FISIOLOGIA DO ALGODOEIRO : ASPECTOS FISIOLÓGICOS NA PRODUÇÃO E NA QUALIDADE DA FIBRA DO ALGODOEIRO1 Napoleão Esberard de Macêdo Beltrão , Embrapa Algodão , e-mail

: napoleao@cnpa.embrapa.br RESUMO: O algodoeiro herbáceo ou anual ( Gossypium hirsutum L. raça latifolium Hutch. ) é uma planta de elevada complexidade morfológica e fisiológica, tendo metabolismo fotossintético do tipo C3, com elevada taxa de fotorrespiração, superior a 40 % da fotossíntese bruta, dependendo do ambiente, em especial luminosidade e a temperatura, que quanto maiores mais a planta do algodão fotorrespira, desassimilando o carbono, e assim reduzindo a fotossíntese líquida. Apresenta taxa de produção de matéria seca ou taxa de crescimento da cultura baixa, menos do que 15 g / m2 /dia, contra mais de 40 g / m2 / dia das plantas de metabolismo C4 , tendo um coeficiente de migração em torno de 20 %, considerando como produção econômica, o algodão em caroço. Dos componentes da produção, o mais importante é o número de capulhos por planta, sendo que o ideótipo do algodão é ter folhas pequenas e mais longevas, com movimentos diaheliotrópicos pronunciados, sementes pequenas, com menos de 7,5 g por 100 delas, elevado rendimento em fibra, superior a 40 %, ramos frutíferos plagiotrópicos, baixo teor de óleo e de proteínas nas sementes, com maior eficiência nutricional, resistência múltipla a doenças e se possível a pragas, maior número de sementes por fruto e com mais fibra por sementes . Considerando a fibra, principal produto do algodão, que é constituída de uma única célula, constituída por mais de 95 % de celulose, ela apresenta, quando totalmente madura, 25 camadas de celulose, cristalina, fibrilar e amorfa, situadas na parede secundária da fibra. Como parte viva da planta, a fibra recebe influencia constante do ambiente e apresenta diversas respostas ( strains ) aos estresses do ambiente ( temperatura , luminosidade, nutrição, por deficiência ou excesso, umidade relativa do ar, e outros fatores ) . A reflectância da fibra é junto da resistência e da finura, umas das características mais importantes na atualidade.

BELTRÃO. 1973 ) . com o máximo da densidade do fluxo radiante e tem potencial para produzir cerca de 17. ou seja 32 fardos internacionais de 217. BELTRÃO e GUERRA. de uma três dias. biológicas e bioquímicas. a produtividade média é menor do que 600 kg de pluma / há o que denota que pode-se elevar e de muito o suprimento internacional de algodão sem incremento na área plantada. frutíferos e vegetativos. em cerca de 34 milhões de hectares que são plantados. como ao aspectos nutricionais e o teor de dióxido de carbono da atmosfera. latifolium Hutch. interno. e as principais reações do seu metabolismo. em condições irrigadas e solo devidamente corrigido. Neste trabalho. tendo reduções considerais no crescimento com um todo. não se satura. bem como a sua . tais como a fotossíntese e a respiração.0 t de fibra ( STOSKOPF . AZEVÊDO. ou seja 4. caso não houvesse nenhum fator limitante da produção. Na atualidade. que ainda responde por quase metade da vestidura da humanidade. que cresce e se desenvolve por aproximadamente 50 dias. NÓBREGA e SANTOS. correspondente a 7. 1984 ). alem de vários sistemas enzimáticos ( ALMEIDA. 1984 e BELTRÃO et al. ) é uma fitossitema de elevada complexidade. possuidora de vários. tendo pelo menos dois tipos de ramos.50 t de algodão em caroço. mais de 3. dois tipos de hipnoblastos na base de cada ramo ( gemas axilar e extra-axilar ) e dois tipos de folhas.0 bilhões de seres humanos. e sem limitações físicas. procurou-se reunir informações sobre a fisiologia da planta do algodoeiro e como ele reage as mudanças do ambiente. ligados a fisiologia e a bioquímica da planta e externo como a estrutura da planta e seu dossel planofilar e do ambiente. inclusive o osmótico. 1997. A nível mundial.7 kg de pluma.INTRODUÇÃO O algodoeiro herbáceo ( G. 1997 ). sendo porem muito sensível a hipoxia e a anoxia. 1981 ) . a nível ecofisiológico. que é uma única célula. A fibra do algodão. É uma planta extremamente resistente a seca. mesmo por curtos períodos de tempo. 1992.0 t de fibra / há. r. faz parte integrante da semente e é o principal produto desta importante planta têxtil.1 . apresentando grande plasticidade fisiológica e assim fenotípica ( HEARN e CONSTABLE. do ramo e dos frutos ( Mauney. SOUZA. É uma espécie que apesar de ser de baixa eficiência assimilatória. que ainda pode ser considerado baixo e limitante da produção. BELTRÃO e SANTOS. de vários mecanismos de ajustamento. hirsutum L. 1993 ). elongação e deposição de celulose ( SCHUBERT et al. já se chegou a cerca de 10 t de algodão em caroço / há.

