O Ursinho Polar

(uma astro-estória para adultos, por Nuno Michaels)

Era uma vez um ursinho polar. Um dia o ursinho foi ter com a mãe e perguntou-lhe a tremer:

Oh Mãe!, tens mesmo a certeza que eu sou um ursinho polar, mesmo purinho purinho??

E a mãe respondeu-lhe. - Claro que és um ursinho polar. Eu sou uma ursa polar pura, o teu pai é um urso polar puro. Concerteza que és um urso polar! Qual é a dúvida?! Agora duvidas da tua família? Depois de tudo o que fiz por ti, ainda vens duvidar que és o mais especial dos ursinhos polares e que dei tudo para fazer de ti o urso que és hoje. Seu ingrato… depois de tudo o que fiz por ti… desde que nasceste nunca mais voltei a ursar como ursava antes.

E a mãe ficou a lamentar-se da sua triste sina e da ingratidão do ursinho.

O ursinho suspirou, cabisbaixo, e sobrecarregado com o peso da culpa foi ter com o avô e perguntou-lhe:

- Oh Avô!, tens mesmo a certeza que eu sou um ursinho polar, mesmo purinho purinho?

Ao que o avô respondeu numa voz rouca e calorosa, enrolando os bigodes com a pata direita e o focinho impondo-se orgulhosamente no ar. - Oh meu neto! És um ursinho dos mais puros, um ursinho puríssimo! Todas as gerações antes de nós eram ursos polares da raça mais pura da espécie mais pura, os pioneiros do glaciar. Tu descendes da mais pura raça de ursos polares de que há memória. Sabes, quando eu era um ursinho da tua idade,…

E enquanto o avô enrolava os bigodes e relembrava o passado o ursinho correu para o pai

- Oh Pai, eu sou mesmo um ursinho polar, mesmo purinho purinho?

- Claro que és!

Mas pressentindo que não era bem isso que o ursinho procurava, o pai abraçou-o e perguntou-lhe: - Por quê, meu filho, por que perguntas se és mesmo um ursinho polar, meu querido filho?

O Ursinho Polar – uma astro-estória para adultos é oferecida por http://www.nunomichaels.com

Página 1

em miríades de formas diferentes. sempre no mesmo sítio e em todos os tempos possíveis. de grandes princípios universais que se repetem milhões de vezes. purinho? Não é difícil assumir que o ursinho tremia por estar inseguro. O arquétipo perfeito da parte mais inocente. porque de repente já havia . in illo tempore. com reminiscências de peluche e a pureza da branca de neve. fofinho. A grelha de leitura de quem vê a vida como a manifestação de processos dinâmicos e energéticos regidos por leis rigorosas e que têm como fundamento. mesmo purinho. mas que nos ensinam sobre os temas fundamentais e eternos da natureza humana através. num tempo remoto. Naquele tempo. uma estória inconsequente que nos faz sorrir ou embevecer ao imaginar o ursinho cheio de frio na sua pele. Era uma vez é a ligação do aqui e agora com outro aqui e agora que tanto existe no passado como existirá no mesmo sítio no futuro. Ou em sítio nenhum. Simplesmente uma vez. não num qualquer momento no passado. peludo. o do momento em que ouvimos a história pela primeira vez. sem data nem início. Um ursinho polar é uma personagem com quem é fácil identificarmo-nos. de cada vez. das suas múltiplas experiências humanas no mundo. e a história circular pode manifestar-se num ponto do tempo. Um dia o ursinho polar foi ter com a mãe e perguntou-lhe a tremer: tens mesmo a certeza que eu sou um ursinho polar.. Todas as histórias começam com “era uma vez…”. e assim nos podemos abrir a uma história eterna. e como destino mais glorioso.E responde o ursinho a tremer. que é o pretexto para vos contar uma outra história dentro da história.com Página 2 . inofensivo – e branco. e apesar. porque temos a tendência profundamente humana de projectar a nossa própria O Ursinho Polar – uma astro-estória para adultos é oferecida por http://www. Os tempos sem tempo criam um rompimento no fundo da memória. inofensiva e desprotegida de nós. que sempre existiu e sempre existirá. sem estranheza e sem necessidade de reconhecimento. e ela assim pode fluir através de nós. Uma personagem do imaginário infantil. O ponto no círculo do eterno é o eterno aqui e agora. ao mesmo tempo. Provavelmente dócil. pode ser lida como uma anedota. A grelha de leitura de quem pensa o mundo em termos de arquétipos.já tinha começado… sem começar. Era uma vez um ursinho polar. principiante. quase a chorar e abraçando-se a si próprio: “tenho frio!. em tempo nenhum.” Esta história. se lhe impusermos uma certa grelha de leitura. a produção de consciência.. Mas esta mesma história também pode ser lida metaforicamente. Era uma vez… um ursinho polar.nunomichaels. ou com medo no momento de fazer a pergunta.

