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Indicadores de Capital Social numa Organização de Terceiro Setor: Uma Visão Comparativa entre a Percepção do Público Interno e Externo

Autoria: Lucila Maria de Souza Campos, Denise Maria Sapelli

Resumo As organizações que compõem o terceiro setor auxiliam a criação e manutenção dos vínculos de confiança e reciprocidade que são a base para o funcionamento da sociedade democrática e da economia de mercado. Este estudo tem por objetivo geral analisar como se manifestam os indicadores de capital social de uma organização do terceiro setor, sob a ótica de seu público interno (dirigentes e funcionários) e externo (voluntários, doadores e beneficiados). Para tanto, foi desenvolvido um estudo de caso que possibilitou a coleta de dados para posterior análise. A ferramenta utilizada para análise dos dados foi a análise multivariada de clusters, executada por meio de dendrogramas e tabelas de distribuição dos agrupamentos, caracterizando-a então por uma pesquisa quantitativa. O instrumento de coleta foi embasado no questionário desenvolvido por Grootaert et al (2004) para o Banco Mundial. Os resultados obtidos atestaram a presença dos indicadores de capital social dentro da organização pesquisada, tanto em seu público interno quanto externo, porém com diferenças significativas na forma como são percebidos. 1. Introdução O presente artigo relaciona duas temáticas que estão sendo cada vez mais pesquisadas e discutidas na área de gestão social: o capital social e o terceiro setor. Embora o conceito de capital social não seja novo, ele ganhou maior notoriedade a partir do livro de Robert Putnam publicado em 1993, Making Democracy Work: Civic Traditions in Modern Italy – Comunidade e democracia: a experiência da Itália Moderna. A relação de capital social e sociedade surge no texto de Evans, que descreve as características pré-existentes de capital social como recursos valiosos para construir uma relação sinérgica entre o Estado e a sociedade civil, mas que não podem ser consideradas como o fator único de decisão. Para Evans as comunidades que desfrutam os benefícios da sinergia não desfrutam e nem sempre apresentam índices prévios excepcionais de capital social (ABRAMOVAY, 1998). Já o termo Terceiro Setor surgiu para conceituar as organizações da sociedade civil, sem fins lucrativos, criadas e mantidas com ênfase na participação voluntária, que têm como foco a atuação na área social visando à solução dos problemas sociais (IOSCHPE, 2000). Entende-se que a expansão do Terceiro Setor, como tem se apresentado nas últimas décadas no Brasil, possibilitou uma grande diversificação das organizações que o compõem, tanto por causa do campo de ação quanto pelas formas de atuação dessas organizações. Para Cardoso (1997), na década de 80, foram as ONGs que articularam recursos e experiências na sociedade, ganhando visibilidade e novos espaços de participação cidadã. A autora ressalta que hoje essas organizações são compostas por instituições filantrópicas, organizações voltadas para a defesa dos direitos de grupos específicos, trabalho voluntário e o fenômeno crescente da filantropia empresarial. Em função disto, o que se pode observar é um crescente consenso sobre as limitações do papel do Estado como agente de desenvolvimento e dos pontos positivos do envolvimento das instituições do Terceiro Setor para suprir essa deficiência (SALAMON, 1994, 1998). Para Eikenberry e Kluver (2004), as organizações do terceiro setor também são importantes, pois reforçam a sociedade civil através de seus papéis de guardiãs de valores, provedoras de serviços e construtoras de capital social. Desta forma, parece oportuno refletir sobre a seguinte questão: existe congruência entre a percepção dos públicos/grupos envolvidos em uma organização do terceiro setor sobre a manifestação dos indicadores de capital social? 1

