantesca diferença: na rede, o código, o software, é a regra. Define o comportamento, cria alternativas, limita opções. Lawrence Lessig, em Code and Other Laws of Cyberspace, já deixava claro em 1999 que code IS law: código é lei. E quem faz a lei tem poder. Grande discussão pra futuros próximos… e por muito tempo. Porque o futuro será codificado em software. E na rede, sem que as pessoas (pelo menos as que codificam a rede) precisem “sair de casa”, pois a casa delas é a rede. E no futuro não será a rede que estará no “mundo real”, mas o “mundo real” que estará na rede…

24 Atualizado em 03/03/2007 - 10:09

60

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Voltando à aristocracia, já houve época em que o mundo era movido a textos religiosos, guias de moral

e conduta, tábuas da lei, escadas para a salvação. Na aristocracia dos textos sagrados da Idade Média, os monges copistas estavam lá no alto. Hoje, software cuida da freio ABS a imposto de renda. A cada dia, mais serviços, mais complexos, são oferecidos para mais gente, e haverá muito mais software cuidando de quase tudo que alguém pensa em começar, sem falar do que já existe. À medida que a economia acelera, em parte por causa de software, haverá mais software, mais sofisticado, feito em prazos mais exíguos, com exigências crescentes de funcionalidade, qualidade, rapidez e satisfação. Tudo isso tem que ser especificado, desenhado e projetado para ser, em última análise, “programado” pela tal “aristocracia” de que nos fala Veríssimo.

Milhões de pessoas vivem da escrita de código em todo o mundo. Muitos não se imaginam e tampouco se sentem aristocratas. Os programadores da Índia, daqui e dos EUA são os equivalentes modernos dos monges copistas: por horas a fio, deitam olhos sobre especificações (no caso dos monges, livros a copiar; hoje, requisitos a implementar) e produzem o código que faz funcionar a sociedade. Algo me diz que os monges-programadores (e seus estagiários), esperam (uns ansiosos, outros preocupados) pelo Gutenberg da programação.

A prensa de tipos móveis dizimou a profissão de “copista” em cinqüenta anos. Meio século de programação de computadores multiplicou por mais de 500 o número de instruções executadas pelas máquinas em relação às linhas de código escritas pelos programadores. No médio prazo, o ato de escrever código vai ser ainda mais modificado por ferramentas de melhoria de produtividade e qualidade. Durante muito tempo, ainda, vamos ter programadores escrevendo código “fonte”. Mas não há dúvida de que uma parte cada vez maior da tarefa --a parte menos criativa e mais repetitiva-- será construída de forma automática a partir da especificação, por um ou mais tipos de geradores automáticos. Os programadores, nossos “aristocratas”, terão que subir degraus na escada da competência e trabalhar em problemas mais abstratos do que as declarações de variáveis e trechos de código que são obrigados a repetir dia após dia, hoje.

E isso não será novidade. Sempre que dependemos de milhões ou dezenas de milhões de pessoas para

realizar tarefas repetitivas, inovação e automação mudam os métodos e processos para sempre e a vida dos humanos para melhor. Em programação, não vai ser diferente. E a mudança já começou, e há algum tempo. E não há porque temer desemprego em massa, como sempre é o caso quando nos damos conta de que os parâmetros de desenvolvimento tecnológico estão para mudar. Uma nova onda de tecnologia cria necessidades de trabalho maiores do que a anterior. Mais elaborado, mais educado, mais sofisticado, mais bem remunerado.

Danado é que as “aristocracias da hora” continuam se agarrando, quase sempre, às migalhas derradeiras de poder, mesmo quando as mudanças estão destruindo seus tronos. Aos programadores, a todos técnicos e engenheiros da rede e da informática, aristocratas de Veríssimo, talvez valha a pena lembrar que a verdadeira aristocracia é a dos mais capazes e competentes. Para ser parte dela, é preciso desaprender passados e aprender futuros, enquanto se executa, e muito bem, o presente.

