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Título: Sedução e vingança Autor: Cathy Williams Título original: Vengeful Seduction Dados da Edição: Editora Nova Cultural

1996 Publição original: 1995 Género: Romance contemprâneo Digitalização e correção: Nina Estado da Obra: Corrigida "Vou ter você, Isabel. E descartá-la quando me cansar..." Lorenzo Cicolla tinha um único objetivo: vingança. Isabel o traíra no passado, e agora devia pagar. Mas a forma de pagamento que ele arquitetara era um tanto diferente: faria Isabel se casar com ele! Sedutor, atraente, Lorenzo fora o grande amor da vida de Isabel. Mas ela precisou renunciar a esse amor para salvar o pai de uma chantagem. Agora Lorenzo estava de volta, e Isabel percebeu que o amor não morrera em seu coração. Só que não poderia aceitar seu pedido de casamento: o que Lorenzo tinha a oferecer-lhe não era amor, e sim vingança! CAPITULO I Branço era uma cor horrível. Olhando no espelho da penteadeira, Isabel achava que nunca mais voltaria a vestir branco. Dava uma sensação de desespero. Começou a escovar os cabelos, compridos, escuros, quase negros, que caíam em pequenas ondas sobre as costas. Mais cedo ou mais tarde teria de descer para a sala, pensou. Estava lá em cima no seu quarto havia quase duas horas, vestindo-se. Na verdade, esquivando-se do que ocorria lá embaixo. Três batidas na porta. Sua mãe abriu. Entrou. Sorriu. Isabel sorriu também. Os músculos da face doíam com o esforço, mas ela não tinha escolha. A noiva tinha de estar feliz. Quem já ouviu falar de uma noiva

deprimida? —Estou quase pronta — disse, voltando-se e ouvindo o farfalhar do vestido. As mangas justas inibiam seus movimentos. Achava também o decote muito profundo. Mas a culpa era toda dela, pois deixara a mãe escolher o modelo de uma revista, sem nem ao menos dar uma olhada. Tirara as medidas, experimentara, concordara com a mãe e com a costureira. E mal tinha visto o vestido. Agora percebia que o detestava. Mas, na verdade, detestaria qualquer vestido de noiva. —Que tal estou? — perguntou. — Está linda, querida. — A mãe sorriu mais amplamente, os olhos brilhando. — Nada de lágrimas, você prometeu. Claro. Se a mãe começasse a chorar, ela começaria também. Aí, além de uma noiva deprimida, seria uma noiva deprimida com a maquilagem estragada. Um quadro nada agradável. — Onde foi parar a minha menina? — A sra. Chandler segurou as mãos da filha. Isabel olhou para a mãe com ternura, sentindo um nó na garganta. — Ainda estou aqui, mamãe — respondeu. — Você não está perdendo uma filha. Está ganhando um filho. — Dizer aquilo era difícil, pois aumentava seu malestar. — Claro, querida, mas seu pai e eu... bem... onde foram parar todos esses anos? Ainda ontem você estava engatinhando. Agora... está se casando. — Eu tinha de crescer um dia. — Isabel falava baixo, tentando parecer despreocupada. Não era conveniente que os pais começassem a suspeitar de que algo não ia bem. Começariam a fazer perguntas e, com certeza, iriam descobrir a verdade. Isso ela não podia permitir, pois os amava muito para vê-los sofrer. Era a única e tão desejada filha de um casal que tinha perdido as esperanças de ter filhos, adorada desde o dia em que nascera. — E eu, como estou? — A sra. Chandler deu uma voltinha. — Um espetáculo. Estava mesmo. A sra. Chandler era alta como a filha, tinham os mesmos olhos azuis. A única diferença era que a mãe era loira. Aos sessenta anos, ainda conservava a mesma beleza. O mal de Parkinson podia ter comprometido seus movimentos, mas não tinha diminuído seu brilho. — Papai é um homem de sorte... — Você não diria isso se o tivesse visto há pouco. — A sra. Chandler riu. — Ele estava furioso, tentando entrar naquele smoking, o mesmo que usou quando nos casamos. — O último botão vai ter de ficar aberto, mas acho que ninguém vai notar. Todos estarão olhando para você, querida. Sorriu outra vez, tentando parecer radiante. — Como vão os preparativos? — perguntou, mudando de assunto. — Eu sei que devia estar ajudando, mas... — Nada disso. Você não poderia estar correndo por aí nesse vestido. Eu sei que deve estar nervosa. Eu também estava no dia do meu casamento. Mas tem gente suficiente lá embaixo cuidando para que nada saia muito errado. Tudo o que encomendamos já chegou e a comida parece deliciosa. Os convidados também já começaram a chegar. Seu pai está lá embaixo. — Jeremy já chegou? — Isabel continuava sorrindo, simulando felicidade. — Não deve demorar. Agora, querida, preciso descer e ajudar seu pai. Ele vem buscar você daqui a pouco — parou, voltou-se. — Estou tão feliz, querida. É verdade que seu pai e eu — a mãe agora parecia medir as palavras — ficamos desapontados por você não terminar a faculdade. Mas, hoje, vendo você tão feliz, acho que você sabia o que estava fazendo. A mãe finalmente saiu. Isabel sentou na cama. Agora que estava sozinha no quarto podia parar de sorrir. Preferia que a mãe não tivesse tocado naquele assunto. Isabel suspirou. Da cama podia ver sua imagem no grande espelho da parede. Na verdade, não estava tão preocupada com o passado. Mais com o futuro. Calçou os sapatos. Desconfortáveis. Isabel era alta, estava acostumada a sapatos baixos. Mas este vestido pedia sapatos altos. Completavam o quadro. Sem dúvida, um lindo quadro. A mãe certa vez lhe disse, orgulhosa, que ela tinha sido vistosa desde bebé. E Isabel nunca teve motivos para duvidar. Bastava olhar no espelho mais próximo para ver que aquela aparência vistosa nunca a tinha abandonado. O cabelo era sedoso, a pele branca, as feições perfeitas. Desde criança, ela sempre tinha sido admirada. E acabou se acostumando com isso. Embora achasse a beleza uma bênção, também a achava irrelevante. Beleza, afinal, era algo transitório. E, às vezes, podia ser grande desvantagem. Abria portas, claro. Mas a

recepção a seguir nem sempre era a esperada. Isabel foi até a janela. Olhou para o imenso jardim dos fundos, que seus pais tinham cultivado desde que mudaram para aquela casa. Logo teriam de contratar um jardineiro ou reduzir o tamanho do jardim. Mas claro que adiariam isso enquanto fosse possível. A mãe sabia desde o início da doença que suas condições iam piorar mas, com certeza, continuaria jardinando. Dali não dava para ver os convidados chegando. Eles entrariam pela porta da frente. Parentes, alguns que ela não via fazia muito tempo. Amigos da faculdade, que provavelmente ficariam boquiabertos com as dimensões da casa de seus pais porque ela nunca tinha deixado transparecer como sua família era rica. Outros amigos, dela e de Jeremy, conhecidos há muito tempo, tanto quanto ela e Jeremy conheciam um ao outro. Olhando para o jardim, Isabel tentava imaginar o que estariam pensando deste casamento. A maioria devia achá-lo uma espécie de desfecho natural, algo previsível. Mas os amigos mais chegados já tinham manifestado seu horror à ideia. Não conseguiam entender como ela podia desistir do curso de medicina para casar. Claro que ela não dizia nada. Como poderia? Os pais, embora desapontados, procuravam não censurar sua escolha. Tinham ficado perplexos quando, seis meses atrás, ela dissera que ia casar com Jeremy Baker. Chegaram a achar que ela estivesse grávida. O que, para ela, foi a única nota divertida do lamentável episódio. — Mas, querida... assim, tão de repente? — a mãe tinha comentado, tentando compreender o incompreensível. — Eu nem sabia que você e Jeremy eram tão próximos. Achava que... Isabel sabia o que a mãe achava. E tratou de mudar de assunto bem depressa. — Mas vocês não podem esperar um pouco? — o pai perguntou preocupado. — Achamos que assim é melhor para nós — Isabel murmurou. E, quando lhe perguntaram sobre o curso de medicina, deu uma desculpa qualquer, dizendo que não gostava muito de sangue. No fim, ambos acabaram concordando. E a mãe começou a ajudá-la nos preparativos. Seu pai exercia grande influência na comunidade, o que facilitava e agilizava tudo. Dos bastidores, Isabel observava, reprimindo a angústia que ameaçava dominá-la. Claro que sempre a consultavam sobre tudo. Os convites, os guardanapos, as flores. Todas em diferentes tons de amarelo porque a mãe achava que a primavera era amarela e as flores simbolizariam a primavera. Francamente, o inverno teria sido mais apropriado. Mas Isabel tinha evitado o comentário. Andando pelo quarto, Isabel contemplava lembranças de sua infância que ainda andavam por ali. Livros de aventuras que ela devorava quando adolescente, antes que os de biologia se tornassem mais fascinantes. Uma boneca que ganhou dos pais aos cinco anos, presente de aniversário. Um desenho da família que ela tinha feito aos quatro e os pais tinham orgulhosamente emoldurado, três figuras estranhas com dedos pontiagudos. Apesar do orgulho dos pais, ela sabia que não era uma artista. Tinha uma mente mais lógica. Ironicamente, sua vida, sempre orientada para a conclusão mais lógica deste mundo, uma formação no campo que ela adorava, uma carreira onde poderia ajudar pessoas, tinha chegado ao mais irracional dos fins. Aquilo a fazia pensar em Jeremy. E sentir de novo aquele nó na garganta. Em menos de uma hora ela seria a esposa dele. E não havia sentido em ficar se torturando com a insanidade da ideia, uma vez que não podia fazer nada para evitar. Bateram na porta outra vez. Não era o pai. Não ainda. Isabel enrijeceu. Olhou no relógio de pulso, que dizia que ela ainda tinha uns quarenta e cinco minutos de liberdade. E respondeu: — Sim. Entre. Provavelmente era a mãe, com um detalhe de última hora. Ou talvez Abigail, sua melhor amiga, que sem dúvida desandaria a fazer outro sermão sobre a insensatez daquele casamento. — Boa ideia — ela dissera quando Isabel lhe falou sobre Jeremy. — Entregue sua vida àquele verme. Jogue fora sua vontade de ser médica. E enquanto não faz isso, por que também não se joga debaixo de um caminhão? — Abigail estudava arte dramática e cultivava um modo teatral de se expressar. — Não vou dizer mais uma palavra sobre esse assunto, nunca mais — mas continuava comentando o tema toda vez -que se encontravam. Não era Abigail. Não era a mãe. Era a última pessoa no mundo que ela queria encarar. Mas encarou. Desafiadoramente. — Então — ele disse, entrando no quarto e fechando a porta —, a noiva já está pronta... —, sarcasmo na voz, insolência na expressão.

que você está fazendo aqui? — Isabel perguntou, sentindo o coração acelerar. E uma certa falta de ar. A presença dele sempre provocava aquela sensação estranha. — Você achava que eu não viria? — Lorenzo tentou sorrir. — Achava. Mas, já que veio, devia estar lá embaixo com os outros. Na verdade, ele devia estar em qualquer outro lugar, não aqui, no quarto dela. Ela não podia mais suportar esse jogo de crueldade que ele vinha fazendo desde quando soube sobre Jeremy. Mesmo que pudesse entendê-lo. — Nunca achei que você fosse mesmo fazer isso — Lorenzo se aproximou. — Quando, há cinco meses, você me disse o que estava planejando, achei que fosse uma piada, uma piada de mau gosto. — Não é piada, Lorenzo. Lorenzo segurou os braços de Isabel, que estremeceu. — Por quê? Por quê? — Já lhe disse... — Você não me disse nada — Lorenzo a soltou. Foi até a penteadeira. Encostou-se nela, punhos cerrados. Isabel foi atrás, contendo-se para não abraçá-lo. — Por que você está fazendo isso, Isabel? Você não ama Jeremy Baker. Isabel respondeu rapidamente, para evitar o assunto amor: — Como você pode falar dele nesse tom? Eu achava que ele fosse seu amigo! — Nós dois o conhecemos muito bem — Lorenzo respondeu. — Ele é um irresponsável. Você mesma já disse isso. Não foi esse um dos motivos pelos quais você passou a evitá-lo, mesmo como amigo, quando ele começou a trabalhar com seu pai? Ele a assustava. Você estava contente de estar na faculdade. — Você também me assusta, quando age desse jeito... Lorenzo estava furioso, uma vez que não conseguia entender a situação. Isabel fitava aquele corpo másculo, moreno, cuja aparência sensual tinha virado a cabeça de tantas garotas na escola anos atrás. Já naquela época, aos dezesseis anos, seu rosto sugeria o homem admirável que viria a ser. — Estou tentando ser razoável, Isabel — ele disse num tom nada razoável —, tentando descobrir se há algo que não sei ou se você precisa ser internada num manicômio. Lorenzo estreitou o olhar. O cabelo escuro e pele morena realçavam o brilho curioso de seus olhos castanhos. Ele era filho de imigrantes italianos. Brilhante, tinha facilmente conseguido uma bolsa e estudado numa das melhores escolas particulares da Inglaterra. Entre os outros alunos, sem o mesmo brilho, mas muito ricos, parecia um leopardo entre um rebanho de ovelhas. Lorenzo era diferente de todos, mas nunca se importou com isso. Não precisava. Seu cérebro era suficiente para garantir respeito. Aos dezesseis anos, comentava-se, tinha inteligência comparável à de muitos professores. Brilhante e criativo, mostrava ainda uma incansável vontade de vencer. Até hoje. — Sei o que estou fazendo, Lorenzo — Isabel murmurou, olhando para as próprias mãos, cruzadas. — Não, não sabe! — Lorenzo rugiu. Isabel, nervosa, olhou para ele. E para a porta. — Você vai acabar trazendo todo o mundo aqui para cima. — E vou dizer a todos o mesmo que estou dizendo a você. Que você está maluca! — Você não entende. Lorenzo foi atrás. — Não entendo o quê? Isabel não sabia o que dizer. Sabia que havia uma suspeita sob toda aquela raiva. Que ela não podia aguçar. Lorenzo era sagaz. Saberia perceber a verdade sob aquela farsa. — Gosto dele — respondeu, evitando aquele olhar. Mas Lorenzo levantou seu queixo, forçando-a a olhar nos olhos dele. — Não, não gosta. Eu sei de quem você gosta. Quer que eu prove? — Seus lábios esboçaram um sorriso. — Lorenzo, não... — Por quê? Tem medo? — Claro que não. Vou casar com Jeremy — disse, colocando as mãos no peito dele. E sentindo aquela energia masculina fluir para seu próprio corpo como uma corrente elétrica. — Você pode não gostar da ideia, mas não pode me impedir. — Você era minha amante — ele disse, voz baixa, áspera. — Ou estava me enganando com ele?

—O

— Não. — Você mal o via quando estava na faculdade. Pouco vinha para casa. E os fins de semana passava comigo — Lorenzo pensava e repensava. — E durante a semana ele não poderia. O trabalho não lhe deixava tempo. — Ele escrevia — Isabel admitiu. Uma pequena concessão. Verdadeira. Jeremy tinha mesmo escrito. — Compreendo. Apaixonaram-se por correspondência...— Lorenzo ironizou. — Isso não é da sua conta. — Você esteve envolvida comigo desde os dezesseis anos. Agora tem vinte e fomos amantes por quase um ano. Jeremy nunca fez parte desse quadro. Você sempre me pertenceu. Tais palavras evocavam lembranças dolorosas. Dos momentos em que ela esteve nos braços dele. Lorenzo tinha sido seu primeiro e único amante. — Pertenço a mim mesma. — Então diga que está apaixonada por ele — Lorenzo desafiou, chegando mais perto. Ele estava muito perto, tão perto que ela podia perceber as batidas de seu coração, sentir a textura de sua pele. Desde que soube que casaria com Jeremy, Isabel tinha procurado evitar Lorenzo Cicolla, porque sua proximidade era o que ela mais temia. — Não pode, não é? Por quê? Ele ameaçou você? Responda! — Claro que não — Isabel respondeu rápido. Muito rápido. — Eu o conheço desde criança. Brincávamos juntos. Tínhamos os mesmos amigos. — Eu brincava com uma menina chamada Francesca quando tínhamos dez anos, mas nem por isso vamos casar um com o outro. Além disso, você está falando do passado. E o passado é história. — Somos produto da história. — Você esquece que eu também conheço Jeremy muito bem. O suficiente para saber que ele pode ser perigoso. Ele sempre correu riscos desnecessários e idiotas. E só fazia isso porque seus pais tinham bastante dinheiro para livrá-lo de qualquer encrenca. — Ele tem um emprego! — Isso não significa nada. — Por que aceitou ser seu padrinho de casamento se o detesta tanto? Por que está aqui? — Você não compreende, Isabel? Ele me convidou como um desafio. E nunca recuso um desafio. — Você é tão ruim como ele. — Sou mais inteligente — Lorenzo retrucou. — Só corro riscos calculados. Jeremy me viu como uma ameaça desde quando pus os pés naquela escola. E, quando percebeu que não podia me intimidar, resolveu se aproximar. Francamente, não ligo a mínima para o que ele faz ou deixa de fazer. Mas por trás da sua amizade sempre houve inveja e ressentimento. — Eu sei — Isabel murmurou. — Mas ele gosta de você. — Ele me respeita. É muito diferente — Lorenzo corrigiu. — Quando ele me convidou para ser seu padrinho, nós dois sabíamos o motivo. Você. Isabel se voltou. Não queria ouvir mais nada. — Você era o prémio, sempre foi — Lorenzo prosseguiu. — Nesta comunidadezinha fechada, você era a estrela mais brilhante. Mais fascinante. O grande trofeu. — Aonde é que você quer chegar, Lorenzo? — Isabel perguntou, fazendo o impossível para continuar falando baixo. — Você está mergulhando de cabeça num desastre, destruindo a própria vida — Lorenzo grunhiu, vermelho de raiva. — Mas ainda tem tempo de evitar. Aquilo era o máximo que ele pediria, Isabel sabia disso. E sentia uma vontade irresistível de fazer o que ele dizia. Tudo o que ele tinha dito era verdade. Jeremy sempre tinha tido por ela verdadeira obsessão. Mas nunca lhe ocorreu que sua privilegiada situação económica, que sempre tinha lhe permitido comprar o que quisesse, não poderia comprá-la. Ele a tinha pedido em casamento quando ela ainda estava no colégio, aos dezesseis anos. E depois, na faculdade, quatro anos mais tarde. E Isabel tinha rido. Agora a piada era ela. — Vou casar com Jeremy — Isabel olhou seu relógio de pulso — em menos de trinta minutos — sussurrou. — E isso é tudo. Lorenzo contraiu os lábios. Sua expressão já não mostrava raiva, mas desprezo. E Isabel não sabia qual detestava mais. — Nunca achei você covarde ou idiota, Isabel. Mas estou mudando de opinião.

Porém. com seu cabelo negro e pele morena. Um beijo a impediu. prestes a perder o controle. Isabel? — Sim. mas já cultivava aquela compostura sombria. só fazia aumentar o interesse. Interessadíssimas. não é.. — Qual é o problema. apenas sorriu. quatro anos mais velho mas muito mais maduro que outros garotos de sua idade. olhos de Lorenzo brilhavam. divertindo-se com a reação dela. embaraçada. estava além de suas forças naquele momento. claro — Isabel respondeu. consolidada ao ficar mais velho. e ironicamente foi através de Jeremy. naquelas circunstâncias. O pai entrou no quarto. E ela pensou em quanta verdade havia naquele comentário fortuito. tranquilamente. que a assustava e excitava. fazê-la em pedaços. — Não. Mas ela ainda pôde perceber o ódio que a resposta tinha causado. Voltou imediatamente. Era um cumprimento estranho. Lorenzo Cicolla. quase em pranto. olhar tão feroz que ela chegou a temer que ele pudesse fazer algo horrível. — Jeremy tem muita sorte de levar minha linda filha embora. que sempre a tinha notado. segurando a mão do pai. Agora pertenço a Jeremy. que eles vieram a se tornar amigos e ele admitiu. _ _Não sei se sorte tem algo a ver com isso — Lorenzo olhava para Isabel com fria cortesia. que entrava pela sacada e o atingia pelas costas. O fato de ele não olhar para ela. tinha frequentado a imaginação de todas elas. Lorenzo ficou furioso. Ouviu baterem na porta. emoldurando sua silhueta. — Não posso. Lorenzo se voltou abruptamente. mocinha. resolvi vir aqui me despedir. que olhou para os dois intrigado. Duvido que possa falar com ela depois que o casamento começar.. A distância. empurrava-o. Lorenzo sempre a tinha assustado e excitado. ainda hesitantes. ambíguo. elas cruzavam a linha divisória entre a infância e a idade adulta. Não me lembro. — O pai acariciou a mão de Isabel. mas logo percebeu do que ele estava falando. percebendo com um arrepio ambíguo que meninos não eram assim tão chatos como elas supunham. Isabel se debatia. Um beijo selvagem. entre risinhos. — Nada. Hesitante. —Por quê? — Você sabe por quê. — Bem. Você não entende. Ele apenas saiu do alojamento dela na faculdade e não voltou mais. Isabel deu um passo na direção dele. Uma única carta.Mas por que falar disso? — Seja mais específica. —. Numa época em que. lhe conferia um ar soturno e perigoso. sorte ou amor não muda o fato de que sua hora chegou. — Estranho. Até que Lorenzo finalmente a largou e se afastou. nem para qualquer outra da turminha. Ao que Lorenzo respondeu. E ela rapidamente as cruzou atrás das costas. meu rapaz — concordou cordialmente. O sol. Mas seu orgulho impediu qualquer pergunta. Alheio ao que estava acontecendo. Mas ela não revelaria seu teor.imagina — Isabel respondeu baixinho. Tinha chegado àquela escola e a deixado boquiaberta. que ela preferia ter evitado. Isabel? Não quer se despedir de seu amante? —Pare com isso — ela implorava. O que talvez um pouco mais de tato tivesse evitado. Mas as mãos tremiam. todas o observavam com a inocência da juventude. _ É compreensível. Lorenzo a agarrou. E. era impossível escolher as palavras. furioso. Ele podia ser jovem. Está distorcendo o que eu digo — Isabel respondeu confusa. Claro que ele não demoraria a explorar aquela imprudente admissão de que Jeremy tinha escrito. Olhar para Lorenzo era impossível. mas resolveu casar com ele assim mesmo. — O que é que as cartas diziam? Isabel em princípio não entendeu. como nos conhecemos tão bem — sorriu para Isabel —. Ele sempre tinha gostado de Lorenzo. — Não? Então por que tenho a impressão de que você está falando por enigmas? — Nem imagino — Isabel deu de ombros. como se nada tivesse acontecido: — Vim desejar boa sorte à noiva. Mas não foi possível. Preciso de sua ajuda para não ter um colapso antes de chegarmos ao altar — voltou-se — As pessoas são mais complexas do que você — O que é que você está tentando dizer? — Os . O tempo parecia ter maturado sua raiva. Na verdade. Era seu pai. A ela e todas as garotas da classe. No dia em que Isabel lhe contou sobre Jeremy. — Espero que você não esteja muito nervosa. Não lembra do que as cartas diziam. foi só quando ela já tinha dezesseis anos. Não estou tentando dizer nada. — Talvez amor. — Várias coisas — Isabel murmurou. Abriu a boca para protestar.

— Viola diz que é porque insisti em entrar dentro desta roupa. — Experimente dizer isso a elas — Lorenzo respondeu. sentada numa poltrona. Isabel olhava para a mãe. mas parecia não ter mais alma. Isabel olhou. Isabel sentiu uma horrível sensação de resignação. as mãos sobre os joelhos. Tanto a cerimónia de casamento como a recepção seriam na grande tenda amarela e branca armada nos fundos da casa. onde estariam todos perto uns dos outros. confusa. Chandler . Clark balançou a cabeça. A sra. mamãe. Ele não vai trazer David de volta. mais tensa Isabel ficava. estava a mãe. ela não valeria mais nada. Clark disse sem rodeios. mas o processo está apenas no começo. — Vender? — Isabel repetiu. Ela e o pai caminhavam solenemente pela escada curva. Depois. Você e sua mãe ficariam milionárias. voltando-se para Lorenzo. viu Lorenzo. Você vai descobrir o que é ficar nervoso. Chandler tentou sorrir. imóvel. Bem. Afinal. aflita. Menos Isabel. Não por culpa do sr. Quando já não ouvia mais seus passos no vestíbulo de mármore lá embaixo. todas na primeira fila. Isabel olhou para a mãe. Adams tinha dito a Isabel pouco antes no consultório —. claro. O problema só aumentaria. — Sugiro que vocês pensem no assunto seriamente. Perto dela. — Tenho um possível comprador — o sr. Todos riram. — A empresa de seu pai está afundando. E seria loucura manter a administração que está lá. Chandler. confiam neles demais — recostou-se na cadeira. — Passou as mãos sobre o estômago. vai? — a sra. Olhava para a frente. sombrio. Ela foi muito mal administrada nos últimos anos. examinando uns papéis. Era um homem baixinho. para ninguém. feições severas. ele estava praticamente aposentado nesse período. Andava. Ele fez uma proposta bastante generosa. Em seguida. Você parece cansada. descendo a escada de dois em dois degraus. querida. de onde já tinham sido retirados copos e bandejas vazias. Perto demais. — O fato é que vocês agora são donas da empresa. cabelo loiro. O que é verdade. Estava assim fazia três meses. implacável. careca. quando vocês resolvessem vender. como se tivesse envelhecido cinquenta anos em meia hora. — Espere só até ter minha idade e sua filha resolver casar. pela sala. Mães! Elas não sabem nada. podemos descer agora e fazer nossa entrada triunfal? — o pai sugeriu. Eu lhe disse que não sabia se você já tinha chegado. viu Abigail. Esse é um problema comum em empresas familiares. Além dele. mas ela vai acabar superando tudo. Já fiz palestras para auditórios lotados. Isabel agarrou a mão do pai e deixaram que Lorenzo saísse primeiro. falava. mas nunca senti algo assim antes. Mais à frente. já concentrado na tarefa que tinha pela frente. E. a dor estampada no rosto. informou: — Jeremy estava à sua procura. o problema é tão meu quanto seu. o obstinado Jeremy. — Claro que não. Empregam amigos. Isabel morria por dentro. pelo vestíbulo. Afinal. Mas competente. olhar crítico. Minha mãe sempre diz que quem manda lá em casa é ela. movimentos nervosos. muito menos para suas amigas dissidentes. — Vai demorar um pouco — o dr. Quanto mais avançavam. CAPITULO II O contador estava dizendo alguma coisa. A mãe tinha achado boa ideia e Isabel tinha concordado com cordial apatia. Será que um dia ela superaria mesmo tudo aquilo? — Sugiro que vocês vendam — o contador disse. e finalmente pela porta dupla em direção à tenda. Ele e seus dois assistentes tinham vasculhado aquelas contas minuciosamente. Olhou para as duas com o que devia considerar um olhar sereno. cujo destino agora estaria entrelaçado ao dela para sempre. Lorenzo saiu. querida. tentando se concentrar no que ele dizia. olhando-a com um desprezo velado que só ela podia perceber. — Sua voz mostrava ao falar da esposa a mesma ternura que ela mostrava ao falar do marido. Chegaram à tenda. — O dinheiro não significa nada para nós. O sr. Cruzou as pernas. Jeremy. saiu em direção à porta. sem perceber as diferentes reações que aquela alusão a Jeremy tinha provocado. olhar impaciente. Todos os olhares se voltaram na direção deles. Com o canto do olho. —É melhor sair.para Lorenzo.

