Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

POEMAS

A Bomba

A bomba é uma flor de pânico apavorando os floricultores A bomba é o produto quintessente de um laboratório falido A bomba é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles A bomba é grotesca de tão metuenda e coça a perna A bomba dorme no domingo até que os morcegos esvoacem A bomba não tem preço não tem lugar não tem domicílio A bomba amanhã promete ser melhorzinha mas esquece A bomba não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está A bomba mente e sorri sem dente A bomba vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados A bomba é redonda que nem mesa redonda, e quadrada A bomba tem horas que sente falta de outra para cruzar A bomba multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação A bomba chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés A bomba faz week-end na Semana Santa A bomba tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia A bomba industrializou as térmites convertendo-as em balísticos interplanetários A bomba sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, de verborréia A bomba não é séria, é conspicuamente tediosa A bomba envenena as crianças antes que comece a nascer A bomba continnua a envenená-las no curso da vida

A bomba respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais A bomba pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba A bomba é um cisco no olho da vida, e não sai A bomba é uma inflamação no ventre da primavera A bomba tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, cobalto e ferro além da comparsaria A bomba tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc. A bomba não admite que ninguém acorde sem motivo grave A bomba quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos A bomba mata só de pensarem que vem aí para matar A bomba dobra todas as línguas à sua turva sintaxe A bomba saboriea a morte com marshmallow A bomba arrota impostura e prosopéia política A bomba cria leopardos no quintal, eventualmente no living A bomba é podre A bomba gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado A bomba pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo A bomba declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade A bomba tem um clube fechadíssimo A bomba pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel A bomba é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris A bomba oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos de paz A bomba não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas A bomba

desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas A bomba não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer A bomba é câncer A bomba vai à Lua, assovia e volta A bomba reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação em cadeia A bomba está abusando da glória de ser bomba A bomba não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável A bomba fede A bomba é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina A bomba com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve A bomba não destruirá a vida O homem (tenho esperança) liquidará a bomba.

A Bruxa

A Emil Farhat Nesta cidade do Rio, de dois milhões de habitantes, estou sozinho no quarto, estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho? Ainda há pouco um ruído anunciou vida a meu lado. Certo não é vida humana, mas é vida. E sinto a bruxa presa na zona de luz. De dois milhões de habitantes! E nem precisava tanto... Precisava de um amigo, desses calados, distantes, que lêem verso de Horácio mas secretamente influem na vida, no amor, na carne. Estou só, não tenho amigo, e a essa hora tardia como procurar amigo? E nem precisava tanto. Precisava de mulher que entrasse nesse minuto, recebesse este carinho, salvasse do aniquilamento um minuto e um carinho loucos que tenho para oferecer. Em dois milhões de habitantes, quantas mulheres prováveis interrogam-se no espelho medindo o tempo perdido até que venha a manhã trazer leite, jornal e calma. Porém a essa hora vazia como descobrir mulher? Esta cidade do Rio! Tenho tanta palavra meiga, conheço vozes de bichos, sei os beijos mais violentos, viajei, briguei, aprendi. Estou cercado de olhos, de mãos, afetos, procuras.

Mas se tento comunicar-me, o que há é apenas a noite e uma espantosa solidão. Companheiros, escutai-me! Essa presença agitada querendo romper a noite não é simplesmente a bruxa. É antes a confidência exalando-se de um homem.

A bunda, que engraçada
A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora - murmura a bunda - esses garotos ainda lhes falta muito que estudar. A bunda são duas luas gémeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente. A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar. Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda, redunda

Conta só o que viu. Vire deserto. A. A câmara. ossuário. triste.A Câmara Viajante Que pode a câmara fotográfica? Não pode nada. A desejar mudança. julgar. A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica. E pergunta: "Podemos deixar Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize. tumba da natureza?" Este livro-câmara é anseio de salvar O que ainda pode ser salvo. sujo.quem sabe? acabará Na infinita desolação da terra assassinada. Obriga a sentir. do massacre De formas latejantes de viço e beleza. cru. entretanto. No que resta . driticamente. Ajuda a ver e rever. Não pode mudar o que viu. Não tem responsabilidade no que viu. Mostra o que ficou e amanhã . espalha.ainda esplendor .da mata Atlântica Apesar do declínio histórico. A imagem que ela captou e distribui. a multi-ver O real nu. A querer bem ou a protestar. universaliza. O que precisa ser salvo Sem esperar pelo ano 2 mil. . Desvenda.

outro prazer tão fundo na aparência mas tão raso na eletricidade do minuto? Já dilui o orgasmo na lembrança E gosma escorre lentamente de tua vida in "O Amor Natural" . É areia. o prazer? Não há mais nada Após esse tremor? Só esperar Outra convulsão.A carne é triste depois da felação A carne é triste depois da felação Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.

no vão intento de sentir outra vez o que era graça de amar em flor e em fluida beatitude. Volta a carne a sorrir. . Mas os dons infernais são novo agravo à envilecida carne sem defesa. e o aroma espalha-se de flores calcinadas de horror. O Diabo atende sob as mil formas de êxtase transido. e nada se resolve.A carne envilecida A carne encanecida chama o Diabo e pede-lhe consolo.

Simplesmente bater. Resposta nenhuma. no bater e bater.A casa do tempo perdido Bati no portão do tempo perdido. e eu batendo e chamando pela dor de chamar e não ser escutado. O eco devolve minha ânsia de entreabrir esses paços gelados. ninguém atendeu. A casa do tempo perdido está coberta de hera pela metade. a outra metade são cinzas. É o casarão vazio e condenado. A noite e o dia se confundem no esperar. . O tempo perdido certamente não existe. Bati segunda vez e mais outra e mais outra. Casa onde não mora ninguém.

Ah. como se alargava. coito. Na mansuetude das ovelhas mochas. morte de tão vida. primeiro gesto nu ante a primeira negritude de corpo feminino. Roupa e tempo jaziam pelo chão. E nem restava mais o mundo. nem destino. à beira dessa moita orvalhada. coito. sem dizeres.A castidade com que abria as coxas A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora brava. e tão estreita. Em minha ardente substância esvaída. . Era Adão. sepultura na grama. eu não era ninguém e era mil seres em mim ressuscitados.

amarelos. (in A Paixão Medida) . e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.A corrente Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos.

Viver Como acordar sem sofrimento? Recomeçar sem horror? O sono transportou-me àquele reino onde não existe vida e eu quedo inerte sem paixão. algoz do inocente que não sou? Ninguém responde. suportar a semelhança das coisas ásperas de amanhã com as coisas ásperas de hoje? Como proteger-me das feridas que rasga em mim o acontecimento. dia seguinte após dia seguinte. . qualquer acontecimento que lembra a Terra e sua púrpura demente? E mais aquela ferida que me inflijo a cada hora.Acordar. a fábula inconclusa. a vida é pétrea. Como repetir.

amarelos. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos. (in A Paixão Medida) .A Corrente Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.

amiga vagem. mas é de véspera. Mas há que conquistá-lo a teus irmãos.1980 Larga. tal como a liberdade. em princípio. O feijão é de todos. o amor. Se levas cassetete na cabeça ou no braço. não desistas: amanhã outros vinte mil quilos em pacotes serão distribuídos dessa forma. eu disse? Vai. em qualquer caso. nas costas. Bocas oitenta mil vão disputando cada manhã o que somente chega para de vinte mil matar a gula. Método esconde-pinga: não percebes . na virilha. mas esperança (que substitui.X. seja noite de estrela ou chuva grossa. e sem certeza de trazer dois quilos. patrulhinhas te protegem e gás lacrimogêneo facilita o ato de comprar a tua cota. não o leves a mal: é por teu bem. Assim não falta nunca feijão-preto (embora falte sempre nas panelas). esquece a poesia burocrática e vai cedinho à fila do feijão. a mesa de escritório.A Excitante Fila Do Feijão 25. uma espera-esperança de dez horas. Camburões. Dez. Certeza não terás. o ar. doze ou mais: o tempo não importa quando aperta o desejo brasileiro de ter no prato a preta. Insiste. tudo). Cedinho. poeta. A conta-gotas vai-se escoando o estoque armazenado nos porões do Estado.

Larga. tudo bem. Feijoada. o verso comedido. (in Amar Se Aprende Amando) . há desmaios. Suspense à la Hitchcock ante as cerradas portas de bronze. Há gritos.. Se nada conseguires.que ele torna excitante a tua busca? Supermercados erguem barricadas contra esse teu projeto de comer. poeta.o povo sabe enquanto leva as suas bordoadas. essa não: é sonho puro. mas um feijão modesto e camarada que lembre os tempos tão desmoronados em que ele florescia atrás da casa sem o olho normativo da Cobal. curtir a vida na dimensão dramática da luta por um ideal pedestre mas autêntico: Feijão! Feijão.. ao menos um tiquinho! Caldinho de feijão para as crianças. e vai sofrer na fila do feijão. há prisões.. guardas do escondido papilionáceo grão que ambicionas. Esperar é que vale . Instante de vibrar. É a grande aventura oferecida ao morno cotidiano em que vegetas.. a paz do teu jardim vocabular.

aquele jeito manso.A Falta de Érico Falta alguma coisa no Brasil depois da noite de Sexta-feira Falta aquele homem no escritório a tirar da máquina elétrica o destino dos seres. Falta uma tristeza de menino bom caminhando entre adultos na esperança da justiça que tarda .como tarda! a clarear o mundo. a explicação antiga da terra. . óleo a derramar-se lentamente. falta o casal passeando no trigal. aquela ternura contida. Falta um solo de clarineta. Falta um boné.

Já nem se escuta a poeira que o gesto espalha no chão. A vida conta-se. em letras de conclusão. forrado de esquecimento.A falta que ama Entre areia. a dália é toda cimento. patinando muros. No solo vira semente? Vai tudo recomeçar? É a falta ou ele que sente o sonho do verbo amar? . enquanto a falta que ama procura alguém que não há. Por que é que revoa à toa o pensamento. inteira. A transparência da hora corrói ângulos obscuros: cantiga que não implora nem ri. chaga sem pus? O inseto petrificado na concha ardente do dia une o tédio do passado a uma futura energia. Está coberto de terra. sol e grama o que se esquiva se dá. na luz? E por que nunca se escoa o tempo. Onde a vista mais se aferra.

sequer colocado........... os muros são surdos Sob a pele das palavras há cifras e códigos... Vomitar esse tédio sobre a cidade. sem armas.. Furou o asfalto.. consideradas sem ênfase... Devo seguir até o enjôo? Posso... vou de branco pela rua cinzenta..... o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse Em vão me tento explicar.. ... . É feia......... revoltar-me? .. Mas é realmente uma flor... Melancolias......A Flor e a Náusea Preso à minha classe e a algumas roupas.............. Nenhuma carta escrita nem recebida. É feia......... o nojo e o ódio.... Mas é uma flor......... mercadorias espreitam-me... Suas pétalas não se abrem.......... Que tristes são as coisas... Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da trade e lentamente passo a mão nessa forma insegura Do lado das montanhas. Quarenta anos e nenhum problema resolvido........ o tédio. Sua cor não se percebe.. Seu nome não est'nos livros............ galinhas em pânico.. sabendo que o perdem. nuvens maciças avolumam-se Pequenos pontos brancos movem-se no mar.. Todos os homens voltam para a casa. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo. O sol consola os doentes e não os renova As coisas. O tempo pobre.......

Uma. caladamente. a que vemos. depois de viver intensa. (in A Paixão Medida) . e por ordem do Prefeito vai sumir na varredura mas continua em outra folha alheia a meu privilégio de ser mais forte que as folhas. para ser senhor de uma fechada. Mas vemos? Ou é a ilusão das coisas? Quem sou eu para sentir o leque de uma palmeira? Quem sou. Outra.A Folha A natureza são duas. sagrada arca de vidas autônomas? A pretensão de ser homem e não coisa ou caracol esfacela-me em frente à folha que cai. tal qual se sabe a si mesma.

entre fotos mil que se esgarçavam.A grande dor das cousas que passaram A grande dor das cousas que passaram transmutou-se em finíssimo prazer quando. esvoaçaram em orvalhada luz de amanhecer. tive a fortuna e graça de te ver. outra vez reflorindo. Os beijos e amavios que se amavam. descuidados de teu e meu querer. Ó bendito passado que era atroz. e gozoso hoje terno se apresenta e faz vibrar de novo minha vozpara exaltar o redivivo amor que de memória-imagem se alimenta e em doçura converte o próprio horror! .

Já não pretendemos que sejam imperecíveis. Duram o infinito variável no limite de nosso poder de respirar a eternidade. as pessoas que amamos são eternas até certo ponto.A hora do cansaço As coisas que amamos. Restituímos cada ser e coisa à condição precária. numa outra (maior) realidade. rebaixamos o amor ao estado de utilidade. absoluta. Começam a esmaecer quando nos cansamos. De outra matéria se tornam. e todos nós cansamos. Pensá-las é pensar que não acabam nunca. sei lá. dar-lhes moldura de granito. . talvez no ar. de aspirar a resina do eterno. por um outro itinerário. Do sonho de eterno fica esse gosto ocre na boca ou na mente.

A ilusão do migrante Quando vim da minha terra. Os morros. se é que vim de algum para outro lugar. alheio à minha baça pessoa. empalidecidos no entrecerrar-se da tarde. o mundo girava. e no seu giro entrevi que não se vai nem se volta . porque tudo é conseqüência de um certo nascer ali. a correnteza do rio me sussurrou vagamente que eu havia de quedar lá donde me despedia. pareciam me dizer que não se pode voltar. se é que vim da minha terra (não estou morto por lá?). Quando vim.

. un baiser. mais que honorário. num minuto. Assim quis nosso Stefan Baciu saudar o Rio antigo e seu. Jornal e bonde e mortadela comida à pressa. muito doce.“A kiss. pulsando ao sol e ao vento vário. E as coisas tornam-se presentes. mas trint’anos tecem uma quase eternidade. un bacio” A kiss. Praias e ondas do Havaí. Entre danos e desenganos. não nos tiram Baciu daqui: carioca ele é. un baiser. Não muito antigo. un bacio para a terra que o acolheu. resta porém a claridade (ou a penumbra) de lembrar em surdina dias e gentes. a Poesia: último reduto. Contra a sorte cinz’amarela. bem devagar.

ainda que mal te encare. me salvo e me dano: amor. ainda que mal respondas. ainda que mal me julgues. ainda que mal desculpes. . ainda que mal te siga. ainda que mal te voltes. ainda que mal insista. ainda que mal repitas. ainda que mal o saibas. ainda que mal te entenda. ainda que mal me mostre. ainda que mal te furtes. ainda que mal te agarre. ainda que mal me exprima. ainda que mal te ame.Ainda que mal Ainda que mal pergunte. ainda que mal me vejas. ainda que mal te mates. ainda assim te pergunto e me queimando em teu seio.

essa terrível prenda que alguém nos dá.1902 * . onde se estenda. livre de encantos. todo sabor gratuito de oferenda sob a glacialidade de uma estela. dos ócios. se destroem no sonho da existência. A madureza sabe o preço exato dos amores. raptando-nos. com ela. dos quebrantos. e que o mundo converte noma cela. a madureza vê.A Ingaia Ciência Itabira do Mato Dentro . o círculo vazio. posto que a venda interrompa a surpresa da janela. o agudo olhar.1987 A madureza.MG . a mão. . O agudo olfato. e nada pode contra sua ciência e nem contra si mesma.* .

no rastro dos astros. o verbo sempreamar. no trampolim do sem-fim das estrelas. o verbo pluriamar. acima das gramáticas e do medo e da moeda e da política. além do Céu. vamos! vamos conjugar o verbo fundamental essencial. além do Céu Além da Terra. o verbo transcendente.Além da Terra. até onde alcançam o pensamento e o coração. na magnólia das nebulosas. razão de ser e de viver. Além. muito além do sistema solar. .

Mas sem esquecer.A língua francesa A língua francesa desvenda o que resta (a fina agudeza) da noite em floresta. . de ler e tresler a arte de Ovídio. num lance caprídeo.

a licorina gruta cabeluda. a língua lavra certo oculto botão. lambilenta. quanto mais lambente.A língua lambe A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta. e. lambilonga. e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos. enfurecida . entre gritos. mais activa. atinge o céu do céu. entre gemidos. E lambe. balidos e rugidos de leões na floresta.

o imponderável que as estátuas ocultam em sigilo de espelhos. é próprio de estátuas aguardar sem prazo e cansaço que os fados se cumpram ou deixem de cumprir-se. programadas em uniformes verde-musgo para o serviço de bagatelas imprescindíveis. As estátuas sabem disto e propiciam a cada centímetro de carne uma satisfação de luxo erótico. em direção da porta sonora a ser aberta para alguém desconhecido . o brinco. quase suspenso na hipótese de vôo. Tudo que a nudez torna mais bela acende faíscas no desejo. Já não se tem certeza se é comercio ou desfile de ninfas na campina que o spot vai matizando em signos verdes como tapeçaria desdobrante do verde coletivo das estátuas. e o simples vulto aciona as esculturas. afinal. Antes de chegar à pele rósea. aguardam o acontecimento. Dissolve-se o balé sem música no recinto. Passaram a noite em vigília. Sabem que Vênus cedo ou tarde. Nenhuma ruga no imobilismo de figurinos talhados para o eterno que é. Não há mais compradoras. novelo de circunstâncias. As estátuas regressam à postura .Vênus certamente. Hora de sol batendo nos desenhos caprichosos de manso aquário já marmorizado. Chega. Hora de almoço. habitantes de aquário. nasceram ali. a pulseira cinge no ar o braço imaginário. que não se consumará. apontando o estofo.A loja feminina Cinco estátuas recamadas de verde na loja. um pé à frente do outro. em postura vertical. O ritmo dos passos e das curvas das cinco estátuas vendedoras gera no salão aveludado a sensação de arte natural que o corpo sabe impor à contingência. face múltipla assomar em tom de pesquisa. chegará. O enfeite ocioso ganha majestade própria de divinos atributos. objetos deixam de ser inanimados. Ao cintilar de vitrinas e escaninhos. pela manhã. Iguais as cinco. provavelmente tarde e sem pintura. Ao cintilar de vitrinas e escaninhos.

O viço humano perde-se no artifício de coisas integrantes de uma loja. de moças que eram. pois também eu invisível na loja me dissolvo nesse enigma de formas permutantes. São talvez manequins. se moveram. não consigo saber. se jamais existiram. Se estão vivas.imóvel de cegonhas ou de guardas. . se morreram (quem sabe). não sei. Se acaso dormem o dormir egípcio de séculos. pulsaram.

ou precisão de amor. distribuido pelas coisas pérfidas ou nulas. amar? sempre. . amar. e o que. paciente. é sal. e na secura nossa amar a água implícita. ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto. Amar a nossa falta mesma de amor. sozinho. senão rodar também.AMAR Que pode uma criatura senão. e na concha vazia do amor a procura medrosa. em rotação universal. doação ilimitada a uma completa ingratidão. o que é entrega ou adoração expectante. pergunto. o ser amoroso. entre criaturas. e a sede infinita. e amar? amar o que o mar traz à praia. na brisa marinha. e amar o inóspito. e até de olhos vidrados. e o peito inerte. desamar. e uma ave de rapina. amar e malamar. amar? Que pode. amar? amar e esquecer. e a rua vista em sonho. e o beijo tácito. um vaso sem flor. Este o nosso destino: amor sem conta. um chão de ferro. o que ele sepulta. de mais e mais amor. o cru.

a) irm(ã.a) colega este não consola nunca de nuncarás.a) me releve este malestar cantarino escarninho piedoso este querer consolar sem muita convicção o que é inconsolável de ofício a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima a vida também tudo também mas o amor car(o. .o) retrato espetáculo por que amou? se era para ou era por como se entretanto todavia toda via mas toda vida é indignação do achado e aguda espotejação da carne do conhecimento.a) amig(o.Amar-amaro porque amou por que amou se sabia proibido passear sentimentos ternos ou desesperados nesse museu do pardo indiferente me diga: mas por que amar sofrer talvez como se morre de varíola voluntária vágula evidente? ah PORQUE AMOU e se queimou todo por dentro por fora nos cantos ecos lúgubres de você mesm(o. ora veja permita cavalheir(o.

A amiga interrompeu-a: . nesta semana. Recomendou que o fogão fosse entregue na hora. Acendi o gás e ele não funcionou. Reunidos em assembléia. In "Cadeira de Balanço" . Dona Esmeralda recebeu de véspera. telefonou para a amiga mais chegada. Dona Esmeralda mandou parar o serviço e correu à loja para desfazer a transação. Quis logo retribuir-lhes a gentileza com um bolo de chocolate com frutas. vítimas de tais homenagens. não desaponta filho.A Mãe e o fogão O Dia das Mães já passou. é tão bom um presente útil. Negociações prosseguem. "Damos o dinheiro e mamãe compra a seu gosto": combinado. luvas e sapatos. deu mais três mil cruzeiros de suas economias.um caso sério. laboriosas. De volta à casa. que ela não é de crediário. O vestido ficava para mais tarde. . Então ela não teve dúvida: num impulso verdadeiramente materno. outro é contar que comprou) . num envelope. não. mas usarão assim mesmo. Nenhum deles está em idade de escolher tecidos. comprado na loja mais próxima. Se amanhã o desfavor público envolver essas autoridades. contando-lhe a compra (se um dos prazeres femininos é comprar. Os filhos não podiam ficar sentidos: tinham dado um presente útil. problemas resultantes da extraordinária concentração de afeto que se operou no segundo (e azul) domingo de maio de 1961. Para inteirar. Como o dinheiro não chegasse. a ser ganho num possível "Dia da Esposa". a turma de instalação já havia desligado o fogão velho e ia ligar o fogão novo. mas o fogão . trocou logo o vestido futuro por um fogão novo. mas na específica de mães de autoridades. filha. Umas tantas repousam das manifestações coletivas e entusiásticas que receberam. Por mais que lhe explicasse que era um serviço sentimental e urgente. Assim. recorreram ao pai. quinze abobrinhas. com os complementos. mas algumas estão resolvendo. objetos de uso que não gostariam de usar. Ela chorou e sorriu e chorou outra vez de emoção pelo carinho da meninada. discutiram a dádiva a oferecer. para sossego delas e nosso. e chegaram à conclusão de que seria ideal um vestido de inverno. entre beijos. feliz.Serve nada. porque mãe é sempre mãe. que não dariam para uma toalete digna do grill do Copa. é de desejar que não atinja suas venerandas genitoras. até mesmo um fogão. Não houve bolo de chocolate com frutas.E como você queria que ele funcionasse. e a instalação feita imediatamente. se não houve gás esta manhã? Ao terminar a conversa. mas confiar a tarefa a terceiros. receberam presentes pouco adequados. que vem aí. mas sempre podem produzir algo de elegante. sempre em conserto-se recusou a cooperar. bolsa. Dona Esmeralda não obteve dele nenhuma dessas provas de consideração e camaradagem que até os fogões velhos costumam dar às mães amorosas. não na qualidade geral de mães. Os garotos de Dona Esmeralda é que foram mais previdentes do que muito filho marmanjo. Outras.Mas que idéia essa de comprar fogão novo se o velho ainda serve? .

e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco. sobre a montanha. e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério. em colóquio se estava dirigindo: "O que procuraste em ti ou fora de teu ser restrito e nunca se mostrou. embora voz alguma ou sopro ou eco ou simples percussão atestasse que alguém. sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto. . a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior. a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas. noturno e miserável. Abriu-se em calma pura. vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado. assim me disse. mesmo afetando dar-se ou se rendendo. em coorte. e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los. convidando-os a todos. se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos. e aves pairassem no céu de chumbo. nos abismos.A Máquina do Mundo E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas. pedregosa. Abriu-se majestosa e circunspecta. a outro alguém. e a cada instante mais se retraindo.

pois a fé se abrandara. e mesmo o anseio. esse nexo primeiro e singular. dá volta ao mundo e torna a se engolfar. ausculta: essa riqueza sobrante a toda pérola. mas hermética. que nem concebes mais. . o que pensado foi e logo atinge distância superior ao pensamento. e o absurdo original e seus enigmas. pois tão esquivo se revelou ante a pesquisa ardente em que te consumiste. não mais aquele habitante de mim há tantos anos. essa total explicação da vida. como defuntas crenças convocadas presto e fremente não se produzissem a de novo tingir a neutra face que vou pelos caminhos demonstrando.. que floresce no caule da existência mais gloriosa. e o solene sentimento de morte.olha. os recursos da terra dominados. o que nas oficinas se elabora. a esperança mais mínima — esse anelo de ver desvanecida a treva espessa que entre os raios do sol inda se filtra.. abre teu peito para agasalhá-lo. contempla. e as paixões e os impulsos e os tormentos e tudo que define o ser terrestre ou se prolonga até nos animais e chega às plantas para se embeber no sono rancoroso dos minérios. como eu relutasse em responder a tal apelo assim maravilhoso. na estranha ordem geométrica de tudo. vê. suas verdades altas mais que todos monumentos erguidos à verdade: e a memória dos deuses. e como se outro ser.” As mais soberbas pontes e edifícios. essa ciência sublime e formidável. Mas. afinal submetido à vista humana. tudo se apresentou nesse relance e me chamou para seu reino augusto. repara.

pedregosa. desdenhando colher a coisa oferta que se abria gratuita a meu engenho. e a máquina do mundo. baixei os olhos. avaliando o que perdera. se foi miudamente recompondo.passasse a comandar minha vontade que. Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”. a pedido do caderno “MAIS” (edição de 0201-2000). Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos. José Olympio Editora – Rio de Janeiro. antes despiciendo. incurioso. 300. 1985. publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”. . lasso. como se um dom tardio já não fora apetecível. seguia vagaroso. de mãos pensas. se cerrava semelhante a essas flores reticentes em si mesmas abertas e fechadas. enquanto eu. pág. A treva mais estrita já pousara sobre a estrada de Minas. o texto acima foi extraído do livro “Nova Reunião”. já de si volúvel. repelida.

não sujo de terra. A princípio oculta no bolso da calça. escovei-a. mão limpa de homem. duro. poli-a. . Não adianta lavar.. O nojo era um só. E era um sujo vil. A mão está suja. O sabão é ruim.. A mão incurável abre dedos sujos. uma simples mão branca. sujo de carvão. por fim. Eu seguia. Ai. suja há muitos anos. ou mesmo. Nem ensaboar. Preciso cortá-la. por maior contraste. E vi que era igual usá-la ou guardá-la. quisera torná-la. A água está podre.A Mão Suja Minha mão está suja. quem o saberia? Gente me chamava na ponta do gesto. Cristal ou diamante. que se pode pegar e levar à boca ou prender à nossa num desses momentos em que dois se confessam sem dizer palavra. A mão escondida no corpo espalhava seu escuro rastro. quantas noites no fundo da casa lavei essa mão.

transparente colar-se a meu braço.casca de ferida. Não era sujo preto . Depressa. (in José) . fazê-la em pedaços e jogá-la ao mar! Com o tempo. cortá-la. outra mão virá pura . tardo. cardo. pardo. Era sujo pardo. Era um triste sujo feito de doença e de mortal desgosto na pele enfarada. Inútil reter a ignóbil mão suja posta sobre a mesa.o preto tão puro numa coisa branca. a esperança e seus maquinismos. suor na camisa de quem trabalhou.

Fecha-se em copas: “Se você não vem depressa até aqui nem eu posso correr à sua casa. nem de seus gostos. Outras notícias do corpo não quer dar. conta-me que é fulva a mata do seu púbis. . que seria de mim até o amanhecer?” Concordo. calo-me. pelo telefone À meia-noite.À meia-noite. pelo telefone.

e a fêmea. rindo. e encerra o gozo mais lauto. subia o enjoo de fera presa no Zoo. abre-que-fecha-que-foge. qual pulcra rosa preta como que se enovelava. que nessa hora já primeira. quatrifólio. e virgem no desvairado recato que sucedia de chofre á visão dos seios claros. a moça mostrava a nádega. andar perdera o sentido. nocturno. crespa. esmeralda que se entreabre. Os dedos descobriam-lhe segredos lentos. o todo esquivo. sombrio. Como lhe sabia a pele.concha. em seu côncavo e convexo. porém o máximo arcano. em seu dourado pêlo de ventre! mas sexo era segredo de Estado. ara sem sangue de ofícios. Como a carne lhe sabia . intacta. faiscava. Antes nunca me acenasse. animais. berilo. aquela zona hiperbórea. curvos. o que devia ser dado e mais que dado. a moça não me mostrava. misto de mel e de asfalto. só não mostrava aquilo . negava o que eu tanto lhe pedia. Ai. essa a louca sonegava. não me daria nem nada. porta hermética nos gonzos de zonzos sentidos presos. Roçava-lhe a perna.A moça que mostrava a coxa A moça mostrava a coxa. Viver não tinha propósito. comido. que a moça me matava tornando-me assim a vida esperança consumida no que. E torturando-me. violento. o tempo não desatava nem vinha a morte render-me ao luzir da estrela-d'alva. a tríplice chave de urna. em seu poro. inacessível.

outros flancos: vasto mundo. lado a lado! Mas que perfume teria a gruta invisa? que visgo. na ventania. e quem disse que eu podia fazer dela minha escrava? De tanto esperar. sua coxa se selava. me chamava.. já se empana sua glória. que linha prístina. outras fomes. sua coxa se cerrava. que doçume. onde uma cobra desperta vai traçando seu desenho num frémito. Talvez que a moça hoje em dia. Mas seu púbis recusava. porfia sem vislumbre de vitória. por que hoje se abriria? Por que viria ofertar-me quando a noite já vai fria. O certo é que nunca. Na mais erma hospedaria fechada por dentro a aldrava. . orvalhado. no dia. se encerrava.. sua nívea rosa preta nunca por mim visitada. e que eu beijasse ou mordesse. quando mais eu insistia. já sou diverso daquele que por dentro se rasgava. sua coxa se apertava. Na praia.. Na noite acesa. que estreitura. e não sei agora ao certo se minha sede mais brava era nela que pousava. pura.. Talvez. já seu corpo se delia. me fugia? Tudo a bela me ofertava. fizesse sangue: fazia. Outras fontes. E se tanto se furtara com tais fugas e arabescos e tão surda teimosia. inacessível naveta? Ou nem teria naveta.a campo frio. e o esquecimento no fundo. se salvava.

. Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e. Se você conseguir. sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber um abraço. um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras. por não prestarem atenção nesses sinais.. chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura. Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa.Amor Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos. mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Se você achar a pessoa maravilhosamente linda. perceba: existe algo mágico entre vocês. fique alerta: pode ser a pessoa que você esta esperando desde o dia em que nasceu. em pensamento. Por isso. se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração. agradeça: Deus te mandou um presente divino . e os olhos se encherem d'água neste momento. Se você não consegue imaginar. mesmo assim. ansioso pelo encontro que está marcado para a noite.o amor. Se você preferir morrer. entregue-se: vocês foram feitos um pro outro. Se os olhares se cruzarem e. sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado. deixam o amor passar.não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o AMOR! . Ou às vezes encontram e. que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida. houver o mesmo brilho intenso entre eles. Se por algum motivo você estiver triste. preste atenção nos sinais . um sorriso... mesmo ela estando de pijamas velhos. Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida.. neste momento. um futuro sem a pessoa ao seu lado... tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela. chinelos de dedo e cabelos emaranhados... preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. se o beijo for apaixonante. se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento. Se você não consegue trabalhar direito o dia todo. Se o toque dos lábios for intenso. É uma dádiva.. de maneira nenhuma.

leitura de relâmpago cifrado. ouvida. vibrando no crepúsculo. o céu do corpo. amor: o ganho não previsto. roçando. que se torna a mais larga e mais relvosa.AMOR E SEU TEMPO Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama. salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo. Amor começa tarde. que. Amor é o que se aprende no limite. decifrado. nada mais existe valendo a pena e o preço terrestre. . É isto. depois de se arquivar toda a ciência herdada. o prêmio subterrâneo e coruscante. em cada poro.

fundido. nu úmido subterrâneo da vagina.Amor . o mel se concentraram. dissolvido. eterna? Ao delicioso toque do clitóris. já tudo se transforma. Quem ousará dizer que ele é só alma? Quem não sente no corpo a alma expandir-se até desabrochar em puro grito de orgasmo. estendidos na cama. além da prórpia vida. num instante de infinito? O corpo noutro corpo entrelaçado. arquejos. um só espasmo em nós atinge o climax: é quando o amor morre de amor. num relâmpago. Em pequenino ponto desse corpo. além de nós. que Platão viu completados: é um. como ativa abstração que se faz carne. Amor guie o meu verso. a fonte. Integração na cama ou já no cosmo? Onde termina o quarto e chega aos astros? Que força em nossos flancos nos transporta a essa extrema região.pois que é palavra essencial comece esta canção e toda a envolva. são dois em um. mas. o coito segue. agradecendo o que a um Deus acrescenta o amor terrestre. satisfeita. o fogo. perfeito em dois. etérea. sons. Vai a penetração rompendo nuvens e devassando sóis tão fulgurantes que nunca a vista humana os suportara. ais. A paz dos deuses. . volta à origem dos seres. divino. Quantas vezes morremos um no outro. menos que isto. qual estátuas vestidas de suor.Pois que é Palavra Essencial Amor . reúna alma e desejo. a idéia de gozar está gozando. e enquanto o guia. E prossegue e se espraia de tal sorte que. membro e vulva. varado de luz. E num sofrer de gozo entre palavras. Então a paz se instaura. nessa morte mais suave do que o sono: a pausa dos sentidos.

a noite dissolve os homens. A noite desceu. a noite dissolve as pátrias. nos campos desfalcidos. sem reticências. nas ruas onde se combate. completa. Que noite! Já não enxergo meus irmãos... inexperiente das luzes que vais acender e dos bens que repartirás com todos os homens.. adicinho-te que sobes. O suor é um óleo suave. Nas casas.. Minha fadiga encontrará em ti o seu termo. A noite anoiteceu tudo. E o amor não abre caminho na noite.A Noite dissolve os Homens A Portinari A noite desceu.. O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos. teus dedos frios. minha carne estremece na certeza de tua vinda. os corpos hirtos adquirem uma fluidez. Sob o úmido véu de raivas. Aurora. vapor róseo. entretanto eu te diviso.. Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros. A noite é mortal. uma inocência. O mundo não tem remédio. ainda tímida.. apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas . sem esperança. Os suicidas tinham razão.. O mundo . expulsando a treva noturna. um perdão simples e macio. que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório. diz que é inutil sofrer. a noite espalhou o medo e a total incomprensão. as mãos dos sobreviventes se enlaçam. Havemos de amanhecer. queixas e humilhações. E nem tampouco os rumores que outrora me perturbavam. Tremenda. A noite caiu.

se tinge com as tintas da antemanhã e o sangue que escorre é doce. aurora. de tão necessário para colorir tuas pálidas faces. .

vou descobrindo o que me deste sem saber que o davas. sua face oculta de si mesmo. e tão meus eles se tornaram. nele implícito e reticente. mas teu sangue bole em meu sangue e sem saber te vivo em mim e sem saber vou copiando tuas imprevistas maneiras. e furtando-me a iniciativa. vou te compreendendo. filtra de um homem. meu ladrão. mais do que isso: teu fremente modo de ser. teu duende mal encarnado. pois sou teu vaso e transcendência. roubaste-me o espírito. Acabei descobrindo tudo que teus papéis não confessaram nem a memória de família transmitiu como fato histórico e agora te conheço mais do que a mim próprio me conheço. Refaço os gestos que o retrato não pode ter. somente de esmerilar em teu retrato o que a pacatez de um retrato ou o seu vago negativo. enclausurado entre ferros de conveniência ou aranhóis de burguesia.Antepassado Só te conheço de retrato. . aqueles gestos que ficaram em ti à espera de tardia repetição. impulso primitivo. não te conheço de verdade. mas ficaram dentro de ti cozinhadas em lenha surda. paixão insone e mais trevosas intenções que jamais assumiram ato nem mesmo sombra de palavra. tão aderentes ao meu ser que suponho tu os copiaste de mim antes que eu os fizesse. na líquida transmissão de taras e dons.

sugere estâncias.. e não há oito contos. pense uma rosa na pura ausência. Vêde o caule. no amplo vazio. pois jamais virão pedir-me. não. Vinde. beijai a rosa. qual mais fragrante. Aproveitem. é cruel existir em tempo assim filaucioso. Por preço tão vil mas peça. Injusto padecer exílio. A última rosa desfolha-se.Anúncio da Rosa Imenso trabalho nos custa a flor. como direi. (in A Rosa do Povo) . Selarei. quem sou? Deus me ajudara. diz que te amam. todas exóticas. oferecer-vos alta mercância estelar e sofrer vossa irrisão. olhai o cálice. pequenas cólicas cotidianas. meu comércio incompreendido. rosa tão meiga onde abrirá? Não. Rosa na roda. rosa na máquina. Ó fim do parnasiano. sou eu. Uma só pétala resume auroras e pontilhismos. Autor da rosa. aurilavrada. Primavera não há mais doce. Já não vejo amadores de rosa. todas histórias. ela é sete flores. vinde. cavalheiros. a burguesia apodrece. filtre a paisagem. traço indeciso. começo da era difícil. eu sei. o que de melhor se compôs na noite. sede permeáveis. não me revelo. venda murcha. todas catárticas. mas ele é neutro. e mesmo duvido que em outro mundo alguém se curve. todas patéticas. Por menos de oito contos vendê-la? Nunca. apenas rósea.

seu convite é um prazer ferido a fogo e. muito mais prazer. mordente fome de conhecimento pelo gozo. Procura o estreio átrio do cubículo aonde não chega a luz. Amor não é completo se não sabe coisas que só amor pode inventar. . porta a que se bate suavemente.A outra porta do prazer A outra porta do prazer. e chega o ardor de insofrida. com isso.

Mais ardente. Nada exige nem pede. Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante. mas pobre de esperança. e por estas suplanta a natureza. não de cultivo alheio ou de presença. Nada espera. Por aquelas mergulha no infinito. a antigo amor. mas do destino vão nega a sentença. Ele venceu a dor. feitas de sofrimento e de beleza. e resplandece no seu canto obscuro. nunca fenece e a cada dia surge mais amante. O amor antigo tem raízes fundas. .Ao amor antigo O amor antigo vive de si mesmo. tanto mais velho quanto mais amor. porém. Mais triste? Não.

é como aprender. De ser o seu cadáver itinerante. Os códigos. ISS. ou nem estar. Senhor. no pedestre dia-a-dia. os tratados internacionais encolhem o rabo diante dele. Namorado é o ser fora do tempo. nossa doação. que audiovisual nenhum ensina. renovados. afiando sem pausa a sua foice. destino que regula nossa dor. INPS. só escutam melodia e paisagem de sua própria fabricação? Cegos. saber alguma coisa. assistência técnica para eu falar aos namorados do Brasil. De estar. inovantes. as multas envergonham-se de alvejá-lo. Mas nascem todo dia namorados novos.felizes! . IOF. Senhor. Será que namorado escuta alguém? Adianta falar a namorados? E será que tenho coisas a dizer-lhes que eles não saibam. O tempo.são os namorados enquanto namorados. . sob pena de viver apenas na aparência. desarmados. nosso inferno gozoso. como exercer a arte de namorar. e ninguém ganha ou perde esta batalha. PASEP. Antes. mudos . atenção: cumpra sua obrigação de namorar. espera que o namorado desnamore para sempre. Senhor. perdem os ouvidos para toda melodia e só vêem. O problema. surdos. eles que transformam a sabedoria universal em divino esquecimento? Adianta-lhes. E quem vive. Mas quem foi namorado sabe que outra vez voltará á sublime invalidez que é signo de perfeição interior. as guerras. De não ser. em volta dele. Pois namorar é destino dos humanos. depois são gente como a gente.Aos Namorados do Brasil Dai-me. retrocedem de sua porta. fora de obrigação e CPF. quando perdem os olhos para toda paisagem.

Ser duplicado. dia-dos-namorados. sem sentir que aprendeu. o carro à toda ou a 80. outros que são infiéis à namorada. ou nem assim. Só a mulher (como explicar?) entende certas coisas que não são para entender. fulgurante no simples manifestar-se. Pois namorar não é só juntar duas atrações no velho estilo ou no moderno estilo. piscina. Quem aprendeu não ensina. não merece namorar. são estrelas remotíssimas. A mulher antes e depois da Bíblia é pois enciclopédia natural ciência infusa.e vai além de toda universidade. Pobre de quem não aprendeu direito. não intencional. triste de quem não merecia. caminhadas. para ficar durando. jantares. infensa a testes. Quem ensina não sabe. gravações. ser complexo. Há homens que se cansam depressa de namorar. murmúrios. ai de quem nunca estará maduro para aprender. rápido motel onde os espelhos não guardam beijo e alma de ninguém. O homem nasce ignorante. perdurando. São outras. nunca previsto. e dá ao gesto a cor do amanhecer. fora de qualquer sistema ou situação. não depende de estado ou condição. Há que aprender com as mulheres as finezas finíssimas do namoro. foto colorida. às vezes morre três vezes ignorante de seu coração e da maneira de usá-lo. . chegado o momento. Elas aspiram o segredo do mundo. Namorar é além do beijo e da sintaxe. a namorada não são aquelas mesmas criaturas com que cruzamos na rua. lancha. fins de semana. Namorar é o sentido absoluto que se esconde no gesto muito simples. filme adoidado. que em si mesmo se mira e se desdobra. som de cristal na concha ou no infinito. com arrepios. inconsciente. vive ignorante. E o namorado só aprende. o namorado. por obra e graça de sua namorada. silêncios. São para aspirar como essência.

" Ou senão: "Desiste! Foge! Esquece! Esquece!" E os fracos esquecem.. E inauguram cada manhã (namoramor) o velho. que os persegue. tenta cobrar (inveja) o terrível imposto de passagem: "Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer! Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada na sola dos sapatos. Os tímidos desistem. . Que importa? A cada hora nascem outros namorados para a novidade da antiga experiência.. velho mundo renovado. Fogem os covardes.A limitação terrestre.

dentro da qual vivêssemos todos em comunhão. Que resumiria o mundo e o substituiria. mudos.A palavra Já não quero dicionários consultados em vão. Mais sol do que o sol. . saboreando-a. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar.

se não a encontro.A palavra mágica Certa palavra dorme na sombra de um livro raro. Como desencantá-la? É a senha da vida a senha do mundo. procuro sempre. Vou procurá-la. e minha procura ficará sendo minha palavra. Vou procurá-la a vida inteira no mundo todo. não desanimo. Se tarda o encontro. . Procuro sempre.

. convicto. e nosso final descanso de camurça.. Aperto. mesma voz. o quê? a massa de ar em que te converteste e beijo. Tua visita ardente me desola. e aquele mesmo longo arquejo em que te esvaías de prazer.Aparição amorosa Doce fantasma. puro som. apenas uma esmola. Tua visita. por que me visitas como em outros tempos nossos corpos se visitavam? Tua transparência roça-me a pele. beijo intensamente o nada. Amado ser destruído. Então. . suave? Nunca pensei que os mortos o mesmo ardor tivessem de outros dias e no-lo transmitissem com chupadas de fogo aceso e gelo matizados. doçura. querida ausente. ouço teu nome. a perseguir-me. Ouço-te a voz. convida a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca um beijo recebeu de rosto consumido. e nossa história invenção de livro soletrado sob pestanas sonolentas. por que voltas e és tão real assim tão ilusório? Já nem distingo mais se és sombra ou sombra sempre foste. Mas insistes. mesmas leves sílabas. mesmo timbre. Terei um dia conhecido teu vero corpo como hoje o sei de enlaçar o vapor como se enlaça uma idéia platônica no espaço? O desejo perdura em ti que já não és. única parte de ti que não se dissolve e continua existindo. Tua visita ardente me consola.

em estado de dicionário. se obscuros. Convive com teus poemas. é algo imprestável. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. não invoques. Penetra surdamente no reino das palavras. . as palavras. Teu iate de marfim. Que se dissipou. Não colhas no chão o poema que se perdeu. teu sapato de diamante. Não te aborreças. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. não indagues. Não adules o poema. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não dramatizes. antes de escrevê-los. Não percas tempo em mentir. Ainda úmidas e impregnadas de sono. vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo.A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objecto. se te provocam. mas não há desespero. Chega mais perto e contempla as palavras. vossas mazurcas e abusões. Ei-los sós e mudos. há calma e frescura na superfície intacta. cristal não era. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Estão paralisados. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. não era poesia. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Calma. Que se partiu. Tem paciência. pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. sem interesse pela resposta. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.

Àporo Um inseto cava cava sem alarme perfurando a terra sem achar escape. Que fazer. . uma orquídea forma-se. enlace de noite raiz e minério? Eis que o labirinto (oh razão. mistério) presto se desata: em verde. antieuclidiana. exausto. sozinha. em país bloqueado.

O que pensas e sentes. Tua gota de bile. completo e confortável corpo. Não faças poesia com o corpo. isso ainda não é poesia. a vida é um sol estático não aquece nem ilumina As afinidades. os incidentes pessoais não contam. não invoques. não indagues. tua careta de gozo ou de dor no escuro. Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Não cantes tua cidade. fadiga e esperança nada significam A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto Não dramatizes. vossos esqueletos de família. os aniversários. desaparecem na curva do tempo. que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. são indiferentes Nem me reveles teus sentimentos. Não percas tempo em mentir Não te aborreças Teu iate de marfim. chuve e noite. deixa-a em paz.A Procura da Poesia Não faças versos sobre acontecimentos. tão infenso à efusão lírica. vossas mazurcas e abusões. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo ds casas. esse excelente. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação . teu sapato de diamante. Para ele. Não há criação nem morte perante a poesia Diante dela. é algo imprestável.

se obscuros. Convive com teus poemas. elas se refugiaram na noite. Calma. Penetra surdamente no reino das palavras. Estão paralisados. não era poesia Que se partiu. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Tem paciência. mas não há desespero há calma e frescura ma superfície intata Ei-los sós e mudos. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Aceita-o.Que se dissipou. como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. antes de escrevê-los. . cristal não era. sem interesse pela resposta pobre ou terrível. Ainda úmida e impregnadas de sono. em estado de dicionário. Chega mais parto e contempla as palavras cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. Não adules o poema. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. se te provocam. as palavras. que lhe deres: Touxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito.

Na Rua de Baixo onde é proibido passar. A fornecedora. e quer saber. querendo a puta. Ela arreganha dentes largos de longe. A puta da cidade. É preciso crescer esta noite a noite inteira sem parar de crescer e querer a puta que não sabe o gosto do desejo do menino o gosto menino que nem o menino sabe. chupante boca de mina amanteigada quente.A puta Quero conhecer a puta. . A única. Na mata do cabelo se abre toda. Onde o ar é vidro ardendo e labaredas torram a língua de quem disser: Eu quero a puta quero a puta quero a puta. A puta quente.

E que houvesse. de mau gosto. os gestos.Posso dar opinião? As senhoras casadas não perdem a condição feminina.Acha então que estou maluco? . que eu não quero saber de minha mulher revelar seu encanto a ninguém.Que ele é gentil. e pode até realçá-la por uma graça experiente.Aquilo que o dicionário chama de ente de razão. . e adivinho que não há nada senão. Não há rosas nos consultórios de oftalmologia.Como assim? . ela me disse que foi o oculista que deu a ela. eu tenho que achar muito natural.Senão o quê? .Nada. e que não vai bem com uma senhora casada. um ar desembaraçado que ela não tinha. mas não me agrada a sua evolução.Ultimamente. . dizendo que eu sou um bruto. Fixou-me suspeitoso: . ele deu. . O pior é que não deve ter sido o oculista. .Que é que está insinuando? . . . um rinoceronte.. o marido me honra com suas confidências: . . . uma rosa dada por um homem.Eu ignoro tudo..É a moda. .Perdão. . os gestos? . Ora. uma fantasia completamente destituída de razão. .Já sei. . ela achou bonita. Estava num vaso. .Aquele casal Aquele casal.Que é que tem as maneiras.Pois eu não vou nessa gentileza de oculista. a Elsa anda um pouco estranha. Não sei o que é.Que é que tem trazer uma flor para casa? . Ficou com os movimentos mais leves.A Elsa parece uma menina de quinze anos.Desde quando é proibido uma senhora ganhar flor de uma pessoa atenciosa? Que sentido erótico tem isso? .Tem muito.Pois fique com suas teorias. . eu. apenas. A mulher casada desabrochou. .Se fosse só o figurino.Pode ser o que você quiser.Desculpar de quê? . Acha direito? .E a flor que ela trouxe ontem para a casa é sonho? Me diga: é sonho? . não tente negar o significado das ordens florais entre dois sexos.Deu para usar estampados berrantes.E daí? . . pode revelar melhor o encanto natural da personalidade. O oculista não podia dar essa flor.Veio do oculista e trouxe uma rosa.Acho que está sonhando coisas. não é mais um projeto. .De tudo que ela vem fazendo. Principalmente se é rosa. e eu não devo achar ruim. Tem propósito uma coisa dessas? Ela acabou chorando.Então uma senhora casada vai ao oculista e o oculista lhe dá uma rosa? Que lhe parece? . nem ela podia aceitar. Não há desfrute em seguir o figurino.. ela que era tão discreta no vestir. São as maneiras.. Engraçado. . . Minha mulher vem com uma rosa para casa.Eu apertei.Por que não? .Deixe Dona Elsa ser elegante. Estava querendo desculpar a Elsa. porém minha mulher jamais se permitiu esses desfrutes.

Pensei que você fosse meu amigo.Não vai ter prova nenhuma. Ponho a mão no fogo por Dona Elsa. . e disse aquilo só para fazer charminho. juro. Mas repare só que os olhos de Capitu que ela tem. são a evidência. .Discorda sem argumentos. os modos (só vendo a maneira dela se sentar no sofá). sorri.Não diga uma coisa dessas. reunidas.. . Fiz mal em me abrir. Cada uma dessas coisas é um indício.Permita que eu discorde. . . Estou decidido. Demora mais tempo no espelho. Contrato um detetive. quando chegar aqui uma corbelha de antúrios e hibiscos.Digo o que penso. foi para preparar terreno. Numa cidade do tamanho do Rio. A Elsa não é mais a Elsa. Se fez agora.Sei lá. E logo que tenha a prova. posso saber quem deu uma rosa a minha mulher? . Estou inteiramente lúcido. a rosa. .Ela nunca fez isso. .Vai ver que ela comprou na loja de flores da esquina. que ela foi correndo levar para a mesinha de cabeceira do quarto. me desquito. Depois. Fica olhando um ponto no espaço. 79.Vou segui-la daqui por diante. . Repare no encadeamento: os vestidos modernos. só me conduzo pelo raciocínio.A quê? . eu nunca havia reparado nisso! Esquecia-me de dizer que meu amigo tem 82 anos. então? .Quem foi. Vamos mudar de assunto que ela vem chegando. e Dona Elsa. . abstrata.

Os vizinhos não se conformam. Eles não sabem que a vida tem dessas exigências brutas. a luz da solda autógena e o cimento escorrendo nas formas. . Só minha filha goza o espetáculo e se diverte com os andaimes.A rua diferente Na minha rua estão cortando árvores botando trilhos construindo casas. Minha rua acordou mudada.

. nossas maneiras de amar. revel à condição de carne e alma.Aspiração Tão imperfeitas. todo fora de nós mesmos? O absoluto amor. o ápice de perfeição. e só o amor governe todo além. Quando alcançaremos o limite. nunca mais viver duas vidas em uma. que é nunca mais morrer.

A TORRE SEM DEGRAUS
No térreo se arrastam possuidores de ciosas recoisificadas. No 1.° andar vivem depositários de pequenas convicções, mirando-as, remirando-as com lentes de contato. No 2.° andar vivem negadores de pequenas convicções, pequeninos eles mesmos. No 3.° andar - tlás tlás - anoite cria morcegos. No 4.°, no 7.°, vivem amorosos sem amor, desamorando. No 5.°, alguém semeou de pregos dentes de feras vacos de espelho a pista encerada para o baile de debutantes de 1848. No 6.°, rumina-se política na certeza-esperança de que a ordem precisa mudar deve mudar há de mudar, contanto que não se mova um alfinete para isso. No 8.°, ao abandono, 255 cartas registradas não abertas selam o mistério da expedição dizimada por índios Anfika. No 9.°, cochilam filósofos observados por apoftegmas que não chegam a conclusão plausível. Mo 10.°, o rei instala seu gabinete secreto e esconde a coroa de crisógrasos na terrina. No 11.°, moram (namoram?) virgens contidas em cinto de castidades. No 12.°, o aquário de peixes fosforecentes ilumina do teto a poltrona de um cego de nascença. Atenção, 13.°. Do 24.° baixará às 23h um pelotão para ocupar-te e flitar a bomba suja, de que te dizes depositário. No 15.°, o último leitor de Dante, o último de Cervantes, o último de Musil, o último do Diário Oficial dizem adeus à palavra impressa. No 16.°, agricultores protestam contra a fusão de sementes que faz nascerem cereais invertidos e o milho produzir crianças. No 17.°, preparam-se orações de sapiência, tratados internacionais, bulas de antibióticos. Não se sabe o que aconteceu ao 18.°, suprimido da Torre. No 19.° profetas do Antigo Testamento conferem profecias no computador analógico. No 20.°, Cacex Otan Emfa Joc Juc Fronap FBI Usaid Cafesp Alalc Eximbanc trocam de letras, viram Xfp, Jjs, IxxU e que sei mais. Mo 22;°, banqueiros incineram duplicatas vencidas, e das cinzas nascem novas duplicatas. NO 23.°, celebra-se o rito do boi manso, que de tão manso ganhou biograifa e auréola. No 24.°, vide 13.°. No 25.°, que fazes tu, morcego do 3.°? que fazes tu, miss adormecida na passarela? No 26.°., nossas sombras despregadas dos corpos passseiam devagar, cumprimentandose. O 27.° é uma clínica de nervosos dirigida por general-médico reformado, e em que aos sábados todos se curam para adoecer de novo na segunda-feira. Do 28.° saem boatos de revolução e cruzam com outros de contra-revolução. Impróprio a qualquer uso que não seja o prazer, o 29.° foi declarado inabitável. Excesso de lotação no 30.°: moradores só podem usar um olho, uma perna, meias palavras. No 31.°, a Lei afia seu arsenal de espadas inofensivas, e magistrados cobrem-se com cinzas de ovelhas sacrificadas. No 32.°, a Guerra dos 100 Anos continua objeto de análise acuradíssima. No 33.°, um homem pede pra ser crucificado e não lhe prestam atenção. No 34.°, um ladrão sem ter o que roubar rouba o seu próprio relógio. No 35.°, queixam-se da monotonia deste poema e esquecem-se da monotonia da Torre e das queixas.

Um mosquito é, no 36.°, único sobrevivente do que foi outrora residência movimentada com jantares óperas pavões. No 37.°, a canção Filorela amarlina lousileno i flanura meleglírio omoldana plunigiário olanin. No 38.°, o parlamento sem voz, admitido por todos os regimes, exercita-se na mímica de orações. No 39.°, a celebração ecumênica dos anjos da luz e dos anjos da treva, sob a presidência de um meirinho surdo. No 40.°, só há uma porta uma porta uma porta. Que se abre para o 41.°, deixando passar esqueletos algemados e coduzidos por fiscais do Imposto de Consciência. No 42.°, goteiras formam um lago onde bóiam ninféias, e ninfetas executam bailados quentes. No 43.°, no 44.°, no... continua indefinidamente).

Atriz

A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas. Professorinha pobre de Piraçununga Cleópatra e Antígona Maria Stuart Mary Tyrone Marta de Albee Margarida Gauthier e Alma Winemiller Hannah Jelkes a solteirona a velha senhora Clara Zahanassian adorável Júlia outras muitas, modernas e futuras irreveladas. Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo e um mendigo esperando infinitamente Godot. Era principalmente a voz de martelo sensível martelando e doendo e descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo de sombra a verdade de cada um nos mitos cênicos. Era uma pessoa e era um teatro. Morrem mil Cacildas em Cacilda.

Aula de Português

A linguagem na ponta da língua tão fácil de falar e de entender. A linguagem na superfície estrelada de letras, sabe lá o que ela quer dizer? Professor Carlos Góis, ele é quem sabe, e vai desmatando o amazonas de minha ignorância. Figuras de gramática, equipáticas, atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me. Já esqueci a língua em que comia, em que pedia para ir lá fora, em que levava e dava pontapé, a língua, breve língua entrecortada do namoro com a prima. O português são dois; o outro, mistério.

A um bruxo, com amor
Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te; e me recebes na sala trajestada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro. Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada, uma luz que não vem de parte alguma pois todos os castiçais estão apagados. Contas a meia voz maneiras de amar e de compor os ministérios e deitá-los abaixo, entre malinas e bruxelas. Conheces a fundo a geologia moral dos Lobo Neves e essa espécie de olhos derramados que não foram feitos para ciumentos. E ficas mirando o ratinho meio cadáver com a polida, minuciosa curiosidade de quem saboreia por tabela o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador. Olhas para a guerra, o murro, a facada como para uma simples quebra da monotonia universal e tens no rosto antigo uma expressão a que não acho nome certo (das sensações do mundo a mais sutil): volúpia do aborrecimento? ou, grande lascivo, do nada? O vento que rola do Silvestre leva o diálogo, e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco, tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná, mostra que os homens morreram. A terra está nua deles. Contudo, em longe recanto, a ramagem começa a sussurar alguma coisa que não se estende logo a parece a canção das manhãs novas. Bem a distingo, ronda clara: É Flora, com olhos dotados de um mover particular ente mavioso e pensativo; Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa); Virgília, cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida; Mariana, que os tem redondos e namorados; e Sancha, de olhos intimativos;

e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora, o mar que fala a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina e das chinelinhas de alcova de Conceição. A todas decifrastes íris e braços e delas disseste a razão última e refolhada moça, flor mulher flor canção de mulher nova... E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe) o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica entre loucos que riem de ser loucos e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram. O eflúvio da manhã, quem o pede ao crepúsculo da tarde? Uma presença, o clarineta, vai pé ante pé procurar o remédio, mas haverá remédio para existir senão existir? E, para os dias mais ásperos, além da cocaína moral dos bons livros? Que crime cometemos além de viver e porventura o de amar não se sabe a quem, mas amar? Todos os cemitérios se parecem, e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida apalpa o mármore da verdade, a descobrir a fenda necessária; onde o diabo joga dama com o destino, estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro, que resolves em mim tantos enigmas. Um som remoto e brando rompe em meio a embriões e ruínas, eternas exéquias e aleluias eternas, e chega ao despistamento de teu pencenê. O estribeiro Oblivion bate à porta e chama ao espetáculo promovido para divertir o planeta Saturno. Dás volta à chave, envolves-te na capa, e qual novo Ariel, sem mais resposta, sais pela janela, dissolves-te no ar.

As Sem-Razões do Amor

Eu te amo porque te amo, Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga. Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor.

Actriz
A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas. Professorinha pobre de Piraçununga Cleópatra e Antígona Maria Stuart Mary Tyrone Marta de Albee Margarida Gauthier e Alma Winemiller Hannah Jelkes a solteirona a velha senhora Clara Zahanassian adorável Júlia outras muitas, modernas e futuras irreveladas. Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo e um mendigo esperando infinitamente Godot. Era principalmente a voz de martelo sensível martelando e doendo e descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo de sombra a verdade de cada um nos mitos cénicos. Era uma pessoa e era um teatro. Morrem mil Cacildas em Cacilda.

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo, sem consulta, sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora. Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada? Tenho razão de sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mão, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança. Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da ternura e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar por que o fizeste, porque te foste.

Aurora
O poeta ia bêbedo no bonde. O dia nascia atrás dos quintais. As pensões alegres dormiam tristíssimas. As casas também iam bêbedas. Tudo era irreparável. Ninguém sabia que o mundo ia acabar (apenas uma criança percebeu mas ficou calada), que o mundo ia acabar às 7 e 45. Últimos pensamentos! últimos telegramas! José, que colocava pronomes, Helena, que amava os homens, Sebastião, que se arruinava, Artur, que não dizia nada, embarcam para a eternidade. O poeta está bêbedo, mas escuta um apelo na aurora: Vamos todos dançar entre o bonde e a árvore? Entre o bonde e a árvore dançai, meus irmãos! Embora sem música dançai, meus irmãos! Os filhos estão nascendo com tamanha espontaneidade. Como é maravilhoso o amor (o amor e outros produtos). Dançai, meus irmãos! A morte virá depois como um sacramento.

Ausência
"... Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim."

A verdade dividida
A porta da verdade estava aberta mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade porque a meia pessoa que entrava só conseguia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia os seus fogos. Era dividida em duas metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. E era preciso optar. Cada um optou confere seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

A Vida Passada a Limpo

Itabira do Mato Dentro - MG - 1902 * - * - 1987 Ó esplêndida lua, debruçada sobre Joaquim Nabuco, 81. Tu não banhas apenas a fachada e o quarto de dormir, prenda comum. Baixas a um vago em mim, onde nenhum halo humano ou divino fez pousada, e me penetras, lâmina de Ogum, e sou uma lagoa iluminada. Tudo branco, no tempo. Que limpeza nos resíduos e vozes e na cor que era sinistra, e agora, flor surpresa, já não destila mágoa nem furor: fruto de aceitação da natureza, essa alvura de morte lembra amor.

. Na porta da catacumba encontrei-te novamente. Pulei muro de convento mas complicações políticas nos levaram à guilhotina.Balada do amor através das idades Eu te gosto. você me gosta desde tempos imemoriais Eu era grego. herói da Paramount. Depois (tempos mais amenos) fui cortesão de Versalhes.. Saí do cavalo de pau para matar seu irmão. eu.. rema. fria. Você é uma loura notável. dança. Virei soldado romano. Matei. como reagia! São palavras só: quente. Mas quando ia te pegar e te fazer minha escrava. Você cismou de ser freira. brigamos.. flagelo da Tripolitânia. boxo. pulo. Me suicidei também. beijo e casamos. boxa. remo. Tenho saudade de uma dama Tenho saudade de uma dama Como jamais houve na cama Outra igual. mas não Helena. Provocada. perseguidor de cristãos. Seu pai é que não faz gosto. tenho dinheiro no banco. dei um pulo desesperado. Mas quando vi você nua caída na areia do circo e o leão que vinha vindo. morremos. você fez o sinal da cruz e rasgou o peito a punhal. e mais terna amante. Não era sequer provocante. te abraço. Mas depois de mil peripécias. espirituoso e devasso. Hoje sou moço moderno. Toquei fogo na fragata onde você se escondia da fúria do meu bergatim. e o leão comeu nós dois. você troiana troiana. pula. . Depois fui pirata mouro. danço.

enjoada. As amadas torcem-se de gozo. Os médicos estão fazendo a autópsia dos desiludidos que se mataram.No banheiro nos enroscávamos. Eram flamas no preto favo. com isso. . sem tripas. Oh quanta matéria para os jornais Desiludidos mas fotografados escreveram cartas explicativas tomaram todas as providências para o remorso das amadas. tu ficas. Vísceras imensas. tripas sentimentais e um estômago cheio de poesia. Que grandes corações eles possuíam. Eu vou. um matar-morrer.. mordente fome de conhecimento pelo gozo Necrologia dos desiludidos de amor Os desiludidos do amor estão desfechando no peito. mas nos veremos seja no claro céu ou turvo inferno. porta a que se bate suavemente.. A outra porta do prazer A outra porta do prazer. procura o estreito átrio do cubículo aonde não chega a luz. Tenho saudade de uma dama Que me passeava na medula E atomizava os pés da cama. sobre a tumba deles. Pun pum pum adeus. e chega o ardor da insofrida. e. sem amor. Um guaiar. Do meu quarto ouço a fuzilaria. violento. Os desiludidos seguem iludidos sem coração. os seus dentes de ouro não servirão de lastro financeiro e cobertos de terra perderão o brilho enquanto as amadas dançarão um samba bravo. Agora vamos para o cemitério levar os corpos dos desiludidos encaixotados competentemente (paixões de primeira e de Segunda classe). Única fortuna. muito mais prazer Amor não é completo se não se sabe coisas que só o amor pode inventar. seu convite é um prazer ferido a fago.

Beijo-flor O beijo é flor no canteiro ou desejo na boca? Tanto beijo nascendo e colhido na calma do jardim nenhum beijo beijado (como beijar o beijo?) na boca das meninas e é lá que eles estão suspensos invisíveis .

Bela esta manhã ou outra possível.Bela esta manhã sem carência de mito. Vontade de cantar. e mel sorvido sem blasfêmia. na sombra. esta vida ou outra invenção. repleto. fantasmas. Bela a passagem do corpo. . que me engole. sua fusão no corpo geral do mundo. curvos pensamentos. Mas tão absoluta que me calo. Valvas. Umidade de areia adere ao pé. matizes da luz azul completa sobre formas constituídas. sem. engulo o mar.

Novos poesmas. .Bibliografia em poesia. Brejo das Almas . Fazendeiro do ar. Poesia errante. Boitempo. A mesa. Reunião. Paixão Medida Farewell. Claro enigma. Menino Antigo( Boitempo II) . Esquecer para lembrar ( Boitempo III). Viola de bolso. José. Viola de bolso II. Sentimento do Mundo. Nudez. Versiprosas. Ciclo. Soneto da buquinagem. Corpo. A rosa do povo. Amar se Aprende Amando. Alguma Poesia . O amor natural.

Se vier com arranhão recuso. menino. Agora não. filhinho meu.Biblioteca verde Papai. não quero defeito. o burro de carga vai levando tamanho universo. me compra agora. queima a perna. Nossa Senhora. Fica quieto. Agora quero ver figuras. O irmão reclama: apaga a luz. . menino. Dorme. Compra. Todas. Como te devoro.. Medusa. fino caixote de alumínio e pinho. Meu filho. tão fraquinho. Careço ler tudo. que bom passar a mão no som da percalina. Vai dormir. Me mande urgente sua Biblioteca bem acondicionada. Olha que eu tomo e rasgo essa Biblioteca antes que peque fogo na casa. A mãe se queixa. tem disso tudo nos livros? Depressa.) Ninguém mais aqui possui a colecção das Obras Célebres. esse cristal de fluída transparência: verde. eu vou comprar. só 24 volumes. poemas me vejo viver. medievo. eu cresço logo. Vénus nua. Em filosofias tropeço e caio. em cavalarias me perco. compra. as letras. Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel. me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres São só 24 volumes encadernados em percalina verde. (Orgulho. Tenho de ler tudo. Agora não.. Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro. Apolo nu. mata de pinheiros toda verde. Quando crescer eu compro. Está bem. Mas leio. compra. cretino! Espermacete1 cai na cama. o sono. já sabe: quero devolução de meu dinheiro. não: inveja de mim mesmo. antes que eu perca a paciência e te dê uma sova. Antes de ler. cavalgo de novo meu verde livro. pai. Templo de Tebas. Papai. Não dorme este menino. é livro demais para uma criançaCompra assim mesmo. Osíris. Chega cheirando a papel novo. verde. Coronel. em contos. É em percalina verde. Termina o ramal. ordens são ordens. Sou o mais rico menino destas redondezas. Amanhã começo a ler.

