Unip – Curso: Comunicação Social, hab. em Jornalismo Docente responsável: Prof. Dr.

Luís Henrique Marques 2º semestre de 2010

4ª Aula de Teorias do Jornalismo
Tema: A teoria funcionalista Escola Funcionalista1
Com o aprimoramento técnico dos meios de comunicação de massa, sua relevância na sociedade já podia ser sentida no correr do século XIX, quando o jornal impresso tornava-se parte integrante do dia-a-dia do habitante dos grandes centros urbanos. Não causa espanto, portanto, que teóricos europeus da época tenham se voltado para a compreensão deste fenômeno comunicacional, no momento em que as ciências sociais começavam a ganhar espaço. Buscando respostas para as mudanças que se verificavam na sociedade, as quais transformaram em pouco tempo estruturas que se impunham há séculos, os cientistas sociais europeus detiveram-se nos problemas resultantes da industrialização do sistema produtivo, do aparecimento das massas nas grandes cidades e da necessidade de empregar os meios de comunicação de massa como fator de integração social, com vista ao desenvolvimento. Foi pelo interesse dos intelectuais em compreender sua sociedade e tentar solucionar seus problemas, de forma racional e sistematizada, que surgiu a sociologia, resultante da dupla revolução ocorrida no século XVIII, a Industrial e a Francesa. Os estudos dos fenômenos sociais acabaram por cindir-se em duas propostas teóricas, em dois posicionamentos opostos diante do mundo: o positivismo (que procurava em suas investigações constatar os fatos, criar leis científicas para explicar os mecanismos da sociedade e desenvolver formas para combater os movimentos que tentassem desestabilizar a ordem) e o marxismo (que pretendia modificar a estrutura de classe vigente). Teóricos que seguiam as duas tendências estavam imersos em uma sociedade que se transformava constantemente, seja pelos avanços tecnológicos, seja pela participação das massas na vida política e social. As populações urbanas, com acesso ao ensino e aos meios impressos, conquistavam benefícios, tornando-se também consumidoras de bens culturais. No final do século XIX, os folhetins (narrativas serializadas publicadas na imprensa) e os jornais de escândalo tinham enorme aceitação junto aos leitores, levando os intelectuais à indignação. Nesse contexto, coerente com as ideias positivistas (que pregavam o mesmo rigor científico às ciências sociais que era comum às ciências exatas e biológicas), o engenheiro ferroviário Herbert Spencer empreendeu os primeiros estudos sobre a comunicação. Tendo formulado, em 1852, o conceito de “fisiologia social”, a partir do qual concebeu a ideia de sociedade-organismo (estabelecendo analogia entre a sociedade e o corpo biológico, com uma continuidade entre a ordem biológica e a ordem social), Spencer considerava a comunicação como o componente básico dos aparelhos distribuidores (estradas, ferrovias) e dos aparelhos reguladores (imprensa) da sociedade. Essas ideias e caráter positivista chegaram ao meio acadêmico dos Estados Unidos e se disseminaram. No início do século XX, os teóricos da Escola de Chicago (cidade que assistia a um processo de industrialização e verificava as transformações decorrentes, sofrendo também as consequências) começaram a pensar a comunicação ligada à construção de uma ciência social com bases empíricas (consoante o espírito científico defendido pelo positivismo). Da mesma forma que o pensador inglês Herbert Spencer, os pesquisadores norte-americanos procederam o emprego de conceitos provenientes da biologia para explicar os fenômenos da sociedade, como a noção de “ecologia humana”, aplicada ao ser humano que precisa se adaptar a novos ambientes, muitas vezes hostis, como a urbe industrializada. Dessa forma, a comunicação ajudaria o habitante do centro urbano a sobreviver em uma situação de mudanças, O estudo do papel da imprensa e da propaganda em meio à industrialização da sociedade foi empreendido por um dos principais teóricos da Escola de Chicago, o jornalista Robert Ezra Park. Mass communication research Os estudos da comunicação só se intensificaram nos Estados Unidos na década de 1940 (época marcada pelo apogeu da indústria cinematográfica de Hollywood e pelo crescimento dos setores editorial e fonográfico), quando teóricos advindos de diferentes áreas (ciência política, sociologia, psicologia) e de inspiração positivista – como Harold Lasswell, Paul Lazarsfeld, Talcott Parsons, Robert Merton, Kurt Lewin, entre outros – passaram a aplicar a sondagem de opinião, desenvolvida por George Gallup na década anterior, para obter resultados mensuráveis na aferição do alcance dos meios de comunicação junto ao público, de sua influência no comportamento de massa e de seu poder de mobilização.

