MANUAL DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO HILDEBRANDO ACCIOLY ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS CAPÍTULO 4 - A INTEGRAÇÃO ECONÔMICA LATINO-AMERICANA A preocupação dos

países americanos com os problemas comerciais remonta a 1881, quando o Secretário de Estado James Blaine, preocupado com a balança comercial desfavorável dos Estados Unidos com os países americanos, projetou uma reunião dos países do Continente. A morte do Presidente Garfield implicou a saída de Blaine, que voltaria a ocupar a pasta e levar adiante o seu plano. A Primeira Conferência Internacional Americana realizou-se em Washington em 1889, quando, dentre as decisões tomadas, figurou a criação do Escritório Comercial das Repúblicas Americanas, antecessor da atual União Panamericana. Os problemas econômico-comerciais pouco pesaram nas reuniões ao nível multilateral dos países americanos. A Conferência de Bogotá de 1948 deu pouca importância aos problemas, e o bogotazo, que ocorreu então, contribuiu para isso. Seja como for, a Carta da OEA, assinada em Bogotá em 30 de abril de 1948, dedicou às Normas Econômicas os artigos 46 e 47 e criou o Conselho Interamericano Econômico e Social. A verdade é que os problemas socioeconômicos já eram motivo de preocupação, tanto que o Conselho Interamericano Econômico e Social foi reorganizado, e a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina) elaborou estudos (1957 e 1958), pautados na experiência européia, com o objetivo de criar um órgão de integração econômica dos países americanos. Seção 1 - O Tratado de Montevidéu de 1960 O tratado que estabeleceu a zona latino-americana de livre comércio (ALALC) foi assinado por onze países, dentre eles o Brasil, em Montevidéu, em 18 de fevereiro de 1960, com o objetivo básico de “estabelecer a longo prazo, de forma gradual e progressiva, um mercado comum latino americano” e, de imediato, uma zona de livre comércio. De 1961 a 1963, a ALALC caracterizou-se pelo dinamismo, tanto que foi negociada uma enorme quantidade de concessões de desgravamento tarifário com uma expansão rápida do comércio na região. Findo esse período as negociações tarifárias começaram a ser mais difíceis. Além do mais, o Brasil e a Argentina passaram a relutar em deslocar recursos destinados ao desenvolvimento nacional à integração regional, com as consequentes reclamações de alguns países. Descontentes com os magros resultados obtidos, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru firmaram em 1969 o Acordo de Cartagena, pelo qual criaram o Pacto Andino, ao qual a Venezuela se filiaria mais tarde. Tratava-se de uma organização com um ambicioso programa de integração sub-regional. A exemplo do que ocorria na ALALC, o Pacto Andino também não prosperou, tanto que o Chile, que havia sido o seu mentor intelectual, acabou por dele se afastar. A idéia dos redatores do tratado de 1960 era de que em 12 anos a

organização conseguiria estabelecer a zona de livre comércio. Posteriormente, convencionou-se dilatar o prazo até 31 de dezembro de 1980. Com tal objetivo foram realizadas três rodadas, sem que fosse possível chegar a um acordo, e os países-membros passaram a estudar um cronograma de negociações para 1980. Seção 2 - O Tratado de 1980 O tratado criando a Associação Latino-Americana de Integração, a ALADI, também identificada como TM8O, foi assinado em 12 de agosto de 1980, em Montevidéu. Era basicamente o documento aprovado 2 meses antes em Acapulco pelos mesmos onze governos que o assinaram. No novo tratado buscou-se adotar diretrizes mais flexíveis, a fim de evitar os erros verificados durante 20 anos, porém tratava-se dos mesmos Estados vinculados ao TM6O, ou seja, com as mesmas posições, e, não obstante a tentativa de se criar uma entidade mais pragmática, as desconfianças que caracterizavam as negociações anteriores não haviam desaparecido. Dentre os avanços verificados, cumpre mencionar a facilidade que passou a existir para a realização de acordos de livre comércio bilaterais entre as partes contratantes. Convém ainda lembrar que na vigência do TM8O os regimes militares que até então existiam na América Latina foram substituídos por regimes democráticos, que, contudo, enfrentavam espirais inflacionárias, altamente nocivas ao relacionamento econômico. Seja como for, em 1985 os presidentes do Brasil e da Argentina resolveram buscar novos caminhos, mas mantendo a ALADI, embora enfraquecida, como o marco continental. Seção 3 - O MERCOSUL A entidade que passou a ser conhecida como MERCOSUL resultou dos entendimentos havidos em Foz de Iguaçu em 1985 entre os recém-eleitos Presidentes José Sarney, do Brasil, e Raul Alfonsín, da Argentina. Os dois países acabavam de voltar à normalidade democrática, mas enfrentavam uma série de desafios. Embora a ALALC tivesse terminado em fracasso e a ALADI seguisse pelo mesmo caminho, a experiência adquirida havia sido importante, e os dois governos sentiam que uma nova tentativa deveria ser empreendida. Além do mais, sentia-se que uma política em comum poderia tornar suas posições mais fortes em relação às investidas dos Estados Unidos e do Mercado Comum Europeu. Ao contrário das duas tentativas anteriores (a ALALC e a ALADI), o MERCOSUL não é um acordo regional, mas sim sub-regional, a exemplo do Pacto Andino e do Tratado de Cooperação Amazônica de 1978. Não se pode desassociar o MERCOSUL da Bacia do Prata como uma unidade. Trata-se de uma das mais importantes bacias fluviais do mundo, não pelo fato de reunir cinco países, mas dado o seu enorme potencial econômico. Numa área de mais de três milhões de quilômetros quadrados, com uma população ativa e sadia de 186,5 milhões, um produto interno bruto de 51,6 bilhões de dólares (1989), metrópoles das dimensões de São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires, encontramos os mais importantes parques industriais da América do Sul, aliados a uma produção agrícola que atende aos mercados nacionais e internacionais, tudo isso sustentado pela maior usina hidroelétrica do mundo e com uma capacidade energética ainda por explorar. A existência dessas fontes de riqueza estão a exigir uma atenção

redobrada em vários setores, como na adoção de regras cada vez mais pormenorizadas quanto ao aproveitamento industrial e agrícola das águas dos rios que banham a região. Dando seguimento aos entendimentos de Foz de Iguaçu, Brasil e Argentina negociaram e assinaram em 30 de junho de 1986 doze acordos de cooperação, visando ao estabelecimento de objetivos comuns e mecanismos operacionais e práticos. O clima de cooperação continuou, tanto que houve cinco novos encontros presidenciais, que resultaram na assinatura de mais vinte e três protocolos. Com as eleições em 1990 dos Presidentes Fernando Collor de Mello e Carlos Saúl Menem o movimento de integração entrou num compasso de espera. A situação político-econômica havia-se tornado ainda mais delicada com ambos os países enfrentando uma hiperinflação. Na Argentina o Plano Cavallo, que buscava uma liberalização econômica, a vinculação do peso ao dólar e um programa visando à privatização das empresas públicas, teve de início resultados altamente favoráveis. Enquanto isso, no Brasil, o Plano Collor tinha por objetivo sanear a economia interna com um programa de confisco da economia interna e de redução de diversos setores da indústria nacional. Não obstante esse compasso de espera, o movimento iniciado passou a ter resultados favoráveis, tanto que em 26 de março de 1991, na Capital do Paraguai, foi assinado o Tratado de Assunção, não só pelo Brasil e pela Argentina, mas também pelo Paraguai e Uruguai, pelo qual os quatro países constituíram um mercado comum, a ser estabelecido em janeiro de 1995. Para alcançar seu objetivo, convencionou-se adotar um programa de reduções tarifárias progressivas, lineares e automáticas, estabelecer uma tarifa externa comum, harmonizar as políticas macroeconômicas de liberação do intercâmbio e a adoção de acordos setoriais. Novo passo foi dado com a assinatura, em Ouro Preto, em 17 de dezembro de 1994, do Protocolo adicional ao Tratado de Assunção, que revestiu o MERCOSUL da necessária personalidade internacional, nos termos de seu artigo 34: “O MERCOSUL terá personalidade jurídica de direito internacional”. Os artigos seguintes complementam essa regra básica, reconhecendo, por exemplo, ao MERCOSUL o direito de celebrar acordos de sede. Nos termos do artigo 19, o Tratado de Assunção “terá duração indefinida”, mas tudo indica que, com a eventual evolução do MERCOSUL, o ato de 1991 venha a ser modificado. Em tal sentido, cumpre salientar que a Bolívia e o Chile passaram a ser Estados associados ao tratado, categoria que deverá ser expandida a fim de abranger no futuro os países andinos. O MERCOSUL ainda negocia a constituição da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), vinculada à Declaração de Princípios assinada em Miami pelos chefes de Estado do hemisfério. Por ocasião da reunião da ALCA, realizada em Belo Horizonte em setembro de 1997, verificou-se forte divergência entre o Brasil e os Estados Unidos quanto ao funcionamento e sua entrada em vigor. Na ocasião, os representantes dos Estados Unidos deixaram claro que o MERCOSUL seria incompatível com a ALCA. Posteriormente, por ocasião da visita ao Brasil em outubro do mesmo ano, o Presidente Clinton adotou uma posição totalmente contrária, isto é, de que o MERCOSUL e a ALCA poderiam coexistir.

que relutava em aceitar as normas rígidas do Tratado de Roma. No estudo das organizações de caráter geral uma referência deve ser feita à EFTA (“Associação dos Países de Livre Comércio”) e ao COMECON.OS ORGANISMOS EUROPEUS Seção 1 . Com o posterior ingresso da Grã-Bretanha e dos demais integrantes da EFTA no Mercado Comum Europeu. que resultou na Comunidade Econômica Européia. conseguiu reconstruir-se rapidamente ingressando numa era de prosperidade.As Comunidades Econômicas Européias Dentre os organismos regionais de natureza econômica o de maior projeção. De um modo geral. graças principalmente aos governos exilados que se encontravam em Londres. Finda a guerra. graças aos indiscutíveis sucessos alcançados. como visto. Além do mais. utilizando os vastos recursos postos à sua disposição. verifica-se entre os governos europeus a preocupação de procurar novos caminhos com vistas a manter o ritmo de desenvolvimento. pois o apoio financeiro maciço prometido deveria ser administrado pelos próprios beneficiários. os seis países que com. a 5 de junho de 1947. contribuiu decisivamente para a concretização da idéia. dentre eles a Grã-Bretanha. contudo. e a Escola Funcional. mas a mesma só se materializou depois da segunda guerra mundial. Pierre de 1713. . Espanha e Grécia. movimento este que culminou com a Declaração das Resistências Européias de 1944. que se vinha firmando no resto da Europa. advogou a reconciliação entre a França e a Alemanha dentro de uma “espécie de Estados Unidos da Europa”. mais conhecida como Mercado Comum Europeu. apresentado na Universidade de Harvard. a partir do projeto do Abade St. W. Teve.punham a Comunidade Européia do Carvão e do Aço representavam uma base para garantir um número suficiente de Membros para o seu funcionamento. o COMECON se extinguiu naturalmente. A EFTA foi criada por alguns países da Europa Ocidental. todos os projetos de criação de uma organização mundial. ao qual vieram se juntar ainda Portugal. Duas foram as soluções advogadas: a Escola Federalista. é a Comunidade Econômica Européia. Em 1955. que se corporifica na EFTA.CAPÍTULO 5 . a 19 de setembro de 1946. Com a segunda guerra mundial o movimento se intensificou. Seção 2 . na Organização Européia de Cooperação Econômica um exemplo de que a economia do continente só tinha a lucrar com a criação de um novo organismo. Foi criada a Organização Européia de Cooperação Econômica sob cuja orientação a Europa. tendo diversos de seus integrantes solicitado quase que de imediato o ingresso na Comunidade Européia. Churchill tornar-se-ia o maior defensor da idéia e em discurso pronunciado em Zurique. O COMECON foi instituído em 1949 com o objetivo de reunir os países do leste europeu e de fazer frente ao Mercado Comum Europeu. surgindo então o que se denominava a Europa dos 15. eram a rigor de índole européia. a EFTA também se extinguiu. O Plano Marshall.Antecedentes A idéia de se criar uma organização regional européia é antiga. Com a queda do muro de Berlim e o consequente esfacelamento da Rússia Soviética.

a Ata Final e oito declarações nas assinaturas. que lhe são pagas diretamente pelas firmas. assinado em 25 de março de 1957. cujo acordo básico foi firmado em Paris a 18 de abril de 1951. melhoria dos padrões de vida e. A GrãBretanha declinou do convite para participar da CECA por não aceitar o controle da Alta Autoridade.missão. As decisões da Alta Autoridade são obrigatórias em todos os sentidos. havia ainda as considerações políticas. CEE e EURATOM. ao contrário das recomendações. O EURATOM surgiu em Roma em 25 de março de 1957. que tem acesso a todas as instalações nucleares.A Comunidade Européia do Carvão e do Aço — a CECA — nasceu de uma proposta de 9 de maio de 1950. ao mesmo tempo em que o Órgão assim criado ficaria acessível aos demais países europeus. Irlanda e Dinamarca. quando a União Européia chegou a um acordo com a Áustria. em Messina. em que o Primeiro-Ministro da França. simultaneamente com a CEE. estabilidade. iniciando tentativas para ingressar na comunidade. todas elas . tem a característica de ser dirigida por um órgão — a Alta Autoridade — de caráter supranacional e que goza de completa independência. Além do tratado básico de 248 foram assinados então mais quatro anexos. a integração política dos EstadosMembros. Nova modificação verificou-se em março de 1994. contudo. o EURATOM visa o desenvolvimento industrial nuclear e a integração das economias de seus Membros. a Finlândia e a Suécia quanto à adesão destas à Organização em 1º de janeiro de 1995. aumento do intercâmbio comercial. a EFTA. Outra característica da CECA é que os Membros não pagam contribuições. Com o ingresso da Grã-Bretanha. já que a Alta Autoridade tem poderes para contrair empréstimos ou cobrar taxas sobre a produção de carvão e aço. pois os dois produtos estavam à raiz das guerras que no passado haviam envolvido a França e a Alemanha. a Grã-Bretanha já estava consciente de seu isolamento. A candidatura da Noruega fica ainda na dependência de uma solução relativa ao direito dos demais países da Comunidade de poderem pescar em águas norueguesas. em que se deixa às partes liberdade quanto aos meios a serem adotados. nove protocolos. e que resultou de longas negociações iniciadas entre os seis Membros da CECA. A Comunidade Econômica Européia tem como texto constitutivo o Tratado de Roma. As três entidades acima mencionadas: CECA. além de cobrar multas e penalidades. Os objetivos do Mercado Comum Europeu são a adoção de uma política econômica comum. em 22 de janeiro de 1972. Em 1959. Os Membros da CEE convidaram a Grã-Bretanha a participar de seus trabalhos a fim de ingressar na Organização. mas o Governo britânico julgou o sistema demasiado rígido e preferiu optar por outra solução. eventualmente. A CECA. a Co. a Europa dos Nove passou a ser a Europa dos 12. Schuman. com o objetivo principal de conseguir a unidade européia no campo da pesquisa nuclear. sugeriu colocar toda a produção de carvão e de aço da França e da Alemanha sob o controle de uma Alta Autoridade. Graças a um estrito controle. Além das vantagens econômicas que tal sistema proporcionaria aos países-membros. busca evitar o uso da energia nuclear para fins militares. Através da sua comissão. em junho de 1955. ou seja. uma Convenção sobre Associação dos Estados Ultramarinos.

Uma Europa pacífica – Início da cooperação A União Européia foi criada com o objetivo de pôr termo às frequentes guerras sangrentas entre países vizinhos. da Irlanda e da Dinamarca em 1972. sentiu-se necessário reestruturar a organização. frequentemente obstaculizou o seu funcionamento diante da necessidade regimental da unanimidade. a Bélgica. o Luxemburgo e os Países Baixos. a começar pela extinção do direito de veto. Ademais. não obstante a resistência de alguns países. Os seis países fundadores são a Alemanha. com a extinção do COMECON países como a Hungria. em 1999 a adoção de uma moeda única para os países da Comunidade Européia. a EFTA deixará de existir. A extinção da EFTA e do COMECON e a criação da Europa dos 15 representou o surgimento no panorama econômico mundial de uma importante entidade capaz de fazer frente aos Estados Unidos. que aplica e interpreta os tratados e regulamentos relativos às três Comunidades. bem como a da abolição do veto. em abandonar suas moedas tradicionais. criou certa resistência de alguns países. Ainda em 1957. A moeda só deverá passar a circular a partir do ano 2000. a Comunidade Européia do Carvão e do Aço começa a unir econômica e politicamente os países europeus. No ano seguinte. acham-se ainda vinculadas ao Parlamento de Europa. em 1957.Os anos 60 – Um período de crescimento Econômico . o que terminaria por tornar a Comunidade Européia ingovernável. Conforme foi dito. a ponto de o Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha haver declarado que vetaria qualquer mudança capaz de submeter os países à Comissão Central da Comunidade. o EURO.de natureza executiva. tendo em vista assegurar uma paz duradoura. já prevista desde a criação da organização. o Tratado de Roma institui a Comunidade Econômica Européia (CEE) ou “Mercado Comum”. Em 1956. concebido para ser o órgão legislativo da Comunidade. como a Grã-Bretanha. havendo a possibilidade de a organização reunir 28 Estados. Os anos 50 são dominados pela guerra fria entre o bloco de Leste e o Ocidente. 1960 – 1969 . Diante dessa eventualidade. a França. criada em 1959. Finlândia e Suécia na Comunidade Européia. Além desses novos membros tudo indica que outros países venham a se candidatar. A partir de 1950. Com o ingresso da Áustria. no passado. passou a perder a sua projeção com a saída da Grã-Bretanha. a Polônia e a República Tcheca se candidataram a ingressar na organização e foram devidamente aceitos. quando reuniu aqueles países temerosos de assumir os compromissos previstos pelo Tratado de Roma. no caso a libra esterlina. liderando a "corrida espacial". UNIÃO EUROPÉIA (UE) A HISTÓRIA DA UNIÃO EUROPÉIA 1945 – 1959 . que. a União Soviética lança o primeiro satélite artificial (o Sputnik 1). que culminaram na Segunda Guerra Mundial. marcou mais um passo importante no sentido de sua consolidação. o movimento de protesto contra o regime comunista na Hungria é reprimido pelos tanques soviéticos. Essa tendência. a Itália. apesar do número menor de membros. e à Corte de Justiça das Comunidades. A EFTA. Outra modificação advogada seria abolir a práxis segundo a qual cada país-membro pode nomear comissários com o aumento de membros.

decidem também implantar um controlo conjunto da produção alimentar. contribuindo para lançar uma verdadeira revolução cultural e acentuando o fosso entre as gerações. elevando assim o número dos Estados-Membros para nove. aliás. 1970 – 1979 . Em 1995. excedentes de produtos agrícolas. em 1975. tendo muitas mudanças na sociedade e a nível dos comportamentos ficado para sempre associadas à denominada “geração de 68”. a Áustria. Em breve. de 1993. dá-se uma grande convulsão política: a fronteira entre a Alemanha de Leste e a Alemanha Ocidental é aberta pela primeira vez em 28 anos e as duas Alemanhas em breve se reunificarão. põem fim às últimas ditaduras de direita na Europa. começam a ser atribuídas elevadas verbas para fomentar a criação de empregos e de infraestruturas nas regiões mais pobres. conflito israelo-árabe em Outubro de 1973. em 1974. 1990 – 1999 . com grupos como The Beatles. Trata-se de um bom período para a economia. O Parlamento Europeu aumenta a sua influência na UE e. No âmbito da política regional da União Européia. 1980 – 1989 . é concluído o Mercado Único com as “quatro liberdades”: livre circulação de mercadorias. a Europa debate-se com uma crise energética e problemas Econômicos. Em 1993. de serviços. Em 1986. pela primeira vez. seguindo-se-lhe a Espanha e Portugal cinco anos mais tarde. mas violento. que atraem multidões de jovens por onde quer que passem. de 1999. A década de 90 é também marcada por mais dois Tratados.A década de 60 é caracterizada pela emergência de uma “cultura jovem”. A opinião pública mostra-se preocupada com a proteção do ambiente e com a forma como os europeus poderão colaborar entre si em matéria de defesa e segurança. a Grécia torna-se o décimo Estado-Membro da UE. o Tratado da União Européia ou Tratado de Maastricht. a poder eleger diretamente os seus deputados. de pessoas e de capitais. Em 1981. um Tratado que prevê um vasto programa para seis anos destinado a eliminar os entraves que se opõem ao livre fluxo de comércio na UE. Além disso.Uma Europa sem fronteiras Com o desmoronamento do comunismo na Europa Central e Oriental. favorecida pelo fato de os países da União Européia terem deixado de cobrar direitos aduaneiros sobre as trocas comerciais realizadas entre si. a Irlanda e o Reino Unido aderem à União Européia em 1 de Janeiro de 1973.O primeiro alargamento A Dinamarca. é assinado o Ato Único Europeu. e a morte do General Franco em Espanha. A queda do regime de Salazar em Portugal.Uma Comunidade em expansão . se passaria a registrar. criando assim o “Mercado Único”. Uma pequena localidade luxemburguesa dá o seu nome .A fisionomia da Europa em mutação – A queda do Muro de Berlim O sindicato polaco Solidarność e o seu dirigente Lech Walesa tornam-se muito conhecidos não só na Europa como no mundo inteiro na sequência do movimento grevista dos trabalhadores do estaleiro de Gdansk durante o Verão de 1980. O mês de Maio de 68 tornou-se famoso pelas manifestações de estudantes em Paris. e o Tratado de Amesterdão. Com a queda do Muro de Berlim em 9 de Novembro de 1989. a União Européia passa a incluir três novos Estados-Membros. formando um único país. em 1979. os cidadãos passam. assistese a um estreitamento das relações entre os europeus. a Finlândia e a Suécia. Na sequência do breve. de forma a assegurar alimentos suficientes para todos.

A partir de 2000 . De acordo com esse processo.Uma década de expansão O euro é a nova moeda de muitos europeus. O 11 de Setembro de 2001 tornase sinônimo de “Guerra contra o terrorismo” depois de terem sido desviados aviões para embaterem em edifícios de Nova Iorque e Washington. pelo que o debate sobre o futuro da Europa continua. Esse orçamento destina-se a ações tão diversas como melhorar o nível de vida nas regiões mais pobres e garantir a segurança dos alimentos. que vão desde o desenvolvimento rural e a defesa do ambiente até a proteção das fronteiras externas e à promoção dos direitos humanos. diretivas e decisões que decorrem dos princípios e objetivos estabelecidos nos tratados. Euro/União Monetária O euro – diariamente utilizado por cerca de 327 milhões de europeus – é a prova mais palpável da cooperação entre os países da UE. DINHEIRO E UE Entre as fontes de financiamento que constituem o orçamento da UE figura uma percentagem do produto nacional bruto de cada Estado-Membro. Mas a questão de saber qual o tipo de constituição mais adequada está longe de ser consensual. Os pontos de vista da Comissão. Muitos consideram que é altura de a Europa ter uma constituição. O euro é a moeda comum da maioria dos países da UE. O direito derivado inclui regulamentos. As divisões políticas entre a Europa Ocidental e a Europa Oriental são finalmente declaradas sanadas quando dez novos países aderem à União Européia em 2004. A comunicação é facilitada à medida que cada vez mais pessoas começam a utilizar o celular e a Internet. Despesas As verbas do orçamento da UE destinam-se a cobrir um vasto leque de atividades. Milhões de jovens estudam noutros países com o apoio da UE. As suas vantagens são óbvias para qualquer pessoa que viaje para o estrangeiro ou faça compras em linha em sítios da Internet estabelecidos noutro país da UE. que gradualmente permitirão às pessoas viajar sem que os seus passaportes sejam objeto de controlo nas fronteiras. Os tratados (direito primário) são a base ou as regras de base de todas as medidas tomadas pela UE. Receitas As receitas da UE provêm não só das contribuições dos seus Estados-Membros. Os EstadosMembros da União Européia começam a trabalhar cada vez mais em conjunto para lutar contra a criminalidade. O processo de decisão habitual da UE é o chamado "processo de co-decisão". mas a Comissão e os países da UE são os responsáveis pela forma como o dinheiro é efetivamente gasto. do Conselho e do Parlamento são tidos em conta para determinar o montante global do orçamento e a atribuição das diferentes verbas. a legislação da UE tem de ser conjuntamente .aos acordos de “Schengen”. mas também dos direitos de importação aplicados a produtos provenientes de países terceiros e de uma percentagem do imposto sobre o valor acrescentado (IVA) cobrado por cada país. O PROCESSO DE TOMADA DE DECISÕES DA UNIÃO EUROPÉIA O direito da UE divide-se em direito primário e direito derivado.

A Comissão elabora e executa a legislação da UE. se um domínio de intervenção não for citado num tratado. . da legislação. Os tratados são por vezes alterados para tornar a UE mais eficaz e transparente. e pelo Conselho (ou seja. TRATADOS DA UE A União Européia baseia-se nos princípios do Estado de Direito. O texto integral dos tratados. diretamente eleito pelos cidadãos europeus. O número de domínios de intervenção abrangidos pelo processo de co-decisão aumentou com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa. O Parlamento Europeu tem também mais poder para bloquear a adoção de uma proposta se não estiver de acordo com o Conselho. Principais mudanças: reforço dos poderes do Parlamento Europeu. O Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa (2004) com objetivos idênticos aos do Tratado de Lisboa foi assinado.adotada pelo Parlamento Europeu. eficaz e preparada para resolver problemas a nível mundial. as instituições da UE adotam a legislação que os países membros executarão. falando a uma só voz. iniciativa de cidadania. um presidente permanente do Conselho Europeu. O Tratado de Lisboa clarifica a distribuição dos seguintes poderes: • os poderes da UE. da jurisprudência e das propostas legislativas pode ser consultado na base de dados EUR-Lex. o processo de tomada de decisões e a relação entre a UE e os seus países membros. Tratado de Amesterdão (1999) Objetivo: proceder à reforma das instituições para preparar a adesão de futuros países membros. • os poderes partilhados. pelos governos dos 27 países da UE). Nele estão consagrados os objetivos da UE. Ao abrigo dos tratados. para preparar a UE para a adesão de novos países e para introduzir novas áreas de cooperação como no caso da moeda única. Os tratados principais são: Tratado de Lisboa (2009) Objetivo: tornar a UE mais democrática. mas não ratificado. Principais mudanças: métodos para mudar a composição da Comissão e redefinição do sistema de votação do Conselho. a Comissão não pode propor legislação nesse domínio. as regras por que se regem as instituições da UE. uma Alta Representante para os Negócios Estrangeiros e um novo serviço diplomático a nível da UE. ou seja. • os poderes dos países membros. Por exemplo. Um tratado é um acordo vinculativo entre a UE e os seus países membros. Tratado de Nice (2003) Objetivo: proceder à reforma das instituições para tornar o funcionamento da UE mais eficaz depois do alargamento a 25 países membros. como as alterações climáticas. todas as medidas tomadas pela UE assentam nos tratados que foram aprovados voluntária e democraticamente por todos os países da UE. alteração dos procedimentos de votação no Conselho.

