O vestuário do camponês da Madeira nada oferece hoje de extraordinário, pois consiste geralmente numas calças de linho, seriguilha, marafuz

ou qualquer outro tecido, numa camisa de linho ou algodão e num colete e casaco feito muitas vezes do mesmo tecido das calças. Nalgumas partes da ilha está muito em uso um casaco de marafuz ou seriguilha, sem mangas, ficando os braços cobertos apenas pelas mangas da camisa. 0 agricultor enquanto trabalha despe de ordinário o colete e o casaco, mas conserva o chapéu ou o barrete, que lhe protegem a cabeça contra os ardores do sol. 0 barrete do camponês não tem semelhança alguma com as antigas carapuças; é feito de lã, adapta-se bem á cabeça e tem no alto uma pequena borla e nos lados dois apêndices que, ou se deixam cair sôbre as orelhas, ou se levantam, prendendose ás vezes num botão. Este barrete, a que chamam de orelhas, parece ser criação madeirense e já era usado em 1857. Os antigos trajos das mulheres dos campos quasi que desapareceram, tendo sido substituídos por vestidos e corpetes ou polcas de chita ou lã, perfeitamente idênticos aos que usam as mulheres das classes baixas do Funchal. Na Camacha e nalgumas outras localidades as mulheres amarram na cintura um rolo de pano e vestem sobre ele varias saias, do que resulta as ancas tomarem uma forma arredondada e o vestido, que é um tanto curto, mover-se de um para outro lado, durante as marchas. Este movimento não é destituído de graça quando a mulher é alta e elegante, e anda com passo desembaraçado. O lenço, cujas pontas são amarradas sob o queixo, é a cobertura da cabeça mais usada pelas camponesas, mas freguesias há onde o uso da mantilha e do chapéu tende a generalizar-se sobretudo entre as mulheres que vêm frequentes vezes ao Funchal. Um chale lançado sôbre as costas, completa muitas vezes o vestuário da mulher dos nossos campos. Os antigos trajos dos nossos camponeses eram incontestavelmente muito mais engraçados e pitorescos que os actuais. Umas calças largas de linho terminando nos joelhos, onde eram franzidas, e uma camisa e uma jaqueta do mesmo pano constituíam o vestuário dos homens ao passo que as mulheres vestiam saia listada de um tecido de linho e lã, fabricado na ilha, camisa de linho e capa de baeta azul ou encarnada, descendo até baixo da cintura, tendo a mesma capa recortes agudos, debruados ás vezes de fita. Muitos homens possuíam casacos ou capotes de lã grosseira, com que se cobriam em dias de frio. Para os dias festivos tinham os homens os seus jalecos e casacos de fazenda azul, e as mulheres lindos coletes ou espartilhos de cores vistosas, ás vezes engenhosamente bordados, que vestiam sôbre as camisas. Homens e mulheres abotoavam as camisas de fino linho com botões amarelos, ás vezes de oiro, e cobriam a cabeça com um pequeno barrete de pano azul (carapuça), forrado de encarnado, o qual apresentava a forma de um funil invertido. As mulheres abastadas reconheciam-se pelos cordões de ouro com que se enfeitavam, os quais depois de darem duas voltas em torno do pescoço, vinham prender-se na parte inferior do espartilho. É de crer que as saias listadas e os espartilhos bordados procedessem de antigos trajos mouriscos, tanto mais que se sabe que houve outrora muitos mouros, principalmente no Funchal e Ponta do Sol, mas pelo que respeita á carapuça, difícil é conjecturar qual fosse a sua origem, se bem que White nos diga que nalguns quadros de Rubens se vê na cabeça das senhoras um objecto muito semelhante a esse antigo barrete madeirense. A carapuça protegia tão mal a cabeça, que causa admiração que o povo a usasse nesta ilha. Sloane, Ovington, o capitão Cook, Forster e Barrow não aludem á carapuça nas relações das suas viagens, o que nos leva a crer que esse barrete só no primeiro quartel do século

