A INCRÍVEL HISTÓRIA DO MENINO QUE VENCEU A MORTE E SEU CARRETEL MÁGICO

“Mas as pessoas na sala de jantar/ Estão ocupadas em nascer e morrer” (Caetano Veloso e Gilberto Gil) 1-APRESENTAÇÃO O intuito deste trabalho está relacionado ao objetivo que Freud afirmava ter em relação a sua escrita, quando dizia que escrevia, sobretudo, para melhor elaborar suas idéias. Parto de um conceito um tanto difuso e dado a controvérsias encontrado num segundo Freud, que ultrapassando a questão de clarificar para seus analisandos o que ocorria em suas vidas de maneira inconsciente, começa a se perguntar os porquês de, mesmo tornando-os cientes de todo o processo que atravessavam, os mesmos insistiam em repetir os comportamentos ditos indesejáveis. Imbuído desse enigma, Freud publica em 1920 o famoso marco da psicanálise ‘Além do princípio do prazer’, e nos oferece, entre tantas elucubrações mais, o conceito fundamental da pulsão de morte, ponto central para a teoria psicanalítica e suas inúmeras ramificações. Pretendo enfocar neste ensaio o conceito de compulsão à repetição e seus desenlaces no psiquismo atual, tomando como ponto de partida ilustrativo a brincadeira do Fort Da apresentada por Freud, quando observava seu netinho durante a ausência da mãe. Entretanto, o enfoque dado a esta busca se distancia um pouco do usualmente tomado, o qual preconiza, antes de mais nada, a castração e o desamparo sentido diante da separação da mãe. Neste ensaio, procuro explorar um outro sentido para a mesma brincadeira. De imediato, pode-se taxar apressadamente a busca deste outro sentido como mais uma interpretação do sintoma, o que não deixa de ser também. Mas como a interpretação de nada vale se não ressaltar e expandir mais questões, tento aqui levantar algumas hipóteses sobre a construção teórica da dita brincadeira e seus desenlaces na vida dos indivíduos. Na bibliografia sobre o tema, são inúmeros os textos que quase em uníssono repetiam e repetiam, como boa sintomática da pulsão de morte, os temores da castração e de sua elaboração através da própria repetição.

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Seguiremos. e inventa um novo jogo com um carretel amarrado a um barbante. Vamos a ele então. quando uma parte de tal membrana é atingida por estímulos externos e devido a isto se torna uma crostacalcinada. As personagens principais destes dois ensaios apresentam alguns pontos em comum que merecem ser vistos em paralelo. ao perceber que o neto referia-se a ausência / presença da mãe e sua tentativa de domínio da situação. para daí experimentarem outro meio de vida. aproximando-nos da vesícula como forma de exemplificar o que ocorre na vida psíquica dos viventes.nome que traz no significado nada menos que a sabedoria -. A ilusão de onipotência pôde assim ser 2 . muito menos amá-la. ao puxá-lo de volta. buscam um movimento muito semelhante de sobrevivência promovendo enfim a separação deste ser onipresente representado pela maternidade. repetindo as palavras fort. Os filhos de Sophie/ Sophia . pela ligação libidinal mais extremada que conhecem. diferenciando a ameaça de castração (oriunda de Eros) do confronto com a morte (Thanatos). O significado da brincadeira é dado rapidamente por Freud. inclusive livrando-o de qualquer fragmentação ou despedaçamento do eu. ao lançar o brinquedo e da. talvez mais arriscado. 2-O “FORT DA” E O “FORT’ Façamos como fez Freud. filho da primeira Sophie. antecipando a pulsão de morte para um período muito mais primitivo. quando separa drasticamente as qualidades da pulsão. para que o resto da vesícula sobreviva. deparando-se com a invenção lúdica de seu neto Ernest. partindo assim numa direção outra que não a inicialmente compreendida pela maioria dos psicanalistas quando fazem esta equivalência. se o próprio Freud denominou a pulsão de morte como tal – e não pulsão de castração – alguma diferença deve existir na qual possamos nos apoiar. O primeiro. Nathalie Zaltzman (1993) nos proporciona um novo enfoque. a caminho da explanação sobre a consciência e a memória. como fez Freud. Afinal. quando a criança percebe a ausência da mãe. Freud divide a brincadeira do neto em dois momentos. mas certamente vital.Ouso procurar outro caminho que não o do Édipo. jogando-o para frente e puxando-o de volta. morrendo. quando o bebê sequer pode reconhecer sua mãe. ao se agarrar a um carretel mágico que lhe dava amplos poderes.

