Contratransferência: Uma revisão na literatura do conceito

LEOPOLDO GONÇALVES LEITÃO
1. INTRODUÇÃO

Coube a Freud o mérito de ter sido o primeiro a identificar e a descrever o fenómeno da contratransferência.Dos seus comentários sobre este assunto, procederam correntes divergentes que caracterizaram o pensamento e a teorização subsequentes. A sua sistematização, efectuada por Kernberg (1985), Jacobs (1999), e por nós corroborada, comporta duas abordagens. A clássica, que tem como base a tese central de Freud ± que remete para a noção de que a contratransferência actua como um impedimento à compreensão (uma forma de resistência inconscientedo analista, um obstáculo ± a ser removido) e bloqueia o progresso (e a credibilidade da psicanálise enquanto disciplina científica). Como expoentes principais desta abordagem evidenciam-se autores como: Reich, Glover,Fliess e, com algumas reservas, Gitelson. E a perspectiva oposta, que advoga o seu uso técnico como instrument de compreensão do o inconsciente do paciente, indispensável no tratamento analítico. Aqui encara-se a contratransferênciacomo um fenómeno «total», uma reacção emocional total do psicanalista para o paciente, durante a situação terapêutica. Ilustram-se como autores principais: Cohen, Fromm-Reichmann, Heimann, Racker, Weigert, Winnicott e, em parte, Thompson. Enquanto Little, ao defini-la, se aproximou da abordagem clássica, o uso que estaautora deu à contratransferência, acercou-se maisda ala «radical» da segunda abordagem supra referida.Menninger e Orr ocupam uma posição intermédia. Distintamente, Louise de Urtubey (1994, cit.in Duparc, 2001) propõe uma organização teóricaque discrimina quatro grupos principais deteorias. O primeiro corresponde às teorias clássicas ±a contratransferência é vista com incredulidade econsiderada como um resíduo não analisado doanalista, que deve ser controlado através da neutralidadee do silêncio. Aqui englobam-se autorescomo: Glover, Numberg, Ida Macalpine, AnnieReich, Robert Fliess, Greenson, Schafer eSandler. O segundo, no qual a contratransferência évista como a totalidade das emoções e sentimentosque o paciente faz surgir no analista. Estaspermitem-lhe compreender o paciente. Os seusprotagonistas, para além de Ferenczi, são maioritariamenteautores britânicos, tais como: Strachey,Balints, Winnicott, Bion, Searles e, em particular,Grinberg (um extremista desta posição). O terceiro grupo é o da teoria da contratransferêncianeurótica mas útil. Enfatiza a autoanálisecomo um factor essencial no processo analítico.Louise de Urtubey deu exemplo de autorescomo: Margaret Little, Harold Searles e Pontalis. O quarto grupo é o preferido da autora e, segundoesta, da maioria dos autores franceses e de muitos autores da América do Sul, da actualidade.A contratransferência é considerada umacomponente do campo analítico. Não é umproblema, ou total, ou algo que deve ser submetidoprimeiro a auto-análise. Mas serve paracompreender a situação analítica. Transferência econtratransferência são elementos que constituemuma unidade, um processo de trabalhoque deve ser levado a cabo em conjunto.