Este texto corresponde ao capítulo 1 da Parte II da obra As teorias da comunicação: da fala à internet, de Roberto Elísio dos Santos, Editora Paulinas, p. 79-85.

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pulmão. uma instituição (família. seus efeitos são limitados. referindo-se à atuação de uma determinada instituição na sociedade. em Jornalismo Docente responsável: Prof. Wright determinou as diversas funções da comunicação: * informar (notícia). uma vez inoculada no receptor. Uma das distinções feitas pelos teóricos funcionalistas diz respeito ao público (formado na interação dos indivíduos a partir da discussão de um tema. escola) mantém a ordem social vigente. em que prevalecem as leis de mercado (de oferta e procura). uma crítica formulada pelos teóricos da Escola de Frankfurt). O conceito de função ganha destaque nesta escola teórica. * divertir. que serão apresentadas em aulas futuras. a teoria funcionalista estabelece uma analogia entre o corpo social e o biológico.. causaram reação até mesmo por parte de outros teóricos funcionalistas. o sociólogo Paul Lazarsfield criou.Unip – Curso: Comunicação Social. esse modelo procura descrever o ato comunicativo a partir das respostas às seguintes questões: * Quem? (emissor) * Diz o quê? (mensagem) * Em que canal? (meio) * Para quem? (receptor) * Com que efeito? (feedback) Em um processo de comunicação pode ainda ocorrer o ruído. na teoria funcionalista. por muitos séculos. rim) sustenta a vida do ser humano. o uso desses meios serve a fins autoritários.) . * manter a harmonia social. a obrigação de formar a opinião do público para que este pudesse tomar decisões e interferir nos processos sociais. disfunção que deve ser corrigida para que os efeitos sejam alcançados. a ideia de função aplicada aos meios de comunicação da massa diz respeito à sua importância na manutenção da ordem da sociedade. fizesse alguma coisa) da maneira pretendida pelo emissor. Surgida nos estudos antropológicos das chamadas “sociedades primitivas”. Mas. o cientista acreditava que a mensagem veiculada por um meio de comunicação determinava o comportamento do público. Estas ideias. O teórico funcionalista norte-americano Charles R. causaria a reação almejada. A partir do modelo descrito. surgiram o conceito de gatekeeper e a hipótese de teoria da agenda setting. Igreja. transformando-os em seres destituídos de vontade própria (esta é. que determinariam como seus receptores deveriam agir. Bastaria a exposição à mensagem para que o indivíduo se comportasse (comprasse. hab. editorial). que explica os efeitos dos meios de comunicação de massa sobre os receptores. O processo de comunicação é explicado. Dr. elegesse um candidato. de um assunto. uma vez que no sistema democrático e capitalista há uma pluralidade de fontes de informação. (. de costumes e estruturas sociais em civilizações como os povos da Melanésia). levando à constituição de uma opinião coletiva. estabelecendo que cada parte ajuda a preservar o todo. Formulado em 1948 pelo cientista político Harold Lasswell. no início da década de 1950. que n e censuram os meios de comunicação. o Paradigma de Lazarsfield. contudo. da mesma forma que um órgão (coração. Para contrapor-se a este conceito. portanto. * transmitir cultura de uma geração a outra (ensino). Nesse sentido. * persuadir (propaganda. empreendidos no século XIX pelo inglês Radcliffe-Brown e pelo polonês Bronsilaw Malinovshi (que pesquisaram a permanência. evidenciando a relação estímulo-resposta. aliás.. que. que contextualiza o processo de comunicação: quando ele se dá em uma sociedade liberal (como a norteamericana). Os meios de comunicação de massa teriam. pelo Paradigma de Lasswell por meio dos modelos biológico (a concepção da sociedade como organismo) e elétrico (a transmissão de sinais entre as partes de um sistema.) (Dando continuidade à visão funcionalista. os teóricos funcionalistas excluem as contradições de classe da visão de mundo que têm e da sociedade que pretendem conservar. na visão dos teóricos funcionalistas. como a que ocorre com o telégrafo). A mensagem veiculada seria. Luís Henrique Marques 2º semestre de 2010 Herdeira direta do positivismo. em sociedades em que predominam sistemas políticos ditatoriais. que viam nelas um uso autoritário dos meios de comunicação de massa. como o conteúdo de uma seringa hipodérmica. da opinião pública) e à massa (resultante da fragmentação. Tomando por base os estudos comportamentais que estavam sendo realizados na época. da dispersão dos indivíduos). Lasswell desenvolveu a “teoria hipodérmica” ou “bullet theory”.