6 a 12 de junho de 2011

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Um espetáculo vivo
Teatro de bonecos, uma das mais refinadas formas de expressão do ser humano

Construindo o protagonista
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O boneco virou gente grande
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Entrevista exclusiva com Ana Maria Amaral

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Tocados pela arte
Nosso contato com a arte do Teatro de Bonecos durou intensos 12 meses. O que nos chamou mais a atenção, com toda a certeza, é o impacto que essa manifestação artística provoca em todos os seus espectadores, sem exceção. Se ela é poderosa dessa maneira, por que é tão pouco divulgada pelos grandes canais de mídia? Dessa dúvida partiu a certeza de que estávamos com o tema certo. A partir do primeiro espetáculo que presenciamos, o encantamento com o trabalho minucioso dos profissionais e o respeito com cada movimento e comportamento que os bonecos faziam foi aparecendo. Desde então, além da admiração com tamanha e rica arte, percebemos o grau de responsabilidade que iríamos ter para que não deixássemos nada daquilo escapar ao nosso leitor. Como acontece frequentemente no encontro de jornalistas com uma boa história, o trabalho maçante se tornou lúdico, o que era obrigação virou interesse e, aos poucos, os integrantes do grupo foram aprendendo a dar vida ao boneco, ver o mundo animado se criando através do inanimado. Foram pouco mais de 20 entrevistas, algumas das quais nem sequer entraram em nossa matéria final, porém os atores, diretores, técnicos teatrais, confeccionadores, espectadores, e todos aqueles que passaram por nossos gravadores, contribuíram um pouco para que nosso trabalho fosse bem concluído. Entre os locais visitados, fomos a teatros que incentivam muito essa arte, como o Teatro do Centro da Terra e o Teatro Alfa. Passamos dias inteiros com as principais Companhias de teatro de bonecos, para ver, de fato, qual são as dificuldades cotidianas encontradas por cada integrante, desde o diretor, até um iluminador. Também visitamos lojas de brinquedo dedicadas exclusivamente à comercialização dos bonecos; conversamos com gente que tem esperança; gente que acredita e se esforça para mostrar para uma criança que um boneco pode ser muito mais magicamente encantador do que um videogame. Fomos entendendo, após respirar essa arte 24 horas por dia, que nosso grande objetivo teria que ser o de difundir esse espetáculo que, de uma maneira ou de outra, sempre acompanhou o ser humano. Afinal, quem nunca deu vida a um objeto inanimado? Uma grande reportagem acaba envolvendo seus criadores e, hoje, podemos afirmar que a troca existiu. Se temos uma boa história, a arte do teatro de bonecos ganhou cinco apaixonados seguidores.

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Fotos Gustavo Johansen

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Foto Emy Sato

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Um Espetáculo Vivo

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Fotos Divulgação CIA de Bonecos

Raniere , ator - manipulador da CIA Circo de Bonecos e o elefante, o grande protagonista

esponda rápido: qual foi o último espetáculo de teatro de manipulação que você foi assistir? Não se envergonhe caso a resposta tenha sido nunca, você não é o único. Apesar de ainda hoje ser pouco reconhecida pelo grande público brasileiro, principalmente pela falta de divulgação e apoio, o teatro de bonecos é uma das manifestações artísticas mais ricas e refinadas, presente entre os seres humanos desde os primórdios na necessidade de se comunicar. No Brasil, há relatos de que o Padre Anchieta se utilizava de pequenos fantoches na catequese dos índios. Tempos depois, os bonecos representativos foram incorporados na cultura folclórica brasileira, sendo centro das atenções em grandes festas populares ou em intervenções lúdicas pelas ruas de cidades como o Rio de Janeiro e interior de São Pau6

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lo na época do Brasil colônia, segundo Ana Maria Amaral, professora da USP, criadora de várias companhias de teatro de bonecos e autora de uma série de títulos sobre o assunto. Em São Paulo, o teatro de bonecos começou a se popularizar com mais intensidade por conta de apresentações circenses que rodavam as cidades interioranas. Na capital, a arte chegou firme na metade do século passado, já de maneira erudita e educativa, e foi se intensificando com um número cada vez maior de companhias. Uma das mais importantes delas é a Cia Truks Teatro de Bonecos. Fundada em 1990, a Truks sempre teve como objetivo usar o boneco de forma lúdica e educacional para crianças. “Nossa criação se deu por conta de um encontro de

