Práticas musicais em comunidades virtuais: etnomusicologia do ciberespaço? Luciano Carôso1 lucianocaroso@gmail.

com Palavras-chave: etnomusicologia do ciberespaço; práticas musicais; comunidades virtuais Resumo: Este trabalho aborda aspectos das práticas musicais desenvolvidas em comunidades virtuais surgidas a partir de 2005, seguindo o boom da Web 2.0. Os conceitos “práticas musicais” e “comunidades virtuais” são predefinidos para breve discussão acerca de premissas teóricas em trabalhos colhidos da sociologia, da antropologia e da própria etnomusicologia, e investigação de redes como eMule, Youtube, Myspace e Second Life. Depois de reflexões sobre música e entretenimento, convergência de mídias, hiper-interação, recombinação e reutilização de material audiovisual e reformulação do conceito de propriedade intelectual, tenta responder à seguinte pergunta: já se pode falar em “etnomusicologia do ciberespaço” como área de pesquisa? Keywords: ethnomusicology of cyberspace; musical practices; virtual communities Abstract: This work addresses aspects of musical practices virtual communities developed since 2005, following the boom of Web 2.0. The concepts of "musical practices" and "virtual communities" are set to a brief preliminary definition to be followed by theoretical views collected from sociology, anthropology and ethnomusicology, as well as from research networks such as eMule, Youtube, Myspace and Second Life. After considering music and entertainment, convergence of media, hyper-interaction, recombination and re-use of audiovisual material and reformulation of the concept of intellectual property, this paper attempts to answer the following question: Can one be talking already of an "ethnomusicology of cyberspace" as an area of research?

1

Doutorando em Etnomusicologia pela Universidade Federal da Bahia (Brasil), Programa de Pós-graduação em Música. Atualmente integrado à equipe de investigadores do Instituto de Etnomusicologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob orientação de Salwa Castelo Branco, como cumprimento das atividades de Doutorado Sandwich (CNPq).

o etnomusicólogo René Lysloff publica. a antropologia posicionava-se acerca de uma “antropologia ciborgue”. Para maior aprofundamento acerca de CMC. o artigo “Musical Community on the Internet: An On-line Ethnography”. além de sugerir que a máquina passasse a fazer parte do seu objeto de estudo. na elaboração de suas etnografias (Mayans i Planells 2002). em seus relacionamentos virtuais. baseada numa comunidade que não se restringe. Lysloff chama a atenção para as especificidades de uma etnografia on-line. “incrementam sobremaneira as relações virtuais. criando experiências hiper-reais que são. (Wikipedia 2008a). segundo o autor. e-mails. Dumit. evidenciando suas possibilidades de relacionamentos multidimensionais e rebatendo um discurso vigente. instrumentos e outras mensagens enviadas por controladores. a comunicação social e a antropologia. com a vantagem de conter suas próprias amostras de áudio (Wikipedia 2008b). indistinguíveis do real. Eles contêm vários padrões de dados que determinam notas. CMC pode ser definida como qualquer forma de troca de dados entre dois ou mais computadores conectados em rede. às vezes. O formato é similar ao MID. ou impossíveis de se encontrar em contextos do mundo real” (Lysloff 2003: 237). Walther analisa as regras e processos de informação social deste tipo de comunicação e comportamento.1. mensagens instantâneas. Em 2003. salas de bate-papo) entre dois ou mais indivíduos. que apontava os possíveis efeitos negativos da CMC. recomenda-se a leitura de Whalter (1992). entre outros. considerando a ciência e a tecnologia como fenômenos culturais e agentes de produção atuantes em diversos aspectos da vida social. Já em 1995. àquela altura. Essas tecnologias. Introdução A teoria da comunicação mediada por computador (CMC)2 há muito já é utilizada em vários domínios de investigação como a sociologia. na condição de criadora e modificadora de cultura (Downey. onde aborda a vida musical de uma comunidade virtual formada por compositores e aficionados de música eletrônica e suas práticas musicais na mod scene3. a ciberantropologia. às mensagens das listas de discussão e das salas de bate-papo. 3 Os MODs são um tipo de formato de arquivo de computador usado para representar música. num artigo bastante citado desde então. Em 1992. Conceitos como “tele-outro” e “ciber-outro” têm sido utilizados pela já instituída área de pesquisa. entre outros. 2 . Os participantes lançam mão de várias tecnologias na produção. compartilhamento e disseminação de seus mods. O termo também é usado para definir aquelas comunicações que ocorrem nos formatos mediados por computador (ex. e Williams 1995).

