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O PROCESSO DEGRADAÇÃO DO CAMPO DE DUNAS DA BARRA DO CEARÁ

Tiago da Silva Castro* Rafael Alves Moreira Nascimento* Israel Pedro Fernandes*

RESUMO
A área de estudo deste artigo está localizada no bairro da Barra do Ceará no extremo

oeste do litoral de Fortaleza. A Barra do Ceará é um dos bairros mais antigos e pobres de Fortaleza. Um bairro com enorme potencial natural e paisagístico, porem devido à mais de um século de ocupação desordenada e ao descaso do poder público seu quadro natural encontra-se completamente alterado. As populações pobres se instalaram em locais de alta vulnerabilidade ambiental, modificando consideravelmente a dinâmica da fauna, flora e aspectos geomorfológicos não somente da localidade em questão, mas também das praias em seu entorno. Este presente artigo pretende mostrar como se deu a mudança no quadro natural das dunas da Barra do Ceará pelo processo de uso e ocupação, suas causas, conseqüências e possíveis soluções. Introdução Para compreender melhor o uso, exploração e ocupação da zona costeira e os processos que causam a degradação formações análise do ambiental de algumas geomorfológicas, processo histórico de A zona costeira ou faixa litorânea é definida com a zona de transição entre o domínio continental e o domínio marinho. É uma faixa complexa, dinâmica, mutável e sujeita a vários processos é geológicos. definida Na como constituição

primeiramente se faz necessário uma ocupação da zona costeira em nível Nacional, regional e local.

“Patrimônio nacional” e cuja “utilização deve ser feita na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação

*Alunos de graduação em Geografia Bacharelado pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Endereço Av. Paranjana, 1700 – Campus do Itaperi – Fortaleza/Ce.

brasileira áreas A teve de acúmulo territorial básico populacional localizaram-se na zona estrutura um padrão quilômetros de zona costeira. a maioria das regiões metropolitanas brasileiras estão situadas na zona a costeira. sendo assim a ocupação do seu território ocorreu no sentido dos núcleos costeiros para o interior. dessa forma suas primeiras litorânea. 1. restingas. o interesse pelo mar torna-se verdadeiro fenômeno de sociedade. o qual põe em relação toda uma extensa área de produção com os mercados externos. momento em que os europeus se aventuraram pelos mares. inclusive quanto ao uso naturais. que foi denominado como “Bacia de drenagem”. A região costeira foi a primeira a ser ocupada por cidades e núcleos urbanos. não levando em conta os recortes litorâneos. ainda o despejo de esgotos domésticos. Diretrizes da República Federativa do Brasil. invasão por Essa de lei. no qual se caracteriza por redes de caminhos que se articulam a um eixo principal que demanda um porto. pela reversão do quadro de imagens repulsivas associadas ao mar” (1996). parágrafo 4. pela geração de novos instrumentos (a bússola e o astrolábio. em esforço alimentado pelo comércio. entre outros) e.367 de lixo e esgoto por falta de saneamento básico e que. O caput desse capítulo indica a diretriz geral da política ambiental do Estado brasileiro: “Todos têm o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. inevitavelmente atinge o mar e. desordenada causa diversos problemas como ecossistemas poluição de protegidos mananciais que passam a ser depósito . abrigando um mosaico de ecossistemas de alta relevância ambiental. campus de dunas. artigo 225. ocupação originário. O Brasil é um país de formação colonial. A matriz da transformação situa-se entre os séculos XVI – XVII. e até mesmo industriais. bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida.2 do meio ambiente. De acordo com Peron e Rieucau(1996). “No final do século XX. impondo-se ao poder Público e a coletividade o dever de defendêlo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. recifes de corais e outros ambientes importantes do ponto de vista geológico. capitulo VI.”¹O dos Brasil possui recursos 7. até mesmo. Em seu Litoral alternam-se formações como mangues. estuários.