CIA Truks durante apresentação do espetáculo “ A Bruxinha

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bonequeiros que já trabalhavam em outros lugares. Eu e Verônica Gerchman trabalhávamos com teatro de luvas desde 1985, e o Claudio Saltini trabalhava na Companhia Cidade Muda, muito importante na década de 1980. E, então, nós nos reunimos para fazer algo nosso, um espetáculo que não dependesse de teatros, que pudéssemos levar para qualquer lugar”, relata Henrique Sitchin, um dos fundadores e hoje coordenador da Truks. Ele afirma que o primeiro espetáculo realizado pela equipe foi a adaptação do clássico da literatura infantil, A Bruxinha, de Eva Furnari, para o teatro de animação. Aliás, a própria Eva Furnari, encantada pela ideia, fez parte da Truks por um tempo e chegou a ser a manipuladora de sua criatura, a Bruxinha, por um curto período. Desde essa apresentação, a Truks já performou mais de cinco mil espetáculos

Foto Emy Sato Foto Emy Sato

CIA Truks durante o espetáculo “ A Bruxinha”

espetáculo “ A Bruxinha “

pelo Brasil e pelo mundo. conhecia em 1990 sobre esse tipo Após anos de sucesso repro- de arte era lençolzinho com fanduzindo criações de terceiros, a toche sendo chacoalhado por cima Truks resolveu dar um passo adi- e, para mudar essa imagem, penante com obras amos bastante”, autorais para recorda. Sitchin crianças, semtambém ressalta “ Na cabeça de muita gente, que as iniciatipre com uma r e p e r c u s s ã o o teatro infantil é uma esvas públicas e muito positiva, cada para o teatro adulto, e privadas, como o que acabou o teatro adulto uma escada os SESCs, acaabrindo portas para a televisão. Não é nada bam garantindo para que sura sobrevivência disso: são linguagens, são gissem novas e bom funcionaartes, e todas elas existem companhias. mento de várias por elas mesmas” Sobre as companhias. dificuldades “Hoje, com o Claudio Saltini, Cia de um setor maior conheCirco de Bonecos tão segmencimento sobre tado e especíteatro de bonefico como o de cos, aparecem os Teatro de Boneaproveitadores, cos, o coordenador da Truks reve- gente fazendo coisa muito ruim, la que, no momento, o cenário já mas, se você faz coisa boa, consegé bem mais favorável do que o ue sobreviver disso”, avalia. encontrado quando o grupo dava Quem também participou do seus primeiros passos. “Enfrentá- nascimento da Truks e depois foi vamos todo o tipo de preconceito alçar voos independentes foi Clauimaginável. Primeiro, escolhemos dio Saltini, que exerce a função de o teatro, que já não é grande coi- diretor da Cia Circo de Bonecos. sa. Depois, teatro para crianças O diretor conta que veio do teatro e, por fim, de bonecos. O que se tradicional para só depois conhecer sãopaulo 7

Fotos Divulgação CIA de Bonecos

Hipopótamo: criação da CIA Circo de Bonecos

e se apaixonar pela arte do teatro de bonecos. “Aprendi muito na Trucks, o que me deu experiência para fundar, há aproximadamente dez anos, a Cia Circo de Bonecos”, conta, antes de, orgulhoso, revelar que o espetáculo Circo de Pulgas foi considerado a melhor peça de teatro voltado para crianças de 2010 segundo a APCA, Associação Paulistana dos Críticos de Arte. Atualmente, Saltini é um dos grandes defensores do teatro infantil de bonecos no Brasil, e tenta mudar o que acha ser a barreira que divide uma maior divulgação em cima dessa manifestação artística. “Na cabeça de muita gente, o teatro infantil é uma escada para o teatro adulto, e o teatro adulto uma escada para a televisão. Não é nada disso: são linguagens, são artes, e todas elas existem por elas mesmas”, explica. Na questão da realidade brasileira na área, Saltini teve discurso semelhante a seu amigo Henrique Sitchin. “Quando comecei, há 25 anos, meu pai perguntou: ‘você tem um plano B para viver, né?’. Mas acabou dando certo para mim, da minha manei8

ra, até porque enriquecer tem outro sentido para mim”. Se o espetáculo é para criança, o trabalho deles é de gente grande. Saltini falou um pouco sobre a exaustiva rotina da companhia para que aqueles 50 minutos saiam perfeitos. “São 7 dias por semana, 24 horas por dia, sem parar”, exagera entre risos. No momento, uma das companhias de maior destaque é a Articularte, dirigi-

“Quando comecei, há 25 anos, meu pai perguntou: ‘você tem um plano B para viver, né? ’ Mas acabou dando certo para mim, da minha maneira, até porque enriquecer tem outro sentido para mim”.
Claudio Saltini, Cia Circo de Bonecos

da por Dario Uzam Filho e criada em 2000. No ano de sua criação, a Articularte já abocanhou o importante Prêmio Panamco de Criação de Bonecos, único voltado exclusivamente para o teatro infantil e juvenil e que conta com importantes jornalistas culturais de diversos veículos, com a peça A Cuca Fresca de Tarsila. O diretor disse ser nítida a diferença de aceitação e entendimento do público nos últimos dez anos. “Agora, nosso público já vem

sabendo o que pode esperar, com um olhar crítico também, não compram mais qualquer coisa. Precisa ser convincente e, por isso, ralamos muito aqui em tudo que fazemos”, explica Uzman. Muito trabalho e dedicação, o que acaba sendo reconhecido pelo público. Uma peça de teatro de bonecos pode não estampar uma capa de revista, ter destaque no caderno de variedades no jornal ou, ainda, ser assunto muito difundido em redes sociais, mas existe um público fiel, cada vez maior, que vai e tenta transmitir e propagar a magia do espetáculo. Renata Meireles deixava a sala do Teatro Centro da Terra, onde assistiu a Circus – A Nova Tournée, da Cia Circo de Bonecos, acompanhada de seus dois filhos, estreantes no teatro de animação. “Essa arte tem uma magia capaz de tirar o espectador da realidade através da animação. Nós damos vida a algo que não tem. Sempre adorei isso e quero passar esse fascínio para meus filhos”, afirmou a mãe de família. Quem saía da mesma sala era o cineasta Lucas Scandurra, também satisfeito com o que viu. “É impressionante a técnica desses atores! Uma coisa é você atuar, outra é você dar vida a um objeto que acaba sendo o protagonista do show”, impressionou-se. Falando nisso, aí entramos em uma das grandes questões dessa arte. Além da dificuldade e adequação dos bonecos para cada tipo de espetáculo, existe sempre aquela polêmica interminável, uma espécie de dilema que divide opiniões: afinal, quem recebe os méritos, ator manipulador ou boneco? Antes de tudo, Gustavo Costabile Di Biasi, dono da Fábrica de Ideias, loja de brinquedo, faz questão de dividir o que é uma coisa e o que é outra. “O fantoche é manipulado, o boneco não, são duas coisas diferentes”. Segundo o professor e doutor em artes Wagner Cintra, técnico, ilumi-

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Mini cen

nador e diretor de teatro de bonecos, não existe um boneco certo ou errado, um bonito ou um feio. Para ele, o boneco tem que variar de espetáculo para espetáculo, de acordo com as intenções do diretor. Por isso, é muito importante que o trabalho da confecção dos protagonistas da peça nunca seja feito por terceiros. “A peça não pode ser adaptada para um ou outro boneco, o boneco tem que se adaptar para se enquadrar nos moldes do espetáculo”, bateu o pé, antes de afirmar que gosta muito de trabalhar com bonecos feitos de papel amassado, fita crepe e barbante. Discípulo de Ana Maria Amaral, boneco e ator estão em grau de igualdade. “Eu acho que é tudo uma simbiose, é uma transferência, eu gosto dessa relação. Eu nem gosto de usar o termo ‘ator manipulador’, pois acho que é um jogo entre objeto e ator. O manipulador não é um personagem, ele é apenas alguém que atribui vida ao boneco. Por sua vez, o boneco, o personagem, depende do manipulador para ter atitudes reais. É tudo uma

espécie de simbolismo”, ponderou. Já Claudio Saltini, da Cia Circo de Bonecos, a prática é um pouco diferente. “O trabalho é 100% do ator, é ele quem dá movimentos ao boneco. No fim das contas, o grande protagonista é o espectador, pois é ele que realmente dá vida ao boneco, é sua imaginação que faz tudo aquilo ser real”.

“O trabalho é 100% do ator, é ele quem da movimentos ao boneco.”
Claudio Saltini, Cia Circo de Bonecos

Se o assunto é boneco, Dudu Capellini, confeccionador há aproximadamente 30 anos, pode ser considerado um especialista. Além de manter uma oficina em Santo André, que chega e vender, segundo ele, cerca de cinco mil dedoches em um bom mês,

também ministra aulas sobre a arte da manipulação para crianças. “O fantoche é uma ferramenta poderosa para se desenvolver a coordenação motora da criança, assim como desenhar, pintar, escrever ou costurar”. Apesar de todo o bem comprovado que os dedoches fazem para as crianças, ele admitiu um interesse secundário, porém bem intencionado, para que continue as ensinando. “O Brasil tem essa cultura americanizada, no qual o serviço artesanal não é muito valorizado; então, com esse meu trabalho, também estou querendo formar reprodutores e disseminadores dessa arte, coisa que já vem acontecendo com sucesso de um tempo para cá”, diz o especialista. Enquanto grande parte das companhias e envolvidos com bonecos no Brasil se voltam para o teatro infantil, existem algumas que encaram essa expressão artística de outra forma, interagindo com o boneco e atingindo o público de maneira completamente diferente. Uma das companhias mais sig-

Mini cenário do picadeiro Circo de Pulgas

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Fotos Divulgação CIA de Bonecos

A Pioneira

que as primeiras manifestações aconteceram no Nordeste do País, mas não eram para crianças; eram representações de um teatro mais ligado ao lado social e ao lúdico. Por que o teatro de bonecos foi levado mais para o lado infantil? A criança vive o inanimado, e o inanimado é parte da vida dela. Assim, ela não consegue distinguir o animado do inanimado. Quando falo em teatro de bonecos, eu falo em imagens, máscaras, símbolos. Essa é a parte do ritual humano, desde os primórdios até as grandes culturas, como o teatro feito na Índia, na Grécia e em todo o Oriente. Havia, inclusive, um tabu, no qual o homem conta que, para que ele fizesse parte de um ritual, ele teria de se disfarçar para falar com os deuses porque ele não é sagrado. Ou seja, já vem desde então uma crença do ritual e da sacralidade do teatro. Só que depois os rituais foram se tornando profanos, e aí entra o lúdico para os adultos. Foi quando a Cia DelArte começa a trabalhar somente com o teatro de atores e começou assim a separação entre as companhias que fariam um trabalho de teatro tradicional e as que fariam teatro somente para crianças. Graças a essas representações descobriram como as crianças ficavam fascinadas com aquilo. A essa altura, é iniciado um trabalho mais didático de teatro de bonecos, no qual o espetáculo ensina as crianças a escovar os dentes, a lavar as mãos, a estudar. E começaram a usar isso como uma forma de atingir as crianças, e o fantástico é perceber a poesia e o aspecto lúdico de tudo isso.

na sua avaliação, quais serão os próximos passos para a arte de teatro de bonecos? Então, a pintura se modificou, a escultura se modificou, e o teatro ainda demora em se modificar. Hoje, existem muitas manifestações teatrais, mas acho que o teatro tradicional está levando muitos dos elementos do teatro de bonecos, como as máscaras, as sombras, os gestos. Por que o ser humano se viu na necessidade de se expressar através de bonecos? Os homens se expressavam através da imagem, do totem, através dos desenhos; os índios, por exemplo, faziam isso. Isso acontece desde sempre, com alguma evolução, tornando-se lúdica quando surge uma historinha para criança que vira teatro, e assim vai. Além do mais, a gente tem o fascínio da cópia. Não dizem que a gente “foi feito à imagem e semelhança de Deus?”. Então, acho que a gente busca fazer outras imagens da gente mesmo, é como um reflexo. É a busca por se recriar. Qual é a principal dificuldade que essa arte encontra para receber atenção da mídia? Eu não posso dizer que não tem apoio. Atualmente, temos muito mais apoio que antigamente. A dificuldade, para mim, é realizar projetos experimentais, e eu não tenho esse apoio. Quando você apresenta um projeto aqui em São Paulo, é preciso resolver um problema social ou fazer uma espécie de contrapartida nessa área. Isso é um problema do governo, então é muito mais fácil você ganhar um fomento quando você faz algo ligado à favela, entende? Então, ou eu tenho que fazer de graça, ou tirar do meu bolso.

