silvio meira no G1: 66 textos publicados em 2006 e 2007

silvio@meira.com, http://smeira.blog.terra.com.br, http://twitter.com/srlm

Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

este arquivo contém mais de um ano de textos de silvio meira para o G1, desde o início do site noticioso da GLOBO até a última semana de 2007. à exceçãoo de pequenas correções ortográficas, os textos estão publicados exatamente como foram à web no site; isso faz com que muitos dos links originais apontem para o nada, como é o caso da web no mundo inteiro. a motivação para levar os textos de volta à rede, neste formato, é o desaparecimento do arquivo de publicações do próprio G1 em junho de 2009. eu deveria ter feito isso à época, mas o tempo... mais recentemente, me chamou a atenção um estudo da british library, publicado em beta, sobre preservação da memória digital pessoal. ao começar a escrever um texto sobre tal tema para meu blog no terra [que estou publicando em pdf a cada fim de ano, como forma de preservação...] me impus a tarefa de recuperar para mim mesmo [e uns poucos leitores] o que estava na rede e sumiu. chega a ser curioso que já em 2009, meros três anos depois de começar, o G1 já estivesse [como, aliás, quase todos os sites] descartando conteúdo pelo qual, por sinal, pagou para publicar e que, por contrato, não estaria em nenhum outro lugar da web. é como se toda informação fosse pontual, extemporânea, perecível... como se só o aqui e o agora importassem. não acho não. há muita coisa nestes textos que penso até hoje, que ainda refletem minha opinião. outras tantas deixaram de valer e, por isso mesmo, são tão importantes quanto as que ainda valem: me mostram [e aos outros, que me lêem] que mudo. que mudo muito e erro muito. talvez mude tanto porque erro na mesma intensidade... anyway: aí estão os textos, para guarda e referência. as ilustrações são de leo aragão, que muito gentilmente permitiu sua reprodução aqui. grato, leo. o tag cloud, feito a partir de todas as palavras no arquivo, vem de wordle.net. e todos os erros, acertos, etc., claro, são meus mesmo. boa leitura. recife, abril de 2010 silvio lemos meira

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7 silvio lemos meira, nascido em taperoá, paraíba ['55], é formado em engenharia eletrônica pelo ITA ['77], mestre em informática pela ufpe ['81] e phd em computação pela university of kent at canterbury, uk ['85]. casado com kátia betmann, é pai de cecília, diana e pedro. meira é professor titular do centro de informática da ufpe, onde leciona engenharia de software e história e futuro da computação; é cientista-chefe do c.e.s.a.r, onde coordena o grupo de inovação e os esforços de gestão de conhecimento e redes sociais, métricas e estimativas em projetos de software e compartilhamento de informação P2P; é presidente do conselho de administração do portodigital e membro do comitê assessor de tecnologias da informação do mct; parceiro da rede avina, é colunista do terramagazine, onde escreve sobre tecnologias da informação e comunicação e seu impacto político, econômico e social; é ainda comentarista da CBN, no BITs da NOITE, às terças, às 22h40. meira é consultor independente de políticas e estratégias de informação, informática e inovação. autor de mais de duzentos artigos científicos e tecnológicos publicados em congressos e revistas acadêmicas e de centenas de textos sobre tecnologias da informação e seu impacto na sociedade, publicados na imprensa leiga e de tecnologias da informação, meira já supervisionou [desde 1985] mais de noventa teses e dissertações de doutorado e mestrado. silvio meira foi pesquisador do cnpq por mais de 15 anos; foi membro dos conselhos d'o estado de são paulo e da philips latin america; concebeu e coordenou o programa temático multi-institucional em ciência da computação [protem-cc] do cnpq; criou e coordenou o programa de doutoramento em ciência da computação da ufpe; foi assessor da secretaria de política de informática do ministério de ciência e tecnologia; foi membro do primeiro comitê gestor da internet.br, da primeira comissão nacional de avaliação da educação superior [conaes] e presidente da sociedade brasileira de computação; foi consultor do world bank [infodev] e do united nations development program; foi um dos criadores e primeiro presidente do c.e.s.a.r, centro de estudos e sistemas avançados do recife, um dos criadores do porto digital, ecossistema urbano de informática no recife antigo e um dos três cientistas por trás do engenho de busca radix.com. meira foi colunista [entre outros] do diário de pernambuco, jornal da tarde, agência estado e da revista eletrônica NO e do G1. recebeu, da presidência da república, as comendas da ordem nacional do mérito científico [1999] e da ordem de rio branco (2001). em 2006, recebeu do governo de pernambuco a mais alta comenda do estado, a ordem do mérito dos guararapes. em 2008, recebeu a medalha do conhecimento do ministério do desenvolvimento, indústria e comércio. meira participou do desenvolvimento de muitos empreendimentos inovadores e está atualmente envolvido com meia dúzia deles. em 2005, silvio meira foi eleito, pela revista info, um dos três mais importantes evangelistas de tecnologias da informação do brasil. em 2007, a revista época o elegeu um dos 100 mais influentes brasileiros. em 2009, foi uma das entrevistas do “pensamento nacional” da HSM management e entrevistado do mês de janeiro da revista marie claire. meira é o entrevistado novamente- do "pensamento nacional" da HSM management de março de 2010. silvio meira é do carnaval e batuqueiro de maracatu: não aceita convites para nenhuma outra coisa, em janeiro e fevereiro, que não tenha frevo, caixas, abês, alfaias, gonguês e reis, rainhas e damas de passo nas ladeiras de olinda e no bairro do recife antigo, onde sai num monte *mesmo+ de blocos e toca n’acabralada. no resto do ano, brasil e mundo afora, meira faz palestras sobre inovação, criatividade, empreendedorismo, TICs e seus impactos sociais e econômicos, redes sociais, games e educação, sociedade da informação, políticas e estratégias de informação, motivação... veja silvio meira em http://twitter.com/srlm e http://smeira.blog.terra.com.br e, para entrar em contato conosco, use os endereços silvio@meira.com e masuki@meira.com ou ligue para auana carvalho no [81]34254714, auana.carvalho@cesar.org.br. 2

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Conteúdo
A banda larga mudará nossa experiência de rede ......................................................... 8 Por que somos tão poucos na internet brasileira ........................................................ 10 Aviões não saem por aí, no espaço, como bem entendem ............................................ 12 Grandes negócios na rede -chegou a hora, de novo?.................................................... 14 Toda ciência é da computação .............................................................................. 16 Deitada em berço esplêndido? .............................................................................. 18 Pequena receita para um Brasil digital ..................................................................... 20 Somos todos parte da infosfera; o controle de vôo também .......................................... 22 Comunicação: acesso deveria ser público e aberto? .................................................... 24 Vírus (virtual) ataca mundo (virtual)... ..................................................................... 27 Confusão Digital ................................................................................................ 29 O Caos Aéreo Nacional: único exemplo? .................................................................. 31 Varejo virtual cresce e (tenta) aparece(r) ................................................................. 33 Lá vem chegando o... futuro ................................................................................. 36 Mais previsões para a vida digital em 2007 ............................................................... 38 Algumas previsões para software em 2007 ............................................................... 40
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O futuro da internet é cada vez mais... você .............................................................. 43 Somos programas, somos e seremos programados... .................................................. 46 Second Life: ditadura e desastre ambiental ............................................................... 48 Mangue beat. Manguebeat. Manguebit. .................................................................. 50 IPTV. O que? Infinitas Possibilidades de TV... ............................................................. 53 O Carnaval e a Borda da Web ................................................................................ 55 Ora (direis) ouvir... blogs!..................................................................................... 58 A nova aristocracia ............................................................................................. 60 Começar. E começar de novo. ............................................................................... 62 Vovó vendo TV... ............................................................................................... 64 Drogáudio, o novíssimo ruído da internet ................................................................. 66 A ameaça do “Googlepólio” .................................................................................. 68 Blogs: 10 anos de (r)evolução ................................................................................ 70 O trabalho do futuro (e o futuro do trabalho) ............................................................ 73 Nossa TV digital começa em dezembro .................................................................... 75 Pandora, caixinha difícil de controlar ...................................................................... 78 Informática Esperta. Mesmo? ............................................................................... 80 O trabalho dos poderosos... e infelizes .................................................................... 82 Convergência digital... no celular ........................................................................... 84 O virtual, seu controle, nossas liberdades ................................................................. 86 Sucesso é Confusão ............................................................................................ 89
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Breve, num celular perto de você... ........................................................................ 92 A nova indústria cultural ...................................................................................... 94 Tecnologia pra lembrar. Pra esquecer também. ......................................................... 96 A Copa de Futebol e o Congresso de Robôs... ............................................................ 98 Feira do Paraguai: liberou (quase) geral. ................................................................ 100 O (verdadeiro?) impacto da web .......................................................................... 102 A fuga dos anúncios ......................................................................................... 104 Movimentos no mundo móvel ............................................................................ 106 Rádio digital: a decisão brasileira ......................................................................... 108 De onde vem o futuro? ..................................................................................... 110 Há vida em Second Life? .................................................................................... 112 Cada dia que passa... ........................................................................................ 114 A pirataria de software diminui. E daí? .................................................................. 116 Um Brasil que cresce como a China ...................................................................... 118 Rádio Digital: a indústria acorda .......................................................................... 120 O esgoto é a solução......................................................................................... 122 Pelas próprias mãos, com o próprio bolso .............................................................. 124 Deixando de existir... por um tempo ..................................................................... 126 O doutor e o controle remoto ............................................................................. 128 Homens, Mulheres, Crianças e Novas Mídias ........................................................... 130
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É preciso abrir os mundos virtuais... ...................................................................... 132 O maior problema dos celulares... ........................................................................ 134 É informação? Deixe comigo, cuido de tudo... ......................................................... 136 Nintendo detona a competição ........................................................................... 138 A “bandinha” do Natal ...................................................................................... 140 MP3: padrão, grátis e legal no ano novo ................................................................ 142 Ano Novo, Tecnologia Nova: 3G ........................................................................... 144 Feliz Natal, Brasil Digital .................................................................................... 146 O futuro das tecnologias da informação e comunicação ............................................. 150

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A banda larga mudará nossa experiência de rede 1
Parece que foi ontem, mas já vivemos mais de uma década de internet. Lá atrás, teóricos enchiam a boca para falar do “ciberespaço”, termo cunhado por William Gibson em 1982 e popularizado dois anos depois em seu famoso “Neuromancer”, o romance que criou o gênero cyber-punk. No livro, o ciberespaço é uma alucinação coletiva, consentida, por operadores, por crianças aprendendo matemática... uma representação gráfica, abstrata, dos dados extraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano... Daí pra metáfora do “ciberespaço” representar a internet foi um pulo. Faz um certo tempo que não ouço ninguém de tecnologia falar de “ciberespaço”; ainda há filósofos, sociólogos e outros analistas se referindo ao mundo conectado como tal, mas parece que eles não estão entre os mais alucinados usuários da internet. Esta, a rede de todas as redes, que junta a que está instalada na minha casa com a do meu escritório, a sala em que eu dou aula na universidade, as máquinas e software deste portal e a sua máquina, de onde você, agora, tenta entender onde eu quero chegar... a internet simplesmente chegou e começou a conectar o mundo. De uma certa forma, ela, que era muito presente no começo [ao ponto de muitas bandas usarem a cacofonia dos modems de 14, 28... kilobits por segundo discando para os provedores!] está começando a desaparecer no cenário contemporâneo. Banda larga, sempre ligada, que cada vez mais gente tem e que em breve será a única forma de nos conectarmos, muda nossa visão e experiência da rede. Entramos em farmácias, lanchonetes, livrarias, YouTube, MySpace e Globo Media Center abrindo, displicente, múltiplos tabs no browser... seu navegador não tem isso ainda? Mude para Internet Explorer 7 ou Firefox, hoje! Chego no aeroporto, abro meu laptop e não só tenho banda larga, mas sem fio, em todo Brasil e no mundo, como se estivesse em casa. Vez por outra, dá até mais trabalho em casa, porque lá o suporte -o cara que desenrolar quando o sistema dá pau- sou eu mesmo. A Internet pública, a que todos temos acesso, migra rapidamente para a dimensão das infra-estruturas da sociedade, como a energia elétrica, e nós só precisamos nos preocupar com ela quando há algum problema. Quando “dá pau”... Mas quase sempre tudo está funcionando e os consoles de jogos estão conectados; os melhores jogos são contra [ou com] outros seres humanos, que estão por aí, entre os mais de seis bilhões de terráqueos. Todos os celulares vão começar a funcionar do mesmo jeito, pela e na internet, algum dia, mais cedo do que tarde, e nós vamos poder filmar aquele guarda pedindo propina e mandar direto pros sites de notícias, a rede servindo de prova do crime. Pode até não dar em nada, no começo, mas dentro de algum tempo os vigiados [nós] vão se revoltar contra os vigias [os múltiplos pedaços do Estado] e exigir-lhes uma conduta minimamente apropriada, como nossos empregados que são. Capaz até de conseguirmos vigiar de perto os representantes do povo, expelindo os caídos on-line, real time... cassando mandatos por voto popular, na rede, na lata!... No curto prazo, é uma utopia. Mas olhe daqui a cinqüenta anos e imagine uma só coisa que não vai estar na rede. Uma. Seu tênis vai estar, a câmera da porta da sua casa, seu carro [e várias partes dele, independentemente], os sinais de trânsito, os aviões, barcos, navios, animais de estimação, fogões,

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Atualizado em 19/09/2006 - 00:000

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geladeiras... e, dentro dela e também na rede, o cacho de uvas comprado no supermercado. O selo do produtor estará na rede, será percebido e identificado como tal e poderemos descobrir um bocado de coisas sobre aquelas uvas que parecem tão belas e saudáveis... como a quantidade de agrotóxicos [se eles existirem, então] a que elas foram submetidas. Talvez tenhamos muito mais coisas na rede. Dia destes eu pensei num olho artificial, nem tão punk assim, que tivesse uma resolução tão boa ou melhor do que um olho normal e pudesse ser colado, de alguma forma inteligente [pra não embaralhar a imagem!] no nervo ótico. Pra quem é muito míope ou tem outros problemas visuais mais severos, este olho teria caído do céu, desde que você quisesse trocar seu velho olho por um novo em folha, digital. Mas ele teria mais: poderia [pois é um sistema computacional] ter zoom e infra-vermelho. Quem não iria querer?... E mais: estaria conectado [sem fios!] na rede e poderia upload tudo o que visse pros servidores onde estivessem suas contas... gravando, on-line, sua vida. Pra que tirar fotos? Pra que prestar atenção em algo que não sei quando e se vou precisar? Gravado na rede, pelo nosso olho conectado, tudo poderia ser recuperado sob demanda... como o nome daquela pessoa que encontramos em algum lugar, que nos foi apresentada mas, na hora, estávamos com a atenção grudada noutra coisa. Ah, sim: como não poderia deixar de ser, este olho ouviria, também, e ultra-som, porque é multimídia. Claro. Utopia? Previsão? Não, provável desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação, casadas com as ciências da vida, várias partes do que, em diversos graus de qualidade e completude, está começando a tomar forma em laboratórios mundo afora. Isso e muito, muito mais, que nos vai dar um trabalho muito grande quando formos pensar nas implicações para a vida, os seres humanos, seu comportamento privado e público e talvez até para a redefinição do eu, da noção de corpo, espaço e tempo. E da vida. Vai ser complicado, interessante e, acima de tudo, divertido. Esta coluna vai ser sobre a sociedade da informação, que está começando a se tornar “a” sociedade em que vivemos, o espaço-tempo em que muitas das coisas descritas acima -e outras tantas que nem imaginamos, hoje - estão acontecendo ou vão acontecer. Não vamos falar de tecnologia pura; quando algum artefato, sistema, teoria ou aplicação aparecer por aqui, será sempre um motivo pra discutir seus possíveis impactos em nosso meio, o que seu uso vai mudar em nossas vidas, como o mundo vai [ou não] mudar por causa dele. O que vamos ganhar, o que perderemos e o que as pessoas que nem estão na rede estarão -e o que já estão- perdendo. Uma vez por semana, sempre às terças, vamos nos encontrar por aqui. Terça que vem, pra começar, pra discutir porque somos tão poucos, no Brasil, se começamos, em 1995, no começo da internet comercial aqui, tão bem. Coisas do Brasil, que vamos discutir aqui com um distinto, e nem tão discreto assim, olhar da periferia.

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Por que somos tão poucos na internet brasileira 2
Se fosse o caso de dar um conjunto de respostas simples, mas que não explicam muita coisa, sobre por que o Brasil ainda tem tão pouca gente na internet, a lista de porquês até que não seria muito grande: porque a geografia do Brasil é complexa; porque nossa infra-estrutura é precária; porque a população é pobre; porque nós não estamos fazendo bom uso de soluções sociais para criar mais acesso à comunicação e computação para quem não pode ter, em casa, um PC e um telefone; e, enfim, porque não temos políticas públicas para tratar – com a intensidade devida – o problema de inclusão digital no Brasil. Esta lista dos porquês, se devidamente explicada, nos diria porque há menos de 15% dos brasileiros na rede, mais de dez anos depois do início de operação da internet comercial [a internet aberta, pois antes a rede só estava nas universidades e centros de pesquisa], um fracasso retumbante frente a outros países em desenvolvimento [o Chile e a Malásia têm mais de 40%]. Antes dos porquês, talvez devêssemos achar algo que deu certo por aqui, pra saber se temos alguma chance de mudar o cenário, no médio ou longo prazo, pois o curto prazo talvez já esteja perdido. Pensando bem, um sucesso brasileiro muito importante é o controle da poliomielite: os primeiros surtos notificados da doença no país datam de 1911 e, mesmo havendo vacina disponível desde 1955, daí até a década de 1980, surtos de pólio eram sucedidos por “surtos de vacinação”. Vacinava-se parte da população afetada depois que o surto já estava em declínio e, como resultado, seguiam-se mais surtos, no mesmo ou em outros locais, e o ciclo continuava. Entre 1976 e 1978, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, haviam ocorrido no Brasil [cerca de 110 milhões de habitantes, na época] mais casos de pólio do que na Índia [quase 700 milhões de habitantes]. Alguma coisa precisava ser feita, e foi: criou-se, em 1980, o Dia Nacional de Vacinação, uma operação pública, complexa e sofisticada que leva gotinhas a todos os pequenos brasileiros em todos os recantos deste gigantesco, diverso e confuso país. Mas, uma vez que, no fim da década de 1970, todos os lados da moeda resolveram acabar com a poliomielite, a vacinação nacional, no mesmo dia, deu resultado imediato: dos 1290 casos em 1980, caímos para 122 em 1981 e apenas 45 em 1982, o menor número da história registrada da pólio no Brasil. Em 1994, décimo-quinto ano da operação, o Brasil recebeu a Certificação da Erradicação da Poliomielite. Sucesso, aplausos. Fim da história? Nada disso; continuamos vigilantes e vacinando crianças, país adentro, doze anos depois. O preço da saúde é a eterna vigilância e não acho que, qualquer que seja o governo, se ainda houver algum risco para a população, a interrupção do programa sequer venha a ser considerada, pois bastaria um único caso de pólio para derrubar o governo, mesmo no clima de aceitar quase tudo que uma parte do país parece viver. Se você quiser saber mais, a história da pólio no Brasil está aqui. Sem entrar na numeralha que explica os detalhes da pobreza e geografia brasileiras, talvez baste dizer que metade da população não tem renda para ter um telefone fixo, que seja, em casa. Só isso já deixa metade do nosso povo fora da internet, se a solução que estiver sendo considerada for “cada um por
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si”. Do ponto de vista da geografia, o país não é o mesmo em todo lugar: enquanto menos de 250 municípios com mais de 100 mil habitantes têm cerca de metade da população, há uns 40 milhões vivendo em cerca de 4000 cidades que têm menos de 20 mil habitantes. Quantas destas 4000 teriam ADSL de 1 megabit por segundo hoje e quantas, por demanda econômica, terão daqui a dez anos? A pergunta não é menos complexa se a mudarmos, nas cidades de mais de 100 mil que têm banda larga [e não são todas], para: quantos habitantes de suas periferias [e não são poucos!] estão na internet e podem usá-la, no seu dia-a-dia, como mecanismo de acesso a conhecimento, serviços, compras, entretenimento e a oportunidades [de trabalho, inclusive]? Guardadas as proporções, as deficiências de acesso à informação, hoje, na era da informação e do conhecimento, têm a mesma -ou maior- gravidade dos problemas causados pela pólio antes do nosso sucesso na vacinação. Do meu ponto de vista já vivemos, e viveremos cada vez mais, do que podemos fazer com nossos cérebros; e uma das fontes mais preciosas de material para alimentá-los é a capacidade de busca e análise de informação, aumentada pela internet de maneira jamais conseguida por nenhuma outra ferramenta na história, com exceção da capacidade de ler e escrever. Aliás, vamos muito mal neste departamento: apenas 25% dos brasileiros com mais de 15 anos domina a habilidade de ler e escrever. Na população, 8% são analfabetos “de pai e mãe”, como se diz em Taperoá, e 38% são analfabetos funcionais *podem até “saber” ler, mas não sabem “o que fazer” com o que lêem]; só 20% dos brasileiros completaram o ensino fundamental e médio. Para cada um de você, caro leitor, há outros três que não conseguiriam chegar até aqui, neste texto. Isso é uma tragédia nacional, pior do que o pólio, e muito pior do que só termos 14% das casas com internet. A pergunta que poderia responder os porquês é... e então, o que fazemos primeiro? A resposta é... tudo, ao mesmo tempo, e o tempo é agora, antes que percamos para sempre uma vasta maioria dos brasileiros. Em resumo, precisamos botar todo mundo na internet e usá-la – intensamente, e para tudo – como mecanismo educacional; precisamos fazer isso em escala social, o que implica em tratar o problema da pobreza como parte da solução – muitos dos mecanismos de acesso têm que ser compartilhados e subsidiados, para quem não pode pagar; precisamos tratar o problema nacionalmente – um número muito grande de localidades e grupos de indivíduos só poderão entrar na rede, por muito tempo, via satélite, que custa caro e que vai precisar, mais uma vez, ser subsidiado. E como fazer tudo isso? Nenhum segredo... precisamos de políticas públicas, em larga escala, no país inteiro, para todos os grupos de risco – pessoas e comunidades que, por si próprias, não resolverão seu problema de acesso –, como fizemos, enquanto país, no caso da pólio. Deixado como está, o problema irá “se resolvendo” por si próprio, tão lentamente quanto nos últimos onze anos. Se estivéssemos tentando seriamente, tanto quanto nos quinze anos em que erradicamos a pólio, talvez só faltassem quatro anos para só ficar fora da rede quem realmente quisesse. E olha que as crianças não deveriam ter escolha, como não tiveram no caso da vacina. Internet na escola deveria ser mandatória, como lápis, papel e livro. A única salvação dos responsáveis pela falta das tais políticas é que os condenados por sua inexistência não sabem que estão condenados e os que sabem não entendem porque... o que deveria levar-nos, nós que achamos que entendemos, a uma campanha tão intensa como a da vacinação, pelo menos. E é isto que esta coluna vai fazer, entre outras muitas coisas.

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Aviões não saem por aí, no espaço, como bem entendem3
Fim de uma tarde de sexta, 29 de setembro de 2006. Tudo parece dentro dos conformes, até a eleição que se avizinha. De repente, um avião da Gol - fazendo o vôo 1907, 155 pessoas a bordo- se choca com um jato executivo em pleno ar, sobre a floresta amazônica, entre Brasília e Manaus. Choque de aviões no ar é muito raro [menos de 20, desde 1960] e, em lugares tão remotos e sem testemunhas, é muito difícil saber direito o que aconteceu. Mas o Ministro da Defesa, a julgar pelo noticiário do dia, anunciou, pouco tempo depois, que "deve ter sido um descuido da tripulação da Gol".. Só que aviões não saem por aí, no espaço, como querem e bem entendem: um conjunto de centros de controle de tráfego aéreo [em cada país] decide [e ordena] os caminhos por onde uma aeronave pode voar. Dada uma origem e um destino, o controle estabelece que rotas um avião vai usar, seja ele um Airbus 380 ou um Embraer Phenom. As rotas aéreas são túneis virtuais, no “céu”, dentro dos quais os aviões "controlados" por tais sistemas [de informação, operados por e dependentes de seres humanos] são obrigados a manter uma distância regulamentar uns dos outros. Assim, quando o leitor embarca de Brasília a Recife e o piloto diz que está voando na proa [direção] de Bom Jesus da Lapa, ele não o faz porque quer, mas porque um túnel no sentido Brasilia-Recife, naquela hora, para aquele vôo, passa por lá, numa altitude pré-determinada. Há perguntas básicas a fazer, olhando para o “sistema de informação” ao redor dos aviões acidentados, antes de se chegar a uma conclusão: 1) Por que um jato executivo voava em rota de colisão com um avião comercial? 2) Será que o controle de vôo botou os dois em tal situação? Ou... 3) ...o controle de vôo nem sabia que o jato executivo estava lá e... 4) ... não fez nada [ou não tinha condições de fazer] para tirá-lo de lá?... O ecossistema de aviação de um país minimamente organizado é um sistema de informação, cheio de computação, comunicação e controle por todo lado, dentro e fora dos aviões. Como vai ser, em futuro próximo, a malha viária das cidades: é provável que só consigamos minimizar os engarrafamentos das metrópoles quando tivermos controle “a priori” sobre que veículos podem estar em que ruas e quando. Um sistema de informação rudimentar para tal controle existe hoje em lugares onde há rodízio [como São Paulo] em função das placas ou onde se paga uma taxa de engarrafamento para entrar em certas regiões da cidade [como Londres]. Mas, no caso do ar, a situação é muito mais complexa e tem que ser tratada como tal. Afinal de contas, não dá [só] para multar um avião que está em rota de colisão com outro. A qualquer momento, pode haver centenas de aerovanes no ar, transportando dezenas de milhares de vidas [veja o tamanho do problema, nos EUA, aqui. Nossas vidas, nos aviões, dependem de um grande, diverso e nem sempre devidamente conectado sistema de informação, cujo papel principal é garantir que toda aeronave no seu espaço aéreo saiba por que está onde está, ao mesmo tempo em que assegura que um avião qualquer não vai, de uma hora pra
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outra, entrar no microespaço do outro. Se isso acontecer, a chance de uma catástrofe é muito alta, e foi o que aconteceu com o vôo 1907, porque mesmo o sistema anti-colisão, instalado em todos os aviões mais modernos, é um último recurso, que nem sempre -como sabemos- funciona a contento. Um dos casos recentes de colisão no ar, descoberta quase na hora pelo controle de tráfego aéreo e avisada aos pilotos, foi a que matou 59 pessoas quando um avião da DHL colidiu, sobre a fronteira suíçoalemã, com um Tupolev da Bashkirian Airlines: os dois pilotos mergulharam para evitar o desastre e a igualdade das ações foi o fim de todos os passageiros e tripulantes. Tanto os aviões daquele acidente como os da tragédia brasileira eram equipados com sistemas de alerta contra colisão; no caso dos Embraer Legacy e Boeing 737-800 do acidente de sexta-feira, os aviões tinham menos de um mês de uso e seus sistemas tinha passado por todos os testes de fábrica. Assumindo que nenhuma das duas tripulações envolvidas no acidente estava, deliberadamente, tentando bater no outro avião, a responsabilidade do acidente é da assimetria de informação entre os envolvidos: se os aviões e o controle responsável pela área soubessem, com a devida antecedência, do choque iminente, a comunicação entre as partes teria criado condições - eliminada a assimetria de informação -para que o desastre fosse evitado. Uma coisa que o Ministro da Defesa deveria estar fazendo, desde sexta à tarde, era garantir ao país que - seja lá o que tiver acontecido -haverá uma ampla investigação no sistema de informação [e controle] de tráfego aéreo, para dar certeza aos brasileiros que, ao entrarmos num avião, não estamos correndo os mesmos riscos do Gol 1907, por culpa de responsabilidades estatais que deveriam funcionar bem perto de 100% de eficácia e eficiência, o que não parece ter sido o caso naquele dia. A região onde aconteceu o acidente de sexta-feira está entre as zonas de influência dos controles de tráfego aéreo de Brasília e de Manaus; o acidente da DHL foi na interface dos controles aéreos da Alemanha e da Áustria. Lá, o papel de cada um dos controles no acidente foi objeto de muita discussão. Aqui, especialistas dizem que a região do acidente é uma “terra de ninguém”, apontando para a possibilidade de um dos dois centros de controle ter tomado uma atitude, em relação a um dos aviões, sobre a qual o outro não teve conhecimento. Ou pelo menos não a tempo. Estamos vivendo na era da informação. Isso não significa apenas que há computadores em todo canto e que podemos acessar a internet, mas que boa parte das nossas vidas e das coisas de que dependemos nas indústrias, serviços, saúde, segurança, transportes depende cada vez mais de informação e de seu processamento eficiente e eficaz. E que toda vez que isso não acontecer alguma coisa muito grave pode acontecer. Desde desaparecer dinheiro das nossas contas bancárias até aviões se chocarem no ar. Tomara que não haja nada errado com o controle de vôo. Mas, como o governo não vem tendo a tradição de investigar [seja lá o que for] a sério e profundamente -apesar de todas as declarações em contrário-, meu medo de avião aumentará muito. Que tudo dê certo, nos nossos vôos, nem que seja por acaso... Agora, se não houver uma coluna aqui, semana que vem, procurem o Ministério da Defesa para reclamar...

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Grandes negócios na rede -chegou a hora, de novo?...4
Estamos vivendo o terceiro ciclo da internet. O primeiro foi o da tecnologia, quase como demonstração das possibilidades, e durou 1990/91 até o advento da internet comercial nos EUA, em torno de 1995, quando só havia cinco milhões de computadores ligados à rede, mais da metade dos quais lá mesmo nos EUA. O segundo tempo da internet foi o das “primeiras companhias” e “grandes e ousados planos de negócios”, muitos dos quais eram também ingênuos, inexeqüíveis e, vistos com a sabedoria que a experiência nos dá, hoje, inverossímeis. Aí estão -entre 1995 e 2001- a Amazon.com, Yahoo!, eBay, PayPal, AOL, Netscape, um monte de coisas que a Microsoft fez e, é claro, Google [criado em 7 de setembro de 1998]. Entre as muitas coisas que deram errado para idéias boas e factíveis da segunda onda da internet, estava o simples fato da rede estar se formando naquela época: muitos planos de negócio dependiam de crescimento exponencial de usuários nos sites e não havia usuários porque, na rede, não havia usuários o suficiente. Em 1998, a penetração da internet nos EUA era de 30% [e computador em 50% das casas, contra 20% em 1992]; lá, hoje, 73% da população está na rede, 62% deles em banda larga [eram apenas 21% em 2002]. No Brasil, 17% das casas têm computador e apenas 9.5% da população usa a internet diariamente, segundo o CGI.BR. Este ano, mais de 50 milhões de americanos já postaram alguma coisa na internet, incluindo vídeos para os usuários de banda larga. O que nos transporta à terceira leva de companhias da web, criadas a partir do rescaldo da bolha da internet de 2001 e do amadurecimento de padrões e tecnologias da segunda onda, como Java [uma linguagem de programação de computadores] e Apache [um servidor de páginas web]. Além disso, há novos modos de projetar e construir sistemas de informação na rede, o que se convencionou chamar de web 2.0, talvez traduzido por construção mais eficiente e eficaz de sistemas de informação na web, combinada com banda larga para os usuários. Na web 2.0 estão coisas como netvibes.com, um ambiente para composição de fluxos de informação [que serve para centralizar a leitura de blogs, por exemplo], Skype, o responsável mais direto pelo fenômeno de voz sobre protocolo internet [VOIP], que é o envio de fluxos de áudio [e vídeo] pela rede, “de graça” *isto é, pagando só sua conta de banda larga+, sistemas de automação comercial como salesforce.com e os responsáveis pela notícia da semana, YouTube, empresa de 67 pessoas, fundada meros 20 meses atrás e comprada pelo Google pela fantástica quantia de US$ 1, 65 bilhão, o que resulta em uma agregação de valor de US$ 80 milhões por mês, no período. Será que YouTube vale tudo isso mesmo? O Google tem tecnologia para fazer vídeo na rede, tem um site pra isso, muito mais gente de tecnologia em casa e todas as condições do mundo para destruir qualquer empresa “de internet” usando a inteligência de seus 8 mil colaboradores. Mesmo? Acontece que YouTube, que mostra mais de 100 milhões de vídeos por dia, tem 60% do tráfego de vídeo da rede e o Google só 10%. MySpace, rede social comprada por Rupert Murdoch por US$ 500 milhões, tem uns 25%. E o resto dos competidores não conta, pelo menos agora. Deter a melhor tecnologia do mundo é pré-condição para uma empresa chegar ao mercado, mas nem sempre “a melhor” vence: quem tem

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Atualizado em 10/10/2006 - 00:00

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sucesso é o melhor “negócio”, principalmente do ponto de vista dos usuários Quando Google veio ao mundo, o Altavista era o rei da busca, tendo destronado Lycos e Excite, por ser competente, multilíngue e simples. Era, inclusive, provedor de busca para Yahoo!. Mas a Digital [e depois a Compaq] não entendeu o poder do que tinha nas mãos e o resto é história. Os dois fundadores de Altavista trabalham, hoje, para o Google. No Google, também, nem tudo dá certo. O Orkut, por exemplo, é um fracasso retumbante em termos globais, com quarenta e cinco vezes menos tráfego do que MySpace [75% do mercado]; este, por sua vez, já vale mais do que Google pagou por YouTube. Pouca gente sabe --antes de um negócio de tecnologia dar certo-- porque ele dará; depois, o campo fica lotado de analistas de passado a dar opiniões, a maioria sem nenhum fundamento. A aquisição que Google acaba de fazer é preventiva: o preço que Google poderia ter que pagar em perda de atenção, um dos itens que realmente conta na economia da rede, poderia vir a ser muito maior, principalmente se um dos outros gigantes da rede [como eBay, Microsoft, Amazon, Yahoo ou MySpace] entrasse no jogo. Ano passado, o eBay comprou o Skype [ou seus 100 milhões de usuários, 60 milhões ativos] por US$ 2, 6 bilhões por uma razão parecida: tinha que agregar gente, ou mais atenção, ou mais valor, aos seus 75% do mercado de transações entre consumidores, com exceção da China [onde o TaoBao tem 60%]. A China é osso duro de roer: o Google, que tem 44% das buscas no mundo, perde de 65% a 20% em Beijing para o Baidu. Mas vamos voltar ao lado de cá do planeta, porque talvez o leitor esteja se perguntando o que deve fazer para ter a chance de descolar uma loteria como a sorteada para os dois caras que fundaram YouTube. Primeiro, faça algo necessário: as pessoas em rede, com câmeras e celulares que filmam e banda larga, simplesmente precisavam do YouTube para mostrar suas produções para os amigos e, como se descobriu, para o mundo. Depois, faça o necessário sobre uma base tecnológica que possa tratar muitos milhões de usuários: isso não é simples nem barato e o dinheiro para tal dificilmente estará disponível em países periféricos como o Brasil. Terceiro, acerte no marketing: tecnologia de classe mundial é apenas o ponto de partida para você tentar vender o que faz. Se as pessoas não gastarem tempo para entender sua tecnologia e usá-la... você está perdido. Finalmente, cerque-se de quem entende de dinheiro. Os dois fundadores de Google [por que sempre dois?...] receberam, no começo de sua aventura, US$ 12,5 milhões de uma empresa de capital empreendedor chamada Sequoia Capital, uma das mais competentes do Vale do Silício e do mundo. Quando o Google lançou ações na bolsa, a Sequoia ganhou tanto dinheiro [uns US$ 1,5 bilhão...] que não sabia o que fazer com ele. Mas não foi difícil encontrar: uns meses atrás eles fizeram um investimento de pelo menos US$ 11,5 milhões no YouTube e devem, de novo, estar sorrindo à toa, junto com os fundadores. Resumo da ópera: faça tudo certo e encontre os investidores certos também. Senão, mesmo que você tenha a melhor idéia, tecnologia e negócio da rede e do mundo, seu destino mais provável será a lata de lixo da história...

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Toda ciência é da computação5
Muitos anos atrás [uns 20!], eu disse -para escárnio geral da platéia num seminário do Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco, UFPE- que todas as áreas da ciência eram sub-áreas da computação. Para quem já era da área, naquela época, a introdução cada vez maior de informática - em todos os seus veios e meios, fossem computação, comunicação ou controle- em todas as áreas de atividade, presença ou funcionalidade humanas e, de resto, em tudo ao nosso redor, já significava que todas as áreas de interesse da ciência e do funcionamento da humanidade iriam ter uma componente dela muito importante, senão absolutamente fundamental. Os anos se passaram: Seth Lloyd, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), postulou recentemente que o universo é seu próprio computador e que tudo o que vale a pena ser entendido em um sistema qualquer vem do entendimento de como tal sistema processa informação. No livro, a "New Kind of Science", , o cientista Stephen Wolfram tem uma tese ainda mais radical [porque trata do que e do como...]: tudo que está ao nosso redor [seja lá o que for] é computacional e, como se não bastasse, é computado por autômatos celulares, pequenos arranjos de bits capazes de processar sua informação e de seus vizinhos, no tempo, e tomar decisões simples a partir daí. Funciona para um monte de coisas [clique aqui para usar um gerador de ringtones para celulares]. Será que resolve todas?... Ninguém, por enquanto, sabe. Na última edição de Educause Review, Sandra Braman trata parte do assunto [Transformations of the Research Enterprise], especulando sobre computação, redes e dados nas demais ciências. Ela considera o tamanho do problema que vamos ter para capturar, transmitir, processar e administrar petabytes [quatrilhões... ou quinze zeros... '000.000.000.000.000] de dados que experimentos poderão gerar -como será o caso do novo acelerador de partículas do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), o Large Hadron Collider (LHC)--, transformando a física, por exemplo, em uma ciência intensiva, quase que inteiramente dependente, de computação. Afinal de contas, segundo Lloyd, o que estaremos fazendo é construir computadores [ou programas de computador] para simular o comportamento de outros computadores "naturais" --o mundo lá fora-- cujo funcionamento queremos entender. Uma coisa é certa: à medida que entendemos mais o universo ao nosso redor, boa parte dele pode ser modelada, e quase toda a modelagem que nós fazemos do universo de informação ao nosso redor é computacional. Quer ver? Olhe a descrição do trabalho que fez Roger Kornberg ganhar o prêmio Nobel de Química de 2006: "Kornberg... descreveu como informação é retirada dos genes e convertida em moléculas chamadas RNA mensageiro... estas moléculas transportam a informação às fábricas de proteínas dentro das células”... O Nobel de Química foi dado, na verdade, para processamento de informação. Isso se repete por onde quer que olhemos no cenário atual de ciência e tecnologia, e irá se espalhar, com o tempo, para toda a sociedade. Olhemos [literalmente] para astronomia. Sabe o que está para acontecer? Um único telescópio vai começar a gerar vinte terabytes de informação por dia.
5 Atualizado em 17/10/2006 - 00:00

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Aliás, por noite... pois há de olhar para o céu noturno, excluindo a influência de nosso Sol. Qual o tamanho de tal montanha de informação? Vejamos: um terabyte é um milhão de megabytes, ou 1.000.000 megabytes. Pra quem não é de informática ou ciências, é bom explicar que “um mega” significa um milhão; ou seja, quando pensamos em um terabyte, estamos olhando para uma quantia que tem 12 zeros, o quase ininteligível trilhão. Costumava-se dizer, no passado [uns dez anos atrás] que a "Encyclopaedia Britannica" tinha cerca de um gigabyte [um bilhão de caracteres, contando as imagens]... e era mais ou menos verdade, porque uma versão da coisa cabia num CD [onde se pode comprimir algo perto de um gigabyte de informação]. Olhando *mesmo!+ para os 20 terabytes por noite do nosso telescópio, e levando em conta que “um tera” equivale a 1.000 giga, é o mesmo que pensar num único instrumento de observação dos fenômenos do universo a gerar informação equivalente a 20.000 Britannicas, toda noite, noite após noite. O responsável por tal feito será o Large Synoptic Survey Telescope (LSST), um telescópio de 8.4 metros de diâmetro, americano, que ficará no norte do Chile [no Cerro Pachón], operacional em 2012, com uma câmera de três giga [bilhões!] pixels, uma resolução mil vezes maior do que a câmera digital média que está no mercado hoje, como a que você provavelmente usa para fotografar as estripolias de seus filhos. Cada “foto” do LSST, mil das suas. Já pensou?... Vamos saber muito mais sobre o universo quando o LSST começar a funcionar. Mas vamos, para tal, ter que aprender a tratar quantidades realmente astronômicas de dados. Um dos maiores projetos de astronomia do mundo, o Sloan Digital Sky Survey (SDSS) --levantamento digital do céu, funcionando há anos, financiado em parte pela Alfred P. Sloan Foundation]-- mostra "apenas" um lote de 12 terabytes de dados. Os resultados podem ser vistos no Skyserver. E isso é somente 60% do que o LSST vai gerar por noite. Os problemas e oportunidades para realizar eScience *“ciência em rede”... fusão dos modos teórico, experimental e computacional de fazer ciência, baseado em quantidades quase sempre imensas de dados] serão motores muito importantes do desenvolvimento das teorias e tecnologias de computação, comunicação e controle nas próximas décadas. Elas serão usadas como suporte à realização de qualquer tipo de ciência ou tecnologia. Em breve, não haverá um "e" antes de eScience; a informática simplesmente estará imersa nas ciências todas, como leitura e escrita estão, hoje. E todas as ciências serão da computação... sem que ninguém note ou precise saber explicitamente. Em resumo, toda a ciência é ciência da computação. Simplesmente porque o universo [inteiro] é computacional. Esta tese, que poderíamos chamar da universalidade da computação, estará na base de quase tudo, em ciência e tecnologia, e será discutido com muito fervor nos próximos muitos anos.

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Deitada em berço esplêndido? 6
A compra de YouTube pela Google liberou uma torrente de notícias e comentários na internet, fazendo lembrar os “bons tempos” em que quase tudo o que era feito na rede -inclusive grandes besteiras- era notícia. O fato é que a Google pagou um monte de dinheiro pelo site de vídeos, coisa que já comentamos aqui no G1. Muito do resto é conversa, mas uma parte faz sentido. Don Dodge [do time de negócios emergentes da Microsoft] tem uma análise muito interessante em seu blog sobre por que o YouTube não vale a fortuna que foi paga por ele. Na verdade, ele diz também que o FaceBook [um site de relacionamento que concorre com MySpace] vale mais do que YouTube, que já está sendo chamado de SueTube… algo como ”Processe o Ttubo”, porque o dono, agora, tem renda pra pagar processos… Vai ver, Mark Cuban, aquele que disse que só um idiota compraria YouTube, estava certo. Dodge faz algumas contas baseadas na possibilidade de monetizar visibilidade e tráfego do YouTube, algo que não está nem um pouco perto de acontecer e compara com o que está por trás e no futuro do FaceBook, segundo ele um site de muito maior potencial. O fato é que Google não pagou por nenhuma tecnologia, comprou uma comunidade. A discussão no blog de Dodge, um respeitado analista de novos negócios, é ainda mais interessante: as pessoas perguntam porque a Microsoft --estranhamente?-- não está comprando ou criando alguma comunidade… do tipo e tamanho do YouTube, por exemplo. E o sentimento parece ser que a empresa de Redmond está analisando o cenário para, alguma hora, aparecer com a comunidade que mata todas as comunidades *o chamado “winner takes all” – o vencedor leva tudo...]. Ocorre que o tempo passa e subconjuntos muito significativos dos usuários da rede fazem parte de comunidades que já têm uma cara de “winner takes all”, e estes ganhadores têm outros donos... que não a Microsoft. Mas… é bom olhar em outras direções e ver, por exemplo, o que a Microsoft está fazendo com jogos e suas conseqüências para convergência digital. O Xbox Live e o Marketplace [mais do que uma comunidade, um mercado de coisas associadas a jogos…+ ao redor do console, porta de entrada de uma grande comunidade de uso e prática de entretenimento global [que tem até “moeda” própria, os “Microsoft Points”…+, são muito mais do que muita gente está pensando. Há sete milhões de Xbox360 no mercado e 60% de seus donos está no Xbox Live [XBL], onde uma subscrição básica sai por US$ 50 por ano [contas: no momento, o XBL gera pelo menos US$ 200 milhões por ano]. A operação de vendas em torno do console ainda é deficitária [fala-se que a empresa perde entre US$ 50 e US$ 125 por console vendido] mas a receita empata com a despesa em 2006, incluindo jogos e serviços. E a Microsoft está apostando no lucro no setor em 2007, com 15 milhões de consoles no meio do ano *US$ 450 milhões de renda só no XBL…+, e talvez uns 75 milhões em 2010 *faça as contas…+. Como é que isso vira uma comunidade? Só de jogos, já é; será ainda maior com a idéia de vender [mais barato+ “episódios” de jogos, como se fossem partes de séries de TV, pois 80% dos jogadores não chega nos níveis finais dos principais jogos e não vêem razão para pagar o preço inteiro de certos jogos. Mas
6 Atualizado em 25/10/2006 - 00:00

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pegue o Xbox, ponha um navegador e uns drivers e você tem uma máquina que está na internet... pra ver vídeos de graça no YouTube; bote uma interface a mais e você tem uma TV digital [se for pelo ar, como as TVs das nossas casas; se for pela rede –IPTV-- não precisa de muito mais, pois já foi lançada a versão com HD/DVD+. E o Zune, o iPod da Microsoft, é compatível com o Xbox, o sistema de “pontos” do Marketplace, com o Live.com e com sabe-se lá mais com o que está em estoque na máquina de Redmond. Inclusive com o Vista, o próximo Windows... Isso sem falar de coisas como celulares mais sofisticados *“smartphones”+ rodando Windows Mobile, que eram 3 milhões no fim de 2004, foram 6 milhões em 2005, serão 12 milhões este ano e a Microsoft espera dobrar a conta de novo ano que vem. Como? Conectando as coisas em XBL para sincronizar dados, fazer download de jogos, jogar... gastando os tais “points”... ou grátis, para incentivar Windows também em celulares. Pra montar e manter isso é preciso gente brilhante e dinheiro, e muito dos dois, combinados com um plano muito bom e detalhadamente executado. Depois de dizer publicamente que Google está tornando difícil o recrutamento de talento de primeira linha , para a Microsoft, o CEO Steve Ballmer anunciou que vai aumentar sua aposta em pesquisa e desenvolvimento, dos US$ 6,2 bilhões [R$ 13.3 bilhões] de 20052006 [julho a junho] para US$ 7,5 bilhões [R$ 17 bilhões] em 2006/2007, 15% do faturamento de US$ 50 bilhões no período. Para se ter uma idéia do tamanho de tal esforço de Pesquisa&Desenvolvimento, se os recursos prometidos para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [FNDCT] do governo federal para 2006 forem efetivamente liberados e gastos, a República investirá R$ 1,2 bilhões, perto de US$ 500 milhões -ou quinze vezes menos do que os fabricantes de Windows- em pesquisa e desenvolvimento. Resultado: talvez a Microsoft não esteja nem aí pro que está acontecendo nas comunidades da internet, a menos de sua própria família Live.com, porque é em boa parte de lá que espera construir o que talvez tenha sempre sido o sonho da empresa, uma “internet” dela. Isso deu errado lá no começo da internet porque, na época, não havia nenhuma internet sobre a qual a internet da Microsoft pudesse rolar. Agora, há. E pode dar certo, pois a empresa está construindo “sua” rede a partir de princípios bem fundamentados de rede, serviços, usos, usuários e receitas recorrentes. Dará certo? Não sei. Se Redmond não cometer os mesmos erros da America Online (AOL), talvez. Uma coisa, porém, é certa: a Microsoft não está deitada, em berço esplêndido, esperando que o futuro chegue. Pode até não ser o maior vitorioso da guerra pelo domínio da internet, mas vai lutar todas as batalhas e atacar sempre, em muitos cenários, até o fim. Que não parece nem um pouco próximo.

