A prática do Ensino Religioso em uma Escola Técnica da Serra Gaúcha: subsídios para um estudo de caso Fábio Augusto Darius1

Em sua obra “O Enigma da Religião” publicada ainda nos anos 70 do século passado, Rubem Alves, no primeiro capítulo e de forma autobiográfica, como costuma ser de seu feitio, conta como deixou a pequena cidade no interior e, chegando à metrópole, se tornou um fanático religioso. Ele define seu novo estado de ânimo e destaca as pretensas facilidades do fanatismo afirmando (em um primeiro momento) que:
A solução fundamentalista nos liberta do doloroso confronto com uma realidade sempre inacabada, sempre em mutação, sempre perturbadora, sempre questionadora. Converta-se ao fundamentalismo (não importa o tipo)! Você se descobrirá livre do processo sem fim de construir, destruir, para começar tudo de novo da estaca zero.2

Pode parecer muito estranho, ou no mínimo um tanto suspeito, começar um artigo que pretende abordar a práxis do Ensino Religioso em uma escola técnica invocando um texto de Rubem Alves onde é abordada sua experiência juvenil de forma pouco convencional ou conhecida. Contudo, há ao menos duas razões para tanto: assim como Alves, pleiteio dar um enfoque intimamente experiencial ao artigo que deve se transformar em relato. Além disso, como pretendo mostrar, há uma forte barreira ideológica3 por parte de pais e mães com relação ao Ensino Religioso nessa instituição, transformando essas aulas em espaço privilegiado para reflexão e questionamento de ideias há tanto arraigados e livres de confrontos – fanáticas portanto.

Para empreender tal travessia, faz-se pertinente, em linhas gerais, abordar o histórico da instituição onde a escola técnica está inserida: A Universidade de Caxias do Sul, fundada em fevereiro de 1967 – durante os primeiros anos do regime militar
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O autor é graduado em História pela Universidade Regional de Blumenau, mestre em Teologia pela Escola Superior de Teologia e doutorando em Teologia pela mesma instituição. 2 ALVES, Rubem. O Enigma da Religião. Petrópolis: Editora Vozes, 1975, p.12. 3 Por “barreira ideológica” ou especificamente “ideologia”, não pretendo abordar o termo sob um viés marxista, como é comum a um historiador gestado no século XX. Foco-me no que se refere à convicção pessoal de um grupo pertencente a determinada sociedade, no sentido religioso.

brasileiro – foi idealizada durante os anos 50 pelo Bispo da cidade, Don Benedito Zorzi e entre os primeiros cursos da instituição, encontra-se a Faculdade de Ciências Econômicas e Faculdade de Filosofia, sob orientação da Mitra Diocesana e a Faculdade de Direito, sob a direção da Sociedade Hospitalar Nossa Senhora de Fátima4.

Conclui-se disso, que a futura universidade foi iniciada e mantida a pedido da autoridade católica máxima da cidade e seus principais cursos, geridos por instituições católicas. Assim, apenas a título de comparação, a referida universidade é inaugurada sob os antigos moldes das primeiras instituições medievais 5 e com o apoio dos militares6. Paradoxalmente, esses militares mantinham acessas ideias

desenvolvimentistas que eram facilmente assimiladas pela sociedade caxiense, desde há muito, um dos maiores polos industriais do Brasil.

A dinâmica compreendida na universidade pode ser percebida também na cidade que velozmente crescia ao seu redor: empreendedora, urbana e cosmopolita, mas que defendia (defende) e mantém suas tradições italianas com muito vigor e que se orgulha tanto de suas fábricas quanto de suas belas igrejas e parreirais, unindo sempre que possível tradição à modernidade.

A escola técnica da Universidade de Caxias do Sul, nascida sob esse mesmo espírito regido pela práxis empreendedora e modernizante, apesar de contar com apenas quinze anos de existência, costuma ser procurada pela sociedade caxiense em virtude de sua preparação ostensiva para os vestibulares mais concorridos do estado, obtendo, segundo recente pesquisa, muito sucesso neste âmbito7. Seu Ensino Médio técnico privilegia o aprendizado de “Administração” e “Informática”, fazendo com que os alunos permaneçam no colégio durante todas as manhãs e quatro tardes por semana e
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Extraído de http://www.ucs.br/ucs/institucional/historico/apresentacao. Acessado em 4 de junho de 2010. 5 Para maiores apontamentos e discussão, recomendo o texto da Profa. Carmem Praxedes (UERJ) intitulado “A universidade brasileira é medieval?” disponibilizado em http://www.filologia.org.br/viicnlf/anais/ caderno10-02.html. Acesso em 04 de junho de 2010. 6 Os militares e a igreja de uma forma geral tiveram relações bem amistosas até dezembro de 1968, quando do AI-5. 7 Disponível em http://www.ucs.br/ucs/noticias/1261533404. Acesso em 04 de junho de 2010.

ocupem grande parte de suas rotinas dentro das salas de aula. A instituição conta com uma média de 450 alunos e 100 professores, muitos dos quais fazem parte dos quadros docentes dos cursos de graduação da universidade onde a escola está alocada.