ARIZPE. E. 1998). de acordo com Hutchinson e Vidal (2004). 2003). o capital físico é construído pela sociedade. passaram a distinguir quatro formas básicas de capital na avaliação de projetos de desenvolvimento: natural. as máquinas e equipamentos. sendo a palavra capital definida como suprimento de valores que facilitam ações. 2004). 2004. Desta maneira. e o capital social trata-se de conceito inovador nas análises e propostas de desenvolvimento. nas últimas décadas. também. possivelmente. financeiro (HUTCHINSON. 2 . ARIZPE. foi Bourdieu que em 1986 adicionou as três novas formas de capital já citadas: humano. privilegia-se a contribuição do capital social e humano para o desenvolvimento tecnológico. mas também para aqueles interessados no estudo acadêmico do capital social. 2004). estimular a confiabilidade nas relações sociais e agilizar o fluxo de informações. localizada na cidade de Blumenau. que enquanto o capital humano é fruto das ações dos indivíduos em busca de aprendizado e aperfeiçoamento. outras formas de capital podem ser inseridas neste contexto. Capital Social e Terceiro Setor Economistas do século XIX. D’ARAÚJO. doadores e beneficiados). Através de estudos. para. a construção de capital social atinge favoravelmente a coesão da família. saúde e acesso à informação da população. falavam apenas de dois tipos de capital: físico e financeiro. de acordo com Hutchinson e Vidal (2004). em organizações do terceiro setor. físico. VIDAL. estado de Santa Catarina. 2004. expressa a capacidade de uma sociedade estabelecer laços de confiança interpessoal e redes de cooperação com a intenção de produzir bens coletivos. 1998). físico (HUTCHINSON. 1998. 1998). Ao tentar desvendar as causas da dinâmica de expansão do sistema de produção capitalista. São esses valores positivos que têm o potencial de atrair voluntários e militantes em ONGs e movimentos sociais. VIDAL. são melhor entendidas quando analisadas através de suas reciprocidades e interdependências. Mas. O capital natural é constituído pelos recursos naturais aproveitáveis em cada espaço geográficoecológico. Espera-se que os resultados obtidos contribuam não somente para a organização estudada. 2004) e intelectual (BUENO et al. VIDAL. sob a ótica de seus públicos: interno (dirigentes e funcionários) e externo (voluntários. A cultura. cultural e social. ainda. 2004). Rattner (2003) relata. Rattner (2003) ressalta ainda que as predominâncias de valores que são contrários à solidariedade e cooperação ajudam a expandir as redes de corrupção e delinqüência em quaisquer que sejam os níveis da sociedade. constitui o campo de ação onde a sociedade gera seus valores e os passa de geração a geração. em especial. VIDAL. o capital humano é resultado do nível de educação. por sua vez. mas. VIDAL.O objetivo deste artigo é apresentar os resultados de uma pesquisa que analisou como se manifestam os indicadores de capital social de uma organização do terceiro setor. social (HUTCHINSON. 2004. 2. o capital social é fundamentado nas relações entre os atores sociais que estabelecem entre si expectativas e obrigações mútuas. incluindo Karl Marx. ARIZPE. que para o melhor entendimento do conceito capital social é necessário compreender os conceitos de capital humano e cultural. Esses outros tipos de capital podem ser classificados como: humano (HUTCHINSON. o aumento da produtividade e o próprio crescimento da economia (ARIZPE. Todas as formas de capital podem ser entendidas de maneira independente. VIDAL. Contrariamente à formação de capital humano que estimula o individualismo. para estudar capital social torna-se necessário que este seja situado em um contexto que inclua outros tipos de capital (HUTCHINSON. o sistema financeiro. Os economistas do Banco Mundial determinam que o capital natural também é parte integrante desse contexto. humano e social. cultural (HUTCHINSON. Os autores salientam. tanto internas quanto externas. da comunidade e da sociedade. desta maneira. tal como a infra-estrutura.

A diferença. a criação de capital social. podendo produzir benefícios. Para o mesmo autor. Para Putnam (1993. 2003). normas e laços de confiança que facilitam a coordenação e cooperação para benefícios mútuos. 151).. o capital pertence a uma coletividade ou a uma comunidade. além dos níveis do indivíduo e da família. sendo que quanto mais o indivíduo interage com os outros. Este pensamento é corroborado por Franco (2001. intenções. segundo o autor. mais ele está apto a reconhecer comportamentos. o capital social de uma comunidade pode ser entendido como a capacidade de interação dos indivíduos com os que estão ao seu redor. capital social refere-se à associação. Capital social é um conceito que demanda do campo sociológico (MELÉ. p. p. 2003). Recebe várias atribuições.. Desta forma. isto é. porém. faz-se necessária a capacitação e uma infraestrutura organizacional que permita o desenvolvimento destes capitais. datado de 1961. Para o autor. capital social é capital porque. Significa que o capital social existe e cresce a partir de relações de confiança e cooperação e não de relações baseadas no antagonismo. para tanto. 1996). é que o capital humano é passado através da transmissão de certas atitudes e conhecimentos específicos e o capital social necessita incutir normas e valores compartilhados e isto só se consegue mediante hábito. de acordo com Fukuyama (2003). a noção de capital social indica que os recursos são compartilhados no nível de um grupo e sociedade. tendo estoques e uma série de valores. De acordo com Costa (2004). é a sua utilização que o faz crescer. experiência compartilhada e através de um exemplo de liderança. Na definição de Milani (2003). pois isso só se consegue através do investimento em educação e. pode-se dizer que o capital social consiste no potencial de relacionamento e na capacidade de interação dos indivíduos. Com relação à utilização do termo. utilizando a linguagem dos economistas. por isso.] capital social refere-se a aspectos da organização social. p. aportando contribuições novas e substantivas para desvendar o processo de sua formação em comunidade”. 90) afirma ainda que Jane Jacobs não somente usou a expressão capital social. em 1961. a autora usa a expressão capital social para falar das redes de relações do bairro: “essas redes são o capital social urbano insubstituível” (JACOBS. de um bem ou serviço de troca. pois quanto menos alguém interage. valores. é de suma importância a confiança. 1961. como sendo focado para comunidades (PUTNAM. E o inverso também se aplica. No seu livro Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas. que afirma que a autora teria sido a primeira a explorar. a “intimidade sociológica do fenômeno que se quer captar com o conceito de capital social”. pelo contrário. capital social não se gasta com o uso. ele é compartilhado e não pertence somente a indivíduos. Não se trata. 85). Nesse sentido. menos esse indivíduo tenderá a desenvolver plenamente essa habilidade que é a percepção do outro. competências e conhecimentos que compõem seu meio. Franco (2001. Pode ser um dos elementos estratégicos fundamentais para avaliar a sustentabilidade de projetos e políticas. O capital social refere-se a recursos que são acumulados e que podem ser utilizados e mantidos para uso futuro. 2). mas também “desenvolveu este conceito. 2002) e nações (FUKUYAMA. KWON. ele se acumula. tais como redes. p. Sabe-se que para a criação de projetos coletivos há a necessidade do engajamento de muitos na ação e. para Putnam (1995). Capital social aumenta os benefícios de investimento em capital físico e humano. [. não é tão diferente quanto à criação de capital humano para a organização. Jane Jacobs teria sido a primeira pessoa a utilizar o termo capital social com o teor que se conhece atualmente. 3 .Portanto. a interação e o bom relacionamento entre os indivíduos das comunidades. redes sociais (ADLER.

