Petróleo - Um cenário negro

«O tempo do petróleo barato chegou ao fim.» As palavras do antigo ministro francês da Organização do Território e do Ambiente, Yves Cochet, prenunciam um novo ciclo na economia mundial. Os tempos que se aproximam adivinhamse difíceis para os consumidores, que assistem ao encarecimento da maioria dos produtos. Há, inclusive, economistas que falam na possibilidade de uma nova crise petrolífera ou até numa segunda Grande Depressão, semelhante à desencadeada nos Estados Unidos em 1929. Portugal não é excepção e os governantes mostram-se preocupados quanto à forma como o país poderá reagir. Há cerca de dois anos, poucos seriam capazes de vaticinar que, em Agosto de 2005, o preço do barril de petróleo poderia ultrapassar a barreira psicológica dos 70 dólares. No entanto, o que para muitos parecia ficção tornou-se realidade. E isto promete não ficar por aqui, uma vez que o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) já veio dizer que no próximo ano o preço do barril, na Bolsa de Nova Iorque, poderá chegar aos 100 dólares. A escalada é ainda mais significativa, se se pensar que desde o início do ano o aumento do preço foi superior a 50 por cento. Mas, se a comparação for feita em relação a 1998, então é possível verificar que a subida chegou mesmo aos 600 por cento. Os riscos deste aumento vertiginoso estão a deixar de sobreaviso a maioria dos economistas. O professor catedrático da Universidade do Minho Cadima Ribeiro, em declarações à Além-Mar, refere que «a curto prazo, e sobretudo para as economias mais débeis e dependentes do petróleo, o impacte será seguramente penoso, com expressão no equilíbrio da Balança de Pagamentos e no abrandamento do crescimento económico e consequente deterioração do mercado de trabalho. No actual quadro de abertura das economias e de globalização das trocas, a conjuntura gerada acaba por alastrar em cadeia, penalizando o ritmo de crescimento económico geral». Ainda mais desemprego Também o economista João Loureiro considera que «estamos numa situação de abrandamento económico, que poderá agravar-se com a subida do barril de crude». O aumento generalizado dos preços e a consequente subida da inflação são, para este especialista, os principais efeitos do actual cenário económico. Na prática, «se os preços sobem muito, as pessoas deixam de consumir tanto, o que acaba por ter consequências negativas para as empresas, que não têm forma de escoar a produção». Por outro lado, «essa quebra na produção devido ao abrandamento do consumo vai provocar um inevitável aumento das taxas de desemprego». A este propósito, o antigo ministro francês da Organização do Território e do Ambiente, Yves Cochet, sublinha que, «se as cotações continuarem a subir de uma forma tendencialmente rápida, a partir dos 70 ou 80 dólares por barril é verosímil que as consequências inflacionistas da alta das cotações do petróleo sejam suficientemente pronunciadas para que os governadores dos bancos centrais dos países ricos e “petro-vorazes”, nomeadamente da América do Norte, do Japão e da União Europeia, aumentem as taxas de juro para conter a inflação». «Este remédio aumentará a dor. É o que já provámos aquando do segundo choque petrolífero dos anos 1979-1983, sob o impulso ultraliberal de Margaret Tatcher e de

de facto. só que a um nível global e permanente. juntou-se a queda do euro. mais profundas e mais duradouras. os preços ainda têm muita margem para subir. batido recordes nominais quase todos os dias. Mas em termos reais. Pior que nos anos 70 O perigo da ocorrência de um novo choque petrolífero. os mercados financeiros contraem-se e as empresas deparam-se com mais dificuldades para se financiarem através da Bolsa ou de empréstimos. Adris Piebalgs admite mesmo que o cenário actual é «mais sério que o da crise de 1973 [que se seguiu ao primeiro choque petrolífero]. que é negociado em dólares para os compradores europeus. O fundador e presidente honorário da Associação para o Estudo do Pico do Petróleo (ASPO). considera o economista Pedro Ribeiro. O que está em causa não é menos que o fim da “civilização industrial” como a conhecemos. mas agora a situação é muito mais séria». no entanto. A II Grande Depressão Mas se há quem não concorde com certas considerações mais