com Página 3 . interpretando – e reduzindo – tudo à nossa própria escala. da qualidade da sua relação com a sua própria mãe e com a capacidade daquela lhe ter espelhado de forma pura os próprios sentimentos – e da capacidade de receber. confirmação da nossa existência. sim. que a capacidade instintiva da mãe empatizar com o filho. protecção e nutrimento. é fácil assumir que é por desconforto emocional. mesmo purinho. perante as inquietações da existência ou simplesmente para encontrar colo. insegurança ou por estar amedrontado quando lhe pergunta sobre a sua verdadeira origem: tens mesmo a certeza que eu sou um ursinho polar. saber espontanea e imediatamente como responder a esses estímulos emocionais – essa capacidade não nasce da reflexão. E de podermos dar aos outros o que nós próprios recebemos. porque é difícil poder dar o que se não recebeu. de nos sentirmos merecedores de colo e carinho. aceitando e validando os estímulos e reacções emocionais pelo que são – sentimentos que. venha ele sob a forma de amor. alimento ou gratificação e bemestar emocional. E sabemos. segurança. de confiar que a vida é boa e sempre satisfará as nossas necessidades de afecto. assumindo que é a verdade a nossa própria produção subjectiva de significados. do à-vontade com os próprios sentimentos. da lógica e do questionamento. de sintonizar o seu ritmo emocional com o ritmo da sua criança. espelho da nossa identidade. Nasce.subjectividade sobre o exterior e sobre os outros. sujo e mau – assim estamos todos condenados a fazer julgamentos que nascem das nossas interpretações subjectivas. é a nossa mãe. o que o filho lhe traz a cada novo momento. Todos nascemos com a expectativa arquetípica de que um mamífero mais forte. de ler livros ou assistir a cursos sobre como cuidar do bebé. reflectir os seus sentimentos e saber acolhê-los. mais auto-suficiente nos proteja e cuide até sermos capazes de o fazer por nós próprios. à pessoa que não confia no seu próprio valor qualquer comentário dos outros soa a julgamento depreciativo e criticismo e ao sexualmente reprimido tudo parece imoral. Assim como ao deprimido tudo parece triste e sem graça e ao agressivo tudo é sinal de ameaça hostil. com a qualidade da sua própria experiência emocional. simplesmente. E sabemos que é da qualidade dessa primeira interacção que depende a futura capacidade de nos tranquilizarmos a nós próprios e de cuidarmos dos outros. calor e comida. de ponderação das várias possibilidades. purinho? A primeira pessoa para quem nos viramos em busca de conforto e segurança. mais seguro. pela sua O Ursinho Polar – uma astro-estória para adultos é oferecida por http://www. por isso. de um instinto inato que eclode nas próprias entranhas. dinheiro. da análise. sobrevivência. E quando treme o ursinho polar ao dirigir-se à mãe. Desde o nascimento estamos instintivamente programados para buscar um seio e nesse seio refúgio. protecção.nunomichaels.