também. esses dois componentes poderiam ser caracterizados respectivamente como o que as pessoas fazem e o que as pessoas sentem em termos de relações sociais (HARPMAN. tais quais os papéis e regras. Como forma secundária. Krishna e Uphoff (1999) dividem. uma associação comunitária não atesta uma conexão forte entre as pessoas desta comunidade. 2002). E é neste aspecto que entram as redes sociais. às vezes. b) orientação para ação. Já o capital social cognitivo refere-se ao partilhar das normas. também. SVENDSEN. Há dois tipos distintos de capital social – o estrutural e o cognitivo. atitudes e crenças. 1999). as formas primárias são aquelas relativamente objetivas e observáveis. o custo diminui e pode. confiança. e as pessoas acabam por usá-la. sendo a base das relações e instituições de capital social (FERRAREZI. THOMAS. As normas. procedimentos e precedentes. redes sociais ou outras estruturas sociais suplementadas por regras. Quando o fator confiança encontra-se presente. No geral. quanto cada um está disposto a agir. É essa reciprocidade que rege as relações informais e formais na comunidade. GRANT. A orientação para ação (b) é composta pelas variáveis cooperação (meios) e. pela associação não ser voluntária ou. como formas primárias e secundárias. Essas formas não são necessariamente complementares. social e afetiva. através da ligação entre os grupos. como sendo ações que estabelecem a validade e o valor de certos papéis e regras. o custo das transações é mais baixo. com particularidades próprias de cada cultura.Ocampo (2003) expõe que a base para a construção do capital social é encontrada em todas as sociedades. valores. tão esquecida que é justamente a de reconhecer no outro. Em pesquisa posterior. suas habilidades. percebendo-os e incluindo-os em seu universo de referência. Um dos aspectos essenciais para a consolidação de projetos coletivos que necessitam do engajamento de muitas pessoas em ações específicas é o sentimento de confiança mútua que precisa existir em maior ou menor escala entre as pessoas que estão interagindo. UPHOFF. Esse tipo de inclusão diz respeito à atitude tão simples e. SVENDSEN. que compõem o capital social cognitivo criam e reforçam uma interdependência positiva das funções de utilidade e que suportam ações coletivas de benefícios mútuos. por causa da relação direta que há entre os participantes de um grupo reduzido (PALDAM. hábitos etc. incrementar a produção em sociedade (PALDAM. principalmente. valores. competências. e solidariedade – como os fins para se relacionar com as outras pessoas. 1999). A orientação para com os outros (a) inclui as variáveis confiança/reciprocidade – como meios para se relacionar com os outros. pela generosidade (finalidade desta ação para com os outros). com isso. Como exemplo. conhecimentos. A forma primária está dividida em: a) orientação para com os outros – como pensam e agem com os outros e. atitudes e crenças. Para o capital social estrutural. De maneira simples. 2003). buscando atingir suas metas quanto à satisfação de suas necessidades de ordem econômica. por outros fatores externos utilizados para a criação da associação (KRISHNA. o capital social cognitivo em duas formas principais: primárias e secundárias. o número das transações pode ser reforçado e. Krishna e Uphoff (1999) dividem as formas de capital social de duas maneiras. Confiança pode ser importante para a economia crescer. as ações coletivas e as decisões que necessitam ser tomadas através da determinação de funções. Para Putnam (1993) a confiança garante que ninguém irá levar vantagem sobre outro. e os relacionamentos pessoais. ela é mais fácil de ser estabelecida em um grupo pequeno do que no grande grupo. também. É relativamente uma construção externa. por vezes. Construir confiança está ligado de forma direta à capacidade de relacionamento com os outros. encontram-se os procedimentos e precedentes. 1999). pois fomentam a confiança. O capital social estrutural facilita o fluxo da informação. pois se há confiança 4 . pois se as pessoas que estão participando da transação confiam uma nas outras.

construção de mais capital social. e. como associações. este grupo também irá transmitir isso a outro e assim sucessivamente. de estado para nação. conforme apresentado por Lima (2003): • ser desenvolvido de acordo com premissas conceituais e operacionais. apresenta três importantes razões para que se meça o índice de capital social. da Universidade Harvard Kennedy School of Government. o nível de confiança e. a infra-estrutura organizacional da comunidade.na relação com um determinado grupo. • ser definido claramente e de fácil entendimento. Quênia e em países da região andina. já que todas as atividades que envolvem pessoas podem auxiliar na criação de capital social. a FAO (Food and Agricultura Organisation). isto é. coordenado por Robert Putnam. o comprometimento da comunidade. depois as características das redes sociais. Estudiosos como Grootaert e Van Bastelaer (2001) expõem que o desafio para o pesquisador é conseguir dar um conteúdo significativo à noção de capital social em cada contexto que for pesquisado. Para Hutchinson e Vidal (2004) qualquer medição do capital social em comunidades precisa avaliar quatro indicadores chaves. por último. 2003). Neste trabalho são analisados os indicadores de capital social de uma organização do Terceiro Setor na percepção do seu público interno e externo. • ser objetivo (deve ser independente de quem coleta os dados). O Saguaro Seminar on Civic Engagement in America. Sendo assim. as medidas de afiliação a associações foram consideradas um fator relevante no estudo desenvolvido na Indonésia. etc). (LIMA. de comunidade para estado. • permitir a agregação (por exemplo. o CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina) e a OCDE (Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento). Mas o mesmo não aconteceu em países como Rússia e Índia. em terceiro. De acordo com os autores. Cabe ressaltar que o interesse pelo estudo do capital social também é detectado pelas instituições internacionais que desenvolvem programas com este foco. • solicitar informações razoáveis. Deste modo. incremento no investimento em capital social. onde os relacionamentos informais são considerados mais importantes. esta escolha nos estudos de casos deve considerar as manifestações específicas de capital social na área de estudo ou em canais específicos. uma aproximação rigorosa para medir capital social envolve uma combinação de pesquisas com a comunidade e com a organização que se pretende estudar. e Construção porque ajuda fundações e organizações comunitárias a construir mais capital social. redes de relacionamentos etc. Os indicadores de capital social podem se distinguir tanto geograficamente quanto setorialmente. Destacam-se como organizações: o Banco Mundial Social Capital Initiative. Como exemplo. • ser limitado em número. pode-se fazer uma relação das propriedades dos indicadores. dessa forma. possa definir os indicadores satisfatórios. Incremento no investimento porque o aumento do investimento em capital social permite à sociedade visualizar seus próprios resultados. através de entrevistas qualitativas com os atores das organizações. para que. dados disponíveis ou dados que podem ser coletados a um custo limitado e dentro da capacidade de processamento estatístico do país. Tangibilização porque a medição ajuda a transformar o conceito de capital social em algo mais tangível para as pessoas que o consideram difícil ou abstrato. São elas: tangibilização do capital social. Primeiro. A importância desta discussão está embasada na idéia de Putnam (1996) de que o estudo do tema capital social é importante para o desenvolvimento de uma sociedade onde as associações civis contribuem para a 5 .