Clark tinha levantado não deixavam tempo para lamúrias. bebericando o café. querida — a mãe se desculpou. Desde o acidente. — Neste caso. Apesar dos quadros. tinha estado morando com a mãe. — Quem é o comprador. Precisava amparar a mãe. E sabia que o pai não gostaria de ver sua empresa falida. querida. Clark levantou. que tinha adormecido na poltrona. Isabel não soluçava como a mãe. que tentava aparentar tranquilidade embora por dentro estivesse aos pedaços. O sr. — Sinto muito. no colo. Claro que aquilo tinha sido outra fase de sua vida. mas não havia tempo. Isabel deu uma olhada na mãe. era um homem sensato. Isabel ligou para o sr. De estar apaixonada. Isabel foi até lá. Isabel levantou. — Tentar tocar a empresa por razões emocionais não vai resolver o problema. e foi para a biblioteca pensar. Ela entendia bem pouco de finanças. uma casa nunca poderia ser um lar. Clark. — Assinarei o que for preciso. mas ela não tentava impedir. haverá bem mais desempregados do que se ela for vendida. há vários interessados. Isabel abriu a porta da frente. E estava certo. Era preciso seguir vivendo. tinha batido num caminhão que vinha em sentido contrário. Claro que podia aprender com o tempo. O sr. A casa onde morava com Jeremy. de Londres — ele respondeu. Tudo tinha sido tão inútil. Devia ter feito isso antes. Clark? — Isabel foi direto ao assunto. Sua perda foi bem maior — a mãe suspirou. E muitos clientes. Guardou os papéis na pasta. que ela já tinha superado. do jardim. Cansativo. mesmo depois de quatro anos de casamento. Sua mãe tinha saído com a mãe de Jeremy. semanas antes. Ser forte era difícil. — Tenho falado com um sr. nunca tinha parecido um lar. Clark — disse. — Pode vender. Clark foi embora. E a mãe não estava em condições de decidir nada. . Squires. no colo do pai. veja o que o sr. — Na verdade. dosvasos de plantas. Isabel voltou para sua própria casa. O homem também. Lembrar-se sentada ali. mas o tempo tinha passado tão depressa. Faça o que achar melhor. Caíam nas suas mãos. — Não tenho ajudado muito. Começou a guardar as roupas de Jeremy em caixas de papelão. — Espere por mim no vestíbulo. Jeremy estava ao volante do Jaguar. mas só por um instante.parou. Sozinha. ouvindo sobre as plantas e árvores que havia lá. Isabel abraçou a mãe rapidamente. Era preciso decidir. O tempo sempre cicatriza todas as feridas. Levou o homem até a cozinha. As lágrimas apenas rolavam por seu rosto. no vestido. Muitos naquela empresa têm de ser demitidos. Ela ainda lembrava de seus vinte anos. Melhor tentar evitar. quando criança. mas não quero me envolver na negociação. Lorenzo. Serviu café. — Quando preciso responder? — Quanto antes melhor. sr. acima do limite de velocidade. Olhou nos olhos dela. Ou passeando com ele pelo jardim. Tudo o que ele tinha dito nas últimas semanas fazia sentido. não é? — Você sempre ajuda. Iam tomar chá. A vida não respeita a morte. Clark. Tentando ultrapassar outro carro. por que não posso tocar o negócio eu mesma? — Inexperiência — o sr. Tentou sorrir entre as lágrimas. estava claro. Mandaria tudo para uma instituição de caridade. Tinha vindo muito bem preparado. Você faria isso? E se ela falir. Sentada na cadeira giratória de couro. Isabel hesitou. — Pobrezinha. O sr. Na manhã seguinte. Fazia sentido. Isabel fechou os olhos. A empresa de seu pai foi mal administrada. Começou a soluçar. Era preciso decidir. — Sei que devia me controlar — olhou para a filha. Já não tentava mais acreditar que a qualquer momento acordaria e descobriria que tudo tinha sido um terrível pesadelo. Sentou à mesa na cadeira em frente à dele. — Vá em frente. "apoiando o rosto nas mãos. Os números que o sr. ainda parecia um lugar vazio. Alguns são amigos da família. Clark — Isabel disse. Clark sugere. Ela mesma mal tinha tido tempo de chorar. Clark esperava pacientemente no vestíbulo. mas ainda tem potencial considerável. o que fez Isabel se sentir ainda pior. Sem amor. E a falta de amor ali era evidente. sr. Lembrava apenas da polícia trazendo a notícia de que tinha havido um acidente de carro e que os dois ocu-pantes tinham morrido. Saiu da sala. sr. Recolheu a correspondência do chão. O pior era recordar. O sr. Clark pousou a xícara no pires. Boas intenções não significam necessariamente sucesso nos negócios. mamãe.

— Dentro de duas semanas — ele tinha dito casualmente. sentindo-se melhor do que nos últimos tempos. Em poucos anos. Chegou ao escritório do sr. Mas é impossível de testar para sempre. Isabel franziu a testa. — Passei antes na casa de sua mãe — Abigail disse ao entrar. colar de pérolas. — Você e essa sua mente dramática. Sempre fomos. Desceu a escada para atender. O reflexo sorriu também. — Não é nada disso. Isabel abriu um grande sorriso ao ver a amiga que não via desde o funeral. Está cada vez mais ensimesmada. Por favor. quase vinte e cinco. Muito cansativo. Isabel se vestiu com esmero para a ocasião. Abigail.. — Richard? Você está falando do dr. Precisa de ajuda com alguma coisa? Lá em cima. Adams? — Sim. — Como não havia ninguém. sapatos combinando. Na manhã seguinte. . não é? — Não. Desceram à cozinha para tomar café. — E você? — Também estou sempre pensando nele — Isabel admitiu. olhos um tanto tristes. Saiu de casa. — Richard acha uma boa ideia. — David foi embora e me trancar em casa não vai mudar nada. Olhou no espelho. — Claro que no começo o detestei. — Você sempre o detestou. Afinal. Abigail tinha ficado famosa.. três meses antes. que já tinha chegado e parecia bem melhor que nas últimas semanas. apenas há poucas horas. Abigail ficou algum tempo calada. sacudiu a poeira da roupa e respondeu: — Foi ele que causou o acidente. Abigail — Isabel riu. Sorriu. que. mãos nos bolsos. Senão a gente ficaria maluca. Diz que cada folha de grama a faz lembrar papai. E ele não descuidaria deles. do trabalho. Depois de algum tempo o instinto de conservação acaba prevalecendo. Abigail foi embora no fim da tarde. O assunto ficou como estava. Aqueles papéis. — Talvez eu até volte a estudar medicina — comentou. depois de uma grande perda. Estava sempre nos jornais. — Ah. Eles não podiam ter desaparecido. Tailleur de lã cinza. A ex-amante casada com outro homem. Clark ligou para dizer que o comprador tinha chegado e pedir que ela fosse a seu escritório assinar uns papéis. Isabel voltou para a casa da mãe. o sr. — Como vai sua mãe? — Nada bem. —Emily está me ajudando a botar a vida em ordem — a mãe disse. Era bom ter alguém para conversar. mas a lembrança era tão vívida como se tivesse sido apenas ontem. Mas pedi para que isso não fosse divulgado.Nem da mãe dele ela lembrava mais. Viu uma mulher de vinte e quatro anos. sem nem mesmo olhar para ela. para estar perto do filho.. estranha coincidência. já entendi. que Lorenzo tinha decidido ir para os Estados Unidos. achei que você devia estar aqui. Isabel ouviu a campainha da porta. como se tivessem visto coisas demais. Richard e eu somos apenas bons amigos.. Aquilo tinha sido quatro anos atrás. Ele me forçou a casar com ele. Clark disse? Isabel contou. — Não sai nem para ir ao jardim. mostrando o que ela não via fazia muito tempo. — E Jeremy? Isabel ficou de pé. Ajudava a ordenar as ideias. Mas ainda lembrava da sensação horrível que tinha sentido quando soube. proscrevendo-a de sua vida. Clark na hora combinada. O que o sr.. bebericando seu chá e escolhendo salada no prato como um passarinho. eram sua garantia se ela um dia resolvesse cair fora daquele casamento. do que ela pretendia fazer com a casa. — Abigail teatralizou o comentário. no dia do casamento. Já passei muito tempo trancada aqui. — E compreensível. continuaram as duas a encaixotar as roupas. o corpo gracioso. Clark. o cabelo agora mais curto. E hora de começar a pensar no futuro. através dos pais. porque a sra. não pergunte como nem por quê. O mesmo rostinho lindo. Onde estavam os papéis? Jeremy devia tê-los escondido em algum lugar. Faz anos. agora se sentia livre pela primeira vez em quatro longos anos. Cicolla tinha ido para a América fazia três anos. E Isabel acabou falando também da proposta do sr. Ele tem me dado o maior apoio..

Que ficou sem resposta.. — Você não pode estar falando sério — ela disse finalmente. — Vingança é uma palavra feia. — Desculpe o espanto. parando na frente dele. — Obrigada. Talvez ela não devesse lhe vender a empresa do pai. Ele tinha feito sua vida em pedaços. Isabel tinha a sensação de ter entrado num mundo absurdo. já era mais fácil perguntar. Squires estava interessado. — E sua mãe. Clark. não sou. Morreu na hora. Você foi embora sem se despedir. como Alice no País das Maravilhas. Lorenzo deu de ombros. mas é difícil acreditar que seja mesmo você — Isabel arriscou um sorriso tímido. O choque ao ver Lorenzo Cicolla foi tão grande como se tivesse olhado pela janela e visto um cogumelo pairando sobre a cidade.. — E por que acha que a hora chegou? — Porque vou comprar a empresa de seu pai. — Foi tudo o que ela conseguiu dizer. e tudo sumiria. Isabel não esperava voltar a ver Lorenzo Cicolla. só olhando. como está? — Por que você está aqui? — agora. Você não é o sr.depois. passada a surpresa. Squires. — Nunca falei tão sério em toda a minha vida. Lorenzo? — Isabel murmurou. Bateu de frente num caminhão. Quando chegasse a hora. — Só vim a saber algum tempos. o mesmo encanto.. alisando a saia de lã. Tinha se acostumado com eles. Lorenzo ficou onde estava. — Você!? — Isabel não podia acreditar. — Não. — Sinto muito pelo que houve com seu pai — Lorenzo desviou o olhar. Isabel ouviu a porta abrir. incrédula. porque havia nele uma sutil ameaça. Olhou ao redor. quando já tinha decidido que o sr. Lorenzo sentou na cadeira ao lado. olhar impenetrável. Isabel levantou. — Obrigada. começou a sentir certa irritação por estar ali esperando. Foi um acidente trágico — Isabel respondeu com um lugar-comum. conversou um pouco com o contador. Fazia muito tempo. — É verdade. anunciando a guerra nuclear. a caminho do hospital. — Sinto muito por Jeremy também. A mesma aparência sombria. — Como foi o acidente? Isabel deu de ombros. Isabel queria parar de olhar para ele. Foram anos. mas nada sumiu. Squires não estava lá. como se tivesse visto um fantasma. dizendo que ia sair para ver o que tinha havido com o cavalheiro. Squires estava definitivamente fora da lista de prováveis compradores.. Mas dava para ver antipatia e desprezo sob o sorriso. Lorenzo entrou na sala. Lorenzo sorriu tranquilamente. mas fora isso era o mesmo Lorenzo de antes. — Vingança. Mas não podia. morreu na ambulância. — Mas o sr. Será que o homem nunca tinha ouvido falar de boas maneiras? Olhou o relógio de pulso e para o sr. Cruzou as pernas. — Que o sr. Uma piscada. sem tirar os olhos dela. Ele é meu procurador. que ela nunca mais tinha conseguido juntar.. nem mesmo a dificuldade que tinha para respirar. Começou a andar pela sala. Isabel. — Lorenzo! O que está fazendo aqui? Estou esperando um sr. O sr. Verdade. Papai. — Jeremy perdeu o controle do carro. Isabel tomou café. Clark arriscou. — Ainda não terminamos o preâmbulo. Dez minutos depois. quatro anos para ser mais exato. Não. — O coração ainda batia descompassadamente.O sr. — Porque gosto da beleza das voltas que o mundo dá. — Eu sabia que voltaria.. Aproximando-se. . — Mas por quê? Lorenzo comprimiu os lábios. Piscou. O tempo mostrava seus efeitos nas pequenas rugas sob os olhos. Squires. Não muito perto. Clark disse. Clark saiu da sala. aquele não podia ser o homem que uma vez tinha despertado sua paixão. Isabel levantou. respondendo às muitas condolências dos vizinhos. que também olhava preocupado para o próprio relógio e não demorou a levantar. — Talvez ele tenha se perdido — o sr.

mas para acertar contas. Vai ser bom ver você. não é? Você precisava tanto dele que por isso sacrificou a própria vida. a empresa de seu pai vai afundar. — A venda da empresa de meu pai não é assunto particular — Isabel respondeu. se ele estava decidido a se vingar. daquele horrível confronto no jardim. antes que ele sumisse de sua vida. Isabel.. acho — ele deu de ombros sem tirar os olhos dos olhos dela. temendo que ele se tornasse violento. Foi sorte ainda não ter afundado. Lorenzo Cicolla! — Sente-se! — Lorenzo voltou a berrar. — Amigos? Estou certo de que você gostaria disso. E Isabel sentou bem depressa. ameaçador..— Então por que a empresa de meu pai? — Ela é um desafio interessante. — Sou o único. Vai ser bom viver aqui algum tempo. — É mesmo? — O sr. Clark entrar correndo no escritório. — Não tenho de ficar aqui ouvindo isso — disse.. — Não minta. Como ela pôde um dia ter amado esse homem? Claro que depois de todos estes anos ela podia lhe dizer por que tinha casado com Jeremy. Chicago perdeu a graça. E o trabalho de seu pai estará perdido. As pessoas mudam. Será que só estava esperando uma oportunidade como esta? Ou será que a morte de Jeremy e seu pai tinha reacendido a raiva dele? — Você não parece muito entusiasmada com a possibilidade — Lorenzo ergueu as sobrancelhas. para você se interessar por um homem. gostando de ver seu mal-estar. — Isabel parou. Isabel. Não é uma notícia agradável. a separação tinha sido amarga. — Velhos demais? — ele ironizou. uma vozinha advertia. a confissão podia lhe dar mais munição. Clark me disse que havia vários interessados. Isabel pensava. Sorriu. Sem mim. — E o fato de ela ter sido de meu pai não tem nada a ver com isso? — Um pouco. sombrio. — Posso escolher a quem vender — ela respondeu. É isso o que você quer? Isabel olhou para ele enojada. — Não podemos deixar de lado o que passou? Podemos ser amigos. — Claro que sim. E Lorenzo sorriu. — Sente-se! Isabel olhou para ele por sobre o ombro. Isabel levantou. imaginando se o berro não faria o sr. pálida. — O que queria que eu dissesse? Você volta à cidade quatro anos depois e diz que vai morar aqui. trémula. bem-sucedido. se é que me lembro bem.. já .. Muito arriscado. Ele estava gostando daquilo. O que você esperava? Não isso. a empresa de seu pai precisa de um comprador para não desaparecer. — Você está voltando a viver aqui? — Claro. — Para esquecer o passado. Isabel corou. Isabel? — Aquilo foi há muito tempo.. Claro que não. Ele nunca tinha sido dado a demonstrações de violência. Quatro anos atrás. Clark vai esperar até eu terminar. Mas. voltando-se na direção da porta. Mas não era isso o que ele queria discutir. Você não sabe mentir. Com tal força que Isabel se afastou. — Não há. Não fez.. Não acha que estamos velhos demais para isso? Lorenzo deu um murro na mesa. O pai estava morto. E torceu os lábios com certo cinismo. é? Você não pretende se estabelecer aqui para o bem da comunidade.. — E isso significa o quê? — Ora. Depois riu de si mesma. Tudo menos isso... E. — Você não manda em mim. O homem para o qual ela olhava agora era um estranho. gostando de vê-la em posição de indefesa submissão. será vendida aos pedaços. — Além disso. Lorenzo olhou também. — O quê? — Eu lhe disse que antes queria discutir com você um assunto particular. apenas que sou rico. O tempo passou. — O sr. dois requisitos básicos. cansei da cidade grande. furiosa. — Não é verdade! — Não? Então por que casou com Jeremy? Por que ficou quatro anos casada com ele? Por causa do seu precioso status. — Mas. — Agora escute. — Isabel olhou para a porta. Ela ainda lembrava do desastroso dia de seu casamento. neste caso.

ou. francamente. — Como soube da?. sentindo a temperatura subir.. — Duvido que você esteja qualificada para julgar a vida de outras pessoas — respondeu.. vazia? Isabel desviou o olhar.. Isabel gelou.. cara. vou embora. olhando pela janela. — Não suportaria pensar que você só me ofereceu sua amizade porque agora sou rico o suficiente para pagar o preço. não quero nada com você! — Finalmente algo sensato — ele murmurou. — Compreendo. dando-lhe as costas. Claro que ele não sabe muito sobre minha vida pessoal. como Jeremy sempre fazia questão de dizer quando o assunto era Lorenzo Cicolla. Este era outro homem. Agora foi Lorenzo quem corou. Cansei da cidade grande. porque era incapaz de justificar seu passado. achar a coincidência divertida. Lorenzo se voltou outra vez. me dá nojo. naquele terno bem cortado. Lorenzo? — Isabel perguntou. —Você vai embora quando eu deixar. — Seu casamento com Jeremy Baker também foi desprezível. meu homem em Londres. Ele devia era ter achado que havia um desafio maior. Se não. Ainda mais linda que antes. esperando por ele aqui. mas sabia onde eu tinha vivido quando jovem. vulnerável. — sussurrou. mas suficiente para que ela percebesse que havia algo mais sob aquela aparência fria e arrogante. posso assinar.. — Acho que não — Lorenzo tinha recobrado a pose. — Bob Squires. Que ela não conseguia compreender. mais interessante. mas não voltou a sentar. Achou que eu podia me interessar. Não respondeu. — Por que não ficou onde estava? — Mais que curiosidade. Lorenzo só olhava. Lorenzo? — Satisfação transitória. o olhar perambulando insolentemente pelo corpo dela. — Às minhas custas. — Por que brigar quando podemos?. O homem que um dia tinha feito amor com ela. Fugaz. Isabel? Quando o agito social terminava e vocês ficavam sozinhos naquela casa imensa. E alguém sabe muito sobre sua vida pessoal. — Uma ideia tentadora — disse baixinho. ele parecia exatamente o que era: rico. Difícil acreditar. desconfortável. Você não é meu chefe! Estou vendendo a empresa de meu pai a você porque o sr. há tanto tempo que ela mal podia lembrar. Mas acho que posso resistir. A empresa do pai dela devia tê-lo interessado por estar no seu ramo de negócios. Além disso. furioso. Isabel. Mas. — Você é desprezível. — Fazer amor? Isabel corou. Ou talvez seja meu lado caipira que insiste em ver as coisas dessa forma inconveniente. mandou um fax do artigo. Mas a mãe estava viva. Lorenzo. refinado. — Voltou a sorrir. sem tirar os olhos dela. furiosa. além disso. que a tinha cativado anos atrás. E já tinha sofrido demais. — Do que é que você está falando? . estava evidente que aquele não era o Lorenzo Cicolla que ela conhecia. — Se quer que eu assine os tais papéis — disse formalmente —.não podia mais sofrer.. — Casamento por dinheiro. Você algum dia foi feliz. aproximando-se por trás dela e apoiando as mãos na cadeira. —Quando podemos ser amigos. Ela podia senti-la emanando daqueles braços fortes a apenas poucos centímetros de distância. — Saiu no jornal — ele respondeu. recebendo em troca um olhar furioso. desprezo no olhar. Não queria nada com ele. E a atual proprietária lhe conferia mais sabor. Sentado ali. Mas olhando para ele ninguém diria isso. Isabel encarou aquele olhar gelado. — Que vida solitária você deve ter levado esses anos todos — ela murmurou. Isabel exprimia sua agonia. Começou a andar pela sala. Cruel. — Não gosto de gente que tenta bisbilhotar o que não é da sua conta — Lorenzo levantou de repente. Caipira? Não mesmo. — O que é que você ganha com isso. Clark recomendou. Mas a sexualidade de Lorenzo. no mínimo. — Isso é tão difícil de entender? — Lorenzo sorriu com desdém. Ele podia ter vindo do nada. — Não trabalho para você. continuava tão intensa como sempre. Sabia que não poderia responder a nada que ele dissesse. — Você ainda é uma mulher linda. — Já disse.

— E você disse que não queria vingança? — Vingança é uma coisa tão primária. Antes que ela percebesse. seu rico estilo de vida. Lorenzo deu a volta na mesa. Em troca. Mas talvez você esteja certa. Isso agora estava claro. Lorenzo. Antipatia. — Podemos encontrar outro comprador — insistiu. Mas não podia. —. Isabel. Isabel. O dia do casamento. —Pensando no assunto.poderia — ele murmurou — trabalhar para mim. como se aquela possibilidade lhe causasse grande satisfação. orgulho ferido. Agora chegou a minha vez. essas coisas eram muito importantes para você. A satisfação de Jeremy. nada seria suficiente para descrever o que sentia por ela. Bem mais que eu. mas algo dentro dela insistia em responder àquela carícia. Lorenzo sempre tinha tido uma espantosa capacidade de adivinhar os pensamentos dela. tudo o que ele levou a vida inteira para construir vai desaparecer como uma nuvem de fumaça — Lorenzo sorriu.. Isabel Chandler. admitir a derrota. — Nunca vou casar com você! Ele a detestava. mãos nos bolsos. Vou pôr um anel no seu dedo e você será minha enquanto eu quiser. como poderia confiar nele? — Você vai fazer exatamente o que estou dizendo. Porque não tem escolha. Claro. talvez não fosse. Vestida com esmero para o evento do ano. —No dia de seu casamento.. — Seus olhos castanhos esquadrinhavam o corpo dela. Como estava claro que ela jamais poderia lhe contar a verdade. ensolarado. — O destino da empresa de seu pai está nas minhas mãos. Não seria divertido? — Não — Isabel resmungou. caminhando em direção à janela. chocada. Havia como responder o irrespondível? As lembranças pululavam na sua mente como monstros saídos da escuridão. não imaginava que você resistisse a uma proposta tão interessante.. açulando a ira do rival. a explosão era só uma questão de tempo. — Acho que não — Lorenzo voltou a sorrir. voz abafada. Sem mim. Melhor que admitir que ele estava certo. — Desta vez estou por cima. CAPITULO III Nunca! — Isabel bradou. Lorenzo? Nunca! — Por que não. Tanta gente bonita. —Que assunto? — Isabel fez que não entendeu. Talvez seja vingança a única coisa que pode me satisfazer. E descartá-la quando me cansar. Isabel olhou para ele. como se não tivesse ouvido. você poderá manter seu status. — Ou no que você me disse há quatro anos? Silêncio. um dia de primavera que mais parecia de verão. Começou a acariciar seu cabelo.Não — ele concordou —. — Continuo não entendendo — Isabel subiu o tom de voz. — Você .. Imóvel. o passado está morto e enterrado. por saber que ela agora lhe pertencia. desistir. Mas não era o estilo italiano. Isabel observava Lorenzo com o canto dos olhos. Se ele estava disposto a casar com ela apenas para saciar seu desejo de vingança. Jeremy tinha passado a tarde exibindo-a. Seus pais deviam estar orgulhosos — ele prosseguiu. Ela precisava se afastar o quanto antes. estava ao lado dela. Parou. — Para mim não. A surpresa de ver Lorenzo ficar para a recepção. Era o que Jeremy queria. vou salvar a empresa de seu pai.. querida? Na verdade. — No que eu quiser. claro. Ela nunca casaria com ele. Voltou-se para ela outra vez. agarrando os braços da cadeira. Entre amigos e parentes. — Nunca! Entendeu. — Isso não é justo! —E você estava ótima. Rapidamente. Vou ter você. Se é que me lembro bem. Ou talvez não fosse o suficiente. Isabel sentiu o coração bater mais forte. desprezo.. não tão surpreendente já que sair dali na primeira oportunidade seria fugir. Isabel? — Lorenzo repetiu. ela tentava não sentir o calor que se espalhava por todo o seu corpo. — Você está louco! — Por quê? — Não acredito que você fosse tão longe. Afinal. — Você pode acreditar no que quiser. Isabel? — a voz macia e cruel a trouxe de volta ao presente.