Contudo. era o marido de sua dileta filha quem estava longe.. que se encontrava no front de batalha. fogo.experimentada. repetindo somente o fort. é que o neto pôde finalmente encontrar uma saída à ameaça sofrida e se agarrar a ela como modo de sobrevivência. 1920: 32-33). Partamos agora ao domínio infantil e sua ilusão de onipotência esperada. Num segundo momento. o menino em questão enfim sobrevive a uma ameaça mais que perturbadora. e por que não dizer.para exercer seu poder diante da realidade. Segundo Freud. Freud associa a brincadeira desta vez à ausência do pai da criança. fazendo com que a criança dominasse sua própria brincadeira. pedras. 3 . para então. puxar de volta e mesmo destruir. a qual ele agora pode lançar. repetindo sua aprendizagem de como se livrar da morte. . já que o mesmo carretel representa a mãe internalizada do menino. época em que o homem sequer dominava sua fala (assim como as crianças mais novas). se salvaguardar de futuras ameaças. utensílio de todo herói que se preze. o neto não mais puxa o carretel ao seu encontro. Não será a brincadeira do neto também uma manifestação desse domínio? A brincadeira de Ernest mostra de maneira bastante explícita uma capacidade de manipulação da situação que pode mesmo nos remeter a uma época bastante primitiva. seu mundo psíquico. Através de um objeto mágico – carretel -. E se agarrando a seu gesto mágico e amuleto de sorte. e vejamos os outros exemplos que Freud dá à compulsão à repetição e sua tendência a provocar abandonos (Freud. dentes. afinal. e de como este usava instrumentos – tacape.. o neto sentiria um certo alívio pois. não mais teria que dividir a mãe com ninguém. com a disjunção sofrida por ele. Em outras palavras talvez até desnecessárias. o marido de sua filha Sophie. mas lança-o com força. levantemos aqui a interpretação de que era o próprio Freud quem se sentisse assim. Levantamos esta hipótese por ter sido justamente através da brincadeira repetida incansavelmente por inúmeras vezes que a criança em questão pôde exercitar seu domínio referente à ausência da mãe. ele pode enfim enfrentar outras situações de vida que lhe confrontem com o ‘mal’. agora. lanças. encontrando assim uma saída que o livrava da morte e despedaçamento. O objeto transicional winnicottiano pode ser citado aqui como teoria que abarca esse instrumento de sorte sem medo de errar.

