O DÉFICE EDUCATIVO Os problemas de competitividade da economia nacional são agravados por um grave défice educativo, ou do capital humano, como

se diz em jargão económico. Porquê? Porque, na sua forma actual, o nosso sistema educativo condena cerca de 40% dos alunos das novas gerações a uma educação claramente insuficiente, porque a qualidade da nossa educação é, em média, manifestamente inferior à registada em outros países da OCDE, e porque ainda continuamos a patentear atrasos estruturais significativos em relação aos restantes países europeus. Ao deixar ficar para trás dezenas de milhares de alunos todos os anos, ao nivelar por baixo o grau de exigência escolar, ao não promover a excelência e sentido de crítica dos(as) alunos(as), o nosso sistema educativo contribui para a permanência de uma produtividade ainda relativamente baixa, para o acentuar e o perpetuar das desigualdades sociais, bem como para uma baixa competitividade das nossas exportações. Com efeito, há poucas dúvidas que o nosso sistema educativo é, cada vez mais, um verdadeiro factor de descompetitividade da economia nacional. Este facto é muito preocupante, pois vários estudos empíricos têm demonstrado inequivocamente a importância do capital humano não só para o crescimento económico, como também para a atracção do investimento estrangeiro, e até para o próprio dinamismo do sector exportador. Por tudo isto, e para percebermos a dimensão do défice do nosso educativo, vale a pena olharmos para as características do nosso capital humano. É isso que fazemos em seguida. Comecemos com os dados sobre a escolaridade, para mais tarde debruçarmo-nos sobre a qualidade educativa. O atraso da escolaridade nacional Um dos nossos grandes defeitos, como país e como povo, é que damos pouco valor à Educação. Podemos fingir o contrário, mas esta é uma verdade nua e crua, que muito nos pode entristecer, mas que não deixa de ser insofismável. Como é que se pode ter coragem para afirmar tal heresia? Porque

assim nos dizem tanto os dados históricos, como as comparações internacionais. Como veremos, no mínimo todos estes dados deixam muito a desejar, constituindo uma verdadeira vergonha nacional, que é também a maior fonte das nossas elevadas desigualdades sociais. Vejamos então os dados ao nosso dispor para podermos perceber a dimensão do nosso atraso educativo e da nossa baixa predisposição para investir na Educação. Comecemos por dar uma vista de olhos pelas qualificações das nossas comunidades emigrantes, pois estas são um reflexo não só das nossas opções do passado, mas também do valor que a cultura nacional atribui à educação. Talvez não seja muito surpreendente afirmar que as qualificações dos nossos emigrantes em várias partes do mundo são bastante sofríveis. Assim, um estudo sobre as diversas comunidades étnicas em Toronto, Canadá, revelou que, nos meados dos anos 1990, a comunidade portuguesa tinha o menor grau de instrução dos emigrantes de todas as comunidades residentes no território canadiano. Mais concretamente, em 1996, cerca de metade dos imigrantes portugueses não tinha mais do que a instrução primária e cerca de 70% não tinha concluído o ensino secundário. Porém, o que poderá ser mais surpreendente é que estes dados incluem não só os imigrantes portugueses, mas também as segundas e terceiras gerações de luso-descendentes. Ou seja, por um motivo qualquer, o valor dado à educação pelos nossos emigrantes no Canadá é, em média, muito reduzido. O mesmo se passa em outras partes do mundo. Assim, no estado de Massachusetts, um dos mais afluentes dos Estados Unidos e destino de uma apreciável comunidade portuguesa, mais de 45% dos emigrantes nacionais nunca tinham frequentado o ensino secundário, somente um terço dos portugueses emigrados tinham completado o ensino liceal, e apenas 6% tinham acabado um curso universitário, percentagens muito abaixo da média desse estado americano. Igualmente, no Luxemburgo, os portugueses são das comunidades de imigrantes com menor grau de educação. O mesmo se passa na França e na Bélgica, e o mesmo acontecerá em outros países. Sinceramente, não sei como explicar adequadamente porque é que nós damos um valor tão reduzido à Educação. Provavelmente, uma explicação abrangente sobre este fenómeno incluirá factores económicos, sociais e

culturais. É claro que existem condicionantes históricas, tais como o baixíssimo investimento em Educação feito pelo Estado Novo e pelos regimes anteriores. Porém, nada poderá explicar por que é que as segundas e terceiras gerações dos nossos emigrantes continuem a atribuir um valor tão reduzido à Educação. Por que será? Ora, contrariamente ao que se possa pensar, apesar de a ditadura poder ter claras culpas pelo baixo nível educativo do país durante a grande parte do século 20, a verdade é que os atrasos educativos do país remontam a tempos bem mais remotos. Assim, os próximos quadros são bastante reveladores do fosso educativo que tem existido historicamente entre o nosso país e os países mais avançados. Neste sentido, o quadro 4.3 recua até 1500 e apresenta estimativas das taxas de alfabetização das populações de várias regiões e países do mundo. Como podemos ver, tanto em 1500 como em 1800, Portugal apresentava taxas de alfabetização bem mais modestas do que a grande maioria dos outros países, principalmente em relação aos países europeus mais avançados. O que estes dados nos dizem é que mesmo quando os nossos antepassados iniciaram a aventura dos Descobrimentos, o analfabetismo português era já mais elevado do que em países como a Itália, a Suécia, a Holanda e a Inglaterra. Três séculos mais tarde, no dealbar do século 19, os atrasos educativos do país continuavam e até se tinham acentuado. Portugal tinha então uma taxa de alfabetização superior à média dos países da Europa do Leste, a Rússia, a Índia e a média asiática, mas bem menor do que a grande maioria dos países da Europa Ocidental, bem como da China e do Japão. É igualmente de assinalar que, em 1800, os países protestantes apresentavam uma taxa de alfabetização média mais elevada do que a dos restantes países europeus, embora as diferenças não fossem muito assinaláveis entre regiões protestantes e católicas no mesmo país (como na Alemanha e na Bélgica) ou mesmo entre as nações mais avançadas da Europa. Por isso, por si só, o factor religião não consegue explicar as diferenças educativas entre países. Portugal atrasou-se ainda mais no século 19, quando o sistema educativo público de massas foi introduzido na maioria dos países europeus, mas demorou mais tempo a ser implementado entre nós.