certamente. seguindo o boom da Web 2. Assim pretende-se aqui considerar prática musical não só um vídeo disponibilizado no Youtube. Para além de uma definição genérica. introdutoriamente. Lemos o define “como o conjunto de redes de telecomunicações criadas com o processo digital das informações” e aprofunda bastante a discussão acerca do termo (1996).0” tem sido utilizado para definir comunidades e serviços desenvolvidos na plataforma Web. 1. principalmente comunicacionais.O presente trabalho discute aspectos das práticas musicais desenvolvidas em comunidades virtuais que se estabeleceram a partir de 2005. Práticas musicais A expressão “prática musical” é amplamente utilizada em estudos acadêmicos para designar a práxis ou conjunto de atividades musicais que um determinado grupo de indivíduos exerce. Aos interessados. sobre questões como: música e entretenimento. convergências de mídias.04. precisa conceituar as práticas musicais levando em consideração a natureza abrangente das práticas exercidas nos contextos abordados: “práticas musicais são um processo de significação social. como wikis. Não é uma nova versão da Web. Conceitos utilizados 2. este trabalho. redes como eMule. que obviamente tem premissas etnomusicológicas. Depois da fundamentação teórica sucintamente exposta acima. uma leitura de Adams (1997) também será proveitosa. Second Life. mas uma mudança de conceito na forma como ela é encarada por usuários e desenvolvedores. um concerto realizado no Second Life ou uma música composta por parceiros virtuais. partindo de conceitos preestabelecidos de “práticas musicais” (Chada 2007: 139) e “comunidades virtuais” (Rheingold 2000: XX). Tem implicações tecnológicas. o romance cyberpunk de ficção científica de William Gibson. como acontece no Overmundo. Interessam também os processos criativos e de transmissão de música envolvidos. hiper-interação. capaz de gerar estruturas que vão além de seus aspectos meramente sonoros” (Chada 2007: 139). recombinação e reutilização de material audiovisual e a conseqüente reformulação do conceito de propriedade intelectual. . (O'Reilly 2005). mercadológicas e. 5 Parece ser consenso que o conceito de ciberespaço surge pela primeira vez com Neoromancer. O artigo de O’Reilly é indicado para aprofundamento sobre o assunto. publicado em 1984. como o termo sugere. aplicações baseadas em folksonomia e redes sociais. Overmundo e Orkut são investigadas para observação das referidas práticas. onde se procura refletir. Tenta-se responder à seguinte pergunta: já se pode falar em “etnomusicologia do ciberespaço”5 como área de pesquisa? 2. Myspace. o aparato 4 O termo “Web 2. Youtube.