Foto de Divulgação

É impossível falar de teatro de bonecos no Brasil e não citar Ana Maria Amaral. Professora de teatro de animação na escola de Comunicações e Artes da USP, diretora e dramaturga de teatro de bonecos, objetos e máscaras, ela é considerada a maior sumidade no assunto, respeitada a nível internacional e com um vasto número de livros lançados. Além dos diversos estudos, Ana Maria Amaral dirigiu algumas companhias, inclusive o extinto grupo Casulo, que, em 1978, com a peça Palomares, mudou completamente o rumo do teatro de bonecos no Brasil, sendo um espetáculo mais erudito, complexo e metafórico, provando que brincar de boneco é coisa de gente grande, sim. A seguir, confira trechos da entrevista exclusiva com a professora. Quando ocorreram os primeiros registros de representação artística através de bonecos inanimados? Dizem que a herança é europeia, pois quando o padre Anchieta catequizava os índios isso acontecia através do teatro, dos gestos. Mais: o que dizem é

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tipo, algo que sabemos que acontece bastante no teatro, em troca de uma crítica positiva”. E se engana quem pensa que apenas CIA Truks agradece ao público ao final de mais um espetáculo São Paulo cria suas Compannificativas desse segmento é a Cia hias de Teatro de Bonecos. Tem coiCaixa de Imagens, que trabalha na sa muito boa sendo feita em outros área há aproximadamente 17 anos. estados, em especial na região sudO teatro de bonecos erudito no país este. Um bom exemplo é a Cia Soanda briga para se estabelecer como agora começa a acontecer com o brevento, original do Rio de Janeiro, infantil. Mesmo assim, Monica criada em 1986, e testemunhando Simões, diretora da Caixa de Ima- em suas turnês o grande público que gens, afirma que vivem momento a capital paulistana possuía. A Cia privilegiado e, ao contrário do que Sobrevento resolveu abrir a filial por muitos pensam, por um pouco de aqui há aproximadamente dez anos. sorte e muita competência, desde os primeiros passos a companhia caminhou na direção certa e sempre encontrou seu público e apoiadores. “Uma das grandes ferramentas que mantêm a classe viva hoje é a Lei de Fomento ao Teatro, que hoje tem sua distribuição feita de maneira bem democrática. Nós tentamos manter sempre o diálogo aberto para que isso continue assim”, comenta Monica, explicando que as comissões responsáveis pelo direcionamento de verbas são formadas, em sua maioria, por colegas de profissão, o que é um benefício, pois todos entendem muito bem do assunto. Sobre o estilo da companhia, Monica diz que nunca trabalhou com o objetivo de realmente fazer algo erudito, que se diferenciasse do teatro de bonecos infantil, mas que aconteceu naturalmente. Em relação à divulgação da mídia, a diretora da Cia Caixa de Imagens tocou em um ponto crucial, pouco abordado pelos outros entrevistados. “Nunca me importei em fazer média com críticos teatrais, ceder um lugar privilegiado ou coisas do

“É como tocar um instrumento, uma habilidade que adquirimos e evoluímos com muito treinamento e esforço diário, mas, claro, também depende muito do talento e sensibilidade de cada um”
luiS andRÉ,