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Pequena receita para um Brasil digital 7
Nos próximos anos, quem não tiver banda larga não terá internet. Como chegaremos lá se estamos, ainda, com apenas 10% dos brasileiros na rede?... Pode ser mais fácil do que parece, se conseguirmos seguir uma receita bem simples. Primeiro, pegue os governos recém-eleitos e mais os prefeitos e convença-os a articular uma grande coalizão nacional em prol de escolas -- todas -- ligadas em banda larga, em todo território nacional, seja lá onde for, da mais remota localidade à mais sofisticada cidade. Por quê? Porque a maior e melhor parte do futuro ainda está nas escolas, que ainda por cima são pólos naturais de atração das famílias de qualquer comunidade. E porque a internet -- em banda larga, nas escolas -- pode ser de um incalculável valor pedagógico para aulas, experimentos, redes sociais de aprendizado e como mecanismo para pais, mestres e alunos publicarem suas histórias e lições de vida, em vídeo inclusive. Tem mais: os laboratórios de informática das escolas deveriam estar livres para jogos, sempre que não houvesse nada mais “sério” acontecendo por lá. O uso lúdico da rede não pode ser menosprezado, pois além de incentivar o uso de informática por todos, pode ser o celeiro de talentos que revelará programadores e engenheiros de computação (pois tudo na vida é computação, como já dissemos aqui...). É só ajudar os garotos e garotas em lógica e um pouco de linguagens de programação e dar-lhes tempo. O resto eles fazem. Daí, é só deixar os laboratórios das escolas digitais abertos 24 horas por dia, mais sábados domingos e feriados, de tal forma que a comunidade deles se aproprie e ela mesma os proteja, como parte de sua própria infra-estrutura. As escolas, os alunos, seus pais, parentes e amigos deveriam ser o centro natural de uma política de inclusão digital de muito amplo espectro. Segundo, procure e fomente a diversidade. Tanto nas soluções para as escolas como para o resto da infra-estrutura digital da sociedade. Em todo país, em muitos estados e cidades, dezenas, talvez centenas de soluções estão sendo testadas e usadas com variados graus de sucesso. Recursos públicos, doações empresariais, trabalho de organizações não-governamentais, “lan houses” da periferia, de muito baixo custo e preço (normalmente porque informais) estão “dando um jeito” no problema de inclusão digital, na escala que seus meios permitem, sem criar, no entanto, o impacto digital nacional em que a rede serviria de mecanismo amplo de inclusão social, cultural e, certamente, econômica. Parta destas soluções, descubra quais são replicáveis e fomente-as devidamente, de preferência olhando com mais carinho para aquelas que demonstrarem uma maior possibilidade de sustentação autônoma. Não que se queira só estas mas, uma vez identificadas e devidamente fomentadas para evoluírem por si próprias, pode-se concentrar o maior esforço e recursos públicos nas situações onde a sustentabilidade ainda está muito distante. Olhar com carinho para as tentativas já em curso teria, também, a vantagem de premiar seus idealizadores e promotores. Incentivar soluções sustentáveis, descobrindo o que mais elas precisam para se tornar micro-empresas, teria o efeito colateral de criar, no próprio negócio de inclusão digital,
7 Atualizado em 31/10/2006 - 00:00

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inclusões econômicas em várias escalas. Ainda mais, é bem capaz de haver muitos modelos de negócio de franquias sociais, de razoável valor econômico, no meio deste negócio de inclusão digital. Não houvesse negócio no mundo digital, as empresas de telefonia não estariam tão assanhadas fazendo negócios de infra-estrutura hoje em dia. As teles estão comprando -- fazendo uso de seu tamanho, muito maior -- distribuidoras de sinal de TV a cabo. Seu objetivo é ter, no mesmo pacote e conta, TV (digital, no cabo), internet e telefone (fixo e móvel). Só que TV a cabo é coisa pra muito poucos, já que não há combinação de densidade e renda, exceto em poucos centros mais ricos, que pague a conta convergente de TV, internet e telefonia. Por isso, durante muito tempo, vai ser preciso tratar convergência digital, na escala social, como um processo inclusão e não, simplesmente, como um mercado. E esta talvez seja a parte mais complicada da receita e onde o angu pode acabar em caroço. Quase no fim da receita, temos que levar em conta TV digital. Não parece muito, hoje, mas TVD poderá ser, se usada como mecanismo de interação, além de sistema de distribuição de áudio e vídeo de qualidade, um potente aliado a levar serviços públicos e privados à sala dos espectadores, simplificando sua vida, aumentando seu raio de ação de uso de informação e criando novas e poderosas formas de inclusão digital. Para que dê certo, é preciso envolver a indústria de TV na receita, tanto do lado das emissoras quanto do lado dos equipamentos, tão cedo quanto possível, tornando públicas as especificações do sistema brasileiro e discutindo amplamente os potenciais modelos de negócio e seu fomento (sim, pois até na Itália o governo banca parte da conta de TV digital...). Ao fim, mas não menos importante, deve-se levar em conta a criação de oportunidades para a indústria nacional. Muito se fala, há muito tempo, de política industrial por aqui, mas muito pouco se faz que possa criar -- nesta história de inclusão digital -- soluções nacionais de classe mundial. O mercado de informática é quase sempre global em seus padrões, dispositivos e escala. Tivéssemos a coragem de tentar, em nossa receita, coisas que pudessem resolver, de forma inovadora, problemas associados à inclusão digital que ocorrem não só aqui mas em países outros, em todo mundo, alguns até mais ricos do que o nosso, criaríamos também um mercado para a inteligência e indústria brasileira, tanto quanto fizemos em outras áreas de negócio. Juntando tudo: escolas em banda larga, abertas a todos, são soluções sociais praticamente imbatíveis para os problemas de inclusão digital. Diversidade e sustentabilidade são itens essenciais de qualquer programa para botar o povo na rede, e a indústria e serviços, além de governos e ONGs, podem trabalhar em conjunto para apoiar os que não têm meios e transformar em negócios o que for possível. Pode não ser tudo, mas são bases muito razoáveis por onde começar um grande programa de cultura digital popular. Coisa que faz muita falta em quase todo lugar deste Brasil imenso...

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Somos todos parte da infosfera; o controle de vôo também 8
Já se disse nesta coluna que tudo na vida é computação e, hoje, vamos dizer que vivemos dentro de um universo de informação, a infosfera. Luciano Floridi, filósofo da Oxford University, cunhou o termo para representar o universo de todos os documentos, operações sobre os mesmos e agentes que realizam tais operações. Quando o leitor vai a um caixa eletrônico, ele é o agente que realiza um conjunto de operações sobre um documento, uma conta bancária (a sua, se tudo estiver dentro dos conformes). Quando se liga para um número 0800 pedindo ajuda para um serviço, o mesmo acontece: somos agentes, associados a determinados documentos, que devem, ou deveriam, corresponder aos serviços pelos quais pagamos e neles estamos realizando operações, possivelmente correspondidos pelos atendentes (outros agentes...) do outro lado da linha, que mudam o status dos nossos documentos, de forma a atender nossos novos ou mudados desejos, como inserir ou retirar canais de TV paga do nosso serviço (e conta) ou mudar o contrato (um documento) de nosso serviço de celular. Se estamos mesmo vivendo nessa tal de infosfera, a rede de todas as coisas, inclusive nós próprios, os exemplos são tantos e tão perto de cada um que poderíamos passar o resto da vida a desfiá-los, um a um. Seria demais para a paciência do leitor. Fiquemos com um quase lugar comum dos últimos dias, o caos aéreo nacional, que aconteceu porque um número de agentes, os controladores de vôo, resolveu diminuir o número de documentos sobre os quais fazem operações simultaneamente, forçando uma parte das aeronaves a ficar no solo, esperando a disponibilidade de agentes para tratá-las... É importante notar que o controle de tráfego aéreo não controla o tráfego aéreo... mas a informação sobre o mesmo. Os aviões são quase autônomos, eles próprios pequenas esferas de informação -- se comparadas com a infosfera maior -- sobre os quais outros agentes, seus pilotos, realizam operações que, quando dão errado, levam a conseqüências nefastas como a do vôo Gol 1907. Na sexta-feira do desastre, os agentes envolvidos não compartilhavam os mesmos documentos (seu conhecimento da informação era assimétrico) o que os levou a não tomar as decisões e realizar as operações que teriam evitado o maior acidente da aviação brasileira. A infosfera, como identificada por Floridi, é cada vez mais parte da infra-estrutura da humanidade e nós acabamos de descobrir, aqui no Brasil, que a parte dela que está relacionada ao tráfego aéreo tem sérias deficiências, que não começaram há quinze dias, o que certamente não é privilégio do setor, no país. Mas que pode levar a pelo menos uma pergunta interessante: será que não poderíamos desenvolver agentes artificiais para controlar o tráfego aéreo? Ou seja, será que o trabalho dos controladores não poderia ser feito por software?... Esta pergunta está sendo feita em outros contextos, desde a cabine dos aviões até o assento dos motoristas nos automóveis, passando por tudo o que se move e muita coisa que está aparentemente parada, como a distribuição de energia elétrica e o controle de sinais de trânsito, além do diagnóstico e tratamento de doenças de todos os tipos. E há muita coisa que software certamente pode fazer, hoje. Mas há alguns limites que não devem ser esquecidos, sob pena de aumentarmos em demasiado o risco
8 Atualizado em 07/11/2006 - 11:08

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de alguma coisa atingir o ventilador, como dizia a minha vó. Primeiro, os problemas decisão tratados pelos controladores são muito complexos e em tempo real, o que significa que você tem o tempo dos acontecimentos para resolver o problema. Não adianta ter a melhor solução três minutos depois de uma colisão; é melhor ter uma razoável muitos minutos antes. E o mesmo, claro, valeria para o software. Segundo, tirar o controlador do circuito significa colocá-lo de volta, para resolver problemas mais graves, pois um sistema automatizado de controle de tráfego aéreo certamente teria limitações. O que nos levaria a ter um controlador sempre preparado e em prontidão, mas sem tomar decisões, a não ser em situações muito graves, o que é um contra-senso, pois talvez ele não tivesse tempo (o tal tempo real...) para entender a situação quando fosse chamado a resolvê-la. Nos EUA, onde há quinze mil controladores, que chegam a ganhar mais de US$100 mil por ano (contra menos de US$20 mil no Brasil?), muitos bilhões de dólares já foram gastos em tentativas de informatizar o controle de tráfego aéreo, com sucessos, digamos muito parciais. O radar auxiliado por computador é um dos resultados do investimento, mas não vai haver, nos próximos dez anos, um sistema capaz tirar dos controladores o papel de principal agente informacional do sistema de tráfego aéreo, e sim vários tipos de software e hardware que poderão auxiliar muito seu trabalho, num ambiente onde haverá cada vez mais demanda por viagens aéreas. Isso significa, lá na América, que eles terão que contratar mais dez mil controladores de vôo até 2015 e o plano para tal é público e está neste link, em .PDF (envie para alguém que você conhece no governo e peça uma cópia do equivalente brasileiro). Se o leitor tiver curiosidade sobre o que faz mesmo um controlador, há um jogo na internet (veja aqui) que dá uma idéia bem básica de como a coisa funciona. Para quem quiser algo muito mais sofisticado, faça um download deste outro e controle o aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, usando telas e comandos que parecem muito com as realmente usadas no controle de vôo. Se você gostar do assunto, pode até virar controlador aqui no Brasil e ajudar a resolver nossos problemas... ou conseguir um visto de trabalho nos EUA e ganhar dinheiro de verdade com seu recém-adquirido conhecimento. Lá nos EUA, aliás, esta história de “infosfera” está sendo levada a sério mesmo: a US Air Force redefiniu sua missão para incluir como área operacional, além do ar e do espaço, o ciberespaço, que já tem um comando específico e é considerado essencial, pois a guerra, segundo o general da área, “é dados”... Resta saber como foi que esquecemos, aqui, que o tráfego aéreo “era dados”, também, e tratados por seres humanos.

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Comunicação: acesso deveria ser público e aberto?9
O passado recente do Brasil ensina que o Estado é uma desgraça como provedor de qualquer coisa. Será que é, ou precisa ser, sempre assim? Principalmente para infra-estruturas que, por outro lado, parecem ser naturalmente públicas?... Imagine, por um breve momento, que todos os prédios da cidade estão ligados à rede de infraestruturas municipais. Dela fazem parte as ruas, o metrô, as encanações de água, esgoto e gás e os sistemas de eletricidade e comunicações. Como assim? Da cidade não são apenas as ruas, quando muito? Não, cidades já fizeram mais, até no Brasil; foram instituidoras e proprietárias, em muitos casos e por longo tempo, de sistemas de comunicação. Em Arcoverde, PE, na década de 60, era assim, até a estadualização e nacionalização impostas pelo golpe de 64. Vamos, pois, voltar a pensar: o que são as ruas, numa cidade? Seriam redes de acesso, locais, públicas e abertas?... Certamente são locais, de acesso aos mais diversos pontos do local, conectadas, aqui e ali, a troncos rodoviários. São bens públicos, no sentido econômico: todos se beneficiam de sua existência, ao mesmo tempo em que nenhuma entidade individual receberia benefícios suficientes para provê-las de forma universal. E são abertas, porque todo e qualquer tipo de serviço pode ali ser realizado -- por agentes de mercado, inclusive e principalmente --, de forma competitiva, mediante o pagamento de taxas -- públicas e transparentes -- para manutenção e evolução da infra-estrutura. Essa, pelo menos é a teoria das ruas. Estamos fartos de saber que ruas estão cheias de buracos e sem sinalização, inundam, o dinheiro das taxas que pagamos para que existam e funcionem apropriadamente desaparece com freqüência e por aí vai. Mas não é assim em todo lugar e não precisa sê-lo, aqui, para sempre. Na Suécia, onde este artigo foi escrito, os carros em que andei não toparam com um simples buraco e os sinais de trânsito funcionavam todos... e o motorista do táxi, às 5 da manhã, não cortou o sinal vermelho, no meio do nada, a caminho do aeroporto. Na Suécia, como na Islândia, Noruega, Finlândia, Holanda e outros países, “cidades” são empresas públicas e são “donas” de sua infra-estrutura, o que inclui a possibilidade de cuidar do acesso local às comunicações de forma pública e aberta. Estocolmo tem uma subsidiária só para isso, a STOKAB, cujo plano de curto prazo é levar fibra ótica a todos os endereços da capital. O que nos obriga a perguntar: o que levaria um dos mercados urbanos mais ricos do mundo [metrô, R$ 6/hora; hotel uma estrela, R$ 500/dia] a decidir pela construção de uma infra-estrutura pública de acesso banda larga?... O metrô de Estocolmo é parte da infra-estrutura do lugar; R$ 6/hora é subsidiado por impostos urbanos entre os mais caros do mundo, porque o metrô serve a todos. O hotel não tem subsídio e por isso custa tão caro... e metade é talvez imposto, parte do qual acaba no metrô... Da mesma forma que nem todo mundo, em Estocolmo, pode ter um carro e mantê-lo na rua (e por isso o metrô), nem todos podem

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arcar com o custo de instalação de fibra ótica até seu domicílio ou empresa. Se a cidade não entrar no jogo, somente as maiores empresas e os bairros mais ricos terão banda larga de alta performance (e a semelhança com cidades brasileiras, então, não seria coincidência). Resultado? Um número crescente de cidades (e não de países, nem mesmo estados) na Europa, América e Ásia está instalando banda larga (mesmo, de 100 megabit/s pra cima!) como parte da infra-estrutura do lugar e como incentivo à instalação de negócios, que podem ser tornados muito mais competitivos pela via de mais e melhor comunicação. Brigham City, nos EUA, parte de uma rede de treze municipalidades instalando banda larga, começou a fazê-lo depois de perder uma companhia responsável por US$ 23 milhões em salários na cidade de 17 mil habitantes, por falta de infra-estrutura decente de telecom... porque a incumbente de telecomunicações não via, no lugar, grandes “oportunidades comerciais”. Aí é onde está o perigo e a real oportunidade para as cidades: as teles não vêem mais “oportunidades” no acesso local, transformado em z0mm0dity (zero-priced commodity, ou commodity de preço zero) pela internet e só irão investir – localmente -- se houver altos retornos, de preferência com baixos investimentos. Como, então, chegaremos em Saljarnarnes (Islândia), onde qualquer um, pai, aluno... cidadão, pode consultar o professor de matemática de plantão sobre juros compostos, usando áudio, vídeo e rascunho eletrônico, aplicação disponível na intranet da cidade, o professor de plantão na casa dele (talvez), a pessoa em seu negócio ou casa? Parece ficção científica; não é... Saljarnarnes é a primeira cidade do mundo totalmente ligada em fibra ótica, pela prefeitura. Parece que o povo gostou. O prefeito acaba de ganhar um segundo mandato. O melhor é que, no caso da cidade islandesa, a municipalidade não gastou um centavo, pois a empresa de energia elétrica montou a nova infra-estrutura. Isso pode ser replicado? Sim, mas não em todo lugar. Em zonas rurais da Holanda, a equação tem outra solução: a cidade fornece a fibra, cooperativas agrícolas se unem, tratores rasgam o chão e deitam cabos, usuários marcam o terreno para evitar acidentes futuros. O futuro, aliás, é o que a fibra traz: para as crianças, centenas de megabit por segundo, em casa, significam desde conexão de alta qualidade com os amigos distantes (dois quilômetros, a dez graus abaixo de zero, é muuuito longe), com o professor de plantão, é vídeo sob demanda e jogos, em alta resolução... o que pode fazer muita gente pensar duas vezes antes de sair do campo pra cidade. No Brasil, serão outras equações para diferentes regiões e cidades. Alta tecnologia transforma o impossível em commodity. Inovação é mudança de comportamento das pessoas como produtoras e consumidoras. Inovação acontece no mercado, causada por agentes econômicos ou mudança de regras de negócios. Alguma hora, vamos ter que reescrever as nossas regras de telecom. Aí, seria bom estabelecer condições legais, claras, para que cidades e comunidades fizessem o que as teles nunca irão fazer: usar alta tecnologia e inovação para criar ambientes onde cada ser humano possa se tornar mais capaz e o lugar, como um todo, mais, muito mais competitivo. Se nem nos lugares mais ricos do mundo as teles estão criando infra-estruturas de comunicação, de alta qualidade e velocidade e de alcance universal, não será aqui que irão fazê-lo. Muito menos se quisermos acessos locais rápidos, públicos e abertos. As cidades e comunidades precisam assumir este papel. Isso seria inovação combinada com alta tecnologia e, acreditem, seria muito bom também para as teles, que poderiam se concentrar no que lhes dê mais retorno sobre investimento, afinal o único discurso que o capital, verdadeiramente, entende. Se não der certo pelas vias legais, podemos partir pra desobediência civil, o que cidades e comunidades,
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em países mais hostis, com teles poderosas, estão fazendo. Dá uma boa briga, com resultados aparentemente muito bons, sempre; na pior das hipóteses, cria-se a consciência da importância do acesso público, aberto e universal, a infra-estruturas essenciais ao desenvolvimento sócio-econômico. Na melhor, a consciência se torna realidade e a lei muda. E todo mundo ganha...

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Vírus (virtual) ataca mundo (virtual)... 10
Vírus é uma (quase) forma de vida que pode atrapalhar muito o mundo físico em que vivemos. Mas complica muito mais quando surge em mundos virtuais, como uma forma de vida... Qualquer programa de computador pode ser tratado, em última análise, como um mundo virtual. Um caixa automático, destes que a se encontra em qualquer esquina, é um banco virtual, no sentido em que fazemos lá uma boa parte das coisas que, antes, tínhamos que ir ao banco de verdade, de pedra e cal, para fazer. Numa escala maior, a internet é um conjunto de sistemas de hardware e software que implementa uma grande biblioteca -- virtual e programável -- de produtos e serviços. Passa o tempo e um número cada vez maior e mais interessante destes mundos vai sendo criado e colocado à nossa disposição, à medida em que uma parte cada vez maior da sociedade vira serviço e tais serviços são informatizados. Em tal contexto, tinha que haver algum mundo realmente virtual como Second Life, um universo completamente imaginado, inicialmente sem nenhuma relação como o mundo físico, de verdade, que nos cerca. Para entrar no lugar, instale um software cliente em sua máquina, crie um caracter (um “avatar”) e um nome para ele, associado a uma das famílias que habita o lugar e... pronto. Depois de aprender a navegar na interface, que lhe tornará parte real do mundo virtual e lhe possibilitará interagir com representações de coisas e humanos ao seu redor, você se tornará um cidadão de um outro universo, em condições de agir como na sua vida real aqui fora (mais ou menos) e, melhor, fazer coisas que você -nem ninguém- pensariam por aqui. Second Life é uma criação inspirada no livro "Snow Crash", de Neal Stephenson, onde ficção e realidade interagem sobre uma infra-estrutura de software (o “metaverso”) na qual parecem acontecer, no texto, coisas mais interessantes do que no mundo aqui fora. Snow Crash é, ao mesmo tempo, o nome de um vírus que, no livro, sai do metaverso e afeta as pessoas, como uma gripe do frango virtual. Second Life é um sucesso: tem mais de um e meio milhão de habitantes, 40% dos quais ativos e, a qualquer momento, é fácil encontrar 15, 20 mil pessoas usando o sistema simultaneamente. Nem que seja só por curiosidade, vale a pena ver. O que dá pra fazer lá? Muito: construir edifícios, desenhar objetos (roupas, por exemplo), vendê-los, lançar clips, ir à balada, fazer reuniões (como a IBM), montar agências de notícias (a Reuters tem uma), ter um blog e, como talvez fosse inevitável, é lá que a Endemol vai lançar um BigBrother virtual (e você pode participar); há histórias de adultério, contratação de detetives e por aí vai.... e, claro, é possível escrever software. Pra tudo. Quando você cria alguma coisa (sua propriedade intelectual virtual), ela é uma representação, em software, de algum conceito. Uma das “coisas” que uma turma criou, recentemente, foi um copiador-genérico-de-qualquer-coisa, usando o qual é possível capturar, para si, qualquer coisa que um outro tenha criado, sem ter que remunerá-lo. Confusão mundial (lá) sobre propriedade intelectual, possibilitando uma discussão muito interessante sobre copyright, sua validade, uso, remuneração, etc. Esta semana, outro software pipocou em Second Life: um griefer (estraga prazeres em ambientes virtuais) liberou no ambiente um worm
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Atualizado em 21/11/2006 - 10:00

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(software malicioso de replicação e propagação próprias) chamado grey goo. A coisa instalava anéis dourados girando no ambiente, cuja interação com os (avatares dos) usuários criava ainda mais anéis e assim por diante, levando à exaustão dos (2700+) servidores que mantêm o universo funcionando. A Linden Labs (dona do pedaço) teve que fechar (literalmente), por algum tempo, o mundo virtual, para desabilitar grey goo e suas artes. Antes que o mundo parasse por completo, foi preciso dar um reboot por lá... Pensando bem, esta era uma capacidade de Second Life que poderíamos ter no nosso universo físico, real: dar um reboot no que não funciona por aqui, como o controle de tráfego aéreo. Mas algo podia desandar seriamente, se tal "funcionalidade" estivesse por perto. Como? O worm que andou solto em Second Life era uma "coisa" que foi terminada pelos administradores do sistema; dependendo do grau de sofisticação da tal "coisa" (ou agente, possivelmente inteligente), ele poderia ser parte importante de um ambiente que não fosse antroprocêntrico, ou seja, centrado em seres humanos. Num mundo de avatares, não vai dar para diferenciar -- para quase todas razões práticas -- um agente artificial de um natural. O primeiro poderia ser um avatar controlado por software e o segundo, um outro, controlado por um humano. O primeiro seria uma “coisa” e o segundo... um “de nós”. Só que, numa sociedade de informação e numa internet cada vez mais de “coisas”, elas poderiam ter direitos. E se um dos direitos de agentes informacionais fosse o de não terminação sem "justa causa", a simples discussão do conceito de justa causa poderia levar a surpresas e conflitos muito interessantes. E levará: um número cada vez maior de sistemas autônomos já controla e interfere no ambiente ao nosso redor e, em futuro nem tão distante assim, seu impacto sobre nossas vidas será enorme. À medida em que isso aconteça, estes sistemas ofenderão interesses, ao mesmo tempo em que atenderão outros e a pressão para que seu funcionamento seja pautado em uma ou outra direção, ou mesmo para que sejam "desligados", será muito grande. O agente (certamente) humano que desenvolveu e inseriu (o agente) grey goo em Second Life provavelmente estava se divertindo muito com sua criação... e dá pra pensar que era contra o fim da brincadeira. Lidar com agentes informacionais e suas características, dentro de um contexto onde eles não possam ser terminados pelos administradores do sistema sem razão aceitável pela comunidade ao seu redor, vai ser uma das mais complexas atividades da sociedade da informação... quando a maioria dos agentes produzindo e processando informação for artificial. Breve, acontecerá num mundo real bem perto de você. No virtual, já acontece agora.

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Confusão Digital11
Embaladas pela noção de que, alguma hora, todos os meios e mídias serão um só, empresas de comunicações e telefonia estão aprontando uma verdadeira confusão... digital. Até que a convergência os separe. O noticiário mundial anda cheio de notas, reportagens, entrevistas e promessas de convergência digital, com cada empresa prometendo mais do que outra. Teles prometem YouTube em seus celulares, TVs a cabo entregam telefonia como parte do pacote, provedores de acesso querem fornecer TV via protocolo IP e, claro, quando houver, TV digital há de ser, segundo quase todos, interativa. A ponto de o espectador poder receber uma chamada telefônica, pela TV, bem no meio daquele capítulo intenso da novela. Convergência digital, visto pelo lado da maioria das empresas de mídia ou do que costumava ser chamado de telefonia, parece ser um fazer tudo (todas as formas de mídia e comunicação) sobre sua plataforma física, qualquer que seja, para todos os públicos, desde que eu -- a empresa -- tenha controle sobre o que eles -- os usuários -- fazem. Mas isso não vai dar certo, em último caso, porque não irá satisfazer justamente o tal do usuário, responsável pela renda e negócio da empresa. Por que não? Primeiro, talvez devêssemos concordar com uma definição de convergência, à qual podemos chegar através de exemplos. O que é um telefone? No passado, era um equipamento com um dial, microfone e fone de ouvido, conectado por fios a uma central telefônica. Bem no passado, era analógico e vez por outra funcionava. Hoje, é uma aplicação, responsável pela transferência bidirecional de áudio entre dois pontos, à qual podem ser agregadas funcionalidades de tantos tipos que, em muitos casos, escondem o tal telefone. Esta aplicação, tanto como emeio, transferência de arquivos, interação com páginas web, rádio e TV, é possibilitada porque um conjunto de serviços -- protocolos específicos para suportar cada tipo de aplicação -- construído sobre uma infra-estrutura (processadores, roteadores, cabos, redes dem sio, satélites) que, em última análise, realmente movimenta os bits que tornam possível nossas conversas. Então, por trás da convergência, está uma rede estruturada em camadas: infra-estrutura, lá embaixo, serviços essenciais sobre ela e, no topo, as aplicações que usamos e pelas quais queremos eventualmente -- pagar. Convergência digital é transformar em infra-estrutura, serviços e aplicações, usando padrões abertos e inter-operáveis, o que antes eram sistemas particulares, fechados, cada um de um operador diferente. E onde entra a confusão digital? Na hora em que uma operadora de celular (Verizon, nos EUA) avisa que vai prover YouTube a seus usuários, ao invés de convergência, é confusão. Por quê? Se fosse convergência, como o celular é um dispositivo que deveria estar funcionando sobre uma rede aberta, a operadora nunca precisaria dizer que vai -- ou não -- oferecer uma aplicação na telinha do meu celular. O problema seria somente meu: YouTube é um site, tem um endereço, eu vou lá e vejo o que quero. Como nós fazemos com nossos browsers. A menos que o leitor esteja na China, Irã, Cuba e outros países que censuram a internet, a escolha do que ver é livre. A internet é, por definição, convergente. A rede das teles, ainda pensada como telefonia, não é.
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As operadoras, de fato, controlam o padrão de experiência que seus usuários têm na rede, deixandolhes, na prática, pouca escolha. Para que tivéssemos convergência digital real, lá, era preciso primeiro “abrir” as operadoras para a rede. Em outras palavras, seria preciso que elas se vissem como as provedoras de infra-estrutura que realmente são. Compare, por exemplo, com as empresas de eletricidade: nenhuma delas tem a coragem, hoje, de dizer o que nós podemos ligar ou não nas tomadas. Fazemos o que queremos. Num passado distante, até que tentaram. Mas não deu, como não vai dar, no longo prazo, para as empresas de telecom. O mesmo acontece com as redes de TV a cabo: apesar de ter alguma escolha dos canais que posso assistir, não tenho (pelo menos aqui em Recife) nenhum canal de Angola ou Senegal. Por quê? O distribuidor controla os sinais (digitais) entram em sua rede... de tal forma que só posso escolher entre os canais que já pré-escolhidos. Haveria uma grande audiência para uma TV do Senegal no Brasil? Provavelmente não. Mas se o mundo fosse mesmo convergente -- e não confuso como os operadores o tornam --, um pequeno número de espectadores, poucos milhares, tornariam lucrativo ver o Senegal, via IP, no Brasil. Olhando para as atuais infra-estruturas e serviços (teles e outros) de entrega de aplicações (de telefone a TV e internet) em nossas casas e empresas, não só cada ator que fazer tudo, mas quer, também, controlar tudo e, especialmente o que, como e quando o usuário vê, ouve ou tem acesso. O mesmo pode acabar acontecendo com TV digital, dependendo do caminho que escolhermos: os “operadores” de TV digital, os canais, podem querem ter o mesmo grau de controle que, hoje, as teles e os operadores de cabo têm, ou gostariam de ter, sobre seus espectadores. É bom lembrar, e saber, que os espectadores, clientes e usuários estão fugindo das infra-estruturas e serviços fechados para sistemas abertos, onde podem definir, escolher e usar o que querem e bem entendem. As experiências que os usuários querem ter os incluem não só como atores, mas, muitas vezes, como diretores e até como construtores de seus serviços. Foi assim que surgiram Skype, YouTube, blogs e as muitas redes sociais que, hoje, ameaçam a mídia clássica e as velhas redes de telecomunicações. Pode ser que a confusão digital continue ainda por muito tempo. Mas ela não há de durar para sempre. Mais hora, menos hora, teremos um mundo convergente sobre a mesma plataforma de computação, comunicação e controle, estruturada em termos de infra-estrutura, serviços e aplicações que podem ser usadas como, quando e por quem queira, sem interferência de “programadores centrais”. Se as teles algum dia pensaram que poderiam ser redes de TVs e vice-versa, cada um e todos controlando os usuários de suas “convergências”, parece que não vai dar. Se alguém vai programar o futuro do usuário-espectador, é ele mesmo. E cada operador vai achar, breve, seu novo lugar na convergência de negócios que será criada pela convergência tecnológica. Afinal, confusão não é um bom negócio para ninguém.

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O Caos Aéreo Nacional: único exemplo? 12
A economia se transforma em serviços, a sociedade vira software. O insumo fundamental para seu funcionamento é informação: correta e disponível quando se precisa dela. Só que o Brasil ainda precisa acordar para a era da informação. Bem no começo de outubro, escrevemos aqui sobre o acidente com o Gol 1907, que hoje se sabe ter sido apenas a pequena ponta do gigantesco iceberg da crise de tráfego aéreo que abala o país. Quem pesquisar os últimos meses do noticiário no G1 e qualquer outro lugar descobrirá facilmente a extensão do problema, aí incluídos os acidentes que quase aconteceram. Só para relembrar o artigo anterior, aviões voam imersos em um ambiente de informação em tempo real: o papel de todos os sistemas de informação e controle ao seu redor é garantir o percurso entre dois pontos, numa rota qualquer, em segurança. O caos aéreo é uma dantesca -- e bem brasileira -- mistura de falta de planejamento, investimento e educação. Não projetamos o crescimento da demanda por informação e seu controle em conseqüência do aumento do tráfego aéreo, em conseqüência do que não fizemos os investimentos necessários para tratá-lo. Ainda mais, não passamos os últimos anos educando gente para o difícil e tenso trabalho de controlar aviões. Não se pode laçar alguém na esquina e torná-lo um controlador de vôo em algumas horas, dias ou semanas. Como diria um dos meus professores, “a diferença entre a civilização e a barbárie é a manutenção”. Por absoluta falta de manutenção, previdência e providências, a impressão de barbárie que o Brasil passa ao mundo, em suas piores horas, só é ultrapassada pelo nosso despreparo no tratamento de emergências. Há dois meses, um serviço essencial ao funcionamento do país, o transporte aéreo, está mergulhado em profundo caos e a maioria das autoridades responsáveis parece só ter acordado para a gravidade e urgência da situação depois que os principais aeroportos do país simplesmente fecharam. Sabendo que informação é tão crítica para viagens de avião e, mesmo assim, estava sendo tratada há anos com o desleixo que, hoje, sabemos, talvez seja hora de perguntar: que outras facetas da economia e sociedade nacionais estão padecendo de um apagão informacional? Até que ponto o caos instalado -há décadas -- na previdência social não é, em boa parte, um apagão de informação, impossibilitando análises e tomadas de decisão que pudessem minorar o problema? Em que medida o roubo, puro, simples e à luz do dia, dos recursos públicos (inclusive da previdência...), não depende da inexistência de informação e da falta de transparência com ela é manipulada? É bem verdade que, nas últimas décadas, houve progressos consideráveis no tratamento de informação no Brasil. Algumas de nossas instituições públicas são verdadeiros centros de excelência em gestão de informação, especialmente -- como convém aos bárbaros -- no lado da arrecadação. O problema é que informação tem um ciclo de vida: ela é gerada em algum lugar, capturada de alguma forma, processada de várias maneiras, transmitida e apresentada em muitos lugares, preservada -- ou não -- e mantida sob sigilo (ou publicada) e, depois de passar por vários ciclos, algum dia é terminada... se não for necessária à história, de alguma forma.

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Atualizado em 09/12/2006 - 10:38

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Este ciclo de vida da informação funciona como uma corrente: o elo mais fraco é quem determina quão forte é o todo. Basta um único ponto de falha para termos problemas, potencialmente graves, no sistema inteiro. Hoje, uma sociedade aparentemente democrática é aquela em que os cidadãos têm direito a voto e onde as conseqüências de seu desejo são representadas, transparentemente, nas articulações que fazem o país funcionar. Daqui a algum tempo, serão democráticas as sociedades em que a assimetria de informação entre o poder e os cidadãos for mínima. Já há indícios desta tendência hoje: quanto mais bem resolvido é um país, mais direito à informação têm seus cidadãos. Mas o que ainda ocorre por trás dos panos é muito mais do que vemos aqui da platéia. Não que queiramos, como passageiros, controlar o tráfego aéreo. Há razões, inclusive de segurança, para que não tenhamos acesso aos dados do controle de vôo em tempo real. Mas não deveria haver nada que nos impedisse olhar o tráfego aéreo do passado... por exemplo, de ter acesso aos dados de um vôo depois que ele terminou. E ter acesso a um simulador que mostrasse como nosso avião saiu de Recife para São Paulo e quase bateu em outros aviões duas ou três vezes. Ou como foi tranqüila a viagem. Tampouco se quer controlar, no miúdo, os gastos públicos; afinal, há servidores nossos lá, responsáveis pelo bom gasto da montanha de dinheiro que o estado recolhe, queiramos ou não. Mas aqui deveria ser possível, aos cidadãos, olhar bem mais de perto e em um bom nível de detalhe o que ocorre com as finanças de estados, municípios, da federação e muitas de suas empresas. Não só não atrapalharíamos a realização das obras e serviços públicos, mas poderíamos ajudar muito. Um número de cidadãos -- nossos representantes -- já tem acesso a parte dos dados sobre os gastos públicos. Mas é pouco. Cada um poderia ser um “controlador”, não de tráfego aéreo, mas dos gastos públicos. O acesso à informação sobre os orçamentos públicos e sua execução -- e não a dados consolidados, como o déficit tal e o superavit qual -- seria uma maneira moderna de diminuir a assimetria de informação entre o poder e o cidadão, entre o político e o eleitor, capaz de renovar a face da democracia no país e no mundo. Utópico? Pode ser. Mas não custa nada propor. E tentar. A política e a gestão pública não serão sempre estróinas e corruptas; se forem, o país não se sustenta e elas perecem com ele. Transparência é, em quase tudo, transparência de informação. Transparência depende de gestão competente do ciclo de vida da informação relevante para a administração pública e, sendo este o caso, é fácil começar a introduzir o cidadão no ciclo de vida da informação pública... porque se a gestão dos processos públicos for honesta e competente, não há porque temer o cidadão. Já se vê pequenos sinais da sociedade da informação amanhecendo. A pressão popular e a competência pública serão essenciais para que informação seja parte intrínseca de nossa sociedade. Quando for, será quase impossível um apagão aéreo, pois muita gente vai notar, bem antes que ocorra, e haverá providências. E vai ser muito mais difícil roubar a previdência e fraudar licitações. Demora, mas vamos chegar lá. É só acordar...

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Varejo virtual cresce e (tenta) aparece(r)13
Fusão das Americanas on-line com o Submarino cria um pequeno gigante virtual, cuja pretensão é fazer bonito no mercado de varejo em geral. Além de sua própria energia, vai precisar do que mais? O mercado de varejo no Brasil supera R$ 200 bilhões este ano e seu líder, as Casas Bahia, vai faturar uns R$ 12 bilhões, R$ 450 milhões gastos em marketing. Pra se ter uma idéia do alcance de tal investimento, anúncios das Casas Bahia são vistos na TV em todo Pernambuco, onde não há uma só loja da rede. Outro grande nome, o Ponto Frio, fatura R$ 4 bilhões em 2006, dos quais R$ 90 milhões destinados a marketing. No mundo dos tijolos, estão no mesmo mercado grandes cadeias de supermercados e incontáveis pequenos varejistas, cujo diferencial é conhecer o cliente (no) local, que compra quase na “caderneta”, como nas bodegas da década de 60. Redes como a Insinuante, nascida na Bahia, se orgulham de sua base de três milhões de clientes, “numa região em que nem todo mundo possui comprovante de renda ou de endereço". Sem comprovante de renda e sem endereço é, quase certamente, sem internet, como a vasta maioria dos brasileiros. Segundo o cgi.br, perto de 70% da população nunca usou a rede; uns 30% usaram nos três meses anteriores à época da pesquisa (PNAD 2005) e apenas 10% usava a rede diariamente. Entre os usuários, 80% nunca fizeram uma compra on-line, basicamente por falta de confiança no meio. Tragédia brasileira, pois confiança se dá através de experiência. Como pouca gente tenta, como construir as ligações de confiança que levariam a uma internet de comércio, além dos serviços que tão bem presta, pela rede, uma boa parte do setor público? Mas a pesquisa do IBGE não é só sobre pessoas. Entre as empresas, 70% está na rede, 60% tem conexão banda larga e 30% faziam vendas pela internet; 75% das que vendiam on-line afirmaram ter custos menores do que em suas operações concretas. Ou seja, as empresas estão se conectando, estão vendendo -- pouco -- e esperam vender -- muito mais -- pela rede. Os indivíduos é que estão por fora: a vasta maioria não tem rede e a compra eletrônica, entre os que têm, é muito abaixo do que talvez pudesse ser. Olhando para este pequeno mundo dos que compram on-line, há uma grande novidade. As duas maiores lojas virtuais do país, americanas.com (R$ 1 bilhão de vendas, até setembro) e submarino.com (R$ 600 milhões) fundiram suas operações, criando a B2W, um pequeno grande líder na web, responsável por 20% do faturamento do setor. Ou mais. Dependendo de em quem se crê -- e o Brasil é muito ruim de dados --, a B2W é muito maior; há quem diga que o varejo eletrônico é só 2% do total, uns R$ 4 bilhões, e aí a B2W seria 40% do comércio na web. Mas o que nos interessa, aqui, é que a fusão não é para evitar o ataque de uma terceira ou quarta loja abstrata, mas para atacar os líderes do mundo concreto. Segundo Fernando (Teco) Sodré, diretor de negócios da Mixer, “a fusão não gera uma concorrência ainda a altura de faturamento dos grandes varejistas no Brasil. Mas tá coçando e não vai mais parar de
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coçar. O que era só um nome virou também uma força de compra com os fornecedores. Arma simples. Negociação: diferencial do varejo.” O que nos leva de volta às Casas Bahia: o líder do varejo, quase dez vezes maior que a B2W, nem loja virtual tem e, desde sempre, usou uma política de prestações através de carnês que só podiam ser liquidados na loja, para atrair o cliente de volta ao lugar onde, esperando na fila, podia comprar mais. Ainda hoje, isso representa mais de 70% de suas operações. O mercado da B2W/americanas/submarino é o público da classe A/B, a galera que tem internet, e quase só, entre estes, quem tem banda larga. As Casas Bahia e companhia apontam noutra direção, pro povo que nem sabe o que é a rede, não porque não queira, mas porque não pode. Cada macaco -- ou vendedor -- no seu galho. Só que a fusão americanas/submarino aponta pro futuro: no passado, não havia comércio eletrônico, só comércio. No futuro, não haverá comércio, só comércio eletrônico (que será chamado de... comércio, pura e simplesmente). A B2W olha pra um futuro onde, para competir, as redes serão nacionais e o volume de vendas onde a sobrevivência só está garantida se seu tamanho parecer com, pelo menos, o Ponto Frio de hoje. Senão seu poder de barganha não será nem suficiente para evitar que a Brastemp (e outros fabricantes de eletrodomésticos) entrem no seu mercado local, o que não ocorre, hoje, para não bagunçar a cadeia de valor. O que não é garantido para sempre. A Brastemp está quietinha, testando seus produtos on-line, sem nenhum marketing, porque os canais de distribuição concretos, de redes como a Casas Bahia, ainda são responsáveis por quase a totalidade das suas vendas. E isso também não está garantido para sempre. Ou está? No começo da internet, mais de um especialista em comércio garantiu que a rede era o fim dos atravessadores: empoderado pela internet, cada produtor apareceria direto ao consumidor final, maximizando o retorno de seu investimento na produção de seja-lá-o-que-fosse. Mas quem quer, ou consegue, escolher entre mil produtores de alface? Os custos de transação de tanta liberdade trouxeram de volta, e em estilo, lojas virtuais como americanas.com e submarino.com, responsáveis por articular, na rede, a oferta e demanda por todos os tipos de serviços e bens, especialmente os vendidos pelas livrarias, lojas de mídia, eletrodomésticos, enfim, commodities que eu e você, leitor, sabemos como são e, uma vez tomada a decisão de compra, iremos atrás do preço mais baixo. O negócio da B2W, a partir da rede mas, claramente, para fora dela, é ter o preço mais baixo para qualquer coisa que seja vendida pela concorrência concreta em qualquer lugar do país. E não só: como uma boa parte do que ela vende faz mais sentido, ou só faz sentido, na web, em lugares onde livrarias e outros tipos de lojas não existem... e nestes lugares, também, não há internet... redes virtuais como a B2W dependem, no Brasil, do aumento significativo da penetração da rede para se tornarem negócios do tamanho -ou maiores- do que as Casas Bahia. Hoje, por mais auspiciosos que sejam os sinais, não há a menor chance disso acontecer. No médio prazo, é aquela história de políticas públicas. Coitado do país onde elas são frágeis como as que vemos no Brasil. Se botarmos muito mais gente na rede, haverá muito mais clientes na B2W e outros varejistas virtuais. Será que isso quer dizer que eles vão acabar com as Casas Bahia? Talvez não; a galera de lá não nasceu ontem e deve estar esperando sinais de que a rede pode se tornar bem mais de 2% do varejo nacional. Ou seja, como tudo o que se vende on-line equivale a 1/3 do que as Casas Bahia vende em suas lojas... bem que as Casas Bahia podem esperam que a rede, a bem dizer,
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fique pelo menos do seu tamanho antes de entrar no jogo. Mas a partida é complexa e tem morte súbita na regra; quem entrar depois da janela pode não ter a menor chance, independente do seu tamanho no mundo aqui fora. Daqui a dez anos saberemos o que aconteceu. Até lá e boa sorte a todos...

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Lá vem chegando o... futuro14
Os fins dos anos deveriam ser como qualquer fim de mês. Mas nossos rituais de passagem que fazem com que não sejam... e um destes rituais é imaginar como serão os próximos meses, ou o ano novo. É muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. A frase de Niels Bohr (prêmio Nobel de Física de 1922) revela parte da complexidade de lidar com o futuro. Mas, como nós todos viveremos (ainda) uma boa parte de nossas vidas por lá, vale a pena arriscar alguns palpites sobre o que pode -- e não sobre o que vai -- acontecer nos distantes idos de 2007. Lembrando, claro, que nunca ninguém volta às previsões do fim do ano anterior quando se faz um balanço do que verdadeiramente aconteceu no ano que passou. Aliás, o que aconteceu no ano que passou? A Vivo “mudou” para GSM, por exemplo, o que não era nenhuma novidade. Todas as operadoras do Brasil e quase todas, no mundo, que ainda estão na segunda geração de celulares usam GSM (a Vivo usava, e ainda usa, em boa parte, CDMA). Muitos comentaristas previam, e há muito tempo, que a Vivo, na prática, não tinha escolha, principalmente depois que alguns dos principais fabricantes de celulares do mundo anunciaram que não ofereceriam mais aparelhos CDMA. Este era o tipo da previsão fácil de fazer há vários, pelo menos quatro, anos: “este ano a Vivo vai desistir da plataforma CDMA” . Mas só aconteceu em 2006 e, em verdade, levará anos para acontecer, pois há muitos, muitos milhões de usuários de CDMA, como ainda os há de TDMA, noutras operadoras, tecnologia da primeira geração digital, que pode levar de três a cinco anos para desaparecer completamente... Outras coisas importantes aconteceram em 2006, claro, e pouca gente previu: a fusão Americanas.com/Submarino.com foi uma delas, indicando que investidores no negócio de varejo virtual querem competir com o varejo de pedra e cal. E muitas outras coisas não aconteceram, e algumas delas até foram previstas, como o Brasil não ter progredido muito nos índices mundiais de inclusão digital. Aliás, desde 2004, quando o índice da revista “The Economist” começou a ser computado, nós saímos do 36º, perdendo dois lugares no segundo ano e mais três no terceiro, para acabarmos em 41º em 2006. Isso importa? Se sim, que previsões podemos fazer para 2007? Será que vamos cair mais alguns lugares? A primeira resposta é sim, isto importa muito, pois mede quão preparado o país está para o mundo e economia digitais. A segunda é talvez, segundo a boa norma estabelecida por Bohr. A ameaça mais próxima é a Argentina (claro!) em 42º lugar; o Chile (31º) e o México (39º) já nos passaram e parece que não temos chances de alcançá-los. E o problema não é que o Brasil não avança, é que os outros estão indo mais depressa, como de resto é qualquer competição. Nós avançamos muito em computadores pessoais neste ano; pelo menos em computadores pessoais que a Receita Federal vê, destes que pagam impostos ou são isentos deles. A diminuição da fúria arrecadatória sobre o principal instrumento de digitalização real da sociedade, que ainda é o PC (daqui a
14 Atualizado em 23/12/2006 - 09:51

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quanto tempo vai ser o celular? Faça sua previsão...) aumentou consideravelmente o número de computadores vendidos legalmente no Brasil, o que não significa que o número de computadores vendidos, no total, tenha aumentado significativamente. Se bem que, segundo analistas de mercado, serão vendidos sete milhões de PCs em 2006 (contra 5,4 milhões em 2005), 50% dos quais nas “feiras do Paraguai” do Brasil (que desovaram cerca de 70% das máquinas em 2005). Difícil é saber quão precisa é a medida da sonegação e do contrabando... Deixando tais preciosidades prá lá, por enquanto, isso pode mesmo ter sido uma evolução, este ano. Pode nos deixar fazer a previsão de que mais brasileiros, pessoas físicas e empresas, terão acesso à internet e seu conteúdo e serviços, como consumidores e provedores. Quantos? Segundo a PNAD 2005, somente 10% dos brasileiros tinham acesso diário à internet. Assuma que metade dos sete milhões dos PCs vendidos este ano são “novos” (não substituem um já existente, com acesso à rede) e que cada um é usado por pelo menos duas pessoas. Arredonde, dobre o número para 2007 e... conclua que... no fim de 2007... 15% dos brasileiros estarão na internet? 5% de nós, a mais, na rede, todo dia, seriam uns dez milhões de pessoas, coisa que dá muito bem pra fazer com cinco milhões de PCs a mais. O problema é que a conta da internet discada pode ser muito maior que a prestação do PC e a banda larga, conta fixa, disponível só aqui e ali, não vai nem tão cedo ter preço e cobertura pra botar este povo todo na rede. Ou todas as micro e pequenas empresas que precisam de internet para seus negócios... isso porque as médias e grandes já estão na rede. Resultado: o chute, feito nas mesmas bases da PNAD 2005, para o número de brasileiros na rede em 2007 fica limitado aos 15% do nosso faz-de-conta acima, 1% a mais ou a menos. Fim do ano que vem, se vocês lembrarem, podem me cobrar o erro na previsão, e tomara que eu esteja errando pra muito menos. Com tanta, ou tão pouca, gente na rede (pelo menos aqui no Brasil), o que é que eles vão fazer? Ah... este é o resto da previsão, que é o que todo mundo que eu conheço, no mundo inteiro, está tentando fazer. Pra onde vai a mobilidade e o mercado celular? A web vai se tornar móvel, como já o é para os jovens, no Japão? O que vai acontecer com software e, especialmente, com Windows Vista? Será que software (inclusive Vista) vai sofrer algum impacto de aplicações rodando dentro de browsers, em particular coisas que parecem com Office? Será que software vai começar a se tornar commodity... e em que escala software como serviço vai vingar? E o conteúdo? Mais do que em 2006, 2007 será o ano dos blogs? Não são poucas as perguntas e as respostas, para cada uma, são muitas. Tantas que ninguém pode tratar mais que umas poucas e, destas, talvez acertar uma pequena parte, especialmente nas previsões para o ano que vem. Porque um ano é muito e, ao mesmo tempo, muito pouco tempo para qualquer coisa. Tendências aparecem num ano e podem ser destruídas no outro. É disso que vamos falar na última coluna do ano, semana que vem: o que começou a pintar em 2006 (ou antes) que pode virar padrão em 2007 e o que está, talvez, pra começar a desaparecer nas próximas doze luas. Feliz Natal e até lá.