sob a ótica de seus públicos: interno (dirigentes e funcionários) e externo 6 . construindo confiança social. Confiança e solidariedade: questões sobre confiança nos membros do grupo e comunidade e as percepções do respondentes quanto a solidariedade dos integrantes do grupo. nas associações é que se torna possível aos indivíduos aprenderem hábitos de cooperação. a mídia e a própria sociedade. 4. neste momento. 3. Ou seja. as questões precisam considerar a natureza e a extensão da participação das pessoas nas organizações sociais. Para Putnam (1996). Metodologia Esta pesquisa pretendeu analisar como se manifestam os indicadores de capital social de uma organização do terceiro setor. 2003).eficácia e a estabilidade dos governos democráticos. a capacidade deles em influenciar o local onde estão e a participação política da organização. consciência e participação política. Neste sentido. Coesão social e inclusão: como as pessoas que fazem parte da organização se sentem em relação aos outros participantes e como é o nível de violência dentro da ONG. 2002. atualmente. entre outras. 5. A abordagem de Putnam refere-se à natureza e extensão do envolvimento de um indivíduo em redes informais e associações formais. Assim. olhando com mais seriedade as organizações que fazem parte do terceiro setor. contribuições no sentido de identificar os indicadores de capital social são importantes para as organizações que compõem o Terceiro Setor. De acordo com Falconer (1999. confiança e solidariedade. Acréscimo de força e ação Política: as questões desta seção devem explorar a noção de felicidade dos membros. Os indicadores de capital social pesquisados na literatura apresentam características peculiares ao conceito de terceiro setor: solidariedade. ou das organizações sem fins lucrativos. senso de responsabilidade comum em relação a empreendimentos coletivos” (FERNANDES. as empresas privadas. Ação coletiva e cooperação: explorar se os membros tem participado com os outros na organização em projetos coletivos. ação coletiva e cooperação. pois reflete a atenção pública que este setor vem recebendo nos últimos anos. comunicação e informação. estado de Santa Catarina. uma vez que seus efeitos são interessantes para o relacionamento com outras esferas (pública e privada). Informação e comunicação: acesso aos meios de comunicação e recebimento de informações sobre atividades da organização. “o estudo do terceiro setor. 4). produzidas sobre o indivíduo e sobre a sociedade. acréscimo de força e ação política. 6. 2. o que se pode observar é que “as associações incutem em seus membros hábitos de cooperação. Internamente. em decorrência das externalidades positivas. 3. p. normas e redes poderiam melhorar a eficiência da sociedade ao facilitar ações coordenadas (FERRAREZI. solidariedade e espírito público. coesão social e inclusão. suas contribuições e como consideram a diversidade dos membros do grupo. Grupo e rede de relacionamentos: como é a categoria que é mais comumente associada ao capital social. apoiando seu desenvolvimento (FALCONER. rede de relacionamentos. estão. Para o autor. já adaptadas para este estudo específico em organização do Terceiro Setor: 1. como a pesquisa tem enfoque exploratório. 385). confiança. confiança. um dos temas que mais desperta interesse nas escolas e faculdades de Administração no Brasil”. localizada na cidade de Blumenau. 1999). é. p. o Estado. e a universidade é demandada para produzir o conhecimento que possibilite compreender este fenômeno. Para Grootaert et al (2004) estes indicadores devem ser estudados observando algumas informações. optou-se por estudar os indicadores propostos por Grootaert et al (2004): grupo e rede de relacionamentos. solidariedade.

