PUBLICAÇÕES DIGITAIS NO IPAD

ESAD ESCOLA SUPERIOR DE ARTES E DESIGN CONCEPÇÃO POR IGOR PASCOAL PARA U.C. HISTÓRIA DOS MEDIA COORDENADO POR PROF. HELENA SOFIA EM ABRIL E MAIO 2011 COM ENTREGA A 3 JUNHO 2011

Para a realização deste trabalho de História optei por um tema que acompanho com grande atenção e entusiasmo. As Publicações Digitais no iPad, que começam agora a dar os primeiros passos mais significativos, marcam uma viragem significativa na história dos media e dos novos media. A partir do momento em que deixamos de ver o computador, em que deixamos de diferenciar o digital e o analógico na necessidade de alienar o meio, em que os conteúdos multimédia se combinam com as palavras para transmitir conhecimento de uma forma nunca antes concretizada. Há uma alteração profunda na forma como comunicamos, na forma como recebemos e interpretamos conhecimento e na forma como filtramos informação. O combustível a este progresso está precisamente nos conteúdos da Unidade Curricular de História dos Media. A fotografia, o cinema, a televisão, o vídeo, o design gráfico são todos transportados para esta nova era e todos eles constituem as formas para a transmissão das mensagens. E depois das formas e dos novos meios, temos os conteúdos que podem ser vistos em qualquer lugar, em qualquer plataforma. ESTRUTURAÇÃO Desde a entrega da proposta que comecei a coleccionar artigos, notícias e vídeos relevantes para o trabalho, que conjuguei depois com a re-leitura de alguns dos conteúdos da Unidade Curricular de História, como os excertos de “Los Media y La Modernidad” de John B. Thompson, e ainda o artigo “A vanguarda como Software” de Lev Manovich. Abordei ainda algumas aplicações, e vídeos de lançamento do iPad e de entrevistas a Steve Job na All Things Digital de 2010. Cruzei algumas informações de Marshall McLuhan e de John Thackara e estabeleci alguns paralelismos dos mesmos com esta nova tecnologia. Abordo ainda algumas problemáticas dos meios de comunicação social e formas de como se está a processar a transição para as novas plataformas. Por fim, abordo algumas aplicações exemplares do que são as publicações digitais em iPad. REFLEXÃO O ambiente era de grande euforia e antecipação. A 27 de Janeiro de 2010, Steve Jobs subia ao palco do Yerba Buena Center, em São Francisco, nos Estados Unidos, para introduzir o iPad, um tablet que revolucionou a computação pessoal. Na última década, os jornalistas viram os seus rendimentos descer exponencialmente à medida que os cidadãos foram trocando os jornais impressos pelas versões electrónicas, disponíveis na Internet, gratuitamente. Nos dias anteriores ao lançamento do tablet da maçã, corriam títulos esperançosos nos meios de comunicação social implodindo a salvação que haveria de chegar pelo novo gadget. Até ao momento, a Apple já regista a liderança na revolução do mercado de música digital com o seu reprodutor de música iPod e a loja online iTunes Store. Em
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Fig.1 IPAD E REVISTA POPULAR SCIENCE

