ESCRITA PARA VIOLÃO1

Luciana Requião 2000 Parte 1 – Notas na pauta O violão é um instrumento que não permite uma leitura à primeira vista tão fácil quanto uma flauta ou um piano, por exemplo. Existem inúmeras particularidades. Para começar, temos notas idênticas repetidas ao longo do braço do instrumento. Por exemplo, um dó 3, encontrado na 1ª casa da segunda corda, pode ser tocado também na 5ª casa da terceira corda, na 10ª casa da quarta corda, na 15ª casa da quinta corda, e na 20ª casa, se houver, da sexta corda. Isso significa que temos cinco opções para esta mesma nota. Reparem que não estou falando de uma mesma nota em outras oitavas e sim de notas numa mesma altura. Desta forma, onde se lê:

Pode-se tocar:

Outro detalhe importante de se notar é que o violão é um instrumento transpositor. Isso significa que sua escrita não corresponde ao resultado sonoro obtido. No caso do violão (saxofones, clarinetas, trompas, entre outros, também são instrumentos transpositores) a diferença é de uma oitava abaixo. Portanto onde se lê dó 4 na verdade soa um dó 3 (para quem não sabe dó 3 refere-se ao dó central do piano).

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Escrita para Violão é uma série de cinco pequenos artigos publicados na coluna Rio Música Workshop da Revista Backstage, nos anos de 2000 e 2001.

Quando utilizamos as cifras.Som escrito: Som real: Por isso. Vamos partir da menos específica para a mais específica. Para o violonista de uma forma geral. Para se obter este resultado. Estamos deixando que ele decida em qual região (grave. as partituras de violão deveriam vir com aquele 8 abaixo da clave de sol (como na figura acima) justamente para evidenciar este fato. estamos utilizando um recurso que deixa o instrumentista com bastante liberdade de execução. além do ritmo ou “levada”. Muitos nem se dão conta de que o violão é um instrumento transpositor. . Mas no caso de se fazer um arranjo onde o violão deva tocar em uníssono com uma flauta. isso não causa nenhum tipo de problema. da flauta em uníssono com o violão: A escrita deve ser esta: Parte 2 .Harmonia Existem inúmeras maneiras de se escrever a harmonia. deve-se estar atento a este fato. por exemplo. que notas ele deve privilegiar na ponta do acorde (as notas mais agudas ficarão mais definidas e portanto mais audíveis). média ou aguda) o acorde deve soar.

uma cifra como esta: Poderá ser montada no braço do violão assim: Ou assim: Quando queremos algo um pouco mais específico. podemos escrever junto com as cifras a nota que deve soar na ponta do acorde (nota mais aguda).Desta forma. formando um voicing: Podemos ser mais específicos um pouco quando colocamos a disposição das notas no pentagrama. porém ainda sem se preocupar com a parte rítmica: .

