A dimensão ecológica enquanto parte integrante do processo de santificação na teologia adventista do sétimo dia.

Fábio Augusto Darius1
Resumo: É somente quando o Homem percebe seu lugar enquanto parte integrante da Criação e assume uma relação intrínseca de interdependência para com ela é que ele encontra o vínculo original com o Criador. Assim sendo, o convívio harmônico e quase “simbiótico” com a Natureza é uma espécie de pré-requisito básico para que o Homem se liberte de sua condição de dominador e, submisso ao Criador e enxergando a si mesmo como parte integrante da Natureza, encontre sentido para sua vida. Esse propósito quase idílico destoa do status de “protestante” do adventista do sétimo dia segundo a concepção weberiana clássica. Antes, essa mesma intenção reforça o caráter notadamente anabatista dos seus membros. O ideal adventista concernente ao processo de santificação remonta a instauração do próprio Éden em plena contemporaneidade. É interpretando os textos denominacionais dos primeiros tempos da instituição sob esse prisma que as páginas escritas deixam de ser notadamente legalistas e teóricas para se converterem em textos práticos de ajuda aos crentes que desejam se libertar de um mundo dominado pelos mais vis sentimentos para enfim viver sob influência menos nefanda. Contudo, em um mundo altamente desumanizado, como o que ora se configura, é tarefa das mais difíceis conciliar os ditames escriturísticos institucionais com as contingências diárias cada vez mais urgentes e menos relacionadas às coisas divinas. O artigo objetiva, em linhas gerais, discutir possíveis contribuições dessa denominação ao abordar a dimensão ecológica de suas práticas primeiras e contemporâneas. Palavras-chave: Natureza; santificação; teologia adventista

Abstract: It is only when Human Being realizes his place as an integral part of Creation and assumes an intrinsic relationship of interdependence is that with it he found the original link with the Creator. Therefore, the harmonious coexistence and almost "symbiotic" with nature is a kind of pre-requisite for that man is freed from its status as a dominant and submissive to the Creator and seeing yourself as part of nature, find meaning to your life. This clashes with the purpose almost idyllic status of "Protestant" from the Seventh-day Adventist according to the classical Weberian sense. Rather, this intention Anabaptist notably strengthens the character of its members. The ideal Adventist concerning the process of sanctification goes back to the establishment's own Eden in full contemporary. It is interpreting the texts of early denominational institution in this light that the pages are no longer written especially legalistic and theoretical texts to develop into practical help to believers who want to break free from a world dominated by the basest sentiments to finally live under less nefarious influence. However, in a highly dehumanized world, as it is configured now, it's most difficult task to reconcile the scriptural dictates institutional contingencies with daily more urgent and less related to divine things. The article aims, in general, to discuss possible contributions of that denomination in addressing the environmental dimension of their practices early and contemporary. Keywords: Nature; sanctification; Adventist theology

1

O autor é historiador, mestre e doutorando em Teologia pela Escola Superior de Teologia em São Leopoldo, RS, com bolsa CAPES. Sua tese, inserida na área de atuação Teologia e História, aborda a dimensão ecológica na formação da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Endereço eletrônico para contato: fabiodarius@aol.com

1

A Natureza e a Revelação, ambas dão testemunho do amor de Deus. Nosso Pai celeste é o manancial de vida, sabedoria e de gozo. Contemplai as belas e maravilhosas obras da Natureza. Considerai a sua admirável adaptação às necessidades e à felicidade, não só do homem, mas de todas as criaturas viventes. O sol e a chuva, que alegram e refrigeram a terra, as colinas, e mares e planícies – tudo nos fala do amor de quem tudo criou2.

1 Considerações Iniciais

Os adventistas do sétimo dia3, desde o início do movimento reavivamentista4 que culminou com a criação de sua igreja, na década de 1860, consideram-se especiais. Julgam possuir algo único e precioso e acreditam estar incumbidos de uma missão tão específica que esta, por si só, os diferencia, não somente no ocidente cristão, mas na contemporaneidade multicultural como um todo5. Para encontrar e entender essa especificidade é preciso empreender uma busca que remete a gênese da formação estrutural do pensamento deste referido grupo.