Foto Emy Sato

Sobrevento

Diretor da CIA

cial”, analisa. Além da direção, muitas vezes André também trabalha na manipulação dos bonecos, trabalho que ele define de maneira sucinta. “É como tocar um instrumento, uma habilidade que adquirimos e evoluímos com muito treinamento e esforço diário, mas, claro, também depende muito do talento e sensibilidade de cada um”. André também relata Imaginação, gestos e sentimentos tudo em um único objeto: o boneco uma nova realidade e constituição de Luis André, diretor da Companhia, público nos últimos anos. Por conta afirma que o teatro de bonecos no de incentivos e iniciativas públicas, Brasil não só está cada vez mais esos moradores de zonas periféricas da tabelecido em nosso território como capital estão se tornando muito mais também atrai atenção e curiosidade próximas da arte do que as classes no restante do mundo. “Nossa Cia mais favorecidas. “O pessoal da perfaz duas turnês internacionais por iferia teve a oportunidade do contato ano. Não conheço uma companhia com nosso trabalho e gosta muito, de teatro tradicional que faça isso. daquele teatro de origem, ao ar livre Já visitamos quatro continentes. Ano mesmo. Se tiver caindo uma chuva passado, estivemos no Irã, Chile e torrencial, eles pegam um guarda Espanha, e esse ano iremos para Sué- chuva e vão nos assistir. Já para quem cia, Estônia e Chile novamente. O mora no Morumbi ou no Itaim, isso mundo conhece o teatro de bonecos não acontece assim”. Analisou, afirdo Brasil como uma arte exponen- mando que é constatada a drástica sãopaulo 11

Foto Emy Sato

Dedoches, criação de Dudu dos Dedoches

diminuição de ocorrências policias em comunidades carentes nos momentos em que eles estão em cartaz nesses determinados locais. O professor de teatro Guilherme Sant’Anna fez questão de enfatizar

que os bonecos representativos estão entre nossas camadas populares há muito tempo, mesmo que às vezes não reparemos. “Os programas de televisão sempre exploraram isso, tinha aquela zebrinha que anunciava os números de uma lotérica. Se for ver hoje, o Toy Story (famosa animação da Disney), nada mais é do que uma animação de seres inanimados em formato tridimensional, bebe da mesma água que o teatro de bonecos. Nada vem do nada, tudo depende uma gênese”, ponderou. Dario Uzam, da Articularte, citou até o Louro José, do programa Mais Você, apresentado por Ana Maria Braga, porém de maneira negativa, falando que ele

ajuda a desprestigiar a verdadeira arte do teatro de bonecos. “Aquilo é muito apelativo, não existe aquela coisa artesã que acaba dando vida ao boneco. A verdade é que, infelizmente, a TV exige uma velocidade que acaba comprometendo o desenvolvimento de todo o espetáculo”. O cenário é positivo para a evolução e maior conhecimento nacional de uma das expressões artísticas mais nobres e naturais desenvolvidas até hoje. Mas a verdade é que é preciso muito cuidado e calma para que a popularização aconteça em seu devido tempo, sem forçar barras ou pular etapas, para, enfim, darmos vida para nossos bonecos.

Foto de Divulgação

Construindo o protagonista

CIA Articularte confeccionando bonecos

Originalmente, os bonecos eram feitos de madeiras com cabeças confeccionadas em cera, mas as técnicas foram se aprimorando e, atualmente, infinitos tipos de materiais podem ser utilizados na sua produção, onde cada detalhe o tornará único e singular. Hoje em dia, há muito mais oportunidade de escolha na hora de fabricar um boneco, indo desde as bonecas de pano e retalhos – que tanto podem ser simples como as feitas em casa, ou complexas, como fantoches que possuem delicados detalhes que os diferenciam um dos outros –, até as de porcela12

na que, frágeis, podem ser usadas lençol bem esticado e silhuetas a também para decoração, visto o serem expostas por suas sombras. O custo de cada boneco pode modo como são pintadas. Mesmo assim, há aqueles que variar de R$1,50 até R$100,00, continuam praticando técnicas pois “nenhum dos artistas plástimilenares, como o Bunraku, no cos cobram justo pelo trabalho, seu processo de criação. Nesse existe muito amor no processo de caso, é necessário até dez anos cada um”, afirma Gustavo Costade aprendizado para que se esteja bilie, dono da loja de brinquedo habilitado a encenar uma peça Fábrica de Ideias. A magia dos bonecos pode utilizando-o, já que é projetado ser explopara que todas rada não só as partes do seu em cena, mas corpo se movitambém na mentem indepensua montadentemente, negem, que é cessitando de até extremamente quatro pessoas importante para manipulá-lo. para que se De acordo com crie um indiClaudio Saltini, vidualismo do diretor da Cia Cirobjeto e uma co de Bonecos, Produção que virou arte aproximação “cada movimento do boneco significa alguma coi- com seu manipulador. Esse sa, não existe um movimento à processo acaba dando uma variedade de significados ao toa. Tudo isso é estudado”. Existem, ainda, os bonecos de personagem, em que um simsombra, cuja imagem é projetada ples rosto desenhado em um do outro lado da tela. É algo que palito de picolé expressará pode ser feito mesmo em casa, toda a história que já é pencom uma luz como contraste, um sada na cabeça do ator.
Foto Emy Sato

