Universidade dos Açores Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais Mestrado de Sociologia

Processos de Mudança e Desigualdades nas Sociedades Contemporâneas

Desigualdades e identidades multiplicadas

Paulo Vitorino Fontes

Docente: Fernando Diogo

Ponta Delgada Junho de 2011

por fim. emergindo as classes como “critério de desigualdade produzido pela própria acção dos indivíduos no mercado” (Dubet. A primeira. as desigualdades já não encontram a sua razão “no berço e na tradição” (2001:6). 2001:6).Resumo Pretende-se de uma forma exploratória. através de pesquisa e análise bibliográfica. de estruturas e experiências individuais e colectivas. Partindo do ensaio de François Dubet intitulado: desigualdades multiplicadas como obra de referência neste trabalho. um dos valores da modernidade. “representada por Tocqueville. ambiciona-se analisar as desigualdades não numa dimensão particular mas numa perspectiva alargada. no sentido em que no processo histórico algumas atenuam-se e outras aumentam-se. essa interpretação da modernidade significa que as desigualdades . da casta ou da ordem perde a sua influência na construção das desigualdades. A honra proveniente do nome de família. Na modernidade. evidenciada por duas narrativas gerais que ultrapassam diferentes autores. das narrativas. A dupla face da modernidade Dubet ao considerar a tradição sociológica como construção em torno da modernidade. O autor salienta a dupla natureza das desigualdades. Introdução O presente trabalho está estruturado em três partes: a primeira procura apresentar a dupla face da modernidade no que concerne ao debate em torno das desigualdades. 1. destaca uma das tensões fundamentais desta. uma vez que ela não se constitui como evidência empírica nas condições de vida. procurando situar este movimento na experiência dos actores na tentativa de transformar as desigualdades num objecto da sociologia. a terceira pretende enfatizar as desigualdades ampliadas e as múltiplas identidades socialmente construídas. 2001:6). Considerando esta igualdade como princípio. mantendo-se na realidade as desigualdades sociais. “Na prática. identifica a modernidade e o próprio sentido da história com o triunfo obstinado da igualdade” (Dubet. ver as desigualdades como um conjunto de processos sociais. a segunda procede como uma análise das alterações no decorrer da historicidade e. perceber e explorar os vários sentidos da desigualdade ou das desigualdades na sua historicidade. como refere Dubet.

sendo parte desta reinvestida e a outra parte desigualmente distribuída. resultam do achievment. “as desigualdades de classes são um elemento fundamental. De igual forma as relações entre as classes são pensadas como relações de poder e aquelas vistas como movimentos sociais. consubstanciada no Estado-providência e num “sistema de protecções e direitos sociais” (2001: 7). origina uma tensão entre os trabalhadores e os donos do capital. 2001: 6-7). fazendo “das desigualdades sociais um elemento funcional do sistema das sociedades modernas” (2001: 6). numa regulação política. consistindo por um lado na procura fundamental de igualdade dos indivíduos e. as identidades colectivas e individuais (os habitus) e a própria vida política ” (Dubet. no outro pólo. atrás mencionada. naturais.” Na medida em que o capitalismo assenta num sistema de procura contínua da mais-valia a partir do trabalho. 2001: 7). apesar da utopia de muitos que sonharam com a sua resolução (Dubet. as classes e as desigualdades de classes constituíram-se como “objecto sociológico total” (ibidem). estrutural. afirmando Dubet (2001: 6) que as classes configuram grupos de interesses objectivos aptos a ultrapassar os interesses individuais. tem sido vivida como “não contraditória através dos temas da divisão do trabalho e da integração conflituosa” (Dubet. uma vez que os conflitos provenientes das desigualdades são negociados. a desigualdade de carácter estrutural e ligada aos mecanismos de desenvolvimento económico. Esta regulação permite conciliar o princípio normativo da igualdade dos indivíduos com as desigualdades. No entanto. 2. A tensão presente nesta dupla face da modernidade revela-se para Dubet como estando na origem da sua dinâmica social. as classes e as desigualdades sociais explicam grande parte dos comportamentos socioculturais. das sociedades capitalistas. citando Dubet (2001: 6). A segunda narrativa que funciona como eixo da tensão da modernidade é representada por Marx. muito além da inspiração marxista. A dupla representação das desigualdades no raciocínio deste autor. articulando a consciência dos conflitos sociais. Alteração de tendência? . Assim. das sociedades modernas – quer dizer. 2001:6). graças aos modos de vida em comum e à consciência de classe. Para este autor. Esta tensão permanece no seio da modernidade. da aquisição de estatutos e não mais da herança e das estruturas sociais não igualitárias em seu princípio” (Dubet. como sejam “os modos de consumo. 2001: 7).justas.

