Antologia Verniana I Traduções: M. Rodrigues Martins, Cidália de Brito, Lima da Costa e Luís Silva.

Ilustrações originais por: vários.

Todos os direitos reservados. ©, 2010 ISBN: 978-989-20-1703-7 Proibida a reprodução, no todo ou em parte, por qualquer meio, sem autorização por escrito de um dos editores.

Índice
Introdução ................................................................................................................................................... 5 Crónicas científicas Enigma científico (trad. M. Rodrigues Martins) ................................................................................ 9 Mais um navio aéreo (trad. M. Rodrigues Martins) ........................................................................ 10 Tecidos incombustíveis (trad. M. Rodrigues Martins).................................................................... 14 Máquinas de lavrar (trad. M. Rodrigues Martins) ........................................................................... 17 Locomotivas submarinas (trad. M. Rodrigues Martins) ................................................................. 20 A propósito do “Gigante” (trad. M. Rodrigues Martins) ................................................................ 24 Os meridianos e o calendário (trad. M. Rodrigues Martins) .......................................................... 31 Declarações e testemunhos Aos leitores do “Magasin d’Éducation et de Récréation” (trad. M. Rodrigues Martins) ......... 41 O meu primeiro romance (trad. M. Rodrigues Martins) ................................................................. 43 Ao jornal “L’Abri” (trad. M. Rodrigues Martins) ............................................................................. 45 Sobre Charles Dickens (trad. M. Rodrigues Martins) ..................................................................... 47 Discursos diversos Flores a mais! (trad. M. Rodrigues Martins) ..................................................................................... 51 O presidente sem querer (trad. M. Rodrigues Martins).................................................................. 69 Brinde aos “Filhos do Norte” (trad. M. Rodrigues Martins).......................................................... 78 Vinte e quatro minutos em balão (trad. M. Rodrigues Martins) ................................................... 80 Dez horas à caça (trad. M. Rodrigues Martins) ................................................................................ 85 Recordações de infância e de juventude (trad. Luís Silva) ............................................................ 122 Estudos literários Edgar Poe e as suas obras (trad. M. Rodrigues Martins) ............................................................. 133 Contos Um drama nos ares (trad. Lima da Costa) ........................................................................................ 193 Uma cidade ideal (trad. M. Rodrigues Martins) ............................................................................. 224 Gil Braltar (trad. Eduardo Weiland) ................................................................................................. 252 Aventuras da Família Ratão (trad. Cidália de Brito) ...................................................................... 264 O Sr. Ré-Sustenido e a Menina Mi-Bemol (trad. Cidália de Brito) ............................................. 313 Comentários/Agradecimentos ............................................................................................................ 354

Introdução
Jules Verne nasceu em Nantes a 8 de Fevereiro de 1828 e faleceu no dia 24 de Março de 1905, em Amiens. Este escritor gaulês foi-me apresentado na década de 90 pelo personagem de Christopher Lloyd no terceiro filme da saga Back to the Future. Lá, Doc. Emmett L. Brown, transmite-nos o seu gosto pelo escritor e termina a sua citação referindo que as suas obras tiveram um efeito profundo na sua vida. Perante estas palavras do meu herói da altura, comecei a ler a obra Viagem ao centro da Terra, também ela citada no filme. Posso assegurar que desde então jamais abandonei a escrita verniana. O meu crescente e gradual interesse pela vida e obra do francês, levou-me a procurar, via Internet, por mais informações sobre o autor para além daquelas que alguns livros já possuíam. Porém, foi só em 2004 que obtive sucesso ao entrar numa comunidade de discussão em português dedicada ao escritor. Aí, ocorreram, e ainda ocorrem, conversas e trocas de informações sobre a obra verniana que aumentaram substancialmente o meu conhecimento nesse tema. É justo dizer que aprendi bastante com os diversos participantes da comunidade, todavia, tenho que realçar o membro mais activo, aquele que me transmitiu a beleza no estudo da complexa obra de Verne e que considero ser o meu professor em matéria verniana, o carioca Carlos Patrício. Juntando todas as informações obtidas por mim nos vários livros e nas conversas com Carlos e outros membros, foi-me possível, em 2005, que coincidiu com o ano de comemoração do centenário do nascimento de J. Verne, a criação da, actualmente, única página em português dedicada ao escritor francês (www.jverneportugal.no.sapo.pt). Desde então, o espaço tem sofrido múltiplas actualizações e modificações de design tendo a mais notória ocorrida em 2008 aquando do 130º aniversário da primeira visita de Verne a terras lusitanas. A abertura desta página, e mais tarde do blog a ela associado, permitiu uma proximidade entre fãs do escritor que puderam, mais facilmente, trocar opiniões, questões, sugestões, trabalhos, sobre a vida e obra do gaulês levando-me a um aumento exponencial da nossa sabedoria verniana. Mais tarde, juntei-me também ao Fórum Internacional JV, sito na página de quem eu considero ser o maior Verniano de sempre, Zvi Har’El (www.jv.gilead.org.il), onde conheci bastantes estudiosos da obra verniana, entre eles, o amigo Ariel Pérez, um cubano, que em 2007 decidiu criar a Mundo Verne, revista ibero-americana dedicada ao escritor da qual sou colaborador. A aproximação que foi adquirida, entretanto, com outros vernianos espalhados pelo Mundo, permitiu-me, no final de 2008, ano em que se comemorou o 180º aniversário do nascimento do autor, organizar uma volta ao mundo de um exemplar da obra A volta ao Mundo em 80 dias com paragens nos mais belos locais do nosso planeta cujas fotos foram colocadas no blog JVernePt (www.jvernept.blogspot.com). A amizade e a entreajuda que tem crescido entre nós têm permitido a troca de textos, obras e poemas até então desconhecidos para os vernianos de língua portuguesa. Esse conjunto de textos inéditos tem sido, aos poucos, traduzido para a nossa língua por membros que se disponibilizaram voluntariamente para o fazer. Hoje, o nosso desejo começa a concretizar-se com a publicação gratuita deste volume que agrega alguns dos diversos textos, e as suas ilustrações originais (conhecidas como “Ilustrações Hetzel”), já traduzidos para português. Esperamos que seja do agrado de todos. Frederico Jácome
www.jvernept.blogspot.com

