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ANA PAULA DIAS MOREIRA

A REPRESENTAÇÃO DA IDENTIDADE DO JOVEM:

Uma análise da representação da identidade do jovem no programa Altas Horas da Rede Globo

Belo Horizonte

2006

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INTRODUÇÃO

O consumo dos produtos midiáticos, em especial da televisão, é uma realidade no Brasil e

no mundo, principalmente entre os públicos mais jovens crianças e adolescentes. A quantidade

e diversidade de informação que a televisão veicula todos os dias é enorme e por isso uma análise

de sua programação se faz necessária. Os adolescentes brasileiros passam em média quatro horas

por dia em frente à televisão, segundo uma pesquisa realizada em 2002 pelo Unicef 1 .

Nesse contexto os programas televisivos apresentam, em diversos casos, conteúdos sem

valores edificantes e pouco educativos, tendo em vista que nessa fase da vida a adolescência a

personalidade e identidade do indivíduo ainda está em construção. Considerando-se o lugar

ocupado pela mídia em nossa sociedade, a formação da identidade do jovem está relacionada com

a divulgação e representação de conteúdos simbólicos nos produtos da mídia.

Um dos elementos essenciais nessa formação é a projeção-identificação que os jovens

vivenciam em relação aos personagens da cultura de massa. Esses personagens se tornam

modelos, exemplos identificatórios para o público jovem. Nesse processo, o jovem assume

elementos da identidade dessas personalidades e passam a agir de maneira parecida. Ainda nesse

contexto, os jovens formam grupos em que os participantes se identificam por apresentarem

gostos, jeitos, atitudes, personalidade semelhantes. Psicológos, psicanalistas, sociólogos e outros

especialistas da ciência do comportamente humano são unânimes ao considerar o papel da TV na

formação da criança, do adolescente, do jovem.

O programa Altas Horas, da Rede Globo, é destinado ao público jovem com um

diferencial:

a

participação

efetiva

desse

público.

São

os

jovens

que

juntamente

com

o

1 Pesquisa “A Voz dos Adolescentes”, UNICEF/Fator OM/2002.

5

apresentador Serginho Groisman fazem o programa. Afinal, são eles que fazem as perguntas e

travam debates com os convidados. É importante registrar também que Serginho Groisman já é

uma figura de credibilidade no universo juvenil.

Esta pesquisa está dividida em três partes. No primeiro capítulo será tratado a questão da

representação social e o processo de formação da identidade juvenil. O segundo capítulo cuidará

da mídia e da cultura de massa, trazendo um histórico sobre a televisão no Brasil e da TV Globo,

emissora na qual é veiculado o programa. Além disso, faz um retrospecto sobre a programação

direcionada aos jovens, na televisão brasileira dos últimos 20 anos. O terceiro capítulo é sobre a

representação do jovem no Altas Horas, através de uma análise baseada no conteúdo teórico.

O objetivo da pesquisa é identificar e analisar como é representada a identidade do jovem

no programa Altas Horas da Rede Globo de Televisão. O objeto desta análise é muito importante,

do ponto de vista acadêmico e social, pois possibilita a sistematização de conhecimentos, bem

como a aplicação destes em um objeto de prática jornalística. A cultura e identidade jovem são

muito importantes para o entendimento da sociedade hoje, assim como a sua representação nos

produtos midiáticos, cuja inflûencia na orientação das condutas sociais hoje se faz notar.

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1 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL

A

idéia

de

juventude

está

ligada

à

maneira

como

determinada

sociedade

e

seus

participantes representam o tema. O conceito de representação social já foi trabalhado por

diversos estudiosos, mas, segundo Maria Cecília Minayo 2 , Durkheim (1858-1917) 3 foi o primeiro

deles a explicar o termo. Segundo ele, pode ser usado com o mesmo sentido de representações

coletivas, que se refere a categorias de pensamento por meio das quais as sociedades elaboram e

expressam sua realidade. Essas categorias surgem de fatos sociais passíveis de observação e

interpretação coletivas. Durkheim acredita que a sociedade pensa. Portanto as representações não

são individuais: elas se referem à consciência coletiva.

Durkheim afirma que para se entender a sociedade e como ela se representa, é preciso

conhecer sua natureza e não a dos indivíduos. Todas as representações correspondem a condições

da consciência humana. Para ele, os símbolos são objetos de estudo tanto quanto as estruturas e

as instituições, pois ambas são formas de agir, pensar e sentir, exteriores ao indivíduo, mas com

um forte poder coercitivo. De acordo com Minayo, outros autores endossam as idéias de

Durkheim, como Bohannam, Sapir, Malionwski e Kroeber.

“Representações Sociais é um termo filosófico que significa a reprodução de uma

percepção retida na lembrança ou do conteúdo do pensamento” (MINAYO apud GUARESCHI,

JOVCHELOVITCH, 1995, p. 89). O antropólogo Marcel Mauss (1872-1950) observa que a

sociedade se manifesta através de seus costumes, da linguagem, da ciência, da arte, da religião;

2 Maria Cecília de Souza Minayo é formada em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978) e mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1985).

3 Durkheim (1958-1917) foi sociólogo e fundador da escola francesa de sociologia, posterior a Marx, que combinava a pesquisa empírica com a teoria sociológica.

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mas ressalta como em outras relações simbólicas, tais como as familiares, as econômicas e as

políticas isso também ocorre.

A visão positivista das relações sociais apresentadas por Durkheim e outros pensadores é

criticada por diversas correntes das ciências sociais. Os marxistas, por exemplo, acreditam que a

concepção de Durkheim esbarra nas contradições da realidade social, principalmente as lutas e

antagonismos de classe.

Por sua vez, Max Weber trabalha com a noção de “visão de mundo”, que para ele, resulta

na conduta cotidiana dos indivíduos. Weber usa termos como “idéias”, “espírito”, “concepções”,

“mentalidade”, como sinônimo de visão de mundo. Os indivíduos, únicos agentes que têm

vontade, apresentam juízos de valor que são as idéias ou as representações sociais. Ao falar ainda

sobre o conceito de “visão de mundo”, Weber diz que cada sociedade precisa ter “concepções de

mundo”, que na maioria das vezes são formuladas pelos grupos dominantes. Essas concepções

envolvem a forma de lidar, por exemplo, com o tempo, o espaço, o trabalho, a riqueza, o sexo, e

são repassadas para todos os grupos da sociedade. É importante ressalta que tanto Weber quanto

Durkheim tratam da importância das idéias na configuração da sociedade.

Vale lembra que Max Weber é um dos principais teóricos da Sociologia Compreensiva,

que junto com a Fenomenologia, representada por Alfred Schutz, têm um jeito muito peculiar de

abordar as representações sociais. Segundo Minayo (1995), Schutz utiliza o termo “senso

comum” para tratar das representações sociais do cotidiano. Para ele, o senso comum representa

conjuntos de abstrações, generalizações e formalizações, que é construído a partir dos fatos do

dia-a-dia. Assim, os fatos do cotidiano são dotados de significados e possuem grande importância

para os grupos da sociedade.

Schutz afirma também que a compreensão do mundo se constrói a partir de experiências

pessoais e coletivas, repleta de significados capazes de serem interpretados e estudados. Cada

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indivíduo possui uma história de vida diferente do outro e é de acordo com ela que ele

desenvolve sua experiência e seus conhecimentos. Assim, cada ator social interpreta as situações

de sua maneira, através do senso comum.

Isto é, não só age como atribui significados portadores de relevâncias à sua ação, de acordo com sua experiência de interação com os que o cercam. O estoque de conhecimento se forma através de tipificações do mundo do senso comum. Isso permite a identificação de grupos, a estruturação comum de relevâncias e possibilidade de compreensão de um modo de vida específico de determinado grupo social. (MINAYO Apud GUARESCHI, JOVCHELOVITCH, 1995, p.97).

1.1 Processo de formação da identidade

Assim como a idéia de representação social, o conceito de identidade é importante para a

análise da juventude. Na definição de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, identidade é

“conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa: nome, idade, estado, profissão,

sexo,

defeitos

físicos,

impressões

digitais,

etc.

O

aspecto

coletivo

de

um

conjunto

de

características pelas quais algo é definitivamente reconhecível, ou conhecido”. Num outro

conceito, identidade pode ser considerada um processo psicológico pelo qual um sujeito assimila

aspectos, propriedades, atributos do outro e apropria-se do modelo desse outro.

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Existem três concepções diferentes de identidade: do sujeito do Iluminismo; do sujeito

sociológico e do sujeito pós-moderno 4 (HALL, 2001). A primeira é baseada na concepção de

pessoa centrada, unificada e dotada da capacidade de razão, de consciência e de ação. O sujeito é

possuidor de um núcleo interior que nasce e se desenvolve junto com ele. O sujeito sociológico é

reflexo da complexidade das sociedades modernas, entendido a partir da “consciência de que este

núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com

outras pessoas importantes para ele” (HALL, 2001, p.11). Essas relações são as que transmitem

valores, concepções, sentidos, ou seja, a cultura.

A identidade sociológica diminui o espaço entre interno e externo, vida privada e vida

pública. Ao mesmo tempo em que o homem se projeta nessas identidades culturais, internaliza

seus valores e significados para que possa se tornar parte delas. O problema é que agora o

processo social está mudando. O sujeito que antes possuía a identidade fixa e única, está se

fragmentando e agora se constitui de várias identidades. É nesse processo que surge o sujeito pós-

moderno. Ele não tem uma identidade fixa e permanente. “O sujeito assume identidades

diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu”

coerente” (HALL, 2001, p.13).

Segundo o sociólogo José Maurício Domingues, hoje a identidade do sujeito está em

aberto e o indivíduo a constrói a partir de suas escolhas e condições de vida.

Em que tipo de pessoa se transformar, para onde ir, que tipo de vida viver, que profissão praticar, formam agora uma construção que, dentro de limites mais ou menos largos ou estreitos (dependendo dos recursos intelectuais, materiais e de poder de que dispõe o sujeito), passa, inevitavelmente, por certas decisões, mais ou menos pensadas e pausadas (DOMINGUES, 2001, p.24).

4 Existe uma polêmica entre diversos autores quanto ao uso da expressão pós-moderno e moderno. Alguns autores fazem o uso do termo para se referirem a contemporaneidade, embora outros prefiram os termos modernidade tardia. Aqui usaremos a expressão pós-moderno, conforme trabalhada por Stuart Hall.

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Mas nem sempre foi assim. Domingues afirma que as identidades pessoais e coletivas

eram claramente determinadas, antes do advento da modernidade. As identidades eram formadas

de acordo com o pertencimento de cada indivíduo às camadas da sociedade, e eram relacionadas

em grande parte com a profissão de cada um. A modernidade rompe com essa estabilidade da

identidade do indivíduo e ele se vê forçado a adaptar-se em outro tipo de sociedade. Esse

processo é chamado de desencaixe 5 . “Sua identidade se torna um dado em aberto, e, em

conseqüência, em grande medida sua própria responsabilidade” (DOMINGUES, 2001, p.24).

A construção de uma nova identidade, nas condições pós-modernas, é uma oportunidade

de relativa estabilidade nas relações pessoais e coletivas. Esse processo é o inverso dos

mecanismos de desencaixe, e é chamado de reencaixe. Neste caso, o indivíduo passa a perceber-

se como parte de um grupo, de uma seita, de uma classe, de uma religião. Dessa forma, o sujeito

se sente valorizado e participante. Uma importante forma de construção de identidade individual

e coletiva nas sociedades modernas são as classes sociais. Mas hoje ela perderam espaço para as

identidades criadas a partir de raças e etnias, religiões, comunidades, “tribos”, entre outras.

Na sociedade pós-moderna, o sujeito pode ter várias identidades, dependendo do grupo

social em que ele está inserido circunstancialmente. Elas podem ser contraditórias ou não. “A

identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a

identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida” (HALL, 2001, p.21).

Atualmente existe uma “crise de identidade”, pois as antigas referências estão fragilizadas e estão

surgindo novas identidades para o sujeito moderno/contemporâneo. Essa crise de identidade é

parte de um processo de mudança nas estruturas da sociedade pós-moderna.

5 Termo inventado pelo sociólogo Anthony Giddens.

11

Uma das principais fontes da identidade cultural moderna está relacionada com o local

onde a pessoa nascia. As culturas nacionais unem, sob mesmo “teto político”, pessoas de

diferentes etnias, raças e religiões.

Isso tornou línguas, moedas e sistemas de alfabetização

universais,

fazendo

da

cultura

nacional

um

importante fator

para

a industrialização

e

a

modernidade. “Uma cultura nacional é um discurso - um modo de construírem sentidos que

influenciam e organizam tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos”

(HALL, 2001, p. 50).

A cultura nacional busca unir pessoas, criando entre elas, identidades culturais comuns.

Nos estados nacionais, que se constituiram em processos longos, as nações foram unificadas

através de violência e guerra. Essa identidade da cultura nacional foi, portanto, historicamente

forjada, uma vez que a união entre diferentes pessoas se deu de forma agressiva e imposta. Além

disso, os dominantes de cada nação acabaram impondo sua visão de mundo sobre os dominados.