. ele jamais tinha permitido que ela pagasse um jantar. O estilo dele não admitia mulheres independentes. surpreendendo até a si mesma. Pode ser muito encantadora aqui. É o que está tentando insinuar? —E por que imagina que a iniciativa tenha sido minha? — ele ironizou. evitando olhar nos olhos dele. Lembrou deles dois juntos. — Só se você achar que deve — Isabel tinha respondido. onde todos eram filhos de pais que se conheciam. pelo menos não tinha havido filhos. — Ele sumia perto de você.. Hoje sou rico e bem-sucedido. Lorenzo se afastou rapidamente. Teria sido a loucura definitiva. — Por que falar do que passou? — Isabel murmurou. E tenho certeza de que há muitas mulheres lindíssimas. Mas ela não permitiria. Lembrou de Jeremy. já que ele não compraria mais a empresa de seu pai. branco como a neve.Isabel fechou os olhos. A situação era grotesca. hipnóticos. o que era inevitável numa cidadezinha daquele tamanho. —Você superestima seus encantos. daquele corpo moreno junto ao seu. Isabel arriscou um olhar. No fim da tarde. — Todos os homens comentavam a sorte de Jeremy Baker — Lorenzo insistia. que você destruiu há quatro anos? — Claro que não. Como se fosse o dono do lugar. Ela estava linda. Isabel? Desapontada por eu não estar disposto a juntar os pedaços do nosso relacionamento. não é. — Nunca! Bem. Isabel pensou. ficou. fazendo amor. confusa. —E eu não estou interessada no que você está ou não está interessado. — Imagino que você tenha tido muitas mulheres na América. olhos azuis. mas esquece que existem outras mulheres igualmente encantadoras — Lorenzo a observava como um cientista. — Não é isso o que velhos amigos fazem? — Velhos amigos?. você não liga a mínima para mim. Isabel. Mas. O olhar furioso que Lorenzo lhe dirigiu a teria calado se ela permitisse. —Não superestimo nada. iam sempre comer em lugares mais baratos. Isabel voltou a sentir aquele calor por todo o corpo. — Você mudou — Isabel comentou sem saber por que. todos diziam. Depois para as . exceto eu.. Por que deveria? Evidentemente. Ouvindo o silêncio. loiro. Com grande esforço. Voltou a sentar. E ela sorria para todos. com aquele tipo de beleza gracioso nas crianças. Lembrou dos cumprimentos. Olhou para ele furtivamente. Olhar naqueles olhos terríveis. Magro. — Não era a isso que eu me referia. Lorenzo não parecia impressionado com a resposta. voltando para trás da mesa. O que devia tê-lo incomodado bastante... perturbada. Seja qual for o motivo do seu comentário. — Você devia guardá-lo para uma das filhas que com certeza vai ter com Jeremy. a boca doía. E Isabel a descartou. Ela nunca o achara particularmente atraente. Isabel sentiu o coração bater ainda mais forte. A imagem irrompeu na sua mente com chocante nitidez. tamborilando os dedos sobre a mesa. Como todos. Em vez disso. puxando o laço do vestido. — Todos são iguais por lá. mas nada sensual nos adultos. — É verdade. Pretendia apenas dizer que ia embora. Apenas pertenciam à mesma turminha. Embora a família dela fosse muito rica. Ou comiam na cama mesmo. esperando para ver como ela reagia a diferentes estímulos. Isabel? Todos. Isabel pensava agora. — Não tem importância — ela tinha dito. — Claro que tem — outra amiga tinha replicado. —Magoada. uma vez que casamento como condição estava fora de questão. Um mínimo de bom senso a faria se recompor e cair fora dali. Não pretendia dizer aquilo. — Não estou interessado em ouvir suas impressões — ele disse. Respirar aquela masculinidade a estava deixando tonta. — Assim você vai rasgar esse vestido. Abigail perguntando com toda a franqueza se devia parabenizá-la. Outra incómoda lembrança daquele maldito dia. ridícula.. só pioraria as coisas. Será que esperava mesmo que ela se rendesse sem luta? Que fizesse o que ele dizia? Agora foi Isabel que sorriu. Lorenzo recostou na cadeira giratória. antes de. Isabel mantinha a calma. em vez disso.

Em menos de um ano não terá nem potencial nem clientes.. não disse mais nada. —Tem certeza. ele iria embora de novo.. Um gesto tão inesperado que seu coração pareceu parar de bater. Clark não lhe disse o que vai acontecer se eu não comprar aquela empresa? — Sim. você mudou de cor — ele disse. obviamente era um sentimento que ele não tinha cultivado. A presença dele ali era muito mais contundente. procurando manter o tom de voz — não sei do que você está falando. — E eu já deixei claro que você não manda na minha vida. devidamente protegido pelo tailleur de lã. Por que ele não tinha ficado nos Estados Unidos? Lembranças eram dolorosas. tirar a mão de mim? — Por quê? — Porque isso me causa um certo mal-estar. -— Bem. o mamilo endureceu. Isabel continuava só olhando. — Quer.próprias mãos. Por um instante. — Por exemplo? — Por exemplo — Isabel procurava um exemplo bem inteligente. Com ele e com ela mesma. não estaria aqui. — Um ano é bastante tempo — Isabel replicou.. — Se humilhando? E assim que você se sente? Isabel só olhava. Lorenzo ergueu as sobrancelhas. desejando que ele não parasse. Isabel ainda lembrava de como tinha reagido. tinha dito a ele. temendo começar a gaguejar. você vai ter de se arranjar sem a empresa de meu pai porque sua condição para comprá-la é inaceitável. — Como se atreve? — perguntou. — Teria feito alguma diferença? — ele tinha perguntado. Caridade me dá nojo. tentando pensar em coisas inconsequentes para fazer o calor passar. — Onde você vai ficar? — Provavelmente num lugar bem barato. — Você vai achar bem chato viver aqui — disse. à notícia de que ele ia embora do país. furiosa. Passado o choque inicial. seja porque eu não goste de ser tocada por um homem que me detesta. Já deixei claro que você não sai daqui antes de eu terminar. omitindo grande parte do que o sr. acho que a novidade da situação vai me manter interessado durante algum tempo. — Sente-se. — Não. O efeito foi imediato. encontrar alguém para dirigir a empresa por mim. Caridade. Sem tirar os olhos dela.. — O problema é juntar as duas coisas. Como nós dois sabemos. — Acho que não — ele tinha prosseguido. olhando para ele agora. — E por que será? —Talvez. . — Já marquei minha passagem. cada vez mais preocupada. Isabel sabia o que ele queria dizer. Clark na verdade tinha dito. mas era mais fácil lidar com elas. Isabel se afastou. discretamente: — Você nunca me disse que pensava em ir para a América. obrigado. me humilhando. e plausível —. Isabel levantou outra vez. tudo pareceu fora de controle. O seio pareceu inchar. — Neste caso. enquanto Lorenzo agora deslizava o dedo pelo seu pescoço. Lorenzo tocou seu seio. várias vozes discutiam os prós e contras de começar a vida sem nenhuma ajuda financeira. apartamentos de cobertura estão fora do alcance de quem não tem pais ricos para dar uma mãozinha. Lorenzo ergueu a mão e correu um dedo pelo rosto dela. Nada poderia estar mais longe de seus propósitos. baixinho mas com a mesma ironia. Quando cansasse. Ele agora estava bem perto. E Isabel não tinha respondido. no dia do casamento. — Deve ser a raiva — Isabel murmurou. — Eu. — Quem? — Bem. — Muita coisa pode acontecer.. — disse. — Eu poderia. sentindo impotência e frustração. Disse que a empresa tem potencial considerável e muitos clientes — ela respondeu. A novidade seria ela. — O sr. Isabel? Seu corpo está dizendo algo bem diferente. — Desde que me viu aqui. E. por favor.. Isabel pensava. Ao redor. se eu tivesse alguém em mente.

— Dinheiro compra tudo — Lorenzo dizia agora. — Bastante. parecendo se divertir com as ideias dela sobre o assunto. Isabel cruzou os braços. Falar com alguém de costas era desconfortável. Em última análise. Tinha se imposto um celibato voluntário. Lorenzo se voltou. — Quanta virtude! — Lorenzo ironizou. — Dinheiro não pode comprar felicidade. Antes isso que me envolver em qualquer tipo de associação com você. — Na rua? —Existem consultorias. Você não o amava. destinada apenas a provar o que dizia. Estava errada. Lorenzo — ele tinha dito. Bolas.. Isabel ainda lembrava alguns comentários de Jeremy no dia do casamento. como se tivesse dito algo muito engraçado. A fugaz carícia de Lorenzo. Isabel se sentiu ridícula. — Você falava de suas ideias para salvar a empresa de seu pai. — Mas tenho certeza de que posso encontrar alguém. — Jeremy ria. — Boa ideia.. ainda de costas. Como tinha sido embaraçoso.. E Isabel suspirou. Lorenzo desviou o olhar. — E você não é exceção. E agora sentia o gosto amargo da verdade. — Mal acabou de dizer aquilo. — Mas se asso ciou a Jeremy Baker há quatro anos. — Lorenzo sugeriu. — Você tem sorte de ter chegado aonde chegou. tinha causado um efeito que ela julgava impossível. Nem respeito. e se envolver com sabe-se lá quantas lindas mulheres! — Você esperava que eu mandasse notícias. — Que sorte a minha. claro. Lorenzo. Mas era evidente que conforto era algo que ele não pretendia lhe proporcionar. depois de beber mais do que devia. Usaria meu instinto. tentado se convencer de que fazer amor era algo de que não precisava. —Claro. Assim perderia dinheiro mais depressa. — Onde? — ele perguntou. cansada de tudo aquilo. — Quanta filosofia — comentou sarcasticamente. — Mas isso não o impediu de ir para os Estados Unidos. — E como saberia que o cara é bom? — Não sou nenhuma idiota. Ainda aturdida. Está dis posta a se tornar impopular numa cidadezinha como esta? Tanta lógica deixava Isabel ainda mais irritada.. — Prefiro correr o risco.Isabel já não lembrava como era ser tocada por um homem. Estavam os três juntos. como se nada tivesse acontecido. — Qualificado em quê? — Em administração de empresas. Isabel? A união de duas famílias tão ilustres era assim tão importante? —Você é detestável! —Isso é um elogio. mas isso não importava muito. — ele prosseguiu. sua mãe trabalhava na casa de alguns de seus amigos. vindo de você. —E que tipo de pessoa você lhes pediria? — perguntou. não é? Era isso o que você queria? Que eu ficasse por perto embora você estivesse . — Você não pode me comprar. Isabel? Que escrevesse dizendo o que sentia? Para que você pudesse consolar meu coração através do Atlântico? — Você não tem coração! A expressão de Lorenzo endureceu. ela tinha sido comprada quatro anos atrás. — Ainda não tenho ninguém em mente — Isabel respondeu. — Por favor. Lentamente.. sem se despedir. E o que faria com os diretores que ainda estão lá? Demitiria? Você conhece todos pessoalmente. — Sei que você ficou chateado quando casei com Jeremy. Seu olhar fuzilava. — Sem nunca ter tido dinheiro. Mas foi o único a rir. aproximandose da janela e dando-lhe as costas. não é? Como conseguiu justificar isso para si mesma. — Você dizia?. não faça isso — ela pediu. Isabel se perguntava do que é que ele estava falando agora. — Eu os manteria lá.. Não pode comprar amor. — Alguém qualificado.

O sr. — Não vou lhe vender a empresa de meu pai. Isabel não respondeu. Mas não sentiu. porque ela o via com os olhos de uma garota apaixonada. Apenas relembrava a cena no jardim. Depois de tanto tempo. Olhando para ele. Isabel — Lorenzo respondeu.casada? Que continuássemos amantes enquanto você e Jeremy posavam de casal perfeito? — Esta conversa está muito desagradável! — Há coisas mais desagradáveis. E. como toda lembrança desagradável. Inútil tentar evitar. — Não vou permitir — Isabel disse. sentando na cadeira atrás da mesa. Abriu. porque viu uma oportunidade de me fazer sofrer. Isabel lembrava muito bem. contendo a raiva. Lorenzo permanecia imóvel. No passado. — Ela ainda vai me pertencer. tal ímpeto a tinha divertido e fascinado. Você também. Clark perguntou. Isabel procurava forças para se afastar daquele estranho que pretendia se apossar de sua vida para destruí-la quando achasse melhor. — Como sempre. Isabel sabia o que ele estava lembrando. — Então? Tudo acertado? — o sr. — Agora que Jeremy não está mais por perto você tem a oportunidade de corrigir um equívoco. A lembrança que ela tanto tinha tentado esquecer. A mesma lembrança a tinha assombrado durante quatro anos. dinheiro era tudo o que importava para você. Estava com a mãe quando viu com o canto do olho os dois se afastarem. E sabia que seria atropelada. Isabel. Não tinha sido dinheiro. — Jeremy me abordou no jardim. Costumava avaliar uma situação. O jardim era grande. Olhando nos olhos dele. Isabel ainda podia ver a mesma raiva. E só uma questão de tempo — Lorenzo foi na direção da porta. — Sempre dinheiro. Jeremy gesticulava. Se me lembro bem. Diga que foi tudo um terrível engano. Da mesma forma como a olhava agora. E Lorenzo a tinha olhado com profundo desprezo. atrás de uma árvore. — Ele tinha bebido demais. — Não tenho mais nada a dizer — Isabel informou. Estava de mãos atadas. Da mesma forma como a tinha olhado ao entrar no escritório do sr. — Foi idiotice ter se envolvido comigo. Sentia apenas medo da ameaça de Lorenzo. Clark. e arremeter. quando tinha sido convocada a confirmar o que Jeremy dizia. ela foi procurá-los para ver o que estava acontecendo. Mas. Isabel notou quando se aproximou. E eu já começava a me arrepender de ter aceitado ser seu padrinho e ter ido àquela festa. Isabel não tinha podido negar. — Você sempre foi idiota. Clark não demorou a aparecer. — Não — era tudo o que Isabel podia dizer. Mas agora era diferente. — Não? Você deve ter a memória curta. Jeremy sempre gostou de uma garrafa. — Por que eu deveria lhe dizer alguma coisa? Você não acreditaria em nada que eu dissesse. ninguém ouviria uma eventual discussão. Estou ansioso para ouvir sua versão. Demorou algum tempo a achá-los. Nunca estaria. A expressão dizia. Só voltou aqui por acaso. Simples curiosidade. — Não me diga que já esqueceu aquela linda cena no jardim de seus pais quatro anos atrás? — E bobagem desenterrar o passado. medir as consequências. Não tinha esquecido nada e não estava disposto a perdoar. querida. seja qual for a oferta. Lorenzo relembrava. — A barreira intransponível. Pelo menos. Que pobreza poderia ser até algo romântico durante um certo tempo. pensou. não é Isabel? — Lorenzo perguntou. — Minha querida esposa — Jeremy tinha dito com um sorriso triunfante — me disse que você não era digno dela. não foi? A menina bem-nascida queria ver como era um menino da periferia. olhando para os . tinha criado raízes. queria menos ainda que houvesse uma briga entre o noivo e o padrinho. Que meu juízo está errado. Lorenzo sempre tinha sido sincero. Tão logo pôde. vou usá-la. Isabel. Isabel — ele retrucou rispidamente. Isabel devia ter sentido uma sensação de alívio. Agora ela estava no caminho. Foi um erro grave. confusa e assustada. mas como explicar isso sem revelar o segredo que ela devia guardar para si mesma? Lorenzo a estava levando a falar de coisas que ela seria incapaz de defender. mas no fim seria bastante incómodo. Se não queria aquele casamento. Más não pretendo me submeter a seus caprichos. Estavam discutindo. já que o acaso me deu esta oportunidade. Extrairia dela até a última gota de sangue e para isso usaria todos os meios disponíveis. Não sou idiota. Ainda não estava contente. mesmo agora.

sei que você está cuidando de tudo. o sr. Mas Lorenzo Cicolla não ia conseguir o que pretendia. evitando olhar para a mãe. Uma sensação horrível porque não se sentia vulnerável fazia muito tempo. —Ora. assim seria mais fácil a mãe aceitar a ideia quando se tornasse inevitável dizer não. Afinal. querida — a sra. as pessoas não mudam da noite para o dia. apesar das objeções dela. Se queria guerra. — As negociações estão apenas no começo. Simples detalhes. quatro anos depois. Não era hora nem lugar de discutir o assunto. Clark parecia convencido de que tudo correria normalmente. Começou a tirar a mesa. Melhor começar falando em reservas. tentando mudar de assunto. a tarde de outono começava a virar noite. O dinheiro e o poder lhe subiram à cabeça. Clark estranhou. E a perspectiva de ele voltar a viver na Inglaterra a assustava cada vez mais. um homem honrado e correto. provavelmente. Chandler sorriu para a filha. Talvez tenha se sentido um tanto desconfortável porque costumava sair com ele. Mas ficou calada. como se a conversa não tivesse sido interrompida. — O que quero dizer é que fundamentalmente as pessoas não mudam. mas basicamente continuam sempre as mesmas. — Nada. mas tenho de estar de acordo com qualquer decisão. Bom sinal. — O que você pretende fazer amanhã? — Isabel perguntou. — Claro que vou ter de me encontrar com ele. só isso — Isabel murmurou. Isabel queria protestar. Clark? — a mãe perguntou. E não temos de nos sentir agradecidas. mamãe. Isabel. querida. tinha os meios para despejar sobre ela toda a sua ira. reencontrado Lorenzo. Chandler. Mudou muito. Já tinha sido difícil convencê-la de que vender imediatamente não era a melhor alternativa. — Só precisamos acertar algumas condições. — Ele se tornou insensível e cruel. querida. CAPITULO IV Que bom para você. apesar dos débeis protestos da sra. A luz dourada infiltrava-se por entre as árvores do jardim bem-cuidado. — Seria . — Nem imagino onde ele esteja. Isabel olhou para a mãe e respondeu. ambas conheciam Lorenzo. — Quatro anos não é da noite para o dia — Isabel levantou. Pratos limpos. Chandler prosseguiu. isso tinha ficado claro no escritório do sr. — Acho que você está exagerando um pouco. A mãe sorriu. sentia por todos os poros a presença dele na cadeira ao lado. E agora. Por isso minhas reservas em negociar com ele. Não queria prolongar a conversa mas também não sabia como encerrá-la. seria falta de cortesia. Mas Isabel não sorriu. começou a lavar os pratos. mudar o estilo de vida. — Não? — o sr.dois sem notar nada estranho na atmosfera. — Qual é o problema? — Não vou vender — Isabel respondeu. Clark. esperou a água esquentar. cruzando as pernas elegantemente. — Pronto. curiosa. Café? — Serviu café em duas xícaras e foram para a sala. Nos últimos meses uma profunda letargia a tinha impedido de qualquer atividade. — Sua teoria não vale para Lorenzo Cicolla — Isabel respondeu. não é? — a sra. Isabel abriu a torneira. A mãe levantou para ajudar. Lá fora. Ele a detestava. mas nas duas últimas semanas já começava a mudar de comportamento. Isabel não estava nada disposta a discutir aquele assunto. Fazia cerca de uma semana que ela tinha. Pelo menos. por que você tem de encontrá-lo? — Isabel replicou. Isabel não precisava olhar na cara dele para ver a confiança que ele mostrava. — O que aconteceu entre vocês lá no escritório do sr. Embora não olhasse para Lorenzo. Não fazê-lo. Isabel tinha contratado um jardineiro. tão diplomaticamente quanto podia: —Ele mudou. — Ainda não — Lorenzo sentou na cadeira em frente. teria guerra. — Querida. Podem enriquecer. — Ela vai acabar vendendo — Lorenzo disse. Além disso. Tanta água tinha rolado sob a ponte que até a paisagem tinha mudado. divertida.

— Não. esperando que aquilo fizesse a mãe mudar de assunto. Um jantar simples. Sua mãe tinha razão. — Procurá-lo? Eu? Depois de tudo o que lhe contei? — Sim. mas desde o início ele tinha deixado sua hostilidade bem clara. — Por que não? — a sra. talvez ligar para onde ele menos provavelmente pudesse estar. Se você não se importa. Ou melhor. Acho que eu gostaria de discutir com ele os obstáculos à venda da empresa. Isabel passou os dois dias seguintes imaginando se devia fingir ter esquecido o assunto Lorenzo Cicolla. olhando ao redor. . havia muitas perguntas que ela gostaria de lhe fazer. acho que já vou indo. levou para a cozinha. querida. Isabel suspirou. — Isabel nunca admitiria. depois do trabalho. — Como eu poderia saber se você não estava por perto? — Andou procurando por mim. — Talvez você devesse procurá-lo para saber o que houve — a mãe sugeriu. Isabel só olhava. Provavelmente resolveu se afastar por não ter conseguido o que pretendia na primeira tentativa. Depois. Porque você gostava muito dele. — Aproximou-se de Isabel. Isabel levantou. mangas arregaça das apesar do friozinho da tarde. — Acho que nunca mais vou fazer aquilo. — Jantar? — Isabel mal podia respirar. Mas não precisou fazer nada porque trombou com ele por acaso quando ia para casa de bicicleta. Aquele maldito convite para jantar ia ter de esperar. E porque eu me lembro dele como um garoto e gostaria de ver como ele está agora. claro. — Sabe. — suspirou. recolheu as xícaras vazias. olhando para ela. A deliciosa atração sexual que ele costumava exercer sobre ela anos atrás agora tinha virado apreensão e intranquilidade.. Estou certa de que poderemos chegar a um acordo. Na verdade. Maldito Lorenzo Cicolla. Agora ela não tinha escolha. Muita gente por aqui. Isabel pensou. — Bem. mas ao longo da última semana tinha mesmo estado esperando que ele aparecesse. mas ela agora não tinha nenhuma vontade de esticar a conversa. Você tem algo contra? Acho que seria simpático convidá-lo para jantar. — Apenas não vejo motivo para tanto alvoroço em torno de Lorenzo Cicolla. as decisões sobre a empresa precisavam de sua aprovação. Nós duas podemos cuidar de tudo. saindo do Jaguar. beijou a filha no alto da cabeça. você está sendo indelicada. foi fechada e obrigada a desmontar. Bebeu o café rapidamente. Isabel observava enquanto a mãe ia lentamente em di-reção à porta. — Não. esparramou-se no sofá. Chandler levantou.estranho deixar de vê-lo quando ele está pensando em comprar a empresa.. simulando sono. Quando ela sumiu de vista. Afinal. — Suspirou outra vez. Lorenzo não voltou para o carro. Me avise quando será o jantar. Você sabia que eu voltaria. Estava de calça escura e camisa branca. disse: —Você tem razão. se devia simular algum esforço para encontrá-lo. — Que surpresa. — Sorriu pensativa. ele não é amigo da família? — Não — Isabel recostou-se na poltrona. E a sensualidade que ele exalava por todos os poros. — Achei que era você — ele disse. Que talento para interpretar um comentário inocente. E deu de ombros. não estou — Isabel respondeu. — Não deve ser difícil encontrá-lo. Isabel? Muito lisonjeiro. mãos grudadas no guidão. nunca vou esquecer as festas maravilhosas que seu pai e eu costumávamos dar. Tinha de convidá-lo para jantar. tem muita gente por aqui e preciso ir para casa. O pessoal está saindo do trabalho. Eu achava que você tinha desistido de voltar aqui agora que não tem mais motivos para ficar —Isabel tentava ignorar o coração batendo mais forte. Ficou onde estava. E Lorenzo sempre foi tão encantador. Mas será bom ver uma cara diferente. — Acho que já vou subir. ou se devia simplesmente concordar com o que a mãe sugeria. antes de responder: — Bem. não achava. talvez ele reapareça. Só porque ele resolveu voltar a esta cidadezinha? Ou por que acha que vai comprar a Chandler e mandar na gente? — Não. — Isabel. Todos os vizinhos.

— Vá para o inferno. E. Lorenzo — Isabel mentiu. Ambos sabemos que você se vendeu pelo maior lance. segurando o guidão tão forte que seus dedos doíam. — Podemos ir a outro lugar. Tom. — Venha comigo. querida? — Não ligo a mínima para o que você diz ou faz — Isabel respondeu rapidamente. Eu o tratei cordialmente. sorriu para Isabel. — O que acha que está fazendo? — ela perguntou furiosa. — Não vou segurar você aqui. Tom respondeu rapidamente. — Estes confrontos não vão levar a nada. o dono. — Sam Wilkins morreu faz dois anos — Isabel disse. claro — olhou para os dois —.. — Deixe de tanto recato. Não é mais fácil vir comigo? — Para quê? Para ser insultada? — Como posso insultá-la se você é tão indiferente a mim? Ponto para Lorenzo. — Compreendo. mas você nem tanto. — Não vou a parte alguma.. O contato das mãos dele foi como uma descarga elétrica. olhando naqueles olhos e aumentando o próprio desconforto. — Que planos? — Não é da sua conta. Apenas perguntou pela mulher dele e as crianças. Mas dedicou mais atenção a Lorenzo. Lorenzo? Não temos mais nada a discutir sobre a empresa de meu pai. Pretende ficar muito tempo por aqui? — Só o suficiente — Lorenzo respondeu. — O que é que você quer. com a morte de Jeremy. a tirou da bicicleta. Lorenzo — ela devolveu. Não queria boatos se espalhando pela cidade. Lorenzo abraçou sua cintura e. Isabel estava cada vez mais perturbada. Você me detesta e compreendo que. Havia pouca gente lá.. Mas não disse. — A qualquer momento um dos transeuntes vai parar e perguntar se está tudo bem. Quando ele se voltou. — E você ficou chateada. — Já chega. — Você é muito compreensiva — Lorenzo segurou o braço dela. enquanto servia as bebidas. antes que ela pudesse reagir.. — Há quanto tempo. — Por que não vamos até aquele café? — Para quê? — Ora. E prosseguiu: — Esta cidade está mesmo precisando de sangue novo. A serenidade estava de volta. — Mas não pretendo ficar aqui contando quem morreu ou não morreu. isso é maneira de dois velhos amigos se tratarem? — Aquele café está fechado — Isabel informou. Tom — Isabel interrompeu. Quero falar com você. — Lorenzo sorriu.. — Nossa conversa amigável vai ter de ficar para outra vez. Tom — Lorenzo sugeriu. Em voz baixa. Isabel — ele disse. — ele disse. Minha resposta continua a mesma — Isabel começou a se afastar. Isabel o seguiu. achando tudo muito engraçado. tremendo da cabeça aos pés. Isabel pensou. E não tenho nada a lhe dizer.. — Ambos sabemos que você não é uma garota ingénua. . — Com a morte de Jeremy. filho de Sam Wilkins. Isabel se afastou dele. O barzinho não era longe. forçando-a a parar. Lorenzo riu. — Tenho outros planos para esta noite.. mas ele agarrou o guidão da bicicleta.E trancou a porta do carro. como se não quisesse mudar de assunto. Você deixou tudo muito claro na última vez que conversamos. — Aquele barzinho do velho Wilkins ainda existe? — Lorenzo mudou de expressão.. fazendo-a lembrar de como tinha se sentido quando ele a tocou naquele escritório. — Ouvi dizer que você vai assumir a Chandlers. "O suficiente para fazer da minha vida um inferno". — Continue.

