ESBOÇO SOBRE A MÍDIA RELIGIOSA E A RELIGIÃO MIDIÁTICA NO BRASIL1 Fábio Augusto Darius2

Resumo: O presente artigo intenciona abordar a ideia da mídia brasileira ser, em grande
medida, suposta divindade, extensão do humano e, portanto algo como “imagem espelhada de Deus” e devidamente refletida nos monitores de vídeo espalhados pela residência, que se convertem em espécie de “oratórios privados”. Enquanto programas de auditório transformam seus interlocutores em deuses e fazem do palco, púlpito de onde é transmitido de forma mui sui generis noções de ética e religião, movimento semelhante pode ser visto em algumas denominações cristãs brasileiras: pastores que já não mais se veem como “servos de Deus” – mas como próprios mediadores entre o imanente e o transcendente, através de práticas espetaculosas transplantadas dos programas gerados pela mídia massificadora – são, eles próprios, deuses propiciados pela ciência e tecnologia.

Palavras chave: mídia, religião, espetáculo

Abstract: The present article intends to approach the idea of the Brazilian media be, in great
measure, a kind of deity, extension of the human being and, therefore something as “mirror image of God” and duly reflected in the monitors of video spread by the residence, that if convert into species of “private chapels”. While audience programs transform its interlocutors into gods and make of stage, pulpit of where is transmitted of sui generis form slight knowledge of ethics and religion, similar movement can be seen in some Brazilian Christian denominations: shepherds who do not be as “in service of God” - but as proper mediators between immanent and transcendent, through practical by TV shows generated for the mass media - are, proper they, gods propitiated by science and technology.

Keywords: media, religion, entertainment.

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Artigo elaborado a partir de discussões e leituras propostas para cumprimento da disciplina “Rito, Mídia e Religião”, ministrada pelo Prof. Dr. Júlio Cezar Adam. 2 Fábio Augusto Darius, graduado em História pela Universidade Regional de Blumenau, mestre em Teologia, área de atuação Teologia e História pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo e doutorando na mesma área, pesquisa acerca da dimensão ecológica inserida na teologia adventista do sétimo dia no século XIX e XX.

A comunicação do evangelho significa expô-lo diante das pessoas para que decidam por ele ou contra ele. O evangelho cristão é matéria de decisão. Tem de ser aceito ou rejeitado. Tudo o que nós podemos fazer, nós que o comunicamos, é possibilitar a decisão. E esta baseia-se em compreensão e participação parcial.3

1 Considerações Iniciais

Paul Tillich, o “teólogo da cultura”, ao escrever as linhas que principiam este artigo, aborda acerca da sumamente importante tarefa de comunicar o evangelho. Esta empreitada não deve ficar restrita ao âmbito pastoral ou relegada a professores, mas deve ser refletida e considerada por todos aqueles a quem este evangelho faz e dá sentido à existência. À esta função de comunicar e, em caso positivo, fazer discípulos, certamente parece se referir as palavras proferidas por Cristo, expressas no texto de Mt. 28.19 e repetidas miríades de vezes, principalmente no âmbito do cristianismo de cunho protestante pentecostal e neo-pentecostal. Assim sendo, faz-se necessário perguntar sobre os supostos limites concernentes à comunicação do sagrado texto e as tão díspares teologias oriundas deste, em um mundo plural, contemporâneo e conectado aos meios de difusão cada vez mais rápidos e de abrangência virtualmente ilimitada, que podem ser acessados por qualquer pessoa em qualquer momento. Mais do que isso: deve-se inquirir também sobre o comunicador. As palavras e ações dos homens e mulheres públicos dizem minimamente respeito às palavras e ações contidas no evangelho? Tillich, na mesma obra acima citada, diria que é sempre um sofrimento quando a pessoa simplesmente não aceita as prerrogativas implícitas e explícitas do cristianismo apresentado e o drama é o mesmo quando o evangelho para estas nunca sequer foi motivo de dúvida. Contudo, se o cristianismo de preponderância evangélica grandemente
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TILLICH, Paul. Teologia da Cultura. São Paulo: Fonte Editorial, 2009, p. 260.

difundido no Brasil pelo meio privilegiado da mídia televisiva apresenta visíveis contradições acerca daquela proposta de cristianismo bíblico baseado nos quatro pilares da Reforma, é de se perguntar, em linhas gerais, o quanto dessa cotidiana e midiática comunicação do evangelho diz efetivamente respeito à transmissão deste evangelho nos moldes protestantes conservadores e/ou clássicos.