2007, a empresa de Cupertino comprometeu-se a reinventar o telemóvel inteligente com o smartphone iPhone e a loja de aplicações App Store. O seu estatuto de marca inovadora, o culto de fans em seu redor e o secretismo de todos os lançamentos asseguravam as expectativas dos produtores de conteúdos jornalísticos. O iPad (fig.1) representa o desaparecimento do computador como o conhecemos. É a combinação do ecrã de multi-toque, com a longa duração de bateria, o acesso à Internet através de Wi-Fi e 3G, a multiplicidade de sensores integrados e outros menores mas significativos factores que contribui para o carácter mágico do gadget, como o seu principal criador o classifica1. O iPad é um dispositivo que nos permite aceder a todo o tipo de conteúdos multimédia [“O multimédia permite aceder a todo o tipo de meios usando a mesma máquina” (Lev Manovich, 1999)] numa posição mais relaxada, sentados num sofá, sem restrições físicas com os acessórios de input de teclado, rato ou caneta. Com as aplicações a ocupar todo o ecrã e a combinação de diversos meios de produção distintos, cria-se uma experiência de imersão emotiva com os conteúdos, que até então só conhecíamos dos livros e da televisão. Ele permite-nos navegar na web, ver fotografias, filmes, vídeos, música, consultar o email, ler livros, divertirmo-nos com jogos, e a qualquer momento podemos expandir o leque de funcionalidades através da instalação de outras aplicações. Contudo, o que num primeiro momento indicou ser apenas um iPhone num tamanho de 10 polegadas, ou um dispositivo apenas destinado ao consumo e consulta de conteúdos, tem vindo a revelar-se, ao longo do tempo, capaz para o processo de criação e edição de conteúdos. Por exemplo, a mais recente versão do aparelho electrónico permite que no mesmo dispositivo portátil se possa filmar com as 2 câmeras disponíveis, editar o vídeo e publicá-lo no YouTube, sem nunca existir a necessidade de recorrer a um PC. Claro que muitas das coisas que o iPad faz, já outros aparelhos o faziam, anteriormente, a um nível diferente. Por exemplo, a Microsoft já tinha desenvolvido uma versão do seu sistema operativo Microsoft Windows XP para ser utilizada num TabletPC com um stylus, recorrendo a ecrãs tácteis integrados em portáteis. Podemos ainda considerar os leitores de ebooks, os PDAs e até os próprios smartphones. O tempo e a tecnologia só agora tornaram possível um dispositivo como o 2. E uma das áreas mais afectadas e enriquecidas com a chegada do iPad é sem iPad dúvida a publicação. Para além de ser uma nova plataforma e um novo aparelho de leitura, há um conjunto de novas possibilidades que estabelecem um novo nível de interacção e novas capacidades e técnicas na transmissão de conhecimento. O carácter social e comunicativo da plataforma é um dos primeiros novos níveis do gadget. A integração suave entre as duas componentes de social media e o novo hardware foi fundamental para a forte atractividade e sucesso tanto do smartphone como, agora, do tablet. Nos últimos anos, para além de estendermos as conversações interpessoais para o digital, passou a ser possível estabelecer verdadeiras
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comunicações entre os produtores dos conteúdos e o público, e entre o próprio público, em locais físicos diferentes. Torna todas as pessoas mais acessíveis e elimina a ênfase social hierárquica da celebridade inacessível. Esta disseminação veio ainda possibilitar a partilha de hiperligações, inventadas por Tim Berners Lee no inicio da World Wide Web, e desapropriar os conteúdos. Esta mudança é referida por John Thackara, “Para mais ou menos qualquer coisa pesada ou estável, nós não precisamos de as ter - só precisamos de saber onde as encontrar.” (John Thackara, 2006, tradução livre) Portanto, as publicações digitais em iPad terão de ser invariavelmente distintas e tirar proveito da tecnologia que têm à sua disposição. Não esquecendo que “(...) eles [organizações noticiosas] não têm os preços da impressão, não têm os preços da distribuição, e devem apostar num preço razoável agressivo e na distribuição em volume. Eu penso que as pessoas estão dispostas a pagar por conteúdo, eu acreditei nisso na música, nos media, e acredito nos conteúdos noticiosos.” (Steve Jobs, 2010, tradução livre) Com isto, e apenas um ano após a introdução do iPad, o grupo News Corporation de Rupert Murdoch anunciou um novo projecto: o primeiro jornal diário especificamente concebido para iPad. Chama-se ‘The Daily’ e conta com uma equipa de mais de 100 colaboradores. Noticia para as massas, com todas as assumpções que isso acarreta3, e conta com conteúdos generalistas e curtos com grande componente multimédia. Num outro lado da questão, novas empresas start-ups surgiram com o intuito de se lançarem nesta nova oportunidade das publicações digitais. O Flipboard é um exemplo disso. É uma aplicação que lida com as notícias que são sugeridas pelos nossos amigos através das redes sociais ou de serviços de subscrição de feeds RSS, e apresenta-as num formato de revista interactiva com os conteúdos que nos interessam. Por sua vez, o Zite é uma aplicação que nos sugere conteúdos com base nos nossos interesses e torna mais provável cruzarmo-nos com conteúdos que não encontraríamos de outra forma. Recorre a algoritmos e a padrões de utilização para melhorar essa experiência ao longo do tempo. Uma última aplicação, já no campo dos livros, que nos mostra a verdadeira mudança, e para onde acredito que caminhamos no campo das publicações digitais, é uma aplicação desenvolvida pela empresa Push Pop Press. Eles denominam-se de revolucionários na área da publicação literária digital, e é Al Gore, com o seu último livro ‘Our Choice’, a iniciar esta transformação. A empresa conta com ex-colaboradores da Apple e promete lançar o software que vai permitir construir objectos digitais que combinem todos os media num pacote coeso, interactivo, pessoal e, quanto possível, interessante.

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Todas estas formas comunicativas têm como base as aplicações e o software. Doravante o software é a base de desenvolvimento de livros, jornais e revistas digitais que se mostra mais forte. “A vanguarda torna-se software.” (Lev Manovich, 1999).