O que saberei. Ou antes carruagem de fugir de mim e me trazer de volta à casa a qualquer hora num fechar de páginas? Tudo o que sei é ela que me ensina. o que não saberei nunca. está na Biblioteca em verde murmúrio de flauta-percalina eternamente.verde pastagem. 1) espermacete: material de que se fazem as velas .

bem sabes disto. doce boca (não provarei). cabem todos os abismos. Boca: se meu desejo é impotente para fechar-te.Boca Boca: nunca te beijarei. ris sem beijo para mim. Boca amarga pois impossível. beijas outro com seriedade. zombas de minha raiva inútil. no milímetro que nos separa. Boca de outro que ris de mim. .

escultura da noite. O gado é que anoitece e na luz que a vidraça da casa fazendeira derrama no curral surge multiplicada sua estátua de sal. no mugido da vaca separada da cria. . A sombra vem nos cascos. Amanhece na roça de modo diferente. morno esguicho das tetas e o dia é um pasto azul que o gado reconquista.Boitempo Entardece na roça de modo diferente. No gado é que dormimos e nele que acordamos. A luz chega no leite. Os chifres delimitam o sono privativo de cada rês e tecem de curva em curva a ilha do sono universal.

um sentimento. Enxergue minha alma enquanto traduzo seus sonhos e deixe que a gente flutue bem juntos em uma só energia. mas com carinho. Olhe nos meus olhos bem fundo enquanto eu te olho no fundo dos seus olhos. em um apenas. Dois seres. . nem você. uma alma única. uma dança. Vamos dançar juntos como se voássemos em uma nuvem exclusiva toda nossa. E enquanto dançamos. Somos nós dois. eu te beijo e você me beija e a essa altura já não sou eu. dois corpos.Bolero Segure minha mão com firmeza.

Poesia sobre os princípios e os vagos dons do universo: em teu regaço incestuoso. morte secreta . no banquete das musas Poesia. poesia. se nenhum pão te equivale: a mosca deglute a aranha. Poesia.. marulho e náusea. Poesia. comida estranha. o belo câncer do verso. poesia. que recomeças de outro mundo. e o que é perdido se salva. poesia.. reintegra a essência do poeta. sobre o telúrio. noutra vida Deixaste-nos mais famintos. canção suicida.Brinde.

brinquedo desenganado mas eficiente? Tenho de inventar o meu brinquedo. pluma. e fácil. mola saltando no meu íntimo. sangue e riso dele. irônica. E excogito: Que brinquedo inventar para o adulto. que cada um invente o seu brinquedo. . pétala. me oferece. fluida.Brinquedos para homens Embora eu seja adulto. alegria gerada por mim mesmo. Sem o pedir às máquinas e aos deuses. não me seduzem os brinquedos eletrônicos que a moda. privativo dele.

bundífoda bundamor bundamor bundamor bundamor. . bunda além do irreal arquibunda selada em pauta de hermetismo opalescente bun incandescente bun meigo favo escondido em tufos tenebrosos a que não chega o enxofre da lascívia e onde a global palidez de zonas hiperbóreas concentra a música incessante do girabundo cósmico. Bundaril bundilim bunda mais do que bunda bunda mutante/renovante que ao número acrescenta uma nova harmonia.Bundamel Bundalis Bundacor Bundamor Bundamel Bundalis Bundacor Bundamor bundalei bundalor bundanil bundapão bunda de mil versões. bunda em al bunda lunar e sol bundarrabil Bunda maga e plural. Vai seguindo e cantando e envolvendo de espasmo o arco de triunfo. a ponte de suspiros a torre de suicídio. a morte do Arpoador bunditálix. pluribunda unibunda bunda em flor.

Pois que tenho um amor. há que amar diferente.Campo de flores Deus me deu um amor no tempo de madureza. talvez. que se armou em coágulo. e a um e outro agradeço. Hoje tenho um amor e me faço espaçoso para arrecadar as alfaias de muitos amantes desgovernados. Era tempo de terra. Deus me deu um amor porque o mereci. Deus .ou foi talvez o Diabo . Mas sou cada vez mais. Mas. Amanhecem de novo as antigas manhãs que não vivi jamais. E o tempo que levou uma rosa indecisa a tirar sua cor dessas chamas extintas era o tempo rriais justo. no mundo.deu-me este amor maduro. um sistema de erros. pois que tenho um amor. mas sou. porque me tocou um amor crepuscular. ou triunfantes e ao vê-los amorosos e transidos em torno. Enquanto a outra acaricia os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura e o mistério que além faz os seres preciosos à visáo extasiada. De tantos que já tive ou tiveram em mim. Seu grão de angústia amor já me oferece na mão esquerda. o sagrado terror converto em jubilação. De uma grave paciência . Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra imensa e contraída como letra no muro e só hoje presente. pois jamais me sorriram. Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso e talhado em penumbra sou e não sou. quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme. eu que não me sabia e cansado de mim julgava que era o mundo um vácuo atormentado. o sumo se espremeu para fazer um vinho ou foi sangue. Onde não há jardim. as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis. volto aos mitos pretéritos e outros acrescento aos que amor já criou.

.ladrilhar minhas mãos. Para fora do tempo arrasto meus despojos e estou vivo na luz que baixa e me confunde. E talvez a ironia tenha dilacerado a melhor doação. Há que amar e calar.

todas as mães se reconheçam. No jeito mais natural dois carinhos se procuram. nossas vidas formam um só diamante. Minha vida. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. e que fale como dois olhos.Canção Amiga Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça. Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças . eu vejo e saúdo velhos amigos. Se não me vêem. Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri. Caminho por uma rua que passa em muitos países.

Era a sombra de meu bem que morreu há tanto tempo. me disse adeus com a cabeça e saiu. Uma sombra veio vindo. me consolou. fiquei triste sem querer. Me abraçou com tanto amor me apertou com tanto fogo me beijou.. Depois riu devagarinho. . Fechou a porta. Ouvi seus passos na escada. Depois mais nada. acabou.. me abraçou.Cantiga de viúvo A noite caiu na minh'alma. veio vindo.

Vontade de cantar. curvos pensamentos. repleto. Valvas. esta vida ou outra invenção. . matizes da luz azul completa sobre formas constituídas. na sombra.Canto Esponjoso Bela esta manhã sem carência de mito. sem. fantasmas. Bela esta manhã ou outra possível. que me engole. Bela a passagem do corpo. sua fusão no corpo geral do mundo. E mel sorvido sem blasfémia. Umidade de areia adere ao pé. Engulo o mar. Mas tão absoluta que me calo.

Agora. como seiva -. Rio-tato-vista-gosto-risco-vertigem Rio-antúrio Rio das quatro lagoas de quatro túneis irmãos Rio em ã Maracanã . II Rio.não são imagens exangues como perfume na fronha . como pupila do gato risca o topázio no escuro. Rio que te vais passando a mar de estórias e sonhos e em teu constante janeiro corres pela nossa vida como sangue. essencial. Os que te amamos sentimos e não sabemos cantar: o que é sombra do Silvestre sol da Urca dengue flamingo mitos da Tijuca de Alencar.Canto do Rio em Sol Guanabara. que te fitamos nos olhos. nome sussurrante. seio. Teu frêmito é teu encanto (sem decreto) capital. a sigla rara dos tempos do verbo mar. saia clara estufando em redondel: que é carne. agora sim és Estado de graça.. que é terra e alísio em teu crisol? Nunca vi terra tão gente nem gente tão florival. braço de a-mar: em teu nome. Guanabara. e que neles pressentimos o ser telúrico. condado real..

pág. mágico.emudeceram as aldeias gentílicas? A Festa das Canoas dispersou-se? Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José pastoreando os fiéis da várzea? Soou o toque do Aragão sobre a cidade? Não não não não não não não Rio. 1985. . dás uma cabriola. teu acordar.Rio de Janeiro. milhão de coisas luminosardentissuavimariposas: como te explicar à luz da Constituição? III Irajá Pavuna Ilha do Gato -.Sacopenapã Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho de amorzinho benzinho dá-se um jeitinho do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda como quem do alto do Morro Cara de Cão chama pelos tamoios errantes em suas pirogas Rio. José Olympio Editora . Neste poema Carlos Drummond de Andrade demonstra todo seu amor pela cidade do Rio de Janeiro. Texto extraído do livro "Nova Reunião". teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos. Rio novo a cada menino que nasce a cada casamento a cada namorado que te descobre enquanto rio-rindo. um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo o tempo que humaniza e jovializa as cidades. 388. assistes ao pobre fluir dos homens e de suas glórias pré-fabricadas.

pesadíssima)..Cariocas Como vai ser este verão. que gracinha de esqueleto revelas sob teu vestido preto! Os costureiros são radiologistas? Sou eu que dou uma de futurólogo? Translúcidas pedidas advogo: tudo nu na consciência... pois nessa sinuca superlota-se a Barra da Tijuca (até que alguém se lembre de duplicar a Barra. O Posto Vinte. as vísceras também ficam à mostra? Meu amor. sem paredes as casas e os governos. tudo claro. engole ruins aranhas do Brasil. o busto altivo. tu deliras? Até logo. chega-se ao Leblon e já nem rimo.. que aumenta o chão pisável. Caçá-los e exportá-los prejudica os nossos canaviais. fundamento de nova criatura? Carlos. ele. olha o broto. Fogem banhistas para o Posto Seis. Ai. deixa de vãs filosofias. com a praia.. olha aí. Ah. a terra pouca. querida. Somos hoje mais vastos? mais humanos? Que draga nos vai dar a areia pura. olha a serena arquitetura feminina em cena pelas ruas do Rio de Janeiro que não é rio. .. aumentada/ diminuída? A draga. sem que aumente a própria dimensão interior. A transparência vai além: os ossos. Invade-se Ipanema hippie e festiva. é um oceano inteiro de (a) mo (r) cidade. olha as esguias pernas. Carlos. a começar na blusa transparente e a terminar. gentil. Repara como tudo está pra frente. estranho creme de areia e lama oferta ao velho Leme. Pobre do ser vivo. Regressa ao cotidiano: um professor reclama para os sapos mais amor. esse dragão. a frente é interminável. o tamanho natural das coisas estava errado! O mar era excessivo.

onde floriram a Rosa Azul e a Rosa Samba. uma rosa é um rosal. indago. Viram que novidade? Rosas de verdade. o Rio? A Roselândia vamos e aspiremos o fino olor de flor em cor e albor. ou cheira mal o terreno baldio. (Conservo no remorso um sapo antigo assassinado a pedra. a Roselândia. e me disperso em quadrada emoção diante da rosa.medonhos escorpiões: o sapo papa paca. a rua. de seqüestro e bomba? . com cheiro e tudo quanto se resume no festival enlevo do perfume? Busco em vão neste Rio um roseiral. pulo muros: qual! A flor é de papel.) Depressa. pois inda existe flor. e flor que zomba desse fero contexto de metralhadora. e me castigo a remoer sua emplastada imagem. Um rosa te dou. no mais. em vez de um verso. tem a doçura de uma vaca embutida no verde da paisagem.

ela iria contando que vou bem. O que ontem disparava. que se vai. Vai-se tornando o tempo estranhamente longo à medida que encurta. uma última invenção (inda não é perfeita) faz ler nos corações. Perfurando os obscuros canais de argila e sombra. hoje se paralisa em esfinge de mármore. e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente. as mesmas. apenas.Carta Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas. e espero uma resposta mas que não tarde: e peço um objeto minúsculo só para dar prazer e quem pode ofertá-lo. Rápido é o sono. e até o sono. desbordado alazão. . as chuvas já secaram. o sono que era grato e era absurdo é um dormir acordado numa planície grave. mas todos esperamos rever-nso bem depressa. de mandar notícias amorosas quando não há amor a dar ou receber. diria ela do tempo que faz do nosso lado. não. triviais. quando só há lembrança. as crianças estudam. Muito depressa. embora estremecessem a um toque de paixão.

e não vale acordar quem acaso repousa na colina sem árvores. Contudo. está é uma carta. nada. em mim mais do que em tudo. pó. nada de nada em tudo.ainda menos. . menos ainda.

. me deixou com vosso berço. Disfarcemos. me pediu que lhe pedisse. nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas. dava carro. mas a dona não ligou. E ficou tão transtornado. fazenda. se afastou de toda vida. beberia seu sobejo. Nossa mãe. naquele prego? Minhas filhas. Nossa mãe. Nossa mãe. chorou no prato de carne. Eu não amo teu marido. mas o corpo ficou frio e não o veste. me falou ela se rindo. boca presa.Caso do vestido Nossa mãe. esse segredo! Minhas filhas. Dava apólice. sossegado. nesse prego.. Nossa mãe. Minhas filhas. Minhas filhas. foi para a dona de longe. Então vosso pai. bebeu. me bateu. irado. lamberia seu sapato. Era uma dona de longe. brigou. dava ouro. está morto. . esse vestido tanta renda. escutai palavras de minha boca. vosso pai enamorou-se. dizei depressa que vestido é esse vestido. se perdeu tanto de nós. Passou quando. Mas a dona nem ligou. que tivesse paciência e fosse dormir com ele. é o vestido de uma dona que passou. E lhe roguei que aplacasse de meu marido a vontade. vosso pai chega ao pátio. não escutamos pisar de pé no degrau. o que é aquele vestido. Vosso pai evém chegando. O vestido. procurei aquela mulher do demo. a essa dona tão perversa. se fechou. Em vão o pai implorou. se devorou. Minhas filhas. po que chorais? Nosso lenço vos cedemos.

só pra lhe satisfazer. não quero homem. me atirei no sumidouro. fiz doce. que não sei onde ele anda. minha corrente de ouro pagou conta de farmácia. perdi meus dentes. me cortei de canivete. O seu vestido de renda. minhas mãos se escalavraram. Olhei para vosso pai. Eu não tinha amor ele. me disse baixinho. passei ponte. ao depois amor pegou. pobre. os olhos dele pediam. visitei vossos parentes. os olhos dela gozavam. Fiquei fora de perigo. Saí pensando na morte. tive uma febre terçã. mofina. O mundo é grande e pequeno. costurei. me lancei na correnteza. não te dou vosso marido. Eu fiz meu pelo-sinal. Um dia a dona soberba me apareceu já sem nada. Mas então ele enjoado confessou que só gostava de mim como eu era dantes. da maior humilhação. me curvei. Me joguei a suas plantas. não falava. Dona. passei rio. disse que sim. Andei pelas cinco ruas.. meus anéis se dispersaram. Vosso pai sumiu no mundo. não por mim. mas a morte não chegava. mas a morte não chegava. no chão rocei minha cara. lavei. . de colo mui devassado. me puxei pelos cabelos. última peça de luxo que guardei como lembrança daquele dia de cobra.. meus olhos. fiquei de cabeça branca. com sua trouxa na mão. fiz toda sorte de dengo. desfeita.Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto. Mas te dou este vestido. não comia. mais mostrava que escondia as partes da pecadora. Olhei para a dona ruim.

limpou o suor. Aqui trago minha roupa que recorda meu malfeito de ofender dona casada pisando no seu orgulho. me acalentava. Olhei para a cara dela. dona. O barulho da comida na boca. Eu fiz. Peguei o vestido. era sempre o mesmo homem. Olhou pra mim em silêncio.. Minhas filhas. Ela se foi de mansinho e já na ponta da estrada vosso pai aparecia. quede os olhos cintilantes? quede graça de sorriso.. me dava uma grande paz. rezei duzentas novenas. comia meio de lado e nem estava mais velho. quede colo de camélia? quede aquela cinturinha delgada como jeitosa? quede pezinhos calçados com sandálias de cetim? Olhei muito para ela. nem nada. comeu. pus nesse prego da parede. vestido não há. põe mais um prato na mesa. mal reparou no vestido e disse apenas : Mulher. boca não disse palavra. ele se assentou.bebi fel e gasolina. um sentimento esquisito de que tudo foi um sonho. Recebei esse vestido e me dai vosso perdão. . de nada valeu: vosso marido sumiu. eis que ouço vosso pai subindo a escada.

Entretanto são palavras simples: definem partes do corpo. . Estritamente reservadas para companheiros de confiança.Certas palavras Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer. movimentos. atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos E tudo proibido. devem ser sacralmente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança. falamos. Então.

Cidadezinha Qualquer Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar. Um cachorro vai devagar. Eta vida besta. Um homem vai devagar... meu Deus. Um burro vai devagar. . Devagar.as janelas olham.

passos na areia. A superfície jaz tranquila.Como encarar a morte De longe Quatro bem-te-vis levam nos bicos o batel de ouro e lápis-lazúli. Sem vista Singular. não a figura. se merece nome de corpo o gás de um estado indefinível. Apresenta-se. se não viu a não ser em sonho? Mas insones tornamos a vê-lo e um vago arrepio vara a mais íntima pele do homem. Seu interior mostra-se aberto. treva implícita na claridade? Quem ousa dizer o que viu. e os bem-te-vis. e todo ferrão de desejo. De lado Sente-se já. já esquecidos de perpassar. e pousando-o sobre uma acácia cantam o canto costumeiro. De dentro Agora não se esconde mais. avançando e deixando ver um certo cógifo de sandálias. dormem no espaço. mas eis que falta curiosidade. À meia distância Claridade infusa na sombra. sentir não sentindo ou sentimento inexpresso . pés incertos. O barco lá fica banhado de brisa aveludada. Promete riquezas. açúcar. prêmios. como saber que nos procura o viajante sem identidade? Algum ponto em nós se recusa. corpo inteiro. Salvo orsto ou contorno explícito.

só o não saber que afinal se sabe e. Nem viajar nem estar quedo em lugar algum do mundo. mais sabido. em vaso coberto de resina e lótus e sons. mais se ignora. .de si mesmo.

este couro de anta. sem mulheres e sem horizontes. tive fazendas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. Hoje sou funcionário público. E o hábito de sofrer.. este orgulho. que me paralisa o trabalho vem de Itabira. orgulhoso: de ferro. Tive ouro. Por isso sou triste.. Oitenta por cento de ferro nas almas. Noventa por cento d ferro nas calças. De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval.Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira Principalmente. A vontade de amar. estendido no sofá da sala de visitas. que tanto me diverte. de suas noites brancas. É doce herança itabirana. Mas como dói! . esta cabeça baixa. nasci em Itabira. tive gado. Itabira é apenas uma fotografia na parede.

contudo próximo. (Cego é talvez quem esconde os olhos embaixo do catre.) E na meia-luz tesouros fanam-se. Dei sem dar e beijei sem beijo. Só proferi algumas palavras. Do que restou. melodiosas. Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido – que se esfacelou na asa do avião. os mais excelentes. entrega. amor e piedade? Não amei bastante sequer a mim mesmo. como compor um homem e tudo que ele implica de suave. ao voltar da festa. Não amei ninguém. não catei o verme nem curei a sarna.Confissão Não amei bastante meu semelhante. de concordâncias vegetais. . murmúrios de riso. tarde.

feita de breu. "Deixa-me entrar . o pouso é teu. .Confronto Bateu Amor à porta da Loucura. Mais que ninguém mereces habitar minha casa infernal. mas estarrece de surpresa ao vê-lo. sem destino. de humano que era. E exclama: "Entra correndo. pois não sei de mais triste desatino que este mal sem perdão. sabento quanto Amor vive de engano. o mal de amar. .sou teu irmão. Só tu me limparás da lama escura a que me conduziu minha paixão".pediu . assim tão inumano. . enquanto me retiro. A Loucura desdenha recebê-lo." .

o medo das igrejas. que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. dos mares. Cantaremos o medo. cantaremos o medo dos ditadores. que esteriliza os abraços. .Congresso Internacional do Medo Provisoriamente não cantaremos o amor. existe apenas o medo. o medo das mães. o medo dos democratas. depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. não cantaremos o ódio porque este não existe. dos desertos. nosso pai e nosso companheiro. o medo grande dos sertões. o medo dos soldados. cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo. Se por algum motivo você estiver triste..Conselhos de um velho apaixonado Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos. em pensamento. fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu... chorar as suas Lágrimas e enxugá-las com ternura.... Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa pessoa. e os olhos se encherem d’água neste momento. chinelos de dedo e cabelos emaranhados... mesmo que seja em pensamento.. ansioso pelo encontro que está marcado para a noite... Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e. se o beijo for apaixonante... entregue-se: vocês foram feitos um pro outro. tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela. É o livre-arbítrio. mesmo ela estando de pijamas velhos.. antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida.. de maneira nenhuma. mesmo assim. se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento. muitíssimo. Se você não consegue imaginar.. Se você conseguir. (Assim seja !!!) . um futuro sem a pessoa ao seu lado. preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.. receber um abraço. Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e. Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR !!! ame muito. perceba: existe algo mágico entre vocês. preste atenção nos sinais. neste momento. Se os olhares se cruzarem e. que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.. por não prestarem atenção nesses sinais. Se o toque dos lábios for intenso.. se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração. Se você achar a pessoa maravilhosamente linda. agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR. sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado.em troca. Às vezes encontram e.. um sorriso. Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida. sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras. Beija alguém de quem gostas quando receberes esta mensagem. Se você preferir fechar os olhos. houver o mesmo brilho intenso entre eles. Por isso. mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. deixam amor passar.

perdido embora. não rocha apenas. nas principiantes rugas. são puras. indevassáveis. sentir que há ecos. Rimarei com a palavra carne ou qualquer outra. a rua. Maiakovski. secretas. Poeta do finito e da matéria. Essa viagem é mortal. Que Neruda me dê sua gravata chamejante. Ser explosivo. Ele é tão baixo que sequer o escuta ouvido rente ao chão. boiando em tempos sujos. O beijo ainda é um sinal. últimos! esperança do mar negro. da ausência de comércio. Me perco em Apollinaire. mas cristal. e aves de bico longo conferindo sua derrota. Estes poetas são meus. se beijam. Mas é tão alto que as pedras o absorvem. – Há mortos? há mercados? há doenças? É tudo meu. Adeus. As palavras não nascem amarradas. não são jornais nem deslizar de lancha entre camélias: é toda a minha vida que joguei. São todos meus irmãos. Uma pedra no meio do caminho ou apenas um rastro. Saber que há tudo. elas saltam. Eis aí meu canto. É qualquer homem ao meio-dia em qualquer praça. E mover-se em meio a milhões e milhões de formas raras. Na parede infiltrou-se. duras. e começa-la. É a lanterna em qualquer estalagem. . Está na mesa aberta em livros. peixes circulando sob o navio que leva esta mensagem. sim. Bebo em Murilo. Furto a Vinicius sua mais límpida elegia. Dar tudo pela presença dos longínquos. sem frágeis lágrimas. se dissolvem. se ainda as há. no céu livre por vezes um desenho. De todo o orgulho. poucos. sem fronteiras. boca tão seca. cartas e remédios. cantor sem piedade. Estes poemas são meus. autênticas. largas. de toda a precisão se incorporam ao fatal meu lado esquerdo. e dois ou três faróis.Consideração do poema Não rimarei a palavra sono com a incorrespondente palavra outono. mas ardor tão casto. É minha terra e é ainda mais do que ela. que todas me convêm. não importa. O bonde. por que falsa mesquinhez me rasgaria? Que se depositem os beijos na face branca.

tão firme. como orvalho entre dedos. tão natural e cheio de segredos. e cresces como fogo. te atravessa. são ondas de carinho te envolvendo. e te desejo e te perco. meu poema.o uniforme de colégio se transformam. Como fugir ao mínimo objeto ou recusar-se ao grande? Os temas passam. Tal uma lâmina. tão fiel. como casa. mas tu resistes. me faço tão sublime. estou completo.. Já agora te sigo a toda parte. me destino. eu sei que passarão.. na grama. . que repousam. o povo.

Tudo somado. Mas. nas águas. no vento. navio. Mas tens um cão. nunca cicatrizam. não chores. Perdeste o melhor amigo. Mas a vida não se perdeu.Consolo na Praia Vamos. meu filho. devias precipitar-te. Mas virão outros. em voz mansa. Mas o coração continua.. De "Amar se Aprende Amando" . Não tentaste qualquer viagem.. e o humour? A injustiça não se resolve. A mocidade está perdida. Estás nu na areia.. O primeiro amor passou. A infância está perdida. Não possuis casa. Algumas palavras duras. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. O segundo amor passou. Nunca. Dorme.. te golpearam. terra. de vez. O terceiro amor passou.

Cota Zero Stop A vida parou ou foi o automóvel? .

tua escrava nova. a porta apenas cerrada pode te contar conto que não queres saber.Cuidado A porta cerrada não abras. Pode ser que encontres o que não buscavas nem esperavas. Descuidosa. teu dono-marido. Na escuridão pode ser que esbarres no casal em pé tentando se amar apressadamente. . Pode ser que a vela que trazes na mão te revele. trêmula.

nosso pasto de sonho e cisma: ele não te pertence mais. amargo. se retesa e contempla a morte com a mesma forte lucidez de quem soube enfrentar a vida. soluçante. teu verso em que Amor. teu verso em que deslizam sombras que de fantasmas se tornaram nossas amigas sorridentes. .Declaração a Manuel Teu verso límpido. teu seco. hoje é nossa comum riqueza. liberto de todo sentimento falso. delicioso verso de alumbramentos sábios e nostalgias abissais.

Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão. Flor flor flor.Declaração de amor Minha flor minha flor minha flor. Daliabegônia minha. Meu cimbídio. Minha peônia. Forsitiaíris tuliparrosa minhas. Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte. Ah. Minha gérbera. Rododendro e crisântemo e junquilho meus. Floranêmona. Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro. Florazálea. Minha clívia. Meu ciclâmen. Calceolária minha. Amor-mais-que-perfeito. Minha hortensegerânea. meu nenúfar. Clematite minha. Floramarílis. Macieira-minha-do-japão. Minha urze.. Catléia delfínio estrelítzia. Violeta. . Meu cravo-pessoal-de-defunto..

E a boca liberta das funções poéticosofístico-dramáticas .. A serra mecânica não tritura amor.) Resovin! Hecolite! Nomes de países? Fantasmas femininos? Nunca: dentaduras.. engenhos modernos. a boca romântica?. a serra mecânica. os delirantes lábios apenas entreabertos num sorriso técnico. (Coroas sem reino. E todos os dentes extraídos sem dor. Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. a boca que beija. jamais possuída. a vida habitável: a boca mordendo. e a língua especiosa através dos dentes buscando outra língua. sempre desejada. práticos. os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura.. afinal sossegada. dentadura múltipla.. higiênicos...Dentaduras Duplas A Onestaldo de Pennafort Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos. que acabará com o tédio da boca.

Dentaduras alvas. serei casto. não vos aplicando na deleitação convulsa de uma carne triste em que tantas vezes me eu perdi.de que rezam filmes e velhos autores. mastigando lestas e indiferentes a carne da vida! (in Sentimento do Mundo) . vosso riso largo me consolará não sei quantas fomes ferozes. Largas dentaduras. admiráveis presas. Não sei quantas fomes jamais compensadas. Desfibrarei convosco doces alimentos. sóbrio. secretas no fundo de mim. Dentaduras duplas: dai-me enfim a calma que Bilac não teve para envelhecer. antes amarelas e por que não cromadas e por que não de âmbar? de âmbar! de âmbar! feéricas dentaduras.

É alta.Levava pouco dinheiro na bolsa. ao caixeiro. não perde a esperança. 48.Desaparecimento de Luísa Porto Pede-se a quem souber do paradeiro de Luísa Porto avise sua residência à Rua Santos Óleos. viúva pobre. a qualquer do povo e da classe média. Previna urgente solitária mãe enferma entrevada há longos anos erma de seus cuidados. Procurem. Mãe entrevada chamando. até mesmo aos senhores ricos. de 37 anos. magra. morena. dentes alvos. (Procurem Luísa. religiosa. trabalhadora.Se. todavia. Suplica-se ao repórter-amador. . Sumida há três meses.) Namorado isso não tinha. Óculos.) Faz tanta falta. que tenham pena de mãe aflita e lhe restituam a filha volatilizada ou pelo menos dêem informações.Roga-se ao povo caritativo desta cidade que tome em consideração um caso de família digno de simpatia especial. não a encontrarem nem por isso deixem de procurar com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa e talvez encontrem. (Procurem. levemente estrábica. meiga. que escreva. Luísa é de bom gênio. que mande dizer onde está.) De ordinário não se demorava. rosto penugento. Vestidinho simples. Sua melhor amiga. que apareça. correta. Luísa ia pouco à cidade e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada. ao mata-mosquitos. Foi fazer compras na feira da praça. Pede-se a quem avistar Luísa Porto. depois da mãe enferma. ao transeunte. sinal de nascença junto ao olho esquerdo. (Procurem Luísa. Não voltou. Mãe.

Não há gratificação maior do que o sorriso de mãe em festa e a paz íntima conseqüente às boas e desinteressadas ações. percam um pouco de tempo indagando.Pela última vez e em nome de Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia procurem a moça. O que não deixa de ser esquisito. Não se arrependerão. Tampouco foi vítima de desastre que a polícia ignora e os jornais não deram. A mãe de Luísa. a paralisia. leu no Diário Mercantil. Ela não se matou. a pobreza.é Rita Santana. O santo lume da fé ardeu sempre em sua alma que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.Somem tantas pessoas anualmente numa cidade como o Rio de Janeiro que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada. não tinha namorado. a qual não dá notícia nenhuma. na vida. sumiu o próprio chefe de polícia que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio e até hoje.Não me venham dizer que Luísa suicidou-se. Mal sabia ela que o casamento curto. moça desimpedida. então jovem. Procurem-na. limitando-se a responder: Não sei. Esqueçam a luta política. filial e do próximo. a viuvez. puro orvalho de alma. ficou pasma.Nada de insinuações quanto à moça casta e que não tinha. Uma vez. inquirindo. afável posto que estrábica. costureira. . remexendo. em 1898 ou 9. seu lote e que sua única filha. Está viva para consolo de uma entrevada e triunfo geral do amor materno. o queixume seriam. ponham de lado preocupações comerciais. O jornal embrulhado na memória. se diluiria sem explicação. procurem essa que se chama Luísa Porto e é sem namorado.

erguerá a enferma.Mas se acharem que a sorte dos povos é mais importante e que não devemos atentar nas dores individuais. não faz mal. Já não interessa a descrição do corpo nem esta. Não tem telefone. para que demore tanto. terremoto. e os membros perclusos já se desatam em forma de busca. A mãe de Luísa (somos pecadores) sabe-se indigna de tamanha graça. chegada de rei. virem a página: Deus terá compaixão da abandonada e da ausente. disfarces de realidade mais intensa e que anúncio algum proverá. ou ontem.Algo de extraordinário terá acontecido. E de pensar realizamos. espontânea ou trazida por mão benigna. Tem uma empregada velha que apanha o recado e tomará providências. E resta a espera. Sim. canção. Já não adianta procurar minha querida filha Luísa que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo . as ruas mudaram de rumo. beija-a e fecha-a para sempre em teu coração. a cólica.A qualquer hora do dia ou da noite quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos. Mas há de voltar.Ou talvez não seja preciso esse favor divino. Deus lhe dirá: Vai. insultem a mãe de Luísa. que sempre é um dom. fotografia. rádios. Cessem pesquisas. Calma de flores abrindo no canteiro azul onde desabrocham seios e uma forma de virgem intata nos tempos. ou pode ser. calai-vos. perdoem. a lágrima. se fecharem ouvidos a este apelo de campainha. procura tua filha. E de sentir compreendemos. é noite. o olhar desviado e terno. os extraviados um dia regressam ou nunca. Quer apenas sua filhinha que numa tarde remota de Cachoeiro acabou de nascer e cheira a leite.

(Em Reunião . enquanto sofro e sofrendo me solto e me recomponho e torno a viver e ando.1969) . está inerte cravada no centro da estrela invisível Amor.com inúteis pés fixados.

nem jamais e adeus. Rir como criança Ouvir canto de passarinho Sarar de resfriado Escrever um poema de Amor Que nunca será rasgado Formar um par ideal Tomar banho de cachoeira Pegar um bronzeado legal Aprender um nova canção Esperar alguém na estação Queijo com goiabada Pôr-do-Sol na roça Uma festa Um violão Uma seresta Recordar um amor antigo Ter um ombro sempre amigo Bater palmas de alegria Uma tarde amena Calçar um velho chinelo .Desejos Desejo a você Fruto do mato Cheiro de jardim Namoro no portão Domingo sem chuva Segunda sem mau humor Sábado com seu amor Filme do Carlitos Chope com amigos Crônica de Rubem Braga Viver sem inimigos Filme antigo na TV Ter uma pessoa especial E que ela goste de você Música de Tom com letra de Chico Frango caipira em pensão do interior Ouvir uma palavra amável Ter uma surpresa agradável Ver a Banda passar Noite de lua Cheia Rever uma velha amizade Ter fé em Deus Não Ter que ouvir a palavra não Nem nunca.