Burkina Faso e Indonésia. 06 foram inutilizados. pois verifica informações quantificáveis o que significa traduzir em números opiniões e dados possíveis de classificação e análise. que é analisar como os públicos de uma organização de terceiro setor percebem os indicadores de capital social. visando detectar os indicadores de capital social para cada público. dirigentes. pois busca um maior conhecimento sobre o tema de pesquisa. especificamente. baseando-se principalmente no material proposto por Grootaert et al (2004). VAN BASTELAER. e questionário encaminhado via e-mail. relatórios de atividades de 2005 e 2006. fundamentadas nas informações tiradas de quatro estudos desenvolvidos e pesquisados pelo autor. o que totalizou 63 questionários válidos. as fontes de evidências utilizadas foram: pesquisa documental com consulta ao site da organização. 2001). e relacionando isto ao acesso a serviços e tecnologia para agricultura (NARAYAN. permitindo amostras únicas ou múltiplas (MALHOTRA. doadores e beneficiados). utilizado para coletar informações dos estratos determinados da organização do terceiro setor. Para possibilitar a concretização deste trabalho. pois estavam com dados inconsistentes. uma vez que se apresenta neste contexto uma elevada variância de características a serem medidas e pequenos tamanhos populacionais (MALHOTRA. Quanto à forma de abordagem da pesquisa caracteriza-se como uma pesquisa predominantemente quantitativa. 2002. perfazendo o total de 69 questionários. pois as informações foram coletadas somente uma vez. 2001). doadores e beneficiados formam o público externo. A pesquisa foi realizada numa organização do terceiro setor de Blumenau. Este esforço tem como meta tornar um problema complexo mais explícito. Os funcionários e dirigentes formam o público interno e os demais. a amostra foi determinada através da estratificação aleatória. Neste trabalho. 2002). O questionário proposto foi estruturado a partir da análise bibliográfica do tema. AAKER et al. correspondendo a 46% do universo pretendido. foi utilizado o censo em vez de amostra. Neste estudo. O censo foi utilizado. desta forma. acesso ao crédito e ação coletiva (GROOTAERT. 1999). 05 dirigentes. correio e aplicado na própria ONG. A estratégia de estudo de caso tem por exigência a utilização de múltiplas fontes de evidências. pois a população estava dividida em subgrupos. voluntários. conforme cronologia a seguir: • The Tanzânia Social Capital Survey – coleta de dados de membros de associações e confiança. Com relação aos objetivos. específicas ao problema. 7 . A estratégia de estudo de caso baseou-se no desenvolvimento feito previamente de proposições teóricas para. sendo que 17 caracterizados como público interno e 52 como público externo. doadores e beneficiados. a pesquisa exploratória foi de corte transversal único. conduzir a coleta dos dados e posterior análise. Este material contempla pesquisas desenvolvidas pelo Banco Mundial. 05 doadores e 02 voluntários. voluntários. O questionário foi estruturado com perguntas fechadas e semi-abertas. 1999). Como o objetivo foi obter informações de cada estrato. Foram pesquisados 45 beneficiados. pois a população era pequena. As análises foram focadas no papel do capital social em dar forma ao bem-estar do lar e pobreza. Deste montante. GEEWANDSZNAJDER. no geral. Requer o uso de recursos e de técnicas estatísticas (ALVES-MAZZOTTI. 2001). Os estratos foram compostos por: funcionários. que são denominados de estratos (BARBETTA. constituindo-se num estudo de caso. PRITCHETT.(voluntários. informativo on-line da ONG. a pesquisa é exploratória. sendo não só viável como conveniente. 12 funcionários. • The Local Level Institutions Study – foram coletados dados comparados do capital social estrutural na Bolívia.

• 8 . sociabilidade. em grupos relativamente homogêneos (clusters)” (REIS. e apresentam idade entre 26 e 45 anos (86%). os doadores e voluntários são mais velhos. sendo divididas em: (1) grupos e redes. O objetivo do questionário proposto por Grootaert et al (2004) foi prover um núcleo central de questões de pesquisa para todos os interessados em gerar dados quantitativos das várias dimensões do capital social como parte de uma ampla pesquisa. para os quais é conhecida informação detalhada. O público externo foi composto pelos beneficiados. Análise dos Resultados Uma análise geral sobre o público interno que respondeu ao questionário mostra que em sua maioria. 2002). violência e crime e comunicação (IBÁÑEZ. (3) ação coletiva e cooperação. da Statsoft. algumas questões foram adaptadas pelos autores. os beneficiados são. os doadores são em sua maioria casados (80%) e os beneficiários e voluntários solteiros (54%). Cada questão incluída no documento foi desenhada a partir dos trabalhos de pesquisa realizados. (6) acréscimo de força e ação política. jovens entre 15 e 25 anos (45%). que permitiu a geração de tabelas e gráficos para uma melhor visualização dos resultados. Já as respostas semi-abertas do questionário foram interpretadas e comentadas dentro de um contexto global. Já o público externo é formado quase que em sua totalidade por homens (86%). Ainda sobre o público externo. (5) coesão social e inclusão e. 287). 4. O questionário foi desenvolvido com base em seis seções. 2002). O público interno foi constituído pelos funcionários e dirigentes. Sobre o grau de escolaridade. através da análise multivariada de clusters. (4) informação e comunicação. 1997. engajamento político. para o estudo em organizações do terceiro setor. em sua maioria. sem a definição prévia de critérios de inclusão em qualquer agrupamento. em sua maioria (60%). bemestar. Por se tratar de uma pesquisa quantitativa. casados (76%) e com escolaridade de grau superior (82%) (graduação e pós-graduação). através de percentuais e interpretação dos dados. WOOLCOCK. de acordo com os indicadores de Grootaert et al (2004). LINDERT. Com relação à idade. VAN BASTALAER. considerando as demais informações disponíveis. atividades comunitárias. com faixa etária entre 26 e 45 anos (76%). Os respondentes foram divididos em 02 públicos. são homens (65%). p. “Os métodos de análise de clusters são procedimentos de estatística multivariada que tentam organizar um conjunto de indivíduos. (2) confiança e solidariedade. uma vez que o questionário original foi desenhado para a pesquisa em comunidades. • The Social Capital Survey in Ghana and Uganda – coletou dados de grupos e redes. voluntários e doadores. A análise multivariada de clusters é uma série de procedimentos estatísticos usados para classificar objetos e pessoas através da observação das semelhanças entre elas.The Social Capital Initiative – patrocinou 12 estudos sobre o papel do capital social em projetos setoriais e no processo de criação e destruição do capital social (GROOTAERT. possuem grau superior (com pós-graduação). que foram usados nesta pesquisa. No caso desta pesquisa. Para realizar a análise estatística os dados foram devidamente tratados e tabulados mediante a utilização do programa Statistica. A seguir apresenta-se a análise dos dados da percepção dos públicos interno e externo. os voluntários e beneficiários possuem apenas o ensino fundamental ou médio (79%) e os doadores. os resultados foram analisados com o uso de estatística de análise multivariada de clusters. interno e externo.