CONCLUSÕES Derivado de tudo isto, a mudança é clara. As pessoas estão a adoptar o iPad em massa e a App Store tornou-se numa mina de ouro para os programadores. Uma das vantagens mais evidentes é a continuidade da redução dos meios em papel e, consecutivamente, a maior sustentabilidade que estes novos dispositivos oferecem. Ainda assim, parece-me que os livros, tanto em papel como digitais, não estão ameaçados e podem co-existir sem problemas. No entanto, se considerarmos que muitos de nós já possuía um computador e um smartphone, o tablet é o terceiro dispositivo duro, o terceiro ecrã para onde passamos a olhar. Será que temos de possuir mesmo três gadgets distintos? O próximo passo da tecnologia, a médio prazo, é combinar os três dispositivos num só através de ecrãs flexíveis, dobráveis e muito portáteis que podemos “vestir” de qualquer forma, ajustando-se o device ao indivíduo, e não o indivíduo ao device. A um nível mais imediato, as publicações digitais que surgem novas no iPad são as que têm maior liberdade de experimentação, restando os jornais e revistas já existentes com as maiores dificuldades na modernização. Possivelmente, os conteúdos que produzem para impressão têm de ser re-ajustados no digital e mais direccionados para um público alvo que se fragmenta cada vez mais. Não espanta, que receitas como a do ‘The Daily’ não estejam a funcionar, ainda que a aplicação esteja bem desenhada. Os pontos de sucesso das aplicações de digital media passam por: • Preços atractivos e agressivos que não intimidem o utilizador a comprar conteúdo; • Conteúdos mais direccionados e especializados, quer através da própria redacção, quer através do uso de tecnologia que filtre os conteúdos para os interesses e definições do utilizador; • Construir narrativas de simbiose entre os conteúdos multimédia e os artigos escritos, com interacções em medida, propositadas e envolventes; Efectivamente, as coisas novas e que estabelecem verdadeiras mudanças sociais deixaram de ser acontecimentos ocasionais e tornaram-se constantes. Actualmente, a mudança é uma constante e é-nos requerido e exigido, enquanto designers de multimédia, que estejamos sempre à frente dela. Em 10 anos o iPad como o conhecemos será obsoleto e as tecnologias colocarão outros desafios à nossa criatividade. Resta-nos desejar, neste stress tecnológico, que estes desenvolvimentos sejam verdadeiros progressos para a humanidade.
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CITAÇÕES 1 - There's something magical about it. You have a much more direct and intimate relationship with the Internet and media, your apps, your content, its like some intermedia thing has been removed and striped away. (Steve Jobs, 2010)
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I'll actually tell you kind of a secret. Huh. Actually it started on the tablet first. And I had this idea of being able to get rid of the keyboard, type on a multi-touch glass display, and I asked our folks 'can we come up with a multitouch display that I can type and rest my hands on?’ About six months later they called me in and show me this prototype display and it was amazing. And I gave it to one of our guys - this is in the early 00's - and I gave it to one of other really brilliant UI folks and he called me back a few weeks later and had a physics(?) scroll working and a few other things. Now, we were thinking about building a phone at that time, and when I saw the rubber band and the carrousel(?) scrolling, I though 'My God…We can build a phone out of this!'. And I put the tablet project on the shelf because the phone was more important. And we went through the next several years and did the iPhone. And when we got our wind back, and though we can take on something next, pull the tablet of the shelf, took everything we learn from the phone and went back to work on the tablet. (Steve Jobs, 2010)
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Sugiere que los destinatarios de los produtos mediáticos constituyen un vasto mar de individuos pasivos e indiferenciados. Se trata de una imagen asociada a algunas de las más tempranas críticas a la “cultura de masas” y a la “sociedad de masas”. (John B. Thompson, 1997, p.44) BIBLIOGRAFIA APPLE (2010). Apple Launches iPad. Retirado em Maio, 29, 2011, http://www.apple.com/ pr/library/2010/01/27ipad.html EBOOK PORTUGAL (2011). Leitura no iPad vs leitura em jornais. Retirado em Maio, 22, 2011, http://ebookportugal.net/2011/05/leitura-no-ipad-vs-leitura-em-jornais/? utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter ECOMMERCELAW (2006). Will the Internet Kill Newspapers? Retirado em Maio, 28, 2011, http://ecommercelaw.typepad.com/ecommerce_law/2006/04/will_the_intern.html FISHER, David (Director), Sorkin, A. (Writer Screeplay), Mezrich, B. (Writer Book) (2010) The Social Network. USA: Columbia Pictures. FLIPBOARD (2011). This is your Flipboard. It’s your personalized, social magazine. Retirado em Maio, 29, 2011, http://flipboard.com/ GUARDIAN (2010). Apple tablet to ship in March, says WSJ; speculation keeps growing. Retirado em Maio, 26, 2011, http://www.guardian.co.uk/technology/blog/2010/jan/04/ apple-tablet-march-speculation

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