sem que a insegurança do filho active a sua própria insegurança interna. o teu pai é um urso polar puro. e não.com Página 4 . Eu sou uma ursa polar pura. isto é. que saiba aceitar a dinâmica própria dos sentimentos do outro sem que tudo tenha necessariamente que ver consigo. e não têm nada que ver com o próprio desempenho como mãe. à boa maneira de quem não sabe lidar com o mal-estar do outro sem se sentir por ele posto em questão. a sua capacidade maternal. Depois de tudo o que fiz por ti. a insegurança ou instabilidade no filho vão fazer emergir a dolorosa insegurança e instabilidade na própria mãe. Como se fosse a sua dádiva. sem duvidar de si própria. Se não. as tuas origens. na culpabilização ou no lamento. lê-se na cartilha maternal de algumas mães. simplesmente. o teu pai é um urso polar puro”) para demonstrar que a pergunta do filho estava errada e não tinha razão de ser. sem questionar ou questionar-se. ainda vens duvidar que és o mais especial dos ursinhos polares e que dei tudo para fazer de ti o urso polar que és hoje. aceitar e validar os sentimentos do outro sem julgar ou julgar-se. de tão auto-envolvida que estava com o seu próprio drama emocional. que uma coisa é o que se diz e outra é o que realmente se quer dizer. fez o filho sentir-se mal por sentir como ela própria assumira que ele sentia. Escondeu-se por detrás da genética (“Eu sou uma ursa polar pura. os sentimentos do filho – dos quais ela nem realmente se apercebeu. o seu valor. com o seu desempenho materno. ainda tens a coragem de pôr em questão a tua mãe. Mas para isto. De ficar com a pergunta e abrir-se ao que ela traria por detrás. Depois. a tua educação. não obedecem a regras da lógica.nunomichaels. Em suma. defendeu-se acusando: ai agora duvidas da tua família? E. não precisam de justificação. “Controla a culpa e controlas o filho”. o seu altruísmo. a sua entrega. e não do filho. sem cair na facilidade da autojustificação. é preciso que a mãe não interprete pessoal e subjectivamente as reacções emocionais do próprio filho – isto é. lamentava a ursa. O Ursinho Polar – uma astro-estória para adultos é oferecida por http://www. Seu ingrato… depois de tudo o que fiz por ti… desde que nasceste nunca mais voltei a ursar como ursava antes. o seu empenho. A resposta instintiva desta mãe não foi a de aceitar e validar o que o ursinho lhe trazia. Esta mãe não tinha espaço. e esta fazia parte desse bando. Mas esta ursa não tinha espaço para acolher os sentimentos do filho. Concerteza que és um urso polar! Qual é a tua dúvida?! Ai agora duvidas da tua família? Depois de tudo o que fiz por ti. a sua imagem.própria natureza. Esta ursa não sabia que por detrás do discurso manifesto existe sempre um discurso latente. a sua generosidade. que não vai poder acolher. com o seu valor como mãe. sentindo-se acusada. Como se fosse dela que se tratava. A resposta instintiva desta mãe foi a de invalidar a pergunta do filho sem sequer perceber qual era a pergunta. que estivessem em jogo. De fazer mais perguntas para se certificar da verdadeira pergunta do filho. porque perante a inquietação o que respondeu foi: claro que és um ursinho polar.

entendimento. embora o tenha fundado. o presente e o passado seriam todos a mesma coisa. quando eu era um ursinho da tua idade. o que quer dizer que o futuro é sempre mais rico do que o presente. enrolando os bigodes com a pata direita e o focinho impondo-se orgulhosamente no ar . compreensão e afecto. se não estivesse tão angustiado com a questão original que o levara de parente em parente em busca de uma resposta. Cada novo momento de vida emerge e ultrapassa o momento imediatamente anterior que lhe deu origem. Possivelmente pouco habituado a ter platéia para as suas divagações. aproveitou a pergunta do ursinho para rebuscar no baú das memórias todos os galões que confirmassem o valor dos antepassados fundadores e assim mesmo dos descendentes actuais. a força da tradição. o ursinho seguiu adiante. tens mesmo a certeza que eu sou um ursinho polar. e se o passado fosse o limite do presente. recordações e memórias. E foi o que fez o ursinho. E porque nesta situação não era o passado que servia à questão do ursinho. E enquanto o avô enrolava os bigodes e relembrava o passado o ursinho correu para o pai . e na sua voz rouca quase adivinhamos o orgulho de pertencer a tal linhagem. o presente limitar-se-ia a repetir o passado e o futuro. eu sou mesmo um ursinho polar.nunomichaels. por parte daqueles de quem mais imediatamente esperamos apoio. mesmo purinho purinho? Na ausência de eco.Oh Avô!. viramo-nos para outras figuras significativas na nossa vida afectiva.Oh meu neto! És um ursinho dos mais puros. os pioneiros do glaciar.O ursinho suspirou. Tu descendes da mais pura raça de ursos polares de que há memória. cabisbaixo.com Página 5 . e sobrecarregado com o peso da culpa foi ter com o avô e perguntou-lhe: .Oh Pai. E o ursinho talvez tivesse ficado a ouvir e aprender.… O avô ficou contente pela oportunidade de dissertar sobre a pureza da raça e a graça da sua genealogia. o poder quase sagrado dos mitos fundadores. Se assim não fosse. Às vezes o passado não tem como responder ao presente. mesmo purinho purinho? . um ursinho puríssimo! Todas as gerações antes de nós eram ursos polares da raça mais pura da espécie mais pura. e de resposta.Claro que és! O Ursinho Polar – uma astro-estória para adultos é oferecida por http://www. Sabes. quando foi ter com o avô para lhe levar a questão que o atormentava desde o início da história: serei mesmo um ursinho polar? Ao que o avô respondeu numa voz rouca e calorosa. imaginamos.