enquanto que o público externo. não participam de atividades desenvolvidas pela ONG. uma vez que várias análises sobre o tema apresentam o capital social auxiliando as transações e auxílios. permitiu detectar semelhanças e discordâncias entre eles. Público Participação Como se da Família tornou parte na ONG da ONG Não (A/B)* Convite (A/B) Doação Dias Trabalho ONG Nenhum (A) 2 dias (B) Benefício de estar na ONG Homogeniedade dos membros da ONG Interação da ONG com outras organizações Sim. tinham a mesma crença religiosa. o que demonstra que. Igual informação é encontrada no público interno. os membros da família dos respondentes. na visão dos dois públicos. quando questionados sobre a quantidade de dias que doaram para a organização. pois permite a criação de novas 9 . 03 grupos deste público disseram que nunca doaram nenhum dia para a ONG. fez parte voluntariamente da organização. amigos e famílias participam mais e de diferentes formas das atividades do que quando estão separados ou se forem trabalhar com pessoas estranhas.1 Grupo e rede de relacionamento O cruzamento dos públicos. foi possível observar que o público interno se tornou parte da ONG por convite. a organização é composta por vários tipos de pessoas.4. C e D referem-se aos grupos formados pela análise de clusters Fonte: dados da pesquisa Interno Sim (A/B/D) Não (C) Conforme pode ser observado no quadro. entre outras características. em sua maioria. O que é contraditório se comparado ao que foi estudado na literatura. tanto do público interno quanto externo. Conforme reforça McGrath Jr e Sparks (2005). Quando questionados sobre a forma como se tornaram parte da organização. às vezes (A/B) Beneficia a Não (A/B) comunidade (A) Espiritualidade/ status social / auto estima (B) Externo Não Voluntária7 dias (B) Beneficia a Não (A/B/C/D) (A/B/C/D) mente Nenhum comunidade (A) (B/C/D) (A/C/D) Espiritualidade/ Convite (A) status social / auto estima (B) Tratamento/ recuperação própria (C/D) Quadro 01: Cruzamento Públicos – Seção A – Grupo e Rede de Relacionamentos * As letras A. a opção voluntária pode ser traduzida como confiança depositada na organização. ambos assinalaram acreditar que a organização tem interagido com outras organizações. eram parentes. no item interação da ONG com outras organizações (rede). pertenciam ao mesmo gênero. onde um grupo também nunca doou nenhum dia. como mostra quadro 01. uma vez que buscam na ONG tratamento e recuperação própria ou cuidado com a espiritualidade e auto-estima. relacionado aos indicadores grupo e rede de relacionamento. os dois públicos responderam que não. se na opinião deles faziam parte da mesma vizinhança. Mesmo participando voluntariamente (público externo). Esse relacionamento da organização com outras é importante. Somente um grupo do público externo assinalou o contrário. Vale salientar que a visão do público interno e do público externo é a mesma quanto aos integrantes da organização. doadores e beneficiados. Quando questionados sobre os membros da ONG. No último tópico da análise destes indicadores. B. Como o público externo contempla os voluntários.