num ambiente de mundialização e de crise. Isto porque. Uma estrutural mudança verificou-se com a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho. podemos falar do aumento dos conflitos relacionados com o trabalho advindos do auge da integração industrial. que para além da sua condição. outros níveis se democratizaram. pois os filhos das classes populares. de certo modo igualitário aos bens de consumo. como lembra Dubet (2001: 8). O raciocínio de Dubet realça o papel dos media na ampliação desta influência e na difusão de novos conceitos. 2004 1 . numa historicidade em que se algumas “desigualdades se aprofundaram. como lembra Dubet. tanto no mundo erudito como na sua utilização ao nível do senso-comum. Embora as condições de vida se mantenham díspares e a reprodução social permaneça desigual. dos eventos culturais ou da afirmação pelas marcas. Passada a prosperidade económica. Como Dubet bem explora 1 na análise do acesso à educação. set.Com o apogeu da sociedade de classes em torno dos anos 50 e seguintes. “parecem estar reduzidos a esse estado” (p. evidencia-se a contradição deste desenvolvimento. apesar do acesso possível e. grupos desfavorecidos e outras. o autor destaca a expansão da “igualdade sob a forma de uma homogeneização da sociedade” (Dubet. permanecem nos percursos menos reconhecidos. em substituição da noção de classe operária. 123. 8). as referências e os níveis de consumo tomaram como modelo de referência a classe média de uma forma genérica. mesmo que isso não se traduza no Para uma leitura mais aprofundada desta temárica ver do mesmo autor “O que é uma escola justa?” in Cadernos de Pesquisa. através de noções como “as camadas populares”. outrora operárias. em que a tónica mais acentuada é dada pela mistura das comunidades. tal democratização mostra-se bastante segregativa (2001: 8-9). fundiram-se no universo das classes médias. partes desta se homogeneizaram na classe média. com implicações mais vastas e menos específicas do que a economia deste trabalho permite. em que as barreiras sociais da pré-modernidade são substituídas por níveis possíveis de ultrapassar. 34. pelo que não serão aqui exploradas o suficiente as consequências deste fenómeno e as novas desigualdades daí decorrentes. essencialmente no mundo ocidental. enquanto os filhos das classes superiores enveredam pelas carreiras mais valorizadas. os modos de vida. com a massificação escolar. p./dez. Para além da redução da classe operária. Ao mesmo tempo que a educação se massificou. como o dos bens de consumo. em que a pluralidade reforça a imprecisão. ou melhor. 2001: 8). outras se reduziram”. 539-555. n. A aparente homogeneização evidencia-se na crescente assimetria entre os ricos e os pobres. v.

outras formas de desigualdade surgiram. embora não estanques. 2001: 10). a tarefa de objectivá-las não é facilmente realizável. com o crescimento da pobreza. à idade e à origem étnica. emerge um sector excluído. à escolaridade. E apoiando-se na teoria dos capitais de Bourdieu. de salientar que assistimos à degradação do Estado-providência. 3. enfatiza o carácter múltiplo das desigualdades bem como os distintos modos de dominação presentes (Dubet. 2001: 9). Por outro lado. dos níveis de rendimento e dos posicionamentos das áreas de actividade económica. como lembra Dubet (2001: 9). Prosseguindo o pensamento deste autor. avenças. como sejam os funcionários públicos. considerando o acesso aos bens e aos sectores de actividade antes vedado. no “jogo da terceirização” (Dubet. Outras distinções e tensões surgem em função de grupos protegidos. quer seja através de regalias ou de subsídios. através de estágios. mesmo que não tenham desaparecido as relações de dominação. No mundo ocidental já não faz sentido a oposição clara entre assalariados e os detentores dos meios de produção. podemos afirmar que esta se tenha reforçado. Assiste-se a uma transformação da estrutura de classes das sociedades industriais em que a distinção entre os vários grupos é operada a partir dos vínculos laborais.reforço efectivo da igualdade e. 2001: 10). Com o avanço do tempo e com as modificações da estrutura social. O autor sublinha que os problemas da mobilidade e estratificação destacam-se das tensões estruturais. apoios sociais e outras fragmentações. os agricultores. como parte da igualdade. ainda que apoiado pelas políticas públicas sociais (Dubet. neste sentido é pertinente a ideia do “duplo registro de desigualdades” (Dubet. se ergueram entre os excluídos e os incluídos (Dubet. mas também em relação ao sexo. 2001: 10). com ênfase na sua fragmentação. novas fronteiras. uma vez que afecta grupos sociais específicos. A segmentação do mercado de trabalho operacionaliza-se não só em função das necessidades económicas. 2001: 9). Já não é clara a distinção com base em classes antagónicas. O autor considera o desemprego como a mais evidente das desigualdades. da insegurança e da economia paralela. As desigualdades e identidades multiplicadas . As desigualdades que contrapõem estes dois mundos verificam-se também no seio de cada um deles e. tanto ao nível da sua sustentabilidade económica como ao nível da sua legitimidade ideológica. os profissionais da saúde. presentes na multiplicação dos mercados de trabalho.