Comunidades virtuais Pode-se chamar de comunidades virtuais aquelas comunidades formadas a partir de relações produzidas em ambientes de CMC. Merece igual atenção o comportamento social dessas comunidades. Dumit e Williams. não só no fazer música (Merriam 1964) mas também no ouvir. observando e analisando atentamente como as pessoas constroem o discurso científico e como este torna-se significativo em suas vidas cotidianas (265). exatamente por abster-se de discutir a questão. O questionamento do preceito antropológico de que o homem deve estar sempre no centro da investigação. com suficiente sentimento humano. no compartilhar. o conceito de Rheigold foi escolhido aqui exatamente por evidenciar o aspecto humano de tais comunidades na sua comunicabilidade através do ciberespaço. 3. bem como as outras especificidades do contexto social de onde essas práticas são exercidas e que de alguma forma as afetam. 2. Não sendo o propósito deste trabalho aprofundar tal discussão. Isto tem suscitado discussões na área. estabelecem premissas para a nova disciplina. 2. apresentado num encontro anual da American Anthropological Association em São Franciso. Antropologia ciborgue Em trabalho sucinto e aparentemente audacioso. no falar sobre música. Sociólogos comumente baseiam seus conceitos de comunidade tendo como premissa básica um suporte territorial. para formar teias de relações pessoais no ciberespaço (Rheingold 2000: XX). que vão desde a posição da sociologia clássica. que rechaça conceitos como o de Rheingold. mais usualmente conhecida como ciberantropologia: O estudo da ciência e da tecnologia como fenômenos culturais. Rheingold é um dos primeiros autores a usar a expressão: Comunidades virtuais são agregados sociais que emergem na Internet quando um número suficiente de pessoas leva a cabo discussões públicas longas o bastante. distinguindo a comunidade virtual do “lugar” que ocupa (Recuero 2001). A partir de então. até o virtual settlement de Quentin Jones que tenta resolver o impasse. a máquina deve . numa “primeira tentativa de posicionamento da antropologia ciborgue num mundo capitalista tardio que situa teoria acadêmica ao lado de teoria popular” (1995: 264).tecnológico utilizado. Downey.

O próprio Baier. áreas de interesse de pesquisadores e referências a assuntos debatidos em encontros de etnomusicologia que. que surgiu como uma conseqüência exclusiva da tecnologia computacional e persiste principalmente através de comunicações on-line. Na condução de estudos etnográficos de campo on-line da mod scene desde 1997. por exemplo. publicado em 2003. Fischer (1999) e Guimarães Jr. na condição de criadora e modificadora de cultura (266). define seu trabalho: Meu estudo é sobre uma pequena. A etnografia on-line de René Lysloff Pode-se depreender até aqui que áreas de conhecimento como comunicação social. ainda em 2001. Desde o início dos anos 90 que os estudos acerca de assuntos afins nas referidas áreas se tornaram cada vez mais freqüentes. Abordagens etnográficas do ciberespaço. tenho aprendido novas habilidades lingüísticas e musicais. Esta comunidade não é inteiramente textual no sentido de ser limitada aos grupos discussão e listas de e-mail que agora formam uma parte significativa da paisagem midiática on-line tão amplamente analisada na literatura acadêmica sobre a tecnocultura tardia do século XX (embora também exista enquanto textualidade). presidido por Randel Baier e logo em seguida o Year Book for Tradictional Music passou a incluir resenhas de websites. mas socialmente complexa comunidade existente nesta imensa matriz que é a Internet. 4. (2000) são alguns dos muitos exemplos. pressupondo que estas viabilizam a construção de subjetividades e vinculam-se ao conhecimento (267). (Reily 2003: 187). mesmo que seja uma disciplina com reconhecido caráter transversal. que cada vez eram mais freqüentes na antropologia7. no encontro da Society for Ethnomusicology em Detroit acontece o painel "Technology in the classroom and beyond: Hypermedia. foram praticamente inexistentes na etnomusicologia até o trabalho de René Lysloff com uma comunidade virtual de compositores da mod scene. No mesmo período a etnomusicologia parece ter ficado um tanto à margem desta tendência6. investigando comportamentos e produtos advindos direta ou indiretamente dessa relação. sociologia e antropologia há tempos já se debruçam sobre questões que relacionam ser humano e tecnologia. se comparada às outras áreas mencionadas. Lysloff. entrevistado compositores. Ela é composta por principalmente compositores de música eletrônica e aficionados e é descrita pelos seus membros como “the mod scene” (referindo-se aos módulos de música digital que os compositores criam e trocam). visitado vários sites de pesquisa. inclusive baseando-se em toda bibliografia que foi consultada para este estudo. neste período. indicam que a área já refletia sobre temas afins. Em 2001. A abordagem do modo com o qual as tecnologias participam como agentes produtores e reprodutores dos diversos aspectos da vida social. apresenta seu trabalho “Topologies of difference: students. Internet and other electronic resources". Em buscas pela Internet encontrei algumas discussões em listas. the “playlist” and the impact of a virtual audio community” no encontro anual da Society for Ethnomusicology em Cincinnati.passar a fazer parte do objeto da antropologia. . 7 6 Ito (1997). mas muito timidamente.