A partir de 1831 o fazendeiro Guilherme Miller, de formação batista e morador de Vermont, na região da Nova Inglaterra iniciou, solitariamente,

2

WHITE, Ellen. Caminho para Cristo. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 25ª. Edição, 1987, p. 9. 3 Utilizar-se-á sempre a expressão “adventistas do sétimo dia” por extenso para evitar uma falsa ideia de totalidade em virtude da existência de outras igrejas adventistas dissidentes da original, a saber, os Adventistas da Promessa, os Adventistas da Reforma, etc... 4 Refiro-me especificamente ao Segundo Despertamento, de cunho arminiano e que dura da década de 1790 até aproximadamente 1840. O Primeiro Despertamento foi notadamente calvinista e entre os seus representantes mais significativos, o nome de Jonathan Edwards deve ser mencionado. A Igreja Adventista do Sétimo Dia segue claramente os característicos traços do despertamento arminiano. 5 É importante levar em conta que a religião estadunidense do século XIX, a partir do final dos anos 1820 com Joseph Smith é “genuína” porque se desvencilha da teologia europeia trazida pelos pais fundadores. Fundamenta-se a partir de novas revelações (como é o caso de Smtih – que foi levado por um certo anjo chamado Morôni às placas de ouro sendo e traduzindo essas placas concebeu o “Livro de Mórmon”, cujo subtítulo é “O outro testamento de Jesus Cristo”) ou de revelações cujo objetivo primeiro é alertar o povo acerca dos acontecimentos dos últimos tempos – ou seja, o tempo presente – a partir de fundamentação bíblica. É partindo dessa segunda premissa que os adventistas do sétimo dia podem ser categorizados, no tocante as visões. Para maiores informações acerca da constituição de uma teologia estadunidense sem par, vide BLOOM, Harold. Presságios do Milênio: Anjos, sonhos e imortalidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996.

2 estudos bíblicos tão-somente munido de uma concordância bíblica. Não avançava para a perícope seguinte até que a primeira não estivesse completamente elucidada, segundo o seu entendimento. Ao findar seus estudos, estava ele convencido que o retorno de Cristo, literal, nas nuvens dos céus6, se daria ainda em sua geração, a partir de complexos cálculos relativos principalmente a purificação do santuário, de acordo com o livro de Daniel 8.14 e a ponte deste texto com Apocalipse 147. Contudo, ao falar sobre o rápido regresso de Cristo, Miller também, ainda que incidentalmente, falava sobre a necessidade de um reavivamento genuíno e pessoal, incitando a santificação.

A relativamente rápida difusão da mensagem apocalíptica contida na interpretação de Miller se deu, dentre outros, por dois fatores principais: a) os estadunidenses, desde meados da segunda metade do século XVIII frequentaram maciçamente os colégios públicos, tendo a Bíblia como principal leitura e, principalmente8 b) o fascínio pela matemática, em voga desde a primeira Guerra de Independência, em 1776 9 levou multidões aos locais de pregação, para conferir a racionalidade das premissas de Miller.

O dia previsto para a volta de Cristo, 22 de outubro de 1844 mostrou-se desalentador aos adventistas do sétimo dia. Tamanha tristeza e amargor transformaram aquele dia no chamado “Grande Desapontamento”, até hoje lembrado nos templos dessa denominação. Tal data, no entanto, não marcou a ruptura da esperança desse acontecimento iminentemente apocalíptico, e,
6