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Mais previsões para a vida digital em 200715
Na última coluna do ano, continamos especulando sobre o mundo e o Brasil digital no ano que vem. Tomara, aliás, que seja um ótimo ano (digital) para todos nós, usuários e excluídos deste grande país. Nossas previsões para 2007, coisa inevitável de fazer e errar, quase sempre, começaram na semana passada, numa coluna que terminava assim: Pra onde vai a mobilidade e o mercado celular? A web vai se tornar móvel, como já o é para os jovens, no Japão? O que vai acontecer com software e, especialmente, com Windows Vista? Será que software (inclusive Vista) vai sofrer algum impacto de aplicações rodando dentro de browsers, em particular coisas que parecem com Office? Será que software vai começar a se tornar commodity... e em que escala software como serviço vai vingar? E o conteúdo? Mais do que em 2006, 2007 será o ano dos blogs? Perguntas complexas, especialmente no contexto brasileiro. Pra começar a conversa sobre o futuro, temos mais de 100 milhões de celulares, pelo menos 75 milhões dos quais pré-pagos e nas mãos de pessoas cuja renda não lhes dá folga para usar a rede celular como plataforma de conectividade digital de forma ampla. E há pouca evidência de que os outros 25 milhões de pós-pagos estejam dispostos a gastar o que as operadoras querem cobrar pelo tráfego de dados... apesar de já haver pacotes de preço fixo e banda ilimitada, mas que dependem de Blackberries que custam R$1.200, mais R$79.90 de conta por mês. Isso não vai ser, nem tão cedo, um mecanismo de universalização de acesso a nada. Mas, no mundo todo, veremos cada vez mais gente usando a web pelos celulares, uma tendência irreversível, porque estamos todos, e quase o tempo todo, em movimento, e precisando de informação sobre as coisas e pessoas que deixamos paradas noutros lugares... e sobre o lugar onde estamos ou para onde queremos ir. No topo de SMS, tecnologia de quinze anos atrás, tá na hora de chegar algo como MSN a todos os celulares: já conectaria pessoas, mais diretamente, mesmo que fosse só texto, no começo. Isso pode rolar nos próximos anos, em escala, antes dos celulares terem (todos) GPS, mapas e estarem na rede para nos dizer chegar onde temos que (e não necessariamente queremos) ir. O danado é que ainda não chegamos nem no ponto onde SMS funciona direito: mandei uns 300 no Natal e, no levantamento feito depois, pelo menos dois em cada dez não chegaram ao destinatário. Os perdidos, em sua quase totalidade, eram para celulares de outras operadoras... Ou seja, antes de querermos mais coisas nos celulares, poderíamos prever -- e pedir encarecidamente, às operadoras -que 2007 seja o ano em que, finalmente, todos os SMS enviados no Brasil chegarão ao destino sãos e salvos, sem passar por alguma linha vermelha das comunicações... tomara. Falando de gente, e gente com celular na mão, o sucesso de redes sociais como MySpace e Orkut expôs uma killer appplication da internet: conectar pessoas (através de informação pessoal e capaciade de interação) e não pessoas a informação. A vasta maioria dos seres humanos, ainda bem, é muito mais interessante, para outros humanos, do que artigos sobre a influência de Jean-François Lyotard no varejo moderno... Estas redes, mais cedo do que tarde, vão migrar para o celular, pois queremos compartilhar, na hora, a foto do cão abandonado na praça, à espera de alguma boa alma entre nossos amigos com
15 Atualizado em 30/12/2006 - 07:42

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espaço para mais um em casa. Redes sociais e celulares nos darão de volta, em breve, uma boa parte da gregariedade que perdemos, com o tempo, justamente por causa de nossa alta mobilidade pessoal no mundo moderno e da falta de conectividade de que ainda sofremos, nele, apesar de todo o progresso da técnica. Temos que levar em conta que a tela do celular, pra muitos, especialmente mais jovens, é a primeira e não a terceira tela, como querem alguns (as outras duas são o computador na internet e a TV). Quando os celulares de preço mais baixo tiverem telas de maior resolução, mais memória, mais capacidade para rodar software mais complexo (como os necessários para MP3 e TV digital) e mais (muito mais!) tempo de duração de bateria, seremos uma extensão dos nossos celulares, que serão nossa conexão como o mundo real que deixamos em alguns lugares lá fora. O mesmo efeito, por sinal, pode ser conseguido com celulares muito mais simples -minha preferência pessoal- e banda muito mais larga e mais barata, de preferência a preço fixo. Universalizando banda larga móvel, o celular poderia passar a ser um browser, puxando da rede o pouco que rodaria localmente e deixando para os servidores, da internet e operadoras, o problema de processar o que ele vai nos apresentar. Mas o que está começando a acontecer agora e vai continuar em 2007 e depois, no entanto, são os celulares mais complexos, como poderá vir a ser o fone-com-iPod (ou coisa que o valha) da Apple, que fará a maior parte de suas transferências de dados acoplado ao computador, em casa. Estamos chegado ao fim do ano e da coluna e só falamos, até aqui, de redes: de comunicação móvel e sociais. Acontece que estas duas tecnologias, uma de trinta anos que começa a maturar e se universalizar e outra novinha, que ainda estamos começando a entender e descobrir seus múltiplos usos, têm um potencial, em conjunto, de afetar muitas outras. Na verdade, quase todas as outras. Uma empresa -por exemplo- é uma rede social de propósito específico, imersa nas suas redes de valor, que têm seus fornecedores, seus clientes e usuários, competidores e por aí vai. Uma escola é outra rede social, onde cada turma, ou sala, é uma rede em si. Tudo em que nós, humanos, estamos envolvidos, são redes. Tecnologias de suporte à nossa performance dentro destas tantas redes a que pertencemos, possibilitando o aumento ou extensão das nossas capacidades de participar e colaborar para o desenvolvimento das mesmas serão essenciais para o funcionamento de um universo onde estamos naturalmente distribuídos, com interesses cada vez mais glocais: de fazer as coisas para o mundo, mas de tal forma que possam ser ajustadas, ou adaptadas, para a cultura, costumes e usos locais. Nosso “local” vai ser cada vez mais a nossa rede social, à qual estaremos conectados onde estivermos, na rua, na chuva, na fazenda... ou numa casinha de sapê. Semana que vem vai ser 2007 e vamos continuar aqui, neste mesmo dia e canal, brincando de prever o futuro. Até lá e um Ano Novo muito mais simples para todos e suas redes sociais. E, falando em celulares, esqueçam deles ao dirigir, pelo menos: o caminho fica, desnecessariamente, muito mais complicado...

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Algumas previsões para software em 200716
Mais um ano começa e este, em software, está sob o espectro de Vista, o novo sistema operacional da Microsoft. Segundo alguns, será o “último grande software de seu tipo”. Mesmo? Por quê? Este já é o terceiro do que pode vir a ser uma longa série de textos em que se brinca de prever o futuro das tecnologias de informação e comunicação, apelando para a proteção do patrono dos oráculos, Niels Bohr (aquele do ditado “é muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro”). Este capítulo é dedicado aos próximos anos do software e, pra começar, poderíamos tentar definir o que, mesmo, é software... Segundo Mike Mahoney, professor de Princeton e um dos principais historiadores de tecnologia, a computação tem uma natureza essencialmente tríbia: entre a matemática que torna os dispositivos possíveis e a eletrônica que os realiza, a programação é o que a torna intelectual, econômica e socialmente útil. A computação, pois, se apóia em ciência da computação, engenharia eletrônica e engenharia de software; as duas primeiras estão razoavelmente bem resolvidas e seus avanços são notáveis. A terceira “parece” com engenharia, quando comparada com a eletrônica mas ainda é, em boa parte, arte, ou artesanato. Seja o que for, é um mercado gigantesco. Em 2006, os de pacotes de software, aqueles feitos para distribuição em massa como Windows e Office, venderam US$ 250 bilhões, metade dos quais nos EUA. O “resto”, software para corporações, que pode exigir desenvolvimento de sistemas saindo do zero -a partir de especificações da empresa- passa de US$600 bilhões... Isso sem contar os serviços habilitados por software, normalmente incluídos na mesma economia, que valem, hoje, cerca de US$ 1.2 trilhões. Junte tudo, são US$ 2 trilhões por ano, algo bem maior que todo o Brasil, só que crescendo, hoje, a uns 10% ao ano. Difícil, portanto, prever o que vai acontecer num mundo deste porte. Mas estamos aqui para correr riscos, certo? Vamos lá: a primeira surpresa do ano (e vem do ano passado) é que a lista dos vinte produtos mais inovadores de 2006, da PCWorld, é encabeçada por... Office 2007. Segundo a revista (segundo lugar, Intel Core 2 Duo,... quarto, Nintendo Wii), a “nova” suíte de Redmond mudará a forma das pessoas processarem documentos, devido às funcionalidades e facilidades que oferece. Isso depois de reaprendermos a interface, segundo PCW a parte mais revolucionária do software. Mas inovação, como ensinava Peter Drucker, se dá no mercado; pode ser muito prematuro, portanto, a PCW dar um primeiro lugar em inovação a um programa que está entrando no mercado e ninguém sabe como vai se comportar. Mas eu também testei Office2007 em junho/06 e achei que o software é uma variante bem mais resolvida e elegante de Office. Faz um monte de coisas muito bem, trabalha junto com Windows Live e tem uma grande chance de ser um sucesso, mesmo contra a quantidade de variantes gratuitas de officena-web que faz uma ou outra pequena parte do que o software da Microsoft faz em nossos desktops.

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Atualizado em 06/01/2007 - 14:52

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Aliás, pra combater os office killers que estão na web a Microsoft deverá, mais cedo ou mais tarde (depende da aceitação e receita do próprio Office2007), botar Office2007 na web: tá pronto, e rodando, neste link. Resumo, até aqui: Office2007 vai ser muito importante, em 2007 e depois. Até porque a Microsoft tem, ela própria, um office killer, na web. A infinidade de serviços que imita partes de Office, na rede, vem de um modelo de oferta de software chamado SaaS, ou Software as a Service (Software como Serviço), que correspondeu a apenas US$ 3 bilhões em negócios em 2005 e prevê-se que quadruplique até 2010, o que fará o setor inteiro ter o tamanho de um trimestre da Microsoft, hoje. Mesmo com a presença de firmas importantes, como a salesforce.com (500 mil usuários, US$ 130 milhões de faturamento em 2006) SaaS ainda depende de muitas coisas para ganhar escala. Como infra-estrutura, pois não temos banda, no mundo, ainda, para fazer com que a maioria -ou uma boa quantidade- das coisas que rodamos “em casa”, ou “na empresa”, rode lá longe. SaaS vai acontecer. Mas não em 2007 ou nos próximos cinco anos, numa dimensão em que haja mais software como serviço do que “software”. O que nos leva a Windows Vista, Linux e, porque não, sistemas operacionais como serviço. Quer ver como é? Abra uma conta grátis em YouOS, sétimo da lista de inovações da PCW. Trata-se de um sistema operacional, como se fosse uma pequena parte de Linux ou Windows, no seu browser. Na realidade, é um sistema operacional mesmo, só que rodando num servidor não importa onde, que você pode usar no seu browser em qualquer lugar. Mas deixemos isso pra daqui a pouco. Em agosto passado, na LinuxWorld, representantes expressivos da comunidade de software aberto disseram em alto e bom som que o tempo pra Linux ganhar mais mercado era até o começo de 2008, quando Vista começaria a monopolizar o mercado de PCs, depois de passar pelos testes práticos de compatibilidade, segurança,... entre usuários reais, principalmente corporativos. Eric Raymond chegou a prever que o mercado de Linux seria uns 10% nos países ricos e 15% nas economias periféricas o que, se verdade se tornar, garante a dominância de Windows por uns dez a quinze anos mais e rendas gigantescas para a Microsoft. O maior inimigo de Vista é Vista, os restos de Windows do passado e a própria Microsoft, cuja campanha anti-pirataria, segundo o IDC, poderia estar sendo feita pela comunidade de software livre. Linux tem mais de 300 distribuições competindo entre si e este cenário não deverá mudar no futuro próximo. Assim, a Microsoft brigará contra si própria, nos próximos três anos, para inserir Vista em todas as máquinas novas que forem produzidas no planeta e contra os piratas que farão o mesmo para todas as já existentes (e um bom número das novas). E YouOS e assemelhados (contra Vista e Linux)? Nos distantes idos de 2004, escrevi que... na próxima era do software, quase não haverá software, pelo menos não à vista do usuário. O que faz todo o sentido do mundo: software não é e nunca vai ser simples. Para que a maior quantidade de pessoas venha a poder usá-lo, é bom que esteja fora do alcance, pelo menos do ponto de vista de instalação, licenças, fontes e tudo o mais. Porque o que importa, no fundo, é o que o usuário faz com ele, e não o que ele é. Isso está começando a acontecer agora, e vai ganhar uma velocidade muito grande nos próximos anos... Continuo assinando embaixo e reafirmo que, num futuro não muito distante, a “briga” entre software fechado e aberto será vencida por software como serviço, deixando os dois a ver navios. Ou não: um dos competidores da salesforce.com, sugarcrm.com, distribui, de forma aberta, o software que usa para prestar seu serviço, como garantia, acima de tudo, de sua transparência e continuidade do serviço ao usuário.

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Pode ser, no fim, que todo o software volte a ser aberto, como era até uns trinta anos atrás. Mas será serviço e saberemos, direitinho, o que faz, pois teremos o código, sem nenhum interesse -ou meiospara prover o serviço de forma economicamente viável. Mas esta previsão, se rolar, não é para 2007, é de longo, longo prazo. Falando nisso, aliás, semana que vem tem mais conversa sobre o tal futuro.

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O futuro da internet é cada vez mais... você17
Gente, de todo tipo, pensamento e expressão, é a coisa mais interessante da rede. E vai continuar sendo. E, no futuro, de forma muito mais intensa. Nossa conversa sobre o futuro continua, esta semana, falando sobre os indivíduos e a internet -- e como a rede transformou radicalmente a opinião e a performance individuais. O futuro da rede é cada vez mais seu e meu e, a menos que o império do mal resolva cercear nossos direitos de comunicação e expressão, a internet certamente será lembrada como um marco revolucionário na história da humanidade. Se sobrevivermos ao aquecimento global e conseguirmos escrever a tal história. É começo de ano no Brasil -- dez anos depois do advento da internet comercial -- e a Justiça de São Paulo resolve bloquear um site de vídeos, a pedido de duas pessoas que estavam transando na praia, na frente de todo mundo. O bloqueio dura pouco, mas o suficiente para nos incluir na pouco honrosa lista dos países que censuram a internet, como Cuba, Irã e China. Este triste evento é apenas um marco da presença da rede na vida das pessoas e delas, por sua vez, na rede. É claro que todo mundo tem o direito de transar na praia, e muita gente o faz, na maioria das vezes tomando providências para não ofender o que se convencionou chamar de “moral e bons costumes”. Se um anônimo qualquer protagoniza a cena, dificilmente haverá interessados em gravar e disponibilizar sua performance num lugar qualquer, para consumo dos curiosos. Mas se os envolvidos forem figuras públicas, haverá atenção e o sucesso será imediato e em muito larga escala. O que também pode acontecer se a aparição do nosso (ex-)anônimo for competente, inusitada ou merecer nossa atenção por seja lá que razão a hora ditar. No mundo pré-internet o “caso da apresentadora transando na praia” mereceria no máximo uma foto meio sem foco numa revista de fofocas e notas aqui e ali, em colunas idem. Na internet, o mundo é pequeno, os boatos se espalham na velocidade da luz e o controle da sociedade sobre as fontes de informação e suas conexões é muito, mas muito pequeno. Como a Justiça descobriu muito rapidamente no caso do vídeo armazenado no YouTube. Aliás, YouTube é apenas uma das milhares de fontes onde se pode ver o tal vídeo. A menos que outras coisas muito mais interessantes, do mesmo casal ou de outros, apareçam na rede em futuro próximo, é muito provável que os dois seja perseguidos, para sempre, pelo tal vídeo. A razão básica para tanto auê é que somos antropocêntricos: a raça humana é centrada nela mesma, perigosa e quase que suicidamente interessada quase que só no que ela é e faz. A idéia de desenvolvimento sustentado, por exemplo, é uma tentativa de impor alguma ética e moral, sobre homens e mulheres, que inclua o mundo e as outras coisas vivas ao nosso redor. Para o nosso próprio bem, por sinal. De resto, seja lá o que humanos estiverem fazendo, haverá muitos outros interessados. Na rede, então, isso pode atingir massa crítica (a ponto de todo um micro-universo da rede saber, ver e comentar) muito rapidamente, pois a internet é uma máquina de publicação e formação de comunidades como nunca houve na história do planeta. A revista Time escolheu “You” como a personalidade do ano de 2006; este “You” é cada um de nós,
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pessoas da rede, capazes de furar o bloqueio dos cartéis corporativos de criação e distribuição de informação e, com muito pouca energia, mudar o sentido do que se diz e discute na sociedade moderna, perpassada para sempre por mecanismos de comunicação e relacionamento que subvertem as hierarquias do passado. Há quem diga que haverá 100 milhões de blogs em 2007, e que isso será o limite. Eu discordo; blogs são pontos de encontro, pequenas comunidades de expressão que podem ser tão pequenas quanto uma única pessoa, que não precisa, no presente, de um leitor sequer. Haverá tantos pontos de encontro na rede quantos humanos conectados houver e, dentre estes, quantos estiverem dispostos a deixar suas impressões, nem que sejam seus vídeos de praia (com ou sem sexo), sobre sua passagem pela Terra. Em 2007 haverá um bilhão de pessoas na rede e a tal previsão nos permite deduzir que apenas 10% deste povo têm algum interesse em registrar alguma coisa na rede. Vai haver mais gente na rede, muito mais. No longo prazo -- que tal 2050? -- quase todos estaremos na rede. A população do planeta, então, estará perto de 9 bilhões; exclua, digamos, 3 bilhões que talvez não tenham idade ou não queiram ter nada a ver com a rede e teremos 6 bilhões, quase a população de hoje, online de alguma forma. Mesmo se apenas 10% estiverem interessados em participar da rede como autor, e não só como leitor, teríamos mais de meio bilhão de blogs ou seja lá qual for a forma de expressão pessoal que esteja predominando então. Mas eu acho que seremos muitos mais. De 2 bilhões de blogs pra cima. Sobre tudo e todos, desde a vida dos seus cachorros até meu observatório particular sobre a qualidade da água no Rio Capibaribe... passando por gente especializada em filmar quem faz sexo em público. E publicar em algum lugar. Esta presença e conexão maciça de pessoas, vindas de todas as facetas territoriais, econômicas, culturais, políticas e sociais, vai mudar radicalmente as formas de pensar, articular e operar a sociedade, incluindo novas formas de educação, produção e remuneração pessoal e coletiva (“meu blog” pode ser de engenharia de software, e nós podemos estar “negociando” código ou serviço baseado nele), de representação e administração dos coletivos, de estruturação da própria sociedade. Todas as mudanças radicais de tecnologias, formas e meios de comunicação foram sucedidas, depois que as mesmas foram absorvidas pelas sociedades, por mudanças tão ou mais radicais nas próprias sociedades. Foi assim com a fala, com a escrita, com a imprensa, com livros e jornais, telégrafo, rádio e TV -- e será assim com a internet. Mas numa outra escala, de intensidade muitas ordens de magnitude acima do que vimos até agora. Porque a rede distribui poder, achata hierarquias e nos deixa, a cada um, criador e consumidor de conteúdo, em posições em que nunca estivemos na cadeia de valor de informação, no mundo: no controle. É por isso que há, por outro lado, muita gente, instituições e países querendo “controlar” a internet; tal controle, em último caso, significaria o controle dos próprios homens e mulheres na rede, tentando perpetuar algo tão humano como nosso antropocentrismo: a vontade e quase necessidade de uns de nós quererem dominar os outros, privando-os de sua liberdade de escolha e do risco e oportunidades de decidirem o que é melhor para eles e para todos nós, em conjunto. Ano novo, vida nova, novas esperanças. Prevejo, aqui do começo de 2007, que as forças do bem serão
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vitoriosas e que, no longo prazo, teremos muito mais blogs e muito menos controle. Mas é bom lembrar que o futuro não vem, nunca, de presente. Temos que trabalhar arduamente, todo dia, para que ele aconteça.

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Somos programas, somos e seremos programados...18
Estamos entrando na internet, mas não só. De muitas formas, estamos começando a nos (re)programar, o que cria possibilidades (e riscos) muito grandes. E no futuro próximo. A era da informação, segundo Peter Drucker, não começou com a informática ou a internet, mas antes, na Segunda Guerra Mundial. Até então, vivíamos a era da energia, ao redor da qual estavam centrados os negócios e a atividade científica, tecnológica e inovadora. As palavras de ordem eram mais forte, mais rápido, mais potente, num universo de pressões, temperaturas e velocidades. O domínio da tecnologia nuclear e a possibilidade de simular processos estelares deram um ar de fim-da-história ao mundo da energia e, a partir daí, os processos biológicos passaram a dominar o cenário e estes, apesar de baseados em energia, estão organizados ao redor de informação e seu processamento. Nós, não por acaso, somos sistemas biológicos de muito alta complexidade. Sendo sistemas biológicos, somos organizados ao redor de informação e seu processamento, o que afeta cada pensamento e ação de qualquer ser humano. Como estamos há algum tempo falando de futuro, talvez fosse interessante investigar quais são os horizontes (humanos) de intervenção e modificação nos subsistemas “naturais” que nos compõem. Nem pense o leitor que arriscarei uma resposta. Ao invés, usarei um exemplo recente para discutir que tipo de “mods”, ou modificações, podemos introduzir em nossos corpos e vidas “naturais” e, usando por base a história de intervenções que estamos fazendo há séculos, deixarei a pergunta em aberto, para cada um pensar e responder como quiser. Três quartos da população do planeta têm problemas de visão mais de 30% são míopes e quase 20% têm astigmatismo. Há dois mil anos, não era possível corrigir a visão, na prática, mas já havia tentativas várias; os primeiros óculos, mais ou menos na forma em que conhecemos hoje, foram feitos na Itália, no século 13. Hoje ninguém está nem aí para quem usa óculos ou não e eles são um auxílio estático elementar para a visão, usados em massa. Na Idade Média, podem ter mandado muitos à fogueira, pelo “uso de instrumentos do demônio para tentar interferir nos desígnios divinos”. Não ver bem não é um castigo dos céus, é resultado da forma como uma parte do nosso corpo processa luz; óculos (e depois, lentes de contato) são “mods” aos quais nos acostumamos com o tempo e que se tornaram, inclusive, moda. Até aí, tudo bem. Óculos são apêndices externos ao corpo e -- tirando, por enquanto, aqueles das forças especiais -- passivos. Mas que tal pensar em modificar coisas complexas como o sono? Um artigo sobre o assunto, na revista New Scientist, começa com Modafinil, droga que não está à venda no país e que, tomada antes de dormir, transforma um sono de 4-5 horas (ou menos, para alguns) em um descanso correspondente a 8-10 horas de boa cama. Este tipo de “mod”, resultado do uso de drogas que reprogramam funções corporais, pode ser muito relevante para quem trabalha com conhecimento (porque quase sempre tem um projeto atrasado pra entregar), soldados, gente que quer estar atenta, pra quem precisa fazer hora extra ou simplesmente pra quem quer “viver” muito mais, ou seja, dormir muito menos. Claro que drogas como esta não são as primeiras a nos modificar ou reprogramar: pense em
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anticoncepcionais, em uso há décadas. Ou em AAS, cujo princípio ativo é conhecido há séculos e que usamos para reprogramar os receptores que nos dão a sensação de dor de cabeça. A diferença, agora, é que uma gama de medicamentos está sendo desenvolvida usando informática como auxílio essencial e pensando no corpo humano -- incluindo o cérebro -- como uma “máquina” programável. Veja o que diz Russell Foster, biólogo do sono do Imperial College London: “quanto mais entendermos sobre o relógio de 24 horas do corpo, mais seremos capazes de mudá-lo... em 10 ou 20 anos seremos capazes de desligar o sono usando fármacos...” Mas... será que vai ser bom -- ou melhor -- viver sem dormir? Você iria querer tal “reprogramação”? Modafinil está no mercado há sete anos e vende mais meio bilhão de dólares de pílulas por ano, tornando-se uma droga de “estilo de vida” para uma quantidade cada vez maior de pessoas. Outras substâncias ainda mais poderosas estão a caminho: CX717, inicialmente desenvolvida para ajudar pacientes do mal de Alzheimer, está sendo considerada pela Defense Advanced Research Projects Agency (Darpa) como um mecanismo para manter soldados acordados e alertas por muito tempo. Testes em macacos mostram níveis de atividade, em macacos “drogados” que não dormem há 36 horas, acima de macacos não tratados e que dormiram normalmente. Modificar o ciclo de sono é apenas a porta das possibilidades de programação do cérebro. Cada remédio destinado a funções cerebrais liga, desliga, minimiza ou magnifica a ação de receptores de algum tipo. Mas pode ser que “tomar remédio” seja, em futuro próximo, coisa de um passado distante. Nos laboratórios, há novidades: dc brain polarisation, ou polarização do cérebro usando corrente contínua, por exemplo, é uma técnica para tentar controlar regiões do cérebro com hardware que pode ser embutido num capacete, usado por pilotos, soldados e… por você mesmo, no escritório, fábrica ou balada. Os efeitos são melhoria de fluência verbal, atenção, memória e tempos de reação motora. E controle das áreas responsáveis pelo sono. Como acessório de moda, vai ficar esquisito e terá que ser usado com muito cuidado: quando a bateria acabar, seja lá o que você estiver fazendo, poderá cair duro de sono. O que pode ser o ponto de partida para os próximos níveis de “programação”... como fazer com que o cérebro se reprograme de maneira mais permanente para uma ou outra função, como dormir menos. O cérebro humano contém um número imenso de neurônios, que formam redes cujas capacidades aprendemos a admirar nos últimos milênios. Admiramos mas, em sua maior parte, ainda não entendemos. O fabricante de Modafinil ainda não publicou o que sabe (ou não) sobre seu funcionamento. Há quem diga que é um acaso. Mas estamos para saber muito mais e isso terá pelo menos duas conseqüências: a tentativa de criar inteligências parecidas com a nossa e o aumento da capacidade de nos programarmos, que acontecerá bem antes e criará possibilidades muito mais amplas do que as permitidas pelas limitadas alternativas químicas que usamos hoje. Vai demorar? Vai. Quanto? Algumas décadas, talvez. Enquanto isso, é esperar para Modafinil e similares aparecerem (legalmente) por aqui... e ficar imaginando o que gostaríamos de ter, ou programar, a mais ou a menos, em nossas limitadas funções cerebrais...

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Second Life: ditadura e desastre ambiental19
Universo virtual é um software-como-serviço totalmente controlado por uma empresa privada que faz o que bem entende com seus habitantes. Ainda por cima, gasta tanta energia por avatar quanto o Brasil por habitante. Second Life é o mundo virtual mais interessante que há por aí e muito tem se falado dele nos últimos tempos. Inclusive aqui no G1 que, a exemplo, da Reuters, tem uma sucursal por lá. A novidade tem gerado discussões importantes sobre o futuro da vida na e com a internet, e foi tratada nesta coluna quando sofreu um ataque de vírus que acabou “derrubando” o mundo inteiro. Até aí, tudo bem. Mas há pelo menos um lado negro em Second Life. Ou dois. O maior sucesso entre os mundos virtuais tem suas virtudes e problemas. O maior deles, além de coisas simples que deveriam funcionar (ou não) no software que implementa o lugar, é Second Life ser “governado” por um ditador benevolente ou, segundo um número cada vez maior de habitantes, pela ditadura de seus “donos”, o Linden Lab. Second Life é um serviço implementado por software, disponível em um endereço internet, a usuários que “aceitem” suas regras de uso, que se tornam na prática a constituição a que estão sujeitos seus habitantes. Ditaduras normalmente promovem quem não as incomoda e de quebra servem de meio ou apoio a seus propósitos. E perseguem implacavelmente quem as questiona, como os habitantes de Second Life que têm sofrido restrições nos seus direitos básicos (como o de expressão livre). Tal é o caso de Prokofy Neva, que foi banido do blog oficial do Second Life depois de ter sofrido outras restrições, em função de suas críticas aos donos e governantes e a habitantes que puxam vocês-sabem-o-que dos mesmos. Neva está sendo escolhido para punição exemplar na mais antiga tradição dos governos acharem um exemplo para amedrontar o populacho, o que na maioria das vezes dá resultado no curto prazo mas é uma tragédia no longo. Isso leva a uma oportunidade: porque não escrever -- e prover como serviço -- um mundo virtual aberto? Cujo software seja aberto, para o qual as regras do mundo correspondente sejam democraticamente escolhidas e administradas? Esta pode não ser uma coisa periférica para nosso mundo real. Por quê? Um número cada vez maior de regras e operações da sociedade está sendo codificado em software e sendo provido como serviço. É isso que o Linden Lab faz com Second Life: é um serviço de informação, codificado em software, provido por uma empresa privada que usa, para tal, as regras que quer e bem entende. Larry Lessig tem um excelente texto sobre as possíveis conseqüências deste tipo de coisa, em larga escala, na sociedade. Pode muito bem ser que determinados “serviços de software” do mundo real (como Second Life) decidam que alguns usuários não devam ter todos os direitos dos outros. Que alternativa terão eles se não houver outros provedores, de preferência abertos, regulados por constituições definidas pela sociedade como um todo e sem uma polícia informacional?

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Atualizado em 27/01/2007 - 06:30

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Temos que prestar mais atenção no que está acontecendo em lugares como Second Life. Porque o que acontece por lá pode vir a rolar, em escala muito maior, num pedaço do mundo real bem próximo do nosso par login/senha. Esta ameaça, claro, é uma grande oportunidade para que nos organizemos para criar nossos próprios (mundos, movidos a) software-como-serviço, abertos e verdadeiramente democráticos. Seria um exemplo de como uma ameaça lá no Second Life vira uma oportunidade do lado de cá da telinha. O outro lado potencialmente negro do Second Life, que também deveria ser discutido no mundo real, é o gasto de energia do ambiente. Fazendo a conta em energia elétrica, Second Life é tão caro, per capita, quanto o Brasil. Em uma troca recente de opiniões sobre o assunto, Nicholas Carr começou a responder uma pergunta de Tony Walsh sobre a sustentabilidade de Second Life como modelo de negócios e do ponto de vista ecológico. Na linha negócios, há prós e contras, pensados e escritos por muita gente boa. Na vertente ecológica, Carr fez uma contabilidade energética básica e descobriu que o consumo anual de energia de um avatar do Second Life (1.752kWh, se ficar no ar o ano inteiro) é mais ou menos o mesmo de um brasileiro médio, que fica hoje em 1.884kWh. O site tem 4.000 servidores, mais as máquinas dos usuários. Olhando em termos de aquecimento global, o consumo equivalente em CO2, por avatar, é 1.170kg/ano. O número é surpreendente, porque grande. Se for por aí mesmo, os mundos virtuais (e não só Second Life) terão dificuldade para se sustentar no mundo real. Até porque sua conta de energia pode torná-los ecologicamente inviáveis e, por conseqüência, como modelo de negócios. Voltando para o começo do artigo, talvez faça sentido juntar as duas discussões: estamos cada vez mais informatizados, por sistemas que usam regras às quais nos submetemos sem saber de todas as suas implicações. Você sabe quais são as “leis eletrônicas” do seu banco? O meu“não se responsabiliza por quaisquer danos, perdas ou despesas oriundas da conexão, demora na transmissão de dados, falhas de desempenho, falhas de equipamentos, vírus e quaisquer outros danos decorrentes da utilização inadequada dos Canais Eletrônicos”. Aí está escrito que falhas ou problemas de desempenho nos equipamentos deles se tornam problema meu, se eu não conseguir pagar minhas contas. Ainda mais, quanto meu banco gasta de energia pra tocar seus sistemas de informação? E o governo, os supermercados? De que adianta ter meu cheque em papel reciclado, e propaganda disso na TV, se lá no data center estão contribuindo -- e muito -- para o aquecimento global? Google, que tem um uso estimado de energia entre 20 e 30 megawatt/hora, está muito preocupado com o problema, está instalando 10 megawatt de energia verde para sair da lista negra dos ecologistas (e de todos nós). Talvez devêssemos olhar para os serviços informatizados ao redor e perguntar, sempre, quais são suas regras de uso e seu gasto de energia, seu custo ambiental. E pressionar para que as regras sejam decentes e o ambiente, sustentado, pois, mais cedo do que tarde, quase toda nossa vida estará informatizada.

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Mangue beat. Manguebeat. Manguebit.20
O movimento mangue mudou a história da música e da expressão artística no Recife nos anos 90. E foi essencial na criação da atitude que resultou no Porto Digital, o sistema local de inovação de tecnologia de informação do Recife. Dois de fevereiro é dia de Iemanjá. É meu aniversário, também. E foi num domingo, no dia em que Chico Science estava indo de Recife a Olinda, naquele fim de tarde de sol em 1997, pra ver a Cabralada tocar. Esperamos, esperamos, o maracatu era energia pura, a Treze de Maio lotada, mas Chico nunca chegou. Chico nunca chegou e, no fim da noite, eu estava no necrotério, com Sonaly Macedo, onde Chico tinha ido parar depois de um acidente inacreditável no Salgadinho. Foi o pior aniversário da minha vida. O povo do mangue, nome de beat tão interessante quanto a batida propriamente dita, renovou a cena musical do Recife e de boa parte do Brasil como se fosse um big bang. Chico, 04, Mabuse, Renato L, Lúcio Maia e tantos outros teóricos e práticos do movimento botaram nossas vidas de ouvido pra baixo. A trilha de quase tudo, aqui, era de repente daqui mesmo e pra mim, que começava a entender o encanto de alfaias, abês e loas dos maracatus de baque virado, o beat do mangue era como se fosse meu. E não era só eu, muito mais gente tava na mesma onda, atitude, jeito de enxergar o mundo, de misturar as idéias, de achar que muito, muito mais era possível. Dois anos antes daquela tarde de maracatu em Olinda, virei professor titular do Centro de Informática da UFPE, numa cerimônia tradicionalmente precedida por um conjunto de câmera executando Bach, Mozart e similares. Pois pra mim foi Júlio Glasner no som, detonando Computadores fazem Arte (artistas, como dizia Chico, fazem dinheiro) quando entrei no auditório e Da Lama ao Caos depois do discurso de posse e antes da cana que durou dois dias... Tudo de acordo com a letra: “...eu me organizando posso desorganizar/ ...eu desorganizando posso me organizar”. Nosso lema na informática da UFPE era e ainda é Ciência & Gréia. Ou Competência com Irreverência. Dá no mesmo. No começo da década de 90 nós também estávamos achando que não só era preciso mudar, mas que era possível mudar. O caldo de cultura que se pensava, via e ouvia no delta do Capibaribe, principalmente depois que o movimento mangue começou a tormar forma e nós começamos a nos ver nele e como parte dele, era a base de onde muitos de nós tiramos idéias e energia para começar uma aventura de tecnologias da informação que continua sendo construída, como a mesma força de antes, até hoje. E que não dá sinais de voltar atrás. Recife sempre teve empresas de software. Sempre, aqui, significa desde a década de 60, quando a maioria dos leitores não tinha nascido e eu ainda jogava bolinha de gude. E tinha empresas porque havia uma demanda regional sofisticada e capaz de sustentar empresas locais que viriam a ter caráter nacional décadas depois. Mas a globalização começou a pegar a periferia com todo seu poder de destruição e renovação, bem no tempo do movimento mangue, na década de 90. Foi o fim dos bancos locais e regionais, a falência das pequenas indústrias, o fim dos incentivos da Sudene. Enfim, o fim de muitos sonhos, planos e projetos.
20 Atualizado em 02/02/2007 - 08:59; este texto foi encomendado pela editoria do G1 e entrou para a coletânea que

comemorava os dez anos da morte de Chico Science num acidente de trânsito, em RecifOlina, em pleno dia de Yemanjá.

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E os acadêmicos de Recife tinham sonhos, planos de construir centros de ensino e pesquisa que contribuíssem para o crescimento da economia local, para a geração de emprego tecnológico, para a criação de novas empresas. Mas a globalização tirava nosso tapete a cada dia e os alunos que formávamos tomavam o rumo do Rio, São Paulo, Seattle e Londres. Foi aí, nesta mesma época, que o povo da tecnologia, tanto os mais novos quando os mais velhos do que Chico, resolveram mudar o jogo. Se Chico fazia para o mundo, por que não nós, também? Se a economia local -- que demandava uma informática local -- estava desaparecendo em suas formas clássicas, porque não apostar em uma informática de classe mundial, feita aqui mas para o mundo, atraindo para cá problemas complexos e criando demandas locais que poderiam não só manter muitos dos nossos melhores cérebros aqui mas, ao mesmo tempo, atrair gente de fora pra cá, como tanta gente que estava sendo tragada pra Recife por causa, exatamente, do mangue beat? Se nosso mangue “bit” fizesse o mesmo, poderíamos, com o tempo -- quem sabe?- - tornarmo-nos muito mais relevantes... A partir do começo dos anos 90, Recife atraiu o Softex (programa nacional de software), a RNP (Rede Nacional de Pesquisa), vários programas de pesquisa cooperativa em TICs nas universidades, as empresas de software se fortaleceram e aumentaram em número, suas associações se tornaram mais sólidas, o C.E.S.A.R (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife) apareceu, gerando (hoje) mais de 600 empregos em TICs e atuando diretamente na criação ou renovação de mais de trinta empreendimentos. Em 2000, o esforço desembocou no Porto Digital, sistema local de inovação situado no antigo bairro do Recife, o mesmo do Bar Fogão onde o povo do mangue bebia sempre. O Fogão desapareceu. Mas cento e tantas empresas de software e de sua cadeia de valor vieram para o Porto Digital, trazendo mais de três mil pessoas que tornam vivo, de dia, o bairro que só existia à noite, quando os caranguejos com cérebro faziam uma festa em algum lugar. O mangue não é mais o mesmo. A batida ideal que Chico procurava gerou muitas batidas possíveis, de Otto a Silvério a Cordel a Mombojó a Carfax, entre muitas outras. A busca de Chico fez renascer os maracatus, base de muitas de suas batidas, que estavam mais prá lá do que prá cá antes dele. Hoje há muitas dezenas de batuques ativos, formados depois que as alfaias -os pesados tambores de madeira do Nação Zumbi- ganharam o status dado pelo mangue. É como se um pedaço da África tivesse, de novo, desembarcado aqui, cheio de esperança, seus tambores embalados de alma e vida. Para nós, de tecnologia, foi e é o mesmo. Aprendemos com Chico e o povo do mangue que é possível conceber, criar e fazer aqui. E levar tudo, pro mundo, a partir daqui. Estamos e vamos continuar fazendo isso. Com parabólicas e fibras óticas apontadas para o mundo, os pés no mangue, na periferia, na história da qual não podemos e não queremos fugir, fazemos do e no Recife o liquidificador de coisas ao qual nada é imune. Entra dia, sai ano, haverá alguém escrevendo um manifesto. Outro alguém atrás de mais uma batida ideal. Outros escrevendo software, gente fazendo design e interfaces, uns tantos testando, outros criando robôs, fazendo circuitos integrados, celulares, o que vier. Ainda acho que não é uma boa idéia lembrar a morte pra comemorar vidas. Mas assim manda a tradição. Prefiro comemorar aniversários, como se estivéssemos todos vivos. Como Chico está. Na Cabralada, domingo passado, depois do ensaio, o batuque continuou tocando bases do CSNZ de 1994. Mas não é só: mais do que na música, o legado de Chico vive em todos os que lutam, nas suas muitas periferias, para fazer muito mais do que os poucos centros do mundo dizem que eles deveriam se limitar a fazer. Viva Zapata, viva Sandino, viva Zumbi!...
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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

A coluna de Silvio Meira foi publicada excepcionalmente nesta sexta-feira, em vez de no sábado, como de costume, em memória aos dez anos da morte de Chico Science

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IPTV. O que? Infinitas Possibilidades de TV...21
IPTV vem aí. Pra ficar. Pelo menos onde houver banda larga de verdade, vai tomar o lugar de todas as outras formas de ver o mundo na telinha. E isso vai ser muito bom. Pelo menos pra quem estiver do lado de cá da caixa... Bill Gates anunciou ao mundo, em Davos, que IPTV vai mudar o mundo da TV em cinco anos. Cabra otimista. Devia estar falando apenas dos países muito ricos, onde banda larga é larga mesmo. Aqui de onde eu (tento) ver o mundo, há horas em que a “banda larga” não dá mais de 200kbps. Parece sinal de fumaça. Os cinco anos de Gates, aqui, podem vir a ser dez, quinze ou mais, no pior caso, que é o da Anatel continuar parada, sem cobrar performance e tampouco universalização de serviços das operadoras. Mas o que interessa aqui é Gates dizer, mais uma entre as muitas vezes em que tem repetido, que vídeo online e a fusão de PCs e TVs vai mudar a experiência “televisiva” e que “...daqui pra frente, mais e mais espectadores vão querer a flexibilidade oferecida por vídeo online e abandonarão a TV aberta, com sua programação fixa e anúncios interrompendo os programas”. Tal tese não chega a ser novidade (alguém vendo YouTube por aí?) e Gates ao dizer isso, cumpre seu papel de garoto propaganda, pois a Microsoft tem interesses gigantescos em IPTV e está montando uma vasta rede mundial de alianças para disseminar a tecnologia e seu uso. Qualquer um que tente entender pode citar muitas diferenças entre IPTV (TV via internet, sobre protocolo IP) e TV normal, aberta, mesmo que digital. Com vantagens para a primeira, pois a qualidade é a mesma ou melhor que TV digital e, nela, quem controla a “programação” é você, espectador (ou usuário) e não o “programador central”. Contexto, agregação, armazenamento, busca e recuperação de conteúdo serão muito mais importantes do que horário. Mas IPTV precisa de banda larga de verdade, e uma experiência de uso multicanal, picture-in-picture, gravando outro programa ao mesmo tempo, vai pedir vinte megabit por segundo ou mais. Banda larga, muito larga, é na verdade a grande vantagem de IPTV: vendo tv na rede, você está na rede, claro. E pode combinar com seus amigos ver o mesmo programa e interagir com eles, enquanto o show, futebol ou novela está rolando. A interação não precisa ser pela infra-estrutura de IPTV; se seu set top box deixar, ou se você tiver IPTV num PC, pode rolar em Skype ou qualquer outra coisa que você queira. Só é preciso ter banda larga (de verdade) nas duas direções… principalmente se vocês estiverem querendo ver uns aos outros numa (por exemplo) torcida virtual muito real, na sala de cada um. Ou se o “programa” -- o que pode ser muito mais interessante -- forem vocês. Uma câmera na mão e banda larga à disposição e cada um será, pelo menos, um canal. O modelo de TV digital aberta supõe que uma pequena parte da atividade do usuário vai ser interativa e que, claro, o “canal” controla a programação. Isso significa que o programador central continua definindo o que o público vai ver e que não há tempo de TV suficiente para atender às demandas específicas de todas as micro-comunidades de espectadores. Em IPTV, desde que as aplicações estejam disponíveis, TV deixa de ser TV e passa a ser um conjunto de aplicações multimídia, interativas e verdadeiramente multidirecionais, sobre a plataforma IP. Você pode parar a programação enquanto vai ao banheiro; pode trazer vídeos, sob demanda, para seu set top box enquanto vê outro programa… não
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Atualizado em 09/02/2007 - 17:44

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que você precise, porque alguma hora sua banda vai exceder 100 megabits por segundo, e isso dá pra bem mais do que dois vídeos simultaneamente. Mas a parte mais interessante é que IPTV pode ser o tratamento ideal do long tail de entretenimento, aquelas milhões de demandas individuais ou de pequenas comunidades que nunca conseguirão se tornar “horário” de nenhuma estação, porque a audiência será sempre muito pequena para justificar o patrocínio. IPTV muda quase tudo: um relatório recente de Bear Stearns diz que no futuro agregação e contexto e (não necessariamente) conteúdo serão os reis do entretenimento. Se eles estiverem certos, o mercado do futuro não vai ter as mesmas empresas que estamos vendo hoje de jeito nenhum. Porque a tecnologia está mudando a equação de criação de conteúdo, tanto ou mais do que muda o processo de sua distribuição. Os mercados (dois, audiência de um lado e criação de outro) vão se fragmentar muito mais e os nichos serão ínfimos; ganhará quem conseguir filtrar e empacotar a miríade de alternativas disponíveis, dar-lhes contexto e agregar experiência e valor aos mesmos. Haverá TV aberta daqui a vinte anos? Sim. Terá a mesma importância de hoje? Não. Especialmente onde IPTV for uma alternativa real para o usuário. Porque posso estar interessado somente nas provas de natação da olimpíada e ter a visão apenas das câmeras da piscina, em tempo real, mesmo que não haja áudio ou competição e só gente treinando. Tal “programa” jamais encontrará patrocinadores ou espaço na grade de programação normal. Pense em dez canais de TV aberta. Pense em 200 canais via satélite. Imagine, agora, um número infinito de canais de TV em banda larga. Incluindo a câmera daquela barraca na praia de Maracaípe, pra você ver quem está pegando onda enquanto você está no trampo. Só tem um pequeno problema: do jeito que a Microsoft, entre outras, está montando seu negócio de IPTV, as operadoras de telecom têm um papel fundamental… É por lá que os “canais” passam e a “interação” volta e onde os vídeos que se pega, sob demanda, estão hospedados. Há uma variedade de explicações para tal decisão, como o fato da tele administrar a qualidade de serviço da rede para garantir a performance das aplicações… o que pode detonar, de vez, qualquer princípio de neutralidade da rede. Mas é bem mais provável que haja teles no meio do campo porque suas redes são fechadas e as aplicações e conteúdo, lá, ficam teoricamente mais seguras (e nós não podemos instalar nada) e porque teles têm uma longa experiência e história de precificar e cobrar pelo uso dos seus serviços, coisa que as TVs ainda não entenderam que vai ser fundamental no futuro. As teles sabem onde os clientes estão e lhes enviam contas telefônicas desde que J. P. Morgan financiava Graham Bell no fim do século 19. Em Davos, Gates estava anunciando – também -- que seu (novo) negócio é mídia e interação. Que o mercado de PCs e seu software está mudando e que sua aposta passa a ser a fusão PC-game-TV na sala, servindo de infra-estrutura pra tudo o que a família faz. Segundo ele, rodando software da Microsoft e, se tudo cer certo, em hardware Microsoft. Há quem ache o contrário e chute que, em 2010, a Apple será maior do que a Microsoft. E que Steve Jobs, ao invés de Bill Gates, vai ser a atração de Davos. Isso se não estiver na cadeia…