Assim. a troca de informação não textual. e observado vários tipos de atividades relacionadas a música (2003: 234). Isto “tem repercussões sociais importantes. de construção social de conhecimento apoiada pela informática” (Primo 2006). Onde e como acontecem as práticas musicais Com o boom da Web 2. têm se tornado mais e mais incidentes. 8 O Napster foi um programa pioneiro de compartilhamento de música. Mais informações sobre o Napster podem ser encontradas em Wikipedia (2008c). criado em 1999 por Shawn Fanning. que tiveram seu nascedouro em 1999 com o Napster8.0 em 2005.comscore. arquivos de áudio e vídeo. Nestas redes. 5. como é o caso do eMule e do BitTorrent. milhões de pessoas concomitantemente compartilham. passou a ser cada vez mais freqüente. uma segunda geração de possibilidades de compartilhamento na Internet ganhou grande força. .com/press/release. como já pontuava Lysloff. um jovem programador que na época tinha apenas 19 anos.recolhido textos pertinentes e gravações de áudio. que potencializam processos de trabalho coletivo. entre outros. de produção e circulação de informações.asp?id=249>). Associada aos avanços tecnológicos dos últimos anos e com as larguras de banda disponíveis para o usuário final da Internet cada vez mais ampliadas. apesar dos reclames da indústria mundial fonográfica e de entretenimento e de todas as leis de proteção ao direito autoral. de troca afetiva. Em fevereiro de 2001 chegou a ter o pico real de mais de 13 milhões e meio de usuários únicos num único mês (como consta em <http://www. redes de compartilhamento de arquivos peer-topeer.

O Orkut é um site de relacionamento que se tornou muito popular no Brasil. tais discos não têm a longevidade necessária para que seus fonogramas e obras vinculadas sejam considerados de “domínio público”. dispositivos que permitam aos usuários compartilhar. É comum nestes sites. o número de usuários que naquele momento estavam conectados à rede (acima de sete milhões) e o número de arquivos compartilhados (superior a um bilhão). divulgando seus shows e trocando informações. Há milhares de comunidades no Orkut que . fotos. dando a possibilidade de novas gerações fruírem informações que de outro jeito. influências. Neles os usuários disponibilizam seu perfil com release. etc. a partir de suas preferências musicais e quanto mais utilizarem o serviço. em destaque. player de áudio. estariam confinadas a sebos e colecionadores.fm e o Orkut. com base em suas preferências pessoais. O Last. mais este pode oferecer opções relevantes a eles. fotos. o Last. o que acaba transformando esse tipo de site numa importante via promocional para seus membros. Blogs como o Loronix disponibilizam milhares de discos completos para download. entre muitos outros recursos. O Myspace tem se tornado um ponto de encontro de músicos. músicas e vídeos. Essas informações são utilizadas pelo site para fornecer ao usuário. Se por um lado há um patente desrespeito às leis de direito autoral. entre outros. vídeos. o Myspace. As redes sociais ou de relacionamentos são um dos tipos mais populares dos sites do padrão web 2. em linhas gerais.Figura 01: Tela do Emule – À direita pode-se observar. pessoas se agregam em torno de seus comportamentos e preferências. já que. Entre os mais numerosos estão o Facebook. com acesso extremamente restrito.fm registra as músicas que os membros da comunidade ouvem enquanto usam o computador.0. Por via de regra são discos de vinil de 33 rpm que foram digitalizados e que provavelmente não suscitariam o interesse da indústria para possíveis relançamentos em formatos atuais. Através de comunidades. recomendações de artistas e outros usuários com gostos musicais parecidos. por outro há preservação de repertórios e de memória cultural. os membros da comunidade podem agregar-se em subgrupos. além de permitir elaborar rádios personalizadas. Portanto.