2 A Pós-Modernidade e a Religião Midiática Brasileira

Não parece ser possível analisar a questão ora levantada, ou seja, a da aparente ou real contradição entre essa proposta contemporânea de apresentação do cristianismo e a acepção evangélica tradicional do tema, sem se dar conta do contexto de sentido cotidiano. A pós-modernidade, para utilizar apenas um dos muitos termos sociológicos pensados para dizer respeito aos tempos oriundos das múltiplas consequências da segunda revolução industrial4, está firmemente baseada, ao menos no mundo ocidental, em uma série de sucessivos espetáculos. Nas palavras de Debord, na primeira tese de seu livro mais conhecido livro, “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. representação5”. Uma sociedade assim constituída passa a viver – em grande medida – de aparências, imediatismos, ilusões e satisfações fugazes a partir de experiências reais (materiais), em diametral contradição aos sentimentos oriundos da espera de resposta à petição clamada ao Espírito Santo ou das reuniões de um grupo de estudos bíblicos, sem necessariamente resultados Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma

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Para uma lista atualizada acerca da multiplicidade de nomes atribuídos ao processo ora vigente, vide, especialmente o primeiro capítulo: BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pósmodernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998 5 DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2002, p. 13. (A morte do autor, ocorrida em novembro de 1994 foi motivo de notícias centrais nos mais proeminentes meios de comunicação da França e mesmo documentários foram exibidos dias depois de seu falecimento. Ele, que teve sua vida e obra ignoradas pela mídia, também foi motivo para espetáculo, quando não mais pôde se pronunciar.)

imediatos e aparentes. Já um século antes, no mesmo sentido apresentado nas teses de Debord, escrevia Feuerbach:
E sem dúvida o nosso tempo... prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser... Ele considera que a ilusão é sagrada, e a verdade é profana. E mais: a seus olhos o sagrado aumenta à medida que a verdade diminui e a ilusão aumenta, de tal sorte que, para ele, o cúmulo da ilusão fica 6 sendo o cúmulo do sagrado.

O militante ateísta do século XIX, autor da citação acima, descreve em minúcias a atual situação de muitas igrejas evangélicas brasileiras que em grande medida “arregimentam” seus fiéis por meio de espetáculos radiofônicos e televisivos, onde o altar é convertido em palco e o púlpito em tribuna. Assim sendo, o próprio pastor, deixa de ser o servo de Deus, humilde trabalhador da vinha do Senhor e também é convertido em apresentador de televisão, com toda a opulência e poder que esta exerce diante das massas. Porém, nessa passagem do altar para o talk show, a mensagem cristã é em grandíssima medida sublimada pelas representações audiovisuais de uma mídia que privilegia, por excelência, a luz e a imagem. Nas palavras de Rosário:
Na passagem para a tevê, entretanto, o talk show incorporou traços específicos desse meio, entre os quais o do espetáculo orientado pelos recursos visuais-imagéticos. Tal filiação deu origem a uma mutação que fez prevalecer o show sobre o talk. Não se pode esquecer, afinal, que o processo de formatação dos programas televisivos – pelas características visuais-imagéticas e pela própria epistemologia do meio – inspira-se no espetáculo (show), primeiramente como carnaval, como festa popular e como espaço 7 público das feiras da Idade Média.

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FEUERBACH, Ludwig. The essence of Christianity. Nova Iorque: Calvin Blanchard, 1855, p. 10. O original assim traz: “But certainly for the present age, which prefers the sign to the thing signified, the copy to the original, fancy to reality, the appearence to the essence, this change, inasmuch as it does away with illusion, is an absolute annihilation, or at least a reckless profanation; for in these days illusion only is sacred, truth profane. Nay, sacredness is held to be enhanced in proportion as truth decreases and illusion increases, so that the highest degree of illusion comes to be the highest degree of sacredness”. A proposta de tradução para a lingual portuguesa é do autor 7 ROSÁRIO. Nísia Martins do. Do talk show ao televisivo: mais espetáculo, menos informação. Em Questão, Porto Alegre, v. 14, n. 2, p. 149-162, jul./dez. 2008.