As mulheres usam das mesmas carapuças. desprovidas de salto e tendo o cano voltado no meio. sendo ainda com este trajo e os obsoletos chapéus de plumas que os membros da Municipalidade se apresentaram nas exéquias de D. ou chita. Diogo Vieira de Tovar e Albuquerque num trabalho inédito escrito em 1807 e que tem por título Descripçâo política e económica da ilha da Madeira. realizadas em 1889. e curtas pelo joelho ao que são unidas. pois que os portuguezes d'esse tempo vestião quasi da mesma maneira. com recortes agudos. ou amarelado.XIX principiou a ser usado na Madeira. mas sem as longas pontas que davam a estes barretes a forma de funis invertidos. com duas pequenas orelhas. as senhoras substituíam os chapéus por véus pretos. e botas. diz que a classe média. Pelo meado do século XIX os vereadores da Câmara Municipal do Funchal usavam capas e calção e meia nas cerimónias oficiais. Accredito que este costume he conservado talvez do uso dos primeiros habitantes portuguezes da ilha. que lhes cobriam a cabeça e ás vezes a cara. usavam chapéu. e mesmo depois apareciam uma vez por outra no Funchal alguns velhos camponeses trazendo na cabeça esses extravagantes barretes. ao passo que outras eram desprovidas deles. usavam os camponeses um barrete de lã encarnada ou azul. tendo esta moda. ao menos na forma: também accredito que o uso das casacas compridas. afim de favorecerem o maior consumo dos seus pannos. Este barrete ajustava-se á cabeça e era por certo muito mais cómodo do que a carapuça terminada em ponta. ceroulas de panno de linho largas. e um comprido casaco para lhes esconder os remendos das calças. na gente do trabalho. Algumas carapuças tinham nos lados dois apêndices. publicada pelo Dr. mesmo nas freguesias limítrofes do concelho do Funchal. se não recomendam pela elegância ou pela maleabilidade. Luiz I e na aclamação de D. e os médicos ainda em 1870 se reconheciam quasi sempre pelas longas sobrecasacas pretas e pelo chapéu alto. no entretanto ainda por 1880. Barrow. Ignoramos em que época começaram a ser usados esses chapéus. As carapuças com a forma de funil invertido foram usadas em certas freguesias até 1870. que remontava a antigos tempos. trajando de preto para imitar o clero. notou que o povo afectava uma certa gravidade no vestuário. Antes de conhecerem a carapuça em forma de funil. sapato e meia. Ovington que visitou a ilha em 1689. he fomentado e mantido pelos ingleses. não obstante o uniforme . Na freguesia do Caniço os homens usam uns chapéus feitos de folha de palmeira. e que o uso da espada estava tão generalizado. uma casaca comprida. botas justas da cor natural do couro. Dos antigos trajos madeirenses só restam hoje as botas de couro branco. Os homens de certa categoria social usavam outrora coletes de seda bordados. cuja forma se pode ver na estampa que acompanha a obra sôbre o clima da Madeira. saias de algodão. Nicolau Caetano Pita em 1812. começado a cair em desuso pouco depois de 1880. que esteve na Madeira em 1792. enquanto serviam á mesa. pois toda a ilha se fornece de pannos da Inglaterra. Paulo Dias de Almeida na sua Descrição da ilha da Madeira. escrita em 1817 e publicada no Archivo da Marinha e Ultramar. Carlos I. Durante a semana santa e na época das confissões. A gente polida veste inteiramente á portugueza». apresenta duas estampas em que figuram as carapuças. que pouco depois se generalizou na ilha. que ainda são usadas por algumas camponesas. unida á cabeça. de que são feitas. que até os criados traziam consigo. isto é os lojistas e os trabalhadores mecânicos. que embora tenham grande duração. diz-nos o seguinte com respeito aos trajos usados na ilha: «Os homens de trabalho vestem sempre uma carapuça de pano. e que as mulheres da mesma classe vestiam invariavelmente fato preto e traziam um capacete na cabeça. e as capas de baeta azul.

as quais se usaram até á época da proclamação da República nesta ilha. porém. Se no tempo de Barrow as mulheres das classes médias vestiam sempre um fato preto.municipal se achar reduzido nessa época ás referidas capas. o vestuário dos habitantes da Madeira em nada difere hoje do vestuário usado na Europa. especialmente a usada pelas mulheres dos campos da Madeira. enquanto as classes superiores vestem ás vezes modestamente. e se nos fosse dado penetrar em muitas casas. desapareceu inteiramente embora se pretenda descobrir quaisquer vestígios dela em certas localidades mais afastadas do centro do Funchal. quem exibe os melhores trajos. rendendo-lhe principalmente o belo sexo a mais fiel vassalagem. . que eram de seda preta e forradas de branco. A verdade é que a antiga e característica indumentária. ás vezes á custa de grandes sacrifícios. talvez encontrássemos aí a miséria e o desalinho a contrastar com as custosas galas que os seus habitantes ostentam em público. e em especial dos tecidos finos. Quem percorre em dias festivos as ruas da cidade nota por toda a parte o maior luxo e sente a impressão de que a grande maioria dos funchalenses dispõe dos meios precisos para sustentá-lo. As modas de Paris são rigorosamente acatadas no Funchal. São os novos ricos de um e outro sexo. por meios nem sempre lícitos. já para se não confundirem com aqueles que. Infelizmente. já por falta de recursos. conseguiram aumentar de um modo assombroso os seus capitais. Afora pequenas particularidades locais. não é assim. Estas capas foram substituídas por faixas de seda azul e brancas nos princípios do século XX. (1921). sabe Deus em que estado hoje são elas as que mais culto prestam á moda e as que mais tendência manifestam para o luxo não obstante o alto preço dos tecidos de qualquer natureza. criaturas geralmente vaidosas e sem educação.