“Em vez de pensar as culturas nacionais como unificadas, deveríamos pensá-las como

constituindo um dispositivo que representa a diferença como unidade ou identidade” (HALL,

2001, p. 61, 62). Para se tentar unificar a nação, apela-se para “o único povo”, como se todas as

pessoas que usassem da mesma língua, costume, moeda, religião, fossem o mesmo povo, ou seja,

tivessem as mesmas características étnicas. Todavia, no mundo pós-moderno essas idéias são

descartadas, fato que derruba a idéia de cultura nacional como produtora de uma identidade

nacional unificada. O que faz com que as identidades culturais não se mantenham fixas em uma

cultura nacional é a globalização. Resultado: a cultura e os costumes das pessoas ultrapassam as

barreiras de tempo e espaço.

As conseqüências da globalização na identidade cultural são fortes e podem ser resumidas

em três: a desintegração da identidade cultural, com o

crescimento da pós-modernidade

globalizada; as identidades culturais e locais são, ao mesmo tempo, reforçadas pela globalização;

12

novas identidades estão surgindo no lugar da identidade nacional. As identidades nacionais,

locais, continuam importantes na formação do sujeito, pois dizem respeito à cidadania e direitos

legais. Mas quando relacionada à cultura nacional, as identidades globais passam a desarticular,

ou até apagar, a identidade nacional. Resumindo, a fragmentação e desvinculação das identidades

nacionais são conseqüências do processo de globalização.

Maffesoli, no livro O Tempo das Tribos (1998), pondera que a pluralidade das identidade

estimula a criação de tribos. “Com efeito, o que tende a predominar nos momentos de fundação é

o pluralismo das possibilidades, a efervescência das situações, a multiplicidade das experiências e

dos

valores,

tudo

aquilo

que

(MAFFESOLI, 1998, p. 92).

1.2 Identidade e juventude

caracteriza

a

juventude

dos

homens

e

das

sociedades”

A juventude brasileira dos dias atuais é muito diferente daquela de 50 anos atrás. As

mudanças são comportamentais e na forma de participação do jovem na sociedade. Antigamente,

fazer parte de grupos, como sindicatos, organizações de representação estudantil e partidos

políticos era a forma tradicional de participação. Hoje, a situação é outra: o jovem, na grande

maioria das vezes, busca grupos e movimentos culturais e identitárias. O problema é que é

preciso entender a juventude é uma categoria abstrata, constituída por tipos diversos. Entretanto,

tentaremos definir minimamente o conceito.

A legislação brasileira, nos termos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),

considera como adolescente a pessoa que tem idade entre 12 e 18 anos incompletos. Já para o

Fundo de População das Nações Unidas (UNPFA), a juventude é formada por pessoas entre 15 e

13

24 anos. Estudos mais abrangentes classificam como população jovem pessoas de 10 aos 24 anos

de idade. É a partir desse critério que focalizaremos a juventude nesse estudo. Usaremos jovem e

adolescente com o mesmo significado.

O psicanalista José Outeiral, em seu livro, Adolescer estudos sobre adolescência,

descreve os comportamentos referentes às idades da juventude:

A

adolescência

inicial

(de

10

a

14

anos)

seria

caracterizada,

basicamente,

pelas

transformações corporais e alterações psíquicas que derivam desses acontecimentos.

A adolescência média (de 14 a 17 anos), teria como elemento central as questões

relacionadas à sexualidade.

 

A

adolescência final (de 17 a 20 anos) tem vários elementos importantes, entre os quais o

estabelecimento de novos vínculos com os pais, a questão profissional, a aceitação do

“novo” corpo e dos processos psíquicos do “mundo adulto” (OUTEIRAL, 1994, p. 7).

O psicanalista ressalta que é na fase final da adolescência que o jovem busca estabelecer

uma identidade estável. Recorrendo a Erikson 6 ele observa que:

A busca da “identidade adulta” é a principal tarefa da adolescência. Cada idade da vida tem sua própria “identidade” e que, portanto, o adolescente tem a sua. Mas é uma identidade “em crise”, “discriminadora e questionadora”, na qual o sujeito procura discriminar-se do mundo e ter seu próprio self, ser e saber que é “ele mesmo” (ERIKSON; Apud OUTEIRAL, 1994, p. 29).

Erikson destaca, ainda, que nessa idade o jovem apresenta uma tendência grupal, ou seja,

na busca pela afirmação da identidade o adolescente procura identidades similares. É através do

grupo que ele se sente confortável e transmite uma vivência de “poder”. “Para o adolescente, o

6 Erik Homburger Erikson (1902-1994) foi psiquiatra, responsável pela Teoria do Desenvolvimento Psicossocial na psicologia e um dos teóricos da psicologia do desenvolvimento.

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grupo às vezes

funciona como uma “instituição”, sendo fundamental na estruturação da

identidade” (ERIKSON; Apud OUTEIRAL, 1994, p. 29).

Para alguns autores, essa identidade compõe o fenômeno das tribos urbanas. Maffesoli

acredita que haja um desgaste quanto à idéia de individualismo “tanto no que diz respeito ao

conformismo das gerações mais jovens, à paixão pela semelhança, nos grupos ou “tribos”, aos

fenômenos da moda, à cultura padronizada” (MAFFESOLI, 1998, p. 92).

O professor do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo, José

Guilherme Magnani, no texto “Tribos urbanas: metáfora ou categoria?”, acredita que o conceito

de tribos urbanas aparece de maneira incorreta no uso corriqueiro do senso comum e da mídia.

Usada como categoria, no sentido de descrever e explicar algum fenômeno, tribos urbanas

significam uma coisa; mas quando usado como metáfora, o conceito “traz consigo a denotação e

todas as conotações distintivas de seu uso inicial” (MAGNANI, 1992).

Num primeiro significado, tribo permitiria agrupar os iguais, possibilitando-lhes intensas vivências comuns, o estabelecimento de laços pessoais e lealdades, a criação de códigos de comunicação e comportamento particulares. Em outro contexto, tribo evoca o “primitivo” e designa pequenos grupos concretos com ênfase não já em seu tamanho, mas nos elementos que seus integrantes usam para estabelecer diferenças com o comportamento “normal” (MAGNANI, 1992).

Já para o sociólogo francês Michel Maffesoli, “a metáfora da tribo, por sua vez, permite

dar conta do processo de desindividualização, da saturação da função que lhe é inerente, e da

valorização do papel que cada pessoa é chamada a representar dentro dela” (MAFFESOLI, 1998,

p. 92). O autor afirma que a identidade é construída com base na relação do jovem consigo

mesmo, com o outro e com o meio ambiente. “A identidade diz respeito tanto ao indivíduo

quanto ao grupamento no qual este se situa” (MAFFESOLI, 1998, p. 92).

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Atitudes

de

diferenciação

através

do

comportamento,

da

cultura,

da

moda,

são

importantes para constituir a estruturação da identidade, sobretudo juvenil. Apesar de começar a

ser elaborada desde a infância, é na adolescência que a identidade se apresenta com um perfil

mais definitivo. “A identidade, que é individualidade e subjetividade pessoal, somente pode ser

obtida através da renúncia à dependência da infância para alcançar a dependência adulta da inter-

relação com o outro em um vínculo criativo” (OUTEIRAL, 1994, p.31.).

Ainda de acordo com Outeiral, a construção da identidade se inicia no início da vida

através de importantes identificações. Inicialmente com a mãe, depois com o pai, e em seguida,

com parentes, professores e colegas. Na adolescência, os grupos de amizade são importantes na

busca de identificação, pois a assimilação das características do amigo faz com que o jovem se

sinta aceito e igual. Outro elemento importante na construção da identidade juvenil são

personagens de grupos musicais, artistas, astros de cinema ou televisão, atletas.

Os adolescentes experimentam, às vezes, uma identificação tão maciça com um destes personagens que parecem assumir sua identidade: falam com eles, vestem-se da mesma forma, adquirem seus maneirismos, não sendo raro que tal situação se prolongue por um longo tempo (OUTEIRAL, 1994, p. 72).

Na adolescência, a personalidade ou identidade cultural, ainda não está completamente

formada. Na verdade, está ainda em processo de formação. Nessa etapa, a indústria cultural 7

contribui na representação de identidades que podem ser tomadas como modelos pelo público

jovem. “As relações de projeção-identificação entre a adolescência e a cultura de massa

funcionam de maneira menos ordenada do que para os adultos” (MORIN, 1997, p. 156).

7 A expressão "indústria cultural" foi cunhada pelos teóricos da Escola de Frankfurt Theodor Adorno e Max Horkheimer e é o nome genérico que se dá ao conjunto de empresas e instituições cuja principal atividade econômica é a produção de cultura, com fins lucrativos e mercantis.

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Outros aspectos da cultura juvenil podem ser destacados. A pesquisa realizada em 1995,

pelo Observatório de Políticas Culturais da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de

São Paulo, sob a coordenação de Teixeira Coelho 8 , para analisar o nível de conhecimento e a

cultura política dos jovens, revela que aqueles que estão ingressando na universidade e lêem

jornais diariamente é maior do que o número de alunos leitores formandos. Além disso, a

pesquisa mostra que o caderno mais procurado nos jornais é o de cultura, seguida do esporte. O

dado é igual para os calouros e formandos. Em terceiro lugar, os calouros lêem o caderno de

política, o que não acontece com os formandos. Tal caderno é deixado quase em último plano. A

conclusão a que chega Teixeira Coelho é que os calouros se interessam pelo caderno de cultura

porque vêem nele um instrumento para se informar tendo em vista a aprovação no vestibular.

Como é grande a disparidade entre as opções pela cultura e pela política (30 pontos percentuais no caso dos ingressantes separam as duas opções, contra 40 pontos no quadro dos formandos), não é improvável que a atração do jovem, universitário ou não, pela informação cultural seja espontânea e corresponda a algum desejo mais enraizado (COELHO, 1996-97, p.158).

A pesquisa revelou também que os calouros estão de fato mais ligados a práticas culturais

do que os formandos. Freqüentar cinemas, teatros ou espetáculos musicais, ficam em segundo

plano entre os formandos. Mas ambos preferem atividades societais, como sair e conversar com

amigos. Teixeira conclui que os jovens formandos estão mais preocupados com os fatos que estão

diretamente ligados a eles, como as notícias sobre seu bairro e o que acontece na sua cidade.

O autor acredita que o jovem possua uma identidade cidadã, que faz com que suas

práticas

culturais

garantam

sua

integração

no

mundo

dos

adultos

e

proporcionem

o

8 Pesquisador e Coordenador do Observatório de Políticas Culturais da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.

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reconhecimento deles em uma coletividade. Essa identidade cidadã cresceu no período político de

manifestações populares como o caso do impeachment do presidente Collor de Melo. Mas a

manifestação dessa identidade cidadã é esporádica, não é uma constante. (COELHO, 1996-97).

A pesquisa mostrou, ainda, que a maioria dos jovens não sabe o que esperar da cultura, e

da cultura política. “A maior lacuna das políticas culturais de países como o Brasil continua a ser

aquela aberta pela omissão da instância pública diante dos meios de comunicação, em particular a

TV” (COELHO, 1996-97, p.164). Para o autor, a televisão corrói a cultura política em sua

programação aberta e é necessária uma reflexão pública sobre isso.

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2. MÍDIA E CULTURA DE MASSA

A comunicação é uma forma de ação e pode ser caracterizada como um tipo de atividade

social básica na relação entre os indivíduos. Os meios de comunicação constituem a mídia, que é

representada pelos jornais, revistas, rádio, televisão, livros, filmes. Esses meios também são

chamados de comunicação de massa. Segundo Thompson, o termo é uma expressão infeliz, que

induz à idéia equivocada de que somente podem ser assim classificados aqueles meios que

atinjam grande audiência, milhares de pessoas.

Assim, se o termo “massa” deve ser utilizado, não se pode, porém, reduzi-lo a uma questão de quantidade. O que importa na comunicação de massa não está na quantidade de indivíduos que recebe os produtos, mas no fato de que estes produtos estão disponíveis em princípio para uma grande pluralidade de destinatários (Thompson, 2004, p. 30).

Ainda na esteira desse raciocínio, não se deve mais pensar que os indivíduos receptores

das mensagens midiáticas sejam passivos, totalmente influenciáveis e acríticos. Os produtos

midiáticos são recebidos, interpretados e incorporados de formas diferentes por indivíduos

distintos. Thompson acredita que a comunicação de massa tem cinco características principais. A

primeira diz respeito aos meios técnicos e institucionais de produção e difusão. As formas de

produção e difusão dos produtos midiático evoluem de acordo com as inovações tecnológicas.

A segunda característica refere-se à mercantilização das formas simbólicas. Para ele, os

objetos simbólicos recebem valor conforme a virtude, o apreço, a estima ou a indiferença dos

indivíduos e se transformam em mercadorias. A terceira diz que a comunicação de massa

“estabelece uma dissociação estrutural entre a produção das formas simbólicas e a sua recepção”

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(THOMPSON, 2004, p. 34). Essa característica mostra que o contexto em que os bens simbólicos

são produzidos é diferente daquele em que esses produtos são recebidos.

A quarta característica se refere à extensa disponibilidade dos bens simbólicos no tempo e

espaço. Esses bens são colocados à disposição de um grande número de indivíduos, em espaços

mais amplos e rapidez cada vez maior. A quinta e última característica está relacionada a essa

idéia, pois diz respeito à circulação pública das formas simbólicas. Os produtos midiáticos estão

disponíveis para um grande número de indivíduos, diversificados entre si.