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O Carnaval e a Borda da Web22
É carnaval e o colunista vai sumir nos blocos e maracatus do Recife e Olinda. Mas a coluna fica no ar pra falar da borda, do futuro, das inovações necessárias e possíveis na web. Bom carnaval!.. Eu sei que é sábado de carnaval e que eu talvez devesse estar escrevendo aqui sobre a folia. Mas vocês que estão tendo tempo para ler esta coluna, hoje e esta semana inteira, não estão brincando carnaval e quase certamente têm muito pouco interesse no que eu teria a dizer sobre maracatus rurais e de baque virado, a saída do Eu Acho é Pouco, a “ficada” do Siri na Lata e as performances no Enquanto isso na Sala de Justiça. Sem falar no que rolou no Quanta Ladeira, que este ano tem Elba Ramalho e uma música “tema” só pra ela, cantada por Chico César. Para quem quiser ver, ouvir, saber e brincar, o endereço e tempo são um, dois: Recife e Olinda, fevereiro de qualquer ano. Ano que vem, se já querem saber, dia de Iemanjá é sábado de Galo da Madrugada e o mar e o povo do Recife, e não graças ao aquecimento global, vão ferver. Mas é o colunista que está no carnaval, e não a coluna... e hoje vamos discutir as “bordas” da web, da rede, a partir de um texto de John Battelle, que escreve o ótimo Searchblog. A pergunta de Battelle é “onde está a borda da web”? Onde estão e quais são os lugares onde a rede, a web “antiga”, dos protocolos e serviços primários, e a “nova”, de serviços, interativa, leve, “2.0”, não chegou, não se tornou a forma padrão de fazer as coisas ou onde, quando chegar de verdade, vai mudar de vez a forma de fazer as coisas? É bom lembrar que podemos medir o tempo, aqui na Internet, na forma 10DW, ou dez anos desde a web. E não precisamos dizer que ela mudou muito do mundo e, onde virou padrão e forma de fazer as coisas, mudou tudo. Há quanto tempo você não entra numa fila de banco pra pagar uma conta? Eu nem me lembro mais da minha última vez. Mas ainda falta muito, tanto em diversidade quanto em intensidade e universalidade, para a web ser “a” forma de fazer as coisas... cadê, por exemplo, o mapa do engarrafamento das ruas de nossas cidades no painel dos carros, dando sugestões coerentes e inteligíveis, em tempo real, sobre a melhor forma de chegar em casa, mesmo que por um caminho muito mais longo e original?... Aqui no carnaval de Recife, em muitas partes da cidade, o trânsito toma ares de São Paulo em seus piores dias e não há quase nada a fazer. Chegar nas concentrações dos blocos é sempre um feito magnífico e nós, pernambucanos, teríamos muito a dizer -- e fazer -- sobre a integração da web, carnaval e trânsito. Quando não fosse possível, mesmo com a ajuda de mashups (integração de informação e serviços, na web) chegar antes do bloco sair, bem que o estandarte poderia ter GPS, para localização, integrado com áudio, vídeo e uma medida (mais um mashup) da animação da saída. Mas, como a coluna não é sobre o carnaval, vamos tentar levar a coisa a sério: o texto de Battelle assume que a web está em todo lugar. Em quase todo, eu diria, está. Mas a intensidade e disponibilidade são muito desiguais; a rede que integra e disponibiliza áudio e vídeo ainda não chegou na maioria dos lugares de países como o Brasil. Isso torna impossível, para muita gente, fazer uso intensivo de coisas como YouTube, pois vídeo demanda muitas centenas ou mesmo milhares de kilobit

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Atualizado em 16/02/2007 - 17:27

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por segundo e isso só está disponível para muito poucos. Aí está uma “borda” óbvia da web: universalização do acesso em banda larga, para que a maioria das coisas sobre as quais se ouve falar de web 2.0, multimídia, sejam possíveis aqui e em outros países menos aquinhoados, a preços que se possa pagar. Mas não é só banda que falta. Pense em celulares. A web não chegou lá, devera, mesmo nos melhores lugares. Ou o custo é caro demais ou, quando suportável, os serviços, conteúdos e seu casamento com mobilidade são primários. Tirante voz, o principal uso dos celulares é o envio de mensagens de texto, o que os coloca numa era pré-web e mesmo pré-internet, coisa de 20 ou mais anos atrás, quando o máximo que se conseguia fazer em rede era mandar formas limitadas de emeio. Há um espaço enorme de oportunidades de casamento da web com mobilidade e certamente veremos muito disso nos próximos anos. Mobilidade tem a ver com espaço; integrar a web com celulares (e carros, trens, aviões, bicicletas...) nos dá uma certa liberdade espacial digital. Outra borda da rede são funcionalidades que dependem do tempo ou mexem com ele. Quanta coisa poderíamos querer fazer e não temos tempo? Não somente no sentido da escassez, mas da disponibilidade. Temos tempo noutra hora, mas não no momento em que as coisas estão rolando. Integrar nossa disponibilidade com o conteúdo que queremos ver, ouvir ou produzir vai ser muito importante e demandará ainda muita inovação e serviços. Coisas como IPTV, que discutimos aqui na semana passada, vão mudar o mundo e se tornarão padrão em pouco tempo, ameaçando inclusive os modelos broadcast, abertos, de TV, mesmo o digital. Juntando espaço, tempo e integração de áudio e vídeo, há muitas razões para supor que vamos ver inovações, na web, que possibilitem interação de qualidade, entre muitas pessoas separadas por distâncias de milhares de quilômetros. Já cheguei a viajar dez horas de avião para participar de uma reunião de três horas. Juntando o mesmo tempo pra voltar pra casa e as esperas e traslados nos aeroportos, lá se vão trinta horas, o que reduz o uso útil de meu tempo a menos de 10% do total. Mexer com espaço e tempo integrando áudio e vídeo pode, entre outras coisas, diminuir a demanda global por transporte, limitando uma das principais causas do efeito estufa. Taí uma outra borda muito importante da rede. Viajar pra conferências e reuniões é apenas um caso extremo de ir para o trabalho. Novas formas de trabalho, possibilitadas por usos inovadores da web, poderiam reduzir significativamente a necessidade das pessoas baterem o ponto em algum lugar onde, por absoluta falta de alternativa, todos têm que estar juntos. Isso não quer dizer que o trabalho vai ser feito em casa, coisa que pode ser impossível para muitos. William J. Mitchell, professor de arquitetura do MIT, escreveu em 1999 um pequeno livro (etopia: Urban Life, Jim--But Not As We Know It), no qual discute como os pontos de encontro mais importantes da humanidade -- as cidades -- podem ser redesenhadas com e pela Internet. Ao invés de informatizar o que existe, sobre as estruturas que existem, impondo à rede a ordem da cidade, Mitchell propõe que pensemos como as estruturas leves e flexíveis da rede poderiam ser usadas para desconectar os aglomerados urbanos, ao mesmo tempo conectando, reconectando e reunindo pessoas (veja slides de Mitchell, sobre o livro, aqui. Nossas grandes cidades estão em crise profunda. Não bastassem trânsito, enchentes, violência e poluição, agora somos engolidos por buracos pequenos e grandes. O que Mitchell já dizia sete anos atrás, bem antes da micro-revolução de web 2.0, é que a Internet pode muito bem ser o novo fio
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condutor das interações humanas, reestruturando o mundo físico no qual ela própria está embutida. Mais cedo ou mais tarde, vai ser por aí mesmo. É capaz até de mudar muito e, quem sabe, melhorar o carnaval. Pensando bem, tomara que só melhore fora dos meus blocos e maracatus. Dentro, se melhorar, estraga. Feliz carnaval a todos...

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Ora (direis) ouvir... blogs!23
Há um mundo inteiro de conteúdo lá fora, na web, e nosso maior problema não é só encontrá-lo. É descobri-lo dentro de contextos que façam sentido, agregado a outros conteúdos que façam sentido em conjunto. Aí é que entra... Olavo Bilac começa seu mais famoso soneto dizendo... “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o senso!” e continua: “E eu vos direi, no entanto,/ Que, para ouvi-las, muita vez desperto/ E abro as janelas, pálido de espanto...” Publicado em 1888 na coletânea Via-Láctea, é difícil encontrar um brasileiro letrado que não saiba pelo menos a abertura, escrita pelo príncipe dos poetas numa época em que ouvir estrelas não fazia o menor sentido. A não ser na cabeça e na alma do grande parnasiano. De uns tempos para cá, à medida em que a disponibilidade de banda larga foi se tornando maior, o conteúdo multimídia --aquele além do texto, puro e simples-- começou a ser a estrela da internet e nós começamos a nos acostumar a ouvir e ver na rede muita coisa que aconteceu, ou acontecerá, no rádio, na TV ou no cinema. Ou, melhor ainda, que não aconteceu e nem vai acontecer lá, fazendo aí a rede seu maior papel, o de conectar pares. Ou interessados: certa cena de sexo na praia, por exemplo, não passou e nem vai passar na TV nem tão cedo. Todos e cada um de nós temos nossas fontes de conteúdo na internet. Tem gente que passa horas em YouTube, vendo os vídeos, como se diz na minha terra, mais “abestados” do mundo. Ou ainda mais tempo vendo os programas e filmes inteiros disponíveis em smashing telly, um exemplo de “wist” ou web list, onde pessoas escolhem e, muitas vezes, editam conteúdo à mão para o formato web. Um bom exemplo é o excelente documentário de Richard Dawkins (inteiro, quase duas horas) The God Delusion... ou “o” filme de ficção Alphaville, de Godard, feito em 1965, que não está em quase lugar nenhum na web. Se você não está vendo, deve estar ouvindo muita coisa boa. Como RecifeRock, que dá um noção muito boa das mais de trezentas bandas --a maioria desconhecida do grande publico, no Recife e fora dele-que povoam a cena de música roqueira e assemelhada, nova e velha daqui de MauritsStadt. Ou SomBarato, um audio blog novo que tem de Itamar Assumpção a Cartola e Chico Science, passando por Siba e Dilermando Reis, em versões muito difíceis, ou impossíveis, de encontrar. RecifeRock, tem uma licença Creative Commons e boa parte de suas faixas não está publicada em nenhum outro meio que não a internet; SomBarato aponta para repositórios de arquivos que têm discos e CDs inteiros, servindo mais como um “diretório” de conteúdo. Aqui começa nossa verdadeira história: no meio de tanto “imaterial” disponível na rede, publicado por tanta gente, que conteúdo é interessante e, ainda mais, me interessa? O caos é a norma da rede, hoje: um dia, as coisas existem; no outro, não.... um dia estão aqui, no outro acolá; e mais, é tanta coisa produzida por tanta gente que a enxurrada de conteúdo é inadministrável para um mortal comum que só tem 24 horas no dia. Ou menos, se fizer qualquer outra coisa além de navegar. Tem gente como Anthony Volodkin pensando nisso. Ele --que ainda é a banda de um só por trás do
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projeto-- pôs no ar há algum tempo, mas talvez você ainda não tenha visto (e ouvido!), Hype Machine, um serviço que procura links pra MP3 mundo afora (quase nada no Brasil), publica uma lista quase instantânea do que está achando na rede, aponta para os blogs onde os links estão e descobre se estão à venda em Amazon, eMusic ou iTunes. Mas não só: Hype Machine “sintoniza” um blog, uma busca e os últimos links agregados por ele pra você como se fosse um playlist. O “tocador” do site manda a música no contexto, ligando o que você ouve ao blog e ao texto, no blog onde o link está, sobre a canção. Assim, você pode “ouvir” uma busca por Fela Kuti (114 links, menos de 10 ativos), um blog como Mars Needs Guitars (centenas de links ativos) ou deixar Hype Machine ir “tocando” pra você o que ele estiver encontrado nos blogs que varre. Teve quem dissesse que o site era o “novo” Kazaa. Não é, não há troca de conteúdo lá, nem estímulo para que haja. Ao contrário, Volodkin ganha uma percentagem quando alguém compra uma música que ouviu no site; seu modelo de negócios depende das pessoas comprarem --e não copiarem-- música. Mas é possível, claro, ir atrás dos links que estão nos blogs e, dependendo do que você fizer, pode ser ilegal no país onde você mora. Independentemente disso, trata-se de um jeito muito inteligente de criar um diretório de música dinâmico, na web, adicionando contexto e agregação de uma forma muito esperta. Semanas atrás apontei, nesta coluna, usando uma apresentação da Bear Sterns, que agregação e contexto, ao invés de conteúdo, poderão ser as coisas mais importantes do futuro (de negócios de conteúdo) da rede. Depois de ler este texto, vá comparar Hype Machine com seu ambiente e comunidade de “troca” de conteúdo multimídia, pra ver as diferenças. Hype Machine está na lista dos sites mais importantes --e interessantes-- de música do jornal inglês "The Observer", entre muitas outras. O site está entre os melhores da última Mashup Unconference e faz por merecer. No topo disso, Om Malik, um dos principais analistas da onda de web de serviços (ou web 2.0) está se perguntando se 2007 é o ano dos mashups de música, pois o segundo lugar da Mashup Unconference também é do mesmo tipo. Como se não bastasse, tem gente de música e investimento dizendo que… “Hype Machine é a melhor coisa que aconteceu à música desde os Rolling Stones!” A frase é de Fred Wilson, investidor e roqueiro. Se você quiser saber mais sobre os vinte anos de criatividade e empreendedorismo do criador e do site dê uma olhada na Business 2.0 de outubro passado. Mas bom mesmo é ler e ouvir Hype Machine que é, há algum tempo, uma de minhas “rádios” prediletas… Vá lá. Você provavelmente nunca (ou)viu nada igual. Voltando ao começo, bastou a criatividade de um poeta para “ouvir” estrelas e se perpetuar no imaginário nacional. Um menino, de seu quarto de estudo em New York, cria e mantém, sozinho, um serviço inovador que empresas de centenas ou milhares de pessoas não conseguiram imaginar ou fazer funcionar. Se ele fez, qualquer um dos meninos-programadores-que-gostam-de-música poderia ter feito nos quartos de seus apartamentos em Recife, São Paulo ou Rio ou qualquer outro lugar do Brasil. Certas horas eu me pergunto porque não fizeram ou porque não estão fazendo outras coisas, diferentes, mas tão criativas quanto. Será que perdemos, depois de Bilac, a capacidade de “ouvir estrelas” ou, neste caso, blogs?...

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A nova aristocracia24
Um grupo não muito pequeno de pessoas está por trás das tecnologias de informação e comunicação que tornam a internet uma realidade. Seriam eles a aristocracia da rede, da informação e da comunicação? O escritor Luís Fernando Veríssimo é um usuário competente da internet. Não só ele, mas gente que passa por ele e bombardeia nossos emeios com escritos “assinados” por LFV. Segundo Veríssimo, que entende o caos da rede de hoje, enquanto não o processarem por isso, tudo bem. Veríssimo é o entrevistado da revista Mídia com Democracia de janeiro de 2007 (pegue aqui o .pdf) e a conversa acaba assim: “MCD – Como o senhor avalia as novas ferramentas de comunicação eletrônica do ponto de vista da democratização da comunicação? Veríssimo – Há uma democratização da comunicação evidente, mas também me parece que se formou uma espécie de aristocracia mundial, ligada não por laços de sangue nobre, mas pelo domínio da nova tecnologia. E uma aristocracia que raramente larga o computador e vai para rua ver como vive a humanidade real. E é meio assustador pensar no poder que eles estão acumulando sem sair de casa.” Como a resposta parece de Veríssimo, está ao lado de uma foto dele, impressa numa revista séria (que tenho em papel de verdade), ele deve ter dito isso mesmo. Pois bem. Aristocracia vem do grego aristokratía, αριστοκρατία. Aristos significa “os melhores”, mais capazes, mais competentes. E kratía é poder, governo, “dar” ou definir as regras. Por outro lado, a aristocracia era “os bem nascidos”, que iriam mandar sem serem necessariamente melhores, mais capazes ou competentes. Este é o siginificado que a palavra tem hoje, meio longe do original grego. Veríssimo usa as duas acepções em sua resposta, e se assusta ao pensar que uma certa população da rede é, hoje, uma aristocracia, um grupo que tem poder pelo seu conhecimento e habilidades essenciais ao funcionamento do mundo digital. Quem são? Programadores, engenheiros de software, pilotos da rede, de sua confiabilidade, performance e segurança, hackers em geral, do bem e do mal e mais todo mundo que domina as tecnologias da informação e comunicação acima dos mortais comuns, como nós, que só sabemos navegar, publicar um texto, foto ou vídeo e buscar, encontrar, trazer, instalar um software e usá-lo, isso se não houver o que configurar. Até aí, novidade zero: na história, em qualquer época, houve aristocracias do saber e competência… os “codificadores” atuais, exemplificados pelos programadores de todos os tipos, são apenas a aristocracia da hora. Com uma gigantesca diferença: na rede, o código, o software, é a regra. Define o comportamento, cria alternativas, limita opções. Lawrence Lessig, em Code and Other Laws of Cyberspace, já deixava claro em 1999 que code IS law: código é lei. E quem faz a lei tem poder. Grande discussão pra futuros próximos… e por muito tempo. Porque o futuro será codificado em software. E na rede, sem que as pessoas (pelo menos as que codificam a rede) precisem “sair de casa”, pois a casa delas é a rede. E no futuro não será a rede que estará no “mundo real”, mas o “mundo real” que estará na rede…

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Voltando à aristocracia, já houve época em que o mundo era movido a textos religiosos, guias de moral e conduta, tábuas da lei, escadas para a salvação. Na aristocracia dos textos sagrados da Idade Média, os monges copistas estavam lá no alto. Hoje, software cuida da freio ABS a imposto de renda. A cada dia, mais serviços, mais complexos, são oferecidos para mais gente, e haverá muito mais software cuidando de quase tudo que alguém pensa em começar, sem falar do que já existe. À medida que a economia acelera, em parte por causa de software, haverá mais software, mais sofisticado, feito em prazos mais exíguos, com exigências crescentes de funcionalidade, qualidade, rapidez e satisfação. Tudo isso tem que ser especificado, desenhado e projetado para ser, em última análise, “programado” pela tal “aristocracia” de que nos fala Veríssimo. Milhões de pessoas vivem da escrita de código em todo o mundo. Muitos não se imaginam e tampouco se sentem aristocratas. Os programadores da Índia, daqui e dos EUA são os equivalentes modernos dos monges copistas: por horas a fio, deitam olhos sobre especificações (no caso dos monges, livros a copiar; hoje, requisitos a implementar) e produzem o código que faz funcionar a sociedade. Algo me diz que os monges-programadores (e seus estagiários), esperam (uns ansiosos, outros preocupados) pelo Gutenberg da programação. A prensa de tipos móveis dizimou a profissão de “copista” em cinqüenta anos. Meio século de programação de computadores multiplicou por mais de 500 o número de instruções executadas pelas máquinas em relação às linhas de código escritas pelos programadores. No médio prazo, o ato de escrever código vai ser ainda mais modificado por ferramentas de melhoria de produtividade e qualidade. Durante muito tempo, ainda, vamos ter programadores escrevendo código “fonte”. Mas não há dúvida de que uma parte cada vez maior da tarefa --a parte menos criativa e mais repetitiva-- será construída de forma automática a partir da especificação, por um ou mais tipos de geradores automáticos. Os programadores, nossos “aristocratas”, terão que subir degraus na escada da competência e trabalhar em problemas mais abstratos do que as declarações de variáveis e trechos de código que são obrigados a repetir dia após dia, hoje. E isso não será novidade. Sempre que dependemos de milhões ou dezenas de milhões de pessoas para realizar tarefas repetitivas, inovação e automação mudam os métodos e processos para sempre e a vida dos humanos para melhor. Em programação, não vai ser diferente. E a mudança já começou, e há algum tempo. E não há porque temer desemprego em massa, como sempre é o caso quando nos damos conta de que os parâmetros de desenvolvimento tecnológico estão para mudar. Uma nova onda de tecnologia cria necessidades de trabalho maiores do que a anterior. Mais elaborado, mais educado, mais sofisticado, mais bem remunerado. Danado é que as “aristocracias da hora” continuam se agarrando, quase sempre, às migalhas derradeiras de poder, mesmo quando as mudanças estão destruindo seus tronos. Aos programadores, a todos técnicos e engenheiros da rede e da informática, aristocratas de Veríssimo, talvez valha a pena lembrar que a verdadeira aristocracia é a dos mais capazes e competentes. Para ser parte dela, é preciso desaprender passados e aprender futuros, enquanto se executa, e muito bem, o presente.

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Começar. E começar de novo.25
Uma das coisas mais difíceis do mundo é começar um novo negócio. Muito mais difícil é mantê-lo vivo por muito tempo. Em tecnologias da informação, a coisa se complica porque tudo muda muito rápido. Mas sim, há esperança... Apesar dos agouros, da China e dos terremotos de suas bolsas, ecoados na Ásia de crescimento rápido, o mundo não vai acabar. Isso é muito bom, até porque a lista de empresas de computação e comunicação (TICs) que pretende fazer uma oferta pública inicial de ações (IPO) no mercado americano tem mais de 150 candidatos. É bom lembrar que Yahoo, Amazon e Google, só para citar três dos maiores, foram IPOs memoráveis.

Inovação é o que move o mercado de internet, como de resto quase todos. E inovação depende de novos negócios, novas empresas, novas tecnologias, novos entendimentos do cenário. Depende da criação de novas visões de mundo, de novos modelos de negócio, da mudança de comportamento dos consumidores e dos fornecedores de tecnologia, coisas muito difíceis de fazer dentro de conglomerados de milhares ou dezenas de milhares de pessoas, com estruturas estáveis de produtos, serviços, processos e, principalmente, com hierarquias poderosas e consolidadas. Não que grandes empresas não inovem. Mas a energia gasta para fazê-lo é imensa. Basta lembrar o computador pessoal, o PC feito lá no começo pela IBM. Que não foi feito pela IBM antiga mas por outra, quase subversiva e pirata, que existia fora de toda a cadeia de valor, decisão e comando da “velha” IBM. O PC é um feito histórico, dentro de uma empresa daquele tamanho. Os exemplos são muitos, e cada um nos dá a idéia de como é difícil mudar, mesmo dentro de negócios inovadores. Eu tenho histórias inacreditáveis para contar sobre as dificuldades de inovar dentro de um instituto de inovação como o C.E.S.A.R, onde sou o cientista-chefe e responsável pela... inovação! Por isso é que não se pode menosprezar a importância de novos negócios para a economia e para a criação de oportunidades de desenvolvimento pessoal e social, sem o que produtividade e competitividade dificilmente aumentam acima da média. Por serem campos férteis à criação de empresas inovadoras é que EUA, China, Cingapura e outros países crescem como crescem. No outro extremo, lugares como Portugal e Brasil são terrenos pouco hospitaleiros para mudanças, principalmente de regras de negócios, ao mesmo tempo em que não há uma indústria de investimento de risco que fomente a criação dos tais negócios inovadores (como na Califórnia, mais especificamente no Vale do Silício). O resultado é que andamos de lado enquanto os outros voam. Mas os otimistas, e mesmo os realistas, nunca desistem, São como times do interior da Paraíba jogando contra o São Paulo: quase certamente vão perder, mas se não jogarem já terão perdido. O importante, em inovação, é jogar e tentar mudar as regras, o jogo inteiro, o adversário, o juiz, durante o jogo. Não pela via dos tapetões do futebol. A mudança é através do redesenho do cenário, da reconstrução das
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expectativas, da introdução de técnicas e regras nunca dantes imaginadas. É isso que se faz num novo negócio de tecnologia. Um livro precioso, “Founders at Work” (Fundadores Trabalhando), 500 páginas sobre as dificuldades dos fundadores de negócios inovadores, acaba de ser lançado noa EUA e mereceu uma resenha-elogio do guru americano Guy Kawasaki. O texto ainda não tem tradução para o português mas, quando tiver, você que está pensando em começar um negócio (mesmo que não seja de tecnologia) deve ler. Ou, se seu inglês dá pro gasto, vá atrás do original agora. Pra ler declarações como a Steve Wozniak, um dos fundadres da Apple, lembrando que “as melhores coisas que fiz na Apple vieram de não ter muito dinheiro para fazê-las e nunca ter feito nada parecido, antes”. O que desmonta a noção de que só se faz um grande negócio com muito dinheiro. Ou com experiência. Negócios inovadores dependem da conjunção de duas artes. Uma é a de interpretar, onde se repensa e recria o mercado ou se define novos mercados, às vezes a partir de novas tecnologias ou novos usos de tecnologias existentes. Ou de tecnologias que precisam existir... A outra é a de analisar, onde olhamos para mercados existentes e imaginamos como podemos mudar padrões de comportamento, nosso e dos consumidores, na maior parte das vezes através de tecnologia. Nenhuma das duas é trivial e, em ambos os casos, a parte mais difícil é convencer os investidores. No livro de Jessica Livingston, Sabeer Bathia, fundador de Hotmail, diz que só falava a verdade sobre sua idéia real se não fosse rejeitado pelas “razões erradas”, ou seja, por ser novo, nunca ter administrado nada, por aquela ser sua primeira tentativa de criar uma empresa... Quando o “candidato a investidor” passava neste teste e começava a questionar a idéia e as dificuldades de execução, aí ele apresentava Hotmail. Isso era antes do site ser lançado, em julho de 1996. Trinta meses e trinta milhões de usuários depois, a Microsoft (que sabia tudo do assunto e poderia ter lançado o serviço a custo quase zero, para ela) pagou US$ 400 milhões a Bathia, Jack Smith e investidores para adicionar Hotmail à família MSN. Certos tipos de inovação nunca vão sair de onde, se o mundo fosse óbvio, deveriam ter saído. Se você está começando, é bom lembrar que negócios de tecnologia são, na verdade, de marketing e vendas. Nunca acreditei em empresas “de tecnologia” e sim em empresas e empreendedores que vendem e, depois, entregam o que prometeram. Estes conseguem começar e recomeçar sempre que for necessário. Evan Williams, que também está no livro e começou os blogs de fato em Blogger.com, em 1999, levantou dinheiro no próprio site, reconhecendo em público que o serviço era lento, precisava de mais servidores e, claro, de investidores. E o dinheiro veio. Williams não sabia vender só o serviço, mas a própria companhia, o que fez primeiro para investidores e, depois para Google, em 2003. Mais um exemplo de uma grande companhia que não conseguiu ver o óbvio, ou as ferramentas de expressão pessoal na rede, e teve que pagar uma fortuna (não revelada) para adicionar Blogger à sua marca. É bom lembrar também que, no começo, todo mundo tem que fazer de tudo pro negócio dar certo. O pessoal de Yahoo merece o que tem hoje: quando a energia da Califórnia pifou em 1995, no começo do negócio, os fundadores trabalharam em turnos, dia e noite durante quatro dias, para alimentar com diesel os geradores alugados e manter o site no ar. Tivessem deixado pra lá, talvez o mundo tivesse, também, desistido deles. Acima de tudo, se vocês são mais de um (tomara que sejam!) se lembrem de preservar a o respeito, a admiração e o carinho do relacionamento. A maior parte dos negócios de tecnologia dá errado e vocês, muito provavelmente, vão ter que começar de novo. Antes disso, leiam o livro de Livingston...vai ajudar.

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Vovó vendo TV...26
Após muitos anos devagar quase parando, há sinais variados de que podemos vir a ter um surto de mudanças nas comunicações no Brasil. Será mesmo? O ciclo de negócios iniciado pela privatização das telecomunicações no Brasil está esgotado há algum tempo, na opinião de quase todos os agentes de mercado e governo. Só que ninguém dizia isso em público por várias razões. Em países como o Brasil, onde as malha legislativa, fiscal e regulatória são confusas e instáveis, a praxe, principalmente do lado do mercado, é fingir-se de morto ou aparentar uma saúde de ferro. Porque as coisas nunca estão tão ruins que não possam piorar de uma hora pra outra... Nos últimos dias, no entanto, ouvimos do ministro das Comunicações --entre outras declarações-- que as teles podem ter operações de mídia, que a licitação da terceira geração da telefonia móvel deve ocorrer rapidamente e que o marco regulatório do setor precisa ser revisto. No topo disso foi criado um conselho para cuidar do desenvolvimento de rádio digital no país e o ministro do Desenvolvimento declarou que os impostos dos setores de tecnologia e comunicação serão diminuidos em 90 dias. Como se não bastasse, apareceu mais um projeto no Congresso sobre distribuição de conteúdo, elevando para três o número de propostas já em discussão formal. Como diriam os antigos, alvíssaras! Nenhum destes indícios que dizer que algo de porte será feito nos próximos meses. Afinal de contas isso aqui é o Brasil. Mas o simples fato de que os principais atores estão se movimentando no cenário cria novas esperanças de resolver alguns dos nossos grandes problemas de comunicação e mídia, quem sabe até abra a possibilidade de inovações feitas e usadas aqui ganharem espaço no mercado local e internacional. Os movimentos tampouco apontam na direção de mudanças radicais, como seria o caso de uma “reforma agrária do ar”, uma reviravolta processo de concessão de “espaço aéreo” para estações de rádio e TV, face às novas possibilidades criadas pelas tecnologias digitais que entrarão no mercado em breve. Apesar de discordarem sobre o que precisa ser regulamentado e mudado no cenário que se avizinha, não passa pela cabeça dos executivos de mídia e telecomunicações discutir uma revisão completa das bases legais que sustentam o mercado. Nada, por exemplo, de levar para as teles que se tornem operadoras de mídia as regras de propriedade nacional às quais estão sujeitos os negócios do setor de comunicação social. Mas, se isso não for discutido e revisto, vai-se mudar o que, mesmo? Pense na alocação de espectro, pra começar. No momento, espectro (as “freqüências” usadas por rádio, TV...) é um bem escasso, porque duas estações de rádio ou TV operando no mesmo lugar, na mesma freqüência, vão interferir uma na outra. Mas há um amplo debate mundial sobre os sistemas tradicionais de distribuição de freqüência, com uma parte da comunidade advogando que o atual mecanismo governamental de concessões inibe inovação e competição. Teríamos disposição e energia para trazer tal discussão para o cenário nacional e rever as bases da competição por aqui? Parece que a vontade de discutir o cenário e de introduzir mudanças é muito mais para acomodar situações

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inevitáveis de mercado forçadas pela introdução de novas tecnologias do que para pensar, de verdade, o futuro. Pelo menos isso é o que me dizem os digibúzios que joguei depois de ouvir tanta gente falando sobre “mudança”... Falando nisso, consideremos a renovada energia que se encontrou pra trazer mobilidade 3G para o Brasil. O que está acontecendo em 2.xG (a geração de celulares que temos)? Em fevereiro, a base de assinantes de celulares no país cresceu apenas 0,46%. Em termos práticos, todo mundo que poderia ter um celular já tem. Qual é a conseqüência disso para as operadoras? Uma disputa cada vez mais acirrada, de menores retornos, pelos mesmos clientes. Como não temos um modelo para a mobilidade chegar às mais de 3.500 cidades onde não há cobertura, de maneira que os usuários não paguem os olhos da cara e, ao mesmo tempo, as operadoras sejam remuneradas, a saída do mercado é apelar para a introdução de 3G onde já há cobertura. O que é óbvio. O que não é óbvio é que, ao discutir a mudança regulatória para telecomunicações, enquanto ao mesmo tempo discutimos rádio e TV digital, precisamos levar em conta a convergência digital que está mudando, agora, tudo o que envolve computação e comunicação. Para se ter uma idéia, dados do governo japonês (de onde vem o modelo da nossa TV digital) mostram que mais de 80% do e-commerce feito por pessoas de 15 a 19 anos de idade, lá, é feito através do celular... num cenário em que o número de pessoas entrando na internet via celular excede aqueles que estão na rede via computador. No Japão, claro, a telefonia móvel é 3G. Isso quer dizer que a mesma coisa aconteceria aqui? Certamente que não; há diferenças culturais, de renda e de esparsidade da população que talvez levassem a um uso muito menor de celulares 3G para acesso à rede no Brasil. Mas deveríamos discutir isso, pensar como os mecanismos regulatórios estimulariam tal tipo de uso? Certamente que sim. Tais discussões seriam uma forma de interpretação, de antecipação do futuro e poderiam criar novos usos de tecnologias de comunicação no país, olhando sempre para o bem comum. As empresas precisam ser remuneradas, claro. Mas a sociedade é bem maior e suas demandas explícitas e implícitas deveriam estar na linha de frente do debate. Não há energia para se rediscutir o mercado de TICs e sua regulação a cada três ou cinco anos. E muito menos isso interessa do ponto de vista econômico, pois o retorno dos investimentos, fomento para as próximas gerações de soluções, leva tempo. Pelo que tudo indica, nós vamos começar alguma rediscussão agora, depois de dez anos da LGT, uma respeitável vovó que fica sentada em sua cadeira de balanço vendo a novela das oito. Uma vez por década, parece, iremos lá trocar a sua cadeira de lugar... Por isso mesmo, agora é a hora dos mais variados grupos de interesse se articularem, antes da discussão começar, para combinar o que queremos que mudar de qualquer jeito, o que discutiremos e, se concordamos, mudaremos e o que deixaremos, por fim, para a próxima grande discussão, daqui a dez anos. Lembrando que os avanços dos próximos dez, de forma relativa, poderão ser bem maiores do que os dos últimos vinte... Ou tal articulação acontece ou continuaremos onde estamos, vovó vendo TV e nós, na janela, vendo a banda da inovação passar... para outros países.

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Drogáudio, o novíssimo ruído da internet27
A “última onda” da rede é a promessa de usar sons, aparentemente seguros, para ter efeitos pessoais equivalentes a drogas. Vai funcionar? Se funcionar, vão tentar controlar? Como? Imagine o cenário: traficantes em batalha de rua, mundo se acabando ao redor, para proteger e ampliar seus pontos de distribuição de... som. Ou então, numa cidade do interior, a “difusora”, aqueles altofalantes espalhados pelos postes do lugar, transmitindo um beat que leva a galera a níveis de energia nunca dantes navegados por ali. Como conseqüência, os liberados pela nova moda terão criado situações que levarão o padre, o delegado e o juiz a reconsiderar os hábitos e relacionamentos do povo de lá. Os dois casos são extremos e têm pouco a ver com a promessa de i-doser: beats que poderiam alterar significativamente o comportamento do cérebro, como se você estivesse drogado. Mas e se a coisa funcionasse mesmo, e em larga escala? Veja o que diz, no site da empresa (em “experiences”), um certo Leo Jampolsky, depois de “ouvir” a erva maldita: “eu me senti sob os efeitos da descrição (do som, promovido como marijuana); meu corpo ficou leve e eu relaxei, até o ponto em que comecei a gargalhar sem nenhuma razão”. Uau. Mas i-doser, a companhia, não está fazendo nada de novo. Em particular, o processo sonoro usado para estimular o cérebro, conhecido com binaural beats, foi descoberto há mais de cento e cinqüenta anos por Heinrich Dove e redescoberto em 1973 por Gerald Oster, como parte de estudos para diagnóstico, por exemplo, do mal de Parkinson. Quem sofre da doença normalmente não consegue perceber os beats, o que melhora significativamente com o tratamento. E Oster também determinou que os beats poderiam ser usados para identificar deficiências auditivas. A idéia por trás de binaural beats é usar duas freqüências sonoras próximas uma da outra para criar estímulos auditivos correspondentes aos modos de “vibração” naturais do cérebro, normalmente entre 0.5Hz (um ciclo a cada dois segundos, correspondente ao sono profundo, modo delta) e 40Hz e acima (quarenta ciclos por segundo, alerta total, modos beta e gama). O mecanismo é conhecido desde (entre outras culturas) a américa pré-colombiana: os incas usavam fontes sonoras para criar beats que serviam de trilha para suas cerimônias. Hoje se sabe que os beats podem ser usados para induzir estados mentais bastante estudados como o de meditação, que surge entre 8 e 13Hz. Mas a controvérsia em torno do tema, apesar de uma base científica cada vez mais sólida, é muito maior do que o auê gerado por i-doser e sua promessa de drogas sonoras. Já discutimos nesta coluna outros processos de mudança de estado cerebral, como as diversas tentativas de controlar o sono, usando inclusive polarização elétrica do cérebro. Os beats, como as drogas inteligentes contra o sono e o uso de dispositivos eletrônicos para induzir estados cerebrais, são parte das nossas tentativas de programar a parte mais complexa do nosso corpo, justamente a que raciocina e reflete. Tais processos de modificação, ou de ampliação da capacidade humana, fazem parte de uma tendência muito antiga de modificação corporal (ou body mod), onde o corpo é tratado como uma plataforma (programável) à qual se quer adicionar, suprimir ou ampliar funcionalidades naturais.

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Pode ser algo muito simples, como fez Quinn Norton ao implantar um magneto no dedo indicador e passar a “sentir” campos magnéticos. Ou muito complexo, como o caso de Steven Gulie, que implantou um “marcapasso” para tentar controlar o avanço do mal de Parkinson usando estimulação profunda do cérebro numa cirurgia que custou mais de meio milhão de reais (coberto pelo plano de saúde dele). O caso de Gulie, descrito pelo próprio, é uma excelente leitura para quem tiver algum interesse no assunto. Voltando aos drogáudios, e obviamente a seu próprio risco (e sem que esta coluna esteja estimulando qualquer tipo de uso de drogas) o leitor pode pegar grátis o Brain Wave Generator e, neste outro link, algo que eles chamam candidamente de LSD e está na rede para qualquer um experimentar. A coluna não tentou. Para um barato mais leve, que tal este aqui para surfar? E BWGen não é o único software grátis que você pode pegar para ouvir, ou sentir, o que acontece: GnAural é um projeto de software aberto onde você pode entender como a coisa funciona, se sabe programar, e contribuir para o desenvolvimento, se estiver afim... o que aumenta suas possibilidades criativas muito além da simples programação do gerador de beats. De resto, você não precisa de software para ouvir binaural beats. Há quem combine música com beats, tornando a audição mais interessante do ponto de vista estético. Finalmente, pode ser que, usando o material da i-doser ou de qualquer outra fonte ou promessa, você não vá viajar pra lugar nenhum. Mas há cada vez mais evidências de que o uso continuado de binaural beats pode diminuir ansiedade. Mesmo que sirva só para isso, já vai melhorar muito a qualidade de vida de muita gente. Danado vai ser se tentarem controlar a coisa, talvez porque beats como marijuana e LSD realmente tenham algum efeito (minimamente) parecido com as drogas. Aí teríamos drogas virtuais e vícios reais, o que não seria também nenhuma novidade... Mas o que vai rolar de beats nas redes P2P e em torrents vai saturar a internet de uma vez por todas. Sem falar na quantidade de spam com drogas de todos os tipos, legais (no bom sentido) ou não. Mas pelo menos não haverá balas perdidas na rede. Tomara.

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

A ameaça do “Googlepólio”28
O Google tem dinheiro, velocidade e corre riscos. A muitos, parece estar criando o que pode vir a ser o verdadeiro monopólio de “organização” de informação na web. Será que os competidores vão esperar sentados? A essa altura do campeonato todo mundo já sabe que o Google comprou a DoubleClick, um negócio de publicação de anúncios na web, que era propriedade de dois fundos privados, por US$ 3.1 bilhões em dinheiro vivo, tirando a Microsoft (entre outros possíveis compradores) do jogo. A empresa de Redmond, que tem um negócio de anúncios como o do Google, mas com uma performance muito menor, parece que estava disposta a pagar pouco mais de US$ 2 bilhões e pulou fora da disputa. Nessa transação, o Google pagou o dobro do que tinha gasto para ficar com o YouTube. A DoubleClick faturou US$ 300 milhões no ano passado e havia sido comprada, em 2005, por US$ 1.1 bilhão -- o que levou muitos analistas a discutir o que, exatamente, aconteceu com a empresa em dois anos que a tornou tão valiosa. Pelo menos para o Google. Uma das respostas é que Eric Schmidt comprou a empresa para evitar que a Microsoft fizesse o mesmo. Só que o alvo não era só a Redmond, mas também o Yahoo: o Google não tinha (até a semana passada) uma rede de servidores de banners (sim, os velhos banners) e “rich media” (ou “mídia rica”, propagandas interativas em flash, vídeo), a tecnologia, a prática do negócio e seus clientes. Agora tem. O que vai fazer com isso é outra história. Primeiro, pode haver conflito entre seus múltiplos modelos de negócio para anúncios: de um lado, aqueles simples, de texto, publicados por milhões de pessoas e empresas, que fizeram a fama e fortuna do Google até aqui; do outro, 1.500 clientes da DoubleClick, que estão entre os maiores anunciantes do mundo. A princípio, dois públicos complementares. Mas, o Google não tinha acesso até agora. Logo, por que haveria conflitos? Há quem diga que o primeiro atrito poderá vir de uma tentativa de tirar as agências de publicidade do jogo de uma vez por todas, desintermediando -- como é hoje o caso dos anúncios do Google -- a interação entre quem paga pelo anúncio e o site que o publica. Na verdade, trata-se de reintermediação, com o Google (ou o GoogleClick) assumindo o papel das agências, servindo de interface para o cliente programar seus anúncios diretamente. Resta saber se os grandes clientes vão querer pagar este pato, já que hoje pagam agências exatamente para se verem livres da complexidade de (também) programar a propaganda. Mas não é essa a única preocupação: a medida em que o Google (e suas aquisições) registram e interpretam cada busca, click e link que há na rede, as preocupações sobre privacidade e suas garantias tenderão a ser cada vez maiores. Especialmente a partir do ponto em que a empresa começar a ser percebida como um monopólio. Quase todo grande mercado, em todas as eras, tem seus monopólios, naturais ou não. A Microsoft detém, hoje, o quase monopólio dos desktops. Mas isso está nas nossas casas e, a não ser no caso de uma invasão, só nós temos acesso aos dados lá armazenados. E ainda, neste modelo, é possível trocar o software “X” pelo “Y”, quando nos aprouver. Estaríamos trocando funcionalidades apenas. O modelo do Google, e de uma web de negócios que funciona a partir de um software como serviço, é mais leve e

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sutil, e pode levar a monopólios ainda mais radicais. É só comparar a qualidade potencial de um negócio que está começando com a de um outro, estabelecido há anos, que já sabe exatamente quem você é, por onde anda, com quem conversa, que vídeos vê, o que compra e o que faz e o que não... Não, não há comparação. O potencial de criação de um monopólio a partir do Google e suas aquisições é imenso, e isso é parte do preço das ações da empresa na bolsa. Depois da compra da DoubleClick, não demorou muito para as companhias ameaçadas pelo controle cada vez maior do Google sobre anúncios online começarem a atacar o gigante pelo flanco regulatório. Mal foi anunciado o negócio, Microsoft, Yahoo, Time Warner, AOL, AT&T e outros, menos votados, já estão reclamando(ainda informalmente, mas isso vai virar briga) do “domínio” de Google e as suas “conseqüências” para a privacidade na rede. Bradford L. Smith, advogado da Microsoft, muito mais acostumado a defender a companhia nas batalhas em que ela própria vem sendo acusada de práticas anticompetitivas nos últimos anos, disse ao The New York Times que “… a compra do DoubleClick pelo Google combina os dois maiores distribuidores de anúncios online e ‘reduz substancialmente a competição no mercado de anúncios na web’”. Pois é, cada um sabe onde seu sapato aperta. Para um resumo da cobertura sobre esta confusão, clique aqui. Mas este não é o único debate sobre o assunto. Há cada vez mais especulação de que a Microsoft não compraria a DoubleClick de jeito algum, pois nunca adquire público e sim tecnologia, como no caso da absorção recente da TellMe por US$800 milhões. Isso pode estar errado, mas e daí? Daí, parece que Ballmer e amigos entraram na corrida pela DoubleClick só para forçar o Google a pagar mais… será? O fato é que agora o Google pode competir com o Yahoo na mesma plataforma de anúncios e a Microsoft fica ainda mais distante no mercado web. Mas ao mesmo tempo à frente no mercado de busca móvel e por voz (que é o que a TellMe faz). A corrida ainda não acabou. Façam suas apostas… e apostem também quando o Google vai ser processado por monopólio em alguma destas coisas, como anúncios na web, onde está eliminando, rapidamente, a competição.