Lituânia. Principais mudanças: instituição da União Européia e introdução do procedimento de co-decisão. Processo de tomada de decisões mais transparente (maior utilização do processo. nem uma mera organização de cooperação entre governos. de fato. Eslovênia. Tratado que institui a Comunidade Européia do Carvão e do Aço (1952) Objetivo: criar uma interdependência entre os setores do carvão e do aço para que deixasse de haver a possibilidade de um país mobilizar as suas forças armadas sem informar os restantes países. CECA). Tratado de Fusão . Tratados de Roma . Principais mudanças: criação de uma Comissão única e de um Conselho único para as três Comunidades Européias (CEE. Tratado da União Européia (Tratado de Maastricht de 1993) Objetivo: preparar a união monetária Européia e introduzir elementos de uma união política (cidadania. Portugal) • 1995 (Áustria. Isto ajudou a dissipar a desconfiança e a tensão existentes entre os países depois da Segunda Guerra Mundial. que dá mais peso ao Parlamento no processo de tomada de decisão. Principais mudanças: extensão da votação por maioria qualificada no Conselho (tornando assim mais difícil que um único país possa vetar uma proposta legislativa). da justiça e dos assuntos internos. O Tratado CECA caducou em 2002. • 2007 (Bulgária e Romênia) INSTITUIÇÕES E OUTROS ORGANISMOS DA UE A União Européia (UE) não é uma federação como os Estados Unidos da América. que passa a abranger a cooperação econômica. Possui. os tratados fundadores foram alterados: • 1973 (Dinamarca. Letônia. renumeração dos artigos e consolidação dos tratados UE e CEE. Revogação pelo Tratado de Amesterdão. Suécia) • 2004 (República Checa. um caráter único.Tratados CEE e EURATOM (1958) Objetivo: instituir a Comunidade Econômica Européia (CEE) e a Comunidade Européia da Energia Atômica (Euratom). Eslováquia. Sempre que aderiram à UE novos países. política comum em matéria de política externa e os assuntos internos).Tratado de Bruxelas (1967) Objetivo: simplificar o funcionamento das instituições Européias. Os países que pertencem à .Principais mudanças: alteração. Finlândia. Chipre. Estônia. nomeadamente no quadro da defesa. Novas formas de cooperação entre os governos da UE. Ato Único Europeu (1986) Objetivo: proceder à reforma das instituições para preparar a adesão de Portugal e de Espanha e agilizar a tomada de decisões na perspectiva do mercado único. introdução de processos de cooperação e de comum acordo que conferem um maior peso ao Parlamento. Principais mudanças: aprofundamento da integração Européia. Hungria. como as Nações Unidas. Irlanda e Reino Unido) • 1981 (Grécia) • 1986 (Espanha. Euratom. Malta e Polônia).

que representa a sociedade civil. diretamente eleito. é a Comissão que propõe nova legislação e são o Parlamento e o Conselho que a adotam. que representa os Estados-Membros. Em princípio. O processo de tomada de decisões na UE. . delegar alguns poderes de decisão em instituições comuns. • o Serviço das Publicações Oficiais das Comunidades Européias. Partilhar a soberania significa.UE (os seus «Estados-Membros») continuam a ser nações soberanas e independentes. • o Banco Central Europeu. Este «triângulo institucional» está na origem das políticas e da legislação que se aplicam em toda a UE. envolvem três instituições principais: • o Parlamento Europeu. que salvaguarda a confidencialidade dos dados pessoais dos cidadãos. e o processo de codecisão. que assegura o cumprimento da legislação Européia. • a Comissão Européia. de modo a assegurar que determinadas decisões sobre assuntos do interesse comum possam ser tomadas democraticamente a nível europeu. A Comissão vela também pela correta transposição da legislação da UE para as respectivas ordens jurídicas. O seu Presidente é Herman Van Rompuy. responsável pela política monetária Européia. em particular. que financia projetos de investimento da UE e ajuda as PME através do Fundo Europeu de Investimento. • o Provedor de Justiça. nos quais se baseia toda a ação da UE. Os Tratados consagram igualmente as regras e os procedimentos que as instituições da UE devem observar. que investiga as queixas relativas a casos de alegada má administração por parte das instituições ou dos organismos da UE. Com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa em 1 de Dezembro de 2009. os empregadores e os trabalhadores. que representa os cidadãos da UE. que fiscaliza o financiamento das atividades da UE. o Conselho Europeu passou a ser uma instituição. que representa as autoridades regionais e locais. em geral. Os poderes e as responsabilidades destas instituições são definidos nos Tratados. mas partilham a sua soberania em certas áreas para se tornarem mais fortes e poderem exercer uma influência no mundo que nenhum deles poderia exercer isoladamente. A Comissão e os Estados-Membros são os responsáveis pela sua execução. • o Conselho da União Européia. Os Tratados são aprovados pelos Presidentes e/ou PrimeirosMinistros de todos os Estados-Membros da UE e são ratificados pelos Parlamentos nacionais A UE possui ainda uma série de outras instituições e organismos que desempenham funções específicas: • o Comitê Econômico e Social Europeu. que vela pela defesa dos interesses da UE no seu conjunto. • o Banco Europeu de Investimento. e o Tribunal de Contas. • a Autoridade Européia para a Proteção de Dados. O Conselho Europeu define as orientações e prioridades políticas gerais da União Européia. que publica informações sobre a UE. • o Comitê das Regiões. na prática. Duas outras instituições desempenham um papel fundamental: o Tribunal de Justiça.

tomando decisões sobre o teor da legislação da UE e aprovando-a oficialmente. Aprovação da legislação da UE Em muitos domínios. Existe ainda uma série de agências especializadas que foram criadas para desempenhar certas funções técnicas. Compete-lhe presidir às reuniões do Conselho dos Negócios Estrangeiros e conduzir a Política Externa e de Segurança Comum. Juntamente com o Conselho. Os eurodeputados examinam as petições apresentadas pelos cidadãos e instituem comissões de inquérito. os deputados do Parlamento Europeu representam os cidadãos da UE. o PE colabora com o Conselho. como a agricultura. O PE acompanha de perto as atividades da Comissão. conferindo ao PE muito mais poder para influenciar o conteúdo da legislação em determinadas áreas. certas decisões importantes. Além disso. científicas ou de gestão. Quando é designada uma nova Comissão. o Conselho Europeu nomeou Catherine Ashton para o cargo de Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança. os seus 27 membros (um por cada país da UE) não podem assumir funções sem antes serem aprovados pelo PE. Este processo é designado por «co-decisão». • debate e aprova o orçamento da UE (juntamente com o Conselho). Controlo democrático O PE exerce influência sobre as outras instituições Européias de várias formas. Se os eurodeputados não aprovarem um dos Comissários designados. • fiscaliza outras instituições da UE. o Parlamento é uma das principais instituições da UE com poderes legislativos. o leque das políticas abrangidas pela codecisão aumentou.o Serviço Europeu de Seleção do Pessoal. O Parlamento Europeu (PE) desempenha três funções principais: • debate e aprova a legislação da UE (juntamente com o Conselho). examinando os relatórios que esta elabora e interrogando regularmente os Comissários. Prevalecendo-se do seu cargo de Vice-Presidente da Comissão Européia. como a adesão de novos países à UE. podem rejeitar toda a Comissão. que representa os governos nacionais. a política energética. como é o caso da defesa do consumidor e do ambiente. cuja função é dar formação em áreas específicas a membros do pessoal da UE. • . • a Escola Européia de Administração. Na sequência da entrada em vigor do Tratado de Lisboa. As comissões parlamentares desempenham um importante papel a este nível. O PE pode obrigar a Comissão a demitir-se em bloco durante o seu mandato. a fim de assegurar que funcionam de forma democrática. Ao abrigo do Tratado de Lisboa. a imigração e os fundos da UE. assegura ainda a coerência e a coordenação da ação externa da União Européia. também requerem a aprovação do PE. nomeadamente a Comissão. A Alta Representante é assistida pelo Serviço Europeu para a Ação Externa PARLAMENTO EUROPEU Diretamente eleitos de cinco em cinco anos por sufrágio universal. que recruta pessoal para as instituições e outros organismos da UE. por meio de uma moção de censura.

As reuniões das comissões parlamentares também têm lugar em Bruxelas. o PE dá o seu parecer sobre os assuntos da ordem de trabalhos. apesar de o seu presidente poder convocar um conselho especial. O PE tem uma comissão que fiscaliza a forma como é gasto o orçamento e todos os anos avalia a forma como a Comissão geriu o orçamento do ano anterior. Descubra quem são os eurodeputados portugueses Localização O PE tem três sedes: Bruxelas (Bélgica). Regra geral. não possui quaisquer poderes legislativos. por vezes. denominadas «sessões plenárias». Contudo. Quem é o Presidente do Conselho O atual Presidente do Conselho Europeu é Herman Van Rompuy. Fiscalização do orçamento O PE adota o orçamento anual da UE. em Bruxelas. exceto se os Tratados estabelecerem de outra maneira. Composição O Conselho Europeu reúne os Chefes de Estado ou de Governo de cada país da UE. Quando e onde têm lugar os Conselhos Europeus Pelo menos. No Luxemburgo. Os eurodeputados estão agrupados por filiação política e não por nacionalidade. Embora fundamental na definição da agenda política da UE. juntamente com o Conselho. de seis em seis meses.Quando os dirigentes nacionais se reúnem no âmbito das cimeiras Européias. ou mesmo a unanimidade. Como são tomadas as decisões O Conselho Europeu decide por consenso. presididas por um presidente permanente. estão sediados os serviços administrativos do Parlamento (o «Secretariado-Geral»). Missão O Conselho Europeu desempenha essencialmente duas funções: definir a direção e as prioridades políticas gerais e resolver determinadas questões que pela sua complexidade ou sensibilidade não possam ser resolvidas a um nível inferior da cooperação intergovernamental. Luxemburgo (Luxemburgo) e Estrasburgo (França). Composição O número de eurodeputados de que dispõe cada país é grosso modo proporcional à sua população. realizam-se em Estrasburgo e. existem quatro reuniões por ano. o Presidente da Comissão Européia e o Presidente do Conselho Europeu. . se necessário. A Alta-Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança também participa nos Conselhos Europeus. em função das disposições do Tratado. CONSELHO EUROPEU As reuniões do Conselho Europeu são essencialmente cimeiras no âmbito das quais os dirigentes da UE se encontram para tomarem decisões sobre as grandes prioridades políticas e iniciativas da UE. que preside às reuniões. cujo mandato teve início em 1 de Dezembro de 2009 e termina em 31 de Maio de 2012. Geralmente em Bruxelas. As reuniões de todos os deputados do Parlamento. nenhum país pode ter menos de seis nem mais de 96 deputados no PE.

a ciência. 4. Coordenação das políticas econômicas Os países da UE optaram por ter uma política econômica geral para a Europa. Outro objetivo é criar mais emprego e melhorar os sistemas de ensino. que os ministros de cada Estado-Membro se encontram para adotarem legislação e assegurarem a coordenação das políticas da UE.Os Presidentes do Conselho Europeu e da Comissão e a Alta-Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança não têm direito de voto. cuja coordenação é assegurada pelos Ministros da Economia e das Finanças de cada país. as pescas. Assinar acordos entre a UE e países terceiros 4. 2. Missão 1. Antecedentes O Conselho Europeu teve início informalmente em 1974 enquanto espaço de debate para os dirigentes da UE. mas trabalham em conjunto a fim de desenvolverem uma política externa e de segurança comum (PESC). Aprovar a legislação da UE 2. Não confundir esta instituição com:— • o Conselho Europeu – outra instituição da UE. de saúde e de segurança social. podem chegar a acordo sobre objetivos comuns e inspirar-se nas experiências positivas uns dos outros. no âmbito da qual os chefes de Estado e de Governo dos países da UE se reúnem cerca de quatro vezes por ano para debater as prioridades políticas da UE. O Conselho é a principal instância onde se desenvolve esta cooperação. Tendo adquirido um estatuto formal em 1992. Aprovação da legislação Européia O Conselho e o Parlamento partilham entre si a tarefa de aprovação da nova legislação da UE proposta pela Comissão. Aprovação do orçamento da UE O montante que a UE pode gastar cada ano é decidido conjuntamente pelo Conselho e pelo Parlamento Europeu. . conhecido informalmente como Conselho da UE. 5. Coordenar as políticas econômicas gerais dos países da UE 3. Coordenar a cooperação entre os tribunais e as forças policiais dos países da UE 1. o comércio. Embora os países da UE sejam responsáveis pela sua própria política nestas áreas. Política externa e de segurança Os governos nacionais mantêm um controlo independente nestas áreas. Aprovar o orçamento anual da UE 5. CONSELHO DA UNIÃO EUROPÉIA É no âmbito do Conselho da União Européia. Definir as políticas externa e de defesa da UE 6. Assinar acordos internacionais O Conselho assina acordos em nome da UE que incidem sobre temas tão diversos como o ambiente. 3. • o Conselho da Europa – não é uma instituição da UE. o desenvolvimento. Rapidamente se transformou no órgão que estabelece os objetivos gerais e as prioridades para a União Européia. a tecnologia e os transportes. tornou-se uma das sete instituições oficiais da UE em 2009. os têxteis.

Hungria. Bulgária e Suécia: 10 votos • Dinamarca. pelo menos. 6. Justiça Os cidadãos europeus devem beneficiar da igualdade de acesso à justiça em toda a UE. Finlândia. e República Checa: 12 votos • Áustria. Letônia e Luxemburgo: 4 votos • Malta: 3 votos TOTAL: 345 votos O processo de votação mais comum no Conselho é a «votação por maioria qualificada». é necessário: • que uma maioria (em alguns casos. os países enviam o ministro responsável pelo domínio político em questão. a proposta não pode ser adotada. um país pode requerer que se verifique se a maioria representa. Itália e Reino Unido: 29 votos • Espanha e Polônia: 27 votos • Romênia: 14 votos • Países Baixos: 13 votos • Bélgica. alguns países da UE fornecem efetivos militares para uma força de reação rápida. o número de votos a que cada país tem direito é ponderado de forma a favorecer os países com menor população: • Alemanha. Quem são os membros do Conselho Não existem propriamente membros permanentes do Conselho. Todavia. os Ministros do Ambiente participam na reunião que trata de questões ambientais e que é conhecida como «Conselho Ambiente». uma maioria de dois terços) dos 27 países da UE votem a favor. qualquer Conselho Ambiente que decorra durante o período em que Portugal ocupa a Presidência é presidido pelo Ministro do Ambiente português. os Ministros da Justiça esforçam-se por assegurar que as decisões dos tribunais de um país (por exemplo. Grécia. as decisões do Conselho da UE são tomadas por maioria qualificada. Para cada reunião do Conselho. Mas. Todas as outras reuniões do Conselho são presididas pelo ministro competente do país que ocupa a Presidência rotativa da UE. Caso contrário. 62% da população total da UE. Estônia. Irlanda e Lituânia : 7 votos • Chipre. . Os Ministros da Justiça e dos Assuntos Internos asseguram a coordenação do controlo das fronteiras externas da UE. assim como da luta contra o terrorismo e o crime organizado internacional. Votação Regra geral. Por exemplo. Quanto maior for a população de um país. Eslovênia. Por exemplo. em caso de divórcio) sejam reconhecidas em todos os países da UE. Portugal. pelo menos. • que dos 345 votos possíveis. No âmbito do Conselho. para poder reagir rapidamente em situações de conflito internacional ou de catástrofe natural. Para existir maioria qualificada. cujo papel se limita a desempenhar tarefas de natureza humanitária e a realizar missões de socorro e de manutenção da paz.A UE não possui um exército próprio. Eslováquia. França. de mais votos este dispõe. 255 votos. sejam expressos. Além disso. Quem preside as reuniões O Conselho que reúne os Ministros dos Negócios Estrangeiros é sempre presidido pelo Alto para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança.

a Comissão consulta peritos que se reúnem em Comitês e grupos de trabalho. Este. 65% da população da UE).Quando estão em causa temas sensíveis. as decisões do Conselho têm de ser tomadas por unanimidade. propõe nova legislação ao Parlamento e ao Conselho. a Comissão prepara os projetos de legislação Européia e assegura a execução das políticas e dos fundos da UE. um por cada país da UE. como é o caso da segurança e assuntos externos ou da fiscalidade. O Presidente da Comissão atribui a cada Comissário a responsabilidade por áreas políticas específicas. será introduzido um sistema denominado «sistema de votação por dupla maioria». juristas. representa a UE a nível internacional. o pessoal permanente ou a instituição no seu conjunto. está sujeita à aprovação do Parlamento Europeu. negociar acordos entre esta e países terceiros. mas apenas sobre matérias que não possam ser tratadas de forma eficaz a nível nacional. incluindo o Presidente. pessoal de secretariado. Composição Os 27 Comissários. A gestão corrente da Comissão é assegurada pelo seu pessoal. O termo «Comissão» pode ser usado para referir os 27 Comissários. ou seja. nomeia igualmente os outros Comissários. tradutores. 2. pelo menos. para uma proposta ser aprovada. Durante o seu mandato. A partir de 2014. intérpretes. gere o orçamento e afeta os fundos da UE. regional ou local (princípio da subsidiariedade). incumbindo-lhe. Para as questões técnicas. Missão A Comissão representa e defende os interesses da UE no seu conjunto. . De acordo com este sistema. Para além de representar e defender os interesses da UE no seu conjunto.. repartido por vários serviços ou direções-gerais. os Comissários são responsáveis perante o Parlamento. Também efetua consultas públicas. o único órgão com poder para demitir a Comissão. a Comissão tenta satisfazer um leque de interesses o mais alargado possível. O Presidente é nomeado pelo Conselho Europeu. de acordo com o Presidente nomeado. constituído por administradores. Para supervisionar e executar as políticas da UE: 1. garante o cumprimento da legislação da UE (em conjunto com o Tribunal de Justiça). são responsáveis pela direção política da UE durante o seu mandato de cinco anos. o que significa que a decisão pode ser vetada por um único país. 3. economistas. etc. Quando propõe uma lei. COMISSÃO EUROPÉIA A Comissão Européia é uma das principais instituições da UE. Durão Barroso é o atual Presidente da Comissão Européia. A nomeação de todos os Comissários. por exemplo. 4. terá de ser apoiada por dois tipos de maioria: uma maioria de países (pelo menos 15) e uma maioria da população total da UE (os países a favor devem representar. 1. pode propor novas leis para proteger os interesses da UE e dos seus cidadãos. tendo dado início ao seu segundo mandato em Fevereiro de 2010. Propor novas leis A Comissão tem o «direito de iniciativa».

2. aos quais incumbe apresentar publicamente e com imparcialidade pareceres sobre os processos submetidos ao Tribunal. Os governos dos países da UE chegam a acordo sobre quem querem nomear. a Comissão estabelece as prioridades de despesa a longo prazo no «quadro financeiro» da UE. É necessário que pelo menos 14 dos 27 Comissários concordem com um projeto de proposta de lei para este ser enviado ao Conselho e ao Parlamento. Composição O Tribunal de Justiça é composto por um juiz de cada país da UE. a Comissão verifica se os Estados-Membros aplicam corretamente a legislação da UE. A Comissão tem representações em todos os países da UE e delegações em capitais de todo o mundo. Este pode impor sanções e as suas decisões são vinculativas para os países e as instituições Européias. empresas e organizações podem recorrer ao Tribunal se considerarem que os seus direitos foram infringidos por uma instituição Européia. Os juízes e os advogados-gerais são nomeados por um período de seis anos. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DA UNIÃO EUROPÉIA O Tribunal de Justiça interpreta o direito da UE a fim de garantir a sua aplicação uniforme em todos os Estados-Membros. A execução do orçamento pela Comissão é fiscalizada pelo Tribunal de Contas. A Comissão só recorre ao Tribunal de Justiça em última instância. resolve os litígios entre os governos nacionais e as instituições Européias. Representar a UE a nível internacional A Comissão fala em nome de todos os países da UE em organismos internacionais como a Organização Mundial do Comércio. decidem da sua aprovação como lei. Se considerar que um governo de um país da UE não está a aplicar corretamente a legislação. Garantir o cumprimento da legislação da UE Enquanto «guardiã dos Tratados». agricultura e desenvolvimento rural) e dos programas (por exemplo. a Comissão começa por lhe enviar uma carta oficial pedindo-lhe para corrigir o problema. após o debater e alterar. A fim de ajudar o Tribunal de Justiça a fazer face ao grande número de processos que lhe são submetidos e de proporcionar aos cidadãos uma proteção jurídica mais eficaz. por exemplo pelas agências ou pelas autoridades nacionais e regionais. Particulares. como o Acordo de Cotonou (sobre ajuda e comércio entre a UE e os países em desenvolvimento de África. um «Tribunal Geral» ocupa-se das ações . o programa Erasmus de intercâmbio de estudantes) da UE.Os serviços da Comissão elaboram os projetos das novas propostas de lei. 4. que. 3. e controla como são gastos os fundos da UE. Gerir o orçamento e afetar os fundos da UE Em colaboração com o Conselho e o Parlamento. Elabora também o orçamento anual. que é submetido à aprovação do Parlamento e do Conselho. Além disso. renovável. Também negocia acordos internacionais em nome da UE. A Comissão gere o financiamento das políticas (por exemplo. Localização Os serviços da Comissão estão repartidos entre Bruxelas e Luxemburgo. Caraíbas e Pacífico). O Tribunal é assistido por oito «advogados-gerais».

2. ações por omissão – intentadas contra as instituições da UE por não tomarem as decisões que lhes competem. Se o Tribunal constatar que o país não deu cumprimento à sua decisão. Em ambos os casos. por vezes devem. pode impor-lhe uma multa. Para que tal não aconteça. a Comissão ou. um risco de que os tribunais dos diversos países possam interpretar o direito da UE de forma diferente. bem como de processos relacionados com o direito da concorrência. Pedidos de decisão a título prejudicial Os tribunais nacionais são responsáveis pela correta aplicação da legislação da UE no respectivo país. Há. 4. caso tenham uma dúvida quanto à interpretação ou à validade de uma disposição do direito da UE. pode declará-la nula e sem efeito. Se o Tribunal verificar que a disposição em questão não foi corretamente adotada ou não está devidamente fundamentada nos Tratados. Ações por incumprimento A Comissão pode intentar este tipo de ação se considerar que um EstadoMembro não cumpriu qualquer das obrigações que lhe incumbem por força do direito da UE. empresas e algumas organizações. ações por incumprimento – intentadas contra os governos nacionais por não aplicação do direito da UE. Recursos de anulação Se um país da UE. por esse motivo. Os cinco tipos de processos mais comuns são os seguintes: 1. Os particulares podem também interpor «recursos de anulação» se considerarem que determinada disposição legislativa os afeta direta e negativamente como indivíduos e pretenderem. Assim. o Conselho. no entanto. Este se pronuncia sobre a questão que lhe é apresentada emitindo uma «decisão a título prejudicial». deve tomar medidas corretivas de imediato. pedidos de decisão a título prejudicial – os tribunais nacionais dirigem-se ao Tribunal de Justiça para que esclareça a interpretação de um elemento do direito da UE. em certas circunstâncias. recursos de anulação – interpostos contra a legislação da UE que alegadamente viole os Tratados ou os direitos fundamentais da UE. Se o país for considerado em falta. que o Tribunal a anule. 2. o Parlamento considerar que uma disposição legislativa da UE é ilegal pode solicitar a sua anulação ao Tribunal. Tipos de processos O Tribunal pronuncia-se sobre os processos que são submetidos à sua apreciação. empresas ou organizações contra ações ou decisões da UE. foi instaurado um mecanismo denominado «reenvio prejudicial». Ações por omissão . os tribunais nacionais podem e. 5. 1. o Tribunal investiga as alegações apresentadas e dá o seu parecer. pedir o parecer do Tribunal de Justiça. O Tribunal da Função Pública Européia pronuncia-se sobre os litígios entre as instituições da UE e o seu pessoal. ações diretas – intentadas por particulares. Qualquer Estado-Membro pode também intentar uma ação por incumprimento contra outro.intentadas por particulares. 4. 3. 3.

1. os juízes debatem o processo entre si e pronunciam um acórdão. O Tribunal de Contas não dispõe de poder jurisdicional próprio. Em seguida. que são transmitidos à Comissão e aos governos dos países da UE. As suas conclusões são apresentadas por escrito sob a forma de relatórios. esta pode decorrer perante um painel de 3. informam o OLAF – Organismo Europeu de Luta Antifraude. 5. O Tribunal não é obrigado a seguir o parecer do advogado-geral. os advogados de ambas as partes apresentam as suas alegações aos juízes e ao advogado-geral. em certos casos. o Tribunal de Contas tem o direito de realizar auditorias junto de qualquer pessoa ou organização que seja responsável pela gestão de fundos da UE. os Estados-Membros. Se não o fizerem. Missão Para garantir que o dinheiro dos contribuintes é usado da melhor forma. O Tribunal também efetua frequentemente controles no terreno. que podem fazer as perguntas que entenderem pertinentes. As audiências do Tribunal Geral processam-se forma semelhante. A sua função é melhorar a gestão financeira da UE e verificar como são usados os dinheiros públicos. Imagens das audiências são frequentemente objeto de transmissão televisiva (Europe by Satellite). 5 ou 13 juízes ou perante todo o Tribunal. as restantes instituições da UE e. TRIBUNAL DE CONTAS EUROPEU O Tribunal de Contas Europeu controla as finanças da UE. Os processos são tratados em duas fases: uma fase escrita e uma fase oral. Os acórdãos do Tribunal são decisões majoritárias e são lidos durante as audiências públicas. Fase escrita As partes envolvidas começam por entregar uma declaração escrita ao juiz responsável pelo processo. o Conselho e a Comissão devem tomar determinadas decisões em determinadas circunstâncias. Durante a audiência. mas sem a intervenção de um advogado-geral. Funções Uma das funções mais importantes do Tribunal é apresentar ao Parlamento Europeu e ao Conselho um relatório anual sobre o exercício financeiro . Ações diretas Qualquer particular ou empresa que tenha sofrido danos causados por uma ação ou pela ausência de ação da UE ou do pessoal das suas instituições pode recorrer ao Tribunal Geral a fim de obter reparação. O advogado-geral emite então o seu parecer. Os advogados-gerais só têm de apresentar conclusões quando o Tribunal considere que o processo em causa suscita uma nova questão de direito. Fase oral A segunda fase é a audiência pública. O Tribunal foi criado em 1975 com sede no Luxemburgo. Tramitação dos processos Para cada processo apresentado ao Tribunal são nomeados um juiz e um advogado-geral. Em função da complexidade do caso. Em seguida. 2.O Tratado estabelece que o Parlamento Europeu. Quando os auditores detectam fraudes ou irregularidades. o juiz prepara um resumo destas declarações e o contexto jurídico do processo. os particulares ou as empresas podem recorrer ao Tribunal para que este declare verificada essa omissão.