A cultura de massa nasce na metade do século XX, com a proliferação dos meios de

comunicação, como imprensa, cinema, rádio e televisão. Surgida nos Estados Unidos, a cultura

de massa é uma corrente genuinamente nova, que prosperou no último século. Ela se desenvolve

ao lado das culturas clássicas, religiosas e humanistas, e das culturas nacionais. Proveniente da

modernização industrial, a cultura de massa é produzida de acordo com normas maciças de

fabricação industrial e propagada através de técnicas de difusão em massa (MORIN, 1997).

A cultura de massa é uma cultura: ela constitui um corpo de símbolos, mitos e imagens concernentes à vida prática e à vida imaginária, um sistema de projeções e de identificações específicas. Ela se acrescenta à cultura nacional, à cultura humanista, à cultura religiosa, e entre em concorrência com estas culturas (MORIN, 1997, p. 15 e 16).

Foram as inovações tecnológicas e invenções técnicas que permitiram o surgimento da

cultura de massa. Antes dela, falava-se em cultura popular, em oposição à cultura erudita das

classes aristocráticas, em cultura nacional, que formava a identidade de um povo ou em cultura

clássica, definida historicamente como de valores estéticos e morais. Essas culturas, interagindo

entre si, formavam identidades diferenciadas nas populações. O que mudou com a cultura de

massa foi a transformação da cultura em produto de consumo. As mercadorias culturais são

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produzidas em larga escala e distribuídas de forma maciça através dos meios de comunicação

(MORIN, 1997).

As inovações tecnológicas, que permitiram o funcionamento da indústria cultural, foram

destinadas ao divertimento e ao espetáculo. “O vento que assim as arrasta em direção à cultura é

o vento do lucro capitalista. É para e pelo lucro que se desenvolvem as novas artes técnicas”

(MORIN, 1997, p. 22). Fazem parte da indústria cultural todos os meios de comunicação de

massa, representados pela imprensa escrita, o rádio, a televisão e o cinema.

Os produtos da cultura de massa são criados a partir do modelo burocrático-industrial, que

permite a fabricação maciça de mercadorias e compromete o aspecto artístico do produto. A

tendência desse tipo de produção é de despersonalizar a criação, ao valorizar a organização

racional de produção em detrimento da invenção. Em consequência, o público alvo da indústria

cultural reclama por um produto individualizado, novo. Uma exigência que contraria o sistema da

indústria cultural.

A indústria cultural deve, pois, superar constantemente uma contradição fundamental entre suas estruturas burocratizadas-padronizadas e a originalidade (individualidade e novidade) do produto que ela deve fornecer. Seu próprio funcionamento se operará a partir desses dois pares antitéticos: burocracia-invenção, padrão-individualidade (BAECHLIN, Apud: MORIN, 1997, p. 25-26).

Em geral, a indústria cultural promove uma homogeneização dos produtos, que pode

gerar, consequentemente a homogeneização do consumo. Na verdade, a indústria de massa busca

alcançar todos os públicos atenuando as diferenças entre eles.

Ela forja um público comum de

seus produtos culturais, bastante distintos por apresentar diferenças etárias, além de se consituir

21

de classes sociais diversas. O que faz esses grupos se unirem quanto ao gosto de um mesmo

produto é a homogeneização da produção (MORIN, 1997).

Outro elemento que atrai a atenção para os produtos culturais dos meios de comunicação

de massa são os denominados olimpianos, pessoas que ganham fama não só por seus trabalhos

na imprensa, no cinema e na televisão, mas também por cargos e funções hierárquicas, como reis,

rainhas, príncipes. São pessoas que aparecem na mídia e que envolvem o imaginário coletivo. “A

informação transforma esses olimpos em vedetes da atualidade. Ela eleva à dignidade de

acontecimentos históricos destituídos de qualquer significação política” (MORIN, 1997, p. 105).

As estrelas de cinema, por exemplo, tinham sido promovidas a divindades, mas o

olimpismo as humanizou, aproximando-as do público. A vida dos olimpianos se transforma em

assunto recorrente do cotidiano, seus casamentos, amores: tudo faz parte da vida dos “mortais”.

Os olimpianos correspondem simultaneamente a modelos reais e imaginários. Sua natureza dupla

de serem ao mesmo tempo semi-deuses e humanos faz com que sejam modelos de vida,

protótipos da existência humana.

Os meios de comunicação de massa concedem aos olimpianos um papel mitológico, mas,

ao mesmo tempo, invadem a vida privada de cada um, objetivando humanizá-los e assim efetuar

a identificação entre eles e o público. “Os olimpianos, por meio de sua dupla natureza, divina e

humana,

efetuam

a

circulação

permanente

entre

o

mundo

identificação” (MORIN, 1997, 107).

da

projeção

e

o

mundo

da

Por meio dos produtos culturais, os olimpianos transformam-se em modelos, com as

pessoas buscando uma identificação com eles: elas passam a imitar e copiar seu comportamento,

sua conduta. Uma tendência que se baseia nos gestos, andar, modo de vestir integrando um

modelo global, resultando num estilo de vida.

22

“A cultura de massa elabora modelos, normas; mas, para essa cultura estruturada segundo

a lei de mercado, não há prescrições impostas, mas imagens ou palavras que fazem apelo à

imitação, conselhos, incitações publicitárias” (MORIN, 1997, p. 109). Assim, os modelos de vida

criados pela indústria cultural podem transformar-se em ideais para os jovens cujas identidades

culturais estão em formação.

Michel Maffesoli (1999) reforça a idéia relativa de Morin quanto ao endeusamento de

personalidades famosas e sugere que essa identificação pode estar na base da formação de grupos

e tribos. “Podem existir heróis, santos, figuras emblemáticas, mas eles são, de certa maneira,

tipos-ideais, “formas” vazias, matrizes que permitem a qualquer um reconhecer-se e comungar

com os outros” (MAFFESOLI, 1999, p. 15).

2.1 A televisão no Brasil

A televisão foi introduzida no Brasil no dia 18 de setembro de 1950, em São Paulo, com a

entrada no ar da TV Tupi, primeira emissora do país. O jornalista Assis Chateaubriand, criador da

rede de empresas de comunicação Diários Associados, foi o responsável pela chegada da

televisão no País, que estreou com o Show na taba, programa comandado por Hebe Camargo,

constituído por atrações musicais, dança, humor e dramaturgia. Depois da TV Tupi, outras

emissoras foram entrando no ar, como a Tupi do Rio de Janeiro, em 1951, e a TV Paulista, em

1952.

Segundo o estudioso Dominique Wolton, a história da televisão no Brasil pode ser

dividida em quatro fases. A primeira vai de 1955 até 1964, e é considerada uma fase elitista, pois

o aparelho de televisão ainda era um objeto restrito a uma parcela insignificante da população.

23

Era um bem ainda muito caros e poucos tinham condições de comprá-lo. De 1964 até 1975,

Wolton classifica como a fase da decolagem. É nessa etapa que as classes C e D começaram a ter

acesso à televisão. A expansão coincide com o período mais conturbado da ditadura militar,

tempos em que a liberdade de expressão e de imprensa praticamente inexistiu no Brasil.

A televisão que estava surgindo e desenvolvendo-se durante a ditadura foi usada pelos

militares como instrumento de integração nacional. Pode-se afirmar, segundo os historiadores,

que nas telecomunicações a ditadura conseguiu o que pretendia, ao oferecer infra-estrutura e

equipamentos, antenas e satélites. Em contrapartida, passou a contar com o apoio das grandes

emissoras. As redes de televisão se transformaram nos principais instrumentos de propaganda

política, de modernização das instituições, de identidade nacional, de integração cultural. O

resultado, entretanto, foi paradoxal: os militares investiram em um meio de comunicação que

mais tarde viria a contribuir para a queda da ditadura.

“Mas a realidade é ainda mais complexa, pois são os próprios militares que oferecem esse instrumento de modernização e de afirmação da identidade nacional, com a idéia de contribuir para a grandeza e força do Brasil, sem pensar muito nas aspirações de liberdade que a televisão podia suscitar” (WOLTON, 1999, p. 154).

A terceira fase vai de 1975 a 1988. É considerada como o período do triunfo tecnológico.

É época do incremento da Brasilsat, sistema de satélites que possibilitou a televisão brasileira

estar presente em toda parte. Além disso, permitiu o desenvolvimento da televisão educativa e

também da afirmação de uma identidade cultural nacional, acelerando a produção. É também o

início da exportação da programação brasileira. A quarta e última fase vai de 1988 e chega aos

nossos dias, sendo marcada pelos avanços tecnológicos que vão possibilitar a introdução de

novos conteúdos e permitir a expansão das redes no nível internacional.

24

Como se viu, as redes de televisão foram os principais instrumentos da integração

nacional. Elas transformaram um país descentralizado, cheio de rupturas e dividido, em um Brasil

único, unido como público, arrebatado pelo espetáculo.

“O que temos hoje no Brasil, na era da globalização, é ainda o produto daquele velho projeto autoritário: a gente brasileira, condenada à desigualdade, com a pior distribuição de renda do mundo, é o país que vibra unido na integração imaginária: na Copa do Mundo, no final da novela, na morte do ídolo do automobilismo, na festa “cívica” das eleições presidenciais” (BUCCI, 1997, p.17).

É esse espetáculo que prende o telespectador, que o segura em frente a tela. É possível

dizer que é a partir da televisão que as crianças ingressam no mundo do consumo, assim como os

jovens e adultos, que costumam pautar suas vidas, em grande parte considerável, pelo que é

transmitido na tela da TV. Isso porque apesar desse aparente poder conforme observa Eugênio

Bucci (1997) a televisão não controla completamente a audiência, não conseguindo impor aquilo

que o telespectador vai pensar ou como vai agir.

O papel que a televisão assumiu no Brasil é de integração. Ela une pessoas de diferentes

regiões, classes sociais, idades, culturas, no mesmo sentimento, na mesma emoção. Elas sentem

tristeza juntas pela perda de um ídolo nacional;

comemoram a conquista de um título;

emocionam-se com o último capítulo de novela. O modelo de televisão hoje existente no Brasil

consegue aliar o plano do imaginário com o plano do real. Fez com que um país desunido, plano

do real, se imaginasse unido. Para muitas pessoas, o Brasil que existe é aquele exibido pelas

lentes da TV (BUCCI, 1997).

As emissoras de TV no Brasil estão cada vez mais modernas, no sentido tecnológico, e

dessa forma constitui-se um debate sobre paradigmas. Ou a televisão mantém a delimitação do

espaço público, ou o espaço público passa a disciplinar a televisão. Convém lembrar que com a

25

globalização, ficou mais difícil regulamentar o veículo. O limite tênue entre o espaço público, a

televisão e a dependência de um do outro, faz com que a TV não se questione, não se critique. Os

assuntos que dizem respeito e que interessam a própria televisão são deixados de lado das

discussões do espaço público, se limitam apenas aos espaços secretos, intra-muros, privados.

Muitas vezes a televisão é tratada como um fenômeno inferior, como um lixo da indústria

cultural. A televisão é considerada de baixa qualidade e é assistida por falta de opção. Pode-se

constatar que, salvo raras exceções, seus programas são apelativos e ruins e os telespectadores,

são ignorantes. Mas Bucci afirma que para falar de Brasil é imprescindível falar de televisão.

“Reconheço que há entre nós uma recusa intelectual à televisão. Para muitos, ainda hoje, TV não

é coisa séria. Seria simplória demais, idiotizante demais para ser levada a sério.” (BUCCI, 1997,

p.26).

Contudo, o sucesso da TV vem justamente de suas novelas melodramáticas, do jornalismo

emocional e da publicidade. Todos esses produtos da TV brasileira só são bem-sucedidos graças

à sua função de integração nacional.

2.2 TV Globo

A TV Globo foi inaugurada no dia 26 de abril de 1965, exatamente às 11 horas, no Canal

4 do Rio de Janeiro. A concessão da emissora fora negada alguns anos antes, ainda no governo

JK, e só foi liberada durante o governo militar, implantando no ano anterior, que viu na televisão

um importante intrumento de integração nacional. A empresa foi fundada e dirigida pelo

empresário Roberto Marinho até 2003, ano de sua morte e faz parte do grupo empresarial

26

Organizações Globo. No primeiro momento, a TV Globo associou-se grupo norte-americano

Time Life, que fez pesados investimentos para que a nova emissora entrasse no ar.

No ano seguinte, a TV Globo chega a São Paulo, ao comprar o canal da TV Paulista. A

emissora sempre foi pioneira no que diz respeito à programação e transmissão. A Copa do

Mundo de Futebol, realizada na Inglaterra em 1966, foi a primeira a ser transmitida ao vivo. Com

o lançamento da nave espacial Apollo IX, em 1968, foi a pioneira na transmissão via satélite. Um

ano depois a emissora inovou quando colocou no ar o primeiro programa exibido em rede

nacional, o Jornal Nacional.

A década de 1970 marca a TV Globo como a principal emissora do país. Nessa época

surge o "Padrão Globo de Qualidade", criado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e

Walter Clark, que comandavam a emissora. Em 1973, são lançados programas de sucesso na

televisão brasileira que permanecem até hoje no ar: "Globo Repórter", "Esporte Espetacular" e

"Fantástico", são exemplos desse sucesso.

O Centro de Produção da TV Globo (PROJAC), em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, foi

inaugurado em 1965 e é o maior da América Latina. Conta com 1.300.000 metros quadrados, dos

quais

150

mil

de

área

construída.

A

Rede

Globo

tem

hoje

aproximadamente

oito

mil

funcionários, sendo mais de quatro mil envolvidos diretamente na criação dos programas, como

autores, diretores, atores, jornalistas, cenógrafos, figurinistas, produtores, músicos e técnicos.

Atualmente, a TV Globo é a quarta maior emissora de televisão do mundo, ficando atrás apenas

das três maiores televisões norte-americanas, a NBC, ABC e CBS.

Com 121 emissoras entre geradoras e afiliadas, a TV Globo pode ser assistida em 99,84%

dos 5.043 9 municípios brasileiros, com programas 24 horas por dia no ar, sendo a maior parte da

programação criada e realizada nos seus próprios estúdios, no Rio de Janeiro e em São Paulo. De

27

acordo com o site da TV Globo, a emissora alcança 74% de share 10 no horário nobre, 56% no

matutino, 59% no vespertino e 69% de share de audiência no horário noturno.

2.3 Mídia e juventude

Os meios de comunicação de massa, provenientes da indústria cultural, objetivam atingir

o maior público possível, assim como o máximo consumo. Seus produtos são homogeneizados,

com o intuito de alcançar e atenuar as diferenças entre as idades.

Nesse sentido, A sociedade brasileira oferece, principalmente através dos meios de

comunicação, da atitude de determinados setores políticos e líderes empresariais, atitudes éticas e

valores que não se constituem em modelos identificatórios positivos” (OUTEIRAL, 1994, p. 74).

Os jovens são o grande fermento da cultura de massa, ou seja, são eles que movimentam a

indústria cultural e são os principais consumidores de suas mercadorias. Eles apresentam tamanha

afinidade com essa indústria que um se baseia no outro. Grande parte dos adolescentes

fundamentam seu comportamento em modelos apresentados pelos meios de comunicação de

massa. E a mídia “acultura” as novas gerações à sociedade moderna (MORIN, 1997).

Essa homogeneização das idades tende a se fixar numa dominante: a dominante juvenil. A temática da juventude é um dos elementos fundamentais da nova cultura. Não são apenas os jovens e os adultos jovens os grandes consumidores de jornais, revistas, discos, programas de rádio, (a televisão é exceção), mas os temas da cultura de massa (inclusive a televisão) são também temas “jovens” (MORIN, 1997, p. 39).

10 Share é o percentual de domicílios sintonizados em determinada emissora, em relação aos domicílios com televisores ligados no mesmo período. É muito utilizada para análises de como ou quanto de verba o anunciante deve destinar a cada emissora em uma campanha publicitária.

28

A vontade de descobrir, transcender regras e aventurar-se do jovem é explicitada nos

meios de comunicação de massa e reforçada pela indústria cultural. Na cultura de massa, o jovem

pode viver toda a aventura que sempre quis, baseado nos heróis e nos modelos de vida

apresentados.

As emissoras de televisão começaram a destinar parte de sua programação para o público

jovem há aproximadamente vinte anos. Os precursores vieram da TV Cultura 11 , com o programa

de auditório, É Proibido Colar, uma gincana de escolas, e o Quem Sabe, Sabe, que fazia testes

sobre matérias específicas. O formato agradou, levando em conta o apelo que os jogos têm para

os adolescentes. A TV Cultura inovou mais uma vez ao colocar no ar o programa Fábrica de

Som, que abria espaço para bandas novas e desconhecidas. No início dos anos noventa, surgiram

alguns

programas

com

características

juvenis,

como

o

Matéria

Prima,

na

TV

Cultura,

apresentado por Serginho Groisman, hoje à frente do Altas Horas, na TV Globo.

Ainda na década de 1990, a programação voltada para o jovem na televisão aumentou,

surgindo o Programa Livre, do SBT e Malhação, da Rede Globo. O Programa Livre foi o

precursor do Altas Horas, e também era comandado por Serginho Groisman: o programa trazia

debates e entrevistas com personalidades, além de atrações musicais. Já o seriado Malhação, que

estreou em 1995, na Rede Globo, se resume numa novela para adolescentes, discutindo temas

polêmicos e atuais, que fazem parte do universo juvenil.

Nessa mesma década, a estréia no Brasil da emissora americana MTV mostrou a

importância de programas destinados ao público jovem. A MTV foi inaugurada em 20 de outubro

de 1990, inicialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas em 2004 chega a 265 municípios

em todo o país. No início, a MTV apresentava mais videoclipes e atrações musicais, mas com o

11 Pertencente à Fundação Padre Anchieta, do governo do Estado de São Paulo.

29

passar dos anos, experimentou programas de discussões e debates, como o Barraco MTV, com a

jornalista e apresentadora Soninha Francine, que depois passou pela Tv Cultura, e o Erótica, que

tirava dúvidas sobre sexualidade. A MTV acreditou em uma linguagem mais jovem e em

programas apresentados por pessoas mais jovens, lançando talentos como Maria Paula, Zeca

Camargo, Cazé Peçanha, Astrid Fontenelle, entre outros. A emissora já está no ar há mais de 10

anos no Brasil e é uma das mais importantes quanto à programação de mídia para os jovens.

Num cenário em que a TV Cultura, Rede Globo, TVE e MTV se destacam, estes programas contribuíram de maneira decisiva para a definição do que seriam as principais características das linguagens e formatos televisivos dirigidos à juventude, conquistando uma liberdade inventiva que dificilmente é concedida pelas emissoras às produções voltadas a outros segmentos (VIVARTA, 2004, p.83).

Mesmo a saída de Serginho Groisman o principal contato entre a TV Cultura e os jovens

não fez com que a emissora deixasse esse público de lado. Um novo programa, o Fanzine, fazia

debates com o público jovem sobre assuntos atuais e polêmicos. Foi apresentado, primeiramente,

por Marcelo Rubens Paiva, e depois por Zeca Camargo, de 1992 a 1994. Em 1997, a emissora

leva ao ar o programa Turma da Cultura, apresentado por adolescentes, que inovou tanto na

estrutura pouco convencional quanto na linguagem proposta.

O novo programa da emissora foi o RG, apresentado por Soninha, ex-MTV, que entre

outras atrações, proporcionava o encontro de profissionais e jovens que pretendiam seguir a

mesma profissão. Mas o programa e a relação atritosa de Soninha com a emissora acabaram

quando a apresentadora deu uma entrevista a uma revista de circulação nacional, confessando que

era usuária de drogas, no caso a maconha. A direção da TV Cultura cancelou o contrato com a

30

jornalista. Depois desse fato a TV Cultura não recuperou mais o espaço e o diálogo que tinha

com a juventude brasileira praticamente exauriu-se.

Um dos maiores produtos da televisão brasileira, tanto de audiência e horário na grade de

programação

quanto

de

exportação,

são

as

telenovelas

e

minisséries.

As

emissoras,

principalmente a Rede Globo, utilizam a teledramaturgia para investir em merchandising social,

ou seja, abordam assuntos polêmicos que tem impactado a opinião pública. Mesmo sem o

aprofundamento das questões, três produções nacionais destinadas ao público jovem merecem

destaque. O primeiro, é o seriado Confissões de Adolescentes, produzido pela TV Cultura e

baseado na peça escrita pela então adolescente, Maria Mariana. O segundo, a minissérie Anos

Rebeldes, de Gilberto Braga, da Rede Globo. E, por último, a novela Malhação, que está no ar

desde a década de 1990, ambos da Rede Globo.

Todos os programas relacionados têm temáticas juvenis e contribuíram no processo de

formação cidadã do público jovem. Em Confissões de Adolescentes, quatro garotas lidavam com

situações importantes na construção da identidade, como namoros, relacionamentos com os pais,

menstruação,

amizade,

auto-estima.

O

programa

marcou

diferença

ao

colocar

como

protagonistas, garotas comuns, que poderiam ser encontradas em qualquer lugar. O seriado foi

um grande sucesso de público.

A minissérie Anos Rebeldes também inovou ao abordar temas sociais e ao conseguir

atingir e sensibilizar o público jovem. “A minissérie evocou a vertigem de transformações

culturais, sociais e políticas, ocorridas no Brasil no final da década de 1960, a partir do ponto de

vista dos jovens” (VIVARTA, 2004, p.94). Por último, a novela Malhação conseguiu, ao longo

dos anos, abrir espaço para temáticas de cunho social. Em 1994, quando foi lançada, Malhação

tinha o intuito de entretenimento. Com as mudanças, o programa diversificou-se, passando a

discutir assuntos como violência, gravidez na adolescência, Aids e homossexualismo.

31

Uma pesquisa realizada pela Agência Nacional dos Direitos da Infância (Andi), Mídia dos

Jovens 2002/2003, mostrou que, pela primeira vez, a quantidade de matérias socialmente

relevantes predominou nos suplementos dos jornais, voltados para o público jovem. Além dos

jornais, os programas televisivos buscam cada vez mais trazer assuntos pertinentes ao universo

juvenil. Entre os temas de relevância social apontados pela agência estão: educação, atualidades,

cultura, trabalho, direitos e justiça, protagonismo juvenil, sexualidade, saúde, drogas, violência,

projetos sociais, AIDS e DST‟S, mídia, família, informática e internet, gravidez, pessoas com

deficiência

e

meio

ambiente.

moda/beleza e comportamento.

Curiosamente,

os

não

relevantes

são

lazer/entretenimento,

Esses assuntos estão presentes na maioria dos programas televisivos destinados ao público

jovem. Além deles, discussões sobre temas atuais que estão na mídia também são aproveitadas

pelos programas de televisão. A pesquisa realizada pela ANDI, que resultou no livro Remoto

Controle (2004), revela que diferentes tipos de público, com diferenças de classe, cor e região,

apresentam gostos distintos, ou seja, têm interesses em assuntos diferentes.

O problema é que as discussões dos temas muitas vezes não saem do superficial. Como os

programas têm várias atrações, como por exemplo, convidados especiais e bandas musicais, o

tema principal quase sempre não é aprofundado. “Essa freqüente dissociação entre tema e

qualidade

da

abordagem

pode

ser

exemplificada

pelo

contrário

das

chamadas

questões

psicológicas e de relacionamento afetivo” (VIVARTA, 2004, p.157).

Como já foi mencionado, A Voz dos Adolescentes 12 , estudo publicado em 2002 pelo

Unicef, mostra que os adolescentes brasileiros passam em média quatro horas por dia em frente à

12 Pesquisa “A Voz dos Adolescentes”, UNICEF/Fator OM/2002.

32

TV. Esse número representa mais de 21 milhões de meninos e meninas, de 12 a 17 anos. No

entanto há na televisão brasileira um programa que consiga entreter e informar ao mesmo tempo.

O comunicador Serginho Groisman conseguiu a façanha. Desde o início da sua carreira,

ele

elaborou

um

projeto

de

programa

direcionado

ao

público

jovem,

que

contivesse

entretenimento e informação. Começou com o programa TV Mix, na Gazeta, no fim da década de

1980, e trouxe a participação do jovem no programa Matéria Prima da TV Cultura, em 1990. O

sucesso com o público jovem o levou, em 1991, ao Programa Livre, no SBT, onde ficou por

nove anos. Dessa vez, Serginho se consagrou e virou sinônimo de credibilidade entre os jovens e

adolescentes. Atualmente, o apresentador está no comando do programa Altas Horas, transmitido

pela TV Globo, desde 2001.

33

3 ANÁLISE DO OBJETO

3.1 O programa Altas Horas

Os modernos meios de comunicação de massa, especialmente a televisão, têm um papel

importante na formação dos indivíduos. A influência que a programação pode ter sob a

construção da identidade dos jovens é muito grande, uma vez que estes são muito suscetíveis aos

meios de comunicação de massa. Isso acontece porque, nessa fase, o jovem ainda está em

processo de formação de sua identidade. Este capítulo é destinado à análise do programa Altas

Horas, feito especialmente para a juventude.

O programa Altas Horas é um dos únicos na televisão brasileira direcionado para o

público jovem, com discussões importantes sobre diversos temas. O programa estreou na Rede

Globo em 2001 e vai ao ar na madrugada de sábado para domingo, após o Supercine.

Diversificado, o programa mescla atrações musicais, entrevistas com personalidades, discussões

polêmicas, com um diferencial que é a participação do público. A platéia constituída com cerca

de trezentos participantes é formada exclusivamente de jovens e adolescentes, distribuídos em

forma de uma arena, e são eles que fazem as perguntas durante o programa.

O Altas Horas é um programa fragmentado, alternando os momentos de discussões,

perguntas e apresentações musicais. Isso é característica do entretenimento contemporâneo,

principalmente o destinado aos jovens, uma vez que este vive uma realidade fragmentada

marcada pela dinâmica de mudanças ininterruptas. O advento da globalização e da mídia digital é

acompanhado por um rio de informações que são despejadas por variados veículos e fontes,

fazendo com que o jovem receba e absorva os conteúdos de forma segmentada.

34

Outro diferencial do Altas Horas é a entrevista que o apresentador Serginho Groisman faz

com alguém da platéia. Nesse momento, o entrevistado da platéia vira a atração principal. Em

entrevista ao site Terra 13 , Serginho disse que o mais importante no seu projeto de programa foi

dar voz ao público, principalmente ao jovem. “Ele que faz também o programa, tanto é que a

iluminação é igual para todo mundo, o entrevistado não tem uma iluminação diferente, só o

entrevistado da platéia tem uma iluminação especial, justamente para mostrar que as pessoas

anônimas têm o que falarressalta Serginho.

Os temas discutidos no programa ora apresentam caráter polêmico ora são questões de

interesses do jovem. Para se ter exemplo do tipo de debate normalmente apresentado, na edição

do dia 9 de abril de 2006, o Altas Horas trouxe como convidados o árbitro paulista Edílson de

Carvalho, acusado de manipulação nos jogos de futebol, a atriz Luana Piovani, a modelo Isabelli

Fontana e o cantor Fábio Júnior.

A temática discutida no programa girou em torno da polêmica sobre as fraudes e

manipulações que o então juiz teria feito em alguns jogos do Campeonato Brasileiro. Tanto a

platéia quanto os outros convidados questionaram a atitude do árbitro. As respostas dadas por ele

não convenceram o público, que demonstrou seu descontentamento com vaias e perguntas

ríspidas. O assunto gerou reações até em outros convidados, como a atriz Luana Piovani e o

cantor Fábio Júnior, que chegaram a bater boca abertamente com o árbitro de futebol.

O Altas Horas tem uma proposta de aliar informação e entretenimento aos jovens, além

de divulgar atrações culturais. O próprio slogan do programa faz jus a esse objetivo: Altas Horas,

vida inteligente na madrugada. Seu objetivo, segundo o apresentador e diretor Serginho

Groisman, é chamar atenção para o que normalmente não aparece nos programas de auditório,

35

trazendo idéias para que as pessoas reflitam sobre os próprios preconceitos. Serginho afirma que

a intenção do Altas Horas é de despertar no jovem a vontade da busca do conhecimento, seja

através de música ou do debate:

Há a intenção de educar no Altas Horas, mas no sentido de despertar a vontade da busca do conhecimento, seja por música ou debates. Não temos pretensão de transformar as pessoas, o máximo que pretendemos é esse despertar. Se vamos falar de alfabetização, não dá para ser igual a uma escola, mas a televisão pode funcionar como um auxílio à educação formal” (GROISMAN, In, VIVARTA, 2004, p. 124).

3.1.1 Características do programa

O Altas Horas é um programa semanal, durando de uma hora a duas horas. Seu roteiro

apresenta entrevistas com convidados, constituídos de especialistas, atores, diretores, autores,

atletas, músicos e personalidades em geral. Normalmente, são três entrevistados por programa

mais uma atração musical, além de mais três jovens da platéia, escolhidos aleatoriamente para

também serem entrevistados.

O Altas Horas é feito todo em estúdio, e em algumas exceções tem alterada sua

ambientação. Todo programa começa com uma visão panorâmica do estúdio, mostrando a

platéia. Inicialmente, os convidados são apresentados em um telão são três presentes no estúdio

pelo

apresentador Serginho

Groisman.

Em

seguida, os

convidados

entram

no

estúdio,

recebendo o aplauso da platéia, com mais entusiasmo para uns do que para outros. Depois de

cumprimentar todos os convidados e posicioná-los no cenário, Serginho começa a conversar com

um deles. O assunto pode render apenas alguns segundo ou minutos, dependendo do interesse do

apresentador.

36

Após essa conversa inicial, Serginho abre a primeira rodada de perguntas para a platéia.

Alguns microfones são liberados no auditório, e para fazer uma pergunta basta que o jovem fique

com mão levantada. No caso de mais de um interessado se manifestar, o apresentador escolhe a

quem dar a palavra.

É comum as perguntas serem direcionadas pelo apresentador, mas na maioria das vezes,

ele apenas elege o jovem que diz na hora para quem quer perguntar. Depois da primeira rodada

de perguntas, Serginho pode continuar a conversa, fazendo ele mesmo alguma pergunta, ou

solicitar uma música. Algumas edições do programa seguem uma trajetória diferente.

Como o programa é transmitido de madrugada e não tem tanto compromisso com

publicidade e comerciais, os blocos não têm um padrão definido. Somente o primeiro tem uma

média de quarenta a cinqüenta minutos e costuma ser o maior de todos. É nesse bloco que a

discussão é mais intensa. O segundo bloco tem em média trinta minutos. Já o terceiro bloco

costuma ter média de vinte a trinta minutos. No segundo bloco acontece a primeira entrevista

com algum jovem. O apresentador convida os presentes para ver quem ele vai entrevistar: o rosto

de alguém da platéia aparece no telão. A imagem é captada num momento anterior do programa.

O jovem levanta e vai ao centro do cenário onde é feita a entrevista. Ele ganha um adesivo

e uma camiseta do Altas Horas de brinde. Essa entrevista não é programada, no sentido de não ter

as perguntas pré-estabelecidas. O visual do entrevistado conta muito, pois pode ser um gancho

para começar e direcionar a entrevista. Por exemplo, no programa do dia nove de abril de 2006, o

jovem selecionado usava uma camisa da seleção da Argentina. A primeira pergunta do Serginho

foi sobre a camisa do garoto, logo identificado como argentino, fato que possibilitou a Serginho

dar o enfoque à entrevista.

Em cada edição três jovens da platéia são chamados para serem entrevistados. A

entrevista dura em média três minutos, mas esse tempo pode variar de acordo com a desenvoltura

37

do jovem ao responder as perguntas. Muitas vezes o jovem não dá uma resposta adequada,

fixando-se somente no sim, não, não sei e talvez. Em outros casos a entrevista pode render

bastante.

No programa do dia sete de maio de 2006, uma adolescente foi chamada para dar

entrevista. Ela não sabia responder praticamente nenhuma pergunta, apesar delas dizerem

respeito aos costumes da garota. A jovem contou, por exemplo, que só estuda na parte da manhã

e ao ser perguntada o que faz durante o dia, ela não entendeu e perguntou: “Como assim?”, o que

levou a platéia a se manifestar praticamente o tempo todo, vaiando e rindo a cada resposta. A

manifestação negativa ou positiva do público demonstra a pressão que o jovem recebe por parte

dos outros jovens a ter determinada postura. A cobrança pela auto afirmação do jovem é bem

representada no programa.

Um outro quadro presente no programa é chamado pelo apresentador de “Os piores da

música brasileira”. Serginho convida três jovens da platéia para cantarem um trecho de uma

música qualquer no centro do cenário. O objetivo do quadro é descobrir quem é o pior cantor,

escolhido através de aplausos da platéia, mas que, mesmo assim ganhará um brinde do programa.

Nesse momento é possível perceber a identificação e necessidade de aprovação de quem vai

cantar em relação ao grupo ao qual ele está inserido normalmente, um grupinho de jovens que

está na platéia.

Apesar de ter os quadros diversificados, o Altas Horas segue um padrão de estrutura. A

maior parte do tempo é destinad às perguntas da platéia e à discussão dos temas. Mas o programa

apresenta, ainda, cerca de cinco a seis apresentações musicais, dependendo do número de artistas.

Esses são os quadros fixos do Altas Horas. Em algumas edições, o programa pode variar,

trazendo reportagens e entrevistas fora do estúdio.

38

3.2 Metodologia da pesquisa

A pesquisa analisou oito edições do programa de variedades destinado ao público juvenil,

Altas Horas. Foram gravados programas nos meses de março, abril e maio de 2006, e,

posteriormente, nos meses de setembro, outubro e novembro. A opção de fazer uma pausa entre

as edições analisadas visou verificar se o programa segue um padrão, independente da época em

que foi ao ar. Como já expecitado, este trabalho pretendeu identificar e analisar como é

representada a identidade do jovem no programa Altas Horas da Rede Globo de Televisão.

A análise qualitativa foi realizada a partir de uma observação detalhada de quatro

eixos

temáticos em confronto com o arcabouço teórico esboçado nos dois primeiros capítulos. Os eixos

escolhidos, em consonância com os objetivos propostos, referem-se aos temas debatidos no

programa, considerando o tempo destinado ao debate, sua relevância social observada pelo tipo

de editoria e os critérios de noticiabilidade de cada um. Ainda, considerou-se à relevância dos

convidados e as atrações na discussão dos temas. Outro ponto foi a análise das características do

programa, tendo em vista que ele é um produto da indústria cultural. E, por último, a identidade

dos jovens representada no programa.

3.3 Temas principais

Os temas apresentados no programa dependem, principalmente, dos convidados. O

assunto gira em torno deles, sendo que sempre um se destaca dentre os demais. Os temas mais

recorrentes

no

programa

são

do

interesse

do

jovem,

como

cultura

e

entretenimento,

relacionamentos afetivos e comportamento, educação, violência, vestibular. Como o debate tem

39

por base as perguntas feitas pela platéia, salvo exceções nas quais o próprio apresentador

Serginho Groisman sugere um assunto alheio aos convidados, os entrevistados são personagens

ou especialistas no assunto. Quando os convidados são artistas a discussão fica em torno de

cultura geral, cinema, música e televisão.

De acordo com a pesquisa realizada pela Andi, na qual dez programas direcionados ao

público juvenil foram analisado entre ele, o Altas Horas os temas mais recorrentes foram:

QUADRO 1

TEMAS CENTRAIS ABORDADOS NOS PROGRAMAS TELEVISIVOS PARA

JOVENS BRASILEIROS 14

 

Questões psicológicas/

 

13

Gravidez

2,0%

1

Relacionamento afetivo

14,2%

2

Cultura e entretenimento

8,8%

14

Interesse humano (pessoas públicas)

2,0%

3

Direito/Cidadania

6,8%

15

Meio ambiente

2,0%

4

Escola

5,4%

16

Drogas

1,4%

5

Comportamento

4,7%

17

Educação

1,4%

6

Política

2,7%

18

Saúde reprodutiva e sexual

1,4%

7

Crime/Violência

2,7%

19

Ciência

0,7%

8

Família

2,7%

20

Orientação afetivo-sexual

0,7%

9

Mercado de Trabalho

2,7%

21

Vestibular

0,7%

10

Sexualidade

2,7%

22

Viagem

0,7%

11

Saúde

2,7%

23

Outros

2,7%

12

Fatos de impacto (atualidades)

2,0%

24

Não discussão de temas

22,3%

Fonte: VIVARTA, 2004, p. 158.

Essa tabela é referente aos temas discutidos nos dez programas selecionados e analisados

pela Andi. São eles: Altas Horas e Malhação, da TV Globo; Intim@ção, da Rede Vida;

Sobcontrole, da TV Bandeirantes; Interligado Games, da Rede TV; Buzzina e Meninas Veneno,

14 Segundo a metodologia aplicada pela pesquisa, Tema Central é aquele que ocupa maior tempo de veiculação em uma determinada edição/capítulo analisado. Era permitido apenas um Tema Central por edição/capítulo. Dados da pesquisa Remoto Controle (2004).

40

da MTV, Atitude.com, da TVE; Fazendo Escola, da TV Cultura; e Sexualidade, Prazer em

Conhecer, do canal a cabo Futura. Eles têm diversas diferenças e semelhanças entre si. A

principal semelhança é serem destinados ao público juvenil. Mas têm como distinção formatos,

duração, e o tipo de emissora em que é exibido: tvs comerciais, segmentadas e públicas. Foram

analisados quinze edições de cada um e alguns deles já estão fora do ar. A pesquisa Remoto

Controle (2004) também analisou as características das discussões de temas. O Altas Horas se

saiu da seguinte maneira:

QUADRO 2

CARACTERÍSTICAS DAS DISCUSSÕES DE TEMAS NO PROGRAMA ALTAS

HORAS

Programa

Há discussão de um tema central ao longo da edição/capítulo?

Quando

são

A discussão dos temas é superficial?

Houve

Discussões são

discutidos

apresentação

focalização

exemplificadas

temas

de

na realidade

com

filmes,

centrais,

 

informações

do

livros,

peças,

 

apresentação

objetivas

adolescente/

programas?

de

opiniões

(para

além

jovem?

divergentes?

das

impressões)?

Altas

Sim

66,7%

Sim

58,3%

Sim

58,3%

Sim

50%

Sim

58,3%

Sim

41,7%

Horas

Não

33,3%

Não

41,7%

Não

41,7%

Não

50%

Não

41,7%

Não

58,3%

Fonte: VIVARTA, 2004, p. 160.

Na maioria das edições analisadas, os temas principais aqueles que ocuparam maior

tempo de debate estão focalizados em questões que contribuem diretamente para um processo

de formação do público jovem e adolescente. Esse dado reflete a preocupação do Altas Horas em

transmitir um conteúdo de qualidade.

De acordo com Mauro Wolf (1999), o que faz com que um acontecimento se transforme

em notícia são seus valores notícia, ou seja, se os assuntos são consideravelmente interessantes,

41

significativos e relevantes para serem divulgados. São quatro os critérios substantivos que

avaliam a relevância de um tema, ou seja, seu critério de noticiabilidade: o grau e nível

hierárquico dos indivíduos envolvidos no acontecimento; impacto sobre a nação e sobre o

interesse

nacional;

quantidade

de

pessoas

que

o

acontecimento

envolve;

relevância

e

significatividade do acontecimento quanto à evolução futura de uma determinada situação

(WOLF, 1999).

O programa Altas Horas utiliza de assuntos discutidos pela opinião pública ou que

estejam em visibilidade na mídia no decorrer da semana. Por exemplo, na edição do dia 23 de

abril de 2006, o Altas Horas levou como tema de debate o documentário produzido pelo rapper

MV Bill e pelo produtor musical Celso Athayde, sobre meninos com envolvimento no tráfico,

que tinha sido exibido um domingo antes no programa Fantástico, também da Rede Globo. O

rapper MV Bill foi ao programa explicar melhor sobre o assunto. Nessa edição também

estiveram presentes o ator Pedro Cardoso, a modelo e atriz Letícia Birkheuer, a cantora Pitty e o

cantor e compositor Francis Hime.

Outro diferencial do programa é o aprofundamento da discussão sobre política. Se na

maioria dos programas destinados ao público jovem a política não é tema de debates, por ser

considerado um assunto chato entre os adolescentes, o apresentador Serginho Groisman tenta,

através do Altas Horas, levar aos jovens a discussão sobre o assunto, mostrando que é importante

eles estarem atento à essas questões.

Em duas edições analisadas, o assunto principal discutido foi política. No programa do dia

treze de maio de 2006, um dos convidados foi o presidente da Comissão de Ética da Câmara dos

Deputados, deputado Ricardo Izar. O debate girou em torno das crises no governo Lula e o

trabalho realizado pela Comissão de Ética. A maioria dos jovens presentes mostrou-se inteiradas

42

das questões do cenário político nacional. Eles questionaram as atitudes de vários políticos e

mostraram-se preocupados com o futuro do país.

Já na edição do dia sete de outubro de 2006, o Altas Horas trouxe para debate as eleições

presidenciais. Em plena época de campanha, o jornalista político Carlos Monforte foi falar da

cobertura jornalística e do momento político. Em diversos momentos Serginho Groisman

questionou os jovens quanto ao voto consciente e perguntou à platéia e aos participantes das

entrevistas se já haviam decidido o voto. O apresentador não obteve muito sucesso. Na verdade,

pôde-se perceber que o público jovem tem uma relação de afinidade maior com uma área

específica: a do cenário artístico e cultural.

Assuntos como música, televisão e cinema estão sempre em alta no universo juvenil. Na

música, ritmos como o pop, o rock e o rap predominam no gosto adolescente. O programa Altas

Horas utiliza esse fato para estimular o interesse dos jovens para outros segmentos. Ele aborda

diversos assuntos utilizando como referência filmes, músicas e livros. “Os jovens têm prazer em

entender o que já conhecem „mais ou menos‟ e também em saber de novidades, em fazer

descobertas” (VIVARTA, 2004, p.167).

Aí entra a participação do apresentador Serginho Groisman para levar até o jovem

produtos culturais e artistas que apesar da reconhecida importância e competência, não são

devidamente conhecidos no universo juvenil. Por isso, estrelas da MPB como Alcione, Adair

José, Paulinho da Viola, Ângela Rorô, entre outros, são presenças constantes no programa.

43

QUADRO 3

OS ASSUNTOS E CONVIDADOS EM CADA PROGRAMA ANALISADO

Programa do

Assunto principal:

Convidado principal que tratou do tema:

Assuntos

Convidados

dia:

secundários:

relacionados

ao tema:

25/03/2006

Violência.

Inspetora Marina Maggessi, da Coordenadoria de Inteligência da Polícia Civil do RJ

Cinema

Marco Nanini e Ney Latorraca

nacional,

lançamento de

filme

 

01/04/2006

Fraude e manipulação de jogos de futebol.

Ex-árbitro Edílson Pereira de Carvalho.

Peças de teatro, carreira de

Luana

Piovanni,

modelo

Isabeli

   

Fontana

13/05/2006

Política a crise no governo Lula.

Ricardo Izar (presidente da Comissão de Ética da Câmara dos Deputados)

Televisão e

Luiz

música

Fernando

 

Guimarães,

Flávia

Alessandra,

 

Marcelo D2,

Alcione

20/05/2006

Carreira de Sandy e Junior e violência em São Paulo

Sandy, Junior e Caco Barcellos

Copa do mundo

Paulo

e

vida de

Roberto

 

modelo.

Falcão e

Alessandra

 

Ambrósio.

09/09/2006

Consequências do ataque de 11/09. Lançamento do livro “Plano de Ataque”.

Ivan Sant‟Anna,

Carreira de modelo e humor na televisão. Música e lançamento de

Raica

escritor

Oliveira,

Cláudia

Rodrigues e

Lenine

 

DVD

07/10/2006

Política -

Carlos Monforte

Desafios das

Wanessa

Cobertura

carreiras de

Camargo,

jornalística das

jornalista, cantor

Carlos

eleições.

e

ator.

Monforte,

Alcolismo

Marjorie

Estiano e

Ângela Rorô

29/10/2006

Igreja Católica, a relação com vida após a morte e o casamento gay.

Padre Marcelo

Cultura Emo,

É rica

Rossi

comportamento

Palomino,

juvenil, teatro e

Marcos

humor na

Oliveira e

 

televisão,

Durval Lelys.

música.

04/11/2006

Carreira de ator e músico

Vladmir Brichta, Guta Stresser, Inimigos da HP

Música

Mariana

Aydar.

44

O apresentador do Altas Horas, Serginho Groisman, entrevistado para a pesquisa Remoto

Controle (2004), traça os objetivos do programa, explicando a seleção dos temas e convidados:

Queremos chamar atenção para o que normalmente não aparece nos programas de auditório, trazer idéias que as pessoas reflitam sobre os próprios preconceitos. Para alcançar nossos objetivos, escolhemos temas atuais, fatos culturais e jornalísticos. A seleção dos convidados acontece a partir do que está ocorrendo na cidade, inclusive shows e peças em cartaz (GROISMAN, In, VIVARTA, 2004, p. 124).

Dessa forma, o Altas Horas consegue disponibilizar ao público tanto os jovens quanto

outros segmentos uma variedade muito grande de temas. Nos programas analisados, os assuntos

variaram de política, violência, esporte, atualidades, religião e o mundo artístico, entre outros. Os

convidados eram dos mais diversos segmentos profissionais, representados por atores, cantores,

políticos, jornalistas, comentarista esportivo, padre, modelos, e até delegada de Polícia.

3.4 Os convidados do Altas Horas

“As fontes não são todas iguais e todas igualmente relevantes, assim como o acesso a elas

e o seu acesso aos jornalistas não está uniformemente distribuído” (WOLF, 1999, p. 223). As

fontes presentes no programa Altas Horas não são todas iguais, no sentido das diferenças de

profissão, faixas etárias, sexo e pessoas mais ou menos conhecidas.

Como já foi citado anteriormente, os convidados predominantes no programa Altas Horas

são atores, músicos, especialistas, jornalistas, modelos e atletas. Segundo Edgar Morin (1997),

esses convidados podem ser considerados olimpianos, ou sejam, pessoas famosas por seus

trabalhos na imprensa, no cinema e na televisão.

45

Com exceção dos especialistas e de pessoas desconhecidas no cenário midiático, os

demais convidados pertencem ao grupo dos olimpianos. Morin afirma que mesmo com a

referência à mitologia grega elas foram humanizadas, aproximadas do público pela indústria

cultural. Dessa forma, a vida dos olimpianos se transforma em assuntos do cotidiano, como seus

casamentos, seus amores.

No Altas Horas do dia 1º de abril de 2006, o apresentador ficou alguns minutos

conversando sobre casamentos e relacionamentos com os convidados Isabelli Fontana, Fábio

Júnior e Luana Piovani. A discussão ficou em torno da vida pessoal de cada um, ao explorar

detalhes de seus relacionamentos amorosos. O exemplo serve para mostrar também que na

maioria das vezes, os convidados, ao discursarem sobre algum tema, emitem opiniões pessoais.

Em alguns poucos momentos do programa, as informações são passadas de forma objetiva com

números, dados e estatísticas.

Morin ressalta que os olimpianos correspondem ao mesmo tempo a modelos reais e

imaginários. Essa natureza dupla faz com que sejam modelos de vida, principalmente do público

juvenil. “Os olimpianos, por meio da dupla natureza, divina e humana, efetuam a circulação

permanente entre o mundo da projeção e o mundo da identificação” (MORIN, 1997, p. 107).

As celebridades também possuem outro papel nos programas televisivos, incluindo

próprio Altas Horas. Elas servem para atrair e prender a atenção do público jovem. Só a presença

dessas pessoas já é um grande chamariz. Outro papel importante é a divulgação e discussão de

assuntos culturais. Na maioria dos casos, os convidados vão lançar algum CD, DVD, livro,

apresentar a nova peça teatral ou o filme em cartaz. Portanto, além de falar sobre suas vidas, as

celebridades (olimpianos), também levam os produtos culturais para a pauta no Altas Horas.

Outro ponto importante é que a presença dessas celebridades ajuda a manter o interesse do

jovem em outros assuntos, como, por exemplo, a política. No Altas Horas, apesar de um dos

46

convidados estar relacionado com o assunto principal, os outros também opinam sobre o tema.

Dessa forma, artistas e especialistas trocam idéia ao falar sobre política, violência, carreiras, entre

outras coisas.

No dia vinte de maio de 2006 o Altas Horas contou com a presença da dupla Sandy e

Junior, do jornalista Caco Barcellos, do comentarista esportivo Paulo Roberto Falcão e da modelo

Alessandra Ambrósio. Um jovem perguntou a Caco Barcellos sobre os ataques que o grupo PCC

havia feito na cidade de São Paulo e a atitude do governo paulista. Enquanto Caco e Falcão

discutiam o assunto o cantor Junior pediu a palavra. Ele se atrapalhou um pouco ao comentar um

tema que não domina e deixou isso transparecer para o público. Principalmente a idéia de que os

líderes do PCC são muito inteligentes e poderiam usar essa inteligência para serem líderes de

grandes multinacionais. Foi mal interpretado por vários jovens e o apresentador Serginho

Groisman, percebendo a complexidade da situação, tratou logo de mudar de assunto.

O psicanalista José Outeiral acredita que os meios de comunicação de massa, como a

televisão, não oferecem modelos de identificação positivos para o público jovem. “A sociedade

brasileira oferece, principalmente através dos meios de comunicação, da atitude de determinados

setores políticos e líderes empresariais, atitudes éticas e valores que não se constituem em

modelos identificatórios positivos” (OUTEIRAL, 1994, p. 74).

Na entrevista à pesquisa da Andi, Remoto Controle (2004), a psicóloga e professora da

UnB, Ângela Almeida, afirma que não são só os jovens que buscam nas pessoas famosas um

modelo, os adultos também fazem projeções direcionada aos olimpianos. Ela não trata a

influência das celebridades em termos positivos ou negativos. Ângela Almeida destaca que

sempre é possível aproveitar algo na participação dos olimpianos.

47

Quando as pessoas se relacionam com esses objetos sociais um personagem da mídia, um personagem do mundo musical, do cenário político elas tendem a reter deles aqueles atributos que possam melhorar a imagem de si e de seu grupo. O sujeito, quando se relaciona com o objeto da mídia, na verdade se relaciona com aquilo que acha que aquele personagem pode reafirmar em sua identidade e na de seu grupo (ALMEIDA In: VIVARTA, 2004, p.213).

Em certo sentido, o Altas Horas questiona a idéia de Outeiral de que os meios de

comunicação

não

apresentam

modelos

identificatórios

positivos.

Mas,

a

participação

de

especialistas

é

muito

positiva

e

importante

na

formação

do

jovem.

Muitas

vezes,

essa

participação serve para “ampliar os horizontes de conhecimento e de percepção crítica sobre

questões que falam diretamente à realidade desse segmento” (VIVARTA, 2004, p.207).

A

pesquisa

Remoto

Controle

destacou

também

os

segmentos

que

participam

dos

programas em questão, conforme explicitado nos dados que se seguem.

48

QUADRO 4

QUEM FALA NOS PROGRAMAS TELEVISIVOS PARA JOVENS BRASILEIROS 15

Executivo Estadual

0,7%

Terceiro Setor

2,1%

Executivo Municipal

0,7%

Atores que não divulgam trabalho específico

11,2%

Legislativo Federal

1,4%

Atores que divulgam trabalho específico

8,4%

Judiciário

2,1%

Músicos que não divulgam trabalho específico

9,1%

Ministério Público

0,7%

Músicos que divulgam trabalho específico

23,1%

Polícia Civil ou Militar

1,4%

Outros artistas

11,2%

Ginecologistas

2,1%

Esportistas

2,8%

Hebeatras

0,7%

Estudantes

21,7%

Outros médicos

4,2%

Professores e educadores em geral

23,1%

Enfermeiros

0,7%

Familiares

16,8%

Nutricionistas

1,4%

Namorado(a), companheiro(a), parceiro(a)

7,7%

Psicólogos

15,4%

Amigo(a)

5,6%

Outros profissionais da área de saúde 16

4,2%

Jovens em geral*

51,7%

Advogados

5,6%

Adolescentes em geral*

13,3%

Assisitente Social

3,5%

Adultos em geral*

7,7%

Outros profissionais

14,7%

Crianças em geral*

0,7%

Conselhos

1,4%

Outros

16,8%

Universidades

3,5%

   

Fonte: VIVARTA, 2004, p. 206.

Os especialistas ou personagens do assunto principal são escolhidos sobretudo através de

alguns fatores como a credibilidade, a respeitabilidade. Nesse momento, a fonte apresenta

relevância na discussão do tema por possuir conhecimento aprofundado sobre o assunto. Já os

artistas convidados fazem um papel de olimpianos. Eles são o tema de discussão secundário, ou

seja, a público pergunta sobre sua vida, namoros, carreira. Mas também emitem sua opinião. Por

15 Respostas múltiplas, portanto a soma dos percentuais pode ultrapassar 100%

16 Nesse item foram considerados profissionais como diretores de hospitais e terapeutas ocupacionais. * O participante não teve suas características identificadas pelos programas.

49

serem considerados olimpianos, semi-deuses, os artistas debatem o tema principal com base na

sua própria experiência, que para o público jovem tem significativa relevância. Esses artistas

representam um modelo, um ideal a ser seguido pela juventude.

Uma preocupação de Serginho Groisman é de apresentar aos jovens outras atrações

artísticas que não aquelas já conhecidas do grande público, da mídia. O programa promove

encontros musicais, por exemplo, com artistas que já não estão no centro da popularidade. Na

edição do dia treze de maio de 2006, o Altas Horas recebeu os cantores Marcelo D2 e Alcione.

Os dois cantaram juntos e separadamente. O cantor de rap e hip hop Marcelo D2 é muito

conhecido e querido pelos jovens. Ao cantar junto com a Alcione, incentiva o público a conhecer

o trabalho dela também.

Mas um problema na veiculação de produtos culturais no Altas Horas é a predominância

de artistas de televisão, exclusivamente da Rede Globo, para divulgação de suas produções, que

na maioria das vezes fazem parte da programação da própria emissora. Na verdade essa prática é

uma constante na programação da TV Globo e mesmo de qualquer outra emissora comercial, que

utiliza seus programas para divulgar seus próprios produtos, tais como novelas, artistas, filmes e

músicas.

3.5 O Altas Horas como produto da cultura de massa

Os produtos da cultura de massa são assim chamados por estarem disponíveis para a

maioria da população. Programas de televisão e rádio, jornais, revistas e músicas se encaixam

nesse perfil. Mesmo que o produto não seja consumido por muitas pessoas, só o fato de estar

50

disponível o torna um produto da cultura de massa. O Altas Horas pode ser qualificado como um

produto da cultura de massa, pois é um programa exibido na maior emissora de televisão do país.

O público também sofre modificações no que diz respeito à recepção da cultura de massa.

As fronteiras culturais são quebradas no interior da nova cultura. As formas culturais atravessam

as estratificações sociais com uma intensidade e freqüência inesperada. A identidade é construída

a partir dos valores de consumo, integrando diversas classes e caracterizando a unidade da cultura

de massa.

A cultura industrial se desenvolve no plano do mercado mundial. Daí sua formidável tendência ao sincretismo-ecletismo e à homogeneização, seu fluxo imaginário, lúdico, estético, atenta contra as barreiras locais, étnicas, sociais, nacionais, de idade, sexo, educação; ela separa dos folclores e das tradições temas que ela universaliza, ela inventa temas imediatamente universais (MORIN, 1997, p. 44).

Segundo Morin, certos produtos são criados a partir do modelo burocrático-industrial, que

permite a fabricação maciça de mercadorias e, para alguns autores, compromete o aspecto

artístico do produto. A tendência desse tipo de produção é de despersonalização da criação,

predominando a organização racional de produção sobre a invenção. Contraditoriamente, o

público alvo da indústria cultural jovens e adolescentes reagem, ao reclamar por um produto

individualizado, novo, exigência que se choca com o sistema da indústria cultural.

Neste sentido, o programa se encaixa adequadamente na teoria de Morin. O Altas Horas é

um produto individualizado, destinado à um público segmentado o público jovem. Apesar de

ser produzido a partir do modelo burocrático-industrial, o programa busca uma personalização na

criação ao procurar sempre inovar e ousar. O fato de dar voz ao jovem, permitir que ele faça as

perguntas e, de certa forma, comandar o programa, é exemplo dessa inovação e ousadia.

Apesar do Altas Horas ser um produto da cultura de massa e assim tentar abranger o

maior número de pessoas, o programa é voltado para o público jovem. A diversidade de temas e

51

convidados atrai outros tipos de público além do juvenil mas o jovem é o elemento

predominante no programa.

Morin (1997) acredita que a cultura de massa é estruturada da acordo com a lei de

mercado, e assim, as imagens e palavras veiculadas fazem apelo à imitação, conselhos e

incitações publicitárias. Como qualquer produto da cultura de massa, o Altas Horas também se

estrutura conforme as leis de mercado. É de bom alvitre não se esquecer que os artistas da Rede

Globo, ao promover as novelas, filmes, peças de teatro, cd‟s e dvd‟s – a maioria com apoio do

grupo Globo estão se submetendo a uma das especifidades características da cultura de massa.

De outra parte, o Altas Horas não abusa de sua condição de produto cultural para divulgar

peças publicitárias. O que se divulga, em sua maioria, são produtos culturais. “Algumas escolas

já anunciaram no programa. Existem também alguns produtos que divulgamos, por exemplo

chocolates, cartão de crédito para jovens, mas sou eu que decido se vamos fazer ou não. Não faria

nunca de bebidas alcóolicas ou cigarro”. (GROISMAN, In, VIVARTA, 2004, p. 124).

Morin afirma ainda que a cultura de massa opera um processo de promoção da

juvenilidade. Processo que começou há mais de 50 anos e continua até hoje. O tema da juventude

não concerne somente aos jovens, mas a todos que envelhecem. Eles não preparam-se para a

velhice. Pelo contrário, lutam para permacerem jovens. Nesse processo, há, no entanto, algumas

diferenças.

As relações de projeção-identificação entre a adolescência e a cultura de massa funcionam de maneira menos ordenada do que para os adultos:

enquanto para os adultos o mundo da gang, da liberdade, do homicídio são pacíficas evasões projetivas, esses temas pode tornar-se modelos de conduta para os adolescentes (MORIN, 1997, p. 156).

52

3.6 Representação da identidade juvenil

Como diz o sociólogo José Maurício Domingues, na construção de uma nova identidade o

indivíduo passa a perceber-se como parte de um grupo, de uma seita, de uma classe, e dessa

forma ele se sente valorizado e participante. Na edição do dia 1º de abril de 2006, dois meninos e

uma menina foram chamados a cantar. Um dos meninos, apesar de ter um desempenho pior do

que os demais, acabou por ganhar o prêmio. Razão: ele tinha mais amigos aplaudindo-o na hora

da decisão.

As identidades surgidas na sociedade pós-moderna, segundo Domingues, são fruto das

desigualdades raciais, étnicas, religiosas, comunitárias e tribais. Nos quadros do Altas Horas, em

que há a participação do público jovem - como a entrevista e os piores da música os grupos

aparecem de forma mais clara. Os jovens que estão na platéia, aplaudem em apoio ao amigo, ou,

ao contrário, vaiam desaprovando a fala ou a ação do colega.

De acordo com o psicanalista José Outeiral é na fase final da adolescência dos 17 aos 20

anos - que o jovem busca estabelecer uma identidade estável. Nessa idade o jovem apresenta uma

tendência grupal, ele procura em outros adolescentes identidades similiares. Isso reflete a

necessidade de afirmação e participação que o jovem possui. Em um grupo ele se sente

participante e aceito, com as características que apresenta. Nesse contexto surgem as tribos

urbanas.

De

acordo

com

Maffesoli

(1998),

as

tribos

urbanas

surgiram

do

desgaste

do

individualismo e da necessidade de identificação com um grupo, que foram reforçadas pelos

meios de comunicação de massa, como a televisão. Para ele, o homem está vivendo a fase do

neotribalismo, no qual a fluidez, os ajuntamentos pontuais e a dispersão são características. Os

53

jovens precisam se identificar com um grupo para se sentirem aceitos e pertencentes. Pode-se

entender que os jovens presentes na platéia do Altas Horas se organizam em grupo, que podem

ser chamados de tribos urbanas. As tribos são representadas pelos jovens com maior evidência,

que aparecem nos debates e fazem perguntas, participando ativamente do programa.

Outeiral explica que a construção da identidade começa no início da vida através de

identificações com a mãe, o pai, parentes, professores e colegas, respectivamente. Já na

adolescência, os grupos de amizade são importantes na formação da identidade. Outeiral destaca

que nessa fase um dos elemento mais importantes são personagens de grupos musicais, artistas,

astros de cinema ou televisão e atletas.

Os modelos de identificação, as funções tutelares, desertam, por sua vez, da família e do homem maduro para transferir-se para outro lugar: os deuses de carne, os heróis imaginários da cultura de massa apoderam-se de funções tradicionalmente privilegiada pela família e os ancestrais (MORIN, 1997, p. 152).

Na platéia do Altas Horas é possível localizar grupos distintos entre os espectadores.

Através de características comportamentais, modo de se vestir, cabelos, piercings, percebem-se

grupos espalhadas na platéia. Muitos desses grupos apresentam características semelhantes com

os convidados no palco, principalmente se forem artistas da música e da televisão. Nos

programas dos dias vinte de maio e sete de outubro de 2006, em que compareceram os cantores

Sandy e Junior e Wanessa Camargo, respectivamente, grupos de garotas adolescentes vestiam

roupas parecidas com as das cantoras.

54

Os adolescentes experimentam, às vezes, uma identificação tão maciça com um destes personagens que parecem assumir sua identidade: falam com eles, vestem-se da mesma forma, adquirem seus maneirismos, não sendo raro que tal situação se prolongue por um longo tempo (OUTEIRAL, 1994, p. 72).

Isso acontece porque os adolescentes apresentam uma identificação tão forte e intensa

com esses grupos musicais que parecem assumir sua identidade, ou seja, se vestem iguais a eles,

se comportam da mesma forma, falam como eles, adquirindo até mesmo os jeitos e maneirismos

dos seus cantores favoritos.

No decorrer do programa, o apresentador Serginho Groisman, escolhe três adolescentes

da platéia para serem entrevistados. Normalmente, eles apresentam alguns traços característicos,

como modo de se vestir, raças e aparência física díspar. Por exemplo, já foi entrevistado um

garoto que usava saias, descendentes de orientais, e uma garota de cabelo azul. Morin afirma que

devido à contradição e hipocrisia dos valores estabelecidos, o jovem apresenta “repugnância ou

recusa pelas relações hipócritas e convencionais, pelos tabus, recusa extremada do mundo”

(MORIN, 1997, p.155). Mas os jovens que se vestem e comportam como rebeldes ou que buscam

quebrar tabus são raros no Altas Horas. Por isso quando aparecem, recebem destaque especial.

A professora do Departamento de Pedagogia da UnB, Vânia Quintão Carneiro, em

entrevista para a pesquisa Remoto Controle (2004), aponta que os programas televisivos ainda

constróem a imagem do jovem a partir de dois estereótipos. O primeiro é caracterizado por

comportamentos e linguagens que refletem a cultura da rebeldia como questão de estilo. Já no

segundo

estereótipo,

ao

contrário,

os

jovens

comportados, sem contradições e sem conflitos.

são

representados

como

bonzinhos,

bem

Vânia Quintão acredita que é preciso acabar com essas visões caricaturais. Ela sugere que

“se rompa com a concepção única de jovem, permitindo que estes surjam como sujeitos reais, em

55

formação, que têm histórias, conflitos, preocupações para além de suas próprias relações

amorosas, que são capazes de consumir, de participar, de produzir significados

” (VIVARTA,

2004, p. 222). Nesse sentido, o programa Altas Horas tenta solucionar o problema ao abrir espaço

para que o jovem se manifeste, critique, dê sua opinião.

Mas apenas a participação do jovem nos programas de televisão não faz com que eles, na

sua diversidade, se reconheçam nos mesmos. O público presente na platéia do Altas Horas não é

muito diversificado, pois representa o jovem de classe média das grandes cidades. Mas os

adolescentes do interior do país, do Norte e do Nordeste, principalmente, não fazem parte desses

que são mostrados no programa.

3.6.1 Público jovem e participação

De acordo com estudiosos como Eugênio Bucci e Dominique Wolton, a televisão é um

dos principais instrumentos de integração nacional. Ela transforma um país descentralizado e

dividido em um país único, unido como público. Bucci entende que o Brasil continua cheio de

desigualdades sociais, econômicas e culturais, mas ainda se une diante da TV no final de Copa

da Mundo, no final da novela em um processo de integração imaginária.

Mas é importante levar-se em consideração de que mesmo esse país que se unifica na

frente da TV, apresenta também enormes desigualdades quanto a gostos e preferências. Assim,

um programa televisivo pode não agradar a todos os gostos, em razão das diferenças regionais,

faixas etárias ou classes sociais. Já foi referido que o público do programa Altas Horas é formado

especialmente por jovens e adolescentes. O perfil da platéia é constítuido pelo jovem de classe

média e classe média alta, estudantes de escola privada e, em sua maioria, brancos. A média de

56

idade do público do Altas Horas varia dos 13 aos 24 anos, abrangendo uma faixa etária muito

ampla.

 

É possível observar a relação de identificação do jovem com os convidados através de

certos

tipos

de perguntas

que são

formuladas.

Quando

o

convidado é algum

artista ou

personalidade da música, televisão ou do mundo da moda, a maioria das perguntas giram em

torno de dicas para as pessoas que querem tornar-se profissionais como eles. Os jovens pedem

conselhos de como seguir em determinada carreira, esperando alcançar o mesmo sucesso.

A participação do jovem no programa é exclusivamente feita durante a gravação. O Altas

Horas

não

recebe

telefonemas

durante

o

programa

e

nem

cartas

nem

e-mails

de

telespectadores. Uma das explicações para isso é o fato do programa ser gravado anteriormente.

Os jovens participam na platéia, fazendo as perguntas e através dos quadros já citados, como a

entrevista e “Os piores da música”.

A pesquisa Remoto Controle analisou também as características da participação nos

programas analisados. O equilíbrio étnico-cultural e o equilíbrio de gêneros foram os principais

pontos abordados na análise.

57

QUADRO 5

CARACTERÍSTICAS DA PARTICIPAÇÃO NO PROGRAMA ALTAS HORAS

Programa

 

Participa

Participa

Equilíbrio

Equilíbrio

Equilíbrio

Equilíbrio

Os partici-

ção de

ção de

étnico-

étnico-

de gênero

de gênero

pantes

telespec-

entrevis-

cultural entre

cultural

entre os

entre a

foram, em

tadores

tados na

os convi-

entre a

convidados

platéia

algum

rua

dados

platéia

momento,

ridicula-

rizados

Altas

Sim

-----

6,7%

26,7%

20%

46,7%

66,7%

6,7%

Horas

Não

100%

93,3%

73,3%

80%

53,3%

33,3%

93,3%

Fonte: VIVARTA, 2004, p. 216.

Segundo a pesquisa Remoto Controle, o desenho arquitetônico do cenário e das atrações,

já revela o modo de participação. A disposição da platéia no cenário em forma de arena e a

proximidade do palco, interfere diretamente na ambientação. “A proximidade ou não dos jovens

com os demais protagonistas por si só constitui indício do tipo de diálogo que se pretende

empreender” (VIVARTA, 2004, p.215). No Altas Horas a platéia fica muito próxima dos

convidados,

permitindo

maior interação

durante as

perguntas.

Muitas

vezes

o

convidado

cumprimenta um jovem, chamando-o pelo nome, além de dar a resposta olhando nos seus olhos.

A qualidade da participação dos jovens no programa está diretamente ligada à qualidade

do apresentador. Diferente de muitos apresentadores de programas destinados aos jovens,

Serginho Groisman assume uma postura adequada e equiidistante, ao se colocar na posição de

mediador do debate, fazendo colocações pertinentes e sempre tentando aprofundar nas teses em

debate.

58

É de se notar também que a participação depende do desempenho dos convidados e dos

próprios temas discutidos. Se eles não são de domínio do adolescente, corre-se o risco da

superficialidade, prejudicando assim, sua participação e o aprofundamento da questão.

59

CONCLUSÃO

A formação da identidade na sociedade moderna é composta por diversos fatores. Um dos

principais fatores é a cultura de massa. Depois da projeção e identificação com os pais, parentes e

professores na fase infantil, a adolescência complementa esse processo com a identificação entre

colegas e olimpianos, como artistas da música e da televisão. Essa projeção é reforçada e

justificada pela cultura de massa.

Os produtos midiáticos, por sua vez, possuem papel importante para que a formação da

identidade do jovem se dê de forma positiva. O modo como o jovem se vê e participa dos

produtos da mídia, como a televisão, é fundamental neste contexto. Por ser um programa

destinado ao público jovem, o Altas Horas se esforça para passar uma imagem não estereotipada,

mas isso nem sempre é alcançado, pelo fato de lidar constantemente com ícones da mídia que

reproduzem, de certa forma, uma representação caricata. Estes estereótipos estão imbuídos no

imaginário do jovem quando ele se identifica com os olimpianos.

Mas, nem sempre esse projeto tem sucesso. Muitas vezes público jovem se manifesta de

forma caricata. Isso acontece porque no processo de identificação, os jovens quase sempre se

organizam em grupos, tribos, com gostos e atitudes semelhantes. Essas tribos podem ser

percebidas na platéia do programa, assim como na participação do público em quadros

específicos.

Ainda

nesse

raciocínio,

as

identidades

dos

jovens

nas

sociedades

modernas

são

fragmentadas. Eles não precisam se comportar ou seguir uma mesma tribo o tempo todo. No

programa, o jovens vestido todo de preto, como os punks, ou roqueiros, é visto cantando junto

com o padre Marcelo Rossi. Portanto, as identidades são construídas diariamente e não se

mantém fixas, elas variam de acordo com o grupo, o local e a cultura em que se está inserido.

60

Ainda na contribuição para a formação da identidade do jovem, o programa Altas Horas

disponibiliza uma gama de assuntos com o objetivo de atrair a atenção dos jovens em questões

fundamentais para a solidificação da sociedade. Temas como política, violência e cultura estão

constantemente presentes no programa, abrindo um leque de discussão entre os jovens e

especialistas.

O jovem ainda está com sua identidade em construção, e figuras da mídia os olimpianos

fazem parte deste processo. O Altas Horas apresenta modelos identificatórios positivos na

formação do jovem. E é dessa maneira que o jovem se comporta no programa. Os artistas da

música e da televisão são vistos como exemplos, e os jovens manifestam isso através das

perguntas que fazem. Por participar do programa, de forma atuante, o jovem é representado como

protagonista e consciente dos assuntos da sociedade.

Um dos problemas analisados por esta pesquisa quanto à representação do jovem é em

relação ao perfil do público presente no programa. O adolescente da platéia é quase sempre o

mesmo. Jovens entre 13 e 20, de classe média, estudantes de escolas particulares e moradores das

grandes cidades brasileiras. Contrariando a lógica da televisão de ser um instrumento de

integração nacional o programa não consegue representar o jovem brasileiro de forma ampla,

abrangendo adolescentes do norte, nordeste e interior do país.

Com esta pesquisa foi possível constatar que o programa Altas Horas é um produto

positivo na formação do jovem ao tentar cumprir esse papel levando ao seu público elementos

construtivos e educacionais. A participação tanto dos convidados quanto da platéia acontece de

maneira semelhante, os dois segmentos são protagonistas no programa.

Alguns críticos dirão que a televisão ainda está longe de ser perfeita, mas programas como

o Altas Horas, podem ser o início de uma proposta que transforme o fascinante veículo numa

ferramenta consciente na formação da identidade do jovem.

61

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BUCCI, Eugênio. Brasil em tempo de TV. São Paulo: Boitempo, 1997.

COELHO, Teixeira. Cultura e cultura política dos jovens. Revista USP. São Paulo (32): 102- 107, Dez/Fev 1996/97.

DOMINGUES, José Maurício. Sociologia e modernidade. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

GUARESCHI, Pedrinho; JOVCHELOVITCH, Sandra (orgs.). Textos em representaçãoes sociais; 2. ed. Petropólis, RJ: Vozes, 1995.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10. ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2005.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 11. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor 1997.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998.

MAGNANI, José Guilherme C. Tribos urbanas, metáfora ou categoria?. Cadernos de Campo - Revista dos alunos de pós-graduação em Antropologia. Departamento de Antropologia, FFLCH/USP, São Paulo, 1992.

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: o espírito do tempo - I neurose. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

OUTEIRAL, José Ottoni. Adolescer: estudos sobre adolescência. Porto Alegre: Artes Médicas,

1994.

THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. 6. ed. Petrópolis:

Vozes, 2004. 261

VIVARTA, Veet

televisão para adolescentes. Brasília: ANDI; UNICEF; São Paulo: Cortez, 2004.

Remoto controle: linguagem, conteúdo e participação nos programas de

WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. 5. ed. Lisboa: Presença, 1999.

WOLTON, Dominique. Elogio do público grande público: uma teoria crítica da televisão Paulo: Ática, 1996.

São

63

ANEXO 1

Audácia para debater diversidade e questões do gênero 17

Entre os temas de especial relevância para a formação cidadã dos jovens, destacam-se

aqueles da agenda da diversidade, como a plena inclusão social das pessoas com deficiência e das

diferentes etnias, os direitos das chamadas minorias sexuais e as questões de gênero (ou seja, o

debate entre papéis femininos e masculinos na sociedade e os modelos de mulheres e homens que

os adolescentes têm como referência). Com algumas exceções, esses são assuntos pouco

presentes na pauta dos programas para adolescentes e jovens ou então recebem tratamento

inadequado.

Para a antropóloga Esther Hamburguer, crítica de televisão e professora da Escola de

Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, mais do que dar visibilidade às questões de

gênero e diversidade, a tevê deveria discutir essas temáticas com mais ousadia.

Como a questão do gênero tem sido trabalhada nos programas de televisão voltados para o

público jovem?

Ela tem merecido atenção. A questão do gênero é uma das oposições que move a trama dos

programas fictícios e também dos programas jornalísticos. No meu ponto de vista, a televisão se

vê como uma instituição feminista. Defende essa causa. Esse é um aspecto ligado à televisão

desde o princípio. Mas o problema é que, em alguns casos, as antigos estereótipos e discussões

acabam sendo reproduzidos na programação.

Como deixar claro que a questão de gênero extrapola as temáticas relacionadas à mulher e

ao feminismo e diz respeito também ao homem?

17 Artigo retirado do livro Remoto Controle (2004), da Andi.

64

Para problematizar mais a questão do masculino é necessário, basicamente, que os produtores dos

programas pensem nesse assunto. O problema é que os responsáveis pelos programas de tevê não

têm noção dessas questões. Não debatem o assunto; o tema não chega a eles. Com isso, a

televisão contribui para o aumento ou a manutenção dos preconceitos. Muitas vezes, os

programas dão voz aos senso comum e não percebem.

Do outro lado, a televisão, como um meio associado à indústria cultural, está muito acostumada a

trabalhar a questão da mulher. Ela contribuiu para a expansão dos espaço da mulher na sociedade.

Mas essa expansão não é necessariamente positiva, pois na maior parte das vezes as questões

surgem despolitizadas e sem problematização.

Na sua opinião, como o debate sobre a homossexualidade tem sido colocado no televisão?

Acredito que a inclusão da questão da homossexualidade na televisão faz diferença e lhe dá status

de tema legítimo e público. Mas é difícil medir e delimitar os efeitos de maneira mais precisa. A

sociedade precisa abrir essas tmáticas e discutir com quem faz tevê. É preciso tornar os

programas mais desafiadores. Para mim, os bons programas são aqueles que desafiam o

espectador.

Em que medida a identidade do jovem representado na tevê corresponde à diversidade da

juventude brasileira?

O jovem brasileiro está longe de ser o que a televisão tem mostrado e essa constatação pode ser

percebida por vários aspectos. Um deles é que a questão racial tem sido tratada de maneira muito

desigual. Quase não se vê jovens atores negor atuando, sendo eles a maior parcela da população.

Também não há representação nas questões relacionadas à etnia, por exemplo. Mas eu não sei se

a tevê tem a obrigação de reproduzir fielmente a realidade. Talvez isso possa limitar a

criatividade que cerca a dramaturgia. Mas deve-se ousar pensar que a tevê pode problematizar

para o lado positivo.

ANEXO 2

Televisão com informação e ética 18

65

No Brasil, Serginho Groisman é um dos mais completos apresentadores de programas para

jovens. Começou como produtor de atividades culturais do Colégio Equipe, em São Paulo e, mais

tarde, criou o programa Matéria Prima primeiro no rádio, depois na televisão. O sucesso levou-o

ao SBT, onde apresentou o Programa Livre por oito anos. Em 1999 mudou-se para a Globo, onde

comanda o Altas Horas.

De que forma o apresentador de um programa televisivo voltado para adolescentes e jovens

deve se preparar? Que diferencial deve ter em relação a outros apresentadores?

O apresentador precisa ser bem informado de uma maneira geral, não só sobre espinhas ou rock.

É preciso ter uma visão jornalística, mas isso serve para qualquer apresentador de auditório. É

importante não se comportar como adolescente. Mesmo se ele for jovem, é legal manter uma

posição um pouco distanciada, abrindo espaço, lembrando que há grandes diferenças de perfil

entre os adolescentes. Eu tento estabelecer uma relação do maior respeito pela platéia. Isso

significa ouvir com atenção as opiniões das pessoas, mesmo se elas forem contrárias às minhas.

Se acho que são opiniões que podem ser conforntadas, faço isso sob forma de pergunta. Assim,

vira algo para ele refletir, sem dar uma apalavra final.

Quais as suas principais descobertas durante a produção do Matéria Prima em relação às

possibilidades de trabalho com o público jovem na TV?

Até hoje, o mais importante que descobri é a imprevisibilidade das perguntas que são feitas pelo

público. Quem vai ao programa não tem compromisso algum, nem com editora, nem com jornal,

não tem medo de se queimar. Muitas coisas que o jornalismo tem vontade de perguntar, mas não

18 Entrevista retirada do livro Remoto Controle (2004), da Andi.

66

tem coragem, são questionadas neste espaço. A energia que essa faixa de idade tem é muito

grande, são pessoas que estão abertas as novidades musicais, por exemplo. Não que não tenham

preconceitos, mas estão mais dispostos a conhecer coisas novas.

Quais os seus principais objetivos hoje na televisão brasileira em relação ao público jovem?

Quero trabalhar com uma questão muito conhecida e pouco falada na televisão, que é a ética.

Mesmo que esse público tenha mais informação, apesar de superficial, é legal ele traga isso para

a discussão. Sobre informar, acredito que na televisão podemos despertar o interesse para

determinado tema que poderá ser melhor explorado e pesquisado fora da tevê.

Do tempo do programa Matéria Prima para os dias de hoje, você acha que a programação

televisiva voltada para o jovem encontrou uma forma de se apropriar de elementos

educativos?

Uma questão própria da televisão aberta é a preocupação com a audiência. Existem muitos

programas parecidos. O que vejo é um número maior de produções, mas pouca variedade e

qualidade. É muito superficial: nenhum jovem pode achar que a televisão é o suficiente. No

Brasil, se vê muito mais tevê do que deveria. Para ser bem informado é preciso ter uma boa

leitura, ir ao cinema. Não dá pra ficar só na televisão.