COLOCANDO OS "ÓCULOS DE VER REDE" Augusto de Franco - Carta Rede Social 120 (14/09/06) [Tempo estimado de leitura: 12 minutos] ‘Carta

Rede Social’, ex-‘Carta Capital Social’ (e antiga ‘Carta DLIS’) é uma comunicação pessoal de Augusto de Franco enviada quinzenalmente para cerca de 5.000 agentes de desenvolvimento e outras pessoas interessadas no assunto, de todo o Brasil. Nesta carta dou continuidade às minhas explorações no universo das conexões ocultas que produzem o que chamamos de ‘social’.

Mais uma mudança de título – a terceira – em quase cinco anos desta correspondência. As ‘Cartas Capital Social’, antigas ‘Cartas DLIS’, passam agora a se chamar ‘Cartas Rede Social. Com o nome de ‘Cartas DLIS’ seguiram as correspondências numeradas de 1 a 80 (de 17 de dezembro de 2001 a 3 de março de 2005). Com o nome de ‘Cartas Capital Social’ foram as de número 81 a 119 (de 17 de março de 2005 a 31 de agosto de 2006). Agora iniciamos a nova série, com a presente ‘Carta Rede Social 120’, mantendo sempre a numeração corrida. Na verdade não quero abandonar as importantes referências ‘DLIS’ e ‘Capital Social’. Elas fazem parte da trajetória do pensamento que está nos levando às profundezas desse ser misterioso designado como sociedade. São marcos na exploração do universo das conexões ocultas que produzem o que chamamos de social e que, na verdade, pode ser mais propriamente caracterizado como rede social. Não é de hoje que estamos tentando entrar nesse novo mundo fantástico das fluições. Para começar, repito aqui – com algumas modificações e comentários – excertos de um texto que já enviei em outra carta (‘Carta Capital Social 106’, em 2 de março de 2006) sobre a rede social. E depois aduzo considerações inéditas sobre A Rede.

Sim, A Matrix existe Uma mudança significativa na nossa visão sobre a sociedade está ocorrendo nos últimos anos. É como se, de repente, um véu tivesse sido retirado da frente de nossos olhos e pudéssemos agora divisar uma estrutura e uma dinâmica – na verdade um universo de fluxos luminosos e intermitentes – revelando a existência de conexões que antes não enxergávamos. Essa mudança vem mostrando que aquilo que chamamos de sociedade não era bem o que até então julgávamos que percebíamos. Ou seja, não era apenas um conjunto de indivíduos humanos distribuídos

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inescapável. Pela primeira vez está sendo possível estabelecer uma relação intrínseca entre desenvolvimento e democracia. entre o indivíduo (possuidor de um fluxo próprio de experiências pessoais intransferíveis) e o coletivo (os fluxos das conexões com as experiências de outros indivíduos. tanto pela sua forma peculiar de interagir com outros seres humanos – de emitir. é como se existisse de fato aquela Matrix dos filmes dos irmãos Wachowski. o fenômeno da autoregulação. Do ponto de vista do capital social. Que as conexões são caminhos pelos quais podem trafegar mensagens. sob certas condições. conservando. A investigação dos mecanismos ou processos de sustentabilidade revelou o papel das redes sociais. não na forma de um mainframe controlado pelo elegante senhor de barba branca – o Arquiteto (representado pelo ator Helmut Bakaitis) que contracena com Neo (Keanu Reeves) em Matrix Reloaded – e sim como uma network. Trata-se apenas de uma imagem. daquilo que permanece invariante na sua forma de se configurar ou de fluir. Descobrimos que o que chamamos de ‘social’ não se refere propriamente a um conjunto de seres humanos e sim a um conjunto de relações. isso significa conservação da adaptação: só é sustentável o que consegue mudar de acordo com a mudança de circunstâncias. a renda ou o produto e a riqueza) e dos fatores extra-econômicos que passaram também a ser levados em conta (como o capital humano e o capital natural) – desenvolvimento é a mesma coisa que sustentabilidade.sobre um território e constituído a partir de algumas relações recorrentes. uma teia invisível. aquilo que o caracteriza. pode ter sua estrutura deformada e seu funcionamento alterado – em geral pelo bloqueamento de fluxos – com conseqüências perversas para o que chamamos de qualidade de vida e de convivência social. é uma função de autoregulação da rede social. podemos ter. Que os comportamentos dos indivíduos são condicionados. na rede social. na rede social o tema é ‘regulação’. em certo sentido invertida: enquanto na Matrix (do filme) o objetivo é ‘controle’. porém. processar e de receber mensagens – quanto pela configuração e pelo funcionamento geral da teia de conexões na qual esse indivíduo está inserido. ao mesmo tempo. Todavia o que chamamos de capital social – um recurso para o desenvolvimento aventado recentemente para explicar por que certos conjuntos humanos conseguem criar ambientes cooperativos favoráveis à boa governança. que o que chamávamos de ‘social’ nada mais era do que a rede social. quer dizer. móvel. dessa nova variável que passou a ser considerada – ao lado dos fatores econômicos já conhecidos (o capital financeiro e o capital físico. Essa relação só se tornou perceptível – e capaz de ser justificada teoricamente – a partir da idéia de capital social. A constatação de que o capital social é produzido em maior escala em ambientes democráticos. Era isso. ou seja. em outras palavras. assim. Recorrendo a uma metáfora. Sim. Sustentabilidade é o grande tema contemporâneo. Um dos impactos da descoberta das redes sociais é sobre a nossa visão do desenvolvimento. Que essas relações são conexões. 2 . pulsante. O que aponta para um imbricamento. Isso é tão surpreendente que não é fácil captar o sentido e imaginar as conseqüências desse novo modo-de-ver. mantendo uma congruência dinâmica com o meio. Que padrões são mensagens e podem ser transmitidos como tal. Mas quando a rede é invadida por padrões de organização hierárquicos e perturbada por modos de regulação autocráticos. sim. que o atingem continuamente). mas muito mais do que isso. Só redes podem ser sustentáveis porque só redes conseguem mudar programas de adaptação a partir do seu próprio padrão de identidade. Essa teia de conexões é o que foi chamado de rede social. de conexões entre indivíduos e grupos em uma sociedade. Ainda é difícil avaliar todos os impactos que terá essa mudança de compreensão sobre a sociedade. normas e instituições. Descobrimos. tem inspirado a idéia de que a democracia é uma espécie de “metabolismo” próprio da (ou mais adequado à) rede social. historicamente construídas. Sustentabilidade. ou seja. Ora. à prosperidade econômica e à expansão de uma cultura cívica capaz de melhorar as suas condições de convivência social – nada mais é do que a rede social.

a rigor. Não é agora que a sociedade está se constituindo como uma sociedade-rede. a microeletrônica e os satélites de órbita estacionária). em geral de natureza social e. está possibilitando a conexão em tempo real (quer dizer. grupos e outras organizações) estão conectados entre si horizontalmente (ao contrário de como se organizam nas organizações hierárquicas ou em uma holding. Isso não significa que as formas organizativas que queremos ensaiar em uma sociedade não possam também adotar voluntariamente o padrão de rede. a rede social que existe como fenômeno objetivo. econômicos e sociais. que em geral apenas disfarçam uma organização centralizada (ou multicentralizada) ou com um número insuficiente de caminhos. elas se estruturam como redes. ou seja. ao mesmo tempo. A rigor estamos caracterizando aqui como rede apenas as chamadas redes distribuídas (ao contrário das redes centralizadas e das redes descentralizadas ou multicentralizadas) cuja topologia é P2P. a sociedade humana está se conformando. está tornando mais visível a rede social e os fenômenos a ela associados. Mas são duas coisas diferentes. ao mesmo tempo em que está acelerando e potencializando os seus efeitos.O que são redes Uma rede é uma coleção de nodos ligados por muitos caminhos (ou um conjunto de vértices interconectados por muitas arestas). Mas a denominação de rede não se aplica adequadamente a muitos esforços voluntários de construir redes. O que ocorre na época atual é que a convergência de fatores tecnológicos (como a fibra ótica. independentemente dos esforços feitos por algum sujeito para tecê-la ou articulá-la Por variadas e complexas razões de ordem social e tecnológica. por exemplo). na qual os nodos estão ligados ponto a ponto e não a partir de um único centro (rede centralizada) ou de vários pólos (rede descentralizada). ou seja. a telefonia digital. A novidade das redes se refere às redes distribuídas (veja figura abaixo): 3 . como uma rede (o que Castells chamou de sociedade-rede). Uma organização territorial. sem distância) entre o local e o global e. Toda vez que sociedades humanas não são invadidas por padrões de organização hierárquicos ou piramidais e por modos de regulação autocráticos. a rede social é o que propriamente chamamos de ‘social’. desde que existem seres humanos se constituindo como tais na relação com outros seres humanos. o que não é pouca coisa. onde não podem se manifestar plenamente os fenômenos próprios da conexão em rede. assim. o laser. Duas confusões são muito comuns na literatura sobre redes. As pessoas chamam de rede tanto a uma forma ou um tipo de organização voluntariamente construída para cumprir uma finalidade. cada vez mais. políticos. setorial ou temática voluntariamente construída recebe o nome de rede quando seus integrantes (pessoas. Ou seja. a rede social existe desde sempre. Entretanto.

aliás. para não ficar parecendo uma construção metafísica. A Rede “As distâncias somavam a gente para menos” Manoel de Barros em “Arte de infantilizar formigas” do “Livro sobre nada” (1996). ou a teia da vida que assegura a sustentabilidade dos ecossistemas. mas a burocracia sacerdotal do conhecimento acadêmico não lhe dá crédito. estudando-os. Você tenta falar com uma pessoa e não consegue. aquela que existe independentemente de nossos esforços voluntários organizativos (ou conectivos) – e que será tratada. doravante. Segundo exemplo.que são redes sociais na medida em que conectam pessoas). você tomaria rotas alternativas. como ‘a História’ ou ‘a Economia’. que o atribui a Paul Baran no documento em que descrevia a estrutura de um projeto que mais tarde se converteria na Internet). Você fez um estudo interessante sobre determinado assunto. Mas isso não significa que sejam a mesma coisa. Vamos ver alguns exemplos Primeiro exemplo. Há uma homologia entre esses diversos padrões organizativos. a própria definição de rede (stricto sensu.que vai reproduzido acima . Existem muitos tipos de redes. pode-se iluminar a compreensão do universo das conexões ocultas que produzem o que chamamos de social. se alguns caminhos estivessem impedidos ou congestionados. o que está havendo senão obstruções na rede? Se os caminhos estivessem abertos você escorreria por eles. Mas quando não há múltiplos caminhos é sinal de que não há rede – essa é. você tenta ler (ou escrever) alguma coisa inédita.de David de Ugarte (2006). A Rede. a despeito da confusão que isso possa causar – está presente no quotidiano de uma maneira muito mais concreta do que imaginamos. dentre os quais os mais conhecidos e citados são as redes biológicas (a rede neural por exemplo. distribuída). você chega em uma instituição pública e lhe dão um “chá de cadeira”: ora. plantas e animais e outros elementos naturais) e a rede social (embora existam também redes de máquinas . A outra confusão muito comum se refere à rede social. que conecta os neurônios no cérebro dos animais.como a rede mundial de computadores que chamamos de Internet . com letra minúscula.(Tomei um excelente diagrama . mas não consegue entender (ou ser entendido) por razões estranhas à racionalidade formal (lógica e metodológica) ou substantiva (semântica incluída) do texto: certamente está havendo algum 4 . conectando micro-organismos. em “El poder de las redes”. de sorte que. Nem toda rede é uma rede social.

mesmo que não queira. Regiões do espaço-tempo dos fluxos são congeladas criando um campo que conserva determinada configuração geral. num circuito fechado de quem leu as mesmas coisas. obrigam o pensamento multidimensional a se enfileirar (a se linearizar) para passar numa espécie de corredor polonês. ou seja. cujo objetivo era (ou o resultado 5 .. Como num trem fantasma de parque de diversões. você deve repetir passado.. Então. por exemplo. a configuração gerada quando aquele script do programa começa a rodar na rede. Seus graus de liberdade estão sendo restringidos. para que ele não possa mesmo ocorrer (quer dizer. descentraliza. você é vítima de mais-ordem. por incrível que pareça. ou descentralizou-a (no fundo é a mesma coisa).. seu acesso é proibido. Você não pode abrir novos caminhos. criação de centros de poder que vedam caminhos. porquanto. no segundo. de certo centralizou-a. participou das mesmas conversas – quer dizer. Como se sabe. compartilhou voltas em torno do mesmo assunto ou da mesma maneira de abordá-lo). talvez isso não acontecesse. Algum programa particularizou uma região da rede instaurando códigos de reconhecimento e permissões. mas criando filtros. aliás. E são culturas. singularidades no espaço-tempo dos fluxos que abolem a isotropia. No fundo normas e instituições são a mesma coisa. para que você não consiga mais encontrá-lo – foi exatamente o que disse Heráclito). seu estoque de futuros disponíveis está limitado. Se você não possui as credenciais (um título. mas é obrigado a passar por ele – por esse filtro – para chegar aos elementos de outros clusters. é verdade. que nela foi introduzida. para manter sociedades estáveis. no primeiro caso olhamos o script e. clusterizando campos de convivência. São portas. talvez. Culturas são redes particulares de conversações que geram circularidades que subtraem caminhos. Mas qualquer multiculturalismo também é nocivo. Cada clusterizado só pode chegar diretamente ao seu próprio centro. Para chegar ali você só pode passar por aqui. com o qual os mesmos de sempre se condecoram. Só é verdadeiramente público o que é distribuído. as linhas (férreas) já estão estabelecidas: você deve levar os mesmos sustos até que não se assuste mais com o inesperado. Normas são assim. Sem isso não poderíamos viver socialmente. Geram perturbações. porque divide a rede em clusters estanques. Corporações e organizações burocráticas – mesmo as da nova burocracia associacionista das ONGs – são pequenos castelos enquistados na rede social. tanto faz) foi introduzida em consonância com um padrão organizativo introduzido top down. Linhas escritas. o campo. você só pode voltar para cá fazendo tal caminho e não outro. Quem sabe. Terceiro exemplo (ou melhor: uma sensação difusa). Uma cultura pública global seria necessariamente mestiça) Representações são escadas. Linhas escritas espancam a livre e imediata apreensão – o glance ou o blink – até que ela se acostume a rastejar. Só a mestiçagem distribui. mas – eis a diferença! – impediu a distribuição das conexões O que aconteceu? Os eventos de desenredamento (ou de hierarquização) são escadas e muros. mutuamente. (É por isso. no limite. se tivéssemos uma “escrita” simbólica ao invés de pictográfica.tipo de intervenção hierárquica. São descentralizações.. isto é. alguma “coisa”. que qualquer monoculturalismo é nocivo. até que – como diria Heráclito – não consiga mais esperar o inesperado. Sim. cercas e linhas escritas. Instituições são assim. que seleciona alguns caminhos na rede em detrimento de outros. De qualquer modo são sempre programas que rodam na rede. normas e instituições também são programas Normas e instituições são programas que orientam fluições segundo um padrão recorrente. só a mestiçagem é compatível com a rede. você não consegue se fazer ouvir nem chegar aonde quer: não foi a rede que fez isso sozinha. é preciso dar voltas para se manter no mesmo lugar. E depois. sua vida está sendo controlada. Mas a escrita enfileiradinha (vertical ou horizontal. pelo menos no atual padrão civilizatório). Não estou discutindo aqui se normas são ou não são necessárias (e é claro que são. centraliza tudo extinguindo a rede. Estou apenas reconhecendo em que consistem e o que fazem. da esquerda para a direita ou ao contrário.

isto é. como é. O mesmo impulso – ou pulsão de morte – que erigiu o primeiro Estado (quer dizer. um zigurate) gerou a linha escrita.locaweb. constituída basicamente por escadas e muros. vamos em frente. creio ser esse o desafio maior: começar a reler tudo com os “óculos de ver rede”. não? Bom.php?id=13_0_2_0_C 6 . Para quem está interessado em compreender a fenomenologia que está por trás dos processos de mudança social que interpretamos como desenvolvimento.br/cartas_comments. ou melhor.com. do oposto da política democrática ou pluriárquica). A escrita é também um programa. fisicamente.objetivo foi) alterar a morfologia e a dinâmica da rede. http://augustodefranco. a primeira ‘Cidade-Estado-Palácio-Templo’ sumeriana.. uma linguagem de programa Quanta coisa para ser pensada e desenvolvida. (Mais tarde ver-se-á que estou falando da guerra..

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