o sucesso foi então obtido. este é um problema só dela. sem pestanejar. e para tanto exige que sua mãe se diferencie do mesmo. Ernest não morreu. Vamos agora a outro filho de Sophia. Davi precisa atacar corpos estranhos ao seu. sê-la. Davi não faz uso de carretéis ou qualquer coisa do gênero. Que fique “fora”. ele força uma separação da figura materna.sem. pouco importando se esta sobreviverá ou não. Se deu certo da primeira vez. Narrada pela autora como uma situação-limite. posto que agora ele conta com um refinado preparo descoberto por ninguém menos que o próprio ser. remete-se unicamente à sobrevivência. a solidão de cada célula. livrando-se destarte de uma incorporação danosa.fugindo ao bucolismo romântico e pré-determinado da escravidão sem escolhas. lhe desagradam e causam sofrimento. 4 . no entanto. o caso da doença de Davi esbarra no fort da do neto de Freud. Em suma. e afirmando. o susto não mais o acometerá. se ao lançar o carretel. que sofria de leucemia e colocava como condição para seu tratamento o afastamento da mãe. neste caso. filho dileto da analisanda de Zaltzman. a própria vida. a criança repete sua defesa independente do que a ataca. Zaltzman ressalta e enobrece as ditas ‘situações-limite’ como a única possibilidade de o indivíduo se constituir. deparando-se com a cara da morte em sua forma mais assustadora e afirmando. Mas a ênfase proposta está em lançar o objeto/mãe. O significado de uma experiência funcionar ou não. Entretanto. ao impor esta condição para que possa lutar por sua sobrevivência. Afinal. há de funcionar em outras situações. à medida que um modo mágico de estar no mundo se coloca como única possibilidade de sobrevivência. driblando assim qualquer possível cola que o prenda ou o prive de viver. desta vez Davi. temos que o indivíduo nada mais faz em sua construção sintomática do que repetir situações que. O elemento surpresa agora é eliminado. 3. a princípio. nesse encontro mais que buscado.AS SITUAÇÕES-LIMITE Voltando a 1920 e à teoria freudiana referente à compulsão à repetição. Após vivenciar esta experiência de dominação do desprazer pela brincadeira. Ou seja. E o viver aí deve ser compreendido à maneira de Guimarães Rosa -“Viver é muito perigoso” . E num esquema próximo ao pavloviano.

conceituando desse modo o que vem a chamar de situações-limite. A primeira reação de R. Esta urgência constitui o que chamo de a experiência-limite. quando o indivíduo precisa se constituir como um. “A dimensão psíquica de sobrevivência. muito menos derramado. enfatizando o a ameaça de aprisionamento da ligação libidinal. Acontece que. mudaria-se para outra sala. levando-a à seguinte formulação: “A última coisa que eu faria na vida seria pular a janela. está presente muito mais do que a exposição a riscos conhecidos. que lidava com uma mudança casual de endereço de trabalho. e por outro tendem à destruição e busca pelo novo. tomou lugar na dimensão do respeito pela realidade biológica. levando a uma ameaça de desagregação bastante encontrada no setting. lançarei mão de um fragmento clínico aparentemente corriqueiro. R. mas o novo local não contava com janelas. No entanto. A autora se firma em situações de confronto com a morte para que a vida se firme enfim. Para explicitar a assertiva acima. Zaltzman enumera alguns exemplos de como essa aproximação entre estes dois pólos opostos é feita. por um lado. A morte. e sim luz indireta e refrigeração. Pois é justamente neste ponto que Zaltzman se distancia de Freud. mas que trazia em si a proximidade com a morte em questão. Mas me acalma 5 . ao levantar a bandeira negra da pulsão anarquista. mesmo que através de seus descendentes. A pulsão sexual é responsável agora por manter os organismos vivos. Freud atribuiu à pulsão de vida. em contraposição à pulsão de morte que tenderia à destruição e repetição constante e incessante do mesmo.Foi buscando entender os motivos dessa repetição que Freud se debruçou sobre o artigo supracitado a fim de chegar a uma compreensão plausível para as causas destas infindáveis repetições que. a essa mudança foi claustrofóbica. são mantenedoras da vida e responsáveis pela conservação da espécie humana. então. um desejo de posse (1994:63) contrapondo-a a um pulsar egoísta. Trata-se de R. pois é ela que é visada e não a morte. nossa hipótese se faz à medida que a freqüência de tais situações surge na clínica contemporânea sem que sangue algum seja sequer mencionado. a urgência na demonstração de que se está vivo. separado. a qual traz. sozinho.” (Zaltzman. como possibilidade de quebra da repetição. ou Eros. tal função. inexoravelmente. 1994:51).. através do ato de expô-la à morte.

