ASSISTÊNCIA JURÍDICA E ADVOCACIA POPULAR: SERVIÇOS LEGAIS EM SÃO BERNARDO DO CAMPO1 Celso Fernandes Campilongo 1.

SERVIÇOS LEGAIS E TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS Este estudo tem por objetivos: a) elaborar uma tipologia geral dos serviços legais; b) comparar dois grupos prestadores desses serviços na cidade de São Bernardo do Campo – São Paulo. A tipologia aqui construída possui caráter exclusivamente teórico-bibliográfico. Trata-se de uma tentativa de consolidação de diferentes escritos, nem sempre interessados propriamente nos serviços legais mais ocupados com a análise das funções do direito nas sociedades em mudança. Isso é particularmente relevante para a América Latina. Ao lado de todas as transformações ocorridas no mundo contemporâneo, diversos países da América Latina defrontam-se com problemas que tornam especialmente complexos os processos de mudança social na região: inflação, dívida externa, crescimento da miséria e intermináveis processos de “transição para a democracia” ditam o tom dessas alterações. Típico das “transições”, nas palavras de O’Donnell e Schmitter no já clássico Transições do regime autoritário, é “o fato de, durante o tempo do seu transcurso, as regras do jogo político não se verem definidas”. Em outras palavras, são períodos de redefinição dos arranjos de poder e, conseqüentemente, de reordenação jurídica. Nesse contexto, a luta social tem na arena jurídica uma importantíssima frente de batalha. No Brasil, por exemplo, os movimentos sociais precisaram oferecer respostas a grandes desafios forçosamente jurídico-institucionais, como: a) a “abertura política” no final dos anos 70; b) o movimento “Diretas-já”, em prol das eleições diretas para a
Publicado na Revista Forense, v. 315, p. 3-17, 1991, e na Revista da Procuradoria- Geral do Estado de São Paulo, v. 41, p. 73-106, jun. 1994. O presente estudo toma como ponto de referência básico a pesquisa encetada pelo Centro de Estudos Direito e Sociedade (Cediso), da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, intitulada Justiça em São Bernardo do Campo – Perfil sociojurídico de clientes e profissionais da assistência jurídica, durante o ano de 1990. Agradeço particularmente a Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer, Antônio Benedito Margarido e José Eduardo Faria, que, juntamente comigo, elaboraram o relatório final daquela pesquisa, e aos professores José Reinaldo de Lima Lopes e Paulo de Tarso Ribeiro, pelas sugestões e críticas feitas a este trabalho. Ressalvo, contudo, que as opiniões aqui emitidas são de minha exclusiva responsabilidade. Este texto foi especialmente elaborado para o Instituto Latino-Americano de Serviços Legais Alternativos (ILSA), Bogotá, e integra um projeto continental de estudos sobre advocacia popular.
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Presidência da República, na primeira metade dos anos 80; c) a Assembléia Nacional Constituinte, de 1986 a 1988; d) o restabelecimento do escrutínio popular para a escolha do Presidente, em 1989; e) e o debate em torno da regulamentação da Constituição de 1988 e de sua revisão, prevista para 1993. Paralela e complementarmente a esse movimento de reconstituição da ordem legal, a reorganização da sociedade civil brasileira implicou uma redefinição do perfil de diversas entidades. Daí o segundo momento deste trabalho. Depois de apresentada a tipologia dos serviços legais, examinarse-á, com base em dados empíricos extraídos da pesquisa Justiça em São Bernardo do Campo, o comportamento comparativo de duas entidades prestadoras de serviços legais na região mais industrializada do País e, por isso mesmo, berço do novo sindicalismo brasileiro, hoje identificado com a Central Única dos Trabalhadores (CUT), e com relevante organização política da esquerda nacional, o Partido dos Trabalhadores (PT). Obviamente, permeando toda a última parte do trabalho estão as seguintes perguntas: em que medida o grande desenvolvimento sindical e político consolidado em São Bernardo do Campo durante a década de 1980 foi acompanhado pelos grupos de serviços legais populares na cidade? O surgimento de novas formas de luta trabalhista e partidária ter-se-ia reproduzido sob novas formas de resolução de conflitos e novas práticas de acesso à justiça?

2. ASSISTÊNCIA JURÍDICA E REALIDADE SOCIAL: APONTAMENTOS PARA UMA TIPOLOGIA DOS SERVIÇOS LEGAIS 2.1. MÉTODO E OBJETO: SOCIOLOGIA DAS PROFISSÕES OU SOCIOLOGIA JURÍDICA? Juristas em geral e processualistas de modo particular são concordes em sublinhar que o acesso à justiça pode ser “encarado como o requisito fundamental – o mais básico dos direitos humanos – de um sistema jurídico moderno e igualitário que pretenda garantir, e não apenas proclamar os direitos de todos”1. Paradoxalmente,

em nossas análises. 1988. A partir daí. Por isso. as limitações do enfoque tecnicista geralmente conferido aos assuntos jurídicos: “Na medida em que as causas determinantes da crise do direito transcendem os domínios que lhe pertencem. num segundo momento. não têm dado o devido valor ao tema “acesso à justiça”. estas dimensões históricas e. até o mínimo possível. com os dados empíricos coletados pela pesquisa3. difusos e discretos que se encontram ora em grande número. Julien Freund. o objetivo desta parte do ensaio circunscreve-se ao delineamento de modelos teóricos de serviços de assistência jurídica. Reconhecem os processualistas. de instrumento puramente técnico. Ao enfatizar a atividade dos advogados ou o “papel social da advocacia” essa tipologia poderia aproximar o estudo mais da sociologia das profissões do que da sociologia do direito4. Para Weber. e as novas tendências de democracia social”2. examinar as profissões jurídicas significa. prestação de serviços legais etc. e o grau de compatibilidade entre os instrumentos utilizados pela jurisdição. 1980. construir-se-ão “tipos ideais” de serviços legais que serão cotejados. Cândido Rangel Dinamarco e Kazuo Watanabe (coords. hábitos profissionais. 448). 3 Cf. Processo e participação. Contudo. inspiradas nos ideais democráticos.nossas estruturas de ensino jurídico.ou seja. São Paulo: Revista dos Tribunais. Sociologia do direito. O direito processual tem oferecido as mais brilhantes contribuições para o entendimento do problema. 2 . particularmente. pesquisa e teoria jurídicas. um tipo ideal nunca é encontrável na realidade. essa é uma avaliação apressada. Sociologia de Max Weber. 10. uma descrição simplificada de um objeto ou de um processo”. somos forçados a considerar. 1983. esclarecer como os juristas encaram o direito e sua Cf. o método tipológico imagina modelos ‘puros’. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Novas tendências do direito processual. que é a de servir de instrumento à efetiva realização dos direitos materiais” (cf. p. sem as perturbações. de inspiração précapitalista. práticas judiciais. in Ada Pellegrini Grinover. “obtém-se um tipo ideal acentuando unilateralmente um ou vários pontos de vista e encadeando uma multidão de fenômenos isolados. p. Os profissionais do direito mantêm com a teoria jurídica uma relação muito peculiar. Baptista da Silva. Obviamente. entretanto. simultaneamente. com sua atenção voltada para “a transformação do processo. 1990. Por isso. Trata-se de um modelo. ver a posição da “Nova Escola Processual de São Paulo”. p. ver Niklas Luhmann. 104. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 48. para lançar raízes nas áreas mais profundas e vastas da ciência política. a plena e total aderência do processo à realidade sociojurídica a que se destina. que se ordenam segundo os anteriores pontos de vista escolhidos unilateralmente para formarem um quadro de pensamento homogêneo. Ada Pellegrini Grinover. ora em pequeno número. ainda que inserido na temática geral “acesso à justiça”. cabe investigar as condições reais de nossa sociedade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Nessa linha. p. em instrumento ético e político de atuação da Justiça e de garantia da liberdade. 4 Nesse sentido. A relação advogado/clientela está no centro das preocupações. cumprindo sua primordial vocação. Ovídio A. No mesmo sentido. sociológicas condicionantes de nossos problemas específicos.). Democracia moderna e processo civil. erros e afetações que caracterizam as ações reais.