Assim, em meados desses século Portugal já estava significativamente atrasado na escolarização das suas populações. Para percebermos porquê, atentemos ao Gráfico 4.12, que apresenta as taxas de escolarização em Portugal e na Europa entre 1870 e 1940. Para interpretarmos estes dados mais facilmente, dividiu-se a Europa em Europa Avançada, Europa do Sul (excluindo Portugal) e Europa do Leste. Mais uma vez, o gráfico é bastante elucidativo do atraso que registámos, desde 1870 até 1940, em termos à escolarização. Assim, em 1870, enquanto na Europa mais avançada cerca de 60% da população estava escolarizada, entre nós registava-se uma taxa de escolarização de apenas 15%, abaixo do resto da Europa do Sul (que tinha taxas médias a rondar os 30%), e a própria Espanha (com taxas acima dos 40%). Em 1910, na véspera da Primeira Guerra Mundial, e no início da I República, Portugal apresentava uma taxa de escolarização a rondar os 20% da população, substancialmente inferior à Espanha (35%), à Europa de Leste e à Europa do Sul (40%). Quadro 4.3_ Taxas de alfabetização (% da população total), 1500-1800
Literacia em 1500 Áustria Bélgica França Alemanha Itália Holanda Suécia Portugal Espanha 6 10 7 6 12 10 10 1 1 Literacia em 1800 21 49 37 35 22 68 85 10 20 Europa de Leste Rússia Estados Unidos Inglaterra China Índia Japão Outra Ásia África Literacia em 1500 1 1 10 5-10 2 5-10 3 0-1 Literacia Em 1800 4 4 50 51.5 16-22 3 25-30 3 2

Fontes: Europa: Cipolla (1969), Cressy (1980), e Stone (1954), China Rawski (1979), Japan: Dore (1965), EUA: extrapoladas de Lockridge (1965), India: Parulekar (1957), Africa: extrapoladas de Maddison (2001).

Na I República, apesar de os ideais republicanos advogarem a escolarização universal da população, a realidade foi bastante distinta. Com efeito, durante quase toda a I República, o investimento no sector educativo sofreu as consequências da nossa participação na Primeira Guerra Mundial e da grave crise das contas públicas (que se vivia já desde o período monárquico mas que se

deteriorou nesses anos), de modo que a taxa de escolarização nacional chegou a baixar entre 1910 e 1920. Nos últimos anos do regime republicano, o fim da guerra e a maior consolidação das contas públicas permitiram aumentar o esforço de alfabetização das populações, uma tendência que foi lentamente prosseguida pela ditadura nos anos seguintes. E foi assim que, em 1940, a taxa de escolarização ainda só rondava os 28,6%. Alguns dos atrasos educativos portugueses começaram a ser atacados durante a ditadura salazarista. Deste modo, no final dos anos 1960, Portugal alcançou finalmente a universalidade do ensino primário, um «progresso» que chegou décadas atrasado em relação aos países europeus mais avançados. Todavia, e apesar de a literacia básica para todas as crianças ter sido uma conquista (bem modesta) educativa do regime, o país ficou ainda mais atrasado em relação à Europa tanto no ensino secundário como universitário, que, até finais da década de 1960, continuaram a ser dirigidos para as classes mais abastadas. A ditadura salazarista mostrou sempre enormes reservas quanto ao sector educativo, pois, como era evidente, um povo esclarecido e educado seria meio caminho andado para o fim do próprio Estado Novo. No final do regime, um terço dos portugueses permaneciam analfabetos, somente 3% possuíam um ensino secundário completo, e 0,6% o ensino universitário. Indicadores de terceiro mundo, portanto. Gráfico 4.12 _ Taxas de Escolarização (% da população total), 1870-1940

Historicamente, as nossas taxas de escolarização eram muito baixas em relação aos restantes países europeus, incluindo a Espanha e a Europa de Leste. O progresso de escolarização das populações foi muito lento: entre 1880 e 1940, a taxa de escolarização aumentou de 21,8% em 1880 para somente 28,6% em 1940.

Fonte: Calculado de Benavot e Riddle (1988)

Não há dúvida que os grandes avanços em termos de escolaridade média aconteceram após a implementação da era democrática. Um pouco como os republicanos no início do século, os governos democráticos encararam, e bem, o atraso educativo como um dos factores estruturais do nosso subdesenvolvimento, bem como uma das principais fontes das injustiças sociais. Com atrasos desta dimensão, os governos democráticos investiram recursos sem precedentes no sector educativo, de modo que os gastos com a Educação cresceram de 1.8% do PIB em 1974, para 3.7% do PIB em 1980, e cerca de 7% em 1999. A considerável melhoria dos indicadores da Educação durante o período democrático pode ser observada no gráfico 4.13, que apresenta os anos de escolaridade média em Portugal desde 1950. É fácil de constatar a subida acentuada dos anos de escolaridade média, uma subida que foi curiosamente interrompida no final dos anos 1990, quando estávamos em plena febre da

campanha da «Paixão pela Educação» dos governos Guterres. Afinal, pelo que parece, não estávamos assim tão apaixonados, ou, pelo menos, a paixão foi demasiado efémera. Gráfico 4.13 _ Anos de escolaridade média em Portugal, 1950-2010

A escolaridade média em Portugal tem vindo a aumentar nas últimas décadas. A grande subida da escolaridade média ocorreu entre 1975 e o ano 2000.