inclusive para falar sobre música e compartilhar informações e arquivos musicais. maior poder de voto. Isto propicia uma riqueza de comportamentos sociais na corrida pelo prestígio entre os membros do portal. São jovens. o Overmundo é um portal colaborativo de cultura brasileira que funciona como um “canal de expressão para a produção cultural do Brasil e de comunidades de brasileiros espalhadas pelo mundo afora. usuários organizam-se em subgrupos e 9 Auto-definição do portal acessível em http://www. Discussões acirradas acontecem acerca das regras de publicação e de designação de status.br/estaticas/sobre_o_overmundo.O que é publicado no portal. Figura 02: Estatísticas do Orkut – Jovens (73. que usam estes espaços para os mais variados fins. Segundo definição do próprio site. Por exemplo: a comunidade “AMO ouvir Música ALTA”.php. Quanto maior o status. Cada usuário possui um status. Dados coletados em 02/03/2008.231 membros ou a “Ouço mil vezes a MESMA música” que possuía.agregam pessoas a partir de aspectos musicais. 1. é decisão da comunidade através de votação.822.overmundo.com. .26%).48% até 30 anos) onde predominam brasileiros (54. bem como o destaque que tem no mesmo. na sua maioria. o qual aumenta ou diminui de acordo com a receptividade de sua produção (receptividade esta que é medida pela quantidade de votos que recebe) e com a disposição que tem para sugerir modificações e votar no que vai ser publicado por outros. que contava em 28/05/2008 com 1.699 membros. enfatizando sua diversidade”9.362. automaticamente atribuído pelo site. na mesma data.

que dificilmente estariam interagindo por outras vias. Assim surgem repertórios criados por pessoas de diferentes formações e influências. casam.5 milhões de dólares durante abril de 200810. como o Myspace. Os avatares ganham e perdem dinheiro. cerca de U$ 8. de uma forma geral. Havia 80 concertos de música ao vivo agendados para o dia 30 de maio de 200811. o Second Life conta atualmente com quase 14 milhões de residentes que movimentaram. Os dados estão disponíveis em <http://secondlife. publicando posteriormente no portal. Indivíduos que não se conhecem pessoalmente produzem em conjunto. têm filhos. além de enriquecê-lo sobremaneira. o que certamente O Second Life publica mensalmente suas estatísticas econômicas. Sendo.com/overdrive/?id=1545799&vid=119658> é bastante esclarecedor. em transações de compra e venda. 10 . Para os concertos de música ao vivo deve-se optar em “Category” por “Live Music”.php>. portanto de contextos culturais plurais. fazem filantropia. não só porque mostra o processo que Works utiliza para fazer seus shows no Second Life. as discussões são freqüentes e acabam ajudando a garantir a diversidade do conteúdo publicado. Esta é uma forma de interação que mistura o real e instantâneo (música feita ao vivo) com o virtual e predefinido (o ambiente gráfico). casas de show. Em dias de apresentação. se prostituem. 11 Pode-se acessar a agenda dos eventos que acontecem diariamente no Second Life em <http://secondlife. músicas e material áudio-visual são criados.com/whatis/economy_stats. o vêem personificado numa espécie de homem-sapo-cantor12. Estes residentes são representados por avatares que podem ser gerados nas mais variadas formas.. por sua vez. Por lá há bancos. Apesar dos possíveis reflexos negativos que essas relações de interesse possam ter. mas também porque dá uma idéia de como. por onde poemas. universidades. etc.disputas ocorrem. Sendo um dos mais populosos da atualidade.mtv. o Overmundo também é fértil no surgimento de parcerias virtuais. Obviamente também consomem e fazem música. Um deles foi do Avatar Frogg Marlowe. lojas. 12 O vídeo disponível em <http://www. faz chegar sua música ao público de avatares que assistem ao seu show e que. munido de um computador com placa de som e microfones para captar o que canta e toca. um canal de divulgação e escoamento da produção dos membros da comunidade..com/events/>. Jeremy Works (Marlowe em sua “first life”). pode-se interagir musicalmente em metaversos de ambiente gráfico 3D. Os mundos virtuais ou metaversos têm ganhado muita popularidade nos últimos anos. marketing pessoal é também usual e acontece pelas ferramentas de comunicação do portal.