— Você continua tão atraente como sempre foi.. — Você logo se cansaria disso. E ainda quero você. afetava todos os seus sentidos. Lorenzo se aproximou.. — Mas isso não é da sua conta. Isabel. levou o copo aos lábios. por enquanto. Mais uma bebida? Isabel sacudiu a cabeça. Isabel recobrou a serenidade. — Uma reorganização -— Lorenzo prosseguiu. — E vou assumi-la conforme as minhas condições. afinal. Isabel sentiu uma sensação estranha por todo o corpo. especialmente porque sabia que Lorenzo a observava. — Por que você não me esquece? Fique com a empresa. O dia inteiro. observando-a com uma quase insolência. —Vou levar isso em conta quando decidir transformá-la numa instituição de caridade — ele respondeu. Você pode achar que pode tudo. — Já o que. — Tom deu de ombros — mulheres não foram feitas para viver sozinhas. Tom — Isabel interveio rápido. — A sinceridade dele contrasta com a hipocrisia que vina cidade grande nos últimos quatro anos.. Mas está enganado! —Pretendo dinamizar o negócio. Mas me deixe em paz! — Não — Lorenzo a soltou. os empregos que vão sumir não têm nenhuma importância — Isabel respirou fundo. — Quando tomo uma decisão. não há o que me faça mudar de ideia. —Claro. começando a se sentir meio embaraçada. Na verdade. Isabel? Fale! — Não tenho nada a dizer. Pegaram as bebidas e foram para uma das mesas redondas perto da lareira. Mas Lorenzo apenas olhou e respondeu em voz baixa: — Então você reconhece que vou mesmo voltar para cá? —Não reconheço nada — Isabel respondeu.. —Santo Deus. Lorenzo ergueu as sobrancelhas. você sabe algo sobre os negócios de seu pai? — Não! — Nada? — Nada — ela repetiu. — Você me traiu e quero saber por quê! Aquela proximidade era perigosa. meio sem jeito. — Vou. Isabel — ele interrompeu. — Que ideia mais antiga. Eu vendo. confusa. — Você sabe algo sobre os negócios de seu pai? — Já lhe disse que você não vai assumir. — Tom Wilkins continua com a mesma língua comprida — Isabel comentou. se ficasse por aqui —Isabel disse.. O que é que você fez com si mesma durante estes quatro anos? —Trabalho num hospital.. achei que você podia estar interessada no que planejei para a empresa de seu pai. Eu já. a empresa precisa encolher. o que é que você tem para me dizer? — Isabel perguntou. ou andou estudando psicologia nas horas vagas? — Muito engraçado. inclinando-se para a frente. sentando... — Algumas daquelas pessoas trabalham na empresa há muitos anos. alguns nada lucrativos. — Isabel parou. que vou concordar com suas condições ridículas. Mas. Desviou o olhar. O que pareceu fazê-lo prolongar ainda mais o silêncio. — É o que você gostaria que acontecesse. furiosa com tanta arrogância. . olhando no relógio de pulso. Atualmente aquela empresa parece um polvo. — Mas. observando-a por sobre a borda... E isso também não é da sua conta — ela respondeu. — Esses tentáculos significam empregos. com tentáculos por toda parte.— Bem. Lorenzo. Segurando seu queixo. O que pretende fazer com elas quando seu grande projeto de dinamização estiver em andamento? Um discurso sobre recessão? Aquilo devia deixá-lo furioso. cruzando as pernas e olhando para Lorenzo. — disse. Lorenzo recostou na cadeira. — Você não vai assumir a empresa de meu pai. —Menti quando disse que podia resistir a você — Lorenzo declarou. rouca. sensual. A voz de Lorenzo. — Na verdade. era o que ela pretendia. corando ao perceber que tinha sido envolvida pela argumentação dele. forçou-a a olhar nos olhos dele. assustada. Custou algum esforço responder: —Desista. Agora responda. Com grande esforço.

— É verdade.. — Mas só desta vez. Só tem um nesta cidade. — E quanto à fidelidade? Amor? — Desde quando a falta de amor inibe suas atitudes? Isabel sentia a boca seca. — Mais perguntas? Tem certeza de que vai lembrar de tudo? — Lembrar? — Você não demitiria ninguém. Além disso. Qualquer coisa era melhor que aquela agressão a seus sentidos. — Todos os que já não fazem nenhuma falta lá. Mas ele não perceberia nada na sua expressão. — É o que você acha? — Preciso ir — Isabel levantou. talvez ela pudesse aproveitar uma ou duas dessas ideias. Fazia sentido.Silêncio. — Por quê? Por que casamento? — Porque tocar a empresa de seu pai não vai ser um passatempo para mim. É um equívoco achar que a maioria das pessoas gosta de passar a vida trabalhando num escritório.. — Você o quê? — Investiguei — ele repetiu tranquilamente. —E quem você convidaria a se aposentar? Hipoteticamente falando. Investiguei você antes de voltar para cá. — Greg Thompson — Isabel murmurou. Isabel.. e vou conseguir o que quero. — Você não tem a menor intenção de ser fiel. O que agora se mostrava bastante útil. Já não importava que ele falasse de ideias que nunca viriam a ser colocadas em prática.. que vai significar aposentadoria precoce para alguns dos funcionários mais antigos. — Você disse que trabalhava num hospital. — Já disse. E nesta cidadezinha respeitabilidade é essencial. — Alguém de capa e binóculo? — Quase. — Tenho um excelente pacote de benefícios. Isabel olhou surpresa. — Quero você. Pedi a Clark para descobrir o que eu queria saber sobre você e sua família. Pode ficar com a empresa. — Claro que não. Estarrecida ao vê-lo disposto a tudo para perpetrar sua vingança. — Mandou um detetive me seguir? — Tom Wilkins vai começar a se interessar pela nossa conversa se ficarmos parados aqui. Mas pretendo me estabelecer aqui. — estava evidente que fidelidade não significaria nada para ele. Casamento é um prémio para você. Ronnie MacGraw. Ele não a amava. Lorenzo a observava. mas casaria com ela porque sabia que isso era o que ela menos queria. Vic Richards. durante o qual Isabel parecia ouvir o próprio sangue correndo nas veias. Ronnie MacGraw. Lorenzo levantou também. Qualquer mudança de assunto seria bem-vinda. Claro que eles terão todo o apoio para continuar tocando a vida. Tenho outros negócios. — Não que isso tenha muita importância. — Lorenzo sorriu. — Você é parte do acordo.. . — Vic Richards. Esqueça. — Que tal trabalhar com Adams? — ele perguntou casualmente enquanto iam na direção da porta. Todos vão aceitar. nas horas vagas? Isabel corou. Um silêncio tenso. Que pena ela não ter um caderninho. embora tenha homens capazes de cuidar deles na minha ausência. Talvez tentando aferir aquele súbito interesse num assunto que minutos atrás ela nem queria discutir. — Sobre seus planos. Você teria concordado em ser minha mulher. —Greg Thompson. Viver com Jeremy a tinha feito aprender a dissimular suas emoções. —E como sabe disso? —Experiência. E Isabel pensou em jogar o resto da bebida na cara dele. — Quanto à fidelidade? — O que você acha? — Entendo. Podiam ser úteis caso um dia tivesse de resolver o assunto por si mesma.. Vou ter de viajar... claro. — Já sabia onde você trabalhava e para quem. Isabel. Isabel pensou. Sou o único que pode fazer isso. o que faria com as pessoas que dispensasse? — Vou deixar você mudar de assunto desta vez — ele disse.

impaciente. a sorte não estava do lado dela. Tão logo o carro parou em frente à casa. Tem presença. —Na verdade. — Não que isso seja da sua conta. Seguiam lado a lado. Uns tapas era o que ele mereceria. é? — Lorenzo perguntou. — Você pode achar o que quiser — Isabel respondeu. Isabel saiu. —Não. A conversa ali na porta já durava mais de cinco minutos. —Ah. Lorenzo. quando falavam sobre tudo. O homem mais sensual que ela já tinha conhecido. Jeremy era assim tão ruim de cama? Ou você achou que depois de conseguir o que queria não precisava mais fingir que sentia algo por ele? Ou dormia com os dois ao mesmo tempo? Se me lembro bem. —Adams não é casado. Lorenzo desceu também. observando divertido a expressão tensa de Isabel. Isabel desceu. Isabel procurava manter entre eles uma distância segura... Embora tenha feito a travessura de não me avisar. Isabel pensava.quatro anos. Bem diferente de alguns anos atrás. Abigail certa vez lhe disse que achava Lorenzo o máximo. apenas seguiu a seu lado até chegarem ao carro. estava curioso. riam. — É a coisa mais desprezível que já ouvi em toda a minha vida. — Preciso ir. Nem precisa abrir a boca para ser notado. —Aceito — ele respondeu. — Suponho que minha filha tenha convidado você para jantar. quando então a deteve e disse. trabalhar com um homem solteiro e atraente. —Lorenzo! Que bom ver você. Pergunte a seu espião. claro. sem pressa. pois a mãe logo abriu a porta. não é? CAPITULO V Percorreram o curto trajeto em silêncio. — A mãe riu. Quando os silêncios entre eles eram tão calorosos. — Você não tinha o direito! — Achei que tinha. — Esqueci — Isabel disse prontamente.. —Compreendo. —Vocês têm um caso? — Lorenzo segurou o guidão da bicicleta. Embora com certeza ande muito ocupado para aceitar o convite. Afinal. também estava curioso. —Se fosse ator. — Não antes de responder minhas perguntas. Lorenzo não impediu. Decididamente. — Tudo o que tenha a ver com você é da minha conta — Lorenzo disse. Isso justifica tudo. — Então você deve ter vivido uma vidinha bem reclusa nestes últimos . — Mas você está convidado para jantar qualquer dia desses. empurrando a bicicleta. Isabel arriscou um olhar. mas isso não seria prudente num lugar público como aquele. Isabel esperava. ele faria o maior sucesso — Abigail tinha comentado.. logo farei parte da família. Lorenzo — ela disse sem olhar para ele. fogosa. — Por quê? — Quero ver sua mãe. planejavam. um casamento aberto. mas não disse. Lorenzo segurou seu braço. não convidou — Lorenzo respondeu. Por que ele não ficou onde estava?. avançando dois passos e bloqueando a entrada. cumprimentou-o com grande entusiasmo. Além disso. — Eo que Jeremy achava disso? —Não vou responder a essa pergunta. sem olhar para ela. Por que não fez a gentileza de permanecer apenas uma lembrança? Por que tinha de trazer sua imponente presença de volta à vida dela? —Que bom para você. —Como ele está? Ainda parece uma girafa? —Tornou-se um homem muito atraente — Isabel respondeu. — Temos um excelente relacionamento — ia dizer profissional. Ao ver Lorenzo. com a mesma cortesia que já não a enganava: — Vou levar você em casa. devagar. você sempre foi tão. Vou gastar muito dinheiro comprando a empresa de seu pai. —Sim — Isabel concordou. — Ele tem um porte imponente.

que tentava dissimular a raiva. E legumes do nosso jardim. Lorenzo. no seu casa mento. Se eu assumir a empresa sem o respaldo de sua filha. A mãe estava encantada com sua presença. cética. E o humor de Isabel piorou um pouco mais. quando se interessa por uma empresa. ouvindo a conversa de duas pessoas que realmente gostavam uma da outra. sra. Vão começar a imaginar que vocês a venderam contra a vontade. Você compreende. Afinal.. por isso vou direto ao assunto. envolvidos até certo ponto. — Bem — a sra. Quanto tempo você acha que demoraria para o bar começar a perder fregueses? Quanto tempo demoraria para fechar as portas? A sra. sem pressa: — Acho que numa cidadezinha como esta é indispensável que eu tenha todo o respaldo dos membros da família. tão compreensivo. aquela empresa sempre foi a grande paixão de David. — São apenas diplomáticos. Há um permanente processo de simbiose no trabalho. — Muito. Lorenzo sacudiu a cabeça. e prosseguiu. mamãe — Isabel disse. Chandler assentia. interessado apenas em lucros. curioso. — Isabel? Lorenzo olhou para Isabel. os comentários não vão demorar. — Estou de pleno acordo com a venda — Isabel murmurou. E a suspeitar de mim como pessoa. Sua mãe tinha razão. — Seu pai era franco. nos sacrifícios feitos antes de poder aproveitar a vida. Pensou em Jeremy. sra. Clark nos comunicou que teríamos de vendê-la fiquei chocada. dirigindo à filha um olhar de censura —. que não se preocupe com o retorno do investimento. Mas todos aqui sabem que Isabel e eu nos conhecemos. tentando imaginar quanta sinceridade haveria naquele ar solidário. Exceto que. — O preço não é problema. Isabel atrás. — Como já disse a Isabel — a sra. — Vou gostar muito — Lorenzo sorriu ao passar por Isabel. parecendo concordar. Chandler. que bom — ela murmurou com um sorriso doce. Chandler.. Imagine o que aconteceria se Tom Wilkins vendesse seu bar a alguém que não fosse aceito pela comunidade. — Eu compreendo — ele murmurou. Foram para a sala. — Imagino que você seja sempre assim. não vejo nenhum problema. Por favor. Tornou a enchê-lo. Como políticos e vendedores. você disse que esperava franqueza. nos conhecemos há tanto tempo. — Você não acha que está exagerando? — Isabel perguntou. pois não tinha culpa de coisa alguma. Talvez isso importasse menos se eu fosse um estranho. parecendo mesmo feliz. Numa cidade como esta não. — E o que uma coisa tem a ver com outra? — Isabel perguntou rispidamente. — E mesmo? — Isabel disse com ar inocente. — Fiquei feliz quando Isabel me disse quem estava interessado na Chandlers — a mãe prosseguiu. numa análise mais cuidadosa.que não hoje? — a sra. Recostou no sofá. vindo não se sabe de onde. Ele acabaria percebendo isso por si mesmo. — Numa cidade grande é possível ser anónimo. mas senticerta falta de cooperação de sua filha. percebendo a armadilha e tentando escapar. Engoliu rapidamente o copo de vinho. e muitos sabem que estivemos. talvez você conclua que a empresa não vale o preço estabelecido. seja franco conosco. Isso prejudicaria os negócios.. E tentando imaginar uma desculpa que pudesse poupá-la do que prometia ser uma noite longa e desconfortável. Chandler interveio rapidamente. — Tem um assado no forno. — Oh. Afinal. — Quando o sr. Seria muito desagradável vê-la nas mãos de um estranho. podemos acabar logo com a parte desagradável deste encontro? Lorenzo ergueu as sobrancelhas. Este negócio já podia ter sido fechado há uma semana. Chandler perguntou por sobre o ombro da filha. Lorenzo assentiu. Lorenzo Cicolla tinha mesmo muito charme. Isabel olhou para ele. E sabia usá-lo. sentindo-se culpada. e furiosa por sentir-se assim. — Por . Seria impossível operar com êxito num ambiente hostil. Chandler sempre foi um nome respeitável nesta cidade. — Tenho procurado sempre ser justo. — Homens de negócios nunca são francos. Mas tê-la encantado seria inútil. Isabel não respondeu. Chandler disse depois de servir a todos uma bebida —.

começando a sentir a cabeça girar. — E se eu lhe contasse que você quer minha cooperação por motivos que não têm nada a ver com a empresa? — Ela provavelmente não acreditaria em você. — Ouvi dizer que a América do Norte é um lugar muito competitivo. Vou cuidar da comida e deixar vocês dois à vontade para discutir o assunto.Era culpa dela ele ter voltado ali apenas para se vingar? — Você não tem mostrado muito entusiasmo. Isabel olhou nos olhos dele. Claro que isso tinha sido muito tempo atrás. É mesmo? . Tem uma mente suficientemente diabólica. — Lorenzo sorriu. — yocê sabia que ele tem várias empresas. parecendo desapontado. querida — a sra. — É verdade — a sra. mas estou certa de que você vai achar que foi. antes de ela descobrir que o detestava. Lorenzo. ou porque bebeu demais? — Não bebi demais. — O que acha que ela diria se eu lhe contasse a verdade? Se lhe dissesse que você pretendia pôr uma aliança no meu dedo? — Quem sabe? Talvez até gostasse da ideia. Lorenzo! — Sua mãe disse que queria franqueza. mas estava mesmo meio alta e não conseguia reunir forças para discutir. — Isso deve ter sido bem difícil — a sra. mas contendo-se para não rir. — Não tenho de admitir nada! — Sua mãe concorda comigo. — Ela foi iludida por aquele seu discurso — Isabel murmurou. voltando-se para Lorenzo. — Você e mamãe têm ideias bem diferentes sobre o que seja cooperação — Isabel ironizou. estou muito impressionada. E não vou casar com você — Isabel deveria estar furiosa. Chandler concordou. Isabel levantou. — Você e papai detestavam sair da Inglaterra. — Nem um pouco — Lorenzo murmurou. — Estou tonta. podia ouvir a mãe rindo. de jeans e um blusão verde. Sempre quis ir até lá. Como pôde pôr minha mãe contra mim? — Eu só disse que precisava de sua cooperação. tentando não se afastar do trajeto. goste ou não da ideia. enquanto tentava formular uma resposta bem mordaz para aquele comentário. — Detesto gente que conta os copos das outras pessoas. — Três copos. Vinho demais. traçou mentalmente uma linha reta pela sala e seguiu por ela. Nas poucas vezes em que foram à Europa.. Claro que não ia ceder. Isabel pensou em dizer. voltaram para casa parecendo exaustos. Faria isso no momento oportuno. sob a água morna. espero que você pense seriamente no assunto. você é detestável.. — Você. Lorenzo estava me contando sobre os Estados Unidos. Quando começou a descer a escada. querida? — É mesmo? Puxa. encantada com a companhia de Lorenzo. — E você tem de admitir que tudo o que eu disse fazia sentido. — Porque se deu conta de que vai casar comigo. Só precisava encontrar uma maneira de detê-lo sem desagradar a mãe. A mãe. não quis — Isabel disse. comentou: — Chega de falar de negócios por hoje. Afinal. tentava ordenar as ideias. pensando em tomar um último copo de vinho. — Não. — Você devia ter estudado direito. — Querida — a sra. Lá em cima. Inútil. Chandler levantou —. disse que precisava mudar de roupa. quinze minutos depois. para acalmar os nervos. — Pobrezinha — Lorenzo murmurou. Talvez devesse ter acalmado os nervos com água mineral ou suco de laranja. Isabel voltou a encher o copo. Chandler comentou. a noite estava quase no fim e ela se sentia bem melhor depois daquele banho. podia fazer qualquer coisa parecer interessante. Ela quase nunca bebia. Quando a mãe voltou e disse que o jantar logo estaria pronto. Ambos olharam quando Isabel chegou à sala. E faça tudo o que puder para convencer Lorenzo de que ele tem todo o seu respaldo. Chandler comentou. — Mas Lorenzo faz a América parecer tão interessante. — Isso foi um elogio? — Não. ainda sorrindo.

Rápido como um gato. Isabel corou. — Fui para os Estados Unidos em busca de sucesso. olhando para baixo. Fique aqui com Lorenzo. — Espero que você fique mesmo com a empresa de David. Isabel. — Nem pensar. O marido também tinha sido assim. vou cuidar da comida. — Morava num lugar pavoroso — Lorenzo prosseguiu. — Você pode achar que vim aqui só para aborrecê-la. Isabel olhava para os traços de seu rosto. — Antevendo o dia em que voltaria aqui. impedindo-a de se afastar. não é? — Isabel perguntou. — Assim é melhor — ele disse. com menos mordacidade do que pretendia. tentando não demonstrar como aquela proximidade a incomodava. eu trabalhava como um louco. o escritório era um palácio. olhando para a filha. Chandler levantou. mamãe. ansiosa por alguma contribuição à conversa. querida? Claro. deve ter conseguido resolvê-lo. — Nem um pouco. muito pequena. — Você gosta mesmo de dar ordens. Lorenzo olhou para Isabel. — Bastante. A sra. Isabel. furiosa. Era tudo o que eu pretendia trazer na bagagem quando voltasse. tensa porque sabia que ele continuava olhando. — Está se divertindo com meu desconforto. — Ele sabia que havia problemas na administração. Chandler riu também. — Como está a doença dela? — ele perguntou. — Por quê? — Lorenzo perguntou. sério. achando de repente aquela sala muito quente. —Riu. — Surpresa você ainda lembrar disso — comentou. — E lembrem-se. Quando ele decidia ser charmoso. Começou a andar pela sala. pelo menos em frente à mãe. — Também acho — Isabel interveio. Isabel — Lorenzo respondeu. Ele nunca me disse por que.Durante o primeiro ano lá. Sei que assim ela estará em boas mãos — voltou-se para Isabel.ele respondeu. — Deve ter sido horrível — a sra. Faz tanto tempo que vocês não se vêem. prestativa. Lorenzo segurou seu pulso e a puxou para baixo. não havia quem resistisse. Lorenzo? — Isabel se aproximou. — Como foi que você conseguiu suportar? — Ela já sabia como agir. Chandler saiu da sala. — Pare com isso. — Bastante. Estou certa de que Lorenzo vai aumentar a produtividade por lá. mas na verdade eu queria ver sua mãe — Lorenzo disse. muito menos membros do sexo oposto. nada de falar de negócios. Ou era imaginação dela? — Não pense que vai conseguir o que quer só porque não estou discutindo com você — ela advertiu. hein. aveludada. parecendo realmente interessado. — Dormindo duas horas por noite durante anos a fio. acho que dormia duas horas por noite. O mesmo riso contagiante de anos atrás. fosse qual fosse o problema. querida. não poderia ser responsabilizada se o negócio fracassasse. — Não. Parecendo cooperativa. Lorenzo riu. sentando-a no braço da poltrona. — Perto dele. Quatro sempre foi o seu limite. Mas a mãe não permitiu. — Você está gostando disso. Parou perto da poltrona onde ele estava. Era a deixa para Isabel se prontificar a cuidar de tudo. Isabel corou e terminou de beber. mas. — Sempre gostei de olhar para você —. Chandler comentou. Era algo que ela conhecia bem. — Chamo isso de tenacidade — a sra. — A sra. há muitos anos. Isabel se voltou. — Uma situação embaraçosa. Só o vi tão preocupado uma única vez antes. que nunca soube disso. . — David andava preocupado com a empresa desde bem antes de morrer — a mãe disse. — Vai ficar se terminar esse copo. Isabel pensava. Tão logo a sra. quase caiu no colo dele. Chamo vocês quando estiver na mesa. — Bem. para surpresa de Isabel. claro. — Você não acha. ainda segurando seu pulso. — Olhou para Lorenzo com ternura. Levantou. — Ainda está tonta? — perguntou. Chandler comentou. voz profunda. mas era contra demitir velhos amigos.