Crónicas científicas Crónicas científicas

Felix Nadar, pseudónimo de Gaspard-Félix Tournachon (1820-1910) (Domínio Público - Wikipedia.com)

Ilustração por Fellmann (1863) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Declarações e testemunhos

Discursos diversos

Ilustrações por Gédéon Baril (1882) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Ilustrações por Gédéon Baril (1882) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Ilustrações por Gédéon Baril (1882) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Ilustrações por Gédéon Baril (1882) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Ilustrações por Gédéon Baril (1882) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Ilustrações por Gédéon Baril (1882) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Ilustrações por Gédéon Baril (1882) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Ilustrações por Gédéon Baril (1882) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Ilustrações por Gédéon Baril (1882) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Ilustrações por Gédéon Baril (1882) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Recordações de infância e de juventude1
Recordações de infância e de juventude?... Sim! Justamente devem pedi-las a homens da minha idade. Estas recordações são mais intensas que as acções de que fomos testemunhas ou autores a partir da idade adulta. Passada a normal primeira metade da vida, é agradável este regresso aos primeiros anos. As imagens recordadas não se esmorecem nem se apagam: são fotografias inalteráveis que o tempo torna ainda mais nítidas. E assim se justifica aquela frase tão profunda de um escritor inglês: “A memória é presbita. Desdobra-se ao envelhecer como o óculo de um telescópio, e pode distinguir os mais remotos traços do passado”. Recordações deste tipo serão interessantes?... Não sei. Mas talvez os jovens leitores do Goalh's Companion de Boston possam inteirar-se não sem uma certa curiosidade de como surgiu em mim esta vocação para escrever, e com a qual continuo para lá do meu sexagésimo aniversário. De maneira que, a pedido do director da revista, desdobro os óculos da minha memória, rodo sobre mim mesmo e olho para trás.2 Antes de mais nada, sempre gostei das narrativas em que se brinca livremente com a imaginação? Sim, é verdade, e havia na minha família uma grande admiração pelas artes e pelas letras, o que me disse que o atavismo em
1 Escrito durante a primavera de 1890. Verne tinha 62 anos. Publicado no The Youth’s Companion em Boston, Massachussets, a 9 de abril de 1891, sob o título de: The story of my boyhood. (Nota do editor) 2 Este texto inédito, desconhecido pelos exegetas vernianos que conhecemos, foi intitulado assim pelo próprio Verne. É composto por oito páginas numeradas pelo autor. O manuscrito foi adquirido em asta pública em Londres, 1931, pela Fundacão Martin Bodmer (Biblioteca Bodmeriana), de Cologny-Genebra.

larga escala faz parte dos meus instintos. Depois, há o facto de ter nascido em Nantes, onde passei a minha infância. Filho de pai semiparisiense3 e de mãe completamente bretã4, vivi no meio do movimento marítimo de uma grande cidade comercial, ponto de partida e de chegada de muitas viagens de longo curso. Volto a ver o Loire com os seus múltiplos braços unidos ao longo de uma légua de pontes, os seus cais cheios de carga à sombra de olmeiros enormes ainda não fendidos pela dupla via ferroviária e pelas linhas dos eléctricos. Alguns barcos estão no cais formando duas ou três filas. Outros sobem ou descem o curso do rio. Não havia barcos a vapor nessa época, ou pelo menos havia muito poucos; havia sim grande quantidade desses veleiros cujo tipo os norte americanos tão bem conservaram e melhoraram com os seus clíperes e escunas de três mastros. Nessa altura apenas tínhamos as pesadas embarcações à vela da marinha mercante. Quantas recordações me provocam! Imaginava que subia pelas cordas, que trepava às suas gáveas, que me agarrava às barbas dos seus mastros! Que vontade tinha de atravessar a tábua vacilante que os unia ao cais e subir à coberta? Mas com a minha timidez de menino não me atrevia! Tímido?... Sim, era tímido, e não obstante, já tinha visto fazer-se uma revolução, derrubar um regime e fundar uma nova monarquia, apesar de então só ter dois anos, e contudo oiço os tiros de espingarda de 1830 nas ruas da cidade onde a população lutou contra as tropas reais como em Paris. Um dia, no entanto, entusiasmei-me e subi a bordo de um navio de três mastros cujo responsável estava a beber um copo num bar nos arredores. Estou na coberta... A minha mão agarra numa adriça e fá-la deslizar sobre a roldana...! Que emoção! As escotilhas do porão estão abertas...! Inclino-me sobre esse abismo... Os fortes odores que se soltam do sítio onde se mistura a emanação acre do alcatrão com o perfume das especiarias sobem-me à cabeça!
O advogado Pierre Verne, seu pai, nasceu em Provins, mas realizou os seus estudos em direito em Paris, antes de se radicar em Nantes. 4 Sophie Allotte de la Fuye, originária de uma familia de Nantes com não mais de duas ou três gerações bretãs.
3