Madison: University of Wisconsin. Comparación entre las tendencias de los servicios legales en Norte América. As grandes linhas aqui traçadas poderão ser encontradas. São Paulo: Brasiliense. 1988. 1983 (posteriormente publicado em Human Rights Quarterly. Research on legal services for the poor and disadvantaged: lessons from the past and issues for the future. Esta parte do trabalho estará dividida em dois itens. Além desses textos. Revista Forense. também foi amplamente utilizado o volume coletivo organizado por Bryant Garth. estabelecem um acordo de vontades é a tônica dessa perspectiva. 1989. v. 1989. O dissenso. Dito de outro modo: uma tipologia dos serviços legais jamais estará exclusivamente assentada no campo da sociologia das profissões ou totalmente excluída do âmbito da sociologia jurídica. Individual e coletivo A primeira grande distinção associa os serviços legais tradicionais ao atendimento individualizado e os serviços legais inovadores aos casos de interesse coletivo. A cultura jurídica liberal tem como característica essencial o individualismo.1. pouco há de original na tipologia a seguir delineada.2. 1983. de maneira fragmentada e muitas vezes contraditória. Joaquim Arruda Falcão Neto. 272. Na verdade. O advogado.função social. consensualmente. 2. além de encarados como rupturas diante da lógica do mercado.1. em diferentes autores nem sempre preocupados especificamente com a questão dos serviços legais5. A liberdade de contratação entre proprietários que. El Otro Derecho. SERVIÇOS LEGAIS TRADICIONAIS E SERVIÇOS LEGAIS INOVADORES Há na literatura sobre assistência jurídica uma disparidade muito grande de enfoques. 1980. e o ensaio de Fábio Konder Comparato. são tratados pelo direito como A construção da dicotomia está inspirada. o litígio e o confronto. discutirá os limites explicativos da dicotomia.2. No primeiro. mimeo. 2. 1984). nesse sentido. 6. isso é reflexo da própria visão liberal da sociedade como um grande mercado orientado e regulado pela competição e troca entre indivíduos6. apontará as características gerais de dois grandes “tipos ideais” de serviços legais. Não há como separar a práxis jurídica da concepção de direito dos advogados. 2. em dois trabalhos: Joseph Thome. 6 Ver. No segundo. v. a cultura jurídica e o acesso ao sistema judiciário. n. Working Papers — Disputes Processing Research Program. Europa y América Latina. De qualquer forma. 5 . A função social do advogado. principalmente. in Para viver a democracia. e n. New models of legal services in Latin America: limits and perspectives. e Fernando Rojas Hurtado.

p. quer na arena institucional.2. La transición post moderna: derecho y política. Doxa. 6. n. entendidos como não passíveis de fruição individual e exclusiva. a falta de Ver Boaventura de Sousa Santos. vem complementada pela desarticulação dos “sujeitos de direito” atomizados. À competição contrapõese a idéia de solidariedade. Direitos coletivos. Sem deixar de reconhecer que a relação individual/coletivo não é de exclusão. substituem a postura paternalista pelo trabalho de conscientização e organização comunitárias. O próprio conceito de liberdade deixa de ser individualista: a livre concorrência cede espaço para a liberdade coletiva. Paternalismo e organização Aos serviços legais tradicionais pode-se atribuir a característica de serem prestados a título assistencialista. é a de que a população pobre e desorganizada não tem condições de competir eficientemente na disputa por direitos. Pluralismo jurídico. Já os serviços legais inovadores estariam ocupados com casos que envolvessem “interesses coletivos”. movimientos sociales y prácticas alternativas. serviços e benefícios públicos. Ver. para uma projeção dessa “ética comunitária” no contexto latino-americano. Segundo Boaventura de Sousa Santos. Ser livre na comunidade e não ser livre da comunidade. também. 223263. comportam estratégias de tutela que também escapam à lógica individualista. La transición post moderna: derecho y política. Os serviços inovadores. Boaventura de Sousa Santos. 7. A população “carente”. quer no jogo das relações de mercado. p.. de um lado. nessa linha. p. 29-46. 7 . amparado em Apel. cit.2. 1991. A comiseração de quem presta os serviços legais. 8 Cf. n. Doxa. 2. 239. in El Otro Derecho. A ética que orienta essas ações é uma macroética.conflitos interindividuais. AIDS e Amazônia. por sua vez. A premissa fundamental. Antônio Carlos Wolkmer. mas sim de implicação. composta pelos indivíduos desprovidos de recursos para contratar advogados. Dito de outro modo. 1989. ante o perigo global da aniquilação nuclear e da catástrofe ecológica aponta-se para a necessidade da construção de uma macroética capaz de atribuir uma responsabilidade moral comum8. os serviços legais inovadores – enquanto “tipo ideal” – enfatizam substancialmente questões coletivas. mais compatível com as novas lutas sociais de uma época às voltas com problemas como Chernobyl. tem a condolência de profissionais orientados por espírito humanista e caritativo. Trata-se de uma microética vinculada a uma forma jurídica também particularista: o direito liberal7. de outro. A ética que permeia essas relações atribui responsabilidades morais aos indivíduos e às ações individuais.

de parte do tipo tradicional de assistência legal. Admitida a tese de que o poder circula em diversas esferas da sociedade – ao nível doméstico (patriarcado). quais as finalidades e procedimentos necessários para a formação de uma sociedade civil. a título de exemplo. é o livreto intitulado Como constituir uma sociedade civil sem fins lucrativos. de Daniel Rech. o trabalho feito pelo Instituto Apoio Jurídico Popular. incluída na coleção “Socializando Conhecimentos” — título que. no tipo inovador existe a preocupação com a superação dessas restrições. a posição de classe ou a pobreza do cliente. Ada Pellegrini Grinover sugere “rever o antigo conceito de assistência judiciária aos necessitados. implica também o reconhecimento de diferentes instâncias de juridicidade – o direito doméstico. . O manual ensina. também. mas do público em geral. ao nível da cidadania (dominação) e até ao nível mundial (relações de troca desigual) – . não podem ser tomadas como critérios exclusivos de definição de prioridades de uma tipologia inovadora dos serviços legais. o pequeno litigante nos novos conflitos que surgem numa sociedade de massa. o direito territorial e o direito sistêmico –.consciência a respeito dos próprios direitos e a incapacidade de transformar suas demandas em políticas públicas são combatidas com o trabalho de esclarecimento e organização popular para a defesa de seus interesses9. o que. após uma triagem capaz de identificar o estado de pobreza do demandante. fragmentadas e 9 10 11 Vale mencionar. a assistência judiciária não significa apenas assistência processual. Em contrapartida. com as reais necessidades econômicas de sua clientela. de um lado. o direito da produção. necessitados não são apenas os economicamente pobres. O atendimento é feito. por vezes. a abertura para a tutela de todos esses direitos11. mas todos aqueles que necessitam de tutela jurídica: o réu revel no processo-crime. Uma de suas publicações de maior sucesso. Aponta. com minúcias de detalhes e em linguagem bastante simples. pressupõe abertura não apenas para as carências legais do “pobre”. Nesse sentido. porque. inclusive “extraprocessual”. por sua vez. já revela o esforço de conscientização a respeito de temas jurídicos —. de outro lado. do Rio de Janeiro. Outra diferença reside na preocupação. há que reconhecer. por si só. ao nível da produção (exploração). e outros mais que podem emergir em nossas rápidas transformações sociais”10. “a absoluta necessidade do fortalecimento dos organismos de base e de se incentivar os pequenos produtores e as organizações de trabalhadores a encontrarem formas alternativas de encaminharem as suas lutas e iniciativas”. e porque. As relações de poder e as violações de direitos estendem-se por diversas. nessa área. na tipologia dos serviços legais inovadores. A “necessidade de tutela jurídica”. se bem que desempenhando um papel essencial.

Daí a correlata diversificação dos mecanismos de “acesso à justiça”. em outros termos. complementada pela postura apática e passiva dos segundos. os livros e a autoridade técnica do bacharel determinam o lugar de quem fala e de quem ouve. A gravata.3. também é certo que a expansão dessa lógica democratizadora depende da conscientização e organização social para a democratização das outras esferas de juridicidade. Confere a seu conhecimento profissional uma função social que suplanta a harmonização ou solução de litígios individuais. o despejo. complementada pela postura reivindicante e participativa da clientela. Se é correto que o direito estatal – a esfera da cidadania e do direito territorial – possui alguns controles democráticos de sua produção. quem age e controla a situação é o advogado. Isso significa. Apatia e participação O modelo tradicional de serviços legais – individualista. o crime). Os serviços legais inovadores – coletivistas e organizadores da comunidade – orientam-se na direção de um entrosamento diferenciado entre clientes e advogados. Os tecnicismos dos procedimentos judiciais. ao contrário das demais instâncias jurídicas. Obviamente. e retornar para casa. a sala acarpetada. mediante uma série de índices. o problema constrangedor (a separação. do manuseio dos Códigos ao diploma pendurado na parede. o palavreado difícil. Ao cliente cabe expor seu problema ao jurista. se for o caso. tornam o cliente anestesiado diante da lide. que a sacralização da via processual e da adjudicação formal e individualizada – própria dos serviços legais tradicionais – pode embotar o processo de descanonização do direito estatal e reconhecimento das situações de pluralismo jurídico – típicos dos serviços legais inovadores. mas também às práticas informais e alternativas de juridicidade. O advogado coloca-se como um entre os participantes de uma luta ou postulação jurídica que beneficiará toda a comunidade. Da indumentária ao vocabulário. aliados à demora dos processos. paternalista e assistencialista – pressupõe uma relação hierarquizada entre advogados e clientes.intercruzadas esferas da sociedade. Procura-se estabelecer uma relação de coordenação entre os atores. do local de atendimento à postura na relação dialógica. estabelecendo uma subordinação do cliente ao saber do profissional. esta relação horizontal é . O formalismo no atendimento à clientela vai.2. 2. tudo cria um ambiente desconhecido e enigmático para a clientela. assinar a procuração. A partir daí. Não apenas à justiça estatal.

