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[Ecologia

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SARAMUGO: AMEAÇAS
E DESAFIOS PARA UMA ESPÉCIE DO GUADIANA EM VIAS DE EXTINÇÃO
Texto Ângela Mendes

Os anos de 2005 e 2006 foram anos de seca extrema no Alentejo. Os danos causados à superfície foram visíveis nos campos despidos de vegetação e nos leitos das ribeiras secas, mas há valores naturais que caem abruptamente devido às condições meteorológicas adversas, dos quais o comum cidadão não se apercebe. Quando os ribeiros secam e os pequenos pêgos estagnam, os peixes começam a definhar por terem, literalmente, falta de água.

Foi desta situação que o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) se deu conta em 2006. Devido à seca extrema que se vivia no Baixo Alentejo, muitos pêgos estavam a secar e os caudais das ribeiras a baixar, com os peixes a morrer. Iniciou-se então um plano de emergência com vista a salvar o maior número de animais, numa operação de trasfega de peixes de pêgos em risco de secar, para outros com maior viabilidade. Mas no final de 2006, a seca continuou a agravar-se e muitos dos esforços feitos pelo ICNB revelaram-se infrutíferos, com os pêgos eleitos inicialmente também em ruptura e os peixes de novo em risco. Iniciou-se então um novo plano de emergência que visava a transferência de peixes para tanques, onde pudessem ficar até que houvesse condições óptimas para serem devolvidos à natureza. Não havendo possibilidades de salvar todos, foi seleccionada pela equipa do ICNB a trabalhar no Parque Natural do Vale do Guadiana, o Saramugo, peixe autóctone em risco de extinção. SARAMUGO, ESPÉCIE ENDÉMICA DA BACIA DO GUADIANA E EM VIAS DE EXTINÇÃO O Saramugo é um pequeno peixe, que raramente ultrapassa os 7 cm e que vive exclusivamente

1 Achigã capturado na Ribeira de Vascão. A boca de um Achigã abre entre 6 e 7 cm, consegue engolir sem problemas um Saramugo que raramente mede mais que 7cm. 2 Biólogos puxam as redes num pêgo da Ribeira de Vascão, tributária do Guadiana, local escolhido para o controle de espécies exóticas.

na bacia hidrográfica do Guadiana. Em Portugal, já foi possível encontrá-lo em dez ribeiras tributárias do Guadiana, mas a sua presença tem diminuído ao longo dos últimos dez anos, sendo que algumas populações se perderam, entre elas, a segunda melhor população portuguesa, que se encontrava na Ribeira do Caia. Carlos Carrapato, Biólogo do ICNB no Parque Natural do Guadiana, e a sua equipa, são a força de intervenção na luta contra a extinção do Saramugo, processo iniciado aquando da seca de 2006 e que continua até hoje e que, segundo os dados, tem obtido excelentes resultados. O projecto-piloto está instalado numa ribeira tributária do Guadiana, o Vascão. Esta ribeira na zona de Mértola tem sido monitorizada ao longo dos últimos três anos, com vista à erradicação de espécies exóticas, que segundo o biólogo são uma das causas da quase extinção do pequeno Saramugo. “Nos últimos dez anos, a situação de referência diminuiu em cerca de 50%, o Saramugo já não se encontra em cinco das bacias onde se encontrava há uma década, perdemos a 2ª melhor população e as cinco existentes tiveram um decréscimo de 50%. Com os estudos efectuados e a informação científica recolhida, percebemos que um dos prováveis problemas da espécie era a acção de

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predação por parte de espécies exóticas. O Achigã americano, a Perca-Sol também americana, o Chanchito do Sul da América, introduzido pelo aquariofilismo, e outras que foram introduzidas no Guadiana como uma mais-valia ou recurso, acabaram por encontrar condições óptimas para proliferar e adaptaram-se bem, acabando por exercer uma grande pressão sobre as espécies autóctones”, afirma Carlos Carrapato. Uma das acções que tem sido levada a cabo para contrariar esta situação é o controlo de espécies exóticas, através de triagem, com o

Carlos Carrapato. O Achigã foi introduzido em Portugal Continental em 1952, uma iniciativa exclusiva dos pescadores desportivos. Esta espécie, exótica ao nosso território, encontrou condições óptimas e instalou-se praticamente em todo o país, tendo uma maior prevalência no centro e no sul. Para Carlos Carrapato, este é, em conjunto com a destruição do habitat e a poluição das águas, a grande ameaça ao Saramugo. “Se o Saramugo fosse para os E.U.A., lá era uma espécie exótica; os franceses, por exemplo,