2. FREUD: A GÉNESE DO CONCEITO

Apesar de não ter chegado a elaborar umateoria da contratransferência, Freud (1910) referiu,pela primeira vez, a palavra «contratransferência» que descreveu como a resposta emocionaldo analista aos estímulos que provêm do paciente.Em «As perspectivas futuras da terapiapsicanalítica»1, advertiu para as limitações daprópria neurose do analista e para a necessidadeimprescindível deste superar os seus «pontos cegos» (Etchegoyen, 1989; Jacobs, 1999), apresentandouma solução que reforçou mais tarde em«Análise terminável e interminável»2 (1937):«(...) nenhum psicanalista avança para além doquanto lhe permitem os seus próprios complexose resistências internas; e nós, consequentemente,requeremos que ele inicie a sua actividade poruma auto-análise, aprofundando-a continuadamente,enquanto esteja a realizar as suas observaçõesnos seus pacientes» (Freud, 1910, p.145)3. Em «Conselhos ao médico sobre o tratamentopsicanalítico»4, para além de Freud (1912) terinstituído a análise didáctica, podem encontrarseainda as origens da contratransferência comoum fenómeno «total». Reconheceu que a análiseenvolve comunicação. Desta forma, a transmissãocontínua e encoberta das mensagens inconscientes(em ambos os sentidos), entre os doisparticipantes, constituiu para este autor, umaparte essencial do processo analítico. Ao entenderque o analista: «(...) deve voltar o seu

foram muitos mais os autoresque contribuíram para antecipar algunsdos problemas.Balint & Balint. a importante contribuiçãode Paula Heimann (1949) afirmou-se como oponto da viragem. ainda actuais. por exemplo. 1939. como um órgão receptor.especialmente o ódio. de Greenson. dava azo a quesurgissem no analista fantasias.. Heimann «(. em parte.Em 1926.)»(1972. começaram areferir os fenómenos contratransferenciais.) lançou as basesda utilização analítica da contratransferência(..A importância dada à consciência intuitiva dospacientes para com as respostas emocionais doanalista. e durante alguns anos. 1999). p. 1978. Em 1947. Defendia que as associaçõesdo paciente se deveriam tornar numa experiênciainterna para o analista. inspiradosnos conceitos kleinianos..as suas interpretações seriam pobres. no entanto. p. 1949.) o inconsciente do analista compreendeo do paciente (. 3. através do seu inconsciente.)» e que «(.em 1942. Winnicott dá um primeiro passo aopublicar «Ódio na contratransferência» onde informavasobre a sua técnica. 1989).)» (Freud.1949... (Jacobs. Heimann. muitos factores vieram mudar este cenário10. Jacobs.) o inconsciente do analista entende o do seu paciente. ou de Matos (1978). nosentido de Klein (pelo menos até às suas últimaspublicações em 1978). e outros (Etchegoyen. Zimerman. que chega a referir-se aoanalisando como o «(.se a considerarmos estritamentecomo instrumento técnico.. acontratransferência ocupou um lugar periféricona psicanálise e a teoria da intuição assumiu umpapel de destaque com Ferenczi em 1919. 115--116)5.) conhece oinconsciente do analisando pela resposta que lhedá» (Matos.. 1999). Isto é. abriu caminho e permitiu a Heimann suporque «(. «(. 82)6.. p. usou o conceito de identificaçãoexperimental9 que reflecte actualmente uma ideiaimportante para a nossa compreensão dos processosinternos do analista. acerca da contratransferência. Enfatizou o importantepapel que a contratransferência negativa desempenhano tratamento de pacientes muito perturbados(em particular psicóticos e psicopatas) edemonstrou que a evocação de tais sentimentos éuma parte necessária e essencial do tratamento(Etchegoyen. 82)12. Sternem 1924. entreoutros) a defenderem a auto-revelação e. A eficácia doanalista dependia da harmonia entre as transferênciasde ambos os intervenientes e a sua abordagemdevia ser comedidamente centrada nacompreensão cognitiva.. p. Rosenfeld referiu apenas ter conseguidoentender uma paciente psicótica atravésdos seus próprios sentimentos (Zimerman. Não se refere à contratransferência... 81)11 e evidencioua necessidade premente do analista consultar asua resposta emocional como a «chave» paraaceder ao inconsciente do paciente. memórias. Foi.1989. de formaintelectual. como resultadodesta experiência que alguns autores.) deve ajustar-se ao paciente comoum receptor telefónico se ajusta ao microfonetransmissor (. o analista «(.. Até à Segunda Guerra Mundial. a distinguirem-se das posições críticas deFreud7.Ele também devia processar os dados. Assim. esta posição polémica aindaconquista adeptos (como Arlow) e opositores(como Renik). mas mais a certossentimentos reais que podem aparecer no analista. 1999)e. 4. postulou que «a contratransferênciado analista é um instrumento deinvestigação para os processos inconscientes dopaciente» (Heimann. de modo a conseguircaptar as comunicações inconscientes deste. como nenhumoutro autor. cit.)» (1949. conduziu alguns autores (Ferenczi. enfatizou. Deutsch mencionou omodo como o analista devia receber e utilizar omaterial do paciente..)» (Matos.. insuficientepara que o analista examinasse o materialdo paciente. embora muitase diferentes suposições possam justificar estehiato. Só assim se permitia queos seus sentimentos e fantasias surgissem emsintonia com os do paciente. queseriam a base de toda a intuição. Caso contrário. o valor positivo da contratransferênciacomo ajuda diagnóstica essencial (Thomä eKächele.. 1912. com as associaçõese o comportamento do paciente. 40 ANOS NA «PENUMBRA» Depois de Freud. Actualmente. pp.... permitiu aos analistas contactarem comuma grande variedade de problemas mentais forado território estritamente neurótico. (. .A experiência durante a Segunda GuerraMundial. REDEFINIÇÃO DO PROCESSO ANALÍTICO:A CONTRIBUIÇÃO DE HEIMANN E OUTROS Pela mesma altura.. o analistaobtém o melhor meio para verificar se por acasoentendeu ou não o seu paciente» (Heimann. Deutsch em 1926. 1989. em 1949. p. Contrariamente a Racker.uma caricatura de uma aliança de trabalho (. 1978..próprioinconsciente..processar o material deste modo. p.) µpsicanalista júnior¶. 32). Fliess... ao utilizaro conceito de identificação projectiva. 32). 1999). Melhordizendo. porisso.) Na comparação entre ossentimentos nele despertados. 1999.. o que lhesproporcionou experimentar emoções extremamenteperturbadoras. de modo a alcançar a compreensãonecessária. Tal como Ferenczi. 216) 8. Para este autor. in Jacobs. na direcçãodo inconsciente transmissor do paciente(.