Fonte: Barro e Lee dataset (2010)

Ainda assim, o elevado investimento no sistema educativo dos governos democráticos teve resultados inegáveis, pois 36 anos após o 25 de Abril de 1974, a taxa de analfabetismo baixou para 8%, os anos de escolaridade média global aumentaram de 4,7 anos em 1974 para cerca de 8,3 anos em 2010, e a percentagem de portugueses que frequentaram os ensinos secundário e universitário mais do que triplicaram desde então. Vários estudos empíricos confirmam a importância que este aumento do capital humano teve para o crescimento económico nacional. Mais concretamente, segundo algumas estimativas, entre 1975 e o ano 2000, a melhoria do capital humano (i.e., o investimento em Educação)

foi responsável por cerca de 30% do crescimento económico nacional. Contudo, e apesar dos progressos registados nesta área em relação ao período do Estado Novo, será que todo este esforço foi suficiente para eliminar o fosso educativo entre nós e os países mais avançados da Europa? Surpreendentemente, ou talvez não, a resposta é negativa. De facto, e se confrontarmos a evolução da escolaridade média em Portugal e em outros países europeus, facilmente verificamos que os progressos do nosso atraso educativo são ainda bastante modestos. Neste sentido, o próximo gráfico apresenta os anos de escolaridade média em vários países da Europa Ocidental e a Europa de Leste em 2010. O gráfico é bastante revelador. Apesar de todo o investimento das últimas décadas, nós ainda somos o país com a pior escolaridade média em toda União Europeia. Gráfico 4.14 _ Anos de escolaridade média na União Europeia em 2010

Em 2010, os anos de escolaridade média portugueses eram os mais baixos da União Europeia.

Fonte: Calculado de Barro e Lee (2010)

Se só atentarmos para a escolaridade do ensino secundário, verificamos que Portugal está ligeiramente melhor em termos relativos, mas não muito, pois pior do que nós, só mesmo a Polónia, a Bulgária e a Eslovénia. Em contrapartida, os gregos, os búlgaros ou os italianos têm, em média, bem mais anos de escolaridade do ensino secundário do que nós. No ensino universitário, a história repetese. Portugal é o país da União Europeia com os piores indicadores de escolaridade média no ensino universitário. Lamentável, no mínimo. Por sua vez, se observarmos as diferenças relativas entre Portugal e a UE, as notícias são igualmente pouco animadoras. Mais concretamente, se compararmos Portugal com alguns dos países mais avançados da Europa, facilmente perceberemos que o nosso atraso educativo tem progredido bem menos do que às vezes somos levados a crer. Como os nossos governos gostam de desculpar os nossos maus indicadores educativos com o baixo investimento no passado, o próximo gráfico compara os anos de escolaridade média em Portugal com uma amostra de 5 países europeus mais ricos (a Alemanha, a França, a Holanda, a Itália e o Reino Unido). Para simplificar, chamemos estes países Europa Avançada e comparemos a evolução da escolaridade média em Portugal e a média destes países. Para facilitar as comparações, o gráfico 4.15 apresenta a escolaridade média portuguesa em relação à Europa Avançada. Assim, um valor igual a 100 corresponde à média de escolaridade nestes países, enquanto valores inferiores indicam que a nossa escolaridade média é menor do que a média da Europa Avançada. Por exemplo, um valor de 50 significa que os anos de escolaridade médios em Portugal são 50% dos anos de escolaridade média na Europa Avançada. Estamos assim em condições para comparar a distância relativa entre a média de anos de escolaridade na Europa Avançada com a média de anos de escolaridade em Portugal. Comecemos com a escolaridade média global, isto é, para todos os níveis de educação. Como podemos ver no gráfico 4.15, a «convergência» de Portugal com a Europa Avançada em termos de anos de escolaridade médios teve lugar principalmente nos primeiros anos da democracia, logo após o impulso inicial levado a cabo pelos governos democráticos. Em contrapartida, nos últimos anos, a convergência da escolaridade

média nacional com a escolaridade média da Europa Avançada tem-se mantido relativamente constante. O mesmo se passa em relação à escolaridade do ensino secundário, e no ensino universitário os nossos atrasos até se acentuaram. Gráfico 4.15 _ Anos médios de escolaridade em Portugal relativamente à Europa Avançada, 19502010 (Europa Avançada=100)

Fonte: Calculado de Barro e Lee (2010), Santos Pereira e Lains (2010)

Assim, parece que nós não fomos os únicos europeus a investir no sector educativo e a apaixonarmo-nos pela Educação. Isto é, se atentarmos somente para os anos de escolaridade média, o investimento sem precedentes no sistema educativo dos últimos anos simplesmente não surtiu efeito em termos de convergência relativa dos nossos indicadores educativos. Ainda assim, e como os indicadores baseados nos anos de escolaridade pouco dizem sobre a qualidade do sistema educativo, temos de analisar outros dados para termos uma visão mais abrangente do sector. É perfeitamente possível que a quantidade do nosso capital humano ainda não seja apreciável, mas será que a qualidade

da nossa educação se equipara à dos países mais avançados? É isso que veremos em seguida. A fraca qualidade da Educação nacional Há boas notícias e más notícias em relação à qualidade da educação (e do capital humano) nacional. As boas notícias é que há indícios de que a qualidade da educação dos nossos alunos tem melhorado na última década. Assim, se compararmos os resultados do inquérito de PISA (que é o maior inquérito comparativo dos sistemas educativos que existe no mundo) de 2000 com os de 2009 (os mais recentes), verificamos que os alunos portugueses melhoraram o seu desempenho educativo quer em termos absolutos (isto é, as médias dos testes subiram), quer em termos relativos (isto é, nos rankings de países das médias dos testes). Se a tendência continuar, podemos ficar um pouco mais optimistas em relação à melhoria da qualidade da nossa educação, bem como em relação à eficiência dos recursos alocados ao sector. Apesar de nos devermos congratular pelo progresso alcançado, não vale a pena cairmos em euforias desproporcionadas. Infelizmente, a verdade é que é que ainda há muito para andar para nos podermos dar por satisfeitos em relação aos indicadores de qualidade educativa sugeridos pelo PISA. Neste sentido, e apesar da evolução positiva, a verdade é que ainda estamos abaixo da média da OCDE em todos os indicadores de desempenho educativo do PISA, embora já estejamos perto dessa mesma média nalgumas áreas. Isto não significa que os resultados do PISA 2009 não sejam de saudar. Todavia, de nada nos servem estes resultados se não prosseguirmos o esforço de melhoria dos indicadores da qualidade educativa nos próximos anos. Infelizmente, as boas notícias acabam aqui. Apesar do progresso registado, a verdade é que os nossos atrasos e as nossas insuficiências são ainda muito evidentes e significativas, e revelam uma qualidade educativa (e do capital humano) média muito sofrível, sendo assim um claro factor de descompetitividade económica. Um claro sintoma deste factor são as gerações perdidas pelo nosso sistema educativo. Gerações e gerações perdidas

