Índice

Índice Introdução O Fenómeno da Morte 1 2 3

1.1 O que é a Morte?.........................................................................................3 1.2 Visão Antropológica da Morte......................................................................3 1.3 O que acontece perante a notícia da Morte?...............................................9 1.4 Como é Morrer?.........................................................................................11

Experiências de Quase – Morte

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2.1 Experiência de Quase – Morte (EQM)........................................................14 2.2 As Teorias..................................................................................................26

Abordagem Terapêutica na EQM Conclusão Bibliografia

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Introdução
As referências de indivíduos que sobreviveram à situação de

“clinicamente mortos” têm levantado

muitas

questões na comunidade

científica, não por terem vencido a morte, mas pelos relatos que trazem da experiência. O primeiro a estudar o fenómeno e a nomeá-lo de Experiência de Quase-Morte, doravante EQM, foi Raymond Moody, médico e psicólogo, que lançou o primeiro livro acerca do assunto. Outros autores lhe seguiram, como Atwater, ela própria tendo passado por três experiências, e Elisabeth Kübler-Ross que dedicou a sua vida ao trabalho com doentes terminais mas que também presenciou relatos de EQM. Este trabalho tem como objectivo fazer uma breve exposição do fenómeno, num contexto transpessoal, sobre o que este nos revela da Consciência e da sua permanência em relação à matéria. Para isso, referimos os conceitos de Morte no seu contexto antropológico e cultural, definindo o fenómeno de EQM, referindo as suas teorias explicativas e mencionando a abordagem terapêutica no fenómeno, necessária por todas as implicações que este tem na vida dos indivíduos.

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O Fenómeno da Morte
1.1 O que é a Morte?
Segundo Pazin-Filho (2005) podemos definir a morte como a extinção total e permanente das funções vitais. “É um fenómeno sujeito a múltiplas interpretações, podendo ser definida sob o aspecto filosófico, orgânico e legal. Sob todos estes aspectos, ela está sujeita aos princípios culturais vigentes”(p.20) e integrada na vida do ser humano. Raymond A. Moody (1977) afirma que falar sobre a morte é muito difícil por duas razões: a primeira razão, é tratar-se de tema tabu devido às características psicológicas e culturais que acarreta, uma vez que “qualquer contacto com a morte, por muito indirecto que este seja, coloca-nos na perspectiva da nossa própria mortalidade” (pp. 9-10). A segunda razão refere-se à linguagem humana, no sentido de esta exprimir situações que experienciamos com os nossos sentidos físicos, não sendo este o caso da morte que “está para além da nossa experiência consciente, uma vez que ainda não passamos por ela” (p. 10).

1.2 Visão Antropológica da Morte
A consciência da mortalidade humana caminhou lado a lado com o processo da Hominização. O desenvolvimento do córtex cerebral permitiu um processo de individualização no Homem, dando-lhe a noção do “Eu” como ser único e diferente do outro. Esse processo de individualização do

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“Eu”, na morte traduz-se como ”não-eu”, conduzindo à angústia perante a morte. O Homem é o único animal que reconhece a própria mortalidade e lhe dá um sentido de continuidade além desta, permitindo-lhe manter a sua identidade (Morin, 1991). Esta consciência da morte e a crença numa vida além da morte está revelada no culto dos mortos e nas discussões filosóficas de várias civilizações ao longo do tempo. Morin (1991) fala do despertar dessa consciência no Homo sapiens através da descoberta de túmulos neanderthaleses. Estes revelam algo completamente diferente que um simples enterramento devido à

decomposição. “O morto está numa posição fetal (o que sugere uma crença no seu renascimento), por vezes está deitado sobre um leito de flores, como indicam os vestígios de pólen numa sepultura neanderthalesa descoberta no Iraque” (p. 92). Mostra que a consciência de morte que surge no Homem primitivo é devida a uma dupla consciência, uma objectiva, que reconhece a mortalidade, e outra subjectiva, que certifica, se não imortalidade, pelo menos uma transmortalidade. Assim, os rituais de morte exprimem em simultâneo uma crise/trauma e a ultrapassagem da mesma pela esperança e consolação na continuidade, ou seja: o Homem não só rejeita a morte, como a resolve e transpõe no mito e na magia. A discussão sobre a morte e o pós-vida tornou-se transversal às civilizações humanas e era assunto profundamente debatido no mundo Grego, dando a origem a diversas correntes de pensamento sobre a natureza da morte e da alma, quer falemos de Pitágoras, Aristóteles, Heráclito ou Anáxoras, etc.

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Reunindo muitos desses pensamentos embrionários para então cimentar as ideias de Platão, temos uma das suas mais famosas obras, Fédon, que, sob o pretexto da calma com que Sócrates recebe a morte, o coloca num diálogo com os seus discípulos, mais tarde recontado por Fédon. A razão pela qual o filósofo não se encontra amedrontado, é pela sua convicção na imortalidade da alma, logo a sua existência no pós-vida. Central na obra é então, não apenas a discussão sobre a imortalidade da alma, mas a discussão sobre a permanência da racionalidade desta, que Sócrates defende com diversos argumentos. Se as implicações de toda a argumentação desenvolvida ao longo de Fédon para a Teoria das Formas transcende o âmbito deste trabalho, uma breve explicação dos argumentos avançados permanece em todo o caso interessante. O primeiro desses argumentos, é o da alternância dos opostos, destinada a provar que a alma é pré-existente à forma humana. Na sua essência, o argumento considera que algo só existe pelo seu oposto: o quente só existe porque há o frio. Transposto o argumento para a vida e morte, se a vida é um caminho para a morte com que termina, a morte também termina com o início da vida. Do mesmo modo que ao se viver, morremos a cada dia que passa, mortos, aproximamo-nos cada vez mais da vida. O próximo argumento é o da anamnese, ou reminiscência, através do qual Platão configura o conhecimento, não como uma aprendizagem nesta vida, mas um recordar do conhecimento perfeito a que a alma primordial teria tido acesso prévio. O trabalho filosófico seria então esse “contemplar de reminiscências” (Neto, 2003, p.40), através do qual se acordaria o conhecimento adormecido da alma. Assim, o medo da morte torna-se