Sento-me, volto para a tolda, entro... Está cheia de odores marinhos que lhe dão uma atmosfera como se de um oceano se tratasse! Esta é a cozinha com a sua mesa contra solavancos que não balança... nas tranquilas águas do porto! Estes são os camarotes com os seus tapumes que rangem, onde teria querido viver vários meses, e os seus beliches apertados e duros onde teria querido dormir muitas noites...! A seguir, o capitão, o “senhor depois de Deus”...! Personagem muito mais importante para mim que qualquer ministro do rei ou lugar-tenente general do reino! Saio, subo à tolda e ali ouso dar uma volta de uma quarta à roda do leme... Parece que o barco se vai afastar do cais, que se vão soltar as amarras, que os mastros se vão cobrir de velas, e eu, timoneiro de oito anos5, vou conduzi-lo ao mar! O mar...! Nem o meu irmão, que foi marinheiro anos depois, nem eu, contudo, o conhecíamos! No Verão, a nossa família ia para uma quinta não longe da margem do Loire, no meio de vinhas, pradarias e pântanos. Pertencia a um velho tio, antigo armador6. Tinha ido até Caracas, a PortoGabello!7 Chamávamos-lhe “Tio Prudente” e em homenagem a ele dei esse nome a um dos personagens de Robur, o Conquistador. Caracas ficava na América, essa América que já então me fascinava. E, sendo assim, não podendo navegar por mar, eu e o meu irmão fazíamo-lo em campo aberto, através dos bosques e pradarias. Sem mastro a que pudéssemos trepar, passávamos os dias nas árvores! Brincávamos para ver quem fazia o seu refúgio mais alto. Conversávamos, líamos, planeávamos projectos de viagem, ao passo que os ramos, agitados pela brisa, pareciam andar às cabeçadas e aos solavancos...! Ah, que ócios deliciosos! Naquela época pouco ou nada se viajava. Eram os tempos das reflexões, das chinchas, das polainas, da guarda nacional e do tijolo de estrume; Sim! Vi nascer os pauzinhos de fósforo, os colarinhos e punhos de camisa postiços, o
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Tal como haverá Um capitão de quinze anos... O tio Prudent Allotte de la Fuye tinha uma quinta em La Guerche-en-Brain. Pelo Porto Cabello, na Venezuela.

papel de carta, os selos, as bermudas, o paletó, o claque, as botas, o sistema métrico, os vapores do Loire, chamados “inquebráveis” porque balançavam menos que os outros, os autocarros, os caminhos-de-ferro, os eléctricos, o gás, a electricidade, o telégrafo, o telefone, o fonógrafo! Sou da geração dita dos génios: Stephenson e Edison! E assisto agora às assombrosas descobertas à frente das quais está a América do Norte, com os seus hotéis móveis, as suas máquinas de fazer fatias de pão, os seus passeios rolantes, os seus jornais em pasta de papel “folheada” impressos com tinta de chocolate, que se lêem primeiro e se comem depois! Ainda não tinha eu dez anos quando o meu pai comprou uma quinta nos arredores da cidade, em Chantenay, que formoso nome! Situava-se numa colina que domina a margem esquerda do Loire. Do meu pequeno quarto via correr o rio ao longo de duas ou três léguas, por entre as pradarias que inunda com as suas grandes enchentes durante o Inverno. Mas no Verão some-se-lhe a água, e emergem do seu leito faixas de uma linda areia amarela, todo um arquipélago de ilhotas mutáveis! Os barcos seguem penosamente esses apertados canais, ainda que sinalizados com colunas anegradas que, contudo, vejo. Ah, o Loire! Por mais que não se possa compará-lo ao Hudson, ao Mississípi ou ao San Lorenzo, é um dos grandes rios de França. Certamente que na América seria apenas uma humilde ribeira! Mas a América não é um Estado, é um continente! Enquanto isso, ao ver passar tantos barcos consumia-me a necessidade de navegar. Já conhecia os termos marinhos, e compreendia suficientemente bem as manobras de maneira a poder segui-las nas obras de Fenimore Cooper, os quais não me canso de reler com admiração. Com o olho na lente de um pequeno telescópio observava os barcos até ao ponto de viragem, a desdobrar as bujarronas e as caranguejas, de acordo com o procedimento de rotina. Mas o meu irmão e eu nunca tínhamos navegado, nem sequer num rio...! Porém, finalmente um dia aconteceu.

Na extremidade do porto havia um homem que alugava barcos por um franco ao dia. Era caro para as nossas possibilidades, e também imprudente, pois aqueles barcos, pouco impermeáveis, metiam água pelos seus quatro cantos. O primeiro que utilizámos só tinha um mastro, mas o segundo tinha dois, e o terceiro três, como as pequenas embarcações e os lugres de cabotagem. Aproveitámos a maré baixa e saímos a manobrar contra o vento de oeste. Ah, que escola! As pancadas do leme em seco, as falhas nas manobras, as escotas mal arriadas de propósito, a vergonha de mudar de rumo com o vento em popa, quando a marejada agitada aumenta a bacia do Loire em frente à nossa Chantenay! Resumindo, saíamos com maré baixa e voltávamos com preia-mar horas depois. E enquanto a nossa embarcação de aluguer avançava lentamente entre as margens, com que inveja observávamos os grandiosos iates de recreio que, com ligeireza, deslizavam na superfície do rio! Um dia estava eu sozinho num péssimo iole, sem quilha. A dez léguas a jusante de Chantenay uma tábua do barco cede e começa a meter água. É impossível fechá-la! Vou naufragar! O iole vai a pique e apenas tenho tempo de me lançar sobre uma ilhota de altos e espessos canaviais com os penachos dobrados pelo vento. De todos os livros da minha infância, o Robinson Suíço era aquele por que eu nutria maior carinho, mais que ao Robinson Crusoe. Sei que a obra de Daniel de Foe tem um maior alcance filosófico. É o homem libertado por si próprio, o homem só, o homem que encontra um dia uma pegada na areia! Mas a obra de Wyss8, cheia de acontecimentos e incidentes, é mais interessante para as mentes jovens. É a família, o pai, a mãe, os filhos e as suas diversas atitudes. Quantos anos passei na sua ilha! Como invejei o seu destino! De forma que ninguém se surpreenderá por eu ter sentido o impulso

8 Jean Rodolphe Wyss (nascido e falecido em Berna, 1781-1830), conhecido principalmente pelo seu romance O Robinson Suiço.

