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nem vivia no deserto. ele não tinha turbante. publicado na década de 1960. inclusive os judeus –. era um criativo professor brasileiro. ou sírio. Esses árabes eram mesmo fabulosos matemáticos e eu já tinha aprendido que até os algarismos arábicos haviam sido inventados por eles!!! O fato é que para mim o tal do Malba Tahan deveria ser um beduíno de tipo físico semelhante às pessoas que mercadejavam na região da Rua 25 de Março. Abdallah Aschar. carioca que cutucava os seus pares afirmando que eles gostavam de complicar tudo. que propunha problemas de aritmética e álgebra.” Essa grave acusação é de um professor de matemática que ficou conhecido em todo o Brasil pelo pseudônimo de Malba Tahan. em pleno centrão de São Paulo. Seu livro mais conhecido. . A verdade é que fiquei um pouco decepcionado com o Malba Tahan que havia criado em minha imaginação de menino de 14 anos. ou turco – como todos eram chamados. Foi o turco. Nunca mais me esqueci da história dos camelos e de como um sábio beduíno deu seu camelo para promover uma divisão equânime entre os pretendentes. Julio César de Mello e Souza. e quando obtive o livro de Malba Tahan cheguei ao Parque Dom Pedro II. e ainda sobraram dois camelos para ele.Prefácio “O professor de matemática em geral é um sádico. nem camelos. era O Homem que Calculava. que me disse que o genial autor de O Homem que Calculava. com as páginas iniciais da primeira história lidas. um bem-intencionado militante do Partido Comunista Brasileiro. e eu o comprei em um sebo na Avenida Rangel Pestana que “queimava” os livros da coleção a Cr$1. salvo engano. Era uma pechincha. nem fazia as orações dos crentes em Alá. Foi justamente lá que conheci o sírio. em São Paulo.

outra. como professor de História. Carlos Eduardo Soares Gonçalves e Mauro Rodrigues. Heródoto Barbeiro Escritor e jornalista da CBN e da TV Cultura Bagdad. Em compensação. Além de Malba Tahan. não aprendi nada com outros. Assim como O Homem que Calculava fez muita gente de diversas gerações ver a matemática com outros olhos. para alunos do curso fundamental da periferia.O homem era brasileiro. mostra ao leitor leigo que aprender sobre economia pode também ser algo divertido. Olivaldo Pereira. Escrever fácil é difícil. composto por deliciosas crônicas que aplicam os conceitos da ciência econômica a diversas situações concretas. fui assistir às aulas de matemática do professor do cursinho Objetivo de São Paulo. Falar fácil também. e sim algo mais intuitivo e belo. a matemática que aprendi se deveu à criatividade de alguns professores. pois exige que o professor saiba muito e seja capaz de decodificar em função de seu público-alvo. Depois. e cheguei mesmo a desconfiar que um ou outro não sabia o que ensinava – pretensão passageira de quem tomou várias notas vermelhas na matéria. Ensinar com boa didática muito mais. e me encantei quando ele me mostrou que matemática não era aquele monte de cálculos e fórmulas que todos decoravam. Uma coisa é falar para os sábios da Academia de Viena. este livro dos professores da USP. que também tinham me fascinado. 19 da lua de Ramadã de 1321 . mas escrevia como se cada problema de matemática ou álgebra fosse um conto das Mil e Uma Noites.

alguns resultados da pesquisa acadêmica recente na área de Economia. para isso. Além disso. que podem ser saboreados pelo leitor em qualquer ordem. muitos deles largamente dissociados dos assuntos abordados nos cadernos de economia dos jornais. o livro tem também a finalidade de ensinar uma série de conceitos básicos da teoria econômica. N . estruturamos nosso livro em forma de textos curtos e autocontidos. empregando. e (ii) transmitir uma variedade de conceitos econômicos de forma divertida e agradável ao leitor. exemplos inusitados do dia a dia. Tratamos aqui dos mais diversos temas.Prólogo osso objetivo ao mergulhar no desafio de escrever este livro foi trazer ao conhecimento do público geral. Queremos com isso: (i) mostrar a abrangência da lógica econômica e como ela pode contribuir para o entendimento de diversos fenômenos sociais. sob a forma de uma leitura leve e acessível. Diferentemente de outros trabalhos com objetivo similar.

. . . .7 Harry Potter e o preço da passagem de avião . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .64 Incentivos ao futebol arte? . . . . . .16 Nosso amigo. . .59 O contrabando a serviço da sociedade . . . . .31 Rins à venda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .72 Deuses da chuva e da guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .107 Beleza importa? . .Sumário As maiores bilheterias do cinema . . .53 O ovo e a galinha na economia do crime . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .43 Mais comércio. . .90 A privatização dos rinocerontes . . . . . . . . . . . . menos países . . . . . . . . . . . .26 A hecatombe financeira de 2008 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o especulador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .22 Adam Smith e os benefícios da globalização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1 A herança maldita da escravidão . . . . . . . . . . . . . .102 Max Weber versus Martinho Lutero . . . . .37 Diplomatas e índios peruanos . . . . . .13 Dos mosquitos ao desenvolvimento . . . . . . . .77 A feia fumaça que sobe apagando as estrelas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .113 . . . . .50 1688 e 1904: o impacto sobre as taxas de juros .98 Malleus Maleficarum .93 O outro lado das epidemias . . . . .82 Racionalidade individual e irracionalidade coletiva. .

. . . . . . . . . . . . . .199 A maldição do vencedor .193 Nas bordas da racionalidade econômica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .174 Vinhos. . . . .218 Terroristas . . .155 A proliferação dos cursos de MBA . . .147 Grandes salários – I . . . . . .125 Impactos escondidos do 11/9 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .213 Corrupção . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .187 QWERTY . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . pipocas e passagens aéreas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .131 Dr. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .168 O fim dos CDs? . . mas não é . . . . . . . . .117 Celebridades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .120 O custo do tempo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .164 Sobre filas e cambistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Vermes e armas: benefícios e custos sociais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .142 Ligações perigosas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .179 O DNA destruidor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .152 Grandes salários – II . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .230 . . .224 Marcas de cerveja e número de candidatos . . .159 Frentistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .129 A vida e a morte do dragão inflacionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .182 Remédios para quem? . . . . . . . . . . . . . . . Fantástico e a crise financeira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .207 Parece. . . . . . . . . . . . . . . . . .138 Felizes para sempre? . .

Ambos saem ganhando e. Se Carlos Eduardo. apesar disso. não menos importante. pois. Veja que se dada troca não fosse mutuamente benéfica. acha um ingresso para um jogo do Corinthians na calçada. já que ao menos uma das partes não toparia a transação. o fanático Mauro. apesar de muito ruim. que não liga muito para futebol. vendam-nos no mercado e. Trocas não impostas por força ou coerção são ditas eficientes porque necessariamente beneficiam ambos os lados da barganha: quem vende e quem compra. a possibilidade de trocar faz com que os bens na economia terminem nas mãos das pessoas que lhes atribuem maior valor. ao melhorar sua qualificação profissional.1 1 O ideal para mudar esse quadro lamentável é ampliar as possibilidades de escolha dos pobres. apesar de muitas vezes não ser bem recebido entre os não economistas. por exemplo. Ficamos revoltados. Além disso. Rins à venda 37 . ela deixaria de ocorrer. era provavelmente a melhor opção disponível no momento. o que pode ser alcançado. a verdade é que essa troca o beneficiou. Mas. lugar proeminente é atribuído à importância das trocas. quando um trabalhador em uma vila pobre da Índia vende 14 horas diárias de sua força de trabalho em troca de um salário pífio de poucos dólares. Esse resultado é quase óbvio. As trocas permitem que as pessoas se especializem na produção de alguns poucos bens e serviços. por exemplo. com o dinheiro recebido. o ingresso termina na mão de quem o valoriza mais. ele vende-o para Mauro por um preço menor que o cobrado no guichê. comprem uma miríade de outros bens que elas mesmas não produzem.Rins à venda N a teoria econômica. O problema é que algumas trocas são tão assimétricas que ferem nosso senso de justiça.

Entretanto. mesmo em países desenvolvidos. IPEA.br>. paciente e doador devem ter tipos sanguíneos e tecidos compatíveis. mas a realidade é.2 A fila é longa: espera-se. bem menos alentadora. Filas quase sempre refletem um descompasso entre demanda e oferta. o número de transplantes efetivamente realizados é bem menor: apenas 3. por exemplo. como vimos anteriormente.V. 5. “Os Transplantes de Órgãos nos Estados Brasileiros”. Os dados para Brasil dizem respeito ao ano de 2003. Os dados para os Estados Unidos referem-se aos anos de 2001 e 2002. A. Dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos: <http://www..397 no ano de 2007.abto. para transplantes realizados dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Ver Marinho. entre 3 e 5 anos.3 ou seja. Cardoso. Tabela 1. A escassez de oferta de órgãos não é exclusividade tupiniquim: no Reino Unido. Ele se aplica também a outros mercados.5 anos por um rim – período no qual um paciente com insuficiência renal crônica deve se sujeitar a um penoso tratamento de hemodiálise. Essa peculiaridade deveria facilitar a vida de pessoas que precisam de transplantes. Para o Reino Unido. conseguir um rim em bom estado não é nada fácil. Em particular. no período 1999-2002. Texto para discussão n. não há rins suficientes para atender a todos que precisam de um transplante. como o polêmico mercado de órgãos humanos. Isso porque o doador pode levar uma vida praticamente normal com apenas um rim (o maior risco da doação é o da operação). para reduzir ao máximo a probabilidade de rejeição do órgão transplantado. em média. consideram-se apenas adultos.O teorema sobre a eficiência das trocas não se restringe a transações de natureza puramente econômica – por exemplo. V. S. uma pessoa espera em média 2 anos por um rim. 3 2 38 S O B A L UP A DO ECONOMIST A . Nesse caso. a troca de um carro por dinheiro. 1317. nos Estados Unidos. Em face disso. Cerca de 30 mil brasileiros fazem parte de listas de espera por transplantes de rins. Um dos problemas é que encontrar uma pessoa saudável e disposta a doar um rim (normalmente um grande amigo ou membro da família do doente) não garante que o transplante possa ser efetivamente concluído. (2007). pergunta-se: Por que então não existe um mercado de rins funcionando eficientemente? Veja o leitor que transplantes de rins possuem uma particularidade interessante que os diferencia de outros tipos de transplantes: o órgão pode ser doado por pessoas ainda vivas.S. e Almeida.org.

usando o dinheiro para outras finalidades de grande emergência. um mercado legal de rins. Dado que existe uma enorme demanda por rins não atendida. um grande potencial para o surgimento de um mercado formal e impessoal no qual esses órgãos seriam transacionados entre pessoas que sequer se conhecem. ou melhor. e (ii) há uma chance nada desprezível de que o bom samaritano desse pequeno círculo possua tipo sanguíneo ou tecidos incompatíveis com os do doente. dentre as quais poderia aparecer um doador. poderia se beneficiar da venda de seu rim. o número de transplantes é baixo por dois motivos: (i) o grupo de pessoas próximas ao doente. Como essa situação mudaria se nossos rins pudessem ser negociados como bananas. Isso porque Y poderia vender seu rim no mercado para outro doente com tipo sanguíneo compatível – no caso. com os fundos levantados Proibir alguém de vender seu rim sob o argumento de que o vendedor não sabe o que está fazendo é menosprezar a compreensão das pessoas sobre os custos e benefícios de tal ação. nesse mercado só ofertariam órgãos aqueles cujo benefício da venda – o dinheiro recebido – fosse maior do que o custo de passar por uma operação e ter que viver com um só rim. por exemplo. é reduzido. A legislação brasileira. o indivíduo Y. na ausência de um doador compatível pertencente a seu círculo de amigos e familiares próximos. Rins à venda 4 39 . está disposto a lhe doar um rim. em um mercado legal? Consideremos um exemplo hipotético. porém possui sangue do tipo B. e que as pessoas podem levar a vida com apenas um rim. mesmo não tendo a família dinheiro em caixa para comprar um rim. necessita de um transplante. no mínimo. há. Uma pessoa de baixa renda. Como ninguém seria obrigado a vender seu rim. não seria nada difícil encontrar tal comprador. restará ao paciente entrar na fila e esperar por um doador falecido ou tentar sua sorte no mercado negro de órgãos. o que os torna incompatíveis e impossibilita a operação. cujo sangue é do tipo A. proíbe a comercialização de órgãos humanos em troca de montantes monetários. A presença de um mercado impessoal bem organizado alteraria completamente esse quadro. Dessa forma.4 No entanto.Assim. assim como a da maioria dos países do mundo. Seu irmão. Um indivíduo X. esse mercado. não existe. 5 Com um amplo mercado de rins operando legalmente. tipo B ou O5 – e.

Esse exemplo simples ilustra a perda de bem-estar associada à proibição do comércio de rins. Ressalte-se que as alternativas para o paciente. não são muito alentadoras: sofrer com a longa e dolorosa espera por um doador póstumo ou recorrer ao arriscado mercado negro. economistas. alguém que possua sangue do tipo A ou AB). convenhamos. quando essa troca é proibida. Para uma discussão sobre o impacto da repugnância sobre o funcionamento dos mercados. a proibição ao comércio de rins indica que a sociedade prefere pagar o custo do sofrimento de pacientes que necessitam de transplantes. a maioria das pessoas – e nós não somos exceções – vê a possibilidade de comprar ou vender órgãos em transações monetárias como algo repugnante e até mesmo antiético. (2007). Segundo porque o paciente terá enormes dificuldades para recorrer à Justiça caso o rim comprado seja de má qualidade ou ocorra erro ou negligência médica na operação. No caso esboçado. dois transplantes deixariam de ser realizados por conta da ilegalidade da operação. drogas. a alternativa do mercado negro é bastante complicada por dois motivos. principalmente para os pacientes que necessitam de transplantes. compatível com as características do indivíduo X (ou seja. passar julgamento de valor a respeito da proibição. uma vez que tudo se passa na ilegalidade. e a nós. 6 40 S O B A L UP A DO ECONOMIST A . Em particular. ver Roth. as trocas. Rins não são bens como carros ou bananas. principal fator gerador de ganhos de bem-estar socioeconômico. Journal of Economic Perspectives 21: 37-58. a família teria condições de comprar o rim de uma terceira pessoa. Cremos que essa aversão ao comércio monetário de órgãos não deve ser desconsiderada em nome da eficiência associada à existência de tal mercado. Apesar dos argumentos levantados. Primeiro porque bons médicos raramente se dispõem a arriscar suas reputações realizando cirurgias ilegais. Entretanto. “Repugnance as a Constraint on Markets”. serviços sexuais e jogos de azar – sofrem proibições semelhantes à sua comercialização. A. cabe apenas indicar que a proibição tem também custos importantes.nessa transação. a ter que conviver com o horror de colocar preços monetários em órgãos humanos. Se acreditarmos que as leis de um país refletem de alguma forma as opiniões de seus cidadãos. portanto.E.6 Não é possível. nem sempre precisam ser realizadas via pagamentos Outros bens e serviços – por exemplo.

estamos supondo que apenas a compatibilidade no tipo sanguíneo é relevante para determinar a possibilidade de um transplante de rim. A lógica é que. seu familiar ou amigo Y (de tipo sanguíneo B). 9 Nos Estados Unidos. veja <http://www. há uma alternativa interessante que recentemente vem ganhando popularidade. Para simplificar o argumento.nepke. o indivíduo Y poderia posteriormente se Note que o par é. veja <http://kuznets. necessariamente. html#KidneyExchange>. Para a literatura na área de Economia.org> e <http://www.harvard.8 Quanto maior o número de participantes no banco de dados. Basicamente.org>. Caso contrário.paireddonationnetwork. A ideia consiste em impulsionar os transplantes por meio de um mecanismo de trocas diretas de rins. possibilitando a realização de dois transplantes: Z doará seu rim para o desconhecido X. no caso dos transplantes. o que a central de cadastro faz é buscar.edu/~aroth/alroth.9 O esquema ainda requer que ambos os transplantes sejam realizados ao mesmo tempo para minimizar o risco de que o primeiro a receber o rim não cumpra sua parte na troca. possui tipo sanguíneo A.paireddonation. 8 Os indivíduos devem ser compatíveis com relação a tipo sanguíneo e tecidos. assim. uma pessoa com doença renal crônica não precisa trazer dinheiro. elas fariam o transplante entre si e não precisariam. se o paciente X recebesse o transplante primeiro. cujo doador. seu primo Z.fas. dentro de seu vasto banco de dados. Ver <http://www. W e Z – ser composto por indivíduos incompatíveis entre si. diversas associações se desenvolveram nos últimos anos para organizar esquemas do tipo. O trabalho conjunto de médicos e economistas foi instrumental para o estabelecimento do grupo da região norte-americana de New England. intermediadas por uma instituição central em que são cadastrados pacientes e potenciais doadores.org>. melhores as chances desse arranjo funcionar.7 Para facilitar a exposição do funcionamento desse mercado não monetário. De fato. Para mais detalhes. Por exemplo. Rins à venda 7 41 . enquanto Y doará seu rim para o desconhecido W. voltemos ao nosso exemplo com o paciente X (com sangue do tipo A) e o potencial doador.monetários diretos. mas sim alguém disposto a doar um rim. com tipo sanguíneo B. pois permite que se troquem rins sem que para isso sejam necessários desembolsos monetários. outro par “paciente-doador” compatível com o primeiro. de pessoas incompatíveis. permitindo assim a ocorrência de dois transplantes de órgãos: uma verdadeira troca de rim por rim. Apesar de cada par – X e Y. Por exemplo. encontra-se um paciente W. o sistema garante que haja compatibilidade entre pares. para participar. participar desse esquema.

da mesma forma que ocorreria no caso do mercado monetário de rins. Colhem-se os ganhos das trocas de mercado sem se ferir a ética. O que estamos esperando? A vantagem das trocas impessoais é que elas permitem uma expansão da escala do mercado – afinal de contas. A simultaneidade das cirurgias impede que isso ocorra. o par X-Y sairia ganhando. Note que. 10 42 S O B A L UP A DO ECONOMIST A . pois X conseguiria um rim saudável sem que Y precisasse se sujeitar a uma cirurgia. No momento em que este texto foi finalizado. há troca de órgãos entre pessoas que não possuem necessariamente uma relação familiar ou afetiva. esse arranjo ainda não havia chegado ao Brasil. Dessa forma. o que torna a transação socialmente aceitável.10 A diferença fundamental é que não há contrapartida de dinheiro. nesse novo modelo.recusar a doar seu rim para o paciente W. há muito mais pessoas no mundo do que nosso círculo de amizades. Essa possibilidade de trapaça pode afetar adversamente os incentivos das pessoas a participarem do esquema. colocando-o em risco.

Ou seja. seria claramente melhor para todos se menos gente parasse para olhar. o “livre mer90 S O B A L UP A DO ECONOMIST A O . Alguns metros à frente. Nesse caso. um desconhecido qualquer? Sob o ponto de vista individual. Por que então não saciar a curiosidade mórbida. Trinta minutos perdidos no trânsito é tempo demais.Racionalidade individual e irracionalidade coletiva exemplo vem do Prêmio Nobel Thomas Schelling. mas a cena é conhecida: o trânsito começa a parar e as pessoas a pôr as cabeças para fora da janela. cada um na fila se atrasa cerca de 30 minutos. Assim. com todos pensando assim. Mas ponha-se no lugar de quem está exatamente ao lado do carro capotado e já esperou na fila por mais de 29 minutos. Isso porque quase todo mundo diminui a velocidade para olhar de perto o carro capotado a poucos metros. parar para bisbilhotar é a decisão racional e egoísta de quem já chegou à cena do acidente. a consequência da racionalidade individual é algo que podemos chamar de irracionalidade coletiva. é impossível evitar o resultado indesejado. Todavia. mas por conta dessa atitude. O interessante é que cada curioso bisbilhota a visão do automóvel acidentado por meros 5 segundos. dado que o custo dessa ação reflete-se em quem está atrás na fila. Para ele. reduzir a velocidade agora custa apenas 5 segundos de atraso – os minutos perdidos não podem ser recuperados. mas o engarrafamento na pista “livre” é tão grande quanto o da pista bloqueada. ainda assim. Todos perdem e. mesmo para os muito curiosos. um acidente bloqueia a pista da mão contrária. o resultado final é um atraso de 30 minutos para cada um.

algumas pessoas continuassem parando para tirar uma foto do acidente. coisa que não ocorre nas casas. ainda assim. por que a conta de água nos apartamentos é. Com esse arranjo. a sociedade estaria melhor porque. para isso. ao consumir menos água. Claramente. R$50 de infração. pois a conta mais gorda não recai sobre quem a gera exclusivamente. Que incentivos tem um morador de um prédio. essa partilha de benefícios afeta adversamente seus incentivos a fazer sacrifícios. ele não se apropria plenamente de sua economia? De fato. gerando uma enormidade de curiosos. agora. o morador do prédio faz um favor a todos. Por que não? Porque reduzir a velocidade para ver o acidente vale mais que R$50 para um dado cidadão. assim procedendo. Veja que é possível que. ele está pagando pela inconveniência gerada. ele mesmo ganha pouco com isso. mais alta que nas casas? Pelo mesmo fenômeno de irracionalidade coletiva descrito anteriormente. Das ruas para os lares. ser curioso é muito fácil. onde a conta reflete tão somente seus próprios hábitos. onde a água está incluída no valor do condomínio. pagando. O motivo é simples: sua economia. atrasar a vida de quem vem depois tem custos bem concretos.cado” (pessoas escolhendo o que é melhor para elas) não é suficiente para equacionar a questão. O pior é que mesmo que todos os outros moradores do prédio estejam tomando banhos curtos. o desperdício no chuveiro torna-se praxe Racionalidade individual e irracionalidade coletiva 91 . reduziu a velocidade e atrapalhou a vida dos outros. Contudo. que vem ao custo de algum sacrifício pessoal. atrapalhar os outros tem custo zero. Uma maneira fácil de resolver o imbróglio é estabelecer uma multa para os curiosos de plantão: por exemplo. o bem-estar do curioso também deve ser levado em conta no cômputo do bem-estar da sociedade. em geral. o melhor sob o ponto de vista individual continua a ser banhar-se à vontade. Mas isso não seria algo ruim ou uma falha da solução via multa. Além disso. Com todos raciocinando assim. O fato é que sem a lei que multa quem desacelera. R$50 de multa. então é de fato eficiente que esse curioso insaciável atrase um pouquinho o trânsito dos que vêm atrás. A custo zero. ela é dividida entre todos os condôminos. é repartida – em termos de conta de água coletiva menor – entre todos os outros moradores. Afinal de contas. a reduzir o tempo de seu prazeroso banho quente se.

felizmente. uma solução fácil para o problema do consumo excessivo de água nos prédios: basta individualizar as contas. tornando os prédios similares às casas nesse quesito. ao desespero coletivo e até mesmo a eventuais celeumas. 92 S O B A L UP A DO ECONOMIST A . passarão a escovar os dentes com a torneira aberta. Os poucos que. no próximo mês. visto que os custos são repartidos sempre entre todos. no fim da noite. ninguém tem incentivos a conter suas demandas de uísque e camarão. Já sabe agora o leitor por que a conta do bar nas reuniões dos amigos da faculdade no fim de ano é sempre tão salgada? Nesses eventos. Há. Melhor então é evitar problemas.difundida e uma bela conta de água bate à porta de todos no final do mês. agendando o encontro do próximo ano em um bar com comandas individualizadas. se sacrificaram em nome do bem comum. ficarão provavelmente tão revoltados com a fatura que. O triste é que essa racionalidade individual leva. por altruísmo ou consciência.