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Blogs: 10 anos de (r)evolução29
Jornais muito antigos, no mundo inteiro, estão em sérias dificuldades. O editor do New York Times, pra citar um dos grandes, não sabe se continuará imprimindo o jornal daqui a três anos. O que os blogs têm a ver com isso?... Maio é o mês das noivas e abril é o mês dos blogs. Há dez anos, num dia de abril, Dave Winer começou a publicar um diário em rede que viria a ser considerado por muitos o primeiro blog. Claro que ninguém nunca saberá exatamente quem foi o primeiro, até porque muitos dos milhões de usuários que tinham páginas na web em 1997 publicavam coisas que pareciam com o que hoje nós chamamos de blog. À maioria daqueles “sites”, porém, faltava interação, a possibilidade do leitor dar sua opinião no rodapé do texto do autor, transformando cada entrada em uma discussão. Mas tudo bem: quase a totalidade dos blogs de hoje também não tem interação, seja porque a audiência não se interessa em comentar ou porque o autor não se interessa ou não tem energia para manter um diálogo com seus leitores. Mas daqui a pouco a gente chega no hoje. Como foi o ontem desta história? Meu ponto de partida pessoal é um artigo de Steve Harnad, publicado na revista Psychological Science em 1990 (Scholarly Skywriting and the Prepublication Continuum of Scientific Inquiry) enquanto ruía a cortina de ferro. Steve defende que os mecanismos acadêmicos de publicação de resultados das pesquisas também irão passar por uma “perestroika científica” e que tal revolução na produção de conhecimento iria ocorrer porque os mecanismos clássicos de discussão informal pré-publicação dos resultados, na forma de telefonemas, encontros, cartas e mesmo emeio (em uso na comunidade científica desde a década de 80) seriam ampliados “por um novo modo de relacionamento, incomparavelmente mais amplo e sistemático em sua distribuição, potencialmente global em escala e quase instantâneo em velocidade, ainda por cima sem precedentes nas formas de interação”. A conclusão do texto era que a interação entre os pesquisadores, através de “pré-publicações” e sua discussão na rede iria “reestruturar substancialmente” o processo de descoberta de conhecimento, através de uma (poética...) “escrita coletiva (no céu) da rede”, em uma “galáxia pós-Gutenberg”, formada por nós, pessoas, habilitadas pela rede e seu software. Errado ele não estava e tinha visto, logo na partida, as possibilidades da web. Talvez valha a pena lembrar que a web não nasceu por acaso. Sir Tim Berners-Lee concebeu a web (“teia”, como em “teia de aranha”), sobre a base da então elementar internet, como um mecanismo para distribuição de conteúdo, inicialmente olhando para resultados acadêmicos, interessado em resolver o problema de acesso à montanha de dados que o CERN, um dos maiores laboratórios de física do mundo, gerava e gera até hoje e onde ele, Berners-Lee, trabalhava. Em 1990, ia ao ar o primeiro protótipo da web, que já tinha endereços (URLs), uma forma de representar “páginas” (HTML) e um protocolo para sua transferência (HTTP), usados até hoje. Entre a largada da web e o tal primeiro blog foram sete longos anos, até porque o grande público só começou a ter acesso à rede em 1995, com o advento da internet comercial nos EUA e, logo depois, mundo afora. Não só a criatividade individual iria dar o ar de sua graça mas a rede passaria a ser um dos
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principais focos de atenção de investidores em todo mundo. De 1997 para cá, saímos de quase ninguém para cerca de um bilhão de usuários na web, quantidade e variedade de gente e interesses capaz de mudar, de verdade, o mundo e não só os processos de descoberta de conhecimento, como pensava Steve Harnad. Outras mudanças, tão radicais quanto a web, jornais e revistas online e blogs aconteceram em outros tempos. Pra ficar numa, correlacionada à atual, é só olhar para o efeito da prensa de tipos móveis de Gutenberg. Antes dela, a principal forma de disseminação dos textos era através dos manuscritos copiados por monges, em conventos. O processo não era apenas lento e caríssimo, mas controlado pela igreja e poderosos do lugar e por isso a circulação de informação era muito restrita. Gutenberg começou imprimindo uma Bíblia (de 42 linhas por página) e um formulário para negócios (que se preenchia para pedir perdão de pecados), dando uma clara idéia dos potenciais usos de sua inovação. Não por acaso, partiu dali o movimento que levaria Lutero a renovar a igreja e uma boa parte do reboot da Europa e do mundo, depois de séculos nas trevas. Há quem diga que quase tudo o que veio depois, inclusive a web, é puramente uma reconstrução digital do que Gutemberg fez, tal o impacto que sua tecnologia teve sobre a humanidade. Duvido. Gutemberg não pensou algo como a web e muito menos numa Bíblia interativa, com os leitores submetendo suas críticas para que ele, ao receber, reimprimisse o texto sagrado qual um wiki. Não dava para ver a wikipedia no horizonte de 1500. Talvez desse em 1750, mas essa já é outra história. Hoje, deve haver perto de 100 milhões de blogs por aí, incluindo na conta colunas como esta, que podem ter comentários no rodapé (ou seja, é um clog, uma coluna-blog). Aqui estamos num portal, que tem uma editoria e as coisas mais formais; num blog como o meu, tudo é mais zoneado e, entre notas de duas ou três linhas, há textos de dez parágrafos, imagens, apresentações, o que me dá na telha publicar. Inclusive o carnaval de Pernambuco. Nos blogs do mundo, publica-se de tudo: muita coisa boa, mas bem menos do que as coisas ruins e, como se não bastasse, muita coisa que seus autores vão querer tirar do ar, no futuro, e não vão conseguir. A “galáxia pós-Gutemberg” da web é digital em tempo real e possibilita a qualquer um copiar qualquer conteúdo aberto e guardá-lo ou republicar em outro lugar. Como vimos em incidentes vários, quando a informação cai na rede, fica na rede, Muda de lugar, passa um tempo desaparecida, mas estará sempre na rede. Dia destes encontrei (num site) cópias de emeios que mandei para uma lista em 1982! Emeios de um quarto de século... A dinâmica da web (que Berners-Lee não deve ter visto, tampouco, dentro dos celulares) faz com que os acontecimentos do mundo real sejam noticiados na rede (e vistos nos leitores de RSS) imediatamente. É como se houvesse relatores em todos os lugares, o tempo todo. Milhões de paparazzos com seus fotologs, milhões de testemunhas delatando os fatos, por mais banais que sejam, por mais pessoais e íntimos que guardados devessem estar. Mas este vê-ouve-fotografa-escreve-grava-publica não é o que Harnad imaginava. Na web dele (como não poderia deixar de ser, porque de cientistas) as pessoas estariam publicando e discutindo coisa-com-coisa. No mundo aqui fora, o tempo de vida médio de um blog é muito pequeno e, nos que sobrevivem, há pouca coisa que valha a pena ler, ver ou ouvir. Vez por outra aparece alguma coisa interessante vinda de um lugar inusitado, o que dificilmente ocorre uma segunda vez. Por quê? Porque criar (e transformar o resultado em mídia) dá trabalho, gasta tempo e energia, pesquisa, apuração, requer recursos, educação e treinamento de quem faz. E quem lê (ou vê e ouve)
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tem crivos, peneiras, gosta ou não disso ou daquilo e no fim, seja lá o que aprecie, mais sempre do que nunca quer algo bem feito. Não bem acabado, refinado ou rebuscado de acordo com sensos estéticos padronizados, mas de acordo com sua visão e entendimento de mundo. É por isso a vasta maoria dos blogs sempre terá pouquíssima audiência e interação, sem eliminar seu papel de repositório de pensamentos, relatos e reflexões individuais. O mesmo vale para os jornais: a web transformou o mundo em ponto. A distância de um jornal de Taperoá até O Globo é nula. Quem tem web e lia o que saía n’O Globo, sobre a política nacional, no jornal de lá agora lê, na hora, no original. O jornal local passou a ser realmente local, quase um blog (profissional?) do lugar. E vai interessar aos locais (mesmo que longe) e aos de fora que tenham interesse lá. Vez perdida, se cair um meteoro nas Parelhas, o jornal de Taperoá, se estiver na web, será global. E quase sempre, quando o Globo chegar lá, irá direto para a peixaria, pois todo mundo já terá lido o que interessa pela web. A máquina pós-Gutemberg da web torna a edição impressa de qualquer jornal desnecessária como mecanismo de transporte de informação; se eu quiser ler qualquer jornal em papel (e, de preferência, se ele existir em .pdf), trago pela rede e imprimo em casa. Ou as bancas, no futuro, imprimirão os jornais (qualquer jornal!) sob demanda, no local... Por isso que o editor do New York Times não sabe por quanto mais tempo vai continuar imprimindo o jornal : além de derrubar árvores para fazê-lo, o processo se torna cada vez mais economicamente inviável. Parar é só uma questão de tempo. Enquanto este futuro não chega, partes dos jornais, online, se transformam em “blogs”. Entre parênteses, mesmo, porque são um diário de “ninguém”, passaram a ser o relato em tempo real dos acontecimentos, como se estivéssemos lendo a fita que saía dos teletipos das agências de notícias do passado. Estes “blogs”, feitos por alguns dos profissionais mais competentes da impresa brasileira e mundial, são resultado dos dilemas enfrentados pelos veículos “antigos” como jornais, revistas e TV, enquanto não completam seu redesenho para o futuro. Claro que queremos saber muitas coisas na hora em que acontecem (um canal factual, em tempo real). Mas também queremos uma análise de quem entende do assunto (a interpretação dos fatos, seus porquês, comos e conseqüências), o que gasta, como já dissemos, muita energia e (no mais das vezes) competência para desenvolver. Competência que faltou ao colunista hoje, para escrever um texto mais curto, do tamanho que sempre sai neste “canal” (cerca de duas páginas em fonte Times New Roman, tamanho 12, nas medidas de Gutenberg). Problema zero pra quem escreve: a web não tem limite de tamanho. E grande para quem lê: quanto mais longo o texto, maior o esforço... Hora, pois, de chegar ao fim. Antes, um lembrete: se você tem ou vai ter um blog, escreva com o olho no futuro. Não pense muitas vezes, pois vai lhe tolher a criatividade e ficar chato. Mas, ao invés de escrever tudo que lhe dá na telha, reflita pelo menos uma ou duas vezes sobre o que vai ser lido, e por quem, durante quanto tempo. Porque depois de publicar, vai estar lá para sempre. Ao contrário dos livros de Gutenberg, destruídos e queimados por censuras, seus textos, fotos e vídeos estarão guardados em algum drive, lhe esperando, no futuro.

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O trabalho do futuro (e o futuro do trabalho)30
A internet e todas as coisas que ela habilita, de chats a ambientes computacionais compartilhados, está mudando para sempre a forma de trabalharmos. E o melhor ainda está para começar... Nós passamos a maior parte de nossas vidas úteis trabalhando, como se tivéssemos nascido só para isso. Desde o advento da cidade moderna, necessidade da revolução industrial para aglomerar os trabalhadores -- naquele tempo, a mão-de-obra -- perto das fábricas, nos acostumamos a ir trabalhar no local de trabalho, onde se encontram, via de regra, as ferramentas necessárias para realizar o nosso. Ou onde alguns, mais relaxados, têm apenas um emprego e tentam encontrar todas as razões imagináveis para fugir daquilo que deveria ser feito no emprego, o trabalho. Mas os tempos mudaram. Dos Tempos Modernos de Chaplin prá cá, muito mais gente passou a processar informação, como trabalho, ao invés de manipular objetos físicos, atividade cada vez mais primária e passível de ser realizada por máquinas, robôs que tomam – devidamente -- nosso lugar no esforço “manual”. Afinal, temos mais o que fazer: o trabalho repetitivo e impensado, pouco criativo, que exija “apenas” visão, audição, processamento básico de alguma informação (como o tráfego de automóveis e pedestres ao redor e os sinais de trânsito da rua) e a ação física de controlar alguns dispositivos, como freios, aceleradores e direções será realizado, em breve, por autômatos. Não precisaremos de humanos para dirigir automóveis, mesmo em situações extremas. O trânsito de um lugar como São Paulo (ou Recife) não é nada trivial. Se não precisaremos dirigir e tampouco de motoristas (para táxis e ônibus, tampouco) para irmos de A pra B, e olha que isso hoje é um trabalho que requer um certo grau de sofisticação e treinamento, que trabalhos haverá, no futuro, para seres humanos? Ainda mais, que tipos de trabalho deverão ser feitos necessariamente em um local específico, onde todo mundo tenha que ir, simultaneamente, para realizar sua performance? Poucos tipos de trabalho, no futuro, terão que ser feitos de forma síncrona (ao mesmo tempo) e localizada (no mesmo espaço), por muita gente. Estas duas condições respondem pelos engarrafamentos das megacidades: todo mundo precisa estar no local de trabalho a uma certa hora. Ainda mais, durante o dia, um monte de gente e coisas precisa se mover para certos outros pontos, onde deve estar, num dado tempo, para uma performance qualquer. De novo, sincronia e localização. Por outro lado, nosso trabalho, nos escritórios, está cada vez mais relacionado apenas ao ciclo de vida da informação. Informação que já trafega na rede e, cada vez mais, vai estar lá, em qualquer lugar, ao mesmo tempo, pois teremos banda muito larga no futuro bem próximo. Imagine 100 megabit por segundo só para você, a menos de R$ 100 por mês. Em menos de dez anos, isso vai rolar nas regiões de mais alta densidade habitacional. Até mesmo no Brasil. Informação é gerada ou criada em algum lugar, capturada, processada, armazenada, apresentada, distribuída... e precisa ser preservada com segurança e, quando não mais necessária, terminada. Este artigo é parte do ciclo de vida de informação do G1 e a distribuição geográfica da rede e dos colunistas me torna possível fazê-lo em qualquer lugar do planeta. E assim é feito. Não preciso ir ao G1, em São Paulo, a não ser que queira fazer uma visita a meus colegas de redação. E estou em contato com todos, ou tantos quantos queira, o tempo todo, em tempo real.

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O mesmo pode ser feito em qualquer “escritório”. Se o trabalho é processar informação, precisamos de um conjunto de métodos, um número de protocolos para fazer a coisa fluir e... presto, funciona, desde que as responsabilidades estejam distribuídas e cada um dos colaboradores esteja comprometido a realizar, a contento, a sua parte. Desde que as pessoas não precisem ser vigiadas, e estar sob ordens severas, para simplesmente fazer o que tem que ser feito. Esta coisa de reunir os trabalhadores no mesmo lugar e ter todo mundo debaixo de ordens e regras é, aliás, resquício de um passado distante. Um passado de “emprego” e “mão-de-obra”. Em tempos de informação, conhecimento e onde, ao invés de “quanto tempo por dia eu passo aqui” temos que pensar em “como o meu trabalho contribui para o negócio”, onde não sou medido por horas de ponto no emprego, mas por resultados atingidos, o que -além da tradição e da incompetência gerencial -- me forçaria a continuar indo para o “local de trabalho”? Um número cada vez maior de empresas, mundo afora, está começando a contratar gente que nem mora na mesma cidade. Primeiro, ordena-se o trabalho de tal forma que ele possa ser feito fora da empresa. Não se trata de terceirizar nada, no sentido de fazer fora do local de trabalho, com trabalhadores de outras empresas. Quem vai fazer o trabalho trabalha na empresa, mas pode morar onde quiser e, melhor, só precisa “bater o ponto” muito vez por outra, quase nunca. Parece exótico? Pois gente em mais de vinte comunidades, ao redor de d'Essay dans l'Orne, na Normandia, vive assim e está até organizada no ZeVillage, um mecanismo aberto de suporte ao tele-trabalho. A maioria dos trabalhadores, lá, é de informação propriamente dita: jornalistas, web designers, fotógrafos, ilustradores e engenheiros de software. Outro grupo, de mais de 800 pequenos negócios, está articulado através de HiddenTech, em Pioneer Valley, Mass., EUA. E são apenas dois casos inovadores dos muitos que estão pipocando em todo mundo. O mundo, aliás, é plano. As cidades também deveriam ser, mas, com os custos de transação que hoje enfrentamos (perdi 2 horas num engarrafamento em São Paulo, quinta passada, e o papa ainda nem estava lá!), estão ficando inviáveis. Uma das formas de reequilibrar a balança – em vez de fazer mais metrôs e avenidas mais largas -- é fazer com que as pessoas trabalhem mais perto de casa. Não necessariamente em casa, pois não funciona para todo mundo e pode haver prejuízos sociais que ainda não entendemos. Mas é possível pensar em centros de tele-trabalho, públicos e privados, distribuídos pela cidade, conectados por banda muito larga, com recursos de áudio e vídeo, talvez perto das principais interconexões do tráfego de hoje, onde as empresas poderiam ter seus próprios espaços, e para onde os trabalhadores de informação e conhecimento -- que não quisessem trabalhar em casa -poderiam ir fazer a sua parte. Confortavelmente, perto de casa, num “local de trabalho”, distante do que é, hoje, seu local de trabalho. O meu, por acaso, já está hoje na minha casa, de onde eu só saio quando é realmente necessário. Utópico? Pode ser. Mas são as utopias que oferecem alternativas para um mundo mais equilibrado. William J. Mitchell escreveu um pequeno livro sobre o assunto (e-topia, comentado neste link) onde discute este tema. Vamos usar a informática para informatizar o caos urbano ou para mudá-lo? No primeiro caso, o mundo é o mesmo e, quando alguma coisa falhar, tudo falhará. No segundo, a vida fica mais distribuída, mais equilibrada, mais resiliente. Taí o Dia do Trabalho. Talvez fosse hora de incluirmos, nas demandas sobre qualidade do trabalho, não precisarmos mais ir trabalhar... no tal local de trabalho!

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Nossa TV digital começa em dezembro31
Vamos ter TV digital no Brasil ainda este ano e precisaremos de pelo menos uma década para trocar nossa telinha analógica pelo modelo digital. Isso nas salas. Nas mãos e nos bolsos, pode demorar mais. Ou muito menos... Nesta segunda, o Ministro das Comunicações e um conjunto de estações de TV dão mais um passo no processo de criação da TV digital no Brasil: a data terá marcado a consignação dos canais de televisão digital para a cidade de São Paulo, a partir do que as emissoras poderão montar suas infra-estruturas de transmissão e botar o bloco na rua. Mas não tão já: além das estações, algumas das quais podem ter o sinal digital no ar em meses ou mesmo semanas, há mais o que resolver e fazer. Os telespectadores, pra começar, têm de ter um “set top box” (STB) para TV digital aberta, a caixinha (similar aos modelos usados para TV via satélite e cabo) que vai receber e decodificar os sinais que sairão das antenas das transmissoras e, por fim, transpor o que houver nos fluxos digitais para os receptores analógicos... que todo mundo tem, hoje, em casa. Muitos bits vão rolar até que todo mundo tenha as tais caixinhas, até porque ainda estamos terminando de especificar o que elas são. Isso leva tempo, e não é (desta vez) porque estamos no Brasil: muita gente, instituições e empresas têm de entrar em acordo sobre detalhes aparentemente insignificantes do “sistema” (no caso, o SBTVD, Sistema Brasileiro de TV Digital), sem o que não haverá garantia de que um programa, feito pela produtora “X” e transmitido pela emissora “Y”, vá ser visto e ouvido (como deveria) nas TVs conectadas aos STBs fabricados pela empresa “Z”. Porque TV digital não é TV: trata-se, em sua versão mais sofisticada, de uma forma de mídia audiovisual interativa, que transforma a emissora de TV, hoje um ente que envia sinais eletromagnéticos para o “éter” (e pouco importa o que ocorre depois de o sinal sair do transmissor, a menos da verificação da audiência), em um “sistema computacional”, em rede, que tem de levar em conta não só o que acontece com os bits que joga “no ar” mas também o que acontece depois, se houver algum tipo de interação dos usuários (e não mais espectadores) com o que lhes é apresentado na telinha. Dito isso, parece certo que a cidade de São Paulo terá TV digital logo no começo de dezembro, no primeiro domingo, dia 2. Data aparentemente cheia de história: o teto da Capela Sistina, obra prima de Michelangelo, foi apresentado ao público, pela primeira vez, num tal dia, em 1512 (nem todo mundo concorda). Segundo alguns, Shakespeare não fez por menos e encenou “Otelo” no tal dia 2, em 1604 (ainda menos gente acredita nisso). De qualquer forma, podemos fingir que o dia é iluminado para a grande arte e, sendo domingo, tem de ser uma boa data, pois bem antes do Natal e das compras de fim de ano, pra promover as vendas dos STBs que deverão estar nas lojas. E todo mundo, do lado dos fabricantes, está correndo pra ter pelo menos um modelo à venda antes de dezembro. Isso porque padrões de qualquer coisa passam por três fases: na primeira, cada um tem e defende o seu e, claro, briga para ser o padrão que um país ou região vai escolher, pois tem muito a ganhar com isso, e não só em royalties. Na segunda, escolhido um deles (pois não poderiam ser todos, porque aí não
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haveria padrão e sim confusão), os excluídos alardeiam que não estão nem aí e não participarão do mercado, que é irrelevante etc. e tal, até porque têm outras coisas mais interessantes a fazer. Na terceira, quando fica claro que o “padrão” escolhido por um país como o Brasil, do tamanho que é, com mais de 99% de penetração de TV em seus lares, vai ser padrão mesmo, todo mundo esquece as duas primeiras etapas e vai para o que interessa: conquistar mercado com o maior número possível de opções de dispositivos, para atender tantas faixas de consumo quanto puder. Nada como a realidade nua e crua dos fatos. E negócios. Os primeiros STBs brasileiros não serão capazes de muita coisa: a indústria (tanto de mídia como de equipamentos) parece concordar que teremos, em dezembro, o que se convencionou chamar de zapper, uma maquininha que pode mostrar a programação (como na TV por assinatura) e trocar canais. Mas isso não é muito importante, agora: se tivéssemos tudo definido e organizado, com STBs capazes de rodar Java (por exemplo) e outras coisas mais, nem as emissoras saberiam o que fazer com isso e nem o público, por outro lado, conseguiria fazer uso de tais recursos, até porque o problema fundamental do canal de retorno para interação entre usuário (telespectador) e “estação” ainda vai ter de ser resolvido no curso dos muito anos em que o SBTVD substituirá a TV analógica no Brasil. Compraremos (e faremos uso de) uma primeira geração de STBs, que será substituída por uma segunda, mais capaz (e mais interativa) e alguma hora, lá na frente, teremos gravadores digitais de vídeo com centenas de gigabytes de memória e tantas funções adicionais que nem nos lembraremos como eram os STBs que começarão a ser vendidos em dezembro. Eu vou comprar um, logo na partida, pro meu museu da tecnologia digital... A adoção do SBTVD - como qualquer coisa de sua complexidade - será incremental. Lembremos a TV a cores: lançada na Copa de 70, começou a pegar em 72 e a primeira novela a cores (O Bem Amado) só foi ao ar um ano depois. Não podia ser diferente. Desde a produção, que deveria entender um novo mundo “a cores”, até os fabricantes de TVs e espectadores, que tinham de investir para receber o novo formato, toda a cadeia de valor da TV teve de mudar para o “novo padrão”. Algum dia (daqui a dez, doze, oito anos?) todas as TVs serão digitais e não teremos saudades do sistema analógico de hoje. Alguma hora, aliás, o governo baixará uma portaria mandando “desligar” o sinal analógico, para liberar as freqüências que o transportam para outros usos. No Reino Unido, o “analog switch off” começa no ano que vem e, em 2012, só haverá TV digital, mais de quinze anos depois da primeira transmissão digital terrestre. Aqui, TV analógica talvez acabe em 2020. Ou depois. Mas é só uma questão de tempo. A menos das parabólicas nos topos das casas dos sítios em Taperoá. Mas elas, também, serão digitais... E tem mais: uma das razões da escolha do padrão japonês (ISDB-T) para a TV terrestre, digital e aberta, no Brasil, é a possibilidade de usar um de seus “segmentos” para transmitir TV digital direto para dispositivos móveis, sem passar pelas operadoras de telecomunicações, muito maiores, mais globais e poderosas do que as redes de TV. Este mercado é outro, de gigantesco potencial, que vai explodir no mundo inteiro e, também por aqui, gerar uma disputa de arrepiar o cabelo. Depois, mais perto de dezembro, a gente traz ele pra nossa pauta. Por enquanto, vá ver este começo de discussão ...
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Ah, sim: se a TV digital brasileira for mesmo ao ar no 2 de dezembro, estará prestando uma homenagem a Pedro II, entusiasta das (tele)comunicações, que indubitavelmente nasceu no dia, em 1825. Em 1876, o Imperador deve ter sido o primeiro brasileiro a usar um telefone, na exposição de Filadélfia, o que o levou a exclamar... “Esta coisa fala!”. Sob seus auspícios, provavelmente estaremos dizendo, da TV digital, em dezembro... “esta coisa... funciona!”.

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Pandora, caixinha difícil de controlar32
A web está revolucionando modelos de negócio há dez anos. Vez por outra, uns dinossauros reaparecem, vivinhos da silva. Ainda bem que há antídotos à mão... Pandora, na mitologia grega, foi a primeira mulher. A seu cargo estava um vaso que a curiosidade, (in)felizmente, não deixou fechado. Ao abri-lo, Pandora libertou uma torrente de infortúnios sobre a humanidade e só conseguiu tampar o vaso quando restava apenas um “presente dos deuses” lá dentro. Segundo uns, era a esperança, mas outros acreditam que se tratava, de fato, da advinhação. Nos nossos tempos, pandora é algo que, ao começar, ou se abrir, é quase impossível controlar ou fechar. Na web, uma das caixas de pandora é o compartilhamento de conteúdo, fora do controle da outrora grande e poderosa indústria de áudio e vídeo, que ainda se acha com super-poderes suficientes para fechar a tal caixa. Será que vai conseguir? Isso quando a web, em si, é outra caixa de pandora, muito maior? O primeiro grande problema é que não há só uma caixa, mas milhões delas, tantos quantos são os usuários da rede. Haja energia pra tentar ordenar tamanho caos. O segundo é a dificuldade, inerente aos impérios da hora, de aprender história e com ela. Olhando para conteúdo, é fácil ver que a prensa de tipos móveis de Gutenberg destruiu o modelo de negócios dos livros copiados nos mosteiros, que além de seus altíssimos custos, só eram produzidos mediante autorização dos poderes de então, fossem o rei e seus prepostos ou as autoridades eclesiásticas. Gutenberg mudou as regras do jogo e imagina-se que, logo nos primeiros usos de sua impressora, ele tinha “tipos” (as letras, em metal) suficientes para compor e imprimir dezenas de páginas diferentes por vez. Imagine impacto disso nos mosteiros, no grau de liberdade dos povos e, por fim, na derrocada dos impérios. Não se queima livros, como se sabe, à toa. Gutenberg até hoje dá teses e mais teses. Mas vamos voltar pro presente, 450 anos depois dele. Esta semana, uma das mais interessantes páginas coletivas da web, digg.com, resolveu se render à censura imposta por uma associação da indústria (o Advanced Access Content System Licensing Administrator, AACSLA), responsável pelo DRM (digital rights management, ou sistema de chaves digitais para gestão de conteúdo) dos HD-DVDs, aos sites que publicaram (ou publicam) a chave que decodifica todos os HDDVDs que estão por aí. Ao fazer isso, digg gerou uma revolta em sua comunidade, que quase destrói o site, que colapsou por várias horas, levando seus administradores a ceder, não à censura da AACSLA, mas à pressão de seus usuários. Melhor ter um negócio correndo o risco de sofrer um processo do que nenhum negócio... A história está contada em detalhe aqui, na BBC. Muita zuada por nada, diria um Shakespeare lá de Taperoá. Eu publiquei a chave no meu blog em fevereiro e ela está lá até hoje, para quem quiser. Ainda não precisei usá-la. Aliás, ela vai ficar “velha”, pois a AACSLA avisou aos fabricantes de DVDs e players que vai liberar uma nova chave em breve, o que terá a conseqüência de impedir que os DVD players já vendidos toquem os DVDs codificados com a nova chave! Seus donos terão que trocar o firmware... imagine a confusão. Por nada. Mais de 80% dos participantes de uma enquete da Wired previam, esta semana, que a nova chave será quebrada em menos de um mês. E a confusão começará de novo.

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Conteúdo, como um todo, precisa de um novo modelo de negócios. Não adianta fingir que não e muito menos tentar cercear os usuários usando regras bizarras. Não dá para continuar sujeitando pessoas honestas e decentes, que compraram um DVD legal, a ter que quebrar o DRM do dito pra tocá-lo no computador, onde o leitor não adere ao padrão fechado que a indústria de mídia quer impor. Se comprei o conteúdo, qualquer uso razoável que eu faça dele deve ser permitido. Cópia para meu uso, por exemplo. Tocá-lo em qualquer lugar, outro. Emprestar para quem eu quiser. Revender, recomprar, alugar, destruir se for ruim. A indústria tem que se dar um reboot, e isso vai acontecer mesmo que ela não queira, com o fim do suporte físico para conteúdo, graças à conectividade universal e banda larga para todos. E ao espírito da rede, de abertura radical, de caixa de pandora já aberta. Aliás, Pandora também é uma “rádio” na web, que acaba de receber uma outra “ordem”, também esta semana, de outro dinossauro: limitar suas “emissões” apenas ao “território” dos Estados Unidos. E tudo entre aspas, aqui, porque a tal ordem equivale a dizer que a rede, digital, tem que se comportar como analógica! Isso é um absurdo de proporções mastodônticas. As rádios “concretas” tinham limites geográficos (e ainda têm, hoje) porque seu suporte físico --na forma de transmissores, antenas e receptores-- é uma plataforma limitada. Não faz sentido, numa rede onde o mundo é um ponto, limitar a geografia que pode ter acesso a um site. Mas isso pode ser feito porque a tecnologia da rede também permite identificar, a custo muito baixo, a geografia de seu endereço IP. Aí, ao invés de usar a tecnologia para empoderar os consumidores, os antigos imperadores do conteúdo querem fazer o contrário, impor limites a uma avalanche tecnológica como a internet, mais libertadora do que a imprensa de Gutenberg. Mas a rede e suas comunidades parecem não ter volta. A abertura é grande, radical, e os esforços para fechá-la são sempre contrapostos por mais alternativas para mantê-la aberta, quando não para abrir ainda mais. Quer saber como? Se você é (ou era...) ouvinte de Pandora, é só voltar lá usando uma das muitas alternativas propostas (por exemplo) neste link. A caixa de Pandora foi aberta num passado imemorial. Esteve, está e continuará aberta. O descontrole da tecnologia e o empoderamento da periferia estão aqui para ficar. Para sempre. Se você tem um modelo de negócios que não considera a liberdade de seus consumidores, lamentamos muito. Bom passado pra você.

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Informática Esperta. Mesmo?33
Há cada vez mais software por aí. Nem sempre fazendo o que deveria. Tomar decisões pelos usuários, por exemplo. Quase nunca dá certo. E tampouco é sinal de -- no bom sentido -- esperteza. Lá atrás, muito tempo atrás, a promessa que se fazia era que as tecnologias da informação e comunicação iriam simplificar nossas vidas. Iríamos, até, trabalhar menos. Em parte, isso vem acontecendo nos dois casos. Certas coisas, como não ir ao banco, ficaram muito simples: vai-se lá através da internet. Outras, como fazer transações bancárias na internet, à noite, continuam impossíveis, como se agendar o pagamento de uma conta do meu micro, na minha casa, às duas da manhã, não fosse seguro. Meu banco pensa assim e não sei se é o caso de todos eles, ou talvez até uma regra qualquer do Banco Central. Tomara que não. Trabalhar menos era, certamente, uma ilusão. Pelo menos para quem vivia das tecnologias da informação e comunicação (TICs) ou depend(er)ia delas. Quem vive de TICs, depois que o mundo se tornou ubíqüo e em tempo real, não tem mais sossego. Pode ser acordado a qualquer hora, ou tirado do churrasco, aniversário da sogra ou casamento da filha para botar “no ar”, de volta, aquele sei-lá-o-que do qual alguém depende e, por alguma razão, travou. Quem vive com TICs, da mesma forma, agora pode ser alcançado pelo chefe, patrão ou colega, onde estiver, inclusive nos feriados, madrugadas ou, simplesmente, dormindo acampado numa praia outrora deserta, mas hoje coberta por uma tal “cobertura” de celular que, convenhamos, não precisava estar ali. Na verdade, não deveria estar ali. Pode parecer estranho que, em tempos em que se reclama de universalização de acesso às TICs, estejamos falando do contrário: de lugares, ou espaços e tempos, onde não queremos que elas estejam. Porque hoje tudo é binário. Ou temos tudo a que temos direito ou, pelo contrário, não temos nada. E o que queremos não é nenhum nem outro. Queremos TICs espertas, que saibam onde, quando e como queremos ter o que. E falta muito pra gente chegar lá. Quer ver? Um dos meus celulares é “inteligente”. Isso é o que parece. Na verdade, ele tenta ser “esperto” e tem, em seu software, regras que deveriam me ajudar. Regras. Eu, por outro lado (e a maioria dos mortais não é muito diferente) sou naturalmente desorganizado. E imprevisível, na maior parte dos casos e coisas, como quase todo mundo é. Pois bem: abro meu telemóvel e tento mandar um SMS. Ele, “esperto”, só mostra, como possíveis destinatários, quem eu cadastrei como celular. Até aí, tudo bem. Há quem cadastre todo mundo direitinho e tem, como benefício, menos escolhas para fazer entre seus 600 ou mais endereços. Deveria haver, no meu caso, uma opção do tipo esta-regra-não-me-serve;mostre-tudo. Só que não há. Como eu tenho celulares cadastrados como qualquer coisa, até como fax, resultado de anos de migração entre celulares de marcas diversas e seus programas de backup nos micros e na web, estou pagando o pato de “recadastrar” todo mundo como... celular. E ainda tenho que rezar pra que, em alguma próxima versão, o fabricante (do software) não tome nenhuma decisão esquisita sobre “o que”, afinal, é um telefone. Aliás, ninguém deve ser capaz de explicar porque os telefones das casas não podem receber e enviar SMS. Deve ser porque fabricantes e operadoras, ao invés de gastar seu tempo fazendo alguma coisa realmente útil, como rever o status dos
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fixos e redefini-los como meras aplicações sobre a infra-estrutura e serviços de rede que tomam conta do mundo, estão escrevendo software para me impedir de mandar um SMS para um celular que eu cadastrei como fixo. Patético. A economia está se transformando e, como resultado, estamos vivendo em uma socieade de serviços. Água é serviço (alugue um purificador), festa é serviço (um buffet faz a sua), carro é serviço (alugue um), software é serviço (quem disse que você precisava comprar uma licença e rodar, você mesmo, o seu?). Serviços estão sendo codificados em software, sem o que seria impossível a transformação, em larga escala, da economia. Mas não temos muita gente para cuidar do processo de transformar sociedade em software e o resultado é muita coisa sendo feita de forma ingênua, impensada e experimental. Longe de mim pensar que quem definiu a tal exclusão de certos números, no meu celular, estava pensando em me pegar. E a outros tão desorganizados e aleatórios como eu. Ao invés de conspiração, deve ser mesmo boa vontade e intenções, só que deixando de levar em conta que não é uma restrição da interface que vai, de verdade, me organizar. Vou mesmo é recadastrar todo mundo como celular, inclusive os fixos, o que tornará inútil todo um projeto de interface que prevê vários números e tipos deles por pessoa. E a invasão do software e as escolhas que foram feitas pelos seus desenhistas só está começando. Dia destes, uma moça, numa loja qualquer, me explicou que certa operação exigia alguns clicks de mouse e um desligar-e-ligar de impressora. Fantástico. Um sinal de que deveríamos mandar os engenheiros de software a campo. Em missão de observação de usuários; sem isso, projetistas e codificadores dos programas que serão, cada vez mais, a infra-estrutura de quase todas as nossas ações, continuarão tomando, por nós, as decisões que lhes parecerem mais “lógicas”... Ah, o professor quer mandar um SMS? Beleza, só para “celular”... Tais preocupações, para alguns, podem parecer irrelevantes. Mas pense em software como algo pervasivo, que atinge boa parte de tudo o que você usa ou faz. Como seu carro, sua casa, sua cozinha e suas compras. Imagine que a decisão de para onde ir e por onde ir, a partir da sua casa, no seu meio de transporte, ser intermediada ou, pior, decidida por software. Que pode vir a definir, também, o que você deve comer, em função de seu peso, estado de saúde e porcentagem de gordura corporal. E aí?... Trabalho com software há mais de trinta anos. E tenho visto sua penetração na sociedade aumentar ano após ano, quase sempre sem qualquer questionamento profundo. Há reclamações pontuais, nada que vá mudar o curso dos acontecimentos. Não que eu seja contra, muito ao contrário. Sou e sempre fui a favor de cada vez mais software como parte da infra-estrutura social. Até porque, quando funciona bem, ajuda muito. Mas entendo que deve servir como base para fazermos cada vez mais, na nossa escolha de tempo e espaço, e não como restrição impensada, como “regra a mais” a nos impedir de realizar coisas beeem básicas, como agendar um pagamento às duas da manhã. Aí, ao invés de esperto, software serve para aumentar a burrice das coisas sociais, que por sinal já não é tão pouca assim.

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O trabalho dos poderosos... e infelizes34
Maio é o mês de se refletir sobre o trabalho... e sobre suas novas formas, informatizadas, que parecem certas horas mais complicar do que resolver. Na primeira semana de maio esta coluna discutiu o trabalho do futuro e o futuro do trabalho. E dissemos que, “poucos trabalhos, no futuro, terão que ser feitos de forma síncrona (ao mesmo tempo) e localizada (no mesmo espaço), por muita gente.” E que “nosso trabalho, nos escritórios, está cada vez mais relacionado apenas ao ciclo de vida da informação”. Um ciclo radicalmente modificado e instrumentado, hoje, pela web. Pois bem: a última revista Época Negócios conta que assustadores 84% dos executivos brasileiros estão infelizes no trabalho. E o número pode ter uma alta correlação com o fato de que 74% deles acessam o emeio profissional fora dos “horários de trabalho”. Mas no fundo, o problema é mais complexo: a internet vaporizou o local e o horário de trabalho, ao mesmo tempo, à medida em que deslocalizou e dessincronizou nossas vidas. E quem não consegue separar a vida pessoal do trabalho passou a trabalhar em tempo real. E muito mais do que antes. E o tempo inteiro, de fato. Em uma parte da reportagem se lê que… “equipamentos como o BlackBerry, o celular que facilita o envio e recebimento de e-mails, e os laptops, que permitem acessar a internet de qualquer lugar, sem precisar de rede fixa ou pontos wireless, acabaram por eliminar a fronteira entre a vida pessoal e o escritório. Trabalha-se o tempo todo. Na quadra de tênis. Em casa, com os filhos. No jantar romântico com a pessoa querida. Também nas férias e feriados…” E isso não é nada: tem gente (e certamente muitos dos infelizes) que acha chique, ou talvez até melhor, sinal de poder, gastar todo o seu tempo no trabalho. Pra quê, mesmo? Da mesma forma que o descontrole de exploração econômica do ambiente está levando o planeta a uma situação potencialmente terminal, a dedicação extrema ao trabalho, principalmente à parte operacional do trabalho, levando as pessoas a estarem a par de tudo o que acontece nos seus negócios, o tempo todo, está acabando com os seres humanos. E aí, elas não têm tempo pra pensar no ambiente, porque, de fato, não estão -porque não vivem- lá. E olhe que estamos falando dos executivos, do cume da cadeia alimentar das empresas, de gente que poderia -e deveria- criar meios para distribuir toda a preocupação operacional e do dia-a-dia dos negócios para ter tempo de pensar em políticas e estratégias. Mas não o faz. Por que não quer? Pode ser. Mas também pode ser que a possibilidade de ser achado, de ser perguntado, de se sentir em controle, de poder ver se chegou mais um emeio, sobre o que é, e qual a resposta, agora, mesmo que ela possa esperar até segunda à tarde se agora é sábado à noite e eu estou na balada... dê mais retorno emocional e (me) mostre que estou trabalhando o tempo todo. E que se o negócio der errado não vai ser porque eu não estou prestando atenção e envolvido, o tempo todo. Minha tese é que as empresas onde os executivos têm que se envolver com os negócios quase 24 horas por dia são uma mistura do passado com o futuro. De um passado onde os mecanismos de funcionamento das empresas eram por comando e controle cíclico, quase como (também) as forças

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armadas de outrora. Neste modo, o centro (os executivos) toma todas as decisões, que são enviadas regularmente às bordas (os operadores) e estas, por sua vez, têm que cumprir as decisões a qualquer custo. No passado, com uma banda de comunicação muito estreita (pense cartas...) o centro podia descansar: a carta só iria chegar, mesmo, com o relato do interior, amanhã. Ou semana que vem. Mas mantenha o comando e controle cíclico e ligue todo mundo na internet, em tempo real: o centro pode ficar sabendo de tudo o tempo todo. E fica, e quer se envolver, e se envolve, em tudo, se não prestar atenção no que está verdadeiramente ocorrendo ao seu redor. E aí o executivo, o responsável, não tem tempo pra nada... Ao contrário, é cada vez aparente que as empresas modernas devem se comportar como sistemas sem controle, onde o centro define as missões, estabelece pouquíssimas restrições e métricas para as operações de implementação e entrega a missão às bordas, que vai executar os processos que levarão ao eventual sucesso das iniciativas. Por fim, o centro apóia as bordas no cumprimento de suas tarefas. Olhando desta forma, se temos políticas e estratégias, táticas e operações, missão, objetivos, estimativas e métricas, por que alguém, no centro, deveria arrancar os cabelos, todos os dias, para que a coisa, como um todo, funcione? Ainda mais, por que ficar respondendo emeios do clube, da festa, da missa? Pode até ser que, na fase de start-up, quando o negócio está começando, seja preciso trabalhar vinte horas por dia. Eu mesmo já fiz isso mais de uma vez. Mas fazer isso o tempo todo, como meio de vida, é desumano. E causa a infelicidade que a Época Negócios reporta, e de que falamos lá no começo da nossa conversa. A internet não apareceu pra complicar, ao contrário do que muita gente pode até achar. Mas vai complicar -e muito- se ela simplesmente entrar no seu negócio sem que ele seja reordenado pra funcionar em rede. Conectar todo mundo ao topo, e muito bem, é algo que a rede pode fazer muito rapidamente. Dê emeio pra todos, crie uma lista “colaboradores”, um blog e/ou dê um Blackberry pra cada um e está feito. Mas, feito isso, fazer o que com isso? Se ninguém sabe direito o que deveria fazer e como vai ser medido e, muito menos, o que os outros estão -ou deveriam estar- fazendo, o resultado será uma imensa caixa de eco, com todos falando ao mesmo tempo, que poderá ter efeitos negativos muito graves no negócio. A quantidade de informação em rede está aumentando significativamente o tempo que usamos para processar detalhes periféricos às nossas vidas e interesses, tanto no trabalho como pessoais. Isso vai exigir, de todos nós (e de nossas empresas), métodos e processos para administrar nosso ciclo de vida de informação, o que não deveria ser nenhuma novidade. A internet, apesar de todo seu impacto, é “só mais uma” tecnologia que ajuda e atrapalha, como tantas outras na história. O detalhe é que ela nos deixa potencial e virtualmente mais próximos uns dos outros, tanto no tempo como no espaço. Aí, quem não souber, puder ou quiser delimitar seu espaço-tempo vai ser engolido pela nova máquina de fazer doido. Por mim, tô fora. Tomara que vocês também consigam escapar...

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Convergência digital... no celular35
Ao invés de PCs ou laptops, o mundo digital converge mesmo é nos celulares. É só ter banda e preços razoáveis. Afinal de contas, somos, o tempo todo, móveis... No Japão, desde 2005, o acesso a web via celulares é maior do que através de PCs. Na Inglaterra, é 19% dos PCs e, nos EUA, 17%. No Japão, em 2005, mais de 80% do e-commerce feito por pessoas entre 15 e 19 anos de idade já era através de celulares. Na Inglaterra, 67% dos usuários da web móvel têm menos de 35 anos de idade e, nos EUA, eles são 46%. No Japão, a terceira geração de celulares (3G), capaz de suportar muito mais usuários e usos, e velocidades na casa de megabytes por segundo, começou a ser introduzida em 2001 e, em 2005, mais de 40% dos usuários móveis só usava 3G. Daí vem, certamente, a quantidade de usuários móveis que estava na internet já na época. Vai haver quem diga que são as crianças usando a rede para navegar, pegar músicas e jogar. Também. Só que as crianças de hoje serão os adultos e executivos de amanhã. E os hábitos, quando se formam, são muito difíceis de mudar. A galera de mais idade, como eu (que sou dos anos 50 do século passado) e alguns dos leitores, está acostumada a descartar novidades como algo que “as crianças” estão usando ou fazendo, por falta de ter com o que se preocupar -- mas, “no futuro”, quando tiverem que trabalhar e pagar suas próprias contas, elas irão entrar “na linha”. Tal contexto foi o mesmo, no passado, para os pioneiros da indústria do automóvel. Enquanto seus pais andavam em confortáveis carruagens ornamentadas e puxadas a cavalo, os garotos construíam aquelas máquinas sujas, barulhentas e desconfortáveis, que nunca seriam, em sã consciência, usadas por um ser humano. Deu, como sabemos, no que deu. Até mesmo em Taperoá não há mais cavalos: tange-se gado, na caatinga, de moto... O Japão tem sido, há pelo menos dez anos, o principal motor de inovação do mercado de comunicação móvel. Quem lidera o processo, lá, é uma estatal, a NTT (sim, estatais podem ser líderes e inovadoras!). E o que tem feito o país andar na frente é uma combinação de serviços e sua qualidade, montada sobre uma cadeia de valor que remunera decentemente os parceiros das teles, coisa que nunca aconteceu no Brasil e na América Latina. Claro, há poder aquisitivo e sua distribuição na sociedade, mas isso também existe nos EUA, que estão muitos anos atrás do Japão (e da Coréia)... Em muitos aspectos, nós imitamos os Estados Unidos, começando por não termos entendido, como a Europa o fez bem cedo, o poder dos padrões como plataforma de desenvolvimento, uso e, conseqüentemente, negócios. Deixamos, num mercado secundário, as forças naturais definirem qual padrão sobreviveria. O resultado foi uma disputa inócua, e local, pois o jogo estava decidido nos mercados de muito grande porte, que realmente importam, como Europa e Ásia. Ali na esquina, agora, está a terceira geração de mobilidade (3G), como aquela que os adolescentes japoneses (todos) usam para estar on-line o tempo todo. De forma muito mais barata, prática e rápida do que os “velhos” PCs e laptops. Desta vez, como o Brasil inteiro convergiu para GSM, parece que só há uma escolha natural, WCDMA (pense 100Kbps a 1Mbps), que está se tornando um padrão mundial. Suas evoluções prevêem de 1 a 10Mbps (HSPA) e mais de 10Mbps (LTE). Para nós só há, na prática, um caminho. Que não vai estar aí por muito tempo, diga-se de passagem. A indústria já conversa sobre a
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próxima rodada da infra-estrutura de acesso móvel para 2015. Ou seja, temos oito anos, se começarmos já. Parece muito, mas é muito pouco: os investimentos são altos e quem põe dinheiro e trabalho espera retorno. E não só uso. Nos últimos anos, gastamos uma energia considerável para dar os primeiros passos do sistema brasileiro de TV digital e talvez tenhamos deixado meio de lado a evolução da telefonia móvel. Talvez. Isso porque não é certo, de forma alguma, que o mercado esteja pronto para 3G. Ou que as operadoras queiram e possam, agora, fazer os investimentos necessários para migrar suas plataformas para o novo padrão. Mas algo terá que ser feito em muito breve, nem que seja avisar a todos, consumidores inclusive, que o país irá direto de 2G (e suas adições, como GPRS e EDGE, para dados) para 4G, que virá a ser uma rede móvel totalmente IP, onde o que hoje atende pelo nome de telefone será, simplesmente, uma aplicação sobre um conjunto de infra-estrutura e serviços. Mas podemos esperar oito anos ou mais? Em tempos de vida digital, parece um milênio... Não acho que podemos esperar muito mais tempo pela introdução de uma nova geração de tecnologias de mobilidade no país. E não seria por moda, mas por necessidade. Os primeiros negócios de 3G, principalmente na Europa, fracassaram por uma razão simples: os governos venderam as licenças para a operação por preços astronômicos, por que as empresas esperavam, por sua vez, retornos magníficos do investimento. Só que pagaram tanto pela licença (umas) que ficaram sem caixa para montar a rede e o negócio propriamente dito. Outras descobriram que não valia a pena montar a rede porque, onde compraram uma licença, não havia mercado. Isso foi há alguns anos e nós todos aprendemos muito com os erros dos outros. Pelo menos é o que se espera. Se houvesse um leilão de licenças 3G no Brasil, hoje, nem de longe os preços pareceriam com os praticados na Europa, mesmo com os 100 milhões de consumidores em potencial que há por aqui. Nem proporcionalmente, usando o retorno médio por usuário, haveria comparação. Porque parece que todos já entenderam que a dinâmica do mercado, na prática, é muito diferente do que os teóricos anunciam... Ainda mais, mobilidade em banda larga pode começar a ser um item essencial na balança da competitividade para os negócios e pessoas, assunto no qual o Brasil anda muito mal. Nossa infraestrutura não é das melhores do mundo, apesar de haver melhorado muito, e talvez seja preciso um PAC para telecomunicações. E seria simples, porque todo o investimento seria privado. O governo ainda poderia levar algum nas licenças, se não estendesse as atuais para a nova geração de tecnologia, o que pode muito bem ser o caso. Em troca, poderia exigir metas de universalização bem mais radicais do que no passado, fazendo uso do FUST para as compensações necessárias, e a definição de cadeias de valor onde uma ecologia inteira de novos negócios de mobilidade pudesse coexistir em harmonia com as operadoras, o que nunca foi o caso no Brasil. Vai ser feito? Não sei. Precisa ser feito? Sim, e rápido. Senão será mais um bonde perdido e a convergência, no celular, vai acontecer em outras paradas...