Sentar numa velha poltrona Tocar violão para alguém Ouvir a chuva no telhado Vinho branco Bolero de Ravel E muito carinho meu. .

. Um se beija no outro. refletido. e como o que era mundo volve a nada. mas o existido continua a doer eternamente. assim a cobra se imprime na lembrança de seu trilho. deixaram de existir. Ninguém. Nada.Destruição Os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se vêem. E eles quedam mordidos para sempre. puro fantasma que os passeia de leve. Dois amantes que são? Dois inimigos. Amor. Amantes são meninos estragados pelo mimo de amar: e não percebem quanto se pulverizam no enlaçar-se.

Deus e suas criaturas Quem morre vai descansar na paz de Deus. Seus prêmios chegam tarde. Deus é assim: cruel. condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte. como entendê-lo? Ele também não entende suas criaturas. misericordioso. Deus. Quem vive é arrastado pela guerra de Deus. em forma imperceptível. . duplo.

A solidão de Deus é incomparável. Outra fonte não tem a tristeza do homem. Domingo descobri que Deus é triste pela semana afora e além do tempo. A tristeza de Deus é como Deus: eterna. Deus não está diante de Deus.Deus triste Deus é triste. Deus criou triste. . Está sempre em si mesmo e cobre tudo tristinfinitamente.

podre favela. o objeto estão espostos e escondidos ao mesmo tempo so a luz. o colchão atirado ao vento. tão vivas hoje como então. o lugar.Diante das Fotos de Evandro Teixeira A pessoa. e dois olhos não ão bastantes para captar o que se oculta no rápido florir de um gesto. Fotografia . a lodosa. . É preciso que a lente mágica enriqueça a visão humana e do real de cada coisa um mais seco real extraia para que penetremos fundo no puro enigma das figuras. o mendigo de Nova York a moça em flor no Jóquei Clube. mais queimante do que as fotos acusadoras.é o codinome da mais aguda percepção que a nós mesmos nos vai mostrando e da evanescência de tudo. pois são fotos. que nos resta mais positivo. a lembrar como a exorcizar? Marcas de enchente e do despejo. Fotografia: arma de amor. cristal do tempo no papel. edifica uma penanência. mães-de-santo na praia-templo de Ipanema. a dama estranha de Ouro Preto. o cadáver inseputável. a dor da América Latina. Das luas de rua no Rio em 68. de justiça e conhecimento. dança de dois destinos. mitos não são. Garrincha e nureyev.

a surpreender a tormentosa vida do homem e a esperança a brotar das cinzas.pelas sete partes do mundo a viajar. ( in "Amar se aprende amando") .

como uma flor. Todo o saber. Pois o amor resgata a pobreza. perdão de erros. vence o tédio.Diante de uma criança Como fazer feliz meu filho? Não há receitas para tal. bombons. todo o meu brilho de vaidoso intelectual vacila ante a interrogação gravada em mim. Mas que fazer para consolo desta criança? Como em seu íntimo acender uma fagulha de confiança? Eis que acode meu coração e oferece. ilumina o dia e instaura em nossa natureza . prêmios. conforme a lei do esquecimento? Submeter-se à sua vontade sem ponderar. e dizer-lhe que estamos quites. a doçura desta lição: dar a meu filho meu amor. sem paz e sem arrimo. concedidas sem reticências? Liberdade alheia a limites. fartas mesadas. Bola. amargamente? Não é feliz. alma vazia. impressa no ar. milhões de coisas desejadas. louvores. sem julgamento. sem discutir? Dar-lhe tudo aquilo que há de entontecer um grão-vizir? E se depois de tanto mimo que o atraia. complacências. patinação talvez bastem para encantar? Imprevistas. ele se sente pobre.

.a imperecível alegria.

adunca pescaria. na pressa. A pobreza da terra era maior entre os metais que a rua misturava a feios corpos.Domicílio Itabira do Mato Dentro . duvidosos.* .1987 . O apartamento abria janelas para o mundo.MG . E de terraço em solitude os ecos refluíam e cada exílio em muitos se tornava e outra cidade fora da cidade na garra de um anzol ia subindo. amor sem uso.1902 * .. . Crianças vinham colher na maresia essas notícias da vida por viver ou da inconsciente saudade de nós mesmos. problema de existir. mal difuso..

Pois tudo enfim se liberta de ferros forjados no ar. (in As Impurezas do Branco) . na distância que vai de alguém a si mesmo? Vive tudo. O tempo é. para sempre. Aconteceu há mil anos? Continua acontecendo. mas sem ânsia de estar amando e estar preso. Tudo morto. Nos mais desbotados panos estou me lendo e relendo. A alma sorri. já bem perto da raiz mesma do ser.Duração O tempo era bom? Não era. A hera da antiga era roreja incansavelmente.

e agora? Se você gritasse. o riso não veio. se você gemesse. Você que faz versos.E agora. mas o mar secou. não existe porta. sua gula e jejum. José. seu ódio.e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta. se você tocasse. o bonde não veio. o dia não veio. José E agora. sua biblioteca. seu instante de febre. está sem discurso. que zomba dos outros. José? Sua doce palavra. José? E agora. . quer morrer no mar. . a noite esfriou. quer ir para Minas. cuspir já não pode. a noite esfriou. a luz apagou. o povo sumiu. já não pode beber. que ama. José? e agora. Minas não há mais. José? Está sem mulher. Você? Você que é sem nome. sua lavra de ouro. e agora. já não pode fumar. não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. sua incoerência. protesta? e agora. se você dormisse. está sem carinho. seu terno de vidro. e agora. José? A festa acabou. a valsa vienense.

sem parede nua para se encostar. José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato.. Mas você não morre. você marcha. para onde? . José! José..se você cansasse. sem cavalo preto que fuja do galope. você é duro. se você morresse.. sem teogonia.

absorve num ranger monótono substância humana. Entretanto há muito se acabaram os homens ficaram apenas tristes moradores.. uivar. o mundo murchava e brotava a cada espiral de abraço. desamar. vinha a noite. II A vida secreta da chave. ..Edifício Esplendor I Na areia da praia Oscar risca o projeto. Goiás. morder. Há um retrato na parede. um espinho no coração uma fruta sobre o piano e um vento marítimo com cheiro de peixe. em momentos de carne lassa. Os corpos se unem e bruscamente se separam. viagens. tristeza.. Salta o edifício da areia da praia No cimento. O copo de uísque e o blue destilam ópios de emergência. O elevador sem ternura expele. nem traço da pena dos homens. certo remorso de Goiás. As famílias se fecham em células estanques.. E vinha mesmo. sub-reptício. Era bom amar. a extinta pureza. desesperar era bom mentir e sofrer Que importa a chuva no mar? a chuva no mundo? o fogo? Os pés andando. que importa? Os móveis riam.

Era lenta. talvez nuas. IV As complicadas instalações do gás. de água. também convite à morte. que será do corpo? Meu único corpo. o corpo. retrato. não me lembro. de ar. embalei. o terraço onde as camisas tremem. de bege. anjos da guarda. calcei com borracha. chora. o pavor do caixão em pé no elevador. cobri com chapéu. como depois descobrimos. Vai crescer a tua barba neste medonho edifício de onde surge tua infância como um copo de veneno. Ah. tratei? . bodoques e grandes tachos de doce e grandes cismas de amor. branca. que eu vesti de negro. de branco. de carne. III Oh que saudades não tenho de minha casa paterna. O estupendo banheiro de mil cores árabes. aquele que eu fiz de leite. meu corpo.O retrato cofiava o bigode. onde o corpo esmorece na lascívia frouxa da dissolução prévia. úteis para suicídio. E tinha também fantasmas. calma. mortos sem extrema-unção. Chora. tinha vastos corredores e nas suas trintas portas trinta crioulas sorrindo. cerquei de defesas.

Todos os mortos presentes. A chuva caiu vinte anos.Que século. Alberto. a brisa pousava.. de madrugada. E começavam a roer o edifício. Meu pai. As dívidas amontoavam-se. meu avô.Meu coitado corpo tão desamparado entre nuvens. Fumar ou beber: proibido Os mortos olham e calam-se. meu Deus! Diziam os ratos. neste aéreo living! V Os tapetes envelheciam pisados por outros pés. Doce. Já não acendem a luz com suas mãos entrevadas. ventos. Surgiram costumes loucos e mesmo outros sentimentos. Nas cortinas.. . A vida jogada fora voltava pelas janelas. Do cassino subiam músicas e até o rumor de fichas. O retrato descoloria-se. . era superfície neutra.

num suspiro. O inverno é quente em mim. distraída. De tantas perdas uma clara via por certo se abriria de mim a mim. me sentia tão rico deste dia e lá se foi secreto. ao serro frio. que o estou berçando. ao liso ouvido gotejante de uma piscina que não sabe o tempo. e as enguias à loca se recolhem. e o frio ao frio em bruma se entrelaça. chega de lamento e versos ditos ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça. Dia. se estou perdido antes de haver nascido e me nasci votado à perda de frutos que não tenho nem colhia? Gastei meu dia. ao ouvido do muro. E baixa a coisa fria também chamada noite. Nele me perdi. e fia seu tapete de água. que a notícia de perdidos lá não chegue nem açule os olhos policiais do amor-vigia. na água fria. E me pergunto e me respiro na fuga deste dia que era mil para mim que esperava os grandes sóis violentos. e em mim vai derretendo este torrão de sal que está chorando. Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera bem antes sua vaga pedraria? Mas quando me perdi. . E vou me recolher ao cofre de fantasmas. Não me procurem que me perdi eu mesmo como os homens se matam.Elegia Ganhei (perdi) meu dia. As árvores lá fora se meditam. Ah. estela fria.

Terra a que me inclino sob o frio de minha testa que se alonga. Meu Deus. Sou teu frio. e uma criança que o tempo novo me anuncia e nega. ou forma vã. minha terra. ao fim de março. ou se poesia. . intocáveis: em mim o que resiste são teus poros. pois que. amor em que me amaram. E sou meu próprio frio que me fecho longe do amor desabitado e líquido. Corto o frio da folha. amor. e sinto mais presente quanto aspiro em ti o fumo antigo dos parentes. me feriram sete vezes por dia. e é tão ríspido em meio aos oratórios já vazios em que a alma barroca tenta confortar-se mas só vislumbra o frio noutro frio. quem contaria? E já não sei se é jogo. nem vos dou conta de mim nem desafio as garras inefáveis: eis que assisto a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo de me tornar planície em que já pisam servos e bois e militares em serviço da sombra. fonte de eterno frio. eu essência. e teu cativo passeias brandamente como ao que vai morrer se estende a vista de espaços luminosos. me tens. minha pena deserta. em sete dias de sete vidas de ouro. e contudo viver era tão flamas na promessa dos deuses.espelho de projeto não vivido. amor. essência estranha ao vaso que me sinto. meu Deus e meu conflito. não habito vossa arquitetura imerecida.

a concepção. Coração orgulhoso. tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. fome e desejo sexual. Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que. os problemas te dispensam de morrer. sentes calor e frio. dormindo. sozinho. dinamitar a ilha de Manhattan. Ao telefone perdeste muito. e preconizam a virtude. se neblina. muitíssimo tempo de semear. o sangue-frio. a renúncia. o desemprego e a injusta distribuição porque não podes. pequenino. Aceitas a chuva. Caminhas por entre os mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.Elegia 1938 Trabalhas sem alegria para um mundo caduco. falta de dinheiro. A literatura estragou tuas melhores horas de amor. . abrem guardas chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas. onde as formas eas ações não enceram nenhum exemplo. em face de indecifráveis palmeiras. Praticas laboriosamente os gestos universais. Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe. a guerra. Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas. À noite.

que fugiu. a espelharia da Colombo mas tenho que tomar café em pé e só Ary preserva os ritos da descuidada prosa companheira Padeiros entregam a domicílio o pão quentinho da alegria o bonde leva amizades motorneiras as casas de morar deixam-se morar sem ambição de um dia se tornarem tours d’ivoire entre barracos sórdidos o rádio espalha no ar Carmem Miranda a Câmara discursa os maiôs revelam 50% mas prometem bonificações sucessivas O Brasil será redimido pelo socialismo utópico Getúlio sorri. Candinho.Elegia carioca Nesta cidade vivo há 40 anos há 40 anos vivo esta cidade a cidade me vive há 40 anos Sou testemunha cúmplice objeto triturado confuso agradecido nostálgico Onde está. Eneida. minha Avenida Rio Branco espacial verdolenga baunilhada eterna como éramos eternos entre duas guerras próximas? O Café Belas-Artes onde está? E as francesas do bar do Palace Hotel e os olhos de vermute que as despiam no crepúsculo ouro-lilás de 34? Estou rico de passarelas e vivências túneis nos morros e cá dentro multiplicam-se rumo a barras-além-da tijuca imperscrutáveis Sou todo uma engenharia em movimento já não tenho pernas: motor ligado pifado recalcitrante projeto algarismo sigla perfuração na cidade código Onde estão Rodrigo. baforando o charutão Rio diverso múltiplo desordenado sob tantos planos ordenadores desfigurados geniais ferido nas encostas . Aníbal e Manuel Otávio. em que Galeão Gastão espera o jato da Amazônia? Marco encontros que não se realizam na abolida José Olympio de Ouvidor Ficou. é certo.

ó cidade é prêmio ou pena? Já nem sei se te pranteio ou te agradeço por este jantar de luz que me ofereces e a ácida sobremesa de problemas que comigo repartes no incessante fazer-se. desfazer-se que um Rio novo molda a cada instante e a cada instante mata um Rio amantiamado há 40 anos. .poluído nas fontes e nas ondas Rio onde viver é uma promissória sempre renovada e o sol da praia paga nossas dívidas de classe média enquanto multidões penduradas nos trens elétricos desfilam interminavelmente na indistinção entre vida e morte futebol e carnaval e vão caindo pelo leito da estrada os morituros Ser um contigo.

propõe ao homem de óculos e à mulher da trouxa de roupa. pornográficos). A tarde pode ser triste e as mulheres podem doer como dói um soco no olho (pornográficos. coitados. Pensavam que o suicídio fosse a última resolução. Propõe isso a teu vizinho. Dize a todos: Meus irmãos. sobretudo pornográficos. Não compreendem.Em Face Dos Últimos Acontecimentos Oh! sejamos pornográficos (docemente pornográficos). Por que seremos mais castos que o nosso avô português? Oh! sejamos navegantes. Teus amigos estão sorrindo de tua última resolução. ao condutor do teu bonde. bandeirantes e guerreiros. não quereis ser pornográficos? (in Brejo das Almas) . que o melhor é ser pornográfico. sejamos tudo que quiserem. a todas as criaturas que são inúteis e existem.

amor. e tudo é sagrado. Cada pétala ou sépala seja lentamente acariciada.Em teu crespo jardim Em teu crespo jardim. . na flora pubescente. antes do beijo ritual. anémonas castanhas detêm a mão ansiosa: Devagar. e a vista pouse. céu. beijo abstracto.

Enigma Faço e ninguém me responde esta perguntinha à-toa: Como pode o peixe vivo morrer dentro da Lagoa? .

. suas verdades mais secretas e mais nuas. tornam amor humor.Entre o ser e as coisas Onda e amor. uma fogueira a arder no dia findo. pungindo. e vago e brando o que é de natureza corrosiva. As almas. nesse quando amanhece frescor de coisa viva. as almas vão pairando. E nem os elementos encantados sabem do amor que os punge e que é. onde amor. esquecendo a lição que já se esquiva. ando indagando ao largo vento e à rocha imperativa. e a tudo me arremesso. N'água e na pedra amor deixa gravados seus hieróglifos e mensagens. não. e.

e morto é a idade de não sentir as coisas. e a hora é calma? E se não estou mais na idade de sofrer é porque estou morto.” Há então a idade de sofrer e a de não sofrer mais por essas. essas coisas? . essas coisas? As coisas só deviam acontecer para fazer sofrer na idade própria de sofrer? Ou não se devia sofrer pelas coisas que causam sofrimento pois vieram fora de hora.Essas coisas “Você não está mais na idade de sofrer por essas coisas.

tenho pena de mim mesmo e tenho muitos outros sentimentos violentos. e de minha alta ausência em meu redor. Tenho carinho por toda perda minha na corrente que de mortos a vivos me carreia e a mortos restitui o que era deles mas em mim se guardava. e meu amor é triste como é vário. de tanto que não fui. e sendo vário é um só. A estrela-d'alva penetra longamente seu espinho (e cinco espinhos são) na minha mão. Mas se esquivam no inventário.Estrambote Melancólico Tenho saudade de mim mesmo. a esmo. Tenho horror. saudade sob aparência de remorso. (in Fazendeiro do Ar) . a sós.

neta de Horácio (poeta ele também. com alto sopro bafejai-me a lira e dai-lhe o sentimento mais profundo. o som do ameno grito melodioso e santo e grave e jovial. . um só sejam os dois. conhecida. que às esferas sublimes reconduz o ser humano. imaturos. e ardente coração). e no meu tosco verso eis refletida: o som do amor. devo cantar o amor naquele instante miraculoso. que o florentino pôs em nobre verso. Vai. sê feliz. desnorteados. o som da força cósmica. de transpassar em luz o peito amante. sinto surdir de oculta fonte o som de música celeste. O sonho em vós se cristaliza e assume o contorno sensível da existência. Só de vê-los. antigo e sempre novo. Hoje Márcia gentil. movente do sol e das estrelas. e impregna de doçura as próprias feras. musas do velho Olimpo e do moderno mundo. dramático. por seus cabelos de argêntea messe. oferta a quantos. Tenho a cumprir nobre missão de bardo. musas gregas. de tal maneira que pouse a eternidade em cada hora. dos deuses conterá a pura essência. Cada palavra e beijo que trocardes. une-se a Luís Hamilton. e teu esposo contigo de mãos dadas. Vosso himeneu. Márcia. dolente. dos astros protegido. em vão tentam seguir a rota certa.Epitalâmio Musas latinas. seja lição de bem amar. sobre-humano. tempo afora. trazendo à vida uma razão geral.

Aqui vos deixo. Aqui vossos amigos. despedem-se de vós. Eia. Tende por certo: amar se aprende amando. a caminho. (in Amar Se Aprende Amando) . os da alegria ritos celebrando.

. Saíamos alucinados. talvez no teu vestido. Os gestos falavam baixo. No Savóia nada foi roubada." Nada foi roubado no Savóia. O reservado de paredes finas Forradas de ouvidos e de línguas era antes prisão que mal cabia um desejo. os talheres. Falavam baixíssimo os copos. Nem tua virgindade: restou quase perfeita entre manchas de vinho (era vinho?) na toalha.Esta Faca "Esta faca foi roubada no Savóia" "Esta colher foi roubada no Savóia" "Este garfo. O amor falava baixo. A penugem rala na gruta rósea era quase silêncio. dois corpos... Tua pele entre cristais luzia branca. talvez no chão.

nesta vida. desde a cabeça ao bico dos sapatos.. ora vulgar ora bizarro. estranho. costume.. minha xícara. Com que inocência demito-me de ser eu que antes era e me sabia tão diverso de outros. em língua nacional ou em qualquer língua (qualquer. Meu lenço. ordens de uso. Minhas meias falam de produto que nunca experimentei mas são comunicados a meus pés. indispensabilidade. estou na moda. e fazem de mim homem-anúncio itinerante. até hoje não fumei. um nome. tão mim-mesmo. meu relógio. sentinte e solidário com outros seres diversos e conscientes de sua humana. Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca. Em minha camiseta. abuso. hábito. meu aquilo. a marca de cigarro que não fumo. todos os logotipos do mercado. gritos visuais. minha gravata e cinto e escova e pente. Agora sou anúncio. meu isso.Eu. minha toalha de banho e sabonete. invencível condição. Etiqueta Em minha calça está grudado um nome que não é meu de batismo ou de cartório. principalmente). E nisto me comprazo. açambarcando todas as marcas registradas. trocá-la por mil. letras falantes. ainda que a moda seja negar minha identidade. reincidência. premência. Estou. Meu tênis é proclama colorido de alguma coisa não provada por este provador de longa idade. meu chaveiro. tiro glória . são mensagens. escravo da matéria anunciada. É doce estar na moda. meu copo. ser pensante.

anúncio contratado. cada vinco da roupa resumia uma estética? Hoje sou costurado. mas artigo industrial. peço que meu nome retifiquem. tarifados. tão orgulhoso de ser não eu. recolocam. Já não me convém o título de homem. Não sou . não de casa. minhas idiossincrasias tão pessoais. sou gravado de forma universal. Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher. da vitrina me tiram. para vender em bares festas praias pérgulas piscinas. sou tecido. (in Corpo) .vê lá . objeto pulsante mas objeto que se oferece como signo de outros objetos estáticos. saio da estamparia. Eu é que mimosamente pago para anunciar. coisamente. cada olhar. independente. Por me ostentar assim.de minha anulação. e cada gesto. tão minhas que no rosto se espelhavam. Eu sou a coisa. que moda ou suborno algum a compromete. e bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste de ser veste e sandália de uma essência tão viva. Meu nome novo é coisa.

o mal humor vai comendo nosso fígado.... Sentiu-se só por diversas vezes? é por que fechaste a porta até para os anjos. o que importa é que sempre é possível e necessário" recomeçar"..agora é hora de reiniciar... ... ficamos horríveis.. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo..... desenhar. Sofreu muito nesse período? foi aprendizado....... Chorou muito? foi limpeza da alma...... ou aquele velho desejo de aprender a pintar. quanta coisa nova nesse mundo de meu Deus te esperando. Está se sentindo sozinho? besteira. qualquer outra coisa. é renovar as esperanças na vida e o mais importante........ dominar o computador. de pensar na luz.." Não importa onde você parou.. de encontrar prazer nas coisas simples de novo... nem nós mesmos nos suportamos.. em que momento da vida você cansou.. Olha quanto desafio. acreditar em você de novo..... Que tal um novo emprego? Uma nova profissão? Um corte de cabelo arrojado. tem tanta gente que você afastou com o seu período de isolamento tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu para "chegar" perto de você.... Ficou com raiva das pessoas? foi para perdoá-las um dia. Quando nos trancamos na tristeza.. diferente? Um novo curso.. Acreditou que tudo estava perdido? era o indício da tua melhora...."Eu hoje joguei tanta coisa fora.. Pois ..

... afinal de contas.. pensando assim trazemos prá nós aquilo que desejamos.... hoje é um bom dia para começar novos desafios.... Lembre-se somos apaixonáveis.. somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes.até a boca fica amarga. Nós somos o "Amor"...... o melhor vai se instalar na nossa vida... fotos..... sonhe alto. bilhetes de viagens... jogue tudo fora. queira o melhor do melhor... se desejarmos fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor..... papel de bala... joga fora tudo que te prende ao passado......... Onde você quer chegar? ir alto.. esvazie seu coração. peças de roupa. se pensamos pequeno... . fique pronto para a vida..... queira coisas boas para a vida.. para um novo amor.. e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados.... coisas pequenas teremos. ingressos de cinema. mas principalmente.. É hoje o dia da faxina mental. ao mundinho de coisas tristes. Recomeçar..

No jeito mais natural dois carinhos se procuram. todas as mães se reconheçam. e que fale como dois olhos Caminho por uma rua que passa por muitos países. Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri. Minha vida. Se não me vêem. eu vejo e saúdo velhos amigos. . Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas.Eu preparo uma canção Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça. nossas vidas formam um só diamante.

Estuda-se nova geografia. A amada vestida de fezes puxava-me. Canais implícitos. ônibus. e as aberturas do corpo. proclamada. nudez conquistada. . na exaltação de erecta divindade em seus templos cavernames de desde o começo das eras quando cinza e vergonha ainda não haviam corroído a inocência de viver. A noite era mal dormida. As cópulas se desenrolavam . abismos lexicais onde se restaura a face intemporal de Eros. O nojo do substantivo . mãos de trampa escorregante acarinhavam-me o rosto. para emitir com tamanha naturalidade o asqueroso maravilhoso? A tal ponto que.foi há trint'anos ao sol de hoje se derrete. entre uivos e gritos litúrgicos. O corpo soltou-se. língua e membro exploradores.no escuro da mata do quarto fechado. reinava sobre os costumes do mundo anestesiado e havia palavras impublicáveis. abrindo-se. pareciam tomar a forma arrendondada de um ânus. desdenhosos.. ruas.Eu sofria quando ela me dizia Eu sofria quando ela me dizia: "Que tem a ver com as calças. Nádegas aparecem em anúncios. "Que tem a ver. A amada quer expressamente falar e gozar gozar e falar vocábulos antes proibidos e a volúpia do vocábulo emoldura a sagrada volúpia. eu fugia.. quando a língua é falo. A luz do dia saúda-o. e verbo a vulva. A mulher era muda no orgasmo. Assim o amor ganha o impacto dos fonemas certos no momento certo. adianta nomeá-los? Esperam o beijo do consumidoramante. O pesadelo fedia-me no peito." Como podem lábios donzelos mover-se.baixinho . meu querido?" Vitória. Imperatriz. E a língua vai osculando a castanha clitórida. tevês. a penumbra retal.

F Forma forma forma que se esquiva por isso mesmo viva no morto que a procura a cor não pousa nem a densidade habita nessa que antes de ser já deixou de ser não será mas é forma festa fonte flama filme e não encontrar-te é nenhum desgosto pois abarrotas o largo armazém do factível onde a realidade é maior do que a realidade (in lição de Coisas) .

a cor . mas o jeito. de boca. Por que a mim. (Os patores desta aldeia já me fazem zombaria pois procuro. aquele que vê apenas caminhão cartaz de cinema. amor. pois enfim nada existe de mais identificado do que um disco voador hoje presente em São Paulo. Bahia Barra da Tijuca e Barra Mansa. em vão procuro noite e dia o zumbido. Este não diz nada pra mim. Na minha rua todos viram e falaram com seus tripulantes na língua misturada de carioca e de sinais verdes luminescentes que qualquer um entende.Falta um disco Amor. sem dólares. os olhos! contam de prodígios tornados simples de tão semanais apenas secretos para quem não é capaz de ouvir e de entender um disco. pois não? Entraram a bordo (convidados) voaram por aí por ali. somente a mim recusa-se o OVNI? talvez para que a sigla de todo não se perca. Olham-me com desprezo benévolo. sem dólares. a forma. buraco na rua & outras evidências pedestres. Sou o pária. Um amigo que eu tenho todas as semanas vai ver o seu disco na praia de Itaipu. Voltaram cheio de notícias e de superioridade. por além sem necessidade de passaporte e certidão negativa de IR. estou triste porque sou o único brasileiro vivo que nunca viu um disco voador.

Amor. estou tristonho por ser o só que nunca viu um disco voador hoje comum na Rua do Ouvidor. Dele desceu (parece) um sujeitinho furta-cor gentil puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx). o disco? Ele me foge e ri de minha busca.de um só disco voador. Bem sei e sofro com a falta de confiança neste poeta que muita coisa viu extraterrena em sonhos e acordado viu sereias. Não viu? Não vi.) Bem sei que em toda parte eles circulam: nas praias no infinito céu hoje finito até no sítio de um outro amigo em Teresópolis.? Isso me garantem meus vizinhos e eu. Mas o disco. dragões o Príncipe das Trevas a aurora boreal encarnada em mulher os sete arcanjos de Congonhas da Luz e doces almas do outro mundo em procissão. estou tristinho... talvez. . chamado não chamado insensível e cego sem ouvidos deixei passar a minha vez. Um passou bem perto (contam) quase a me roçar.

Mas diz ao homem: Procrie! E ele faz homens. não escolheu. Todo homem possui uma ponte pois é preciso sair da ilha. ... Diz ao homem: Ame! E ele não sabe como. O mundo roda no sistema egocêntrico de suas realidades. Diz ao homem: Viva! E ele respira e existe. E quando o homem encara o mundo e se depara . também. pequenos alumbramentos. Diz ao homem: Trabalhe! E ele usa o corpo. III O que faz um homem diferente de outro homem é o que ele pensa. seguro. Todo homem é um mundo. II O homem faz o homem. sem nem o homem querer aufere direitos do homem. não pensou nada. É bom ser uma ilha distante tanto quanto é bom ser um homem.porque o homem não fez. de um simples fazedor de homens.Fazedor de homens I Todo homem é uma ilha. E porque fez o homem. Diz a ele: Cresça! E ele fica mais alto. O que o transforma.é curta para morrer . volta à ilha: Todo homem ama sua ilha. A ponte de um homem é um braço estendido. mundo-homem. Um dia ele morre. Se a vida foi longa para viver .homem-mundo. medos e coragens.

A ponte fica ali. Todo homem quer deixar sua ilha. Pede. a medida de um homem é a sua carência: porque é assim que ele se assume. só ilha. é com ela que ele se entende. Temeroso de ter que voltar um dia. Enquanto isso. Quanto mais ele precisa mais ele é maior. a ilha fica ali. Como também. E dá. E se deixa de ser vontade teme a perda de sua posse. Reivindica. só ponte. Nela inclui o seu saber e a parte maior do não saber. E sabe dele em contraste com outro corpo. Luta e sofre. E o homem fica ali. não destrói as pontes.num criador de homens. entretanto. só homem. Exige. Todo homem é uma vontade. tal é a sua medida. e se aceita o fato. Todo homem é seu corpo. quanto pode. porque é assim que ele se liberta. Todo homem é uma consciência. .

em liga. O amor das éguas rinchava no azul do pasto. tudo era casto. O Retiro ficava longe do oceanomundo. E criação e gente. .Fazenda Vejo o Retiro: suspiro no vale fundo. Mulher. Ninguém sabia da Rússia com sua foice.. urubus rasantes. A morte escolhia a forma breve de um coice. logo em concílio. abundavam negras socando milho. Rês morta.

escravas e crias de ações da Companhia de Navegação do Alto Paraguai da aurifúlgida comenda no baú enterrado no poço da memória restou.Herança De mil datas mineiras com engenhos de socar de lavras lavras e mais lavras e sesmarias de bestas e vacas novilhas de terras de semeadura de café em cereja (quantos alqueires?) de prata em obras (quantas oitavas?) de escravos. talvez? este pigarro .

com a água dos rios no meio.. salão para conferências científicas. Nenhum Brasil existe.. abriremos dancings e subvencionaremos as elites. tão sem limites.. de pele macia.. E virão sírias fidelíssimas. Nossas revoluções são bem maiores do que quaisquer outras. assimilaremos finas culturas. Este não é o Brasil. E acaso existirão os brasileiros? . por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos. Compraremos professores e livros. coitado. os Amazonas inenarráveis.Hino Nacional Precisamos descobrir o Brasil! Escondido atrás das florestas. O que faremos importando francesas muito louras.. nossos erros também. os incríveis Jõao-Pessoas. piscina.. tão despropositado. precisamos esquecer o Brasil! Tão majestoso... Não convém desprezar as japonesas. ele quer repousar de nossos terríveis carinhos. Precisamos. E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões.. alemãs gordas.. Precisamos louvar o Brasil. Não é só um país sem igual. O Brasil está dormindo.. Precisamos educar o Brasil. Precisamos colonizar o Brasil. russas nostálgicas para garçonettes dos restaurantes noturnos. Cada brasileiro terá sua casa com fogão e aquecedor elétricos. se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens. Precisamos adorar o Brasil! Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão no pobre coração já cheio de compromissos. O Brasil não nos quer! Está farto de nós! Nosso Brasil é no outro mundo. E cuidaremos do Estado Técnico.

as coisas deste mundo. . talvez.Hipótese E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda? Isso explica.

Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação. De Senhor dos Assuntos. eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel. sem se dar ao incômodo de praticá-las. que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto. não precisa esgotar os temas. para objeto de sua divagação descompromissada. Sim. Não é redator de boletim político. a revolta. colunista especializado. Selecionando os retalhos de vida dos outros.por hipótese .transforma a cara das coisas. pois ao imprevisto sucede outro. senhor. o ridículo. por via gramatical. casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Ao passo que. Entretanto. Ah. . de falta de apetite para os milhares de assuntos. como se fosse deus.Hoje não escrevo Chega um dia de falta de assunto. Superior.. Escrever é triste. mas com igual indiferença pelo que vão dizendo. assuntando. como optar entre as variedades de insólito? E que dizer. e você não sabe ir além disso. que está de olho na maquininha. inclusive a simples claridade da hora. escrevinhando sobre a vida. porque com você não é possível contar. que importância a sua: sentado aí. ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar. não corta de verdade a barriga da vida.às vezes nem isso. cafezinho. porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos. rapaz. num mecanismo de monotonia. Desaprovou as ações nefandas. crédulos. explosiva. Sereno. porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. passar a espectador enfastiado de espetáculo. sem responsabilidade na instrução ou orientação do público. verbos? Mas foram os outros. sandálias. O que você perde em viver. Na hora ingrata de escrever.. você aprovou as valentes ações dos outros. Que é isso. e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. é outra. Claro. dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. mais propriamente. Tudo que se faz sem você. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo. vedada a você. fica em sua cadeira. sugestionáveis. Não apenas o sol. purê de palavras. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”. não revolve os intestinos da vida. dando sua opinião sobre a angústia. manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. a maluquice dos homens. se seus escritos fossem produtos medicinais). na raça. Divino. uma revolução. antes e depois da operação.. o absurdo promovido a regra de jogo. não é comentarista internacional. enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza. assuntando. Tudo se repete na linha do imprevisto. você participa com palavras? Sua escrita . Isso de escrever O Capital é uma coisa. Ou. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália. quer dizer: que não há para você. Assim é fácil manter a consciência limpa. Impede a conjugação de tantos outros verbos. ar condicionado. mas tudo que ele ilumina. as letras se reunindo com maior ou menor velocidade. E nem sequer você escreveu O Capital. em sua protegida pessoa. Sim.. adjetivos. como diria a bula. há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos. Concluiu que não há assunto. aí está você. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. camisa aberta. não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. um adultério grego . Tantos fatos simultâneos e entrechocantes. derrubar as estruturas. se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Esquecido de que é um deles. excesso de vibração. que fizeram o acontecimento. ver mais longe do que o comum. Os dedos sobre o teclado. E então vem o tédio. que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais. que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Então hoje não tem crônica. reflexos no espelho (infiel) do dicionário. rei proprietário do universo. Vazio. Você é o marginal ameno.

quem mais faria? Tem prática de animais. seria o mesmo admirável oficial de sapateiro. exímio seleiro. no Seminário de Diamantina. Vai parar. esse Atanásio. nasce escravo. grande ferreiro. homem livre. Então foge do Rio Doce. Meu parente Manuel Chassim não se conforma. ótimo sempre. onde é cozinheiro. Sendo tanta coisa. o que não é bom para Atanásio e para ninguém. Bota anúncio no Jequitinhonha. Lombilho que ele faz. Cortaram-lhe os excedentes. Cortassem mais dois. explicadinho: Duzentos mil-réis a quem prender crioulo Atanásio. Mas quem vai prender homem de tantas qualidades? .Homem livre Atanásio nasceu com seis dedos em cada mão.