3 Ação Coletiva e cooperação Neste bloco de indicadores.oportunidades e de fluxo do capital social. deste modo. O que confirma o pensamento de Ferrarezi (2003) que afirma que quanto mais elevado for o nível de confiança. enquanto que o público externo divide-se em dois grupos que assinalaram alta solidariedade e um grupo baixa solidariedade. cujos respondentes dos grupos A e B responderam que é alto o índice de cooperação dentro da organização estudada. o que realimenta a confiança. Para o indicador solidariedade. no caso. vale ressaltar que a possibilidade de consolidar projetos coletivos vem do engajamento de muitas pessoas em ações específicas.2 Confiança e solidariedade O passo seguinte foi cruzar as informações sobre os indicadores confiança e solidariedade entre os dois públicos estudados. 10 . Já o público externo tem 02 grupos que atribuem valores de alta confiança e um grupo de baixa confiança. também mantêm os mesmos níveis. como a cooperação. maior a probabilidade de haver cooperação e solidariedade. o que se encontra evidenciado no quadro 03. e que isso é possível graças ao sentimento de confiança mútua que precisa existir em maior ou menor escala entre as pessoas que estão interagindo (FERRAREZI. o público interno percebe a organização com alto índice de solidariedade. a análise desenvolvida para o indicador confiança. 2003). por ser o único que foi unânime para um mesmo público. São esses valores positivos que possuem o potencial de atrair voluntários e militantes em ONGs e movimentos sociais (RATTNER. Como a ONG é vista como confiável e solidária pela maioria dos grupos de cada público. o público interno divide-se entre baixa e alta confiança. Por apresentar índices elevados de confiança. Observa-se. Mantém-se. o público interno. 4. como citados pelos autores. destaca-se o indicador cooperação. ação coletiva e cooperação. Isso só é possível exatamente por causa das relações entre os elementos participantes. 7). uma vez que “significariam incremento das probabilidades de realização. p. já que oferecem possibilidades de relacionamentos” (FERRAREZI. que a organização apresenta índices de confiança que possibilitam os outros indicadores de capital social se expressarem. Sendo uma organização de terceiro setor. Os resultados desse cruzamento encontram-se no quadro 02. Desta forma. 4. 2003). 2003. Confiança Solidariedade Baixa (A) Alta (A/B) Alta (B) Externo Alta (B/C) Alta (A/B) Baixa (A) Baixa (C) Quadro 02: Cruzamento Públicos – Seção B – Confiança e Solidariedade Fonte: dados da pesquisa Públicos Interno Observando o quadro acima é possível visualizar que a percepção dos dois públicos é conflitante tanto para o indicador confiança quanto para solidariedade. Não há concordância dos públicos quanto a esses indicadores. de acordo com Cohen e Prusack (2001) e Putnam (1993). pode-se perceber que a ação coletiva e cooperação. a solidariedade foi percebida da mesma maneira.

2003b). Isso pode ser observado na análise. Como os públicos apresentaram grupos com percepções diferentes sobre confiança. Desta maneira. E. 4. Corroborando com a visão de Franco (2001). Mas nos indicadores confiança e solidariedade os grupos de cada público ficaram divididos entre alta e baixa. amigos e vizinhos (~17%) Informativo da própria ONG (~17%) Funcionários da ONG (~17%) Líderes Comunitários (~16%) Quadro 04: Cruzamento Públicos – Seção D – Comunicação e Informação Fonte: dados da pesquisa Públicos Interno Vale salientar que como o público externo é formado em sua maioria pelos beneficiados e que. maior as chances de haver cooperação. informativo da própria ONG. 2003). O informativo da organização e os funcionários da ONG foram citados pelos dois públicos. tornando-a uma vantagem competitiva e um recurso para o crescimento (FERRAREZI. Detalhando melhor o indicador cooperação. solidariedade e relações informais é um dos componentes do capital social. para Spence et al (2003a.Públicos Interno Externo Alta (A) Média (B/D) Baixa (C) Quadro 03: Cruzamento Públicos – Seção C – Ação Coletiva e Cooperação Fonte: dados da pesquisa Ação Coletiva Média (A) Alta(B) Alta (A) Média (B/C/D) Cooperação Alta (A/B) O quadro 3 mostra. amigos e vizinhos. pois os 03 grupos que o compõem assinalaram alternativas que levaram a esta afirmativa. o valor do relacionamento entre confiança. E é esta própria cooperação que gera confiança. Comunicação e Informação Informativo da ONG (~29%) Funcionários da ONG (~20%) Internet (~17%) Externo Parentes. média e baixa cooperação na organização. através dos funcionários da organização e de líderes comunitários. a maior incidência de ação coletiva é de nível médio. uma vez que possibilitam o trabalho em conjunto e a disponibilidade de cooperar para obter objetivo comum. sendo o nível médio escolhido por dois grupos deste público (B/D). através de parentes. Já. o informativo/funcionários da ONG e a internet são os três meios mais citados para consultar sobre a organização. que o público interno está dividido em alto e médio quanto ao indicador ação coletiva. Esses indicadores podem ser considerados importantes para uma organização. Já o público externo tem mais acesso às informações referentes à organização. para o público interno. esta percepção disforme manteve-se nos indicadores ação coletiva e cooperação. do terceiro setor. enquanto estiverem em tratamento têm acesso restrito aos meios de 11 . no público externo. em sua maioria. percebe-se que enquanto o público interno acredita que esta variável é alta dentro da ONG.4 Comunicação e informação Pode-se visualizar no quadro 04 que os públicos recebem as informações sobre a ONG em diferentes canais de comunicação. ainda. o público externo está dividido entre alta. quanto maior for o nível de confiança existente em uma comunidade. principalmente. E nos indicadores ação coletiva e cooperação os grupos dos públicos se dividiram entre média e alta.

