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A rua, a praça, a feira e a matriz – O quadrilátero interiorano
Postado por Paralelo 10 em 02/06/2011 às 10:55 em Reflexões | Nenhum comentário

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O quadrilátero Interiorano – Um Olhar Missionário A tarefa missionária nas cidades do interior do nordeste brasileiro necessita considerar uma realidade que se encontra em absolutamente todas as cidades nordestinas. Desconsiderá-las seria o que chamo de evangelização de importação urbana, ou seja, tratar as cidades do interior como se fossem a metrópole do estado. Não sendo a questão da mentalidade urbana o nosso foco e sim os fatores de socialização, o quadrilátero social interiorano composto pela rua, pela praça, pela feira e pela igreja Matriz precisam ser considerados, entendidos e na medida do possível, utilizados na tarefa missionária das cidades do interior. Iniciando pela rua, é de especial significância desfazer a idéia de se concebê-la apenas como instrumento de deslocamentos. O nosso enfoque abraça a idéia de José Cantor Magnani, professor de antropologia da USP, o qual incorpora à rua o conceito de sociabilidade. O trabalho de Magnani apresenta a rua como fator de produção e ampliação da sociabilidade, pois quando as pessoas saem do seu espaço privado – a casa – e se encontram no público – a rua –, um processo de interação social se inicia. Em se tratando de cidades do interior, o “estar na rua” assume, com todas as letras, tal proposta. É na rua que os moradores se encontram para conversar. Ao final da tarde, os moradores das pequenas cidades ainda colocam suas cadeiras nas calçadas, cumprimentam os transeuntes que passam e são cumprimentados, sendo com freqüência, motivos de comentários. Nas ruas das cidades pequenas do interior, as pessoas constroem a sua sociabilidade. Essa sociabilidade produz um conhecimento “familiar”, tornando possível perguntar onde alguém mora e, se morar, será logo identificado. Tal realidade não pode deixar de ser considerada no planejamento estratégico missionário que se propõe a evangelizar as pequenas cidades. No interior é preciso viver a rua. Mesmo discordando da proposta de planificação pastoral da autoridade e autonomia da igreja defendida por Wolfgang Simson, a qual destitui a igreja de qualquer supervisão, não temos como deixar de reconhecer o importante papel que a casa inserida na pequena cidade do interior exerce no processo de evangelização. Morando na cidade e saindo à rua, o missionário encontrará oportunidades de relacionamento e conseqüente facilitação para o anúncio da mensagem do evangelho. Além da rua, destaca-se a praça como o segundo ângulo do quadrilátero. É a praça da cidade do interior que geralmente produz maior ação sociabilizadora continuada, é o ponto de encontro, justamente por ser a parte central da cidade pequena. Na maioria das pequenas cidades do interior nordestino, por razões econômicas, ainda não existe cinema, teatro, boates ou casas de show, opções normalmente disponíveis nos grandes centros. Tal fato transforma a praça numa espécie de local privilegiado de lazer e diversão, um verdadeiro encontro de pessoas e surgimento de novidades. Em algumas cidades é comum encontrar na praça uma tela montada para projeção de filmes, e em vilarejos pobres, ainda é possível encontrar na praça uma pequena edificação que, no seu interior, guarda um aparelho de televisão que é ligado à noite. Na praça, as pessoas se apresentam bem arrumadas. No vilarejo de Cumaru, a 110 km do Recife um grupo de jovens faziam uma pesquisa na cidade. As pesquisadoras decidiram usar roupas bem simples (Calça jeans, camisetas e sandálias havaianas) para irem à praça à noite, achando que este traje seria mais o adequado para uma cidade do interior. Para surpresa delas, elas passaram
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9 horas do domingo é hora sagrada e inegociável. 1. Já no que diz respeito à feira da cidade pequena.. O calor estava de matar! Ao olhar para o outro lado da rodovia fui tomado pelo espanto. esse acontecimento semanal incorpora mais do que fatores sociais. Não é estranho. cabelos penteados. diminuindo a velocidade por causa dos quebra-molas. frutas. às vezes com as mercadorias colocadas apenas sobre uma lona no chão. cidade a 210 km a oeste do Recife. No que se refere ao aspecto missiológico da feira. valorização e respeito do povo que preferiu `doar` tudo para a igreja. inclusive algumas de paletó e gravata. indo às feiras para distribuir e vender literatura bíblica e pregar o evangelho.. assim. me deparei com algo que chamo de tradição descontualizada. fato que não ocorria no passado com os missionários pioneiros no interior. Pensei tão alto que