— Quando você casou — murmurou —. Será que ele estava com ciúme? Pensar nisso lhe causou certo prazer. — Poderíamos lhe contar que pretendo me tornar genrodela. — Bem. — Sua mãe sempre foi uma mulher forte. Seria apenas porque um homem na vida dela reduziria sua vulnerabilidade. Lorenzo. Ansiosa para voltar para cá — Lorenzocruzou as pernas. uma resposta começava a tomar forma. tão cuidadosamente quanto podia—teria um ataque cardíaco se entrasse aqui agora e visse a gente assim. Mas ela está na cozinha cuidando do jantar — Lorenzo respondeu. Isabel desabou no colo dele.nunca mais voltaria à realidade. Isabel. Por isso mantinha os olhos bem abertos. mas paecia não ouvir nada. O outro sobre as coxas. E apertou seu pulso um pouco mais. Puxou-a nasua direção. Deve ficar lá uns dois meses. Lorenzo também ignorou o que ela dizia. o solteiro e atraente dr. numa posição em que pudesse machucála como ela o tinha machucado quatro anos atrás. — Além disso. Mas o que importava o que ele sentisse por ela? Isabel olhava para o rosto dele e. se fechasse os olhos. — E sua mãe. E ele a queria vulnerável. — Lorenzo tocou seu seio. — Não quer? — ele sussurrou. O fato de seu corpo querer responder àquelas carícias era apenas algo tempoário. Tudo culpa daquele último copo. Era o vinho. traiçoeira. Adams. Ela precisava r reagir. Lorenzo começou a brincar com seu mamilo. Não quero — sussurrou. — Não quero falar sobre ele nem m sobre meu casamento. — Lorenzo levantouo blusão. aquela proximidade lhe subiria à cabeça e. a descartou rapidamente. mas não tinha forças. claro. Começou a se debater. recostou na poltrona. os —Minha mãe — disse. — Mamãe ficou arrasada quando papai morreu. Isabel continuava se debatendo. Isabel estava sem sutiã. E ela sabia que. esforçando-se para falar nor almente. se não tomassecuidado. Sentia que. Ele estava muito perto. Foramtantos anos juntos e ela sempre foi tão dependente. Não terminamos de falar sobre ele. estou desconfortável nesta posição.— Ela tem sabido levar. Isabel sentiu a temperatura começar a subir. Cerrou os punhos. não seria por razões emocionais. — Não minta. expondo seus seios. quase enlouqueciimaginando você fazendo amor com ele. Isabel queria gritar. queria fugir. que infelizmente não durou muito. Será que ele estava ouvindo? Olhava para ela. não foi? Ele diz isso no horário de trabalho ou depois? Você anda saindo com ele? — Somos amigos — Isabel informou. como está? — Muito bem. — Distraidamente. uma chama esperandoser reacendida. mamilos endurecerem. Era sempre ele que cuidava de tudo.. — Você me quer tantoquanto quero você. tentando respirar normalmente.Braços e pernas pareciam pesar uma tonelada. Tinha decididopermanecer imóvel. Se cedesse. Sob o blusão. que provocava nela uma sensação estranha. lembrando que aquele homem não sentia porela nada além de raiva e antipatia. — Me largue — ela disse. — Seria muito demorado — Isabel se ajeitou no braço dapoltrona. Prefiro você aqui. — Preparar legumes e arrumar a mesa não demora tanto—Isabel disse. — Está na Itália agora. — Está? — Lorenzo sorriu maliciosamente. Queria lutar. — O que acha que está fazendo? Lorenzo tinha um braço ao redor de seu pescoço. mas seu corpo não atendia. Se estivesse. — Richard também sempre diz isso. — Não faça isso. ignorando a sugestão. — Ah.. Lorenzo estreitou o olhar. Inutilmente. posso voltar ao meu lugar agora? — Não. Isabel respirava curto. — Conte o que houve por aqui nestes quatro anos. começou a acariciar seu pulso com o polegar. O que a deixava ainda mais r confusa. nunca mais poderia encarar a si mesma. podia sentir os seios incharem. — Não — Isabel tentou escapar. porém. mas não podia. Levou os lábios . E não quero que você me toque. até eu ajeitar as coisas por aqui. Você está gostando. no fundo de sua mente.

a habilidade de dissimular o que sentia. Sempre teve. mais alto do que seria necessário — foram cultivados aqui mesmo. Precisosaber. No verão colhemos morangos. não é? — Sorriu. mortificada com o que tinha g acontecido. Lorenzo continuava olhando para ela. desde adolescente. voltando-se para Lorenzo. Era como se uma represa tivesse rompido. Ambos se voltaram imediatamente. e sensações reprimidas durante anos tivessem de repente vindo à tona. — Conte sobre ele. Atrás deles. e Isabel olhou para ela horrorizada. Na verdade. mas. O homem era um ator de primeira. evitando olhar para Lorenzo. ou se o entusiasmo tinha arrefecido tão logo ela o tinha repelido. Na verdade. E Lorenzo sorriu também. — Isabel quase não bebe. — Também temos verduras e tomates. enquanto falavam sobre coisa nenhuma. . Mas Isabel não achava a mesma coisa. querida? E a primeira vez que a vejo beber mais de um copo. olhando para a filha. cá entre nós... Jeremy está morto e o passado não pode mais as sombrá-la. — Raios. interrogando-a com o olhar ao aproximar a garrafa do copo dela. Pegou Lorenzo pelo braço. Não conseguia pensar. pensativa. olhar duro. talvez. corpo tenso. — Os legumes — Isabel disse. — Não. Isabel se afastou mais dois passos. Lorenzo. — Não há nada para contar — Isabel finalmente conse uiu reagir. seu pai e eu sempre esperamos. Ainda estava tonta. Isabel se sentiu na defensiva. mas gostava de um bom vinho. pondo comida no próprio prato. Isabel afastou-se dois passos. jamais diria que ele tinha em mente algo além de um jantar agradável e uma conversa cordial. que entregou a Lorenzo. Seu corpo insistia em não ouvir a voz da t razão. o vinho nada tinha a ver com aquilo. mas ela não estava inclinada a confirmar em que extensão. Mas Isabel interrompeu. Somos inimigos. — fez uma pausa. entretanto. imaginando o que ela ia dizer — sempre achamos que vocês dois. querida — a mãe disse. — a mãe começou a dizer. lembrava de inúmeras vezes em que ela e Lorenzo tinham consumido uma garrafa inteira. Isabel nunca tinha sido uma alcoólatra. Imediatamente. não é. sem nenhuma razão. que a abriu rápida e eficientemente. concentrando-se no próprio prato. pensava. Ele dizia desejá-la. obrigada — recusou.ao mamilo endurecido. — Mamãe ainda os cultiva lá no jardim — ela prosseguiu. ainda pensativa —. Seria impossível suportar a pena dele. O sorriso do vencedor. — Não leve a mal. E sabia que ele também lembrava. Um sorriso de triunfo. — Jeremy. Chandler tinha trazido uma garrafa de vinho da adega. — Gostava de beber de vez em quando? — Lorenzo su geriu.. trémula. visível apenas aos olhos de Isabel. — Bem mais que isso — a mãe confirmou. Quem o visse agora.. levantando-se da poltrona. ele satisfaria a ambos. — A mãe dizia enquanto Lorenzo servia o vinho. Por queacha que eu confiaria em você? Por que acha que eu lhe falaria sobre os últimos quatro anos? — Pode guardar seus segredinhos — Lorenzo respondeu. Mas o ódio era mais forte que o desejo. Ele parecia a ponto de dizer mais alguma coisa. Casando com ela.. Isabel ficou sem saber o que era porque a sra. — Conte — ele murmurou. amuada. digno de confiança. Claro que a mãe não via nenhum problema em comentá-los com Lorenzo. — Mamãe! Claro que Lorenzo sabia que seu casamento tinha sido um fracasso. Isabel pendurou um sorriso no rosto. A sra. Você não liga a mínima para mim. Isabel pensava. mas era inúil. convidando-o a falar mais sobre a América e o que tinha andado fazendo por lá. Chandler entrou na sala. Ele parecia lembrar de tudo. Isabel se perguntava se o corpo dele ainda palpitava como o dela. Isabel estremeceu. habilidade que com o passar dos anos tinha desenvolvido à perfeição. Era preciso impedir que a mãe começasse a falar sobre os porres de Jeremy. além do desprezo. como se esperando ouvir mais alguma coisa. Mas fosse o que fosse. Isabel — Lorenzo a soltou. — Tudo pronto. que bobagem a nossa.. um velho amigo. —A mãe parecia contente.. maiores à medida que o tempo passava..

O que gostaria de saber? — Nada. — Nem um pouco — Isabel encerrou o assunto e fechou a cara. enquanto fatiavam de legumes e verduras. Chandler comentou. Voltou a olhar para Isabel. Torta de maçã que tinha sobrado do dia anterior. rindo enquanto o vinho voltava a fazer efeito. Quer descobrir de outra fonte se entre ela e Richard existe algo mais do que ela disse. Isabel começou a relaxar. Ou seria só imaginação? Isabel despejou vinho no próprio copo. Lá não há mais mulheres que homens? — É mesmo? Eu não sabia — Lorenzo sorriu para a sra. Mas. —Você acha mesmo? — Lorenzo perguntou. Tinham acabado de comer. a eletricidade suspensa na atmosfera tinha evaporado. Esse era um assunto sobre o qual podiam trocar ideias e Isabel poderia falar durante horas. da qual Isabel não tomou conhecimento. —Difícil acreditar. mas Lorenzo insistiu em que ela fosse para a sala e relaxasse. — O chef não lava pratos — ele disse. Isabel parecia ver nos seus lábios um sorriso de satisfação. Estou certa de que algumas mulheres o achariam interessante — Isabel respondeu. a brilhante Abigail e sua brilhante carreira. —Seja como for. com um meio-sorriso divertido. depois de quatro anos. — Especialmente na América. não vou bisbilhotar sua vida particular. Quando queria. — Parece que tomei um tonel de vinho — Isabel disse. enquanto os velhos tempos não envolvessem lembranças de Lorenzo. tomando um gole de vinho e olhando para ele por sobre a borda do copo. ela foi logo dizendo. — Sinta-se à vontade. Você devia estar curiosa sobre mim. começando a lavar os pratos. — Deve estar esperando a mulher certa — a sra. — Estranho você nunca ter casado. ele sabia ser inofensivamente espirituoso. — Você gosta mesmo de trabalhar com ele. — Um modelo de homem — Lorenzo disse com certa frieza. a mãe nunca tinha feito nenhum comentário sobre tais devaneios. naquele lugar aconchegante. Ao fim da torta. não é. atencioso. Falar sobre os velhos tempos era seguro.CAPITULO VI Logo mudaram de assunto. levantando o olhar. Com ela. Chandler. A sra. — Por quê? — Porque é solteiro e. Espertinho. Lorenzo a tinha visto lá. —Claro. imagino. enquanto o vento do outono soprava lá fora. Abigail tinha se apresentado na Broadway. Chandler observava cuidadosamente. parecendo ofendido. — Isabel me disse que Richard Adams vai muito bem— Lorenzo comentou casualmente. como um adulto observando uma pequena rusga entre duas crianças. Ela tinha grande orgulho da amiga. Chandler confirmou entusiasmada. Chandler começou a tirar os pratos. compreensivo. A mãe trouxe a sobremesa. Por que tinha de fazê-lo agora? Na presença dele? Olhando de soslaio. um excelente partido. A sra. Isabel? — Bastante. olhando para Lorenzo de modo desafiador. Olhou para a filha. Lorenzo deu de ombros. como se esperava. Lorenzo — Isabel disse alegremente. Ele é brilhante. Chandler riu. E ela rapidamente aceitou a sugestão. Lorenzo — Isabel respondeu rapidamente. Começaram a falar sobre Abigail. A sra. usando todo o seu charme. Mas tinha certa expectativa no olhar. deixando os dois sozinhos na cozinha. Será que pensa mesmo que eles tinham um caso enquanto Jeremy era vivo? — Que jovem adorável — a sra. Era bom estar ali com ele. Isabel pensou. pela cabeça de Isabel rodopiavam as temerárias implicações dos comentários da mãe. — Estranho ainda não ter casado. Mas Isabel conhecia a mãe bastante bem para se deixar enganar por aquela expressão meiga. enquanto ele e Isabel cuidavam da cozinha. A cautela parecia . — Mas não sei se foi agradável ouvir que meu prestígio decorre de um excesso de mulheres.

Ela precisava tanto de conforto. Compreendia. Não há nada para falar. abalava suas estruturas. queria? Seria uma amizade impossível.. Não aqui.. Apenas a abraçou e trouxe mais perto. — Discordo — Lorenzo chegou mais perto. porque duas pessoas nunca poderiam ser realmente amigas sob uma tendência de desprezo e desconfiança. — Sinto falta de meu pai — ela sussurrou. — Por que não fala sobre isso? Isabel cerrou os olhos. — Você é bonita demais para ser comparada a uma ave de rapina. Isabel pegou três xícaras no armário. ciente de que ele a observava. Amigos. Não a costumeira reação de raiva. Lorenzo não disse nada.. Ninguém que a conhecesse bem esperava esse casamento. — Devia? Por quê? — Você se considera ornamental? — Considero o assunto impróprio para a ocasião. Abigail achou que você casou por que precisava. —Com que tipo de mulheres você acha que estive envolvido? — Nem imagino — Isabel mergulhou as mãos na pia. porque foi forçada. — Nunca me interessei por mulheres ornamentais. Afinal. tão rápido que sufocava. — Não sei se gostei da alegoria — Isabel riu. — Me faz parecer uma ave de rapina. — Isso significa que você não quer falar comigo sobre seu casamento. quando ela parasse e pensasse. que nunca tinha deixado de amar. Mas. Por outros motivos. reconhecia. O argumento. Isabel respirou fundo. não foi? — Por que diz isso? — Você nunca o amou. provavelmente. — Já disse. — Mulheres lindas. que ela amava tanto. provocando emoções que. ela não queria sua amizade. Era preciso raciocinar. afagando seu cabelo. E a nostalgia fazia sua parte. E percebeu que parte de sua tontura não se devia ao vinho. achando que havia algo perigosamente excitante naquela conversa. E se afastou. não teria de fazer muito esforço se soubesse o que ela ainda sentia por ele. Isabel — ele murmurou. — Quando foi que você falou com Abigail a meu respeito? . O coração batia rápido. No momento. contendo a repentina vontade de chorar. Você devia saber disso. — Parece que lhe fez muito bem — ele respondeu. Lorenzo não respondeu. ela tinha baixado a guarda. — Ou devemos falar sobre outra coisa. ela tinha jogado fora a oportunidade de ser feliz com ele. Lorenzo estava. de repente. Isabel se afastou e olhou bem para ele. Perceber que estava olhando para um homem que ainda amava. Era preciso redobrar a cautela. Segurou sua cintura com as duas mãos. Não com ele. Provavelmente ele também. Se Lorenzo queria machucá-la.ter desaparecido. Ele a detestava. — Neste caso. por que tanto segredo? — Por que você não esquece o que aconteceu? — Você foi forçada a casar com ele. Seu pai. Lorenzo largou o pano de prato. Aquela reação estúpida era fruto de circunstâncias incomuns. Isabel? Sobre Jeremy? — Não. Olhou nos seus olhos. Agora não tinha mais jeito. já não estava por perto. — Sobre o que gostaria de falar? Horticultura? Política? Vida sexual dos castores? Isabel olhou para as mãos dele. Jeremyjá não estava por perto. parecia inconsistente. entretanto. — Claro que imagina — ele sussurrou. — Agora você não parece estar afiando as garras. Isabel podia ouvir as batidas de seu coração ao recostar a cabeça no seu peito. Percebeu que seu coração sempre tinha pertencido a um único homem. Minha vida não interessa. perceberia que na verdade não existiam. Não há nada para falar. Mas. Ela sabia disso. — Sua vida tem sido assim tão horrível? A sensação era agradável. Por enquanto. ela pensou. — Você acha? — Isabel sabia que não devia estar tão feliz. Isabel I fechou os olhos. — Abigail? — Isabel se voltou rapidamente. — Oh. Isabel pensou.. ele também tinha tomado vinho. — Estou certa de que você esteve envolvido com mulheres mais bonitas. Ouviu Lorenzo suspirar. Continuava afagando seu cabelo.

não foi. pare! — Por quê? Por que deveria parar? Quero saber por que casou com ele. não é? Quatro anos depois. E sabe-se lá o que mais. Seus olhos fuzilavam. — Esquecer? — Lorenzo a segurou pelos ombros. é mesmo? Abigail nunca tinha mencionado tal encontro. As mãos tremiam. se perguntava como uma paixão podia virar tanto ódio. minha ex-amante. —Então por que acha que eu devia esquecer? — Porque não há razão para insistir no assunto. Dizer aquilo foi como agitar um pano vermelho na frente de um touro. Isabel riu. Tinha outras mulheres? —Lorenzo. — Quatro anos depois eu me tornei alguém interessante. —Tudo já passou — Isabel murmurou. — Já lhe ocorreu que talvez ela não tenha dito nada porque eu estivesse com outra mulher quando fomos jantar? — Compreendo. — Talvez ela achasse meio desagradável. Ele era um fanfarrão quando garoto. Você somou dois mais dois. Lorenzo a sacudiu como se ela fosse uma boneca de trapo. Isabel? Por que não admite? Talvez Abigail estivesse enganada. Estávamos falando do passado e alguém mencionou você. Mas ela deve ter achado que eu não estava interessada. — Você esqueceria? Se eu tivesse me afastado de você quando éramos amantes. — Você diria o mesmo se eu tivesse voltado aqui de mãos abanando? Sem dinheiro? — Claro. — Eu lhe disse que saí para jantar com Abigail. e nunca deixou de ser. — Você pode sair para jantar com quem quiser — Isabel disse. Bebia. faz suas deduções e. E não estava mesmo. — Esqueça. — Pare de fazer de conta que me conhece — ela respondeu. Isabel — Lorenzo disse asperamente. Foi isso? Você casou com ele porque queria alguém do mesmo nível social? E o fato de termos sido amantes não passava de uma inconveniência? — Você pode acreditar no que quiser. — Se você acha que estar casada com Jeremy era viver. — Dá para ver o que passa por essa sua cabecinha. estou surpresa por ela não ter me contado. o infalível Lorenzo Cicolla volta aqui. talvez você me quisesse fazer crer num motivo obscuro para casar com ele porque a verdade era muito sórdida. — Pare de agir como se pudesse ler meus pensamentos. claro. Estava evidente no dia do casamento. Por quê? O que teria havido entre eles que recomendava tanta discrição? — Pelo amor de Deus. Nem seus pais. em pânico. não é? —Não! . Ela não lhe contou. : — Não? Por que sua vida aqui estava tão completa? — Que bobagem — Isabel se voltou. O que pensava quando estava comigo? O que sentia quando fazíamos amor? Que era tudo muito divertido? Que eu não era suficientemente rico para você? Um pobre menino italiano. — Oh. — E tinham de ficar falando de mim? — Não estávamos falando de você. podia não gostar de ouvir. E Isabel desviou o olhar dos olhos dele. — Tudo bem. acerta na mosca. A mente estava cheia de imagens da melhor amiga na cama com Lorenzo Cicolla. E é uma grande bobagem. — Claro — Lorenzo ironizou. — Por que acharia isso? Eu tinha a minha própria vida aqui. você sorriria e esqueceria? —Acho que não — Isabel admitiu sem olhar para ele. filho de pais igualmente pobres. Por que isso mudaria? Você nunca ligou para ele. E deu seis. Isabel. Ou pelo menos tentou. — Você me usou. Talvez achasse que você.— Saímos para jantar depois de uma de suas apresentações. — E claro que você estaria certo. — Você não tem a mínima ideia de como vivíamos! — Não é difícil imaginar. — Você não o amava. E Isabel.

sorrindo. sociedade fechada. — Eu sabia que você não desistiria do assunto tão facilmente. Voltou-se. Com um simples comentário. Não é mesmo? — murmurou. O ciúme a consumia e isso era detestável. Isabel corou ainda mais. — Por que você não vai lá para a sala? — Enquanto você se recompõe? — Lorenzo ainda sorria. — Já lhe disse. — Você casaria comigo por simples vingança? Lorenzo continuava massageando seu mamilo. E vou ficar aqui. Vou ter você. mentalidade tacanha. — Jéssica é loira. — Lorenzo riu. Sua imaginação já tinha elevado a tal mulher de brilhante a genial. Sentir os dedos dele na nuca a deixava arrepiada. mas Lorenzo não precisava responder. mas isso não tinha importância. — Ah. morrendo de desejo. logo imaginou. Isabel. respondendo sua pergunta — Lorenzo prosseguiu —. a uma época em que a vida era cheia de otimismo. — E uma pena — ele murmurou. — Ela deve estar ansiosa pela sua volta — Isabel disse atrás dele. — Você tem de admitir que o casamento teria suas compensações — ele disse. torcendo para que ele se afastasse. — Também estou — ele respondeu. E vou ficar até — . —Como pode gostar disso? — Isabel perguntou. momentaneamente sem saber o que dizer. Correu para o canto da cozinha. — Você está louco — murmurou. — E por que fez isso? — ela alfinetou. embora não manifestasse nenhum interesse nos motivos. apertando seus ombros cada vez mais. Isabel quase o atropelou. No fim do dia deve estar cansada demais para fazer qualquer outra coisa. — Lorenzo parecia não ouvir o que ela dizia. Beijou seu pescoço. Acariciou-lhe á nuca. sentindo-o inchar e endurecer. sabia? — Claro. sem muita delicadeza. — O aeroporto está cheio de aviões para a América. fazendo a temperatura subir cada vez mais. voz rouca. Isabel foi atrás. —Por que voltou aqui então? — Você cometeu um erro achando que podia brincar comigo. Tenho negócios a resolver aqui. Está satisfeita? Lorenzo saiu na direção da porta. — Você parece mesmo excitada. Lorenzo sorriu. constatar que o otimismo era algo tão distante. Era preciso saber mais sobre a tal mulher. segurando-a em frente a si. do tipo que ocupava o pouco tempo livre perseguindo objetivos intelectuais elevadíssimos. entender profundamente de finanças. puxando-a de encontro a si. quis saber até de que lado do carro ficava o pneu que furou. — Mas. — Que bom que você está se divertindo — Isabel disse. — Você me quer tanto quanto quero você. as marcas estariam lá de manhã. Pegou a bandeja. Ela está sempre ocupada. Isabel pensava. Assim ela poderia pelo menos respirar. fiz fortuna.Cidadezinha pequena. Ninguém brinca comigo. linda. —Nunca vou casar com você. esfregando o mamilo com o polegar. Lorenzo parou de repente. —Inútil resistir. Também devia ser alta. ele a tinha feito voltar no tempo. Linda e inteligente. E doía voltar ao presente. Lembro de uma vez que cheguei tarde e você. Vou ter a empresa de seu pai e vou ter você. — O que pensaria — acrescentou — sua amiguinha se o visse agora? Ou a mulher que Abigail esqueceu de mencionar não passava de uma brincadeirinha? — Pensei que você não se interessasse por mim. Conheço-a bem. ter lindas pernas. trabalha muito. A bandeja começava a pesar. Só a tinham feito mais boboca. Isabel sentia o vigor de sua ereção. Então abraçou sua cintura. como um escudo. Fui para a América. Com certeza. Você não vai se livrar de mim. parecendo pensativo. — Estou surpresa por você ter se afastado de uma mulher tão dinâmica — Isabel respondeu. e minha contadora. A imaginação de Isabel trabalhava a todo o vapor. Ele não se interessava por mulheres ornamentais. não é? Isabel se afastou bruscamente. nem imagino. braços cruzados. — Sempre tive curiosidade sobre homens que querem dormir com duas mulheres ao mesmo tempo — ela retrucou. Quatro anos de experiência amarga não a tinham feito amadurecer. sorrindo — que este não seja um lugar muito apropriado para fazer amor.

Isabel não disse nada. acomodando-se na poltrona. mas a mãe aparentemente não. E se recusava a tomar remédios. Desde a morte do marido. — Vida de artista — Lorenzo concordou. — Oh. Lorenzo — a sra. parecendo não ter pressa alguma de ir embora. . -— Especialmente agora que resolvi sair umas semanas para visitar um parente na Cornualha. para ter o que um dia tinha perdido. Chandler confidenciou a Lorenzo. — Ela se sentiria melhor com uma parente pòr perto. não tinha adormecido. está? — Faz anos que não a vejo e ela está sempre nos convidando para ir lá. — Seria tão bom ter você por perto. olhando para a frente. não sabia que ela ainda o amava. — Não percebi tantos escrúpulos quando você me deixou para casar com Jeremy Baker. — Não me diga que pretende trazer. — E quais eram seus motivos. Se soubesse. Isabel o seguiu até a sala. — Eu tinha bons motivos — Isabel murmurou. As peças do quebra-cabeça começavam a encaixar. mamãe? — Isabel insistiu. Mais cedo ou mais tarde. — Coitadinha. livros — suspirou. Mas tenho andado tão preocupada com a empresa. felizmente. — Você não está falando da tia Dora. — Abigail — a sra. É bom para Isabel ter alguém para conversar. Apenas bebericava o café. — Que parente. onde a mãe. E temos vários interesses comuns. Por isso.resolvê-los. tinha adquirido o hábito de dormitar no sofá da sala. Nunca casaria com ele. mas ainda posso fazer chá. eu ia dizer. — Não que eu me importe. Pouco a pouco seu jogo ia ficando mais claro. querida. São as regras do seu próprio jogo. vocês dois passaram um tempão lá na cozinha — a mãe comentou. — Estou certa de que Isabel está contente de rever você — a sra. Chandler parou. que ela ignorou. ela dormia mal durante a noite. — Vai me fazer bem. mamãe? — Ainda não lhe disse? — Você sabe que não disse. Jardinagem. que Isabel logo percebeu. Ele queria casar para mantê-la cativa. parecendo procurar as palavras certas. — Claro. — Espero que seja possível vocês trabalharem juntos para pôr a empresa de David em ordem. — Ela tem quem cuide dela por lá — Isabel ponderou. querida — a sra. Isabel pensava. Chandler servia o café. — Também espero — Lorenzo disse num tom mais significativo. — Ela é uma chata. — Não é. Chandler suspirou — agora está sempre viajando. — E bom ouvir isso. — Puxa. Mas ao mesmo tempo teria sua amante.. ele teria de desistir.. — Foi mesmo? — Lorenzo deixou a bandeja sobre a mesinha e olhou para Isabel de soslaio enquanto a sra. Já tinha sofrido demais. o que seria dela? Mas ela não se permitiria mais este sofrimento. Isabel? — O café está esfriando — ela resmungou. Felizmente. Chandler sorriu. Chandler olhou para a filha. Isabel. a tal mulher. — Você me dá nojo. — Parente? — Isabel quase engasgou com o café. Isabel respondeu com um olhar de advertência. Você também acha. Isabel — Lorenzo sorriu. — Cornualha? Do que é que você está falando. Ela vem aqui trabalhar para mim. — Dora está convalescendo de uma operação — a sra. Estou mesmo precisando sair um pouco desta casa. — Posso não ser a pessoa mais útil do mundo com minha doença. Lorenzo fez meia-volta. querida? — Bastante — Isabel murmurou. — Você desistiria de uma mulher que ama apenas para satisfazer um pervertido desejo de vingança? Quem falou em desistir? Você vai conhecer Jéssica quando chegar a hora.