Guilherme Miller concentrou seus estudos sobre a volta de Jesus quase que especificamente nos capítulos 7, 8 e 9 do livro de Daniel e no livro de Apocalipse, a partir de uma visão racionalista dos acontecimentos pretéritos e futuros. Seus ministros associados eram desencorajados de discutir acerca de outros temas, que não o da volta de Cristo, em virtude da urgência da mensagem. 7 Para maiores informações, vide DARIUS, Fábio Augusto; WACHHOLZ, Wilhelm. Passos para Cristo: a construção do conceito de "santificação" na obra de Ellen White legada à Igreja Adventista do Sétimo Dia. São Leopoldo, 2010. 119 f. Dissertação (Mestrado) - Escola Superior de Teologia, Programa de Pós-graduação, São Leopoldo, 2010, especificamente a página 20 em diante, onde o movimento milerita é estudado com mais detalhes. Disponível em: http://tede.est.edu.br/tede/tde_busca/processaPesquisa.php?listaDetalhes%5B%5D=188&proc essar=Processar Acessado em 10 de abril de 2011. 8 De acordo com Leonardo Karnal: “... o nível de alfabetização era grande, até mesmo entre os escravos. Isso se deve ao fato de o protestantismo ser a religião predominante, em que a leitura da Bíblia era fundamental”. KARNAL, PURDY, FERNANDES et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2ª. Edição, 2008 p.123. 9 NOLL, Mark. A History of christianity in the United States and Canada. Grand Rapids, Michigan: Willian B. Eerdmans Publishing Company, 1992, p. 192.

3 infelizmente, até meados de 1850, ainda alguns líderes teimosamente fizeram suas predições, sempre reiterando que Miller havia acertado em sua abordagem, cometendo apenas erros de cálculo.

Doutrinariamente, creem os adventistas do sétimo dia que algo aconteceu em 22 de outubro de 1844. Naquele dia, Cristo deixou o lugar Santo e adentrou ao Santíssimo, dando início ao chamado juízo investigativo 10. Com isso, começou o julgamento de primeiramente todos os mortos e então o dos vivos. Ao término, se dará a volta de Cristo, nos moldes do comentado por Miller. Essa doutrina, absolutamente sui generis no mundo cristão, aconteceu a partir de uma revelação que, nesse caso, fundamentou uma teoria baseada em pressupostos da modernidade – a lógica matemática – e seria apenas a primeira de uma série infindável de outros casos no adventismo do sétimo dia. Portanto, fica evidenciado que o chão desse grupo que em um primeiro momento se mostrou fundamentalista, a partir do próprio conceito aplicado à época imediatamente posterior – ou seja, o que diz respeito aos fundamentos da fé cristã, sem conotação pejorativa – é a própria modernidade que, por suas prerrogativas, leva inexoravelmente ao cenário do fim, o próprio Armageddon, em uma grande batalha cósmica cujo ser humano não pode ficar neutro.

A partir desse conturbado início e em seu primeiro momento, ou seja entre 1844 e 1860, o grupo, que receava pela institucionalização 11, temendo a hierarquização e engessamento típicos das grandes instituições religiosas, constituiu suas primeiras crenças fundamentais, incluindo a guarda do Sábado do sétimo dia, em observância ao quarto mandamento mas, para evitar novas dissensões e gestos excessivos de supostos adventistas, se viu obrigada a se

10

Essa doutrina dos últimos eventos, equivale a 23ª. Crença Fundamental dos Adventistas do Sétimo Dia. Para maiores informações, vide: IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA. Nisto Cremos: 27 Ensinos Bíblicos dos Adventistas do Sétimo Dia. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 8ª. Edição, 2003, p. 408. 11 Parte desse temor se deve a posição de seus fundadores, Tiago White e José Bates. Ambos frequentavam, primeiramente, uma igreja conhecida apenas como Cristã, parte de um movimento restauracionista iniciado em 1801 pelo pregador batista Abner Jones. Institucionalizar era “retroceder até a Modernidade”, deixando de lado a pureza dos primórdios cristãos. Para aprofundamento, recomendo: HOLIFIELD, E. Brooks. Theology in America: Christian Thought from the Age the Puritans to the Civil War. Londres: Yale University Press, 2003, p. 291 e subsequentes.

4 institucionalizar, precisamente um ano antes do início da guerra da Secessão e da profunda reestruturação que o conflito proporcionaria ao país.

2 A busca pela santificação pessoal como pressuposto para um despertar ecológico

Entre os primeiros adventistas do sétimo dia, encontrava-se a jovem Ellen White, co-fundadora da denominação. Negra, fisicamente fraca por conta de uma pedrada recebida na infância e de origem humilde, oriunda de uma família metodista, seus pais e ela foram sumariamente expulsos de sua igreja por frequentarem as reuniões de Guilherme Miller. Em dezembro de 1844 – portanto dois meses após o “Grande Desapontamento”, quando ela contava com menos de 18 anos, - afirmou receber sua primeira visão. Ao longo de setenta anos de ministério, até a sua morte em 1915, foram mais de duas mil delas.