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desnecessário: o filósofo vive para conhecer, e só livre da corrupção do corpo volta a alma a interagir num mundo de ideias incorruptíveis (idem.). É dado então o 3º argumento, o da simplicidade da alma, ou a discussão sobre as causas da geração e da corrupção. Segundo este argumento, a alma, que é da mesma natureza dessas ideias incorruptíveis, é ela própria incorruptível e é-o porque, tal como as ideias, é simples, quando para Platão só as coisas ditas “compostas” do mundo sensível podem corromper-se e dissipar-se. O último argumento é o da incompatibilidade da coexistência dos opostos (ibidem.), um retorno argumentativo à teoria inicial dos opostos, mas aprofundando-a: os opostos não coexistem. O frio jamais coexiste com o calor e um leva o outro a perecer. De um modo muito sucinto, perecem apenas as “coisas”, não a “forma”, que é imperecível. Apresentando o

argumento de que um 3 é um ímpar e jamais será um par, Platão entende que é a alma que dá vida ao corpo, logo é em essência vida: se a alma é vida, por exclusão da coexistência dos opostos, nunca poderá ser morte, logo é imortal. O argumento vai mais longe: o 3 não é eliminável, tal como o ímpar, por consequência da teoria dos opostos, se o ímpar não deixa jamais de existir, então jamais deixa de existir o seu oposto, o par. Então, fosse a alma (vida) extinta, a própria morte não poderia existir. Então, além de imortal, a alma tem forçosamente de ser imperecível. Grof (1994b) aborda os textos sagrados de diversas civilizações, desde a Egípcia à Idade Média, que aludem ao culto dos mortos específico em cada uma (assim como orientações para a vida) e à sua importância no decurso da humanidade. Na civilização egípcia, existia o Pert em hru, uma colecção de

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200 fórmulas a recitar pelo morto no além a que se deu o nome de Livro Dos Mortos, mas cuja tradução mais adequada seria “Fórmulas para sair à luz do dia” ou “para saír ao dia”, do nome de uma das fórmulas. Efectivamente, para os Egípcios, deuses mortos poderiam pela magia das fórmulas caminhar entre os vivos 1 , algo presente de resto na cerimónia diária em que os sacerdotes dos templos abriam as portas dos recintos onde se encontravam as estátuas sagradas e recitavam as palavras necessárias para que o espírito que as habitasse pudesse entrar e sair livremente. Na mitologia sagrada do Egipto era o culto de Osíris que estava associado à vida no além. Narra a sua mitologia, que este governou a terra, ensinando as técnicas necessárias à agricultura e à criação de gado. Morto pelo irmão Seth, que governava o deserto, foi desmembrado e dispersado pelo delta do rio Nilo. As suas irmãs, Néftis e Ísis (também sua esposa), conseguiram reconstruir o corpo e ressuscita-lo, tendo-se tornado o

governador do mundo dos mortos. Os seus seguidores acreditavam que, na morte, seriam julgados e o seu coração pesado numa balança, tendo como peso uma pena. Se o coração fosse mais leve que a pena eram considerados puros e iriam para esse mundo, uma paradisíaca réplica do Vale do Nilo, chamado Sekhet Hetepet. A civilização Egípcia era uma das mais fervorosas na crença da vida além da morte, chegando a conservar o corpo, mumificando-o, e reunindo os pertences do defunto no túmulo para que este os desfrutasse na vida depois da morte. Mas acrescenta-se que a vida e morte se acreditavam

1

“Aquele que conhece o livro de magia, pode sair para o dia e passear na terra entre os vivos. Nunca morrerá. A eficácia disso foi testada milhões de vezes” (Livro dos Mortos, cit. Jacq, 2000).

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intercomunicáveis, existindo o hábito de escrever cartas aos mortos para influenciar as suas acções, impedindo-os, por exemplo de serem malévolos. Mas fora as cartas escritas em papiro ou tecido e depositadas em tigelas sagradas, outros métodos existiam, como os que se descrevem no Papiro de Leiden, através da comunicação mediúnica (Jacq, 2000). Os budistas, no Livro Tibetano dos Mortos ( Bardo Thödol), têm um guia para os moribundos reconhecerem as várias fases entre a morte e o renascimento e como atingir a libertação. Este descreve as experiências que se tem no momento da morte, durante o período das visões arquetípicas e ilusões kármicas seguidas da morte e o processo de procura do renascimento. Na Europa da Idade Média, os cristãos tinham o Ars Moriendi (A Arte de Morrer), inspirado na presença marcada da morte no quotidiano e na corrupção e desintegração social, política e religiosa no tecido medieval europeu da época. Não era apenas referenciado para os doentes, idosos e moribundos; era um guia sobre como morrer bem, servindo de conduta para a vida. Tal como o Livro Egípcio e o Livro Tibetano dos Mortos, o Livro Cristão faz referência aos problemas existenciais humanos face à

impermanência, o que nos leva ao ponto seguinte. Mas porque a questão da mortalidade é transversal a todas as civilizações, outros exemplos podem ser invocados. Nomeadamente, durante a dinastia Tang Chinesa (entre 618 e 907BC) celebrava-se o minghun, um curioso ritual entre indivíduos falecidos. Ping Yao (2002) estuda o caso do casamento em 685BC entre dois jovens que foram enterrados juntos na montanha Mang para analisar como durante a dinastia Tang a ascensão do Budismo, uma visão mais intimista e harmoniosa do matrimónio e a

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prosperidade geral, levaram à propagação da ideia que com tais iniciativas seria possível oferecer aos mortos aquilo que não tinham conseguido realizar em vida. Helsel e Mochel (2002) revelam também um ritual prevalente entre a comunidade Vietnamita Hmong radicada na Califórnia, em que as placentas dos recém-nascidos são enterradas em casa. A crença desta comunidade animista vê a placenta como a primeira roupa dos recém-nascidos,

entendendo que uma vez mortos, os indivíduos só voltando ao local onde a placenta se encontra poderão avançar para o além. Se não encontrar a placenta, como nos casos em que esta é destruída pelos hospitais, os Hmong acreditam que o falecido vagueará para a eternidade (Fadiman, 1997, cit. Helsel & Mochel, 2002).

