Resenha da obra: SANTOS, Boaventura Sousa. Um Discurso sobre as Ciências. Porto: Edições Afrontamento. 12ª Edição.

Autor: Francisco Augusto Cruz de Araújo Boaventura de Sousa Santos é talvez um dos mais influentes sociólogos europeus dos tempos atuais. Ele nasceu em 1940 em Coimbra, Portugal, e com seus estudos conquistou méritos internacionais ao divulgar suas preocupações com as experiências da vida humana. No Brasil, Boaventura ganhou especial popularidade ao participar das ultimas edições do Fórum Social Mundial. Tradicionalmente, a Europa tem sido berço de grandes pensadores da condição humana. Dentre eles destacam-se nomes como Kant, Rousseau, Norberto Bóbbio, Max Weber e muitos outros. Boaventura é conhecedor da maioria das obras destes e outros pensadores. Nesta resenha, resumiremos e refletiremos um pouco acerca das três discussões propostas pelo autor: o paradigma dominante, a crise do paradigma dominante e o paradigma emergente. O autor trabalha a idéia de uma evidente crise nas ciências nos tempos atuais, e gradativamente ele expõe como a ciência falirá e como um novo espírito científico deverá substituí-la. Boaventura neste discurso tem o objetivo de refletir acerca das ciências no seu conjunto, observando toda a sua trajetória ao longo dos séculos, bem como reflete a idéia de progresso científico, concluindo que ainda vivemos baseados numa ciência que tem muito a amadurecer. Em seu discurso, Boaventura se dá conta eu em meio a um aparato científico tão abrangente, as perguntas e questionamentos tão complexas já não são capazes de interrogar tamanho processo de desenvolvimento da sociedade. Ele acredita, assim como Einstein, que os questionamentos simples como os feitos por uma criança são capazes de nos fornecer esclarecimentos tão próximos da realidade que nos forneceria mais segurança à tantas perplexidades do mundo moderno. Essas crianças devem estar presentes em cada um de nós. O primeiro exemplo retratado pelo autor em seu discurso remete-se ao espírito infantil de Jean Jacques Rousseau. Destaca ele: “O progresso das ciências e das artes contribuirá para purificar ou para corromper os nossos costumes?” Tratou-se de um questionamento simples, mas de grande profundidade. Rousseau respondeu rapidamente com uma negativa. É neste sentido que Boaventura sustenta seu olhar firme sobre a ordem científica hegemônica, uma ciência que insiste em manter-se inflexível às reais necessidades humanas, analisa sob um olhar sociológico a crise dessa ciência e propõe um perfil de uma ordem científica emergente. Quanto à ordem científica dominante, ele questiona a estrutura deste modelo científico desenvolvido a partir do século XVI e que ao longo dos anos foi fortalecendo-se. Esta estrutura científica compromete-se unicamente com uma forma singular de se buscar o conhecimento verdadeiro, baseando-se em seus princípios epistemológicos e em metodologias restritas. Caracterizando-se como um modelo autoritário e

a mecânica quântica. visto que todo e qualquer conhecimento desenvolvido pelo homem deve ser utilizado para promover-lhe uma vida decente. Desta maneira. . que defende a quebra do modelo “mecanicista” e linear. Boaventura busca fortalecer a idéia de que o conhecimento científico deva fundamentar-se na conciliação de diversas áreas das ciências existentes da atualidade. A sua idéia principal seria a divisão feita pela ciência entre simultaneidade dos acontecimentos. A quarta e ultima evidência da crise exprime-se sobre a teoria de Prigogine. os questionamentos da matemática e os avanços tecnológicos da microfísica. A segunda condição que expõe a crise deste paradigma científico remete-se à mecânica quântica que evidencia a impossibilidade de se observar um objeto sem que haja interferência nele. As fronteiras entre as áreas de conhecimento devem limitar-se a pequenos detalhes. A sua maior crítica remete-se à estrutura em que esta ciência constituiu-se ao longo dos tempos. 37). Baseouse em um mundo totalmente cognoscível e organizada a partir de uma ordem cronológica. enfatizando a interdisciplinaridade e transdisciplinaridade para alcançar uma dimensão mais aproximada do real. opondo-se duramente ao senso comum e afastado da natureza e das carências humanas. todo conhecimento local é total. química e biologia. Finalizando seu discurso.que não corresponde às necessidades humanas. O autor levanta quatro justificativas para evidenciar tal crise: a teoria da relatividade. fundada numa dinâmica que ele chama de “determinismo mecanicista” e que tem permeado diretamente no comportamento e imaginário da sociedade. resultando que “o objeto que sai de um processo de medição não é o mesmo que lá entrou” (pág. todo conhecimento é autoconhecimento e todo conhecimento científico visa constituir-se em senso comum. A segunda reflexão levantada na obra revela uma forte crise neste paradigma dominante. propondo a transdisciplinaridade que uniu as ciências sócias e as naturais. Tal rigor impõe situações tão restritas de compreensão que as transformam em condições indiscutíveis. espacial que a tornou verticalizada. Boaventura propõe um modelo a qual denomina “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente” (pág. frisando que os eventos humanos não acontecem paralelamente em tempos simultâneos e representam medições e eventos próprios de cada local em que ocorrem. Para justificá-lo ele traça quatro condições que norteiam e alimentam a ciência que deverá florescer: todo o conhecimento científico-natural é científicosocial. 25). A primeira condição que evidencia a crise deste paradigma dominante diz respeito à teoria da relatividade de Albert Einstein. A terceira condição da evidente crise é o rigor matemático para explicar os eventos analisados.