As visões de Ellen White, que a princípio foram absolutamente condenadas pelos primeiros membros em virtude da zombaria generalizada a partir da decepção de outubro de 184412, passaram por um rigoroso processo interno baseado em normas bíblicas relevantes para o grupo13 e aos poucos seus textos acabaram conferindo identidade à denominação. De fato, para alguns essas mensagens tomaram tal vulto que foi preciso que a própria White escrevesse que seus textos não eram absolutamente a Bíblia, mas que levavam a ela: “pouca atenção é dada à Bíblia, e o Senhor deu uma luz menor para guiar homens e mulheres à luz maior.”14

Até aqui, julguei necessário não me furtar de, em linhas absolutamente gerais, tratar acerca dos inícios da história denominacional dos adventistas do sétimo dia e inclusive evidenciar alguns pontos de atrito destes a partir de
12

Conforme DOUGLASS, Herbert E. Mensageira do Senhor: o ministério profético de Ellen G. White. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2003, p.134. 13 DOUGLASS, 2003, p. 514 14 WHITE, Ellen. Mensagens Escolhidas Volume III. Santo André. Casa Publicadora Brasileira, 1980, p.30.

5 percepções de algumas denominações. A exposição foi proposital: muitíssimo é falado e escrito acerca dos adventistas do sétimo dia de forma pejorativa e exclusiva, a tal ponto de vários de seus eruditos necessitarem explicitar, às vezes ponto por ponto, as questões de debate – nem sempre doutrinárias. Com isso, o mote principal da mensagem é perdido: a restauração de toda a criação divina a partir de uma volta às suas origens existenciais. O cerne dessa mensagem simplesmente clama que homens e mulheres devem perceber que são apenas seres criados e necessitam voltar a viver uma existência contemplativa e harmoniosa, abandonando suas tendências egocêntricas e autodestrutivas. Esses atos, como não poderiam deixar de ser, levam também ao desequilíbrio e, finalmente, a destruição do globo porque o homem só tem percebido que é parte do mundo ao visualizar que agora sofre por não preservá-lo.

Essa percepção precoce de um tema sumamente importante e que só nas últimas décadas do século XX foi observado seriamente por pesquisadores das mais diferentes áreas têm um motivo mais ou menos desvelado: o temor de um colapso mundial que leve homens, mulheres e animais à destruição. Os adventistas do sétimo dia e outros grupos pré-milenaristas estadunidenses do século XIX tinham (e têm!) uma visão pessimista com relação aos acontecimentos últimos da Terra e julgam que estes estão se desenrolando na contemporaneidade. Por já se sentirem marginalizados e decepcionados com as mazelas do mundo, preconizaram o fim como única possibilidade de continuação da existência, ainda que em outro plano, ou mesmo neste, devidamente restaurado. Por negaram e perceberem os avanços implacáveis da Modernidade e suas consequências funestas15, presenciaram desde aquele momento, uma ruptura da existência humana pela impossibilidade de vivência harmônica com todos os elementos. Ellen White via no desenvolvimento das cidades, apenas para citar um único de uma miríade de exemplos, o estado de

15

Eis aqui, talvez, a mais paradoxal das questões, que tange também grupos notadamente fundamentalistas contemporâneos: a negação da Modernidade não faz com que esses grupos deixem de usufruir dos benefícios que esta trouxe e traz. A mensagem da volta de Cristo é levada via ondas de rádio, redes de televisão e internet. Contudo, o limiar dos tempos, para essas denominações pré-milenalistas é vista a partir de uma dialética de difícil assimilação: esperança e temor!

6 degeneração do homem, cada vez menos voltado à simplicidade de uma vida contemplativa. Segundo ela (1905):
A vida nas cidades é falsa e artificial. A intensa paixão de ganhar dinheiro, o redemoinho da agitação e da corrida aos prazeres, a sede de ostentação, de luxo e extravagância, tudo são forças que, no que respeita à maioria da humanidade, desviam o espírito do verdadeiro desígnio da vida. Abrem a porta para milhares de males. Essas coisas exercem sobre a juventude uma força quase irresistível. Uma das mais sutis e perigosas tentações que assaltam as crianças e jovens nas cidades é o amor dos prazeres. Numerosos são os dias feriados; jogos e corridas de cavalos arrastam milhares, e a onda de satisfação e prazer atrai-os para longe dos simples deveres da vida. O dinheiro que deveria haver sido economizado para melhores fins é desperdiçado em divertimentos. Em razão de monopólios, sindicatos e greves, as condições da vida nas cidades estão-se tornando cada vez mais difíceis. Sérias aflições encontram-se perante nós; e sair das 16 cidades se tornará uma necessidade para muitas famílias .

Contudo, os tempos vislumbrados difíceis foram benfazejos a uma pregação de cunho emocionalista por parte de toda a sorte de grupos arminianos ainda refrigerados pelo frescor reavivamentista – evitada pelos adventistas do sétimo dia – e grandemente focada em uma busca de santificação pessoal. No entanto, a ênfase na teologia adventista, que sob hipótese nenhuma negou a necessidade premente dessa preconizada santificação reside no fato desta perceber o todo (incluindo também os animais e a criação divinal) como integrante do processo, em suas múltiplas matizes. No entanto, enquanto vários segmentos restauracionistas abandonaram toda a porção bíblica que compreende o Antigo Testamento17, o adventismo do sétimo dia não deixou de segui-lo enquanto compêndio moral regulador de vários aspectos, emprestando de suas páginas a base para uma reforma alimentar e mandamental, sem contar os fundamentos que regeram e regem a crença do
16

WHITE, Ellen. The Ministry of Healing (1905). Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1942. p.364. Conforme o original: Life in the cities is fake and artificial. The intense passion for money getting, the whirl of excitement and pleasure seeking, the thirst for display, the luxury and extravagance, all are forces that, with the great masses of mankind, are turning the mind from life's true purpose. They are opening the door to a thousand evils. Upon the youth they have almost irresistible power.One of the most subtle and dangerous temptations that assail the children and youth in the cities is the love of pleasure. Holidays are numerous; games and horse racing draw thousands, and the whirl of excitement and pleasure attracts them away from the sober duties of life. Money that should have been saved for better uses is frittered away for amusements.Through the working of trusts, and the results of labor unions and strikes, the conditions of life in the city are constantly becoming more and more difficult. Serious troubles are before us; and for many families removal from the cities will become a necessity. 17 HOLIFIELD, 2003, p.295.

7 juízo investigativo, já comentado. Assim sendo, para Ellen White (1902) – e por tabela, para os adventistas do sétimo dia,
mediante a obediência [da Lei] vem a santificação do corpo, alma e espírito. Esta santificação é um processo progressivo e uma subida de 18 um nível de perfeição para outro .

O trecho acima, destituído de contexto, não parece pressupor nada de absolutamente novo em termos teológicos – principalmente no tocante ao movimento compreendido – mas em seu ser existe ao menos um grande diferencial: o Sábado do sétimo dia, que aparece inclusive no nome da denominação, é o eixo central do processo. Para Ellen White, o Sábado é o memorial da Criação, para onde todos – Criador e criaturas – convergem. É a partir da restauração do Sábado que acontecerá o ápice do concerto divino com homens e animais e, portanto, o fim de seu processo degenerativo, ainda que o mundo cumpra seu destino abjeto19. E, segundo ela (1917*), precisamente no “fim dos tempos” toda a instituição divinal destronada por seres humanos deverá ser reestabelecida.
No tempo do fim, toda instituição divina deve ser restaurada. A brecha feita na lei quando o sábado foi mudado pelo homem, deve ser reparada. O remanescente de Deus, em pé diante do mundo como reformadores, deve mostrar que a lei de Deus é o fundamento de toda reforma perdurável, e que o sábado do quarto mandamento deve permanecer como memorial da criação, uma lembrança constante do 20 poder de Deus .
18

WHITE, Ellen. My Life Today.Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1952. p. 250. Conforme o original, publicado na Carta 155, de 1902, lê-se: “Through obedience comes sanctification of body, soul, and spirit. This sanctification is a progressive work, and an advance from one stage of perfection to another.” 19 A título de curiosidade, o teólogo alemão J. Moltmann certamente concordaria sem objeções com esse conceito Whiteano, como expressou em MOLTMANN, Jürgen. Deus na criação: doutrina ecológica da criação. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 56 e subsequentes. (O colega Oscar Roberto Chemello recentemente escreveu e apresentou um bonito artigo nomeado “Ecologia e Religião: para re-ligar o ser humano ao mundo”, ainda não publicado, onde trata com maiores detalhes esse aspecto fundamental proposto pelo teólogo alemão). 20 WHITE, Ellen. Prophets and Kings. (1917) [Edição Póstuma*]. Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1943, p.678. Pelo original: “In the time of the end every divine institution is to be restored. The breach made in the law at the time the Sabbath was changed by man, is to be repaired. God's remnant people, standing before the world as reformers, are to show that the law of God is the foundation of all enduring reform and that the Sabbath of the fourth commandment is to stand as a memorial of creation, a constant reminder of the power of God”.

8 Contudo, é necessário clarificar que, apesar do Sábado do sétimo dia constar como sendo o quarto dos dez mandamentos, os adventistas do sétimo dia e/ou toda a sorte de cristãos que almejam guarda-lo não devem fazê-lo tão somente pelo reclamo da Lei, conforme os ditames do Êxodo e do Deuteronômio, embora nunca tenha sido intenção deixar de guarda-la. No entanto, se não ultrapassasse a escritura vétero-testamentária, seriam estes cristãos judaizantes esquecendo – voltamos – toda a doutrina do Juízo Investigativo. Conforme White (1901):
Deixar claro que o Sábado não deve ser observado tão somente por causa da Lei: "Não devemos observá-lo [ao sábado] simplesmente como objeto de lei. Devemos compreender suas relações espirituais com todos os negócios da vida. Todos os que considerarem o sábado um sinal entre eles e Deus, revelando que Ele é o Deus que os santifica, hão de representar condignamente os princípios de Seu governo. Praticarão dia a dia os estatutos de Seu reino, orando continuamente a Deus para que a santificação do sábado sobre eles repouse. Cada dia terão a companhia de Cristo, exemplificando-Lhe a 31perfeição de caráter. Dia a dia sua luz refulgirá para outros em 21 boas obras " .

Deve-se dizer ainda que o autêntico guardador do Sábado, que ela chama de remanescente, ou último povo pinçado de todas as denominações religiosas e mesmo fora delas, ao reconhecer o poder de Deus e Seu caráter, expresso em Sua Lei, seguirá – dado seu progresso de santificação, uma ética ecológica que evidentemente destoará da dos seus semelhantes “ímpios”. Afinal de contas, a guarda do Sábado pressupõe a guarda do jardim de Deus e o cuidado de toda a Criação. Não é possível, em sua concepção, que o remanescente, de forma explícita, destrua o jardim ou seja conivente com sua destruição. Sabe esse homem que destruir a obra divina é destruir o seu próprio habitat, pois ressignificado a partir da restauração da verdade sabática, ele agora passa a ser co-criador de Deus, voltando a exercer sua primária
21

WHITE, Ellen. Testimonies for the Church, Volume III, (1855). Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, p.353. Pelo original: All through the week we are to have the Sabbath in mind and be making preparation to keep it according to the commandment. We are not merely to observe the Sabbath as a legal matter. We are to understand its spiritual bearing upon all the transactions of life. All who regard the Sabbath as a sign between them and God, showing that He is the God who sanctifies them, will represent the principles of His government. They will bring into daily practice the laws of His kingdom. Daily it will be their prayer that the sanctification of the Sabbath may rest upon them. Every day they will have the companionship of Christ and will exemplify the perfection of His character. Every day their light will shine forth to others in good works.

9 função edênica22. Nesse sentido, seu próprio corpo físico será preservado em virtude da reserva com que esse novo homem olhará o mundo, evitando inclusive a ingestão de alimentos cárneos, que provocam dor e separação às criaturas e, portanto, ruptura do convívio harmônico e sua própria ruína 23. Com isso, visualiza-se a partir da percepção do Sábado um distintivo sinal entre Deus e seu povo24 um vislumbre de redenção e um novo olhar às coisas da natureza. Conforme White (1898):
A todos quantos recebem o sábado como sinal do poder criador e redentor de Cristo, ele será um deleite. Vendo nele Cristo, nEle se deleitam. O sábado lhes aponta as obras da criação, como testemunho de Seu grande poder em redimir. Ao passo que evoca a perdida paz edênica, fala da paz restaurada por meio do Salvador. E tudo na natureza Lhe repete o convite: “Vinde a Mim, todos os que estais 25 cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei ”.

Para concluir, o Sábado, para Ellen White e os adventistas do sétimo dia é o catalisador divino que dimensiona teologicamente a ecologia para o âmago do processo de santificação, que por sua vez é o centro da mensagem adventista, que o visualiza o contexto a partir da compreensão da breve volta de Cristo. Sem esse distintivo elemento – um selo que separa os ímpios dos justos – é impossível compreender as outras crenças fundamentais em sua acepção mais profunda.

22

Ela parece ter a mesma visão rabínica. Vide. MISHNÁ: a essência do judaísmo talmúdico. Rio de Janeiro: Documentário, 1973. p. 57. 23 Não poucas vezes, ela escreveu sobre os malefícios da carne. Acerca do tema “regime alimentar”, ela dedicou certa de 50% de toda a sua obra, que atinge cem mil páginas manuscritas. 24 Segundo WHITE, 1855, p18. “O sábado é um elo de ouro que une a Deus o Seu povo”. 25 WHITE, Ellen. The Desire of Ages. (1898). Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1940, p.289. Pelo original: “To all who receive the Sabbath as a sign of Christ's creative and redeeming power, it will be a delight. Seeing Christ in it, they delight themselves in Him. The Sabbath points them to the works of creation as an evidence of His mighty power in redemption. While it calls to mind the lost peace of Eden, it tells of peace restored through the Saviour. And every object in nature repeats His invitation, "Come unto Me, all ye that labor and are heavy-laden, and I will give you rest”".

10

3 Referências:
BLOOM, Harold. Presságios do Milênio: Anjos, sonhos e imortalidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996. DARIUS, Fábio Augusto; WACHHOLZ, Wilhelm. Passos para Cristo: a construção do conceito de "santificação" na obra de Ellen White legada à Igreja Adventista do Sétimo Dia. São Leopoldo, 2010. 119 f. Dissertação (Mestrado) - Escola Superior de Teologia, Programa de Pós-graduação, São Leopoldo, 2010. DOUGLASS, Herbert E. Mensageira do Senhor: o ministério profético de Ellen G. White. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2003. HOLIFIELD, E. Brooks. Theology in America: Christian Thought from the Age the Puritans to the Civil War. Londres: Yale University Press, 2003. IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA. Nisto Cremos: 27 Ensinos Bíblicos dos Adventistas do Sétimo Dia. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 8ª. Edição, 2003. KARNAL, PURDY, FERNANDES et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2ª. Edição, 2008

MISHNÁ: a essência do judaísmo talmúdico. Rio de Janeiro: Documentário, 1973.
MOLTMANN, Jürgen. Deus na criação: doutrina ecológica da criação. Petrópolis: Vozes, 1993. NOLL, Mark. A History of christianity in the United States and Canada. Grand Rapids, Michigan: Willian B. Eerdmans Publishing Company, 1992. WHITE, Ellen. Caminho para Cristo. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 25ª. Edição, 1987. ____________. Mensagens Escolhidas Volume III. Santo André. Casa Publicadora Brasileira, 1980. ____________. My Life Today.Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1952. ____________. Prophets and Kings (1917). Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1943. ____________. Testimonies for the Church, Volume III, (1855). Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association. ____________. The Desire of Ages. (1898). Publishing Association, 1940. Mountain View, CA: Pacific Press

____________. The Ministry of Healing (1905). Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1942.