Os membros do CESE estão repartidos por três grupos: 1. o CESE emite 170 pareceres e outros documentos de orientação por ano. O Tribunal de Contas também emite pareceres sobre as propostas de legislação financeira da UE e relativamente às ações comunitárias em matéria de luta contra a fraude. ex. agricultores. Os auditores levam a cabo com frequência inspeções nas instituições da UE. entidades patronais e agricultores. Os membros elegem de entre si o Presidente por um período de três anos renovável. à Comissão e ao Parlamento Europeu. Os membros são designados pelos governos nacionais e nomeados pelo Conselho da União Européia por um período de cinco anos renovável. Trata-se de uma assembléia consultiva que emite pareceres dirigidos às outras instituições. Todos os pareceres são encaminhados para os órgãos da UE responsáveis pelas decisões e publicados no Jornal Oficial da UE. Em média. mas manter-se em contato permanente com as mesmas. Membros O CESE tem 344 membros provenientes de grupos de interesses sociais e Econômicos de toda a Europa. O Parlamento analisa pormenorizadamente o relatório do Tribunal antes de decidir se aprova a forma como a Comissão executou o orçamento. representantes das entidades patronais.precedente (a «quitação anual»). Com efeito. Os membros do CESE não são remunerados. na prática. grupos de consumidores) . Compete-lhes elaborar os projetos de relatórios que servem de base às decisões do Tribunal. administradores e auditores. foi eleito em Janeiro de 2008. nomeadamente sindicalistas. embora o trabalho do Tribunal diga principalmente respeito a verbas da responsabilidade da Comissão. Composição Para que possa desempenhar as suas funções com eficácia. nomeado pelo Conselho por um período de seis anos renovável. Empregados 3. mas recebem um subsídio que cobre as despesas de viagem e estadia para assistir às reuniões. o Tribunal de Contas deve ser completamente independente das outras instituições. O atual Presidente. Vítor Manuel da Silva Caldeira (Portugal). incluindo tradutores. nomeadamente ao Conselho. uma oportunidade de se pronunciarem oficialmente sobre as propostas legislativas da UE. 80% destas receitas e despesas são geridas pelas autoridades nacionais. trabalhadores e outros grupos de interesses europeus podem expressar os seus pontos de vista. O Tribunal é composto por um membro de cada país da UE. O CESE dá aos grupos de interesses europeus. Organização O Tribunal de Contas dispõe de cerca de 800 funcionários. Os auditores estão repartidos por «grupos de auditoria». COMITÊ ECONÔMICO E SOCIAL EUROPEU No âmbito do Comitê Econômico e Social Europeu. Empregadores 2. nos Estados-Membros e nos países que beneficiam da ajuda da UE. Interesses vários (p. Missão O Comitê Econômico e Social Europeu (CESE) foi criado em 1957 enquanto espaço de debate de assuntos relacionados com o mercado único.

Membros O Comitê das Regiões tem atualmente 344 membros (e igual número de suplentes) de todos os 27 países da UE. sobre política de emprego. . mas as delegações devem refletir os equilíbrios políticos. alterações climáticas e energia • cidadania.9 membros • Eslovênia. Função A missão do Comitê das Regiões consiste em apresentar os pontos de vista regionais e locais no que se refere à legislação da UE.O número de membros de cada país depende da população nacional: • Alemanha.21 membros • Romênia . geográficos e regionais/locais dos países. França. Itália e Reino Unido .6 membros • Malta . Estrutura O Comitê das Regiões realiza cinco sessões plenárias por ano. sob proposta dos países da UE.24 membros • Espanha.7 membros • Chipre. Finlândia. Há seis «comissões» que abrangem diferentes áreas políticas e preparam os pareceres a debater nas sessões plenárias: • coesão territorial • política econômica e social • educação. Estônia. Países Baixos. educação ou saúde pública). Hungria. Bulgária.5 membros COMITÊ DAS REGIÕES O Comitê das Regiões é um órgão consultivo que representa as autoridades locais e regionais da União Européia. Letônia . ambiente. governação. Polônia . Os membros e os suplentes são nomeados para um mandato de cinco anos pelo Conselho. para definir a política geral e adotar pareceres.12 membros • Dinamarca. Irlanda. o Conselho e o Parlamento devem consultar o Comitê das Regiões antes de serem tomadas as decisões sobre questões relativas à administração local e regional (por exemplo. Suécia. Um eventual alargamento da UE poderá aumentar o número de membros (e suplentes) para um máximo de 350. Cada país escolhe os seus membros segundo o seu próprio método. República Checa. A Comissão.15 membros • Áustria. Portugal. através da emissão de relatórios ("pareceres") sobre as propostas da Comissão. assuntos institucionais e externos • recursos naturais O Comitê adota também resoluções sobre questões políticas importantes. Lituânia . Bélgica. Luxemburgo . juventude e investigação • ambiente. Eslováquia. Os grupos políticos representados no Comitê das Regiões refletem as principais famílias políticas Européias: • Partido Popular Europeu (PPE) • Partido dos Socialistas Europeus (PSE) • Grupo da Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa (ALDE) • União para a Europa das Nações-Aliança Européia (UEN-AE) . Grécia. O Comitê é composto por representantes eleitos dos poderes regionais ou locais.

bem como o bom funcionamento dos sistemas de pagamento. tem de consultar o Comitê das Regiões no caso de a proposta se referir a um dos domínios políticos que afetam diretamente as autoridades locais e regionais. Missão O Banco Central Europeu (BCE) é uma das instituições da União Européia. • ajudar a assegurar uma supervisão adequada dos mercados e instituições financeiras pelas autoridades nacionais. na Alemanha. BANCO CENTRAL EUROPEU O Banco Central Europeu (BCE). É composto pelos seis membros da Comissão Executiva e pelos governadores dos 16 bancos centrais dos países da zona euro. O seu principal objetivo é: • garantir a estabilidade dos preços (manter a inflação sob controlo). • Conselho do BCE – define a política monetária da zona euro e fixa as taxas de juro a que os bancos comerciais podem obter fundos junto do Banco Central. especialmente nos países que utilizam o euro. Quando a Comissão apresenta uma proposta legislativa. isto é. a Comissão Européia tem agora de consultar as autoridades locais e regionais. bem como as suas associações em toda a UE. assegurando uma supervisão adequada dos mercados e das instituições financeiras. o Comitê das Regiões está profundamente envolvido neste procedimento. Estrutura O BCE possui os seguintes órgãos de decisão: • Comissão Executiva – responsável pela gestão das atividades correntes do BCE. • acompanhar a evolução dos preços e avaliar os riscos que estes representam para a estabilidade dos preços. que formam o Sistema Europeu de Bancos Centrais (SEBC). bem como por assegurar a estabilidade dos preços na UE O BCE é igualmente responsável pela definição e execução da política econômica e monetária da UE. • velar pela estabilidade do sistema financeiro. que são nomeados por um período de oito anos pelos dirigentes dos países da zona euro. um Vice-Presidente e quatro vogais). com sede em Frankfurt. . O BCE trabalha com os bancos centrais dos 27 países da UE. dos 16 países da UE que adotaram o euro. Enquanto voz das autoridades locais e regionais. • gerir as reservas de divisas da zona euro e comprar ou vender divisas sempre que necessário para manter o equilíbrio das taxas de câmbio.Papel reforçado pelo Tratado de Lisboa No âmbito do Tratado de Lisboa. É constituída por seis membros (um Presidente. a moeda única da UE. A cooperação entre este grupo mais reduzido de bancos é denominada "Eurossistema". • autorizar os bancos centrais dos países da zona euro a emitir notas de euro. Funções O papel do BCE inclui: • fixar as principais taxas de juro para a zona euro e controlar a massa monetária. logo na fase pré-legislativa. é responsável pela gestão do euro. O BCE também coordena a estreita colaboração entre os bancos centrais da zona euro.

Todas as instituições e governos dos países da UE devem respeitar este princípio. entidades criadas para fins específicos e outros. Missão O Banco Europeu de Investimento (BEI) apóia projetos nos países da UE e investe nos países candidatos e em países parceiros. • Garantias: acessíveis a um vasto leque de entidades. O BCE é completamente independente. por exemplo bancos. • . O BEI levanta dinheiro nos mercados de capitais e empresta-o a taxas de juro reduzidas para financiar projetos relacionados com o melhoramento das infraestruturas. Em 2008. • Assistência técnica: prestada por uma equipa de economistas. O dinheiro que empresta não provém do orçamento da UE. tanto na UE como nos países vizinhos ou nos países em desenvolvimento. O dinheiro é emprestado em condições favoráveis para financiar projetos que contribuam para a realização dos objetivos políticos da UE. Os beneficiários vão desde grandes empresas a autarquias e PME. Concessão de empréstimos na UE Cerca de 90 % dos empréstimos concedidos pelo BEI beneficiam programas e projetos na UE. o BCE. o BEI reuniu quase 60 mil milhões de euros.Conselho Geral – participa nos trabalhos de consulta e coordenação do BCE e ajuda a preparar a adesão de novos países à zona euro. pessoal técnico e outros especialistas. mas sim dos mercados de capitais. Serviços • Empréstimos: concedidos a programas ou projetos viáveis que necessitem de capital. O BEI não tem fins lucrativos e pratica uma taxa de juro próxima do custo do empréstimo. os bancos centrais nacionais do Eurossistema e os membros dos respectivos órgãos de decisão não podem solicitar ou receber instruções de qualquer outro órgão. instituições de garantia. o aprovisionamento energético ou as normas ambientais. Com efeito. empresas de locação financeira. BANCO EUROPEU DE INVESTIMENTO Os acionistas do Banco Europeu de Investimento (BEI) são os 27 países da UE. Ao conceder empréstimos. tanto no setor público como no privado. em complemento do financiamento do BEI. competitiva e segura Concessão de empréstimos no exterior da UE O BEI apóia as políticas de desenvolvimento e de cooperação da UE nos países parceiros. • Fundos de capital de risco: os pedidos relativos a capital de risco devem ser dirigidos diretamente a um intermediário. É constituído pelo Presidente e pelo Vice-Presidente do BCE e pelos governadores dos bancos centrais dos 27 países da UE. o BEI tem em vista seis objetivos prioritários definidos no seu plano de atividades: • Coesão e convergência • Apoio às pequenas e médias empresas (PME) • Sustentabilidade ambiental • Execução da iniciativa «Inovação 2010» • Desenvolvimento das redes transEuropéias de transportes e energia (RTE) • Energia sustentável. fundos de garantia mútua.

beneficiam de empréstimos do BEI no exterior da UE as seguintes regiões: • Europa do sul e Europa oriental • Países abrangidos pela política de vizinhança: o Países vizinhos do Mediterrâneo o Rússia e países vizinhos a leste • Países abrangidos pela política de cooperação e desenvolvimento: o África. particularmente novas empresas na fase de arranque e no domínio tecnológico. O BEI é o acionista majoritário do Fundo Europeu de Investimento. • recusa em prestar informações. como. por exemplo. na Croácia. • atrasos desnecessários. serviços ou agências da UE não tenham cumprido a lei ou respeitado os princípios orientadores de uma administração sólida ou tenham violado os direitos humanos. Comitê de Auditoria e Comitê de Gestão • Controlo e avaliação – garantir a integridade e a solidez das operações do banco • Organização – serviços e pessoal FUNDO EUROPEU DE INVESTIMENTO O Fundo Europeu de Investimento (FEI) foi criado em 1994 com o objetivo de prestar apoio às pequenas empresas. Conselho de Administração. casos em que instituições. • procedimentos incorretos. Pacífico (e países e territórios ultramarinos) o África do Sul o Ásia e América Latina Estrutura e organização • Acionistas – 27 países da UE • Governação – Conselho de Governadores. juntamente com o qual forma o chamado «Grupo BEI». casos de: • injustiça. O FEI não é uma instituição de crédito: não concede empréstimos ou subsídios às empresas nem realiza investimentos diretos em empresas. • discriminação.Atualmente. órgãos. Missão O Provedor de Justiça Europeu age em resposta a queixas apresentadas quer por cidadãos quer por empresas ou outras entidades da UE. na Turquia e em três países da EFTA (Islândia. serviços e agências da UE. O FEI desenvolve as suas atividades nos Estados-Membros da União Européia. Tem por missão ajudar a desvendar casos de má administração. Caraíbas. . O que faz o Fundo? O FEI financia operações de capital de risco para apoiar pequenas empresas. isto é. Liechtenstein e Noruega). • abuso de poder. PROVEDOR DE JUSTIÇA EUROPEU O Provedor de Justiça Europeu investiga queixas contra instituições. Proporciona também garantias a instituições financeiras (como os bancos) que cobrem créditos a PME. Opera através de bancos e outros intermediários financeiros. órgãos. Recorre aos seus fundos próprios ou aos fundos que lhe são confiados pelo BEI ou pela União Européia.

regionais ou locais dos países da UE (serviços governamentais. • queixas contra empresas ou particulares. MERCADO COMUM DO SUL (MERCOSUL) O MERCOSUL. ex-Provedor de Justiça da Grécia. Ao apresentar uma queixa. Se quiser. para que este tome as medidas políticas necessárias. serviço ou agência da UE. No caso de esta diligência falhar. O que acontece depois de ser apresentada uma queixa O Provedor de Justiça poderá resolver o seu problema limitando-se a informar a instituição. o Provedor de Justiça pode elaborar um relatório especial destinado ao Parlamento Europeu. foi reeleito em Janeiro de 2010 por um mandato de cinco anos. a instituição ou órgão objeto da queixa e descrever o problema. deve começar por lhe dar uma oportunidade para corrigir a situação. deverá indicar claramente a sua identidade (enquanto queixoso). Nikiforos Diamandouros. O atual Provedor. procurará aconselhá-lo quanto à instância que deverá contatar para ajudá-lo. renovável. órgão. se esta já tiver sido objeto de um processo em tribunal –. a Venezuela depende de aprovação dos congressos nacionais para que sua entrada seja aprovada. o Provedor de Justiça pode emitir recomendações dirigidas à instituição em causa no sentido de resolver o problema. pode apresentar uma queixa ao Provedor de Justiça Europeu. Se esta não aceitar as suas recomendações. mais especificamente do parlamento . organismos públicos e autarquias locais). Desde 2006. Nomeação O Parlamento Europeu elege o Provedor de Justiça por um período de cinco anos. serviço ou agência em questão. Se forem necessárias mais medidas. O que o Provedor de Justiça não pode fazer O Provedor de Justiça não pode investigar: • queixas contra autoridades nacionais. P. quer por sua própria iniciativa. O Provedor de Justiça Europeu não é uma entidade de recurso para decisões tomadas por essas entidades. mesmo se a queixa disser respeito a assuntos da UE. pode solicitar que a queixa seja tratada confidencialmente. Em sua formação original o bloco era composto por quatro países: Argentina. que é completamente independente e não aceita ordens de qualquer governo ou entidade. órgão. Se o Provedor de Justiça não puder tratar da sua queixa – por exemplo. pode dar início a um inquérito quer na sequência de uma queixa. Como apresentar uma queixa ao Provedor de Justiça Se não estiver satisfeito com uma instituição. como é conhecido o Mercado Comum do Sul é a união aduaneira de cinco países da América do Sul. Se tal não for suficiente. Brasil. • as atividades dos tribunais ou provedores de justiça nacionais.O gabinete do Provedor de Justiça. Uma vez por ano. apresenta ao Parlamento Europeu um relatório sobre as suas atividades. A queixa ao Provedor de Justiça deve ser apresentada no prazo de dois anos a contar da data em que tomou conhecimento do problema. o Provedor de Justiça procurará encontrar uma solução amigável e satisfatória para o problema. Paraguai e Uruguai.

que estabelecia o Mercado Comum do Sul. Desde a chegada dos espanhóis e portugueses ao continente. embora sua incorporação ao MERCOSUL ainda dependa da aprovação dos congressos nacionais do bloco. assinando a Declaração de Iguaçu (1985). A partir de 1 de janeiro de 1995. palco das mais violentas batalhas do continente americano. entrou em vigor o Protocolo de Olivos (2002). até o momento. O Chile encontra-se em processo de aquisição do status de associado pleno depois de resolver alguns problemas territoriais com a Argentina. Inicialmente foi estabelecida uma zona de livre comércio. visto que os outros três já a ratificaram. na qual todos os signatários poderiam cobrar as mesmas quotas nas importações dos demais países (tarifa externa comum). que criou o Tribunal Arbitral Permanente de Revisão do MERCOSUL. Esse organismo foi sucedido pela Associação Latino-Americana de Integração (ALADI) na década de 1980. No dia 2 de agosto de 2010. com sede na cidade de Assunção (Paraguai). força de trabalho e capitais. nesta região situam-se capítulos fundamentais da emancipação política e econômica dos futuros sócios do MERCOSUL . No ano seguinte. que estabelecia uma comissão bilateral. esta zona converteu-se em união aduaneira. somente a Venezuela levou adiante sua candidatura. HISTÓRIA Antecedentes A América do Sul foi. ao mesmo tempo. Uma prova disso é a criação da Universidade do MERCOSUL. assinado entre ambos os países em 1988. Cooperação e Desenvolvimento. movimentando entre si mercadorias. O Tratado de Integração. Entretanto. à qual se seguiram uma série de acordos comerciais no ano seguinte. os quatro países se tornaram signatários do Tratado de Assunção (1991). uma aliança comercial visando dinamizar a economia regional. mas. a Argentina e o Brasil fizeram progressos na matéria. Com a adesão do Paraguai e do Uruguai. a Bacia do Prata foi cenário das disputas lusoespanholas por território (o território que hoje é o Uruguai já foi espanhol. fixou como meta o estabelecimento de um mercado comum. Em 2004. Muitos sul-americanos vêem o MERCOSUL como uma arma contra a influência dos Estados Unidos na região. Uma das fontes de insegurança jurídica nesse bloco de integração era a falta de um tribunal permanente. foi a vez de o Egito assinar também um ALC. a Bolívia e o Chile adquiriram o status de associados. português. Israel assinou o primeiro acordo de livre comércio (ALC) com o bloco. . No dia 17 de dezembro de 2007. ao qual outros países latinoamericanos poderiam se unir. As discussões para a constituição de um mercado econômico regional para a América Latina remontam ao tratado que estabeleceu a Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC) desde a década de 1960. Outras nações latino-americanas manifestaram interesse em entrar para o grupo. ao longo de cinco séculos. tanto na forma da Área de Livre Comércio das Américas quanto na de tratados bilaterais. em que os países signatários não tributariam ou restringiriam as importações um do outro.paraguaio. À época. pessoas. novamente espanhol e brasileiro). que vai priorizar a integração regional no modelo de educação.

a independência da República Oriental do Uruguai. consecutivamente. o presidente do Brasil. Esse foi o sinal de aceitação da iniciativa argentina e então começava a formação do acordo. o presidente brasileiro José Sarney e o presidente argentino Raúl Alfonsín assinaram a Declaração de Iguaçu. Para cidades como Buenos Aires. Esse foi o início de uma relação que estava destinada a crescer cada vez mais. Depois de poucas semanas. a idéia de integração na América do Sul parecia mais uma abstração.Uruguai. a Argentina declara a intenção de uma "associação preferencial" com o Brasil. a Espanha organizou o sistema comercial de suas colônias em torno do esquema de "frotas e galeões". a disputa entre unitários e federalistas na Argentina e a Guerra do Paraguai: alianças. Brasil e Argentina tentaram a criação de uma União Aduaneira entre as suas economias. ocorreram importantes capítulos da história do Brasil. No século XIX. Com o fim da guerra. a Revolução Farroupilha. devido as várias experiências mal sucedidas no passado. Havia uma grande necessidade de investimentos nos países. Paraguai e Uruguai. Ambos acabavam de sair de um período ditatorial e enfrentavam a necessidade de reorientar suas economias para o mundo exterior e globalizado. Para enfrentar esse confinamento econômico. em plena Segunda Guerra Mundial. Argentina. A discussão dura dois dias e acontece em clima de troca de idéias e posições quanto ao estatuto da economia da zona. houve uma reunião para discutir o assunto. Declaração de Foz do Iguaçu Sede do MERCOSUL em Montevidéu. Esta situação comum fez com que ambos percebessem a necessidade mútua. Os dois países haviam contraído uma grande dívida externa no período dos governos militares e não gozavam de crédito no exterior. que foi a base para a integração econômica do chamado Cone sul. isso não se concretizou devido às diferenças diplomáticas dos países em relação às políticas do Eixo. é o Brasil que convida a Argentina para uma reunião semelhante. entretanto essa foi diferente. autorizando somente a alguns portos o direito de enviar ou receber mercadorias originárias dessas colônias. e o da Argentina. fundada em 1580. a população de Buenos Aires percebeu a única saída possível: o intercâmbio comercial (ainda que ilegalmente) com o Brasil. o processo de emancipação política da América do Sul acentuou os contrastes existentes entre os países da região. também em uma residência particular. pela primeira vez. entretanto na América Latina não houve uma união que tenha obtido resultados satisfatórios. com objetivo de promover o desenvolvimento econômico de ambos os países e integrá-los ao mundo. após o ataque a Pearl Harbor. Porém. assinaram a Ata de Buenos Aires de integração . Para muitos. Logo após a assinatura da declaração de Iguaçu. em fevereiro de 1986. intervenções e conflitos que forjaram o contexto histórico de formação dos estados nacionais platinos. Tratado de Assunção Em 6 de julho de 1990. esse sistema ameaçava o desenvolvimento econômico da região. Em 1941. Neste período. Em dezembro de 1985. Em uma casa particular em Don Torcuato. Carlos Menem. a necessidade de interação entre as nações se tornou iminente e. Guerra Grande uruguaia. mas não havia verbas. em Itaipava. Basta citar a Guerra da Cisplatina. a formação dos blocos econômicos.Durante os séculos XVI e XVII. Fernando Collor.

econômica entre os dois países e. Membros O MERCOSUL tem como Estados Associados Bolívia (1996). formando então o popularmente conhecido MERCOSUL. O GMC se pronuncia por . entre a Argentina. no seu artigo 1°. órgão supremo cuja função é a condução política do processo de integração. político e comercial do MERCOSUL na metade de 2006. o Protocolo de Ouro Preto foi assinado como um complemento do Tratado. por delegação expressa do CMC. estes quatro países compõem o MERCOSUL como Estados-membros. estabelecendo que o Tratado de Assunção fosse reconhecido jurídica e internacionalmente como uma organização. O status de Estado Associado é atribuído por Decisão do Conselho do Mercado Comum. Colômbia. Brasil. firmado em 17 de dezembro de 1994 e vigente desde 15 de dezembro de 1995. a assinatura prévia de Acordos de Complementação Econômica (ACEs). Equador e Peru. para a constituição do MERCOSUL. O Tratado de Assunção foi um tratado assinado em 26 de março de 1991. Há alguns anos. O CMC é formado pelo Ministros de Relações Exteriores e de Economia dos estados-partes. os Estados Associados também podem ser signatários de Acordos sobre matérias comuns. Mercado comum do sul. Atualmente. Equador. foi assinado o Tratado de Assunção. em 1991. a Decisão CMC N° 18/04. Para aceder a esse status. órgão decisório executivo. Colômbia e Peru integram a Comunidade Andina (CAN). que dispõe sobre a admissão de novos Estados Associados no MERCOSUL. o MERCOSUL tem uma estrutura institucional básica composta por: O Conselho do Mercado Comum (CMC). instrumentos bilaterais firmados entre o MERCOSUL e outros membros da ALADI. O Grupo Mercado Comum (GMC). Chile (1996). Com base no Protocolo de Ouro Preto. que se pronunciam através de decisões. Fonte: Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Além de poder participar na qualidade de convidado nas reuniões dos organismos do MERCOSUL. (CMC nº 29/2005) Estrutura institucional Estrutura organizacional do MERCOSUL. Chile. a Venezuela solicitou a entrada como membro pleno no MERCOSUL. em 1994. em complemento a este. e de negociar acordos com terceiros em nome do MERCOSUL. Uma vez que a Venezuela adotou o marco legal. Colômbia (2004) e Equador (2004). Durante a XXIX Conferência do MERCOSUL em Montevidéu no dia 9 de dezembro de 2005. exige. com a entrada do Uruguai e Paraguai. A Venezuela ratificou o protocolo de entrada em 4 de julho de 2006. Mais tarde. responsável de fixar os programas de trabalho. Nesses acordos se estabelece um cronograma para a criação de uma zona de livre comércio com os Estados Partes do MERCOSUL e uma gradual redução de tarifas entre o MERCOSUL e os Estados signatários. se outorgou em status de Estado associado em processo de adesão. Bolívia. com o objetivo de estabelecer um mercado comum entre os países acordados. que em na prática significa que tinha voz mas não voto. Há ainda estados associados. bloco com que o MERCOSUL também firmará um acordo comercial. Peru (2003). que são cinco: Bolívia. firmou-se o protocolo para converter-se em Estado associado. Paraguai e Uruguai.

A estrutura do MERCOSUL também comporta órgãos específicos de Solução de Controvérsias. Disposições e Recomendações. órgão de representação parlamentar. a saber: A Comissão Parlamentar Conjunta (CPC). através da Dec. integrada por até 64 parlamentares. Além disso. mas ad hoc. e Reuniões ad-hoc. e de formulação de Declarações. de acordo com a Resolução GMC Nº 01/03 do Grupo Mercado Comum. Sua função principal é apresentar iniciativas ao CMC sobre temas relativos ao processo de integração. a) Anexo III do Tratado de Assunção A principal característica do sistema de solução de controvérsias do MERCOSUL é o fato de ele não ser institucional. que tem caráter permanente e está sediada em Montevidéu. está estudando a possibilidade da futura instalação de um Parlamento do MERCOSUL. o MERCOSUL conta com outros órgãos consultivos. A CPC tem um caráter consultivo. O MERCOSUL conta também com instâncias orgânicas não decisórias como A Comissão Sociolaboral (CSL). Solução de controvérsias O mecanismo de solução de controvérsias do MERCOSUL. um órgão decisório técnico. os Comitês Técnicos (CT) dependentes do CCM. Nº 11/03. Uruguai. integrado por representantes de cada Estado Parte e presidida por uma personalidade política destacada de um dos países partes. . Pronuncia-se por Diretivas. o Observatório do Mercado de Trabalho (OMT) dependente do SGT10. Esta primeira fase de funcionamento do órgão. e dos Bancos Centrais dos Estados Parte. e d) o Protocolo de Olivos. e o Fórum da Mulher em âmbito do FCES. é o responsável por apoiar o GMC no que diz respeito à política comercial do bloco. conferências. Além disso. regulado pelo Tratado de Assunção. como os Tribunais Ad hoc e o Tribunal Permanente de Revisão. passou por quatro fases distintas até chegar a configuração atual: a) o anexo III do Tratado de Assunção. A Comissão de Comércio do MERCOSUL (CCM). O Foro Consultivo Econômico Social (FCES). o Fórum de Consulta e Concertação Política (FCCP). Finalmente o MERCOSUL funciona habitualmente mediante Reuniões de Ministros (RM). e está integrado por representantes dos Ministérios de Relações Exteriores e de Economia. a Secretaria está dividida em três setores. c) o Protocolo de Ouro Preto. 16 de cada Estado Parte. as negociações externas e a conformação do Mercado Comum. deliberativo. Para dar apoio técnico a essa Estrutura Institucional. os Subgrupos de Trabalho (SGT) dependentes do GMC. que é um órgão permanente do CMC. constituiu-se recentemente a: Comissão de Representantes Permanentes do MERCOSUL (CRPM). o MERCOSUL conta com a: Secretaria do MERCOSUL (SM). iniciou-se em 1994 e possuía prazo de vigência durante a transição do MERCOSUL. Reuniões Especializadas (RE). b) o Protocolo de Brasília. Atualmente. que se manifesta por Recomendações ao GMC. Atualmente. é um órgão consultivo que representa os setores da economia e da sociedade. os Grupos de Alto Nível.Resoluções.

a intervenção do Grupo Mercado Comum e o Procedimento Arbitral. que presidirá o tribunal. devendo ser cumpridos em um prazo de quinze dias desde que o tribunal não estipule outro. a controvérsia seria encaminhada ao Grupo Mercado Comum (GMC). que devera atuar como mediador entre as partes e apresentar propostas ou recomendações para que se encerre o litígio em um prazo não superior a 30 dias. para apresentar uma solução em 60 dias. Os acordos celebrados no âmbito do Tratado de Assunção. O terceiro árbitro. apesar do laudo criar uma força obrigatória. acabou virando definitiva e sofreu algumas alterações posteriormente. Caso não se encerre o litigo. No fim. em um procedimento confidencial. O procedimento arbitral tem caráter jurídico e surge quando se instaura o Tribunal Ad hoc.Nesta fase o mecanismo de solução de controvérsias possuía o seguinte funcionamento: Qualquer controvérsia que surgir entre Estados-membros será resolvida através de negociações diretas. o tribunal deve dar a decisão do caso por escrito em um prazo de sessenta dias (prorrogáveis por mais trinta) que inicia a sua contagem quando o Presidente do Tribunal for designado. será designado em comum acordo pelas partes e não poderá ser nacional de nenhuma dos Estados envolvidos no litígio. passase par a terceira e última fase: a arbitragem. As decisões do Conselho do Mercado Comum. tal não deve ser confundida com uma força executória. Apesar do mecanismo ser criado para solucionar as controvérsias dos Estados membros do bloco. O Protocolo de Brasília define os seguintes casos a serem de competência de análise do órgão de solução de controvérsias: As controvérsias que surgirem entre os Estados Partes sobre a interpretação. Este será composto de três árbitros que decidirão com base nas fontes normativas internacionais elencadas no protocolo de Brasília. é permitido que particulares iniciem o procedimento. cada Estado parte na controvérsia indicará um árbitro para compor o tribunal. qualquer das partes poderá encaminhar ao Grupo Mercado Comum. e As resoluções do Grupo Mercado Comum. Cada Estado é obrigado a indicar dez árbitros para integrar uma lista registrada na Secretaria Administrativa do MERCOSUL. como bem destaca Hildebrando Accioly e Nascimento e Silva: essa força . mas fundamentado. b) Protocolo de Brasília A segunda fase. o Conselho do Mercado Comum (CMC) se manifestará sobre a disputa. Se o GMC não encontrar solução. Caso não surja nenhuma solução. A negociação direta objetiva resolver os conflitos de forma mais eficiente. Este laudo é inapelável e cria obrigação para os Estados partes da litigância. Desses. No Protocolo foram previstas três fases de procedimentos para solucionar as controvérsias: negociações diretas. a aplicação ou o não cumprimento das disposições contidas no Tratado de Assunção. que teria uma função transitória. Todavia. Caso as partes não encontrassem solução. O laudo arbitral será adotado por maioria.