pela precariedade e pela incerteza. as desigualdades ao nível funcional não se reduziram nos dois extremos da estratificação social (Dubet. como sejam o feminismo. na construção do eu. ou como propriedade imanente dos indivíduos” (Diogo. a importância da tensão identitária na construção e reprodução dos processos identitários. num sistema complexo e hierarquizado que não partilha as mesmas . Incluindo a proposta de Dubar nesta breve conceptualização do processo identitário. 2001: 12). entre outros. Segundo os diversos projectos e contextos de acção. com a transformação dos imigrantes em minorias. dos diversos processos de socialização que em conjunto constroem os indivíduos e as instituições” (Dubar. As desigualdades étnicas são consolidadas por processos semelhantes. bem patente nos novos movimentos sociais. como refere o autor no caso francês. percebem-se as lógicas identitárias como socialmente construídas pelos indivíduos. Considerando alguns efeitos perversos das políticas sociais. Para este autor. 2001: 11). uma vez que a divisão do trabalho doméstico não foi modificada pela emancipação da mulher (2001: 11). em função da aspiração e promoção da igualdade de direitos e de oportunidades. individual e coletivo. convém realçar. À medida que tais diversidades e tensões se afirmam nas sociedades democráticas. Por outro lado. com relativa “permeabilidade e fluidez como processo que se constrói e conquista e não como dado. mobilizando recursos de forma desigual. seguindo o raciocínio deste autor. segundo Dubet que estas políticas têm beneficiado os que são menos desfavorecidos. com o contributo de Diogo (2007). as lutas étnicas e comunitárias. uma vez que são as classes médias as principais a beneficiarem no sector da educação ou da saúde. Pode-se acrescentar. biográfico e estrutural. verificam-se de múltipla forma (Dubet. devido ao fluir da vida e da socialização. Dubet sintetizando as conclusões de vários estudos.Se por um lado. realça que apesar da feminização da população activa. Importa realçar. como sejam a dependência e a estigmatização. A construção da identidade verifica-se principalmente ao nível relacional. podemos em síntese entender a identidade social como “resultado a um só tempo estável e provisório. 2007: 15). 2005: 136). 2001: 13-14). a maioria das desigualdades de género permanecem. Outras desigualdades como a maior afectação dos jovens pelo desemprego. os indivíduos optam por dar prioridade a diferentes dimensões de sua identidade (Dubet. subjetivo e objetivo. numa “dupla tensão entre as autodefinições e os julgamentos dos outros” (2007: 15). que a identidade é um produto inacabado. a tensão daqui decorrente eleva a sensibilidade social às desigualdades. as desigualdades anteriores à modernidade continuam a esbaterem-se.

numa alusão do autor a Rousseau. Entre as aspirações subjectivas e o confronto com as desigualdades reais. as hierarquias são justificadas com base no mérito. a igualdade impõe a auto-responsabilidade. . Do confronto entre a igualdade como valor e as desigualdades reais emerge a necessidade de reconhecimento “como espaço das identidades e da civilidade” (2001: 18). no pensamento de Dubet. Como consequência. “a redução da pessoa ao seu papel e ao olhar do outro” (2001: 17). numa igualdade que exige a auto-responsabilidade (2001: 15).regras. Uma vez que os sujeitos não dependem mais das estruturas sociais não igualitárias da pré-modernidade que impediam esta liberdade versus responsabilidade. neste quadro de acção. ao mundo do trabalho e aos princípios normativos universais. na liberdade e responsabilidade dos indivíduos. respondendo que nas sociedades democráticas republicanas é o trabalho que medeia esses dois princípios opostos. expõem-se ao desprezo de não serem dignos desta liberdade (Dubet. não é garantia de igualdade. Pois o ser “dono de si”. Conclusão Esta dupla tensão da modernidade: a procura da igualdade como princípio universal e as desigualdades reais e multiplicadas. as hierarquias são legitimadas com base no mérito. decorrentes da pressuposta competição entre iguais (Dubet. 2001: 16). de forma a ser reconhecido como pessoa diferente significativamente. numa lógica de divisão do reconhecimento em três esferas como teoriza Honneth (2003). 2001: 14-15). de cada um construir o seu próprio projecto. Entre as ambições subjectivas e o conflito com as desigualdades reais. O desprezo surge como a face oposta do reconhecimento. deve ser autónomo e construir a sua vida de uma forma original. a obrigação de ser livre. na liberdade e responsabilidade dos indivíduos. colide com o princípio da igualdade de todos. quanto muito condição de igualdade de oportunidades e de desigualdades justas. Cada um. Ao admitir que o desempenho de cada um resulta do seu empenho. nunca revelou tamanha tensão entre as duas faces da igualdade ou da desigualdade. um domínio subtraído à socialização primária. A responsabilidade de cada um pela sua própria vida potencia as experiências de reconhecimento e de desprezo. Como conciliar a afirmação da igualdade com a afirmação desigual do mérito de cada um? Questiona Dubet (2001: 16). no sentido de apresentar níveis distintos de desigualdade. A experiência social das desigualdades.

pp. Celta Editora. Dubet. Trabalho. Identidade. Honneth.Bibliografia: Diogo. Pobreza. Claude (2005). Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. pp. Edições 34.5-19. . “ As desigualdades multiplicadas” in Revista Brasileira de Educação – nº 17. Lisboa. 1116. pp. São Paulo. 133-156. Fernando (2007). Axel (2003). Dubar. François (2001). Martins Fontes. São Paulo. A socialização: construção das identidades sociais e profissionais.