Reportag em edição 4 - Setembro 2002 Se os humanos fossem feitos para durar Para vivermos mais tempo, deveríamos ter

corpos distintos dos que a natureza desenhou por S. Jay Oshlansky, Bruce A. Carnes e Robert N. Butler Discos abaulados, ossos frágeis, quadris fraturados, ligamentos rompidos, veias varicosas, catarata, perda da audição, hérnias e hemorróidas: a lista das mazelas corporais que nos afligem à medida que envelhecemos é longa e muito familiar. Por que caímos em pedaços exatamente ao chegar no que devia ser o apogeu da vida? As máquinas vivas que chamamos de corpo deterioram porque não foram projetadas para funcionar durante muito tempo e porque agora nós as obrigamos a continuar em atividade muito depois de expirada a sua data de validade. O corpo humano tem grande beleza artística, estando realmente à altura de todo o assombro e admiração que desperta. Mas, do ponto de vista da engenharia, é uma rede complexa de ossos, músculos, tendões, válvulas e articulações que tem uma analogia direta com as polias, bombas, alavancas e dobradiças das máquinas, todas falíveis. À medida que avançamos em nossos anos pósreprodutivos, as articulações e outras características anatômicas que funcionam bem ou não causam problemas na juventude revelam suas imperfeições. Desgastam-se ou contribuem de alguma outra forma para os problemas de saúde que se tornam comuns mais tarde. Em termos evolutivos, temos defeitos porque a seleção natural, a força que molda nossos traços geneticamente controlados, não tem por objetivo a perfeição ou a saúde permanente. Se o projeto de um corpo permite aos indivíduos sobreviverem tempo suficiente para se reproduzirem (e, nos organismos humanos e vários outros, criar a prole), esse será o projeto escolhido. Isto é, os indivíduos robustos o bastante para se reproduzir vão transmitir os seus genes - e, por conseguinte, o projeto de seu corpo - à geração seguinte. Projetos que ameacem seriamente a sobrevivência na juventude serão eliminados como ervas daninhas (pela seleção natural) porque os indivíduos mais afetados vão morrer antes de ter a chance de produzir descendentes. Mais importante ainda: peculiaridades anatômicas e fisiológicas que só se tornem incapacitantes depois que o indivíduo se reproduziu vão ser disseminadas. Por exemplo: se o projeto de um organismo leva ao colapso total aos cinqüenta anos, mas não interfere com a reprodução antes disso, ele vai ser transmitido apesar das conseqüências perniciosas que terá mais tarde. Se tivéssemos sido projetados para funcionar durante mais tempo, deveríamos ter menos defeitos que nos deixam relativamente incapazes em nossos últimos anos. Mas não é assim que a evolução funciona. Na verdade, ela faz enxertos de novas características, incorporandoas às já existentes. A postura ereta dos seres humanos é um dos casos em pauta. Foi adaptada a partir de um projeto corporal que fazia os mamíferos andarem de quatro. Não há dúvida de que esse enxerto ajudou nossos primeiros ancestrais hominídeos; supõe-se que ficar de pé sobre as patas traseiras tenha promovido o uso de instrumentos e aumentado a inteligência. Desde

então, nossa coluna vertebral sofreu algumas adaptações em função dessa mudança esquisita: as vértebras inferiores ficaram maiores para suportar a maior pressão vertical, e nossa coluna curvou-se um pouco para nos impedir de cair para a frente. No entanto, esses consertos não evitaram uma série de problemas decorrentes de nossa postura bípede. E se... Recentemente, nós três começamos a refletir sobre como seria o corpo humano se ele tivesse sido construído com o objetivo específico de ter uma vida longa e saudável. As revisões anatômicas descritas nestas páginas são fantasias incompletas. Apesar disso, resolvemos apresentá-las para chamar a atenção para uma questão séria. O envelhecimento costuma ser definido como uma doença que pode ser revertida ou eliminada. Na verdade, muitos fornecedores de juventude em vidrinhos gostariam de nos fazer acreditar que os problemas médicos associados ao envelhecimento são culpa nossa, decorrentes principalmente de nosso modo de vida decadente. É claro que qualquer idiota pode diminuir a duração de sua vida. Mas é absolutamente injusto culpar as pessoas pelas conseqüências de herdar um corpo que não tem sistemas perfeitos de conserto e manutenção e que não foi concebido para um uso prolongado ou para ter saúde permanente. Continuaríamos nos desgastando com o passar do tempo mesmo que um modo de vida ideal, mítico, pudesse ser identificado e adotado.

