Colégio Salesiano de Santa Inês

Antônio de Alcântara Machado

Marcela Rodrigues Tatajuba de Barros 3º EM Literatura Brasileira Moderna Professora: Manuela - 19/05/11

na Faculdade de Direito de São Paulo .Alcântara Machado jornalista e literário do modernismo. Apesar de não ter participado da Semana de 1922. e de onde se inspirou para escrever crônicas e reportagens que viriam a dar origem ao seu primeiro . onde já estivera quando criança. Antônio Castilho de Alcântara Machado d'Oliveira (São Paulo. formou-se em direito no ano de 1924. político e escritor brasileiro. Alcântara Machado cujo estudo da obra se faz interessante pelo modo como se dá seu trabalho alia às notícias do jornal características literárias e constrói seus contos com base no dinamismo das informações e dos acontecimentos que permeiam o cotidiano da sociedade paulista. além de um romance inacabado. na qual chegou mesmo a ocupar o cargo de redator-chefe do Jornal do Comércio. Alcântara Machado escreveu diversos contos e crônicas modernistas. era professor. também escritor. preferindo aos dezenove anos iniciar a carreira de jornalista. Começou na literatura primeiramente ao escrever críticas de peças de teatro para o jornal. Alcântara nunca exerceria a profissão de jurista. viajou à Europa. 14 de abril de 1935) foi um jornalista. Porém. onde o pai José de Alcântara Machado. de advogados e escritores. Dentre os muitos autores existentes na fase literária modernista. No ano de 1925. Biografia De família ilustre. 25 de maio de 1901 Rio de Janeiro.

com influência no vocabulário e nas construções. como uma colagem de cenas permeada pela oralidade informal. também de viés modernista. distanciado. ou. assim como na expressão. tal introdução revela uma caraterística fundamental de sua obra: a narrativa curta. o autor não havia participado da Semana de Arte Moderna de 1922. Uma de suas obras mais conhecidas é Brás. a linguagem elíptica e cinematográfica. inadvertidamente. próxima da coloquial. por um narrador onisciente. tomando parte. por vezes. tanto na forma de ver o mundo. uma coletânea de contos. Na primeira edição. em se evidenciando as suas peculiaridades comportamentais. em especial no espaço urbano de São Paulo. . O leitor é levado a reconhecer e se familiarizar com esses arrebaldes. dos quais se indicam os nomes e. Bexiga e Barra Funda. que adentra os personagens para recuperar a história pela visão deles. que impinge as personagens com os seus próprios juízos. Mostrava as impressões duma São Paulo imersa na experiência da imigração. no ano de 1926. expressando -se a narrativa numa linguagem livre. Para além dum reconhecimento geográfico. retratados na sua intimidade de todos os dias. junto com Antônio Carlos Couto de Barros . este que estreitava os laços de amizade com Alcântara. descr evem-se também séries de valores humanos presentes nesses moradores menos favorecidos. Brás. Isso nos é mostrado criticamente por um narrador observador. alternativamente. como na difícil condição de estrangeiros. apesar de demonstr ar traços marcadamente modernistas já desde essa primeira obra. disposto como que em colunas de página de jornal. o que possibilitava uma comunicação fácil e direta com o público. É interessante notar que. Pathé-Baby (primeiramente publicado em 1926). onde se lê: "Este livro não nasceu livro: nasceu jornal. fez s urgir um novo tipo de personagem na literatura brasileira: o ítalo-brasileiro. que então vinha modificando os trejeitos da cidade. porque extremamente arraigada à gramática italiana. composta de períodos curtos e rápidos de prosa urbana. mesmo o número da casa ou do estabelecimento. o qual recebeu um prefácio de Oswald de Andrade. E este prefácio portanto também não nasceu prefácio: nasceu artigo de fundo". Conforme sobrecitado.livro. Bexiga e Barra Funda revela ainda a preocupação em se descreverem os habitantes e os costumes das pessoas que habitavam os bairros periféricos da capital paulista. Por si só. trata do quotidiano dos imigrantes italianos e dos ítalo descendentes na cidade de São Paulo. entrecortada e justaposta. escreveria diversos contos e crônicas modernistas. nos bairros dos imigrantes (em sua maioria italianos). o livro é versado na vida urbana. como já indica o título. Publicada em 1928. e. ilustrada pelo uso do português numa variedade linguística estigmatizada. A partir daí. Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias. na fundação da revista Terra Roxa e Outras Terras. o prefácio é substituído por um texto intitulado Artigo de fundo.