61

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Começar. E começar de novo. 25

Uma das coisas mais difíceis do mundo é começar um novo negócio. Muito mais difícil é mantê-lo vivo por muito tempo. Em tecnologias da informação, a coisa se complica porque tudo muda muito rápido. Mas sim, há esperança

Apesar dos agouros, da China e dos terremotos de suas bolsas, ecoados na Ásia de crescimento rápido, o mundo não vai acabar. Isso é muito bom, até porque a lista de empresas de computação e comunicação (TICs) que pretende fazer uma oferta pública inicial de ações (IPO) no mercado americano tem mais de 150 candidatos. É bom lembrar que Yahoo, Amazon e Google, só para citar três dos maiores, foram IPOs memoráveis.

Inovação é o que move o mercado de internet, como de resto quase todos. E inovação depende de novos negócios, novas empresas, novas tecnologias, novos entendimentos do cenário. Depende da criação de novas visões de mundo, de novos modelos de negócio, da mudança de comportamento dos consumidores e dos fornecedores de tecnologia, coisas muito difíceis de fazer dentro de conglomerados de milhares ou dezenas de milhares de pessoas, com estruturas estáveis de produtos, serviços, processos e, principalmente, com hierarquias poderosas e consolidadas.

Não que grandes empresas não inovem. Mas a energia gasta para fazê-lo é imensa. Basta lembrar o computador pessoal, o PC feito lá no começo pela IBM. Que não foi feito pela IBM antiga mas por outra,

quase subversiva e pirata, que existia fora de toda a cadeia de valor, decisão e comando da “velha” IBM. O PC é um feito histórico, dentro de uma empresa daquele tamanho. Os exemplos são muitos, e cada um nos dá a idéia de como é difícil mudar, mesmo dentro de negócios inovadores. Eu tenho histórias inacreditáveis para contar sobre as dificuldades de inovar dentro de um instituto de inovação como o

C.E.S.A.R, onde sou o cientista-chefe e responsável pela

inovação!

Por isso é que não se pode menosprezar a importância de novos negócios para a economia e para a criação de oportunidades de desenvolvimento pessoal e social, sem o que produtividade e competitividade dificilmente aumentam acima da média. Por serem campos férteis à criação de empresas inovadoras é que EUA, China, Cingapura e outros países crescem como crescem. No outro extremo, lugares como Portugal e Brasil são terrenos pouco hospitaleiros para mudanças, principalmente de regras de negócios, ao mesmo tempo em que não há uma indústria de investimento de risco que fomente a criação dos tais negócios inovadores (como na Califórnia, mais especificamente no Vale do Silício). O resultado é que andamos de lado enquanto os outros voam.

Mas os otimistas, e mesmo os realistas, nunca desistem, São como times do interior da Paraíba jogando contra o São Paulo: quase certamente vão perder, mas se não jogarem já terão perdido. O importante, em inovação, é jogar e tentar mudar as regras, o jogo inteiro, o adversário, o juiz, durante o jogo. Não pela via dos tapetões do futebol. A mudança é através do redesenho do cenário, da reconstrução das

25 Atualizado em 10/03/2007 - 00:00

62

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

expectativas, da introdução de técnicas e regras nunca dantes imaginadas. É isso que se faz num novo negócio de tecnologia.

Um livro precioso, “Founders at Work” (Fundadores Trabalhando), 500 páginas sobre as dificuldades dos fundadores de negócios inovadores, acaba de ser lançado noa EUA e mereceu uma resenha-elogio do guru americano Guy Kawasaki. O texto ainda não tem tradução para o português mas, quando tiver, você que está pensando em começar um negócio (mesmo que não seja de tecnologia) deve ler. Ou, se seu inglês dá pro gasto, vá atrás do original agora. Pra ler declarações como a Steve Wozniak, um dos fundadres da Apple, lembrando que “as melhores coisas que fiz na Apple vieram de não ter muito dinheiro para fazê-las e nunca ter feito nada parecido, antes”. O que desmonta a noção de que só se faz um grande negócio com muito dinheiro. Ou com experiência.

Negócios inovadores dependem da conjunção de duas artes. Uma é a de interpretar, onde se repensa e

recria o mercado ou se define novos mercados, às vezes a partir de novas tecnologias ou novos usos de

tecnologias existentes. Ou de tecnologias que precisam existir

para mercados existentes e imaginamos como podemos mudar padrões de comportamento, nosso e dos consumidores, na maior parte das vezes através de tecnologia. Nenhuma das duas é trivial e, em ambos os casos, a parte mais difícil é convencer os investidores.