Os formatos digitais de áudio e vídeo e sua ampla utilização e disseminação acabaram por forçar uma profunda reformulação do conceito de propriedade intelectual.com/watch?v=qBzTGPg3aeQ> e de “Ja Rule Feat Ashanti & R Kelly – Wonderful” <http://br.com/watch?v=qceU1B2wIKQ> é resultado da recombinação de “Biu GoiabaSeverino José Da Silva” <http://br. promovendo o aguçamento de seus processos sinestésicos e hiper-interativos. talvez o Youtube seja o mais conhecido. Kelly & Bill Goiaba – Wonderful” <http://br. Dos sites até aqui mencionados. sempre aconteceu. sem manipulações de pitch.com/watch?v=hE1nwUoy-NQ>. o que Bill Goiaba canta casa perfeitamente. inclusive do próprio site. depois de recombinados13. Surgido em 2005. o reaproveitamento do que é absorvido e a criação de novas versões e interpretações de velhos conteúdos é algo que. existem reprocessamentos de material advindo das mais variadas fontes. bem como acessar as outras fontes de informação que elas sugerem. Não é por outra razão que a 13 Por exemplo: “Furagato 5000 Ft Ja Rule.youtube. A questão é que no caso da informação digital. além de haver harmonia e lógica na fusão dos referidos contextos. acabam reinventando-os através de seus computadores. Isto acaba afetando o comportamento de todos que. Neste ponto é importante frisar que assistir aos vídeos citados nas notas seguintes. a velocidade e as possibilidades dessa reciclagem são estonteantes.provoca sensações diferentes daquelas que seriam produzidas num concerto presencial. . portanto. Nos processos de transmissão de conhecimento. provavelmente. logo se tornou um sucesso retumbante na Internet. com o padrão harmônico da música de Ja Rule.youtube. que ganham conotações completamente diferentes de seus “originais”. R. No Youtube.youtube. não podendo utilizar seus sentidos da mesma maneira. é campo fértil para estudos em diversas áreas de investigação. é fundamental para a melhor contextualização do que será discutido a seguir. fortes implicações éticas nesses procedimentos. a qual ele define como “samplertrogafia” (2003). Observar os contextos socialmente antagônicos dos vídeos que serviram de matriz e o resultado audiovisual onde. Este artigo vai deter-se na discussão de aspectos de algumas das práticas musicais vigentes no Youtube. Há. Bastos chama a atenção para a instituição da “cultura da reciclagem” embutida nesses processos. tanto em Works quanto nos indivíduos por trás dos avatares que o assistem. em muitos vídeos. Considerável fonte de possibilidades em produtos audiovisuais e rede de complexas e variadas formas de comportamentos.