Fortaleza passa a sofrer com o processo de favelização. Francisco Sá. Essas expedições tinham como objetivo defender a costa. ambos foram feitos na Barra do Rio Ceará. a fragilidade vulnerabilidade ambiental ao e a antropismo justificam os cuidados legais para sua preservação ou conservação. A planície costeira de Fortaleza é formada por terrenos de sedimentos quaternários de origem flúvio-marinha. passa a integrar a conjuntura dos bairros industriais da zona oeste de Fortaleza. e a Barra do Ceará. a barra do Rio Ceará ganha expressão no contexto de Fortaleza. foram encoberto por dunas. As primeiras tentativas de colonização do Ceará.3 Toda essa estrutura fez com que ocorresse de modo uma ocupação na zona a costeira. aconteceram a partir de século XVII. uma grande distância dos mananciais de água potável e a hostilidade indígena. e na década seguinte. De acordo com a FUNCEME: “A zona costeira do Ceará tem condições extremamente atrativas e privilegiadas para os mais variados assentamentos urbanos. mas fracassaram. com a construção da Av. combinados com a oportunidade de emprego devido às inúmeras indústrias localizadas na Av. No entanto. com a expedição dos portugueses. através de preceitos 14) Esses atrativos naturais que fundamentam o desenvolvimento sustentável” (2009 p. Histórico de ocupação Verificando os parâmetros de ocupação da região do atual Ceará antes da colonização portuguesa. Leste– Oeste em 1970. englobando feições ecossistêmicas como os manguezais e dunas. ocasionando existência de regiões vastas áreas de ocupação por toda a costa. é perceptível a constituição de sociedades de subsistência levando em conta a reprodução do estilo de vida indígena na região costeira. se utilizando da pesca . pois não existia um porto natural. ocupado e entre sem os de forma nenhum ambientes ocupados que são altamente instáveis a esse processo estão às dunas. fez com que o espaço litorâneo fosse intensamente desordenada planejamento. os fortes construídos nas proximidades do rio. mas essa concentração ocorreu pontual. fluvial e eólica. Em 1930 com a construção do hidroporto. E com o tempo. onde foi criado o fortim de São Tiago e o forte de São Sebastião.

Projetos de ocupação ocupação pelo mito homens marinhos que segundo Gabriel Soares de Souza (1587). que tinha incidência portuária e nas vias que davam acesso a formando fenômeno de saturação. tornando pela esta atividade de responsável proliferação costeira surgiram para a ocupação na totalidade da região costeira central da capital do estado. alinhamento de ruas. ressaltada Dantas propiciou a criação das primeiras atividades litorâneas no Ceará voltadas para a classe mais abastada. dentre eles o pescado. como elucida Brígido (1910). houve uma tentativa de dominação por parte do Conselho Municipal e a ordenança que visava o controle tarifário e a regulamentação de diversos produtos. O modo de vida indígena tornou-se o substrato da ocupação de grande parte da região litorânea por vilas de pescadores. uma ocupação na zona comunidades pesqueiras por todo o território do Ceará. 1910). dentre estes a criação de elites bulevares. chamado de . principalmente nas regiões circunvizinhas à capital (Brígido. Mesmo com os diversos projetos de ocupação do litoral. as comunidades mais humildes juntamente às levas de emigrantes pobres do sertão passam a se deslocar para a faixa litorânea. unindo desta forma o ideário sertanejo com a utilização da dinâmica do espaço litorâneo. (2002). pelas comunidades assim de o principal hábitos assim interioranos. as elites ainda mantinham dificultando sua ela. tudo pela e para as Fortaleza (Ponte. puxavam os índios que se aproximavam das águas e os afogavam. desenvolveram as um de elites quadro medidas locais que efetiva das regiões costeiras. anteriormente ocupada pescadores. os banhos de mar e as caminhadas na praia. 1993). Devido ao quadro em que se encontrava a capital do estado em relação às áreas vizinhas. Com diversas dificuldades impostas numa cidade constituída para as elites. de clubes sofisticados. utilizando-se da pesca como fonte de alimentos para a família. são estas as casas terapêuticas.4 como atividade destinada à alimentação e desprovida Tal das como vicissitudes ressalta também silvícola do é dos capitalismo. Além regulamentadoras. como ressalta Dantas (2002).