O tribunal é composto por cinco árbitros. b) intervenção do Grupo Mercado Comum. Mas a principal inovação foi a criação do Tribunal Arbitral Permanente de Revisão do MERCOSUL. Apesar do Tribunal Ad hoc. f) cumprimento do laudo pelo Estado obrigado. não obrigatório. Dois membros continuam sendo nacionais dos Estados envolvidos no conflitos. perante um Tribunal Permanente de Revisão. que. para que este decida a controvérsia. mas passam a ser escolhidos em uma lista de 48 nomes em que apenas 12 são indicados pelo Estado parte. c) o sistema continua sendo provisório. continuar formado por três membros. g) revisão do cumprimento. devido à ausência de uma autoridade internacional à qual incumba assegurar a execução das decisões arbitrais. c) arbitragem ad hoc. cabe às partes acionar o mecanismo arbitral previsto no Protocolo de Brasília. d) Protocolo de Olivos Este Protocolo que começou a vigorar em 2004. c) Protocolo de Ouro Preto O Protocolo de Ouro Preto. Se não houver consenso novamente com a decisão tomada. não obrigatória e dependente da solicitação de um Estado Parte. das medidas compensatórias aplicadas. O terceiro membro do tribunal é escolhido em uma lista em que cada Estado indica quatro candidatos de outro Estado. A parte derrotada só resta solicitar em um prazo de quinze dias algum esclarecimento sobre o laudo. visando a elucidar eventual ponto obscuro do laudo. . esta remeterá os antecedentes a um Comitê Técnico. Este mesmo autor expõe segundo o Protocolo as fases estabelecidas por este para a solução de controvérsias: a) negociações diretas entre os Estados Partes.obrigatória não deve ser confundida com a força executória. inexistindo uma instância judicial supranacional. criou um procedimento geral para propor reclamações na Comissão de Comércio do MERCOSUL. não existe. atualmente regula o mecanismo de Solução de Controvérsias do MERCOSUL. e) recurso de esclarecimento. h) adoção de medidas compensatórias pelo Estado beneficiado. O Estado Parte poderá reclamar perante a presidência da Comissão e caso ela não adote uma decisão na reunião. e deverá ser novamente modificado quando ocorrer o processo de convergência da tarifa externa comum. é permitido que os Estados assumam medidas compensatórias temporárias visando o cumprimento do laudo. o parecer e as conclusões ao Grupo Mercado Comum. Se não for possível estabelecer uma solução a Comissão deve encaminhar as propostas. em caso de não-cumprimento do laudo. d) recurso. Pelo fato de não existir esta força executória. por três árbitros. pelo Estado obrigado. o procedimento de escolha dos árbitros foi alterado. Primeiramente deve-se assinalar quais foram as características mantidas do sistema original e podem ser expostas de forma sintética por Welber Barral: a) a resolução das controvérsias continuará a se operar por negociação e arbitragem. na verdade. a pedido do Estado beneficiado. naquelas matérias que forem de competência deste órgão. b) os particulares continuarão dependendo dos governos nacionais para apresentarem suas demandas. sendo que pelo menos um deles deve ser oriundo de países não pertencentes ao MERCOSUL. ou com este deverá ser cumprido. O Comitê Técnico fará um parecer sobre a litigância e encaminhá-lo-á para a Comissão de Comércio. i) recurso.

As demandas deste tribunal são limitadas as questões de direito julgadas pelo Tribunal ad hoc e serão julgadas por três árbitros quando a demanda envolver dois Estados. ou pelos órgãos decisórios do MERCOSUL. Medidas Excepcionais e de Urgência: antes do início de uma controvérsia. A última novidade que se aponta é que o Conselho do Mercado Comum passa a possuir a faculdade de criar mecanismos discricionários para solucionar disputas envolvendo aspectos técnicos regulados por instrumentos de políticas comerciais comuns. sem exigência de outro requisito além da própria nacionalidade. Por fim. b) pelos Tribunais Superiores de Justiça dos Estados Partes. De forma igualmente simples. 3. mediante o "Acordo sobre Residência para Nacionais dos Estados Partes do MERCOSUL. 5. Opiniões Consultivas: podem ser solicitadas ao TPR. Bolívia e Chile estabeleceram que todo esse território constitui uma Área de Livre Residência com direito ao trabalho para todos seus cidadãos. Migração interna O MERCOSUL. Controvérsias entre Estados Partes: o Estado ou o particular pode apresentar a reclamação. ou cinco quando houver mais de dois Estados envolvidos na demanda. ou do TPR serão obrigatórios para os Estados Partes na controvérsia e quando ficarem firmes serão irreversíveis e formarão coisa julgada. a residência temporária. o laudo pode ser recorrido pelas partes ao TPR. quando se tratar sobre a interpretação do Direito do MERCOSUL. natos ou naturalizados há pelo menos cinco anos. Os laudos do TAHM. para evitar danos irreparáveis para uma das partes. Recurso de Revisão: na hipótese de iniciar o litígio no TAHM. O Protocolo de Olivos faculta as partes escolher o foro que ocorrerá a solução de controvérsias até antes do início do procedimento. Bolívia e Chile" assinado em6 de dezembro de 2002. pode se transformar em residência permanente com a mera comprovação de meios de vida lícitos para o sustento próprio e familiar. 4. podem iniciar o procedimento diretamente ao TPR. ou b) Por comum acordo. tendo como exigências o passaporte válido. dependendo do país. terão um processo simplificado na obtenção de residência temporária por até dois anos em outro país do bloco. 2. opiniões consultivas não são vinculantes: a) pelas partes de forma conjunta. pode-se resumir o funcionamento atual do órgão de solução de controvérsias do MERCOSUL: 1. certificado médico de autoridade migratória. .incluindo um que seja nacional de cada Estado parte. Para isso. sem necessidade de vistos ou emaranhadas burocracias. há duas possibilidades: a) A na controvérsia podem estabelecer o litígio junto ao TAHM. A Área de Livre Residência foi estabelecida na reunião de cúpula de Presidentes em Brasília. pode se solicitar ao TPR que dite uma medida provisória. Cidadãos de quaisquer países do MERCOSUL. certidão de nascimento. no decurso do prazo. certidão negativa de antecedentes penais e. evitando decisões de outras organizações internacionais divergentes sobre o mesmo assunto.

Embora a Área de Livre Residência e Trabalho não se suporte completamente à livre circulação de pessoas (onde não se requer tramitação migratória alguma). e foi negociado durante dois anos. do direito de reunião familiar de transferência de recursos. o Acordo faz avanços em duas áreas importantes: a trabalhista e a educacional. tendo assim expresso. O tratado é favorável a Colômbia. Este foi o primeiro TLC do Bloco com um país de fora da América do Sul desde sua fundação. também será obrigado em relação a qualquer cidadão dos países do MERCOSUL que habite seu país. o presidente colombiano Álvaro Uribe firma a Lei 1. Em novembro de 2005 o Congresso Colombiano ratificou um Tratado de Livre Comércio (TLC) com o MERCOSUL. Além do acesso ao MERCOSUL para os produtos Colombianos. Tratado de livre comércio com Israel No dia 17 de dezembro de 2007. segundo o custo estabelecido no Tratado de Livre Comércio. Com este novo acordo. já que permite a este país implantar instrumentos de proteção a agricultura local. Existe ainda uma importante separação entre empregadores desonestos e direitos dos empregados: a migração forçada trará conseqüências aos empregadores. para uma real formação comunitária. Ainda como ganho humano do Acordo está a relação educacional dos filhos dos imigrantes ao amparo do Acordo. os produtos colombianos conseguiram um acesso preferencial ao MERCOSUL. No caso dos direitos trabalhistas. estabelecido no Acordo de Complementação Econômica firmado entre a Comunidade Andina e o MERCOSUL. uma vez que a Colômbia obteve a oportunidade de importar matérias primas e bens de capital do MERCOSUL a custos mais baixos.direito de ir e vir. para a criação de uma zona de livre comércio entre a Comunidade Andina e o MERCOSUL. inserindo-os em igualdade de condições com os nacionais do país de recepção. mas não afetará os direitos dos trabalhadores migrantes. Em 30 de dezembro de 2005. ao trabalho. Isso indica que a mesma garantia que um Estado é obrigado a dar a seus cidadãos. que aumenta o peso político da Colômbia nas negociações de livre comércio que estão sendo tratadas atualmente com os Estados Unidos. Além das liberdades civis .000. além da facilidade de entrada. à associação. RELAÇÕES INTERNACIONAIS Acordos de livre-comércio Existe um acordo com a Comunidade Andina. Além da cooperação econômica também existe um diálogo político que abre possibilidades de negociação com todo os membros do bloco Andino. os presidentes dos países partes do MERCOSUL assinaram um Tratado de Livre Comércio (TLC) com Israel. durante a XXXIV reunião de cúpula do Mercado Comum do Sul e Estados associados realizada em Montevidéu. além do compromisso de acordos de reciprocidade em legislação previdenciária. ao culto e outros. . os sete países deram um grande passo e demonstraram a intenção de alcançar a plena liberdade de circulação de pessoas em todo o território.A simplicidade visa salientar um intercâmbio entre os países. existe uma clara definição de igualdade na aplicação da legislação trabalhista. a garantia de direitos fundamentais de todos os que migrarem de um país a outro.

. O Estado tal como o conhecemos hoje em dia é o resultado de longa evolução. grãos. que se encontra em processo de conversão em associado pleno. como. A maior parte das exportações do bloco entrará no país árabe livre de alíquotas de exportação. os domínios britânicos antes de serem reconhecidos como Estados. que em sua concepção original atribuía a noção de sujeito do DI apenas aos Estados. 8 e 10 anos). Acresce que os países socialistas. Tratado de livre comércio com Egito No dia 2 de agosto de 2010. calçados. aliás. Dentre os sujeitos cumpre citar ainda o indivíduo. e a individualista ou realista. para a qual o destinatário do DI.471 bilhões. de todos os ramos do direito. os presidentes dos países do MERCOSUL assinaram um Tratado de Livre Comércio (TLC) com o Egito. O acordo não inclui a Venezuela. defendem a tese de que os Estados continuam a ser os únicos sujeitos do direito internacional e que os direitos e os deveres de natureza internacional desfrutados pelas organizações internacionais decorrem exclusivamente da vontade dos Estados.Foi promulgado no dia 28 de abril de 2010 pelo presidente Lula. segundo dados divulgados pelo Ministério de Indústria da Argentina. automóveis. O ESTADO EM DIREITO INTERNACIONAL CAPÍTULO 1 . embora não seja o único. a personalidade internacional das Nações Unidas e de determinadas organizações internacionais não é contestada. mas como sujeito direto. O tratado cobre 90% do fluxo comercial. agroquímicos e produtos de alta tecnologia. por exemplo. 4. os movimentos de libertação internacional. O acordo abrirá um mercado de 76 milhões de consumidores para produtos primários e industrializados do bloco sul-americano. Os principais produtos de exportação do MERCOSUL são commodities. o DIP se ocupava exclusivamente dos Estados. Atualmente.Até janeiro de 2009 ainda se encontrava à espera de ratificação.ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO ESTADO O Estado é o sujeito por excelência do DIP. como. com apoio de parte da doutrina. durante a reunião de cúpula do Mercado Comum do Sul e Estados associados realizada na cidade de São João (Argentina). já Israel exporta software. Outras entidades têm sido mencionadas. maquinaria pesada e aviões. Prevê-se que o intercâmbio comercial entre o MERCOSUL e Israel fique em torno de 5 bilhões de dólares em 2017. só pode ser o indivíduo. não como sujeito indireto de direitos e deveres internacionais. com um cronograma de quatro fases para remoção de restrições (imediata. Durante uns trezentos anos. O Egito é um país estritamente importador e registrou em 2008 um déficit comercial de US$ 23. OS SUJEITOS DO DIREITO INTERNACIONAL Dois enfoques existem na determinação dos sujeitos do DI: a clássica.

o adjetivo determinado não significa que o território deve estar perfeitamente delimitado. Pode-se definir o Estado como sendo um agrupamento humano. na prática a atribuição da qualidade de Estado a determinada coletividade pode ser motivo de discussão. é a expressão demográfica. o status de Estado tem sido atribuído sem maiores exigências. que a existência econômica da coletividade não pudesse ficar na dependência de outro ou outros Estados. ou seja. constata-se que. e geralmente falam a mesma língua. A Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas prevê no preâmbulo que a Convenção “contribuirá para o desenvolvimento de relações amistosas entre as Nações. contudo. a partir do momento em que passa a ter direitos e deveres internacionais.mas o DI dele só se ocupa a partir de sua incorporação à comunidade internacional. O terceiro e o quarto elementos constitutivos do Estado — governo e capacidade de manter relações com os demais Estados — se completam. ou seja. designa um conjunto de pessoas ligadas pela consciência de que possuem a mesma origem. com o conceito amplo dado à noção de autodeterminação pelas Nações Unidas. que habitam o território em determinado momento histórico. c) governo. Mas se teoricamente a existência do Estado está ligada à existência dos elementos constitutivos. a extensão territorial não influi sobre a personalidade internacional do Estado. Antes da segunda guerra mundial. de um governo não subordinado a qualquer autoridade exterior e cujos únicos compromissos sejam pautados pelo próprio DI. exigia-se uma população mínima e um território razoável e. conforme alguns poucos internacionalistas sustentam. Em português. firmada em Montevidéu. conforme estabelece a Convenção Interamericana sobre os Direitos e Deveres dos Estados. Em outras palavras. estabelecido permanentemente num território determinado e sob um governo independente. povo em oposição a governo. Não deve ser confundida com a palavra povo. é necessária a existência de um governo soberano. d) capacidade de entrar em relação com os demais Estados. em 1933. A exigência de um território determinado não deve ser entendida em sentido absoluto. Em decorrência do princípio da igualdade jurídica dos Estados. Em inglês a palavra nação é utilizada como sinônimo de Estado. tem uma acepção específica. contudo. CAPÍTULO 2 . nacionais e estrangeiros. tradições e costumes comuns. Por população entendemos a massa de indivíduos.CLASSIFICAÇÃO DOS ESTADOS . ou seja. b) território determinado. o que explica as expressões Liga das Nações e Organização das Nações Unidas. teoricamente. que tem um sentido sobretudo social. Dispositivos semelhantes foram incluídos nas convenções multilaterais assinadas posteriormente em matéria consular e de tratados. isto é. sobretudo. são quatro os elementos constitutivos do Estado. independentemente da diversidade dos seus regimes constitucionais e sociais”. Atualmente. quantitativo. um conceito aritmético. ou uma parte da coletividade determinada pelo aspecto social. ou seja. A facilidade com que as Nações Unidas admitiram como membros alguns Estados como que criou verdadeiros Estados-mendigos. que indica os seguintes requisitos: a) população permanente. que só sobrevivem graças à assistência financeira da coletividade internacional. Da análise desta definição.

Trata-se da forma mais comum de Estado. Representam um todo homogêneo e indivisível. Por sua natureza. mas. Seja como for. enquanto o poder soberano é investido num órgão central. conservam apenas uma autonomia de ordem interna. Bélgica e Congo (de 1885 a 1908). a união real e a confederação de Estados. que conservam a sua plena autonomia interna. sob o mesmo monarca ou chefe de Estado. ou seja. Pondo de lado as classificações embasadas no poder (grandes. em pé de igualdade. esse tipo de Estado composto quase só se pode conceber sob a forma monárquica. constatamos que o DI se interessa na razão de sua personalidade internacional. Seção 1 . de sua capacidade de exercer os direitos e as obrigações por ela enunciados. no tocante às relações exteriores. em Estados simples e Estados compostos. Ao se iniciar a guerra de 1939. ou seja. mas nos quais parte deles se achavam sujeitos a um regime especial. pode dizer-se. “mas somente com aquelas cujos poderes governamentais se estendem à direção de suas relações externas”. No verdadeiro Estado simples. no grau de desenvolvimento (desenvolvidos ou industrializados e Estados em desenvolvimento) em democracias e ditaduras. delegam a um órgão único os poderes de representação externa e. Entre os antigos casos de união pessoal. verifica-se que a maioria dos autores se ocupam da classificação dos Estados em base a sua estrutura.O primeiro princípio da Carta das Nações Unidas é que “a Organização é baseada no princípio da igualdade soberana de todos os seus membros”. que o único caso existente de união real era o da Dinamarca e Islândia (constituída . terminaram com as Nações Unidas e a outorga da independência aos territórios sem governo próprio. sendo o tipo existente na maioria dos Estados latino-americanos. mas na prática verificamos que esta igualdade assume diversos aspectos. podem mencionar-se os seguintes: Lituânia e Polônia (de 1386 a 1569). de dois ou mais Estados soberanos. União real — É a reunião. rigorosamente falando. geralmente.Estado simples Os Estados simples são para o DI os plenamente soberanos em relação aos negócios externos e sem divisão de autonomias no tocante aos internos. Dessa dupla categoria de Estados compostos por coordenação. Seção 2 . Brierly salienta acertadamente que o direito internacional não se ocupa com todas as instituições genericamente denominadas Estados. Holanda e Luxemburgo (de 1815 a 1890). Dele não existe mais exemplo. 2) a união federal. sem a existência de colônias e protetorados. sob a autoridade de um soberano comum.Estados compostos por coordenação O Estado composto por coordenação é constituído pela associação de Estados soberanos ou pela associação de unidades estatais que. fundem todos os interesses comuns. Os Estados simples. pequenos e médios). isto é. por acordo mútuo. podem mencionar-se como exemplos: 1) a união pessoal. Grã-Bretanha e Hanôver (de 1714 a 1837). todas as frações se encontram em pé de igualdade. União pessoal — E a reunião acidental e temporária de dois ou mais Estados independentes.

em 1918), porque a união entre a Itália e a Albânia, estabelecida em 1939, colocara esta última em estado de completa subordinação em relação à outra parte, o que é contrário à natureza desse tipo de Estado composto, o qual se baseia na igualdade das partes componentes. Presentemente, já não existe caso algum de união real. O último foi o da Indonésia com a Holanda, sob o cetro da rainha da Holanda. Como exemplos históricos de união real, mencionam-se os seguintes: Polônia e Lituânia (de 1569 até as partilhas da Polônia no fim do século XVIII); Suécia e Noruega (de 1814 a 1905); Áustria e Hungria (de 1867 a 1919); Dinamarca e Islândia (de 1918 a 1944). Confederação de Estados — E uma associação de Estados soberanos, que conservam integralmente sua autonomia e sua personalidade internacional e, para certos fins especiais, cedem permanentemente a uma autoridade central uma parte de sua liberdade de ação. Esses fins especiais são, geralmente: a manutenção da paz entre os Estados confederados; a defesa destes; a proteção dos interesses comuns. A autoridade central, que, às vezes, é o único órgão comum da confederação, tem quase sempre o nome de Dieta. Esta não constitui um governo supremo, mas apenas uma assembléia de plenipotenciários dos governos dos Estados confederados. As suas decisões são adotadas por unanimidade e só podem ser executadas por intermédio do governo diretamente interessado. Tais são as características teóricas desse tipo de união de Estados. Na prática, entretanto, ele apresenta algumas variedades. Atualmente, não há exemplo algum vigente de confederação de Estados. Como exemplos históricos, citam-se os seguintes: a Confederação Helvética (de 1291 a 1848); a República das Províncias Unidas dos Países Baixos (de 1579 a 1795); os Estados Unidos da América ou Confederação Americana (de 1781 a 1789); a Confederação Germânica (de 1815 a 1866); a União Centro-americana (de 1895 a 1898). Seus Estados-membros são plenamente soberanos e se acham associados em pé de perfeita igualdade, especialmente para fins de natureza política. O símbolo dessa livre associação de povos é a Coroa Britânica. Estado federal ou federação de Estados — E a união permanente de dois ou mais Estados, na qual cada um deles conserva apenas sua autonomia interna, sendo a soberania externa exercida por um organismo central, isto é, pelo governo federal, plenamente soberano nas suas atribuições, entre as quais se salientam a de representar o grupo nas relações internacionais e a de assegurar a sua defesa externa. Nesse tipo de união de Estados, a personalidade externa existe somente no superestado, isto é, no Estado federal. Os seus membros, ou seja, os Estados federados, possuem simplesmente a autonomia interna, sujeita esta, entretanto, às restrições que forem impostas pela constituição federal. Existe, pois, nesse tipo de Estado composto uma partilha de atribuições do poder soberano, cabendo, porém, sempre ao Estado resultante da união, o exercício, conforme ficou dito, da soberania externa. Como exemplos de federações, podem mencionar-se os seguintes: a) Estados Unidos da América (a partir da entrada em vigor, em 1789, da constituição adotada, dois anos antes, na convenção de Filadélfia); b) a Suíça (desde a constituição de 1848); c) o Império Alemão (de 1871 a 1919); d) a

República Federal Alemã (desde 1949); e) o México (desde 1875);f) a Argentina (desde 1860); g) a Venezuela (desde 1893); h) a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (desde 1923) — além de alguns dos domínios britânicos (o Canadá, a Austrália). O Brasil é Estado federal desde a Constituição de 24 de fevereiro de 1891. Seção 3 - Estados compostos por subordinação O DI estudava não só os Estados plenamente soberanos, mas também alguns outros tipos de uniões em que os integrantes não se achavam em pé de igualdade, ou não possuíam plena autonomia, ou se achavam despidos do gozo de determinados direitos, entregues a outros. Eram os Estados vassalos, protetorados ou Estados clientes, hoje inexistentes, cujo estudo pode ser feito a título de curiosidade histórica. Os Estados vassalos eram fenômeno típico do Império Otomano, que mantinha sob o regime países como a Moldávia, Valáquia, Sérvia, Montenegro e Bulgária. Podiam ser definidos como entidades cuja autonomia interna era reconhecida pelo Estado suserano, o qual os representava do ponto de vista externo e lhes exigia ainda o pagamento de um tributo. O protetorado é uma versão mais moderna do Estado vassalo em que um Estado, em virtude de um tratado, entrega a administração de certos de seus direitos a um ou vários Estados mais fortes e poderosos. Citam-se como exemplos o Marrocos e a Tunísia, sob a proteção da França; Abissínia, da Itália. No protetorado ocorria um capitis diminutio voluntária, geralmente em virtude de um tratado; o Estado conservava sua personalidade internacional; não era parte do território do Estado protetor, e os súditos mantinham a sua nacionalidade. Os Estados clientes (ou quase-protetorados) apenas confiavam a outro Estado a defesa de determinados negócios. Esses, mantendo intacta a sua personalidade internacional. Surgiram principalmente no início do século XX, quando os Estados Unidos, de conformidade com a política do big-stick de Theodore Roosevelt, intervieram em alguns países onde imperavam situações caóticas, beirando a anarquia: Cuba (1901 e 1934), Panamá (1903), República Dominicana (1907), Haiti (1915), Filipinas (1934-1946). A intervenção do Japão na Mandchúria em 1932 tem certa semelhança com as citadas anteriormente. A relação da URSS com os chamados países satélites, como a TchecoEslováquia, a Polônia, a Hungria, a Romênia e a Bulgária, também tem alguma analogia: o controle destes na área militar, econômica e comercial não foi em decorrência de tratado aceito livremente, tanto assim que com o desmoronamento da Rússia Soviética os países em questão trataram de romper as suas relações de subordinação. Seção 4 - O sistema internacional de tutela A Carta das Nações Unidas nos artigos 75 a 85 criou o sistema internacional de tutela, uma adaptação do sistema dos países sob mandato criado pela Liga das Nações, que entregou a administração de algumas províncias do Império Otomano ou das antigas colônias do Império Germânico a alguns dos países vencedores da primeira guerra mundial. Dividiram-se em três classes, sendo que os da classe A, todos eles antigas províncias da Turquia, foram considerados aptos a adquirir a independência, que, contudo, só foi alcançada depois da segunda guerra mundial. Contrariamente ao que

ocorreu na época da Liga das Nações, quando os territórios sob mandato foram tratados como meras colônias, as Nações Unidas cedo demonstraram o seu empenho em tornar os territórios tutelados o mais breve possível mediante o seu ingresso na própria organização. Com a extinção do último território tutelado, o sistema, bem como o Conselho de Tutela, perdeu a sua razão de ser. O Sudoeste africano — a Namíbia —, antiga colônia alemã, foi entregue à África do Sul, que se recusou a transformá-lo em território tutelado, incorporando-o de fato ao seu território. Finalmente, depois de inúmeras resoluções da Assembléia Geral das Nações Unidas e alguns pronunciamentos da CIJ, a África do Sul concordou em reconhecer a sua independência. Capítulo 3 - NASCIMENTO DE ESTADO As guerras foram tradicionalmente fator de nascimento de um Estado, não só as guerras de independência, mas também como consequência indireta da conflagração, a exemplo do que ocorreu depois da primeira guerra mundial, quando os Impérios Germânico, Austro-Húngaro e Otomano se esfacelaram com o consequente surgimento de inúmeros novos Estados. Na segunda guerra mundial, verificou-se o fenômeno inverso: os novos Estados surgiram em detrimento das potências vencedoras, cujas colônias foram adquirindo aos poucos a respectiva independência, graças à aplicação do princípio da autodeterminação pela Assembléia Geral das Nações Unidas. O Estado nasce em decorrência da reunião de determinados elementos constitutivos, conforme foi visto. A simples reunião desses elementos não acarreta a formação de fato do Estado; é necessário que haja um elemento de conexão entre eles, isto é, que haja condições propícias de afinidades. Dentre os modos de formação de Estado, cita-se em primeiro lugar o estabelecimento permanente de uma população num território determinado. Em tese, tratar-se-ia de um território desocupado ou então habitado por povos primitivos. A formação de um Estado pode ocorrer de três maneiras: 1) separação de parte da população e do território de um Estado, subsistindo a personalidade internacional da mãe-pátria; 2) dissolução total de um Estado, não subsistindo a personalidade do antigo Estado; 3) fusão em torno de um Estado novo. A grande maioria dos Estados surgidos nos séculos XIX e XX nasceu mediante a separação de uma parte da população e do território de um Estado. No século XIX, os países americanos surgiram dessa maneira, o mais das vezes depois de uma guerra de libertação, a exemplo do que ocorreu com o Brasil, os Estados Unidos e os demais países hispano-americanos. O novo Estado pode surgir mediante entendimento com a mãe-pátria, conforme ocorreu com a Província Cisplatina, em 1828, que fora incorporada ao Brasil sete anos antes. Como exemplo de formação de Estados em virtude de desmembramento de um Estado que tenha deixado de existir internacionalmente, cita-se o caso da Grã-Colômbia, que se dissolveu em 1830, dando lugar ao nascimento das Repúblicas de Nova Granada (hoje Colômbia), Venezuela e Equador. A queda