Não é só a quantidade e a qualidade do nosso sistema educativo que deixa bastante a desejar. O problema está também nas oportunidades (ou a falta delas) que esse mesmo sistema proporciona (ou não) às novas gerações. E aqui as notícias são manifestamente más, péssimas mesmo. Todos os anos, mais de um terço dos nossos jovens entre os 18 e os 24 anos abandona precocemente o sistema educativo (Gráfico 4.16). A nossa taxa de abandono escolar é de tal forma medíocre e alarmante que, em toda a OCDE, Portugal é o terceiro país com a incidência mais elevada de abandono escolar. Pior do que nós só o México e a Turquia, países muitíssimo mais pobres do que nós. Na União Europeia não há sequer comparação. Só Malta é pior do que nós. Enquanto a nossa taxa de abandono escolar precoce se situa perto dos 35%, na Espanha é de 30%, e no país que vem a seguir (a Itália) tem uma taxa de abandono escolar cerca de 20 pontos percentuais mais baixa do que a nossa. Ou seja, os nossos indicadores são péssimos. Gráfico 4.16 _ Abandono escolar: percentagem de indivíduos com idades entre 18-24 anos que abandonaram o ensino secundário sem o completarem, 2008

Portugal tem uma das piores taxas de abandono escolar em toda a União Europeia. Pior que nós só Malta. Mais de um terço dos nossos jovens entre os 18 e os 24 anos abandonam precocemente os seus estudos.

Fonte: Eurostat

Uma das consequências do abandono escolar precoce é uma baixíssima percentagem da população que tem pelo menos o ensino secundário completo. É exactamente isso que mostra o Gráfico 4.17, onde podemos ver que Portugal tem a percentagem mais baixa da população com idades entre os 25 e os 65 anos com o ensino secundário completo de toda a União Europeia, com a excepção de Malta. É igualmente visível que há uma enorme distância entre nós e os restantes países da União Europeia. Em todos os países da União Europeia mais de 70% da população entre os 25 e os 65 anos completou o ensino secundário. As únicas excepções somos nós (como 28,2%), Malta (27,5%), a Espanha (51%) e a Itália (53,3%), que, ainda assim, têm populações com índices educacionais muito superiores aos nossos. Gráfico 4.17_ Percentagem da população com idades entre os 25 e os 65 anos que completou o ensino secundário, 2008

Em Portugal, menos de 30% das pessoas com idades entre os 25-65 anos completaram o ensino secundário. Em quase todos os países da UE mais de 70% da população em idade laboral completou o ensino secundário.

Fonte: Eurostat

Como solucionar estes problemas? Bem, em primeiro lugar temos de perceber de uma vez por todas de que a estratégia seguida nos últimos anos não tem dado resultados. Bem pelo contrário. O nosso sistema educativo é demasiado ineficiente, demasiado caro e pouco competitivo. Em segundo lugar, é vital levar a cabo uma verdadeira reforma sobre a forma como encaramos o ensino dos nossos filhos. Como? Encarando a educação como um dos melhores investimentos que podemos fazer para o futuro dos nossos filhos e percebendo que apostar na educação é uma condição essencial para uma melhoria da competitividade da economia nacional. O abandono escolar é epidémico e tem

implicações verdadeiramente dramáticas, quer em relação à qualidade média do nosso capital humano, quer em termos das desigualdades sociais. E se somos actualmente um dos países mais desiguais da OCDE, um dos factores mais importantes para explicar as nossas invulgares desigualdades é exactamente a nossa inaceitável e terceiro-mundista taxa de abandono escolar. Se há indicador onde nos devemos envergonhar é este. O que não há dúvida é que as nossas insuficiências educativas penalizam em muito a produtividade dos nossos factores produtivos e, por consequência, a própria competitividade da nossa economia.

E o que é que podemos fazer para alterar o actual estado de coisas? Dar mais responsabilidade aos pais e às escolas no ensino dos alunos, descentralizar e, simultaneamente, acabar com a cultura de facilitismo reinante dos últimos anos. Voltaremos a estes assuntos no capítulo 7.

CAPÍTULO 7

Mais e melhor educação Como todos sabemos, a Educação é indispensável para melhorar o capital humano de um país, isto é, o nível de qualificações médias dos trabalhadores. Como a qualidade do capital humano está intimamente relacionada com a produtividade, um sistema educativo sofrível ou pouco adaptado às exigências do mundo actual tem um efeito muito nefasto sobre a economia. A qualidade do capital humano está igualmente intimamente associada ao grau de empreendedorismo e de inovação de uma economia, sendo assim fundamental para o dinamismo económico. Por todos estes motivos, uma política de competitividade e de melhoria da produtividade tem de passar necessariamente pelo sector educativo. Ora, se há sector onde já se fizeram dezenas de «reformas estruturais» é o sector da Educação. Com efeito, as ditas reformas sucedem-se quase tão rapidamente quanto os(as) ministros(as) do pelouro. Ao longo das últimas décadas, já lutámos contra os alunos (por causa das propinas), já lutámos contra os professores (por causa das avaliações e dos estatutos da carreira docente), e até já lutámos contra os próprios pais (por causa do encerramento das escolas no interior). Já nos apaixonámos pela Educação, já demos prioridade à Educação, e já elegemos a Educação como o principal desígnio nacional. Porém, assim como vimos no capítulo 4, apesar das melhorias significativas registadas na era democrática, o nosso atraso estrutural no sector educativo continua e os indicadores de desempenho nacionais não convergiram decisivamente em relação à média europeia ou da OCDE. Como é evidente, esta estratégia para o sector não está a resultar ou, pelo menos, está a sair-nos demasiado cara. Por isso, vale a pena olharmos para os países mais avançados e ver o que é que podíamos aprender para melhorarmos o nosso sistema educativo. Se o fizermos e se formos isentos, facilmente perceberemos que uma verdadeira reforma educativa deve baseada em três princípios basilares: 1) uma luta intransigente por um maior grau de exigência, 2) um combate sem tréguas ao flagelo do abandono escolar, e 3) uma descentralização da Educação, retirando poderes ao Ministério e