A outra é a de analisar, onde olhamos

No livro de Jessica Livingston, Sabeer Bathia, fundador de Hotmail, diz que só falava a verdade sobre sua idéia real se não fosse rejeitado pelas “razões erradas”, ou seja, por ser novo, nunca ter administrado

nada, por aquela ser sua primeira tentativa de criar uma empresa

passava neste teste e começava a questionar a idéia e as dificuldades de execução, aí ele apresentava Hotmail. Isso era antes do site ser lançado, em julho de 1996. Trinta meses e trinta milhões de usuários depois, a Microsoft (que sabia tudo do assunto e poderia ter lançado o serviço a custo quase zero, para ela) pagou US$ 400 milhões a Bathia, Jack Smith e investidores para adicionar Hotmail à família MSN. Certos tipos de inovação nunca vão sair de onde, se o mundo fosse óbvio, deveriam ter saído.

Quando o “candidato a investidor”

Se você está começando, é bom lembrar que negócios de tecnologia são, na verdade, de marketing e vendas. Nunca acreditei em empresas “de tecnologia” e sim em empresas e empreendedores que vendem e, depois, entregam o que prometeram. Estes conseguem começar e recomeçar sempre que for necessário. Evan Williams, que também está no livro e começou os blogs de fato em Blogger.com, em 1999, levantou dinheiro no próprio site, reconhecendo em público que o serviço era lento, precisava de mais servidores e, claro, de investidores. E o dinheiro veio. Williams não sabia vender só o serviço, mas a própria companhia, o que fez primeiro para investidores e, depois para Google, em 2003. Mais um exemplo de uma grande companhia que não conseguiu ver o óbvio, ou as ferramentas de expressão pessoal na rede, e teve que pagar uma fortuna (não revelada) para adicionar Blogger à sua marca.

É bom lembrar também que, no começo, todo mundo tem que fazer de tudo pro negócio dar certo. O pessoal de Yahoo merece o que tem hoje: quando a energia da Califórnia pifou em 1995, no começo do negócio, os fundadores trabalharam em turnos, dia e noite durante quatro dias, para alimentar com diesel os geradores alugados e manter o site no ar. Tivessem deixado pra lá, talvez o mundo tivesse, também, desistido deles.

Acima de tudo, se vocês são mais de um (tomara que sejam!) se lembrem de preservar a o respeito, a admiração e o carinho do relacionamento. A maior parte dos negócios de tecnologia dá errado e vocês,

muito provavelmente, vão ter que começar de novo. Antes disso, leiam o livro de Livingston

vai ajudar.

63

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Vovó vendo TV

26

Após muitos anos devagar quase parando, há sinais variados de que podemos vir a ter um surto de mudanças nas comunicações no Brasil. Será mesmo?

O ciclo de negócios iniciado pela privatização das telecomunicações no Brasil está esgotado há algum tempo, na opinião de quase todos os agentes de mercado e governo. Só que ninguém dizia isso em público por várias razões. Em países como o Brasil, onde as malha legislativa, fiscal e regulatória são confusas e instáveis, a praxe, principalmente do lado do mercado, é fingir-se de morto ou aparentar uma saúde de ferro. Porque as coisas nunca estão tão ruins que não possam piorar de uma hora pra outra

Nos últimos dias, no entanto, ouvimos do ministro das Comunicações --entre outras declarações-- que as teles podem ter operações de mídia, que a licitação da terceira geração da telefonia móvel deve ocorrer rapidamente e que o marco regulatório do setor precisa ser revisto. No topo disso foi criado um conselho para cuidar do desenvolvimento de rádio digital no país e o ministro do Desenvolvimento declarou que os impostos dos setores de tecnologia e comunicação serão diminuidos em 90 dias. Como se não bastasse, apareceu mais um projeto no Congresso sobre distribuição de conteúdo, elevando para três o número de propostas já em discussão formal. Como diriam os antigos, alvíssaras!

Nenhum destes indícios que dizer que algo de porte será feito nos próximos meses. Afinal de contas isso aqui é o Brasil. Mas o simples fato de que os principais atores estão se movimentando no cenário cria novas esperanças de resolver alguns dos nossos grandes problemas de comunicação e mídia, quem sabe até abra a possibilidade de inovações feitas e usadas aqui ganharem espaço no mercado local e internacional.