gritei: “Estão ali!” O casal de estudantes do IBN. era hora da escola dominical. todas as cidades do interior nordestino fizeram o seu desenvolvimento. etc.. Coincidência ou não. Diminuí tanto a velocidade que quase parei o carro no acostamento. Apenas para deixar claro. pessoas ali. um aspecto que não pode ser desconsiderado em hipótese alguma em uma proposta missionária.. consideramos a igreja matriz como a representação física da fortíssima influência do catolicismo Romano na formação da rede sócio-religiosa do homem do interior do Nordeste. http://ultimato. Era um emaranhado de ações e constante fluxo de pessoas indo e vindo. voltávamos de Garanhuns onde havíamos passado uma semana ministrando para os alunos do Instituto Bíblico do Norte-IBN. A matriz é o templo da primeira igreja católica. que estava no banco de trás viajando conosco.Paralelo 10 » A rua. aves. Vi na igreja umas 15. maquiadas à moda do interior. podemos afirmar com segurança que nas pequenas cidades do interior. e não raro se pratica o escambo – sistema de troca de mercadorias sem o uso de dinheiro.” Em termos antropológicos. Em torno da matriz. a matriz se apresenta imponente com suas torres na praça.000 habitantes. reconto a ação de um colportor em Caruaru que ao chegar na casa de uma senhora. a praça é um importante fator socializador. que tem neste evento a oportunidade de conseguir o dinheiro para o seu sustento. mas o relógio marcava 9:45h. Ele traz consigo um importante peso econômico para boa parte da população. nos deparávamos com senhoras bem vestidas.br/sites/paralelo10/2011/06/a-rua-a-praca-a-feira-e.2% de evangélicos.345 habitantes. símbolo do grupo social. Merece registro o que presenciamos na cidade de São Pedro-PE: Em um domingo pela manhã do verão nordestino. Além do aspecto de abastecimento e sustento. dela ouviu: “Se é crente. roupa. a feira e a matriz – O quadrilátero interior. na frente da igreja. nem incomum. face à maneira como as pessoas do local se apresentavam ali. Não raro. Ao contrário das grandes cidades. enquanto a maioria das casas segue o modelo simples de construção conjugada (a parede lateral da casa é a própria divisória entre a casa vizinha). no máximo 20. Seria infantilidade missiológica desconsiderar a herança católica que existe nos habitantes do interior. por “mal vestidas”. vindo de um pequeno templo à beira da rodovia. Ri um pouco e mostrei como a feira parecia um verdadeiro formigueiro em alvoroço. “pilotando” um carro de mão de construção para transportar as suas compras.com. Vivenciando essa realidade. porém eu prefiro a atitude dos colportores pioneiros (evangelistas que vendiam Bíblias para se manterem). e geralmente foi construído na cidade por seus fundadores ou pelo estado. carnes.425 moradores na área urbana e com apenas 2. com 13. eu digo logo que eu já tenho o sagrado 4 [5] 2 de 3 13/6/2011 13:57 . Eduardo Hoornear faz a sua leitura social ao alegar que “As igrejas [católicas] luxuosas contrastavam com as residências paupérrimas em redor delas: é que elas exprimiam os anseios de dignidade. Pergunto: Quanto poderia ser feito naquela feira em prol do Evangelho? Quantas pessoas não poderiam ser duplamente atendidas? 3 [4] O quarto e último ângulo do quadrilátero interiorano é a igreja matriz. Do lado direito ouvi o canto de um hino que me era bem conhecido. o terceiro ânulo do quadrilátero. Elas estavam ali. Já ouvi muitos evangelistas dizerem que ela é “um atrapalho”. parece que as igrejas desconsideram o seu uso como estratégia. Aqueles homens foram treinados para utilizar a religiosidade católica nordestina como plataforma para anunciar o evangelho. minha esposa. Chamou-nos a atenção o formigueiro humano em torno das barracas e a grande variedade de mercadorias. a feira refletia o típico cenário do interior. a feira desempenha um papel quase que de festa. a praça. quem imaginaria a Igreja poder estar na feira naquele horário? Para a maioria dos evangélicos. haver uma desproporcionalidade entre o porte da edificação da matriz e das demais construções da cidade. verduras. Ao passarmos pela cidade de São Pedro. estávamos em um dia de sábado observando a feira da cidade de Barreiros. constituindo-se. templo católico que invariavelmente ocupa o lugar de destaque na praça da cidade. Eu e Jamile. Pessoas fervilhavam de um lado para outro. Na feira das cidades do interior se vende quase de tudo. Mesmo considerando que se trata de uma cidade com cerca de 42. a viver numa separação individualista. perguntou: “Quem pastor? Quem?”. geralmente grãos. Em Casinhas. 120 km ao sul do Recife. era de uma Igreja Presbiteriana. assustado. algumas com sapatos de salto alto. Desconsiderando a o uso do dinheiro estatal financiador da igreja no passado. bem ali..