atribuindo-os às escolas e aos professores. Vejamos então porquê. É fundamental de haver um maior grau de exigência nas nossas escolas, pois nos últimos anos tem havido a tendência de nivelar por baixo o nível educacional para podermos melhorar artificialmente as nossas tristes estatísticas da educação. É exactamente isso que nos dizem vários especialistas da matéria, como Nuno Crato, Paulo Guinote, Ramiro Marques, Santilhana Castilho ou até David Justino. Esta cultura de facilitismo e de nivelamento por baixo dos conhecimentos dos alunos é altamente reprovável e decerto que acabará por ter reflexos muito grandes na qualidade do nosso capital humano. Esta cultura do facilitismo, de melhorar estatísticas artificialmente, de agradar excessivamente aos alunos sem que haja uma preocupação pelo saber, tem sido denunciada por vários autores e professores, que classificam este «eduquês» como um enorme atentado às qualificações das gerações futuras. Como Guilherme Valente, um dos grandes críticos do facilitismo reinante, afirmou recentemente:
«Ensina-se, supostamente, a «aprender a aprender». Mas não se ensinam os conhecimentos que os alunos precisam de aprender. Ensina-se, supostamente, a «aprender a aprender» matemática. Mas o que é preciso mesmo é aprender matemática. O «aprender a aprender» tornou-se moda por soar bem e prometer o «milagre» de se poder aprender tudo sem ter de se aprender nada. O eduquês substitui o que importa ensinar pelas técnicas e métodos que supostamente permitiriam aprender tudo sem esforço.»

Por outras palavras, não é por facilitarmos e diminuirmos o grau de exigência do nossos ensino ou por melhorarmos de forma artificial as nossas estatísticas educativas que iremos ultrapassar os enormes atrasos históricos que temos nesta área. Bem pelo contrario. O facilitismo é meio caminho andado para garantirmos que os nossos atrasos educativos se perpetuem e se reproduzam. Por isso, é fundamental acabar com este estado de coisas o mais cedo possível, antes que os danos causados sejam irreversíveis.

Em relação ao abandono escolar, e como já vimos no capítulo 4, Portugal é o país da União Europeia que tem a maior incidência de abandono escolar, com a excepção de Malta. Na OCDE, só o México e a Turquia têm indicadores de abandono piores do que os nossos. O abandono escolar não só afecta irremediavelmente a qualidade média do nosso capital humano (e assim tem um impacto negativo na produtividade e no grau de empreendedorismo nacionais), como é provavelmente a maior fonte das desigualdades sociais do nosso país. Como é sabido, Portugal é um dos países da OCDE onde as desigualdades sociais mais se fazem sentir, assim podemos verificar no Gráfico 9.1, que apresenta o indicador de desigualdade mais utilizado (os coeficientes de Gini) para os países da OCDE. É visível que os únicos países da OCDE que apresentam índices de desigualdade maiores do que os nossos são o México e a Turquia. Todos os restantes países têm níveis de desigualdade social bastante inferiores ao nosso. Gráfico 7.1 _ Desigualdade de rendimentos na OCDE, Coeficientes de Gini, 2006

Portugal é dos países mais desiguais da OCDE. Pior que nós só a Turquia e o México.

Fonte: OCDE

Ora, o combate ao abandono escolar é absolutamente crucial para o combate às desigualdades sociais, pois enquanto tivermos 30% a 40% dos nossos jovens a desistirem dos seus estudos, não há políticas redistributivas que consigam inverter as nossas elevadas desigualdades sociais. Podemos redistribuir os rendimentos quanto quisermos, podemos até aumentar as prestações sociais para níveis sem precedentes, mas as desigualdades sociais não irão diminuir de forma decisiva enquanto as desigualdades educativas permanecerem tão significativas. A prova disso é que, nos 15 últimos anos, houve um aumento considerável das prestações sociais (como o Rendimento Social de Inserção ou Rendimento Mínimo), mas, mesmo assim, as desigualdades sociais aumentaram em vez de diminuírem. Com efeito, e de acordo com os dados da OCDE, enquanto em 1995, o coeficiente de Gini português era igual a 0.36, em 2006, já tinha subido para 0.42, o nível mais elevado dos países mais avançados da OCDE. Como já referi, o principal factor explicativo das desigualdades sociais em Portugal é o nível educacional. As oportunidade ainda não são as mesmas para todos em Portugal. Enquanto não travarmos o flagelo do abandono escolar não conseguiremos diminuir as nossas graves desigualdades sociais. Mais do que esmolas do Estado, os jovens portugueses precisam de oportunidades. Oportunidades para concluírem os seus estudos, oportunidades para poderem singrar na vida, oportunidades para poderem ambicionar usufruir um nível de vida elevado e condigno, oportunidades para que não tenham que procurar uma vida melhor em outros países. E o primeiro passo para proporcionarmos estas mesmas oportunidades passa por melhorarmos o nosso sistema educativo e por levarmos a cabo uma luta sem tréguas contas o abandono escolar. E assim chegámos ao terceiro e último alicerce de uma nova política educativa: a descentralização do sector educativo. Independentemente da carga ideológica e política das diversas «reformas estruturais», um factor que lhes é comum é que o Estado (através do Ministério da Educação) tenta sempre aumentar o seu controlo sobre o sistema. Fala-se muito em descentralização mas pouco se faz. O Ministério da Educação escolhe currículos, organiza calendários escolares, e até