Os movimentos tampouco apontam na direção de mudanças radicais, como seria o caso de uma “reforma agrária do ar”, uma reviravolta processo de concessão de “espaço aéreo” para estações de rádio e TV, face às novas possibilidades criadas pelas tecnologias digitais que entrarão no mercado em breve. Apesar de discordarem sobre o que precisa ser regulamentado e mudado no cenário que se avizinha, não passa pela cabeça dos executivos de mídia e telecomunicações discutir uma revisão completa das bases legais que sustentam o mercado. Nada, por exemplo, de levar para as teles que se tornem operadoras de mídia as regras de propriedade nacional às quais estão sujeitos os negócios do setor de comunicação social. Mas, se isso não for discutido e revisto, vai-se mudar o que, mesmo?

Pense na alocação de espectro, pra começar. No momento, espectro (as “freqüências” usadas por rádio,

TV

freqüência, vão interferir uma na outra. Mas há um amplo debate mundial sobre os sistemas tradicionais de distribuição de freqüência, com uma parte da comunidade advogando que o atual mecanismo governamental de concessões inibe inovação e competição. Teríamos disposição e energia para trazer tal discussão para o cenário nacional e rever as bases da competição por aqui? Parece que a

vontade de discutir o cenário e de introduzir mudanças é muito mais para acomodar situações

)

é um bem escasso, porque duas estações de rádio ou TV operando no mesmo lugar, na mesma

26 Atualizado em 17/03/2007 - 00:00

64

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

inevitáveis de mercado forçadas pela introdução de novas tecnologias do que para pensar, de verdade,

o futuro. Pelo menos isso é o que me dizem os digibúzios que joguei depois de ouvir tanta gente falando sobre “mudança”

Falando nisso, consideremos a renovada energia que se encontrou pra trazer mobilidade 3G para o Brasil. O que está acontecendo em 2.xG (a geração de celulares que temos)? Em fevereiro, a base de assinantes de celulares no país cresceu apenas 0,46%. Em termos práticos, todo mundo que poderia ter

um celular já tem. Qual é a conseqüência disso para as operadoras? Uma disputa cada vez mais acirrada, de menores retornos, pelos mesmos clientes. Como não temos um modelo para a mobilidade chegar às mais de 3.500 cidades onde não há cobertura, de maneira que os usuários não paguem os olhos da cara

e, ao mesmo tempo, as operadoras sejam remuneradas, a saída do mercado é apelar para a introdução

de 3G onde já há cobertura. O que é óbvio.

O que não é óbvio é que, ao discutir a mudança regulatória para telecomunicações, enquanto ao mesmo

tempo discutimos rádio e TV digital, precisamos levar em conta a convergência digital que está mudando, agora, tudo o que envolve computação e comunicação. Para se ter uma idéia, dados do

governo japonês (de onde vem o modelo da nossa TV digital) mostram que mais de 80% do e-commerce

feito por pessoas de 15 a 19 anos de idade, lá, é feito através do celular

número de pessoas entrando na internet via celular excede aqueles que estão na rede via computador. No Japão, claro, a telefonia móvel é 3G.

num cenário em que o

Isso quer dizer que a mesma coisa aconteceria aqui? Certamente que não; há diferenças culturais, de renda e de esparsidade da população que talvez levassem a um uso muito menor de celulares 3G para acesso à rede no Brasil. Mas deveríamos discutir isso, pensar como os mecanismos regulatórios estimulariam tal tipo de uso? Certamente que sim. Tais discussões seriam uma forma de interpretação, de antecipação do futuro e poderiam criar novos usos de tecnologias de comunicação no país, olhando sempre para o bem comum. As empresas precisam ser remuneradas, claro. Mas a sociedade é bem maior e suas demandas explícitas e implícitas deveriam estar na linha de frente do debate.