para um colapso já apontado por Winnicott. Diante do pequeno trecho acima. a fim de os vivos possam também se distinguir. um planejamento cuidadosamente arquitetado. fronteiras vacilantes e permeáveis aos mortos que continuam a tirar sua vida fantasmática dos vivos. ou para um marco catastrófico defendida anteriormente por Ferenczi. eu simplesmente não consigo encontrar outras saídas para nada mais. 1994:57). nenhuma iminência de guerra. nenhum salto mortal.. para que o feto sobreviva. “O que nos resta é o fato de que o organismo deseja morrer apenas do seu próprio modo”. que tenho sempre esta última saída à mão. do entorpecimento e de outras tantas tentativas de assassinar o objeto incorporado. para o fim do mundo. Mas a proximidade do fim está presente. temos.” (Zaltzman. para encontrar finalmente a minha janela. 4. salvando-se da fome anoréxica. “. como a própria situação-limite pede. mas conta que seja de sua própria maneira.muito saber que tem sempre uma janela por perto. as situações-limite de que nos fala Zaltzman se apresentam a nós com uma freqüência muito maior do que a esperada. já que o caos vivenciado nas ruas toma muitas vezes o lugar de uma ameaça de desintegração bem mais ameaçadora vivida no interior do indivíduo. podemos encontrar novamente o tal carretel mágico em 6 . Segundo a assertiva de Zaltzman. nenhuma ameaça de roubo ou de morte. posto que uma nova delimitação destas fronteiras é apresentada. nenhuma doença pré-existente ou fabricada. ou fronteiras fechadas que devolvem aos mortos à sua morte. em suas instâncias psíquicas mais primitivas. seguindo novamente o que Freud já preconizava.A PREPARAÇÃO Diante dessa preparação escatológica para o caos. de quais limites estamos falando. e com ele. de que o ser vivo sabe que vai morrer. Sem esta saída. E a pulsão anarquista resolve matar a mãe. a criança morre. para que ela possa ter mais filhos depois. torna-se precioso aqui delimitar. estas pulsões trabalham produzindo fronteiras entre o mundo dos mortos e o dos vivos. E o único pensamento que tenho em lugares fechados é de sair de lá. E um reconhecimento dos mortos precisa ser proporcionado. Há uma escolha médica a se fazer: se salvar a mãe. temos que a incorporação melancólica do objeto agora passa por prova de fogo. da qual jamais pularei”.. da overdose. (1920:50) Ademais. posto que nenhuma situação realmente de risco é colocada aqui.

por Ferenczi em Thalassa. viúvo. enquanto o outro jaz morto. terremoto. conseguidos a custa de muito muro pulado. exatamente no limite entre um e outro. casada e colada. maneiras de sobreviver a um fim que se anuncia como bastante próximo. 7 . Enfim. como testemunha. pestes. como aquele que deseja. não pulsaria como VIDA. Chegamos aqui à imagem de um fetiche necrófilo. o bloco indissociável que era o par. deixando o outro.. para exacerbarmos exatamente o oposto. a conservação pela afirmação da vida diante da proximidade com a morte. Cicatriz que os meninos ostentam para conquistar as meninas como prova de bravura. e que já fora defendida. As previsões apocalípticas ganham força a cada instante.. Para cada situação desagradável repetida infindavelmente. As situações desagradáveis e repetitivas ditas por Freud alcançam aqui um novo patamar. mas se estabelece em somente uma parte.suas diversas formas. Parece haver aí uma mudança de posição. por vezes mortíferos. guerras. no qual somente um elemento do casal está vivo. ao qual. diga-se de passagem. quando o mesmo constrói sua teoria sobre a genitalidade baseado na fantasia de retorno ao útero materno. humanos que somos.“NO MEU PRINCÍPIO ESTÁ MEU FIM” Nada melhor que a poesia de T. Ondas de calor. temos também um novo certificado de sobrevivência aos riscos. O mesmo caos pré-jurássico que temos notícias. sobrevivemos. repetida como modus operandi do indivíduo que mantém a ilusão de calcular minuciosamente seu próprio fim. entre outras coisas. 5. por isso mesmo.. noutras corriqueiros e até banais. E só com o morto sendo o outro é que o primeiro pode se diferenciar como matéria pulsante. vivo. quando a morte não mais acompanha. Visamos agora a uma valorização das situações-limite que se contrapõe à repetição como conservação da espécie. não teria a menor graça. Tudo enfim caminha para o caos. Eliot para ilustrar aqui a idéia central que defendemos. a vida não teria marca alguma. como pulsão autodestrutiva. mas sem eles. devido a seu ato de heroísmo e prêmio em forma de troféu a ser exibido. muita perseguição de cachorro bravo. S. tsunami. repetindo uma situação de ruptura antes vivenciada e. muita luta com a turma da rua do lado. e pregam.