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O virtual, seu controle, nossas liberdades36
Nossa transparência não aumentou muito nos últimos anos. Tanto que, nos índices internacionais de corrupção, pioramos muito. Seria diferente se diminuíssemos -- à força -- a assimetria de informação no país? Noite caminhando depressa pra madrugada e ninguém na mesa sabe mais quem deu o tal do "pontapé inicial". Depois de considerandos etílicos sobre o estado da nação, que de certo não cheira nada bem, espocou a pergunta: “o que a informática pode fazer para diminuir esta bagunça”? O boêmio e suas dez doses a mais não estavam pensando só em eleições, campanhas e caixas, mas em malas, cuecas, mimos, lanchas, pensões e de todos os muitos por cento perdidos e não achados em contratos públicos... De repente a mesa inteira acha que sim, que pode isso, aquilo, que tais coisas poderiam ser feitas “pelo computador”, etc. e tal. Mas será que informática pode mesmo fazer alguma coisa? Talvez não. Tecnologia não resolve tudo e, certas vezes, não resolve nada. Ou pior, como sabe qualquer usuário, complica. É preciso mudar métodos, processos, costumes, culturas. E há questões de fundo que precisam ser resolvidas, talvez, antes: será que o país está corrupto por falta de controles apropriados ou... não há controles (muito menos os apropriados) porque o país é corrupto? Na última opção, o que fazer, a não ser começar de novo? Na primeira, temos sido competentes a pescar piabas que, sem dentes ou similares, vivem a mostrar recibos de um tiradentes amigo... ao tempo em que deixamos passar os tubarões da grande corrupção. Afinal, os tubarões estão aí desde o tempo dos dinossauros e continuam cheios de dentes. E não precisam de recibos, pelo visto, de ninguém. Óbvio que um recibo falso tem o mesmo status moral de um monte de dinheiro roubado do governo (ou de quem for), por vias quaisquer, para fazer seja lá o que for, de comprar deputados a pagar campanhas. Para tratar um, temos que dar conta do outro. De todos os outros. E a solução pode ser a virtualização de um virtual. De um dos virtuais mais “significativos” de todos. O dinheiro é a virtualização do poder de compra, representado na prática pelo papel que pode ser transportado e, conseqüentemente, filmado, fotografado e ouvido a caminho dos bolsos dos ocupantes poder. Ou dos laranjas do poder. Ou -- não se pode esquecer -- sendo entregue a agentes da lei, como “cumprimento” de pena por desvios de todo tipo e porte, de excesso de velocidade a homicídio qualificado. Alguém lá da mesa, que não tem poder nenhum, notou que nunca ninguém esteve lá na sua repartição para lhe doar algum. Nem mesmo um “mimo”. Mas dinheiro é informação. Pura simples. Olhando “só” para o $.gov, os reais que entram e saem do .gov, por que não virtualizá-los de uma vez por todas? Era só pegar o $.gov.br e torná-lo completamente virtual, informatizado, em suma, transparente, em sua viagem pela economia, até cair no bolso de pessoas identificadas e certificadas. Assim, a trilha -- e eventuais descaminhos -- dos recursos públicos estaria exposta. Aberta. Para todos. Inclusive para as máquinas de controle da corrupção dentro e fora do governo.

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Nenhum controle, neste caso, pode ser total se o universo de controle é parcial. Quem “ganhou” um contrato público poderia pagar “alguém” com $.com.br, dinheiro de contratos privados e a trilha esfriaria... Mas só se quem executasse contratos públicos não houvesse que relatar, em tempo real, quanto paga e para quem. E, principalmente, o porquê da transação. Para virtualizar, de vez, o dinheiro, começaríamos pelo dinheiro público e, na prática, quebraríamos o sigilo das transações financeiras de todas as instituições pelas quais ele passasse. A primeira e talvez única regra seria simples: transacionas com o governo? Muito bem: as contas do governo são (teriam que ser) públicas. As tuas, fornecedor, têm que ser também. Isso seria uma revolução danada. Mas será que seria defensável? Dinheiro é algo que se espalha muito rapidamente pela sociedade, dado que todo mundo precisa dele. E como o governo já seqüestra mais de 40% do PIB para uso (e estrago) próprio, muito provavelmente em todo bolso, por aí, há notas que vieram do $.gov.br, passando por só um ou dois intermediários. A conclusão, na mesa do bar, é que teríamos que virtualizar todo o dinheiro, para todos. Isso faz sentido? Outro filósofo, com um pouco mais de álcool no sangue, acha que sim, e bem alto, pois “algo precisa ser feito”. Mas um cético, quieto (com suas doses) até então, remete ao direito à privacidade (também nas comunicações), garantido na constituição. Segundo ele (que estava certo) pelo inciso 12 do artigo quinto da Carta Magna, se dinheiro é “só” informação, que pode ser transferida entre pontos para remunerar produtos e serviços, esta informação é privativa dos cidadãos que a criam e dela fazem uso. Ou seja: tanto para dinheiro real, em notas e moedinhas, ou virtual, representado por informação sobre nosso poder de compra, vale -- como não poderia deixar de ser -- a constituição. Mas eis que há um projeto do senador Eduardo Azeredo tramitando no Senado (e que está para ser votado na Comissão de Constituição e Justiça) que inventa uma “defesa digital” para quem se “sinta ameaçado” por agentes informacionais, dando aos primeiros o direito de interferir nos fluxos de comunicação dos segundos como medida de “prevenção” contra possíveis “crimes digitais”. O senador e seus auxiliares certamente não estiveram reunidos com a força tarefa lá da minha mesa de bar. Houvessem participado da discussão, concluiriam que não se pode conceder, sob hipótese alguma, o direito de “defesa prévia”, e pela via do ataque, contra algo tão pervasivo, na sociedade moderna, como fluxos de informação. Quer um exemplo? Pense num pregão eletrônico, uma das formas de compras governamentais menos sujeitas a questionamentos que há. Faz-se propostas para fornecer lotes, e todos os agentes estão sujeitos a alguma assimetria de informação: não conhecem os limites dos outros nem, teoricamente, o valor arbitrado, pelo comprador, para um lote. Imagine que um vendedor, beneficiado pela “lei” Azeredo, resolve que outro agente do processo lhe é hostil e, em “legítima” defesa, acaba obtendo dados outrora protegidos do mesmo, em função de tê-lo “invadido” para “se proteger”. Descobre, por exemplo, o fluxo de ofertas do outro e, de posse de tal informação, modifica as suas e ganha a encomenda. O outro agente, claro, não era hostil. Mas o atacante, questionado a posteriori, dirá que tinha todas as evidências (inclusive as plantadas por ele mesmo?...) para demostrar que era e, de tal forma, entendeu sustentável seu direito de agir. Daí até que alguém prove que Jesus não é Genésio, haverá falências e talvez violências e a “lei” Azeredo, além de não ter servido para nada, terá complicado, e muito, todo o processo. E isso porque era uma comprazinha governamental. Agora imagine bancos guerreando uns contra os outros. Ou empresas. E, claro, pessoas físicas.

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Pior ainda é imaginar que uma proposta de lei que pode ter tamanho impacto social já tenha sido aprovada na Comissão de Educação do Senado. Alguma coisa está errada: como é que algo que quase claramente viola um artigo da Constituição não começa sendo discutido na Comissão de Constituição e Justiça? Coisas do Brasil. O exemplo usado aqui, de informação como dinheiro, é apenas um dos muitos que veremos nesta sociedade da informação que ainda está começando. O senador deveria, com sua equipe, pensar neste e em outros possíveis exemplos e, humildemente, retirar o projeto de circulação. Reconhecer erros, ainda mais a partir do clamor da sociedade, não é uma fraqueza e sim uma virtude muito louvável dos verdadeiros homens públicos. No lugar da “defesa digital”, bem que o senador poderia propor um aumento radical de transparência das compras, contas e homens públicos de todos os poderes. Públicos, as instituições e pessoas já são. Que tal, em benefício de uma maior simetria de informação, passarmos a saber de tudo sobre um de seus particulares fluxos de informação, o de dinheiro?...

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Sucesso é Confusão37
Um negócio de sucesso tem um bom número de dificuldades para continuar como tal. Uma delas é a confusão das comunicações. E isso em plena era da informação. Como diminuir a confusão? O meio, definitivamente, não é a mensagem. Vivemos num mundo de múltiplos meios e fontes de comunicação, com as empresas modernas -e seus colaboradores- conectados. O tempo todo. A todo mundo, no mundo todo. Não há uma mesa, nas empresas, onde não haja uma janela num chat, outra numa rede social e, no emeio, dezenas de interações e contatos em suspenso, de dentro (e às vezes mais) de fora do negócio, esperando, vez por outra exigindo, a atenção do destinatário. Ou isso ou a internet (aberta) foi proibida por ali, ou pelo menos restrita demais e trabalhar no lugar, aqui pra nós, se tornou um saco. O trabalhador da era industrial vende sua força e habilidades motoras à empresa. A revolução industrial, ou o que sobrou dela, convive com uma cada vez mais presente era da informação, onde o mercado não é de músculos, mas de capacidades cognitivas. A atenção, aprendizado, crítica e síntese, o julgamento, criatividade e a arte de começar um documento qualquer e terminá-lo no prazo, botando sentido entre começo, meio e fim. Isso tudo permeado por um ruído que não é o de máquinas e motores no chão de fábrica, ensurdecedor mas repetitivo e fácil de ser relegado a um segundo plano mental. Nosso contexto de trabalho é a superposição de milhões de fontes de informação gritando por atenção, quase que perseguindo nossos sentidos. Entre elas, nossos amigos e colegas de trabalho, reforçando as indicações para ouvirmos desde a música que muitos queriam cantar para os chefes até o último gol do Íbis. Ou responder um emeio urgente sobre a proposta do cliente de Afogados da Ingazeira. O resultado é que tratamos muita coisa irrelevante e perdemos outro tanto de real interesse no caminho. No caso das empresas, elas perdem nosso tempo, pelo qual pagam para que resolvamos problemas... usando a capacidade humana, essencial, de pensar. Ou de processar informação. Pois bem. No meio de todo este caos há empresas de sucesso. São muitas e a nossa pode muito bem ser uma delas. Bob Herbold, que foi COO da Microsoft e tem duas décadas de experiência na Procter&Gamble, autor de Seduced by Success (A Sedução do Sucesso), inclui a confusão nas comunicações entre as armadilhas mais freqüentes que afetam empresas de sucesso. Há outras, como a negligência, o orgulho do sucesso (que elimina a crítica e abre portas para os erros que podem levar ao fracasso), a timidez, a complexidade (dos processos, da visão, das operações) e a pura e simples mediocridade. Ingredientes do que se poderia chamar de “fracasso do sucesso”. Mas vamos nos concentrar aqui na confusão da comunicação, que já é grave o suficiente sem considerar o cenário de caos informacional que descrevemos lá atrás. Imagine quando os dois se somam. O que é a confusão nas comunicações de um negócio? Pense na estratégia que não chega nas bases. Sem isso, ações e operações podem resultar no contrário do que é delas esperado. Olhe para missão que não é entendida por todos. Se não for, o que estamos fazendo neste barco, que cada um acha que é seu (no melhor caso), talvez até fazendo a mesma rota mas servindo públicos e causas diferentes? Imagine sinais que saem do topo mas não chegam nem no meio como deveriam chegar e, a partir dali, se perdem no tumulto do ruído organizacional. Se um ou mais destes fatores está presente, deve estar somado à incapacidade de ouvir as bases de forma realmente temporal e significativa. Pode ser até que haja caixinhas (virtuais?) de reclamações e sugestões, mas seu verdadeiro sentido não é apreendido
37 Atualizado em 02/06/2007 - 00:00

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pelos processos do negócio. E as necessárias respostas não voltam a tempo. Ou, quando voltam, não fazem sentido. Já faz tempo que negócios são fluxos de informação. Mesmo que fabriquem produtos, os serviços ao redor destes, codificados como informação, são normalmente mais importantes. Quer ver? Uma geladeira não é uma máquina de gelar: é um ícone de design, uma marca, uma reputação, um serviço de assistência técnica. Gela, mas é principalmente um fluxo de informação que me levou a confiar num certo fabricante. Era assim no passado, numa certa escala; hoje, é isso em uma escala muitas vezes maior, até porque os processos fabris se tornaram commodity: qualquer um pode “fabricar” geladeiras, encomendando até o projeto a quem se especializou nisso. As empresas de que Herbold fala, e onde ocorre a confusão nas comunicações, estão informatizadas, e muito. Como explicar, então, que as pessoas não se comuniquem como deveriam? Talvez seja simples: comunicação é cultura. Cultura é toda informação passível de ser transmitida entre seres humanos, e isso ocorre sempre dentro de um contexto. Os sistemas de informação por trás das pessoas, nas empresas, raramente criam os mecanismos de transmissão de informação entre as partes do negócio e, quando o fazem, desprezam o fator contextual, ou não conseguem representá-lo apropriadamente. Como manter, neste caldo, a coesão cultural de negócios que têm centenas, milhares ou dezenas de milhares de pessoas? As receitas são muitas e funcionam, pois tais negócios existem e resistem. Não sem tensões e crises. Muitas, na maioria das vezes. A minha receita é criar condições reais para que todo mundo fale e seja ouvido. Numa firma de dez pessoas, é muito fácil: todos estão na mesma sala e sabem detalhes de cada outro, quase o tempo todo. Mude para centenas e já não dá mais para saber o que rola nem na sala junto da sua. Mas uma das muitas formas de ver negócios deste tamanho é através de dimensões horizontais (áreas de competência e infra-estrutura, por exemplo) e verticais (projetos e plataformas de negócio, por exemplo). Para conectá-los, aqui vai uma receita, em um parágrafo. E que aumenta, pra começar, o ruído corporativo, porque bota muito mais gente “no ar”. Pegue cada grupo, de cada horizontal e vertical, e instrumente suas comunicações para o negócio inteiro. Faça com que cada um publique um blog, na intranet, visível para todo o negócio. Assim, se eu quiser, posso saber o que está rolando no projeto X, se vai bem , se está atrasado, se saiu alguém, se entraram mais dois. Faça com que cada texto tenha um ou mais rótulos, ou palavras-chave, vindos da base, que vão acabar criando um dicionário corporativo de assuntos em discussão. Faça com que cada pessoa “importante” na organização também tenha seu blog, do CEO aos gerentes, incluindo o porteiro que está aí há 20 anos ao. Se tá rolando algo estranho no fim de semana, aparece no blog dele. Em suma, bote todo mundo pra criar seu noticiário na rede. Aí vai haver assunto do negócio em quantidade suficiente para se muita coisa se tornar interessante para muita gente. Mas como é que este povo vai ler isso tudo, no topo de tudo que já têm que ler? Simples: use uma interface como NetVibes, que possibilita a leitura de dezenas ou centenas de fluxos de informação numa batida de olhos, trazendo a informação sumarizada de forma simples, interativa e deixando cada um organizar e buscar, na sua tela, o que lhe é mais relevante. Pra fechar o circuito, treine todo mundo que entra no negócio para escrever e ler (ou {de}codificar) o que faz ({n}o negócio) sempre que for relevante e junte aos novos os mais antigos que mais reclamam da falta comunicação na empresa. Se houver
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abertura para quem estiver participando do processo influir nas mudanças e ser recompensado por isso, cada vez mais gente vai participar da infosfera organizacional. E isso vai diminuir, no curto e médio prazo, a entropia de informação na casa. Contra muitos fluxos de informação, alguns indesejados, dentro do negócio, mais fluxos de informação dentro do negócio, com mais conectividade, significado e transparência em cada transação. Nada de novo, por sinal: é o velho combater o fogo... com fogo.

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Breve, num celular perto de você...38
O mundo é móvel. Isso foi assunto de conversa nesta coluna semanas atrás. Na prática, ele ainda não é tão móvel assim. Mas cada dia fica um pouco mais... Imagine a cena: você liga para um celular e, antes de falar com o outro lado, uma voz avisa... “espere um pouco, sua ligação será completada dentro de cinco segundos”. Leia o texto entre aspas de forma clara e pausada. Leva cinco segundos. Isso do seu lado, que ligou. Do outro, a frase é outra, pois a pessoa pra quem você ligou habilitou uma forma de receber chamadas onde ganha créditos por ouvir mensagens publicitárias de dez segundos antes das ligações serem completadas. Você, que ligou, só começa a pagar depois da ligação de verdade começar, claro. Na ponta de cá, você anda navegando pela web. Há cada vez mais gente fazendo isso e, alguma hora, todos os celulares estarão na web, o tempo inteiro. E você habilitou um modo de navegação onde ganha descontos no preço da banda quando vê, antes do site onde está entrando, propaganda dirigida especialmente à sua classe de usuários. Ou a você próprio, se o serviço localizar seu celular no aeroporto, esperando um vôo atrasado, em frente à banca de revistas... entrando num site que tem a ver com uma revista que gostaria muito, afinal, que você fosse até a prateleira e comprasse o exemplar em papel. Cenários irreais? Será que não teremos paciência para “ver” ou “ouvir” propaganda nos celulares? Não é o que mostra um estudo recente da Strategy Analytics, que avalia o gasto mundial em publicidade móvel, este ano, em US$1.4 bilhões. Uma pequena grande fortuna, considerando os muitos problemas que o meio enfrenta, como a multiplicidade de plataformas nas mãos dos usuários, com todo tipo de capacidade e resolução. O que leva a padrões de uso incertos, ainda mais porque há deficiências múltiplas nos sites dirigidos ao usuário “móvel”. No Brasil, quase inexistem. Sem falar na visão, ainda primária, de anunciantes e seus intermediários. Acontece que a Strategy Analytics projeta um gasto de US$14.4 bilhões em mídia móvel para 2011, daqui a meros quatro anos. Se rolar, será nada menos do que 20% de todos os gastos com publicidade em todas as mídias. Há razões para tamanha perspectiva de crescimento? De sobra. Os celulares são um dos mais prováveis pontos de convergência digital do futuro próximo. Já são máquinas fotográficas, alguns de maior resolução do que muitas máquinas propriamente ditas. São filmadoras, tocadores, gravadores, são rádios e estão virando TV. Digital e com canal de retorno coladinho, pronto. Agora imagine tudo isso convergindo sobre a mesma plataforma de comunicação e computação, cada vez mais sobre a mesma tecnologia da web, o velho e bom conjunto de protocolos IP. E daí? Tire a foto e ela não fica armazenada no celular. É gravada no “seu” disco, na operadora. Na verdade, num serviço que alguém presta à operadora, que o empresta a você, por um preço que faz parte da sua conta. Mas você e eu não precisamos saber dos detalhes. A não ser que poderemos adicionar um comentário à foto (em áudio, também), que ela pode ser localizada no espaço e tempo (que ficará gravado no registro, mas não necessariamente na “foto”) e que, com um clique a mais, podemos publicá-la num fotolog qualquer.
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Atualizado em 09/06/2007 - 00:00

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Quantas oportunidade para inserir publicidade e marketing aparecem num cenário tão simples quanto “tirar uma foto”?... Claro, se você deixar. A coisa não pode ser invasiva a ponto do sistema descobrir que alguém, na imagem, está tomando o refrigerante X e vir tirar onde de que o melhor é o Z, bem no meio da nossa diversão. Como a foto está indo para algum servidor “lá atrás”, é facil fazer isso. Só que é invasivo, talvez demais. Mas há quem possa achar muito interessante uma outra proposta: que tal, diria a publicidade, se você (sua foto, na verdade) fosse “a” propaganda, para um certo público, por um tempo, com todos aqueles sorrisos (e as latinhas...), em troca de... descontos, mais latinhas ou, quem sabe, dinheiro de verdade? As possibilidades são muitas. Infinitas. O limite é a imaginação dos publicitários e a plasticidade dos clientes e usuários. Mas há problemas. A indústria anda meio desligada e não sabe bem onde está o novo chão. Porque talvez seja preciso fazer uma TV para o celular, por causa das especificidades da plataforma móvel. Incluindo a tela pequena demais, a bateria limitada, o pouco tempo do usuário e o tipo de uso: se estou fora de minha cidade, talvez queira ver o noticiário da TV de lá e não daqui. Depois dele passar na TV aberta. Ou sob demanda, à medida que notícias de interesse estejam disponíveis. Isso tem tudo a ver com TV para a internet. E está, talvez visceral e viralmente, ligado às comunidades que se formam ao redor de pessoas e conteúdos. Fixos, móveis, aqui, ali, em qualquer lugar. Minha rede social real está no meu celular. É nele que sou encontrado por quem quer falar comigo. Cada vez mais gente me manda SMS, meu emeio está lá quando não estou num escritório e algumas das minhas fontes de informação aparecem mais no celular, via RSS, do que no laptop. Mas as redes sociais que estamos formando, na web, ainda estão muito pouco no celular na maioria dos países, à exceção da Coréia e Japão. As previsões da Strategy Analytics levam em conta o aumento do número e da população de tais redes, aumentando a diversidade e quantidade de conteúdos e seus usos, o que certamente criará mais oportunidades de interação, patrocínio e promoção. Afinal de contas, audiências são comunidades, sejam elas de TV, sites, blogs ou perfis. A dinâmica de relações intermediadas por um sistema de informação cujo usuário está numa cadeira, à frente de um PC ou Mac, é uma. Ela tem espaço, tempo, máquina, energia na parede e, talvez, banda muito larga. No ônibus, na fila da balada, no atraso do avião, na viagem de metrô ou no campo de futebol, teclando num celular, é outra. E desta sabemos ainda muito pouco. Até porque a “grande” mídia tem tido medo de errar e, por isso, experimenta pouco, não corre riscos, não ajuda a criar alternativas e sucedâneos ao padrão atual de audiência passiva, que começa a morrer de morte morrida. Cada vez mais rapidamente e no mundo inteiro. O celular vai nos ajudar a fazer a mudança de espectador de programas e comerciais para usuário interativo de mídia digital. Isso vai ocorrer, também, com a TV digital. Que por sinal vai estar no celular. E não deveria ser surpresa para ninguém que, com tanta gente com um celular na mão, em todo lugar, o tempo todo, 20% da publicidade vá ser gasto lá. E parece pouco. Eu acho que pode ser bem mais...

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A nova indústria cultural39
Estamos vivendo o fim da industria cultural estabelecida a partir de Gutenberg. Uma outra está tomando, devagar, seu lugar. Que outra? E quando, e como? Andrew Keen, autor do polêmico A Cultura do Amador, fez um sumário do texto em dez pontos, uma espécie de manifesto anti-web2.0. O subtítulo do livro diz quase tudo: como a internet de hoje está matando nossa cultura. O primeiro ponto do decálogo é… o culto do amador é a ilusão mais sedutora da utopia digital... pois sugere, de forma enganosa, que todos têm alguma coisa a dizer. Lá no fim, o autor diz que a conseqüência do descontrole dos desenvolvimentos digitais será a vertigem social,... pois tudo estará em movimento e será apenas opinião.

Theodor W. Adorno, o mais importante filósofo alemão do pós-guerra, escreveu um texto fundamental para o entendimento da “indústria cultural”, exatamente aquela que, segundo Keen, está sendo “destruída” pela internet. Segundo Adorno, a indústria havia limpado o “lixo” da cultura, domesticando, aperfeiçoando ou proibindo os amadores ou, na prática, a disseminação de sua produção. Ao mesmo tempo, a padronização, os estilos comuns e a massificação levariam, segundo o pensador, à comoditização da cultura, transformando-a em anúncio, ou quase. Era um pressentimento da primeira MTV. E no fim da Segunda Guerra, onde Adorno via também o fim do mercado livre.

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Atualizado em 16/06/2007 - 00:00

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

De lá pra cá, o mundo mudou, caíram cortinas e muralhas e -- até por causa disso -- apareceu a internet, a máquina de inovação que, entre tantas outras coisas, também publica. Muito, tudo e de todo mundo. Nem todo mundo, claro, tem alguma coisa relevante a dizer para todo o resto do mundo, no sentido da indústria jornalística. Ela, aliás, já não derruba presidentes ou inicia revoluções como no passado. Mas todo mundo tem alguma coisa a dizer para algum público, nem que seja sua família e amigos. Pelo menos por algum tempo. Nada é mais importante, em benefício do próprio futuro da indústria cultural, que quem queira se manifestar que o faça. Alto e bom som. E pra todo mundo. Quem quiser leia (veja, ouça…) e goste. Ou não. Problema de cada um. Só não venham limitar o nosso direito de dizer o que bem queremos. Estamos vivendo apenas mais um estágio da "indústria cultural", agora veiculada pela web, onde os mecanismos de refinamento que a cultura sempre teve, para selecionar e separar o que era "significativo" do que não era foram descontrolados. Como em um famoso cartoon do começo da internet, qualquer um pode ser relevante: no momento, basta ter audiência. Mas o momento muda e o refinamento acontece, passo a passo, à medida em que vamos entendendo o que e quem vale a pena ler, ver ou ouvir. E trata-se de um processo educativo para todos. A diferença, hoje, é que a prensa (virtual) de Gutenberg está em sua versão web 2.0, democratizando os meios de produção de informação a níveis nunca antes imaginados pela tal "indústria cultural". É isso que gera o caos "denunciado" por Keen em seu manifesto. Mas não há, nem precisa haver, desespero. Não estamos chegando no fim do mundo, mas no começo de um novo tempo. E o tempo, a prática, os processos de seleção natural, em conjunto, vão criar as novas relevâncias e restabelecer alguma ordem. Não, e nunca mais, toda a ordem que já existiu quando os donos de jornais e editores decidiam o que imprimir e distribuir. Assim como Gutenberg desorganizou o poder de reis, igreja e mosteiros com a prensa de tipos móveis, a indústria cultural está sendo modificada para sempre pela liberdade criada pela web. As empresas, suas estruturas e práticas organizacionais vão pela mesma estrada. Para sempre. Sem volta. Mas não estamos indo para o caos puro e simples, e sim para um mundo muito mais diverso, sofisticado e complexo… e mais, bem mais difícil de entender e administrar. Bem-vindos. É só mais uma parte do futuro começando…

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Tecnologia pra lembrar. Pra esquecer também.40
Construimos uma humanidade baseada no esquecimento. Como é que vamos mantê-la, quando o esquecimento, na rede, virou lembrança eterna?... A humanidade foi construída sobre o princípio básico de que lembrar é mais difícil do que esquecer. O normal, de fato, é esquecer. Tanto que nos lembramos, e muito bem, das pessoas que parecem ter uma memória de “elefante”. É bem verdade, como os homens bem lembram, que as mulheres se lembram de muito mais, especialmente quando se trata de aniversários de namoro, do primeiro jantar com a sogra e do casamento. Mas isso é outra conversa. Acontece que as tecnologias para captura, publicação, armazenamento, replicação, busca e disseminação de informação, combinadas na rede, nos últimos anos, começam a criar uma nova capacidade: a incapacidade de esquecer. Nunca, em nenhuma época, ninguém teve tanta informação sobre as pessoas e seus hábitos como certas empresas estão começando a ter, na rede. A ponto de começarmos a achar que sites de comércio eletrônico estão “viciados” em nós.

E estão mesmo: a combinação de memórias, depositadas em nossos computadores e nos servidores deles, associadas a sistemas de recomendação que analisam nosso comportamento, “criam”, em tempo real, a informação que queremos ver. Mesmo? Ou seria a visão que o site, de alguma forma, gostaria que víssemos, para magnificar nossa chance de gastar mais tempo, dinheiro ou os dois, lá? Não preciso dizer qual é minha aposta.

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Atualizado em 23/06/2007 - 00:00

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Viktor Mayer-Schönberger anda preocupado com essa nossa nova incapacidade de esquecer, baseada na web. Na era de Google (veja este editorial do FT.com) e outras ferramentas de busca e armazenamento, tudo o que há de registro nosso, aqui na Terra, está sendo gravado para sempre. Incluindo todas as suas (e as minhas) transações comerciais, em qualquer lugar onde compramos qualquer coisa, na web, nos últimos muitos anos. E não só: tudo o que está escrito no meu blog, no seu e nos fotologs e redes sociais de todas as pessoas que publicam, neles, toda sua vida, tem o mesmo destino... a memória, infinita e perfeita, da rede. E isso pode levar a todo tipo de problema novo, na sociedade, já que o esquecimento paulatino dos acontecimentos tem sido a base sobre a qual nossa história é montada. Segundo Mayer-Schönberger, temos que começar a implementar uma ecologia de informação, onde o sistema legal deveria obrigar quem coleta dados (não só na rede) a criar software que esquece com o passar do tempo e, principalmente, onde tal capacidade é padrão. Ou seja, a menos que determinemos o contrário, uma vez expirado o prazo de validade, por nós definido, dos dados que confiamos à loja onde compramos a biografia de Roberto Carlos, eles são evaporados. Aí a loja, sem necessariamente lhe esquecer, passa a não mais saber que você comprou o livro, hoje proibido, e por sinal muito bom. Alguma proposta como a de Mayer-Schönberger terá que ser objeto de discussão nos legislativos mundiais em breve. Antes que seja muito tarde para protegermos nosso presente (e futuro) do nosso passado. Tenho ouvido histórias terror sobre pessoas, muito jovens, atingidas por brincadeiras de sua história recente que, antigamente, aconteciam num bar, na faculdade, num acampamento. Coisas impensadas e inconseqüentes pelas quais qualquer adolescente passa. Mas que hoje, na rede, ficam gravadas para sempre. Parece razoável que, mesmo querendo entregar muitos de nossos dados a um site qualquer, para uma determinada transação, queiramos garantir que os mesmos sejam destruídos quando nós, e não o site, achemos que não seja mais necessário. Resta saber quando tal agenda vai aparecer em fins-de-mundo como o nosso, com o legislativo envolvido com bois voadores e outros tipos de assombração comuns na capital federal. Tomara que seja logo, pois sua falta, aqui, pode muito bem significar mais perda de competitividade para o Brasil.

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

A Copa de Futebol e o Congresso de Robôs...41
Começamos mal na Copa América. Espera-se que seja diferente na RoboCup. Que talvez nos leve a trocar a representação popular... Nunca joguei um futebol que se aproveitasse. Menino, dono da bola e do campo, me descobria no gol. E não reclamava, porque era perna de pau certificado, também como goleiro. Talvez fosse tão ruim como a seleção brasileira desta Copa América. Mas isso deve ser um erro de percepção. Eles não são ruins, só não são um time. E jogadores não ganham Copas, times sim, como a Itália de 2006. E ninguém tá nem aí pra Copa América. Não, não é verdade: México 2 x 0 Brasil deu até na Malásia... Mas isso é um detalhe, como dizem nossos “campeões”.

Enquanto as peladas se desenrolam na Venezuela, há uma outra “copa” começando no primeiro de julho, em Atlanta, na Geórgia. E o Brasil também está lá, com onze entre 321 times de todo mundo. É a Copa Mundial de Futebol de Robôs, a RoboCup, cujo objetivo é desenvolver, a partir de um evento competitivo anual e mundial, um time de robôs humanóides autônomos capaz de ganhar do time campeão mundial humano em 2050. Sim, haverá uma Copa de humanos em 2050. Se haverá um time de robôs que possa vencê-lo, é outra conversa. Até lá, temos 43 anos e pelo menos quatro novas gerações de computação, comunicação e controle.

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Atualizado em 30/06/2007 - 11:51

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Tal tipo de aposta de longo prazo é comum na história da ciência e engenharia; trata-se de um “grande desafio”, impossível de ser realizado curto prazo, usado como motivação, política e estratégia de financiamento para pesquisa, desenvolvimento e inovação. Mas há gente olhando para bem mais perto. O Pentágono planeja substituir um terço de seus veículos de guerra por robôs até 2015. Para tal, estimula competições entre sistemas não tripulados, como a Darpa Grand Challenge. Na última, o problema era atravessar um deserto, só o carro e sua “inteligência”. O plano dos militares inclui sistemas aéreos não tripulados e até cães mecânicoscapazes de carregar 40kg, em condições de batalha, por muito tempo. Por trás destes artefatos, quer sejam robôs futebolistas, armas autônomas ou animais “elétricos”, há software. No software, há regras: de mobilidade, observação, manipulação, combate, regras genéricas e específicas, mas nenhuma que responde, de forma segura, aos questionamentos que começam a ser feitos sobre o impacto de sistemas autônomos dentro do ambiente onde coisas vivas, entre elas nós, humanos, estamos. Sobre armas autônomas e inteligentes, pesquisadores descrevem um espaço multi-dimensional de ações comportamentais possíveis, destinado a resolver o problema de eliminação “ética” de alvos. Será suficiente?… O assunto vai ser muito discutido em futuro próximo, e não só por causa de armas “inteligentes”: à medida que “coisas” começam a parecer inteligentes, toda a problemática ética e moral que enfrentamos como seres vivos vai ter que ser discutida também para as máquinas. E o assunto não para de se tornar cada dia mais complexo e polêmico. Quer ver? Visite este link. O que nos leva de volta a 2050: se vai mesmo haver um tira-teima entre robôs e humanos para decidir quem são os reis do futebol, quais serão as regras do jogo? A catimba e a malemolência fariam parte da ética daquele futebol? Assim como a cartolagem e os juízes, por assim dizer, menos atenciosos ao desenrolar dos acontecimentos? Outro dia, uma faixa pedia para o juiz “roubar com moderação”. Será que um jogo limpo, ético, de acordo com os princípios quase heróicos que Charles Muller trouxe para o Brasil... teria o interesse e torcida de um confuso e bagunçado jogão dos nossos dias? Ou será que, no time de robôs de 2050, a “ética” será definida pela (grande) banda podre do nosso Senado, pra tornar o jogo mais “interessante”? Esperemos que não. Do jeito que a coisa vai, será o contrário: a solução para o Congresso pode ser o desenvolvimento de representantes-robôs, debaixo de regras claras, transparentes e muito bem implementadas. Daria menos noticiário. E sairia muito mais barato. E, se os robôs ganharem dos campeões do mundo, porque não poderiam ser deputados e senadores?...

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Feira do Paraguai: liberou (quase) geral.42
Governo reconhece que não controla fronteira. Sacoleiros ganham status. Política industrial se perde em medida provisória. E o Brasil continua o mesmo. Se você mora no Brasil, deve saber onde fica, em sua cidade, a "feira do Paraguai". Pode ser uma feira de verdade ou um alguém, que atende em casa (ou no seu trabalho) e tem acesso a tudo o que existe do outro lado da Ponte da Amizade. Principalmente produtos digitais, pequenos, de maior valor agregado e maior lucro para os sacoleiros. E a preços que fazem sentido para os consumidores.

Ocorre que a "atividade" de sacoleiro é ilegal. Trata-se de contrabando puro e simples. Ou tratava-se. Em 29 de junho, reconhecendo a impossibilidade de conter a bagunça na fronteira paraguaia, que é de fato uma região de livre comércio, a medida provisória 380 criou um regime especial de tributação (25%) para os produtos vindos do país vizinho e estabeleceu uma cota anual de importação (R$240 mil) por sacoleiro. Diminui o caos, bota mais gente na legalidade, cobra imposto. Teoricamente, o país fica mais simples. Resta ver se a 380 será suficiente para "organizar" a fronteira. Num iPod de 4GB, Paraguai (menos de R$ 500) e Brasil (mais de R$ 1.000) distam mais de 100%, sem procurar muito. Se os sacoleiros trouxerem só iPod e iPhone (já desbloqueado...), podem dominar o mercado nacional. O que seria, de
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novo, muito bom para os consumidores. Ainda mais agora, depois de legalizado o “negócio”. O que força a pergunta: porque o Brasil insiste em cobrar impostos de importação estratosféricos sobre produtos que não produz e que não tem a menor chance de produzir? Será que alguém imagina que o mercado nacional é suficiente para a Apple produzir iPods e iPhones, aqui, só para consumo local? O Brasil não é competitivo, hoje, como plataforma de produção para o mercado mundial. Se fosse, os artefatos digitais que inundam o planeta estariam sendo produzidos aqui e não na China. Ocorre que o Brasil às vezes esquece que o mundo -- e suas estruturas de produção -- é realmente global. Ainda por cima -- claro -- não é a Apple que “faz” o iPod: o conceito, o design, a cadeia de valor... são “da” Apple, assim como a maior parte do negócio e do lucro. Mas o iPod é feito por aí... no mundo. Manter o país fechado -- com reservas de mercado vazadas pelo contrabando -- acaba nos tornando ainda menos competitivos. Não há nenhum fabricante nacional que agregue valor à vasta cadeia mundial de acessórios para o iPod. Ou qualquer coisa do tipo. Isso porque a coisa sempre foi imoralmente cara por aqui. Lançar produtos (digitais, inclusive) no mercado mundial, sem base local, é muito mais difícil e caro… Tivéssemos uma MP380 genérica, para tudo o que vem de fora, de qualquer forma, estaríamos participando de muito mais sistemas de negócio no mundo todo. E teríamos um mercado local muito mais competitivo. E o que rolasse aqui, (principalmente) pensado e (talvez) feito aqui, ia ser pro mundo mesmo. Está mais do que na hora de entender que não podemos competir, no mundo atual, na base de substituição de exportações e verticalização de cadeias de valor. O mundo é plano e em rede. Um negócio -- qualquer negócio -- pode ficar em qualquer lugar. Qualquer lugar onde o mercado esteja ou a partir de onde seja competitivo produzir para o mundo todo. O Brasil, hoje, para a economia digital (e do conhecimento) não se encaixa direito em nenhum dos dois critérios. Mas e se a gente enveredasse por educação de qualidade, de longo prazo, combinada com criação de oportunidades e empreendedorismo de classe mundial? Para participarmos da primeira classe da economia do conhecimento? Aí, pouco importa onde se fabrica e quem o faz. Importa (e exporta!) sim, a descoberta, inovação, marcas e marketing, (re)criação das cadeias de valor, redesenho de modelos de investimento e negócio, enfim, tudo o que parecemos estar ignorando enquanto "legalizamos" a fronteira com o Paraguai. É uma pena. Há tanto que poderia estar sendo feito e, aqui e agora, há tão pouca imaginação e ainda menos ação e coordenação. A MP380 é uma pequena gota de solução num grande incêndio de problemas. O resultado? iPods, iPhones, laptops e muito mais continuarão atravessando fronteiras, e não só a do Paraguai, nas mãos dos “importabandistas de confiança” de sempre. O Brasil é isso aí.

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O (verdadeiro?) impacto da web43
Muito mais que no passado, muito mais gente diz -- na web -- o que há (e precisa mudar) no mundo ao seu redor. Mas nada parece mudar. Por que?... Algumas semanas atrás, falamos da “nova indústria cultural”, a do nossos tempos, habilitada pela infraestrutura de inovação, publicação e formação de comunidades da internet. A rede me permite escrever de casa, ou de qualquer lugar do mundo, e publicar aqui. E dá a cada leitor as mesmas ferramentas que tenho, no G1, para fazer o mesmo. O leitor do passado se tornou o escritor do presente. Neste sentido, em especial, todo mundo se tornou também editor e publicador, o que indubitavelmente mudou muito a tal indústria cultural.

Ou não. Há quem diga que, apesar das mudanças, a internet é só “mais uma mídia”. Eu posso discordar, mas a rede é pra isso mesmo: cada um e sua opinião aparecem do mesmo jeito que a minha ou a do dono do jornal. Muito mais opinião está disponível hoje, na rede, sobre tudo. Desde “hotéis do amor” no Japão até o descalabro da política brasileira. Mas uma coisa preocupa. Na “velha” indústria cultural, a mídia conseguia, vez por outra, derrubar poderosos. Em qualquer lugar. Campanhas da velha mídia fizeram justamente isso, e não só no Brasil.

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Atualizado em 14/07/2007 - 00:00

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Como conseguiram?... Seria pelo poder de sincronizar o pensamento popular, contaminado pelos editoriais e colunas de mestres das máquinas de escrever? Seria porque muito menos gente participava do diálogo social e político e, vindos de uma mesma (ou parecida) formação, se convenciam mais rapidamente de alguma tese? Ou, pior, já estavam convencidos e só esperando uma provocação para agir? Era, ainda por cima, porque havia muito menos mídia e, conseqüentemente, fontes de informação? Pois bem. Olhe para o passado recente do Brasil. Diz-se que presidentes caíram por bem menos do que conterrâneos andam aprontando no Senado. Isso sem falar nos acontecidos, que continuam acontecendo, em partes do executivo, legislativo e judiciário. Em tempos de internet, e com tanta informação sobre tudo o que está no ar, e há algo de muito podre no ar, porque a rede não serve como máquina para lavar a roupa muito suja da vida pública nacional? Será que a internet não consegue sincronizar a população como os jornais conseguiam? Será que tal “sincronia” não ocorre porque a vasta maioria da população está excluída da internet (e vai continuar assim por muito tempo)?... Ou será que, no meio de tanta informação, não conseguimos mais prestar atenção no que realmente interessa? Será que a rede, pela diversidade, dessincroniza o pouco que a mídia clássica ainda consegue alinhar? Ao invés de fatos, sustentados dados, provas e testemunhas, a informação na rede talvez seja, para muitos, apenas opinião. E opinião qualquer um tem a sua e faz dela o que quiser. Inclusive publicar na internet. No meio do tiroteio de mídias e fontes, o cidadão, depois de ouvir e ver um grande número de lados, bota o pijama e, anestesiado pela confusão digital, vai pra cama ao invés da rua, onde talvez devesse estar, exigindo ordem na casa pela qual paga um dos maiores impostos proporcionais do mundo... e recebe muito pouco em troca. Será que, quando todos estiverem na rede, assim como hoje ainda estão na televisão, conseguiremos em conjunto- refletir sobre nosso contexto e agir, antes tarde do que nunca, para melhorá-lo? Ou, como prevê Andrew Keen, tudo será movimento e opinião, e viveremos em permanente vertigem social, mais no simulacro que a rede cria ao nosso redor do que nas nossas próprias vidas, que é onde as vacas (de verdade) estão indo para o brejo?... Qual será, no final, o verdadeiro impacto da web?

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A fuga dos anúncios44
A web 2.0 pega fogo. Investimento e negócios por todos os lados. Mas, mesmo no Silicon Valley, para onde foram os anúncios que sustentam sua mídia?... Reportagem recente na Forbes dá conta de que o Silicon Valley, casa de força da economia global de tecnologias de informação e comunicação, sustentada pelo mais sofisticado sistema de investimento do planeta, roda a todo vapor. E o boom se espalha mundo afora, por China, Índia, Europa e (até) Brasil, onde se vê melhoras significativas quando se trata de negócios de e com tecnologias da informação e comunicação e investimentos nos mesmos.

Mas a mesma reportagem revela um outro fenômeno: a mídia que dá notícias do frenesi está perdendo anúncios como nunca. Como pode? Na primeira rodada de empresas de internet, revistas como Wired e Business2.0, criadas para servir o “novo” mundo, tiraram verbas da velha mídia, de papel, rádio e TV. Isso foi há cerca de dez anos. Mas, nesta volta do relógio, os anúncios estão fugindo da “nova” para a novíssima mídia, com revistas e seus sites (alguns muito bons) perdendo publicidade para blogs, comunidades e engenhos de busca, e numa taxa muito alta… Business 2.0 perdeu 21.8% dos anúncios nos doze meses até março; PC Magazine sofreu mais, com 38.8% menos publicidade. Seu editor-chefe partiu para outra, incapaz de montar um plano de recuperação. Por enquanto, a síndrome do anúncio perdido afeta as publicações “de tecnologia”, mas
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não há nada que impeça o vírus de se espalhar por toda a mídia. E não há nenhuma razão para não acontecer em outros mercados e espaços geográficos, como no Brasil. Aqui, as evidências do fenômeno ainda são poucas, mas parece ser uma questão de tempo: quando houver mais banda e mais gente em banda larga, blogs de especialistas e comunidades de usuários, clientes (e críticos) certamente começarão a atrair uma porcentagem significativa dos recursos que hoje se destinam à grande mídia. Afinal, se os brasileiros são campeões de tempo de uso da rede, porque os anúncios não iriam para lá?... Lá fora, as indústrias de busca, blogs, comunidades e anúncios estão se organizando rapidamente, com infra-estruturas de negociação e publicação de anúncios que atingem parte significativa da novíssima mídia. Segundo a Forbes, a Federated Media Publishing já gerencia anúncios em mais de 100 blogs, o que significa que o anunciante não tem que lidar com cada um em particular, mas com um “sistema”, que cuida de todo o processo. E os movimentos são rápidos, como nos tempos de aventura do começo da internet, inclusive para jornalistas que têm prêmios Pulitzer saindo de seu “estágio” nos jornais para um deixa-que-eu-publico aparentemente mais livre e interessante. Inclusive financeiramente. No Brasil, as mudanças têm suas próprias matizes: ainda falta de estrutura do mercado de serviços de internet e isso acaba levando os “independentes” e seus blogs para a grande mídia, numa espécie de volta dos filhos pródigos... Ricardo Noblat e seu blog são o exemplo de maior sucesso até agora. Que acabou se tornando, de fato, uma agência de notícias quase horizontal, em tempo quase real. Mas é só uma questão de tempo. Pouco tempo, talvez. Menos do que a grande mídia pensa. Um dos sinais é a e-life, empresa brasileira que varre a web tentando descobrir o que se discute, em blogs e comunidades, sobre produtos, serviços e empresas, e vende o resultado para quem quer entender o que se diz, na rede, sobre seu negócio. De dois clientes em 2005 e oito em 2006, eles vão passar de 30 grandes usuários este ano. Bons ventos, os da mudança...

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Movimentos no mundo móvel45
Motorola compra A, B, C. Nokia adquire X, Y, Z. Outros compram outras letras. Apple lança celular. E as operadoras vão atrás de serviços e convergência. Tomara. A feira de negócios de internet e mobilidade anda agitada. A Nokia pagou perto de US$100 milhões por Twango, um start-up formado por cinco ex-funcionários da Microsoft e seus 10 empregados. Os quinze são os verdadeiros homens de US$ 7 milhões. Twango é uma plataforma de compartilhamento e endereçamento de mídia e o casamento de um competidor do Flickr com a Nokia dá o que pensar. Os finlandeses estão comprando: entre outros, em 2005 foi a Loudeye, pretenso rival de iTunes e, ano passado, a Intellisync, cujo negócio é sincronizar aparelhos com fontes de informação, o que pode ser muito útil se você está se movendo, por aí, e seus serviços não estão exatamente dentro de seu celular. O fato do espaço móvel, por limitações dos celulares e operadoras, não funcionar do mesmo jeito da web, pelo menos por enquanto, cria um monte de oportunidades de negócio, raramente percebidas por gente da periferia como nós, brasileiros.

Mas não é só a Nokia que está na feira: a Motorola comprou a Good, um rival da RIM (que faz o Blackberry), no fim do ano passado. Este ano, trouxe pra casa Modulus, Leapstone, Terayon, Tut e Kreatel, ligadas de uma forma ou outra a vídeo digital em rede. Sem falar em Netopia, de acesso à rede, e nos US$3.9 bilhões gastos na Symbol, que cuida de mobilidade empresarial.

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Atualizado em 27/07/2007 - 10:38

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Resumo: a Nokia está indo pra comunidades (e não só) e a Motorola pra convergência digital e localização (e não só). Os dois, e todos os outros fabricantes, estão interessados em prover o que a TIM e outras operadoras estão prometendo: “Temos que oferecer toda a convergência a partir do móvel, como fez a Vodafone na Europa”. No caso da Moto, em particular, há uma grande aposta em mídia convergente, especialmente no que se poderia chamar de localcast IPTV móvel, parte de um mercado que pode crescer mais de 100% por ano próximos anos. Ainda mais interessante é ver que negócios até pouco tempo atrás identificados como "de hardware", como Nokia e Motorola, estão se transformando em software e, rapidamente, em serviços. É fácil imaginar que a Nokia não vai "vender" uma cópia de Twango pras operadoras… até porque o valor do "sistema" seria muito menor que o "da rede". Logo, as teles comprarão seu "serviço"… e a mesma coisa vale para algumas aquisições da Motorola, senão todas. Aqui é onde entra a Apple, o iPhone e sua operadora, a AT&T, cuja escolha expõe a fragilidade da infraestrutura móvel americana: para ter mais controle sobre o que vai acontecer, a Apple optou por uma operadora 2G, que não tem banda para fazer do iPhone uma verdadeira alternativa de serviços móveis de alta qualidade, como os pares Palm Treo 700p & Verizon e HTC Mogul & Sprint bem que tentam, apesar da pobreza relativa de suas interfaces. Rodando em uma só operadora e em 2G, talvez o iPhone não vá ser este sucesso todo nos EUA, a mil dólares por ano de conta básica. E há quem ache que ele não vai pegar na Europa, por um monte de boas razões. A mais complexa é a diversidade das redes e o estilo de uso de celulares em comparação com os EUA. A mais simples é que muita gente já está descobrindo (mesmo nos EUA) que um celular não é um produto (como um iPod quase é) mas um serviço... e que a operadora é mais importante do que o fornecedor de telefones. Por isso que fabricantes como Motorola e Nokia estão no mercado, comprando empresas de serviços móveis. A Apple, especialista experiência do usuário, está fornecendo (desta vez) só a pequena ponta de cá da cadeia de uso. Se o meio não se ajustar e não entregar os serviços exigidos pelos usuários, Steve Jobs pode ter uma grande decepção. E os usuários (e não proprietários) do iPhone vão exigir muito. E quem pode acabar entregando o resultado (por um preço) são os outros fabricantes, que estão comprando tudo o que pode vir a significar serviço de qualidade do lado das operadoras…

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Rádio digital: a decisão brasileira46
Será que estamos correndo o risco de escolher uma tecnologia proprietária para usar como padrão nacional de rádio digital? Paira sobre Brasília mais uma decisão fundamental para o futuro da vida digital no Brasil: qual padrão digital adotar para as estações de rádio do futuro? Rolou uma ameaça de que o padrão seria decidido de sopetão na última quarta feira. Não foi. Ainda bem. Porque levamos anos debatendo o padrão de TV digital, processo que passou de um governo para outro, face aos apelos da sociedade por mais debate, esclarecimentos e transparência. No caso de rádio digital, parece estar faltando uma conversa mais ampla, nacional, aqui fora, pra muito mais gente participar da decisão e compartilhar dos erros e acertos que inevitavelmente se comete nestes casos. Não vi nenhum documento resumindo a discussão, muito menos notícia de que uma decisão de tão grande importância para o futuro da convergência digital no Brasil vá entrar em debate através de audiências públicas, nacionais.