Não há energia para se rediscutir o mercado de TICs e sua regulação a cada três ou cinco anos. E muito menos isso interessa do ponto de vista econômico, pois o retorno dos investimentos, fomento para as próximas gerações de soluções, leva tempo. Pelo que tudo indica, nós vamos começar alguma rediscussão agora, depois de dez anos da LGT, uma respeitável vovó que fica sentada em sua cadeira de balanço vendo a novela das oito. Uma vez por década, parece, iremos lá trocar a sua cadeira de lugar

Por isso mesmo, agora é a hora dos mais variados grupos de interesse se articularem, antes da discussão começar, para combinar o que queremos que mudar de qualquer jeito, o que discutiremos e, se concordamos, mudaremos e o que deixaremos, por fim, para a próxima grande discussão, daqui a dez anos. Lembrando que os avanços dos próximos dez, de forma relativa, poderão ser bem maiores do que os dos últimos vinte

Ou tal articulação acontece ou continuaremos onde estamos, vovó vendo TV e nós, na janela, vendo a

banda da inovação passar

para outros países.

65

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Drogáudio, o novíssimo ruído da internet 27

A “última onda” da rede é a promessa de usar sons, aparentemente seguros, para ter efeitos pessoais equivalentes a drogas. Vai funcionar? Se funcionar, vão tentar controlar? Como?

Imagine o cenário: traficantes em batalha de rua, mundo se acabando ao redor, para proteger e ampliar

seus pontos de distribuição de

falantes espalhados pelos postes do lugar, transmitindo um beat que leva a galera a níveis de energia nunca dantes navegados por ali. Como conseqüência, os liberados pela nova moda terão criado situações que levarão o padre, o delegado e o juiz a reconsiderar os hábitos e relacionamentos do povo

de lá. Os dois casos são extremos e têm pouco a ver com a promessa de i-doser: beats que poderiam alterar significativamente o comportamento do cérebro, como se você estivesse drogado.

som. Ou então, numa cidade do interior, a “difusora”, aqueles alto-

Mas e se a coisa funcionasse mesmo, e em larga escala? Veja o que diz, no site da empresa (em “experiences”), um certo Leo Jampolsky, depois de “ouvir” a erva maldita: “eu me senti sob os efeitos da descrição (do som, promovido como marijuana); meu corpo ficou leve e eu relaxei, até o ponto em que comecei a gargalhar sem nenhuma razão”. Uau. Mas i-doser, a companhia, não está fazendo nada de novo. Em particular, o processo sonoro usado para estimular o cérebro, conhecido com binaural beats, foi descoberto há mais de cento e cinqüenta anos por Heinrich Dove e redescoberto em 1973 por Gerald Oster, como parte de estudos para diagnóstico, por exemplo, do mal de Parkinson. Quem sofre da doença normalmente não consegue perceber os beats, o que melhora significativamente com o tratamento. E Oster também determinou que os beats poderiam ser usados para identificar deficiências auditivas.

A idéia por trás de binaural beats é usar duas freqüências sonoras próximas uma da outra para criar estímulos auditivos correspondentes aos modos de “vibração” naturais do cérebro, normalmente entre 0.5Hz (um ciclo a cada dois segundos, correspondente ao sono profundo, modo delta) e 40Hz e acima (quarenta ciclos por segundo, alerta total, modos beta e gama). O mecanismo é conhecido desde (entre outras culturas) a américa pré-colombiana: os incas usavam fontes sonoras para criar beats que serviam de trilha para suas cerimônias. Hoje se sabe que os beats podem ser usados para induzir estados mentais bastante estudados como o de meditação, que surge entre 8 e 13Hz. Mas a controvérsia em torno do tema, apesar de uma base científica cada vez mais sólida, é muito maior do que o auê gerado por i-doser e sua promessa de drogas sonoras.

Já discutimos nesta coluna outros processos de mudança de estado cerebral, como as diversas tentativas de controlar o sono, usando inclusive polarização elétrica do cérebro. Os beats, como as drogas inteligentes contra o sono e o uso de dispositivos eletrônicos para induzir estados cerebrais, são parte das nossas tentativas de programar a parte mais complexa do nosso corpo, justamente a que raciocina e reflete. Tais processos de modificação, ou de ampliação da capacidade humana, fazem parte de uma tendência muito antiga de modificação corporal (ou body mod), onde o corpo é tratado como uma plataforma (programável) à qual se quer adicionar, suprimir ou ampliar funcionalidades naturais.

27 Atualizado em 24/03/2007 - 00:00

66

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Pode ser algo muito simples, como fez Quinn Norton ao implantar um magneto no dedo indicador e passar a “sentir” campos magnéticos. Ou muito complexo, como o caso de Steven Gulie, que implantou um “marcapasso” para tentar controlar o avanço do mal de Parkinson usando estimulação profunda do cérebro numa cirurgia que custou mais de meio milhão de reais (coberto pelo plano de saúde dele). O caso de Gulie, descrito pelo próprio, é uma excelente leitura para quem tiver algum interesse no assunto.

Voltando aos drogáudios, e obviamente a seu próprio risco (e sem que esta coluna esteja estimulando

qualquer tipo de uso de drogas) o leitor pode pegar grátis o Brain Wave Generator e, neste outro link, algo que eles chamam candidamente de LSD e está na rede para qualquer um experimentar. A coluna não tentou. Para um barato mais leve, que tal este aqui para surfar? E BWGen não é o único software grátis que você pode pegar para ouvir, ou sentir, o que acontece: GnAural é um projeto de software aberto onde você pode entender como a coisa funciona, se sabe programar, e contribuir para o

o que aumenta suas possibilidades criativas muito além da simples

desenvolvimento, se estiver afim programação do gerador de beats.

De resto, você não precisa de software para ouvir binaural beats. Há quem combine música com beats, tornando a audição mais interessante do ponto de vista estético. Finalmente, pode ser que, usando o material da i-doser ou de qualquer outra fonte ou promessa, você não vá viajar pra lugar nenhum. Mas há cada vez mais evidências de que o uso continuado de binaural beats pode diminuir ansiedade. Mesmo que sirva só para isso, já vai melhorar muito a qualidade de vida de muita gente.

Danado vai ser se tentarem controlar a coisa, talvez porque beats como marijuana e LSD realmente

tenham algum efeito (minimamente) parecido com as drogas. Aí teríamos drogas virtuais e vícios reais,

o que não seria também nenhuma novidade

vai saturar a internet de uma vez por todas. Sem falar na quantidade de spam com drogas de todos os tipos, legais (no bom sentido) ou não. Mas pelo menos não haverá balas perdidas na rede. Tomara.

Mas o que vai rolar de beats nas redes P2P e em torrents

67

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

A ameaça do “Googlepólio” 28

O Google tem dinheiro, velocidade e corre riscos. A muitos, parece estar criando o que pode vir a ser o verdadeiro monopólio de “organização” de informação na web. Será que os competidores vão esperar sentados?

A essa altura do campeonato todo mundo já sabe que o Google comprou a DoubleClick, um negócio de

publicação de anúncios na web, que era propriedade de dois fundos privados, por US$ 3.1 bilhões em dinheiro vivo, tirando a Microsoft (entre outros possíveis compradores) do jogo. A empresa de Redmond, que tem um negócio de anúncios como o do Google, mas com uma performance muito menor, parece que estava disposta a pagar pouco mais de US$ 2 bilhões e pulou fora da disputa. Nessa transação, o Google pagou o dobro do que tinha gasto para ficar com o YouTube. A DoubleClick faturou US$ 300 milhões no ano passado e havia sido comprada, em 2005, por US$ 1.1 bilhão -- o que levou muitos analistas a discutir o que, exatamente, aconteceu com a empresa em dois anos que a tornou tão valiosa. Pelo menos para o Google.

Uma das respostas é que Eric Schmidt comprou a empresa para evitar que a Microsoft fizesse o mesmo. Só que o alvo não era só a Redmond, mas também o Yahoo: o Google não tinha (até a semana passada) uma rede de servidores de banners (sim, os velhos banners) e “rich media” (ou “mídia rica”,

propagandas interativas em flash, vídeo), a tecnologia, a prática do negócio e seus clientes. Agora tem.

O que vai fazer com isso é outra história. Primeiro, pode haver conflito entre seus múltiplos modelos de

negócio para anúncios: de um lado, aqueles simples, de texto, publicados por milhões de pessoas e empresas, que fizeram a fama e fortuna do Google até aqui; do outro, 1.500 clientes da DoubleClick, que estão entre os maiores anunciantes do mundo. A princípio, dois públicos complementares. Mas, o Google não tinha acesso até agora. Logo, por que haveria conflitos?