me impressiona à princípio pela pobreza fantástica. 8 .. Tudo 1 – falar de neurose pura nos dias atuais pode parecer falar em esperanto. É só com uma dose do egoísmo a que alude Zaltzman é que os filhos de Sophie/ Sophia puderam experimentá-la exatamente como outro. postulamos que há uma ruptura no desenvolvimento do bebê.Em suma. um excesso. Caso contrário. como jamais se considerou apta a efetuar qualquer movimento – crença última que perdura até os dias atuais. e me chegou através de sua mãe. Diante desse episódio heróico. penso. Afinal. Acontece que a morte já se inscreveu e reescreveu por ‘n’ vezes. para se atualizar como preparação para um futuro nebuloso e mortífero. ajudará nesta exposição. e não como parte do ser. Agora partamos ao começo! Lanço mão aqui de um novo fragmento clínico que. por julgar-se incapaz de procurar por ajuda. Sabe se livrar. A história de K. que representa um significante para outro. posto que serão sempre vistas como mera repetição. mas se liga indubitavelmente à própria sobrevivência do indivíduo. chegou a passar dois anos deitada na cama. até que cesse finalmente de se repetir. A batalha vencida teima em se repetir e repetir exatamente por esse caráter de vitória. 2 Entendemos por sujeito apenas o sujeito da ação. mas que o próprio fato desse trauma haver existido outrora ganha um significado muito mais forte que apenas o fundar a neurose1. quando tudo enfim cessar. Quanto ao fim. apresenta um quadro de depressão. esquecida. deste colapso específico. ele jamais repetiria. e assim sobreviver a ela vencendo essa batalha. algo como uma marca que lhe é própria permanece e se inscreve ininterruptamente por incontáveis episódios e situações. K. posto que haveria sucumbido à destruição. um trauma. distanciando-nos do sujeito barrado lacaniano. paciente de 28 anos. jamais brincou. distinguindo-se de outras ameaças que possam surgir. língua não mais usada. eternamente adiado. como relíquia na caixa de lembranças -. em seu quarto. e a mudança a que aludimos está justamente em enxergá-la dessa vez como alteridade. o sujeito 2 sabe sair. preparando-se assim para quando o “dilúvio” chegar. mudando de patamar em um sentido – o que liga ao passado. a ilusão de onipotência garante que seja exatamente como o planejado. Ela conta que em sua infância jamais teve amigos.