pessimistas. Há também quem encontre diferenças substanciais entre os choques petrolíferos e o momento que hoje se vive. O economista Pedro Ramos alinha pelo mesmo diapasão. provavelmente. Estamos perante um choque estrutural». há também aqueles que vão ainda mais longe em termos de previsões negras. mais gradual. afirmando à Além-Mar que o actual quadro económico está «mais próximo das crises dos anos 70. Por outro lado. afirmou em recente entrevista ao Expresso que «este disparo nos preços do petróleo vai desencadear provavelmente uma profunda e prolongada depressão – historicamente. Para o professor universitário José Manuel Rodrigues. Quem também partilha desta opinião é Luís Rocha. Opinião idêntica é partilhada pelo economista brasileiro César Benjamim. quando o custo do dinheiro aumenta. o crude atingiu um nível que. de consequências. não parece. a preços actuais. que. «A subida dos preços tem sido vertiginosa e o petróleo tem. representaria 90 dólares por barril». chama a atenção para a existência de diferenças entre os «choques petrolíferos» da década de 70 e o cenário que hoje se vive.Ronald Reagan. que adianta: «Paira sobre todos nós a ameaça da maior crise económica global que a humanidade já viveu. «O choque actual é menos espectacular. tão descabido. o período em que houve escassez do petróleo foi curto. a elevada liquidez dos mercados e as baixas taxas de juro». Em 1979. precisamente por combinarem estagnação com inflação».» E concretiza: «Estamos perante algo comparável à grande depressão de 1929 nos Estados Unidos. semelhante aos registados durante a década de 70. o comissário Europeu da Energia advertiu para a possibilidade de o preço do petróleo «subir ainda mais» devido à crescente procura. assim. a Segunda Grande Depressão». O impacte da subida foi compensado em geral pelo maior crescimento do comércio internacional. refere. Nesse ano. que se seguiram aos primeiros choques petrolíferos. Colin Campbell. depois da revolução de Khomeini no Irão. nem todos partilham desta visão. «ao aumento da matéria-prima. Os factores atenuantes Todavia. especialista em questões ligadas ao sector petrolífero. «os preços actuais do petróleo estão muito afastados dos máximos atingidos em crises anteriores». Por exemplo. avisa Yves Cochet. conjuntamente com uma menor sensibilidade dos consumidores para o aumento dos preços. o que vem contribuir para tornar mais caro o petróleo. o que enfraquece a actividade económica». Com efeito.» .

com destaque para a China. aumentando o défice comercial do país. a causa mais evidente reside no forte aumento da procura de petróleo. O conflito no Iraque e a existência de focos de instabilidade política e social em países como a Arábia Saudita – o maior produtor de petróleo do mundo –. se o ritmo de crescimento anual se mantiver. No entanto.Más notícias para Portugal À semelhança de quase toda a Europa. as expectativas para 2030 são de 138. existindo a hipótese de ter de apertar ainda mais os cordões à bolsa. e. No entanto. o «preço do petróleo subiu por motivos especulativos.5 por cento. o Produto Interno Bruto (PIB) nacional encolhe 0. Esta situação levou a uma retracção do consumo por parte dos Portugueses.9 por cento. Em primeiro lugar. mas da possibilidade de. com o gasóleo acima de um euro e a gasolina sem chumbo a ultrapassar um euro e 25 cêntimos. e medindo as várias consequências negativas que este cenário tem na economia nacional. conclui o editor de Economia da SIC. para 738 mil toneladas. as opiniões parecem convergir em alguns pontos. «Com o combustível caro. os próprios Estados Unidos apresentaram também uma subida muito significativa na procura do chamado «ouro negro». As soluções possíveis . e de acordo com o economista Pedro Ramos. Assim. a ideia de que os fenómenos naturais. Este risco não decorre da inexistência de reservas suficientes. Isto porque. O preço dos combustíveis disparou. por razões políticas. Além disso. Além disso. segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).5 por cento no ano seguinte. Por outro lado. As raízes do problema Quanto aos motivos que se encontram na génese desta subida constante do preço do barril de crude. Segundo o ministro das Finanças. também poderão contribuir cada vez mais para destruir a capacidade produtiva