— Por que agora? — Por que não? — Acho uma ótima ideia — Lorenzo interveio. Mas todos dizem que o prédio está em péssimas condições. Parece que as coisas não vão muito bem por lá. A mãe não podia estar tentando aproximá-los. E. Esta casa é tão grande. — O Edwardian. JL-^No escuro. mas tem tido muito trabalho com Albert nestes últimos anos. Dar palpites num assunto que não era de sua conta. —Por isso acho — a mãe disse —. horrorizada. — O que está havendo com você. principalmente agora que decidi passar algum tempo com Dora. E eles não têm dinheiro para reformá-lo.Isabel olhava para a mãe sem saber o que dizer. depois de ouvir em silêncio o que os dois tinham combinado. apesar da torta de maçã amanhecida. um tanto surpreso com a pergunta.. Pensava em mudar para outro lugar do mundo se Lorenzo CicoUa continuasse mesmo insistindo no seu intento doentio. a conclusão a que tinham chegado. Só então. aqui ela não podia ficar.. — Além disso — a mãe prosseguiu. Lorenzo já tinha ido. Chandler dizia. — Bem diferente da daqui. talvez não. Isabel pensava agora. Agora que o negócio vai mal estão pensando em vender. pois ela nunca se afastaria da mãe. a comida lá deixa muito a desejar — Lorenzo concordava. sorrindo entusias mada para a filha —. — Mas agora? — perguntou. Simples devaneio. Isabel já não pensava mais nos motivos da mãe. o sol brilhava o ano inteiro. Mergulhada nos próprios pensamentos. E Lorenzo Cicolla é um. mas lá não haveria Lorenzo Cicolla para fazer de sua vida um inferno e. não é segredo. — Nada mais natural. E bebeu todo o lucro que aquele hotel produziu nos bons tempos. E o curso de fisioterapia que ela pretendia começar em breve? Além disso. também já não é a mesma — a sra. Dorset. Clima muito ruim. Bebericando o café. ainda por cima. A França. que estava mesmo convalescendo de uma operação. Não ia mesmo conseguir dormir.. Uma coisa era certa. — Isabel já começava a proceder como uma criança. Isabel percebeu. — A mãe sorriu indulgentemente. Pelo menos até encontrar um lugar para morar. E ficado de voltar na noite seguinte. — Esta é a nossa casa. — Eu me sentiria melhor sabendo que Lorenzo está aqui. Também não podia esperar que ele sumisse só porque ela se recusava a casar. — A mãe tinha parado em frente à porta do quarto. claro que não. — Por quê? Gosto da minha própria companhia. Isabel mal ouvia o que diziam. — Até parece que você não o conhece —puxou a colcha e sentou à penteadeira para tirar a maquiagem. Que atrevimento. Lá também havia sol. Não preciso. ao que diziam. — Sorriu. Continuava tentando se convencer de que não havia nada estranho na repentina decisão da mãe de visitar Dora Gately. — Albert Towser bebe. dizem. As duas não se viam fazia um bom tempo e mudar de ares certamente faria bem à mãe. que você devia ficar aqui.. querida. — Como pôde convidá-lo para ficar aqui? — tinha perguntado à mãe pouco antes. Mas seria inútil fechar os olhos. você se sentiria muito sozinha aqui. Isabel mal ouviu a pergunta que a mãe dirigiu a Lorenzo. Eu ficaria preocupada. querida? Sei que . você faria companhia a Isabel. Essa viagem não podia ter nada a ver com ele. ela poderia sarar desse amor idiota. longe dele. Isabel refletia. Chandler prosseguia — Alice sempre foi boa cozinheira e cuidava pessoalmente da cozinha. Lá. — A comida.. era mais perto da Inglaterra. —E verdade. mas Isabel insistia no assunto. não podia ver nada. — Pobre gente — a sra. estranho! E. claro. nos arredores da cidade. Talvez a mãe concordasse em viver no sul da França. Talvez a Austrália. alheia à conversa durante os últimos minutos. Não. — Onde você está hospedado? — Num hotel — Lorenzo respondeu. Isabel olhava para o teto. seu francês deixava a desejar. Isabel olhava para a mãe. enquanto eu estiver com sua tia. mas longe de Yorkshire. você vai me deixar. CAPITULO VII Deitada na cama. — Ele não é um estranho. Distraída..

Isabel empurrava a bicicleta pela calçada. mais que amigos. — Eu? Criança? Você quer mesmo complicar minha vida. Sua franqueza eradesconcertante. Estava frio. estava garoando. Isabel saiu para o trabalho de bicicleta. Tão logo ele se afastou. Parecia estar adquirindo o mau hábito de abordá-la na saída do trabalho. ela estavaensopada. Desta vez. Lorenzo ia se mudar para aquela casa.. Teve um dia cheio no hospital. do desespero oriundo de segredos que deveriam permanecer enterrados para sempre. A mãe continuava entusiasmada com o fato de Lorenzo estar se mudando para aquela casa. Não encontrou. Isabel pensava se devia fingir não ter visto o carro parado do outro lado da rua. — Que bom encontrá-la — ele disse antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. — É só a segunda vez que a gente vem aqui! —Num lugar como este duas vezes é frequência habitual. Lorenzo usava um sobretudo preto. Claro que ela podia ir para outro lugar. às cinco. Mas você foi muito indelicada esta noite. eu acho. o que parecia enfatizar sua estatura e masculinidade. Enquanto pensava. perto do fogo. Seria insuportável ver-se cercada de tantas lembranças desagradáveis. Venha. lhe diria umas verdades. — Seja breve. Se acaso encontrasse Lorenzo Cicolla no caminho. — Tem café? — Parece que está virando hábito. Não entendo o que está havendo. dirigiu-se a Lorenzo. Isabel não tentou protestar. esforçando-se para manter o mesmo passo. Isabel só ouvia. — Você está agindo como criança — Lorenzo disse. Lorenzo estava à espera. — São os acasos de cidadezinhas como esta. que a companhia lhe faria bem. como se ela nãotivesse notado. — Quero falar com você. Tom — Isabel resmungou. o que só não tinha feito na noite anterior por estar muito chocada. — Você se molhou — Tom comentou. Ela quer fechar o negócio com a empresa de seu pai. ele desceu do carro e se aproximou. — Nossa mesa? — Isabel sibilou para Lorenzo quandoTom já não poderia ouvi-los. — Está chovendo. — Só não achi boa ideia abrir as portas a qualquer um que estiver passando. Achei que seria bom para você. Quando saiu de lá. Na manhã seguinte. querida. Com uma pressa incompreensível. arrumou as malas e informou-se sobre o horário dos trens. — Também notei. poderão trabalhar juntos para resolver a situação da empresa de seu pai. indicando a mesa que tinham ocupado antes. Você anda muito retraída. Além disso. lembranças do silêncio. ou de Jeremy. Levo o café lá quando estiver pronto. mudar para sua própria casa.. mas isso seria fugir. Fez mais alguns comentários sobre otempo. com cara de poucos amigos. Como pôde aceitar o convite de mamãe para ficar lá em casa? Especialmente sabendo que ela não estaria lá! —Nada como a objetividade. não é? Vocês doisbebendo juntos. conservando-aentre eles. não é mesmo? Mas foi bomvocê ter tocado no assunto porque era exatamente sobre isso que eu queria falar. não vê motivo para eu ficar num desconfortável quarto de hotel quando a casa dela é tão grande. De que adiantaria? Ele a teria arrastado como da última vez. não havia dúvida. . Partiria naquela mesma noite. Era impossível se irritar com Tom. — Acaso ou não. Isabel continuava olhando para o teto sem saber o que fazer. a mesa de vocês. — Continuamos trombando um com o outro — Lorenzorespondeu. — Você é muito observador. mal-humorada. sem olhar para ela. seria péssima ideia. não é? — Sua mãe teria ficado chateada se eu recusasse o convite. — Não fui indelicada — Isabel teimava. Quando chegaram ao bar de Tom Wilkins. Vocês eram tão amigos. Além disso.você ainda está chocada com a morte de Jeremy e seu pai ambas estamos. estávazia — Tom respondeu. Tom trouxe o café. acordou com olheiras. como ela sempre a tinha considerado. Além disso. uma das razões pelas quais está tentando nos aproximar. furiosa: —Como pôde? —Como pude o quê? —Você sabe o quê. — Lorenzo é um velho amigo.

— Boa ideia. bem mais interessante. ela precisava ter isso sempre emmente. você estaria longe de mim. claro. — Não. estava determinado a se vingar. Também preciso providenciar um fax. — Jéssica está para chegar. mas aquilo só deixava Isabel ainda mais furiosa. Recostou na cadeira. Lorenzo ergueu as sobrancelhas. Como pôde se contentar com menos? — São as voltas que o mundo dá. — Por que vendeu a casa de sua mãe se pretendia voltar à Inglaterra? — Porque nem imaginava quando voltaria.Fazia sentido. Vou mudar para lá. quando todo o seu charme vinha à tona. — Curiosidade — ela respondeu finalmente. presumo. — Bem. Isabel. Quer que ela viaje preocupada? — Não me diga o que vai preocupar minha mãe! — Digo. — Então o melhor é procurar John Evans. — Por que não? — Preciso montar uma base operacional aqui.embora não queira admitir. Lorenzo sorriu. antes de me dedicar à de seu pai. Você podia fazer isso. Não queria com parar o que tinham vivido juntos com o que viviam agora.não tenho tempo para pesquisas. — Você podia ter tido outra vida. — Isso encerra o assunto? . É melhor começar a se acostumar com a ideia. Nem onde iria morar. achando graça na reação dela. Lorenzo riu. — O que você recomendaria? — Não conheço suas preferências. vou satisfazer sua curiosidade. e ver o que ele tem disponível. — Então. — Estou certa de que a fantástica Jéssica pode cuidarde tudo isso enquanto você procura um lugar para morar. — E procurei você antes de me mudar para lhe dizer que pare de agir como se quisesse me matar na frente dela. —Ciúme? — Nem um pouco. Por que os anos não o tinham transformado num homem de negócios gordo e sem graça? Talvez o coraçãodela não estivesse aos pulos se ele não fosse tão sensual. — No momento — Lorenzo prosseguiu —. — Não seja tão egoísta. — Ficou maluca? — Ela está vazia! — Para mim não está — Lorenzo olhava para ela ferozmente. Ela vai sair para espairecer. Ele não merecia confiança. — Você pode ficar na minha casa — Isabel sugeriu. — Só sobre o meu cadáver. Sim. Isabel cerrou os dentes. Só por isso. q — Posso pagar qualquer coisa. porque no momento você não está enxergando um palmo além do nariz. Precisa ter onde trabalhar. Alguma c sugestão? — Depende do tipo de casa que você esteja procurando. — Num desconfortável quarto de hotel. — Não? — Não sei o que você pode pagar — ela respondeu. — Seria bobagem manter uma casa desocupada. — Por que não? Você sabe de que tipo de casa eu gosto. em HighStreet. para poder me comunicar com minhas outras empresas. Isabel não queria lembrar do passado. você está mesmo procurando um lugar para morar? —Estou vendo um certo otimismo na sua voz? Isabel detestava aquela expressão. es uivando-se da pergunta. — Até que as circunstâncias o trouxeram de volta — lá estava a amargura de volta à voz de Isabel. Estava predestinada a isso. não podia? — ele murmurou. Passávamos horas discutindo onde moraríamos quando nos casássemos. estou pro urando uma casa para morar.

relutante. Só algum tempo depois Isabel percebeu que não iam na direção da casa de sua mãe. onde Isabel tinha estado calada nos últimos quinze minutos. Lorenzo ligou o motor. Isabel achou um alívio afastar-se daquela atmosfera desolada que circundava o balcão. Levou a mão à maçaneta. Olhou ao redor para se certificar de que não estava esquecendo nada. A garoa tinha virado chuva. enquanto Lorenzo pagava a conta. Como a sra. para almoçar aos domingos. — Para quê? — Pegar minhas coisas. observando-adivertido —. Dirigiu-se à porta. Finalmente chegaram ao quarto. os limpadores do pára-brisa. logo ao reencontrá-lo. Os sinais de decadência eram visíveis já no saguão de entrada. e a visitar algumas imobiliárias.. Seus pais costumavam vir àquele hotel de vez em quando. mas estava nervosa ao chegarem ao hotel. Não queria encorajar a sra. Towser examinou negligentemente. olhando ao redor. Elevador não havia. A sra. levantando da cadeira. quando ela era criança. O Edwardian ficava nos arredores da cidade. Lorenzo acabou de arrumar as malas. Mas estava prestes a dividir com ele a casa de sua mãe. computador. Mas ele estava certo. sobre a dela. querida — ela disse a Isabel. Alguma objeção? Isabel tentava parecer indiferente. Isa el? Achou que eu não poderia resistir a estar b num quarto com você? — Nem pensar — ela respondeu prontamente. —Não seja ridícula — ele respondeu. — É melhor voltar comigo — Lorenzo disse ao saírem. Ela mesma não sabia o que pensar. Isabel correu atrás. Era uma festa. — E prefiro acreditar que você tem. seus dias de glória estavam longe. — Por que estava tão relutante em vir comigo aqui. — Claro. a de cansaço voltou. o papel de parede precisava de reparos. Chandler tinha dito. querida — a expressão curiosa sumiu. Afinal. Seria constrangedor se envolver em algo tão pessoal como escolher uma casa para Lorenzo Cicolla. precisava dizer alguma coisa. — Para nós — Lorenzo corrigiu. causava certa melancolia. a mobília precisava de reparos. Constatar que o lugar agora estava em tal estado. —Estou na casa de mamãe — Isabel respondeu. não gostaria de me ver longe. Seguiram por um corredor. presumiu que poderia evitar qualquer contato. Isabel não respondeu. —Parece boa ideia. olhandoum para o outro. —Sinto muito pelo que houve com seu pai e seu marido. No início. Towser a fazer perguntas. recostando na porta. retomando a inspeção da decoração das paredes enquanto Lorenzo arrumava as malas. admito que houve um tempo. — Para onde estamos indo? — Para o Edwardian. E ela tinha mesmo mais tempo disponível. —Espero você aqui fora — Isabel sugeriu.. Towser estava preocupada demais com os próprios problemas para se preocupar com os dos outros. — Pronto — ele disse. E você escapou do perigo. olhando para ele de soslaio. Seria como começar a ceder às suas exigências. desprovido de todo o seu charme e elegância. — Sua casa deve parecer vazia sem seu marido por perto. Isabel entrou. A pintura precisava de reparos. Impossível dizer quanto tempo passaram assim. Lorenzotambém. Towser estava na recepção. seu corpo parecia irradiar um certo calor. — Não sei quanto tempo vou demorar. Isabel gelou. Isabel tinha a impressão de que a sra. Roupas. papéis. que a sra. pára poder chegar a um acordo com o inevitável? Sozinha? — Vou pensar no assunto — Isabel murmurou. Subiram alguns lances de escada. Lorenzo pegou a bicicleta e correu para o carro. Ela . Viver com ele sob o mesmo teto a deixaria maluca.. com um sorriso que mais parecia uma ameaça. Não há por que ficar aqui neste corredor gelado.. O que estaria ele pensando? Apesar da expressão fechada. Lorenzo fez o cheque. Estavam os dois molhados ao entrarem no carro.— Não tenho tempo de procurar casa para você. de costas. enquanto Lorenzo abria a porta. Não parecia muito feliz. tudo certo.

— Não quero você aqui! — E você acha que quero estar aqui? — Lorenzo perguntou. Isabel ainda segurava a toalha. abrindo porta. Isabel correu para o próprio quarto. não se sentiamuito melhor. Quando olhou no espelho e o viu lá. Não é. Já chamei um táxi para me levar à estação. — Que noite — a sra. Começou a derreter. t — Querida. estaria um caco em menos de uma semana. Que bom se a mãe parasse de traá-los como duas crianças. não deixá-lo perceber o que ia por dentro dela. Algo especial. Tanto quanto ela o q desejava. parado na frente dela. Eu poderia levá-la — Lorenzo disserapidamente. Não havia suavidade nos seus gestos. pouco além. Chandler recusou. Seis horas: informá-lo c de que tinha achado. Embora não vá ficar para o jantar. Isabel podia sentir o vigor de sua ereção. — Podemos ir. Se continuasse a agir assim. Isabel tomou um banho rápido. a julgar pelo cheiro que vinha da cozinha. Adeus. Olhando para a pouca bagagemde Lorenzo. — Fora! Lá estava ele. — Não era preciso. apertando a toalha ao redor do corpo. — Não — o protesto não passava de um gemido. Vocês parecem mesmo estar precisando. comentou: — Se fosse mulher. mas ele a segurou pela cintura.Chandler estava à espera. parado na porta. mas não deu tempo. — Procurando uma toalha. aquele segredo terrível. Isabel fechou a cara. Mas Lorenzo começava a removê-la. — Boa ideia. Isabel pensava. — É aqui — Isabel abriu a porta do quarto e já ia embora. sentir as mãos dele no seu corpo. A sra. Seus pensamentos estavam longe. . mas a sra. a Ele também a desejava. trazendo-a de encontro a si.Algo inexplicávela compelia a se aproximar. Levantou-a. Lorenzo abraçou sua cintura. Naturalmente. — Preparei um cozido delicioso. Queria sentir a mesma sensação sentida anos atrás. Ele eramuito forte e ágil para uma desventura dessas. Era preciso achar uma casa para ele o quanto antes. Você sabequal é. querida? — Acho que vou tomar um banho — Isabel mudou deassunto. Ela devia ter vestido o roupão de banho em vez daquela inútil toalhinha que mal cobria seu corpo. para quebrar aquele clima. o que obviamente não ocorreu. Talvez pudesse resolver tudo num dia só. en uanto saíam para o corredor. Mas não podia imaginar que ele invadiria seu quarto. Isabel não conseguia se mover. Lá dentro. provocavanela um desejo que a impedia até de respirar. Isabel — Lorenzo disse de repente. — No armário de cima — Em pânico.qualquer coisa. Nove horas: imobiliária. Isabel não ouviu aporta abrir. recostou-se na porta fechada. examinava distraidamente oguarda-roupa. Cino horas: busca encerrada. — Ainda acho que você não devia ir — Isabel acrescentou. Pare de pensar em si mesma e penseum pouco em sua mãe.como um abismo sem fim. Lorenzo logo adotou sua postura mais charmosa.Talvez pudesse faltar uns dias no trabalho para cuidar do assunto. Isabel abriu a boca para insistir. Ela precisava suportar impassivelmentea presença dele. Lorenzo fechou a porta e avançou dois passos na sua direção. Isabel ia na frente. agressiva. tentando se acal mar. Isabel. Concentrada no seu plano de ação. — Que está fazendo aqui? — perguntou. Embrulhada na toalha. Ela queria beijá-lo.» torcendo paraque ele tropeçasse numa das malas e fosse buscar hospitalidade no hospital. — Cuidado. Ao sair. entorpecida. Mas não conseguia dizer coisa alguma. mas seus olhos estavam em fogo. ficou furiosa. Seguiram para a casa de sua mãe em silêncio. Lorenzo tinha no rosto a mesma expressão severa. Tinha preparado o jantar. A mãe fingiu não ouvir. sem olhar para trás. Ainda estava apavorada quando sentiu o contato daqueles lábios. você com certeza teria muito maisbagagem. mostre a Lorenzo o quarto dele. Carregou-a até a cama. Sabia que ele ia beijá-la antes mesmo que o fizesse. daquela língua à procura da sua. Chandler disse ao recebê-los. — Sim — Lorenzo agora beijava seu pescoço. Mas entre eles havia o passado. Dez horas: começar a busca.

Eu não suportaria. Cruzou os braços. Fechou a porta. Mesmo casada com Jeremy. Assim ela teria mais tempo para se recompor. adoraria. Isabel atendeu. espalhando beijos por sobre seu estômago.. sem olhar para ele: —Não posso. lavou o rosto e se maquiou. Mas Lorenzo a interrompeu.. Falou pouco. confusa. Isabel finalmente disse. Lentamente. — Acho que vou começar a procurar uma casa para você amanhã mesmo — ela disse. a língua de Lorenzo chegava agora entre suas coxas. Porque deitada estaria muito mais vulnerável. — Levante — ele disse. — Por que faria isso? Aposto que você não lembrava do passado enquanto estava com Jeremy. Parecia fazer um milhão de anos desde a última vez que ela tinha sentido a mesma turbulência. Também tinha comprado salmão defumado. impossível de ser contido. Quando Lorenzo chegou. Isabel gemia e se contorcia. Lorenzo. Olhou para ela. Isabel. o corpo ainda trémulo. Levantou da cama. voltando-se para a mãe. a mesma sensação de abandono. Comeram em silêncio. Quando pousou os talheres no prato. Lorenzo levantou a cabeça. — Que tipo de casa você está procurando.— Lorenzo — Isabel murmurava. Jenkins está de mudança para Surrey. —É para você — estendeu o telefone. — Quando eu tiver você. Faria parecer que estava tudo bem. Era isso o que ela tanto temia. — começou a dizer. olhos fechados. Isabel nem ligou. Melhor que levar flores. Queria que o chão se abrisse e a engolisse. Não posso casar com você. Embrulhou-se na toalha outra vez. Quando Isabel desceu. Removendo a toalha. Otimo. Lorenzo agora beijava seus seios. Chandler saiu em seguida. — Lorenzo me pediu para ajudá-lo — explicou. que olhava o relógio sem parar. Ficaram os dois sozinhos. Continuou falando com a mãe. que tudo não tinha passado de um lamentável incidente. Foi para a sala. A sra.. — Você nunca vai me deixar esquecer isso. Só mágoa. aquele desejo alucinado. Isabel não sabia o que dizer. começou a descer. — Eu também faria. compulsiva. Tinha feito pão caseiro para levar. O telefone começou a tocar. Lorenzo ainda estava lá em cima. Isabel desmoronou. Lorenzo — ela suplicava. Dora. deixando-a cada vez mais enlouquecida. voz rouca. não é? — Por que deveria? Passei quatro anos lembrando do que você me fez. Não como um empréstimo temporário.. Seu coração gelou. ela continuava desejando Lorenzo. Eu viveria sempre relembrando o passado. continuar vivendo no Estados Unidos. A sra. Lorenzo recostou na cadeira. que aos poucos ia tomando conta de todo o seu corpo. Emily me disse que Bearwood Cottage está à venda. Chandler respondeu. entre abraços e promessas de ligar todas as noites. — Com jardim. —Para mim? — Sim. Isabel foi atrás. Sua língua estacionou sobre um dos mamilos endurecidos. Quando cansou de chorar. — Não me diga o que seria melhor — Lorenzo levantou. Isabel estremeceu. . A campainha tocou. Sozinha no quarto. será na nossa casa. com certeza. Sua mãe estava na cozinha. Lorenzo se voltou. Rígida. Aquela reação horrível. Foi quando Isabel percebeu o que estava acontecendo. Não queria que a mãe percebesse que ela tinha estado chorando. mas com um anel no dedo. Isabel teve de se conter para não gritar. —Otima ideia — a sra. Minha mãe faz questão de um jardim. olhando para ele. Vai morar com uma das filhas. atenta à campainha da porta. ficou de pé. Isabel sentou na cama. Nem Lorenzo. —Por que não? — Já não há mais nada entre nós. Você será minha. Jéssica Tate. invadindo a doce essência de seu ser. Parece que ela ligou para o hotel e lhe deram o número daqui. Descendo mais e mais. — Lorenzo. — Seria melhor você ir embora. Saiu. Começou a chorar. — Faça amor comigo. Lorenzo? — Uma bem antiga — ele respondeu. De repente. Lorenzo não parava.

cabelo loirocurto. Será que a chegada da amante tinha aplacado seu desejo de vingança? Depois que ela tinha deixado claro que jamais] poderia casar com ele. Pequenos reparos. Isabel subiu a escada. aquela era a casa que ela andava procurando fazia duas semanas. convencida de que a casa era mesmo perfeita. E ela vivia em per manente tensão. Na verdade tão perfeita que era uma pena entregá-la a Lorenzo. Jéssica tinha chegado dois dias depois daquele telefonema. Isabel tinha percebido isso logo na primeira visita. Problemas de família. Tinha uma aura de competência que. em casa. nas ocasiões mais impróprias. Para ela. A casa que poria fim à presença dele sob o teto de sua mãe. Mas isso não tinha reduzido suas inconvenientes visitas à casa de sua mãe. Fora isso. seus olhos azuis pareciam dizer. E dinheiro não faltava. Era alta. Talvez o desespero contido nas suas palavras tivesse sido mais convincente que as explosões anteriores. Jéssica Tate. Lorenzo não tinha dito mais nada. Isabel pensava enquanto vagava pelos diversos cómodos da casa. Grande. Por isso. observando o jardim malcuidado lá embaixo. era o tipo de mulher capaz de suplantar a maioria das mulheres. e uns olhos azuis que avaliavam permanentemente tudo e todos. Lorenzo tinha alugado um flat nos arredores da cidade. objetiva. Nem cobrança dos motivos que a tinham levado a casar. Evans tinha dito. Agora. e decidido que ela não constituía uma ameaça. Cobria-o de gentilezas. No início. não em Jéssica. e de cidiu que. quando se dirigia a ela. numa análise isenta. tinha deixado seu ódio bem claro. Mas o silêncio também a incomodava. Isabel dizia para si mesma que devia se concentrar na casa. devia ser um jargão dos agentes imobiliários para reforma completa. embora não tão alta como Isabel. Isabel não conseguia tirar tal ideia da cabeça. não via nenhuma razão para justificar sua existênciaaos olhos de uma mulher que parecia não ter o hábito de sorrir. Parou na janela do principal. por sua vez." CAPITULO VIII Isabel entrou na casa. sem dúvida. pois o que mais teria para fazer alguémcomo Isabel quando não estava no seu empreguinho lá no hospital? — Às vezes fico pensando como seriamaravilhoso tinha comentado. Mas isso podia ser feito se houvesse dinheiro. Evans tinha lhe dado as chaves para que ela pudesse ver por si mesma. Enquanto descia a escada. —É muita responsabilidade tantas promoções sucessivas ela tinha dito na primeira visita. quando tudo parecia ainda pior. Isabel pouco tinha visto Lorenzo.mas. E isso doía. no que diz respeito à inteligência. Lorenzo o fazia com a distância de um estranho. pensou um pouco. só mostrava indiferença. Você pode ser bonita. quer Lorenzo gostasse ou não. Isabel olhou ao redor mais uma vez. quando se falavam civilizadamente em encontros casuais. Tinham avaliado Isabel instantaneamente. à noite. Estava vigiando Lorenzo."Odeio você". sou mais eu. pior ainda. Mas tê-lo sob o mesmo teto a estava deixando maluca. Não queria pensar em Jéssica Tate. "Odeio você por voltar à minha vida. Os donos. fazendo amor. tomando chá com biscoitos. o sr. Mas era impossível. induzia a uma imediata atitude de cautela. Isabel pensava enquanto ele falava com a mulher na outra ponta da linha. e. o que pelo menos mostrava sinceridade. As duas semanas anteriores tinham sido horríveis. Isabel. lamentavam muito ter de vendê-la. Com jardim. Agora. Na verdade. Imaginava-os juntos. dirigindo seu olhar felino a Isabel — jogar tudo para o alto e fazer alguma coisa mais amenadurante alguns . Isso Isabel podia enten der. mas ele parecia estar em todos os cantos daquela casa. Caseiros. claro. nas ocasiões em que tinha falado casualmentecom Isabel. temendo nova invasão de seu quarto. tentando deixar claro que ele era propriedade dela. No setor de congelados do supermercado. enquanto falava com outras pessoas. ou. O sr. Mas não podia evitar. ela tinha sido condescendente. combinada à sua aparência e dotes físicos. O que ele estaria tramando agora? Ameaças de casamento não tinha havido mais. Começou a inspecionar os dormitórios. a casa era mesmo agradável. Também tinha os dela. Seria por isso que Lorenzo andava tão sumido? Porque passava todo o tempo livre na cama com a amante? Por mais que tentasse. e assegurado que a casa só não tinha sido vendida ainda porque a maioria das pessoas não se interessava por casas precisando de pequenos reparos.