médio. Parte 3 . Quando isto não acontece. foi editada pela Ricordi e revisada e digitada pelo violonista Turíbio Santos A indicação da digitação foi feita da seguinte forma: ß ß ß ß Números 1. A partir de determinada digitação podemos complicar ou facilitar a execução de um trecho. A digitação da mão direita. geralmente a música é revisada e digitada por algum violonista experiente antes de ser editada. O que existe é a forma mais adequada. e assim sucessivamente).Digitação Podemos dizer que a digitação é a alma do negócio. de João Pernambuco. 3 e 4 para os dedos da mão esquerda (indicador. “Sons de Carrilhões”. Alguns autores preocupam-se em sugerir uma digitação ao editar a partitura de sua música. quando falamos em violão. Edições diferentes de uma mesma música podem conter indicações de digitação diferenciadas. indicador e anular). médio. Números envolvidos em um círculo para indicar em qual corda determinado trecho ou nota deve ser tocado (contam-se as cordas de baixo para cima). No caso desta partitura encontramos apenas a indicação da meia pestana (pestana nas três ou quatro primeiras cordas) que é indicada desta forma: _ II (meia pestana na segunda casa). II = segunda casa. Algarismos romanos para indicar a casa onde deve-se eventualmente fazer a pestana (I = primeira casa. 2. anular e mínimo). m e a (polegar. i. e também interferir na sonoridade da música. Em alguns casos o ideal é dar liberdade ao violonista para que ele faça o seu próprio “arranjo” a partir de determinada cifra. embora não tenha sido utilizada nesta peça.E agora com a parte rítmica: Não existe a melhor ou a pior maneira de se escrever uma harmonia. ß ß . Também é comum encontrarmos a pestana e meia pestana grafadas da seguinte forma: CII (pestana na casa dois) e CIV (meia pestana na casa quatro). 0 significando a corda solta. Em outros casos (por exemplo nas canções de Edu Lobo) faz a maior diferença se você tocar diferente do jeito inicialmente idealizado pelo compositor. também pode ser indicada utilizando-se as letras p. ou até mesmo em seus manuscritos. e isso vai depender do compositor ou arranjador da música.

é sugerida a digitação do arpejo de um acorde diminuta.Veja um trecho de “Sons de Carrilhões”: Neste exemplo a digitação indica que devemos fazer uma meia pestana na terceira casa pressionando desta forma as notas mais agudas. Ao optar pela utilização de cordas presas ou soltas. é indicada para que seja tocada alternado entre a quinta corda quinta casa (onde indica-se o dedo 4) e a quarta corda solta (indicada pelo número zero). 5ª e 6ª). Como nesta música a sexta corda é afinada em ré. podemos modificar o timbre do som. Experimente tocar os exemplos abaixo com as duas digitações sugeridas e ouça esta diferença. Neste outro exemplo extraído da mesma música. e os bordões: 4ª. que é repetida seis vezes. indo da quinta à primeira corda. ou executar uma melodia nos bordões ao invés das primas (as cordas primas são: 1ª. . 2ª e 3ª. ao invés da terceira. A nota ré. conclui-se que a nota sol do baixo encontra-se na quinta casa desta corda.

Agora este exemplo extraído de uma peça do compositor espanhol Joaquín Rodrigo: Observe no segundo exemplo a repetição do dedo 1. também. um quarto do comprimento e assim por diante. Parte 4 . emitindo uma freqüência denominada fundamental ou primeiro componente harmônico. freqüências progressivamente mais rápidas. muito dificilmente audíveis. Ao contrário de quando tocamos notas comuns.42) nos dá um exemplo que ajuda a esclarecer como isso funciona no violão: “Ao tocar uma corda do violão. devemos pressionar a corda na altura do traste. I” (Rio de Janeiro: Lumiar. O VII traste produz a quinta justa (divide a corda em três) e o V produz um harmônico que soa duas oitavas mais altas que a corda (quarta parte da . etc. devemos encostar o dedo da mão esquerda levemente em determinado ponto da corda (meio.53): “Uma corda. 1989. etc. Este mesmo corpo vibra.” Almir Chediak no livro “Harmonia e Improvisação – vol. em duas metades. s. possibilitando um arraste (simbolizado por um traço) na quarta corda entre as notas lá e ré. um terço. É preciso achar o ponto certo e a pressão certa para podermos ouvir o efeito sonoro..” Para “tirarmos” o som dos harmônicos no violão. e ferir a corda com a mão direita como se estivesse tocando uma nota qualquer. dando origem à série harmônica. terço. um fenômeno acústico que é exemplificado por José Miguel Wisnik em seu livro “O Som e o Sentido” (São Paulo: Companhia das Letras. vibrando numa certa freqüência fundamental. primeiramente ela vibra em toda a sua extensão. terço. ressoa internamente outras freqüências que são seus múltiplos.d. O XII traste produz um harmônico que soa uma oitava mais alta do que a corda (pois divide a corda no meio). A explicação vem da série harmônica. p. mas que compõem o corpo timbrístico do som. p.).Harmônicos Os harmônicos são “efeitos” sonoros que podemos tirar do violão quando dividimos a corda em sua metade.