Como foi o caso da TV digital, que contou com ampla participação da sociedade e, mais especificamente, da indústria e academia. Muito menos tenho notícias de documentos nacionais como este aqui, australiano, e este outro, europeu, que nos façam entender um pouco mais do processo ou da decisão. Rádio digital é um mercado gigantesco e o impacto do padrão escolhido pode ser tão grande quanto o de TV digital. Será que não deveria, portanto, estar sendo discutido de forma mais transparente? Será

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Atualizado em 04/08/2007 - 00:00

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que é a ressaca do debate ao redor do padrão de TV digital? Será que é por isso que não organizamos uma ampla consulta pública como a França fez? Falando nisso, e por alto, porque não há detalhes do processo, porque é que estamos escolhendo (pelo que parece) IBOC, americano, ao invés de DAB+, que faz uso de parte do padrão MPEG4 que já escolhemos para a TV digital aqui? Aliás, a codificação de áudio AAC+ (de MPEG4) é uma evolução (aberta) do que se usa em iTunes/Pods, sucesso mundial sob qualquer aspecto... Ainda mais, um passarinho me soprou que estamos indo (se é que estamos mesmo...) para IBOC AM, que as avaliações mundo afora dizem ser inferior a IBOC FM... Por que, mesmo? Independentemente de detalhes que diferenciam IBOC AM e FM, será mesmo que o país vai cair de novo na armadilha (como nos celulares CDMA...) de escolher um padrão de rádio que é proprietário de uma empresa, que cobra royalties por estação?... No que faz, aliás, muito bem: é o modelo de negócios dela. O problema é nós ficarmos dependentes disso. O que deveria me levar a concluir que, se a direção for esta, o país não aprende nunca. Além do mais porque o mundo parece estar escolhendo DAB+. Rádio digital é parte essencial da discussão e da plataforma de convergência digital. Rádio digital não é áudio. Pode ser imagens, mapas, jogos, software. Rádio digital é digital, não é rádio. Rádio digital é software. Rádio digital é uma imensa janela de oportunidade, que deveríamos aproveitar para fazer o que não fizemos no caso de TV digital: escolher um padrão com chances de ser verdadeiramente mundial e usá-lo sem modificação alguma aqui, exigindo como contrapartida nossa participação no desenvolvimento e propriedade intelectual de sua próxima versão. Isso sim é negócio. Do tamanho do Brasil. E ainda há tempo. A alternativa é continuar andando pra trás, mesmo que aparentando seguir em frente.

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De onde vem o futuro?47
O mundo (digital) está mudando tão rapidamente que a única certeza é de que vai mudar ainda mais. No meio do caos, de onde vem o futuro?... Um dia, Douglas Adams, genial e prematuramente falecido autor de Mochileiro das Galáxias, criou um provérbio sobre as mudanças, principalmente tecnológicas, cada vez mais rápidas no mundo ao nosso redor. A tradução livre do que Adams escreveu é a seguinte: tudo o que já existia no mundo antes de nascermos é absolutamente natural; as novidades que aparecem enquanto somos jovens são uma grande oportunidade e, com alguma sorte, podem até ser uma carreira a seguir; mas tudo que aparece depois dos trinta é anormal, um fim do mundo que conhecemos, até que tenhamos convivido com a coisa por uns dez ou quinze anos, quando começa a parecer normal.

Pois é. Com raras exceções que justificam a regra, somos conservadores e reagimos às mudanças. Só que o mundo está mudando o tempo todo e, nas últimas décadas, numa velocidade muito grande. Pense na internet. Talvez tenha parecido, no começo, um monte de computadores conectados, máquinas de interesse da ciência e negócios, onde nós, usuários, entrávamos para fazer coisas sérias, como transações bancárias e consultas a sistemas de informação do governo. Mas era muito mais, desde o começo. A rede tornou possível o relacionamento direto, entre pessoas, de uma forma livre e criativa, com o lado de cá (nós) definindo e participando da construção dos instrumentos que usamos para, principalmente, interagir com outros (muitos) humanos.

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Atualizado em 11/08/2007 - 00:00

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Tudo indica que o mais interessante da rede, para as pessoas, são as outras pessoas, o que elas fazem, têm a dizer e mostrar. Não é à toa que as redes sociais são o maior sucesso de público da internet. Dizer que a rede é um conector multidirecional de interesses pessoais é um lugar comum. Qualquer um que nasceu nos últimos trinta anos sabe de cor, salteado e na própria pele, teclado, videocam, no seu Orkut e nos textos, fotos e vídeos que publica nos logs da vida. Na verdade, há muita gente com mais de trinta que também viu o galo cantar, na rede, e sabe onde e o que fazer com isso. Mas muitos outros estão perdendo o bonde, e não só: seus negócios estão ficando sem trilhos. Eu e você, leitor (e comentarista, pois isso aqui é multidirecional) poderíamos achar que é isso mesmo, que azar de quem não está entendendo nada. Ainda mais, talvez fosse “bem feito”: quem mandou não prestar atenção no futuro? Ocorre que não se chega no futuro “prestando atenção” nele. Pense no tempo como uma escada: normalmente, achamos que o presente é uma continuação de uma seqüência de batentes que vem do passado. Agora, olhe pro futuro. Seria por acaso uma continuação da escadaria onde estamos agora, com os mesmos degraus, inclinação e tudo mais? Não. O futuro é como uma escada que vem do próprio futuro e não se encontra com os batentes que estamos subindo agora. Temos que fazer um grande esforço e correr o risco de saltar da nossa calma e tranqüila escadaria (que acaba no presente) e construir, na insegurança e nos perigos do vazio entre o presente e o futuro, os próximos passos. Numa escada virtual. Que se torna concreta se muita gente pular pra lá... conosco. Danado talvez seja entender o que este texto está fazendo aqui, num lugar onde supostamente se fala de tecnologia. Pois é. Ando surpreso com a quantidade de gente que acha e me diz que agora o futuro chegou de vez. Que a internet “é isso aí”. Que TV digital é “só” uma nova forma de fazer a televisão que “já” está aí. Isso quando pesquisas americanas indicam que dois terços dos espectadores quer ser “usuário” da TV... quer suas telas navegando na rede, com a novela dentro do browser... Pra quem acha que a vida digital que está aí chegou para ficar, talvez seja bom lembrar que não estamos nem um pouco perto do fim do caminho. Aliás, não estamos nem no fim do começo, talvez estejamos no começo do começo. E do começo de uma daquelas escadarias pras quais acabamos de saltar, que por sinal não tem muitos batentes. Outros saltos serão necessários, e breve. Falando em saltos, um daqueles fins de mundo como o conhecemos vai acontecer no dia dois de dezembro, com as primeiras transmissões de TV digital. No começo, não vai parecer nada de novo, só “mais uma forma” de fazer e ver TV. Mas TV digital não é qualidade de imagem, é interação com o usuário e entre os usuários. Quem entender pode até fazer uma carreira nisso. Ou salvar, recriando, seu negócio.

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Há vida em Second Life?48
A taxa de mortalidade infantil de Second Life é de 90 em cada 100 avatares ao fim do primeiro mês de vida. Estaria o mundo virtual, como seus avatares, fadado a morrer?... A revista Wired de agosto trata Second Life em termos muito pouco amigáveis, ao tom de “How Madison Avenue Is Wasting Millions on a Deserted Second Life” (“Como Madison Avenue está jogando milhões de dólares fora, num Second Life deserto...”). Madison Avenue, nos EUA, é sinônimo de propaganda, suas agências e anúncios, quer no mundo real ou virtual. A reportagem descreve as agruras de quem apostou que haveria milhões de pessoas querendo interagir com suas criações em SL e a crua e desanimadora realidade de ilhas às moscas. Pelo menos até agora.

Algo como oito milhões de avatares (pra quem não entrou em algum mundo virtual, trata-se de um representante virtual seu, sua “segunda vida”) foram criados em SL até agora. Apenas um milhão e duzentos mil estavam ativos em março deste ano, segundo dados da comScore World Metrix. Atividade, aqui, é ter entrado pelo menos uma vez no ambiente, usando um “browser” feito especificamente pra SL. Nos últimos 60 dias, segundo a Linden Labs (a “dona” do mundo) um milhão e seiscentos mil avatares tiveram algum tipo de atividade e, quando este texto foi escrito, havia 44 mil deles logados. A

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Atualizado em 18/08/2007 - 00:00

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

América Latina inteira tem menos de oitenta mil usuários. O que dá, numa regra de três simples, menos de dois mil latino-americanos no ar, por lá, ao mesmo tempo, dos quais menos de mil seriam brasileiros. Para a propaganda, isso é muito pouca gente. Há instalações virtuais muito elaboradas, resultado de muito tempo e dinheiro gasto, que ficam abandonadas a maior parte do tempo. A NBA do Second Life teve apenas 1.200 visitantes em junho. É possível passar horas sozinho (meditando?) nas instalações virtuais da Coke. Poderia ser muito pro meu blog, mas é um desastre para os midiáticos NBA e refrigerante. Ou não. Pode ser que os amantes de basketball estejam gastando todo o seu tempo assistindo Leandrinho detonar no Phoenix Suns. Tomando Coca. O problema é que a IBM, Coca-Cola e muitos outros não estão achando que seus espaços vão ter muita gente nem tão cedo. Primeiro porque um servidor do SL só pode sustentar cerca de 70 avatares ao mesmo tempo. Pra criar uma multidão seria preciso milhares de servidores dedicados a um mesmo espaço. Ou mudar radicalmente o software que implementa o mundo. A primeira alternativa não se sustenta do ponto de vista econômico. E a segunda não é prática. Além de infinitamente mais cara. Mas o problema real e muito mais profundo - e que vai “matar” Second Life, na minha opinião - é que SL é um mundo fechado, uma propriedade privada, comandada e ordenada por um único dono, a Linden Labs. E não conversa com o resto da rede, com os outros mundos virtuais. Não há como mudar uma “casa” construída lá para nenhum outro lugar. O “browser” de SL é só de lá. Tudo (seja lá o que for) que é de lá, é só de lá e ponto final. E este é o mesmo problema de todas as outras imitações do metaverso que há por aí Muitos anos atrás, Bill Gates e Steve Case acharam que Microsoft e AOL iriam competir entre si pra ver quem tomaria conta da vida dos usuários na rede. Na verdade, qualquer um dos dois estaria contente com 30% do negócio. Deu no que deu. Suas estratégias fechadas fracassaram, porque empresas e usuários, aqui fora, queriam uma rede interoperável, com o mesmo browser para todos os “mundos”, com a possibilidade de cortar, copiar, colar e mixar coisas de cada parte da rede para recriar suas próprias visões e versões da rede. Philip Rosedale, fundador do Linden Labs, parece que pulou esta página da lição. E talvez, ao fazê-lo, tenha escrito a última página de Second Life.

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Cada dia que passa...49
O mundo digital tem muuuitas vantagens. Mas não só. Cada vez mais, podemos fazer coisas dentro de um contexto digital. Que envolve espaço, entre outras características. Aí é que o bicho começa a pegar... Cada dia que passa, a vida pode ficar muito mais simples. Ou complexa. Só depende de seu ponto de vista. Imaginando que você queira usar toda a tecnologia que existe ao seu redor para lhe servir (e servir aos outros, como o motorista de táxi e o navegador GPS, par que vai se tornar ubíquo nas grandes cidades), a computação e controle, conectadas em rede, estão aí pra isso mesmo. Sua vida vai ser arretada. Muito mais produtiva, eficaz, eficiente e de qualidade. Sem ruído, até. Radio Head, a banda, já escreveu sua trilha sonora. Mas pense que você quer, pura e simplesmente, gazear aula, como todo mundo da minha geração fez (fugindo dos caça-gazeteiros...) e todo adolescente hoje faz, fugindo de ninguém, a julgar pelo mundo de gente que vejo, vez por outra, em horário de aula, de farda no shopping. Se depender das tecnologias de informação e comunicação do presente e do futuro próximos, sua vida vai ficar muito mais difícil. Infernal, talvez.

A partir de dezembro, Tokyu Security vai oferecer um serviço (custo: 10 reais a cada seis meses) que avisará os pais sempre que os filhos passarem numa catraca do metrô (só em Tokyo, por enquanto). Num lugar onde as pessoas só se movem de metrô, os menores movimentos dos filhos, fora das atividades programadas pelos pais, serão vigiados, notados e, muito provavelmente, controlados. E isso está proposto para o ensino primário e médio, lá. Será que vai ser tentado pra universidade, também? Ainda mais: será que é isso mesmo que queremos que aconteça em todas as situações?…

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Atualizado em 25/08/2007 - 12:04

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Consigo me lembrar de centenas de vezes, na vida, em que meus pais não deveriam ter me vigiado enquanto eu fugia das regras estabelecidas –por eles e por outros - e tratava de alguma inovação... pra minha vida, pelo menos. Às vezes era fumar escondido e no horário da aula. Dentro da escola, o que não seria detectado pela tal vigilância do metrô. Até porque não tínhamos esta sofisticação em Arcoverde. Noutras, era pegar a bicicleta e rodar estrada afora, na hora da aula, que de resto era um saco mesmo. Talvez, em pelo menos uma dúzia de vezes, devêssemos ter sido pegos. Mas não em todas... ou mesmo na maioria. O mundo lá fora é perigoso e diferente da minha vida no interior de Pernambuco e Paraíba nos anos 5070 do já tão distante século passado? É. Mas precisamos tomar cuidado, e muito, para não criarmos gerações inteiras de crianças de granja… que terão muito pouca capacidade de ler e reescrever o mundo ao seu redor. Precisamos de mais meninas e meninos de capoeira, que criem novas decodificações e proposições do e pro mundo, capazes de apagar o que de errado no que seus pais e avós estavam fazendo. Sem isso, não haverá nada de “novo” mundo... vai ser tudo, pra sempre, a mesma coisa. Mas como isso vai rolar, se esse povo for vigiado o tempo todo, em todo lugar, a cada detalhe? Pense no que está para acontecer em sistemas de localização (o que descrevemos acima, no fundo, é um deles) e imagine-se localizado por quem tem algum interesse em você, a qualquer lugar e hora. Pode ser seu empregador, gerente, namorada, pai, mãe, mulher, alguém que quer lhe vender algo, seus prestadores de serviço... enfim, todo mundo que tem algo a ver com você. Se todo este povo lhe perseguir, sua vida vai ser um verdadeiro inferno digital. Limites, ofertas, perguntas, ditames, desejos... vão lhe aporrinhar o tempo inteiro. Para alguns deles, desligar o celular vai parecer a confissão de um crime. Que você não cometeu. Mas não precisa explicar, e deveria ter o direito de não precisar. Pois preste atenção: este mundo vigiado está vindo por aí, insidiosa e vagarosamente. Antes que ele lhe pegue, comece a pensar como, socialmente, nós e nossos filhos vamos argüir pelo direito a um habeas data universal, antes que não tenhamos - mesmo - mais nada a esconder. Se chegarmos lá, uma parte essencial da natureza humana estará perdida para sempre...

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

A pirataria de software diminui. E daí?50
Aparentemente, copia-se (ilegalmente) menos software no país. Mas a pirataria ainda é muito mais da metade do mercado (potencial). E o futuro, diz o que sobre licenças de software? Dados de uma pesquisa mundial da IDC revelam que, entre 2005 e 2006, a pirataria de software diminuiu, por aqui, quatro pontos percentuais. Caiu de aparentemente astronômicos 64% para potencialmente absurdos 60%, o que coloca o Brasil seis pontos percentuais abaixo da América Latina e 25 acima da média mundial, que é de 35%. Só que não estamos tão mal: Armênia, Moldávia, Azerbaidjão, Vietnam e Zimbábue têm 90% ou mais de seu software pirateado. Uma longa distância da Alemanha e Suíça, que acusam meros 27% de pirataria.

Pera aí: como assim, 27% de pirataria de software da Alemanha e Suíça, dois dos países mais educados, sofisticados, ricos e cumpridores de leis e regras de todo mundo? Isso deveria significar (será?) que a taxa básica, inevitável, de pirataria de software (vendido como licença de uso) é “naturalmente” perto de 30%? Se nem os alemães e suíços, como um todo, conseguem cumprir a regra -- neste caso, de comprar uma licença para uso -- será que é porque há uma taxa “inevitável” de pirataria de software? Este é, certamente, um debate muito, muito quente, em qualquer lugar do mundo. Software pirata vem sendo usado de fato, desde que começou esta história de se vender licenças de uso (na década de 80) até como uma forma (alternativa e publicamente condenada pelos vendedores) de disseminação de plataformas e padrões. Em casa, ou no trabalho informal, você usa e aprende (de
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graça) o software que, um dia, pago, vai usar no local de trabalho. É legal? Não. Mas até que ponto não é útil para os produtores, como parte do processo educacional?... Assunto complicado, até porque sua discussão pública não é muito comum. Vamos deixar isso de lado e usar um pouco da teoria econômica aplicada ao assunto. Estudos realizados desde a década de 90 mostram que as variações globais na renda (e não produto) per capita, nos variados países do mundo, explicam mais de 80% da pirataria de software. E que o ambiente de negócios, sua estruturação e riqueza são uma parte muito importante do processo. Por esta ótica, seria mesmo uma surpresa 95% de pirataria na Armênia e 94% no Azerbaidjão? O custo da cópia é zero e a perda de qualidade (se você quiser enfrentar um mínimo de risco) é nula. Por que, neste contexto, pagar por uma licença?... A mesma pergunta pode ser feita na Venezuela, que enfrenta 82% de pirataria. Ou no Brasil, com nossos impávidos 60%. Considere o cenário acima e se faça uma pergunta adicional: que porcentagem do software para PCs, usado no país, é brasileiro? Perto de zero. Qual o impacto que há, em Taperoá, ou sentido por lá, em se copiar seja lá que software for, num lugar onde poucos têm qualquer noção de produção ou de propriedade intelectual?... O “ambiente de negócios” para produção intelectual precisa existir ao mesmo tempo em que se queira, ou se possa, discutir ou disputar propriedade intelectual. Mas o fato é que este ambiente e sua economia ficaram concentrados em uns poucos países do mundo – digamos -- civilizado. Ao resto do planeta, restou o mero consumo dos bens e serviços abstratos com os quais não há (à vista do consumidor) nenhuma conexão. Sem falar que as campanhas contra a pirataria muitas vezes se perdem no que se convencionou chamar de “medo, incerteza e dúvida”, o que lhes descredita quase no dia seguinte à primeira aparição na TV. Aí sobra uma incerteza, na cabeça de muitos, sobre o que é, ou deveria ser, propriedade intelectual de software e seu controle e negociação. Sem isso, não se consegue entender corretamente, por exemplo, o que é software livre. Que não é, por sinal, uma zona onde qualquer um faz o que quer nem é, muito menos, necessariamente grátis. Mas a confusão -- e as preocupações dos vendedores de “licenças” -- tem data e hora para acabar: software está se transformando em serviço e, fechado ou aberto, será provido como eletricidade. Será informaticidade, atrás de tomadas na parede, ou de redes sem fio, rodando em algum lugar que não precisamos nem saber onde. Pelo qual pagaremos, se quisermos as facilidades mais radicais... ou usaremos de graça, em troca de vermos anúncios (ou outra forma de remuneração indireta do provedor), até que precisemos usar a coisa de forma mais profissional. De uma ou de outra, por bem ou por mal, os dias da pirataria de software estão contados. Porque não haverá mais software, e sim o serviço baseado nele...

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Um Brasil que cresce como a China51
O Brasil pode estar indo devagar. Mas o mercado de PCs está acelerado. Parece que vai crescer 23% este ano, e a pisada vai ser daí pra frente ano que vem... O Brasil, sabemos todos, é o país das desigualdades. Digitais, inclusive. Havia até um esforço, andando bem, no Senado, para levar banda larga às escolas públicas. Mas tudo parou com o RenanGate. E as escolas provavelmente vão ficar mais um ano sem orçamento pra entrar de verdade da internet. Talvez esta seja mais uma razão (como se fosse preciso) pra resolverem logo o problema do senador. Mas há novidades. Muitas, e boas. Enquanto a política e economia nacionais avançam a passo de impávido cágado, as pessoas, guiadas pelo sentimento de que ferramentas computacionais são essenciais para a educação de seus filhos e para suas vidas, resolveram criar espaço, em seus orçamentos, pra informatizar suas casas. Em bom português, o varejo está vendendo computadores como nunca, e em condições inéditas -- estas sim -- na história deste país.

Computadores à prestação, e em muitas prestações (dois anos ou mais), transformaram, na prática, um produto em serviço. Dois, três anos, é o que um hardware suporta, com performance aceitável, face ao avanço frenético do software e suas demandas sobre a plataforma de execução. Dois anos pra pagar, três anos pra usar, até porque sabemos das dificuldades de adicionar memórias, discos e placas quaisquer a máquinas “velhas”, como o laptop de cinco anos de vida que (vez por outra, ainda) uso.
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Hardware como serviço. Mas isso é teoria. Na prática, segundo dados da ABINEE, a associação da indústria, 4.334.000 PCs foram comercializados no Brasil só no primeiro semestre de 2007, uma alta de 20% em relação ao mesmo período do ano passado. Nesta conta, 670.000 são notebooks, uma astronômicos 156% a mais em relação ao ano passado... só em junho foram 170 mil portáteis, o que talvez dê uma boa medida do que vai acontecer daqui pra frente. No mesmo mês, 75% dos desktops vendidos tinham monitores LCD de 17 polegadas, o que anuncia o fim dos tubos de vídeo neste mercado. No Natal, ninguém vai querer um... Uma boa parte do crescimento nas vendas vem do varejo cuja participação no mercado subiu de 14% em 2005 para 40% em 2007, até agora. E vai crescer mais até o fim do ano. São as pessoas, o crédito, os PCs mais baratos, fazendo uma festa digital. Imaginem se a infra-estrutura de rede à nossa disposição fosse muito melhor do que temos hoje. Aí era que a coisa ia pegar mesmo. Mas isso ainda é sonho. Voltemos à realidade. Ou às previsões, melhor dizendo. Segundo a ABINEE, o tempo para os fabricantes de PCs vai ficar ainda melhor: os brasileiros vão comprar 10.100.000 computadores este ano, 23% a mais do que em 2006, dos quais oito milhões serão desktops e uns dois milhões, notebooks. Em 2005, os notebooks eram 6% do mercado; este ano, serão 20%. E as boas novidades não terminam aí: também em 2005, os PCs “clones”, ou caseiros, montados em lojas ou pequenas fábricas (parte das quais informais) eram 60% do mercado total. Em 2007,espera-se que tal “produção” caia para a metade, resultado de um esforço federal, acertado, de redução de impostos e simplificação dos processos de negócio no setor. Menos impostos, muito mais máquinas legais no mercado, muito mais imposto arrecadado. Mais empregos, mais recursos para inovação, mais gente se preparando para competir, mais competição, e preços caindo. O preço médio dos desktops caiu de R$1.669 para RS1.568 entre o primeiro trimestre de 2006 e o segundo de 2007, e o dos notebooks despencou de R$4.807 para R$2.629 no mesmo período, o que explica porque estamos comprando mais notebooks. Bem que o governo podia aprender uma coisa ou outra com esta parte da política de informática. Não resolve tudo e não incentiva, por exemplo, consoles de jogos, software e tantas outras coisas. Mas pelo menos no mercado de PCs está funcionando muito bem. Até aqui, o Brasil dos PCs está crescendo a taxas chinesas. Será que poderia olhar pra fora e se tornar competitivo no mundo, como eles são? Aí, aqui, tudo seria mais barato, ainda por cima. Sem falar em muito mais empregos, mais negócios, mais inovação... e impostos pagos.

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Rádio Digital: a indústria acorda52
O processo de escolha do padrão brasileiro de rádio digital andava meio morno. Parece que os interessados estão começando a dizer o que querem. Mas querem muito pouco... A ABINEE, associação nacional dos fabricantes de produtos eletro-eletrônicos, está começando a entrar no debate sobre a escolha do padrão brasileiro de rádio digital. O representante da indústria na audiência pública da Câmara dos Deputados sobre os testes com os padrões de rádio digital disse recentemente que... "Não vejo a intenção dos americanos (do padrão IBOC) em transferir tecnologia. A questão da transferência de conhecimento precisa ser negociada inclusive para que os preços dos produtos atendam a realidade do país. Se isso não acontecer, estamos fadados a extinção” . Nós, no caso, são os fabricantes nacionais de transmissores de rádio, segundo a ABINEE responsáveis por 90% do mercado brasileiro de rádio analógico. O padrão IBOC é fechado, propriedade de uma empresa, que cobra para que se fabrique ou use equipamentos que dependem de sua propriedade intelectual. No que está muito certa, por sinal: arriscou, investiu e quer seu rico dinheirinho de volta.

Pelo andar da carruagem, quem vai errar, de novo, é o Brasil. A preocupação da indústria é a fabricação -- agora -- de equipamentos e a correspondente receita, no mercado, de preferência fechado à competição internacional. A das emissoras, principalmente as pequenas, também explicitada no debate da Câmara, é do custo de transição do sistema de transmissão analógica para o digital. Como não
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poderia deixar de ser, há promessa de financiamento público, facilitado, para que isso aconteça. Se o leitor não sabe, quase toda estação de rádio tem um deputado, senador ou, de resto, político por trás. Até Renan tem pelo menos uma. Mesmo que não seja no nome dele. Mas isso é outra história, outro processo. Voltemos à nossa discussão. Do ponto de vista de uma política para rádio digital, o que o Brasil deveria estar fazendo? Deveríamos pensar no mundo e no futuro. Ao contrário do que fizemos em TV digital, ao desenhar um mercado digital semelhante ao definido pela nossa escolha analógica por PAL-M. Nosso padrão de TV digital, como o analógico, é brasileiro mesmo: só vai existir aqui. Mas... como pensar grande? O Brasil é grande o suficiente para ter um impacto considerável na globalização de qualquer padrão. Somos quase 200 milhões e nosso mercado interno de produtos universalizáveis, como rádio ou TV, é significativo. Ocorre que nenhum dos fabricantes locais de produtos eletrônicos é global ou capaz, minimamente, de interferir de fato em padrões mundiais. Até agora, justamente por causa disso, nossos fabricantes olham somente para o mercado interno; sabem que não conseguirão competir no externo. Em certos casos, não terão licenças, que seja, para produzir daqui para outros mercados. Uma política real para o Brasil, no cenário de rádio e convergência digitais, é nos associarmos a padrões abertos que tenham a chance de se tornarem realmente globais (o que não é o caso, definitivamente, do padrão IBOC). E fazer isso em dois passos: 1) introduzir, aqui, o estado da prática de um padrão global, seja lá qual escolhermos, sem nenhuma modificação e 2) participar, desde já, da criação da próxima versão de tal padrão, fazendo acordos e criando condições para introdução de conhecimento e propriedade intelectual nacionais nas versões futuras, para o que é necessário um investimento alinhado, entre governo, academia e indústria, em inovação e empreendedorismo. Trazer um padrão aberto, global, não modificado, nos faria entrar na escala global de custos e investimento em sistemas e dispositivos. Tirar, daí, recursos para investir na evolução do próprio padrão é questão de inteligência e sobrevivência. Só que nossas decisões recentes de política industrial não primam por nenhuma destas qualidades. No caso de rádio digital, agora é esperar pra ver. Ou nem isso: a indústria parece só querer saber o que vai fabricar agora, as estações dinheiro bom e barato para trocar os transmissores e o governo, até agora, não tem política e estratégia, de mercado ou indústria, do tamanho do Brasil, para se contrapor às pressões e criar uma visão de mundo. Nihil novum super terram...

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O esgoto é a solução53
As redes de esgotos são o marco mais importante da história da medicina dos últimos 167 anos. E têm tudo a ver com inclusão digital. Em época marrom da política nacional, de vacas e cavalheiros (ou melhor, vacalheiros) indo para bem depois do brejo onde se perdiam nos velhos bons tempos, a coluna aproveita a oportunidade para falar de uma necessidade, raramente percebida por qualquer um e muito menos por representantes do povo, governantes e poderosos em geral: o esgoto.

Sim, o velho e bom esgoto, aquele que políticos não gostam de fazer porque “obra enterrada não dá voto”. Paciência, leitor, vá até o fim, pois a conversa pertence mesmo a este espaço e tem tudo a ver com vida digital. O British Medical Journal, publicado desde 1840, perguntou a seus leitores qual foi o maior marco da história da medicina nos últimos 167 anos. Deu esgotamento sanitário, seguido por antibióticos. Coincidentemente, a noção moderna de esgoto tem quase a mesma idade do jornal. No Brasil, só metade dos municípios tem “algum tipo” de tratamento sanitário; no Nordeste, 30% coletam esgoto e 13% coletam e tratam. Resultado? Uma fortuna torrada em “saúde”, sem os resultados esperados. O que já se sabia na Inglaterra do séc. XIX. Imagine a Amazônia, onde menos de 7% dos municípios têm algum tipo de coleta e/ou tratamento. Se a população aumentar, o que vai
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(o)correr nos rios da região? Enquanto isso, quanto da CPMF será usado em esgotos? Melhor nem perguntar. E nós com isso? Saneamento é uma rede de infra-estrutura social básica, como água, eletricidade e telefone. Esgoto é assunto de interesse social há cinco milênios e universalizado em qualquer país civilizado. Vez por outra, a gente reclama da inexistência de políticas públicas para incluir o país inteiro na internet, rede que representa as bibliotecas, enciclopédias, os jornais, diários, arquivos, TVs… do presente e do futuro, muitos deles escritos por nós mesmos. Mas internet é, no máximo, tão importante quanto… saneamento. Se não conseguirmos controlar o fluxo de efluentes -- incluindo o puro e simples cocô -- danosos à saúde e ao ambiente em terrenos, lagos, rios e mares, de pouco adiantará internet para todos, pois o mundo não vai estar aí mesmo. Nem pra nós nem pra nossos filhos e netos. A crise de água que o planeta já atravessa aumentará a pressão, em países como o Brasil, para incrementar a rede de saneamento. Não seria exótico pensar que qualquer governo interessado no futuro do país, cidade ou Estado estaria instalando esgotos agora, com toda pressa do mundo. Questão de saúde e de segurança pública, pois de sobrevivência. Que tal, pra aumentar nossas chances de futuro, universalizar o esgotamento sanitário, no Brasil, em 10 anos? Considerando que eletricidade já chegou a quase todos os domicílios, assim como água, e isso aconteceu antes da possibilidade (e baixo custo) de levarmos, juntamente com alguma outra infra, a internet (e de fibra ótica), a hora de universalizar a internet nas casas brasileiras é quando tomarmos a decisão de universalizar o esgoto… O custo de instalação cairia pra perto de zero, pois já temos que conectar o esgoto do país inteiro. E o problema seria localizado, cidade a cidade, cada uma decidindo o que e como fazer no seu espaço e com seu dinheiro. Muitos vão optar por redes aéreas como wi-max. Mas isso não é banda larga… larga mesmo, por casa, é 100 megabit por segundo. Ou seja, fibra ótica. Física. Instalada junto com os tubos do esgoto. Sonho? Pode ser. Mas parece razoável e exeqüível. Falta os políticos descobrirem que banda larga é tão necessária quanto esgoto e um insumo fundamental para o desenvolvimento econômico. Bem aqui no século XXI, e não em algum futuro remoto e intangível. Mas estamos no Brasil. O que ainda nos falta é chegar em 1840 e entender que esgoto universal é um item essencial da cidadania e da humanidade como entendidas hoje. A internet pode até esperar. Mas nos fará tanta falta, em breve, como esgoto nos faz hoje. Enquanto isso, é torcer para que a vaca e seus vacalheiros, ao invés de um idílico e perfumado brejo, se atolem numa bem profunda poça de esgoto. Que não foi coletado nem tratado por inoperância e culpa deles próprios.

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Pelas próprias mãos, com o próprio bolso 54
Inclusão digital: cada um por si. Um milagre do varejo a longo prazo e de as pessoas terem entendido que o governo não vai resolver seus problemas... Pesquisa recente da Research International aponta que a intenção de compra de PCs no Brasil, no futuro próximo, passa pela cabeça de 20% da classe D e está na agenda de 25% e 24% das classes C e B, respectivamente. Na classe A, em que quase todo mundo já tem pelo menos um computador em casa, a intenção de compra cai para 4%. Enquanto isso, dois terços da população nunca navegou na internet, e esse número só regrediu 1.1% entre 2005 e 2006.

Na verdade, faz tempo que não estamos progredindo muito em acesso à informação, o que aumenta significativamente a distância entre quem tem oportunidades digitais e quem não tem. Roberto Ramos, da RCR Consultoria, em entrevista publicada na TIC Brasil , explica o que está acontecendo no Brasil digital, quais são as tendências e por que é que as coisas podem melhorar daqui para frente. Com cada um, mesmo os que não têm muito, gastando boa parte do que têm para ter acesso a, literalmente, uma janela para o presente. Algum tempo atrás (em “Um Brasil que cresce como a China ”, nesta coluna) falamos das previsões de crescimento explosivo da indústria de PCs no Brasil. Os chutes dos analistas estão se transformando em realidade e as compras de fim de ano serão agitadas como nunca. É exatamente nas vendas no varejo,
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Atualizado em 29/09/2007 - 00:00

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com financiamento de longo prazo (obrigado, Plano Real), feitas hoje para as classes B e C, e em breve pela classe D, que vem a festa da indústria, neste e nos próximos anos. A partir de dezembro os set top boxes de TV digital podem entrar na mesma agenda de compras a prazo, especialmente dos que não têm TV por assinatura. Ainda mais se as TVs abertas transmitirem, no canal digital, programas e eventos exclusivos (será?). Vai ser mais um “mídiabox”, mais uma conta para o bolso das classes B, C e D, já esticadas até o limite de seu endividamento ou depois. Mas desta história falaremos em dezembro. Até lá, vamos ver soluções de acesso sem fio (de banda “não muito estreita”) e de baixo custo no mercado, estressando ainda mais as finanças domiciliares, mas que podem trazer milhões de pessoas para a rede em pouco tempo, sem um pingo de esforço de Brasília. De qualquer forma, há pelo menos três boas notícias pra comemorar. Primeiro, as pessoas estão levando a sério a necessidade de ter um computador (conectado) e, como não há nenhuma política de inclusão digital pela via social, como telecentros em profusão, cada um está resolvendo seu problema, com o seu dinheiro. Por isso, em segundo lugar, mais gente está passando a entender que, por aqui, não adianta esperar pelo governo para certas coisas, inclusive as sociais. Melhor encarar a dificuldade, empreender e cada um fazer o seu. Terceiro, por causa dos dois primeiros, a indústria cresce e emprega mais gente. Pena que o imposto que paga a mais acabe no buraco negro dos gastos governamentais, no balcão de cargos, do descaso com a coisa pública. O mapa de exclusão digital no país, a "cara" do Brasil informatizado , hoje, não é muito diferente do censo de 2000, quase uma década depois… A esperança é que as próprias pessoas, independentemente de classe e renda, resolveram resolver o problema. Coisas do Brasil: impostos INgleses, serviços de GANA. Talvez devêssemos trocar o nome do lugar pra INGANA.

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Deixando de existir... por um tempo55
A sociedade está se tornando da informação e a vida real depende cada vez mais dela. Quer ver? Experimente ficar sem documentos... Meus documentos sumiram no meio da festa, nas mãos do que a gíria policial chama de descuidista. Como não poderia deixar de ser, horas se passaram até que o fato fosse notado. Aí já era tarde, e tarde da noite. Busca aqui, busca lá, nada feito. Melhor cair na real e começar a cancelar cartões, inclusive de saúde. E começar vida nova. Nova mesmo. Fique sem os papéis e plásticos que costumam ser a prova de quem você é e, não mais que de repente, você não é ninguém e não pode fazer muitas coisas que, outrora, aconteciam num piscar de olhos. A começar por tudo que tenha relação com seu banco, do qual você depende pra ter dinheiro e pagar pela segunda via, digamos, da carteira de motorista. Seu dinheiro está lá, você foi pra lá também, e é um sábado de manhã. Não há ninguém do banco à vista. Você sabe todos os seus números e senhas, mas eles de nada lhe servem, porque seu cartão partiu desta para a melhor.

E não adianta ligar pra nenhum call center. Dinheiro? Só segunda. E um cartão novo? No “meu” banco, oito longos dias... Isso quando a entrega rápida deixaria um plástico na minha casa na segunda e, se fosse mesmo urgente, no domingo. Na hora em que me comunicaram os anos-luz de distância até um cartão novo, pensei ter passado, via algum trecho do hiper-espaço, da tal sociedade da informação para os tempos do correio a cavalo.
55 Atualizado em 06/10/2007 - 00:00

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Para muitas coisas importantes, a sociedade não é de informação coisa nenhuma. Dinheiro é uma delas. Dirigir é outra. A partir de sua viatura, o guarda vê meu prontuário on-line e descobre que estou apto a dirigir. Mas isso não importa, o que vale mesmo é a carteira que eu não carrego. Aliás, que sou obrigado -- por lei -- a carregar. Não é a sociedade da informação, é a sociedade de carregar papéis e plásticos que remetem à informação sobre você e seus direitos. Um dia, para tirar dinheiro do caixa automático, o cartão será mera redundância, quando a coisa fizer identificação biométrica, usando (por exemplo) impressões digitais. Aí, a menos que o ladrão roube dedos e consiga mantê-los em bom estado (do ponto de vista da leitora) e saiba as senhas relevantes, será impossível roubar um cartão, porque não ele não haverá. Isso, claro, pode ser feito hoje. E já é feito em muitas situações. O que falta é virtualizar de vez o que já é virtual, a informação sobre quem somos e quais são nossos “direitos”, em todos os sentidos. De verificação de identidade pura e simples até o atendimento complexo em um hospital. Pode parecer estranho, mas tal processo tem tudo a ver com a história do dinheiro. Antes dele, era preciso carregar coisas que seriam trocadas por outras. O dinheiro é simples informação sobre poder de compra. Evita que se leve, à loja, vacas para trocar por carro. O cartão de crédito ou pagamento virtualiza tudo outra vez, carregando num pequeno (e fácil de desaparecer) pedaço de plástico a informação sobre quanto dinheiro se tem. Ou se pode ter, se precisar. Para o dinheiro, a próxima rodada será a eliminação do cartão e o uso dos dados pessoais, biométricos, aqueles que realmente andam o tempo todo com você, como meio de identificação. Para todo o resto, quando tudo o que for preciso para sermos identificados for o que realmente somos em nossa simples e pura realidade física, teremos voltado, em plena sociedade da informação, ao tempo em que cada um era apenas o que, à primeira vista, parecia ser. Mas isso ainda vai levar muito, muito tempo. Até lá, não deixe seus “dados” dando sopa por aí, sobre a mesa da balada. Dá um trabalho danado pra começar tudo do zero de novo.

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O doutor e o controle remoto 56
Muita gente não sabe operar um controle remoto. Nem mesmo do ar condicionado. Ótimo: vamos informatizar tudo. Mesmo?... Pesquisas de campo realizadas em várias universidades, considerando profissionais de diversas áreas do conhecimento, mostram que uma porcentagem significativa dos doutores não sabe operar um controle remoto (do ar-condicionado, por exemplo). O resultado desse anedótico levantamento pode até não ser a melhor razão do mundo para automatizar os prédios dos campi (e de outros lugares), mas o gasto de energia com sistemas de ar condicionado ligados, refrigerando prédios dentro dos quais não há ninguém, tem de ser considerado urgentemente.

O aquecimento global é uma das razões. E o gasto, puro e simples, com energia, também. No caso do Brasil, diminuir o consumo de energia agora pode ser vital para a continuidade do crescimento, pois há risco de não haver energia suficiente em futuro próximo. Economizar é mais fácil do que construir novas centrais hidrelétricas ou nucleares. Será que é mesmo? Gastar energia como gastamos é parte da cultura, principalmente de quem tem como pagar. Parar de gastar exige mudanças comportamentais que podem ser mais complexas de implantar do que construir novas usinas. Aí é que a informática entra. Ou poderia entrar. Informática é o produto das tecnologias de computação, comunicação e controle. Imagine se seu crachá - quase todo mundo tem um - fosse parte de um sistema de informação (e automação predial, inclusive) dotado de um pouco de inteligência. Imagine que o crachá é a parte do sistema que anda com você. Para todos os efeitos (do ponto de vista do sistema) você é seu crachá; na verdade, o crachá é uma abstração que representa você e vai ajudar o
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Atualizado em 13/10/2007 - 00:00

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“sistema” a tomar decisões pensando em seus hábitos, gostos e jeitos. Você e seu crachá entram no prédio. O sistema sabe. Computação e comunicação em ação. Ele se lembra de que, em quase todos os casos, você vai para sua sala. O ar condicionado de lá é ligado, sem sua intervenção (e graças ao controle... automático), para chegar aos poucos à temperatura de sua escolha (entre as temperaturas-limite definidas pelo sistema). Isso gasta muito menos energia do que você ajustar o ar-condicionado em 17° C, com ventilador em alta, para chegar rápido aos 25° C que você queria. Você chega na sala, que já está com 25° C, ou perto. Cortesia da automação inteligente, que lhe conhece - ou ao seu crachá- de perto. Você sai da sala, para uma reunião, às 11h. O sistema lembra que, em oito das últimas 10 vezes em que isso ocorreu, você só apareceu de volta às 15h. As luzes são desligadas e o ar vai tentar manter uma temperatura a partir da qual se gaste o mínimo de energia para voltar aos 25, quando você voltar. E se você não voltar? Aumente a informatização para o campus... e o sistema sabe se você está lá ou não. E ele saberia que, se você não saiu do campus, voltará para sua sala. Quase sempre. Se saiu, não volta. Quase nunca. As providências devidas são tomadas em função da presença ou não de seu crachá nas proximidades... E não é só. Se há aula, e você é o professor, na sala D004, às 14h, o sistema bota tudo no lugar pra evitar que você chegue lá na hora e a temperatura da sala esteja perto dos 35° C (o que é verdade, por exemplo, na sala onde dou aula). Há mais: os alunos também têm um crachá como o seu… e a presença deles é notada pela detecção de seus crachás. O que serve pra regular (olha o controle aí...) o arcondicionado e muito mais. Mas tudo poderia estar no lugar e, por alguma razão, o professor não foi dar aula. Beleza: leva falta na lata, com tolerância de alguns minutos... e não vai poder dizer nem que deu aula ou que tentou dar mas a porta não abriu e coisa e tal. Se fosse verdade, o sistema teria dado um alarme lá na sala do controle e algum agente (humano, por enquanto) teria ido abrir a sala usando uma daquelas ferramentas medievais que hoje chamamos de chave. Alguma hora, pouco a pouco, a realidade vai ser muito parecida com esta pequena ficção. Muitas coisas serão muito melhores do que hoje. Quem já nascer dentro do sistema vai achar tudo muito prático, objetivo e “limpo”. Os que presenciarem, como nós iremos, o “sistema” sendo construído ao nosso redor, de forma inescapável, sentirão muita falta das priscas eras em que podiam, sem saber usar o controle ou depender de um “sistema”, sair de casa e deixar a luz acesa e o ar ligado.

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Homens, Mulheres, Crianças e Novas Mídias57
Novas tecnologias, novas mídias. Novas humanidades. Como sempre, aliás. Choveu. Muito. E ainda chove, pouco. Nada que consiga piorar o caos do trânsito do Rio, que saiu do caos-alegre dos cariocas para o caos-caótico que só vejo em São Paulo em seus piores dias. Túneis fechados são o mínimo. Pior é que todos os carros estavam indo para onde eu queria ir, e havia ido sempre, sem tanta companhia. Perdi o vôo das 21h, que deveria me fazer dormir em casa e estou, às 2h do dia seguinte, esperando -- num Galeão vazio de serviços, onde nem água se vende a esta hora -esperando meu novo vôo das 3:25h, que já me disseram que só sairá às 6h, se sair. Mas a última consideração é minha, ninguém me disse. Nem dirá. Desinformação é a norma.

Estranhamente, estou em paz. Combinação do que Padma Samten me fez aprender em alguns poucos encontros, quando tratávamos de coisas sobre as quais não temos nenhum controle (choveu, o avião não pôde voar de X para Y antes e só vai chegar aqui às 5:20h... fazer o quê?), com o sentimento de aprendizado e gratidão por ter participado de um debate na Academia Brasileira de Letras, sobre “O Homem e as Novas Mídias". O acadêmico Arnaldo Niskier fez a exposição inicial e os comentários foram de Marcos Troyjo, Mônica Dias Pinto e Regina Casé, além de mim mesmo. O homem e as mulheres e as crianças sempre estiveram e viveram em eras de novas tecnologias, que habilitaram, por sua vez, novas mídias. As tecnologias da TV criam as possibilidades de uma mídia que nos acostumamos a chamar de... TV, e que Niskier, olhando para a proximidade da TV digital no Brasil, entende que vai -- ou poderia, muito provavelmente -- revolucionar a televisão em Pindorama. Sei não.

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Atualizado em 27/10/2007 - 00:00

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O que define os usos sociais de uma tecnologia qualquer não são suas possibilidades intrínsecas, mas os modelos de negócio ao seu redor. No caso do Brasil, tomamos decisões, lá atrás, quando da escolha do que vamos querer da TV digital, que visam manter os modelos de negócio praticados desde os primórdios da TV analógica. Imaginar que a tecnologia, por si só, vire o mercado de cabeça para baixo, quando ela continuará fechada e limitada nas mãos de poucos... não é exatamente um bom sinal de revoluções à vista. A provocação de Niskier gerou um belo debate sobre centro, periferia e inclusão (digital ou não), concluído brilhantemente por Regina Casé descrevendo o que ela tem visto e ouvido mundo afora. Partindo do seu avô, entregador de rádios (os aparelhos, grandes, de outrora... a nova tecnologia da época) que originou gerações de “midiáticos” até o fantástico caso do lugar mais remoto do mundo (pelo menos para ela), nos confins de Moçambique, onde nem português se falava. Achando que havia encontrado um lugar realmente remoto, Regina começa a filmar a rotina da tribo local, até que um celular começa a tocar e a senhora que lhe parecia mais rude e hostil do pedaço atende a chamada e desfia um rosário interminável de conversa... e estraga para sempre o barato de filmar “o lugar mais remoto do mundo”. O mundo -- quase todo -- está se incluindo rapidamente nas novas tecnologias que, por sua vez, habilitam novas mídias e modos de comunicação. Que falta gente, falta. Mas o problema é muito menor do que nós, que temos muito -- e tudo, às vezes -- costumamos pensar. Douglas Adams, do Guia do Mochileiro das Galáxias, costumava dizer que “tudo o que já existe no mundo quando nascemos é normal. O que acontece até completarmos trinta anos é inovador, instigante e, com sorte, é capaz de fazermos uma carreira nisso. E tudo o que rola depois dos nossos trinta anos é o fim do mundo”. Enquanto pensamos -- pelo menos os mais velhos -- que as “novas mídias” possam ser um problema, o mundo, principalmente seus jovens, descobrem muito rapidamente que elas são, na verdade, solução... para problemas com os quais nem sonhamos. Como usar Google para verificar a ortografia do português, problema que por sinal poderia ser muito melhor resolvido usando o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa , da Academia, que tem 360 mil vocábulos, referência oficial de como deveríamos, se soubéssemos, escrever a língua de Machado de Assis e Ariano Suassuna.