meu filho. no seu questionamento. de o receberem na sua dúvida. que esteja coberto de pelo e largas camadas de gordura. das funções. ao invés de encerrar a história e dá-la por terminada.. Mas o frio. de modo a que cada um sabe o que deve fazer e o que esperar de cada um dos outros. e não (tanto) por qualquer medo que tivesse. meu querido filho? E no pai o ursinho encontrou finalmente a resposta que procurava. na sua incerteza. porque essa já a mãe e o avô lha haviam dado e a dúvida ainda assim subsistira. rotinas e padrões. atribuilhes funções e comportamentos relativamente previsíveis. Espera-se de um urso polar que coma peixe. na sua necessidade de confirmação. gostos. o que verdadeiramente sentia embora soubesse ser um urso. o sentimento de adequação e normalidade vêm com a capacidade de desempenhar O Ursinho Polar – uma astro-estória para adultos é oferecida por http://www. E aqui encontramos mais um tema arquetípico da nossa existência: para cada papel que desempenhamos existe um conjunto de atribuições.nunomichaels. que rache cocos com os dentes ou que acasale com morsas. Não se espera que tenha frio. aqui. expectativas. Os papéis contribuem para a estabilidade e para a coesão social. do papel de um urso polar. por que perguntas se és mesmo um ursinho polar. a outra história. à verdadeira história. funções e capacidades intimamente a ele associadas. o que o ursinho encontrou foi um espaço de receptividade: um abraço e a vontade de o compreenderem. o sentimento de integração no grupo. o medo de não ser suficientemente bom.com Página 6 ..Mas pressentindo que não era bem isso que o ursinho procurava. A aprovação dos outros. de o escutarem.” E agora tudo se desvela. assim como não se espera que suba às árvores. quase a chorar e abraçando-se a si próprio: “tenho frio!. Por que perguntas. o que é que se esconde por detrás da tua pergunta? O que há que te leve a colocar essa questão? Qual é o mal-estar que posso tentar mitigar? E responde o ursinho a tremer. que um urso polar não tem frio e a honestidade em admitir. o pai abraçou-o e perguntou-lhe: . A existência de papéis confere uma identidade social a cada um dos elementos de um grupo. a ambivalência de saber intelectualmente. Não tanto a confirmação de que era mesmo um urso polar. sentia-se profundamente desconfortável por estar aquém do que seria de esperar de um urso polar. tudo se resolve. em falta para com aquilo que define um habitante do Ártico.Por quê. O ursinho tremia por causa do frio. por outro lado. tudo se desvenda. o desconforto na própria pele. O ursinho sentia-se corroído pelo sentimento de inadequação por não estar à altura das expectativas. O ursinho sentia-se inadequado. abre caminho a uma nova história. que viva confortável no seu habitat glaciar. Adivinhamos-lhe a vergonha. preferências. que é como quem diz. por um lado.