As duas situações têm muito em comum. surge o problema de seu reconhecimento internacional. conforme ocorreu com a URSS e a Iugoslávia. em consequência com o enfraquecimento do poder central.RECONHECIMENTO DE ESTADO E DE GOVERNO Com a formação do Estado. a Iugoslávia. e inúmeras outras repúblicas. como Ucrânia. verifica-se que a prática dos Estados é no . mas na prática constatam-se considerações políticas que pesam sobretudo no ato de reconhecimento. Reconhecimento significa a decisão do governo de um Estado existente de aceitar outra entidade como um Estado. O exemplo clássico de Estado por fusão é o da Itália. Trata-se de um ato jurídico. com o surgimento da República Checa e da Eslováquia. para formar um novo país. a fusão se desfaz. quer ao outro. Seção 1 . com consequências jurídicas. A fusão poderá ocorrer pacificamente ou por meio de conquistas. só obteve o seu reconhecimento pelo Rei de Portugal em 29 de agosto de 1825 através do Tratado de Paz e Aliança. onde. isto é. o problema do reconhecimento das antigas colônias européias nas Américas representou um ato político-jurídico sumamente importante e foi. mediante o desaparecimento da personalidade de todos. O desmembramento da Tcheco-Eslováquia realizou-se pacificamente. ocorrendo uma mudança de governo em violação das normas constitucionais do Estado. mas é importante salientar que se trata de situações bem distintas. A URSS foi desmembrada. sobrevém o problema do reconhecimento do governo de fato. com a morte do Marechal Tito. Mas. ao contrário do exemplo italiano. Geórgia e Bielo-Rússia. e o direito internacional estabelece regras bastante semelhantes aplicáveis quer a um caso. ao passo que a antiga Iugoslávia compreende hoje apenas os territórios da Sérvia e de Montenegro.Reconhecimento de Estado Reunidos os elementos que constituem um Estado. inclusive as de natureza financeira. onde as condições do reconhecimento. se em tese tal obrigação deveria existir. Tem-se discutido sobre se existe o dever dos antigos Estados de outorgar o reconhecimento a uma entidade que reúne os citados elementos constitutivos de um Estado. CAPÍTULO 4 . No passado. na maioria dos casos. Por sua vez. objeto de prolongadas e difíceis negociações que envolviam as antigas metrópoles e os novos Estados. os ducados de Modena. O terceiro modo de formação de Estado — a fusão — ocorre quando um Estado-núcleo absorve outras entidades. passando todos a formar um novo Estado. o que implicará a aplicação à mesma das normas de direito internacional.do Muro de Berlim em 1989 e o desmembramento da URSS resultaram no nascimento de inúmeros novos Estados. sofreu uma série de sangrentas guerras de independência: surgiram as Repúblicas da Croácia. Bósnia e Macedônia. se achavam enumeradas. inclusive a do Estado-núcleo. Parma e Toscana e o Reino de Nápoles foram incorporados ao Piemonte. e. verifica-se que na maioria dos casos de fusão inexiste o sentimento de unidade nacional. com sede em Moscou. o governo da nova entidade buscará o seu reconhecimento pelos demais membros da comunidade internacional. O exemplo do Brasil é típico: proclamada a sua independência em 7 de setembro de 1822. surgindo daí a Federação Russa. em 1860.

independente de qualquer outro Estado existente e capaz de observar as prescrições do Direito Internacional”. Segundo muitos internacionalistas e de acordo com uma resolução do Instituto de Direito Internacional. O reconhecimento pode igualmente ser individual ou coletivo. na qual pende pela tese do efeito declarativo ao declarar que “é o ato livre pelo qual um ou mais Estados reconhecem a existência. Em outras palavras. A natureza do reconhecimento de Estado é um dos temas sobre os quais a doutrina não chega a uma conclusão: para a maioria. de uma sociedade humana politicamente organizada. O reconhecimento tem efeito declarativo. sem condições. do início de relações diplomáticas ou o da celebração de um tratado com esse Estado. num decreto. resulta implicitamente de algum ato que torne aparente o tratamento de novo Estado como membro da comunidade internacional: é o caso. Uma resolução em Bruxelas. sujeitos da ordem jurídica de que estas normas fazem parte. distingue o nascimento histórico do nascimento da pessoa internacional. numa nota. No primeiro caso. mas deve sempre indicar claramente a intenção do Estado que o pratica. a personalidade existe quando uma entidade se torna destinatária de normas. por exemplo. mas existe uma importante corrente que defende a tese contrária. pode ser subordinado a condições. Toda ordem jurídica determina quais os seus sujeitos e estabelece igualmente o momento em que começam a existir. O reconhecimento de novos Estados pode ser expresso ou tácito. da condição ou condições estabelecidas deve determinar a suspensão ou anulação do reconhecimento. Se. de vários Estados. faz objeto de alguma declaração explícita. aliás. ao mesmo tempo. mas. o reconhecimento pode também ser de jure. A inexecução ou desrespeito. num tratado. em 1936. sendo definitivo e completo o primeiro. por parte do novo Estado. o ato tem efeito declarativo. em um território determinado.sentido contrário. como se trata de ato unilateral. e “um organismo que reúne todos os elementos constitutivos de um Estado tem o direito de ser assim considerado e não deixa de possuir a qualidade de Estado pelo fato de não ser reconhecido”. o reconhecimento é um ato unilateral pelo qual um Estado admite a existência de outro. No segundo caso. os sujeitos da ordem jurídica internacional começam portanto a existir no momento em que se verifica um primeiro acordo: precisamente neste instante as entidades entre as quais se verificou tornam-se uma em relação à outra destinatárias das normas resultantes do referido acordo e. portanto. O reconhecimento é feito. . ou seja. que o efeito é atributivo. Citam-se. As normas jurídicas internacionais se constituem por meio de acordos. para os defensores da tese atributiva o reconhecimento do ponto de vista do DI é um ato bilateral pelo qual aos Estados é atribuída por consenso mútuo personalidade internacional. que remontam à data da formação definitiva do Estado”. e provisório ou limitado a certas relações jurídicas o segundo. diversos casos de reconhecimento condicional. em geral. desde que ser sujeito jurídico significa ser destinatário de normas jurídicas. E. E por isso mesmo “produz efeitos retroativos. para os defensores da doutrina do efeito declarativo. ou de fato. conforme emane de um só Estado ou.

este se torna caduco. os interesses do governo que deseje efetuar tal reconhecimento devem ter sido atingidos pela luta ou. O reconhecimento da beligerância não deve ser prematuro. Mas. embora não seja suficiente.Reconhecimento de beligerância e de insurgência O DI admite alguns atos que podem proceder ao reconhecimento de um Estado como tal. ao contrário. figura em primeiro lugar o reconhecimento como beligerante. Se dúvidas podem existir quanto à obrigação de reconhecer novos Estados. que a este respeito se podem admitir os três princípios seguintes: 1) Estado surgido de um movimento de sublevação o reconhecimento será prematuro enquanto não cessar a luta entre a coletividade sublevada e a mãe-pátria. possui uma força armada regularmente organizada. Se um Estado deixa de existir ou perde definitivamente qualquer dos elementos essenciais cuja reunião determina o ato de reconhecimento. dentre eles.ele poderá ser reconhecido logo que apresente todas as características de um Estado perfeitamente organizado e demonstre. se mostre impotente para dominar a revolta e aquela se apresente perfeitamente organizada como Estado. quando o objetivo é apenas o de modificar de modo violento a forma de governo existente. Se a luta assume vastas proporções. a menos que esta. e se mostra disposto a respeitar os direitos e os deveres de neutralidade. mantém a sua autoridade sobre uma parte definida do território do Estado. O reconhecimento como beligerante ocorre quando parte da população se subleva para criar novo Estado ou então para modificar a forma de governo existente e quando os demais Estados resolvem tratar ambas as partes como beligerantes num conflito aplicando as regras de direito internacional a respeito. reconhecendo-lhes a qualidade de beligerantes. significa que passará o beligerante a desfrutar das regras de direito internacional aplicáveis nos casos de neutralidade. 2) desde que a mãe-pátria tenha reconhecido o novo Estado. constitui um governo responsável. para a finalidade do reconhecimento. este poderá ser logo reconhecido pelos demais membros da comunidade internacional. Para isto. de tal sorte que o grupo sublevado se mostra suficientemente forte para possuir e exercer de fato poderes análogos aos do governo do Estado. Não há regras precisas e absolutas sobre o momento oportuno para o reconhecimento.O reconhecimento feito sem condições pode ser considerado como irrevogável. No caso de uma revolução. Tal ato. por atos. pelo menos. Parece. 3) Estado surgido por outra forma . após luta prolongada. Seção 2 . os governos estrangeiros poderão pôr as duas partes em luta no mesmo pé de igualdade jurídica. se é a . um Estado criado em violação do direito internacional não deve ser reconhecido. de per si. mas as regras aplicadas em ambos os casos são idênticas. o desenvolvimento do conflito deve ser tal que os demais Estados não possam. não se trata obviamente de um ato que precede o reconhecimento. sua vontade e sua capacidade de observar os preceitos do direito internacional. entretanto. por assim dizer. Esta doutrina do não-reconhecimento surgiu a propósito da criação do Estado da Mandchúria pelo Japão à custa da China. a doutrina e a prática indicam que. ficar alheios ao mesmo. submetida à disciplina militar.

esta não poderá mais tratá-los. a responsabilidade da mãe-pátria (ou do governo legal). por declaração expressa ou. o do governo que. que. Em geral. Admite-se. se exonera de qualquer responsabilidade pelos seus atos ou pelos danos e prejuízos sofridos por potências estrangeiras ou seus nacionais em consequência da incapacidade do Estado de preencher suas obrigações internacionais sobre a parte ou partes do território que. O seu reconhecimento não confere propriamente direitos especiais aos insurretos. necessariamente. com fins puramente políticos. Em relação aos novos governos. O principal dos efeitos do reconhecimento da beligerância é conferir de fato ao grupo insurreto os direitos e deveres de um Estado. de fato. O primeiro é feito. no momento. considera-se que existe uma situação de fato. se lhe poder reconhecer o caráter jurídico desta. 3) nesta mesma hipótese. automaticamente. considera-se que o mesmo reconhecimento. mas quando a modificação ocorre em violação da Constituição. se acha no poder. isto não altera o reconhecimento do Estado: só o novo governo terá necessidade de novo reconhecimento. Se a forma de governo muda. por parte de governos estrangeiros. na ocasião. exerçam o direito de se opor à entrega de fornecimento de guerra à parte adversa. dá-se a denominação de insurgência. O reconhecimento de governos não deve ser confundido com o de Estados. não se achem sob a sua autoridade. mas produz certos efeitos. contudo. 2) a mãe-pátria (ou o governo legal). não deve ser qualificada como situação de pura violência ou de banditismo. o poder de dirigir o Estado e o de representá-lo internacionalmente. se os reconhece. o reconhecimento da beligerância toma a forma de uma declaração de neutralidade. nem o de bloqueio. implicitamente. por meio de nota diplomática. nas águas territoriais do seu próprio país. geralmente. não será intempestivo. a declaração do bloqueio de um porto ocupado pelos sublevados). Assim: 1) eles não poderão ser tratados como piratas ou bandidos pelos governos que os reconheçam. os atos dos insurretos não comprometerão. que. nem o de captura de contrabando de guerra. Seção 3 . como no caso de uma guerra civil. O reconhecimento do novo governo não importa no reconhecimento de sua legitimidade. Em qualquer caso.própria mãe-pátria quem a reconhece. não podendo ser classificada como estado de beligerância. Quando uma insurreição. deixa de ter o caráter de simples motim e assume proporções de guerra civil.Reconhecimento de governo As modificações constitucionais da organização política de um Estado são da alçada do direito interno. como rebeldes. por atos inequívocos (tal como. Mas o de um Estado como que comporta. até o fim das hostilidades. A esse estado de fato. mas significa apenas que este possui. o reconhecimento poderá também ser expresso ou tácito. no tocante à guerra. Se os insurretos são reconhecidos como beligerantes pela mãe-pátria (ou pelo governo legal). os governos resultantes de tais golpes de Estado precisam ser reconhecidos pelos demais Estados. mas. que poderá ser reconhecido por governos estrangeiros. deverá tratar como prisioneiros de guerra os que caírem em seu poder. por exemplo. aos insurretos não será lícito exercer os direitos de visita e busca. ao mesmo tempo. O segundo deve resultar de fatos positivos que importem na . contudo. sem.

A simples circunstância de um governo deixar que os seus próprios cônsules continuem a desempenhar as suas funções em território sob a autoridade de um governo de fato não implica o reconhecimento deste último. isto é. A anexação da Estônia. têm procurado submeter o ato a princípios precisos. os Estados Unidos da América. na sua formação e no exercício da sua autoridade. antes de se tornar de jure. claramente manifestada. antes de obedecer.admissão da existência de novo governo e de que este exerce autoridade sobre o respectivo Estado e o representa internacionalmente. quando provisório ou limitado a certas relações jurídicas. por exemplo. por outro lado. sem que a doutrina tenha conseguido evoluir na matéria.EXTINÇÃO DE ESTADO Os desmembramentos da URSS. ou de fato. Mas. o de governos pode ser de jure. sustentaram que se devia reconhecer como legítimo todo governo oriundo da vontade nacional. por este. A doutrina Tobar. 3) a aceitação. leva em conta as seguintes circunstâncias: 1) a existência real de um governo aceito e obedecido pelo povo. nessa matéria. Assim. quando definitivo e completo. continuem a exercer funções cônsules de um governo de fato. da responsabilidade pelas obrigações internacionais do respectivo Estado. se os mesmos já possuíam exequatur. O mesmo. por meio de representantes livremente eleitos. o reconhecimento de governos de fato ou de qualquer novo governo obedece exclusivamente a conveniências políticas. CAPÍTULO 5 . Depois da segunda guerra mundial. Da mesma forma. pretende que se não deve reconhecer governo algum oriundo de golpe de Estado ou de revolução. O DIP ainda não apresentou um conceito objetivo a respeito da extinção de Estado. finalmente. Letônia e Lituânia pela URSS parecia um . Alguns países têm. Em geral. no território do respectivo Estado. 2) a estabilidade desse governo. não se deve concluir a existência de reconhecimento se um governo permite que. constitucionalmente. O próprio governo. a normas constitucionais. não o tenha reorganizado. enquanto o povo do respectivo país. acrescentaram a esse princípio o da intenção e capacidade do novo governo de preencher as obrigações internacionais do Estado. o problema também fora motivo de preocupação. ainda se poderá dizer quando um governo se limita a nomear alguém para exercer funções consulares em território submetido a um governo de fato. Diversas doutrinas. É assim que o Brasil adota. Mais tarde. entretanto. A doutrina brasileira sobre o assunto muito se aproxima da dos Estados Unidos. na sua aplicação. Do mesmo modo que o reconhecimento de Estado. o princípio das situações de fato. mas não solicita o exequatur. pode ser — e é geralmente — de fato. da Iugoslávia e da Tcheco-Eslováquia vieram chamar a atenção mais uma vez para o complexo problema da extinção dos Estados e a consequente sucessão. como a União americana. desde os primórdios da sua independência. adotado certas normas que inspiram a respectiva política. resultante de uma transformação da estrutura interna do Estado ou de um golpe de Estado. anterior à nomeação. elaborada por um antigo ministro das Relações Exteriores do Equador.

mas atualmente cientistas têm alertado que em decorrência do efeito estufa poderá ocorrer o degelo das calotas polares com o consequente aumento nos níveis dos oceanos e desaparecimento de alguns microestados do Pacífico e do Caribe. pode-se perguntar se efetivamente ocorrera a extinção dos mesmos. como num êxodo total. O desaparecimento de toda a população. Terminada a guerra. ou se ocorreu naquela ocasião a extinção do Estado. Parma e Toscana. com o seu desmembramento. com a consequente perda da personalidade internacional dos mesmos em favor da nova entidade. Indagação semelhante pode ser feita com relação à ocupação da Áustria pela Alemanha hitlerista em 15 de março de 1938. conforme ocorreu com a Grã-Colômbia em 1830. sendo que alguns territórios foram ainda entregues a outros países como a Iugoslávia e a Polônia. Convém notar que. sendo que posteriormente a própria identidade do Estado-núcleo. a substituição de um (o Estado predecessor) por outro (o Estado . A pergunta que surge é a de saber se a Áustria de 1938 é a mesma de hoje. a Prússia e a Rússia. CAPÍTULO 6 . que foi dividida em três países (a Colômbia de hoje. Do ensinamento da doutrina de que o Estado nasce mediante a reunião de três ou quatro elementos constitutivos decorre a consequência lógica de que o desaparecimento de qualquer um desses elementos implicará a extinção do Estado. ou seja. Com o desmembramento do Império Austro-Húngaro. Seja como for. Os exemplos recentes da URSS e da Iugoslávia se enquadram neste caso. cujo território foi repartido em 1795 entre a Áustria. embora os exemplos nem sempre sejam satisfatórios. só iria ocorrer em 15 de maio de 1955. a Venezuela e o Equador). o Piemonte. Em primeiro lugar. Tem havido casos em que o território de um Estado não é anexado por um só Estado. nos termos das Convenções de Viena de 1978 e 1983.fato consumado. O nascimento de Estado por fusão pode resultar da união de dois Estados soberanos. surgiram três novos Estados: a Áustria. visto que as potências aliadas declararam em 1943 a intenção de restaurar a sua independência. ou do território eram exemplos pouco viáveis. não reconheceram a anexação e continuaram a manter. para dar lugar a alguns novos sujeitos de direito internacional. passados mais de cinquenta anos. contudo. que. a Áustria poderia justificadamente esperar que a ocupação chegaria a seu fim. inclusive o Brasil. os antigos Estados desapareceram. O exemplo do nascimento da Tanzânia em 1964 teve como consequência a extinção de Tanganica e de Zanzibar. temos a absorção completa de um Estado por outro.SUCESSÃO DE ESTADOS A sucessão de Estados significa. também desapareceu a favor do novo Reino de Itália. durante alguns anos. mas. o território é repartido entre dois ou mais Estados. vários países. só que numa primeira fase ocorreu a anexação pelo Piemonte do Reino de Nápoles e dos ducados de Modena. e os exemplos acima mencionados dos países bálticos e da Áustria são ilustrativos. mesmo depois de concretizada a anexação. em decorrência da primeira guerra mundial. e a Polônia. a Hungria e a Tcheco-Eslováquia. podem-se enumerar os modos de extinção de Estado. O surgimento da Itália em 1860 é citado como exemplo clássico de fusão. relações diplomáticas com aqueles países bálticos.

Dada a sua influência sobre os tratadistas posteriores. passou a ser invocado visando à independência da quasetotalidade dos territórios dependentes. Embora os problemas vinculados à sucessão de Estados sejam sumamente complexos. Na prática. mas principalmente na África e no Pacífico. como a sucessão em matéria de tratados. embora na prática ocorreu em muitos casos uma simples imposição dos vencedores. bem como as consequências do surgimento de novo Estado e a sua situação em face das organizações internacionais. A circunstância de existirem duas convenções capazes de mostrar as . ou seja. ou seja. cumpre analisar dentro das cinco hipóteses mencionadas as regras mais generalizadas. que tem sido criticada. arquivos. e) dissolução do Estado. contudo. pois admite exceções. b) surgimento de um Estado de independência. de direitos e obrigações ligados à extinção do Estado. bens. Em tese. sem que isso afete a personalidade dos dois Estados. P. Neuilly e Trianon criaram uma série de novos Estados na Europa. por analogia com as regras de direito civil. com a morte de uma pessoa a aceitação da herança implique também a dos ônus. onde novamente o princípio da autodeterminação. a começar com as idéias de Grocius. de que. a começar com a sucessão em matéria de tratados. Austro-Húngaro e Otomano. Essa regra. que buscava no direito romano as soluções. Esses ensinamentos chegaram ao século XX. A segunda guerra mundial também teve profundas consequências não só no panorama europeu. busca-se analisar separadamente as várias hipóteses de sucessão. Com o término da primeira guerra mundial e o fim dos Impérios Alemão. tendo em vista os problemas planteados. mas para a qual não foi encontrada outra mais satisfatória. com a consequente formação de novo Estado. Na prática. mais precisamente. os seus ensinamentos chegaram ao século XX e serviram de fundamento de algumas decisões judiciárias. as modificações decorreram da teoria da autodeterminação. os resultados são bastante semelhantes. ambos continuam a existir. a questão é de soberania sobre o território: os direitos do Estado sucessor decorrem do direito internacional. os Tratados de Versalhes. Para uma segunda corrente. segundo o qual com a extinção do Estado ocorre uma tabula rasa. tal como consagrado na Carta das Nações Unidas. recorrendo-se ao direito público. O problema não é novo. Saint-Germain. como nos tratados de fronteiras e no reconhecimento dos direitos adquiridos e da equidade. a utilização de regras de direito privado deve ser evitada. dívidas. no direito civil. isto é.sucessor) na responsabilidade pelas relações internacionais de determinado território. como as antigas colônias e os territórios sob tutela. d) separação de parte ou de partes de um Estado. Seja como for. bem como a utilização da expressão sucessão de Estados. examinando cinco hipóteses: a) transferência de parte do Estado. legislação e nacionalidade. c) união de Estados. tanto que Grocius dele já se ocupava em 1625. houve tentativas de formular regras genéricas capazes de solucionar as questões supervenientes. A tendência mais aceita é a de rejeitar a noção de sucessão. não deve ser encarada de maneira absoluta. bem como modificaram inúmeras fronteiras. As duas Convenções de Viena adotam essa orientação. delineando regras baseadas no direito romano ou.

no caso dos chamados tratados sobre direitos reais. isto é. Seção 2 . Tratado em vigor relativo a todo o território do Estado precedente continua em vigor. sobre sucessão em matéria de tratados. sua continuação em vigor dependerá do Estado vizinho. Não obstante as ressalvas feitas por inúmeras delegações. Em caso de separação ou desmembramento. não ocorre extinção de uma delas. Aplica-se o princípio da mobilidade das fronteiras dos tratados. em virtude dos impasses verificados em relação a diversos artigos. calculava-se que a Convenção seria assinada no mesmo ano.A Convenção sobre sucessão de Estados em matéria de bens. foi necessária nova reunião. a respeito dos quais a doutrina anterior à segunda guerra mundial era pouco satisfatória. salvo se ficar demonstrado que a aplicação do tratado àquele território seria incompatível com o seu objetivo e finalidades. visto que ocorre mudança fundamental de circunstâncias. O artigo 11 da Convenção contém dispositivo que se aplica a todos os casos. admite-se. A Convenção de 1978. as normas nela adotadas são de um modo geral aceitáveis. os tratados multilaterais em vigor devem continuar a ser respeitados: os tratados bilaterais devem ser renegociados. principalmente porque se ocupam dos tratados multilaterais.soluções a respeito. Ocorrendo separação de parte ou de partes do território para a formação de novo Estado (fenômeno que não ocorre no caso anterior).Sucessão em matéria de tratados A Convenção de Viena sobre Sucessão de Estados em Matéria de Tratados foi assinada em 23 de agosto de 1978. Seção 1 . É bem verdade que. Na fusão de Estado. em princípio. a de 1969. ou que poderá modificar radicalmente as condições para a sua implementação. que poderá objetar a que um tratado sobre navegação ou servidão continue a vigorar. é categórica: uma sucessão de Estado não afeta as fronteiras estabelecidas por tratado. como no caso de as relações entre os dois Estados não serem amistosas. mas. Convocada a Conferência em 1977. No caso de sucessão em relação à transferência de porção do território. em que ambas as partes são sujeitos do DI. a não ser que as partes decidam de outra maneira. que os novos Estados não podem estar ligados aos tratados celebrados pelo Estado de que faziam parte. ou seja. os tratados políticos desaparecem. arquivos e dívidas A Convenção de Viena sobre sucessão de Estados em matéria de bens. tampouco as obrigações e os direitos estabelecidos em tratado relativo ao regime vigente na zona fronteiriça. tanto assim que a Convenção teve relativa aceitação. ou seja. em seu artigo 13. o artigo 15 prevê que os tratados do Estado predecessor deixam de vigorar. estabelece que uma sucessão de Estados não afeta as fronteiras estabelecidas por tratado nem as obrigações e os direitos determinados por um tratado relativos ao regime de fronteiras. Os tratados relativos às fronteiras não sofrem modificação. tal como previsto no artigo 62 da Convenção sobre o Direito de Tratados de 1969. . efetuada no ano seguinte. ao contrário do que ocorreu com a Convenção de 1983. em decorrência dos privilégios dados aos Estados de formação recente. e a de 1978. simplificou a matéria. nem os poderão invocar em seu favor. sobre o direito dos tratados.

O artigo 9 estipula que as passagens desses bens acarretam a extinção dos direitos do Estado predecessor e o nascimento dos direitos do sucessor. outra solução. embora exceções em contrário possam ser apontadas. a expressão arquivos estatais do Estado predecessor significa todos os documentos — seja qual for a sua data ou espécie. haverá apenas uma nacionalidade. A razão da não-aceitação da Convenção de 1983 reside principalmente na preocupação dos países afro-asiáticos de forçar a adoção de regras destinadas a favorecer os países. No caso de transferência de parte ou de partes do território de um Estado. a contribuição mais importante no tocante aos três tópicos que até então só haviam sido abordados de maneira sumária. A Convenção e. os habitantes do Estado anexado devem adquirir a do anexador. durante um período de transição. representam. os bens de natureza privada só eram transferidos mediante pagamento. no caso da anexação parcial. Tradicionalmente. os bens do domínio público eram transferidos automaticamente e sem pagamento ao sucessor. apesar da possibilidade de poderem eles optar pela nacionalidade que possuíam. é natural que o novo Estado estabeleça a sua própria legislação. contudo. produzidos ou recebidos pelo Estado predecessor no exercício de suas funções . os imóveis passarão ao sucessor. a legislação do Estado anexante passa a vigorar: em caso de fusão. a nacionalidade do Estado anexador deve estender-se aos habitantes da parte anexada. sobretudo. ou seja. os bens imóveis passarão aos Estados sucessores em cujo território se encontrem. ao serem encerrados os trabalhos. Ocorrendo dissolução. os trabalhos do Relator. mas posteriormente julgou-se preferível limitá-los aos três. que nenhum país assinou a Convenção. viver com a do Estado predecessor. ocorrendo separação ou desmembramento. a do novo Estado. mediante acordo. Assim. a CDI havia decidido que o tópico a ser abordado deveria tratar de todos os relacionados com a sucessão. Nos termos do artigo 20. Em caso de anexação total ou parcial. Na hipótese de anexação total. assinada na Capital austríaca em 8 de abril de 1983 é a única tida pela doutrina como quase inaceitável. na fusão. a qual só iria merecer uma ratificação posteriormente. a nacionalidade e a legislação. A sucessão em matéria de bens do Estado é regulada pelos artigos 7 a 18 da Convenção. bem como os móveis vinculados às atividades do Estado predecessor no referido território. Mohammed Bedjaoui da Argélia. em caso de separação ou desmembramento. geralmente antigas colônias. os bens imóveis e móveis situados no exterior passarão aos Estados sucessores em proporções equitativas. a matéria é regulada pelos Estados que se fundem. surge novo Estado e nova nacionalidade aplicada a todos os habitantes. Numa fase inicial. podendo. A sucessão em matéria de arquivos está reguladas nos artigos 19 a 31. a não ser que as partes adotem. que haviam adquirido a sua independência recentemente. não foram abordadas certas questões como as relações com organizações internacionais. os bens dos antigos Estados passarão à nova unidade. com exceção dos tratados. Quando dois ou mais Estados se unem para formar um novo Estado.arquivos e dívidas. salvo acordo entre as partes ou decisão de órgão internacional. A Convenção modificou essa regra: a passagem será realizada sem compensação. Já por ocasião da Conferência de 1983 constatou-se.