Homenagem Jack London Vachel Lindsay Hart Crane René Crevel Walter Benjamin Cesare Pavese Stefan Zweig Virginia Woolf Raul Pompéia Sá-Carneiro e disse apenas alguns de tantos que escolheram o dia a hora o gesto o meio a dissolução (in As Impurezas do Branco) .

no meio. o murmúrio das invocações.a torre. E nos domingos a litania dos perdões. . O canto dos homens trabalhando trabalhando mais perto do céu cada vez mais perto mais . . Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida. O padre que fala do inferno sem nunca ter ido lá. Bem bão! Bem bão! Os serafins. no alto fica Deus. Domingo .Igreja Tijolo areia andaime água tijolo. No adro ficou o ateu. A manhã pintou-se de azul. Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos. entoam quirieleisão. .

Todo ser humano é um estranho ímpar. Todos os amores. Todas as criações da natureza são iguais. virelais. . Todos os filmes de todos os países são iguais. Todos os best-sellers são iguais. A morte é igualíssima. sextinas e rondós são iguais e todos. são iguais. Todos os partidos políticos são iguais. Não é igual a nada. Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais. piedosas ou indiferentes.Igual-desigual Eu desconfiava: todas as histórias em quadrinho são iguais. Todas as ações. cruéis. gazéis. Todos os filmes norte-americanos são iguais. o homem não é igual a nenhum outro homem. Contudo. bicho ou coisa. iguais iguais iguais. Todos os sonetos. Iguais todos os rompimentos. Todas as fomes são iguais. Todas as guerras do mundo são iguais. todos os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais. Todas as mulheres que andam na moda são iguais. Todas as experiências de sexo são iguais.

morreu o poeta sem morrer à eternidade ele que fez de uma pedra louvor para sua cidade gauche. grande destro sem querer celebridade pelos mil que era num só se fez único ficando no seu primeiro caráter de bom mineiro jamais morrerá e sempre será. .Imortalidade Morre-se de mil motivos e sem motivo se morre de saudade.

Psiu. .Infância Meu pai montava a cavalo. comprida história que não acaba mais. não acorde o menino.. Meu irmão pequeno dormia Eu sozinho.. Minha mãe ficava sentada cosendo.. Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: . Para o berço onde pousou um mosquito E dava um suspiro. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala e nunca se esqueceu chamava para o café. menino entre mangueiras lia história de Robinson Crusoé. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. ia para o campo..

e há um óleo suave que eles passam nas costas.Inocentes do Leblon Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. e esquecem. tudo ignoram. mas a areia é quente. . Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes. definitivamente inocentes.

Inscrição tumular O instante de corola o instante de vida o instante de sentimento o instante de conclusão o instante de memória e muitos outros instantes sem razão e sem verso. .

e é fuga e vento. A manha sempre sempre. acordava. sobre o tempo sem caule. uma promessa. gravura enlouquecida.Instante Uma semente engravidava a tarde. e dociastutos eus caçadores a correr. entre soluços E que mais. que a ferida no peito transtornado. Era o dia nascendo. aceso em festa. corcel rubro. dava um coice. me planejas? 0 que se desatou num só momento não cabe no infinito. . vida eterna. em vez da noite Perdia amor seu hálito covarde. e a vida. mas tão delicioso. e as presas num feliz entregar-se.

Isso é Aquilo O fácil o fóssil o míssil o físsil a arte o infarte o ocre o canopo a urna o farniente a foice o fascículo a lex o judex o maiô o avô a ave o mocotó o só o sambaqui .

. Só. na porta da venda.Itabira Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos. Tutu caramujo cisma na derrota incomparável. Os homens olham para o chão. Os ingleses compram a mina. Os meninos seguem para a escola.

MG . não. olhos vazados e mãos oferecidas e mecânicas. presságio . jardim apenas. de um vegetal segredo enfeitiçadas.* .1902 * . que sei de sua essência (ou não a tem). mas por pálidas contas de colares que alguém vai desatando.1987 Negro jardim onde violas soam e o mal da vida em ecos se dispersa: à toa uma canção envolve os ramos como a estátua indecisa se reflete no lago há longos anos habitado por peixes. enquanto outras visões se delineiam e logo se enovelam: mascarada. pétalas. matéria putrescível.Jardim Itabira do Mato Dentro .

e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta. cuspir já não pode. seu terno de vidro. a noite esfriou. José? Está sem mulher.José E agora. o povo sumiu. mas o mar secou. sua biblioteca. não existe porta. protesta? e agora. sua lavra de ouro. que zomba dos outros. o bonde não veio. . o riso não veio. o dia não veio. a noite esfriou. quer morrer no mar. não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. José? E agora. e agora. seu ódio. já não pode fumar. . Você? Você que é sem nome. que ama. Você que faz versos. sua incoerência. sua gula e jejum. José? e agora. José? sua doce palavra. está sem discurso. está sem carinho. seu instante de febre. e agora. já não pode beber. José? A festa acabou. a luz apagou.

se você dormisse. sem teogonia.. se você gemesse. se você tocasse. e agora? Se você gritasse. a valsa vienense. se você morresse. José! José.quer ir para Minas. Mas você não morre. você é duro. se você cansasse. José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato.. José. você marcha. sem cavalo preto que fuja do galope. para onde? . Minas não há mais.. sem parede nua para se encostar.

O mar não me importa. não sei se ele é bravo.Lagoa Eu não vi o mar. . Eu vi a lagoa. A lagoa é grande E calma também... Eu não vi o mar. A lagoa. Não sei se o mar é bonito. sim. Eu vi a lagoa. Na chuva de cores da tarde que explode a lagoa brilha a lagoa se pinta de todas as cores.

LANTERNA MÁGICA IV — ITABIRA Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê. Os homens olham para o chão. Os meninos seguem para a escola. . Os ingleses compram a mina. Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos.

Saio rastejante olhos tortos pescoço dolorido. Encontro. A triste polução foi adiada. procura-se a greta entre as tábuas do soalho por onde se surpreenda a florescência do corpo das mulheres na sombra de vestido refolhados que cobrem até os pés a escultura cifrada. . mina de ouro? Contenho respiração. Dispara o coração no fim de longa espera ao rumor de saias lá em cima ai de mim. lar de escorpiões. terra batida. Entro rastejante dobro o corpo em dois à procura da greta reveladora de não sei que mistério radioso ou sombrio só a homens ofertado em sigilo de quarto e noite alta. Nada nada nada senão a sola negra dos sapatos tapando a greta do soalho.Le voyeur No úmido porão. que nunca se devassam por mais que o desejo aguce a vista e o sangue implore uma visão de céu e terra encavalados.

Liberdade O pássaro é livre na prisão do ar. bem livre. O espírito é livre na prisão do corpo. Mas livre. é mesmo estar morto. .

Lição Tarde. . a vida me ensina esta lição discreta: a ode cristalina é a que se faz sem poeta.

Não se espantaram os peixes: faltava-me o teu carinho. Atirei um limão n'água mas perdi a direção Os peixes. Em coro os peixes disseram: Joga fora teu ciúme. Cada peixinho assustado me lembra o que já sofri. Ouvi um peixe dizer: Melhor é o beijo roubado. rindo. Atirei um limão n'água mas depois me arrependi. ele afundou um barquinho. Atirei um limão n'água. .Lira do amor romântico Atirei um limão n'água e fiquei vendo na margem. o rio logo amargou. Senti que os peixes diziam: Todo amor vive de engano. Atirei um limão n'água. Atirei um limão n'água e caiu enviesado. como faço todo ano. Atirei um limão n'água. Os peixinhos repetiram: é dor de quem muito amou. notaram: Quanto dói uma paixão! Atirei um limão n'água. como um vidro de perfume. Atirei um limão n'água. o rio ficou vermelho e cada peixinho viu meu coração num espelho. Os peixinhos responderam: Quem tem amor tem coragem.

Comenta o peixe mais velho: Infeliz quem não amou. Bem me avisou um peixinho: Fui passado para trás. Foi tamanho o rebuliço que os peixinhos protestaram: Se é amor. Atirei um limão n'água . Os peixinhos me acusaram de amar com falta de jeito. de tão baixo ele boiou. Atirei um limão n'água. antes atirasse a vida. Atirei um limão n'água. Atirei um limão n'água. antes não tivesse feito. Até os peixes já sabem: Você não ama: tortura. de clara ficou escura. deixa disso. caiu certeiro: zás-trás. não fez o menor ruído. Iria viver com os peixes a minh'alma dolorida. Atirei um limão n'água. Nenhum peixe me avisou da pedra no meu caminho.Atirei um limão n'água. tu me terás esquecido? Atirei um limão n'água. fez-se logo um burburinho. Atirei um limão n'água. pedindo à água que o arraste. Até os peixes choraram porque tu me abandonaste. Atirei um limão n'água. Se os peixes nada disseram. Atirei um limão n'água.

e caí n'água também pois os peixes me avisaram, que lá estava meu bem. Atirei um limão n'água, foi levado na corrente. Senti que os peixes diziam: Hás de amar eternamente.

Mãe sem dia
As mães que já o eram antes de ser instituído o Dia das Mães não se importam muito com ele, e até dispensam homenagens sob esse pretexto. Mas as que cumpriram a maternidade após a sua criação, pensam de outro modo, e amam a data. Edwiges, mãe recente, com filho de ano e meio de idade, não tinha quem celebrasse o seu Dia, pois a criança estava longe de poder fazê-lo. Comprar para si mesma um presente não tinha graça, e além do mais não havia dinheiro para isso. Aderir à festa das outras mães, que tinham filhos grandes e recebiam homenagens, era como furtar alguma coisa, o que repugnava a Edwiges. Adormeceu e teve um sonho. O filho crescia velozmente diante de seus olhos e, chegando aos 18 anos, levava para ela o mais lindo ramo de crisandálias e pequeno estojo de veludo. Abriu-o com sofreguidão e deparou com uma aliança em que estava gravado um nome diferente do seu. Notando-lhe a surpresa, o filho pediu desculpas. O anel era para a namorada, só as flores lhe pertenciam. E saiu correndo com o estojo e o anel para entregá-los à moça. Mãe solteira, Edwiges ficou com as crisandálias o tempo daquele sonho. Seu Dia das Mães consistiu em lembrar o sonho. In "Contos Plausíveis"

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considere a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história. não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela. não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

Memória

Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

Meninos Suicidas

Um acabar seco, sem eco, de papel rasgado (nem sequer escrito): assim nos deixaram antes que pudéssemos decifrá-los, ao menos, ao menos isso, já não digo... amá-los. Assim nos deixaram e se deixaram ir sem confiar-nos um traço retorcido ou reto de passagem: pisando sem pés em chão de fumo, rindo talvez de sua esbatida miragem. Não se feriram no próprio corpo, mas neste em que sobrevivemos. Em nosso peito as punhaladas sem marca - sem sangue - até sem dor contam que nós é que morremos e são eles que nos mataram. (in As Impurezas do Branco)

Memória
Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

Mimosa boca errante
Mimosa boca errante à superfície até achar o ponto em que te apraz colher o fruto em fogo que não será comido mas fruído até se lhe esgotar o sumo cálido e ele deixar-te, ou o deixares, flácido, mas rorejando a baba de delícias que fruto e boca se permitem, dádiva. Boca mimosa e sábia, impaciente de sugar e clausurar inteiro, em ti, o talo rígido mas varado de gozo ao confinar-se no limitado espaço que ofereces a seu volume e jato apaixonados, como podes tornar-te, assim aberta, recurvo céu infindo e sepultura? Mimosa boca e santa, que devagar vais desfolhando a líquida espuma do prazer em rito mudo, lenta-lambente-lambilusamente ligada à forma ereta qual se fossem a boca o próprio fruto, e o fruto a boca, já chega, chega, chega de beber-me, de matar-me, e, na morte, de viver-me. Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

suas garrafas... peguemos o corredor. Na mão a garrafa branca não tem tempo de dizer as coisas que lhe atribuo nem o moço leiteiro ignaro. depositemos o litro. é preciso entregá-lo cedo. Sem fazer barulho. Sua lata. . de passo maneiro e leve. Há no país uma legenda. E já que tem pressa. E como a porta dos fundos também escondesse gente que aspira ao pouco de leite disponível em nosso tempo. empregado no entreposto. com 21 anos de idade. Meu leiteiro tão sutil. sabe lá o que seja impulso de humana compreensão. que barulho nada resolve. morador na Rua Namur. é preciso entregá-lo cedo. é claro. Então o moço que é leiteiro de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom pra gente ruim. que ladrão se mata com tiro. e seus sapatos de borracha vão dizendo aos homens no sono que alguém acordou cedinho e veio do último subúrbio trazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vaca para todos criarem força na luta brava da cidade. avancemos por esse beco. Há muita sede no país. o corpo vai deixando à beira das casas uma apenas mercadoria.Morte do Leiteiro Há pouco leite no país.

Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. amorosamente se enlaçam. duas cores se procuram. não sei. polícia não bota a mão neste filho de meu pai. Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro). . Está salva a propriedade. formando um terceiro tom a que chamamos aurora. resmunga e torna a dormir. cão latindo por princípio. Mas o homem perdeu o sono e todo. perdeu a pressa que tinha. Ladrão? se pega com tiro. mas o leiteiro estatelado. A noite geral prossegue. é tarde para saber. É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado.antes desliza que marcha. no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite. se era bom. e foge pra rua. Da garrafa estilhaçada. E há sempre um senhor que acorda. Se era noivo. não quis saber de mais nada. mal redimidos da noite. ao relento. Meu Deus. O revólver da gaveta saltou para sua mão. vaso de flor no caminho. sangue. não sei. matei um inocente. a manhã custa a chegar.. se era virgem. se era alegre. Quem quiser que chame médico. Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão. suavemente se tocam. Por entre objetos confusos. ou um gato quizilento..

no teatro. os mortos que andam! Que nos seguem os passos e não falam. imprescritíveis. . Não nos fitam. nos cercam. na biblioteca. fiscalizam nosso caminho e jeito de caminhar. não nos interrogam.Mortos que andam Meu Deus. E não falam. não nos cobram nada. Acompanham. nossa incômoda sensação de estar vivos e sentir que nos seguem. Aparecem no bar.

É um andar vestida de nudez. O corpo nem sequer é percebido pelo ritmo que o leva. Seios. Também eu repouso. . nádegas (tácito armistício) repousam de guerra. Não é nudez datada. inocência de irmã e copo d’água.Mulher andando nua pela casa Mulher andando nua pela casa envolve a gente de tamanha paz. provocante. Transitam curvas em estado de pureza. Pêlos que fascinavam não perturbam. dando este nome à vida: castidade.

Só agora vejo que nele não cabem os homens. Por isso me grito. Por isso me dispo. A rua é enorme. Tu sabes como é grande o mundo.. A rua é menor que o mundo. sem que ele estale. sabes como é difícil sofrer tudo isso. O mundo é grande. Nele não cabem nem as minhas dores.Mundo Grande Não. Conheces os navios que levam petróleo e livros carne e algodão. É muito menor. Viste as diferentes cores dos homens. Por isso gosto tanto de me contar. . Maior. Escuta a água nos vidros. Fecha os olhos e esquece. por isso freqüento os jornais. meu coração não é maior que o mundo. muito maior do que eu esperava. Mas também a rua não cabe todos os homens. meu coração é muito pequeno. amontoar tudo isso num só peito de homem. Os homens estão cá fora. estão na rua. Sim.. me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos. as diferentes dores dos homens.

só agora descubro como é triste ignorar certas coisas. . Entretanto escorre nas mãos. o grande mundo está crescendo todos os dias. Não anuncia nada. Ilhas perdem o homem. Nunca escutei voz de gente.. Estúpido. fáceis de habitar. (Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam. ridículo e frágil é meu coração. Renascerão as cidades submersas? Os homens submersos – voltarão? Meu coração não sabe. Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia de que o mundo. os poemas. entre o fogo e o amor. tão calma! vai inundando tudo. as sonatas. ilhas sem problemas.. não obstante exaustivas e convocando ao suicídio. as confissões patéticas. Em verdade sou muito pobre.tão calma. Meus amigos foram às ilhas.) Outrora escutei os anjos. Outrora viajei países imaginários.

meu coração cresce dez metros e explode. . – Ó vida futura! nós te criaremos. meu coração também pode crescer.Então. Entre o amor e o fogo. entre a vida e o fogo.

Não tem namorado quem transa sem carinho. mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme. Paquera. quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. fugidia ou impossível de durar. gabiru. decidida ou bandoleira: basta olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado. de flor catada no muro e entregue de repente. de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada. mesmo. quem não dedica livros. fazer compra junto. transa. bosques enluarados. cavalo alado. um envolvimento e dois amantes. Namorar e fazer pactos com felicidade ainda que rápida. Namorado não precisa ser o mais bonito. tapete magico ou foguete interplanetário. Necessita de adivinhação. flerte. de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metro. Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques. dois paqueras. cinema sessão das duas. de pel. de saliva. de poesia de Fernando Pessoa. mesmo assim pode não ter namorado. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Não tem namorado não e quem não sabe o gosto da chuva. escondida. beira d'agua. Namorado e a mais difícil das conquistas.Namorado Quem não tem namorado e alguém que tirou ferias não remuneradas de sim mesmo. medo do pai. Não . fazer cesta abraçado. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor. Mas namorado. bonde. Se você tem três pretendentes. quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Vinicius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar. nuvem. nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele. quem não recorta artigos. lagrima. Quem não tem namorado não e quem não tem humor: e quem não sabe o gosto de namorar. abobalhados de alegria pela lucidez do amor. sanduíche de padaria ou drible no trabalho. de carinho escondido na hora em que se passa o filme. brisa ou filosofia. sua frio e quase desmaia pedindo proteção. envolvimento. ruas de sonhos ou musical da Metro. quindim. e difícil. show do Milton Nascimento. ate paixão e fácil. nuvem. Difícil porque namorado de verdade e muito raro. caso. A proteção dele não precisa ser parruda. fliperamas. Não tem namorado quem não tem musica secreta com ele.

Se você não tem namorado porque descobriu que o amor e alegre e você vive passando duzentos quilos de grilos e de medo. ponha a saia mais leve.tem namorado quem ama sem gostar. Não tem namorado quem fala sozinho. ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem ama sem se dedicar. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. quem gosta sem curtir. na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana. quem curte sem aprofundar. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. quem vive cheio de obrigações. . e passeie e mãos dadas com o ar. aquela de chita. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado. se você não tem namorado e porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. quem namora sem brincar. que faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas.

intacta.Não quero ser o último a comer-te Não quero ser o último a comer-te. Nem sopra a flama antiga nem beber-te aplacaria sede que não arde em minha boca seca de querer-te. para travar comigo a luta extrema que fizesse de toda a nossa vida um chamejante. e eu covarde a esperar que limpasses toda a gala que por teu corpo e alma ainda resvala. . universal poema. de desejar-te tanto e sem alarde. agora é tarde. fome que não sofria padecer-te assim pasto de tantos. e chegasses. renascida. Se em tempo não ousei.

a tua mão. têm o antigo calor de quando éramos vivos. Nada. que eu sinta. Éramos? Hoje somos mais vivos do que nunca. Não. ninguém foi infeliz. A mão. passa realemente. Mentira. estarmos sós. nossas mãosrugosas.Não Passou Passou? Minúsculas eternidades deglutidas por mínimos relógios ressoam na mente cavernosa. ninguém morreu. . É tudo ilusão de ter passado.

anúncios do melhor sabão. santos que se persignam. mas não diga nada a ninguém. o amor é isso que você está vendo: hoje beija. ninguém sabe nem saberá. Carlos. Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se. rezas. pra quê. e os recalques se sublimando. reserve-se todo para as bodas que ninguém sabe quando virão. vitrolas. Você é a palmeira. lá dentro um barulho inefável. meu filho. a noite passou em você. é sempre triste. O amor. amanhã não beija. se é que virão. oh não se mate. Entretanto você caminha melancólico e vertical. não. barulho que ninguém sabe de quê. Não se mate. você telúrico. depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. você é o grito que ninguém ouviu no teatro e as luzes todas se apagam. O amor no escuro. no claro. sossegue.Não se mate Carlos. Carlos. .

Vísceras imensas. Os médicos estão fazendo a autópsia dos desiludidos que se mataram. tu ficas.Necrológio dos desiludidos do amor Os desiludidos do amor estão desfechando tiros no peito. sem coração. tripas sentimentais e um estômago cheio de poesia. tomaram todas as providências para o remorso das amadas. sem tripas. sem amor. As amadas torcem-se de gozo. mas nos veremos seja no claro céu ou turvo inferno. . Desiludidos mas fotografados. Agora vamos para o cemitério levar os corpos dos desiludidos encaixotados competentemente (paixões de primeira e segunda classe). sobre a tumba deles. escreveram cartas explicativas. violento. Oh quanta matéria para os jornais. Do meu quarto ouço a fuzilaria. Pum pum pum adeus. Os desiludidos seguem iludidos. os seus dentes de ouro não servirão de lastro financeiro e cobertos de terra perderão o brilho enquanto as amadas dançarão um samba bravo. enjoada. Que grandes corações eles possuíam. Eu vou. Única fortuna.

já me estiro. se me firo em unhas protestantes. me restauro. violento. sábio papiro. iluminando o gozo..é ainda o que prefiro. qual lampiro. dessedentado.a mão.. me penso. me confiro. Então. meu mais íntimo suspiro. Que tanto mais a quero. ou se. esse retiro . esse retiro No corpo feminino. e respiro a brisa dos planetas.a doce bunda . A ela. no seu giro lento.No corpo feminino. a bunda torna-se vampiro. pois tanto mais a apalpo quanto a miro. se ponho e tiro a mão em concha . o sentimento da morte eis que o adquiro: de rola. .

No mármore de tua bunda No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio. Agora que nos separamos. . minha morte já não me pertence. Tu a levaste contigo.

Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas.No Meio do Caminho No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no mei do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. .

pastor falante. Os movimentos vivos no pretérito enroscam-se nos fios que me falam de perdidos arquejos renascentes em beijos que da boca deslizavam para o abismo de flores e resinas. cobrinhas passionais. . montes de Vênus. visitados por mim. junto do espelho que com elas rimava. apascentava caracóis perfumados. Apalpo. e negra continua. anéis negros. acaricio a flora negra.No pequeno museu sentimental No pequeno museu sentimental os fios de cabelo religados por laços mínimos de fita são tudo que dos montes hoje resta. Vou beijando a memória desses beijos. nesse branco total do tempo extinto em que eu. num clarão.

horrorosa. a seu alcance. Será antes prazer de sentir-se cortejada. Descobre na porta.. a solução já não lhe satisfaz. a abertura forrada de metal e coberta por uma tampa móvel.Uma menina de sua idade. talvez até mais bonita. . tornar a entrar minutos depois. .Tem aqui esta pessegada. . À força de entrar. tanto! Um dia foi brincar com o cachorrinho de vidro.. Catarina foi inventada à pressa.Gosto da outra. Entre os mitos do mundo (entre os seres reais?) existe mais um.Foi a garota que pediu para chamar.Qual é a sua casa? . A bruxa está presa tanto na parede como nos olhos fixos.Que Catarina? .E a outra de onde você veio? . . franqueia-se o recinto. olhando os pés estendidos. tornar a sair. mas tanto. Os bichos de cristal na mesinha da sala de estar tentavam a mão viageira. de matéria idêntica: por ali entram as cartas.Nossa amiga Não é bastante alta para chegar ao botão da campainha. . de castigo.Gosto desta casa! Gosto de você! Não é gulodice nem interesse mesquinho. Para o resto da vida. a mãe não queria que ela brincasse. Abre que eu quero entrar. ar extremamente maduro das meninas de três anos. enquanto alguém lhe acarinha os cabelos. . rebelde e decaído. Antes de abrir. no espaço entre as duas residências. que atende à sua requisição.. para frustrar certa depredação iminente.Também. mexeu e quebrou o cachorrinho. igualzinha a você.Não mexa. Pressentia-se o momento em que as formas alongadas e frágeis se desfariam. já disse. grandes.Que é que você vai me dar? . . Os dedos sacodem a tampa. despenteada. às vezes comendo pão com cocada. Muito mexedeira. Catarina virou aquela bruxinha preta. . Então. Quando não é algum transeunte austero. desencadeando o necessário e aflitivo rumor.. praticar pequenos atos domésticos. Alguém abre. mas sempre séria. lanchar. esta bananinha. esquecida. senador ou ministro do Supremo. crepuscular. alado. sair.. perguntam de dentro: .Você está vendo aquela bruxa ali? É Catarina.Não mexa nos bichinhos.Esta e aquela. Nem tudo são flores. pensativos. Com pouco. Catarina teimou. Entra uma coisinha morena.Esta.De qual você gosta mais? . se é que não a retificou para os dicionários do futuro. . . Mexia. tocando. . dormir na primeira poltrona.Nada.É Luci Machado da Silva. pousara uma bruxa. O peixeiro presta-lhe esse serviço. dissolveu a noção de residência.Quantas casas você tem? . . às vezes descalça.. Há Catarina e Pepino. Em vão. mimada. Ante a intimação peremptória. de mão na boca. A mão imobiliza-se.Quem está aí? Ë de paz ou de guerra? De fora respondem: . Na parede. preta. Esquece a merenda para ficar na sala... .

Pepino tem existência mais positiva. . Meu sapato branco. e com uns panos velhos. Seria realmente temor? Gosta de ser acompanhada. lápis vermelho.Mas que beleza! Onde você vai? . que sugere terrores ou recompensas fantasiosas. João e Adão.Comadre. saem da mesma boca inexperiente.Até logo! Sai voando. quando chega em casa: . O objeto que serve de filho é embalado com seriedade. qualquer elemento poetizável. ..E Pepino? .Pega.geralmente à tarde. expondo em frases incoerentes seus problemas íntimos.um carretel. Você vai ver se ele pega. Vem bêbado. Lourdes.Pois eu vou dar uma festa para as crianças desta rua e convido Pepino. . ante os soldados de Herodes. . se não a constituem. Alice. ainda se vê o pequeno vulto desgrenhado. Você vai me levar. existem os sustos maternais. Estou zangada com você. e que os prolonga.Pepino não pega ninguém. penteada. Vem Elzinha. Assim pudesse a mãe antiga tornar invisível seu filho. E resta saber se o enganado não será o adulto. . Pegador de crianças. Você. para dizer à mãe. Perguntas e respostas.Espia minha roupa nova. A merenda.Então vou dar no meu também. a galinha que salta do carrinho de feira . comadre.Espia quem me trouxe. sim.fazem esquecer a festa. pedrinha. Ele é camarada. como é uma boba.Vou na festa. . é necessário que se anuncie sempre uma festa. . mas que opera interiormente sua fascinação. calçada. o brinquedo personalíssimo com o primeiro encontro do dia . Mas tudo se desfaz. se acaso um intruso vem surpreender a criação.Eu não vou na festa. Eu sei.Mas você mora tão pertinho. A doença existe.. . Careca. a conversa grave com pessoas grandes. . Para tomar banho e trocar de vestido. Volta meia hora depois. recolhidas em conversas de adulto.a rua é o espaço entre as duas quadras. não toma parte. e o seu? .Vou embora para minha casa. Vai tomar injeção. .Não. . . Nas campinas da imaginação.Você é quem perde. você não tem medo do Pepino? .Tá bom. Edison. seu filhinho como vai? .Espere aí. Da varanda. Heloísa. repleto de surpresas . vestido limpo. esse galope de formas . jamais localizada ou realizada. .Tá com dedo machucado e dodói na barriga. tirada em partes iguais da vida e do sonho. Com a zanga. Nesinha. Maria Helena. representa para si só a imemorial história das mães. curvado. a porta fecha-se com estrondo.será a verdade? Senta-se no corredor. . Não há pressa em ir para ela. Circula na rua . Pepino vai dançar para as crianças. estranhamente preferidas a quaisquer outras. desaparece o temor. Bárbara.

no vale. As coisas talvez melhorem. espero. decifro. irritadas. São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto. verdade. De mãos viajando sem braços. Os homens pedem carne. ao relento. II Este é o tempo de divisas. Em vão percorremos volumes. Sapatos. perderam o sentido. tempo de homens partidos. são roucas e duras. Guerra. Visito os fatos. não te encontro. E o vestido vermelho vermelho cobre a nudez do amor. enérgicas. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Meu nome é tumulto. Onde te ocultas. e escreve-se na pedra. Os lírios não nascem da lei. flores? . As leis não bastam. tempo de gente cortada. luz dormindo acesa na varanda? Miúdas certezas de empréstimo. viajamos e nos colorimos. apenas querem explodir. penhor de meu sono. precária síntese.Nosso tempo Este é tempo de partido. comprimidas há tanto tempo. Mudou-se a rua da infância. Símbolos obscuros se multiplicam. Fogo. nenhum beijo sobe ao ombro para contar-me a cidade dos homens completos. Tenho palavras em mim buscando canal. Calo-me. obscenos gestos avulsos.

contai. colchetes no chão da costureira. lanternas. ó jornalista. na praia.. como o do enterro que não foi feito. cigarros. É tempo de muletas. as palavras. e continuamos. Certas partes de nós como brilham! São unhas. Tudo tão difícil depois que vos calastes . Tempo de mortos faladores e velhas paralíticas. a sala grande conduz a quartos terríveis. contai. luto no braço. e o ar da noite é o estritamente necessário para continuar. conta. à água que goteja e segreda o incenso. anéis. animais caçados. velhos selos do imperador.Dos laboratórios platônicos mobilizados vem um sopro que cresta as faces e dissipa. a partida. pessoas e coisas enigmáticas. pombas. baratas dos arquivos. que contêm: papeis? crimes? moedas? Ó conta. capa de poeira dos pianos desmantelados. mas ainda é tempo de viver e contar. fragmentos de jornal. conduz à copa de frutas ácidas. velha preta. moça presa na memória. solidão e asco. pérolas. depositário de meus desfalecimentos. abre-te e conta. pela direita entra-se. ossos na rua. ó surdo-mudo. cães errantes. Certas histórias não se perderam. a pulsação. III E continuemos. portas rangentes. pequeno historiador urbano. pela esquerda sobe-se. do corpo esquecido da mesa. ao claro jardim central. nostálgicas de bailado. A escuridão estende-se mas não elimina o sucedâneo da estrela nas mãos. Conheço bem esta casa.. a benção. E muitos de vós nunca se abriram. conduz às celas fechadas. o ofego. parelhos de porcelana partidos. velho aleijado. são partes mais íntimas. poeta. conta. .