Em alguns casos a representação é tal que transcende até mesmo o imagético televisivo. Em situações assim, a quase sempre fantasiosa “representação limpa”8 produzida em um auditório-templo é transplantada para um “lugar real”, com endereço fixo e conhecido, onde as pessoas efetivamente participam ao vivo do serviço de culto-show em um mesmo âmbito espetaculoso de luz e som proporcionado pela televisão. A situação mais emblemática seja, por si só, a construção de uma réplica em tamanho real do antigo Templo de Salomão, com pedras trazidas de Israel. Terá 126 metros de comprimento e 104 metros de largura, em 70 mil metros de área construída em um quarteirão inteiro de 28 mil metros, dimensões que ultrapassam a medida oficial de um campo de futebol. Em seu interior, haverá uma rede de rádio e televisão, bem como um auditório para 500 pessoas. O templo em si terá espaço para acomodar 10 mil pessoas sentadas.9 Apesar da inegável magnificência de tal obra, que deverá estar pronta em quatro anos, construções assim não se configuram novidade no meio evangélico que necessariamente precisa da mídia para a sobrevivência de sua mensagem e que, de acordo com a própria dinâmica pós-moderna, já antecipada por Feuerbach, faz absoluta questão da réplica ao invés do genuíno. De acordo com Armstrong, ao comentar sobre situação semelhante ocorrida nos anos 80 nos Estados Unidos:
A "réplica perfeita" da Sala Superior de Jerusalém (onde se acredita que Jesus presidiu a Última Ceia e instituiu a Eucaristia) fora concebida para parecer uma reprodução. O culto tinha lugar num estúdio de televisão e (...) nunca transmitiram um serviço ou sermão 10 comum. Preferiam o espetáculo e a fantasia.

Diante de tal obra “faraônica” arquitetada por esta igreja brasileira, além do fato nada impressionante de uma rede de rádio e outra de televisão estarem planejadas para operar no coração da igreja – visto que essas redes são o
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Chamo de “representação limpa” o ambiente totalmente controlado que costuma imperar em programas de televisão, onde literalmente todos os detalhes são minuciosamente pensados com o objetivo de prender a atenção do espectador, até mesmo os sentimentos mais espontâneos, como uma lágrima vertida. 9 MEIBACH, Cínthia. Igreja Universal construirá réplica do Templo de Salomão com pedras trazidas de Israel. Agência Brasileira de Notícias. Disponível em http://www.abn.com.br/editorias1.php?id=62335. Acessado em 26 de junho de 2010. 10 ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus: O fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. São Paulo: Cia. de Bolso, 2009, p.474.

coração dessa igreja – há um detalhe que chama a atenção: as pedras trazidas diretamente de Israel, ornando a parte interior do templo, deverão ser objeto de orações, de acordo com o fundador desta denominação. O poder, o dinheiro e a glória estritamente humana fez e faz com que muitos representantes desta chamada igreja simplesmente ignorem os elementos mais caros à fé protestante, desapegada de elementos materiais e indulgências.