decide que escolas devem ser modernizadas. Contudo, o Ministério da Educação nunca, ou quase nunca, opta por dar mais poder aos professores. Na sua obsessão centralizadora, o Ministério da Educação construiu um império de burocracia e de controlo, cujos resultados não são propriamente muito recomendáveis, pelo menos quando nos comparamos aos países mais avançados. Por isso, o Ministério da Educação devia cometer a heresia suprema e descentralizar a Educação, dando mais poder e liberdade às escolas, aos professores, aos alunos e aos pais. Ou seja, devia haver mais liberdade e muito mais descentralização na Educação, quer ao nível curricular, quer em relação à contratação dos professores e à gestão escolar. Neste sentido, vale a pena ouvir as sábias palavras de Ramiro Marques, investigador em Ciências da Educação e editor de um dos blogues educativos mais influentes do país, que nos diz:
A opção pelo centralismo e uniformidade cria obstáculos à qualidade do ensino. Asfixia a criatividade das escolas, conduz ao desperdício de tempo na acomodação das constantes alterações legislativas ao serviço do conceito de revolução educativa permanente e dificulta a criação de dispositivos organizacionais adaptados às necessidades locais.

Nem mais. Com efeito, o nosso Estado continua a tratar as nossas escolas e os nossos professores como crianças. Dá-lhes uma mesada ou uma quantia para se governarem, mas depois diz-lhes o que devem fazer, como se devem comportar, e impõe-lhes sanções se não seguirem as suas directivas. Como é por demais evidente, esta estratégia não está a resultar. Apesar dos enormes progressos registados na área da Educação no período democrático, a verdade é que, como vimos, a nossa posição relativa nos indicadores de Educação não está a melhorar significativamente no contexto europeu. Por isso, só temos a ganhar se experimentarmos aquilo que de melhor já foi feito em outros países. Ou seja, e como defendi noutro contexto:
«Por que não promover uma maior concorrência entre as escolas? ... Por que não dar mais autonomia às escolas nas escolhas dos currículos, dentro dos limites impostos pelo conhecimento

mínimo necessário aos exames nacionais? Por que não recompensar as escolas cujos professores se distinguem? Por que não subsidiar mais o ensino privado? Por que não introduzir currículos alternativos? Por que não atribuir mais recompensas financeiras às escolas que se destaquem em prol da qualidade educativa e do combate ao abandono e ao insucesso escolares? Por que não dar prémios aos professores e às escolas cujos alunos obtêm boas notas nos exames nacionais? Por que não dar mais recursos às escolas cujos alunos se evidenciam nesses exames? Todas estas medidas deviam ser debatidas seriamente e até, porque não, experimentadas. Se aspiramos realmente a instaurar uma cultura de excelência na Educação, não podemos ter receio de procurar melhores soluções, melhores incentivos e melhores recompensas, tanto para os nossos alunos como para os nossos professores.»

O capítulo 9 analisará ainda todo um conjunto de reformas para melhorarmos o ensino superior. Entretanto, interessa referir que, para além de uma redução dos custos unitários do trabalho e dos nossos custos de contexto, é importante que o próximo governo faça a promoção de uma cultura de empreendedorismo e aposte em clusters de excelência. As próximas secções debatem estes temas.

CAPÍTULO 9 11. UM ENSINO SUPERIOR REVOLUCIONADO Um dos sectores da Educação que precisa de ser francamente remodelado é o Ensino Superior. As universidades são fundamentais não só porque transmitem e criam conhecimento, mas também porque são importantíssimas para a competitividade de um país, contribuindo para a melhoria da qualidade do capital humano. Neste sentido, vários estudos têm demonstrado que o empreendedorismo e a inovação estão intimamente relacionados com a instrução universitária de um país. Por isso, investir no ensino superior faz todo o sentido. Não há dúvidas que o sector melhorou muito em relação aos tempos da ditadura, tanto com a democratização do acesso do ensino superior às diferentes classes

sociais e económicas, como na formação de mais alunos. Ainda assim, há ainda todo um conjunto de problemas estruturais que permanece e que impede um desenvolvimento mais rápido e mais harmonioso do sector. A triste verdade é que a grande maioria das instituições do ensino superior nacional ainda deixa muito a desejar. No seu formato actual, as universidades portuguesas são, na sua grande maioria, um repositório de comodismo, de inércia, e de conformismo, em vez de serem fontes de dinamismo e de crítica construtiva. Os que estão lá dentro (os «insiders») fazem tudo o que podem para manterem os seus pequenos mundos pouco abertos à concorrência exterior, e fecham o mais que podem as portas à concorrência exterior. Este é, de facto, o retrato de grande parte do nosso ensino universitário. Há honrosas excepções a esta tendência, é verdade. Temos até alguns departamentos e instituições universitárias que mantêm uma qualidade média de investigação de nível internacional. Porém, infelizmente, estes departamentos e instituições estão em franca minoria. Ora, se queremos alterar este estado de coisas, um governo que esteja verdadeiramente interessado em melhorar a qualidade das nossas universidades deve introduzir uma série de medidas que fomentem a meritocracia e aumentem a concorrência entre as instituições do ensino superior, principalmente no que diz respeito à contratação dos docentes. Mais concretamente, um próximo governo devia implementar as seguintes medidas para o ensino superior: 1) Reduzir o número de universidades e politécnicos públicos Portugal tem actualmente 15 universidades públicas e 15 institutos politécnicos, bem como dezenas de universidades privadas, institutos e escolas superiores privadas. Será que precisamos de tantas instituições públicas do ensino superior? Por que razão existem 4 (sim, quatro!) universidades públicas em Lisboa? Isto sem contar com a Universidade Aberta, que também está sediada em Lisboa, mas especializa-se no ensino à distância. Porquê a duplicação de esforços numa área geográfica tão limitada? Não faz sentido nenhum. Esta situação é, mas uma vez, um sintoma do excessivo despesismo do Estado e da nossa tendência para não controlarmos a despesa pública. Por isso, parece-me por demais evidente que seria proveitoso para todos se duas ou três universidades públicas e institutos