Em linguagem kleiniana: «a transferência nãoanalisada do analista para com o paciente» (Bott-Spillius. A influência de Melanie Klein teve um rápidocrescimento na Inglaterra do pós-guerra. descreve um caso especial de posiçõescontratransferenciais: a fixação contratransferencialcrónica que Bion traduz pelo«ataque aos vínculos» e a consequente formaçãode conluios inconscientes (Etchegoyen. in Thomä & Kächele. 1978). respectivamente). insatisfatoriamente analisados e. Namesma linha de Freud. simultaneamente (da mesmaforma que Heimann). Em 1946. Etchegoyen. Assim. 1960 e 1966 a posição prevalecenteentre os analistas clássicos. 1989). 1999).Zimerman. 1985). (Hinshelwood. complementar aodo paciente. em 1966. A influênciados seus trabalhos e da corrente tradicionalistados anos sessenta foi enorme. Referiu-se ainda aos efeitos da contratransferênciaindirecta (de Racker). destacou a tendência do analistarepetir o comportamento dos pais do paciente esatisfazer certas necessidades pessoais.no seu único trabalho de 1956. expressasnos trabalhos de alguns colegas (durantea década de cinquenta). Money-Kyrle.Durante duas décadas a visão de Reich.Little. veio quebraresse . 1989). nos Estados Unidos. in Zimerman. descreveu o fenómeno que ela denominoucomo identificação projectiva que. em 1952. Lacan derivou a suaperspectiva da contratransferência da posiçãoclássica freudiana: afirmou que interfere directamenteno paciente e. etc.1999). de modoa valorizar sobretudo a função continente doanalista (Thomä & Kächele.já que atribuiu a maior empatia a uma transferênciado tipo complementar (Etchegoyen. 1989. derivados da psicologiade ambos os intervenientes ± paciente eanalista. dando ênfase à identificaçãocomplementar de Racker (Matos. mais doque as do analisando. em 1965. concordando geralmentecom Racker. 1983. dacontratransferência. Poresta altura. 1999). poderia servir como desculpa para que osanalistas atribuíssem as causas das suas própriasdeficiências aos pacientes (Hinshelwood. Sustentavaque a transferência se iniciava quando acontratransferência obstruía o desenvolvimentodo processo analítico. 1999). em particularem Inglaterra. Outro autor kleiniano a referir.1989). foi ainda a proponente mais importantedo uso da contratransferência como material aser comunicado ao paciente (Kernberg. rejeitou o princípio daneutralidade técnica. mas também na Américado Sul e em alguns países europeus (Jacobs.) a contra-transferência do analistanão é apenas parte essencial da relação analítica. Esta linha de trabalho investigouos mecanismos base da empatia ± a projecção(pelo paciente) e a introjecção (pelo analista). que a contratransferênciaera um obstáculo para a análise. Bion preferia entender o fenómenotransferencial-contratransferencial pelo seu modeloda interacção continente-conteúdo. propiciou um melhorentendimento dos mecanismos primitivosque participam no fenómeno contratransferencial(Zimerman. aludiu ainda para o facto de arelação conter fatalmente uma mistura de elementosnormais e patológicos. Os trabalhos de Winnicott. assumiu a posição deque a contratransferência é um fenómeno inconscientee. Este critério é oposto ao de Racker. entre outros.. portanto. pelos pontos de vistaque defenderam nos seus trabalhos de 1949 e1951. Assim. sempre sustentou. Em França. o que vai ao encontro da tese de Segal(1977. introduziu oconceito e contratransferência normal. os sentimentos contratransferenciaisoriginam-se no analista como produtosdo paciente: «(.Por esta altura. Otto Kernbergassinalou que a reacção contratransferencialocorre como um contínuo em relação à psicopatologiado paciente. Nos Estados Unidos. Heimann e Littletiveram uma influência substancial no futurodesenvolvimento do conceito de contratransferênciae das suas diferentes concepções. Oprocesso normal consistiria em ciclos destesmecanismos (Hinshelwood. Annie Reich tentou clarificarem 1951. Outra contribuição de grande influência surgiupouco tempo depois. e porvezes calorosamente (chegando a hostilizarPaula Heimann e Little. 1999). elaé parte da personalidade do paciente» (1949. Em 1967.como também é a criação do paciente. uma vez queela corresponderia a núcleos inconscientes doanalista.83)13. 1999) quando refereque «a parte mais importante da contratransferênciaé inconsciente e somente pudemos reconhecê-la a partir de seus derivados conscientes» (o sono.). 1989). isto é. pelo menos durante asessão.Com Heimann. Pioneira ao explorar acontratransferência em maior profundidade.. Ao contradizera orientação de Kyrle. 1999). maior será a sua contribuiçãona relação contratransferencial do analista. cit. foi aceite em silêncio pelamaioria dos analistas tradicionais deste país. Little. Assim. cit. juntamentecom a sua conceptualização dos processosdissociativos (splitting).Gitelson. p. comotal. quanto mais regressivofor o paciente. chamoude contratransferência normal à do analistaque assume um papel parental.algo que se apresenta regularmente e que intervémcom características próprias no processopsicanalítico. não pode ser usada conscientementepelo analista. reforçou a ideia de que o sucessoda análise dependia da qualidade do trabalhocentrado na patologia do analista. Kernberg. Preocupada com as ideias contrárias à sua. em 1951. o tédio.

investigações e teorizações consequentes (Bernardi..2000)..silêncio e exibiu. Pressupõeprocessos de ressonância e reconhecimentoentre o que pertence a ambos os intervenientes. o analisando tratao analista como um objecto interno. 1999). 1998) ± a identificação complementarnão resulta só das projecções do paciente. As«ocorrências contratransferenciais» que não implicam. No segundo parâmetro. em geral. Racker (1960) afirmou que a contratransferênciaoperava de três formas.Assim.que surgem entre analista e paciente. 1989). E ainda como campo emque o analisado pode realmente adquirir uma experiênciaviva e diferente da que «crê» que teveoriginalmente.Resulta também da reactivação da neurose infantildo analista que faz com que este evite daruma resposta concordante e o conduza a umaidentificação complementar com o objecto rejeitantedo paciente (Bernardi. 1999). dos seus processos psicopatológicos. tanto maiores serão as dificuldades pararealizar as identificações concordantes na suatotalidade (. p.Heinrich Racker foi o autor que mais consistentee sistematicamente estudou e divulgou ofenómeno contratransferencial promovendo. De acordo com Etchegoyen (1989). De forma similar ao modelo freudiano sobre atransferência. in Ferreira. oseu falecimento súbito em 1961 impediu-o dedesenvolver muitas das suas concepções que.Racker (1960) distingue entre as reacções contratransferenciaisdirectas e indirectas.. Racker definiu o processo analítico em funçãodos seus dois participantes e propôs um conceitorigoroso: a neurose de contratransferência. a tomada de consciência. Pelo queRacker refere «(.) quenão se faça uso delas para a compreensão eeventual interpretação (.1989.) os conflitosentre as próprias partes da personalidade doanalista.)» (Racker. Em Inglaterra e noutros países fortemente influenciadospelo pensamento kleiniano. surgem como um fenómenomais complexo. p. empáticas eexpressam a compreensão do analista que actuacomo intérprete.provêm dele. onde foi estudando aspectosimportantes da contratransferência que chegou aarticular numa teoria coerente e ampla (Etchegoyen.no modo de olhar a contratransferência (Etchegoyen. nos trabalhos que apresentou.e as recusa.. uma mudança de paradigma. nas suas diferentes facetas.torna-se premente. quecaracteriza como a expressão patológica da contratransferência. para Racker ± tal como para Deutsch(cit. Simultaneamente. fala-se de contratransferênciaindirecta. mecanismos de introjecção eprojecção permitem ao analista identificar o seuego. Isto é. quando oobjecto que mobiliza a contratransferência não éo analisado.em geral. Zimerman. Jacobs. Na primeira. Noentanto..como obstáculo (identificação complementar)e como instrumento técnico (identificaçãoconcordante). Aocontrário de Heimann. As primeirassão aquelas que são estimuladas pelo paciente. 1999). impulsos e defesas. um grande envolvimento doego ± o analista encontra-se de repente a pensarem algo que não se justifica racionalmente nocontexto em que aparece ou que não parece relacionadocom o analisando. 1960. O terceiro parâmetro reporta-se a duas classesdistintas de vivências contratransferenciais. mas outro.. o autor adverte aindaque quanto maiores forem «(. produzem-se quando o analistase identifica com os objectos internos (transferenciais)do analisando. Racker (1960) considerouque os diferentes modos de identificação. No primeiro parâmetro. colegas ou outros indivíduossignificativos (inclusivamente indivíduosque pertencem ao mundo do paciente).o seu cada vez maior conservadorismo. Pelo contrário. No entanto. talcomo Heimann..) uma estreita conexão com odestino das identificações concordantes: pareceque na medida em que o analista fracassa nestas.162)15. noentanto. mostram arelação (Etchegoyen. tiveram um profundo impacto no pensamentoda sua época e estimularam as reflexões. Rackerdescreveu a neurose de contratransferência apartir de três parâmetros. A respeito destasvivências.. Racker considera perigoso «(. com o ego..um sonho ou acto falho. intensificam-se determinadasidentificações complementares (.professores. entretanto. As associações deste.experiências. As segundas. que exercem uma influência no seu modo de perceber etrabalhar com o paciente (Jacobs. p. Estas. conduziama duas formas de contratransferência: a contratransferênciaconcordante ou homóloga e a contratransferênciacomplementar ± nomenclaturautilizada por Deutsch... fazendocom que este se sinta tratado enquanto tal. Apesar disso. . 2000). o modode perspectivar o tema era diferente. 161)14. AS CONTRIBUIÇÕES DE RACKER EGRINBERG O analista Argentino. Os paísesda América do Sul eram disso exemplo. 170)16. Racker publicou umasérie de trabalhos. 5.)» (1960. de forma concordante.1989. o id e osuperego do analisando. nascido na Polónia.)» (1960.Estas identificações são.por parte do analista. Representam as reacções emocionais do analista para com os seus supervisores. em 1926..

Desta forma.1982. Num trabalho mais recente (1982).O trabalho de Racker. podemconverter-se em instrumentos técnicos utilíssimospara entrar em contacto com os níveis maisprofundos do material dos analisados. Assim. a sua conceptualizaçãoé uma das mais complexas e controversasentre as diferentes correntes psicanalíticas e. como consequência. p. alertou para o facto deo narcisismo patológico se constituir como umdos principais obstáculos para o uso da empatia.. Também uma figura-chave da actualidade. comosujeito e objecto (transferência e contratransferência)interdependentes que são. cit. deve torná-laparte do processo analítico. torna-se redundante.que não é percebida conscientemente peloanalista e que. p. 7. durante otratamento (Jacobs. é um autor controverso. O trabalho original e criativo de Ogden é dissoum testemunho. A análise tornarasenum projecto que. que de forma distinta reflectem o envolvimentoprofundo do ego do analista visto a experiênciacontratransferencial ser «(.o conceito de contratransferência não temsignificado.Agora.) vividapor ele com maior intensidade e como realidade(. cit. emvez de tentar a tarefa impossível de monitorizar econtrolar a sua subjectividade. Defendeque a subjectividade do analista é inerente aoprocesso analítico. pensa que oanalista deve partilhar algumas das suas ideias epercepções com os pacientes de forma a que estaspossam ser discutidas abertamente. Sendo assim.por inúmeros factores intervenientes. a contra-identificaçãoprojectiva passa a oferecer ao analista «a possibilidadede vivenciar um espectro de emoçõesque.. enfatizou o papel indispensávelque a contratransferência desempenhano trabalho analítico mas. Àsvezes. crenças e imaginaçõescriadas juntas e partilhadas por ambos. aquelas ideias. lhespermite trabalhar. os analistas sentiram-semais confortáveis para explorar as suas reacçõescontratransferenciais e escrever sobre elas. eque afectam as percepções e o pensamento dosdois. 1999). permanece problemática. superandoalgumas falhas. a escola inglesadas relações de objecto e os autores kleinianostornaram mais -se familiares e estimularam o interessepela contratransferência. É o caso do analistaque reage com raiva. Ou seja. LeónGrinberg.)» (Racker. ira. 6. CONCLUSÃO A contratransferência. Nos finais dos anos setenta. 1982. 102)20. Assim. InEtchegoyen. 1994. Com base no conceito kleinianode identificação projectiva. desenvolveu oconceito de «terceiro analítico»18 que define como«(. vai basear-se no pensamento de Rackere continua-o. Neste novo clima. pôdeperceber como é que paciente e analista. o trabalho de Kohut surge muitocriticado pelos analistas clássicos. Agora. em conjunto. Kohut destacouque a empatia possibilitava a condição deo analista «se colocar no lugar do outro». 1999). bem compreendidas e sublimadas. se vê ³levado´passivamente a desempenhar o papel que. Grinbergtem muito em conta a identificação projectiva.1999). 1989). de um modoanálogo ao descrito por Racker e por Paula Heimann para a contratransferência» (Grinberg.e também na de Greenson (1959). e para este autor. a empatiaé o elemento chave do instrumento analíticoe é dependente da capacidade introspectiva edo sentido de identidade do analista. esse aspecto da neurose de contratransferênciaé muito sintónico e passa completamenteinadvertido.indirectamente. nos Estados Unidos. DEPOIS DOS ANOS 70 Em 1971. e integra-o numa concepção interaccional. o analista passou a ser visto como umparceiro na jornada analítica. Grinbergdepura e precisa seu pensamento anterior..ainda hoje. p.de forma activa ± ainda que inconsciente ± oanalisado ³forçou dentro de si´» (1958..Geralmente aceite como o «conjunto das reacçõesinconscientes do analista à pessoa do analisadoe mais particularmente à transferênciadeste» (Laplanche & Pontalis 1998. cit. os analistas a reconhecem comouma entidade complexa que contém elementosderivados das projecções do . 4)19. O analista. 1989). o cenárioalterou-se abruptamente e a literatura ficourepleta de artigos sobre o tema da contratransferência. 1999). um dos conceitos fundamentaisdo campo analítico.cada vez mais. se juntam paraformar um terceiro objecto (Hinshelwood. propiciavauma «vivência emocional compartilhada» e possibilitava no paciente uma «internalizaçãotransmutadora» (Zimerman. Na sua perspectiva. Diferentemente deste.Owen Renik.para chegar à contra -identificação projectivaque entende produzir-se «como resultado deuma excessiva identificação projectiva do analisado.As «posições contratransferenciais».. 1960. in Etchegoyen.. utilizando as experiênciassubjectivas de ambos os intervenientes.Estabelece uma graduação que vai da contratransferênciaconcordante à complementar. Um outro autor da América do Sul.) um produto de uma dialéctica únicagerada por (entre) as diferentes subjectividadesdo analista e analisando dentro do setting analítico» (Ogden. InJacobs. 171)17. a outraclasse. para desencobriro núcleo das fantasias inconscientes e construiruma verdade narrativa (Spence. angústia ou preocupaçãofrente a um determinado paciente.

Nos últimos cinquenta anos. Nesta perspectiva ± que se apoia fortementena noção de formação de compromisso e noprincípio do funcionamento múltiplo ± que étambém a que nos parece mais razoável.como resposta ao desenvolvimento do processoanalítico. 1999). alterando a psicologia do analista. a contratransferênciaé uma criação que utiliza os diferentescomponentes.paciente. da psicologiado analista (incluindo aspectos da sua personalidadee história) e da relação transferencial-contratransferencial no aqui-e-agora. investigaçõessobre a contratransferência e sobre a mente doanalista tiveram um impacto significativo nasperspectivas contemporâneas: expandiram anossa compreensão do processo analítico e permitiramuma tomada de posições mais consciente(Jacobson. . de uma forma dinâmica.