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É preciso abrir os mundos virtuais...58
G1 deixa de reportar “diretamente” de Second Life. Será o fim do mundo? O G1 deixou de “reportar” Second Life de forma “separada”, como fazia no G2, blog pilotado por avatares do site que “viviam” lá no mundo virtual. Second Life não é o único mundo virtual que há por aí, é apenas parte do que se chama da primeira geração de metaversos, da qual fazem parte, entre muitos outros, Gaia, Habbo, IMVU, Kaneva, Metaplace, MTV, There, vSide e Zwinky, sem falar nos jogos massivamente multiusuários, como WoW e Lineage, que têm muito mais tempo de estrada, usuários, interesse e faturamento que os “mundos virtuais”. Não é que G1 resolveu deixar Second Life “pra lá”, mas de certa forma o mundo virtual deixou de ser novidade e, ao mesmo tempo, parece que já mostrou -- e consequentemente exauriu -- o conjunto de possibilidades que iria criar para novas formas de expressão e interação usando a internet. Há alguns meses, este blog usou um gancho da revista "Wired" pra perguntar se havia vida em Second Life. A resposta dos grandes usuários e anunciantes era, à época, não. E continua sendo, hoje. Mas isso não importa. O principal papel de Second Life e dos outros mundos virtuais da primeira geração, como poderíamos chamá-los, não é serem úteis ou não, muito menos se tornarem um mega-sucesso de público e crítica. A hora é de discutir possibilidades e de apostas no futuro, e não de imaginar que Second Life vai substituir FaceBook ou MySpace. Na bolha da internet, entre 1995 e 2000, quando todos pensávamos que havia um número infinito de potes de ouro no fim do arco-íris, e isso quando não havia nenhuma nuvem à vista, apostou-se muitas centenas de bilhões de dólares investindo em quase tudo, de licenças 3G a preços astronômicos e irrecuperáveis no mundo real até sites cujo modelo de negócio era vender um dólar por noventa centavos, sem falar numa rede global de satélites que daria cobertura a telefones móveis em qualquer ponto do planeta. Há quem estime o estrago em mais de um trilhão de dólares. E há quem diga que foi dinheiro bem gasto, no fim das contas... Second Life e companhia são experimentos estratégicos arriscados, pois seus proponentes e investidores não sabem, na partida, nem onde querem chegar. Se aprenderem muito, muito rápido e com a participação de muitas cobaias (nós, usuários), pode ser que haja uma segunda rodada de oportunidades onde os potes de ouro, enfim, apareçam. Claro que se tenta, toda vez, usar a assimetria de informação de um nicho da economia (no caso, virtual) para tentar estabelecer um padrão de uso e, a partir dele, cercar um nicho de receita significativo ou, quem sabe, virar padrão de fato. No caso dos mundos virtuais atuais, nenhum é candidato a tal. Nem de perto. O nome do jogo, lá na frente, no futuro, vai ser interoperabilidade. Mundos que entendem uns aos outros. Mundos virtuais como parte da grande web. Onde eu e meu avatar existimos -- da mesma forma e com as mesmas propriedades, mesmo que relativas -- em qualquer lugar. Este já é o objetivo explícito de muitos dos investidores e anunciantes que apostam em mundos virtuais.

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Atualizado em 05/11/2007 - 08:56

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Ao invés de cada mundinho sendo construído sobre sua própria fundação e plataformas, podemos terminar com poucas plataformas comuns e interoperáveis sobre as quais todos os espaços virtuais sejam construídos. E não só nos mundos virtuais. O esforço de Google e outros, com OpenSocial, é simplificar o universo de redes sociais através do uso de um conjunto aberto de interfaces de programação que possa ser compartilhado por múltiplas redes. De preferência, todas. Aberto, na internet, vai ser sempre mais interessante (no mínimo) do que fechado. Afinal de contas, o sucesso da internet se deve exatamente à existência de um conjunto pequeno, simples, aberto e bem entendido de infra-estruturas e serviços essenciais sobre os quais podemos construir nossas aplicações. E, pelo menos entre os que estão aí, mundos virtuais são meras aplicações (fechadas). Pode até ser que a próxima e distante geração da internet seja mesmo um metaverse único e fundamental, infraestrutura sobre a qual escreveremos serviços e aplicações e, quem sabe, nossas vidas. Mas de Second Life até lá vai ser preciso esperar, e viver, muitas encarnações.

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O maior problema dos celulares...59
A terceira geração de celulares vem aí. Será a hora de abrir as redes das teles? Celulares não são telefones. E o maior problema dos celulares é as operadoras. As antigas “teles”, infelizmente (muito mais para elas do que para nós, usuários), ainda funcionam, em sua maioria, sobre modelos de negócios que parecem ter sido escritos por Graham Bell em pessoa. Antes de ele ter inventado o telefone. Antes da internet, nós fazíamos ligações telefônicas. E isso era quase tudo. Depois da internet, ainda fazemos quase só ligações telefônicas. Mais de 3/4 do faturamento da maioria das teles, no mundo, é de ligações telefônicas. O que é, além de surpreendente (mais de dez anos depois da internet), absurdo. Num mundo, digamos, ideal, a infra-estrutura das teles seria a internet e os dispositivos móveis seriam meros pontos de acesso à rede, por mais capazes que fossem. Algo parecido com a internet fixa e os desk e laptops que usamos para entrar na nuvem de conexões. Agora, o interessante é que a infraestrutura das teles é de internet e os dispositivos que muitos de nós temos são “computadores (multimídia) móveis”. Logo, aqui e agora, a pergunta é... por que será que ainda estamos pagando por “ligações telefônicas”, se o telefone é “apenas” mais uma das múltiplas aplicações que “rodam” sobre as camadas de infra-estrutura e serviços da internet?

A resposta é... por que haveriam de? Uma das respostas pode ser dada, por exemplo. Se seu celular “sai” de Recife pra São Paulo e a tele cobra -- todas as teles cobram -- um Real e pouco a mais (além da sua ligação, de “roaming”) só para você fazer uma ligação para sua mãe e dizer que que o avião não caiu... por que haveriam de? O custo, hoje, para um celular “sair” de sua cidade e “falar” em outra é perto de zero ou, dependendo da infra-estrutura e de seu modelo de negócios, zero. Se posso cobrar por algo que me custa zero para produzir, não há nada que me convença a mudar de negócio. Ou há?...
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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Pode ser. Imagine que seu “celular” não seja um “telefone”. Ele é (e é mesmo) uma plataforma de comunicação e computação móvel. Para um celular, posso escrever aplicações. Como uma de voz-sobreIP, um Skype, por exemplo. Se eu escrevesse este software, e se houvesse um mundo de gente que tivesse acesso a isso (quase qualquer um que tenha um celular “programável”), e se esse celular fosse a ponta, na nossa mão, de um “serviço” que tem diretório, gravação de chamadas, de recados, redirecionamento... ou seja, se a minha aplicação e os serviços a ela associados fossem a mesma coisa que uma --chegamos lá -- telefônica igual àquelas do passado, da época das anáguas, será que a gente não poderia telefonar a preços muito mais baixos? Sim, claro que sim. Mas, para isso acontecer, teríamos de tirar da tele de hoje os 3/4 de receita oriundos de falas ao telefone. Aí é onde a porca torce o rabo. Para que isso fosse economicamente viável, ou a própria tele apareceria com tal aplicação e serviços ou a tele teria de abrir sua plataforma de transporte e processamento de informação para que nós, aqui fora, escrevêssemos tais sistemas e aplicações. E muitos outros, claro. Alguma tele faria isso? Uma, pelo menos, já está fazendo: a British Telecom tem, hoje, só 20% de suas receitas em “voz”, pois saltou para o futuro junto com a internet e está instalando uma rede IP -- a base da internet -- que conecta todos os endereços físicos do Reino Unido. Alguma outra tele vai fazer? Se depender delas, nem tão cedo. A menos que uma -- ou outra --, que não esteja e saiba que não conseguirá estar entre os líderes de algum mercado, e resolva realmente transferir para seus clientes e usuários os benefícios que a internet já oferece para a própria tele, mas dos quais somos excluídos. Taí uma boa coisa para a Anatel levar em conta na licitação para as licenças de operação para a terceira geração de mobilidade no país: definir que a infra-estrutura de tecnologias de informação e comunicação das teles, em 3G, seja aberta o suficiente para que usuários e empresas consigam escrever aplicações sobre tal plataforma e provê-las para o mercado. Pagando às teles pelo uso da plataforma, claro. A Anatel deveria levar em conta que a próxima plataforma de programação, de desenvolvimentos de serviços, é a internet. E 3G é internet pura. Móvel. Taí uma discussão boa danada para a gente botar neste negócio de 3G, aqui. Ia ser muito bom para os usuários. E as empresas iriam, mesmo, para o futuro. Era capaz até de vermos sendo desenvolvidos, no Brasil, aplicações e serviços e empresas de classe mundial. Criando conhecimento, trabalho, renda e divisas aqui. Só precisa ser feito.

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É informação? Deixe comigo, cuido de tudo...60
Umas poucas companhias vão fornecer toda a infra-estrutura, informação, software e serviços que você precisa. Será mais um mercado a ser regulado? Imagine que você tivesse um plano para ser o provedor de todo o software que os seres humanos usariam. E não só: esse software seria provido como serviço e a partir de seus servidores, espalhados por todo o planeta. Como se não bastasse, e se você tivesse um plano pra ser o dono, também, de parte da infra-estrutura de comunicação que levasse os usuários e seus dados àqueles sistemas e servidores de que já falamos?... Comunicação e computação, em conjunto, a preço perto de zero para muitos, com patrocínio de outros. Todos os dados de quase todo mundo no mesmo lugar e passando pelas mesmas redes de comunicação, sob seu comando. Parece um plano de dominação do mundo, pois não? Daqueles que vilões delirantes de filmes de superheróis costumam ter e que, com invariável precisão, dão errado nos últimos minutos, quando, logo antes do beijo na mocinha, nós e o planeta somos salvos pelo herói. E se não for um plano de dominação do mundo, mas parte de um mantra corporativo cujo propósito é “organizar toda a informação do mundo”? E se, para tal, houver dinheiro que não acaba mais, a ponto de destinar quase US$ 5 bilhões só para participar da compra de licenças para operar telefonia celular (começando por um mercado saturado como os EUA)? O nome do fenômeno é fácil de advinhar: Google. Depois de dominar (à exceção da China, onde perde para Baidu) a organização e busca de informação na internet, aí incluídos e-mails, mapas, aplicações de todos os tipos e, agora, plataformas de software, Google decidiu que precisa, para melhor servir a seu público, estar dentro das redes físicas e móveis e, se der, dentro dos celulares, que é onde todo mundo, de resto, quer estar. E quando se tem recursos para tentar, as coisas são bem mais prováveis: o dinheiro que já foi separado para lutar por freqüências móveis é só um terço do caixa da companhia, que pode alavancar muito mais, se for preciso e fizer sentido. Claro que há outros jogadores no campo, como a Microsoft, principal professor de Google, que aprende muito rápido com o mestre. Robert Cringely diz simplesmente que Google é “a próxima Microsoft”. Não porque esteja fazendo as mesmas coisas que Redmond faz, mas porque, à medida em que se transforma em monopólio, fica cada vez mais difícil se comportar como o start-up que tinha relativamente poucos recursos e prometia “não fazer o mal”. Hoje, a companhia se compromete, publicamente, a “reparar” todo o mal que faça, se isso acabar comprovado. Mas imagine-se, você lá do começo do texto, a caminho de um monopólio e, já hoje, com valor de mercado de US$ 200 bilhões (a Microsoft vale US$ 320 bilhões e a IBM, US$ 150 bilhões). Que advogados você poderia pagar para comprovar que você, e não a pequenina empresa do lado que acabou de ser destruída por um de seus movimentos, estava certo? É difícil ser monopólio. Muito difícil. A IBM já teve seus dias e a Microsoft ainda os tem hoje. Google é o próximo da lista, pois parece inevitável que seja assim. Já que o mundo caminha em tal direção, e
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Atualizado em 17/11/2007 - 14:26

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

informação, comunicação e computação vão virar serviços mesmo, fornecidos e bilhetados à maneira que telefonia, água e energia elétrica o são, hoje em dia, o destino final é estruturar e regular o mercado de “informaticidade” em prol dos consumidores, garantindo inovação permamente e competição justa. Danado é fazer isso sem que as patas do governo -- aqui ou em qualquer lugar -- estraguem não só os negócios, mas os serviços que eles nos fornecem. Se dependesse das estatais ou monopólios privados e a regulação da época, a internet não teria existido. A Embratel fez o que pôde, no Brasil, pra evitar a rede e, depois de entendê-la inevitável, fez tudo para ser o “único” provedor do país. Queria ser o Google do tempo, sem nenhuma outra credencial a não ser a posse de boa parte da infra-estrutura nacional de informação. História pra ser lembrada e contada aos filhos e netos, à medida em que Google começa, por sua vez, a ter vontade de ser uma “embratel” lá no futuro... ao mesmo tempo em que nos lembramos de que ninguém “cuida de tudo”, pra ninguém, por nada.

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Nintendo detona a competição61
Nintendo Wii é o objeto de desejo do mundo, no Natal. Sony e Microsoft pedem, de presente a Papai Noel, bolas de cristal pra entender o mercado. O Natal nos lugares em que consoles de videogame são vendidos a preços razoáveis vem aí e a disputa pelos olhos, neurônios, ouvidos, membros e tempo dos jogadores se aproxima de seu clímax anual. Na arena, o Nintendo Wii, vindo de uma companhia que era dada como morta (logo antes dele), o Xbox 360, da Microsoft (que dispensa apresentações), e o PS3, da Sony, que, supostamente, ia arrasar a competição como a máquina de jogar mais poderosa de todos os tempos, baseada em um processador que deixaria qualquer coisa feita pela Intel e AMD na lata de lixo da história.

Só que, em em novembro, serão vendidos 912 mil Wii, 636 mil Xbox 360 e 438 mil PS3. Em dezembro, a coisa fica ainda melhor para a Nintendo, com previsão de venda do Wii batendo 2,37 milhões de unidades, contra 1,56 milhões de Xbox 360 e 695 mil PS3. Hoje, para cada PS3 vendido, a Nintendo vende dois Wii; em dezembro, serão três Wii para cada PS3. No total, até agora, a Microsoft vendeu 13,2 milhões de Xbox 360 (e ainda está perdendo dinheiro na divisão de entretenimento), a Sony tem 5 milhões de PS3 na praça (também perdendo dinheiro com eles) e a Nintendo já vendeu 13,4 milhões de Wii. E só não vende mais porque, simplesmente, não consegue atender a demanda.
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Atualizado em 24/11/2007 - 00:00

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Mas isso não é uma batalha, é uma grande guerra e as posições estão mudando, por exemplo, no Japão. Só que as coisas estão dando tão certo para a Nintendo que, se eu tivesse dinheiro, estaria apostando nela agora, enquanto a mágica do Wii ainda está no alto e a companhia não vê um competidor muito perto (os lucros dobraram do ano passado pra cá). Daqui a dois, três anos, pode ser outra conversa, completamente diferente. Moral da história (do ponto de vista de inovação): a Nintendo tinha tudo a perder (pois estava perto de fechar) e, ao mesmo tempo, nada a perder. Podia apostar em algo revolucionário, mas tinha que estar no passo do mercado, sincronizada com o público potencial de jogadores de todas as idades e competências. Não podia entrar em conflito direto com os dois grandes, pois nem recursos tinha para tal. Resolveu apostar em um console em que todo mundo (principalmente os jogadores casuais) pode jogar, mas que ainda assim tem um forte apelo para os jogadores "hardcore". Poderia não ter resolvido a equação, mas ouviu muita gente, ralou muito (veja esta entrevista com dois dos designers, feita há um ano), num esforço que envolveu até as famílias dos funcionários e fez o que tinha de ser feito, num modelo de negócios que dá retorno, considerando o pacote hardware e software. Deu certo. Tão certo que, de casas de repouso da terceira idade no interior da Inglaterra a laboratórios escolares em Recife, passando por lan houses na Malásia e cafés no Vietnam, todo mundo quer um Wii. O mais impressionante, talvez, sejam idosas operando um WiiMote e competindo nos esportes virtuais da caixinha da Nintendo. Isso pega. E ainda vamos ouvir muito mais dessa história. E a Sony e Microsoft? Estão se recuperando da explosão que as atingiu e indo atrás da Nintendo. Já foi assim no passado e vai ser assim de novo, por um tempo. O maior problema da Nintendo, agora, é não se deixar prender pela plataforma de sucesso que ela própria criou e, repetindo o passado, ser devorada por... ela própria, como quase foi o caso há meia década. Se a história servir de algum alerta, ela (e quem mais estiver olhando a guerra) pode usar sua própria história, os erros da Sony e Microsoft nos últimos três anos e, certamente, o exemplo da Sega. Pra quem acabou de chegar ao planeta Terra, a Sega foi um dos grandes no negócio de consoles e hoje (muito menor) desenvolve jogos, inclusive pra Nintendo. Para os saudosistas, a a Tec Toy está lançando, no Brasil, um dos consoles Sega do século passado. Se você pensa que é pouca coisa, não é não: a coisa está atraindo a atenção do mundo. Vá entender...

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A “bandinha” do Natal62
A oferta de “banda larga” vai aumentar neste Natal. Não é banda larga mesmo, nem pense. Fabricantes de PCs, associados a operadoras celulares, estão anunciando ofertas de banda “larga” em PCs e laptops, a preços de poucas dezenas de reais por mês. Esta talvez seja, no mercado de PCs, a grande novidade do Natal: você sai da loja com seu computador conectado, sem ter que instalar linha telefônica, modem ADSL, configurar portas e provedores.

Estar conectado, no entanto, pode não significar muito. Estou usando uma destas conexões celulares há alguns meses em meu laptop. Certas horas, não há conexão nenhuma (mesmo havendo cobertura celular), justamente como na velha rede física de acesso à internet à qual nos acostumamos. Noutras, os 256 kbps teóricos de um acesso (as velocidades variam muuuito) são meros 50kbps ou menos, o que me leva de volta pro tempo em que internet era só emeio. Ou seja: a banda do Natal não é tão larga assim. Vai ver são só alguns poucos músicos numa bandinha de shopping, tocando Jingle Bells num corredor bem apertado.

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Atualizado em 01/12/2007 - 00:00

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Mas vamos lá: não adianta só reclamar. A novidade da combinação fabricantes e operadoras pode não ser exatamente os anúncios deste Natal, mas o que estaria por vir nos próximos. Uma das teles deixou vazar um plano de investir mais de um bilhão de reais em cobertura WiMax nas grandes cidades brasileiras, o que pode mesmo criar uma nova forma de acesso de banda larga, melhor distribuído e móvel. As outras não demorarão a reagir, pra não ficar de fora do jogo da internet, onde há muito dinheiro e para onde irão todas as formas de comunicação, mesmo aqui no Brasil. O que tornaria apenas uma questão de tempo a existência de uma cobertura nacional, ampla e irrestrita de banda larga no Brasil. Certo? Talvez. Há discussões, mundo afora, sobre o significado de irrestrito, ou ilimitado, quando o assunto é acesso à internet. Se você comprar um desses planos de acesso ilimitado do nosso Natal, que custam aí pela meia centena de reais, pode ter uma surpresa. Quer ver? Faça as contas: são trinta dias de vinte e quatro horas de três mil e seiscentos segundos num mês. Arredonde e são dois milhões e meio de segundos por mês. Multiplique por (digamos) trezentos kilobit por segundo e divida por oito, pra saber quantos bytes teóricos sua conexão deveria produzir, por mês... o que vai dar perto de oitenta gigabytes. Esqueça. Minha assinatura, de 1GB/mês, quase nunca vê (e já tentei de Belém a Curitiba) passar mais de 10 megabyte/dia. Por mais que eu tente, não consigo consumir mais de 300 megabyte por mês, menos de um terço do que – em tese, pelo menos, teria direito, pago e acertado no contrato. Ilimitado, para as operadoras do Brasil e do mundo, significa algo parecido com “compartilhamento ilimitado de acesso e infra-estrutura limitadas” . E não poderia deixar de ser assim, pois lá atrás das nossas conexões existe uma plataforma limitada, que custa muito dinheiro para botar no ar e operar. E da qual os investidores querem retorno... muito e rápido. A ordem do dia, na operadora, não poderia deixar de ser outra: vender tanto quanto possível, pelo melhor preço que for possível, e auferir daí o melhor resultado possível. Deixando o consumidor tão satisfeito quanto... possível. O problema de tantos possíveis numa mesma sentença é que os primeiros têm um peso muito maior do que o último. O que faz a balança não ficar muito equilibrada. Talvez, na euforia das festas de fim de ano e de tantas ofertas e promessas para o futuro, fosse bom trazer a ANATEL e o PROCON para perto da árvore, para entendermos todos, usuários e operadoras, o que estamos comprando (e não ganhando) de presente, neste Natal. Pra que tenhamos, no mínimo, o que estamos comprando. E não, apenas, o que as operadoras acham que é... possível.

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

MP3: padrão, grátis e legal no ano novo 63
Sinais do futuro indicam que os principais atores do mercado de música vão se render ao MP3 e, talvez, a novos modelos de negócio ao redor do formato. Será? A Pepsi vai lançar uma campanha de downloads legais de MP3, nos EUA, em fevereiro que vem. Cada cinco tampinhas de refrigerante (um código nelas, de fato) vão dar direito a um download de música em formato MP3 na amazon.com. Serão cinco bilhões de garrafas e tampinhas na promoção; o potencial de downloads gratuitos é de um bilhão de canções. Um monte, por qualquer medida. Inclusive esta: a revista Billboard estima que serão vendidos cerca de cinco milhões de músicas digitais nos EUA, no ano que vem, por semana. Coisa de um bilhão e oitocentos milhões no ano. Só o dobro do que a Pepsi vai “dar” pra quem tomar seu refri. Espera-se que a promoção rode o mundo em breve.

Noutro departamento, que tem tudo a ver com a essa conversa, o WalMart está para anunciar que seus fornecedores de música devem prover canções em formato MP3 para o site em que vende música online. Segundo fontes não confirmadas da maior rede mundial de varejo, eles “só estão fazendo o que os clientes querem”. Quem não estiver disposto a fornecer seu material em MP3, segundo as mesmas fontes, sairá do catálogo. Oficialmente, não se comenta o assunto. Mas quem entende do negócio garante que esse é o futuro.

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Atualizado em 08/12/2007 - 15:22

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Olhando de longe, visto por nós que nos convertemos a MP3 há muitos anos, aqui no lado usuário da história, até parece que as grandes empresas de música e seus distribuidores acabaram de chegar no século XXI, com quase uma década de atraso. Pois é isso mesmo. E por uma razão singela: a indústria da música nunca foi da música mesmo. Na forma como a conhecemos, ela se especializou no meio de transmissão e reprodução da música, que era seu domínio monopolista desde que o “disco” foi inventado e disseminado em larga escala, coisa que aconteceu há uns cinquenta anos. A digitalização do meio (que começou mais de vinte anos atrás) e a internet, nos últimos dez anos, pulverizaram as bases negociais de toda uma indústria que, ao mesmo tempo em que tentava inutilmente proteger seu velho modelo de negócios, relutava em adotar algum dos novos modelos disponíveis, inclusive por medo de sua escolha não vingar. E não seria a primeira vez que uma indústria inteira, ao escolher o modelo errado, naufragaria. A mensagem que parece ter chegado de vez, às gravadoras é simples. E velha. MP3 se tornou padrão mundial para áudio. Mesmo que seu material não seja disponibilizado legalmente em MP3, o tempo para cópias pirata neste formato tomarem conta do mercado é bem perto de zero. Melhor, talvez, tentar ganhar dinheiro “com música” neste “novo meio”. Até porque um estranho no ninho da música, a Apple, tem hoje 70% do mercado de música digital, usando um formato fechado para seus iPod. Coisa de deixar os estúdios babando. E a galera por trás dos outros formatos, como o quase padrão MP3, se roendo de raiva. Por isso que estão se aliando, por trás do formato MP3, empresas que vão da Pepsi ao WalMart e Amazon, passando pelas grandes e pequenas gravadoras. E por fabricantes de celulares. A Nokia acaba de fechar com a Universal um acordo que permitirá aos compradores de certos modelos de celulares o download de toda a coleção de registros sonoros da universal por um ano, findo o que a música "fica" com o "dono". Os outros três grandes negócios mundiais de música estão sendo cantados para entrar no negócio, que muito provavelmente há de remunerar o que costumávamos chamar de gravadoras com uma porcentagem da renda do tráfego (nas operadoras) para trazer a música pro celular. A operação começa no segundo semestre de 2008. Trazer MP3 para o centro da arena e inovar o modelo de download são um grande avanço. Ainda não é onde eu acho que vamos chegar: alguma hora, vamos simplesmente "assinar" um serviço de música e poder ouvir o que quiser. Tipo R$ 10/mês com direito a ouvir 100 horas de música/mês. Da música que você quiser. Onde você quiser. Pelo meio que você quiser. 100h/mês é três horas/dia. Muito. Se você achar pouco, a conta poderia ser 3h/dia de sua escolha, mais 9h/dia de multicast, música que a gravadora "escolheria" pra você ouvir -tipo last.fm-, na esperança de você pagar, depois, pra ouvir. Alguma hora vamos chegar lá. Este passo da Nokia, limitado a alguns celulares, é mais importante do que iTunes, limitado a um dispositivo particular. E os fabricantes de celulares podem ser uma das mais importantes chaves do processo: com 3.3 bilhões de celulares no planeta e um mercado apenas de reposição, hão de achar outras fontes de renda. A Nokia, em particular, está redefinindo sua competição: quer pegar Google (em mapas e localização) e a parte "Live" da Microsoft, além da Apple, enquanto provedora de iTunes e não como fabricante do iPhone. A Apple, como "fabricante" de celulares, está chegando atrasada no jogo. Mas tem Steve Jobs, um grande designer, lá. Enquanto tiver, vai ser osso duro de roer. Mas até ela, em muito breve, pode ter que vir pra onde todo mundo está chegando: MP3. Simplesmente porque é isso que os clientes querem. E o cliente sempre tem razão.

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Ano Novo, Tecnologia Nova: 3G64
Esta semana saberemos que companhias vão operar quais licenças, e onde, no Brasil, para prover os serviços que vão tornar os celulares cada vez mais parte da internet. Ou pelo menos era isso que deveria acontecer... No correr desta semana, salvo alguma disputa legal de última hora, saberemos que operadoras, entre as muitas na disputa, vão nos prover serviços de terceira geração de celulares. Cada uma deve gastar centenas de milhões de reais de ingresso pra entrar no jogo, sem falar nos bilhões de reais de infraestrutura pra poder participar do campeonato de provimento de acesso móvel às comunicações em todo país. Se as regras não mudarem, quem pegar os filés, como São Paulo, vai ter que roer ossos em lugares onde há menos clientes em potencial e, nestes, rendas médias mais baixas. Além de garantir a cobertura em todo o Brasil. Coisa que não se faz de uma hora pra outra, dada a extensão e complexidade do espaço. Mas isso nós já sabemos. O que deveríamos saber, também, é o que vai mudar nos serviços prestados pelas operadoras. E nos preços que elas vão cobrar por eles. Em tese, o serviço móvel de terceira geração deveria ser uma internet de dispositivos móveis. Em tese. Deveria. Palavrinhas difíceis... Na internet, qualquer serviço pode ser provido por qualquer um e usado por qualquer outro. Alguns serviços são pagos; um e outro acertam isso entre si. Não há uma “operadora” de internet no meio dos dois. Quando a internet comercial começou, no século passado, até se pensou que seria o fim das operadoras. Nada mais óbvio: se tínhamos uma rede na qual qualquer dispositivo poderia se conectar, em qualquer lugar, a serviço de qualquer usuário, para acessar qualquer serviço, de qualquer lugar, a preço fixo por assinatura mensal, com transferência ilimitada de dados (dentro do limite operacional possibilitado por sua velocidade de conexão)... qual era mesmo o papel da operadora? O de provedor de infra-estrutura, à qual provedores e usuários de serviços e aplicações se conectavam. Mas é claro que não foi bem isso que aconteceu. As teles não saíram (literalmente) do meio e, com a penetração de celulares, na sociedade, mais rápida do que a da internet, os telefones móveis se tornaram a chave para manter o domínio da plataforma de comunicações nas mãos das operadoras. Ou melhor, manter e ampliar o domínio. Como assim? Nos “telefones” só o que existia era telefonia e alguns serviços mixurucas, como despertador. A tele dominava todos. Nos “celulares”, rapidamente se abriu as portas para um mundo em rede, rede de serviços, potencialmente disponíveis para tudo e todos. Mas nenhum mercado de software e serviços de terceiros, dependente da infra-estrutura das operadoras, decolou de verdade no mundo, à exceção de alguns países do Oriente, notadamente no Japão. O mercado de jogos móveis, no Brasil, fracassou redondamente, suicidando a capacidade nacional de criar jogos de classe mundial. As operadoras, dominando todo o processo de entregar o jogo na ponta e controlando as interações entre jogadores e entre jogador e servidor, tornaram o processo complexo demais pra que o mercado fosse criado. E caro demais pra que os jogadores quisessem jogar.
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Atualizado em 17/12/2007 - 08:59

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Silvio Meira: 66 textos no G1, 2006/7

Há jogos que custam R$5 e cujo download, pro celular, custa R$10. Jogado em rede, pode-se detonar outros R$ 5 por dia. Cento e cinquentinha por mês. Prefiro a LAN house da esquina. Ou economizar pra comprar um Wii no Paraguai. Mas 3G vem aí. Teoricamente, como já se disse, é banda larga e aberta, pra tudo e todos, com transferência ilimitada de dados, por um preço fixo mensal. Aqui em Recife, está em modo beta. Só que não é banda tão larga que possa se chamar de 3G, pois o limite, aqui, é 1Mbps. A tecnologia usada, HSPA (High Speed Packet Access), uma das evoluções 3G das redes GSM, aceita 7,2 Mbps ou mais e tem sido usada, mundo afora, para prover serviços de rede em 3,6 Mbps. Se este fosse o caso, aqui, eu trocaria hoje mesmo meu serviço ADSL, fixo e de teóricos 1 Mbps, que nunca me entrega mais que 30% disso. Quem tem a 3G móvel, aqui, pode servir de teste pra quem vai comprá-la Brasil afora. Parece que o megabit/segundo não chega, como na linha fixa, a 30-40% disso na maioria dos casos. E custa R$ 100 se usado em um laptop, com um modem específico. No celular, a coisa é muito mais complexa, por razões que a infra-estrutura disponível e os modelos de negócio das operadoras devem explicar muito bem. Pra se ter uma idéia, uma conta de R$100/mês só inclui 20MB de tráfego de internet, algo que pode ser evaporado em um mísero dia, se o usuário estiver navegando em mapas pra achar seu caminho em uma grande cidade. A conta de trezentos e tantos reais dá direito a 150 MB de internet, o que ainda é muuuito pouco quando se pensa que o principal uso dos celulares, no curto e médio prazos, vai ser mesmo acesso à internet. Ah, sim: pelas regras do serviço, “chamadas telefônicas”, na rede da operadora, têm prioridade sobre qualquer outro serviço (mesmo que eles estejam lhe custando muito caro). Resumo da ópera: se for implementado e precificado de forma parecida com esta no país, o impacto da terceira geração de celulares dificilmente será sentido por aqui, em escala. Ou demorará o tempo que for necessário para as operadoras entenderem que seu novo papel (desde 1997!) é o provimento de infra-estrutura (e serviços) de rede para que negócios e usuários criem mercados intensivos em digitalização e comunicação entre pares. Até lá, vamos ter só mais uma rede de telefones cheios de funcionalidades potenciais que nunca serão devidamente usadas pelos clientes, pois tudo será cobrado como... conta telefônica. Exatamente como na década de 50. Ainda bem que já podemos fazer DDD e DDI dos nossos celulares. Tem horas que não sei como conseguimos isso...

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Feliz Natal, Brasil Digital65
Acertos entre governo e iniciativa privada vão levar banda larga a mais de 55 mil escolas e quase 3,5 mil cidades. Isso é que é notícia de Natal. Tem quem ache que a mídia tem mais é que tecer elogios ao governo de plantão, seja de que lado ou bandeira for, mesmo que esteja errado e errando. Não é bem isso que pensa ou deve fazer a mídia civilizada, como instituição e organizações, muito menos como pessoas, em um regime democrático. Detonar a independência da mídia é sempre o primeiro ato das ditaduras, sejam elas dos militares do Brasil do passado ou dos populistas do presente da América Latina. Ainda bem que, até aqui, estamos escapando desta sina. Este, em si, já é um bom sinal de um Feliz Natal. Colunas como esta, que cobraram desde seu princípio o trabalho de quem deveria estar (no governo e fora dele) resolvendo problemas, são torpedeadas quase que sistematicamente por quem acha que deveríamos, todos, estar “a favor”. Até os humoristas. Vã esperança. Mas isso é outra história. Até porque o texto de hoje é pra comemorar um grande acerto do governo: a bem sucedida negociação, com as operadoras de telefonia, pra levar banda larga a todas as cidades do país e, em particular, a mais de 55 mil escolas públicas que ainda vivem na era de Gutemberg, aquele do papel impresso. Não foi fácil chegar até aqui, até porque o aqui, no grande chão do Brasil, são quase 3,5 mil cidades. Talvez não seja fácil garantir a execução do acordo ao pé da letra. Mas este é o papel do governo e todos esperamos que ele seja cumprido à risca, trazendo pra rede, em alguns anos (tão poucos quanto permitiu a quebra-de-braço entre governo e teles), dezenas de milhões de pessoas. Justamente -- como se poderia argüir -- aquelas que, mais isolados do resto do mundo, deveriam ter sido as primeiras a ter conexões digitais de alta qualidade. Mas claro que nunca é assim. A exclusão (de qualquer tipo) é quase sempre econômica, acima de tudo. Não é à toa que as teles brigaram até o fim pra não ter que chegar até os fins-de-mundo do Brasil, onde há muito lugar pra conectar, pouca gente pra se ligar e muito pouca riqueza, de onde se pode, no curto prazo, extrair renda em função da prestação de serviços de comunicação. Aí é onde está, exatamente, um dos mais relevantes papéis do governo: compensar os desníveis econômicos e regionais e promover um desenvolvimento inclusivo em todo país. E era para isso que deveria ter servido o fundo de universalização dos serviços de telecomunicação, o finado FUST. Desde que começou a ficar claro, mais de dez anos atrás, que comunicação era a mesma coisa que internet, o FUST deveria ter começado a ser usado pra botar todo mundo (começando por escolas, bibliotecas, hospitais e centros sociais) na rede. Mas as rotas mais curtas, no mundo real, não são ponto-a-ponto e nem linhas retas. O menor caminho entre estar fora da rede e nela, neste caso, foram dez anos de espera, indecisão e falta de vontade e capacidade política, negocial e administrativa de muitos governos. Agora parece que a coisa vai, com o novo conjunto de metas de universalização, negociado pela casa Civil e já aprovado pela Anatel. E a coisa, no caso, não é pouco: pelo acordo firmado entre as partes e sacramentado em programa, a iniciativa privada vai gastar algo em torno de R$ 1 bilhão pra levar internet (em banda larga) a todos os
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Atualizado em 24/12/2007 - 09:21

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municípios e escolas públicas brasileiras até o fim de 2010, que não por acaso coincide com o fim do mandato no Planalto. Mas vamos deixar este detalhe pra lá. O importante é que banda larga, onde existe, tem a ver com geração de empregos, com um maior número de negócios de tecnologias da informação e comunicação e um maior número de negócios em geral. Cada 1% de penetração de banda larga pode implicar em 0.20.3% no aumento do número de empregos, o que não é pouco. Nos EUA, entre 2003 e 2005, o aumento de disponibilidade de banda larga pode ter criado, em todo país, quase 300 mil empregos. E tais evidências são confirmadas por estudos de respeitadas instituições mundiais, como o MIT e a Brookings Institution. Além de efeitos benéficos já comprovados na economia privada, banda larga também pode levar a um significativo incremento na disponibilidade e qualidade dos serviços de ensino, saúde e dos serviços públicos em geral. O que é nada menos que óbvio, dado que tais serviços, pra quem mora onde já existe banda larga, têm uma outra cara. Ou alguém acha que é possível ter acesso a ensino à distância, de mínima qualidade, sem banda larga? Ou será que medicina interativa funcionaria por fax ou linha discada? Numa emergência, até pode ser. No dia-a-dia, não dá. O Natal de 2007, pra banda larga, vai ser um marco. Um ponto de partida. É o começo da era onde se deixou pra trás as amarras do “setor de telecom” e suas metas de universalizar voz e orelhões e onde, de uma vez por todas, se resolveu botar o país inteiro na internet. Isso não tem preço. Além de tudo o que já foi dito, conectar o país em banda larga é uma forma de integração mais radical do que a disseminação da TV nos idos de 1970: enquanto a TV era apenas do centro pras pontas, banda larga é omnidirecional e, por tanto tempo quanto continuarmos lutando pra garantir, não tem controle central. É todos pra todos, ligando tudo, em todo canto, a toda hora. Taí uma coisa que eu pediria, de presente, pra um país como o meu. E parece que, desta vez, Papai Noel prestou atenção nas nossas cartas e vai entregar justamente isso nos próximos três anos. Tomara mesmo. Não vai ser por falta de crença e otimismo, de minha parte, que não vai acontecer. A todos, um Feliz Natal. Em breve, (e pra todos) em banda larga.

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O futuro das tecnologias da informação e comunicação66
O futuro não acontece de repente, todo de uma vez. O futuro é criado, paulatinamente, por sinais vindos de lá, por caminhos que vêm de lá. Interpretados nos contextos dos nossos presentes, que se vão, como os anos, cada vez mais rapidamente. Entre 2000 e 2003, escrevi uma série de 100 colunas para a finada revista eletrônica NO. Na primeira, o assunto era o papel (e seu papel na sociedade moderna) e o texto, ”O fim de um dos fins do papel” , começava assim: Não passa um dia em que não haja uma frase de efeito, em algum lugar da mídia, sobre o fim do papel, da tinta e do livro. Só que, ao invés de um fato acontecido ou iminente, anuncia-se na verdade um debate, quase briga, quando bibliófilos estão por perto. Sem falar nos fabricantes de papel e plantadores de eucalipto.

A internet comercial começava a pegar no Brasil e, com ela, a previsão de que o papel ia mesmo acabar. Não só não acabou mas se usa, hoje, muito mais papel do que se usava há vinte anos, tanto na vida privada como nos escritórios. O que a internet anunciava (na época) e o que está começando a acontecer (hoje) é o fim de um dos fins do papel, o de suporte físico à transmissão da informação. Mesmo comprando livros pela internet, não compramos, via de regra, livros digitais, mas textos “de verdade”, que nos são enviados, fisicamente, através de algum meio de transporte. Claro que há ebooks e que muitos jornais estão planejando deixar de lado suas versões impressas. Mas meu tema
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inicial lá de 2000 ainda está longe de ser tratado no passado. O papel, mesmo como suporte para transmissão de informação, ainda tem um longo futuro. Papel é uma das tecnologias de suporte à era da informação. Não esta nossa, digital, computada desde o PC, na década de 80, ou dos computadores à válvula da década de 50. Papel está aí há milhares de anos, desde a China antiga. E tornou-se imprescindível depois da prensa de Gutemberg, que ajudou a criar boa parte da civilização que vemos no mundo, hoje. Papel vai continuar por aí por muito tempo, inclusive como suporte à informação digital. Os “novos” suportes à “nossa” era da informação, no entanto, são os sistemas de computação e comunicação oriundos dos estudos teóricos e projetos experimentais, militares e comerciais, realizados entre 1930 e 1950. Daí vem a gênese do que se tem hoje, como infra-estrutura da sociedade da informação, do PC à internet, dos roteadores e fibras óticas a Windows e Linux, dos aplicativos, vírus e sites, dos discos aos processadores e memória dos computadores e celulares de espalhados por todo o planeta. De mais de uma forma, o futuro das tecnologias da informação e comunicação está sendo construído há mais de setenta anos. Nós é que tendemos a olhar para um passado pouco distante ou um futuro muito próximo. Que futuro é este? Luciano Floridi, da Universidade de Oxford, teoriza que estamos construindo uma infosfera , um universo que seria o conjunto de todos os documentos (qualquer objeto capaz de reter informação), agentes (qualquer objeto capaz de efetuar operações sobre informação) e todas as ações que podem ser realizadas por agentes sobre documentos (ou sobre outros agentes). A infosfera inclui toda a informação ao nosso redor, e não só a informação digital ou armazenada em meios que nos parecem digitais. Não é nem preciso estender muito a definição para que se inclua, na infosfera, toda a informação guardada (e sendo processada) por agentes de qualquer tipo, inclusive organismos vivos. Como nós. A infosfera inclui toda a informação do universo, todos os suportes capazes de armazená-la e todos os agentes e as ações por eles realizáveis sobre qualquer tipo de informação, em qualquer tempo, lugar e suporte. A infosfera de Floridi é um limite superior do que poderá vir a ser o futuro das tecnologias da informação e comunicação e, mais claramente, seu impacto e significado para a humanidade (e possivelmente para outras formas de vida). Imagine que tudo seja informação ou possa ser reduzido a uma dinâmica informacional representada por modelos informacionais (de coisas “concretas” do universo), ciclo de vida de informação (dentro de tais “modelos”, desde o surgimento da informação até seu desaparecimento) e processamento de informação (de todas as formas). Assumindo que cada e toda coisa, evento, sistema, sensação ou pensamento “real” (sim, incluindo seus sentimentos por um semelhante...) pode ser representada na dinâmica informacional sistematizada por Floridi (e descrita, antes e de formas diferentes, por muitos outros), somos todos inforgs (informational organisms, inglês para organismos informacionais) e podemos ser, todos, informatizados. Como parte do, ou de um, sistema. Quão informatizados estamos? Por um lado, muito. Cartões de todos os tipos, celulares, declarações de imposto de renda e malha fina, telefones grampeados, agendas on-line, "emeio", IM, orkut,... sem falar que quase todos os serviços e funcionalidades a que temos acesso, em lojas, governo, fábricas e mesmo carros, motos e ônibus, aviões e aeroportos, estão informatizados. Irremediavelmente. E não têm, aparentemente, nenhuma condição de se desinformatizar: esta não é uma tendência anunciada nem mesmo pelos mais pirados gurus de administração. Muito pelo contrário. E aí é que está o outro lado. A nossa informatização mal começou. Minha casa tem quase nada de informática e ainda não me reconhece; meu chuveiro não sabe a
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temperatura que prefiro na água (dependendo da hora do dia e estação do ano); meu carro não se vira (sozinho) no trânsito e, se eu quisesse deixá-lo de lado (para sempre), não consigo (ainda), teclar um mapa no ponto de ônibus e pegar um coletivo, ponto-a-ponto, entre onde estou e onde quero ir. De um jeito fácil, seguro e rápido. Ainda tenho que ir ao hospital fazer exames, quando deveria ter sensores transmitindo meus (e de todos, o tempo todo) dados vitais para os servidores do sistema de saúde, que ainda não têm nem a inteligência para acompanhar a epidemia de câncer de mama do país, imagine para tratar os dados de quase 200 milhões de brasileiros e, usando de redes neurais a lógica difusa, decidir que amanhã, quando eu chegar no ponto do coletivo (que pode não ser ônibus) o lugar pra onde devo ir é o hospital, e não o trabalho. Que terá sido informado da necessidade de minha ausência, face a um tratamento preventivo que será realizado durante parte da manhã... por um robô. Todas as cirurgias ainda são realizadas por humanos. No limite de Floridi, pode até ser que cirurgiões ajudem a projetar e treinar os robôs e desenhem as cirurgias. Podem até supervisionar o processo. Mas não vão realizar boa parte das operações. Não, esta não é uma descrição de “Eu, Robô”. Mas será que utopia de um mundo ideal, informatizado aos poucos, sem que consigamos interferir na maior parte dos sistemas e no grau de controle que eles começam a ter sobre a sociedade, não pode se tornar uma distopia onde perdemos o controle de agentes muito sofisticados que ajudamos a criar? E eles, por sua vez, começam a tomar as “melhores decisões” e, aí, o futuro não precisaria mesmo de nós?... No mesmo abril de 2000 em que comecei a escrever para NO., Bill Joy publicou um dos textos de maior impacto da Wired em todos os tempos: Why the future doesn´t need us (Porque o futuro não precisa de nós). A tese central de Joy era que estávamos cavando nossa própria obsolescência, ao desenvolver sistemas e mecanismos, digitais ou fortemente baseados em digitalização e redes, que nos tornariam dispensáveis no longo prazo. O argumento de Joy é bem construído mas é auto-desmontável: à medida em que emerge a consciência de que o que estamos fazendo, informacionalmente, levará à nossa obsolescência, começamos também a criar os mecanismos de defesa para que tal não aconteça. Isso se investirmos tanto nas defesas quanto estamos investindo na criação da tal infosfera de Floridi. Se chegarmos a ter (por exemplo) sistemas de informação, nas teles, decidindo que fluxos de comunicação devem ser grampeados, em função de algum tipo de análise automática, estaremos começando a chegar perigosamente perto de realizar a profecia de Joy. Só por acaso, software a serviço das agências de espionagem americanas está começando a fazer justamente isso. Aí é onde mora o perigo. A informatização cada vez maior da sociedade e dos atores sociais é irreversível, sob qualquer faceta à partir da qual se vê o problema. Ou as soluções. E nossas principais salvaguardas são sociais e culturais. Os costumes, hábitos, a história, o contexto e os princípios éticos e morais que guiam uma sociedade devem, a todo momento, ser chamados à mesa de debates, quando cada parte de nossas vidas, uma após a outra, começar a sofrer uma influência cada vez maior de mecanismos advindos de uma dinâmica informacional que não só parece mas, verdadeiramente, está fora de nosso controle. A ciência e sapiência vão ser, no passo-a-passo, inserir nossos controles e defesas no processo de informatização de nossas vidas, antes que seja tarde. Para proteger alguns aspectos de nossa privacidade, lamentavelmente, já começa a ficar muito tarde. E, ao sentir isso, só achamos que estamos pagando o “preço do progresso” e “quem não deve não teme”. Muito tempo atrás, quando os nazistas começaram a identificar judeus, houve quem pensasse o mesmo. Os resultados, como se sabe, foram terríveis. Mas pertenço ao time dos otimistas incorrigíveis: acredito que pessoas e sociedades aprendem e que a humanidade evolui. O curso dos acontecimentos, no longo prazo, está resolvido. Vamos viver, de fato (e
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de direito) numa infosfera, tão informatizada quanto for econômica, social e humanamente possível. E tenho quase certeza de que o possível será trocado pelo desejado e o humano e social estarão, no longo prazo, bem antes do econômico. E meu pedido pros anos que vêm é que tudo aconteça bem mais rápido do que vem acontecendo. A gente se encontra no futuro. Em muitos informatizados e Felizes Anos Novos.

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PS: Depois de ter a honra de participar do lançamento do G1 e compartilhar este espaço semanal com vocês por mais de um ano, aproveito o fim de ano pra mudar de vida e volto ao meu blog e meus projetos na Universidade Federal de Pernambuco, no C.E.S.A.R e no Porto Digital. Foi um grande prazer estar no G1; guardarei uma boa lembrança da equipe do noticiário e comentários de tecnologia e espero encontrar todos numa outra aventura, em algum lugar da infosfera. Até lá e sucesso e boa sorte a todos que fazem o G1.

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