sua raiva. que não dá trabalho. Embora fossem. se julgava muito agressiva. tais como: “Ué. quando se deparava com exclamações surpresas que ela ultimamente flagrara em suas diversas variações. enunciando sempre uma melhora: “Estou bem”. Logo você se mudará e os deixará para trás”. tentando buscar algo hostil. e queria controlar isto. era errado. E ouso ainda dizer que não havia vida. sempre persecutório. K. nunca demonstrada. que tem um pai militar e devido a isto mudava sempre de endereço. e ensinava-lhe: “Amigos? Melhor nem ter. sempre grave e autopunitiva. A não ser de uma sensação contratransferencial que me tomava por diversas vezes. dificultando até mesmo que eu levasse esse caso para a supervisão ou mobilização clínica. Não havia exceções. como se qualquer ação sua atrapalhasse.. ‘Estou melhorando”. que explicitasse tal agressividade. Mas. a não ser sua construção frasal.”. incorporando outros enunciados já ouvidos. que não incomoda. flagrou-se então em uma queixa: “Acho que não estou bem. pouco demonstrava as emoções que narrava. raiva ou reação que ela me causasse ou a dita agressividade relatada. Não havia movimento. você está aí? Nem tinha reparado. o que me levava a desconfiar que ela quisesse me agradar.. agredisse ou ofendesse quem estivesse por perto. projetando no outro. K. o que a tornava sem sentido. Seu pensamento ideativo era sempre o de ser uma pessoa “boazinha”. algum ódio. dentre outras semelhantes. Assim era a matemática de K. Embora tal mudança não pudesse ser observada. Chegava pontualmente às sessões. Eu então me questionava. você dança?”. não”. que não seriam agressivos ou violentos. já que pouco podia dizer do que não tinha memória. Mas tal queixa era apenas falada. A dificuldade em atender essa moça me era posta em todas as sessões. K. tapas. E este era o único dado que me vinha a cabeça. uma irritação que ia crescendo. que não faz muito barulho. um pequeno incômodo. não alcançava êxito algum. Em suma. Ou: “K. 9 . Então era melhor nem fazer. A única coisa que eu podia distinguir era sobre os tapas. não havia nada em K. e mesmo depois que elas se encerrassem. Não havia expressões em sua fala monótona. como ela. A não ser por um pequeno detalhe. Ou ainda: “Ih. porém sem afetação. diante dos mínimos movimentos que fazia. eu pouco podia lembrar do que ocorrera. segundo ela. que era a vontade de estapeá-la.o que fazia. sim. você bebe?”.

assim como meu esquecimento de qualquer fala que acontecesse no setting relacionava-se a este bebê que ainda precisava nascer e se livrar do vernix. ao Eros. como faz Davi. corroborando a idéia egoísta da pulsão de morte anarquista. como Ferenczi já frisara em “Análises de crianças com adultos”.. 10 . K. esquecida. que precisa liberar os pulmões do recém-nascido. anda. toda vez que ela demonstrava estar viva. para que K. pôde gargalhar e finalmente demonstrar alguma emoção ao ouvir a idéia da boneca.Minha reação ali foi a de indagar sobre este espanto das pessoas. isso acontece depois. da placenta desnecessária agora. anunciando ao mundo sua chegada. dança. alguém pode descobrir mais uma função. 3 4 Nota dada aos recém nascidos após uma série de exames específicos de suas funções vitais Nós sabemos que essa imagem é impossível a um bebê. No entanto. chorasse e assim sobrevivesse com um bom apgar3. à saída do útero. Diante de minha fala. arremessando-a em forma de carretel com as próprias mãos como interpreto a representação da brincadeira do Fort de Ernest. Agora quem se espantava era eu. O mito que mais se aproximaria então desta pulsão anarquista parteira. E aproximei sua fala idealizada da boazinha que não faz barulho à de uma boneca chamada Kika (brincadeira com seu nome). que sobrevive graças à morte. da primeira experiência. ela riu. a boneca que faz xixi. E de suas re-inscrições e atualizações. com muita sorte. Ah. à separação da mãe. E associei minha vontade de ‘dar tapas’ a de uma parteira. mas que geralmente está encostada num baú de brinquedos. ou do separarse da mãe para poder se curar. Na realidade. como começa a fazer K. morta. E enfatizei que as bonecas jamais se irritam. seria o de Ártemis4. ao amor. Só depois da fome saciada. e que de vez em quando. e de finalmente poder nascer e berrar. de deixar a janela/saída de R. curótrofa que faz seu próprio parto. é do infantil que se trata. se repete então em todos os exemplos supracitados.. além de quatro ou nove frases que já viriam programadas. diferenciando-se dela. Quanto ao Édipo. com a vida ali dentro. A cena fantasiosa do nascimento. quando o bebê nada mais quer do que se livrar da placenta que outrora o supriu. de lado para encontrar outras saídas. mudando sua voz pela primeira vez e saindo da monotonia.