Transformando-se em deuses do espetáculo, esses chamados pastores abandonam a causa do verdadeiro Deus. Mais: a torre de Babel, de espetáculo e confusão humanas, é hodiernamente a torre de onde emanam as frequências que trazem aos homens não o frescor da brisa suave de Deus, a exemplo do texto bíblico de 1Reis 19, mas o falso fulgor de um poder destituído do poder transcendente, contudo brilhoso e de fácil acepção. Essa nova espiritualidade, rasa, falsa, resumida e grandemente emocional11 (em detrimento ao racional, muitas vezes demonizado) não tem a ver com a religião de Cristo – ou ao menos a proposta de Cristo à luz do protestantismo clássico – mas diz respeito a outra, que nasce nesse imbróglio12 de sentimentos difusos: a religião midiática13. Essa nova religião, proposta e dinamizada somente a partir da moderna cultura de massa, exclui o transcendente recebido de forma gratuita pela acepção da fé, substituindo essa serena entrada por aquela adquiria mediante um ticket pago que dá direito a uma sessão inteira de esquecimento cotidiano, sem que isso proporcione uma reflexão existencial. Ainda de acordo com Armstrong,
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Abordando a problemática precisamente nesse sentido, recomendo a bibliografia: MARTINO, Luís Mauro Sá. Mídia e poder simbólico: um ensaio sobre comunicação e campo religioso. São Paulo: Paulus, 2003. Na página 140 assim consta: “O consumo dos produtos culturais religiosos atende com folga aos pré-requisitos da cultura de massa, já que busca a homogeneidade da informação com grandes tiragens de seus informativos, livros e um maior alcance das emissoras de rádio e TV das igrejas. Os conceitos básicos são simples, não necessitam de grande relativização por parte do fiel, já que a doutrina já vem simplificada, ou seja, pré-interpretada por teólogos que simplificam os textos bíblicos para que possam ser compreendidos até por crianças.” 12 É extremamente curioso que o Dicionário Eletrônico Houaiss da língua portuguesa, versão 3.0, ao comentar o termo imbróglio, secundariamente, traga a definição: “enredo confuso e intrincado de uma peça de teatro”. Não seria demais aludir às representações teatrais para falar dessas igrejas midiáticas. 13 Por mais paradoxal que seja, essas igrejas negam constantemente o racionalismo mas se utilizam de uma estrutura gerencial e tecnológica impossível sequer de ser pensada sem todo o arcabouço de conhecimentos técnicos adquiridos ao longe de décadas, necessários para a transmissão dessa mensagem fundamentalista. Para resolver essa questão, utiliza-se da magia, ao proferir palavras mágicas que “convertem” a televisão de máquina do diabo à transmissora da palavra de salvação, ainda que a Palavra seja eclipsada pelos próprias ferramentas mercadológicas específicas dessa mesma televisão.

A melhor espiritualidade pré-moderna - de João da Cruz, Isaac Luria, Mulla Sadra, por exemplo, evitava esse excesso emocional, explicando que não tem nada a ver com religião; a viagem interior, 14 diziam, é serena, disciplinada, complementada pela razão.

Em um ambiente midiático e portanto pleno de artificialidade, não parece ser possível a busca serena e disciplina da religião de Cristo. Assim sendo, a íntima meditação e oração que busca interceder por outros, sempre mediante a pessoa do Espírito Santo, parece ser inexistente. Ainda mais: a noção de

pecado e a eterna luta contra o próprio eu, em uma série interminável de prescrições parciais e vigorosas negações, tão “onipresente” nas igrejas protestantes, deixa de existir nessas religiões midiáticas. Afinal, os próprios citados deuses engravatados têm o poder de extirpá-los do corpo moribundo de qualquer um, desde, é claro, uma pequenina contribuição para a sua própria exaltação, a “glória desse deus” que prudentemente será utilizada para aumentar ainda mais sua própria torre de Babel artificial. Ainda pior que isso é o conceito amplificado por essas igrejas de o próprio pecado não ser pecado humano, executado pelo homem, mas sim uma possessão corporal por parte do próprio demônio, fazendo do ser humano uma lívida marionete. Diante de tamanhas disparidades com relação ao tradicional, descrita em tão poucas linhas, a religião cristianismo midiática

predominantemente neo-pentecostal não deve ser chamada de cristã, mas pós-cristã, na mesma insipiente balada do mundo líquido, solitário e irreflexivo da pós-modernidade.15 Como bem observou Dreher:
Trata-se de igrejas de necessidade, de mercado, igrejassupermercado. O indivíduo só de nossos dias tem necessidades religiosas, emocionais e sociais, para as quais, muitas vezes, necessita de resposta imediata. Não pode esperar pela reunião do grupo de oração ou de estudo bíblico, pois não lhe interessam mais formas de comunitariedade. É por isso que surgem igrejas com espaços, templos, abertos durante todo o dia nos quais se tem a oportunidade de expressar todo o tipo de emoções nas orações, cantos e gestos. Como "pecado" é experiência da qual só sabem
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ARMSTRONG, 2009, p. 477. De acordo com BIANCONI, Jessica. Proselitismo Televisivo e Corporeidades em uma Expressão do Catolicismo. Motriz, Rio Claro, v.14 n.1 p.09-20, jan./mar. 2008: “As consequências para as religiões se expressam no enfraquecimento dos compromissos religiosos tradicionais e na emergência de outro tipo de religiosidade, coerente com a fluidez e transformações perpétuas do mundo globalizado pós-moderno.”

pessoas que vivem em comunidade de fé, nessas religiões pós16 cristãs deixa de existir pecado.