Já as nossas espécies autóctones são fusiformes e conseguem penetrar contra a corrente. Estamos aqui a conciliar o resultado de duas situações óptimas, o controle de predadores que nós efectuamos e o ano hidrológico que foi a nosso favor. As exóticas tiveram menos condições para reproduzir, tiveram chuva até mais tarde, a água esteve fria até mais tarde, o arrastamento de sedimentos finos que elas precisam para reproduzir foi muito maior, estamos portanto a conciliar um certo número de variáveis que nos levam a sentirmo-nos optimistas,

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“Nos últimos dez anos a situação de referência diminuiu em cerca de 50%, o Saramugo já não se encontra em cinco das bacias onde se encontrava há uma década, perdemos a 2ª melhor população e as cinco existentes tiveram um decréscimo de 50%”
sacrifício das exóticas em detrimento das autóctones. Esta triagem é feita nos meses de Verão, não só porque as condições atmosféricas o permitem, mas também porque no Verão o caudal das ribeiras baixa, tornando mais fácil a arte de pesca utilizada, a rede de arrasto. São então escolhidos locais que apresentem condições favoráveis à reprodução das espécies exóticas, onde deverá haver maior concentração de indivíduos. “No primeiro ano, no pêgo seleccionado, foram capturados cerca de 3500 achigãs, uma das principais espécies predadoras do Saramugo. Estamos a falar de um animal com cerca de 200 gramas, com uma boca que abre até 6, 7 cm, sendo que o Saramugo raramente chega aos 7 cm! O Achigã tem de se alimentar, é um facto, mas que o faça nos Estados Unidos”, realça

tiveram um problema com um peixinho pequeno, do tamanho do Saramugo, na zona dos Pirenéus. Apesar de ser pequeno, comia os ovos das trutas e representava um problema. O Saramugo, se for deslocado e tiver condições óptimas, também pode tornar-se um problema. Neste momento não o é, está em vias de extinção. O problema é a Perca e o Chanchito, porque se alimentam dos ovos e dos juvenis, e o Achigã porque se alimenta dos adultos.” O segundo ano de acção de controlo de espécies exóticas trouxe números animadores, a captura de indivíduos diminuiu para metade, tendo a equipa capturado cerca de 1500 exemplares, resultado da acção feita no ano anterior. Já este ano, a captura não chegou às duas centenas, um resultado bastante positivo para o trabalho desenvolvido pela equipa do ICNB. Para além da diminuição da captura de espécies exóticas, a população de Saramugo tem também vindo a crescer. “Não podemos dizer que o mérito é todo nosso, porque estamos a comparar anos hidrologicamente diferentes. Os primeiros dois anos foram anos médios a secos, o terceiro ano foi bastante chuvoso e as espécies exóticas, devido à sua forma anatómica, têm maior atrito às cheias, portanto há uma maior taxa de arrastamento.

mas não a achar que ganhámos a guerra. Basta que um achigã se reproduza para estarmos a falar de 800 a 900 crias que um indivíduo procria num ano”, afirma Carlos Carrapato. Controlar as exóticas é, na opinião de Carlos Carrapato, um factor essencial para a recuperação do Saramugo, mas não é o único problema que a espécie enfrenta. A recuperação do habitat é também outro factor importante e estão já em marcha projectos com vista à recuperação de margens, e para a proliferação de vegetação nas mesmas. A vegetação melhora a sombra nas águas, diminui a evaporação e a temperatura, e as suas raízes criam refúgio para os peixes. O controlo da qualidade da água e de factores poluentes é também um passo necessário para a recuperação do habitat deste pequeno peixe. SARAMUGO: PATRIMÓNIO GENÉTICO A equipa do ICNB está a desenvolver esforços para além do controlo das espécies exóticas e da preservação do habitat. Pela primeira vez foi possível reproduzir um peixe em cativeiro. “Transportámos o peixe temporariamente para tanques e aquários. Mantivemos os peixes aí,

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SARAMUGO (ANAECYPRIS HISPANICA) O Saramugo, ou Anacaecypris Hispanica, é uma espécie de água doce, endémica da bacia hidrográfica do Rio Guadiana. Em Portugal, está documentado em dez Ribeiras tributárias do Guadiana: Xévora, Caia, Alámo, Degebe, Ardila, Chança, Carreiras, Vascão, Foupana e Odeleite. Infelizmente, nos últimos dez anos, esta presença diminuiu drasticamente e em algumas delas terá provavelmente desaparecido. Devido à sua dimensão, raramente atinge mais de 7 cm, o Saramugo não tem interesse desportivo, nem é consumido pelo Homem, mas a sua importância para o ambiente e para a manutenção da biodiversidade é, como em todas as espécies, incalculável. Estreito e achatado lateralmente, o Saramugo têm uma cabeça pequena e olhos relativamente grandes, o seu corpo fusiforme permitindo-lhe penetrar mais facilmente contra a corrente, daí gostar de viver em águas pouco profundas, com alguma corrente e bem oxigenadas. Os fundos pedregosos e com vegetação aquática são também os seus preferidos. É um peixe de tons prateados e rosados, com pontuações negras nos flancos, que pertence à família dos ciprinédeos, à semelhança dos Bordalos, Barbos e das Bogas. Alimenta-se de pequenos invertebrados e de algas e vive entre 3 a 4 anos, sendo um peixe com uma baixa taxa de fecundidade.

ACHIGÃ (MICROPTERUS SALMONOIDES) O Achigã ou Micropterus Salmonoides, é um peixe da família dos centrarchidae, oriundos do Norte da América. É um predador voraz e alimenta-se preferencialmente de outros peixes, crustáceos e de insectos aquáticos. Possui um corpo altivo e alongado, com um cabeça grande e boca larga, musculada e com muitos dentes. A sua coloração é verde-escura, na zona da cabeça, os flancos são em tonalidades douradas, a barriga é branca e tem uma linha lateral com manchas castanhas e pretas. A sua barbatana dorsal é dividida em dois, tendo a primeira raios espinhosos. Outra característica é o seu maxilar inferior mais proeminente que o superior.

alguns vinham com bacterioses, com parasitas, em muito mau estado por estarem confinados em zonas com qualidade mínima, o que para alguns foi fatal. O objectivo do transporte destes animais para cativeiro era, após a regularização do período de chuvas seguinte, devolver o animal à natureza. Criámos no entanto uma condição ambiental, que se revelou com condições óptimas e eles acabaram por se desenvolver e reproduzir. Reproduzimos o peixe, pela primeira vez em termos mundiais, ninguém tinha anteriormente reproduzido um peixe, reproduzimos alguns indivíduos e devolvermos todos os animais selvagens, mantendo algum stock de indivíduos em cativeiro para ir ensaiando novas metodologias reprodutivas”, explica Carlos Carrapato. Este ensaio de reprodução da espécie em cativeiro tem como objectivo devolver o Saramugo ao seu habitat natural depois deste estar recuperado. E esta devolução tem ainda uma particularidade, embora estejamos a falar de apenas um peixe, que é o facto de em termos genéticos existirem

pelo menos seis populações que os biólogos não pretendem misturar. “Cada ribeira, em termos do Saramugo, é diferente, não se encontram umas com as outras há mais de 750 mil anos. O Caia lá de cima, não se encontra com o Vascão há mais de 1 milhão de anos. Em termos genéticos, os peixes têm características genéticas distintas, portanto não os podemos misturar. Não falamos de uma população, mas sim de 6 populações distintas geneticamente”, reforça Carlos Carrapato. “Toda a informação genética que conseguirmos guardar, é possível de vir a ser usada no futuro. Há muitos medicamentos que são o resultado da utilização de algumas plantas, de alguns animais, como os antídotos das cobras. No caso do Saramugo não sabemos, mas talvez daqui a uns anos poderá haver um componente, ou composto que se encontre na espécie. Se o deixarmos extinguir, nunca o podermos utilizar.” A extinção de espécies acaba por ser também a extinção de oportunidades ainda não reveladas,

mas é principalmente um grande desequilíbrio para os ecossistemas e uma perda irremediável.

“T emos pelo menos, o dever moral de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar a extinção de espécies. E cada extinção custa-nos a consciência, é só o preço da consciência. Se tivermos princípios éticos mais elevados, o preço da consciência é mais elevado, e então muitas das vezes nem sequer aceitamos a extinção de uma espécie”
“T emos pelo menos, o dever moral de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar a extinção de espécies. E cada extinção custa-nos a consciência, é só o preço da consciência. Se tivermos princípios éticos mais elevados, o preço da consciência é mais elevado, e então muitas das vezes nem sequer aceitamos a extinção de uma espécie. Se os nossos princípios éticos não

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ESPÉCIES EXÓTICAS E INV ASORAS O Achigã foi introduzido nos Açores no final do século XIX, mas só chegou ao continente no início da década de 50 do século passado. A sua introdução foi da responsabilidade de pescadores desportivos e teve como objectivo a reprodução para pesca. A proliferação de espécies invasoras é fomentada pelo mundo globalizado em que vivemos. As trocas comercias intercontinentais, o comércio de plantas, animais e principalmente a negligência humana, potenciaram uma situação que se regista desde o século XIV, com o inicio da exploração dos mares pelos portugueses. Uma espécie exótica torna-se invasora quando interfere com o meio onde é inserida, reproduzindo-se em número excessivo, consumindo demasiados recursos e pondo em causa a viabilidade das espécies autóctones. Podem ainda exercer uma acção de predação sobre as espécies indígenas, que muitas vezes são causa de extinção. Para além disso, uma espécie exótica pode ainda ser portadora de parasitas e doenças, para as quais as espécies locais não estão preparadas. É o caso do Lagostim Americano, que transporta um fungo inofensivo para si, mas que mata o Lagostim Europeu. Este é também um

exemplo de uma espécie invasora que é muito difícil de erradicar. Em Portugal há vários casos de espécies invasoras. O Jacinto de Água, muito comum nos pequenos cursos de água no centro de Portugal, é um desses casos e é considerada uma das piores espécies invasoras do mundo. No nosso território, já se expandiu no Douro Litoral, Estremadura, Ribatejo, Beira Litoral e no Alto Alentejo. Originária do Sul da América, mais precisamente da bacia do Rio Amazonas, o Jacinto de Água reproduz-se fácil e rapidamente, formando tapetes de plantas à superfície da água. Foi introduzida no território português por volta de 1930, para fins ornamentais por causa das suas flores cor violeta muito atractivas. Infelizmente, a sua proliferação no nosso território reduz a biodiversidade, a luz disponível nas massas de água e o fluxo de água, alterando o ecossistema. Até o uso recreativo das águas fica limitado, por a planta interferir com os dispositivos de navegação. Muitas têm sido as tentativas para o controlo da espécie, através de acções mecânicas e até mesmo químicas, mas o sucesso está comprometido, pois depende de uma preocupação constante, já que apenas um troço da planta deixado para trás à deriva pode potenciar uma nova invasão.

Nesta página e página anterior Peixes capturados pelas redes dos Biólogos no pêgo da Ribeira de Vascão.

estiverem sensibilizados para aquela temática, um peixe é apenas um peixe e muita gente pensará assim. Podemos até nem estar sensibilizados para a temática, mas se pensarmos que está ali o futuro da espécie humana, a reacção será diferente. Falta dar esta sensibilidade às pessoas, perceber que todos temos o direito de viver nesta terra redonda e que estamos cá por alguma razão”, afirma Carlos Carrapato. Em conjunto com o ICNB, trabalham neste momento várias entidades a proceder ao estudo genéticos do Saramugo, como é o caso da Universidade de Évora, tentando em conjunto caracterizar as suas populações e os laços que as unem. E continuam a trabalhar no aperfeiçoar da técnica de reprodução em cativeiro, inovadora no panorama mundial e que será com certeza uma das ferramentas essenciais à preservação da espécie. “Poderão às vezes parecer gotas de água no oceano, mas temos de começar por algum lado e decidimos neste momento começar por

aqui, conscientes de uma coisa: sabemos que o peixe só abre e fecha a boca, não se vê porque é pequenino, não tem uma utilidade para já conhecida e então as pessoas não se importam”, remata Carlos Carrapato. Apesar dos esforços desta equipa, o controlo de espécies exóticas é uma tarefa titânica, ainda mais quando se encontra a resistência de vários membros da sociedade, como é o caso da comunidade de pescadores desportivos, que defendem que o Achigã nada tem a ver com a situação actual de espécies como o Saramugo. Á volta da pesca desportiva, assim como da caça, giram actividades económicas de grande peso em regiões deprimidas, como é o caso do Baixo Alentejo e do interior do país em geral. A legislação e a fiscalização destas situações não é suficiente, sendo virtualmente impossível controlar a introdução de novas espécies nos nossos ecossistemas, mais ainda quando esta introdução é feita de modo premeditado e com vista a uma actividade económica. [P]

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