Foto Emy Sato

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O boneco virou gente grande
As companhias de teatro de bonecos no Brasil passaram por inúmeras transformações no decorrer das últimas décadas, e isso foi resultado de um casamento entre o gosto do público, que se envolveu mais por esta arte e a linguagem sofisticada e detalhada que as companhias desenvolveram nos espetáculos. De modo geral, tem-se a impressão que o teatro de bonecos nunca vai sair do universo e do propósito de encantar o público infantil, mas a manifestação foi aprimorada, evoluiu e hoje encanta a todas as faixas etárias. “Há dez anos não tinha esse nível de receptividade. Nas nossas peças, existem vários elementos, e cada um de nós tentamos focar uma particularidade, uma coisa que só o personagem tem. Isso vai gerar uma leitura de comportamento. Nós fizemos um espetáculo, “Trenzinho Villa lobos”, no Morumbi, e lotou. Ali tem um comportamento fraterno, o relacionamento do filho com o pai dele, que é brabo, severo, e isso as pessoas vão sentindo”, comenta Dario Uzam, diretor da Companhia paulista Articularte de teatro de animação sobre a aceitação do público diante da arte do teatro de bonecos. O respeito e a consideração pelas pessoas como sendo uma das principais linguagens nos espetáculos é o que torna a proximidade cada vez mais apaixonante do teatro de formas inanimadas com o público em geral. E não pense que é fácil trabalhar com teatro de bonecos. Para conquistar adultos e crianças, os profissionais da área têm de focar nos detalhes, como movimentos, som, luz, sombra e a criatividade, que faz a plateia chegar ao ponto de imaginar que o boneco é real e é dotado de

vida e sentimentos. Toda essa riqueza não veio de graça, até mesmo por que o teatro de bonecos surgiu com outro propósito na humanidade. “Em Roma, na comédia romana, eles ironizavam muito os governantes e faziam caricaturas dessas personalidades públicas de personificação de bonecos para poder ridicularizar e isso era permitido na época, pois era uma forma de popularizar os governantes. Eles malhavam o boneco, batiam no boneco para poupar os governantes, isso é uma manifestação muito interessante”, explica o especialista Guilherme Sant’Anna.

“É uma conversa sonora e amigável com o público. Temos que ter um termômetro humano e é tocante isso. A companhia aprende essa delicadeza, esse respeito com o público. O teatro de bonecos é como uma FM que tem que sintonizar”
daRio uZaM,

Articularte

Diretor da CIA

Portanto, a ideia de que o teatro foi desenvolvido para crianças é consequência das intensas transformações em que vivemos hoje. “No século 19, era muito difundida essa coisa de bonecos para crianças, pois existia uma adultização da sociedade e elas já assumiam respon-

sabilidade muito cedo, então largavam os bonecos de mão. O boneco ficou sendo uma coisa infantil, e isso se alastrou por uma sociedade que adotou isso como um meio de expressão infantil, e acabou prejudicando o boneco como uma forma realmente adulta que ele tem”, analisa Sant ’Anna. O mais incrível, em meio a tantas transformações sofridas pelo teatro de bonecos, é que os costumes dos povos da Antiguidade estão sendo vivenciados novamente em nossa sociedade e está despertando a atenção do público mais intelectual e formador de opinião. As companhias de teatro de bonecos percebem a sensibilidade da plateia e estão sempre desenvolvendo seus espetáculos com o objetivo de passar uma mensagem positiva, que desperte a reflexão para uma sociedade mais justa e sem preconceitos. “É uma conversa sonora e amigável com o público. Temos que ter um termômetro humano e é tocante isso. A companhia aprende essa delicadeza, esse respeito com o público. O teatro de bonecos é como uma FM que tem que sintonizar”, explica Uzam. sãopaulo 13

Fotos Divulgação CIA de Bonecos

Foto Emy Sato

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Foto Emy Sato

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Fotos 1, 2 e 3: CIA Truks

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