processo tão mais angustiante quanto mais o ursinho se obrigasse. de não estarmos à altura. Em vez de continuar a ocultar dos outros a verdade de quem era. Astrologicamente. não sentir) e de antecipar. ou ao frio ou à evidência da necessidade de se agasalhar – defraudando assim tudo quanto seria esperar de um ursinho polar mesmo purinho. O caos social e a alienação individual nascem quando os indivíduos se recusam. E por isso O Ursinho Polar – uma astro-estória para adultos é oferecida por http://www. assim. compreendemos o quão inadequado. exterior. da sua raça. à medida que mais e mais energia fosse mobilizada para defender o corpo do frio. Por isso. a necessidade de assumirmos responsavelmente (Saturno) quem somos (Sol). E se grande parte do nosso sentimento de valor nos é devolvido pela aprovação dos outros. à revolta e à alienação – ou um ursinho condenado a lidar sozinho e secretamente com a sua própria falha apercebida. qualquer interacção entre Sol e Saturno num tema astrológico fala da necessidade de encontrar aprovação social. o ursinho deprimiria e sucumbiria. e Saturno simboliza a capacidade de estar à altura dos papéis sociais que assumimos. das expectativas dos seus parentes. ainda. a ocultar de si próprio e dos outros a verdade do seu interior. apesar de ter consciência do que deveria sentir (ou. condenado à marginalização ou à autoexclusão. de não sermos suficientemente bons. as interacções entre o Sol e Saturno falam da necessidade de iluminar (Sol) os nossos medos e sentimentos de inadequação (Saturno).com Página 7 . purinho. E por isso. a prazo. ou para viver à altura de um papel para o qual não tinha capacidade. Era um ursinho deslocado. a verdade da sua hipotermia. isto é. ou seja. as possíveis consequências de não estar à altura do seu papel.adequadamente esses papéis. aceite e encontrar aprovação para nossa identidade. isto é. que habitam ainda gravadas em cada um dos seus genes. se sentem incapazes ou indisponíveis para desempenhar adequadamente os seus papéis – como o ursinho que tinha frio. neste caso. para quem somos.nunomichaels. também. e encontrou no pai a receptividade à sua angústia. Mas porque este ursinho foi capaz de procurar ajuda para lidar com o seu próprio senso de inadequação. finalmente. o ursinho procurou – e encontrou – o meio e o contentor com quem partilhar a verdade de quem era. pôde desabafar e admitir perante o outro o terrível segredo que o consumia. falaríamos no arquétipo do Sol e de Saturno e da necessidade de os integrar: o Sol refere-se à capacidade de se assumir na integridade de quem se é e na necessidade de ser reconhecido. eventualmente. resposta. a capacidade (habilidade) de dar responsa. E a prazo. Por isso se fala em Saturno como “responsabilidade”. inferiorizado e inseguro se sentiria o ursinho polar que tinha frio. e a sofrer secretamente a grande dor inconfessável. pelo sentimento de encaixar adequadamente no nicho que nos é atribuído pelos nossos papéis e pela nossa desenvoltura em assumi-los. da sua sociedade e da memória de dezenas de gerações antes dele. e qualquer interacção entre Sol e Saturno simboliza.