Quando um Estado se desmembra e deixa de existir. o Estado predecessor deve fornecer ao Estado sucessor os documentos tendentes a comprovar os seus direitos sobre elas. deve passar ao Estado sucessor. que acabou sendo acolhido. os arquivos dos Estados predecessores passarão ao Estado resultante da fusão. o caso dos países bálticos. objeto dos artigos 32 a 41 da Convenção. Iniciado o estudo da matéria. Neste caso. “qualquer obrigação financeira de um Estado predecessor surgido de conformidade com o direito internacional para com outro Estado. como. a transferência de arquivos dependerá de acordo. como ocorreu com a URSS. e partes de seu território passam a formar novo ou novos Estados. ou seja. salvo tratado em contrário. mas os arquivos relativos à administração normal ou ao território. a emenda brasileira acabou não sendo acolhida. Tratava-se de princípio que havia sido adotado pela própria CDI em projeto anterior e que fora suprimido posteriormente diante da insistência do Relator. sendo que nem a prática dos Estados nem a doutrina apresentam soluções satisfatórias. As dificuldades começam com a própria definição de dívida do Estado. uma organização internacional ou qualquer outro sujeito do direito internacional”. No caso de transferência de parte do território sem que tenha ocorrido a formação de novo Estado. de que uma parte da dívida. na data da sucessão do Estado. O projeto da CDI. para efeitos da Parte IV da Convenção. A sucessão em matéria de dívidas. A Convenção de 1983 estipula que. de acordo com a sua legislação interna. a não ser que os Estados resultantes do desmembramento decidam de outra maneira. por exemplo. de arquivos ou de reproduções tendentes a garantir a memória nacional.— que. Ainda no concernente às fronteiras. é um dos problemas mais difíceis e complexos em direito internacional. A regra adotada pela Convenção no tocante às dívidas no caso de transferência de parte do território corresponde de modo geral à regra tradicionalmente adotada na Europa continental. em princípio. não há a obrigação do Estado sucessor de arcar com as . os tratados de fronteira que lhes dizem respeito. prevê que por dívidas do Estado se entende. e eram por ele conservados direta ou indiretamente. as partes dos arquivos que se deveriam encontrar no território do Estado sucessor para fins administrativos e os arquivos que dizem respeito ao território passarão ao Estado sucessor. Na enumeração dos Estados de independência recente podemos incluir os que na realidade readquiriram a sua independência. Não obstante a sua aceitação por grande número de delegações. bem como que o caráter integral dos arquivos deve ser respeitado. No caso de união de Estados para a formação de um novo Estado. conforme se verificou por ocasião da Conferência de 1983. A Convenção ainda prevê a possibilidade de uma troca de informações. baseada nas taxas pagas no passado pela população do Estado predecessor. consequentemente. lhe pertenciam. A tendência posterior ao julgamento da Dívida pública de 1925 passou a ser no sentido de que. devem passar ao Estado sucessor. a transferência de arquivos deve efetuar-se sem o pagamento de compensação. como que existe um direito a reaver os antigos arquivos e. como em matéria de fronteiras. a Delegação do Brasil sugeriu que à definição fosse acrescida a frase “qualquer outra obrigação financeira cobrável de um Estado”.

de 1919. vários sistemas têm sido sugeridos ou aplicados para a imposição da mudança da nacionalidade. Um terceiro sistema exige. Outro atende à origem: os naturais do território. Abrem-se. as dívidas do Estado predecessor passarão ao Estado sucessor. concede-se. noutra. a mesma regra se aplica: os Estados sucessores arcarão com uma parte da dívida. a qual. esse direito pode obedecer a várias modalidades. Num quarto sistema. quer como imposição consecutiva a uma guerra. Como não se pode ou não se deve impor a uma pessoa uma nacionalidade que ela não queira. necessária e logicamente. para fora do território transferido. contudo. a opção torna-se conhecida por uma declaração formal. como. porque isso seria contrariar o direito primordial que tem o homem de escolher a sua nacionalidade. a origem e o domicílio. segundo a qual os habitantes de um território transferido poderão manter a antiga nacionalidade e só adquirirão a nova se por ela optarem. Na dissolução de Estado. que pode ser acompanhada de emigração. em dezembro de 1933. ao mesmo tempo. Na separação de parte ou de partes do território de um Estado que continua a existir como tal. aos habitantes do território transferido um direito de opção. relativa à conservação da nacionalidade de origem. geralmente. expressamente. O sistema que reúne mais adeptos é o primeiro. a opção é expressa por uma declaração formal. por fim. então. Conhece-se. CAPÍTULO 7 . de uma anexação territorial. barragens ou portos. noutra ainda. em consequência de cessão ou anexação de território Além dos meios indicados na Quinta Parte de aquisição ou mudança de nacionalidade.dívidas do predecessor. por exemplo. adotada pela Convenção sobre Nacionalidade. Numa destas. pode ser imposta como consequência necessária de tal declaração. em geral. o Estado ingressa na comunhão internacional gozando de todos os direitos reconhecidos pelo direito internacional e com a obrigação de . adotou. excluídos. a naturalização coletiva dos habitantes do território anexado. subscrita em Montevidéu. os nacionais de qualquer país estrangeiro. Em sua aplicação.DIREITOS DOS ESTADOS Ao nascer. em base aos direitos de propriedade. dos indivíduos que não querem adquirir a nova nacionalidade. para a construção de estradas de ferro. Um desses sistemas aplica tal mudança apenas aos domiciliados no território transferido. devem adquirir a nova nacionalidade. a dívida passará numa proporção equitativa. Relativamente aos nacionais do Estado anexado ou do qual uma parte é transferida a outro. o tratado de paz de Versalhes. A regra parte do princípio de que nenhuma dívida do Estado predecessor passará ao Estado sucessor. ali domiciliados ou residentes.Naturalização coletiva. a não ser que as partes decidam diversamente. uma quarta modalidade. quer por efeito de cessão pacífica. Ocorre. deve ser mencionado o que deriva. exceções no caso de dívidas que beneficiam partes localizadas do território cedido. Seção 3 . No caso de união de Estados. E foi o que. ao menos teoricamente. basta qualquer dessas circunstâncias para a mudança da nacionalidade. por sua vez. tenham ou não domicílio nele. sem obrigatoriedade de emigração. a opção manifesta-se pela simples emigração. naturalmente.

entre os quais se salientam: o de ajustar tratados ou convenções. desfruta de todos os direitos enumerados na Carta. b) de legislação. o direito de igualdade é reconhecido pelo direito . do artigo 9 ao 22. o de submeter à ação dos próprios tribunais as pessoas e coisas que se achem no seu território. É também chamada autonomia. é o ao desenvolvimento. em tal capacidade. Seção 1 . A soberania interna representa o poder do Estado em relação às pessoas e coisas dentro do seu território ou. o de formular as próprias leis e aplicá-las a nacionais e estrangeiros. que deixou de ser o direito absoluto e incontestável de outrora. o de igualdade e o de respeito mútuo. Confunde-se. Hoje. direito de defesa e conservação e direito internacional do desenvolvimento. estão mencionados todos os direitos tidos como tais. não mais se discute sobre a igualdade jurídica dos Estados e. o de fazer a guerra e a paz. contanto que não sejam ofendidos os direitos de outros Estados. estabelecer. melhor. em consequência. Para Accioly só existe para o Estado um direito fundamental: o direito à existência. desde que se trate de Estado-membro das Nações Unidas. Admitida a noção dessa soberania relativa é lícito falar em direitos decorrentes da soberania interna e externa (que se confunde com o conceito de independência). merecem especial destaque os seguintes direitos: direito à liberdade. em que. sem os quais o Estado deixaria de ser uma entidade soberana. c) de jurisdição. depois da independência e da igualdade.arcar com os deveres por ele impostos. e do qual decorrem os demais. Seja como for.Direito à liberdade O direito à liberdade confunde-se com a noção de soberania. d) de domínio — em virtude do qual o Estado possui uma espécie de domínio eminente sobre o seu próprio território. sendo que as prioridades variam de Estado para Estado. direito ao respeito mútuo. adotar uma constituição política. A soberania externa compreende vários direitos. A soberania externa é uma competência conferida aos Estados pelo direito internacional e se manifesta na afirmação da liberdade do Estado em suas relações com os demais membros da comunidade internacional. ou seja. direito de igualdade. dentro dos limites da sua jurisdição. dentro. que. o que se constata é que os direitos fundamentais podem evoluir com o passar dos anos. bem como o de estabelecer a sua organização judiciária. enfim. de certos limites. Seção 2 . principalmente os chamados direitos fundamentais. ou seja. o de escolher a forma de governo. com a independência. os direitos reconhecidos aos mais poderosos devem também o ser aos menores e mais fracos. a organização política própria e modificá-la à vontade.Direito de igualdade Atualmente. ou seja. que pode ser chamado primordial. pois. naturalmente. tanto que para muitos de formação recente o principal direito. A soberania interna compreende os direitos: a) de organização política. A Carta da Organização dos Estados Americanos contém um capítulo denominado “Direitos e Deveres Fundamentais dos Estados”. Em outras palavras. A dificuldade dos internacionalistas é identificar os direitos e as obrigações. o de legação ou de representação.

Dessa segunda consequência resulta que os tribunais de um Estado não têm jurisdição sobre outro Estado e não têm competência judiciária em relação a outro Estado. cada Estado terá direito de voto. bem como a sua dignidade moral e a sua personalidade física ou política sejam respeitados pelos demais membros da comunidade . O direito de igualdade é reconhecido a todo ser humano. entretanto. distinguindo entre os atos praticados pelo Estado como pessoa pública ou no exercício do seu direito de soberania. Muitos autores. e os que ele executa como pessoa privada. dispõe o seguinte: “Os Estados são juridicamente iguais. Como quer que seja. em geral. ou de uma declaração oficial. Será tácita: 1) quando o Estado propõe uma ação perante tribunal estrangeiro. e o voto do mais fraco valerá tanto quanto o do mais forte. de bens sujeitos à jurisdição de outro Estado. não levanta a declinatória da incompetência. gozam dos mesmos direitos e têm a mesma capacidade no seu exercício. 4) quando se trata de ações reais relativas a direitos ou interesses que possua em bens imóveis situados no território de um Estado estrangeiro. municípios. porém. todos os Estados são iguais perante o direito internacional. nas relações internacionais. a mesma prevalece. pois que a ação intentada contra uma dessas subdivisões. b) nenhum Estado tem o direito de reclamar jurisdição sobre outro Estado soberano. contra o Estado a que pertença a subdivisão e ao qual cabe representá-la. As principais consequências da igualdade jurídica dos Estados são. Seção 3 . não deve ser tomado em sentido absoluto. A imunidade de jurisdição aplica-se também às simples subdivisões políticas dos Estados. ao declarar que a Organização “é baseada no princípio da igualdade soberana de todos os seus Membros”. será dirigida. já se nota forte tendência contra a manutenção da doutrina da absoluta imunidade de jurisdição dos Estados estrangeiros. afinal de contas. tem-se admitido. expressa ou tacitamente. que o princípio só não é aplicável quando o próprio Estado renuncia à dita imunidade. entendem que os primeiros estão isentos da competência de qualquer tribunal estrangeiro. 2) quando. as seguintes: a) em qualquer questão que deva ser decidida pela comunidade internacional. A renúncia ser expressa quando conste de tratado ou convenção internacional. O preâmbulo da Carta das Nações Unidas proclama o princípio. acionado perante tribunal estrangeiro. concluída em Montevidéu em 1933. mas do simples fato de sua existência como pessoa do direito internacional”.internacional. ocorrendo o mesmo em relação aos Estados. Os direitos de cada um não dependem do poder que tenha para assegurar o seu exercício. Em outras palavras. perante uma jurisdição estrangeira. por sucessão ou doação.Direito ao respeito mútuo O direito ao respeito mútuo consiste no direito que tem cada Estado de ser tratado com consideração pelos demais Estados e de exigir que os seus legítimos direitos. Este princípio. ao passo que os últimos são passíveis desta jurisdição. províncias. 3) quando exerce atos de comércio em território estrangeiro e a ação judiciária se refere a tais atos. Onde. O artigo 4 da Convenção Panamericana sobre os Direitos e Deveres dos Estados. 5) quando se trata de ações referentes à aquisição. Estados de uma federação. em princípio.

porém. principalmente econômico. A existência de dois países poderosos tende a provocar idêntico fenômeno.internacional. todo Estado tem direito ao respeito das suas instituições políticas. uma organização internacional operante. Para os pequenos. ocorreu nas Nações Unidas como consequência do ingresso de inúmeros novos Estados. uma vez que as mesmas não atentem contra a segurança destes. “contra a qual o emprego da violência é o único recurso possível”. poderá representar importante garantia para a sua segurança. Seção 5 . inocente e inofensivo. a celebração de alianças defensivas. a expulsão de estrangeiros nocivos à ordem ou à segurança públicas. a proibição da entrada de indesejáveis. Nos países pequenos.Direito de defesa e conservação A importância do direito de defesa e conservação varia de Estado para Estado. a organização da defesa nacional etc. abriu as portas das Nações Unidas para novos membros que não poderiam sobreviver sem o auxílio. admitido na ordem internacional. como se esperava quando da assinatura da Carta das Nações Unidas.Direito internacional do desenvolvimento O reconhecimento do direito internacional do desenvolvimento. a organização de tribunais repressivos. só existe em face de uma agressão injusta e atual. nem violar as suas fronteiras. com uma vizinhança de outro mais poderoso e com uma política expansionista. Seção 4 . ao contrário. e. O direito de defesa e conservação. o direito de conservação não pode justificar o fato de um Estado cometer atos ilegais contra outro Estado. conforme ocorreu durante a guerra fria. um Estado não deve atentar contra a integridade territorial de outro. A Declaração da Concessão de Independência a Países Coloniais e Povos (1960). Isto não implica o desconhecimento do direito de legítima defesa. ao salientar que a falta de preparo político. não pode ser absoluto: tem que ser limitado pelo direito à existência e conservação dos demais membros da comunidade internacional. da comunidade internacional. deve prestar-lhe as honras de praxe e respeitar os seus símbolos nacionais. O direito de conservação abrange todos os atos necessários à defesa do Estado contra os inimigos internos ou externos. que não deve ser confundido com o direito ao desenvolvimento (estudado no âmbito dos direitos humanos). pelos demais Estados. porém. econômico. Argumentava-se que o reconhecimento desse direito internacional do desenvolvimento colidia com os princípios da reciprocidade e da não- . aliás está a ele vinculado. cuja viabilidade econômica era contestada. portanto. como na ordem interna. Programas mundiais de desarmamento constituem outro motivo de tranquilidade para Estados que não dispõem de indústria bélica e são obrigados a gastar fortunas na aquisição de armamento. um Estado não deve tratar outro Estado de maneira injuriosa. a prática de certas medidas de ordem policial. poderá ser tão importante como o direito à existência. Assim também. A legítima defesa. Por outro lado. social ou educacional nunca deve servir para postergar a independência. Assim. O direito de cada Estado tem por limite o direito dos outros Estados e. ou ofensiva. tais como a adoção de leis penais.

passou-se a falar em Estados juridicamente iguais. “uma norma imperativa (jus cogens) de direito internacional geral é uma norma aceita e reconhecida pela comunidade internacional dos Estados no seu conjunto. Talvez a principal novidade da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados tenha sido o reconhecimento do princípio do jus cogens. Alguns tratados que codificam situações características do jus cogens admitem que as partes contratantes poderão denunciá-los.Direito de jurisdição Todo Estado tem o direito de exercer a sua jurisdição no seu território e sobre a população permanente. O direito do Estado sobre o território e os respectivos habitantes é exclusivo. a não ser com o consentimento do primeiro. cumpre estudar o problema da jurisdição em relação ao território do Estado e a jurisdição sobre os nacionais no exterior. seria mais coerente com o fundamento do direito internacional que tal primazia fosse dos deveres. a enumeração dos deveres apresenta dificuldades. Em suma. Visando contornar esse óbice jurídico. Seção 6 . o correto seria falar em jurisdição no seu território. existe um primado incontestável do dever sobre o direito. o que significa que a jurisdição do Estado em relação aos estrangeiros não é exclusiva. nenhum outro Estado pode exercer a sua jurisdição sobre o território. E acrescenta que “se os deveres forem formulados corretamente a formulação do direito correspondente é supérflua”. 53). como uma norma da qual nenhuma derrogação é permitida e que só pode ser modificada por uma norma de direito internacional geral da mesma natureza” (art. com as exceções estabelecidas pelo direito internacional.DEVERES DOS ESTADOS Embora a ênfase da doutrina seja nos direitos internacionais dos Estados. a começar com a adoção da Nova Ordem Econômica Internacional. em que buscava criar para os Estados em desenvolvimento uma série de medidas visando sua melhoria. e para tanto a definição de nacional em primeiro lugar. e não sobre ele. ambos corolários do direito da igualdade jurídica dos Estados. Para Hans Kelsen. mas economicamente desiguais. O Estado tem “o direito de exercer jurisdição sobre o seu território e sobre todas as pessoas e coisas nele existentes”. CAPITULO 8 . No entender de Kelsen. pois “as normas do direito internacional geral impõem deveres sobre os Estados e ao fazê-lo conferem direitos aos demais”. E o que ocorre com . o que poderia dar a impressão equivocada de que se tratava do direito de dispor do território. sobretudo se lembrarmos que a doutrina fala em deveres jurídicos e deveres morais. No dizer da Convenção. A Assembléia Geral adotou várias resoluções. É bem verdade que a legislação do Estado pode prever o exercício de sua jurisdição em país estrangeiro sobre os respectivos nacionais. seguida pela primeira Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento — a UNCTAD — e a criação da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI ou UNIDO). A esta lista é ainda necessário acrescentar a figura do jus cogens e o chamado soft-law. A exemplo do que ocorre com os direitos.discriminação. ou seja.

A intervenção caracteriza-se pela existência de três condições: a) a imposição da vontade exclusiva do Estado que a pratica. Estados mais poderosos praticavam a intervenção invocando pretextos os mais diversos.O DEVER DE NÃO-INTERVENÇÃO Intervenção em direito internacional é a ingerência de um Estado nos negócios peculiares. A dúvida existente é saber se as medidas tomadas por uma organização internacional podem ser qualificadas como intervenção. A Carta da OEA estipula no artigo 18 que “Nenhum Estado ou grupo de Estados tem o direito de intervir. direta ou indiretamente. A rigor. e considerando que o direito à existência é o direito por excelência dos Estados. onde existe um direito. Para alguns autores. ou como sanção. 7). continuaria vinculado às cláusulas básicas. No caso da Convenção sobre Genocídio. no caso do jus cogens existe uma obrigação que o Estado não pode em nenhuma hipótese desconhecer. bem como no campo dos direitos humanos. No caso do jus cogens a denúncia é inadmissível. a Convenção sobre Genocídio (1948) e a Convenção sobre a Eliminação de todos os tipos de Discriminação Racial (1965). mas que tem certa semelhança com os deveres morais. como motivos humanitários. Em outras palavras. 2. c) ato abusivo. isto é. como no caso das Nações Unidas. b) a existência de dois ou mais Estados soberanos. as medidas eventualmente tomadas pela organização não podem ser assim qualificadas. em caso de guerra civil para impor determinado governo. No passado. Nem sempre é fácil distinguir os deveres dos direitos internacionais. qualquer tratado existente em conflito com essa norma torna-se nulo e extingue-se”. Surgiu no direito internacional contemporâneo o que se convencionou chamar de soft-law. existe o dever correspondente. a Convenção de 1969 prevê que caberá à CIJ a decisão a respeito. deduz-se que o dever por excelência é o de não-intervenção. de outro Estado soberano com o fim de impor a este a sua vontade. Tratando-se de organização da qual o Estado seja membro e que tenha aceito livremente o respectivo estatuto. só ocorre intervenção no caso de ingerência nos negócios internos. para a qual nenhuma de suas disposições “autorizará às Nações Unidas a intervirem em assuntos que dependam essencialmente da jurisdição interna de qualquer Estado” (art. expressão de difícil tradução para o português. proteção de seus nacionais e de seus direitos. CAPÍTULO 9 . E essa a orientação da Carta das Nações Unidas. O artigo 64 estipula que. mesmo se um Estado a denunciasse. não baseado em compromisso internacional. A expressão é muito utilizada em relação a determinados deveres em matéria ambiental. A Carta das Nações Unidas proclama como um de seus princípios o de que “Todos os Membros deverão evitar em suas relações internacionais a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de . Dentro dessa ótica. “Se sobrevier uma nova norma imperativa de direito internacional. internos ou externos. nos assuntos internos ou externos de qualquer outro”. Diante das dificuldades surgidas na determinação de quais as normas de jus cogens.a Convenção de Combate à Escravidão (1928).

como a Carta das Nações Unidas. de uns anos para cá. A intervenção pode revestir diversas formas desde as mais clamorosas até as mais discretas. interrupção das comunicações etc. dentro dos limites estabelecidos pelo direito internacional e pela Carta das Nações Unidas. não existe intervenção quando uma ação coletiva decorre de compromisso assumido formalmente em tratado multilateral.Intervenção em nome do direito de defesa e de conservação Todo Estado tem o direito de tomar. Para os defensores da proteção internacional dos direitos humanos. A decisão da OTAN de bombardear pontos estratégicos da Sérvia com o objetivo de obrigar o governo daquele país a permitir o estacionamento de suas tropas na Província de Kosovo para impedir a prática de atos de violência contra as minorias de origem étnica albanesa é um exemplo de intervenção para proteção dos direitos humanos. como tal condenada pelo direito internacional. 2. verifica-se que a proteção de nacionais é frequentemente invocada. ou.qualquer Estado ou outra ação incompatível com os propósitos das Nações Unidas” (art. no outro. Seja como for. tarifas alfandegárias excessivas. no caso de intervenção em virtude de guerra civil. direta (positiva) ou indireta (negativa). mas o exercício de atividade legítima. não existe intervenção. Diante da dificuldade de examinar todos os tipos de intervenção. Uma intervenção pode revestir duas ou mais das modalidades acima mencionadas. que dá ao Conselho de Segurança poderes para adotar medidas destinadas a manter ou restabelecer a paz e a segurança internacionais. em outras palavras. tomar medidas capazes de atingir outro Estado que não o ameace militarmente. contudo. Seção 2 . da qual todos os países envolvidos sejam membros e que. bem como a necessidade de proteger as populações locais contra atos de crueldade ou em defesa dos direitos humanos. a ponto de alguns governos e autores julgarem que o seu desconhecimento por um Estado justificaria uma intervenção para acabar com eventuais abusos. clara (aberta) ou oculta (dissimulada). Num caso. todas as medidas visando à sua defesa e conservação. Assim. apenas as mais usuais serão abordadas. a intervenção deverá ser praticada através de organização internacional. Não pode. não se justifica a prática de atos contra Estado cujo desenvolvimento possa ser considerado uma ameaça futura. 4). O fato de a OTAN ser uma organização . política ou não-política (como no caso de medidas econômicas abusivas. Seção 1 .Intervenção para a proteção dos direitos humanos O reconhecimento internacional dos direitos humanos na Carta das Nações Unidas e na Declaração Universal dos Direitos Humanos deu-lhes uma importância desconhecida até então. tenham aceito a adoção da medida. Teoricamente. importância esta que se vai tornando cada vez maior com o correr dos anos. Trata-se de dispositivo bem menos rigoroso do que o texto interamericano. visando a proteção internacional dos direitos humanos ou do meio ambiente.). individual ou coletiva. leia-se as Nações Unidas. como tais. ocorrerá uma intervenção. Citam-se as seguintes: diplomática (oficial ou oficiosa) ou armada. tem surgido em declarações oficiais de alguns países a defesa da intervenção.

que teve a data de 11 de agosto de 1910 e pela qual as partes contratantes se comprometeram a submeter à arbitragem todas as reclamações por danos e prejuízos pecuniários. Querendo. a delegação argentina pretendeu. verifica-se com frequência que o exercício da proteção diplomática é acompanhado por outros meios de pressão. manifestando que só o aceitaria se lhe acrescentasse uma . pois agiu como aliança militar e sem levar em conta os princípios da Carta das Nações Unidas de condenação à guerra ou ato semelhante. A nota de Drago. Depois. na qual condenava o uso da força para obrigar um Estado a pagar as suas dívidas públicas. em se realizando a arbitragem. realizada em Haia em 1907. dar forma convencional à Doutrina Drago. não se conformar com a sentença proferida. A delegação do Brasil impugnou o projeto. como a adoção de restrições econômico-comerciais.da uma convenção sobre reclamações pecuniárias. sendo transformada na chamada Convenção Porter. em nome dos credores. Seção 4 . como capaz de conduzir as nações mais fracas à ruína e até à absorção dos respectivos governos pelos das nações mais poderosas. que condena o emprego da força para a cobrança das mencionadas dívidas. se o aceitar. ainda menos. foi concluí. Seção 3 . não pode ser taxado de ingerência abusiva nos negócios do Estado. Seu exercício. pela via diplomática. que a rigor se inspirava em pronunciamento anterior de Carlos Calvo. Infelizmente.internacional não modifica a situação. Luís Maria Drago. Drago pretendeu fosse reconhecido o princípio segundo o qual “a dívida pública não pode motivar a intervenção armada e. apresentadas pelos respectivos nacionais e que não possam ser resolvidas. teve grande repercussão e passou a ser conhecida como a Doutrina Draga. na 4ª Conferência Internacional Americana. geralmente realizado através de missão diplomática. celebrada em Buenos Aires em dezembro de 1936. mas condenava a cobrança coercitiva destas. seus nacionais. reconhecido tradicionalmente pelo direito internacional. essa doutrina foi submetida à 2ª Conferência da Paz. ou. amistosamente. Esse direito. desde que mantido dentro de determinados limites. de certa forma.A Doutrina Drago O bombardeio dos portos venezuelanos provocou vivos protestos na América Latina e foi objeto de nota de protesto do ministro das Relações Exteriores da Argentina. foi codificado na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. Na Conferência Interamericana para a Consolidação da Paz. sem êxito. Mais tarde. a ocupação material do solo das nações americanas por uma potência européia”.Intervenção para a proteção dos interesses de seus nacionais Todo Estado tem o direito e o dever de proteger os seus nacionais no exterior. salvo se o Estado devedor repelir ou deixar sem resposta um oferecimento de arbitragem sobre o caso. cujo pagamento seja reclamado ao governo de um país pelo outro país. contanto que tais reclamações sejam de importância suficiente para cobrir as despesas do juízo arbitral. ao governo dos Estados Unidos. ligar sua tese à doutrina de Monroe. Drago não negava a obrigação da nação devedora de reconhecer as respectivas dívidas e procurar liquidá-las.