1.3 O que acontece perante a notícia da Morte?
Kübler-Ross (1999) trabalhou durante toda a sua vida com pacientes em fase terminal, levando-a a descobrir um padrão de atitudes que ocorriam perante a notícia da morte. Essas atitudes são constituídas por cinco estádios que passamos a descrever. 1º – Negação/Isolamento: Nesta fase, ao receber a notícia da fase terminal da doença, os pacientes rejeitam-na, recusando-se a acreditar que o diagnóstico está correcto. Alguns chegam mesmo a procurar outros médicos. “A negação funciona como um pára-choques depois de notícias inesperadas e chocantes, deixando que o paciente se recupere com o tempo, mobilizando outras medidas menos radicais. (…) A negação é uma defesa temporária, sendo logo Porto/2009

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substituída por uma aceitação parcial. A negação assumida nem sempre aumenta a tristeza, caso dure até a fim, o que, ainda, considero uma raridade” (pp. 52-53). 2º – Raiva: Aqui o doente insurge-se e questiona “porquê eu?”. O indivíduo revolta-se contra todos, contra ele próprio e contra Deus. É uma raiva que se propaga em todas as direcções e se projecta no ambiente, muitas vezes sem razão aceitável. 3º – Negociação: É neste estádio que o doente tenta realizar algum tipo de acordo que adie o inevitável ou diminua o sofrimento. A maioria negoceia com Deus, prometendo “ “uma vida dedicada a Deus” ou “uma vida a serviço da Igreja” em troca de um pouco mais de tempo de vida. Muitos prometiam, também, doar partes do seu corpo ou o corpo inteiro “à ciência” (caso os médicos usassem os seus conhecimentos científicos para lhes prolongar a vida) ” (p.97). 4º – Depressão: Perante a inevitabilidade da sua condição, o doente apresenta-se deprimido. Esta depressão tem como objectivo a preparação para a perda iminente de todos os objectos que ama, preparando-o para a seguinte e ultima fase. 5º – Aceitação: Nesta ultima fase, o paciente apresenta alguma tranquilidade perante o fim da sua jornada. Os pacientes que passam pelas outras fases, conseguindo extravasar as suas raivas, chorar e comunicar os seus medos e

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fantasias, alcançam esta última fase em que querem estar sozinhos, se encontram tranquilos e preparados. Kübler-Ross ressalta a importância dos pacientes em fase terminal obterem um acompanhamento por parte de alguém que os compreenda. É importante para os pacientes sentirem que alguém os aceita nos momentos de raiva, que os deixem chorar sem lhes tentar mostrar o lado risonho da situação, que oiçam os seus medos, para que cheguem ao último estádio, tranquilos e preparados para a inevitável ocorrência.

1.4 Como é Morrer?
A questão sobre como será morrer é comum a todos os seres humanos. O que acontece no preciso momento em que é exalado o último suspiro? Atwater (1994), faz a alusão de como será morrer, tendo por base o testemunho de mais de 3000 adultos que passaram pelo fenómeno de EQM. Passando a citação: “Qualquer dor a ser sofrida vem primeiro. Instintivamente luta-se para viver. Isso é automático. É inconcebível para a mente consciente de que possa existir qualquer outra realidade além da matéria terrena delimitada pelo tempo e espaço. Estamos habituados assim. Fomos treinados desde o nascimento para viver e prosperar nisso. Sabemo-nos a nós mesmos pelos estímulos externos que recebemos. A vida diz-nos o que somos e aceitamos o que ela nos conta. Isso, também, é automático e esperado. O corpo fica mole. O coração pára. O ar já não circula para dentro nem para fora. Perde-se a visão, o tacto e o movimento, embora a capacidade de ouvir seja a ultima a desaparecer. A identidade cessa. O “Eu” que se era torna-se apenas uma memória. Não há dor no momento da morte. Apenas paz silenciosa… calma…sossego. Mas ainda se existe.

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É fácil não respirar. Na realidade, é mais fácil, mais confortável e infinitamente mais natural não respirar do que respirar. A grande surpresa para a maioria das pessoas na morte é perceberem que morrer não é o fim da vida. Seja luz ou escuridão o que vem a seguir, ou qualquer tipo de evento, seja positivo ou negativo ou algo intermédio, esperado ou inesperado, a maior surpresa de todas é nos apercebermos que continuamos a ser nós. Ainda conseguimos pensar, recordar, ver, ouvir, movimentar, raciocinar, imaginar, sentir, questionar e dizer piadas, se o desejarmos. Estamos vivos, muito vivos. Na realidade, mais vivos depois da morte do que em qualquer outra altura desde que nascemos. Apenas a forma de isto ser é diferente; diferente porque já não usamos um corpo denso para filtrar e amplificar as várias sensações que se tinha, considerados como os únicos indicadores válidos do que constitui a vida. Sempre fomos ensinados que temos de usar um corpo para viver. Se espera morrer quando morrer vai ficar desiludido. A única coisa que morrer faz é ajudar a libertar-se e a despir o “casaco” que usou (referido como corpo). Quando morremos, perdemos o nosso corpo. Nada mais se perde. Nós não somos o nosso corpo, é apenas algo que usamos por algum tempo, porque viver no plano terreno é infinitamente mais significativo e envolvente se estivermos incorporados e sujeitos às suas regras” (pp.194-195).

A experiência de trabalho com doentes em fase terminal de KüblerRoss (s.d.) levou-a ao encontro de doentes que passaram pela experiência de quase-morte (EQM), constatando que não eram coincidências nem

alucinações. As pessoas relatavam a experiência de morte como isenta de dor, de onde não queriam voltar, uma vez que encontravam os familiares e os seus guias, e viajavam para um lugar repleto de bem-estar e amor. A autora compilou os relatos das EQM e agrupou a ocorrência da morte em quatro fases.

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Na primeira fase, as pessoas flutuam para fora dos seus corpos, assumindo uma forma etérea, onde ouvem as pessoas a falar, observando os esforços dos médicos e outros cuidadores para os trazer de volta à vida. Compara este momento a uma borboleta a sair do casulo. É nesta fase que passam, também, pela sensação de integridade, ou seja, a recuperação da capacidade que não se teve, ou se perderam em vida, como por exemplo, um cego recupera a visão, um paraplégico movimenta-se livremente, etc. Na segunda fase, os seus corpos tinham sido deixados para trás, indicando que estavam num estado de vida após a morte, definindo-o como espírito e energia. Lembravam-se desta fase como aquela em que

encontraram os seus anjos da guarda ou guias, e os levaram à presença dos pais, avós, familiares e amigos já falecidos. Caracterizam esta fase como união alegre, de tempo recuperado e de abraços. Na terceira fase, levados pelo seu guia, entravam no que descreviam como sendo um túnel ou portão intermediário, embora outros o descrevessem como uma ponte, um desfiladeiro ou um rio, onde no final viam uma luz brilhante. Aí, sentiam o calor, energia, espiritualidade e amor incondicional emitidos pela luz que diziam ser a fonte primordial de energia do universo, ou Deus, ou Cristo, ou Buda, sentindo-se envoltas por um amor irresistível. Na quarta fase, as pessoas diziam que tinham estado na presença da Fonte Superior, rodeadas por todo o conhecimento que existe, passado, presente e futuro, sendo este benevolente e isento. È nesta fase que passam, pela revisão das vidas, observando como as suas acções afectaram outras pessoas, mesmo desconhecidas. Recordam de lhes colocarem a questão “Que serviços prestou?", obrigando a uma reflexão sobre as decisões que tinham

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tomado na vida, se teriam sido a melhor opção e se tinham aprendido as lições que deveriam ter aprendido, sendo sempre a base fundamental dessas lições, o amor incondicional.

Experiências de Quase – Morte

2.1 Experiência de Quase – Morte (EQM)
A International Association for Near-Death Studies, doravante IANDS, define a EQM como um facto psicológico profundo que abrange mais elementos do que propriamente a proximidade com a morte. A EQM pertence a uma família de grandes experiências que vão além dos limites normais de espaço e de tempo, podendo transformar a vida de uma pessoa e as suas crenças. místicas, Podem ser religiosas designadas ou como espiritualmente transpessoais transformadoras, International

experiências

(The

Associatition for Near-Death Studies, Inc., 2008). Van Lommel (2006) dá uma definição de EQM como a “memória de todas as impressões relatadas durante um especial estado de consciência, incluindo elementos específicos como experiências fora-de-corpo, sensações agradáveis, a observação de um túnel, de uma luz, familiares falecidos ou de uma revisão de vida” (p.134). Segundo o mesmo autor, as EQM podem ocorrer nas seguintes condições: • • Enfarte do miocárdio / Paragem cardíaca Choque por perda de sangue ou complicações operatórias

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• • • • • •

Choque asséptico / anafilático Electrocussão Coma resultante de traumatismo cerebral Hemorragia cerebral Tentativa de suicídio Afogamento / Asfixia

Davies (2000) identificou na literatura médica do século XIX de experiências transcendentais perto de uma situação de morte que

corresponderiam a EQM’s antes do termo ser cunhado em 1975 por Raymond Moody. Uma experiência similar à EQM pode ocorrer durante a fase terminal de uma doença, sendo denominada de “ visão de leito de morte” . Segundo Grof (1994a), este fenómeno é constituído por visões que ocorrem na proximidade da morte. Este fenómeno consiste de visões e encontros com familiares, falecidos, que lhes dão as boas vindas no “outro mundo”. Estas visões são autênticas e convincentes, seguidas, muitas vezes, por um estado de euforia que parece suavizar a transição. Foram registados alguns casos em que o moribundo teve a visão de uma pessoa, que sabia já ter morrido. Atwater (1994), divide as EQM em quatro tipologias diferentes de acordo com o que o indivíduo vivencia e o seu perfil psicológico:

Experiência inicial ou não-experiência : Abrange elementos como

uma escuridão viva ou uma voz amigável, um terno nada. Surge normalmente naqueles que necessitam do menor indício ou prova de sobrevivência, ou aqueles que necessitam do menor choque naquele ponto da sua vida. Muitas

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vezes torna-se a experiência–semente ou o inicio de outras formas de percepcionar e reconhecer a realidade.

Experiência infernal ou desagradável (limpeza interior e auto-

confronto): Encontro com um vazio ameaçador ou um purgatório infernal, podendo até mesmo passam incluir por fantasmas do passado indivíduos do indivíduo. com culpas

Normalmente,

esta

experiência

reprimidas, medos e raivas, ou aqueles que aguardam algum tipo de castigo ou desconforto depois da morte.

Experiência

celestial

ou

agradável

(reafirmação

e

auto-

validação): Engloba cenários celestiais de reuniões familiares de entes queridos que faleceram, figuras religiosas ou seres de luz, revalorização da vida e diálogos inspiradores. São afectos a esta experiência, indivíduos que têm a necessidade de saber o quanto são amados e como a vida é importante, assim como cada esforço tem um propósito na engrenagem do todo.

Experiência Transcendente (revelações expansivas e realidades

alternativas): Este tipo de experiência revela uma exposição a novas dimensões, outros mundos e cenas muito além das referências de um indivíduo, chegando por vezes a incluir revelações de grandes verdades. Passam por este tipo de experiência indivíduos preparados para um desafio de amplificação da mente ou indivíduos que estão mais aptos para utilizar as verdades que lhes são reveladas. A autora indica ainda que estas quatro tipologias diferentes podem ocorrer durante a mesma experiência, a uma mesma pessoa ao mesmo tempo, podendo existir em diferentes combinações ou dividir-se ao longo de vários episódios num indivíduo em particular, mas, na generalidade, cada tipologia

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representa um tipo de experiência distinta que ocorre uma vez a um determinado indivíduo. Já Moody (1977) refere que não existem duas EQM iguais, embora exista um padrão comum a todas. Os acontecimentos comuns das EQM são:

Inefabilidade – A incapacidade/dificuldade que os indivíduos

sentem em expressar verbalmente a experiência, de traduzir em palavras o que experienciaram.

Ouvir as notícias – Muitos indivíduos indicam ter ouvido os

médicos ou as testemunhas no momento em que eram dados como mortos.

Sensações de paz e sossego – Indivíduos descrevem sensações e

sentimentos muito agradáveis nas primeiras fases da experiência.

Ruído – Existem casos em que os indivíduos que passaram pela

experiência de proximidade com a morte referem sensações auditivas pouco comuns. Algumas são relatadas como sendo desagradáveis, como um zumbido, e noutros casos as sensações auditivas eram descritas como muito agradáveis, como uma música extremamente harmoniosa.

O Túnel escuro – Juntamente com o ruído, alguns descrevem a

sensação de serem empurrados para um espaço escuro, sendo descrito pelos indivíduos como um poço, uma cova, um vazio, um túnel, todos expressando a mesma ideia.

Experiência de Fora-do-corpo – Os indivíduos contam que,

naquela circunstância, conseguiam ver-se a si próprios, observando o seu corpo físico e o cenário da situação, de um ponto exterior como um espectador que vê uma cena num teatro. O fenómeno de experiência de fora-

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de-corpo, também chamado de projecção astral, revela a capacidade da Consciência se libertar e se deslocar para outros locais.

Encontros com outros – Outros indivíduos referem que, num

determinado momento em que estavam a morrer, se davam conta da presença de outros seres que ali estavam para lhes facilitar a transição da morte ou para lhes dizer que a sua hora ainda não tinha chegado, devendo regressar ao corpo físico.

O Ser de Luz – O elemento comum às EQM e que mais efeitos

produz nos indivíduos que passam pela experiência, é o encontro com uma luz muito brilhante, mas que não fere a vista. É referido como um ser de luz, identificado como um anjo ou como Jesus Cristo, na fé cristã.

Retrospectiva holográfica da vida – A aparição inicial do ser de

Luz constitui o prelúdio de um intenso momento onde o ser mostra ao indivíduo uma visão panorâmica da sua vida, tendo como intenção provocar a reflexão.

A fronteira ou limite – Alguns casos relatam que durante a

experiência se aproximaram do que poderiam chamar de fronteira ou limite. Esta apresenta-se como uma massa de água, uma névoa densa, uma porta, uma cerca ou simplesmente uma linha.

O regresso – Em regra, nos indivíduos que passam por uma

EQM, verifica-se uma mudança de atitudes de vida e as sensações associadas à experiência mantêm-se após a resolução da situação clínica que deu origem à EQM. Os efeitos decorrentes das EQM revelam-se como sendo

psicológicos e fisiológicos. Atwater (1994), indica que estes efeitos não

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podem ser fingidos pelo indivíduo, assim como não consegue esconder, apercebendo-se ou não, do modo como é afectado. Os Efeitos Psicológicos são constituídos pela: • Os Incapacidade de personificar o amor e o sentido de pertença: de EQM tendem a amar e a aceitar os outros

sobreviventes

incondicionalmente, sem as restrições e condições impostas pela sociedade. Percebem-se a si próprios como iguais, com amor a todos e a cada um, generosamente abertos e entusiasmados com o potencial de cada pessoa que vêem. Têm o intuito de serem os condutores do amor divino pelo resto das suas vidas. Os familiares confusos tendem a consideram esta mudança de comportamento como ameaçadora, como se o ente querido se tornasse despreocupado e sem carinho pela família. Alguns confundem esta forma incondicional de expressar a alegria e afeição (centrada no coração em vez de centrado na pessoa) como deslealdade e comportamento de namorar. O número de divórcios é elevado. • Incapacidade de reconhecer e compreender regras e limites:

Uma das maiores razões pela qual a vida se altera tanto após a EQM deve-se ao facto de o experimentador ter agora uma base de comparação

desconhecida anteriormente. Os códigos familiares de conduta podem perder relevância ou até mesmo desaparecer à medida que questões e interesses tomam prioridade. Esta nova moldura de referências pode levar o

experimentador a ter uma postura ingénua. Com a perda das normas anteriores e modo de conduta, a cautela e discernimento desvanecem também. É comum ouvir dizer que sobreviventes de EQM foram burlados, enganados, roubados, etc.

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Dificuldade de compreender o sentido de tempo ou as

referências de futuro e passado. A maioria dos indivíduos tendem a desenvolver um sentido de intemporalidade, chegando mesmo a rejeitar o uso de relógios e até horários. Tendem a seguir o ritmo natural de dia e noite e estão mais sensíveis ao tempo presente do Agora. • A Sensitividade aumenta e expande-se, a intuição abre-se ao

psiquismo. É inegável o facto de o indivíduo não ser psíquico antes de passar pela experiência, passar a ser depois. Nos casos em que o indivíduo já o era, após a experiência expande ainda mais a Consciência. Episódios de experiências de fora-de-corpo podem continuar, os seres de luz encontrados na EQM podem tornar-se parte do dia-a-dia, o futuro muitas vezes é conhecido antes de ocorrer e a percepção extra-sensorial torna-se normal e comum. Este comportamento não é apenas preocupante para familiares e amigos, podendo tornar-se até assustador. Infelizmente, alguns sobreviventes de EQM são involuntariamente internados em instituições de cuidados psiquiátricos como loucos, ou até acusados de possessão demoníaca ou de bruxaria, apenas por o seu nível de percepção se encontrar expandido e alargado além do que é normal num indivíduo. As crenças religiosas do indivíduo não alteram nem previnem essa amplificação do psiquismo, assim como os julgamentos precipitados de pessoas que não compreendem o que se passa. • Uma visão alterada da realidade física com um decréscimo

de medos e preocupações. Os paradoxos da vida começam a fazer sentido e o conhecimento revela um propósito e significado. A paciência e o perdão substituem as anteriores necessidades de criticar e condenar. Indivíduos

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materialistas

e

ambiciosos

podem

transformar-se

em

filósofos

comunicativos. Por sua vez e da mesma forma, pessoas mais relaxadas ou descomprometidas tornam-se mobilizadores e agitadores energéticos,

determinados em fazer a diferença no mundo. Na realidade, as alterações de personalidade parecem depender mais no que é “necessário” para envolver o crescimento interior do indivíduo, o que se alarga aos membros familiares. Em alguns casos, os familiares ficam tão impressionados pela mudança que testemunham que eles próprios também mudam, tornando a experiência partilhada. Noutros casos, acontece o contrário, sendo a resposta de tal forma negativa que termina em alienação, separação e divórcio. • Uma diferente sensação de Eu físico, reconhecendo que

vivemos dentro de um corpo que “vestimos”. Os sobreviventes de EQM tendem a considerar-se como almas imortais que necessitam de um corpo para viver no plano terreno e aprenderem lições enquanto permanecem neste plano. Sabem que não são o seu corpo, que são uma alma viva, filhos de Deus. Leva um certo tempo até que os indivíduos se voltem a sentir confortáveis na sua forma física. • Dificuldades de comunicação e de relacionamento, sendo

difícil, para o indivíduo, dizer o que quer ou compreender as palavras dos outros. O que outrora era estrangeiro, torna-se familiar, e o que era familiar torna-se estrangeiro. A razão, seja qual o seu tipo, tende a perder a sua lógica. O mundo é o mesmo mas o indivíduo não. Apesar de muitos sobreviventes de quase-morte não experimentarem grandes mudanças, a maioria sim, mesmo as crianças. É comum nos indivíduos que passaram pela experiência terem um pensamento abstracto e grandioso, na vez de um

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pensamento dedutivo de modo linear e sequencial. Emergem novas formas de linguagem e mesmo um completo vocabulário novo. Os típicos efeitos fisiológicos são os seguintes: • • • • Alterações significativas nos níveis de energia; Maior sensibilidade ao som e níveis sonoros; Maior abertura em aceitar o que é novo e diferente; Tratam das situações como novas, mesmo que não o sejam;

os níveis de aborrecimento diminuem drasticamente; • rapidamente. • • Revelam alterações no funcionamento cerebral. Alterações significativas do metabolismo. Os indivíduos Maior resistência ao stress e recuperam a saúde mais

apresentam uma digestão mais rápida, o organismo assimila muito mais rapidamente as substâncias. Aumenta o número de alergias, mesmo a fármacos comuns, é necessária uma dose muito menor de qualquer substância tomada pelo indivíduo, para fazer efeito. • Diminuição da tensão arterial e da pulsação cardíaca. • Sem tolerar os níveis altos de som, os indivíduos ganham apetência pela música clássica ou para outros sons melodiosos e/ ou sons naturais. Sons de sinos e de cristais tornam-se mais apelativos. • Aquisição da capacidade de “ouvir” plantas e animais. Podem também ouvir palavras não proferidas, assim como vozes e musica no ar quando não existe ninguém nas redondezas.

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• Descobrem

que

atraem

animais,

pássaros

e

crianças

pequenas, apenas pela presença deles, assim como descobrem que as plantas crescem melhor perto deles. • O acesso às memórias altera-se. As antigas tendem a levar mais tempo a ter acesso e não são tão significativas, ao contrário das recentes que estão mais vívidas e salientadas. • O processo cognitivo altera-se levando os indivíduos a adaptar-se à forma como utilizam o cérebro, uma vez que as capacidades cognitivas se alteram. • A sincronicidade torna-se um lugar-comum. • Frequentemente ocorre um desenvolvimento de capacidades multi- sensoriais (sinestesia). • Aquisição da capacidade de, por vezes, “ver” seres ou situações que não estão fisicamente presentes, assim como a capacidade de ver moléculas de água no ar e correntes de energia. • Tornam-se mais orgásmicos.

Alterações dos ritmos biológicos, indivíduos noctívagos

tornam-se indivíduos diurnos, sucedendo-se, também, o inverso. • Uma nova consciência da presença de campos de energia invisíveis e sensibilidade à electricidade e a campos geomagnéticos. Esta sensibilidade à electricidade revela também que a electricidade do corpo interfere com equipamentos electrónicos, fontes de luz, sistemas de

segurança e afins. • Maior sensibilidade aos factores meteorológicos como a temperatura, pressão atmosférica, movimento do ar e humidade. Porto/2009

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• Percepção extra-sensorial e outras capacidades psíquicas tornam-se habituais e episódios de fora-de-corpo ocorrem com frequência. Os indivíduos desenvolvem capacidades curativas nas mãos e exibem uma aura carismática à sua volta. Além destes efeitos, surgem ainda outros ainda mais invulgares. Estes são caracterizam-se da seguinte forma: • Os indivíduos tornam-se ministros religiosos, artistas,

músicos, intuitivos, terapeutas e inventores. • Capacidade inexplicável de “canalizar” informação do Outro Lado e/ou da natureza, dos desencarnados, incluindo a capacidade de falar com os mortos (provavelmente até de os ver). • Desenvolvimento de capacidades psico-cinéticas, ou seja, a capacidade de manipular a matéria com a mente. • Capacidade de empatizar ao ponto de ficar com as dores ou a doença do outro. Tornam-se de tal modo absorvidos no que focam até à exclusão de uma vida produtiva. • Alteração do tom de pele, mudanças na estrutura óssea como articulações debilitadas por razões desconhecidas, costelas que ficam deslocadas facilmente e ancas que desalinham mais frequentemente do que seria normal. • Mudanças significativas na aparência. Um estudo recente de Bruce Greyson e Mitchell B. Liester (2004), debruçou-se particularmente sobre a questão das alucinações auditivas que se seguem a uma EQM e comparou-as às alucinações auditivas sentidas por pacientes esquizofrénicos. O estudo encontrou 80% de prevalência de

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alucinações auditivas nas EQM, sendo que somente 9 indivíduos (16%) tinham qualquer diagnóstico prévio de psicopatias. O interessante será que 55 indivíduos (97%) mostraram atitudes no geral positivas face às

alucinações e somente 29 (51%) revelaram alguma atitude negativa. Em comparação e contraste com o grupo de pacientes esquizofrénicos, aqueles que sofreram de EQM, regra geral desejavam continuar a ouvir as vozes, controlá-las, além de as considerarem apaziguadoras ou protectoras. Numa perspectiva transcultural, Belanti, Perera e Jagadheesan (2008) analisaram vários estudos para encontrarem as semelhanças e diferenças entre a caracterização dominante das EQM’s na literatura ocidental e as especificidades de contextos não-ocidentais e religiosamente marcantes. Algumas diferenças de fundo foram encontradas, nomeadamente nas

descrições Tailandesa e Indiana, sem túneis, locais familiares ou referências a luz. Uma outra diferença entre as narrativas Indianas e Ocidentais, é que no caso das primeiras, os pacientes no leito de morte não desejavam seguir os entes queridos, mas fugir deles. Mais peculiar é o estudo de Gómez-Jeria (1993, cit. Belanti, Perera & Jagadheesan, 2008) junto dos Mapuche do Chile, em que as narrativas de EQM incluíam um encontro com um cavalheiro Alemão, uma reminiscência cultural da colonização Alemã da zona no século XIX. Igualmente curioso é o caso das culturas de Melanésia, ao largo da Austrália, em que se acredita que a morte não é a conclusão natural da vida e só se morre por agressão e feitiçaria, então em vez dos jardins da cultura Ocidental, as narrativas dos Melanésios descrevem fábricas, estradas e urbes.

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No

geral,

Belanti,

Perera

&

Jagadheesan,

contrastam

as

EQM

ocidentais como invocando principalmente amor incondicional com as orientais, principalmente as Tibetanas, em que há uma tendência para o medo da reincarnação ao contemplarem os que serão os seus futuros pais. De nota também que enquanto no Ocidente as EQM primam pela ideia de perdão divino, nas restantes sociedades atrás referidas, particularmente na Indiana, a confrontação com o divino acarreta o medo do julgamento.

2.2 As Teorias
Manuel Domingos (2008) faz referência aos modelos explicativos que tentam explicar o fenómeno de EQM. Estes fazer uma correlação de alguns fenómenos existentes com o da EQM, tentando obter uma ponte explicativa para este fenómeno. Como pertinentes referimos os seguintes: Modelo da Expectativa : Este modelo refere que as EQM são procedentes da imaginação do indivíduo, com base nas expectativas pessoais e culturais, e com o intuito de se proteger do prenúncio eminente da morte (Greyson, Rodin, cit. Domingos, 2008). Relatos comparados de EQM indicam que diferentes culturas sugerem que crenças prévias têm uma certa influência quanto ao tipo de experiência que a pessoa descreverá ao vivenciar uma situação próxima da morte. No entanto não está claro se as crenças culturais afectam a experiência propriamente ou se apenas têm um impacto na sua recordação e reprodução verbal (idem.). No entanto, frequentemente, indivíduos relatam EQM que são contraditórias quanto às suas expectativas religiosas e pessoais em relação à morte, o que contradiz a hipótese da expectativa (Ring, cit. Domingos, 2008). Porto/2009

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Modelo da Memória do Nascimento – Neste modelo, as EQM são consideradas como memórias do próprio nascimento devido às vivências de visualização de um túnel escuro, de uma luz brilhante e de entrada noutra dimensão. Contudo, um número significativo de EQM não faz referência ao túnel nem à luz. Segundo relatos de experiências de fora-do-corpo, estes factores são idênticos e revelam-se tanto em indivíduos que nasceram de parto eutócico como em indivíduos que nasceram de cesariana,

contradizendo os pressupostos do modelo em questão (Blackmore cit. Domingos, 2008). Modelo das Alterações dos Gases no Sangue – Várias

investigações indicam que a anóxia ou a hipóxia, causas comuns à morte encefálica, estão relacionadas com as EQM (Blackmore, Rodin, cit.

Domingos, 2008). Um estudo realizado por Whinnery cit. Domingos (2008), comparando as EQM com as vivências que ocorrem nos breves períodos de inconsciência induzida pela aceleração rápida (aumento do número de G’s, ou gravidade) nos pilotos de caça, indica que as características principais entre a hipóxia induzida e as EQM revelam a visão do túnel, as luzes brilhantes, a sensação de flutuar, imagens fragmentadas e, raramente, a sensação de deixar o corpo. As visões dos pilotos referem-se a pessoas vivas e nunca a pessoas mortas como acontece com os que passaram por uma EQM, assim como não há referências a memórias panorâmicas ou “filmes” da vida. É de referir, também que as EQM não apresentam as manifestações típicas das hipoxias como as crises epilépticas mioclónicas, amnésia retrógrada ou outras alterações mnésicas, movimentos automáticos, confusão e

desorientação temporal e espacial, nos momentos seguintes ao acordar. A

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hipóxia e a anóxia produzem alucinações idiossincráticas que podem provocar no indivíduo agitação e agressividade, o que não se verifica nas EQM e há relatos de EQM onde os indivíduos não tinham os níveis de dióxido de carbono, no sangue, elevados. Por fim, se a anóxia e a hipóxia representassem um factor importante para as EQM, deveriam de ser mais frequentes do que as observadas após paragem cardíaca, o que não acontece (Kelly et al., van Lommel et al. cit. Domingos, 2008). Modelo das Alucinações Tóxicas ou Metabólicas – Uma vez que as EQM indicam acontecimentos que não podem ser observados nem vivenciados por aqueles à volta do indivíduo, existe a possibilidade de as EQM serem alucinações provocadas pela medicação, frequentemente

aplicada a pacientes terminais, por alterações metabólicas ou por disfunção cerebral generalizada em pessoas moribundas. Muitas EQM acontecem em indivíduos que não apresentam disfunções orgânicas ou metabólicas que pudessem causar alucinações. Em contrapartida, nos grupos de pacientes medicados há menos referências a EQM do que nos que não são medicados (Greyson; Osis e Haraldsson; Sabom cit. Domingos, 2008). Modelo Neuroquímico – Segundo Blackmore, cit. Domingos (2008), as EQM são atribuídas à acção de vários neurotransmissores, no cérebro, predominando as endorfinas e outros opiáceos endógenos, libertados numa situação de stress. Estas endorfinas produzem uma sensação de bemestar e de alívio da dor que permanecem durante várias horas, enquanto nas EQM, essas sensações se mantêm por breves momentos, não mais que alguns segundos. Um outro agente endógeno neuroprotector, com propriedades e cinética semelhante às da ketamima, é libertado em condições de stress. A

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ketamina pode provocar sensações de estar fora-do-corpo e viajar por um túnel escuro em direcção a uma luz. A administração de ketamina provoca, na generalidade, imagens bizarras e assustadoras, de tipo ilusório e alucinatório, o que não acontece na maioria das EQM.

Abordagem Terapêutica na EQM
Stanislav Grof e Christina Grof (1989) referem que “as experiências de proximidade da morte levam com frequência a emergências espirituais, uma vez que desafiam os fundamentos das crenças sobre a realidade de muitas pessoas que passam por elas. Muitos saem dessas experiências com uma perspectiva, valores e objectivos mais espirituais, baseados nas revelações que tiveram em sua condição de proximidade com a morte” (p.43). Os autores referidos ao longo deste trabalho, como Moody, Atwater, Grof, Domingos, entre outros, referem que as EQM resultam em grandes mudanças na vida dos indivíduos. Esta mudança deve-se à forma como estes interiorizam a sua própria experiência, tenha sido do tipo agradável ou não. As problemáticas quanto às experiências do tipo agradável devem-se ao facto dos indivíduos ficarem de algum modo revoltados e deprimidos por terem regressado. O que testemunham é tão maravilhoso que a vontade de ficar do outro lado é enorme. Nas experiências desagradáveis ou infernais, estas são aterradoras para os indivíduos, embora o modo como as integram na sua vivência, possa levar a grandes transformações de um modo positivo, optando por alterar comportamentos anteriores, considerados como fúteis e

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individualistas, por outros altruístas e com profundidade espiritual (Grof, 1989). Por vezes os efeitos positivos impedem os indivíduos de procurar ajuda de modo a compreender os processos internos com que se deparam. Temem ser incompreendidos pelos seus familiares e amigos, uma vez que os próprios chegam a duvidar da sua sanidade mental e acabam por se adaptar aos poucos, pelos seus próprios meios, à experiência e às suas

consequências. Os familiares e amigos do sujeito que passou pela EQM podem sentir dificuldades em compreender os seus comportamentos e atitudes, podendo levar a que estes o evitem, ou pelo contrário, ficarem com expectativas muito elevadas quanto ao indivíduo, e rejeitando-o no caso de este não corresponder ao que é esperado (Grof, 1989). Como referido acima, os problemas emocionais recorrentes das EQM como a raiva e a depressão. São comuns os problemas de assimilação da EQM às crenças, valores e estilo de vida tradicionais. O indivíduo só pode ultrapassar o medo de ser visto como “anormal” mediante a redefinição para si próprio do que é normal (Grof, 1989). O modo como um terapeuta responde ao sujeito que passou pela EQM pode ser fundamental para o processo de aceitação e integração da experiência, tornando-a como um estímulo para um maior crescimento ou então ocultá-la (mas não esquecê-la) como experiência estranha que não deve ser mencionada por temer que o considerem como demente. O mesmo autor indica que durante uma EQM ou imediatamente após, os profissionais de saúde da primeira linha de intervenção, numa situação de ressuscitação de um paciente, devem evitar comentários e acções que

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demonstrem pouca sensibilidade. O sujeito, apesar de inconsciente, pode aperceber-se do que se passa à sua volta e, ao recordar mais tarde, sentir-se ofendido. Deve ser tido em conta que se deve explicar ao paciente o que se está a fazer enquanto este está inconsciente, uma vez que o contacto físico pode ajudar a orientá-lo e ajudá-lo a direccionar a atenção para o seu corpo após a EQM. Ao falar com um indivíduo logo depois de um encontro íntimo com a morte, é necessário estar atento para os indícios de que este teve uma EQM. É comuns os indivíduos verificarem até que ponto os profissionais de saúde estão dispostos a escutá-los. Antes de abordar os indivíduos é aconselhado rever os próprios preconceitos, positivos e negativos sobre as EQM e as pessoas que passam por elas. Deixar que o discurso flua pelo próprio sentido da pessoa que passou pela EQM. O terapeuta tem o papel fundamental de ajudar a esclarecer as interpretações do indivíduo através das suas próprias palavras. A comunicação verbal e não-verbal são a melhor forma de transmitir que se está a escutar. A escuta activa e uma posição congruente e de aceitação incondicional por parte do terapeuta permitem que o indivíduo compartilhe e se liberte dos seus sentimentos e dos seus medos. A sensação de não serem os únicos que passaram pela experiência oferecelhes algum alívio e beneficiam do contacto com outros que passaram pela mesma situação (Grof, 1989). Nas abordagens a longo prazo é importante uma análise por parte do terapeuta a si próprio, como já foi referido, uma vez que podem surgir questões relacionadas com a sua própria perspectiva da vida e do seu propósito. Estas questões podem não surgir noutras relações terapêuticas. As consequências de uma EQM podem afectar o crescimento psico-espiritual,

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tanto do paciente que passou por ela como do terapeuta. Auxiliar o paciente a ter um papel activo no desenvolvimento da EQM pode ser facilitador na compreensão das problemáticas inerentes a esta. As características da experiência podem dar indícios sobre as causas dos problemas que podem continuar a existir após a EQM pelo que a exploração dessas características com o paciente pode levar alguma luz aos problemas que permanecem (Grof, 1989). As técnicas de indução de estados alterados de consciência podem ser de grande benefício, auxiliando o sujeito a lembrar-se de pormenores da experiência e a passar à vontade de um estado de consciência para outro. Técnicas projectivas e de expressão não-verbal como a arte, a música e a dança podem auxiliar na descoberta e na expressão de sentimentos que de outra forma seriam muito difíceis de expressar. Nas questões familiares, uma reunião com o paciente e a família, em casa deles, pode ser a forma de compreender qual a mudança ocorrida na família e de perceber quais as reacções dos membros da família diante dele. No caso de haver mudanças vincadas na dinâmica familiar, a terapia familiar pode ajudar (Grof, 1989).

Conclusão

Os estudos baseados nos testemunhos daqueles que passaram pela EQM trouxeram à luz a questão da vida depois da morte. A imagem da borboleta que se liberta do casulo que Kübler-Ross (s.d.) nos deixou do momento da morte é solene.

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Como foi visto que cada EQM é diferente e difere de pessoa para pessoa, concordando com Grof (1989), o indivíduo deve integrar a EQM como um todo na sua vida. É impossível ignorar a experiência, assim como as suas consequências, embora não se deva permitir uma concentração nestes aspectos em prejuízo das outras partes integrantes da vida. Esperar que o indivíduo retome a sua vida da mesma forma anterior à experiência não é possível. As novas atitudes, crenças e valores do sujeito não se enquadram aos velhos papéis e ao antigo estilo de vida. O papel do terapeuta é relevante como prestador de auxílio nestas grandes mudanças, ajudando-o a direccionar o que aprendeu para uso prático. “Não há melhor forma de fazer o sujeito sentir-se bem com a experiência e com as suas consequências como utilizar o que aprendeu para auxiliar os outros. O trabalho do terapeuta pode ser dado como terminado quando o indivíduo encontrar um meio de levar para o seu quotidiano o amor que recebeu da EQM” (Grof, 1989, p. 266).

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