suporte de sedimentos amenizar erosivos. Tal fenômeno. ao sul com a Avenida Castelo Branco. processos de erosão. atuam como suporte de sedimentos e água doce para as reações ecodinâmicas deste ambiente e importante área de recarga de aqüíferos na franja costeira. e no meio leste da capital. (Dantas. Devido a essas características ambiente é e uma entre área outras de este grande . Papicu e Praia do Futuro. ao leste com a Rua Senador Roberto Kennedy e ao oeste com a foz do Rio Ceará divisa com o município de Caucaia.5 favelas. como cita Frota et al (2009). paleodunas e manguezais da região. retomando ao atual momento. nos bairros do Mucuripe. o campo de dunas foi uma das primeiras geofácies a ser ocupada. Segundo Souza et al (2009) o campo de dunas de Fortaleza é formado principalmente por sedimentos arenoquartzosos do Holoceno tendo uma coloração esbranquiçada de granulação variando de fina a média. próximos aos manguezais A Barra do Ceará limita-se ao norte com o Oceano Atlântico. Situa-se entre as coordenadas 3°41’ a 3°42’ de latitude Sul e 38°34’ a 38°35’ de longitude Oeste e entre os fatores de degradação das dunas e paleodunas da Barra do Ceará. afetando assim este ambiente com grande instabilidade ambiental em decorrência de intempéries. se estende tanto no extremo oeste do litoral da capital. 2002). as moradias irregulares estão entre os principais agentes no processo degradação. a Barra do Ceará. Os campos de dunas da região costeira têm como principal função natural a proteção da linha de costa contra a ação para dos agentes efeitos oceanográficos externos. atual Barra do Ceará e arredores. transporte e acumulação de sedimentos complementando que o uso e ocupação da terra de forma irregular geram várias conseqüências para as dunas. Aspectos e Impactos Geoambientais Em nosso objeto de estudo. tendo como origem sedimentos da Formação Barreira.

Um exemplo desse caso foi à construção da Av. que uma forma de amenizar foi colocar rochas em sua margem. desse ponto eram submetidas novamente ao transporte litorâneo através da ação do fluxo estuarino e depois pelas ondas. por causa das constantes alterações que sofrem devida a ação natural e antrópica. logo depois foram transportados para pós-praia pela ação eólica onde formaram as dunas. dessa forma contribuindo para estabilidade do perfil da praia. A duna fixa da Barra do Ceará está totalmente ocupada restando apenas à duna móvel. As dunas sofreram fortes alterações na sua morfologia tanto pela disponibilidade sedimentos e influenciando as áreas do chamada de morro de Santiago. suprindo de areia as praias da margem esquerda. que bloqueou o aporte de sedimentos por parte da duna. Radialista José Lima Verde. ocasionando uma erosão nas margens do Rio Ceará. O sedimento que constitui as dunas é fruto da ação fluvial que os transportou até o oceano e pelo efeito da deriva litorânea foram depositados na praia. .6) as areias adentravam no continente nas proximidades da praia do Pirambu e Goiabeiras e migrava para a margem direita do Rio Ceará. a dessa forma de modificando entorno.6 instabilidade ambiental. Souza et al (2000) descreve ambientes fortemente instáveis como áreas com grandes evidências de deterioração ambiental e por um intenso processo erosivo quebrando todo o equilíbrio ambiental. essa por sua vez distribuía os sedimentos nas praias a margem esquerda da foz do rio Ceará. A deriva litorânea continuou ocorrendo e como o aporte de sedimentos foi bloqueado o processo de erosão foi intensificado ocasionando o recuo da linha de costa das praias ao oeste da foz do Rio Ceará. p. A duna fixa da Barra apenas do à Ceará ocupada. duna degradada encontra-se restando móvel completamente A duna localizada a direita do Rio Ceará fornecia sedimentos para a deriva estuarina. As dunas móveis e semi-fixas do ponto de vista geomorfológico são altamente instáveis. o transporte de sedimento dessa forma fica retido nos obstáculos urbanos. As dunas da Barra do Ceará são formadas por areias esbranquiçadas de granulometria fina e média e datam do Holoceno. Segundo Meireles (2000.