politécnicos se fundissem para poder beneficiar de maiores economias de escala e de economias de recursos. Outra possibilidade poderia passar por privatizar uma ou duas universidades públicas, permitindo a angariação de receitas que poderiam ser então empregues no resto do ensino superior. É obvio que esse caminho seria bem mais drástico e certamente bem mais controverso. No entanto, se acharmos mesmo que não se justificam tantas universidades públicas, por que não tentar? 2) Reduzir e consolidar o número de cursos superiores Em Portugal, e apesar dos avanços das últimas duas décadas, podemos ter um número de licenciados por habitante bastante modesto (para já não dizer sofrível) em relação aos restantes países da OCDE e da União Europeia. Porém, nós devemos ser os recordistas mundiais do número de cursos superiores por habitante e/ou por universidade. Há, nada mais nada menos, do que cerca de 4000 cursos nas universidades portuguesas. Sim, leu bem. Quatro mil. Em Portugal, os cursos superiores proliferaram nos últimos anos proporcionalmente à fúria de criar universidades, institutos politécnicos e superiores, faculdades e departamentos. Porém, ao fazê-lo, não só diluímos a qualidade do ensino, como estamos a ser pouco eficientes na alocação dos recursos limitados que temos. Neste sentido, o processo de acreditação de novos cursos superiores recentemente introduzido é uma boa notícia, desde que as coisas sejam feitas com isenção, com correcção e integridade. Se, por outro lado, levarmos a cabo este processo só para avalizar o que foi decidido ou para fingir que estamos a controlar a qualidade dos novos cursos, é óbvio que a estratégia não nos levará a lado nenhum. Independentemente do sucesso ou não deste processo de acreditação, uma redução do número de cursos e de licenciaturas é uma boa ideia e devia ser concretizada. 3) Acabar com a miscigenação nas universidades portuguesas Nas melhores universidades mundiais, não é permitido aos alunos ficarem nas universidades onde fizeram o doutoramento. A razão é simples, se o permitirmos, estamos a abrir as portas para eventuais compadrios e favorecimentos pessoais, diminuindo assim a qualidade média da investigação e do ensino. Em claro contraste, em Portugal é perfeitamente normal, e até habitual, os melhores alunos

transitarem de estudantes de licenciatura ou de mestrado para assistentes universitários, tornando-se em seguida estudantes de doutoramento, até chegarem a professores auxiliares. Esta prática é pouco salutar, exactamente por causa das razões que foram enunciadas em cima. Por isso, as nossas universidades deviam acabar de uma vez por todas com este costume, não permitindo que os seus estudantes de mestrado e de doutoramento se possam tornar assistentes ou, mais tarde, professores auxiliares. Alguns das nossas faculdades e centros de investigação mais expostos às práticas internacionais já o fazem. É preciso estender esta regra ao resto do mundo universitário. 4) Acabar com os números clausus Contrariamente ao que às vezes pensamos, os números clausus nas universidades portuguesas não se restringem aos alunos. Também há números clausus para os professores. Assim, todos os departamentos têm um número fixo de lugares disponíveis para professores catedráticos, associados ou auxiliares. Este número fixo de lugares dá azo a uma extrema rigidez na mobilidade dos professores. Por exemplo, mesmo se uma professora auxiliar publicar vários artigos em revistas de topo internacional e for uma excelente docente, não pode ser promovida a professora associada, a não ser que um dos professores associados do quadro se reforme ou tenha a infelicidade de falecer. Um perfeito disparate, como é óbvio. A promoção devia ser baseada no mérito das publicações e não estar dependente da abertura de um lugar numa posição superior. É assim em quase todos os países avançados, mas não em Portugal. Por isso, é de todo o interesse acabar com esta situação, de forma a fomentar uma maior mobilidade e uma maior produtividade dos nossos docentes universitários. 5) Acabar com as provas de agregação Em Portugal, para se passar a professor efectivo (isto é, com «agregação») é preciso que os docentes provem que têm competência para terem um vínculo permanente às suas instituições de ensino. Para tal, os professores têm de passar por provas de agregação, nas quais têm de ser avaliados pela sua investigação perante um júri de outros docentes. Não interessa que o(a) professor(a) em causa tenha publicado nas melhores revistas da especialidade ou se a sua investigação seja reconhecida

nacional e internacionalmente. Teoricamente, se não passar nessas provas de agregação, não pode ficar a efectivo. Um disparate, como é evidente. Diga-se que, mais uma vez, Portugal não é caso único, pois existem outros países europeus que possuem sistemas semelhantes. Ainda assim, e mesmo que, por vezes, as provas de agregação sejam uma mera formalidade, a verdade é que a sua existência é um resquício arcaico e medieval do nosso ensino superior, dos tempos em que as universidades estavam fechadas ao mundo que as rodeava, bem como ao exterior. Tempos em que para se ser professor catedrático interessava mais as ligações políticas e o tempo de docência (bem como, frequentemente, a taxa de reprovação dos alunos) do que a publicação da investigação em revistas da especialidade nacionais ou internacionais. Porém, este é um resquício que é perfeitamente desnecessário no mundo actual, onde a qualidade da docência se mede pela publicação em revistas da especialidade e pelas avaliações dos professores feitas pelos alunos. Por isso, acabar com as provas de agregação é somente uma prova de bom senso e de mínima razoabilidade. 6) Fomentar a concorrência entre instituições universitárias Em Portugal são raros os casos em que os professores transitam de universidades. É quase uma heresia quando tal acontece, e os docentes que o fazem são frequentemente mal vistos pelos seus pares. Assim, o nosso sistema é exactamente o oposto ao que se passa, por exemplo, nos Estados Unidos ou na Inglaterra, que têm das universidades mais dinâmicas e produtivas do mundo. Nestes países, como as universidades são classificadas e financiadas de acordo com a qualidade da investigação e do ensino (avaliada pelos alunos), há um enorme incentivo para tentar atrair os melhores investigadores e docentes. Por isso, as várias universidades estão sempre a competir no mercado de trabalho dos professores, o que contribui para a produtividade e para o prestígio da universidade em questão. Nós devíamos fazer o mesmo, pois a concorrência e a mobilidade estimulam a produtividade e a qualidade académicas. 7) Descentralizar mais o financiamento As fontes de financiamento do ensino superior deviam ser mais descentralizadas. É preciso