aclarada. e a audiência segue rumo ao palco virtual.com/watch?v=JzqumbhfxRo>. A convergência de mídias pronuncia-se como uma tendência que extrapola os limites do Youtube e ganha grande força na atualidade.com/watch?v=jjXyqcxmYY>. muitas vezes de situações completamente desconectadas.youtube. O conhecimento e domínio das ferramentas tecnológicas utilizadas pelos “compositores” do Youtube bem como as técnicas composicionais aplicadas. 15 Vide “Yes We Can . ao longo do tempo. como já prenunciava a própria Murray: Nós estamos no limiar de uma convergência histórica à medida que romancistas. A utilização do aparato tecnológico disponível atualmente em produtos audiovisuais tem ajudado também na reformulação de alguns conceitos nos processos criativos. devemos olhar para além dos formatos impostos ao computador por mídias do passado e rapidamente assimilar e identificar as propriedades nativas da própria máquina (Murray 1998: 64).Ivete Sangalo (the sims 2)” <http://br.com/watch?v=wPAlJy7-A_I> é um dos muitos exemplos. acessível em <http://br.] que surgirão desta mistura. pode não ser mais fundamental para uma versão gravada de tal execução. de todos os recursos disponíveis nesse novo contexto: Para compreender os novos gêneros [. a ética desse tipo de atitude continua obscura e certamente será construída. O domínio da técnica na execução de um instrumento.Barack Obama Music Video” <http://br. entre mídias de difusão (como televisão e rádio) e mídias Um bom exemplo é o vídeo “Amateur” de Lasse Gjertsen. O “tempo real” pode ser reconstituído de uma forma tal que os resultados sonoro e composicional não só se confundem com os de uma outra possível versão não manipulada.. surgem peculiaridades estéticas e criativas que parecem se tornar idiossincráticas desse contexto como a fala transmutada em música15 e a utilização de cenas de jogos de simulação como o The Sims na elaboração de “videoclipes”16. E o que virá em seguida? A julgar pelo quadro atual. Na fusão de materiais audiovisuais.youtube.youtube. por parte desses indivíduos. 16 “Quando a chuva passar .. mas surgem da apropriação efetiva. entre filmes e passeios.discussão acerca de direito autoral nesse contexto ainda não demonstra consensos definidos. dramaturgos e cineastas movem-se na direção de histórias multifacetadas e formatos digitais: cientistas passam a criar mundos ficcionais. podemos esperar um afrouxamento contínuo das fronteiras tradicionais entre jogos e histórias. 14 . por exemplo. como também ganham outras várias conotações14. Portanto. parecem não caber mais em academias e instituições de ensino formal.

Conclusão Ao analisar a relação entre tecnocultura e música. Como afirma Lysloff. e até entre público e autor (1998: 64). principalmente. percebendo o homem atual como um ciborgue. 18 O caso de Marié Digby <http://www.com/esmeedenters>. publicada em 06/09/2007 e acessível em <http://online. como na reportagem do The Wall Street Journal. vídeos com performances aparentemente despojadas. os aspectos relacionados ao que ele chama de “fenômeno cultural” estão atualmente associados ao homem na grande maioria de seus comportamentos culturais.youtube. 17 Esméer Denters <http://www. mas como um fenômeno cultural que permeia e informa quase todos os aspectos da existência humana incluindo formas de conhecimento e práticas musicais (Lysloff 2003: 238).html>. já com carreira iniciada. jovem cantora neerlandesa. não só dos aspectos que lhe são idiossincráticos. dando a impressão de que ainda não seriam profissionais. Este ciborgue não se comporta como máquina mas é um ser cujo comportamento não faria sentido sem ela. Reflexos da sua referida “tecnocultura” podem ser vistos em qualquer direção que se olhe.com/article/SB118903788315518780. 6. A etnomusicologia estuda os sistemas culturais através da música que praticam.wsj. Uma etnomusicologia do ciberespaço precisa então estar atenta às práticas musicais vigentes neste contexto. mas. Há vários casos de pessoas que se tornaram celebridades na Internet e muitos artistas que alcançaram êxitos profissionais efetivos a partir de suas exposições no Youtube17. que disponibilizam no site. . Mais recentemente também se encontram artistas.youtube. entre formas narrativas (como livros) e formas dramáticas (como teatro ou cinema). A esperança é que seus vídeos transformem-se em sucessos no Youtube e assim suas carreiras sejam alavancadas18. Isto denota que uma espécie de “cultura Youtube” já é uma realidade no ciberespaço e tem interferido no mundo real.com/MarieDigby> teve repercussão na imprensa. na investigação.arquivísticas (como livros ou videoteipe). pode ser vista como exemplo. eu vejo tecnologia não apenas como a intrusão do aparato equipamental científico sobre a "autêntica" experiência humana.