ela fazia questão de discutir nos termos maiscomplicados possíveis. Não admira que Lorenzo me ache tão fantástica. mas esava tudo ruim. Depois de examinarem os dormitórios e os cómodos doandar de baixo. Mas seus olhos diziam Que vidinha você leva. — São só dois banheiros. Finanças. dissipandoos pensamentos de Isabel. Olhe só para mim. Alguém estava batendo na porta da frente. Isabel tinha respondido com um sorriso cortês e murmuado algo inconsequente. Mas. Lorenzo passou. — Oi. — Então pode me mostrartudo. ela pensava um tanto apreensiva. — Estou surpreso. — O que está fazendo aqui? Lorenzo ergueu as sobrancelhas. Não sei como é seu apartamentoem Chicago. Velha e desbotada . Com aquele sobretudo preto que enfatizava sua estatura e masculinidade. o cabelo negro. já dei uma olhada. a linda vista de todas as janelas. Até bolor nos cantos das t paredes havia. Parou no meio dovestíbulo. Como naqueles deliciosos filmes ingleses. Provavelmente tinha vindo mostrar pes soalmente as possibilidades do imóvel. o único lugar da casaonde havia algum vestígio de civilização. — É mesmo? — ele perguntou. —Bem ruinzinho — Lorenzo comentou. Sem qualquer ameaça. Jéssica ia jantar com eles esta noite. talvez morresse de tédio duas semanas depois.anos. — Achou. Isabel antecipava a desagradável r perspectiva de ter de passar pelo menos três horas na companhia de uma mulher que fazia todo o possível para diminuí-la. — Otimo — Lorenzo disse. onde os pequenos reparos não p eram menos necessários. — O pessoal vive de fofocas. Estava mesmo frio. de proceder de maneira tão infantil. enquanto pensava nunca r ter visto tanta hipocrisia em toda a sua vida. — Como sabia onde me encontrar? — Isabel perguntou. a primeira vezem duas semanas que ficavam os dois sozinhos. A pouca luz vinda da única lâmpada do ambiente realçava ângulos de seu rosto. devia ser apenas impressão. que correu para atender. Ainda estava de terno. — Claro — Isabel foi na direção da escada. claro. você deve achar. mais perto do que elaimaginava. Lorenzo foiatrás. Evans. — Posso entrar? Isabel saiu da frente. —Parece que os donos foram forçados a vender. Evans. Isabel também estava agasalhada. Lorenzo se aproximou. — Vou lhe dar três chances de adivinhar — respondeu. Não apenas no mesmo ambiente. Mas ela recuou. Era. Não era o sr. A loira era especialista em comentariozinhos irónicos. ao ins ecionar a cozinha. Olhando para as paedes emboloradas. observando oteto e as paredes. Isabel tinha a vaga impressão de que algo nele tinhamudado. Realmente sozinhos. As dimensões eram perfeitas. ou acharam que não valia mais a pena. Olhando de vez em quando para Isabel. —Combina com o resto da casa — Isabel emendou. Devia ser o sr. Isa el logo percebeu. e minimizaria a fortuna ne cessária para deixá-lo habitável. — Um deles — Isabel abriu uma porta. — Esta cidadezinha é tão curiosa — Jéssica tinha dito a Isabel em outra ocasião. Arrependeu-se em seguida. por estranhoque possa parecer. Lorenzo se voltou e perguntou: — O que você acha? Estavam agora na sala de estar. passos leves para um homem de sua estatura. — Evans me disse — respondeu. na forma de uma cortina de filó amarelada que pendia precariamente sobrea janela. mas casas como esta com certeza são bem diferentes. — Bem pequeno. para reiterar o recado tácito que seus olhos transmitiam desde sua chegada. Isabel abriu a porta. Isabel se dizia agora. Realçaria as linhas da construção. Lorenzo enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo. Curioso como alguém podia parecer tão ameaçador mesmo sem ter a intenção. Era como se ele tivesse tomado uma decisão. fofocando o dia inteiro. quando geral mente Jéssica também estava junto. É você? — Isabel sentiu um vazio no estômago. b "Você está sendo maldosa". Lorenzo devia ter vindo direto do trabalho. — Embora. que talvez eu também quisesse dar uma olhada no imóvel. a lareiramaravilhosa na sala de estar. Acho que cansaram de gastar dinheiro aqui. — Bem. os olhos os perspicazes.

— Por que você e Jeremy não tiveram filhos? — Lorenzo perguntou inesperadamente. Mas tudo já passou. seria insanidade. Do que ele estaria falando? — Lembra que minha mãe costumava trabalhar na casa dele? Isabel lembrava. — Quem precisa? — Lorenzo tirou o sobretudo. E isso era algo que Lorenzo nunca faria. Como poderia contar sua agonia mais íntima a um homem que não a amava? Seu segredo seria só dela.. estendeu perto da parede. — Estranho. Não vejo cadeiras por aqui. vasos de flores.. — Está arruinada. lembrando do passado. Evans? — Deus me livre! — Então por que não senta e me diz por que eu deveria investir meu dinheiro neste lugar? Isabel olhou ao redor. Importante um dia. Vou comprar a empresa de seu pai. tom ligeiramente desafiador. Mas ela nunca lhe contaria. sobre não poder casar comigo. — Com uma pequena reforma. Você. sentando e sentindo certa apreensão quando ele sentou a seu lado —. Porque me detestava. — Parece que Jeremy conseguiu mesmo o que queria. Claro que você vai ter algum trabalho. sem nenhuma condição. Uma vingança não poderia ser levada tão longe. Ele estava sendo cortês e isso de certa forma a incomodava. Está mesmo perigosa. Sentada ali. — Móveis antigos. — Mais que suficiente para receber visitas ocasionais — ele concordou. imaginando a casa em ordem. Não havia o que temer. duvido que você encontre outra casa tão charmosa por aqui. Você está livre. Hoje. relutante. E ainda levou um prémio adicional durante quatro anos. mas que já não a queria. Ela é muito mais simpática que qualquer outra das muitas que já vi. para sempre. que ele o detestava. Ele não usaria isso contra ela. Mas ele não tinha motivos para. sempre soube que ele seria incapaz disso. tão perto dele. Isabel suspirou. — Pequenas reformas de base. — Achei que você tinha desistido de perguntas desse tipo. Sentia estar perdendo o homem que ela ainda amava alucinadamente. — Pequena reforma? — Basicamente pintura — Isabel olhava ao redor. ficaria linda. sabia disso... — Ela tem atmosfera. Lorenzo riu. não foi? — Lorenzo perguntou. E Isabel voltou a sentir a mesma apreensão. — Você já disse isso antes. Mas sentia uma estranha sensação de perda. porque ela só o dividiria com um homem que amasse.. podemos pelo menos deixar o passado em paz. Isabel — ele murmurou. E o jardim seria um desafio para sua mãe.. mas o que se poderia esperar de uma casa velha. sem cuidados há anos? — Continue — ele murmurou. indicou-o com uma mesura teatral.. Eu sabia algo sobre ele que ele certamente preferiria que eu não soubesse. — Eu gosto — Isabel admitiu. — Por que você se recusa a responder? — A cozinha precisa ser refeita inteiramente. embora ela não soubesse por quê. Soube quase por acaso. — Tinha sim. Isabel também. — Bem — Isabel começou. . mas que já não importava mais. No fundo. Se nem amigos podemos ser. — Tem certeza de que não está dizendo isso porque me quer fora da casa de sua mãe? — Claro que não! — Está trabalhando para o sr. Claro que ela podia contar por que tinha casado com Jeremy. ela não passava de um infeliz episódio na vida dele. baixando a guarda. — Não precisa ter medo de mim. — São seis quartos. como você me fez sofrer um dia. — Reformas de base.. Isabel devia sentir alívio. — Conseguiu nos separar. Isabel tinha vontade de chorar. Teias de aranha também pendiam nas paredes e opó que havia por toda a parte poderia manter Cinderelaocupada durante semanas. Isabel riu.demais para justificar sua re moção. Andei pensando no que você disse. um homem que retribuísse seu amor. — Admito que ao voltar aqui eu queria fazêla sofrer. Você tem razão. Isabel estava confusa. Não havia possibilidade de dividi-lo com ninguém.

ele estava errado. porque. olhou nos olhos dele. Pela primeira vez. Olhando para si mesma. mesmo tendo sido tão infeliz. Por que aquilo doía tanto? Ela devia estar contente. — Procurando uma casa — Lorenzo respondeu. No seu caso. Correu para o carro. Tinha lhe permitido uma sublime indiferença àquele seu caráter arrogante. A julgar pelo olhar. Por um segundo. ela refletia sobre o passado. incapaz de compreender que o mundo não existia em função dele. Uma parte dela sabia que era melhor não voltar a vê-lo. Tinha começado a chover. Jéssica não gostou do plural. — Que tempo horrível — ela murmurou. Vou ter de fazer isso de vez em quando para ver de perto a empresa de seu pai. Familiar demais. os dois molhados. Emily Baker estava lá. Ele era como uma criança teimosa. Mas como poderia? Aos olhos de todos. Aquilo explicava muitas coisas. De seus pais. pois minha mãe não voltaria a tocar no assunto e Emily certamente não falava nisso todo dia. De novo. — Também acho. De Emily Baker. Claro que não dei importância. começaram a conversar. A conversa teria sido esquecida. De certa forma. Achou que eu ria dele e disse que se vingaria. obviamente. ele me acusou de menosprezá-lo. Emily acabou abrindo o coração. Mas ele acabou conseguindo o que queria. Não foi? Isabel refletia sobre o que acabava de saber. por causa dela. Isabel pensava sobre o que Lo-renzo tinha dito. Depois de se remoer alguns meses. Isabel deixou os dois lá embaixo e foi para seu quarto. — Quando minha mãe já ia embora. escovando o cabelo. E Lorenzo. Já encontrou? —Estamos tentando — Lorenzo respondeu. Mas outra parte ainda achava que vê-lo de vez em quando era melhor que nada. Justa. E contou. Sentia-se culpada por algo acontecido anos atrás — Lorenzo olhou para Isabel. — Esqueci que você estava cuidando disso. Mas foi só impressão. sua irresponsabilidade. vestiu uma saia branca comprida e uma blusa branca de mangas curtas. estava livre. não era verdade. Tinha bebido demais.Certa vez. — Está ensopado. Isabel sorriu. faria tudo de novo se tivesse de fazer a escolha outra vez. como sempre. achando que eu talvez pudesse falar com ele. dar algum apoio. Para usar quando precisar voltar aqui. estava deprimida — Lorenzo parou. ela e o marido eram um casal feliz. sem rancor. Montar minha base operacional lá. o assunto era difícil. — Onde você andava? — perguntou. Teria economizado um tempo precioso. Como encontra tempo? Que bom se eu tivesse tido alguém para procurar meu apartamento em Chicago. sua dependência da bebida. Ela teria agido de outra forma em relação a Jeremy se soubesse o que sabia agora? Provavelmente não. ela nunca soube muito. Ela tinha sido forçada a casar. — Pior que em Chicago — Lorenzo concordou. Quando chegaram em casa. Mas não teremos de nos encontrar. Agora que tinha desistido de se vingar. a um lugar que tanto detestava. — Acho que eu devia voltar para a Itália. Isabel abriu a porta. — E ela tinha tido um caso com outro homem. sim — olhou para Isabel. — Você está dizendo que o marido dela não era o pai de Jeremy? — O marido era estéril — Lorenzo suspirou. E cometi o erro de rir. — E o que isso tem a ver com você? — Jeremy presumiu que minha mãe me contaria tudo. O sarcasmo com que Jeremy sempre se referia a Lorenzo. — . enquanto iam na direção da porta. — Ah. Mas Jeremy já não gostava muito de mim e. Lorenzo levantou. Isabel se perguntava por que as pessoas sempre associavam beleza com felicidade. pelo menos. Isabel pensava. Depois de um longo banho. Jéssica já estava lá. ele nunca falava. achou que ele ia beijá-la. — Acho — ela disse — que devíamos voltar. Provavelmente. O espelho mostrava excelente resultado. — Longe da chuva? Ou essa é uma forma delicada de dizer que meus esforços para encontrar uma casa foram inúteis? — Talvez não — Lorenzo deu de ombros. Isabel podia ouvir os pingos caindo na vidraça. voltaria mesmo à Itália?. não amar Jeremy tinha sido uma vantagem. Sentada à penteadeira. Ele só tinha voltado a Yorkshire. Não parecia feliz ao vê-los chegarem. — Talvez eu ainda compre a casa. olhando o nada. Mas Jeremy chegou e ouviu o que elas diziam. Mas.

Para esta não. Durante o jantar. mas. — Não será necessário. quando Jéssica disse.. fui lá ver como andavam as contas da empresa. Tarde demais. assunto particular — Jéssica foi logo dizendo. Quando cheguei aqui. continuava falando sobre as oportunidades à sua espera em Chicago. querido.E ela. mas. — Não enquanto eu não disser o que vim dizer. acreditaram. as pessoas estariam cochichando umas com as outras Ela era tão bonita. pudesse doer tanto. Isabel permanecia em silêncio. sorriso felino nos lábios. — Muito pelo contrário. Antes. teria sido impossível imaginar que vê-lo tratá-la com aquela formal cortesia. — Não investi meu tempo nesse homem a troco de nada— Jéssica prosseguiu. claro. Isabel podia imaginá-la pesando os prós e contras se envolver com Lorenzo. com sua inesgotável energia. pegou sua pasta sobre uma cadeira perto da porta. Provavelmente você achou que tinha tirado a sorte grande quando soube que ele volt aria para cá. sugerindo que sua partida seria uma lamentável perda para a comunidade. As pessoas são tão crédulas nestas . Isabel. Mal olhava para Lorenzo.. Para qualquer outra mulher. Jéssica sorriu. claro. — E melhor descermos — Isabel decidiu. como sobrou um tempinho na semana passada. ele ainda quer você. Por que deveria? Você é bonita. — Você não vai conseguir o que pretende. — Não me levem a mal. Disse-lhes que o negócio estava mais ou menos fechado e eles. parecendo falar de um negócio mal sucedido.. eu gostaria de lhe mostrar umas coisinhas — Jéssica levantou. claro. Isabel também não mostrava nenhum interesse na conversa. — Tem sim! Não sei o que houve entre vocês anos atrás. mas mulheres como você há muitas por aí. é um bom partido. Era Jéssica. Isabel pensou. manteve-se em guardadurante o resto da noite.. sorrindo: —Antes de ir. Jéssica informou casualmente que vol taria para Chicago em menos de uma semana. Você não é mulher para Lorenzo. Mas doía. Sei que o negócio ainda não foi fechado. queridinha. não achei que você fosse uma ameaça. — Posso lhe indicar algumas pessoas a quem seus serviços talvez possam interessar — Lorenzo comentou. A situação estava cada vez mais desconfortável. Dali a vinte anos. disposta a se afastar daquela atmosfera carregada. parando no meio do quarto e cruzando os braços. Sua atitude em relação a ela era de completa indiferença. olhar para ela com aquela neutralidade. seja o que for. Isabel admitiria francamene que não tinha nenhum envolvimento com t Lorenzo. Ninguém brinca com Jéssica Tate! — Não tenho nada a ver com. de ponderando se ele valia o tempoe esforço. mas acho que eu morreria se ficasse mais tempo por aqui — disse com toda sua auto-confiança. Têm a ver com a empresa de seu pai. quando teria a liberdade? Lorenzo ainda era o homem da sua vida. Tenho meus próprios contatos lá. cruzou a sala. que parecia completamente alheio à conversa. mais que isso. Ela nunca tinha se atrevido a subir àquele quarto antes. — E por que está me dizendo isso? — Só quero avisá-la de que você ainda não ganhou aguerra — Jéssica respondeu. — E mesmo? — Não se faça de inocente. — Não sou nenhumaadolescente ingénua. informada de que meus serviços não são mais necessários. O passado agora estava enterrado.Isso eu garanto — Jéssica voltou a rir. impaciente. se você se apaixonou por Lorenzo. Entretanto. olhar malicioso. Bonitas e burras. Ele é atraente. mas. Olhe para si mesma. — Sinto muito. Isabel levantou. — Coisinhas? —Sim. queridinha. como se pudesse mesmo complicar a vida de Isabel. por via das dúvidas. — Preciso falar com você. Somente Jéssica. — Queria lhe dizer que fui despedida. — Me apaixonar? — Jéssica riu. Bateram na porta. Por que não casou outra vez? Agora não dá para agarrar outro homem. enterrada aqui neste fim de mundo. Queria. Investiquatro anos nesse homem.

o que é isso.. onde gentilmente fui levada e deixada sozinha. querido. — a . — Não. queridinha. Lorenzo também estava tenso. disse que. E aconteceu algo que nunca tinha acontecido antes. estava deitada no sofá. queridinha? — Jéssica sorriu. Isabel observava cuidadosamente cada um de seus movimentos. afinal? — Lorenzo perguntou. Ligava sempre. ao ver Lorenzo.. — Isso não foi nada ético. — Por que não me disse? — Como poderia? Lorenzo deixou os papéis sobre a mesa. Infelizmente. Jéssica se retraiu.Isabel suspirou. — Você não tinha o direito. Jéssica não respondeu. Quero saber tudo. — Sua posição? Você se deixou chantagear por um homem disposto a tudo para conseguir o que queria. O que estaria pensando? — Jéssica. Jeremy. Lorenzo olhou furioso. tensa. a vida de meus pais estaria arruinada. não é mesmo. começando a perder a paciência. Lorenzo olhou para ela. Isabel olhava para Lorenzo. expressão entediada. se viesse a público. — Ele me ligou uma noite na faculdade.. não vou mais ver você. — O que seu pai fez não era o fim do mundo — Lorenzo disse. Fechou a porta. — Para você ler na cama. Começou a remexer alguns papéis. Jéssica saiu em seguida. Eu disse não. Acho que vocês têm muito que conversar. ainda mais pálida — achou isso? — Interessada. vou deixar vocês sozinhos.. Estou certa de que você vai lamentar o fato tanto quanto eu. — Não pretendo falar de negócios até altas horas da madrugada. Olhou nos seus olhos. CAPITULO IX Quando Isabel voltou a abrir os olhos. — Onde — perguntou. mãos nos bolsos da calça. Queria ir até faculdade.cidadezinhas do interior. Numa cidadezinha como esta. Mas não havia na época por que se preocupar. sem pressa.. — Aqui está — olhou para os dois. Lorenzo parou na frente dela. — Também acho — Jéssica concordou. — Jéssica. Você não quer entender. Não os tinha encontrado entre as coisas de Jeremy. olhando o relógio. Ela desmaiou. Confesso que não pude resistir. — Quem quer ver primeiro estes papéis tão interessantes? Isabel já tinha visto aqueles papéis tão interessantes. Isabel recostou na cadeira. —Você o quê? — Lorenzo levantou.. — Tente entender minha posição. Levou alguns segundos para perceber o que estava fazendo naquela posição. Lorenzo estava examinando os papéis. Sempre achei que isso só acontecia no cinema. Sentou de repente. Mais cedo ou mais tarde eles acabariam aparecendo. De testava saber que nós dois saíamos juntos. olhos arregalados. disse descoberto ter algo que mudaria minha vida. —Claro que não — ela respondeu. sem olhar para ele. Acabavam de aparecer. mas Jéssica nem ligou. Bem. — Isabel hesitou — não me deixava em paz. — Nós. Agora preciso ir. discutir o assunto. — É inútil tentar explicar alguma coisa para você. Nunca lhe contei porque você não teria gostado de saber. já é mais de meia-noite — disse. não era o fim do mundo. começou a andar pela sala. pelo menos entre eles dois. nem que tenha de arrancar a verdade de você. quando descobri o fundo falso de uma delas.. que você eraparte da minha vida. Naquela noite parecia eufórico. — Como foi que Jeremy soube disso? — Lorenzo perguntou. rispidamente. — E não tente se esquivar. Apenas lhe entregou os papéis. contabilistas. era um alívio saber que agora tudo seria esclarecido. — Não vai demorar — ela respondeu. Mas. — Mas precisava saber por que Lorenzo tinha tanto interesse naquela empresa. Estava examinando as gavetas da mesa de seu ex-marido. onde todos se conhecem. olhar inexpressivo. Jéssica abriu a pasta. temos um talento especial para achar coisas interessantes. — Muito fácil. A expressão de triunfo no rosto daquela mulher era mesmo preocupante.. De certa forma.

— Se fosse um caso com outra mulher. mas uns por algum motivo não foram. Dizia que tinha alguns papéis. mas. embora eu não soubesse por quê. de — Jeremy tinha vasculhado velhos arquivos. —. — Ele se contentava em me exibir. o Ofereceu a Isabel.. Queria me separar de você. está insinuando que eu poderia tirar proveito da informação? Sua insinuação não podia ser mais insultuosa. Não parecia inclinado a perdoá-la. dizia que isso o ajudava a pensar. — Eu não podia. Submissão era algo contrário à sua natureza. — Por que eu deveria lhe contar tudo quatro anos depois? Você me odeia. saber que tinha destruído o que tinha havido entre nós dois. — Isabel respirou fundo. Já não tinha nenhuma influência sobre você. Olhar nos olhos Lorenzo era impossível.. Isabel assentiu. Não importava o que ele tivesse feito. — Ele me escreveu.. Disse-lhe para não me procurar mais. — Mas os papéis que vi seriam suficientes para incriminá-lo. Lorenzo. eu ficaria preocupada. — O que mais ele a induziu a fazer.Isabel lembrava o que tinha dito. Se viesse a público que ele estava desviando dinheiro.. porém. Encontrou papéis que deviam ter ido para o lixo. que estava apaixonada por Lorenzo. Era sua própria caligrafia. que recusou. era outro. O silêncio na sala triturava seus ouvidos. —Papai era um dos pilares da comunidade. era inútil. — Comprometia a credibilidade de seu pai — Lorenzo resumiu. Mamãe ficaria magoada. A gente se conhecia desde criança. — Teria sido inútil. apenas sussurrava. — Então a dócil Isabel resolveu ceder à pressão e concordou em posar de esposa submissa — o desprezo na voz dele era insuportável. Até você me contar sobre a mãe dele. Você sabe como ele era. provocar inveja nos amigos. Jeremy poderia destruílo se quisesse.. Algo que ele nunca conseguiria entender. mas seria diferente. Nesses arquivos havia provas de fraude contra a empresa. Isabel olhou bem nos olhos dele. — Você viu as faturas? — Provavelmente foram destruídas — Isabel sacudiu a cabeça. mas não podia repetir isso agora — disse que estava envolvida com você. Saía sempre em viagens de negócios — Isabel já não falava. — E concordou em fazer o que Jeremy queria? — Eu não tinha escolha. Ele teria divulgado o que sabia. — Você chegou a falar com ele? — Claro que não! Eu amava meu pai. mas papai parecia ter criado algumas empresas fictícias. Eu não podia permitir. . Isabel. — E depois. o segredo que Isabel tinha guar dado a sete chaves... o que houve? — Lorenzo levantou. E agora está insinuando que eu devia ter confiado em você? —E você. Ele tentou. — E o que você acha que eu devia ter feito? O que teria feito se eu tivesse lhe contado? Provavelmente teria procurado Jeremy para trucidá-lo! — Era o que ele merecia. —Você devia ter me contado. Ele estava obcecado.. — Isabel baixou a cabeça. ou coisa parecida. claro. acho que eu sentia pena dele. para poder fazer pagamentos a fornece dores inexistentes. —E por que você não me contou isso quando voltei? —Lorenzo perguntou.. durante tanto tempo que ele já parecia fazer parte dela. que mostravam que meu pai. Pegou uma bebida. — Como poderia? —Jeremy estava morto. desolada. Acho que não demorou a procurar outras mulheres. — De que adiantaria? Além disso. mas as pessoas esqueceriam o assunto em poucas se manas.E daí? — Isabel perguntou. tentando me convencer de que aquilo não era verdade. Deixou isso claro logo que voltou aqui. Foi até bar no canto da sala. O caso. finalmente. Papai costumava anotar e guardar tudo. Engoliu a bebida num gole só. eu tam bém. Isabel? A fazer amor com ele? — Por que quer saber? Que diferença faz? — Fale! — Eu. — Provas? — Li e reli aqueles papéis — Isabel prosseguiu cabisbaixa —.. apavorada com o que via naqueles olhos. Ali estava.

O silêncio da última vez. — Você não demorou a curar seu orgulho ferido... Voltou falando em ódio. — Não quero sentir o que sinto por você — ele murmurava. por que tentar resistir? Ela não tinha sonhado com isso durante todos estes anos? Lorenzo a pegou no colo. Imóvel. iam se tornando cada vez mais frenéticos. descia pelos seios. Subjugada pelos braços dele. Agora. não quero acreditar que nunca estarei livre deste amor. Não deorou a desistir. Completamente fora de si. disse: — É hora de ir embora. Lorenzo? — Ainda não terminamos. Levou para o tapete em frente à lareira. é que você não confiava em mim. Mas era inevitável. Isabel sentia os olhos lacrimejarem. tirou a calcinha. Não demoro. explorando o âmago de seu ser. — Sabe sim — Lorenzo a agarrou. tão ofegante quanto ela. Melhor ele não saber o quanto ela ainda o amava. Tudo tinha de ser como ele queria. Voltou aqui com Jéssica Tate a tiracolo. ele ainda a desejava. Seus movimentos. Quando se afastou de mim. beijando-a sem parar. mas Lorenzo não deixava. Deitado a seu lado outra vez. Em seguida. Com o tempo. A verdade. acariciando seus seios. mas no fundo era uma criança.. vingança. Isabel sabia o que ele pretendia. entreabriu os lábios. deixando claro que tipo de relacionamento tinha com ela! Quantas mais além dela. —Não. — Não posso suportar a ideia de que ele tocava você. — Eu poderia ter falado com ele. vulnerável. até finalmente chegar ao orgasmo. Despiu-se rapidamente. você era um estranho ao voltar. sentindo dentro de si um fogo cada vez mais intenso. afinal. Sua língua irrequieta não parava. Lorenzo deitou sobre ela. — Não me diga que passou o tempo todo lamentando — murmurou. Lorenzo abriu os botões de sua blusa. não poderia. Isabel — Lorenzo cerrou os dentes —. Isabel dizia para si mesma. Lorenzo seguia acariciando e beijando cada centímetro de seu corpo. sempre havia o que dizer depois. Melhor assim. Calado. Isabel — ele murmurava. Podia proceder como adulto quando era necessário. Minha mãe estava doente. delirava. Vivi com ele quatro anos. Isabel contemplava cada linha de seu corpo como se nunca o tivesse visto antes. Há muito tempo. E precisava satisfazer seu desejo. — Vou pegar minhas coisas. Além disso. Sua língua procurava a dele com incontida voracidade. coxas. Lentamente. Não se atrevia a olhar para ele. — Não sei do que você está falando. Você se afastou de mim! Isabel já não sabia o que dizer. Deitou a seu lado. Beijou seus lábios com raiva e desejo. Afastando suas pernas uma da outra. Sem parar de beijá-la. provocando nela um desejo alucinante. Sem nenhuma entonação. eu também"." Lorenzo beijava seus lábios. em princípio lentos. Começou a se vestir. voz rouca. Emocionalmente. Depois o fecho do sutiã de renda. muito diferente do Lorenzo que conheci. "Não quero amá-lo como amo. Nunca confiou! — Não é verdade! —Não? — Lorenzo escarneceu. . quando eram amantes. Na verdade. Mesmo assim. Desabotoou a camisa. até encontrarem ambos uma harmonia perfeita e seus corpos se tornarem um só. você deixou algo inacabado. posto algum juízo naquela cabeça dura.. estacionou sobre seu segredo mais íntimo. estômago. Tirou a saia. Ainda tremia quando Lorenzo deitou a seu lado. —Você renunciou à própria vida. Isabel ouvia apenas o silêncio. cintura. O que estaria ele pensando? Estaria satisfeito. beijando seus mamilos endurecidos. aprendi a evitá-lo. Isabel olhava para ele com um misto de tristeza e prazer. ela já não significava mais nada para ele. beijando seu pescoço. Lorenzo. "Eu também. Completamente nua. agora que tinha conseguido o que queria? Lorenzo levantou. —Eu. Isabel sabia que perderia mais do que ganharia se fizesse amor com ele. enquanto a penetrava lentamente. Isabel gemia. Estava cansada de se defender. Jeremy nunca cresceu. Mas.. Isabel tentava escapar. mas não podia correr o risco..não achava que você fizesse isso. Lorenzo levantou. Um a um. Mas Isabel já não ouvia nada. Lorenzo abriu o zíper de sua saia.

Boa sorte. Isabel não respondeu. surpresa. Estou certa de que ele teria ficado se não fosse algo importante — a sra. — Tudo bem — Isabel levantou. — Peça desculpas à sua mãe por eu não estar aqui quando ela voltar. Depois vou para a Itália.começou a subir a escada. Não vai. A fita dizia que Abigail não podia atender no momento. estar com ele causava apreensão. querida. — Dormir demais faz mal à saúde. Estava escuro lá. Ele vai voltar. A porta da frente fechando atrás dele. Para nunca mais voltar. nenhum problema com a mãe dele. claro. a partida no motor do carro. Ainda bem. — Nada. Ao chegarem lá em cima. Isabel logo desligou. Só queria saber como você estava. ela estava sempre viajando pelo país. sentindo uma estranha sensação de vazio. Um sorriso capaz de convencer os pacientes de que ela andava de muito bom humor. Tenho certeza. — Para onde você vai? — Londres. -— Querida.. a luz dos faróis iluminando a escuridão. E decidiu que o melhor a fazer era seguir vivendo. — gaguejou — porque parecia o melhor a fazer na ocasião. Era inútil esticar o assunto. Agora. — Adeus. — No Edwardian? Lorenzo se voltou. Se voltar. Quando estava no país. — Mas Lorenzo vai voltar. — Mas você nunca me liga. — Não se preocupe. — Claro. Também estou certa de que você vai sentir falta dele. Mas se enganou. Era Abigail.para a empresa de seu pai. Naquela sua profissão. Precisava falar com alguém. Não acendeu a luz. imóvel. Três toques e a secretária eletrônica atendeu. Sabia que Abigail só ligava de volta para bem poucas pessoas. O problema era encontrá-la. Izzy. Apesar da sinceridade contida na gravação. Não dava para ver seu rosto. — Todos nós cometemos erros. Algum tempo depois. — Algum problema com a mãe dele? — Não. enquanto ele ia para bem longe daquela cidadezinha. Ficou ali. bocejando. — Não. Sorriu. Devo ficar lá alguns dias. Como tinha aprendido a fazer ao longo dos últimos anos. Na sexta-feira. Isabel sentia uma necessidade compulsiva de continuar a conversa. — E um lugar meio sinistro. E nunca na velocidade da luz. Mas tão logo ficava sozinha. apenas imaginou. Ele apenas achou que devia ir. ouviu passos no corredor. O que houve? Isabel sentou. — Mas por que ele foi embora tão de repente? — sua mãe perguntou quando ligou no dia seguinte. Isabel sorriu. por que casou com Jeremy? Isabel arregalou os olhos. Dez minutos depois. Porque sabia que ali era o fim da linha. mas não sabia que dizer. — E quanto à casa? — Seria bobagem — Lorenzo deu de ombros. na velocidade da luz. Agora que estava tudo acabado. começava a contemplar o túnel comprido e escuro à sua frente. preferindo não insistir no as sunto. —A mãe suspirou a quilómetros de distância. — P-porque. o telefone tocou. Onde estaria agora? Londres? Manchester? Birmingham? Isabel ligou para seu número em Londres. seguindo em direção à escada. se você ainda o ama. Isabel. Chandler concordou. — Eu estava aqui. Resolveu ligar para Abigail. mamãe. Começou a se vestir também. Lorenzo. queria estar perto enquanto fosse possível. e disse: — Adeus. — Claro — Isabel respondeu. Lorenzo se voltou outra vez. Isabel foi para seu quarto. sempre disposta a conceder a todos o benefício da dúvida. Não sabia o que dizer. querida. cabisbaixa. Tinha tanto para falar. não é? Mas talvez as coisas melhorem por lá —. — Posso ficar num hotel quando voltar aqui. Deixe tudo por conta de Clark. Assim ele também não poderia ver o dela. O resto. Você vai achar outro comprador . mas ligaria de volta. Antes. Sorrir para o mundo. — Eu precisaria dormir uma semana — Abigail respondeu. Isabel estava a ponto de enlouquecer.. Sentou na cama. Mas não podia atender quando você ligou. Isabel passou sorrindo os dois dias seguintes.

Um dos atores. Fazia meses que ela não ia a Londres. Nova York. Talvez alguns anos viajando a fizessem esquecer Lorenzo Cicolla. apenas trazia outros. Mas não conseguia parar de falar. com sua costumeira franqueza: — Que encrenca. como sempre. Depois de andar bastante. . Você vai ter de se virar sozinha — Abigail prosseguiu. coma alguma coisa e depois vá fazer compras. E uma ordem! Compre uma roupa bem bonita para ir ao teatro. lendo o programa e lembrando de quando as duas tinham dez anos. assim ela poderia se concentrar no segundo ato. Que sorte a sua. de pé. disse tudo. Venha para cá. Eram apenas cinco atores no elenco. Seu lugar era entre as poltronas da frente. Só não disse nada sobre Jeremy e os motivos que a tinham levado àquele fatídico casamento. não há quem goste de ouvir problemas dos outros. Na verdade. Ela já se sentia menos deprimida. Geralmente a cidade lhe dava claustrofobia. concluiu. Mais útil pensar no futuro. Vou conseguir para você um ingresso da minha peça. — As três e meia da tarde seguinte. mangas compridas. De lãzinha verde. Voltou para o apartamento de Abigail às seis e meia. Amanhã de manhã. Durante o intervalo todos pareciam ansiosos pelo segundo ato. Isabel achou um vestido lindo. — Vida dura. bem melhor do que quando tinha entrado no trem de manhã. —Não tinha com quem. Abigail não demorou a perceber o nervosismo na voz dela. E comigo — Isabel finalmente admitiu. Abigail. Isabel andava por Bond Street. não tem? Claro que tem. Também comprou sapatos. Depois. procurando nas vitrinas uma roupa para ir ao teatro. Representava com uma espontaneidade que magnetizava a atenção da plateia.falar e resolvi ligar para você — respirou fundo e começou a contar à amiga o que tinha acontecido. Talvez. Antes de viajar outra vez. Todos muito bons.Muito bem. ela e a mãe pudessem viajar durante algum. — Não vou estar em casa durante o dia. Isabel sentou entre uma elegante senhora grisalha. única mulher no elenco. o público não parava de aplaudir. Agora vou para Nova York. sob um sol pálido que só tinha aparecido para dizer ao mundo que ainda existia. em vez de ficar lembrando de Lorenzo o tempo todo. Otimo. à direita. enxugando com as costas da mão as lágrimas que rolavam pelo rosto. No fim da conversa. — Você ainda tem a chave do apartamento. A peça tinha sido bastante elogiada pela crítica e parecia não haver um único lugar desocupado no teatro. Logo você vai dizer que está indo para Tóquio. Isabel ficou onde estava. hein? Londres. pretendia resumir. — É assim que você consola uma velha amiga? — Isabel perguntou. Os realmente famosos já viram a peça na primeira noite. Isabel pensava enquanto se vestia. mas não deixava quieto o fio do telefone. Izzy? Está claro que alguma coisa não vai bem. Afinal. É a última apresentação e vai ter muita gente metida a famosa por lá. Era bom mudar de ares. Abigail disse. — Você precisa vir aqui. à esquerda. estava ótima. hein? Isabel riu. Algum problema com sua mãe? — Não. Difícil era agir com tanta sabedoria. Bobagem relembrar o passado. E foi para o teatro. Não. A campainha avisava que o intervalo tinha terminado. — Não posso. claro. Nada cansativo. Estou fazendo uma peça maravilhosa aqui. fugir da realidade nunca resolveu problema algum. Quando a peça terminou. Vai passar o fim de semana comigo. Abby. e um próspero e gordo homem de negócios. Sobre o resto. Quem podia imaginar que suas vidas mudariam tanto? Isabel fechou o programa. — Claro que pode e claro que vem. perguntou: — Cadê as minhas? Todos riram. Abigail. recebeu flores. enquanto o elenco voltava ao palco de mãos dadas para agradecer. mas agora parecia maravilhosa. mostrar seu talento aos japoneses — Isabel ria. embora as lembranças de Lorenzo teimassem em continuar vagando por sua mente. a gente sai para jantar. mas com diálogos muito espirituosos. Ficou lisonjeada quando a vendedora lhe perguntou se ela era modelo. — Qual é o problema. quando eles cansarem de me aplaudir. simulando profundo desapontamento.

Em frente a centenas de pessoas. . eu lhe disse que costumava ficar no . Sei o que casamento significa para você. desconcertada. eu gostaria de quebrar a tradição e fazer algo diferente. como. com seu carisma contagiante. mas agora estão aqui. entre os atores e as muitas pessoas que tinham ido cumprimentá-los. — Como foi que ela encontrou você? — No hotel. — Quer casar comigo? CAPITULO X Vamos sair daqui — Lorenzo disse. que Lorenzo afastou. — Aqui não é lugar para conversar. provavelmente. Abigail. — Sabe mesmo? — Bem. decidam-se — Abigail olhava para os dois. Curiosidade geral.. caso eu não possa lhe dizer isso depois. fingindo confusa inocência. com a permissão de todos. Lá fora. Isabel nem respirava. — Quero ver você quando disser o que vou dizer. onde um garçom atencioso os conduziu a uma discreta mesa no canto da sala. E ela sentiu a tontura aumentar. Lorenzo saiu do teatro com Isabel. que me conhecem desde criança. Sobre a mesa. sob o olhar atento de todos. além de excelente atriz. Vinham de todos os cantos do teatro. Quando finalmente subiu ao palco e chegou perto de Abigail. Isabel arregalou os olhos. é verdade. — Sim — Lorenzo concordou. Tiveram alguns contratempos. exultante. Abigail então segurou a mão dos dois e. Aquela altura. o que mais você poderia fazer? Com toda aquela gente olhando e esperando que você. que era tudo um sonho. havia um pequeno vaso de cravos. sem olhar para Lorenzo. Vir aqui no palco. alguém na plateia gritou: — Não vai pedir a moça em casamento? — Lorenzo. Vamos — segurou seu braço e caminharam em silêncio até um pequeno restaurante italiano... — Sorriu. — E. — Pode ir. ainda sorrindo. declarou: — Meus dois grandes amigos. caminhava por entre as poltronas. Isabel sentiu um vazio no estômago. — Isabel começou a dizer. Então. sentindo o ar frio da noite. sorrindo. — Imagino que agora vocês gostariam de ficar sozinhos.. Mas não podia recusar o convite. tão perto de Isabel que a deixava arrepiada. a maioria das pessoas ali presentes. Quando Isabel se aproximou. incapaz de dizer coisa alguma. —Eu gostaria — Abigail prosseguiu —. — Sim? Não? Talvez? O diretor se aproximou de Abigail. Estava claro que eles também queriam sair logo dali. — Eu não imaginava que Abigail fosse fazer o que fez — murmurou. Abby — Isabel respondeu. Quando a vi na Broadway e saímos para jantar. Abigail se aproximou. viu Lorenzo chegando também. Isabel não sabia como seus dedos se entrelaçaram aos de Lorenzo. ao mesmo tempo em que Isabel dizia: — Não. — Conheço um restaurantezinho ótimo perto daqui —Lorenzo sugeriu. Abigail sorriu e disse: —Também gostaria de chamar aqui meu amigo Lorenzo Cicolla. o que mais ele poderia ter feito? — Você é uma romântica incorrigível. O silêncio tomou conta do ambiente.. — Gostaram do meu improviso? Isabel ainda estava meio tonta. Tremendo. de convidar minha amiga Isabel Chandler a. Ainda estavam nos bastidores. E juntos devem ficar! Aplausos. — Precisamos conversar. Isabel disse: — Sei que você não falava a sério. Isabel já achava que aquilo não estava acontecendo. E a plateia fez silêncio. Nada cativa mais uma plateia do que o inesperado. repercutiam nas paredes.Isabel já se preparava para sair quando ouviu Abigail dizer lá no palco: — E agora.. — Isabel — Lorenzo olhou nos olhos dela. — Tudo bem — Isabel acabou concordando. muitos aplausos. — Faço o que posso — Abigail disse. deixando Isabel tonta. — Bem. juntos. E isto era inesperado. e que foram feitos um para o outro. Apenas olhava para ele. você é uma excelente cúmplice — arrematou. Claro que não tinha levado a sério aquela proposta de casamento.

ela era seu sol. Ela sabia que ele a amava. Mas.. Todos os homens daquela maldita cidadezinha sonhavam com você — Lorenzo parou. — Você era meu. Lorenzo perguntou: — Como vai sua mãe? Estranhou minha partida repentina? — Um pouco — Isabel respondeu. —Como poderia esquecer? Isabel baixou a cabeça. Queria ouvir tudo. Melhor aqui do que na presença de um frango ensopado. e um arrepio. e dela uma nota bastante atraente. Ela estava mesmo precisando. perguntou: — Por que precisamos conversar no seu apartamento? — Não faça perguntas. apropriado. que concordou.sol. Pegaram um táxi. mas. levantando e tentando imaginar o que estava acontecendo. — Fui embora pensando em voltar um dia. Isabel sentia o contato daqueles dedos. — Olhou para Isabel. em vez disso. Lorenzo afastou seu cabelo para poder ver seu rosto. mas descobrimos que não estamos com fome. — Quando você me disse que ia casar com Jeremy — prosseguiu —. O garçom logo se aproximou. confusa. sério. Isabel — ele suspirou. — Só fiz o que fiz porque.. que tinha tido a ousadia de se apaixonar pela mulher errada. embaralha os caminhos e você não sabe para onde vai indo. Quando o garçom se afastou.... — Quanto mais dinheiro eu ganhava. Lorenzo serviu uísque com soda em dois copos. — Mas na época só via duas pessoas de mesmo nível social. Não se atrevia a olhar para ele. pensativo. quando Lorenzo abriu a porta de seu apartamento. Outras vezes. era impossível manter . — Não. Por isso ele podia falar do assunto com tal serenidade. Para acalmar os nervos. Lorenzo acariciava seu cabelo e aquilo a desconcertava. — Voltei. achei que devia haver um motivo. A vida é muito estranha.. — Estou certo de que a comida estaria deliciosa. Por mais que ela tentasse. — Passei quatro anos lembrando de você — Lorenzo prosseguiu. Hoje era diferente. Isabel finalmente olhou. Querida? Ele a tinha chamado de querida? Sem ironia? — E inútil — Lorenzo disse de repente. As vezes. brincando com a haste da taça. Embora em circunstâncias bem diferentes das que tinha imaginado. Foi um alívio quando o garçom se aproximou para saber o que iam comer. — Pois não. mais lembrava de você. Mesmo assim. Mas isso tinha sido há muito tempo.. — E você? Estranhou? — Por que deveria? — Porque não foi uma despedida amistosa. — O que viemos fazer aqui? — Isabel perguntou. Isabel sabia para onde ele a estava levando. — E voltou. relembrando o passado. — Conversar. Mas ouvi-lo dizer aquilo agora cortava o coração. tirando a carteira do bolso. apreensivo com aquela situação inesperada. Isabel. ansioso. Ele a amava.. — Lembro tudo sobre você. achei melhor ir embora. — Não é sua bebida preferida.Savoy quando estava aqui em Londres. Lorenzo estava destilando toda a sua amargura. querida. Eu adorava você. — Como poderia? — Agora vejo que não — ele admitiu.. com todo o dinheiro e poder necessários para ter você — Lorenzo prosseguiu. Entraram. Nada errado — Lorenzo respondeu.. Você não pode imaginar como eu a amava quando você. E você nunca negou isso. E a mim como um intruso. cavalheiro. — Lorenzo sentou a seu lado. Queria matar vocês dois. Eu queria matá-lo quando ele separou você de mim.. — Olhe para mim — ele disse. — Não. Claro que podia. Logo chegaram ao Savoy. Alguma coisa errada? — perguntou. — Você lembra — ela murmurou. Ela queria ouvir. Com tal indiferença. Melhor deixá-lo ir até o fim. Sempre soube que você poderia ter o homem que quisesse. Isabel não queria interromper. levantando. mostra claramente o caminho a seguir. Saíram do restaurante. Mas era fácil acreditar quando ele dizia ser mais. Apenas sente e ouça. mesmo sabendo aonde aquela confissão ia levar..

EPÍLOGO Isabel nunca tinha imaginado que um dia poderia olhar as coisas de Jeremy com tal tranquilidade. Isabel estendeu-se na cama. Isabel sentia ter chegado o momento tão ansiosamente esperado durante tantos anos. Desta vez havia só ternura. falar do passado no mesmo tom. Agora. mas não podiam fazer nada. deitando a seu lado. — Mas era a oportunidade de acertar contas comigo. Esperei por este momento metade da minha vida. via que podia. Mais. — Você é tão linda — Lorenzo murmurou. E Isabel sentiu o coração acelerar. E Isabel se livrou dele rapidamente. — Não sinto ódio por você. Isabel — ele disse num tom estranho. olhando para aquela mala à sua frente. olhando nos olhos dela. quer casar comigo? Quero — Isabel riu. fascinado. Apenas com amor. quando vi você naquele escritório. voltei a sentir a mesma raiva de antes. já sem camisa. — Parecia inevitável. Acariciando o cabelo de Lorenzo. — E agora — Lorenzo disse mais tarde. — Ódio? — Lorenzo olhou. Como no dia de seu casamento. — Sim. O momento em que ele a tocaria sem rancor. Eu sempre evitava o assunto. — Ele era inseguro — Lorenzo respondeu. Sim. — Nunca deixei de amá-la. — Lorenzo. É isso o que você acha? — Talvez não agora. Isabel sentia aquela deliciosa sensação de estar em casa.. Deteve-se sobre um dos seios. acariciando seu corpo por sobre o delicado tecido do vestido. Sabiam que havia algo errado. Não pretendia forçá-la a casar comigo. até que finalmente o mundo pareceu parar de girar. mais. mordiscando o mamilo endurecido até Isabel sentir vontade de gritar. sorrindo enquanto ele a olhava. Lorenzo. Aquela sensação deliciosa. Lorenzo a tinha" feito mudar de atitude. Isabel abria as pernas. Lorenzo. mas foi um pesadelo. Seu corpo se contorcia de encontro ao dele.a calma. antes que a vida os separasse.. Nada poderia mudar isso. ia se tornando cada vez mais intensa. beijando seus seios. a mesma ternura que dividiam quando jovens. Queria você como nunca quis ninguém em toda a minha vida. Desde antes de saber sobre a mãe. você me ama mesmo? — Sim. Isabel. sem nenhuma amargura.. — Amo você. enquanto os lábios de Lorenzo davam início a uma lenta e minuciosa exploração de seu corpo. Achei que poderia enterrar o passado para sempre. . — Fiquei chocado quando soube daquele acidente. Sempre amei. Talvez agora sinta apenas indiferença. Jeremy jamais poderia destruir o que sinto por você..No começo. Demorou algum tempo para começar a entender por que você fez o que fez.. Quando soube por que você casou. Quando a pegou no colo e a levou para a cama. estimulando aquela ansiosa exploração. Quando Lorenzo finalmente começava a invadi-la. — Como poderia? — Lorenzo segurou seu rosto. — O ódio é um sentimento muito poderoso. fiquei furioso. Vim para Londres. Mas precisava saber por que você tinha casado. Lorenzo beijou seus lábios ternamente. apoiado no cotovelo. olhando nos olhos dela — que estamos aqui sozinhos e não há centenas de pessoas olhando. — Sempre foi. Contorceu-se ao senti-los pairando sobre a essência de sua feminilidade. — Eles nunca desconfiaram de nada? — Provavelmente. alucinante. mas olhava para você e sentia que você tinha de ser minha. Lorenzo voltava pelo mesmo caminho. acariciando o rosto dele. mais. Após o que pareceu um tempo interminável. O coração disparou. Isabel se sentia andando à beira de um precipício. Mas. — Passei quatro anos enclausurada. como se fosse a primeira vez. O que me mantinha viva era pensar em você e meus pais. aquela estranha sensação de estar prisioneira de uma paixão impossível de ser contida. ressentimento. achei que você não confiava em mim. — Deve ter sido horrível. nem conseguia pensar direito. Desta vez não havia raiva. Sim. Lorenzo abriu o zíper de seu vestido. — Amo você. incrédulo.

com apenas alguns parentes e amigos mais chegados. todas as contas. Antes. Começou a ler. numa cerimónia simples. Talvez não apenas o casamento. E aqui estava o resto da história. No fundo. Isabel já ia fechar a mala quando percebeu alguma coisa estranha no fundo. Foi o dia mais feliz de sua vida. dentro de um compartimento com zíper. Isabel foi até a janela. O empréstimo bancário. Era a letra de seu pai. Tinha mostrado só o que interessava mostrar. o que só agora tinha resolvido fazer. O caderno estava cheio de suas costumeiras anotações. no próximo fim de semana. Tinha domado o tigre. o caderno nas mãos. redecorando sua nova casa e recuperando o tempo perdido. E ela não estava de branco. Sorrindo. Deixou perto da porta. Um caderno. Ler aquilo não levou mais de quinze minutos. FIM . Isabel dizia para si mesma que talvez fosse o bebé que estava ali o maior responsável por aquela mudança de comportamento. Isabel fechou a mala. Mas não perderia a calma. Jeremy tinha escondido tudo. talvez algo mais. As poucas coisas que ainda restavam naquela casa iriam para uma instituição de caridade. o dinheiro que nunca tinha sido roubado. ela sempre soube que o pai não tinha desviado dinheiro algum. Isabel sorriu. Lorenzo também sorriria ao ver aquilo. A casa devia estar vazia quando seus novos donos mudassem.Tinham casado fazia sete meses. ela e Lorenzo tinham estado muito ocupados. Acariciando a própria barriga. Isabel começou a pôr na mala aquelas últimas roupas. como ele costumava dizer agora. O casamento o tinha domesticado. Ainda sorrindo.