permitir que as universidades possam tentar atrair financiamento do sector privado para construir melhores infra-estruturas e até para a contratação de docentes. É exactamente isso que se passa nas melhores universidades públicas do mundo. É comum salas de aulas serem patrocinadas por mecenas, novos edifícios serem financiados por empresas, e até mesmo a contratação de professores ser subvencionada por grupos económicos ou por fundações. E se é assim, por que é que nós não havíamos de fazer o mesmo? E, como é óbvio, uma das formas de descentralizar mais a gestão das universidades passa por dar mais poder dos chefes de departamento e presidentes dos conselhos directivos, principalmente no que diz respeito à negociação salarial.

8) Flexibilizar os salários dos docentes Nas melhores universidades estrangeiras os presidentes do conselho de directivo e os directores dos departamentos têm poder quase absoluto na gestão dos fundos que lhes são alocados. Não interessa se os dinheiros são públicos ou privados. O presidente do conselho directivo e o corpo docente da respectiva faculdade têm uma independência quase total sobre como aplicar estes mesmos fundos. Esta decisão é especialmente importante no que diz respeito à contratação, promoção e retenção de docentes, que têm salários diferenciados de acordo com a sua experiência, área de investigação, e, inclusivamente, oferta de empregos de outras universidades. Só assim é que é possível competir com outras universidades nacionais e internacionais pelos melhores docentes e investigadores. Aliás, na América do Norte, a diferenciação salarial é feita não só individualmente, mas também por área científica. Neste caso, a procura estudantil de determina o salário médio dos professores de cada área. Mais uma vez, a flexibilização e a diferenciação salarial constitui um incentivo importante para a qualidade docente. 9) Mais poder aos alunos No ensino superior, as avaliações dos professores não devem ser feitas por comissões mais ou menos ad hoc ou até por outros professores, mas sim pelos clientes dos mesmos professores, isto é,

pelos alunos. Por isso, as avaliações dos professores no ensino universitário devia ser feita pelos alunos, que são maduros o suficiente para saber julgar a qualidade do ensino, independentemente de quão exigente é o(a) docente em causa. Mais uma vez, é assim que se passa nas melhores universidades do mundo. Nós só devíamos imitar. 10) Diminuir os vínculos precários O nosso mundo universidade é muito bipolar. Por um lado, temos um grupo de privilegiados (os insiders), que têm segurança a mais e mobilidade a menos no seu mundo laboral. Por outro lado, temos um crescente grupo de docentes em situação precária, cujo vínculo às universidades é somente temporário. Como temos produzido um grande número de doutorados, mas o sistema está completamente entupido com os docentes no quadro, a solução encontrada para empregar muitos dos milhares de doutorados produzidos nos últimos anos tem sido a criação destes laboratórios associados ou institutos de investigação, que oferecem vínculos de 5 a 10 anos a estes investigadores. Não faz sentido nenhum continuarmos a promover esta precariedade. E das duas uma: ou tornamos estes lugares permanentes, ou deixamos de financiar este tipo de empregos precários. A verdade é que ninguém ganha com a promoção da precariedade no ensino superior. 12) Atrair recursos do estrangeiro Há centenas, se não mesmo milhares de doutorados portugueses a exercer as suas profissões no estrangeiro. Muitos destes doutorados nunca voltarão, mas muitos outros poderiam facilmente regressar se lhes déssemos condições de investigação e oportunidades de emprego. Só que, para que tal aconteça, precisamos de fazer exactamente que se acabou de defender, isto é, é preciso haver uma maior rotatividade de lugares, introduzir-se a flexibilização salarial e acabar com os números clausus dos professores. Acima de tudo, é preciso haver oportunidades de emprego e, como é evidente transparência e honestidade nos concursos públicos dos professores. É que os concursos portugueses são tudo menos transparentes, pois frequentemente as vagas já se encontram previamente atribuídas e o concurso é uma mera formalidade processual. Enquanto não mudarmos este estado de coisas, não

podemos ambicionar tentar atrair alguns dos nossos melhores investigadores espalhados um pouco por todo o mundo. 13) Mais transparência Mais responsabilidades e uma maior descentralização de decisões deverão ser acompanhadas de uma maior transparência no ensino superior. Os orçamentos dos diversos departamentos e faculdades devem estar à disposição de todos, e os salários diferenciados dos professores devem ser publicados em sites públicos na internet. Porquê? Para que os contribuintes, se assim desejarem, possam averiguar onde é que os seus impostos estão a ser aplicados, e para que haja um maior controlo das despesas das universidades. Só com mais transparência é que conseguiremos criar um verdadeiro clima de salutar concorrência entre docentes e universidades.

Em suma, o ensino superior necessita de todo um conjunto de reformas para se tornar mais dinâmico, mais competitivo e mais moderno. Mais do que milhões e milhões de euros adicionais, o nosso ensino superior necessita de melhores incentivos para inovar e para se tornar mais adaptado às necessidades do mundo actual. Uma reforma desta magnitude poderia inclusivamente ajudar a inverter a dramática fuga de cérebros nacional.

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