Em um ambiente onde o número de alunos é muito pequeno em relação à quantidade de professores e as aulas são quase incessantes, sendo que a disciplina é bastante rígida8, é comum parcela não pequena de estudantes manterem um relacionamento pessoal com os mestres que transcendem às matérias ministradas. Isso se deve ao fato de repetidas vezes alunos e professores ocuparem o mesmo espaço para refeições e em não raros momentos, viajarem juntos, além de prepararem conjuntamente projetos interdisciplinares, criando um vínculo que é duradouro mesmo quando do fim dos estudos secundários.

Junte-se os dados acima estabelecidos ao fato de vários estudantes conviverem com pais ausentes (visto que quinhão nada desprezível é composto de executivos e administradores) e sem limites claros de educação e responsabilidades e o resultado quase inevitável é a transformações de alguns professores em, além de mestres, ícones e pontos de referência para assuntos dos mais diversos, incluindo aí, temas éticos e/ou religiosos.

Ainda assim, a figura do professor de Ensino Religioso, que historicamente costumava ser o subsidiário das questões ético/religiosas é ausente em um colégio onde a referida disciplina é apresentada de forma optativa, segundo interpretação da Lei 9394/96 em seu artigo 33, que reza:

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Desde os primórdios da instituição, o lema norteador é simples, porém carregado de significados práticos: “Autonomia com responsabilidade.” Isso quer dizer que não há monitores caminhando pelos corredores e os alunos podem entrar e sair do ambiente do colégio, nos intervalos, sem pedir permissão a uma das duas coordenadoras. Porém, em caso de excesso por parte dos alunos, essa autonomia é refreada e finalmente tolhida. Se em muitos colégios essa prática não costuma proporcionar os resultados esperados, neste especificamente, o respeito dos alunos, de forma geral, pelas normas, é indiscutível, visto que, pelo colégio ser bastante procurado e possuir vagas limitadas, não há grandes problemas econômicos em “substituir” alunos não condizentes com essas normas e chamar outros que aguardam pela oportunidade de ali estudar. Paradoxalmente, apesar de tamanha liberdade, os namoros são proibidos, a não ser que concedidos pelos pais e não atrapalhem os estudos.

O ensino religioso, de matrícula facultativa, constitui disciplinas dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, sendo oferecido sem ônus para os cofres públicos, de acordo com as preferências manifestadas pelos alunos ou por seus responsáveis, em caráter: I - confessional, de acordo com a opção religiosa do outro aluno ou do seu responsável, ministrado por professores ou orientadores religiosos preparados e credenciados pelas respectivas igrejas ou entidades religiosas; ou II - interconfessional, resultante de acordo entre as diversas entidades religiosas, que se responsabilizarão pela elaboração do respectivo programa. 9

Para suprir essa lacuna, sem a necessidade de alterar uma sempre delicada planilha de horários, a escola tem a disposição uma psicóloga e oferece, em caráter optativo, um curso com duração de seis horas dividido em três encontros intitulado “Seminários de Religião”. O curso compreende uma análise básica e sucinta das chamadas “religiões do livro”, judaísmo, cristianismo e islamismo, a partir de uma perspectiva histórica com a utilização do método dialógico: os alunos trazem à discussão suas questões que são abordadas a partir das mais diferentes vivências, mediadas pelo professor. O curioso é que a grande maioria dos alunos que participam dessas aulas são católicos romanos praticantes que se inscreveram por imposição dos pais e que frequentaram durante os longos anos do Ensino Fundamental, colégios católicos, muito comuns em Caxias do Sul. Esses mesmos alunos são os que menos interesse costumam mostrar às aulas propostas por esse curso, ao relembrarem, com indisfarçável dissabor, uma série de relatos que hoje os desencorajam a prática da religião dos pais, que, ao impor que seus filhos frequentem este seminário, apenas contribuem para o aumento dessa rejeição.