Seção 5 . Ulteriormente. de 17 de setembro de 1796. preocupado com rumores de que a Santa Aliança interviria nas Américas para auxiliar a Espanha na reconquista de suas colônias. que. 3) admitimos que as obrigações derivadas das dívidas externas de um Estado não possam ser objeto de reclamação diplomática antes do completo malogro das negociações diretas entre os credores e o governo ou agentes do governo do Estado devedor. no despacho em que formulou sua doutrina. não se lançasse mão da força para cobrança da dívida pública do Estado. durante uma sessão da Comissão de Peritos Americanos para a Codificação do Direito Internacional. surgir um conflito entre o Estado devedor e o Estado a que pertençam os credores. conhecidos como a Doutrina Monroe: 1) o continente americano não pode ser sujeito no futuro de ocupação por parte de nenhuma potência européia. 3) os Estados Unidos não intervirão nos negócios pertinentes a qualquer país europeu. no caso de controvérsia acerca da cobrança de dívidas ou reclamações pecuniárias. e na hipótese de ser impossível um acordo pelos meios diplomáticos usuais. não se opunha de modo algum ao recurso à solução arbitral. Dentre eles figuram três. pelo mesmo delegado do Brasil que havia impugnado o projeto argentino. na forma por que fora apresentado em Buenos Aires. as partes litigantes se obrigassem a recorrer à arbitragem ou à decisão de uma corte de justiça internacional. fazendo questão apenas de que.disposição pela qual fosse declarado que. 4) mas. o Presidente James Monroe enumerou uma série de princípios destinados a dirigir a política exterior do país. antes ou depois da arbitragem.A Doutrina Monroe Em sua mensagem de 2 de dezembro de 1823. sobre a possibilidade de ser adotada uma posição conjunta contrária a eventual criação de colônias por parte de potência européia nas Américas. E curioso assinalar que o próprio Drago. 2) é inadmissível a intervenção de potência européia nos negócios internos ou externos de qualquer país americano. O Presidente George Washington. O teor dessa consulta foi . e manter com elas vínculos políticos tão escassos quanto seja”. e tal conflito não for resolvido pelo emprego das vias diplomáticas usuais. o Estado devedor não terá o direito de se subtrair ao recurso à solução arbitral ou judicial”. o ponto de vista em que se colocou ali a delegação brasileira foi exposto com clareza. ministro dos Estados Unidos em Londres. O referido delegado concluiu sua exposição dizendo: “1) condenamos francamente a cobrança coercitiva de dívidas públicas ou contratuais. dirigida ao Congresso dos Estados Unidos. em qualquer destes casos. se. A autoria do primeiro princípio tem sido atribuída a George Canning. entendemos que. 2) concordamos em que os prejuízos sofridos por estrangeiros em consequência de negócios pecuniários de interesse privado ou de contratos com o Estado só possam ser objeto de intervenção diplomática em caso de denegação de justiça. em Lima. Os princípios enumerados não eram originais e já haviam sido proclamados com anterioridade. sondou confidencialmente Richard Rush. em sua mensagem de despedida. foi taxativo quanto ao eventual envolvimento em questões da Europa: “A principal regra de procedimento que devemos observar com respeito às nações estrangeiras consiste em oferecer-lhes nossas relações comerciais. E acrescentou: “Nossa verdadeira política consiste em manter-nos afastados de alianças permanentes com qualquer porção do mundo estrangeiro”.

O próprio direito internacional. em Granada e no Haiti marcaram a volta dessa prática. Alguns exemplos de restrições à soberania dos Estados serão abordados: 1) a neutralidade permanente. é hoje em dia um dos direitos internacionais do homem Seção 1 .recebido favoravelmente em Washington. em última análise. É bem verdade que. Seja como for. Embora a Doutrina Monroe tenha perdido sua importância como regra de direito internacional. os princípios foram aos poucos perdendo sua razão de ser para aquele país. As intervenções praticadas na República Dominicana e. 4) o problema das capitulações e 5) as servidões internacionais. CAPÍTULO 10 . Todavia. mas principalmente em pronunciamentos tomados pelo sistema interamericano. visto que a idéia já estava desde muito no sentimento dos estadistas norte-americanos. mas Monroe julgou conveniente que a idéia fosse proclamada pelos Estados Unidos. A justificativa apresentada era a de que os Estados Unidos tinham a faculdade. teve o mérito de haver criado entre os países da América Latina a consciência da importância do princípio da não-intervenção. condenada internacionalmente.Neutralidade permanente A neutralidade permanente (ou perpétua) é a situação reconhecida a um Estado que se compromete. um atentado à soberania do Estado. Foram inúmeras as intervenções praticadas no início do século. O reconhecimento de status especial das minorias. de maneira permanente. tudo indicava que a nãointervenção se consolidava. movidos principalmente pelo sentimento de salvaguarda própria (self-defense). que aos poucos foi ampliando o seu território. admite inúmeras exceções de cunho genérico a essa regra básica. inclusive na Carta da OEA. além dessas genéricas. Era a política do big stick exercida através dos marines. 2) o arrendamento de territórios. de acordo com o direito internacional. que representam. A enumeração das restrições varia de autor para autor e também no tempo. freqüentemente mencionado. com o passar dos anos e o fortalecimento dos Estados Unidos. mais recentemente. 3) a imunidade de jurisdição. o Presidente Theodor Roosevelt desenvolveu o que os norte-americanos denominaram Roosevelt corollary to the Monroe doctrine. livremente aceitas ou impostas. que pode ser considerado um dos pilares do sistema americano. a doutrina enumera uma série de restrições específicas. No início do século XX. de intervir sempre que ocorresse um total colapso da ordem com a consequente ameaça à vida e à propriedade de cidadãos americanos. a doutrina não foi o simples resultado de uma sugestão inglesa. contudo.RESTRIÇÕES AOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DOS ESTADOS O artigo 11 da Carta da OEA é categórico ao dispor que “Os direitos fundamentais dos Estados não podem ser restringidos de maneira alguma”. e. a não fazer guerra a . com a consolidação do sistema interamericano e a condenação da prática da intervenção na Carta das Nações Unidas. mediante o qual os Estados Unidos praticaram uma série de intervenções na América Latina sob o pretexto de evitar intervenções da parte de países europeus. conforme assinalou Accioly.

Arrendamento de território Em junho de 1997. em princípio. às vezes. reconhecida por outros Estados. estabelecidos por acordo com o Peru. Distingue-se. Entretanto. em 1842. da neutralidade temporária. Assim. Convém não confundir a neutralidade perpétua ou permanente com a neutralização de simples territórios determinados. A garantia pode ser individual ou coletiva. . Uma das consequências da derrota da China na Guerra do Ópio (1839-42) foi a assinatura do Tratado de Nanquim. salvo para defesa própria contra uma agressão sofrida. a ação protetora dos Estados garantes não tem que ser necessariamente coletiva: cada um deles pode individualmente exercer tal ação. em decorrência do qual a ilha de Hong Kong passou a fazer parte do Império Britânico. Novas divergências resultaram numa expedição militar anglo-francesa contra Pequim em 1858 e na conseqüente assinatura de novo tratado em 1860. que existe apenas em tempo de guerra e constitui uma situação de fato. como Estado-membro. meramente temporária quando tem em vista. para que a Suíça participasse da Liga das Nações sem abandonar o seu estatuto de Estado neutro. o Uruguai. Neste segundo caso. Ela deve ser garantida ou. por exemplo. assegurar a integridade e a inviolabilidade do Estado a que se aplica. que os forçavam a colaborar em certas intervenções armadas evidentemente contrárias à neutralidade estrita.nenhum outro. Esta. Casos desse gênero tivemos nas regiões fronteiriças do Brasil. porque o artigo 16 do Pacto da Liga estabelecia obrigações para os seus membros. A noção de neutralidade perpétua era incompatível com a qualidade de membro da Liga das Nações. Essa declaração constou do tratado de 2 de janeiro de 1859 entre o Brasil. chegou a ser declarado perpetuamente neutro entre os seus vizinhos. portanto. um país. a Áustria. relativa e acidental. Hong Kong deixou de ser uma colônia britânica e em julho voltou a fazer parte da China. foi admitida. um território litigioso. o dever de não violar tal neutralidade. ao menos. ser autônoma. a obrigação de defendê-la e. a Argentina e o Uruguai. O reconhecimento implica. Pode-se dizer que a neutralidade permanente constitui uma restrição à soberania do Estado que a possui. os dos territórios da bacia do Alto Juruá e da bacia do Alto Purus. pelo qual a China cedeu a Península de Kaulun à Grã-Bretanha. situação que representa apenas uma servidão negativa. em 1898. Seção 2 . Foram eles: o do território do Amapá. porque o tal tratado não entrou em vigor por falta de ratificações. A neutralidade permanente parece também incompatível com certas disposições da Carta das Nações Unidas. pois a guerra ofensiva é-lhe proibida e não lhe será lícito fazer tratados que importem na obrigação de fazer guerra que não seja estritamente defensiva. pois. o do território do Pirara. A garantia acarreta. pelo menos. fixado por acordo com a Grã-Bretanha. para os Estados que a concedem. mas não foi mantida. depois de adotar a neutralidade permanente. na Organização das Nações Unidas. A neutralidade permanente não pode. que a isentaram daquelas obrigações. Na América do Sul. estabelecido por acordo com a França. que se trata de subtrair à jurisdição de qualquer das partes litigantes até que o litígio seja decidido. foi necessária a conclusão de certos acordos especiais. Essa situação é.

nos termos da qual a antiga colônia passaria a ser uma Região Administrativa Especial. a 9 de dezembro de 1984. nacionalista e revolucionária. o Barão do Rio Branco negociou e assinou o Tratado de Petrópolis. através da qual grande parte de suas transações comerciais e financeiras eram efetuadas. o governo chinês buscou anular os tratados sob o fundamento. não obstante sua política antiimperialista. contudo. nos termos do qual a Bolívia abriu mão de seus direitos em troca de substancial indenização financeira. Trata-se evidentemente de uma restrição aos direitos fundamentais dos Estados. ao contrário do que ocorre nos outros casos. ou seja. Ficou ainda decidido que o sistema econômico e comercial capitalista será mantido por 50 anos depois de 1997. ou seja. gozando do direito do que se denomina extraterritorialidade. que certas pessoas possam continuar. Seção 3 . justificado. onde o Sindicate passaria a exercer atividades semelhantes às realizadas no passado pelas companhias de carta na África e na Ásia. mas. compreendeu a importância de manter a prosperidade de Hong Kong. através dos quais como que abria mão da sua soberania no Acre. A criação do Brazilian Sindicate no início do século teria representado um exemplo de arrendamento de território na América do Sul. em determinadas circunstâncias. Por ocasião da sua visita à China continental em setembro de 1982. Depois de longas negociações. obrigou-a a “arrendar” uma área maior ao norte de Kaulun. foi firmada a Declaração Conjunta sobre a Questão de Hong Kong. segundo o qual todas as pessoas e bens situados em seu território acham-se submetidos às suas leis e tribunais.Imunidade de jurisdição O direito de jurisdição figura dentre os básicos dos Estados. A China comunista continuou essa política e. que resultaram na transformação das regiões em colônias européias.aproveitando o enfraquecimento da China. além de outras vantagens destinadas a facilitar o seu acesso ao Atlântico. em 1903. que representava uma ameaça à soberania da Bolívia. Com o objetivo de acabar com a situação criada. por uma ficção jurídica. mas nunca admitiu a independência de Hong Kong. de que se tratava de tratados desiguais. bem como à dos países que teriam que ser cruzados. continuam fora do território. isto é. O melhor exemplo é o da imunidade jurisdicional dos funcionários diplomáticos reconhecida a . Margaret Thatcher salientou a importância de que os vínculos de Hong Kong com a Grã-Bretanha fossem mantidos. com um alto grau de autonomia e um principal funcionário executivo nomeado pelo governo de Beijing. Aceitava a manutenção do status quo. Surgiu em virtude da assinatura pelo governo boliviano de uma série de contratos com capitalistas ingleses e norte-americanos. até 30 de junho de 1997. a fim de que o território pudesse continuar a ser um importante centro comercial e financeiro. Os três tratados constituem a base da administração de Hong Kong pela GrãBretanha. mas admitiu que se poderia buscar uma solução visando a que o Reino Unido reconhecesse a soberania da China sobre Hong Kong. Ainda durante a segunda guerra mundial. O direito internacional admite. O “arrendamento” foi pelo prazo de 99 anos. sujeitas às leis civis e penais de seus próprios Estados. não há aqui uma imposição de um Estado mais forte sobre outro mais fraco. que passou a ser denominada os “Novos Territórios”.

elas podem ser consideradas “direitos reais sobre coisa alheia”. no segundo. celebrou um tratado com o governo chinês. Segundo Accioly. e abrangia certas garantias e facilidades comerciais reconhecidas a estrangeiros. o governo do Brasil.todos os Estados e codificada pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. ou extraterritorialidade: 1) os chefes de Estado e governo. 2) que o direito concedido seja permanente. 4) tropas estrangeiras devidamente autorizadas a atravessar o território de um Estado ou de nele se insta. 6) os oficiais e tripulantes de aeronave militar autorizados a pousar em território estrangeiro. variavam de um Estado a outro. Por analogia com o direito civil. com o enfraquecimento do islamismo e o fortalecimento das potências européias. Vinha do Oriente.Capitulações Num sentido amplo. Seção 5 . a principal é a das servidões internacionais. as capitulações passaram a ser imposições destas. as capitulações eram. e a restrição seja admitida em favor de outro ou outros Estados. Elas podem ser permissivas — permissão de certo uso do território em causa.lar temporariamente. que haviam expulsado os cristãos da Terra Santa. 3) determinadas categorias de cônsules. por efeito do tratado celebrado em Londres a 5 de fevereiro de 1858 e denunciado pelo governo otomano a 7 de fevereiro de 1911. que são restrições que o Estado aceita expressa ou tacitamente quanto ao livre exercício da soberania sobre o seu território. faculdades especiais de jurisdição. no entender dos príncipes muçulmanos. são chamadas positivas. O regime das capitulações determinava a concessão ou o reconhecimento de certas imunidades. Gozou igualmente de tal privilégio na China. pelo menos. e. dos chamados países fora da Cristandade. só se referia a imunidades judiciárias e privilégios fiscais. Seção 4 . No primeiro caso. atribulações policiais aos cônsules dos países a cujos nacionais se aplicava. Quanto à China. três são as condições essenciais: 4) que o direito atingido pertença a um Estado. De qualquer maneira. O sistema das capitulações já desapareceu ou. 5) os oficiais e os tripulantes de navios de guerra de um Estado aceitos em águas territoriais de um outro. . Mais tarde. pelo qual se pôs fim ao privilégio. negativas. Gozam de imunidade de jurisdição. desde 1929. muita vez. entretanto. visto que o Corão não lhes era aplicado. ou restritivas — restrição de exercer o poder territorial em toda a sua extensão. por efeito do tratado celebrado em Tien-Tsin a 3 de outubro de 1881. 2) os agentes diplomáticos. já se acha praticamente extinto.As servidões internacionais A jurisdição de um Estado sobre o seu território pode sofrer restrições em favor de outro ou outros Estados. Dentre as restrições. O Brasil gozou do privilégio das capitulações na Turquia. 3) que ele seja estritamente real ou territorial. às vezes. não devem ser confundidas com as convenções entre beligerantes visando à rendição de uma praça ou de forças militares ou navais. concessões unilaterais graciosas que regulavam a situação jurídica dos cristãos. Desde muito. declarou estar disposto a colaborar com os demais países interessados a fim de chegar a um acordo para a supressão do privilégio da extraterritorialidade: em agosto de 1943. que.

Nesta mesma época existia a co-propriedade de certos cantões pelos confederados suíços. na interdição do estabelecimento de bases navais em certos pontos.Não existem. de exercer a pescaria em águas da sua exclusiva jurisdição. pelo menos. servidões infaciendo. pelas Convenções de 1906 e 1914 e que alcançou a independência em 1980 sob o nome de Vanuatu. conforme observa Antokoletz. no direito reconhecido por um Estado a outro ou outros Estados de manter guarnição militar em certa parte de seu território. e sim. pela fusão destes. bem como casos de co-propriedade em território do Império RomanoGermânico (Lippstadt. convencionada entre o Brasil e o Uruguai no artigo 22 do tratado de 30 de outubro de 1909. Kurndorf etc. e o anglo-egípcio noSudão (1898-1956). sob a França e Inglaterra. Em 1988 as ilhas Virgens. que acarretam a obrigação de um Estado fazer alguma coisa em proveito de outro ou outros Estados. Entre os exemplos mais recentes de condomínio que a vida internacional registra: o arquipélago das Novas Hébridas. de uma faixa territorial. de um porto. As servidões positivas consistem. porque isso já não seria uma servidão. porém. Não terá esse efeito a simples transferência a outro ou outros Estados dos territórios a que se apliquem. podem ser mencionados. Em matéria de servidões negativas. O termo “concessões“ é empregado para mencionar os quarteirões ou áreas de uma cidade que são destinados para a morada dos estrangeiros. estabelecida em tratados de 10 de julho de 1853.). no Caribe. Coret). As servidões internacionais extinguem-se por acordo entre os Estados interessados. por exemplo. 7 de março de 1856 e outros atos internacionais entre os Estados ribeirinhos. Foi. de uma ilha. uma obrigação ordinária. dois exemplos que interessam ao Brasil: 1) a interdição de utilização da ilha de Martín García como meio de impedir a livre navegação do rio Paraná. consistem. A palavra “condominium” foi introduzida no Direito através do DI na obra de Fromann intitulada “Tractatio de condominio territorii” (1688). em 1865 (Convenção de Gastein. relativa ao condomínio da Áustria e Prússia sobre os Ducados de Schlesvig-Holstein e Lauemburgo) que se utilizou pela primeira e única vez a palavra “condomínio” em uma convenção internacional para definir a situação de um território (A. estavam sob condomínio dos EUA e Grã-Bretanha (Jean Touscoz – Atlas Geoestratégique. 2) a interdição do estabelecimento de fortes ou baterias nas margens da lagoa Mirim. 204. Seção 6 – Condomínio O condomínio no DI anormalmente tem uma base convencional. O grupo de Estados detentores desta competência se encontra em situação de igualdade jurídica. entretanto. Este regime se distingue das capitulações no sentido de que . em geral mais numerosas e quase sempre de caráter militar. As servidões negativas. pela renúncia expressa ou tácita do Estado ou dos Estados a que aproveitam ou por qualquer outro meio de resolução dos tratados. Ele pode ser definido como sendo o regime de um território que se encontra submetido à competência de mais de um Estado. na proibição da fortificação de uma cidade. de gozar do livre trânsito através do seu território. propriamente dita. por exemplo. de construir e explorar estradas de ferro no seu território. no impedimento à cessão ou alienação de determinado território. nas do rio Jaguarão ou em qualquer das ilhas situadas nessas águas. 1988). isto é.

desmembrado ou dividido. é apenas aquela faculdade. da mesma forma que os indivíduos ou qualquer outra pessoa jurídica. Dos pontos de vista da configuração ou. isto é. o fluvial. neste sentido. o segundo. Pode também apresentarse sob vários aspectos físicos. porque o mesmo lhes parece uma sobrevivência de certo direito de propriedade do soberano sobre todas as terras do país. perfeitamente compatível com a propriedade particular das terras. É. ao se falar em domínio eminente do Estado. o domínio terrestre e o domínio marítimo. antes. a “imunidade” do estrangeiro é pessoal. A estes três elementos ainda é necessário incluir a plataforma submarina e o subsolo do mar. à qual como que se superpõe. o que se deve ter em vista. conforme vimos na primeira parte desta obra.” A partir deste tratado passou a existir o “comércio ilegal” do ópio. toda a pessoa ou coisa que se encontre no território está sujeita à suprema autoridade do Estado. A alguns internacionalistas repugna a idéia de um domínio eminente do Estado. também pode possuir. O território até o fim do século XIX era composto de dois elementos. podemos considerar o território terrestre. nenhuma autoridade estrangeira tem o direito de aí exercer qualquer jurisdição. quando inteiramente cercado pelo território de outro Estado. realizado por navios ingleses e norte-americanos O TERRITÓRIO O território é um dos elementos constitutivos do Estado. Assim. Em princípio. isto é. obrigou a China ao estabelecimento do regime de concessões e serviu de modelo às futuras concessões que foram estabelecidas. No regime de capitulações. parece preferível o uso do termo domínio. A soberania do Estado em relação ao seu território compreende o imperium e o dominium: o primeiro. Na verdade. constituído por uma espécie de soberania abstrata sobre as pessoas que nele se encontram. os direitos inerentes à soberania. uma espécie de domínio eminente. o lacustre e o aéreo. e. salvo. quando constituído por uma porção compacta da superfície da terra. antes. quando formado de partes. em vez de território. O Tratado de Nanquim (1842). ou seja. absolutamente. quando a sua superfície apresenta soluções de continuidade. aquele atributo essencial da soberania. da maneira como se acha disposta a sua superfície. excepcionalmente. o território do Estado pode ser: íntegro ou compacto. constituído pelo direito exclusivo de reger o território e dele dispor segundo a sua própria vontade. encravado. . em certos casos admitidos pelo direito internacional. Novo fator passou a ser estudado: o domínio aéreo. ao mesmo tempo que lhe assegura a proteção do Estado. E constituído pela porção da superfície do globo terrestre sobre a qual o Estado exerce habitualmente sua dominação exclusiva. A China foi a grande vítima deste sistema. Esse dominium não se confunde. o marítimo. com o direito de propriedade privada. Em tal acepção. que o Estado. para as necessidades legítimas da coletividade nacional. que tem o significado acima referido. enquanto que nas concessões ela encontra uma base territorial. que pôs fim à guerra do ópio. ao nos ocuparmos das restrições aos direitos dos Estados.neste último não existe uma parte da cidade retirada à soberania do Estado.

a linha exata de tal fronteira. os seus limites. O termo delimitação é mais ordinariamente usado como significando apenas a descrição do limite ou fronteira. no terreno. A doutrina ainda incluía as colônias e os territórios não autônomos sujeitos a sua soberania. entretanto. antes.DOMÍNIO TERRESTRE O domínio terrestre do Estado compreende o solo e o subsolo da parte da superfície do globo circunscrita pelas suas fronteiras e. ao passo que a fronteira é uma zona. tendo . ou estradas etc. num tratado ou convenção. A bem dizer. habitualmente. sem atenção a princípios absolutos. cujos limites não se achem perfeitamente ou legalmente definidos. nos nossos dias. em geral. e. muito embora. a linha ou linhas que o separam dos seus vizinhos. apoiada em documentos indiscutíveis. o problema só oferecerá dificuldades se a situação primitiva não se acha bem definida. Aqueles são os que acompanham certos traços físicos do solo ou os chamados acidentes geográficos. porém. Os outros (também chamados intelectuais ou matemáticos) são os que não correspondem a nenhuma linha física ou acidente natural. a operação pela qual se assinala. não se procede efetivamente à determinação de uma fronteira sem indicar no terreno. mas com o advento das Nações Unidas já não se admite a existência de colônias ou de territórios não autônomos submetidos a um Estado. Estes últimos seguem. não devem significar a mesma coisa: o limite é uma linha. ou linhas imaginárias. que indicam até onde vai o território sobre o qual se exerce a sua soberania. às vezes. se procura traçar uma fronteira entre dois Estados que já possuíam limite antigo. O traçado das fronteiras é geralmente o resultado de acontecimentos históricos ou de acordos mútuos. ou resultante de acordo tácito ou de alguma sentença arbitral. A execução. também. por meio de marcos ou sinais artificiais. linhas astronômicas. O subsolo depende diretamente do território que lhe constitui a superfície. isto é. A extensão do domínio terrestre do Estado é determinada por limites. na verdade. que liguem pontos previamente conhecidos. Quando. em geral. Esta é. Pode haver Estado. toma. pois. geralmente. ou indicar concretamente. o nome de demarcação. por acordo ou por decisão arbitral. no terreno. Admite-se comumente a divisão dos limites em naturais e artificiais. não se funda na existência de uma delimitação precisa. quando se tem em vista apenas restaurar um limite anterior. esta seja um acidente natural. como um paralelo ou um meridiano. O Estado tem o direito e até o dever de marcar materialmente. ou retas. ou. do que foi assim descrito ou determinado. porém. É muito comum a confusão entre as palavras limite e fronteira. as ilhas que lhe pertencem. seja qual for a sua profundidade. feita. isto é. não existem limites puramente naturais. a este ou àquele limite. na linguagem usual elas não se distinguem.CAPÍTULO 1 . a linha divisória entre Estados limítrofes. Quando. Rigorosamente falando. Não há princípio jurídico a que se subordinem todos os Estados e pelo qual se determine que cada um destes tem direito absoluto a esta ou àquela extensão territorial. se cuida de criar limite novo ou quando.

se procura adotar outro traçado. Seção Única . às vezes. não havia entre eles e o Brasil. o uti possidetis significa a posse contínua e prolongada. geralmente. na apreciação desse princípio. que era a monarquia espanhola. além disto. independentemente de qualquer outro título. em geral. Com efeito. Esses sinais — que. ser invocado nos litígios de limites entre os países americanos de origem espanhola. Nestas condições. Foi isto. as divergências têm sido frequentes. lavrados . e sempre. no qual se determina o modo de organização ou de constituição de tais comissões e se lhes traçam as instruções por que se deverão guiar. Como quer que seja. o de posse real e efetiva. e não o que ele tinha direito de possuir e não possuía. em seu verdadeiro sentido. herdada pelos países americanos ao tempo de sua independência. o único recurso era o uti possidetis de fato. são numerados e. precedida de algum ajuste especial. quer pela caducidade do ato ou atos que a estabeleceram.Demarcação A demarcação de uma fronteira. porque teria em vista a restauração das antigas divisões administrativas criadas ou estabelecidas por uma autoridade comum. o que tal Estado tem possuído real e efetivamente com qualquer título ou sem título algum. é de mais difícil solução. quer pela sua impraticabilidade. Ora. no tocante aos limites entre tais países e o Brasil. a questão. o chamado uti possidetis juris poderia. se dava ao uti possidetis o único sentido que ele poderia razoavelmente ter. isto é. Não existia. marcos. entretanto. de ordinário confiada a comissões mistas. na falta de outro. compostas de técnicos dos dois países limítrofes. todavia. Os trabalhos dessas comissões são consignados em atas e indicados em mapas.desaparecido a delimitação anterior. o uti possidetis juris repousa sobre uma afirmação contraditória: funda-se no título e não no fato da posse. umas e outros firmados pelos comissários de ambas as partes. pois o tratado preliminar assinado em Santo Ildefonso em 1777 havia caducado. enquanto. em vários tratados de limites celebrados entre o Brasil e seus vizinhos. tranquila e pacífica. aliás. Paul De La Pradelle. não esquecer que. porque depende inteiramente do arbítrio das partes interessadas. ou o direito à posse. era a posse real e efetiva. na época das respectivas emancipações políticas. no Brasil. Assim. conforme se deduz do que Andrés Bello escrevia em 1857. Na verdade. tirado do direito romano e muito alegado nas questões de limites entre as nações latino-americanas. a significação jurídica do princípio não pode ser diferente da que sempre lhe foi dada no Brasil. pode ser invocado um princípio. em geral. as comissões demarcadoras empregam. e balizas ou bóias. E. independentemente da ocupação efetiva. na ausência de qualquer documento escrito que pudesse ser legitimamente invocado. segundo observou. vários autores e governos hispano-americanos sustentaram conceito diferente. indicam as respectivas coordenadas geográficas — são usualmente descritos em termos ou atos especiais. para um Estado. a mesma situação. que apresenta critério muito razoável para a solução e. Para assinalar a linha divisória. postes ou pilares. adotando o chamado uti possidetis juris. como que se impõe: é o uti possidetis. é. Neste caso. Convém. reconhecido. ou quase sempre. explícita ou implicitamente. nenhum tratado válido. porém. quando muito.