No céu da propaganda aves anunciam a glória. É sem cor e sem cheiro. Multidões que o cruzam não veêm. política na maçã. é tempo de comida. num passe. palavra indireta. irrisão e três colarinhos sujos. no telefone. e os negócios. na batalha de aviões. olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso. toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem. de boca gelada e murmúrio. O espião janta conosco. olhos pintados. no gozo. No beco. braço mecânico. amor e desamor. mão de papel. dentes de vidro. de céu neutro. gim com água tônica. A isso chamamos: balanço. evoluem. cólera branda. Lentamente os escritórios se recuperam. Os escritórios. V Escuta a hora formidável do almoço na cidade. Come. Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos! Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa. mais tarde será o de amor. apenas um muro. As bocas sugam um rio de carne. vem da areia. sobre ele a polícia. Escuta a hora espandongada de volta. No quarto. É tempo de cortinas pardas. forma indecisa. Tempo de cinco sentidos num só.IV É tempo de silêncio. alimenta-se. esvaziam-se. O esplêndido negócio insinua-se no tráfego. grotesca língua torcida. legumes e tortas vitaminosas. Está dissimulado no bonde. aviso na esquina. por trás da brisa do sul. no santo. .

homem. Há uma implacável guerra às baratas. A gravidez elétrica já não traz delíquios. criança. com as calças despido o incômodo pensamento de escravo. confiar-se ao que bem me importa do sono. homem. roupa. escuta o corpo ranger. roupa. homem. os bancos triturando suavemente o pescoço do açucar. Contam-se histórias por correspondência. Salva-se a honra . e se quedam mudos. roupa. refluir. uma faca. orquídeas e opções de compra e desquite. Crianças alérgicas trocam-se. a má poesia. mulher. chapéu. o corpo ao lado do corpo. os frágeis que se entregam à proteção do basilisco. de mortal feiúra. passeeando de bote num sinistro crepúsculo de sábado. últimos servos do negócio. roupa. o mau romance. A mesa reúne um copo. e a cama devora tua solidão. escoam-se passo a passo.Homem depois de homem. Escuta o horrível emprego do dia em todos os países de fala humana. leituras. sentam-se. a falsificação das palavras pingando nos jornais. afinal distendido. reforçam-se. entre muros apagados. sob eles soterrados sem dor. mulher. já noite. enlaçar. Imaginam esperar qualquer coisa. o homem feio. numa suposta cidade. imaginam voltar para casa. passeio na praia. imaginam. Escuta a pequena hora noturna de comprensação. roupa. a constelação das formigas e usurários. homem. o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores. errar em objetos remotos e. mulher. VI Nos porões da família. apelo ao cassino. homem. cigarro.

já tarde. ira. ele embacia as luzes. nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos. minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado. desgosto desse chapéu velho. lesões que nenhum governo autoriza. no placo? no público? nas poltronas? há sobretudo o pranto no teatro. uma floresta. Há soluções. e secar ao sol. dores de classe. e é o mesmo. Há fortes bálsamos. E há mínimos bálsamos. intuições. de sangrenta fúria e plácido rosto. em poça amarga. da rua lodosa. do Estado. se engolfa no linóleo. Há o pranto no teatro. na roça madura. melancolias insubordináveis. um verme. meu olho que ri e despreza. VIII O poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras. VI Ou não se salva. E dentro do pranto minha face trocista. vai molhar. . recalcados dores ignóbeis. já confuso. reprovação. há bálsamos para cada hora e dor.e a herança do gado. vai minar nos armazéns. não obstante doem. que polui a essência mesma dos diamantes. símbolos e outras armas promete ajudar a destruí-lo como uma pedreira. o milho ondulante.

Bravos. Foguetes.. O poeta vai para o hotel. Máquinas fotográficas assestadas. Povo de chapéu de palha. uma ovação o persegue feito vaia. O poeta entra no elevador O poeta sobe O poeta fecha-se no quarto. Automóveis imóveis. O poeta toma um auto. Canta. Canta uma cigarra que ninguém ouve um hino que ninguém aplaude.Nota Social O poeta chega na estação.. no sol danado. Discursos. árvore que ninguém vê canta uma cigarra. Bandas de música. árvore banal. E enquanto ele faz isso como qualquer homem da terra. prisioneira de anúncios coloridos. O poeta está melancólico. O poeta está melancólico. . Numa árvore do passeio público (melhoramento da atual administração) árvore gorda. Bandeirolas abrem alas. O poeta desembarca.

aos quatro ventos. e. nem sabe a planta o vento que a visita. ajusta em mim seu terno de lamentos. nesta concha. nem era amor aquilo que se amava. ou se contrai e atrai. Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite. da úmida assombração que vem do norte e vai do sul.Nudez Não cantarei amores que não tenho. se regressa a mim que o apascentava. e já prospera cavando em nós a terra necessária para se sepultar à moda austera de quem vive sua morte? Não cantarei o morto: é o próprio canto. e vago. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada. tão estranho. o ouro suposto é nele cobre e estanho. se risse. Nem era dor aquilo que doía: ou dói. quanto mais fugi do que enfim capturei. em serpes irritadas vejo as duas. minha vida passarei. Não canto. e não se extingue? (Não cantarei o mar: que ele se vingue de meu silêncio. pois não sei. tais meus pecados. a ver a linha curva que se estende. estanho e cobre. estanho e cobre. quando já se foi? Que dor se sabe dor. nunca celebrei. que. é porque a brisa o trouxe. mas tão disperso. agora. Estanho. E já não sei do espanto. Minha matéria é o nada. ofertaria a pobres. e. e toda sílaba acaso reunida a sua irmã. além da pobre área de luz de nossa geometria. e o que não é maleável deixa de ser nobre. não mais visando . e o leva a brisa. Não cantarei o riso que não rira e que. quatro.) Que sentimento vive. sobre a relva debruçado. quando tive. Amador de serpentes.

Ó descobrimento retardado pela força de ver. que é apenas alma. enfim. no meu silêncio.aos alvos imortais. sob placa de estanho. (in A Vida Passada a Limpo) . repleto. sublimes ossuários sem ossos. essa nudez. a perfeita anulação do tempo em tempos vários. e se dissolve. ainda menos um calar de serenos desidratados. além dos corpos. configurado. O golfo mais dourado me circunda com apenas cerrar-se uma janela. a morte sem os mortos. um lembrar de raízes. E dou notícia estrita do que dorme. numa casta expressão de temor que se despede. sonho informe. E já não brinco a luz. a modelar campinas no vazio da alma. Ó encontro de mim.

O Amor Antigo O amor antigo vive de si mesmo não de cultivo alheio ou de presença. Mais ardente. O amor antigo tem raízes fundas. Nada exige nem pede. nunca fenece e a cada dia surge mais amante. porém. e resplandece no seu canto obscuro. o antigo amor. Ele venceu a dor. tanto mais velho quanto mais amor. . mas do destino vão nega a sentença. mas pobre de esperança. Nada espera. feitas de sofrimento e de beleza. Por aquelas mergulha no infinito. Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante. e por estas suplanta a natureza. Mais triste? Não.

tira os óculos dos homens. Daqui estou vendo o sangue que corre do corpo andrógino. seja como for. Cardíaco e melancólico. O amor bate na porta o amor bate na aorta. meu amor. não te atormentes. não chores. às vezes não sara nunca às vezes sara amanhã. suspende a saia das mulheres. Entre uvas meio verdes. é o amor.O Amor Bate na Aorta Cantiga de amor sem eira nem beira. fui abrir e me constipei. o amor. Pronto. Essa ferida. o amor ronca na horta entre pés de laranjeira entre uvas meio verdes e desejos já maduros. Daqui estou vendo o amor . o amor se estrepou. Certos ácidos adoçam a boca murcha dos velhos e quando os dentes não mordem e quando os braços não prendem o amor faz uma cócega o amor desenha uma curva propõe uma geometria. Meu bem. hoje tem filme de Carlito. Amor é bicho instruído. vira o mundo de cabeça para baixo. Olha: o amor pulou o muro o amor subiu na árvore em tempo de se estrepar. meu bem.

desapontado. ..irritado. Vejo muitas outras coisas que não ouso compreender. mas também vejo outras coisas: vejo beijos que se beijam ouço mãos que se conversam e que viajam sem mapa..

de descambar como no repetidíssimo ano passado. de sol pleno. As ruas. Embora sepultos. Não consigo evacuar o ano passado . O céu tem exatamente sabidos tons de amanhecer. E será sempre assim daqui por diante. os mortos do ano passado sepultam-se todos os dias. sempre do ano passado. e as pessoas. Todos são encontros passados. Escuto os medos. também as mesmas.O ano passado O ano passado não passou. mastigo o pão do ano passado. continua incessantemente. com iguais gestos e falas. conto as libélulas. Em vão marco novos encontros.

Que quer a nuvem? raptá-lo. Que quer a canção? erguer-se em arco sobre os abismos. Que quer o homem? salvar-se. Que quer o corpo? solver-se. . Que quer o peito? fechar-se contra os poderes do mundo para na treva fundir-se. delir memória de vida e quanto seja memória. Que quer o ouvido? Embeber-se de gritos blasfematórios até que dar aturdido. ao permeio de uma canção. Que quer a paixão? detê-lo.O Arco Que quer o anjo? Chamá-la O que quer a alma? perder-se Perder-se em rudes guianas para jamais encontrar-se Que quer a voz? encantá-lo.

entre gritos. a vida salva. Se uma tempestade de amor caísse! As mãos unidas. homens torcendo-se calados! A cidade é inexplicável e as casas não têm sentido algum. o ermo profundo. trens. telefones.. O boi é só. Ó solidão do boi no campo.O BOI Ó solidão do boi no campo. No campo imenso a torre de petróleo.. ó milhões sofrendo sem praga! Se há noite ou sol. Ó solidão do boi no campo! O navio-fantasma passa em silêncio na rua cheia. . Ó solidão do boi no campo. ó solidão do homem na rua! Entre carros. a escuridão rompe com o dia. Mas o tempo é firme. é indiferente.

a gente compõe de corpo e corpo a húmida trama.O chão é cama O chão é cama para o amor urgente. vamos à cama. E para repousar do amor. . amor que não espera ir para a cama. Sobre tapete ou duro piso.

crio cumplicidade. choro minha ansiedade. Quando digo “meu Deus”. afirmo a propriedade. Quando digo “meu Deus”. Não sei que fazer dele na microeternidade.O Deus de cada homem Quando digo “meu Deus”. Há mil deuses pessoais em nichos da cidade. Quando digo “meu Deus”. O rei que me ofereço rouba-me a liberdade. sou mais forte do que a desirmandade. grito minha orfandade. . Mais fraco.

É sempre no meu tédio aquele aceno. é sempre no presente aquele duplo. E sempre no meu sempre a mesma ausência. Sempre na minha firma a antiga fúria. é sempre no futuro aquele pânico.O enterrado vivo É sempre no passado aquele orgasmo. Sempre no mesmo engano outro retrato. É sempre no meu peito aquela garra. É sempre nos meus lábios a estampilha. Sempre dentro de mim meu inimigo. . É sempre nos meus pulos o limite. É sempre no meu trato o amplo distrato. Sempre no meu amor a noite rompe. É sempre no meu não aquele trauma. É sempre no meu sono aquela guerra.

Quero é o derrotado Cinema Odeon. quando for o caso. fora-de-moda Cinema Odeon. Fechado para sempre. Hart. o miúdo. A impossível (sonhada) bolinação. o Cinema Glória. William S. mais americano. sendo de outrem. maior. mesmo não divina. A espera na sala de espera. minha mocidade fecha com ele um pouco. As meninas-de-família na platéia. A primeira sessão e a segunda sessão da noite. A divina orquestra. pobre sátiro em potencial. (Amadurecerei um dia?) Não aceito. waldemarpissilândico. e até aplaudi-la. Não é possível. costumeira. Não amadureci ainda bastante para aceitar a morte das coisas que minhas coisas são. A matinê com Buck Jones.O fim das coisas Fechado o Cinema Odeon. na Rua da Bahia. tiros. tombos. mais isso-e-aquilo. Exijo em nome da lei ou fora da lei que se reabram as portas e volte o passado musical. sublime agora que para sempre submerge em funeral de sombras neste primeiro lutulento de janeiro de 1928. O jornal da Fox. por enquanto. . tramas.

A consoante esvanecida sem que a língua atingisse o alvéolo. A vida não chega a ser breve. O campo – havia. . O que jamais se esqueceria pois nem principiou a ser lembrado.O fim no começo A palavra cortada na primeira sílaba. havia um campo? irremediavelmente murcho em sombra antes de imaginar-se a figura de um campo.

harmonia do medo. Assim nos criam burgueses. Tenhamos o maior pavor. O medo. repuxos. E com asas de prudência Com resplendores covardes. soldado. Nosso destino. vermelhos rios Vadeamos. e calma. Meu companheiro moreno. Nascemos no escuro. Até a canção medrosa se parte. Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. receio De águas poluídas. Fiquei com medo de ti. Este poema. escritores. Estou com medo da honra. incompleto. fazia frio em São Paulo. De medo. Medrosos caules. De nos. . Outras vidas. Carteiro. Há as árvores. Nosso caminho: traçado. Ajudai-nos. com sua capa. Os mais velhos compreendem. lentos poderes do Láudano. Se transe e cala-se. Este célebre sentimento. Nevava. de vós. Vem ó terror das estradas. Nos dissimula e nos berça. Ruas só de medo. Duros tijolos de medo. Faremos casas de medo. Tanto produz: carcereiros. As existências são poucas... fomes. as fábricas. E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo.O medo Em verdade temos medo. Ventava. E o amor faltou: chovia. Edifícios. Atingiremos o cimo De nossa cauta subida. Por que morrer em conjunto? E se todos nós vivêssemos? Vem. Susto na noite. Fazia frio em São Paulo. ditador. Doenças galopantes. O medo com sua física. Vestimos panos de medo. Refugiamo-nos no amor. Muletas Do homem só. e de tudo.

adeus. o mundo. Depois da cidade.. Dançando o baile do medo. Fiéis herdeiros do medo.O medo cristalizou-os. Nossos filhos tão felizes. Depois do mundo. as estrelas. Recuando de olhos acesos. Eles povoam a cidade. Adeus: vamos para a frente.. . Estátuas sábias.

. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.O mundo é grande O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.

Usará bermuda e gola 'roulée'. Dispensa-se amor. bem-posto: . O homem será feito em laboratório. medido. Seja como for (até num bocejo) salta da retorta um senhor garoto. Queimará arruda indo ao canjerê.O novo Homem O Homem será feito em laboratório. ternura ou desejo. Chegará a Marte em seu cavalinho de ir a toda parte mesmo sem caminho. Vai abrindo a porta com riso maroto: "Nove meses." Quem já conheceu melhores produtos? A dor não preside sua gestação. é planificado. e do não objeto fará escultura. Jogará no bicho. beberá cerveja deliciadamente. Rirá como gente. fino cavalheiro em noventa idiomas. tirará retrato com o maior capricho. eu? Nem nove minutos. Nascerá bonito? Corpo bem talhado? Claro: não é mito. tudo exato. Ganhará dinheiro e muitos diplomas. muito mais perfeito do que no antigório. Nele. Será neoconcreto se houver censura. Será tão perfeito como no antigório. Caçará narceja e bicho do mato. Seu nascer elide o sonho e a aflição.

todos atraentes. Ministro? Encomende. desconhece a aliança de avô com seu neto. Quem comia doce já não come mais. acabou com o Homem Bem Feito. sem memória e sexo. papagaio. vence a lei do patriarca. feliz. Pai: macromolécula. por que não? pois rompeu o nexo da velha Criação. o 'standard' do rosto Duzentos modelos. livre. 'per omnia secula'. ao vê-los. (Escolher. eis que o homem feito em laboratório sem qualquer defeito como no antigório.o justo formato. Liberto da herança de sangue ou de afeto. Perdão: acabou-se a época dos pais. Uma ficha impressa a todos atende. mãe: tubo de ensaio e. nossos descendentes. Não chame de filho este ser diverso que pisa o ladrilho de outro universo.) Quer um sábio? Peça. . Sua independência é total: sem marca de família.

sede tão vária.Que dor! que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor que não se sabe como é feita: amor. . e esse cavalo solto pela cama.O quarto em desordem Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor. a passear o peito de quem ama. na quinta-essência da palavra. corpo. e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar a nuvem que de ambígua se dilui nesse objeto mais vago do que nuvem e mais defeso. verdade tão final. corpo! corpo.

imagem de que a vida flui como o Sena ou o São Francisco para depositar-se numa folha sobre a pedra do cais ou para sorrir nas telas clássicas de museu que se sabem contempladas pela tímida (ou arrogante) desinformação das visitas.Vai. soberba. a inaugurar-se todas as manhãs. conversas de café. o idílio jamais extinto sob as ideologias. E Alécio vai e vê o natural das coisas e das gentes. Para elas. risonha.O que Alécio vê A voz lhe disse (uma secreta voz): . Vê e reflecte o visto. . há um mirante iluminado no olhar de Alécio e sua objectiva. hino matinal à criação e a continuação do mundo em esperança. (Mas a melhor objectiva não serão os olhos líricos de Alécio?) Tudo se resume numa fonte e nas três menininhas peladas que a contemplam. o parque. ver.. ou ainda para dispersar-se e concentrar-se no jogo eterno das crianças. as crianças.da vida. o cão. o dia. puríssima foto-escultura de Alécio de Andrade.e último .. a graça umbilical do nu feminino. o traço da passagem das pessoas na rua. Ai. Alécio. em sua novidade não sabida. e todos captem por seu olhar o sentimento das formas que é o sentimento primeiro .

. não tem gelos. encontraram o coitadinho ( Natal) mais o boi mais o burrinho e lá em cima a estrelinha alumiando.O que fizeram do Natal Natal. Já nasceu o deus menino. mas as filhas das beatas foram dançar black-bottom nos clubes sem presépio. Não tem neves. Natal. As beatas foram ver. As beatas ajoelharam e adoraram o deus nuzinho mas as filhas das beatas e os namorados das filhas. O sino longe toca fino. Natal.

entre lençol e cortina ainda úmidos de sêmen. cama canção de cuna. dorme a última sirena ou a penúltima O pénis dorme. dorme.) É segredo de quem ama não conhecer pela rama gozo que seja profundo. encontrando o corpo e por ele navegando. americana fera exausta. fulva grinalda de tua vulva. elaborado na terra e tão fora deste mundo que o corpo. nirvana. noutro mundo: paz de morto.O que se passa na cama (O que se passa na cama é segredo de quem ama. sono do pénis. Ai. estes segredos de cama. dorme cândida vagina. nanana. atinge a paz de outro horto. menina. E silenciem os que amam. dorme onça suçuarana. puma. . Dorme.

O que viveu meia hora (A paixão medida) Nascer para não viver só para ocupar estrito espaço numerado ao sol-e-chuva que meticulosamente vai delindo o número enquanto o nome vai-se autocorroendo na terra. nos arquivos na mente volúvel ou cansada até que um dia trilhões de milénios antes do Juízo Final não reste em qualquer átomo nada de um hipótese de existência. .

não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez. perfeição e exílio na Terra. Não a jogue no espaço. não experimente. . Não brinque. Não a pronuncie.O seu santo nome Não facilite com a palavra amor. bolha de sabão. Não se inebrie com o seu engalanado som. Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).

E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio. (Desconfio que escrevi um poema. estarei morto.) . Os percevejos heróicos renascem. o mundo é cada vez mais habitado. Mas até lá. Inabitável. Não precisa de estômago para a digestão. Paletós abotoam-se por eletricidade.de verdadeira poesia O último trovador morreu em 1914 Tinha um nome que ninguém se lembra mais Há máquinas terrivelmente complicadas pra as necessidades mais simples.uma linha que seja .O Sobrevivente a Cyro dos Anjos Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade Impossível escrever um poema . Amor se faz pelo sem-fio. Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. Um sábio declarou que falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. felizmente. Se quer fumar um charuto quente aperte um botão.

Alguns. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. E os olhos não choram. mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. achando bárbaro o espetáculo. . que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. Tempo em que não se diz mais: meu amor. prefeririam (os delicados) morrer. as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Porque o amor resultou inútil. Ficaste sozinho. E nada esperas de teus amigos. a luz apagou-se. não abrirás. Tempo de absoluta depuração. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. As guerras. as fomes. E o coração está seco. já não sabes sofrer. A vida apenas. És todo certeza. sem mistificação.Os ombros que suportam o Mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Pouco importa venha velhice. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Em vão mulheres batem à porta.

Lá dentro. que brotou do tempo. na luz. não tem idade. não há nada.O tempo passa? Não passa O tempo passa? Não passa no abismo do coração. amar é o sumo da vida. florindo em canção. nos reduz a um só verso e uma rima de mãos e olhos. perdura a graça do amor. O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar. São mitos de calendário tanto o ontem como o agora. O meu tempo e o teu. e o teu aniversário é um nascer a toda hora. E nosso amor. pois só quem ama escutou o apelo da eternidade. . O tempo nos aproxima cada vez mais. transcendem qualquer medida. amada. Além do amor. Não há tempo consumido nem tempo a economizar.

quando nossa vida eram vagina e fálus entrançados. E eu queria tão pouco desses peitos. e da mais breve fantasia.Ó tu. sublime puta encanecida Ó tu. de saída. agora te recolhes aos selados desertos da virtude carcomida. . que me negas favores dispensados em rubros tempos. sublime puta encanecida. agora que estás velha e teus pecados no rosto se revelam. da garupa e da bunda que sorria em alva aparição no canto escuro Queria teus encantos já desfeitos re-sentir ao império do mais puro tesão.

enquanto Arcturo. claro enigma. Esse meu verbo antipático e impuro há de pungir. Eu quero pintar um soneto escuro. não desperte em ninguém nenhum prazer. no futuro. E que. há de sofrer.Oficina irritada Eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever. ao mesmo tempo saiba ser. . seco. não ser. Quero que meu soneto. tendão de Vênus sob o pedicuro Ninguém o lembrará: tiro no muro. cão mijando no caos. difícil de ler. abafado. se deixa surpreender. no seu maligno ar imaturo.

.....Oh minha senhora ó minha senhora Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de. tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu .. . não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh. esses seios são seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád...

as colheitas. o mundo era mais inteligível.Ordem Quando a folhinha de Mariana exata informativa santificada regulava o tempo. pairava certa graça no viver. os casamentos e até a hora de morrer. Hoje que é que pode? .

do Periquito. Cumpriram.Os assassinos Os assassinos vêm de longe. sem discutir. . das Baterias. Júri mais concorrido do que missa. A gameleira conta o que viu e foi um brilho desabando na entranha do inimigo. da Serra do Alves Sangue seco nos dedos. olhar duro. Estavam destinados a matar. na roupa o crime escrito. Os assassinos alçam a foice na curva da estrada. Mamaram leite turvo. Na escola eram diferentes. Aterra decidiu que matassem. Vém do Onça. As namoradas estranhavam seus beijos sem doçura.

E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta. achando bárbaro o espetáculo. És todo certeza. A vida apenas. E nada esperas de teus amigos. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Pouco importa venha velhice.Os Ombros Que Suportam O Mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Alguns. que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. Ficaste sozinho. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. Porque o amor resultou inútil. não abrirás. E os olhos não choram. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. já não sabes sofrer. prefeririam (os delicados) morrer. Tempo de absoluta depuração. . sem mistificação. as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Chegou um tempo em que não adianta morrer. a luz apagou-se. as fomes. As guerras. mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

O vento da noite gira no céu e canta. e ela não está comigo. e tiritam. Pensar que não a tenho. Eu a amei. Ao longe. Escrever. os de então. Em noites como esta eu a tive entre os meus braços. Seus olhos infinitos. Sentir que a perdi. Ouvir a noite imensa. Isso é tudo. Ela me amou. é verdade. e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo. a minha alma não se contenta com tê-la perdido. mas talvez a ame. E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. Ainda que esta seja a última dor que ela me causa. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. mas quanto a amei. mais imensa sem ela. é verdade. Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido. já não somos os mesmos. azuis. Ao longe alguém canta. e é tão longe o esquecimento.Os vinte poemas Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito. Sua voz. De outro. A mesma noite qeu fez branquear as mesmas árvores. Nós. A noite está estrelada e ela não está comigo. Já não a amo. por exemplo: "A noite está estrelada. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. É tão curto o amor. Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços. Minha alma não se contenta com tê-la perdido. Como para aproximá-la o meu olhar a procura. às vezes eu também a amava. Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. Meu coração a procura. Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la. . ao longe". Como antes dos meus beijos. e às vezes ela também me amou. os astros. Já não a amo. Será de outro. seu corpo claro.

saiu pela porta dos fundos. . Tateando na escuridão torceu o comutador e a electricidade bateu nas coisas resignadas.Papai Noel às avessas Papai Noel entrou pela porta dos fundos ( no Brasil as chaminés não são praticáveis). achou um queijo e comeu. Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos. Papai Noel voltou de manso para a cozinha. Papai entrou compenetrado. Os pequenos continuavam dormindo. Fez a trouxa e deu o nó. Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos soldados mulheres elefantes navios e um presidente da república de celulóide. Aquele quarto é o das crianças. Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo no interminável lenço vermelho de alcobaça. entrou cauteloso que nem marido depois da farra. o luar de Natal abençoava os legumes. apagou a luz. Na horta. Longe um gato comunicou o nascimento de Cristo. mas apertou tanto que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto. teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças ( no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada) e avançou pelo corredor branco de luar. Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.

Papel E tudo que eu pensei e tudo que eu falei e tudo que me contaram era papel. Papel quanto havia em mim e nos outros. E tudo que descobri amei detestei: papel. . papel de jornal de parede de embrulho papel de papel papelão.

amor. nunca mais. Pobre carne senil. em ti me enredo e afundo. Quero sempre invadir essa vereda estreita onde o gozo maior me propicia a amada. de sémen aljofrando o irreparável ermo. a exploração acabe. em plenitude o ser.Para o sexo a expirar Para o sexo a expirar. pelo orgasmo. Raiz de minha vida. amor . vibrando insatisfeita. a minha se rebela ante a morte anunciada. eu me volto. Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo. . deliciosa. a explicação do mundo. Hoje mesmo. Amanhã.o braseiro radiante que me dá. expirante. esvai-se-me o prazer antes que. quem sabe? enregela-se o nervo. Amor. e assim possa eu partir.

Como a vida é louca estúpida. Como a vida é bela sendo uma pantera de garra quebrada. Como dói a vida quando tira a veste de prata celeste. Como a vida é muda. mouca e no entanto chama a torrar-se em chama. Como a vida é senha de outra vida nova que envelhece antes de romper o novo. Como a vida ri a cada manhã de seu próprio absurdo e a cada momento dá de novo a todos uma prenda estranha. Como a vida é nuda. Como a vida é outra sempre outra. Como a vida é tudo. Tudo que se perde mesmo sem ter ganho. outra não a que é vivida. esse lobisomem. Como a vida é nada. Como a vida é isto misturado àquilo. Como a vida é forte em suas algemas.Parolagem da vida Como a vida muda. Como a vida é vida ainda quando morte esculpida em vida. Como a vida chora de saber que é vida e nunca nunca nunca leva a sério o homem. Como a vida joga de paz e de guerra .

Como a vida vale mais que a própria vida sempre renascida em flor e formiga em seixo rolado peito desolado coração amante. Como a vida toca seu gasto realejo fazendo da valsa um puro Vivaldi. vidamor! . E como se salva a uma só palavra escrita no sangue desde o nascimento: amor.povoando a terra de leis e fantasmas.

Mãe. luz que não se apaga quando sopra o vento e chuva desaba. será pequenino feito grão de milho. velho embora. Por que Deus se lembra . na sua graça. baixava uma lei: Mãe não morre nunca. puro pensamento. água pura. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio.Para Sempre Por que Deus permite que as mães vão se embora? Mãe não tem limite. mãe ficará sempre junto de seu filho e ele.mistério profundo de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo. . veludo escondido na pele enrugada. é eternidade. é tempo sem hora. ar puro.

ou sim o verso? Eis-me perdido no universo do dizer. .Passatempo O verso não. verso. sabendo embora que o que lavra só encontra meia palavra. que. tímido.

Minérios musicalizam-se em vogais. Palavras assumem código mineral. Ir de uma a outra. Numa. Pastor . recolhendo O fubá. descansar de outra.Patrimônio Duas riquezas: Minas e o vocábulo. o ferro. o substantivo. o som.

à erva seca. florindo e reflorindo. Em Iguatu. pecador. Fazei chover. meu cronista e meu cristão: . aquela coisa. bem brasileiro. tão gravata-e-colarinho.Prece do brasileiro Meu Deus. soa qual cantata de Bach em vossa glória e dá vida ao boi. Senhor. tão vossa excelência? O você comunica muito mais e se agora o trato de você. e desespero rodando nas estradas entre esqueletos de animais. quase que maldito mas amizade é isso mesmo: salta o vale. Parambu. as revoltosas? Fosse eu Vieira (o padre) e vos diria. Senhor.. mas sou vosso fã omisso. Meu querido Jesus. o abismo do infinito. o outro. com carinho botou em verso: “meu Jesus Cristinho”. que se veste de humildade e esperança e vos suplica: Olhai para o Nordeste onde há fome. não ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre) mas ao Deus que Bandeira. vamos papeando como dois camaradas bem legais. malcriado. aquela que. e já! numa certeira ordem às nuvens. ao bode. muitas e boas. Fazei. Baturité.. Comigo é na macia. Desculpai vosso filho. chover a chuva boa. puro. um. mas de qualquer modo sempre é uma lembrança. Ou desobedecem a vosso mando. armazéns arrombados e – o que é pior – não tinham nada. só me lembro de vós para pedir. sobressaltos. E mudo até o tratamento: por que vós. que é que há? Faz sentido deixar o Ceará sofrer em ciclo a mesma eterna pena? E você me responde suavemente: Escute. Tauá (vogais tão fortes não chegam até vós?) vede as espectrais procissões de braços estendidos. ficamos perto. rogo. no veludo/lã e matreiro. o muro. assaltos. Senhor. ao pobre sertanejo destruído no que tem de mais doce e mais cruel: a terra estorricada sempre amada.

tá no México batendo pelos músculos de Gérson. Pois é. toda vida.. minha primeira pátria (a segunda é a Bahia) desertos se transformam em jardins em pomares. 30-5-1970 . a calma de Leão e tudo mais que liga o meu país e uma bola no campo e uma taça de ouro. Disfarcei e sorri. agora. mais urgente. que manda toneladas de pacotes à espera de haver fome. a ronha de Pelé. você lê os jornais. tão roubada em seu sonho e seu ardor que nem sei como feche a minha crônica. a unha de Tostão. mais sério. meu brasileiro. você sabe. Tudo está preparado para a cena dolorosamente repetida no mesmo palco. Meu coração. meu caro. a cuca de Zagalo. Do contrário ficará a Nação tão malincônica. antes fechadas.essa cantiga é antiga e de tão velha não entoa não. No entanto. até um livro de vez em quando lê se o Buzaid não criar problema: Em Israel. em riquezas. Dê um jeito.. e faça que essa taça sem milagres ou com ele nos pertença para sempre. Vamos mudar de assunto. Você. confesso. ó irmãozinho. Eu ia lhe falar noutro caso. Fiquei. muito encabulado. O mesmo drama. mas pedir. pedir sempre ao bom amigo é balda que carrego aqui comigo. em fontes. assim seja. vai ao cinema. Escute aqui. Você tem a Sudene abrindo frentes de trabalho de emergência. Tem a ONU. não acha que já é tempo de aprender e de atender àquela brava gente fugindo à caridade de ocasião e ao vício de esperar tudo da oração? Jesus disse e sorriu. meu velho. Fiquei calado. E não é por milagre: obra do homem e da tecnologia.

é preciso ter mãos pálidas e anunciar o FIM DO MUNDO. é preciso crer em Deus. é preciso pagar as dívidas. é preciso estar sempre bêbado. é preciso esquecer fulana. é preciso odiar Melquíades. é preciso substituir nós todos. é preciso colher as flores de que rezam velhos autores. é preciso ler Baudelaire. é preciso comprar um rádio. é preciso suportar Antônio. é preciso não assassiná-los. É preciso salvar o país. É preciso estudar volapuque.Poema da Necessidade É preciso casar João. É preciso viver com os homens. .

As água ficaram tintas de um sangue que não descorava e os peixes todos morreram. . Mas uma luz que ninguém soube dizer de onde tinha vindo apareceu para clarear o mundo.Poema da Purificação Depois de tantos combates o anjo bom matou o anjo mau e jogou seu corpo no rio. e outro anjo pensou a ferida do anjo batalhador.

Para que tanta perna. um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai. meu Deus. Meu Deus. . por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. A tarde talvez fosse azul. Porém meus olhos não perguntam nada. Tem poucos . pergunta meu coração. Mundo mundo vasto mundom. O homem atrás do bigode é sério. raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. não houvesse tantos desejos. Carlos! ser gauche na vida.Poema de Sete Faces Quando nasci. Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo. simples e forte. Quase não conversa. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. seria uma rima. não seria uma solução. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres.

A pena escreve. O marido está matando a mulher. A polícia dissolve o meeting. A mulher ensangüentada grita. Ladrões arrombam o cofre. . Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.Poema do Jornal O fato ainda não acabou de acontecer e já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia.

A orelha pouco explica de cuidados terrenos.Poema-orelha Esta é a orelha do livro por onde o poeta escuta se dele falam mal ou se o amam. Tudo vivido? nada. Uma orelha ou uma boca sequiosa de palavras? São oito livros velhos e mais um livro novo de um poeta ainda mais velho que a vida que viveu e contudo o provoca a viver sempre e nunca. variante de bom-dia. simples estar-no-mundo.) Não me leias se buscas flamante novidade ou sopro de Camões. e brincos de palavra. que tudo é o vasto dia em seus compartimentos nem sempre respiráveis e todos habitados enfim. Oito livros que o tempo empurrou para longe de mim mais um livro sem tempo em que o poeta se contempla e se diz boa-tarde (ensaio de boa-noite. mas de tal jeito urdidos o jogo e a confissão que nem distingo eu mesmo o vivido e o inventado. e a poesia mais rica . um não-estar-estando. Aquilo que revelo e o mais que segue oculto em vítreos alçapões são notícias humanas. Nada vivido? Tudo.

é um sinal de menos. .