moral ou religiosa. A organização popular. Um deslumbramento que nos impede de ver.estabelecida por outro conjunto de símbolos que facilita a identidade: comunidade política. 52-56. Essas estratégias mobilizatórias estão vinculadas não apenas à natureza coletiva dos interesses tutelados. fazer greve. geralmente nos bairros periféricos. Não importa. muitas vezes o Legislativo e o Executivo. À clientela compete não apenas apresentar seu “problema” ao advogado. Em última instância. mas principalmente com a arena institucional destinatária das demandas – nem sempre o Judiciário. Ao contrário. Movimentos sociais e políticas públicas. saber se advogados participaram ou contribuíram para aqueles movimentos. pode ser retirado da prática. ainda que sem preocupações com a problemática jurídica. Mistério e desencantamento O direito possui uma aura de mistério que lhe confere um caráter sacralizado. especialmente p. notadamente os dados a respeito de como a clientela tomou conhecimento dos serviços legais das entidades pesquisadas e do grau de politização e conscientização quanto aos seus direitos. 12 . dos movimentos sociais por saúde na cidade de São Paulo. durante certo período. O “acesso à justiça”. Um exemplo bastante nítido dessas estratégias. Até a delimitação das áreas atendidas pelos serviços de saúde levou em consideração a mobilização popular.4. linguajar e indumentária despojados. atendimento descentralizado. 2. inclusive com reflexos sobre a eficácia da própria legislação estatal. necessariamente. o Executivo é o escoadouro dessas demandas. para os efeitos deste ensaio. fez com que projetos de saúde fossem montados por grupos de trabalho constituídos por técnicos da Secretaria de Saúde e representantes de movimentos reivindicatórios. aliada à ampla mobilização participativa de bairros da periferia da cidade. pelo Judiciário.2. São Paulo: Cortez. falar Para um detalhamento dessas práticas. chamar a atenção dos meios de comunicação etc. fazer “barulho”. O que interessa é demonstrar como a participação ativa dos “consumidores” do direito pode desempenhar uma função relevante e de bons resultados na estratégia dos serviços legais inovadores13. 1989. no caso de um direito social como o direito à saúde. podem ser reveladores do perfil mais “tradicional” ou “inovador” das assistências jurídicas investigadas. Uma magia mística que se refere “àqueles relatos que cumprem funções legitimadoras na sociedade pelo deslumbramento”. acampar em frente ao fórum ou aos prédios públicos. 13 Os levantamentos de campo desenvolvidos na pesquisa Justiça em São Bernardo. mas sim pressionar. ver Pedro Jacobi. não passa. “a operacionalização da lei do Sistema Nacional de Saúde” foi condicionada pela capacidade postulatória das mobilizações12.

de não iniciados. O desencantamento da lei passa. cabe ao jurista mostrar o caminho. O domínio dos segredos da lei faz do advogado o prestidigitador dos direitos de sua platéia atônita. como já se disse. 2. é uma magia emancipatória. Enquanto a promoção tradicional dos direitos individuais vem circunscrita pelo formalismo das posturas legalistas – o que delimita os problemas que podem ser selecionados pelos serviços legais e estimula a apatia e desconfiança do público quanto à eficácia de sua defesa –. a parcial ruptura do monopólio dos advogados. subentende-se a relativa incapacidade dos tutelados15. Legal e extralegal 14 Cf. “uma força mágica que direciona nosso encantamento pelo poder. São Paulo: Acadêmica. p. as estratégias inovadoras buscam mecanismos mais flexíveis de defesa dos interesses em questão. centrada na separação entre ciência e senso comum. Confunde-se. a magia embutida nessas práticas legais inovadoras.2. utilizada a seguir. 18 abr. de um lado. Introdução a uma ciência pós-moderna. 16 Ver Boaventura de Sousa Santos. A operacionalização desse saber competente desdobra-se em dois lances. A postura de uma assistência jurídica inovadora procura romper com essa sacralização em vários níveis. da ciência e do poder perfeitos pela redescoberta das suas imperfeições e pela recuperação da autonomia das massas. sua clientela. Isso possibilita.Por fim. A comparação entre magia mística e magia surrealista. . na trilha de Warat. Folha de S. Manifesto do surrealismo jurídico.e desejar. por um processo de educação jurídica popular e treinamento paralegal capaz de habilitar a comunidade para a autodefesa de seus direitos. Luis Alberto Warat. precisa ser conduzida para a realidade das normas jurídicas. No segundo lance.5. o advogado com o tutor. é de Warat. Paulo. inclusive auxiliando a clientela a perceber seus problemas como também legais e discutindo os remédios jurídicos disponíveis ou passíveis de criação pelos atores envolvidos. No primeiro. 33. a ultrapassagem dos cânones da cientificidade moderna. Os advogados: a tentação monopolística. a lei e o saber das ciências”14. Substitui a idolatria da lei. 1988. a mágica é reforçada pelo monopólio dos advogados para pleitear em juízo. 15 Ver Joaquim de Arruda Falcão. 1988. De outro lado. Os serviços legais tradicionais parecem tomados por essa magia. de algum modo. permite uma ruptura epistemológica capaz de estabelecer uma relação dialética entre o conhecimento dos doutos e o saber popular16. pela separação rígida entre o saber científico e o senso comum: o advogado conhece os meandros da lei e da ciência do direito. 1988. Rio de Janeiro: Graal.

desse modo. preliminarmente. sem sequer os mecanismos processuais de igual tratamento dos litigantes. não tanto pela estratégia legal mas pela concepção despolitizada. 1988. em conjunturas políticas pautadas pela “crise do Estado”. justiça e utopia. Explorar as contradições do próprio direito positivo”17. finalmente. A crise do direito numa sociedade em mudança. 17 . podem representar estratégias de enfrentamento entre partes desigualmente equipadas para a luta e. Ele tem. sob a capa de um participacionismo democrático. “livre negociação” e “assembléias dos interessados”.A tipologia “ideal” pode ser aprofundada e mais bem especificada a partir da estratégia utilizada pelos grupos de assessoria jurídica. pode representar arbítrio. Dizer que o legalismo representa os “serviços legais tradicionais”. já representa uma alternativa ao povo empobrecido. em países como o Brasil. Brasília: UnB. reivindicado positivação de situações novas. Direito. Um direito autônomo. “Entendimento nacional”. separado da política. Apesar disso. por meio de uma espécie de assistência judiciária. em geral. valorizando a racionalidade formal e a regularidade do procedimento e. Esta é a alternativa: pedir o cumprimento das leis que já existem. centrando suas preocupações na análise estrutural da norma. pouco importando o que se postula. é simplificação incondizente com o quadro de ineficácia do nosso direito positivo. reduzindo a legitimidade à mera legalidade. levado os pobres a bater com mais freqüência e mais interesse nas portas dos tribunais e dos gabinetes. O movimento de direitos humanos não tem. Nunca é demais lembrar que o abandono do legalismo. o que é ainda mais grave. vale fazer o alerta de que nem sempre a postura “vanguardeira” na luta pelo “acesso à justiça” é antiformalista. a via legal como um campo a ser ainda conquistado. ou seja. A concepção de direito que está por trás desse legalismo também é tradicional. só pode José Reinaldo de Lima Lopes. Por isso. in José Eduardo Faria (org. prossegue o mesmo autor. Ao contrário. o simples fato de postular em juízo. descumprimento de direitos até constitucionalmente assegurados. pode-se associar esse legalismo aos serviços legais tradicionais. Associar os serviços tradicionais à utilização de caminhos legalistas e os serviços inovadores ao recurso a espaços extralegais pode induzir a erros. omissão estatal e “flexibilização”. José Reinaldo de Lima Lopes sintetiza essas posturas: “Na verdade a grande alternativa é os pobres se valerem do direito vigente.). tecnicista e de mera reação à violação de direitos. o “positivismo de combate” e o “uso alternativo do direito” encontram. Aliás.

em oposição. Na tipologia tradicional o “acesso à justiça” é confundido com o acesso aos Tribunais. Feita a contabilidade. Os serviços legais inovadores são orientados por uma lógica distinta.. valem-se de uma crescente politização das demandas. Por isso. com Isso tem levado muitos juristas “a sofrer uma profunda decepção a respeito dopapel que pode desempenhar o direito — e. 1986). O litígio clássico. o sistema judicial — na tarefa de organizar a sociedade de forma mais justa. uma certa fé nas possibilidades de uma ação legislativa que se executa. seja juiz – à aplicação automática. a adjudicação clássica ainda possui limitações. Os direitos sociais dependem. da implementação de políticas públicas. especialmente no nível legislativo e administrativo. Este é o caso dos que têm renunciado a possibilidade de utilizar ‘politicamente’ o litígio judicial. rotineira e totalmente desprovida de criatividade18. Adota. uma postura preventiva – evitando a ocorrência de lesões – e agressiva. vários autores. Os serviços legais inovadores socorrem-se de armas opostas. O “acesso à justiça” é visto de forma mais ampla como o acesso aos benefícios jurídicos em geral. além de mais rápido e eficiente. Havendo disponibilidade de espaços políticos. para sua eficácia. mais particularmente. os serviços legais alternativos podem mobilizar recursos para além da arena judicial. O Judiciário é apenas um dos locus de atuação dos serviços legais. e o advogado litigante vai ainda mais longe. Primeiramente. praticamente. Quito: Ilsa. a assessoria legal não se limita à reação diante de direitos violados. Nesse jogo. pela via administrativa” (Fernando de Trazegnies. A hermenêutica formal é substituída por uma exegese socialmente orientada. Além disso. Por exemplo: numa ação de despejo a procedência do pedido significa tudo para o locador (imaginem-se. resulta num jogo de soma zero: autores e réus ganham e perdem cotas equivalentes. pode ser mais adequado na defesa dos direitos aos serviços legais. a adjudicação clássica cede lugar a técnicas de negociação. O Judiciário é o locus privilegiado de atuação dos serviços legais. valendo-se da “guerrilha” jurídica também como instrumento de expansão e conquista de novos direitos. 10 pontos). ao contrário. a conscientização social tanto de advogados quanto da clientela é muito importante. está na ‘geladeira’à espera de que alguém a descongele e a ponha em ação.. ainda. in Los abogados y la democracia en América Latina. limitando-se a conservar. Recorrer a outras arenas. Este autor examinou. para o locatário. menos 10 pontos). El rol político del abogado litigante. pois faz do direito uma operação de guerra”. Nesse campo. Esse alguém é precisamente o advogado ao assessorar seu cliente. donde a expressão “assistência judiciária”. a duras penas. barganha e arbitragem que chegam. o jogo é de soma zero. objetivando a adjudicação tutelada pelo Estado.. a possibilidade de o advogado tornar-se “um verdadeiro ‘agitador’ político que leva a cabo uma ‘guerrilha’ privada com as armas do direito”.conduzir o jurista – seja ele advogado. E mais: “Enquanto a norma existe em um texto legal. a decretação do despejo significa a perda de tudo que está em jogo (isto é. 18 . numericamente.

Richard L. vale dizer. Abel. O relatório final do “Comitê Britânico de Assistência Legal aos Pobres” (1928). UCLA Law Review. isto é. em suas primeiras manifestações. p. e a possibilidade de ampliação do rol de precedentes – a agir com agressividade na direção de ganhos institucionais. The law and social control. 1985. Controle da litigiosidade e explosão dos litígios A história da assistência judiciária está associada ao aprimoramento dos mecanismos de controle social. seria o de trazer o cliente de volta para a realidade. para mostrar não haver violação de direitos em muitas das reclamações do povo19. ou seja. New York: Glencoe Press. demonstrar a inconsistência de sua pretensão e reforçar a “lei e a ordem”20. geralmente. 2. que o resultado dessa orientação jurídica popular servia. A ficção de um ordenamento jurídico completo. como um instrumento de redução dos conflitos. mas inibe a litigiosidade. 32. O papel do advogado. Na verdade. como já havia sublinhado Talcott Parsons em outro contexto. coerente e livre de lacunas é substituída pelo reconhecimento das ambigüidades do ordenamento e pelo advento de um “Estado paralelo”. Isso força os serviços legais alternativos – considerando a relevância social do caso. a assistência legal foi concebida. Os serviços legais de corte tradicional. Por isso Erhard Blankenburg associou a ajuda legal – uma criação estatal orientada pela Ver. na tipologia aqui desenvolvida. formalista e inflexível do direito privado. e não mais a racionalidade individualista. 19 . de controle de litigiosidade. nesse sentido.2. Atitude similar é apontada por Abel para os Estados Unidos até a década de 1960 e para a Alemanha tanto no período de Weimar quanto na era nazista. a jogos com soma diferente de zero. também. A lógica que orienta essa atuação jurídica é de direito adminis trativo. enquadram-se nessa linha. As rotinas burocráticas apresentam-se como camisas-de-força para a solução de problemas inéditos e pouco amoldáveis ao estoque de soluções jurisprudenciais. ainda que individual. 485.). 20 Ver Talcott Parsons. onde todas as partes conquistam algumas garantias. já ressaltava ser mais conveniente desenvolver um sistema de aconselhamento legal aos pobres do que encorajar os litígios. Law and sociology.freqüência. à margem dos mecanismos institucionais do Estado de Direito. envolvendo certa “privatização do direito público”. in Willian Evan (org. Sublinhava.6. por exemplo. O mercado admite a competição e a concorrência. sociais ou legais que garantam mais direitos para os pobres. v. Law without politics: legal aid under advanced capitalism. 1962.

nos termos da dicotomia aqui utilizada. Law without politics: legal aid under advanced capitalism. A explosão de litígios. 6.. inclusive Tribunais. Abel. exatamente por seu apego às estratégias forenses. 21 . no Brasil. 586. Nesse prisma.“raison d’État” – ao aparecimento das “classes perigosas”. Isso se desenvolve. Os serviços legais tradicionais. Tudo à margem de qualquer controle eficaz por parte das instituições estatais. também assume feições muito distintas. ou seja.7. Mais do que isso: os serviços legais inovadores procuram enriquecer os litígios e buscar novas formas de demandas22. rapidamente. de outro. é dado pela ineficácia das sucessivas políticas antiinflacionárias: congelamentos de preços e salários. Bogotá. o desenvolvimento de mecanismos inéditos de revitalização das lides jurídicas – freqüentemente à margem da adjudicação forense. O currículo das escolas de direito apenas Apud Richard L. in Documentos — Porta Voz. têm sido sistematicamente violados por composições entre indústria e comércio ou acordos setoriais entre empresários e trabalhadores. de um lado. 2. numa situação concreta de crise econômica e social. A questão política. (b) individualizados. contudo. agrava e realça a grande ineficiência do aparato judicial. Especialmente a partir da década de 1960 a ajuda jurídica vai.). trivializados e banalizados pelas rotinas jurídicas a fim de que tenham (c) seu impacto político controlado por um discurso aparentemente técnico (a letra da lei) e institucionalizado (o litígio judicial). assinala Germán Palacio. 1990. trocando a imagem de instrumento de controle social pela concepção da assistência legal enquanto ferramenta de um “acesso igualitário ao direito”. Exemplo gritante. o aumento da litigiosidade e. UCLA Law Review. ainda. apesar de fixados em lei. econômica ou social eventualmente conexa com a atividade jurídica fica eclipsada pelo tratamento formalista dado aos casos. Accés à la justice et État-providence. 22 Ver Germán Palacio. Paris: Economica. Daí a combinação entre. Prácticas jurídicas alternativas. não é a única leitura possível do papel das assistências legais. a partir disso.2. cit. in Mauro Cappelletti (org. 1984. a classe trabalhadora e o lumpesinato21. são formados por equipes com profissionais saídos exclusivamente das faculdades de direito. (a) os conflitos sociais são transformados em contendas jurídicas e. Possibilité de transplanter d’un pays à un autre les experiences touchant l’accés à la justice: ses limites. Ver. p. n. Essa. Advogados e multiprofissionalismo O corpo técnico dos serviços de assistência legal. Erhard Blankenburg e Udo Reifner. notadamente na América Latina.

. Law without politics: legal aid under advanced capitalism. um esvaziamento do papel do direito no conjunto das estratégias de transformação social. Demandas clássicas e demandas de impacto social Os serviços legais tradicionais ocupam-se de demandas jurídicas clássicas. a perspectiva multidisciplinar tende a resgatar ao direito e aos advogados funções até então encobertas ou desconhecidas pelos próprios juristas. Richard L. urbanistas. reclamações trabalhistas etc. p. Ao inserirem os problemas jurídicos no contexto mais amplo da realidade social em que se desenrolam. despejos. os serviços legais tradicionais não são capazes de construir uma “comunidade de sentidos”.. Pérez Perdomo. Equipes compostas por advogados e profissionais de outras áreas demonstram que o direito não é nem o principal nem o menos relevante dos mecanismos de mudança social.Caracas: Monte Avila Editores. quadros incapazes ou desinteressados em perceber criticamente esse obscurecimento da dimensão extralegal23. Não está presente o estudo dos problemas sociais do país nem se sensibiliza aos estudantes para os problemas jurídicos da população de baixa renda” (Rogelio Pérez Perdomo. assistentes sociais. cit.. analisando a situação de seu país. As carências coletivas. O que unifica a clientela. num primeiro momento. 24 Cf. essas equipes tendem a ser compostas por técnicos de diferentes áreas. 2. sociólogos. arquitetos. a educação dos advogados na Venezuela é basicamente informativa das regras e princípios jurídicos. Os serviços legais inovadores costumam combinar. Com isso. nessas hipóteses. Justicia y pobreza en Venezuela. . uma atuação sincronizada de engenheiros. O critério de definição da clientela redunda num agrupamento de casos que compartilham idênticas características individuais: separações e divórcios. é seu status de pobreza amorfa24. Tal assertiva. Caso típico de atuação jurídica conjunta com outros profissionais é o de urbanização e regulamentação de loteamentos clandestinos. mas apenas um dos muitos instrumentos de ação transformadora. Asistencia jurídica y acceso a la justicia en Venezuela. in Rogelio Pérez Perdomo (coord.reproduz. 1985). porém. administradores e. UCLA Law Review. advogados. em vez de forjarem as identidades necessárias para a construção de uma nova cidadania. obviamente. esse é o quadro dominante em toda a América Latina. Isso poderia sugerir.). Os serviços legais alternativos partem de outros marcos. Em verdade.8. em escala ampliada. no dizer de Richard Abel. exemplifica bem o quadro regional: “.2. sanitaristas. Abel. fragmentam-se em 23 Aliás. 596. só pode ser tomada como verdadeira desde a perspectiva de um serviço jurídico tradicional.

transação e barganha etc.9. Esse prisma. 26 A pesquisa Justiça em São Bernardo do Campo tentou mapear e aclarar algumas dessas questões. a perspectiva do usuário – indivíduo ou grupo – do serviço.. 322. a adjudicação institucional. A busca por essa “justiça alternativa” desdobra-se em dois lances: no plano processual e no terreno substancial. ver Rogelio Pérez Perdomo. de maneira decisiva. encorajamento à negociação.se-iam por uma conduta cimentada com a consolidação das economias de mercado: individualismo. as lides tendem a ser resolvidas quase exclusivamente por meio da adjudicação institucional-formal. n. norme e valori. Ética utilitária e ética comunitária Serviços jurídicos tradicionais e inovadores poderiam ser divididos.formal passa a concorrer com outros tipos de processos: juizados informais. Disso advém a relevância conferida aos sistemas alternativos de regulação dos conflitos e satisfação de necessidades jurídicas26. Sociologia del diritto e riforma del processo. 2. no sentido da restauração do “equilíbrio” individual das partes – o “dar a cada um o que é seu”. da seguinte forma.incontáveis situações singulares e aparentemente desvinculadas umas das outras. também. Amilton Bueno de Carvalho. Jurista orgânico: uma contribuição. p. Ver. Mais do que lidar com interesses difusos ou coletivos. concorrência. in Justicia y pobreza en Venezuela. No primeiro. Porto Alegre. não-intervenção do Estado na economia. p. Os serviços legais inovadores atuam no sentido oposto. calculabilidade econômica. envolve algumas dificuldades: qual o usuário da assistência jurídica gratuita? Que tipo de serviços espera da entidade? Qual sua percepção das próprias “necessidades jurídicas”? Dito de outro modo: o impacto social da atuação dos serviços legais é o dado fundamental. No segundo. a restauração de equilíbrio individual cede lugar a uma justiça preocupada com o encurtamento das desigualdades sociais – uma racionalidade regulada segundo as exigências das “maiorias desprivilegiadas”25. para os serviços alternativos interessa. como sublinha Pérez Perdomo. Vincenzo Ferrari. Ver. Os primeiros orientar. 25 . 142. 1988. Asistencia jurídica y acceso a la justicia en Venezuela. o objetivo político desses grupos também é contribuir para a afirmação daquele espírito comunitário já apontado. Enquanto para os serviços legais tradicionais o que mais importa é a perspectiva do advogado habilitado a resolver conflitos interindividuais num tribunal. participação popular na administração da justiça. nesse sentido. in Società. Para uma discussão metodológica sobre essas dificuldades.2. 19-21. ênfase a critérios de eqüidade. em princípio.. cit. cit. Revista Ajuris. Além disso. segundo a postura ética.

Duas são as perspectivas possíveis: uma que enfatiza as contradições no equilíbrio desses componentes. solidariedade. A questão é saber em que medida esses elementos são compatíveis entre si. As críticas ao equilíbrio entre Estado de Direito (liberalismo). H. outra que admite a harmonização desses elementos27. Isso implica estratégias restritivas de acesso à justiça e recuos no campo dos direitos sociais: uma ética utilitária. a partir dessas considerações. Claus Offe sustenta que as relações modernas entre Estado e cidadão no Ocidente baseiam-se em três componentes: liberalismo. crise do império americano etc. Os serviços legais alternativos. Também já não existem economias planejadas com o centralismo que balizou a União Soviética até meados da década de 1980. políticos e sociais – assentam-se na suposição de que as Cf. num momento de reordenação geopolítica dinâmico como o atual – unificação européia. desarticulação do Leste. Marshall. intervenção estatal no domínio econômico. relativa indistinção entre Estado e sociedade. in Capitalismo desorganizado. entre direitos civis. Claus Offe. Já não existem economias liberais no sentido imaginado pelos economistas do século passado.2. planejamento centralizado. pode-se sugerir a seguinte divisão. – a rigidez dessas dicotomias perde grande parte de seu poder explicativo. Certeza e justiça O apego à letra da lei. Postulados de eqüidade e expansão dos direitos sociais – fundados numa ética comunitária – orientam a ação desses grupos. A democracia contra o Estado do bem-estar?. aos formalismos e à observância estrita dos meios faz com que os serviços legais tradicionais busquem um objetivo: a certeza jurídica. na conhecida classificação de T. de outro lado. Os serviços legais tradicionais tendem a ressaltar as incompatibilidades entre liberalismo. Os segundos caracterizar-se-iam pela adoção da lógica da correção dos erros ou superação completa das economias de mercado: coletivismo. Disso resulta um conjunto de práticas jurídicas libertárias.10. a tipologia dos serviços legais. procuram insistir na integração entre os três dados. democracia e Estado de bem-estar. São Paulo: Brasiliense.separação entre Estado e sociedade. Estado Representativo (democracia) e Estado de bem-estar (prestador de serviços) – ou. Certamente. antiestatizantes e que redundam num alargamento do acesso à justiça. Retomando. 1989. 2. democracia e Estado de bemestar. 27 . queda do muro de Berlim.

ainda. ou seja. estão evidentemente associadas aos serviços legais tradicionais. coletivos ou informais. Ao reverso. Por isso. o tema “acesso à justiça” constitui um dos mais árduos e desafiadores. de outro podem conduzir a generalizações apressadas e simplificadoras. se de um lado produzem contrastes com razoáveis efeitos didáticos. desde que maximizassem a compatibilização. isto é. que. as demandas de impacto social e a ética comunitária. 2. as ações coletivas. no Brasil.3. Isso se agrava diante do fato de que praticamente inexiste. num quadro que levasse às últimas conseqüências essa combinação. possuem equivalentes extralegais? Os serviços legais inovadores enfatizam a organização popular.se: quais os mecanismos de reconhecimento e garantia dos direitos das minorias divergentes no interior desses movimentos? O símbolo da “identidade comunitária”. desde a perspectiva da sociologia jurídica. especialmente onde esta não . a consolidação de textos e autores díspares como os aqui mencionados pode induzir o leitor a erros. As garantias individuais asseguradas formalmente em lei. LIMITES EXPLICATIVOS DA TIPOLOGIA TRADICIONAL/INOVADOR As dicotomias. Apenas a título especulativo. as chamadas “liberdades liberais”? As regras do jogo democrático. Acrescente. tanto para a sociologia jurídica quanto para o direito processual. vale a pena lançar algumas indagações sobre os limites explicativos da tipologia construída. Indaga. sem balizamentos de certeza jurídica. de um prisma sociojurídico –.se. pautadas por princípios de obtenção do consenso e justificação da obediência. capazes de substituir eficazmente. no contexto atual. pelas dicotomias aqui apresentadas. Serviços inovadores estão mais próximos dessa posição. diferentemente do que poderiam sugerir os dois tipos aqui esboçados. a admissão da congruência entre aqueles três elementos baseia-se na hipótese de que cidadão e Estado estabeleceriam relações legítimas. literatura sobre o tema. É o caso de perguntar: existem sucedâneos.relações entre Estado e cidadão seriam ingovernáveis. deve-se ter sempre em mente os limites explicativos da tipologia aqui desenvolvida. constitucionalmente fixadas. Ainda que contenha pouco de original – visto que seu objetivo é somente fornecer ao leitor um painel sobre a temática da assistência legal gratuita.

realizada em 1990. A grande maioria dos dados aqui utilizados foi extraída da pesquisa Justiça em São Bernardo do Campo. a tutela jurídica das maiorias desorganizadas? O simples acesso de coletividades à arena judicial é capaz de provocar um reequilíbrio social? Enfim. TRADIÇÃO VERSUS INOVAÇÃO: PARADOXOS DA TRANSIÇÃO NOS SERVIÇOS LEGAIS DE SÃO BERNARDO DO CAMPO 3. fazer alguns esclarecimentos importantes para o leitor não brasileiro. mais do que meras provocações. . lançam um alerta contra a assunção ingênua de certos mitos e utopias em torno dos serviços legais.1. inicialmente – ainda que de forma resumida –. não pode servir como fórmula perversa de manipulação e controle social. as dúvidas e perplexidades sumariadas. freqüentemente. nessa hipótese. contudo. sob a capa de participação popular? A informalidade também é apontada. que os interesses dotados de maior capacidade de organização e conflito – típicos das sociedades neocorporativas – obtêm tutelas diferenciadas para interesses nem sempre majoritários. 3. ORDEM DOS ADVOGADOS E SINDICATO DOS METALÚRGICOS O objetivo do trabalho aqui é identificar que tipo de resposta dois dos principais serviços legais de São Bernardo do Campo ofereceram ao aumento da complexidade socioeconômica e político-institucional ocorrida nos últimos dez anos. Sabe-se. Questiona-se: esse potencial “emancipador” dos mecanismos alternativos de composição de conflitos – arbitragens. SÃO BERNARDO DO CAMPO. Cumpre. ávidos por fugir dos processos lentos. custosos e de resultados incertos que caracterizam nossas lides forenses? O acesso de grupos ao Poder Judiciário é festejado como um avanço em direção à justiça alternativa. composta também pelas cidades de Santo André e São Caetano. Como fica. São Bernardo do Campo situase na região do ABC. mediações e negociações informais – não tem sido muito utilizado pelos grandes grupos econômicos. como atributo das práticas jurídicas inovadoras.possui base real.

combativo e contando com a simpatia popular e o apoio da Igreja Católica. demorou apenas quatro anos. o Lula. E. a indústria nacional. Apesar de todo o esforço do regime militar (1964-1985) para manter desorganizada a sociedade civil. Autônomo. esse movimento tinha no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo sua entidade mais significativa. localizada nos arredores de São Paulo. caminhões e tratores. o lugar tornou-se pólo atrativo de mão-de-obra de todo o Brasil. Nessa época.Trata-se da área de maior concentração industrial do País.637 habitantes em 1990. a partir de 1957. Para que se tenha uma pálida idéia desse processo. Para produzir seu primeiro milhão de automóveis. surge um novo sindicalismo. A OAB é o órgão . O Sindicato possui um corpo de advogados que atende gratuitamente os trabalhadores da categoria metalúrgica.se no oitavo principal produtor mundial. Principalmente com a instalação e crescimento acelerado da indústria automobilística na região. concentrada no ABC. No final da década de 1980. convertendo. A outra entidade estudada será o serviço de assistência judiciária da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – subsecção de São Bernardo do Campo. entre 1970 e 1971. posteriormente candidato das esquerdas no segundo turno das eleições presidenciais de 1989. o País já estava atingindo a marca de um milhão de veículos por ano. algumas entidades conseguiram resistir e até mesmo crescer durante a ditadura. Durante a fase de reorganização dos partidos políticos brasileiros. Para chegar ao segundo milhão. ao longo da primeira metade da década de 1980. O impacto de todas essas rápidas transformações na estrutura urbana e ocupacional da nação logo repercutiu no meio trabalhista. o movimento sindical surgido em São Bernardo – juntamente com relevantes setores da intelectualidade de esquerda – desempenhou papel decisivo para a formação de um importante partido – PT (Partido dos Trabalhadores). demorou oito anos. Grandes greves foram organizadas pelo Sindicato entre 1978 e 1980. basta dizer que a população de São Bernardo do Campo saltou de 29. uma das principais lideranças foi o metalúrgico Luís Inácio da Silva. Trata-se de orientação jurídica não apenas à direção do Sindicato e às causas de interesse coletivo. mas também às demandas individuais dos trabalhadores. notadamente em São Bernardo do Campo. É exatamente o serviço jurídico prestado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo que servirá como um dos referenciais para a análise comparativa aqui desenvolvida.295 habitantes em 1950 para 648.

No Estado de São Paulo – do prisma econômico o mais importante da Federação –. representam judicialmente estes setores. na verdade. duas entidades importantíssimas na vida do País serão comparadas: o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e a Ordem dos Advogados do Brasil. conseqüentemente. Como as organizações político-partidárias sofriam incontáveis limitações para expressar a representação popular.representativo. a OAB – assumiram a posição de verdadeiras porta-vozes da população. procuravam enfrentar outra questão: delinear o perfil sociojurídico de clientes e profissionais da assistência jurídica em São Bernardo. permitem e sugerem interpretações significativas a respeito das fórmulas de resolução de conflitos utilizadas pelas entidades aqui estudadas. Durante o regime militar a OAB foi um destacado centro de resistência democrática. numa cidade com a complexidade de São Bernardo do Campo. para a prestação de assistência judiciária à população de baixa renda. Ambas as associações desempenharam um papel significativo na luta contra o regime militar e no processo de transição para a democracia. a OAB mantém convênio com o governo local. . inicialmente. 3. alguns dos elementos que compuseram aquele perfil. Por isso. mediante remuneração fixada previamente em tabela geral. adaptaram-se às novas condições políticas e econômicas do Brasil com o fim da ditadura? Que tipo de contribuição ofereceram na busca de fórmulas alternativas de acesso à justiça e resolução dos conflitos? Serão utilizados.2. como se verá. OAB VERSUS SINDICATO: DIFERENCIAÇÃO COMPARATIVA Vale a pena. com relevo. traçar um quadro comparativo sobre o perfil social dos clientes das entidades pesquisadas. pautando sua atuação pela luta intransigente em favor do restabelecimento do Estado de Direito. Apesar dos riscos metodológicos inerentes a esse transplante de dados. dados que. pertinente a seguinte indagação: como os serviços legais dessas duas entidades. Advogados designados pela OAB. para a tentativa de uma resposta. Só pode exercer a profissão o bacharel em direito aprovado em exame realizado pela OAB e. nacionalmente. Portanto. resumidamente. inscrito em seus quadros. dos advogados. algumas entidades da sociedade civil – entre elas.

permitem afirmar que a clientela da OAB tem o menor grau de instrução e a menor renda. Compõe. Isso revela maior familiaridade na identificação de problemas jurídicos e. mais do que isso. 37% dos clientes entrevistados responderam já ter procurado o serviço jurídico para a resolução de problemas anteriores. 40% têm ocupações domésticas ou são aposentados. Enquanto na OAB 50% dos clientes conheceram a entidade por meio de funcionários. Contrariamente. Já no Sindicato. Esses dados. . a clientela é informada da existência do serviço jurídico por uma atuação organizada e intencional: comissões de fábrica. São pessoas pouco habituadas a reclamar seus direitos. no Sindicato 48% souberam da existência do serviço jurídico por colegas de trabalho ou pelo próprio Sindicato. No Sindicato dos Metalúrgicos. Por exemplo: na OAB (talvez em decorrência. acrescidos a outros coletados pela pesquisa Justiça em São Bernardo. A projeção desses elementos reaparece de maneira vigorosa em diversas facetas do perfil da clientela desses serviços legais. 58% têm apenas o curso primário iniciado ou completo. um vizinho.Na OAB. em grande medida. 54% da clientela é da cor negra ou parda. a consciência da necessidade da luta pelos direitos. um funcionário do próprio serviço jurídico etc. nunca entrou em contato com a entidade por problemas jurídicos anteriores. 56% ingressaram ou completaram o curso ginasial ou até mesmo os cursos secundário e superior. no Sindicato. por exemplo. entre outros fatores. desse grau de instrução e renda mais baixos) a maior parte da clientela (97%). fazem a indicação. delegados do Sindicato e companheiros de trabalho. aquilo que Richard Abel designou por “status de pobreza amorfa”. advogados e outros clientes e 27% por órgãos públicos. e apenas 1% por meio de órgãos públicos. 61% são naturais de outros Estados. com relação aos mesmos indicadores. 57% são naturais de outros Estados da Federação. 54% têm ocupações na indústria. 71% têm renda individual de até 3 (três) salários mínimos. 69% têm renda individual entre mais de 3 e 10 salários mínimos. os percentuais são os seguintes: 76% da clientela têm cor branca. Também reveladora desse aspecto é a articulação da clientela quanto à forma pela qual toma conhecimento do serviço de assistência jurídica. Na OAB o contato do cliente com o serviço jurídico é aleatório e acidental: um amigo. incumbem-se de divulgar o serviço.

esse percentual se eleva para significativos 70%. Na OAB. parecem gerar eficazmente as condições necessárias para a consciência sobre os direitos. Os clientes da OAB. Mais do que isso: os direitos sociais decorrentes das relações de trabalho são reivindicados coletivamente. praticamente nenhum grau de organização. ao que tudo indica. isso exige organização da comunidade.A comunidade de interesses e a identidade coletiva criadas no ambiente de trabalho. 3. que a clientela da OAB tem menor renda. Vai-se definindo. mas também encoraja o indivíduo. identidade e articulação entre os diversos clientes e baixa taxa de vinculação a grupos políticos. SERVIÇOS LEGAIS E TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA . Curioso notar que nem mesmo entre os funcionários e advogados do serviço jurídico do Sindicato esse percentual é tão elevado: 52% dos funcionários e 68% dos advogados declararam-se filiados ou simpatizantes de algum partido. ainda. responderam majoritariamente esperar a satisfação individual (74%). No Sindicato o quadro é significativamente oposto. sabedor de que sua ação não é isolada. do nível de organização e do grau de expectativas dos clientes dos serviços legais pode trazer para a compreensão das fórmulas de composição e resolução de conflitos no Brasil contemporâneo? A parte final do texto tentará enfrentar essas árduas questões. pequeno grau de escolaridade. No Sindicato. a satisfação coletiva (19%). Como se explica perfil tão diferenciado de clientelas? Por que entidades tão importantes na resistência democrática e no processo de transição política brasileiros seguiram rumos tão distintos? Que lições esse mapeamento da origem social. desse modo. A clientela do Sindicato respondeu preponderantemente desejar o crescimento da entidade (44%) ou. maior dificuldade para identificar seus direitos e postulálos em Juízo.3. apenas 37% dos clientes declararam-se filiados ou simpatizantes de algum partido. Apenas 27% da clientela do Sindicato aguardam exclusivamente a satisfação de suas necessidades individuais. a ser mais reivindicante. Esses dados são complementados pela resposta da clientela à pergunta sobre as expectativas quanto às entidades. como era de esperar. Essa suposta consciência jurídica encontra correlato na aferição do grau de engajamento político-partidário das respectivas clientelas.

Florianópolis: Editora da UFSC. a atuação da OAB sempre esteve mais voltada à questão da governabilidade. por exemplo. geralmente com caráter marcantemente econômico. A postura geral do Sindicato dos Metalúrgicos (não exclusivamente de seu serviço jurídico). de outro lado. p. 28 .).Deixando um pouco de lado o serviço jurídico local e considerando a atividade nacional da OAB. convocação da Assembléia Constituinte. Naturalmente. Seu projeto de democratização lida com uma racionalidade menos apegada às elites estatais e partidárias. Crise política. Em outras palavras: democracia política foi o principal mote da entidade. ainda que sensível às grandes questões institucionais. realização de eleições diretas para a Presidência da República etc. ao reforço e proteção do sistema afetado. nesse sentido. preocupada principalmente com a ampliação dos direitos de seus filiados. Krischke (orgs. Igualmente difícil dizer qual posição dá maior vazão ao processo de redistribuição de poder que caracteriza as transições para a democracia28. Para isso. a reorganização do sistema político e o respeito às regras do jogo democrático (reconstrução dos Partidos. in E. Difícil responder qual das duas posturas conduz à reestruturação institucional capaz de expressar os conflitos e demandas sociais emergentes. São demandas provenientes da própria entidade. necessário retomar algumas das categorias utilizadas na tipologia “tradicional” versus “inovador” e compará-las com o perfil da clientela da OAB e do Sindicato. Tanto no regime militar quanto no período de transição para a democracia. 13-37. Movimientos sociales y democracia: los conflictos por la constitución de un nuevo orden.). Essas posturas mais gerais acabam refletindo-se também na dinâmica de atuação dos serviços legais da OAB e do Sindicato e interferindo na definição dos tipos de clientelas e metas das entidades. movimentos sociais e cidadania. Fernando Calderón Gutierrez e Mario R. 1989. é forçosamente específica. Ao enfatizar. em última instância. desenvolvendo mecanismos de adaptação à crise econômica brasileira. Scherer-Warren e P. J. complexo saber se essas atuações não acabam conduzindo. I. deve-se reconhecer que esta sempre ultrapassou os limites da simples representação corporativa dos advogados. Viola. Ver. o simples fato de a OAB fazer um atendimento generalizado à população mais pobre e desorganizada e o Sindicato um serviço específico a um grupo organizado já é o suficiente para acentuar os contrastes. algumas características desses serviços legais são reveladoras das fórmulas de composição de conflitos adotadas por esses grupos. a OAB sempre se preocupou com as grandes questões institucionais. Por fim. dos Santos. Entretanto.

17. antes praticamente alijados ou ignorados na arena judicial. o serviço legal do Sindicato pode contribuir para a criação de uma nova concepção de cidadania e de organização da sociedade29. vão crescentemente marcando sua presença e ocupando espaços político-jurídicos antes vazios. O fato de 97% dos clientes da OAB notarem a existência de uma triagem socioeconômica na seleção da clientela é revelador disso. “talvez pela primeira vez. n. 29 . O “novo” não significa tanto a utilização de canais inéditos de solução de conflitos jurídicos ou o recurso a um vago “direito alternativo”. em larga medida. como sugere Tullo Vigevani. 96. mesmo sem ser esse seu objetivo expresso. conseqüentemente. O fato de ambos os serviços legais aqui comparados terem enorme demanda de trabalhos realça ainda mais a grandiosidade da novidade. consciência dos seus direitos. é significativo notar o deslocamento do enfoque individualista da clientela da OAB para uma perspectiva coletivista no Sindicato. a necessária interação para a reivindicação coletiva induzem à mudança da postura paternalista da OAB para um trabalho de organização e engajamento da clientela. A partir disso. mais do que isso. de serem cidadãos”30. Movimentos sociais na transição brasileira: a dificuldade de elaboração do projeto. O caráter reiterado das demandas e. no caso do Sindicato. informal e extra-estatal. Desse modo. Apesar de não haver novidade nesses dados. ainda que veladamente. ou seja. p.A clientela da OAB é portadora de demandas individuais (77% dos casos atendidos são de direito de família) e. 1989). O ineditismo está assentado no dado fundamental de que setores populares. A falta de articulação interna e de laços de identidade da clientela da OAB sugere que seu serviço jurídico é prestado. espera que o serviço legal possa resolver o seu problema particular (74% têm essa expectativa). Lua Nova.. Não se pode dizer o que é mais relevante. cit. Lua Nova. No Sindicato 97% da clientela diz não perceber nenhuma triagem. 30 Tullo Vigevani. na linha de um auxílio paternalista e piedoso aos necessitados. setores da base da pirâmide social – que compõem parte significativa da clientela – ganham. Tanto a consciência dos direitos individuais presente nas demandas da OAB quanto a consciência dos direitos coletivos notada no Sindicato reforçam o mesmo fenômeno. a temática dos movimentos sociais sugere uma nova problemática: “a da possibilidade de criação de uma nova perspectiva de sociedade” e “uma nova estruturação do Estado” (Movimentos sociais na transição brasileira: a dificuldade de elaboração do projeto. No Sindicato predominam casos de direito do trabalho (87%) e a clientela tem a expectativa de resolução das dificuldades da comunidade (daí as respostas aguardando o crescimento da entidade – 44% – e a satisfação coletiva – 19%).

1984. deitava e rolava. 79101. Em suas palavras: “Nós não queremos que o advogado substitua o líder sindical. Isso resulta da combinação entre participação ativa dos demandantes e adoção de estratégias extralegais e extraforenses. Joaquim de Arruda Falcão. quando chegavam a um impasse. in Ilse Scherer-Warren e Paulo J. Krischke sintetiza bem essa situação: “O que exemplos desse tipo demonstram é que as mudanças na legislação e nas políticas públicas sobre problemas aparentemente restritos e limitados de fato acarretam reformulações mais gerais da política econômica do Estado e do próprio nível de participação dos setores populares no processo de decisões — que as autoridades tratam de atender devido à sua incidência social e à publicidade que tais movimentos têm ocasionalmente (nem sempre. Vicentinho dizia que na década de 1970 os trabalhadores se reuniam em assembléias. A relação era claramente hierárquica: o advogado como o mágico capaz de desvendar os enigmas aos trabalhadores. ao longo do tempo. 1987). episodicamente) influir na esfera política (legislativa. executiva) não apenas como recipientes passivos e dependentes do Estado. olhando. Uma das etapas da pesquisa Justiça em São Bernardo foi a entrevista realizada com o atual presidente da entidade. que logram assim (ainda que parcial. por sua importância social e impacto político. mas quando há conflitos e invasões) recebido dos órgãos de comunicação. fica claro que as reformulações das políticas oficiais referentes a tais demandas decorrem da iniciativa tomada pelos interessados. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo consegue. 32 O termo “cliente”. in Joaquim de Arruda Falcão (org. fazia de tudo. tendem a repercutir mais rapidamente nas políticas públicas e na própria aquisição de direitos. mesmo porque nunca aceitamos isso. Justiça social e justiça legal: conflitos de propriedade no Recife. A gente fazia a assembléia e o advogado pegava o microfone. 2. Quanto a esse aspecto. Conflitode direito de propriedade. Rio de Janeiro: Forense. v. Uma revolução no cotidiano? Os novos movimentos sociais na América do Sul. envolvendo o pagamento de “honorários” ao advogado. o sindicalista Vicentinho33. 31 . O Sindicato também cria um padrão inédito na relação entre advogado e clientela32. mas como reivindicantes ativos de direitos” (Movimentos sociais e transição política: contribuições da democracia de base. O caso das ocupações coletivas de propriedades privadas e públicas é significativo. tudo bem. “Cliente” sugere a existência de uma relação comercial. a atuação da clientela do Sindicato diferencia-se e inova com relação à da OAB31. não reproduz com fidelidade a relação existente entre usuário e serviço legal.). Paulo J. Se desse certo. vão sendo obtidas também por outras categorias profissionais.). São Paulo: Brasiliense. No passado era assim. 269-292. convocavam o chefe do serviço jurídico para oferecer uma solução ou encaminhar a discussão. ainda segundo o líder sindical. Vicente Paulo da Silva. Em nenhuma das entidades pesquisadas o usuário paga diretamente ao advogado pelo serviço prestado. conquistas que. Ver. e o líder sindical ficava na mesa sentado. discutiam longamente e. judiciária. ainda. Mas na hora que dava Algo semelhante ocorre com outros movimentos sociais. apesar de aqui amplamente usado. p. as demandas organizadas a partir da luta coletiva. a situação já era outra. 33 A entrevista integra a pesquisa Justiça em São Bernardo do Campo como um dos anexos ao relatório final. No final da década de 1980.De modo geral. p. Além disso. muitas vezes. Krischke (org.

ele tem de “compreender a vontade que ele representa”. que o advogado não pode arrogar-se a posição de condutor da clientela. A lógica dos movimentos sociais tem sido a de exigir soluções cada vez mais drásticas e profundas. colocar seu conhecimento e experiência em sintonia com essa vontade. Pode-se concluir. com base nelas. Paulo J. Vicentinho ainda dizia: “Nós questionamos as leis do país. Krischke. aos problemas da creche. Daí a necessidade de um novo patamar qualitativo na relação cliente/advogado. Cf. cit. Ao contrário. Movimentos sociais e transição política: contribuições da democracia de base. O advogado é advogado. ainda que experimentais. O dirigente é dirigente. ir à assembléia. água. Vai cumprir aquilo tecnicamente. A relação cliente/advogado deixa de ser de subordinação e passa a ser de coordenação. quem pagava eram os trabalhadores. Dito de outro modo: os serviços legais podem funcionar como importante instrumento dos movimentos sociais na busca de novas fórmulas de “acesso à justiça” e resolução dos conflitos. esgoto. fica claro que os serviços legais se valem da politização dos conflitos como arma na luta por novos direitos. Essa vontade nem sempre é a vontade da lei. conhecer a vontade dos trabalhadores e. casa etc. Não cabe ao advogado ir à assembléia dizer o que os trabalhadores devem fazer. quando fazemos um movimento. ele será um técnico. 34 . pela argumentação de Vicentinho. Não se pode confundir os papéis”. E tanto faz ser advogado como ser faxineiro. Cada um no seu devido lugar. pois se o advogado se formar para cumprir apenas o que está na lei. in Uma revolução no cotidiano?. como um engenheiro mecânico. Eu acho que o advogado tem que adquirir uma capacidade intelectual superior. O advogado tem que ter a capacidade de compreender a vontade que ele representa. os advogados têm um papel de assessoria.. ele tem uma obrigação para com a sociedade”. isto sim. Ele deve. É difícil. No nosso caso. A direção política é a gente que determina. Quando se nota que a clientela do Sindicato lida com as demandas de modo “continuado e cumulativo” (37% dos clientes entrevistados já tiveram problemas jurídicos anteriores) e que esta atuação é vista como um meio de acesso a direitos fundamentais da cidadania. 276-297. cozinheiro.errado. Esse “caráter continuado e cumulativo das demandas dos movimentos sociais frente ao Estado pode ser descrito como um processo de negociação permanente – que não implica necessariamente um padrão linear e evolutivo”34. Não vai evoluir. buscamos modificar essas leis. Então. p.

Entretanto. Entretanto. Há no Brasil um sentimento difuso. Até mesmo o Poder Judiciário foi objeto de poucos estudos no que diz respeito à sua contribuição para a transição democrática35. ter-se-á situação paradoxal de conscientização popular dos direitos típicos do século XX. sem uma prévia consolidação do respeito aos direitos individuais. Confirmados esses dados. de um lado. o Sindicato está mais perto dos serviços legais inovadores. 1989. . o combate sistemático e muitas vezes com bom êxito às políticas salariais fixadas em lei. Em qualquer dos casos – mas de forma muito mais notória no Sindicato – a demanda por direitos instrumentalizada pelos serviços legais representa uma faceta significativa e ainda insuficientemente estudada do processo de transição democrática. pelo menos em São 35 Entre os poucos trabalhos publicados. de advogados bons “técnica e politicamente”. CONCLUSÃO A título de conclusão. de outro. os serviços legais de São Bernardo do Campo objeto deste estudo aproximam-se da tipologia dicotômica da seguinte forma: a OAB identifica-se com os serviços legais tradicionais. e ao exame dos movimentos sociais como adversários ou “novos” interlocutores do Parlamento e da Administração. as declarações do presidente do Sindicato a respeito de seu descontentamento com a lei e. não raro com a anuência dos empregadores.).4. e José Eduardo Faria. apontam para o desenvolvimento de estratégias que ultrapassam a atuação jurídica formalista ou legalista. de que a população pobre percebe os direitos sociais e coletivos com maior facilidade do que os direitos individuais. 1991. mais do que isso. Os estudiosos da transição sempre deram muita importância à análise do Executivo e do Legislativo. Nesse contexto. nas palavras de seu presidente. Por isso o Sindicato necessita. o papel desempenhado pelos serviços legais no apoio e na integração com os movimentos sociais durante a transição ficou em plano secundário. São Paulo: Revista dos Tribunais.nem era objetivo da pesquisa Justiça em São Bernardo – nenhuma atuação deliberada dos serviços legais no sentido da utilização de um direito não estatal ou da exploração de situações de pluralismo jurídico. Justiça e conflito: os juízes em face dos novos movimentos sociais. Direito e justiça: a função social do Judiciário. pendente de melhor comprovação empírica. ver José Eduardo Faria (org. Não se constatou . São Paulo: Ática.

essa ressalva é enfatizada pelo próprio relatório final da pesquisa Justiça em São Bernardo. Aliás. pelas peculiaridades da cidade. boa parte da clientela do serviço legal do Sindicato nem sequer mora em São Bernardo (59% residem fora da cidade).Bernardo do Campo36. Restam. a elevada demanda por serviços legais. Se é verdade que o segmento metalúrgico possui uma sofisticada máquina de agregação de interesses e politização de seus filiados. Primeiro. a dúvida: por que o mundo jurídico responde com tanta lentidão e atraso às rápidas mudanças sociais. Aliás. a certeza: os serviços legais populares tendem a aumentar sua importância e resgatar a dignidade do direito na construção da ordem social justa. se não comprova um grau acentuado de “consciência” sobre direitos coletivos e individuais. não é menos correto que esse é um segmento minoritário diante do total da população de São Bernardo. quer com relação aos serviços legais. seria imprudente generalizar essas conclusões e dados para outras localidades e serviços legais. quer com relação ao Poder Judiciário. O fato de São Bernardo do Campo ser berço de um fortíssimo movimento sindical (a CUT – Central Única dos Trabalhadores – nasceu na região) e de uma agremiação política igualmente notória (o Partido dos Trabalhadores) de forma alguma significa a existência de uma sociedade civil florescente e organizada. demonstra o empenho da população pela satisfação de suas necessidades legais. quer no que se refere ao Ministério Público. Agregue-se a isso que o desenvolvimento sindical e político não é acompanhado por nada semelhante. 36 . as inovações ainda são tímidas e estão apenas iniciando. E. políticas e econômicas de São Bernardo? Para terminar. uma dúvida e uma certeza. para finalizar. Mesmo em serviços legais que demonstram grande esforço de adaptação à nova conjuntura do País (como é caso dos serviços jurídicos do Sindicato dos Metalúrgicos e da Municipalidade).

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