Essa realidade significa que o envelhecimento e muitos de seus transtornos concomitantes não são antinaturais, nem evitáveis. Nenhuma intervenção simples compensaria as inúmeras imperfeições espalhadas por toda a nossa anatomia e que são reveladas pela passagem do tempo. Mas temos confiança em que a ciência biomédica vai ter condições de amenizar certas doenças trazidas pelo tempo. Os pesquisadores estão identificando rapidamente (e discernindo a função de) miríades de nossos genes, desenvolvendo remédios para controlá-los e aprendendo a canalizar e aumentar as extraordinárias faculdades de recuperação que já existem em nosso corpo. Esses avanços incríveis vão acabar compensando muitos dos defeitos de concepção contidos em todos nós. Andar desse jeito Muitas das enfermidades debilitantes e até fatais do envelhecimento decorrem em parte de nossa locomoção bípede e da postura ereta - ironicamente, as mesmas características que possibilitaram o florescimento da espécie humana. Cada passo que damos coloca uma pressão extraordinária em nossos pés, tornozelos, joelhos e costas - as estruturas que sustentam o peso de todo o corpo acima delas. No decorrer de um único dia, os discos da parte inferior das costas são submetidos a pressões equivalentes a várias toneladas por centímetro quadrado. Ao longo da vida, toda essa pressão cobra o seu tributo, assim como o uso repetitivo de nossas articulações e o esforço constante que a gravidade impõe a nossos tecidos. Embora a gravidade tenda a nos derrubar no fim, temos de fato algumas características que combatem sua força onipresente. Por exemplo: uma rede intrincada de tendões nos ajuda a conectar os órgãos à coluna vertebral, impedindo-os de cair e de imprensar uns aos outros. Mas esses recursos anatômicos - como o corpo em geral - não foram feitos para durar para sempre. Se a longevidade e a saúde permanente tivessem sido o objetivo principal da evolução, características como estatura menor, parte superior do tronco inclinada para a frente, caixa torácica com mais costelas, ossos mais grossos, joelho capaz de dobrar para trás, mais gordura e músculos, pescoço curvo com vértebras maiores e tendões também maiores, teriam se tornado lugar-comum. Projeto de cabeça

Várias partes da cabeça e do pescoço se tornam problemáticas com uma regularidade incômoda à medida que as pessoas envelhecem. Pense no olho. A versão humana é uma maravilha evolutiva, mas sua complexidade cria muitas oportunidades para as coisas darem errado quando se tem uma vida longa. Nossa visão diminui à medida que o líquido protetor da córnea vai perdendo a transparência com o passar do tempo. Os músculos que controlam a abertura da íris e a focalização das lentes atrofiam-se e perdem a receptividade, e a lente engrossa e amarela, reduzindo a acuidade visual e a percepção das cores. Além disso, a retina - responsável pela transmissão de imagens ao cérebro - pode se descolar com bastante facilidade da região posterior do olho, levando à cegueira. Muitos desses problemas seriam difíceis de resolver, mas o descolamento da retina sugere uma solução que poderia ser usada para evitá-la. Algumas modificações anatômicas também poderiam preservar a audição dos idosos. O projeto sub-ótimo do sistemas respiratório e digestivo superior faz da asfixia um outro risco para os idosos. Um rearranjo simples resolveria o problema, mas criaria outros. Chamem o encanador Examinando a anatomia da próstata de um homem, um encanador experiente suspeitaria de um trabalho de aprendiz, porque a uretra, o tubo que leva à saída da bexiga, passa bem no meio da glândula. Essa configuração talvez tenha benefícios desconhecidos até agora, mas acaba provocando problemas urinários em muitos homens, inclusive um fluxo fraco e a necessidade de urinar com freqüência. As mulheres também enfrentam problemas de encanamento à medida que envelhecem, principalmente a incontinência. Muito desconforto teria sido poupado a ambos os sexos se a evolução tivesse feito algumas modificações simples no desenho anatômico. Para conhecer mais On Growth and Form. D\'Arcy Wentworth Thompson. Edição aumentada, 1942 (reimpressão de Dover Publications, 1992). The Panda\'s Thumb: More Reflexions in Natural History. Stephen Jay Gould. W. W. Norton, 1980. The Blind Watchmaker: Why the Evidence of Evolution Reveals a Universe Without Design. Richard Dawkins. W. W. Norton, 1986. The Scars of Evolution: What Our Bodies Tell Us About Human Origins. Elaine Morgan. Souvenir Press, 1990. (Reimpressão de Oxford University Press, 1994). Why We Get Sick: The New Science of Darwinian Medicine. Randolph M. S. Jay Oshlansky, Bruce A. Carnes e Robert N. Butler S. Jay Oshlansky, Bruce A. Carnes e Robert N. Butler interessam-se todos há muito tempo pelos processos subjacentes ao envelhecimento humano. Olshansky é professor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Illinois, em Chicago. Ele e Carnes, ambos profissionais antigos do Centro de Pesquisa de Opinião Nacional/Centro de Envelhecimento da Universidade de Chicago, colaboram em estudos - financiados pelo Instituto Nacional de Envelhecimento (INE) e pela Administração Nacional Aeronáutica e Espacial - sobre a biodemografia do envelhecimento (exame das razões biológicas para os tipos de doenças e morte relacionadas com a idade). São coautores de The Quest for Immortality: Science at the Frontiers of Aging (A Busca da Imortalidade: A Ciência nas Fronteiras do Envelhecimento) (W. W. Norton, 2001).