sem saneamento e nem coleta de lixo adequada. São motivos de transformações turísticos. No morro de Santiago as encostas foram muito ocupadas por casas desprovidas de infra-estrutura urbana. Deve-se considerar também o forte processo de erosão costeira. causando a poluição de aqüíferos próximos e conseqüente contaminação do mar.7 sua dinâmica natural quanto pela município de Caucaia. Próximo ao topo da duna verifica-se o predomínio de casas horizontais. em grande parte das áreas urbanas e principalmente nas áreas de favelas. 2005). a construção de enrolamentos na praia e espigões para proteger da ação erosiva da subida das marés. Vale lembrar que alem destes impactos negativos há também o despejo de dejetos na foz do Rio Ceará. tanto pela própria dinâmica como pela ação antrópica. Considerações Finais As regiões litorâneas. há também. que era de responsabilidade da Prefeitura Municipal de Fortaleza e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). sendo uma grande maioria construída de taipa e alvenaria de barro. a ausência de cobertura da rede de saneamento básico. que uma vez desviadas. Além da ação erosiva da ocupação sobre o campo de dunas. A morfologia das dunas foi completamente modificada. . O projeto para a duna foi o reassentamento das famílias que lá moravam. recuperar e preservar o morro de Santiago e também a contenção da duna com um muro de concreto e uma tentativa de fixação através de plantas. vegetação e formato. fazendo com que a menor alteração em sua dinâmica seja capaz de desencadear prejudiciais diversos suas dessas processos contra relações ecodinâmicas. Na parte baixa da encosta vêem-se casas de alvenaria e algumas verticalizadas com no máximo um andar. ocupação. causando danos ao patrimônio público e particular da orla (Vasconcelos. afetam as praias do município de Caucaia. O morro de Santiago foi contemplado pelo projeto Orla. que já consumiu mais de 10 km de praia na região da Barra do Ceará como em áreas vizinhas. profundas feições empreendimentos imobiliários e ocupação desordenada. como é o caso do independentemente de seu tipo de clima. tendem a serem áreas de intenso dinamismo e de extrema fragilidade.

Referências Bibliográficas BRÍGIDO. Luiz Cruz. No caso da Barra do Ceará. Subsecretaria de Edições Técnicas. Marcos José Nogueira de. Brasília: Sendo Federal. 2005. Revista do Instituto do Ceará. . Fortaleza: Premius. erosão. Ceará. Françoise. mais de 100 (cem) anos depois. a ocupação desordenada de uma região que deveria usufruir de proteção permanente. afetando desta forma desde o campo de dunas. o desejo de lazer das elites e o êxodo rural. Sebastião Rogério. Fortaleza: FUNECE. Gestão Integrada da Zona Costeira: Ocupação antrópica desordenada. Capítulo CXXVII: que trata dos homens marinhos. Fortaleza. 2000. 1996. Aryberg de Souza. 1910. Fortaleza: Museu do Ceará. 1974. dentre outros. MORAIS. exploração o poder público ainda se mostra incapaz de se proceder com a remoção das famílias. do ponto de vista ambiental.24. pois transbordam documentos e leis para sedimentar o caráter ilegal. Fortaleza: SEMGIZC. PONTE. assoreamento e poluição ambiental do litoral. VASCONCELOS. SOUSA. Código florestal e normas correlatas. Gabriel Soares de. SOUZA. causou e ainda causa hoje. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha/Multigraf Editora. Fortaleza belle époque. Mesmo após anos de DANTAS. CÓDIGO FLORESTAL (1965). Paris: Éditions L'Harmattan. Compartimentação Territorial e Gestão Regional do Ceará.]. até as relações de carga de sedimentos das regiões de costa no entorno do bairro. A Capitania do Ceará. com processos que por vezes extinguem a presença das mesmas.8 retirada de material para construção civil. 172 p. das moradias e condições de infra estrutura do local. Marcos José Nogueira de. ISBN: 85-87203-07-X. 2009. in : Notícias do Brasil. 2002. SOUZA. Fortaleza: Prefeitura Municipal de Fortaleza. João. 2004. Diagnóstico geoambiental do município de Fortaleza: subsídios ao macrozoneamento ambiental e à revisão do Plano Diretor Participativo – PDPFor/ Marcos José Nogueira de Souza [et al. 1993. PERON. Fábio Perdigão. José Bruno Rodrigues. retirando-as das margens do Rio Ceará e alocando-as num local mais adequado. Eustógio Wanderley Correia. Mar à Vista: estudo da maritimidade em Fortaleza. Análise Geográfica do uso e ocupação do campo de dunas: O caso da Barra do Ceará em Fortaleza. Jean. Jáder Onofre de. com melhor infra estrutura e menor impactância sobre as formações geoambientais. Rieucau. São Paulo : MEC. t. 2009. LIMA. La Maritimité aujourd'hui. FROTA. DUARTE.

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