que é a Casa do “lar” em que se nasceu. aceitação e estatuto (Saturno). o que precisamos de ser (Sol) para termos aprovação. o que a nossa sociedade espera de nós (Saturno). Talvez estivesse aí simbolizado um “karma” de não ser feliz enquanto não tivesse a audácia e a coragem de romper com os estereótipos sociais associados a ser urso. o que os nossos papéis sociais (Saturno) implicam. que o aceitasse -. quando fosse por demais insuportável viver à altura do que não se é. E talvez este Urano estivesse na Casa IV do seu tema astrológico. aceitável. Talvez este ursinho estivesse condenado a sentir-se para sempre miserável. pelo menos. ou ser feliz. com o conjunto de papéis atribuídos aos ursos polares pela sociedade de ursos em que nasceu. o contivesse e o ajudasse – ou. para aliviar o peso da solidão e da alienação. o que as figuras de autoridade esperam de nós (Saturno). mobilizando todas as suas energias. o ursinho transcendeu o karma de ser um ursinho cheio de quadraturas da Lua.nunomichaels. aprovado ou esperado pelos outros) muito forte. Quem sabe o ursinho tivesse nascido sob uma destas quadraturas. infeliz e inadequado na sua roupagem de urso polar. manifestando-se como o frio crónico de que sofria o ursinho. pelo menos naquele glaciar e naquele tempo histórico.falam também da capacidade de nos aceitarmos na nossa imperfeição e na capacidade de admitirmos que somos quem. e com uma Lua difícil (a mãe) que não o soube conter. de admitir que tinha frio e por não ter desistido de procurar quem o ouvisse. do Sol a Saturno e Urano na IV. no seu local de origem. que seriam cada vez menos. somos a cada momento de vida. Talvez aguardando a situação-limite do esgotamento ou de uma fuga desesperada e despreparada para outras paragens. mercê do Urano. do inesperado e de tudo o que vai “contra” o que é normal. Talvez o tema astrológico do ursinho sugerisse a dificuldade em aceitar a encarnação como urso. O Ursinho Polar – uma astro-estória para adultos é oferecida por http://www. mas um que fosse suficientemente corajoso para lhe contar que também vivia com frio para que ele próprio não precisasse de o fazer – e ainda assim ter com quem se identificar clandestinamente e à margem das expectativas. e como.com Página 8 . Talvez o ursinho tivesse nascido com um Urano (o planeta da diferença. para estar à altura do que se espera de um urso. sugerindo que o ursinho tivesse nascido a sentir-se alienado daquele meio. Por isso falam também na limitação (Saturno) dos níveis de calor (Sol) do organismo. Talvez ansiando secretamente encontrar um dia outro urso que fosse como ele. estivesse condenado a tornar-se um ursano. Talvez o ursinho. Quem sabe a que estaria o ursinho condenado? Mas porque foi capaz de o fazer. Por isso falam também da capacidade de nos aprovarmos (Saturno) a nós mesmos (Sol). e de trazer à luz do dia (Sol) o hiato entre quem somos (Sol) e o que acreditamos que deveríamos ser (Saturno). da originalidade singular. como se ali não pertencesse e não pudesse cumprir-se.

gorro e samarra. ou o tivesse inscrito num programa de intercâmbio com girafas calorentas. e talvez tenha com isso dado origem a uma nova sociedade de ursos no futuro. Quem sabe o pai tivesse dado início a uma campanha de sensibilização para os ursos polares que vivem com frio e outros ursinhos inadequados se tivessem permitido sair do segredo e do desconforto das prisões dos seus próprios papéis sociais e se tivesse criado um movimento dos ursos com frio. Quem sabe o pai tivesse pegado nas suas economias e enviado o ursinho para a savana africana.E assim. sentimos. ou passasse a ser socialmente aceite que os ursos que queiram pudessem usar casaco. ditem os limites da integridade. E um dia. A nós. um ursinho polar cheio de frio. quem sabe naquele glaciar tivesse sido criado um programa especial para enviar para os trópicos os ursinhos que tivessem frio. em que pela primeira vez um urso polar admitiu que tinha frio. todos estaremos em harmonia connosco próprios e contribuindo à medida do nosso frio – e da nossa coragem para admitirmos quem somos . Quiçá nesse momento o pai tivesse optado pelo amor ao seu filho em detrimento da sujeição cega à tradição e à normalidade e tivesse escolhido ajudá-lo a ser quem ele era.nunomichaels. e não a tradição e as regras. para o poder pessoal. Não imaginamos o que fazemos pelo conjunto quando fazemos a nossa parte como partes. perante si próprio e perante os seus pares.com Página 9 . e supôr. e do saudável auto-respeito pelo que somos. sonhar.para um futuro em que a verdade de quem somos. da liberdade pessoal. Mas podemos imaginar. e para a evolução da sociedade de que fazemos parte. assim corajosos e inteiros. e precisamos para sermos felizes. Quem sabe o que aconteceu a partir desse momento. só nos resta esperar que cada um de nós possa admitir. Nuno Michaels O Ursinho Polar – uma astro-estória para adultos é oferecida por http://www. o frio que cada um de nós sente – na certeza que não existe outro caminho para a integração emocional. o ursinho inaugurou talvez uma nova era glaciar. para a libertação da tirania dos papéis sociais.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful