MENSAGEM (1934

)
BENEDICTUS DOMINUS DEUS NOSTER QUI DEDIT NOBIS SIGNUM
(BENDITO DEUS NOSSO SENHOR QUE NOS DEU O SINAL)

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce (Parte I “Brasão” – O Infante) Fernando Pessoa foi sempre movido pela consciência de ser o intermediário entre o divino e a humanidade e que uma missão, recebida, lhe cumpria desempenhar – ser um criador de mitos. “Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade”.
Fernando Pessoa

Em Mensagem, o cruzamento dos percursos espiritualistas, ocultistas e míticos de Fernando Pessoa reúnem-se para a apresentação profética de um Portugal eleito por Deus, um Portugal decadente mas que deverá constituir-se novamente como um Império não material ou territorial – o Quinto Império - desta vez do espírito e da cultura. Para a regeneração de Portugal, para levantar o espírito da nação, Fernando Pessoa é consciente do papel da difusão dos grandes mitos. Parte, então, do mito de D. Sebastião, que, desaparecido no nevoeiro, haveria de regressar para que Portugal se cumprisse de novo.

SÍNTESE DA TEMÁTICA DA MENSAGEM
• • O mito é tudo: sem ele a realidade não existe, pois é dele que ela parte; Deus é o agente da história; ou seja, é ele quem tem as vontades; nós somos os seus instrumentos que realizam a sua vontade. É assim que a obra nasce e se atinge a perfeição; O sonho é aquilo que dá vida ao homem: sem ele a vida não tem sentido e limita-se à mediocridade; A verdadeira grandeza está na alma; é através do sonho e da vontade de lutar que se alcança a glória; Portugal encontra-se em estado de decadência. Por isso, é necessário voltar a sonhar, voltar à arriscar, de modo a que se possa construir um outro império que não se destrói, por não ser material; é o Quinto Império, o Império Civilizacional-Espiritual; D. Sebastião, além de ser o exemplo a seguir (pois deixa-se levar pela loucura/sonho), é também visto como o salvador, aquele que

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trará de novo a glória ao povo português e que virá completar o sonho, cumprindo-se assim Portugal.

ESTRUTURA DA OBRA
A obra estrutura-se em três partes: • O Brasão Bellum Sine Bello (Guerra sem Guerra) Conta a história dos que formaram o Império – os fundadores, ou o nascimento da nação, emissários e heróis ao serviço da vontade e desígnio divinos. Percorre os campos, peças e figuras de um brasão real do tipo do utilizado por D. João II, associando a cada elemento um traço marcante ou uma personalidade relevante da nossa história. Estrutura-se como um brasão português, que é formado por: • • Dois campos: um apresenta sete castelos, o outro cinco quinas. No topo do brasão, estão a coroa e o timbre, que apresenta o grifo, animal mitológico que tem cabeça de leão e asas de águia.

Assim se dividem os poemas desta parte, remetendo ao brasão de Portugal. • O Mar Português Possessio Maris (Posse do Mar) Aborda o percurso grandioso da épica aventura marítima – a realização, a vida - a Idade das Descobertas, individualizante da história portuguesa, bem como o preço a pagar por tantas conquistas – a dualidade entre o preço a pagar e a recompensa, a conquista. No penúltimo poema do ciclo (A Última Nau) a época de ouro é encerrada com o desaparecimento de D. Sebastião e o poeta como que desperta de um sonho. Abre-se assim uma janela para um futuro em que O Desejado regressa para retomar o caminho interrompido para o Império Universal. No último poema (Prece) Pessoa invoca a intercessão de Deus para reacender a Alma Lusitana para que de novo "conquiste a Distância". Senhor, a noite veio e a alma é vil. Tanta foi a tormenta e a vontade! Restam-nos hoje, no silêncio hostil, O mar universal e a saudade Mas a chama, que a vida em nós criou Se ainda há vida ainda não é finda. O frio morto em cinzas a ocultou. A mão do vento pode erguê-la ainda (Parte II- Prece) • O Encoberto Pax in Excelsis (Paz nas alturas)

Trata-se do advento do Quinto Império do Mundo através da força do mito, um império de cultura, paz e harmonia entre os povos que será liderado por um português - O Encoberto, O Desejado, o Rei ou D. Sebastião, como é indistintamente chamado. Nesta Parte vai entrecruzar profecias, mitos antigos, símbolos de vária origem, e factos históricos, sempre sob a orientação de três vectores básicos: • Portugal que dorme e que tem que despertar; • O Quinto Império que há-de seguramente ser estabelecido mas que depende desse despertar; • O Desejado que realizará a visão do poeta. Os sinais proféticos – a morte, mas como renascimento... «É a hora!»

SIMBOLISMO
Mensagem é a expressão poética dos mitos, sendo o assunto de Mensagem a essência de Portugal e a sua missão a cumprir. Daí se interpretam as figuras dos reis nos poemas de Mensagem como heróis mas, mais que isso, como símbolos, de diferentes significados. Em Mensagem manifesta-se igualmente o simbolismo esotérico: • A estrutura de Mensagem, sendo a de um mito, numa teoria cíclica, transfigura e repete a história de uma pátria como o mito de um nascimento, vida e morte de um mundo (morte que será seguida de um renascimento). Está simbolicamente tripartida (44 poemas divididos em 3 partes) Brasão, Mar Português e O Encoberto. Desde logo, a estrutura tripartida da obra remete para o esoterismo, sendo, como é sabido, o número três um número carregado de simbolismo esotéricos. Não só a obra é dividida em três partes, como, por exemplo, a última parte (O Encoberto) é ela mesma estruturada segundo este esquema ternário (Os Símbolos, Os Avisos e Os tempos). As restantes subdivisões da obra correspondem igualmente a uma estrutura numerológica esotérica, através dos números 5, 7 e 12.  A primeira parte da obra (O Brasão) é subdividida em 5 partes, e cada uma subdividida num daqueles números; a segunda parte (O Mar Português) é formada por 12 poemas e na terceira parte, cada uma das três subdivisões já mencionadas é, por seu turno, subdividida, respectivamente, em 5, 3 e 5 partes. Além da numerologia, vários símbolos esotéricos se fazem notar ainda na obra: a tradição esotérica dos Templários, bem como o simbolismo rosa-cruciano. A Mensagem recorre ao ocultismo para criar o herói – O Encoberto – que se apresenta como D. Sebastião. Também os nomes de cada subdivisão da obra estão associados a um forte simbolismo:

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Brasão: O passado inalterável Campo: Espaço de vida e de acção Castelo: Refúgio e segurança Quinas: Chagas de Cristo – dimensão espiritual Coroa: perfeição e poder Timbre: marca – sagração do herói para missão transcendente Grifo: terra e céu – criação de uma obra terrestre e celeste Mar: vida e morte; ponto de partida; reflexo do céu; princípio masculino Terra: casa do homem; espelho do céu; paraíso mítico; princípio feminino Padrão: marco; sinal de presença; obra da civilização cristã Mostrengo: o desconhecido; as lendas do mar; os obstáculos a vencer Nau: viagem; iniciação, aquisição de conhecimentos Ilha: refúgio espiritual; espaço de conquista; recompensa do sacrifício Noite: morte; tempo de inércia; tempo de germinação; certeza da vida Manhã: luz; felicidade; vida; o novo mundo Nevoeiro: indefinição; promessa de vida; força criadora; novo dia