Há quem diga que o primeiro atrito poderá vir de uma tentativa de tirar as agências de publicidade do jogo de uma vez por todas, desintermediando -- como é hoje o caso dos anúncios do Google -- a interação entre quem paga pelo anúncio e o site que o publica. Na verdade, trata-se de reintermediação, com o Google (ou o GoogleClick) assumindo o papel das agências, servindo de interface para o cliente programar seus anúncios diretamente. Resta saber se os grandes clientes vão querer pagar este pato, já que hoje pagam agências exatamente para se verem livres da complexidade de (também) programar a propaganda. Mas não é essa a única preocupação: a medida em que o Google (e suas aquisições) registram e interpretam cada busca, click e link que há na rede, as preocupações sobre privacidade e suas garantias tenderão a ser cada vez maiores. Especialmente a partir do ponto em que a empresa começar a ser percebida como um monopólio.

Quase todo grande mercado, em todas as eras, tem seus monopólios, naturais ou não. A Microsoft detém, hoje, o quase monopólio dos desktops. Mas isso está nas nossas casas e, a não ser no caso de uma invasão, só nós temos acesso aos dados lá armazenados. E ainda, neste modelo, é possível trocar o software “X” pelo “Y”, quando nos aprouver. Estaríamos trocando funcionalidades apenas. O modelo do Google, e de uma web de negócios que funciona a partir de um software como serviço, é mais leve e

28 Atualizado em 21/04/2007 - 12:37

68

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

sutil, e pode levar a monopólios ainda mais radicais. É só comparar a qualidade potencial de um negócio que está começando com a de um outro, estabelecido há anos, que já sabe exatamente quem você é,

por onde anda, com quem conversa, que vídeos vê, o que compra e o que faz e o que não

comparação. O potencial de criação de um monopólio a partir do Google e suas aquisições é imenso, e

isso é parte do preço das ações da empresa na bolsa.

Não, não há

Depois da compra da DoubleClick, não demorou muito para as companhias ameaçadas pelo controle cada vez maior do Google sobre anúncios online começarem a atacar o gigante pelo flanco regulatório. Mal foi anunciado o negócio, Microsoft, Yahoo, Time Warner, AOL, AT&T e outros, menos votados, já estão reclamando(ainda informalmente, mas isso vai virar briga) do “domínio” de Google e as suas “conseqüências” para a privacidade na rede. Bradford L. Smith, advogado da Microsoft, muito mais acostumado a defender a companhia nas batalhas em que ela própria vem sendo acusada de práticas anticompetitivas nos últimos anos, disse ao The New York Times que … a compra do DoubleClick pelo Google combina os dois maiores distribuidores de anúncios online e ‘reduz substancialmente a competição no mercado de anúncios na web’”. Pois é, cada um sabe onde seu sapato aperta. Para um resumo da cobertura sobre esta confusão, clique aqui.

Mas este não é o único debate sobre o assunto. Há cada vez mais especulação de que a Microsoft não compraria a DoubleClick de jeito algum, pois nunca adquire público e sim tecnologia, como no caso da absorção recente da TellMe por US$800 milhões. Isso pode estar errado, mas e daí? Daí, parece que Ballmer e amigos entraram na corrida pela DoubleClick só para forçar o Google a pagar maisserá? O fato é que agora o Google pode competir com o Yahoo na mesma plataforma de anúncios e a Microsoft fica ainda mais distante no mercado web. Mas ao mesmo tempo à frente no mercado de busca móvel e por voz (que é o que a TellMe faz). A corrida ainda não acabou. Façam suas apostas… e apostem também quando o Google vai ser processado por monopólio em alguma destas coisas, como anúncios na web, onde está eliminando, rapidamente, a competição.

69

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Blogs: 10 anos de (r)evolução 29

Jornais muito antigos, no mundo inteiro, estão em sérias dificuldades. O editor do New York Times, pra citar um dos grandes, não sabe se continuará imprimindo o jornal daqui a três anos. O que os blogs têm a ver com isso?

Maio é o mês das noivas e abril é o mês dos blogs. Há dez anos, num dia de abril, Dave Winer começou a publicar um diário em rede que viria a ser considerado por muitos o primeiro blog. Claro que ninguém nunca saberá exatamente quem foi o primeiro, até porque muitos dos milhões de usuários que tinham pági