1997. Universidade Federal de Santa Catarina. In XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 2007.Sites mencionados: BitTorrent <http://www. Joan. 2000. In Internet Culture.myspace.pdf> [Consulta: 21/08/2008]. P.br/pesq/cyber/lemos/estrcy1. Marcus.com> Last.bittorrent. Joseph Dumit. "A Prática Musical no Culto ao Caboclo nos Candomblés Baianos".intercom. e Sarah Williams. 25-304.facom. André. Quaderns de l'Institut Català . Mestrado em Antropologia Social. Ito.blogspot. 1997. In III Simpósio de Cognição e Artes Musicais. Santa Fé: Scholl of American Research Press.org. Cultural Anthropology 10 (2):264-269.br/bitstream/1904/5064/1/NP15BASTO S.com> Overmundo <http://www. Belo Horizonte: INTERCOM. New York: Rouledge. 1996. Florianópolis. Mayans i Planells.fm <http://www. pp. Gary. Fischer. Faculdade de Comunicação . 2002. chaging agendas.overmundo. Salvador: EDUFBA. Michael.com> Napster <http://free. Guimarães Jr. Marcus.napster. Chada.com> Myspace <http://www. Lemos.facebook. 1999.orkut. Vivendo no Palace: etnografia de um ambiente de sociabilidade no ciberespaço. "As Estruturas Antropológicas do Cyberespaço".com> Loronix <http://www. edited by D. René T. "World Cyberspace: Toward a critical ethnography". Disponível em <http://reposcom.com> Emule <http://www. L. "Nuevas Tecnologías. "Virtually embodied: the reality or fantasy in a multi-user dungeon".emule. 1995. In Critical anthropology now: unexpected contexts.loronix. Mizuko. Mário J. Sonia. Dissertação de Mestrado.Universidade Federal da Bahia <http://www. 2003.com> Referências bibliográficas: Adams. Porter. A.youtube. Downey. Cultural Anthropology 18 (2):233-263. "Musical Community on the Internet: An On-line Ethnography".com> Orkut <http://www. edited by G. Viejas Etnografías-Objeto y método de la etnografía del ciberespacio".html> [Consulta: 27/05/2008]. 87-109.com.portcom.. "Cyberspace and Virtual Places". Bastos.lastfm.ufba.br> Second Life <http://www. 2003. shifting constituencies. C. "Samplertrofagia: a cultura da reciclagem". pp. Geographical Review 87 (2):155-171.secondlife. "Cyborg Anthropology".com> Youtube <http://www. Lysloff.com> Facebook <http://www.

2003. J. . Hamlet on the Holodeck: The Future of Narrative in Cyberspace. 2008a. Alex. 2000.html> [Consulta: 21/05/2008]. H. 2008b. Illinois: Northwestern University Press. "Computer-mediated communication".0: Design Patterns and Business Models for the Next Generation of Software". 2008c. Wikipedia.pt/pag/recuero-raquel-comunidades-virtuais. ———. 1992. The Virtual Community: Homesteading on the Electronic Frontier. Reily.wikipedia.oreillynet. Cambridge: The MIT Press. The Free Encyclopedia <http://en. Communication Research 19 (1):52-90. Wikipedia.0". "Module file". Disponível em <http://www.org/wiki/Napster> [Consulta: 29/05/2008].org/wiki/Computermediated_communication> [Consulta: 25/05/2008]. 2001. Disponível em <http://www6.org/wiki/Module_file> [Consulta: 21/05/2008]. "Comunidades Virtuais: Uma Abordagem Teórica". Rheingold.wikipedia. O'Reilly. "Interpersonal Effects in Computer-Mediated Interaction: A Relational Perspective". Murray.br/limc/PDFs/web2. Cambridge: MIT Press. The Anthropology of Music.html> [Consulta: 27/05/2008].wikipedia. O'Reilly <http://www.pdf> [Consulta: 21/08/2008]. Alan. Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação <http://bocc. 2005. Wikipedia.com/pub/a/oreilly/tim/news/2005/09/30/what-is-web20. The Free Encyclopedia <http://en.php?art=23> [Consulta: 21/08/2008].net/archivo/articulo. Raquel da Cunha.d'Antropologia:79-97. B. 2006. Yearbook for Traditional Music 35:187-192. 1998. "Napster". In XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Wikipedia. T. Janet. "O aspecto relacional das interações na Web 2.ufrgs. Evanston. 1964.ubi. Walther. Suzel Ana. Primo. Merriam. Brasília. The Free Encyclopedia <http://en. ———. Recuero. "What Is Web 2. "Ethnomusicology and the Internet".cibersociedad.