Petrópolis: Editora Vozes.com/antropologia/rua. missiólogo e professor do Seminário Presbiteriano em Recife Notas: 1 [6] José Guilherme Cantor Magnani. 387.aguaforte.jpg [2] 1 : #sdfootnote1sym [3] 2 : #sdfootnote2sym [4] 3 : #sdfootnote3sym [5] 4 : #sdfootnote4sym [6] 1: #sdfootnote1anc [7] www.aguaforte.com.. http://ultimato.com/antropologia/rua. Ver Wolfgang Simson.br/sites/paralelo10/files/2011/06/igreja_matriz. p 218-219.”. 4 [10] Hoorneart. Sérgio Paulo Lyra é coordenador do Consórcio Presbiteriano para Ações Missionárias no Interior. A mulher ficou interessada e o colportor encontrou uma oportunidade para contar a história da crucificação de Jesus. a praça. a praça. Revista Digital de Antropologia Urbana. Ela deveria se espraiar como a água corre no solo.com/antropologia /rua. a feira e a matriz.com. 3 de 3 13/6/2011 13:57 . O colportor calmamente respondeu: “E a senhora sabe o que fez o coração de Maria chorar?”.. Curitiba: Editora Evangélica Esperança. mostrando um quadro. p. 2004. a feira e a matriz – O quadrilátero interior.5 Brasil License.. Rua e a Evolução da Sociabilidade. Casas que Transformam o Mundo – Igrejas nos Lares. 1979. Curitiba: Editora Evangélica Esperança. Riolando e outros.Paralelo 10 » A rua.br/sites/paralelo10 Endereço do artigo: http://ultimato.aguaforte.br/sites/paralelo10/2011/06/a-rua-a-praca-a-feira-e. Bárbara Helen Burns. Disponível em <www.com. quatro ângulos da mesma cidade que marcam e caracterizam a realidade povo do interior do nordeste brasileiro e que não podem ficar esquecidos nem mesmo desconsiderados em qualquer planejamento ou ação missionária.com.br/sites/paralelo10/2011/06/a-rua-a-pracaa-feira-e-a-matriz-o-quadrilatero-interiorano/ Endereços neste artigo: [1] Imagem: http://ultimato. História da Igreja no Brasil – Ensaio de interpretação a Partir do Povo. “Missões nas Cidades do Interior” em Anunciai entre as Nações a Sua Glória. 2 [8] Wolfgang defende que a igreja deveria ter uma um estrutura plana e não verticalizada. Eduardo e Azzi. ed.. 2001.html [7] >. 3 [9] Sérgio Paulo Ribeiro Lyra. Artigo impresso de Paralelo 10: http://ultimato.html [8] 2: #sdfootnote2anc [9] 3: #sdfootnote3anc [10] 4: #sdfootnote4anc Paralelo 10 é um projeto da Editora Ultimato Ltda e está licenciado sob a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial 2. A rua. coração de Maria.html: http://www.