onde apresentamos duas possibilidades de escrita: . Para isso pressionamos determinada casa do violão. Pode-se ainda escrever harm. aqueles produzidos a partir da corda solta. mas a execução é mais fácil do que pode parecer. ou apenas indicando o local de onde deve-se “tirar” o harmônico. Vejamos o exemplo onde o som real é a nota lá: Nota desejada: Possibilidades de escrita: A primeira possibilidade indica a nota e a corda que devem ser procuradas para a obtenção do harmônico.corda). Muitos autores utilizam-se deste recurso para enriquecer suas composições. através da digitação. A nota escrita encontra-se na sétima casa da quarta corda. estes são os harmônicos chamados de naturais. portanto é no sétimo traste da quarta corda que o harmônico deve ser produzido. No violão. e com a mão direita. No exemplo abaixo temos um trecho do Prelúdio IV de Villa-Lobos todo em harmônicos. A qualidade do instrumento e o estado de conservação da corda podem influir na sonoridade do harmônicos produzidos. além de encostarmos um dos dedos no local exato do harmônico também devemos ferir a corda com o outro dedo da mesma mão. A escrita dos harmônicos pode ser feita de diversas maneiras.-------. ou seja. ou também com pequenas circunferências acima da nota .sobre todo o trecho que deve ser tocado na forma de harmônicos. Geralmente é realizada através de um losango desenhado na altura de determinada nota. Neste caso o instrumentista deve procurar o local onde o harmônico deve ser produzido para obter este som. Podemos produzir também os chamados “artificiais”. A terceira possibilidade indica a corda e o traste onde deve-se tocar para produzir o harmônico. ou seja. Podemos escrever os harmônicos tendo como referência o som real. No caso a quarta corda (ré) no sétimo traste. A segunda forma é a nota real escrita com um pequeno círculo acima. Isso parece um tanto complicado quando explicado em um texto.

A escrita pode ser simplesmente “pizz” ou “pizzicato”. utilizam-se deste recurso freqüentemente. escrito sobre o trecho que deve ser tocado desta forma. o efeito é obtido quando. Parte 5 .Pizzicato Este efeito é muito comum nos instrumentos de corda. Os instrumentos de corda e sopro. utiliza muito este recurso nas “baixarias” de sua músicas. por exemplo. o instrumentista puxa a corda com o dedo. No caso do violão. Neste caso. como não usamos arco. ao invés de usar o arco. O som sai mais abafado. de Nicanor Teixeira: . O violonista e compositor Nicanor Teixeira. de uma forma geral. como o violino ou o violoncelo.É claro que os harmônicos não são privilégio do violão. o pizzicato é um efeito que produzimos quando tocamos as cordas do instrumento abafadas pela mão direita (com a parte lateral da palma da mão). Vejamos um exemplo extraído do “Cateretê das Farinhas”. produzindo um efeito muito usado por compositores.

Muitos compositores aproveitam-se também deste recurso. Quando ela é solta obtemos um efeito de percussão como um estalo.geocities.com/lucianarequiao . utilizou este efeito em toda a introdução de sua “Cancion de Cuna”: No violão. denominamos como pizzicato a la Bartók (referência ao compositor húngaro Béla Bartók) um efeito que se produz puxando a corda. Na escrita basta indicar pizzicato a la Bartók. fazendo-a percutir no instrumento. www. Luciana Requião é Mestre em Música Brasileira pela UNI-RIO onde também graduou-se no curso de Licenciatura com Habilitação em Música. É violonista e contrabaixista (baixo elétrico e baixolão) e vem desenvolvendo intensa atividade como camerista.O compositor cubano Leo Brouwer.