3 Considerações Finais

À guisa de conclusão, é possível identificar neste pequeno esboço indicativo ao estudo do tema, que muitas religiões brasileiras, quando não identificadas e vinculadas às conhecidas e tradicionais denominações cristãs católicas e protestantes, por vezes divergem diametralmente das propostas cristãs tradicionais destas. Com isso, cria-se entre essas próprias igrejas divergentes uma pretensa união de forças só possível a partir da pujança e prestígio que a mídia goza no país. O fato, identificado nos Estados Unidos pelo menos desde os anos 50 do século passado, ou seja, desde a popularização dos aparelhos de televisão na América do Norte, já é comum no Brasil. Mais do que isso: é a partir da própria televisão e de tudo o que lhe é próprio que essas igrejas acabam por se inserir em espaços antes nunca imaginados. Essa expressiva força popular imbui muitos desses pastores de tal poder que os mesmos se tornam muito mais do que sacerdotes, mas deuses propiciados pela mesma ciência e tecnologia que combatem fortemente em seus sermões. Com essa perversão popular das perspectivas de uma espera pela ação do Divino, visto que esses deuses terrestres são os intermediadores diretos que operam milagres e proporcionam curas, essas igrejas midiáticas criam em uma sociedade pós-moderna uma espécie de igreja pós-cristã. Nesse novo tipo de igreja há, como na sociedade, a relativização de muitos textos sagrados, uma notável ausência de dogmas ou crenças fundamentais e um egocentrismo descabido, além de, em primeiro plano, uma busca

iminentemente material em detrimento à busca pelos frutos do Espírito, mediante o exemplo e imitação de Cristo. Portanto, as bênçãos e os favores não descem do Céu à Terra e nem mesmo a “teologia” (utilizando o termo de forma descabida) é feita a partir da Terra ou a partir do pobre, mas se dá utilizando os mesmos argumentos do mercado consumidor capitalista e tão problemático ao cristão escrupuloso.
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DREHER, Martin. História do povo luterano. São Leopoldo: Sinodal, 2005, p.78.

Dessa forma, a voz profética oriunda das igrejas cristãs simplesmente não pode ser ouvida nessas denominações, porque efetivamente não são igrejas, mas mercados de simonia e na verdade falsa simonia (pela própria natureza em si da religião midiática), envernizada pela mídia que embebendo esses cultos digitais de luzes e sons, não propicia à grande massa sedenta da Palavra, o verdadeiro conforto e libertação. Enquanto o meio privilegiado de educação e cultura no país ainda for a televisão, principalmente aquela voltada desde cedo ao público infantil com todos os seus sabidos malefícios, matando diariamente a capacidade de reflexão e diálogo ao reduzir tudo ao mínimo e com o máximo de cores, essas igrejas terão vida longa, próspera e rica.

4 Referências

ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus: O fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. São Paulo: Cia. de Bolso, 2009. BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. BIANCONI, Jessica. Proselitismo Televisivo e Corporeidades em uma Expressão do Catolicismo. Motriz, Rio Claro, v.14 n.1 p. 09-20, jan./mar. 2008. DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2002. DREHER, Martin. História do povo luterano. São Leopoldo: Sinodal, 2005. FEUERBACH, Ludwig. The essence of Christianity. Nova Iorque: Calvin Blanchard, 1855. MARTINO, Luís Mauro Sá. Mídia e poder simbólico: um ensaio sobre comunicação e campo religioso. São Paulo: Paulus, 2003. MEIBACH, Cínthia. Igreja Universal construirá réplica do Templo de Salomão com pedras trazidas de Israel. Agência Brasileira de Notícias. Disponível em http://www.abn.com.br/editorias1.php?id=62335. Acessado em 26 de junho de 2010

ROSÁRIO. Nísia Martins do. Do talk show ao televisivo: mais espetáculo, menos informação. Em Questão, Porto Alegre, v. 14, n. 2, p. 149-162, jul./dez. 2008. TILLICH, Paul. Teologia da Cultura. São Paulo: Fonte Editorial, 2009.