.Poema que aconteceu Nenhum desejo neste domingo nenhum problema nesta vida o mundo parou de repente os homens ficaram calados domingo sem fim nem começo. A mão que escreve este poema não sabe que está escrevendo mas é possível que se soubesse nem ligasse.

e o lamento imperceptível de alguém que perdeu no jogo enquanto a banda de música vai baixando.Poema Patético Que barulho é esse na escada? É o amor que está acabando. É a lua imóvel sobre os pratos e os metais que brilham na copa. Que barulho é esse na escada? É a virgem com um trombone. o bispo com uma campainha e alguém abafando o rumor que salta de meu coração. a criança com um tambor. . Que barulho é esse na escada? É a torneira pingando água. Que barulho é esse na escada? É Guiomar que tapou os olhos e se assoou com estrondo. baixando de tom. é o homem que fechou a porta e se enforcou na cortina.

vivo. . Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira.Poesia Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. Ele está cá dentro e não quer sair. No entanto ele está cá dentro inquieto.

.Política Literária A Manuel Bandeira O poeta municipal discute com o poeta estadual qual deles é capaz de bater o poeta federal. Enquanto isso o poeta federal. tira ouro do nariz.

e nas grutas subsidiárias. salvo para rezar ou visitar parentes. E só Dasdores conhece o lugar de cada peça. este carneirinho tem uma perna quebrada. pois moça não deve sair de casa.Presépio Dasdores (assim se chamavam as moças daquele tempo) sentia-se dividida entre a Missa do Galo e o presépio. e desembrulhá-las é a primeira satisfação entre as que estão infusas na prática ritual da armação do presépio. delibera e providencia mil coisas. o presépio não ficaria armado antes de meia-noite e. relva. lenta como costuma fazê-lo no interior. mas parece a Dasdores que. não veria o namorado. em que. e ai do presépio que cede a novidades. a secreta é a mais ardilosa. ou.. corre. Festas são raras. veio encontrá-la completamente desprevenida. e Dasdores prefere ver-se morta a ceder-lhes a responsabilidade plena da direção. quem sabe de que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são confusos e perigosos. Portanto. prega esse botão para sua mãezinha. no Menino Jesus. meu bem. Nem todos os animais estão perfeitos. alegre à força de repetido. Seu nome. o Menino deve querer-lhe mais. sim. e eis a que ocorre na espécie. Dasdores passa os dedos. As caixas estão depositadas no chão ou sobre a mesa. cães e pinheiros. as dálias já foram regadas hoje?" "Você viu. Através de um sentimento nebuloso. assim mutilado e dolorido. Dasdores. Dasdores sente-se livre em meio às tarefas. ó pais. sente neles a macieza da mão de Abelardo. Jamais lhes será dado tocar. Das mil maneiras de amar. se se dedicasse ao segundo. a noite caminha. mas porque o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e noite. que há de circundar a manjedoura.e sempre acha folga para pensar em Abelardo. determinado há quase dois mil anos. Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos. desafia o incauto: "Agarra-me!" Sucede que ninguém mais. a qual por sua vez participa obscuramente da natureza da família.. Nos pastores. O melhor seria que não amolassem. Dasdores sabe combinar o movimento dos braços com a atividade interior. e não há limites para o humano. . Dasdores. escrever as cartas de todos." Dasdores multiplica-se. mas antes atrapalham. não porque a casa seja pobre. que é antes uma fazenda crescida. O presépio está por armar. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o trabalho. afigura-se-lhe que tudo é uma coisa só. porque cada bicho.É uma conspiradora . Mas é um engano supor que se deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. pelas conservas. não guardam proporção com os cameleiros que os tangem. na Virgem e em São José. que se poderia consertar. Os camelos. que não perdoa. Dasdores nunca tem tempo para nada. se não ocupar todos os minutos. Os pais exigem-lhe o máximo. velar pelos doces de calda. Todos os irmãos querem colaborar. não chegou a esta nossa cidade. quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?" "Ah. se o foi. um cincerro tilinta: é a tropa. ressoa pela casa toda. manejar agulha e bilro. pode dispor o presépio. fumando ou alisando o cabelo com brilhantina. . é impedir que se formem. porém. e mesmo no mais calmo povoado o tempo dá um salto repentino. Se fosse à igreja. por exemplo. Cabras passeiam nas ruas. Em seu coração ela voa para o sobrado da outra rua. Alguma coisa mais do que resignação sustenta as donas-de-casa. e Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha a paisagem de água e pedras. pelos camelinhos. e participam da natureza dos animais domésticos. com ternura. que se diriam jaulas. cada musgo tem seu papel no nascimento do Menino. arte comunicada por uma tia já morta. Ë difícil ver namorado na rua. está Abelardo. Esta véspera de Natal. salvo esta moça. O cinema ainda não foi inventado. bastante miúdos. Se não trabalhar sempre. "Dasdores. mas são presente da tia morta. E viúvas espiam de janelas. e até mesmo extrai delas algum prazer. mas Dasdores é íntima do relógio grande da sala de jantar. A total ocupação varre o espírito.

preferência a este último. e um pouco por toda parte.sentia. na muda interrogação da mãe. pois no fundo da caminha de palha suas mãos acariciavam o Menino. Ou nele se insinuou o prazer da missa? Ou o medo de que o primeiro. "Agarra-me! Agarra-me!" Nas cabeças que espiam pela porta entreaberta. os números gelam. mas o que a pele queria sentir . ô de casa! amigas que vêm combinar a hora de ir para a igreja. e que Abelardo fumava na outra rua. Se nos esquecermos dele. depressa -. o adro já quase deserto. Dasdores não pertence a essa raça torturada e criadora. e o tempo dispara de novo. e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo.quem botou! . a matar-vos. o ponteiro imobiliza-se. no sentimento de que a vida é variada demais para caber em instantes tão curtos. depois do Menino. aqueles que. viesse a impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa. ou subtrai-se. O dono desta noite. mesmo sensuais. encontrar a igreja vazia. numa excitação aguda. como um prestidigitador furta um ovo. e os olhos acesos.depressa. interrogando o relógio. . ir correndo ladeira acima. é o relógio.há uma previsão de malogro iminente. Não assim os serenos. Dasdores não o saboreia por inteiro. Começa a fazê-lo. prolongando-se. como também percebe esse rosto de bigode. de circunstâncias adversas. este ano não haverá Natal.Alguém bate palmas na escada. ao misturar o sagrado ao profano. talvez pule meia hora. se nos pusermos a contemplá-lo. acelerar o ritmo da narrativa. figura no ramo também delicado. mas impotente. Vão-se as amigas. seus quinze minutos. Entram e acham o presépio desarranjado. correi ladeira acima. na sala em desordem. de espalhar no lago de vidro os patinhos de celulóide.era um calor humano. calma e preocupada. do passado a tia repete sua lição profunda. Pronto. Nem namorado. e é pura placidez.ardendo na areia do presépio. no estouvamento dos irmãos. decifrando os olhos de Abelardo. de fixar a estrela. mas. dos fantasistas. a pele morena de Jesus. porque o mundo é cruel e as histórias também costumam sêlo. juntando na imaginação os dois deuses. Nada fará com que erre. Aqui desejaria. sair com as amigas . seus cinco minutos. levantar os muros de Belém. Deus me perdoe . colocando os pastores na posição devida e peculiar à adoração. já sabeis de quem. e Dasdores. o mistério prestigioso do ser de Abelardo. Quando alguém dispõe apenas de uns poucos minutos para fazer algo de muito importante e que exige não somente largo espaço de tempo mas também uma calma dominadora . Saber que a vida parou seria reconfortante para Dasdores. Mas seria preciso atribuir-lhe. A mão continua tocando maquinalmente nas figuras do presépio. matéria preciosa ("Agarra-me! Agarra-me!"). não braços e pernas suplementares. Esta visita come mais tempo. mas continuai a correr. sôfregos. Correi. dispondo-as onde convém. sua vontade se concentra. que querem se debruçar sobre o caminho de areia antes que essa esteja espalhada. e este vai mastigando seus minutos. vestir-se violentamente. a auréola que os caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo. e a cabeleira lustrosa. para voltar duas horas depois. talvez. perfeito. E a noite se fundirá num largo pranto sobre o travesseiro. cismarenta e repartida. no calor que começa a fazer apesar das janelas escancaradas . está alterado. as mãos de Abelardo. dissimulados nas ramagens do papel da parede. nele vê apenas o rosto de Abelardo. e o trabalho começa a surgir. e nenhum Abelardo. sem perspectiva de paz ou conciliação. e sim outra natureza.algo de muito importante e que não pode absolutamente ser adiado se esse alguém é nervoso. dando. o prazer de distribuir as figuras. a vida parou rigorosamente. prover Dasdores com os muitos braços de que ela carece para cumprir com sua obrigação. Mas Dasdores continua. e aquele cigarro . se policiam. diferente da que lhe coube. Entretanto. que assim lograria folga para localizar condignamente os três reis na estrada.

Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis. se houvesse um cruzador louco. alguns se inserem fatigados no elevador e vem cá em cima respirar a brisa do oceano. O mundo é mesmo de cimento armado. Certamente. fundeado na baía em frente da cidade. bebemos cerveja e olhamos o mar.... o que é privilégio dos edifícios. a vida seria incerta. Sabemos que cada edifício abriga mil corpos labutando em mil compartimentos iguais. Às vezes.. O edifício é sólido e o mundo também.Privilégio do mar Neste terraço mediocremente confortável. Como a esquadra é cordial! Podemos beber honradamente nossa cerveja. improvável. . Sabemos que nada nos acontecerá.

em estado de dicionário. rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. Ei-los sós e mudos. Para ele. Não há criação nem morte perante a poesia. cristal não era. chuva e noite. Não percas tempo em mentir. não indagues. esse excelente. fadiga e esperança nada significam. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação Que se dissipou. . Não te aborreças. não era poesia Que se partiu. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. os incidentes pessoais não contam. vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo. vossas mazurcas e abusões. há calma e frescura na superfície intata. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. tua careta de gozo ou dor no escuro são indiferentes. deixa-a em paz. O que pensas e sentes.Procura da poesia Não faças versos sobre acontecimentos. Diante dela. Tua gota de bile. As afinidades. Teu iate de marfim. Não cantes tua cidade. é algo imprestável. Não me reveles teus sentimentos. Não dramatizes. não invoques. tão infenso à efusão lírica. não aquece nem ilumina. Penetra surdamente no reino das palavras. isso ainda não é poesia. Estão paralisados. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto. Não faças poesia com o corpo. Não é música ouvida de passagem. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem. a vida é um sol estático. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. teu sapato de diamante. mas não há desespero. os aniversários. completo e confortável corpo.

Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. antes de escrevê-los. se obscuros. . Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.Convive com teus poemas. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não adules o poema. Calma. pobre ou terrível que lhe deres Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. Tem paciência. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. se te provocam. Chega mais perto e contempla as palavras Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. sem interesse pela resposta. Ainda úmidas e impregnadas de sono. Não colhas no chão o poema que se perdeu. as palavras.

pois todos os amigos são enganados. Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver. . de mato depois da chuva. de madrugada. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e. Pode já ter sido enganado. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos. basta ter sentimento. de poças d´água e de caminhos molhados. dos anseios e das realizações. Deve ter amor. basta ter coração. de orvalhos. do canto dos ventos e das canções da brisa.Procura-se um amigo Não precisa ser homem. Tem de ter ressonâncias humanas. de beira de estrada. das estrelas. Não é preciso que seja puro. Não é preciso que seja de primeira mão. precisa saber falar e calar. para que tenha a consciência de que ainda vivo. um grande amor por alguém. Deve gostar de ruas desertas. sobretudo saber ouvir o que as palavras não dizem. de pássaros. de grandes chuvas e das recordações da infância. deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Preciso de um amigo para não enlouquecer. no caso de assim não ser. basta ser humano. da lua. que se comova quando chamado de amigo. dos sonhos e da realidade. mas não deve ser vulgar. Tem que gostar de poesia. Preciso de um amigo para parar de chorar. do sol. Deve guardar segredo sem se sacrificar. nem é imprescindível que seja de segunda mão. ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. não porque a vida é bela. Que bata nos ombros sorrindo e chorando. Que saiba conversar de coisas simples. seu principal objetivo deve ser o de amigo. mas que me chame de amigo. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. de se deitar no capim. mas porque já tenho um amigo. nem que seja de todo impuro. para contar o que vi de belo e triste durante o dia.

tempo fugindo. por milagre.É. acciona o motor. na manhã ensopada. um desinformante faz ironia: . onde ia receber o pai. você não trouxe seu pai? Aqui ele não apareceu. Botar também no rádio. Foi naquela noite de fevereiro em que o Rio. o senhor encontra seu pai. porém não impossível. Pela primeira vez alguém .Numa sessão espírita. temendo o pior. rumo ao aeroporto do Galeão.Eu só desejo que um dia o senhor se veja na minha situação. na Praça Mauá. . Ali está uma garota de chapeuzinho verde. rumo ao Galeão. volta para casa. eu. Quem dorme numa dessas? O rapaz espera os escritórios se abrirem. mudos. ainda sorri para a gente. a pergunta continua sem sorte: . de bonificação.Uê.Como não podem? Então sabem que o avião chegou e não sabem quem veio nele? . o avião chegou. Chile? A palavra soava diferente. De novo. melhor. O pai chegando. chegou? . fazendo a eterna pergunta. mulher e filhos na maior aflição. E o pai que deveria chegar às 20 horas. todas aquelas pessoas em prisões de lata e vidro. Sem dormir. Meu pai. meu pai. É idoso. Mora em outro Estado. As autoridades sabiam tanto quanto a empresa. isto é. claro. Pelo caminho. O jeito é esperar que a manhã traga serena tranquilidade. O resto. para ouvir isto de alguém. Mas o filho já demandava outro balcão.. ninguém avançava. mais uma vez.E a lista de passageiros? .Não sabemos. mas sobre seu pai não podemos informar. que voltava do Chile. o professor X. existe moça de chapeuzinho verde. e sentir vontade de fazer com ele o que eu sinto vontade de fazer com o senhor. O pai chegou? Ele não está familiarizado com esta bagunça em forma de cidade. um espaço suficiente para manobra. transbordou de seu nome. menos por iniciativa própria do que por imposição dos motoristas que vinham atrás. naturalmente. e ninguém sabia dizer-lhe onde estava. fada ou coisa semelhante. na cabeça impotente. que descobre o perdido e. Como é que o pai sairá desta? Inútil pensar nessas coisas. .Meu pai? .. o pai vindo do Chile. Que fazer? Os telefones. mas em sentido inverso ao do Galeão. O rapaz. No Aeroporto. e eis senão quando. nada. Nisto se abre.. . A duras penas.Desculpe..Bem. porém elas se pensam por si.Não sabemos se ele desembarcou ou não. . Madrugada alta quando ele chega. os desabrigos. .Procura-se um pai O rapaz dirigia seu carro pela Avenida Brasil. Chuva matraqueando. que pega também por milagre. O rapaz expõe-lhe o problema do pai. trágicos sinais deixados pelo temporal.. Na rua congestionada. e a cidade voltou a padecer os desmoronamentos.Meu pai. O trânsito ainda está difícil. então? .Está com quem. O Galeão fora do mapa. Classificado no Jornal do Brasil: Perdeu-se um pai na Ilha do Governador. Felizmente para as histórias confusas de hoje.. Como pôde sumir assim? Aconselhamme a ir à Polícia Marítima e Aérea. como se contivesse não sei que partícula perigosa.Não está connosco. . Corre ao escritório da companhia de aviação: . imagina-se. não sabemos. as angústias e as mortes injustas de uma enchente. Nem podia aparecer. se é que estava em algum lugar. Mas daqui não saio sem vasculhar todo o Aeroporto. com esperança de aeroporto e salvamento. sem saber como. Um informante.

ouvia. considerava e buscava resolver o problema. Meu pai! Que susto! Que desinformação! Que alívio! Etc.Para lugar nenhum. Volte e há de encontrá-lo. com passaporte e tudo. até o temporal passar. Não é que estava? Calmo. Felizmente. contando à nora e aos netos uma noite em banco de aeroporto. . O rapaz lembrou-se de Londres.E para onde o levaram. . Tivera vontade de telegrafar para Londres: Procurem meu pai na enchente aqui no Brasil. resignado. Deve ter dormido por aí. e na manhã seguinte a polícia o chamava para receber de volta os objectos recolhidos por um serviço policial que só não resolve o caso de quem perdeu a memória. repito. valia tanto quanto a Metropolitan Police. O nome dele está na relação de passageiros desembarcados.A essa hora já deve estar lá. que não aparece . sozinha. à espera de o toró passar. . . Ela saiu e voltou. com outro sorriso no rostinho de relações-públicas.Seu pai chegou sem novidade. . a moça de chapeuzinho verde.Mas não apareceu em casa. onde perdera duas pastas num táxi.

Um aluno dorme. . cansado das canseiras desta vida.Professor O professor disserta sobre ponto difícil do programa. O professor vai sacudi-lo? Vai repreendê-lo? Não. O professor baixa a voz com medo de acordá-lo.

Raimundo morreu de desastre. João foi para os Estados Unidos. Teresa para o convento. Maria ficou para tia. Pinto Fernandes que não tinha entrado na históoria. .Quadrilha João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. Joaquim se suicidou e Lili casou com J.

despetalam-se as pétalas do ânus à lenta introdução do membro longo. Mulher. recua. Ele avança.Quando desejos outros é que falam Quando desejos outros é que falam e o rigor do apetite mais se aguça. há no teu âmago Ocultas melodias ovidianas. . dupla mulher. e a via estreita vai transformando em dúlcida paragem.

corpo verdade tão final. corpo. e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar a nuvem que de ambígua se dilui nesse objecto mais vago do que nuvem e mais indefeso. . sede tão vária a esse cavalo solto pela cama a passear o peito de quem ama. corpo! Corpo.Quarto em desordem Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor. Que dor! que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor que não sabe como é feita: amor na quinta-essência da palavra.

Sou coisa inanimada. O quarto escuro em mim habita. Eu mesmo. bicho preso em jaula de esquecer. Estou sem olhos. Sem óculo. fico outro ser. o olfato. . É quarto feito pensadamamente para me intrigar. de mim desconhecido. Enoiteço. sou o quarto escuro. O que nele se põe assume outra matéria e nunca mais regressa ao que era antes. o ouvido.Quarto Escuro Por que este nome. Os antigos condenam-me a esta forma de castigo. Aqui decerto guardam-se guardados sem forma. Sem lucarna. Exalo-me. que se afastou de movimento e fome. Esta pesada cobertura de sombra nega o tato. se transponho o umbral enigmático. sem sentido. ao sol? Tudo escurece de súbito na casa.

No momento anterior e no seguinte. Quero ser amado por e em tua palavra nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso. Ouvindo-te dizer: Eu te amo. verdade fulminante que acabas de desentranhar. . como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me amas que me amas que me amas. dementes apagas teu amor por mim. isto cada vez mais. amor feito som vibração espacial. a perfeita maneira de saber-se amado: amor na raiz da palavra e na sua emissão. inexoravelmente sei que deixaste de ama-me. Do contrário evapora-se a amação pois ao dizer: Eu te amo. amor saltando da língua nacional. Se não me disseres urgente repetido Eu te amoamoamoamoamo. que nunca me amaste antes. no momento. No momento em que não me dizes: Eu te amo. isto sempre.Quero Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. Não exijo senão isto. creio. que sou amado. Exijo de ti o perene comunicado.

essa coleção de objetos de não-amor.eu me precipito no caos. .

justiça entre os homens e as nações. tem de fazê-lo novo. recompensa. se compreende. consciente. mas novo nas sementinhas do vir-a-ser. que de tão perfeito nem se nota. tem de merecê-lo. eu sei que não é fácil. se passeia. Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo. se trabalha. meu caro. você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita. . direitos respeitados. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade. começando pelo direito augusto de viver. mas tente. ou da cor da sua paz. se ama. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. remendado às carreiras. mas com ele se come. você.RECEITA DE ANO NOVO Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris. não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. espontâneo. experimente. liberdade com cheiro e gosto de pão matinal. novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome.

Entretanto. amada. assim o amor Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas. Queria talvez . juro Sadicamente massacrar-se Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam Desde a hora do nascimento. Mal entendi. na infantil procura do Outro. Feri-me pelas próprias mãos. O Outro que eu me supunha. Não queimava. ele chegou de manso e me envolveu Em doçura e celestes amavios.sem o perceber. Apareceste para ser o ombro suave Onde se reclina a inquietação do forte (Ou que forte se pensa ingenuamente). tonto que fui. não pelo amor Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam Ao se juntarem aos meus. Não pedias nada.Reconhecimento do Amor" Amiga. Trazias nos olhos pensativos A bruma da renúncia: Não querias a vida plena. Amiga. como são desnorteantes Os caminhos da amizade. Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida. Descansei em ti meu feixe de desencontros E de encontros funestos. esse sorriso. seu formidável Poder de penetrar o sangue e nele imprimir Uma orquídea de fogo e lágrimas. amada amiga. desde aquele momento intemporal Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas No caos universal Como nos enganamos fugindo ao amor! Como o desconhecemos. Ou mais longe.senti que éramos um só. sorria. talvez com receio de enfrentar Sua espada coruscante. Não reclamavas teu quinhão de luz. Quando . o Outro que te imaginava. Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História.por esperteza do amor . E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda. . não siderava.

Levou tempo. . fixo e solar. O vôo do Pássaro Azul. Agora. para que o Eu renunciasse à vacuidade de persistir. Pois já nem somos nós. Todas as imposturas da razão e da experiência. eu sei. circunstâncias. a transparência da vida. amada minha para sempre.Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos. Para existir em si e por si. E se confessasse jubilosamente vencido. Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar A melodia. referências temporais. À revelia de corpos amantes. Até respirar o júbilo maior da integração. a paisagem. E a pura essência em que nos transmutamos dispensa Alegorias. Imaginações oníricas. a aurora boreal. somos o número perfeito: UM. As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos. Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.

senão contentamento de escrever.* . pasto de poesia.MG . e nada resta. se evapora no fundo do teu ser? . enquanto o tempo. mesmo. do que escreves e te forçou ao exílio das palavras. Mas. que sutil interpretavas. pasto dos vulgares.Remissão Itabira do Mato Dentro . pesares de quê? perguntaria. se o que dorme na base da elegia vai correndo e secando pelos ares.1987 Tua memória.1902 * . tua poesia. em suas formas breves ou longas. e seus pesares. vão se engastando numa coisa fria a que tu chamas: vida. se esse travo de angústia nos cantares.

bateu à velha porta. . inutilmente. Bateu. o pobre amor estava putrefato. eu de mim era presente. Muito embora o escutasse. Não pude agasalhá-lo :ofendia-me o olfato.Restos O amor.

1987 Meu ser em mim palpita como fora do chumbo da atmosfera constritora. me devora quanto é pura.MG . Sou eu ardendo em mim. tornada agora. Que face antiga já se não descora lendo a efígie do corvo na da aurora? Que aura mansa e feliz dança e redoura meu existir. qe elabora uma alquimia severa. de morte imorredoura? Sou eu nos meus vinte aons de lavoura de sucos agressivos.Retorno Itabira do Mato Dentro .* . Meu ser palpita em mim tal qual se fora a mesma hora de abril. .1902 * . a cada hora. fauna. sou eu embora não me conheça mais na minha flora que.

pouco. .de cigarros. de duas folhas de grama. Mas de tudo fica um pouco. Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana. mas por que não ficaria um pouco de mim? no trem que leva ao norte. poucos véus rotos pouco. Da rosa ficou um pouco Ficou um pouco de luz captada no chapéu. um pouco de mim em Londres. Pois de tudo fica um pouco. Da ponte bombardeada. ficou um pouco de ruga na vossa testa. um pouco nos muros zangados. nas folhas.vazio . ficou um pouco. De teu áspero silêncio um pouco ficou. dragão partido. mudas. do maço . retrato. que sobem.Resíduo De tudo ficou um pouco Do meu medo. Ficaram poucas roupas. flor branca. Se de tudo fica um pouco. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco (muito pouco). Do teu asco. nos anúncios de jornal. Dos gritos gagos. no barco. muito pouco.

. o esquecido e sob os espetáculos e sob a morte escarlate e sob as bibliotecas. meio sal e meio álcool. fica um pouco. alvéolo. De tudo ficou um pouco. de Abelardo. as igrejas triunfantes e sob tu mesmo e sob teus pés já duros e sob os gonzos da família e da classe. vento nas orelhas minhas. e sob as ondas ritmadas e sob as nuvens e os ventos e sob as pontes e sob os túneis e sob as labaredas e sob o sarcasmo e sob a gosma e sob o vômito e sob o soluço. este segredo infantil.. De tudo ficou um pouco: de mim. um pouco: não está nos livros. de tudo ficou um pouco. gemido de víscera inconformada. Não muito: de uma torneira pinga esta gota absurda. Oh abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória.. cápsula de revólver. Mas de tudo. e minúsculos artefatos: campânula. o cárcere. De tudo fica um pouco. de aspirina. os asilos. este pescoço de cisne. Às vezes um botão. E de tudo fica um pouco. este vidro de relógio partido em mil esperanças.um pouco de mim algures? na consoante? no poço? Um pouco fica oscilando na embocadura dos rios e os peixes não o evitam... Cabelo na minha manga. Às vezes um rato. salta esta perna de rã. de ti. terrível. simplório arroto. fica sempre um pouco de tudo.

Aqui amanhece como em qualquer parte do mundo mas vibra o sentimento de que as coisas se amaram durante a noite. E despertam mais jovens. Cidade feita de montanha em casamento indissolúvel com o mar. Um riso claro.Retrato de uma cidade I Tem nome de rio esta cidade onde brincam os rios de esconder. II Eis que um frenesi ganha este povo. a reboar no canto de mil bocas. Outra festa se estende por todo o corpo ardente dos subúrbios até o mármore e o fumé de sofisticados. com apetite de viver os jogos de luz na espuma. É puro carnaval. loucura mansa. que vem de antes da Grécia (vem do instinto) coroa a sarabanda a beira-mar. Repara. repara neste corpo que é flor no ato de florir entre barraca e prancha de surf. de cem mil bocas. no ritual de entrega a um deus amigo. o topázio do sol na folhagem. a irisação da hora na areia desdobrada até o limite do olhar. fere o ar. luxuosamente flor. de trinta mil. O Rio toma forma de sambista. gratuitamente flor ofertada à vista de quem passa no ato de ver e não colher. As coisas se amaram. risca o asfalto da avenida. de dez mil. E não se esgota o impulso da cidade na festa colorida. deus veloz que passa e deixa rastro de música no espaço para o resto do ano. Formas adolescentes ou maduras recortam-se em escultura de água borrifada. burgueses edifícios: uma paixão: a bola .

do alto. mas do Corcovado. não dos astros. do Rio apenas. A sensualidade esvoaçante em caminhos de sombra e ao dia claro de colinas e angras. preside ao viver geral. Este Rio. amor e som. e no fundo guardar o religioso terror. tanto faz) misturar tristeza.. e no altar barroco ou no terreiro consagra a mesma vela acesa. a mesma palma à Divindade longe. Na curva dos jardins. plenamente. piada. no ar tropical infunde a essência de redondas volúpias repartidas. Diamantes-minuto. de mais nenhum Brasil. III Cada cidade tem sua linguagem nas dobras da linguagem transparente. nada. a mesma rosa branca. nada. no perfil do morto e no fluir da água. Pula do cofre da gíria uma riqueza. E vai-se definindo a alma do Rio: vê mulher em tudo. na torre circular. trabalho. . Cristo. num relâmpago. no talhe esbelto do coqueiro.o drible o chute o gol no estádio-templo que celebra os nervosos ofícios anuais do Campeonato. Este fingir que nada é sério. sem muito esforço. uma estátua? Uma presença. Já outros vêm saltando em profusão. Morre na rua a ondulação do signo irônico. loteria na mesma concha do momento que é preciso lamber até a última gota de mel e nervos. pois é lei carioca (ou destino carioca. mulher mulher mulher mulher mulher. palavras cintilam por toda parte. bem mais perto da humana contingência. e se apagam.. Em torno de mulher o sistema de gesto e de vozes vai-se tecendo. sacro fervor que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga.

aberto ao mundo. Repara. Anoitece no Rio. A noite é luz sonhando. repara nas nuvens. laranja toda em chama. fraterno. vão desatando bandeiras de púrpura e violeta sobre os montes e o mar. sumarenta de amor. erótico. laranja de cinqüenta sabores diferentes (alguns amargos. por que não?). .Este Rio peralta! Rio dengoso.

Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro . mas com tamanha intensidade. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. Amar e se entregar. ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado. E com confiança no que diz. Fácil é querer ser amado. Difícil é mentir para o nosso coração... te respeita e te entende. Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir. Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas ircunstâncias. de alegria. Ter a noção exata de nossas próprias vidas. beijar de olhos fechados. Admitir que nos deixamos levar. sem ter medo de viver. Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas. Fácil é perguntar o que deseja saber. Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer. sem ter medo do depois. E aprender a dar valor somente a quem te ama. Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. mostrando nossas escolhas erradas. Fácil é ouvir a música que toca. é tudo aquilo que dura uma fração de segundo. quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião. Difícil é seguí-las. Acenando o tempo todo. Eterno. antes que a pessoa se vá. Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida. Sinceramente. Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação. Difícil é amar completamente só. Amar de verdade.Reverência ao destino Falar é completamente fácil. ao invés de ter noção das vidas dos outros. Difícil é ouvir a sua consciência. por inteiro. Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Fácil é ditar regras. apertar as mãos. Difícil é lutar por um sonho. Fácil é abraçar. E é assim que perdemos pessoas especiais. Difícil é ocupar o coração de alguém. Fácil é ver o que queremos enxergar. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros. Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece. o quanto queremos dizer. dizer o que ele deseja ouvir. Fácil é dizer "oi" ou "como vai?" Difícil é dizer "adeus". Fácil é dar um beijo. que se petrifica. Saber que se é realmente amado. isso é difícil. Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. . Ou querer entender a resposta. e nenhuma força jamais o resgata. Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa. Ou ter coragem pra fazer. Fácil é ser colega. Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade. fazer companhia a alguém. Fácil é sonhar todas as noites. mais uma vez. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Difícil é entregar a alma.

Não esqueçamos. a gente pára e se extasia. mais a vermelha aparição dos brincos-de-princesa nos jardins onde a banida cor volta a imperar. nos jardins dos edifícios. de majestade simples. Deixemo-la reinar. Que aconteceu com esta cidade da noite para o dia? O Rio de Janeiro virou flor nas praças. no Parque do Flamengo nem se fala: é flor é flor é flor. semente. outra acrescenta. no Rio flóreo. os flamboyants que em toda sua pompa se engalanam aqui. – Não. coroando folhas pontiagudas e pungentes.. uma soberba flor por sobre todas. Em toda parte a vejo. Paquetá. Quem responde é Baby Vignoli. Tão rainha. Pergunto o nome. esse luxo do ipê que nem-te-conto. gente. toda se entreflora de etiquetas. . (ou de Iemanjá?) – Vela de pureza. Centro. Essa gorda baiana me sorri: – Círio de Nossa Senhora. a gente estaca e logo uma porção de nomes populares brota da ignorância de nós todos. Ipanema. a ostentar panículas de pérola.. ninguém sabe. Nem a dourada acácia. deixa-se florir no alto. não sabia? E a flor. Yucca gloriosa. a gente olha. – Lanceta é que se chama. baioneta. que era anônima em sua glória. esse adágio lilás do manacá. (Homem nenhum sabe nomes vegetais. e a ela rendo meu tributo apaixonado. Em Botafogo. porém mulher se liga à natureza em raízes. Tijuca. nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira. eretos lampadários.) Iúca! Iúca. é Léa Távora. – Baioneta espanhola. urnas santas. meu amor deste verão que melhor se chamara primavera. Sua presença é mel e pão de sonho para os olhos. ali. fruto e ninho.Rio em flor de janeiro A gente passa. A gente olha. mexicana dádiva aos canteiros cariocas.

puro agrado da Terra para os homens e mulheres que faz do mundo obra de arte total universal.1980 . Você já viu? Você já reparou? Andou mais devagar para curtir essa inefável fonte de prazer: a forma organizada rigorosa esculpintura da natureza em festa.I.Isto é janeiro e é Rio de Janeiro janeiramente flor por todo lado. para quem sabe (e é tão simples) ver? 22.

Ninguém não percebe. Jesus meu Deus pregado na cruz. dai-me dinheiro. Os sinos tocam. prendas e rezas. cigarros e um sol imenso que lambuza de ouro o pó das feridas e o pó das muletas. humildemente te peço uma graça. Jesus no lenho expira magoado. Meu Bom Jesus que tudo podeis. Um leproso de opa empunha o estandarte. Senhor. imagens. Senhor. me dá coragem pra eu matar um que me amola de dia e de noite e diz gracinhas a minha mulher. e não desta lepra. Sarai-me. Faz tanto calor.ROMARIA A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos. Os homens cantam. do amor que eu tenho e que ninguém me tem. Já estamos puros. sino. cantam sem parar. meu amo. As coxas das romeiras brincam no vento. fenômenos. No alto do morro chega a procissão. baralhos. mas trazemos flores. Nos olhos do santo há sangue que escorre. cheia de pedras. . o dia é de festa No adro da igreja há pinga. café. sobem a ladeira que leva a Deus e vão deixando culpas no caminho. obrigados. muito dinheiro para eu comprar aquilo que é caro mas é gostoso e na minha terra ninguém não possui. chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados. há tanta algazarra.

Jesus Jesus piedade de mim. Não quero ser preso. Jesus ó meu santo. Ladrão eu sou mas não sou ruim não. . pedem com a boca. pedem com as mãos. Por que me perseguem não posso dizer. Jesus já cansado de tanto pedido dorme sonhando com outra humanidade. Os romeiros pedem com os olhos.