na época do chamado movimento constitucionalista. Eleito. altamente influenciada pelo seu passado de jornalista. personificada na obra de Alcântara pelos meios de transporte: para além de identificadores da cidade.Constata-se. O pai. evoluir e acabar com a cultura preestabelecida. culminaria na elaboração da primeira constituição da República Nova em 1934. Outrossim. Nesse período de ebulição e transformações sociais e políticas. que nunca se refez do forte abalo causado pela morte do filho. publicou -se uma outra obra póstuma. as suas crônicas inéditas. após a publicação da coletânea. ele investia a favor da rutura. chamada Contos Avulsos. Com outros escritores do movimento. anterioridade e posterioridade desempenham um papel importante. a Revista Nova. Foi continuar a exercer a carreira de crítico literário para o Rio. com o estilo rebuscado que até então vogava dentre os literatos do Brasil. aberta por Mário e Oswald de Andrade. Entretanto. de contos. Juntou-se então. Alcântara Machado. a 14 de Abril de 1935. funcionam como parte do enredo. . desde as que não conseguira m integrar PathéBaby até às escritas no ano do seu óbito. abrangendo quase dez anos do jornalismo literário do escritor. juntamente com Raul Bopp.em São Paulo. encontram-se publicadas no póstumo Cavaquinho e Saxofone . ano este no qual lançou outra obra. em 1931. A passagem do tempo é demonstrad a por saltos ou lacunas entre as partes do conto. Na sua prosa. ao fazer uso duma linguagem leve. onde simultaneidade. com vistas a desconstruir as convenções. deixando para trás. onde se candidatou ao cargo de deputado federal. sucedendo à Revolução Paulista (1932). desmoralizar. Seu corpo foi sepultado no túmulo da família no Cemitério da Consolação. por vezes servindo como inferência à posição social da personagem. de título Laranja da China . Talvez tenha sido um dos primeiros brasileiros a usar o elemento gráfico como expressão literária aplicada à prosa de temas urbanos do quotidiano. vista como o símbolo do futuro e do progresso na pós-Revolução Industrial. Alcântara Machado e o Modernismo Em 1928. sequer chegou a ser empossado. dadas complicações duma cirurgia do apêndice que resulta riam no seu falecimento. uniu -se a Oswald de Andrade para fundarem a Revista de Antropofagia . foi codiretor da revista no período de Maio de 1928 até a Fevereiro de 1929. que. na cidade do Rio de Janeiro. no livro. inacabado. foi quando Alcântara ingressou na vida pública. o escritor e Jurista José de Alcântara Machado. A narração compõe-se a partir da sucessão cronológica.faleceu em 1941 e foi sepultado no mesmo túmulo. com Mário de Andrade e dirigiram mais uma publicação. caminhou pela senda da experimentação. bem -humorada e espontânea. contra a Literatura dos valores estilísticos clássicos. também a importância dada à máquina. o seu romance Mana Maria.

Não Senhor. o que possibilitou uma comunicação fácil e direta com o público. É interessante observar no texto acima a maneira divertida e irônica de se referir ao estilo do tempo. Mulher é que não. Arranjava sempre um meio de se exprimir indiretamente. doçura desta vida. E bonito. Era flor. trilhou caminhos experimentais traçados anteriormente por Mário e Oswald de Andrade. Abusando. absolutamente asnático. anjo da guarda. A preocupação de embelezar. sim. Nunca.. Palavra. Qual o quê. acabar com os medalhões da cultura. de maneira irônica. Mulher não era mulher. queijo acompanhamento vacum da goiabada dulcífica. cheia de flashes e cortes surpreendentes. como se fosse coisa morta e definitivamente enterrada. ano de 1927. As magnólias já não tinham direito de se queixar . O texto a seguir mostra. resultado possível graças à sua atuação como jornalista. queijo queijo. e..O principal objetivo dos escritores modernistas era destruir o convencionalismo literário. E êle então acrescentava poeticamente: Flores de carne. Utiliza uma linguagem leve e bem-humorada. Nem mesmo a palavra. do momento. Depo is a mania do sinônimo difícil. de esconder. metalepses. fada. Tem sobretudo esta qualidade. Os artifícios lingüísticos empregados neste trecho evidenciam a completa identificação do autor com o movimento modernista. espontânea e comunicativa. passarinho. Mas pão epílogo tostado dos trigais dourados. A própria coisa não se reconhecia nele. E é asnático. diabo. metáforas e outras bobagens complicadíssimas. desmoralizar a inteligência empalhada. a ruptura que o autor propõe para acabar com o estilo rebuscado que até então marcava a literatura da época: O literato nunca chamava a coisa pelo nome. de colorir. Como prosador. Escrever assim não é vantagem. bálsamo de bondade. Pronto. Disfarça bem a vulgaridade das coisas. (. figuras de retórica. . Canta nos ouvidos. imagens poéticas. do ambiente. elíptica e cinematográfica. ao relatar o presente. Com circunlóquios. seios de virgem. Ninguém morria: partia para os páramos ignotos. As magnólias eram capazes de se ofender com tanta secura. Tal qual Oswald fez uso da linguagem telegráfica.)O literato não se contentava em exclamar: como cheiram as magnólias! Não. Tudo fora da vida. Nada de pão.

considerados nobres e centrais da cidade Paulista. póstuma). crônicas e ensaios Contos Avulsos (1961. Mas quando se compara a língua macarrônica de um Juó-Bananère com a de Alcântara Machado constata-se uma notável diferença entre a reprodução caricatural das deformações fonéticas. No conto Carmela. Totalmente identificado com a alma popular. dos bairros operários. póstuma). Em Brás. a personagem passeia pela cidade e conduz o leitor ao reconhecimento de alguns desses lugares com indicações dos nomes e. Alcântara Machado utiliza a língua portuguesa tal como é praticada nos bairros ítalo-paulistas. Bexiga e Barra Funda. Alcântara Machado traz para sua obra Brás. que penetra superficialmente no íntimo dos personagens que formavam a comunidade ítalo-paulista. romance Brás. na luta por sua integraç ão social. contos Laranja da China (1928). culturais e lingüísticos é trazido ora por um narrador observador. flagrados na simplicidade do seu cotidiano. morais. contos Mana Maria (inacabado). e o recurso comedido às misturas de vocabulário e erros de construção gramatical no . Bexiga e Barra Funda (1927). o universo retratado por Alcântara Machado é o espaço urbano de São Paulo. na sua vida íntima. Barra Funda e Mooca Brás. Higienópolis. fazendeiros de café. Rua Barão de Itapetininga e Largo Santa Cecília.Obras mais importantes y y y y y y Pathé-Baby (1926). que anota suas impressões a uma certa distância. como fotógrafo de situações. às vezes. Bexiga e Barra Funda. senão os ítalopaulistas dos arrebaldes pobres. no primeiro. romance Cavaquinho e saxofone (1940. sociais. Bexiga e Barra Funda: O foco na sociedade italiana Interessado pela vida na cidade. ora por um narrador onisciente. até o número da casa ou da loja. não os emigrantes italianos ricos da avenida Paulista. embora não faltem citações sobre os pontos como a Avenida Angélica. contos Brás. Além do reconhecimento geográfico da cidade um conjunto de aspectos humanos. em especial dos bairros dos imigrantes italianos Bexiga.

Sei. Decidiu-se. Deu um balanço no corpo. um dos pioneiros da crônica da imigração na imprensa paulistana). coches. º 35. Lancia.] De fato.segundo. mi pare que conhece ele? 2[3] Outra característica fundamental no livro é a constatação do progresso metropolitano através da referência às máquinas.. Tinha qualquer cousa. vários dados se atrelam o bonde: é através dele que descobrimos a condição econômica do cobrador (protagonista do conto). . o autor não o imitava. Palestra (1). Esses elementos são os responsáveis pelo desencadeamento dos conflitos nos contos Gaetaninho e O Monstro de Rodas. Principalmente a língua . [.. Buick. também funcionam como elementos caracterizadores de poder econômico em A Sociedade e Carmela ou de espaços como em Lisetta e Corinthians (2) vs... Neste contexto são extremamente importantes os veículos: bondes. O doutor. Hudson. ficou olhando para a ponta acesa. No conto Tiro de Guerra n. O meu filho fará o gerente da sociedade.. O seu filho? Si.. se capisce. identificados pelas marcas: Ford. O Adriano. Sob a minha direção. 1[2] Alcântara Machado dispôs-se a homenagear a italianidade lingüística e comportamental que marcava o dinamismo da cidade em expansão. Ia dimenticando de dizer. Alcântara Machado não tem outro programa: Construir tudo. símbolos do progresso na década de 20. Até a líng ua. Embora elogiasse as deformações da sintaxe e da prosódia utilizadas por Juó Bananère (pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado.. Tirou o charuto da boca. mas integrava vocábulos e estruturas frasais da língua italiana ao Português coloquial dos personagens preservando a brasilidade do narrador: Embatucou. mi pare.. automóveis. recriando-a na linguagem certeira e ligeira das notícias de jornal.. .. sei.

mas leva uma amiga junto. a reza de uma Ave-Maria é entremeada com a descrição de dados paralelos e o momento mais dramático do conto é acentuado pelo uso de parênteses para registrar ações simultâneas: .) 3[4] O tempo na narrativa é cronológico e bastante breve. Assim em O Monstro das Rodas. adianta registra também a imagem dos bondes e o acúmulo de pessoas que ocupavam esses bondes: (. As descrições dos ambientes espaciais tanto exteriores quanto interiores em Brás.. o cobrador deixa o emprego na companhia cujo nome homenageava o escritor italiano Gabrielle d Annunzio para trabalhar numa similar que homenageava Rui Barbosa.. Em Amor e Sangue. enquanto que no passeio do domingo já não leva mais a acompanhante. As ações se passam em intervalos de horas. Palestra (1). em um fim de tarde. em Corinthians (2)vs.. o narrador faz uma descrição do ambiente comparando-o ao personagem de Nicolino. raras. Durante a descrição do tempo das narrativas.. Em outra passagem. Bexiga e Barra Funda são econômicas e por vezes. marca evidente do nacionalismo jacobino presente no conto. a protagonista é convidada. Já no conto Carmela.reconhecemos o espaço da cidade graças à linha do bonde.o relato não ultrapassa o período compreendido entre o velório e o enterro de uma criança. o enredo se inicia em plena partida de futebol para encerrar-se nas comemorações da torcida campeã. no dia seguinte aceita o convite. o autor utiliza o recu rso da síntese para marcar a passagem do tempo e das ações. Esses saltos são traduzidos graficamente pelo espaço em brando deixado entre as partes de cada história. para um passeio de carro. No conto O Monstro de Rodas.) não adiantava que o céu estivesse azul porque a alma de Nicolino estava negra (. Verifica-se também um dado concreto a respeito da cultura popular quando a ausência do cobrador inspira a seção de fofocas amorosas da revista A Cigarra. dias ou semanas em razão dos próprios enredos.

. da Margarida e da Linda . cedendo lugar aos dados concretos que vão caracterizar os personagens cinematograficamente: Grito materno sim: até filho surdo escuta. Bexiga e Barra Funda A obra de Alcântara Machado deixa uma fresta na construção dos personagens em relação ao uso superficial da psicologia para caracterizá-los.Subito! Foi-se chegando devagarinho. a construção dos personagens nos contos de Alcântara Machado surge de maneira dinâmica durante o desenrolar das ações do enredo. de maneira muito simples. fato reforçado pela falta de convivência com estes. 4[5] A construção das personagens em Brás..O caixãozinho cor-de-rosa com listras prateadas (Dona Nunzia gritava) surgiu diante dos olhos assanhados da vizinhança reunida na calçada (a molecada pulava) nas mãos da Aída. mas sim demonstrar de que maneira eles influenciaram na constituição da sociedade paulistana desde aquela época e que é evidenciada até hoje. (. . devagarinho. não pretende aprofundar as personalidades destes personagens. Virou o rosto tão feio de sardento.) . privando-se do uso exagerado de adjetivos. portanto. limitando-se à criação de tipos que talvez pudessem esconder o lado preconceituoso do escritor paulista com relação aos imigrantes. Diante disso. Diante da mãe e do chinelo parou. Recurso de campeão de futebol. deve-se levar em consideração que a obra não se impõe como uma sátira ao modo de viver estrangeiro e que. Por outro lado. Fazend o beicinho. viu a mãe e viu o chinelo. Balançou o corpo. 5[6] . da Josefina. Estudando o terreno.

. . Bengalinha na mão.Limpe o nariz. em oposição aos elementos que compõem seu visual. (. De chapéu vermelho. depois os fiapos de sobrancelha.Beije a mão dos padrinhos. depois o nariz chumbeva. Tirou . que ao mesmo tempo é um pouco desvalorizada por sua descrição física. as peças do vestuário vão marcar o lado escandaloso da nudez e a conseqüente vulgarização da personagem. denota a falta de polidez do personagem. o detalhe do nariz do escorrendo. ressaltada pela pretensa elegância na combinação de cores e permite ao leitor aproximar-se da personagem observando-a de dentro do conto.Tire o chapéu. Sapatinhos verdes. por último as bolas de metal branco na ponta d as orelhas descobertas.. . Subiu as escadas berrando. Embora quisesse parecer fino . 7[8] Em contraposição à descrição de Carmela está a apresentação de sua amiga Bianca.Em Gennarinho. 6[7] Outro aspecto interessante é a descrição do vestuário utilizada para caracterizar os personagens. sua caracterização se torna rude.Diga boa noite Disse. Todo chibante.. Braços nus. colo nu. . Disse uma palavra feia. à medida que esta se contempla: O vestido de Carmela coladinho no corpo é de organdi verde. ironicamente: Gennarinho desceu na estação da Sorocabana com o nariz escorrendo..) Abre a bolsa e espreita o espelhinho quebrado que reflete a boca reluzente de carmim primeiro. Beijou. faz o papel de boa amiga e intermediadora do romance entre Carmela o rapaz do Buick: . Bago de uva Marengo maduro para os lábios dos amadores.) com a cabeça para fora do automóvel soltando cusparadas. No caso da protagonista Carmela. Limpou com o chapéu. Apertou o dedo no portão. (. joelhos de fora.

característica notadamente cinematográfica. Chegou bem perto. Com todo o muque. as mãos abertas. há uma divisão do conto em cinco cenas. 8[9] Análise do conto Gaetaninho Em linhas gerais. como traços mais característicos. observamos na obra de Alcântara Machado. Um dos recursos utilizados pelo autor para ilustrar a ação do personagem é a linguagem radiofônica. Gaetaninho ficou pronto para a defesa. Como se fosse um locutor esportivo. como se o narrador estive com uma câmera fotografando cena por cena. Essa superposição de cenas compõe o todo como uma colagem. Com o tronco arqueado. Em Gaetaninho. Bexiga e Barra Funda . o narrador descreve: O Nino veio correndo com a bolinha de meia.Bianca por ser estrábica e feia é a sentinela da companheira. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua. em um tempo e espaço também novos. . introduzindo uma nova situação. palestrino! .Cala a boca. conto de abertura de Brás.Passa pro Beppino! Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. dada pelo corte narrativo existente de uma cena para outra. Outra característica fundamental é o uso de expressões italianas para marcar a influência da imigração e da miscigenação racial na constituição da sociedade paulistana. .Traga a bola! 9[10] . as pernas dobradas. o uso da pontuação como recurso de reprodução de traços rítmicos e melódicos da linguagem coloquial.Vá dar tiro no inferno! . os braços estendidos.

tanto pela rapidez com que se dá a morte de Gaetaninho. Um sonho. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. tinha as ligas.Que é que tem? . quanto pela ambigüidade causada pela frase Amassou o bonde . mas que. como na passagem: Ali na Rua Oriente a ralé quando m uito andava de bonde. demonstrando uma certa preocupação jornalística. consegue identificar perfeitamente a condição sócio-econômica das personagens. já que . notamos um certo valor social presente no desej o de Gaetaninho de andar de automóvel e ser admirado pelas pessoas. Tomando-se o sentido do verbo amassar em português e sabendo que em italiano ammazzare significa matar. . No bonde vinha o pai do Gaetaninho. A gurizada assustada espalhou a noticia na noite. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. Gaetaninho saiu correndo. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. valor que talvez fosse associado como representação da elite. permite uma dupla interpretação do trecho final.O ambiente da trama é constituído por traços leves. do status econômico. Quem na boléia de um dos car ros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino 11[12] O final do conto é surpreendente. Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boléia de nenhum dos carros do acompanhamento. De enterro ou de casamento. no entanto.Amassou o bonde! A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.Sabe o Gaetaninho? . 10[11] Ainda neste trecho. mas não levava a palhetinha. Vestia a roupa marinheira. Pegou e matou.

para um final que parecia ser trágico. . um caráter cômico.não se sabe se foi o garoto que atropelou o bonde ou contrário. o que garante.