de um país». o Governo vê a sua tarefa de reequilibrar as contas nacionais muito dificultada. a capacidade produtiva de alguns países (Iraque. até ao final deste ano. o custo de produção também e o preço final para o consumidor aumenta». o custo do transporte das empresas dispara. só no mês de Junho e em comparação com igual período do ano passado. o «contínuo aumento do preço do petróleo é responsável pelo baixo crescimento que se está a verificar na economia portuguesa». para mais de 2000 toneladas. o Estado português tem de desembolsar mais 100 milhões de euros. e o do gasóleo registou uma quebra de 0. Acresce agora. sobretudo provocada pelos países asiáticos emergentes. cujas previsões de crescimento continuam a apontar para a manutenção de um ritmo acelerado. quando o preço do barril aumenta dez dólares. Portugal já começou a sentir os primeiros efeitos dos sucessivos aumentos. mais caras são as importações de combustíveis para Portugal. a procura mundial média deverá aproximar-se dos 84 milhões de barris por dia. por exemplo. mas também a própria Arábia Saudita) ser danificada. num mercado já nervoso. quanto mais caro está o crude – e tendo em conta a relativa estabilidade do euro face ao dólar nos últimos tempos –. a Nigéria ou a Venezuela são outros dos factores que justificam esta subida. o consumo das gasolinas caiu 6.5 milhões de barris por dia. De acordo com as contas de alguns economistas. como o Katrina. as más notícias não se ficam por aqui. Teixeira dos Santos. uma vez que os agentes económicos acreditam que há o risco da oferta desta matéria-prima se tornar escassa no futuro. Luís Ferreira Lopes. Cada vez que o petróleo sobe um dólar. Segundo as estimativas da Agência Internacional de Energia.

do Instituto Nacional de Engenharia. independentemente do petróleo apresentar ou não preços em crescendo. Cristina Casalinho. científicas e técnicas para a formular e conduzir». Do que precisamos é.» Para o director-adjunto do Jornal de Negócios. No resto. Segundo a economista-chefe do BPI. Os países desenvolvidos têm obrigatoriamente de reduzir o seu consumo desenfreado de energia». A problemática de uma utilização mais racional tem vindo a ganhar bastante relevo em toda esta discussão: «As energias renováveis não poderão nunca substituir o consumo de combustíveis fósseis e ainda suportar o aumento geral do consumo de energia. Tecnologia e Inovação. No entanto. considera que «é urgente que o nosso País assuma uma política energética bem fundamentada e se dote das bases institucionais. seria muito mais complicado para as economias pobres que os países ricos. Basta pensar que as economias ricas são sobretudo dependentes dos serviços – por natureza pouco consumidores de petróleo – e as economias em desenvolvimento dependem mais da indústria. a discussão em torno das energias alternativas sobe de tom. isto porque a actual evolução dos mercados «deverá levar à procura de energias alternativas e à utilização mais racional da energia». «o momento é de olhar a sério para a racionalização do consumo de energia e para o desenvolvimento de energias alternativas. além de fontes de energia limpas. O professor catedrático Cadima Ribeiro dá o mote: «A solução [para o aumento do petróleo] poderá residir na procura estrutural de alternativas energéticas e na implementação de políticas que promovam o uso mais eficiente da energia. «a subida do petróleo pode até trazer alguns benefícios».» . Mais pobreza para os pobres E para os países em desenvolvimento. óptimos argumentos para se avançar com esta reconversão». por si só. também fossem atingidos significativamente.Sempre que se fala na subida dos preços do petróleo. Já o director do Centro de Geofísica da Universidade de Évora. Rui Rosa. Os benefícios ambientais da substituição do petróleo por outras fontes de energia são. de uma nova política energética. Paulo Ferreira. os territórios têm de fazer apostas produtivas e competitivas no quadro internacional. conclui Romeu Gaspar. que são os seus principais clientes. quais serão as consequências deste cenário? A previsão do economista Pedro Ramos não é nada optimista: «É verdade que os países em desenvolvimento poderão ser hoje mais atingidos por um choque petrolífero que os países ricos. com problemas já tão graves.