Daí resulta que os marcos colocados em tal fronteira devem sempre ser respeitados. quando a fronteira é constituída por uma montanha: ou o traçado segue a linha de cumeadas ou das máximas alturas. um ponto que deles se acha afastado. Em rios não navegáveis. por exemplo. o rio. por acordo mútuo. entre o Brasil e o Uruguai: o caso do rio Jaguarão. portanto. nem sempre existe coincidência entre as duas linhas. No caso de fronteira muito habitada. porque a outra oferece maiores dificuldades à demarcação. as linhas divisórias. entre o Brasil e. ou corresponde ao eixo do canal principal ou mais profundo. Por isto. neste caso. em geral. em lugares alagadiços ou quando se trata de assinalar a foz de um rio ou a linha divisória num curso d’água. o Uruguai e o Paraguai. . as soluções mais geralmente adotadas são as seguintes: a) Montanhas — Duas hipóteses podem ser encaradas. ou se confunde com a linha média fluvial. as preferências vão para a linha do divisor de águas. ainda quando se prove a sua má colocação. A distância em que devem ser colocados os marcos depende. Na demarcação de fronteiras naturais. Houve um destes. nos tempos atuais. isto é. também chamado linha de partilha das águas (divortium aquarum). o talvegue é o que. os marcos são chamados de referência. existem atualmente raros exemplos. Na terceira hipótese — sem dúvida a mais comum. o limite passa por uma das margens. Considera-se definitiva a fronteira demarcada cuja demarcação foi aprovada pelos governos interessados. é indiviso. Há poucos casos desta espécie. que até o tratado de 30 de outubro daquele ano pertenceu integralmente ao Brasil. os ditos governos resolvam o contrário. ou em lagos. b) Rios — Se a linha divisória corre por um rio que separa territórios de dois Estados. e. até 1909. a linha do talvegue. Segundo se trate de limites em montanhas ou em rios. e suas águas permanecem em condomínio. pode ocorrer uma destas hipóteses: ou o rio pertence integralmente a um destes — e. foram objeto de novos ajustes para a sua melhor caracterização. forma a fronteira. Quando o rio tem dois canais navegáveis. frequentemente. ou o rio é comum a ambos os países ribeirinhos — e. nos dias de hoje —. Na segunda hipótese. Em geral. para a colocação ou intercalação de novos sinais nas referidas linhas. isto é. alguns critérios devem ser estabelecidos previamente. por simples referência. derivadas da natureza da base física da linha divisória. surgem frequentemente certas dificuldades. Esta a razão por que. da natureza do terreno e da existência ou inexistência de população na zona fronteiriça de que se trate. Isto é. ou o limite divide o rio em duas partes. ou linha eqüidistante das margens. há toda a conveniência em que os marcos sejam perfeitamente visíveis dos que lhes ficam contíguos. As vezes. nos rios navegáveis. em toda a sua largura. os marcos não são colocados na própria linha divisória. o limite segue por uma linha que divide o rio em duas partes. Efetivamente. Da primeira hipótese. ou segue o divisor de águas. É o que acontece. ao talvegue. a menos que. adota-se ordinariamente como limite a linha da meia distância ou linha mediana. respectivamente. na média.e assinados por ocasião de sua inauguração. e poderemos defini-los como sendo os que indicam. Neste caso. já demarcadas há muitos anos.

mas também porque estas constituem sinal muito mais visível do que um leito seco. c) Lagos ou mares internos — Salvo acordo em contrário. quer por uma linha correspondente ao antigo talvegue.apresenta maior profundidade ou maiores facilidades à navegação dos navios de maior calado. o governo britânico concordou em que. Assim pensamos. os autores. em geral. a adoção do princípio de que. ordinariamente. mas tal lesão será facilmente compensada por uma indenização razoável. antes. é esse o critério seguido. isto é. todavia. o limite acompanha tais desvios. porém. Se. Se. e não no leito abandonado. Evidentemente. o rio abandona repentinamente o leito por onde corria e abre caminho através do território de um dos dois Estados ribeirinhos. De fato. a linha de fronteira continuará a ser o talvegue do curso d’água. tornado seco. Os terrenos abandonados por estas juntam-se à margem adjacente. da continuação da linha divisória no curso do rio. por causas naturais. Contudo. que a solução só deverá ser esta quando a dita linha passa entre os dois canais. nos rios limítrofes. opinam que. outubro e novembro de 1932. ou. sobre a nossa fronteira com a Guiana Britânica. “a água. levado a efeito por notas trocadas em Londres com as datas. Isto. Se a largura do lago ou mar interno é superior a seis milhas. finalmente. não só porque é sempre de se presumir que o rio tenha sido escolhido como fronteira principalmente devido ao obstáculo natural formado por suas águas. a linha divisória continua a seguir o talvegue ou a linha mediana da superfície das águas. no caso de se tratar de superfície estreita e longa. em casos dessa natureza. Se estes. em consequência de fenômeno natural repentino. eventualmente. se acham ambos na mesma metade do rio. a solução que preferimos pode acarretar algum prejuízo territorial a um dos ditos Estados. respectivamente. se deve escolher como divisa a linha mediana do rio. porém. isto é. o critério que prevaleceu na conclusão do ajuste entre o Brasil e a Grã-Bretanha. e que. De acordo com a proposta brasileira. será o limite”. a doutrina corrente manda ou admite que a fronteira continue onde estava. a linha divisória acompanhe a alteração do curso do rio. porque a conservação da fronteira no antigo leito pode determinar sério prejuízo a um dos Estados ribeirinhos. parece mais razoável que se adote como fronteira aquele que estiver mais próximo da linha mediana. no tocante à navegação fluvial. ficando comum aos Estados marginais a faixa . fazer voltar o rio ao leito abandonado. devendo ser marcada quer pela linha mediana deste. entre dois Estados. isto é. isto é. um rio apresenta graduais ou insensíveis desvios no seu curso. quando. Se a profundidade dos dois é a mesma. e. a mudança é súbita e perceptível. sem falar em que poderá ser. o primeiro caso internacional em que se adotou o ponto de vista acima sustentado. Julgamos claro. entretanto. em certo prazo. depende muito da forma e da área da superfície líquida. contudo. concedida ao Estado assim lesado a faculdade de. Quando. no entanto. pode admitir-se que cada Estado marginal estenda a sua soberania até a distância de três milhas. e não o leito do rio. Não foi esse. seja procurada sempre no antigo leito. exatamente. se qualquer dos ditos rios sofrer completa deslocação. o limite em lagos ou mares internos segue. então. podem ocorrer situações que encontrarão soluções diferentes. em virtude de qualquer fenômeno natural. Foi este. a linha de meia distância entre as margens. porções de ambas as margens pertencem a um só Estado. é mais razoável a solução inversa.

MODOS DE AQUISIÇÃO E DE PERDA DO DOMÍNIO DO ESTADO No estudo dos modos de aquisição e de perda do domínio do Estado. por conveniências de natureza prática ou de ordem administrativa. na ponte.central da superfície líquida. acarreta o abandono deste como linha divisória. d) Ilhas — As ilhas situadas em rios limítrofes pertencem. Se a linha divisória. naturalmente. ficando as ilhas. ou se o limite continuará a ser determinado pelo talvegue. esses mesmos tratados não especificam se a conservação das ilhas sob o antigo domínio. em geral. o qual continuará a cobrir as ilhas que nele estavam incluídas. o talvegue ou a linha mediana. no entanto. o domínio da ilha resultante da fusão deve ser atribuído ao Estado em cujo lado se achar. e a ilha ou ilhas se encontram sobre a própria linha. isto é. a linha divisória. no rio. cabendo uma parte a cada Estado ribeirinho. Parece-nos mais razoável a primeira hipótese. ela é estabelecida na seção média transversal entre os dois encontros da ponte. Se. se unem e formam uma só ilha. não se acha marcada. Se o limite acompanha o talvegue e este muda de direção. no rio. Se existe ou é construída alguma ponte sobre um rio limítrofe. de acordo com a linha do talvegue. cujo limite é traçado pelo talvegue. além do limite do Estado a que pertencem. a ilha resultante da fusão será naturalmente cortada pela dita linha e esta a dividirá em duas partes. mantido o princípio da inalterabilidade da partilha. duas ilhas de domínios diferentes. apesar da mudança de direção do talvegue. Quando o limite adotado é a linha de meia distância. no trecho em que se acham as ilhas. porque a posição da linha de jurisdição na ponte não prejudica de modo algum a linha divisória no rio. a mudança do talvegue não exercerá nenhuma influência em relação ao limite. Essa seção média quase sempre coincide com a linha mediana no rio. determinará a qual dos ribeirinhos deverão pertencer as ilhas. Quando. nele situadas. indicando esta a que Estado deverão elas pertencer. a de que. sua distribuição será feita segundo o critério adotado para a linha divisória. a solução deverá ser outra: elas passarão a pertencer ao Estado a cuja margem tenham aderido. Alguns tratados determinam que tais mudanças não alterarão a partilha já feita. nesta hipótese. por ação gradual e natural de um rio. as ilhas se unem à terra firme ao lado do outro Estado. mas aí surge uma dificuldade: é que. o . Quando surgem novas ilhas num rio já delimitado. deixando aí de seguir o talvegue desviado. ao Estado dentro de cujos limites se encontram. no trecho considerado. é de se perguntar se tal mudança terá influência sobre a distribuição das ilhas. conforme o critério previamente estabelecido. CAPÍTULO 7 . Em geral. Mas a sua não-coincidência com o limite estabelecido no rio pouco importa. elas serão partilhadas de acordo com esta — a menos que os dois Estados ribeirinhos tenham preferido determinar a sua distribuição de acordo com o critério da maior proximidade das margens do rio. nem sempre corresponde ao limite. Se ocorre o mesmo fenômeno em rio cujo limite é traçado pela linha equidistante das margens.

por um Estado. Poucos anos depois. correspondem aos modos de aquisição e mais a secessão. O direito romano divide os citados modos em originais e derivados. descobertas ou por descobrir. a doutrina menciona a ocupação. a respectiva população não tenha organização política ou a sua organização não lhe permita reclamar direito de ocupação anterior. se exige a reunião de certos elementos para a sua validade. dependiam quase exclusivamente de bulas pontifícias. a aquisição do domínio se verifica em bens que não pertenciam a outro Estado. além da prioridade do descobrimento. no território ocupado. Se. houve épocas em que as regras seguidas eram muito mais simples. situadas a cem léguas a oeste dos arquipélagos dos Açores e do Cabo Verde. Os modos de aquisição e de perda do domínio estatal referem-se quase que exclusivamente ao domínio terrestre. Nos modos derivados de aquisição. de território não pertencente a nenhum outro Estado. indicada por algum sinal externo: uma cruz. o Instituto de Direito . substituído pelo da ocupação efetiva. Entre os modos de aquisição. cessão ou prescrição. a contar de meados do século XVI. no caso de um território que passa a adquirir a sua independência. uma autoridade capaz de assegurar o respeito aos direitos adquiridos e. a cessão e a prescrição. A teoria da efetividade da posse foi consagrada pelo Ato Geral da Conferência de Berlim. a última das quais.direito internacional foi buscar no direito romano as diretrizes básicas. por parte de qualquer das potências contratantes.A ocupação A ocupação foi e tem sido modo mais frequente de aquisição de domínio. uma bandeira. em tal sentido. pela qual foram atribuídas aos reis de Espanha as terras. ulteriormente. Nos modos originais. as aquisições de novos territórios. à qual se considerou necessário unir a manifestação da vontade de possuir o território. em 1888. a acessão. mercê da preponderância exercida no mundo pelo Papado. nas costas do continente africano. Com a era dos grandes navegadores surgiu o espírito de aventura e o gosto pela conquista de novas terras. ou seja. ressalvados os direitos de posse existentes até o dia de Natal do ano anterior. tanto assim que para Grocius se trata do único modo natural e originário. b) a potência ocupante deverá manter. deverá ser notificada às demais. teríamos a ocupação e a acessão no caso de aluvião ou formação de ilhas. O conceito jurídico da ocupação nem sempre foi o mesmo. neste caso. Seção 1 . Mais tarde. fluviais ou oceânicas. como no caso de acessão (avulsão ou deslocamento de rio). Nos últimos séculos da Idade Média e até o fim do século XV. ainda que tal território seja habitado. passou a ser julgada necessária a tomada de posse. por parte de qualquer outro rei ou príncipe cristão. contanto que. um marco. eventualmente. e começou-se a considerar o simples descobrimento como título suficiente para aquisição de qualquer território. parece ter sido a famosa Inter coetera. Esse sistema de simples ocupação nominal foi. de 1885. Consiste na apropriação. presentemente. de 4 de maio de 1493. Em tal sentido. ocorre a transmissão de um Estado a outro. de Alexandre VI. Quanto aos modos de perda do domínio. a liberdade do comércio e do trânsito. Dele constavam as seguintes regras: a) toda futura ocupação.

correspondentes ao exercício da soberania. apesar de algumas opiniões divergentes. A intenção de se tornar dono do território pode ser manifestada por sinais materiais ali deixados. por mais rudimentar que seja. A terceira condição é a posse real e efetiva. Pode alegar-se que o Ato Geral de Berlim só se referia ao continente africano e vigorava apenas nas relações entre as potências contratantes. fortalece um título baseado na ocupação e fornece. ou seja. Realmente. A segunda condição para a validade da ocupação é. isto é. as seguintes: 1) que a ocupação se tenha aplicado a um território considerado como res nullius. advogado do Brasil na questão da fronteira com a Guiana Britânica. ainda não foram objeto de apropriação. Alguns autores pretendem que se acrescente a essas condições a da notificação oficial aos demais Estados. e para o Estado. com o intuito de o conservar sob seu domínio e de exercer sobre ele poderes de fato. sustentou que “a notoriedade equivale à notificação”. em nome de um Estado. 2) que tenha havido tomada de posse desse território. a intenção do Estado ocupante de considerar tal território como seu. Assim. dentro de prazo razoável. que. pois só o Estado pode exercer direitos soberanos. por atos. Quanto ao abandono ou derelictio. sendo de formação recente. portanto. 3) que a posse tenha sido real e efetiva. por si só. ou em nome de um Estado. Na categoria de res nullius figuram: a) os territórios que se têm conservado absolutamente desertos ou que. Muitos outros. porém. Entretanto. de acordo com a doutrina mais corrente. Este título caducará. a ocupação será real e efetiva quando o Estado tenha tomado posse fisicamente do território. enquanto se pode presumir razoavelmente que o dono do território tem a vontade e a capacidade de o retomar.Internacional recomendava a generalização desses mesmos princípios. um inchoate title. Mas não é destituído de importância. Realmente. Parece-nos que a efetividade deve compreender: o factum ou corpus. b) os que são habitados por tribos selvagens e não possuem autoridade ou organização de espécie alguma. convém precisar que o simples fato material da retirada momentânea do território. consideram dispensável tal notificação. que demonstrem a existência de um interesse constante pelo território. c) os completamente abandonados por seus antigos donos. pelas frequentes visitas ao mesmo. podem ser consideradas como condições essenciais para que a ocupação seja tida como legítima. sem a intenção de renunciar à soberania sobre o mesmo. que a posse do território tenha sido tomada por agentes de um Estado. o fato material da tomada de posse do território e sua retenção. e. os princípios hoje vigentes já são diferentes. não faz cessar a posse. um título em vias de formação ou título temporário. se não for seguido de posse efetiva. isto é. no momento. Mas parece incontestável que suas regras eram a expressão do direito internacional da época. isto é. O simples descobrimento não tem essa significação. conforme vimos. e o animus. Esta exigência é natural. Área alcançada pela ocupação — Uma das primeiras fontes de . enfim. julgamos que.do civilizado. não constitui propriamente a dita figura jurídica. isto é. E Joaquim Nabuco. não pertencesse a nenhum Esta.

sobre todo este. fundando-se na idéia da unidade geográfica. a linha divisória entre estes deve ser traçada entre os últimos postos ocupados de cada lado. Assim. é inegável que um rio. no tocante à ocupação. De acordo com o princípio da efetividade da ocupação. por exemplo. na outra. a da zona hidrográfica. a determinação da área a que se deve estender a ocupação de um ponto ou de certa parte de um território. algumas regras têm sido sugeridas. a ocupação efetiva de parte de um território justifica a soberania do Estado ocupante sobre todas as terras sem dono. Ambas as modalidades têm sido invocadas muitas vezes e podem alegar em seu favor precedentes respeitáveis. Assim por . pode ser considerada como um todo. quando dois Estados se acham estabelecidos sobre uma costa e é incerta a extensão lateral dos respectivos territórios. a ocupação efetiva da embocadura de um rio basta para submeter à soberania do Estado ocupante toda a região banhada por esse rio e seus afluentes. a ocupação efetiva de uma costa marítima determina a soberania do Estado ocupante sobre todo o território situado entre a dita costa e a linha de partilha das águas de todos os rios que na mesma se lançam. Depois.divergências. pelos seus acidentes naturais ou geográficos. Essa teoria. Está claro que essa eficácia deixará de existir ante a ocupação anterior ou simultânea. A teoria da hinterland faz legítimo o prolongamento. a da meia distância. e no mesmo se estabelece. com seus afluentes e subafluentes. não é destituída de fundamento. aquele que primeiro penetra num rio. dos lugares da mesma região englobados na zona em causa. desde logo. contudo. É evidente. não se tem julgado indispensável que o poder do Estado ocupante de um território se exerça. de uma ocupação efetuada na costa. sobre a ilha de Palmas. que se encontram na circunvizinhança. Essa teoria poderia conduzir aos maiores abusos e foi condenada no laudo arbitral de 4 de abril de 1928. Na prática. para o interior. tem sido a determinação da área por esta alcançada. Na da contiguidade. como que adquire um inchoate title sobre todo ele. esta só deverá alcançar o território efetivamente ocupado. entretanto. pode admitir-se que a tomada de posse efetiva de um ponto ou de uma parte de um território é eficaz para estender a soberania a todas as terras que sejam a dependência natural dos lugares ocupados e sobre os quais a autoridade do Estado ocupante se possa fazer sentir materialmente. A teoria da zona hidrográfica apresenta duas modalidades: numa. a posse do rio poderá tornar-se precária e sua plena utilização encontrará dificuldades. a da contiguidade. Isto é. A teoria da meia distância sustenta que. é natural que o possuidor de um rio possua as águas que alimentam a corrente deste: sem os tributários. forma o que se poderá denominar uma unidade geográfica. que tal ocupação não poderá ser considerada efetiva sobre pontos do território já ocupados por outro ou outros Estados. que é a de uma zona que. A esse respeito. Entre outras. entretanto. Convém. Foi posta em prática mais de uma vez como excelente pretexto. de que se serviam Estados europeus para se apropriarem de vastas extensões do continente africano. a do hinterland. por parte de outro Estado. É evidentemente arbitrária. restringir a teoria a termos razoáveis. Finalmente. Outras teorias têm surgido sobre o mesmo assunto. Primeiro que tudo. especialmente em sua primeira modalidade.

em geral.A cessão A cessão de território é a transferência formal da soberania sobre esse território. a outras terras. a ilha surge num mar territorial. O mar territorial. de um Estado a outro. formado por depósitos e aterros naturais. venda. em rios ou nos mares. na face voltada para o oceano. entretanto. de 17 de novembro de 1903. construídos ao longo da costa marítima de um Estado. Forças naturais produzem. Exemplos desta espécie são os diques. é obra da natureza. produzida por mãos humanas. pelo qual se estipulou a permuta de . porém. modificação. propriamente. mas. A aluvião é o acréscimo insensível ou quase imperceptível. Seção 2 . As regras que a regem derivam do direito civil. A cessão pode apresentar-se sob as formas de troca. entre o Brasil e o Peru. por ação dos rios ou do mar. admite-se a existência de uma acessão artificial. a avulsão consiste num fato súbito e violento. o território do Estado a que este pertence é acrescido. pelo qual foi sancionada a permuta de territórios à direita e à esquerda de uma linha geodésica. o Estado ocupante da foz de um rio ou da costa em que o mesmo desemboca não tem o direito de estender sua soberania a pontos do tal rio nos quais outro ou outros Estados já se tenham estabelecido. às vezes. É doutrina corrente que um Estado sob a suserania ou protetorado de outro não tem o direito de alienar parte alguma do seu território sem o consentimento do Estado suserano ou protetor. apenas. Relativamente ao abandono do leito por um rio contíguo. Seção 3 . quer por troca (acordo de 11 de fevereiro de 1874. Esta última pode ser voluntária ou involuntária. A acessão natural pode ocorrer por qualquer das quatro formas seguintes: aluvião. os quebra-mares etc. formação de ilhas e abandono do leito por um rio. em consequência de fenômeno natural. Por extensão. não pode ser cedido sem o litoral. Se. na antiga fronteira comum. provocado por força natural impetuosa e que tem como consequência o desprendimento de uma porção de terra. a nova formação não determina. que desaparece nas águas ou se reúne. ou até a totalidade. já vimos que esse fato pode determinar aquisição de território para um Estado e perda para outro. porque tal mar deverá. à margem de um rio ou à beira-mar. a simples posse da foz de um rio cuja extensão seja considerável não deve dar direito à soberania sobre toda a região alcançada pelas suas águas. sendo-lhes aplicável o princípio de que a coisa acrescida segue a sorte da coisa principal. ser medido a partir da praia da nova ilha. avulsão. porque constitui dependência inseparável deste último. Ao contrário da aluvião que é produzida por um processo lento e gradual.A acessão A acessão consiste no acréscimo de território determinado por um fato natural: geralmente. por agregação ou superposição. então. A história diplomática do Brasil oferece alguns exemplos de cessões. Em princípio. a outro Estado. a formação de ilhas. Da mesma forma. aquisição de território.. e tratado de limites entre o Brasil e a Bolívia. No primeiro caso. todo Estado pode ceder parte de seu território.exemplo. Em regra. porém. doação ou cessão gratuita.

pois. 4) deve durar por prazo suficiente para que se possa resumir o consentimento tácito do antigo soberano. inclusive no mencionado tratado de paz de Versalhes. entre a nacionalidade do Estado cedente e a do Estado cessionário. ao Uruguai. Germain-en-Laye. dizer-se que. seu fundamento. especialmente a partir de meados do século XIX. a necessidade da criação de uma ordem estável. Essa idéia teve várias aplicações. o verdadeiro soberano poderá ignorá-la e. reunida em Montevidéu. em caso de cessão territorial o sistema de opção. A condição segundo a qual a posse deve apresentar-se como exercício de soberania própria significa que o possuidor atual deve proceder como se fosse o verdadeiro soberano. individualmente. Efetivamente. Pode. Quatro são as condições exigidas para que ela se opere: 1) a posse deve ser pública e notória. muitas vezes. a prescrição se funda na necessidade da existência da ordem e da estabilidade nas relações internacionais. é princípio corrente que os mesmos nada devem sofrer com a mudança de soberania. e dele encontramos exemplos em épocas recentes. que permite aos habitantes do território cedido escolher. A primeira condição indicada é naturalíssima. de uma parte da lagoa Mirim e outra do rio Jaguarão (com algumas ilhas e ilhotas). O desenvolvimento do espírito democrático no mundo criou certo movimento de opinião. Embora não se ache precisamente regulada no direito das gentes. desde a aludida época. por um prazo suficientemente longo para que se possa presumir a renúncia tácita do antigo soberano. de 1919. quer por doação voluntária (incorporação da Província Cisplatina ao Brasil.território entre os dois países). pois dizem remontar. é análogo ao que se lhe reconhece no segundo. Em todo caso. em favor da idéia de que nenhuma cessão de território deve ser válida sem que a respectiva população tenha. portanto. no primeiro. ao contrário do que ocorre no direito privado. votada unanimemente por uma assembléia de representantes do povo uruguaio. se um Estado ocupa e administra um território. em direito internacional. e cessão espontânea. Ao sistema plebiscitário. em julho de 1821). de sua parte. ininterrupto e pacífico da soberania territorial sobre esse território. ou seja. Esse chamado direito de opção bastante antigo. pois. 2) deve apresentar-se como exercício efetivo de soberania própria. Por outro lado. dado sua aquiescência à mesma. na Europa. alguns tratados consignam estipulações expressas nesse sentido. e foi tomada em consideração nos tratados de paz de Versalhes e de St.A prescrição Da mesma forma que em direito interno. mediante plebiscito. No tocante aos bens dos habitantes dos territórios cedidos. Seção 4 . mas como simples particular ou como . não se poderá alegar que tenha havido consentimento tácito. a prática internacional tem substituído. aquela a que prefiram pertencer. não será justo que uma ocupação não efetiva forneça título contra o dito soberano. não a título soberano efetivo. 3) deve ser pacífica e ininterrupta. ao século XVI. a prescrição aquisitiva é admissível em direito internacional público e já tendo sido reconhecida até pela jurisprudência internacional. Podemos defini-la como sendo a aquisição do domínio de um território mediante o exercício efetivo. se a posse não é pública e notória.

a condição de que a posse tenha durado bastante tempo é essencial. porém. elaborada após a segunda guerra mundial. Tal posse não justifica a aplicação do princípio da prescrição. pois do contrário não se poderá presumir a concordância tácita do antigo soberano com a nova ordem de coisas. de evitar que esta se consume. Finalmente. A condição de que a posse deve ser pacífica e ininterrupta significa que a mesma não deve ser turbada. nem intermitente. a conquista consiste na tomada de posse de território inimigo. o direito internacional público ainda não fixou prazo algum para a prescrição. Na prática. mediante força militar. O direito privado fixa. alguns internacionalistas pretendem que existam mais dois: a conquista ou sujeição. juristas eminentes e homens de Estado. muito mais longa do que a destes últimos. é natural que o prazo deva ser mais longo. “para fazer presumir o consentimento tácito do Estado despojado de uma parte do seu território e do povo submetido a uma nova dominação”. mas também porque a sua vida é. sem violência: o que se exige é que esta haja desaparecido e a posse tenha continuado. que não seja interrompida. não só porque os interesses dos Estados são mais importantes do que os dos particulares. pois as interrupções mostram a vontade do Estado. A razão é simples: a posse mantida pela força. tratados e outros documentos diplomáticos. os atos de violência para conservá-la não podem dar origem a um direito. tal posse não justifica a aplicação do princípio da prescrição.A conquista e a anexação Além dos meios. pois as interrupções mostram a vontade do Esta. condenou “o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado”. entre nós. que não seja interrompida. Finalmente. Seção 5 . em princípio. contra o qual se exerce a prescrição. de evitar que esta se consume.mandatário de outro ou outros Estados. Em todo caso. Mas não é indispensável que tenha começado pacificamente. contra o qual se exerce a prescrição. da soberania sobre um território tem sido condenada. A razão é simples: a posse mantida pela força. por exemplo. errônea. várias vezes. já indicados. A própria Carta das Nações Unidas. pacatamente. o prazo de 30 anos. por conferências internacionais. Relativamente à conquista. de aquisição e alienação de territórios. a condição de que a posse tenha durado bastante tempo é essencial. para que se dê a prescrição aquisitiva. Mas não é indispensável que tenha começado pacificamente.do. O que ele exige é que tal prazo seja suficiente. em tempo de guerra. conforme escreveu Audinet. também. Parece-nos. pacatamente. ou ali exerce direitos de soberania em virtude de um título que reconhece continuar a pertencer a soberania ao antigo soberano. porém. e a anexação. e. nem intermitente. A condição de que a posse deve ser pacífica e ininterrupta significa que a mesma não deve ser turbada. os atos de violência para conservá-la não podem dar origem a um direito. sabe-se que a aquisição. pela força das armas. . em geral. e. sem violência: o que se exige é que esta haja desaparecido e a posse tenha continuado. pois do contrário não se poderá presumir a concordância tácita do antigo soberano com a nova ordem de coisas. Em direito internacional. também. semelhante opinião.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful