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Residência e ensino médico

A recertificação do diploma de medicina ou “meu filho estuda no exterior”
Olavo Pires de Camargo1 Luiz Eugênio Garcez Leme2
Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Antigamente, ao ouvirmos de algum amigo que seu filho estudava medicina no exterior, sentíamos uma certa tranquilidade pelo tipo de formação que o jovem estava recebendo e pelo aparente poder financeiro da família amiga. Atualmente, a mesma afirmação já não deixa de nos trazer, muitas vezes, preocupação. A pletora inconteste de médicos, recém-formados e mal preparados, que coloca em risco a saúde dos brasileiros parece ter, no momento, uma causa adicional ao absurdo número de faculdades de medicina que, como cogumelos, aparecem de um momento para o outro nos lugares mais inesperados, e crescem com a força e a rapidez proporcionais a seus padrinhos financeiros e políticos. Os pedidos de recertificação e revalidação de diplomas de medicina de países vizinhos, antigamente episódicos, parecem atingir, no momento, proporções epidêmicas. Tem-se observado, cada vez com maior frequência, a instalação de faculdades de medicina em países vizinhos ao Brasil, em regiões fronteiriças, permitindo e até estimulando os alunos brasileiros, que não querem ou não têm condições de aprovação em vestibulares, a fazer o curso médico “no exterior”, muitas vezes morando em suas próprias casas no Brasil, a um custo relativamente menor do que se estivessem estudando regularmente em nosso país. Pode-se encontrar na internet,1 entre outros, o exemplo de Santo Tomé, cidade na fronteira da Argentina com São Borja, no Brasil, onde a faculdade de medicina, aí colocada por motivos estratégicos de proximidade com outros países, como a própria mantenedora reconhece, tem, entre seus 900 alunos, pelo menos um terço de brasileiros, vindos dos mais diferentes Estados do Brasil. Na verdade, a distância entre as cidades é de apenas 10 km percorridos em meia hora, aí incluídos os trâmites de fronteira. Para ingressar na instituição, basta uma inscrição e o pagamento da taxa de matrícula de 450 pesos, além dos documentos. O toque verdadeiramente kafkiano reside nas tratativas, feitas há alguns anos, para que os alunos pudessem usar, como hospital-escola, um estabelecimento de São Borja. A internet nos informa que na Bolívia é possível estudar medicina com mensalidade em torno de 95 dólares, ou 270 reais.2
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É evidente que este tipo de curso cria a necessidade de uma recertificação e uma revalidação de diploma no Brasil com processos analisados um a um, e decisão final tomada por especialistas na área, designada por instituição validada pelo Ministério da Educação (MEC). A revalidação poderá incluir a obrigatoriedade de estudos complementares, exames e provas específicas;3 no entanto, o recurso a subterfúgios jurídicos4 tenta conceder o direito de atender pacientes a esses “profissionais”. Parece ser fato corriqueiro, sendo ofertada, inclusive pela internet, a possibilidade de recorrer a “pacotes” com preços que incluem despesas com a certificação.5 Qual a lógica dessa ação suicida em termos de qualidade no atendimento médico à população? Quem, além da população mais carente, vai pagar a conta desse desmando orgiático na liberação descontrolada de profissionais médicos sem o mínimo preparo para atender nosso povo e, eventualmente, nós mesmos ou nossos parentes em algum pronto-socorro? Há que se coordenar ações nos órgãos representativos da comunidade médica e da educação para maior rigor na avaliação técnica dos profissionais recém-formados, para o imediato fechamento de faculdades despreparadas para uma formação mínima de profissionais capazes, sem recorrer ao politicamente correto e às choradeiras que o próprio Abraham Flexner já ouvia em 1910 nos Estados Unidos6 e, também, as ações responsáveis do governo brasileiro no controle desse verdadeiro esbulho da saúde de nossa população, ameaçada por incompetências internas e externas a nosso País. Esta seria uma verdadeira ação republicana, adjetivo tão usado e tão pouco significativo em nossa sociedade. Informações
Endereço para correspondência: Olavo Pires de Camargo Rua Barata Ribeiro, 490 — 3o andar — conjunto 33 Bela Vista – São Paulo (SP) CEP 01308-000 Tel. (11) 3123-5620 E-mail: olapcama@uol.com.br

Professor titular. Chefe de Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professor livre-docente e associado. Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. E-mail: lueglem@usp.br.

Diagn Tratamento. 2009;14(1):38-9.

Brasil.semvestibular. socorro! Diagn Tratamento. Medicina do outro lado da fronteira. O diploma vale? Disponível em: http:// www.br/ai/index.com/pagina/fecharpacote. jsp?id=24451. Acessado em 2008 (30 out).mec. Data de entrada: 27/10/2008 Data da última modificação: 28/10/2008 Data de aceitação: 4/12/2008 Diagn Tratamento. JC e-mail 2679. Disponível em: http://www.org. 5. Acessado em 2008 (30 out).edu/mercosur/portugues. 3. Fechar pacote. Pergunta 2. Acessado em 2008 (28 out) 6. Como se dá a revalidação de diploma de graduação expedido por universidade estrangeira? Disponível em: http://portal.php?option=c ontent&task=view&id=97&Itemid=219. AI Assessoria Internacional. 2004.br/Detalhe. 2. Estude no exterior sem vestibular. 4.com/pagina/diplomavale. Acessado em 2008 (30 out). Ministério da Educação.9(2):70-2. Abraham Flexner.htm. Acessado em 2008 (30 out). 2009. Estude no exterior sem vestibular. Jornal da Ciência. Paz W. Mercosul acreditou as carreiras de Medicina e Engenharia Civil da Univalle. Disponível em: http://www. de 03 de Janeiro de 2005. . Leme LEG. Disponível em: http://www. semvestibular. Camargo OP.14(1):38-9.jornaldaciencia.univalle. Órgão da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.gov.Olavo Pires de Camargo | Luiz Eugênio Garcez Leme 39 Fonte de fomento: nenhuma declarada Conflito de interesse: nenhum declarado referÊnCIas 1.