em geral menor do que 20 % . Dos componentes da produção o mais importante é o número de capulhos por planta e a resposta da planta a população é de natureza parabólica. Em condições de estresse hídrico. Ha correlação negativa entre o peso de 100 sementes e a percentagem de fibra.O ALGODOEIRO COMO UM FITOSSISTEMA MODULAR E TRANSFORMADOR DE ENERGIA A planta do algodoeiro. requer índice de área foliar de até 3. oriundo do alongamento celular e da multiplicação das células e o segundo é qualitativo. 2. denominada de extra-axilar.fibra. se amoldando conforme necessita para sua sobrevivência. Chega a ter na axila de cada ramo ou ponto de frutificação pelo menos duas gemas. e a fenologia da planta e suas fases. alem de ter uma partição de assimilados também de baixa eficiência. normalmente derruba ( Shedding ) 20 a 25 % dos botões florais e de 60 a 80 % dos frutos jovens. aumento irreversível de biomassa. 1974 ). ou seja seus estádios de desenvolvimento. devido a uma serie de fatores internos e externos. com índice de colheita. o que garante grande capacidade de frutificação e sua recuperação no caso de ocorrer algum agente estressor. envolvendo a morfogênese. Tem hábito de crescimento indeterminado. O algodoeiro apresenta elevada plasticidade fisiológica. sendo inferior a 1. sendo que o crescimento é quantitativo. ou seja. via processo fotossintético. alometria quase que perfeita entre a fitomassa epígea e a hipógea. A planta do algodoeiro. que chegam a consumir mais de 150 mg de açucares por dia (BELTRAO e AZEVEDO.1976 e LARCHER. como praticamente todas as espécies de espermatófitas. tem muito baixa eficiência na transformação da energia radiante em energia química potencial.2000 ). ou seja. seja abiótico ou biótico. regida por uma equação de segundo grau. para uma maior produção de óleo nas sementes. 1993 ). ocorre redução na quantidade de fibra das sementes. podendo chegar a mais de 4. que se traduz na capacidade de se adaptar aos mais variados ambientes. com até seis dias de idade. com saldo para o enchimento dos frutos. Devido ao sheddiing que tem . como ele cresce e se desenvolve e como os fatores do meio podem alterar a determinação genética.5 % ( MOTA. por deficiência. menor índice de fibras. sendo uma denominadas de primeira axilar e segunda axilar e às vezes tem uma terceira. sendo assim heterogônico e com desenvolvimento heteroblástico ( STREET e OPIK. que varia de 14 a 28 % co relação ao peso das sementes.

LIMITAÇÕES INTRÍNSECAS E EXTRINSECAS DO ALGODOEIRO PARA O INCREMENTO DA PRODUTIVIDADE E DA QUALIDADE INTRINSECA DA FIBRA 3-1 – Fatores limitantes relacionados com a morfologia. ataques de insetos e doenças. ou trofófilos verdadeiros.causas diversas. provocando baixa taxa fotossintética nas folhas sombreadas. . menos de 10 %. com baixas taxas de fotossíntese. . as Brácteas.83 mg de clorofila / g de fitomassa fresca contra 2. como deficiência nutricional. onde W= largura da folha e d é a distancia vertical entre duas folhas. não se saturando com o máximo da radiação solar . -Baixa transmissibilidade da luz via folhas. as três primeiras semenas da floração definem a produção e os frutos de primeiro e segundo pontos.28 g / g nas folhas . organografia e arquitetura da planta do algodoeiro. . mais de 10.Arquitetura planofilar. com coeficiente de extinção da luz ( K ) maior que um . e ao ajustamento das plantas.Pequena duração das folhas. cerca de 56 dias para as frutíferas. deficiência de luz. 3. o que aumenta o ângulo de oclusão da luz ( Y = tg-1 W / 2d ) . apesar de ser heliófilo . caso raro no reino vegetal.O algodoeiro apresenta metabolismo fotossintético do tipo C3 .Folhas com pequenas distancias entre si. 3-2 – Fatores limitantes relacionados com a fisiologia e a bioquímica da planta do algodieiro herbáceo . mais de 1. apresentando em média 0. .4 cal /cm2 / min. -Terceiro verticilo floral. dos ramos frutíferos do meio da planta são os mais importantes e definem mais de 90 % da produção. como foi dito anteriormente .

e tem elevado ponto de compensação de CO2 . devido ao sistema fotossintético ser ineficiente.No algodoeiro.O Algodoeiro apresenta muito baixa taxa de translocação de assimilados via leptoma e conseqüente acumulação de amido nas folhas . onde não ocorre a redução do NADP+ . a uma temperatura de 30˚ C . enquanto que a aparente.5 – difosfato carboxilase . 3-3 – Fatores limitantes relacionados com as condições do ambiente . a respiração de manutenção é da orcem de 26 mg de carboidratos /g de fitomassa e a crescimento é em torno de 540 mg / g de fitomassa.-O algodoeiro apresenta a reação de Mehler ( pseudo ciclo de transporte de elétrons clorofiliana .O algodoeiro apresenta a enzima de fixação do dióxido de carbono.Devido a ter elevadas taxas de fotorrespiração. ocorre competição entre a redução de CO2 ( fotossíntese ) e a redução do nitrato ( NO3 ) a amônia . . que pode inclusive causar ruptura das membranas internas dos cloroplastos.Em condições tropicais . a RUBISCO ( Ribulose 1. variando entre 60 a 120 ppm. em especial nas condições tropicais. que pode chegar a mais de 50 % da fotossíntese absoluta. a fotossíntese bruta tem seu ótimo a 32˚ C . -O algodoeiro apresenta elevadas taxas de fotorrespiração. devido ao aumenta da respiração oxidativa mitocondrial e da fotorrespiração. O Kp é expresso pela fórmula : ∑ Fb + ∑ R total / ∑ R e a respiração total e a soma da mitocondrial coma fotorrespiração.B . no processo fotoquímico da assimilação . ) pronunciada . o que reduz muito a fotossíntese liquida . . tendo atividade de oxigenase. que aumentam principalmente com o incremento da luminosidade e da temperatura do ar. começa a declinar já a partir de 22˚ C . de baixa afinidade catalítica pelo substrato . . -O algodoeiro apresenta muito baixo Kp ( Coeficiente Fotossintético ) em especail em condições tropicais .

devido ao baixo ponto de compensação térmico do algodoeiro.4 de glucose que possivelmente funciona como um Primer ou iniciador da síntese da celulose.Como planta de metabolismo C3 . Ela é constituída no inicio do seu crescimento e desenvolvimento até os 10 dias da antese de cerca de 30 % de açucares. Durante o crescimento e o desenvolvimento da fibra. a guanosina difosfato ( GDP ) – glucose na fase inicial do alongamento da fibra. aglutinados e citados por Beltrão e Azevedo ( 1993 ). que diz que não ha barreiras entre os fatores e modificando um deles. polímero de glicose energia solar cristalizada. submetida aos princípios mesológicos. fibrilar e amorfa ) no total de 25. é um dos principais fatores limitantes desta malvácea. no processo fotossintético. modifica os demais. envolvendo com substratos. em especial da temperatura. que são codificados geneticamente.A FIBRA DO ALGODÃO: CONSIDERAÇÕES GERAIS E SUA FUNCIONALIDADE.. reduz e muito a produtividade líqueda da planta. o teor desde composto na atmosfera na atualidade . do . com elevado ponto de compensação de CO2 . FATORES INTERNOS E EXTERNOS QUE ALTERAM A QUALIDADE INTRÍNSECA DA FIBRA A fibra do algodão sendo originária de uma célula viva ( SEAGULL e ALSPAUGH . ha forte interferência dos fatores do meio. cerca de 90 % é celulose (PARRY 1982). da umidade relativa do ar e da nutrição mineral das plantas. uma glicoproteina. ( as informações citadas nestes itens . primeiros 20 dias da antese e a Uridina difosfato ( UDP ) – glucose. sendo a semelhança da planta como um todo. 2001 ). . em especial os dos fatores limitantes e o do holocenotismo ambiental. que é predominante na fase do espessamento da parede secundária. onde ocorre a deposição das camadas de celulose ( cristalina . cerca de 360 ppm . deste trabalho são derivadas de dezenas de trabalhos científicos .A elevada temperatura do ar no ambiente tropical. tais como o aparelho de Golgi e suas vesículas e o retículo endoplasmático . A celulose é sintetizada em um complexo processo que ainda não esta totalmente elucida. entre outros. envolvendo varias organelas celulares. contendo ligações β -1. da radiação solar. aos 40 a 50 dias. reage a toas as variações do ambiente. A qualidade da fibra no final. tendo a participação de várias enzimas e co-fatores. Na síntese da celulose esta envolvido um composto denominado de Dolicol e seus derivados que fabricam um intermediário. 4. 15 % de proteínas e somente 12 % de celulose e no final. mediada pela clorofila.

dependerá dos genes e do ambiente e a global. Bahia. . 29 de agosto a 01 de setembro de 2005 . Salvador . V Congresso Brasileiro de Algodão. 1 Palestra apresentada na Sala Especializada sobre Meio Ambiente e Fisiologia do Algodoeiro .ponto de vista intrínseco. também da forma de colheita e de outros fatores externos.

. A. . P . LARCHER. BERLIN. NÓBREGA . da .W. B.C. J. H.A . BELTRÃO. BENEDICT . set. Nobel .. . N. 1997.KOHEL . 376 p.J. J .M . SP . OPIK . BELTRÃO .1. C. ) The Physiology of tropical field crops. Meteorologia agrícola . v. ( Eds. n.E. R. BELTRÃO . N .13 . W.M.P.Pesquisa Agropecuária Brasileira . Polígono. 1992.REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ALMEIDA .N . John Wiley &Sons .São Carlos . M . Campina Grande . 1974. de . Ecofisiologia vegetal. 108 P. Editora RIMA. F. 2000. Pesquisa Agropecuária Brasileira .27 .p. O . H. desenvolvimento e produção do algodoeiro herbáceo em condições de anoxia do meio edáfico.704-709 . . AZEVEDO . de . FISHER . SCHUBERT . dos S.J. B. E . ( EMBRAPA –CNPA . São Paulo . E .E. L.n. 1984 . de M. Da Universidade de São Paulo. Crop Science .v. da . p.R. . de . N.. Revista de Oleaginosas e Fibrosas . 1259 -1272 .S. de . SANTOS . STREET . 1997. 495-527. de M . SOUZA . Fisiologia das angiospermas . W. In : GOLDSWORTHY . .1973. D. PB :EMBRAPA –CNPA.. SP . Cotton fiber development – kinetics of cell elongation and secondary wall thickening . Modificações no crescimento e desenvolvimento do algodoeiro herbáceo sob saturação hídrica do substrato em casa de vegetação.H. 2000. Ecofisiologia vegetal.São Paulo .São Carlos . 1993. Crescimento e desenvolvimento .J. G . Defasagem entre as produtividades rela e potencial do algodoeiro herbáceo : limitações morfológicas . D. USA.p.E. dos . abr. de M .n. . 531 p. 39 ). W. Crescimento .G.M.D.1 . 391397 . 1976. de M. Ed. Influência da saturação hídrica do solo na fisiologia do algodão em casa de vegetação. SANTOS . P . A. O . Documentos . LARCHER.p. Cotton. New York .v. 0 . CONSTABLE . GUERRA . HEARN .A. AZEVEDO .R. MOTA . 315 p.63-71 .32 . p. fisiolófgicas e ambientais. BELTRÃO . 531 p. N. v. 4 .dezembro . Editora RIMA.

88 p. Cotton fiber develooment and processing an illustrated overview. G . ALSPAUGH .TAHA . G . En Egypte. p. . SEAGULL .v.P. Etude en microscopie életronique de la formation des parois des fibres du Gossypium barbadense L.44. . USA. PARRY . France : G-P Maisonneuve & Larose . 2001.1989. BOURÉLY . Coton et Fibres Tropicales .95-109 . Paris .n.R. . International Textile Center. 502 p. Texas . 1982 . Le cotonnier et ses produitos . M .2 . J .