irresistível de pôr em cena em A Ilha Misteriosa os Robinsons da Ciência, e em Dois Anos de Férias um internato completo de Robinsons9 Enquanto isso, na minha ilhota não estavam os heróis de Wyss. Em mim ganhava vida o herói de Daniel Defoe. Já sonhava em construir uma cabana de troncos, uma cana de pesca e fazer fogo, como os selvagens, esfregando dois pedaços de madeira seca. Sinais...? Não, porque os veriam demasiado rápido e salvar-me-iam antes de eu o querer ser! Antes de mais nada, teria que matar a fome. Como? As minhas provisões tinham-se afundado com o naufrágio. Caçar alguma ave...? Não tinha cão nem espingarda!10 Sendo assim, marisco?... Não havia! Por fim conhecia os desesperos do abandono, os horrores da indigência numa ilha deserta, como os haviam conhecido os Selkirks11 e personagens dos naufrágios célebres que não foram Robinsons imaginários! O meu estômago reclamava...! A coisa não durou senão umas horas, e após a maré ter baixado apenas tive que atravessar com água pelos tornozelos para chegar ao que chamava de continente, isto é, à margem direita do Loire. E voltei tranquilamente para casa, onde me devia contentar com um jantar familiar em vez da comida à Crusoe com que tinha sonhado, mariscos frios, um pedaço de javali e pão feito com farinha de mandioca! Assim foi aquela navegação tão agitada, de vento pela proa, estrada de água, barco desmastreado, tudo o que um náufrago da minha idade podia desejar! Censuraram muitas vezes os meus livros que incitaram os rapazes a deixar a casa para percorrer o mundo. O que eu creio nunca ter acontecido. Mas se algum miúdo alguma vez se lançar a aventuras semelhantes, que tome como

Esta admiração por O Robinson Suiço levou Verne a publicar uma continuação do romance na sua velhice: Segunda pátria (1900). Assim como deu um final “sensato” às Aventuras de Arthur Gordon Pym, de Edgar Poe, com A esfinge dos gelos (1897). 10 Júlio Verne detestava a caça. Veja-se neste sentido o encantador e espiritual conto, Dez horas à caça (1881). 11 Alexander Selkirk (1676-1721), “náufrago voluntário” inglês que permaneceu na ilha Juan Fernandez de 1703 a 1709; o relato das suas aventuras inspirou Daniel Defoe, Robinson Crusoé.
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exemplo os heróis das Viagens Extraordinárias, e terá a garantia de chegar a bom porto! Aos doze anos, todavia, ainda não tinha visto o mar, o mar verdadeiro! Não! Ainda assim, embarcava com o pensamento nos barcos de pesca à sardinha, nas chalupas de pesca, nos bergantins, nas escunas, nos navios de três mastros e inclusive nos barcos a vapor –não obstante, chamavam-lhes piróscafos!- que iam até à foz do Loire. Finalmente, um dia eu e o meu irmão tivemos autorização para comprar passagem a bordo do piróscafo número 2!... Que emoção! Era de se perder a cabeça! E já estamos a caminho. Passamos por Indret12, o grande estabelecimento estatal completamente encoberto por fumo negro. Deixamos para trás as escalas da direita e da esquerda. Couerson13, Pellerin, Paimboeuf! O piróscafo atravessa obliquamente o largo estuário do rio. Passamos por Saint Nazaire com o seu embrião de quebra-mar, a sua velha igreja com campanário de ardósia completamente inclinado e as poucas casas ou casebres que formavam então aquela povoação tão rapidamente transformada em cidade. Precipitarnos para fora do barco, descer pelas rochas atapetadas de fucos para molhar as mãos na água do mar e levá-la aos lábios foi para mim e para o meu irmão coisa de poucos saltos... -Mas não é salgada! –disse empalidecendo. -Nada salgada! –respondeu-me o meu irmão. -Enganaram-nos! –gritei com uma voz penetrante devido à maior das decepções. Que patetas que nós somos! A maré estava baixa, e a que tínhamos bebido da cavidade de uma rocha era apenas água do Loire! E quando a maré subiu, a água estava todavia mais salgada do que tínhamos imaginado!
Ilha do Loire, a 8 km de Nantes, que alberga as fábricas estatais especializadas na construção de máquinas para a marinha. 13 Antiga ortografia de Couëron.
12

E finalmente o mar, ou pelo menos a extensa baía que se abre para o oceano entre as extremidades do rio. Depois percorri o golfo da Gasconha, o Báltico, o mar do Norte, o Mediterrâneo. Com uma modesta chalupa, depois com uma balandra, e depois com um iate a vapor, fiz uma cabotagem de grande satisfação. Cruzei inclusive o Atlântico Sul no Great Eastern e pisei os Estados Unidos onde – envergonha-me confessá-lo perante os norte americanos- apenas fiquei por oito dias! Que outra coisa podia fazer! Tinha passagem de ida e volta por apenas uma semana! De qualquer maneira, vi Nova Yorque, hospedei-me no Fifth Avenue Hotel, atravessei o East River antes da construção da ponte de Brooklyn, subi o Hudson até Albany, visitei Buffalo e o lago Erie, contemplei as cataratas do Niagara do cimo da Terrapine Tower enquanto o arco-íris se revelava através dos vapores da cascata; por último, para lá de Suspension Bridge sentei-me na margem canadiana... e depois vim embora! E uma das coisas que mais lamento é pensar que nunca voltarei a ver essa América que quero, e que todo o francês deve querer como uma irmã da França! Mas essas não são recordações da infância e da juventude, senão da idade adulta. Meus jovens leitores, sabem agora a que instintos, a que circunstâncias se devem essa série de obras geográficas que eu escrevi. Estava então em Paris e vivia rodeado de músicos, entre os quais conservei bons amigos, e muito pouco os meus colegas das letras que apenas me conhecem. Depois fiz algumas viagens ao oeste, ao norte e ao sul da Europa, muito menos extraordinárias que as dos meus relatos, e retirei-me para o campo para terminar a minha tarefa. Essa tarefa consiste em representar toda a terra, o mundo inteiro na forma de romance, imaginando aventuras singulares em cada país e criando personagens singulares de acordo com o meio em que actuam.

Sim! Mas o mundo é muito grande e a vida muito curta!14 Para deixar uma obra completa teria que viver mil anos! Ah! Queria chegar aos cem anos, como M. Chevreul!15 Mas, que entre nós seja dito, é muito difícil! Jules Verne

14 15

Esta fórmula parece parafrasear o verso de Baudelaire: L’Art est long et le Temps est court. Michel-Eugène Chevreul (1786-1889), químico e físico francês, autor especialmente de trabalhos sobre a luz e as cores (1860) que tiveram grande influência nas teorias do pintor Seurat sobre a divisão do tom.

Estudos literários

Edgar Poe e as suas obras
Introdução
Verne nunca escondeu a sua profunda admiração pelo escritor norteamericano Edgar Allan Poe (1809-1849) e as suas obras, que o influenciaram de forma decisiva na escolha da sua carreira literária. O extenso estudo aqui apresentado, escrito em 1863, revela a importância dessa influência, tanto na temática quanto na estruturação e construção dos textos vernianos, passando pelas características próprias da escrita e do estilo de Allan Poe incorporados por Verne, como as mensagens cifradas e os enigmas semânticos. Várias obras do acervo literário de Poe seduziram o autor francês, mas talvez nenhuma como o único romance do americano, o apavorante e inacabado "O Relato de Arthur Gordon Pym", que mereceu uma magistral conclusão/homenagem de Verne, sob o título "A Esfinge dos Gelos", publicada em 1897.

“Edgar Poe e August Dupin. A sucessão de ideias.”

Ilustração por F. Lix (1864) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“A carta roubada. Dupin e D…”

Ilustração por F. Lix (1864) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“O escaravelho de ouro”

Ilustração por Yan’ Dargent (1864) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“Viagem de Hans Pfaall à Lua”

Ilustração por Yan’ Dargent (1864) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“Uma descida no Maelström”

Ilustração por Yan’ Dargent (1864) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“No Oceano Antárctico a uma latitude de mais 84 graus. A aparição.”

Ilustração por Yan’ Dargent (1864) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Contos

Um Drama nos Ares Introdução
“Um Drama nos Ares” (“Un Voyage en Ballon” ou “Un Drame dans les Airs”) foi escrito em 1851, durante a juventude de Verne, doze anos antes do lançamento do seu primeiro romance, Cinco Semanas em Balão. Foi publicado pela primeira vez em 1874, dentro da colecção de contos curtos intitulada “Le Docteur Ox”. Um balonista é surpreendido pelo embarque, de última hora, de um passageiro inesperado. Inicia-se, então, uma perigosa viagem, cheia de lances surpreendentes, a qual o experimentado aeronauta jamais esquecerá.

Um drama nos ares

“Senhor, aceite todos os meus cumprimentos.”

Ilustração por Émile-Antoine Bayard (1874) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“Senhor!”

Ilustração por Émile-Antoine Bayard (1874) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“…ficou sete ou oito horas em observação…”

Ilustração por Émile-Antoine Bayard (1874) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“O balão esvaziava-se cada vez mais…”

Ilustração por Émile-Antoine Bayard (1874) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“O balão prendeu-se a uma árvore, e o candeeiro tornou a pegar fogo.”

Ilustração por Émile-Antoine Bayard (1874) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“O louco tinha desaparecido no espaço!”

Ilustração por Émile-Antoine Bayard (1874) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Uma Cidade Ideal Introdução
Verne, então director da Academia de Ciências, das Letras e das Artes da cidade de Amiens, discursa na abertura de um encontro da instituição realizado no dia 12 de Dezembro de 1875. Na sua fala, o autor revela aos membros da academia e demais presentes, como ele, sempre visionário, imagina a sua cidade adoptiva... no ano 2000! Mais tarde o texto foi publicado com o título “Amiens en l’An 2000” ou “Un ville idéale”.

Gil Braltar Introdução
Conto em tom de sátira, uma crítica feroz ao colonialismo britânico e, ainda assim, uma história cómica e ácida. Publicada pela primeira vez, juntamente com o romance “O Caminho da França“ em 1887, dentro da série Viagens Extraordinárias por Mundos Conhecidos e Desconhecidos. O personagem-título, um espanhol, sonha em reconquistar a colónia britânica de Gibraltar e, para isso, incita os numerosos macacos que vivem no estreito a atacar uma fortaleza inglesa ali sediada. Verne usa a sua pena de forma contundente e, ao mesmo tempo, utiliza-se do humor para denunciar o colonialismo existente no seu tempo.

Gil Braltar

I
Havia ali uns setecentos ou oitocentos pelo menos. De estatura mediana, mas robustos, ágeis, flexíveis, feitos para saltos prodigiosos, moviam-se iluminados pelos últimos raios do sol que se escondia do outro lado das montanhas localizadas a oeste da baía. Rápido, o disco vermelho desapareceu e a obscuridade começou a invadir o centro daquele vale encaixado nas longínquas serras de Sanorra, de Ronda e do desolado país de Cuervo. Rapidamente, toda a tropa se imobilizou. O seu chefe acabava de aparecer montado no cume da mesma montanha, como sobre o lombo de um fraco asno. Do posto dos soldados que se encontravam sobre a parte superior da enorme pedra, ninguém foi capaz de ver o que estava a acontecer debaixo das árvores. – Sriss, sriss! – assobiou o chefe, cujos lábios deram a esse assobio uma extraordinária intensidade. – Sriss, sriss! – repetiu aquela estranha tropa, formando um conjunto completo. Um ser singular era sem dúvida alguma aquele chefe de estatura alta, vestido com uma pele de macaco com o pelo à mostra, a sua cabeça rodeada de uma emaranhada e espessa cabeleira, o rosto eriçado por uma barba curta, os seus pés descalços e firmes debaixo de um casco de cavalo. Levantou o braço direito e estendeu-o para a parte inferior da montanha. Todos repetiram imediatamente aquele gesto com precisão militar, melhor dizendo, mecânica, como autênticos fantoches movidos pelo mesmo animador. O chefe baixou o seu braço e todos os demais baixaram os braços. Ele inclinou-se para o solo. Eles inclinaram-se igualmente adotando a mesma

atitude. Ele empunhou um sólido bastão que começou a balançar. Eles balançaram os seus bastões e executaram um movimento similar ao seu, àquele movimento que os esgrimistas chamam de “a rosa coberta”. Então o chefe fez a volta, deslizou entre as ervas e se arrastou por baixo das árvores. A tropa seguiu-o, todos se arrastando ao mesmo tempo. Em menos de dez minutos foram percorridas as trilhas do monte, fendido pelas chuvas sem que o movimento de uma pedra houvesse posto a descoberto a presença desta massa em marcha. Um quarto de hora depois, o chefe deteve-se. Todos se detiveram como se tivessem congelado no lugar. A duzentos metros abaixo via-se a cidade, situada ao longo da extensa e escura estrada. Numerosas luzes cintilantes deixavam ver um confuso aglomerado de cais, casas, vilas, quartéis. Mais adiante, distinguiam-se as lanternas dos barcos de guerra, as luzes de navios comerciais e das bóias ancorados ao largo e que eram refletidas na superfície das tranquilas águas. Mais distante, na extremidade da Ponta da Europa, o farol projetava o seu feixe luminoso sobre o estreito. Nesse momento ouviu-se uma explosão de canhão, a primeira arma de fogo, lançado de uma das baterias rasantes. Logo começaram a escutar a batida dos tambores, acompanhados dos agudos silvos dos pífaros. Era a hora do toque de recolher, a hora de refugiar-se em casa. Nenhum estrangeiro teria o direito de caminhar pela cidade, a não ser que estivesse escoltado por algum oficial da guarnição. Ordenava-se aos membros das tripulações dos barcos que regressassem a bordo antes que as portas da cidade fossem fechadas. Com intervalos de quinze minutos, circulavam pelas ruas patrulhas que conduziam à estação os atrasados e os bêbados. Então a cidade desaparecia em uma profunda tranquilidade. O general Mac Kackmale poderia então dormir profundamente. Esta noite não parecia que a Inglaterra tivesse que temer nada em seu rochedo de Gibraltar.

Ilustração por George Roux (1887) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

II
É sabido que este grande rochedo de Gibraltar, que tem uma altura de quatrocentos e vinte e cinco metros, repousa sobre uma base de duzentos e quarenta e cinco metros de largura, com quatro mil e trezentos de comprimento. A sua forma se assemelha a um enorme leão deitado, a sua cabeça em direção a Espanha, e a cauda a banhar-se no mar. O seu rosto mostra os dentes – setecentos canhões apontados através das suas aberturas –, os dentes de uma velha, como alguém disse. Uma velha que morderia se alguém a irritasse. A Inglaterra está firmemente localizada no lugar, assim como em Pequim, em Aden, em Malta, em Poulo-Pinang, em Hong-kong, e outros tantos rochedos que, algum dia, com o progresso da mecânica, poderão ser transformados em fortalezas giratórias. Até o momento, Gibraltar garante ao Reino Unido um domínio indiscutível sobre os dezoito quilómetros deste estreito que o clube de Hércules abriu entre Abila e Calpe, nas profundezas das águas mediterrâneas. Teriam os espanhóis renunciado a reconquistar esta parte da sua península? Sim, sem dúvida, porque parece ser inatacável por terra ou por mar. Não obstante, existia um que estava obcecado com a ideia de reconquistar esta pedra ofensiva e defensiva. Era o chefe da tropa, um ser raro, que pode-se dizer que estava louco. Este homem chamava-se precisamente Gil Braltar, nome que sem dúvida alguma o predestinava a tornar possível esta conquista patriótica. O seu cérebro não havia resistido e o seu lugar deveria ter sido um hospício. Nós o conhecíamos bem. No entanto, durante dez anos, não se sabia ao certo o que acontecera com ele. Talvez vagasse ao redor do mundo? Em verdade, ele não havia abandonado seu património. Vivia como um troglodita, nas florestas, em cavernas, mas especificamente no fundo daqueles inacessíveis redutos das grutas de São Miguel, que dizia-se comunicar com o mar. Acreditava-se que morrera. Vivia, entretanto, mas à maneira dos homens selvagens, privados da razão humana, que obedecem apenas os seus instintos animais.

Ilustração por George Roux (1887) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

III
O general Mac Kackmale dormia profundamente sobre as suas duas orelhas, um pouco maiores que o normal. Com os seus braços desmesurados, os seus olhos redondos, profundos abaixo de espessas sobrancelhas, seu rosto coberto por uma barba áspera, a sua fisionomia gesticulante, os seus gestos de anthropopithecus, o pragmatismo extraordinário da sua mandíbula, era de uma feiura notável, inclusive para um general inglês. Um verdadeiro macaco. Mas um excelente militar, por outro lado, apesar da sua figura simiesca. Sim! Dormia na sua confortável moradia na Main Street, uma rua sinuosa que atravessa a cidade desde a Porta do Mar até a Porta da Alameda. Talvez o general sonhava que a Inglaterra conquistava o Egito, a Turquia, a Holanda, o Afeganistão, o Sudão ou o país dos Boers, em uma palavra, todos os pontos do globo que se ajustavam a sua conveniência, justamente no momento em que corria o perigo de perder Gibraltar. A porta do quarto abriu–se de repente: – O que houve? – perguntou o general Mac Kackmale, recompondo-se de um salto. – Meu general – disse um ajudante de campo que havia entrado pela porta como um torpedo –, a cidade está sendo invadida! – Os espanhóis? – Deve ser! – Eles se atrevem!... O general não terminou a frase. Levantou-se, atirou a um lado o lenço que lhe cobria a cabeça, vestiu as suas calças, o seu casaco, pôs as suas botas e o seu chapéu, armou-se com a sua espada enquanto dizia: – Que barulho é esse que estou a escutar? – O som das pedras avançando como uma avalanche por toda a cidade. – São muitos esses patifes? – Devem ser. – Sem dúvida todos os bandidos da costa se reuniram para executar esse ataque: os contrabandistas de Ronda, os pescadores de São Roque e os refugiados que crescem em todas as populações... – É terrível, meu general. – E o governador? Foi avisado? – Não! É impossível chegar a sua casa de campo! As portas estão ocupadas, as ruas estão cheias de assaltantes! – E o quartel da Porta do Mar?

– Não existe meio de chegar até lá! Os atiradores devem ter tomado o quartel – Com quantos homens pode contar? – Uns vinte, meu general. São os soldados do terceiro regimento, que puderam escapar quando tudo começou. – Por São Dunstan! – exclamou Mac Kackmale. – Gibraltar arrebatada da Inglaterra por estes vendedores de laranjas! Não! Isso não acontecerá! Nesse momento, a porta do quarto deu passagem a uma estranha criatura que saltou sobre os ombros do general.

IV
– Renda-se! – exclamou uma voz rouca, que parecia mais um rugido do que uma voz humana. Alguns homens, que apareceram por trás do ajudante de campo, iriam lançar-se sobre aquele homem que havia acabado de entrar no quarto do general, quando à claridade os indivíduos reconheceram o recém chegado. – Gil Braltar! – exclamaram. Era ele, em efeito, aquele homem do qual não se falava há muito tempo, o selvagem das grutas de São Miguel. – Renda-se! – voltou a gritar. – Jamais! – respondeu o general Mac Kackmale. De repente, no momento em que os soldados o rodeavam, Gil Braltar emitiu um silvo agudo e prolongado. Imediatamente, a redor do edifício, logo o edifício todo, foi tomado por uma massa invasora. Vocês irão acreditar? Eram macacos, centenas de macacos! Vinham pois recuperar dos ingleses este rochedo do qual são os verdadeiros donos, este monte que ocupavam muito antes que os espanhóis, muito antes que Cromwell houvesse sonhado na sua conquista para a Grã-Bretanha? Sim, realmente! E eram temíveis por seu número, esses macacos sem caudas, com os quais não se vivia em paz, exceto na condição de tolerar as suas pilhagens, estes seres inteligentes e atrevidos que as pessoas evitam molestar, pois sabiam vingar-se (haviam feito isso muitas vezes) rolando enormes pedras sobre a cidade. E agora, estes macacos tornaram-se soldados de um louco, tão selvagem quanto eles, este Gil Braltar que eles sabiam que vivia uma vida independente deles, esse Guilherme Tell (N. do T.: Guilherme Tell (Guillaume Tell) foi um herói suíço do séc. XIV, lendário por enfrentar o governador austríaco tirano

Hermann Gessler) quadrumanizado, que concentrou toda a sua existência num só pensamento: expulsar todos os estrangeiros do território espanhol. Que vergonha para o Reino Unido, se aquela tentativa tivesse êxito! Os ingleses, que haviam derrotado os índios, os abissínios, os tasmânios, os australianos, os bosquímanos e muitos outros, agora seriam vencidos por simples macacos! Sim, semelhante desastre chegara a ocorrer, o general Mac Kackmale não teria outro remédio que explodir os seus miolos! Era impossível sobreviver a semelhante desonra! No entanto, antes que os macacos, chamados pelo silvo de seu chefe, houvessem invadido a habitação do general, alguns soldados puderam saltar sobre Gil Braltar. O louco, dotado de uma extraordinária força, resistiu, e não foi fácil reduzi-lo. A sua pele havia sido dilacerada na luta; encontrava-se amarrado, amordaçado e quase desnudo num canto da sala, sem poder mover-se ou emitir som nenhum. Pouco tempo depois, Mac Kackmale abandonou a sua casa com a firme resolução de vencer ou morrer de acordo com uma das mais importantes regras militares.

Ilustração por George Roux (1887) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

V
O perigo no exterior não era menor. Ao que parecia, alguns soldados haviam podido se reunir na Porta do Mar e avançavam em direção à casa do general. Vários disparos foram ouvidos nos arredores da Main Street e da Praça do Comércio. No entanto, o número de símios era tal que a guarnição de Gibraltar corria perigo de muito em breve ver-se obrigada a ceder posições. E então, se os espanhóis fizerem causa comum com esses macacos, os fortes seriam abandonados, as baterias ficariam desertas, as fortificações não contariam com um único defensor, e os ingleses que haviam feito inacessível aquela rocha, não voltariam a possuí-la jamais. De repente, ocorreu uma brusca inversão nos acontecimentos. Em efeito, à luz de algumas tochas que iluminavam o quintal, pode-se ver os macacos a sair em retirada. À frente do grupo ia o seu chefe brandindo seu bastão. Todos o seguiam no mesmo ritmo, imitando seu movimento de braços e pernas. Gil Braltar pôde-se desamarrar e escapar do quarto onde se encontrava prisioneiro? Não havia dúvida que era possível. Porém onde iria agora? Para a ponta da Europa, onde morava o governador, a fim de atacá-lo e forçá-lo a se render, como fez com o general? Não! O louco e o seu bando desceram pela Main Street. Depois de cruzar a Porta da Alameda, marcharam obliquamente através do parque e começaram a subir a encosta da montanha. Uma hora depois, na vila não restava sequer um dos invasores de Gibraltar. O que havia ocorrido, então? Logo se soube, quando o general Mac Kackmale apareceu no limite do parque. Havia sido ele quem, desempenhando o papel de louco, havia se coberto com a pele de macaco do prisioneiro e havia orientado a retirada do bando. Parecia tanto como um quadrúpede, este bravo guerreiro, que conseguiu enganar os macacos. Assim foi, não tendo outra coisa a fazer que aparecer e todos o seguiram. Simplesmente uma ideia genial, que logo foi recompensada com a concessão da Cruz de São Jorge. Quanto a Gil Braltar, o Reino Unido deu-o em troca de dinheiro a um Barnum que fez fortuna exibindo-o nas principais cidades do Velho e do Novo Mundo. O Barnum ainda diz de bom grado que não está a exibir aquele selvagem de São Miguel, mas sim o general Mac Kackmale em pessoa.

No entanto, esta aventura constituiu uma lição para o governo da Sua Graciosa Majestade. Ele percebeu que embora Gibraltar não pudesse ser tomada por homens, estava à mercê dos macacos. Por conseguinte, a Inglaterra, que é muito prática, decidiu não mais enviar para lá senão os mais feios dos seus generais, de maneira que os macacos se voltassem a enganar se houvesse outro feito similar. Esta medida lhe garantirá, verdadeiramente para sempre, a posse de Gibraltar.

Aventuras da Família Ratão Introdução
Eis aqui um interessante exemplo de conto diferenciado dentro da produção verniana. Na verdade, trata-se de uma fábula, na melhor tradição de LaFontaine – que é citado no texto pelo autor – repleta de animais que agem como seres humanos, fadas, magos, príncipes e vilões. No meio a tudo isso, a família que dá título ao conto, sonhando num dia tornar-se humana, passa da condição de roedores para a de moluscos, e desta para a de peixes, e então tornam-se aves... Publicado em 1910, na colectânea “Hier et Demain” (“Ontem e Amanhã”).

Aventuras da Família Ratão

“O que é que sucedeu então?”

Ilustração por Félicien de Myrbach (1891) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“…Ratão e os seus estão palpitantes sob as águas…”

Ilustração por Félicien de Myrbach (1891) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“Uma cidade muito bonita, que é a de Ratapolis.” Ilustração por Félicien de Myrbach (1891) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“Que inesperada irrupção se faz através da porta desconjuntada.”

Ilustração por Félicien de Myrbach (1891) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“O príncipe Kissador… agora não passa de um horrível chimpanzé.”

Ilustração por Félicien de Myrbach (1891) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

O Senhor Ré-Sustenido e a Menina Mi-Bemol Introdução
Na pequena aldeia de Kalfermatt, na Suíça, o único organista vivo fica surdo. Após meses de silêncio forçado, o órgão é novamente ouvido pela população aldeã, quando o maestro Effarane convoca as crianças do local para adicionar registos de vozes infantis ao instrumento. Surgem, entre elas, os pequenos Joseph Müller e Betty Clère, que recebem novos nomes, de acordo com os seus registos musicais: Senhor Ré-Sustenido e Menina Mi-Bemol. Publicado em 1910, na colectânea “Hier et Demain” (“Ontem e Amanhã”).

RéMiO Sr. Ré-Sustenido e a Menina Mi-Bemol

Ilustração por George Roux (1910) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“Não sai um único som …”

Ilustração por George Roux (1910) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“…não encontraram viv’alma.”

Ilustração por George Roux (1910) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“…enquanto a aldraba batia três colcheias...”

Ilustração por George Roux (1910) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“Começa, pequena.”

Ilustração por George Roux (1910) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

“…veste-te!”

Ilustração por George Roux (1910) (Coll. B. Krauth / www.jules-verne-club.de)

Comentários
Quando começámos a pensar em criar uma antologia digital e gratuita que agregasse num só volume textos inéditos de J. Verne, não nos pensava pela cabeça a quantidade de material que teríamos à nossa frente. Decidimos, portanto, organizá-lo em categorias e depois cronologicamente antes de iniciarmos a tradução para português. Porém, enquanto procedíamos ao início do nosso trabalho, descobrimos, através das nossas pesquisas, que, na década de 70, vários famosos tradutores da altura tinham traduzido muitos dos textos raros escritos pelo escritor francês. Perante isto, e para que não houvesse trabalho em excesso, abandonamos temporariamente o nosso serviço e tentar o contacto dos tradutores. Encontramo-los, informamo-los sobre o nosso desejo e, para nossa satisfação, apoiaram-nos permitindo que as suas traduções fossem disponibilizadas gratuitamente na nossa antologia. Com este aumento repentino de ainda mais textos vernianos em mãos, pegámos nas páginas conseguidas e digitalizamo-las dando origem a este volume com mais de 300 páginas. O constante desejo de J. Verne, aquando do lançamento de cada obra sua, foi o de adicionar sempre as melhores ilustrações de forma a mostrar exactamente aquilo que tinha na sua mente. Portanto, de forma a concretizar o seu desejo, inserimos as ilustrações originais da época juntamente com o nome do ilustrador por debaixo de cada uma. Estas, por se encontrarem em domínio público, são utilizadas gratuitamente no nosso volume. No entanto, requereram tratamento para a sua inclusão nas nossas páginas. Perante isso, deixo por baixo de cada uma, para além do nome do ilustrador, a fonte e o nome do tratador.

Agradecimentos Agradecimentos
Começo por agradecer ao meu “professor”, Carlos Patrício, não apenas pelo que me tem ensinado a respeito da vida e obra de J. Verne como também pelo facto de ter aceitado o meu convite para escrever as introduções aos contos que aqui apresentamos. Este volume não seria possível sem os magníficos tradutores M. Rodrigues Martins, Cidália de Brito, Lima da Costa, Luís Silva e Eduardo Weiland da Biblioteca Júlio Verne (www.juliovernebrasil.blogspot.com). Um forte e grande obrigado a todos eles, não só pela qualidade das suas traduções como pelo envio gratuito destas. A inclusão das ilustrações originais que tanto enriqueceram a nossa antologia deve-se unicamente a Bernhard Krauth, um dos grandes vernianos mundiais, que as tratou e que simpaticamente as enviou sem qualquer custo. O meu muito obrigado, Herr Krauth. Por último, ao mestre J. Verne pois sem ele não teríamos tido estas Viagens Extraordinárias. (Aproveito para deixar uma nota de desejo para que um dia apareça uma alma caridosa que nos passe a computador os textos scanizados. Entretanto, estaremos a trabalhar no resto dos nossos textos a traduzir que aparecerão num segundo volume.) Frederico Jácome
www.jvernept.blogspot.com

Fim

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