Diante desse fato, cabe nesse ponto perguntar: como foram as aulas de Ensino Religioso que esses alunos tiveram ao longo da vida para que hoje apresentem as reações que apresentam e, qual é a proposta do colégio técnico em questão para lidar com o assunto, além do já citado seminário?

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Documento disponível em www.planalto.gov.br/ccivil/Leis/L4024.htm. Acessado em 4 de junho de 2010.

Partindo do pressuposto que não deve ser função deste colégio apresentar e discutir práticas católicas e tópicos de religião, como é o caso da maioria das instituições particulares da cidade, nem disponibilizar a disciplina de forma pouco interessada, como relatado por alguns alunos egressos de colégios públicos (onde muitos professores são oriundos de áreas distintas) o colégio optou por aquilo que parece ser o “caminho do meio”: possibilitar um estudo profundo e acadêmico abordando tópicos comuns às religiões dentro das disciplinas de História, Sociologia e, principalmente Filosofia, sob o viés da ética.

Entende a direção do colégio, que a religião é fonte privilegiada da ética 10 (dela prescindindo) e a ética, tema privilegiado da disciplina de Filosofia ladeado por discussões intercaladas pelo professor de História e questões contemporâneas, sob direção do professor de Sociologia, potencializando o tema em uma discussão interdisciplinar11. Neste caso, objetivamente, não há um Ensino Religioso propriamente dito, mas sim o ensino de ética aplicada ao ensino religioso. Com isso, a nomenclatura comum ao sagrado é substituída por termos filosóficos e os temas geradores em sala de aula, sempre expostos de forma dialógica, não raras vezes a partir da discussão pontuada por um aluno, acabam dando àquela aula, o formato de uma aula comum de Ensino Religioso.

Portanto, a prática do Ensino Religioso, como exposto no título deste trabalho, trabalhada sob outras matizes, faz parte do esforço do colégio de proporcionar um equilíbrio entre as disciplinas das Ciências Exatas e Humanas. Assim sendo, enquanto o “mundo do trabalho” é temática recorrente das “disciplinas exatas”, a busca por um

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Com relação ao tema, vide o artigo de DE LIBERAL, Márcia Mello da Costa “A religião como fonte de ética: revisitando alguns paradigmas”, publicado pela Revista Portuguesa de Ciências da Religião, ano I, 2002, nº2, p. 65-68, disponível em http://recil.grupolusofona.pt/bitstream/10437/458/1/ 6_ a_ religiao_ como_fonte_de_etica.pdf. Acessado em 4 de junho de 2010. 11 Para a preparação específica dessas aulas, os professores das Ciências Humanas semanalmente se encontram e discutem o tema por duas horas, remuneradamente. Para subsidiar ainda mais as discussões, existe uma outra disciplina específica, para os três anos do Ensino Médio, conhecida por “Informática aplicada às Ciências Humanas.” Os professores das Ciências Humanas intercaladamente, e com o auxílio dos professores de informática, a partir do tema “religião”, abordam a cultura nos mais diferentes aspectos.

“sentido na vida” é tematizado principalmente pela Filosofia que se utilizada de tópicos de Ensino Religioso para empreender tal tarefa. De acordo com Blank12, 2008:
Quem achou o sentido da sua vida não está mais frustrado. Quem descobriu o rumo de sua existência tornou-se feliz. Mas pessoas felizes não podem ser convencidas de que precisam comprar cada vez mais produtos (...)13

Tal tarefa mostra-se vital para a promoção do estudante não apenas para o curso superior, mas para uma tentativa de vivência superior de sua própria vida, em um mundo tão altamente mercadológico, visando desfanatizá-lo (para iniciar e terminar com Rubem Alves) da matéria e levá-lo mais e mais à essência.

Referências: ALVES, Rubem. O Enigma da Religião. Petrópolis: Editora Vozes, 1975. BLANK, Renold. Encontrar sentido na vida: propostas filosóficas. São Paulo: Paulos, 2008 DE LIBERAL, Márcia Mello da Costa. A religião como fonte de ética: revisitando alguns paradigmas”, Revista Portuguesa de Ciências da Religião, ano I, 2002, nº2, p. 65-68 PRAXEDES, Carmem. A universidade brasileira é medieval? Disponível em http://www.filologia.org.br/viicnlf/anais/ caderno10-02.html PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA: Casa Civil Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 9394/96. Disponível em www.planalto.gov.br/ccivil/Leis/L4024.htm

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O autor é referência obrigatória na lista de autores elencados para a elaboração da disciplina. BLANK, Renold. Encontrar sentido na vida: propostas filosóficas. São Paulo: Paulos, 2008, p. 51.