2000). Cohen e Prusak (2001). mais fechadas. Como exemplo. além da qualificação.6 Acréscimo de força e ação política Pode-se verificar. no público externo. O uso do capital social favorece os indivíduos para acessar informações sobre mercado de trabalho. os autores citam o caso de quando os economistas do Banco Mundial na Arábia Saudita enviaram um requerimento ao Bank’s Environmental and Socially Sustainable Development (ESSD) solicitando ajuda para informações sobre treinamento relacionado a estações que monitoram a qualidade do ar. através de pesquisa. o índice alto para o indicador inclusão. p. os dois públicos se dividem em médio e alto (interno/externo) e. os dois públicos (interno e externo) enxergam a ONG como uma organização pacífica. as duas comunidades localizadas na área rural apresentaram. que trata do sentimento de segurança. Segundo Ferrarezi (2003. O departamento de ajuda imediatamente contatou um empregado que buscou informações com uma empresa deste perfil na região sul da África e enviou catálogos sobre o assunto ao Banco Mundial. que afirma que o capital social é maior em comunidades pequenas e. Putnam (1993) também argumenta que confiança. 4. baixo acréscimo de força 12 . ampliar leque de oportunidades. os níveis mais altos de coesão social apareceram nas áreas urbanas (ONYX. conforme detalhado no quadro 05. Neste item. como exemplo. BULLEN. no caso. nas áreas urbanas.comunicação. Os autores. Em contrapartida. amigos. por isso. os três primeiros meios mais citados por este público retratam redes informais de comunicação. acessar qualificação e receber informação. principalmente. principalmente. normas e rede de relacionamento podem fomentar a eficiência de uma sociedade e facilitar a ação coletiva. Em contrapartida. uma cooperação entre essas redes ocorre. através do quadro 06 uma clara divisão dos agrupamentos dentro dos públicos pesquisados. sobre os trabalhos da organização que fazem parte. 4. no indicador acréscimo de força. vizinhos e os funcionários da ONG. 13). ainda. os parentes. “as políticas públicas poderiam. no resultado. ou seja. Os autores relacionaram os resultados com o conceito de Colemann (1988). possibilitar que os indivíduos façam parte de redes que permitam agilizar esse processo”.5 Coesão social e inclusão Os dados obtidos com base nos questionários aplicados denotam que as percepções em relação ao indicador coesão social encontram-se divididas. chegaram a conclusão que das 05 comunidades australianas pesquisadas. destacam que uma vez que o processo de comunicação e ajuda mútua das redes começa a ser estabelecido. neste caso específico. Coesão Inclusão Em branco (A) Alta (A/B) Alta (B) Externo Em branco (A) Alta (A/B/C/D) Fraca (B) Forte (C) Nem fraca nem forte (D) Quadro 05: Cruzamento Públicos – Seção E – Coesão social e Inclusão Fonte: dados da pesquisa Públicos Interno O indicador inclusão. também foi detectado alto no estudo desenvolvido por Onyx e Bullen (2000). não é claro para esses grupos o quanto forte é o sentimento de ficar junto ou próximo às pessoas dentro da organização. maior índice de capital social que as demais. O que pode ser transportado para a pesquisa que aqui se apresenta. portanto. também. E que os níveis de sentimento de segurança e confiança também se apresentaram em números mais elevados nestas duas comunidades.

acreditam que a organização é composta por vários tipos de pessoas e. as respostas dos dois públicos foram semelhantes. através dos indicadores estudados. acontece diferença de percepção quanto ao indicador ação política pelos dois públicos. sendo a base das relações e instituições de capital social. Acréscimo de Força Ação Política Médio (A) Alta (A/B) Alto (B) Externo Alto (A) Em branco (A/B) Baixo (B) Médio (C) Médio (C) Quadro 06: Cruzamento Públicos – Seção F – Acréscimo de Força e Ação Política Fonte: dados da pesquisa Públicos Interno Ferrarezi (2003) expõe que um dos aspectos essenciais para a consolidação de projetos coletivos. Mas o indicador solidariedade é tido como alto pelo público interno. Para o público externo. há um desconhecimento pela maioria dos integrantes do público externo quanto à quantidade de vezes que as pessoas da organização se uniram para fazer pedidos ao governo/líderes políticos e se algum desses pedidos obteve resultado positivo. Esse tipo de inclusão diz respeito à atitude tão simples e por vezes tão esquecida que é justamente a de reconhecer. de duas maneiras. que a organização tem um bom relacionamento com outras ONGS. dois agrupamentos pertencentes a este público deixaram estas questões sem respostas. o indicador solidariedade foi percebido como sendo alto (por 2 grupos) e baixo (1 grupo). Na análise dos indicadores confiança e solidariedade as respostas dos públicos pesquisados apresentaram diferenças. É essa reciprocidade. do público externo. percebendo-os e incluindo-os em seu universo de referência. Para o público externo. o indicador confiança foi percebido. Da mesma forma. pois tanto público interno quanto externo não possuem membros da família participando de atividades da ONG. é. Conforme detectado no quadro 06. mas se dividem quanto ao indicador ação 13 . conceito de confiança é baixo e para o outro grupo é alto. Para o público interno. questões que englobam o indicador ação política. suas habilidades. esse indicador pode ser considerado alto. O que se percebe é que mesmo confiando (em menor ou maior grau). Nos indicadores grupo e rede de relacionamentos. o indicador confiança foi percebido de duas maneiras contrastantes. não doam dias de trabalho para a organização a qual fazem parte. que necessitam do engajamento de muitas pessoas em ações específicas. sem dúvida. ainda. Para o público interno. conhecimentos. no outro. o público interno percebe que na organização as pessoas cooperam. Somente o grupo C. em compensação. para um grupo deste público. como sendo alto (por 2 grupos) e baixo (1 grupo). Mas. etc. Considerações finais A presença do capital social. competências.também foi o conceito do grupo B (externo) para esse indicador. na percepção dos dois grupos que o compõe. 5. o indicador ação política se torna uma informação que não chega até eles. na análise dos indicadores ação coletiva e cooperação. Na seqüência. pelos dois grupos que o compõem. atribuiu valor médio a este indicador. para alguns grupos do público externo. foi percebida de diversas maneiras pelos públicos envolvidos nesta pesquisa. hábitos. por fim. o sentimento de confiança mútua que precisa existir em maior ou menor escala entre as pessoas que estão interagindo. Cabe salientar que construir confiança está ligado de forma direta à capacidade de relacionamento com os outros. se tornam parte da ONG de maneira voluntária. que rege as relações informais e formais na comunidade. assim como no público interno.

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