Rosa Rosae Rosa e todas as rimas Rosa e os perfumes todos Rosa no florindo espelho Rosa na brancura branca Rosa no carmim da hora Rosa no brinco e pulseira Rosa no deslumbramento Rosa no distanciamento Rosa no que não foi escrito Rosa no que deixou de ser dito Rosa pétala a pétala despetalirosada .

Não sou nada perdulário. jamais avancei no Erário. muito acima do ordinário. por milagre monetário deu um salto planetário. Sou um simples operário. escravo de ponto e horário.83 . não festejo aniversário e em meu sufoco diário de emudecido canário. Mas que lance extraordinário: com o aumento de salário. e cerzido vestuário. vário. sob o peso tributário.5. sou caxias voluntário de rendimento precário. é limpo meu prontuário. Não entendo o noticiário. aumentou o meu calvário! 28.Salário Ó que lance extraordinário: aumentou o meu salário e o custo de vida. muito menos salafrário. nível de vida sumário. me falta vocabulário para um triste comentário. para não dizer primário. navegante solitário.

São flores ou são nalgas São flores ou são nalgas estas flores de lascivo arabesco? São nalgas ou são flores estas nalgas de vegetal doçura e macieza? .

É a revolução? o amor? Não diga nada. Fique torto no seu canto. O mar transborda de peixes. Tudo é possível. Não peça. Não conte. .Segredo A poesia é incomunicável. Não ame. Suponha que um anjo de fogo varresse a face da terra e os homens sacrificados pedissem perdão. só eu impossível. Ouço dizer que há tiroteio ao alcance do nosso corpo. Há homens que andam no mar como se andassem na rua.

Sem que eu pedisse. ficastes de joelhos em posição devota. Hoje não estás sem sei onde estarás. Adorando. Nunca pensei ter entre as coxas um deus. Sem que eu esperasse. fizeste-me a graça de magnificar meu membro. na total impossibilidade de gesto ou comunicação. Para sempre e um dia o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca. fizeste-me a graça Sem que eu pedisse. Não te vejo não te escuto não te aperto mas tua boca está presente. O que passou não é passado morto. . adorando.

Sentimental Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão." .. cheia de escamas e debruçados na mesa todos contemplam esse romântico trabalho. No prato.. a sopa esfria. uma letra somente para acabar teu nome! . E há em todas as consciências um cartaz amarelo: "Neste país é proibido sonhar.Está sonhando? Olhe que a sopa esfria! Eu estava sonhando. Desgraçadamente falta uma letra.

Quando me levantar. humildemente vos peço que me perdoeis. Quando os corpos passarem. anterior a fronteiras. morto o pântano sem acordes. mas estou cheio de escravos. o céu estará morto e saqueado.Sentimento Do Mundo Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Sinto-me disperso. . Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. da viúva e do microscopista que habitavam a barraca e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais noite que a noite. eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro. eu mesmo estarei morto. morto meu desejo.

Às vezes o encontro num encontro de nuvem. Drummond nega como assunto da poesia todos os temas que constituem o seu universo poético e na segunda parte defende a idéia de que o fazer poético é desvendado como uma experiência atemporal em um ambiente comparável a um rio difícil. objeto de ar: em que gruta ou concha quedas abstrato? Lá onde eu jazia. o poeta entra surdamente no tal reino. O filho que não fiz faz-se por si mesmo. denominado reino das palavras. Apóia em meu ombro seu ombro nenhum. . além do amor) onde nada. Interrogo meu filho. Note-se. Drummond ainda afirma que neste reino encontram-se os poemas que esperam ser escritos. tudo aspira a criar-se. em estado de dicionário. sem carne. estão mudos. sem nome. levando em consideração o poema “Procura de poesia” ambos poemas de Carlos Drummond de Andrade.SER Análise do poema “Ser” . Ele corre na brisa. pois não deve colher o poema no chão. Ausente o tato. São Paulo Junho de 2003 SER O filho que não fiz hoje seria homem. aguardam a realização de seu futuro criador que os deve contemplar sem desespero. não me percebeste contudo chamava-te como ainda te chamo (além. responde-me o hálito. Ausente a audição lhe é proibido o tato. sem impaciência e até sem o uso de algumas das faculdades de captação da realidade. O poema “Procura de Poesia” de Carlos Drummond de Andrade é um texto dividido em duas partes: na primeira a evidenciar uma contradição.

O título supõe a negação do poema. não é o encontro do pai com o homem. na totalidade do nada. Nas estrofes seguintes o filho prossegue em sua constituição de verbo e se um verbo exprime processo. ação. perdidas. por exemplo. que era agnóstico – alguns o julgavam ateu ao filho que nasceu morto. semelhante ao reino das palavras do poema anterior. algo que pode ou não se realizar e tal poema realiza-se plenamente e em dois níveis: no nível das palavras que tomaram forma e também na manifestação do objeto de ar que constituiu esse filho . substantivo abstrato por excelência) que permanece suspenso. talvez fenômeno. devem ser um . o filho que chama o pai de um lugar além. o título . o filho corre na brisa – o filho é o ato de correr e é brisa. o filho é e seria a ação do verbo. aqui com outro nome: o além. além do amor. mas a indicação de que é débil e solitária a experiência poética e nebuloso o lugar que ambienta o ato da criação poética. relação de proteção do mais velho para mais novo. pois o poema constrói-se exatamente sobre uma condição de não existência. de um vir a ser. (um advérbio de lugar sugerindo a materialidade do amor. não tem nem nome. o filho que responde através do hálito. em que o poeta esgota as informações objetivas daquele ser: houve um filho que não foi feito e que seria homem. No poema é o filho que apóia (abraça) o pai com o seu ombro nenhum. na sua fenomenologia. Em todas as estrofes observa-se a manifestação desse filho. mas algo indefinível. como dita nos versos de “Procura de poesia” prescinde de incidentes pessoais e da revelação da morte. mas é a negação que se afirma e encaminha o leitor para o sentido oculto do texto e isso se assemelha às primeiras estrofes de “Procura de Poesia” que negam a obra poética de Drummond afirmada mais tarde pelo próprio ato da procura do ato criador. O poema “Procura de Poesia” seria então. mudança de estado. É objeto de ar.encontrado pelo poeta em um reino diferenciado. que será testemunha de uma possibilidade. não correspondendo a qualquer espécie de paraíso. o filho que não vingou. o eterno educar de uma geração a outra. O Poema “Ser” parece concentrar todas as sugestões do poema acima e mais. ela existe como possibilidade. além do amor. nem a constatação de que para a poesia é desnecessária a determinação de temas. cada palavra tem mil faces secretas sob a face neutra. ao adentra-lo. lugar este onde o poeta só garantirá. A relação chave do poema. No terceiro e quarto verso. todas as coisas que aspiram a criar-se ou que. pelo contrário. contudo. O poema “Ser” publicado no livro “Claro Enigma” é uma homenagem póstuma de Carlos Drummond.que também é palavra . torna-se de súbito. mas mesmo este “seria” e este “homem” já constituem uma outra natureza que se manifesta através dos verbos relacionados durante todo o poema. mas a poesia. mas de tal forma incisivo na existência do poeta. não um método para elaboração de versos. mas não tem carne. fenômeno. que parece se inverter a relação pai e filho.além da concretude da palavra “Ser”. o sentido profundo do texto. mas sim a manifestação desse filho que. ente vivo animado – traz também uma contradição. com a exceção dos dois primeiros versos.a visão também é imprecisa.

marulho em nós de um mar profundo (verso de outro poema de Drummond) exprimindo a eterna aspiração humana de permanecer como essência. circunstância também observada no poema “Procura da poesia” . o filho jazia sem desespero e era calma e fresca sua carne nenhuma. Aceitou o tal filho que. A obra de Carlos Drummond se mostra coesa no belo e profundo poema “Ser” e como segue as sugestões do primeiro poema aqui analisado.e. afirma outro caminho Drummoniano que vai da negação à reinvenção.não obstante. além do amor. O poema então fala de permanência e fala também de todas as coisas findas. . O que se acabou é o que fica na memória: estranho paradoxo. também o chamava e o chama ainda além.que se faz continuamente. da concha abstrata? O pai não sabe. O poema termina declarando a força da essência que o filho se constitui – ele se faz por si mesmo .pai e filho . ouso fundir tais sutilezas para afirmar que o pai do poema “Ser” penetrou surdamente no reino do filho. Era palavra e hálito. como dito acima. onde a positividade é extraída de uma atitude de oposição sistemática. algo permanece entre os dois . Depreendeu-se do limbo. O filho se realizou e se consumou e correu na brisa. rio difícil – bem sabe o poeta. muito mais que lindas (outro verso de Drummond) que também é um dos temas recorrentes da obra de Carlos Drummond de Andrade.

...Sinal de apito Um silvo breve: Atenção. Um silvo longo: Diminua a marcha. Dois silvos breves: Pare.(A este sinal todos os motoristas tomam . Um silvo longo e breve: Motoristas a postos....... siga..) ......lugar nos seus veículos para movimentá-los ...imediatamente..... Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna.. ..

No caminho o homem resmunga: – Ora essa. E a mulher ajunta: – Que idiota. O amigo enfeitou a casa e quando o homem chegou com a mulher. – Reparaste o bife queimado? O piano ruim e a comida pouca. O amigo estava muito satisfeito. E todas as quintas-feiras eles voltam à casa do amigo que ainda não pôde retribuir a visita. o amigo disse para o homem: – Breve irei a tua casa. A mulher bebeu e cantou. O homem comeu e bebeu. era o que faltava. soltou uma dúzia de foguetes. Os dois dançaram.Sociedade O homem disse para o amigo: – Breve irei a tua casa e levarei minha mulher. Quando foi hora de sair. A casa é um ninho de pulgas. . E apertou a mão dos dois.

no recreio. Restituam-se pois os canivetes a seus proprietários com obrigação de serem recolhidos na volta do passeio. Fica permitido o canivete nos passeios à chácara para cortar algum cipó descascar laranja e outros fins de rural necessidade. o canivete é mesmo indesculpável. e tenho dito. . Recolham-se pois os canivetes sob a guarda do irmão da Portaria. em qualquer parte pois num país civilizado entre estudantes civilizadíssimos.Somem canivetes Fica proibido o canivete em aula. a nata do Brasil. Só que na volta do passeio verificou-se com surpresa: no matinho ralo da chácara todos os canivetes tinham sumido.

nenhum.Sonetilho do Falso Fernando Pessoa Itabira do Mato Dentro . existo. morri. à deusa que se ri deste nosso oaristo. E das peles que visto muitas há que não vi. . Onde morri.* . Sem mim como sem ti posso durar. eis-me a dizer: assisto além. nem isto. Desisto de tudo quanto é misto e que odiei ou senti. Nem Fausto nem Mefisto. aqui.MG .1902 * . mas não sou eu.1987 Onde nasci.

Vou subir a ladeira lenta em que os caminhos se fundem. . Não sei se estou sofrendo ou se é alguém que se diverte por que não? na noite escassa com um insolúvel flautim Entretanto há muito tempo nós gritamos: sim! ao eterno. A rua é inútil e nenhum auto passaria sobre meu corpo. Todos eles conduzem ao princípio do drama e da flora.Soneto da Perdida Esperança Perdi o bonde e a esperança. Volto pálido para a casa.

manteiga. caprichando. Ovos de qualidade são os mesmos. Insistem. É tudo igual.Suas mãos Aquele doce que ela faz quem mais saberia fazê-lo? Tentam. iguais açúcar e canela. . As mãos (as mães?) são diferentes. Mandam vir o leite mais nobre. a mesma.

.Sugar e ser sugado pelo amor Sugar e ser sugado pelo amor no mesmo instante boca milvalente o corpo dois em um o gozo pleno que não pertence a mim nem te pertence um gozo de fusão difusa transfusão o lamber o chupar e ser chupado no mesmo espasmo é tudo boca boca boca boca sessenta e nove vezes boquilíngua.

não tenho ritmo mais não. . Hoje não deslizo mais não. Eu também já tive meu ritmo. E meus amigos me queriam. meus inimigos me odiavam. guiei forde e aprendi na mesa dos bares que o nacionalismo é uma virtude. pensava logo nas estrelas e outros substantivos celestes. Eu irônico deslizava satisfeito de ter meu ritmo. Ponteei viola. Fazia isso. dizia aquilo. Mas eram tantas. Bastava olhar para mulher. minha poesia perturbou-se. Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam.Também já fui brasileiro Eu também já fui brasileiro moreno como vocês. não sou irônico mais não. Mas acabei confundindo tudo. Eu também já fui poeta. o céu tamanho.

Doze meses dão para qualquer ser humano cansar e entregar os pontos. e tudo começa outra vez.Tempo em fatias! Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias. com vontade de acreditar que daqui por diante vai ser diferente. a que se deu o nome de ano. Aí entra o milagre da renovação. industrializou a esperança. fazendo-a funcionar no limite da exaustão. foi um indivíduo genial. .

nuvem. transa. bonde. beira d’água. lida bem devagar. Não tem namorado quem transa sem carinho. até paixão é fácil. fugidia ou impossível de curar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana. quem namora sem brincar. fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de dormir. Necessita de adivinhação. dois paqueras. da flor catada no muro e entregue de repente. mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Namorar é fazer pactos com a felicidade. lágrima.Ter ou não ter namorado Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. flerte. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva. Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques. sua frio. de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele. Vinícius de Moraes ou Chico Buarque. de pele. bosques enluarados. Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. quem gosta sem curtir. Namorado não precisa ser o mais bonito. Não tem namorado quem ama sem se dedicar. ainda que rápida. de poesia de Fernando Pessoa. dois amantes e um esposo. Paquera. medo do pai. Não tem namorado quem não tem música secreta com ele. quem não recorta artigos. quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria. quem curte sem aprofundar. envolvimento. show do Milton Nascimento. e quase desmaia pedindo proteção. quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. fazer sesta abraçado. Se você tem três pretendentes. quem não dedica livros. de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada. caso. Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. fliperamas. de carinho escondido na hora que passa o filme. mesmo assim pode não ter nenhum namorado. gabira. Mas namorado mesmo é muito difícil. escondida. Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas. quem vive cheio de obrigações. brisa ou filosofia. abobalhados de alegria pela lucidez do amor. saliva. ruas de sonhos ou musical da Metro. sanduíche da padaria ou drible no trabalho. na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. quindim. um envolvimento. Não tem namorado quem ama sem gostar. tapete mágico ou foguete interplanetário. . não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. ou mesmo de metrô. cavalo. cinema. sessão das duas. nuvem. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorado é a mais difícil das conquistas. Não tem namorado quem não fala sozinho.

e passeie de mãos dadas com o ar. De alma escovada e coração estouvado.Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas. cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio. . de repente. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e. aquela de chita. parecer que faz sentido. saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha a saia mais leve.

também que graça que a vida tinha? .Toada Do Amor E o amor sempre nessa toada: briga perdoa perdoa briga Não se deve xingar a vida. Só o amor volta para brigar. se não fosse ele. Mas. depois esquece. amor cachorro bandido trem. a gente vive. para perdoar.

Mas saber calar. principalmente. apenas de um sorriso para sentir um pouco de felicidade ! Todo dia é menos um dia para dizer: . fui injusto ! Todo dia é menos um dia. por mais que voltemos. eu errei ! Para dizer: . Ouça e cale se não se sentir bem. reconheçamos. Saber ouvir é um raro dom. mas estamos dando a outrem a chance de pensar. E como humanos estamos sujeitos a errar. saber o que falou ou escreveu. Leia e deixe de lado. que jamais nos trará ao ponto de partida. . De repente descobrimos que estamos muito longe E já não há mais como encontrar onde pisamos quando íamos. menos um dia para ser feliz. é menos um dia para amar e ser amado. Muitas vezes alguém precisa. Para voltarmos sobre os nossos passos. estaremos seguindo um caminho. Já não conseguiremos distinguir nossos passos de tantos outros que vieram depois dos nossos. porque calando nem sempre quer dizer que concordamos com o que ouvimos ou lemos. calar ! Sim. é menos um dia para ouvir e. E se esse dia chega.Todo dia é menos um dia Todo dia é menos um dia. mais raro ainda.Desculpe. outra hora você vai conseguir interpretar melhor e saber o que quis ser dito. E nosso erro mais primário. é menos um dia para dar e receber. é não saber: Ouvir e calar ! Todo dia é menos um dia para dar um sorriso. Por isso use cada dia com sabedoria.Perdoe-me por favor. refletir.

E o primeiro gol. No dia do vestibular. Estavam torcendo para você nascer perfeito. você descobriu que tem gente que torce diferente de você. músico. Torceu para seus irmãos se ferrarem. estudar inglês e piano. O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. Daí continuaram torcendo. Na dúvida. você só torcia para não ter nascido. muito alto. Seus amigos torciam para você usar brinco. escovar os dentes. torceu para ela não ter outro. Para a direita. Mesmo com toda essa torcida. torceu pelo primeiro beijo. era torcida pra todo lado. mesmo antes do seu filho nascer. esquerda. ficar até tarde na rua. já tinha alguém torcendo por você. pode ser que você ainda não tenha conquistado algumas coisas. Torciam para você puxar a beleza da mãe. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana. o bom humor do pai. falar palavrão. Na faculdade. Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel. Torceram para ganhar a geladeira. vizinhos. tomar banho. Torcia para viajar com a turma. Mas muita gente ainda torce por você!" . muito magro. E daí pra frente você entendeu que a vida é uma grande torcida. Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã. um dia teve um torcicolo de tanto olhar para ela. contra a corrupção. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço. Nessas horas. Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa. Depois começou a torcer pela sua liberdade. Seus pais torciam para você comer de boca fechada. muito gordo. de torcida em torcida. Eles também estavam torcendo para você ser bacana. então. Descobriu que ela torcia igual a você. Pais. Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Torceram pelo seu primeiro sorriso. então? E de tanto torcerem por você. Porque. torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol. Torceu para ser médico. torcia torcido. pela primeira palavra. Começou a torcer até para um time. Primeiro. E quando os hormônios começaram a torcer. advogado. namoradas e todos os santos torceram por você. Outros torciam para você ser menina. você aprendeu a torcer. E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho. pelo primeiro passo. avós. a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina. Provavelmente.Torcida "Mesmo antes de nascer. pelo primeiro amasso." Tinha gente que torcia para você ser menino. E. o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel. E por não saber pelo que você torcia. torceu para o mundo explodir. Torceu para ela não te achar muito baixo. Seus pais torciam para passar logo essa fase. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante. cabular aula. nesse dia. Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. já tinha muita gente torcendo por ele. para as idéias dos professores e para qualquer opinião dos seus pais. uma grande torcida se formou.

Não a explicação (duvidosa) do mundo." Eu torço por você! . mas a poesia (inexplicável) da vida."Se procurar bem você acaba encontrando.

Três presentes de fim de ano I Querida. um perfume. Inventa-o se puderes com fervor e graça. mando-te uma tartaruguinha de presente e principalmente de futuro pois viverá uma riqueza de anos e quando eu haja tomado a estígia barca rumo ao país obscuro ela te me lembrará no chão do quarto e te dirá em sua muda língua que o tempo. amor. não no fundo amor. II corbeilles nem letras de câmbio nem rondós nem carrão 69 nem festivais na ilha d’amores não esperes de mim terrestres primores. Agora então. III Sempre foi difícil ah como era difícil escolher um par de sapatos. Dou-te a senha para o dom imperceptível que não vem do próximo não se guarda em cofre não pesa. catrapuz! Você acha mesmo bacana esse verniz abóbora ou tem medo de dizer que é medonho? . é impossível. o tempo é simples ruga na carapaça. O mau gosto e o bom se acasalaram. não passa nem sequer tem nome.

se meu presente é meio louco e bobo e superado: uns lábios em silêncio (a música mental) e uns olhos em recesso (a infinita paisagem).E aquele quadro (objeto)? aquela pantalona? Aquela poesia? Hem? O quê? não ouço a sua voz entre alto-falantes. amor. não distingo nenhuma voz nos sons vociferantes. Desculpe. ...

com rádio e telefone automático . o enfado bolorento de São Cristóvão.Tristeza do Império Os conselheiros angustiados ante o colo ebúrneo das donzelas opulentas que ao piano abemolavam "bus-co a cam-pi-na se-rena pa-ra li-vre sus-pi-rar" esqueciam a guerra do Paraguai. sonhavam a futura libertação dos instintos e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus de Copacabana. a dor cada vez mais forte dos negros e sorvendo mecânicos uma pitada de rapé.

A alma severa se interroga e logo se cala. Nenhum pensamento de infância. circula. E não sabe se é noite. e seria a morte. sob o vento.Turno à Janela do Apartamento Silencioso cubo de treva: um salto. Triste farol da ilha rosa. como líquido. Somente a contemplação de um mundo enorme e parado. Mas é apenas. . riqueza ciência.. mar ou distância. nem saudade nem vão propósito. Suicídio.. a integração da noite. Mas a vida tem tal poder: na escuridão absoluta. A soma da vida é nula.

"Um chamado João" "João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha a quinta face das coisas. sésamo? . inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar. florindo como flor é flor. mesmo não semeada? Mapa com acidentes deslizando para fora. sem conflitar? E de cada gota redigia nome. das supostas fórmulas de abracadabra. para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos. falando? Guardava rios no bolso. e no destinado geral seu fado era saber para contar sem desnudar o que não deve ser desnudado e por isso se veste de véus novos? Mágico sem apetrechos. curva. ciranda multívoca? João era tudo? tudo escondido. dos poderes. buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho? Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel. apelador e precipites prodígios acudindo a chamado geral? Embaixador do reino que há por trás dos reinos. fim. civilmente mágico. cada qual com a cor de suas águas? sem misturar.

que se entrelaçam para melhor guerra.." . (não sei o nome) ou ele mesmo era a parte de gente servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeíam de antes do princípio.. códigos. chaves. para maior festa? Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar. mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse? E propondo desenhos figurava menos a resposta que outra questão ao perguntante? Tinha parte com.Reino cercado não de muros.

eterno. animais. tocada por mão inconsciente. . Não temos nós. A pedra é sofrimento paralítico. Por que não sofreriam se esta é a chave da unidade do mundo? A flor sofre. sequer o privilégio de sofrer. Há uma queixa abafada em sua docilidade.Unidade As plantas sofrem como nós sofremos.

No verde tom da esperança. Os saltos mais perigosos são fiorituras aéreas. Balança. um anjo luminescente zomba da morte e da guerra. no vão entre céu e terra. Circula o risco no espaço como sangue nas artérias. É anjo? ou mulher? ou homem? Sobre a pergunta sem nexo. meu bem. No limite da coragem. De "Amar se Aprende Amando" . balança entre um e outro trapézio. o novo arco-íris desdobra todos os raios do sexo.ÚNI DÚNI TÊNI úni dúni têni salamêni. a cor de prata do césio.

Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Ser. Er. corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível. Não vou ser. Ser.Verbo Ser Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome. Que é ser? É ter um corpo. pronunciado tão depressa. . Vou crescer assim mesmo. e cabe tantas coisas? Repito: Ser. um jeito. R. um nome? Tenho os três. ser? Dói? É bom? É triste? Ser. Sem ser Esquecer.

Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. sua miopia. . Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Derrubaram a porta. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. Assim não era possível atingir toda a verdade.Verdade A porta da verdade estava aberta. E os meios perfis não coincidiam. mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Cada um optou conforme seu capricho. sua ilusão. Era dividida em metades diferentes uma da outra. Arrebentaram a porta. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

. Do mais alto ramo desfere vôo e sai por aí bicando as coisas. Ao sumir crocita: "Hoje te perdôo. acaso. antes referência que repreensão.Versos de Deus I Ao sentir nos pássaros tanta liberdade e aéreo poder. IV Deus rumina que fazer. Alisa o bico no local." O que Deus perdoa. II No mais alto ramo Deus está pousado com uma garra apenas e fita o mundo. indiferente às coisas bicadas. encantadas. E dói. III Bica-me Deus de manso nos olhos. imagina um pássaro superior a todos e tão invisível que seu vôo deixe sensação de sonho. Com leveza e graça o homem pensa Deus. só o sabe Deus.

crepúsculo sempre continuado. Laços entrançados. Já não há projeto de outro Deus ou vários. O homem arrependo-me da criação de Deus. gemidos.Mais um terremoto? De que proporções? Uma nova guerra? De quantas nações? Que margem ceder ao capricho do homem? Vai nascer um artista? Nascerão idiotas? Surgirão robôs? V Ao findar o tempo tudo se acomoda à sua vontade. (in A Paixão Medida) . mas agora é tarde.

são jóias particulares de Clarice que usamos de empréstimo. era Clarice viajando nele. . edições. Mais tarde. providências. longas estepes. tentativas de Clarice sair de Clarice para ser igual a nós todos em cortesia. os cumprimentos falavam em agora. carteira de identidade. só e ardente. não se percebe mais.. O que Clarice disse. escadarias. Não podíamos reter Clarice em nosso chão salpicado de compromissos. O mais puro retrato de Clarice só se pode encontrá-lo atrás da nuvem que o avião cortou. Os papéis. Gestos. pontes do Recife em bruma envoltas. partiu para outro. veio de um mistério. De Clarice guardamos gestos.Visão de Clarice Lispector Clarice. apenas. Fascinava-nos. São coisas. Deixamos para compreendê-la mais tarde. De Chirico a pintou? Pois sim. um dia. possíveis coquetéis à beira do abismo. o país onde Clarice vivia. mesmo sorrindo. zimbórios. e retratar o homem. Era Clarice bulindo no fundo mais fundo. onde a palavra parece encontrar sua razão de ser. o que Clarice viveu por nós em forma de história em forma de sonho de história em forma de sonho de sonho de história (no meio havia uma barata ou um anjo?) não sabemos repetir nem inventar. Dentro dela o que havia de salões.. Ficamos sem saber a essência do mistério. cuidados. Levitando acima do abismo Clarice riscava um sulco rubro e cinza no ar e fascinava. retrato. ela dona de tudo. formava um país. Clarice não saiu. construindo fábulas. saberemos amar Clarice. tetos fosforescentes. Clarice não foi um lugar-comum. Ou o mistério não era essencial.

na prudência egoísta que nada arrisca. todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos. esquivando-se do sofrimento. impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam. pela eternidade. mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado. . Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco. e não compartilhamos. Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!! A cada dia que vivo. mas pela euforia sufocada. mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana. como tudo o que é simples. A dor é inevitável. um tempo feliz. Sofremos não porque nosso time perdeu. Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco. Nossa dor não advém das coisas vividas. que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável. e que. por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos. O sofrimento é opcional. Sofremos não porque envelhecemos. nas forças que não usamos. mas porque o futuro está sendo confiscado de nós. para conversar com um amigo. Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas. por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos. para nadar. perdemos também a felicidade. para namorar.Viver não dói Definitivo. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer. mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema. Por todos os beijos cancelados.

do agudo olhar sobre a existência (Que triste são as coisas consideradas sem ênfase) – múltiplas foram as leituras provocadas por sua poesia. como se fora . em rugas e cabelo. com suas palavras. com justiça. da crueldade e diamante. dos acontecimentos.Drummond: um Claro Enigma na Escuridão do Mundo e da Alma Marlise Sapiecinski É quase desnecessário dizer que. o que mais de perto interessa perceber é que parece ter sido. superando as exigências expressionais de sua época e contribuindo para a constante renovação do modernismo. da pedra no meio do caminho. Carlos Drummond de Andrade representa.) preciso aceitar e compor. Como uma resposta talvez à “Procura da Poesia”. desde o princípio. da merencória infância. que ele sabia além. harmoniosamente conjuga pensamento e emoção criativa. uma forma de conhecimento a um só tempo pessoal e altamente artístico. dos poucos que conseguiram elevar a confissão ao nível do universal. na medida em que sua poesia avança. potencializada pelo confronto entre duas forças fundamentais: sensibilidade e inteligência. Embora a inesgotável riqueza dessa poesia seja há muito assunto fora de questão (mesmo que insistimos em reivindicá-la). por ter feito muitas concessões. símbolos e outras armas. Nele pode-se encontrar tanto o poeta que promete ajudar a destruir. Além da cidade. do próprio corpo.. Efetivamente. poeta da família. numa linguagem reveladora da mais alta realização estética. que. uma profunda sensação de perda e desgaste envolve a viagem poética rumo à revelação que está sempre a se insinuar sem nunca mostrar de todo sua face. Seu verso manifesta uma vontade ardente de ver e de fazer ver (A porta da verdade está aberta (. estou vazio. o que de melhor se fez na poesia brasileira do século XX. poeta da anulação. Além. como uma resposta talvez às inquietações que já se faziam ouvir em A Rosa do Povo:Estou escuro. Apesar de recriminado por alguns por não ter mantido as diretrizes iniciais ao longo de sua extensa obra.) cada um optou conforme seu capricho. mas jamais se consegue atingir a desejada síntese. intuições. Chega-se muito próximo à verdade.. É um acentuado sentimento de fracasso que o leva a se apresentar em Claro Enigma de modo a assumir a medida de desrazão que a vida comporta. Forças que assumem um caráter particular quando se trata de um livro como Claro Enigma. A segunda sempre a dominar o ato criador.. a marcha do mundo capitalista. da natureza e dos homens em sociedade. Como uma resposta talvez às perguntas lançadas em “Versos à boca da noite”: Escreverei sonetos de madureza?/ Darei aos outros a ilusão de calma?/ Serei sempre louco? Sempre mentiroso?/ Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? São essas as indagações de quem atingiu uma inteligência do universo/ comprada em sal. da cidade que dói. Forças que impõem uma série de reflexões a quem se comprometa na arte de interpretá-las. a verdade é que Drummond deixou rastros que apontam para muitas direções. construídas sob a gestão de um inegável rigor poético. enfim. sua ilusão. poeta do sensível e da dura substância. muito além. em relação ao qual avulta a dimensão filosófico-existencial de composições mais do que nunca depuradas.. estou rigorosamente noturno. sua miopia). (. poeta do obstáculo. Poeta de vasto sortimento de memórias. isso ainda não é poesia. minhas medidas partiram-se. do pensar e do sentir: O que pensas e sentes.

o poeta mineiro foi. seco. do soneto escuro. toda a produção drummondiana revela. e. refratário à figuração social. de diferentes maneiras. É assim que se pode pressentir em Claro Enigma uma espécie de síntese. uma festa do intelecto. É o sentimento agudo do relativo. há de fazer sofrer. uma atividade lúdica da razão. do precário em que se resume toda a existência humana. abafado. um verme. é substituída pelo olhar lançado sobre a tradição. que busca nas formas tradicionais de composição. pois ele nunca encontra o de que carecia. em relação a luta fáustica pelo conhecimento. Modernista ou clássico. como também o poeta do soneto duro. familiar ou histórica. Sua poesia é feita de permanente questionamento e exigência artística. A perda de certas ilusões coincidirá com a presença de um estilo de natureza clássica e um conseqüente distanciamento da representação social-concreta. apenas comunicar o essencial sentimento do mundo. que respondem. Cônscio de seu ofício. de onde afloram infinitas incertezas e outras tantas desconfianças. novos modos de comunicação. em instâncias penetradas de dúvida. de mas. presente de forma explícita em A Rosa do Povo. Nesse sentido. uma floresta. profunda e absolutamente moderno. na busca de um contato mais íntimo com o passado literário. a sua própria sensibilidade o levou a essa depuração. Há ainda outros. se apresenta em vários níveis. seja em relação à experiência amorosa. em favor de um simbolismo abstrato. O que antes era certeza de sim ou de não. como percebeu Merquior. nesse momento. seja em relação a validade do que escreve. que penetra seu tempo de modo a apontar suas mais íntimas contradições. de seus parcos recursos. Nesse momento. uma poesia que apresenta uma capacidade inesgotável de surpreender. o de que carecemos. sobretudo. exigida talvez por um incansável espírito perquiridor. o poeta que. de se. para além das particularidades da postura assumida na fase de Claro Enigma./ Não quero ser senão eterno. Talvez por isso não se prenda definitivamente nem mesmo às questões de ordem mais técnica. intensificando a sensação de inutilidade em relação ao conhecimento adquirido. senão eterno: E como ficou chato ser moderno/ agora serei eterno. como o soneto. na maturidade. naquela vertente poética inaugurada por Baudelaire e proclamada por Rimbaud. com seu verbo antipático e impuro. purificada e sóbria. de que a nada se pode outorgar a condição de absoluto. fabrica um elefante e cotidianamente o recoloca na rua. fiel à ética de uma poesia que nunca deixou de se espantar com a vida e com o mundo. A representação consciente da urgência histórica. as crenças anteriores e a fé depositada na esperança de que havemos de amanhecer aparecem sombreadas por céticas reservas de tempo. o que não é . o que de mais profundo Claro Enigma registra é o abalo que a negatividade histórica exerce sobre a consciência. de miglior fabbro. poetas que não se deixam apreender de uma só vez nem almejam qualquer forma de catequização.uma pedreira. Essa crise. a situação espiritual de nossa época. De qualquer maneira. advinda talvez da idade madura. na verdade. muitos. como disse Alfredo Bosi. sob a forma de símbolo. alimentando perquirições que se refletem de forma decisiva na linguagem. às exigências de seu próprio questionamento existencial e de sua aptidão a interrogar. da incomunicabilidade da própria poesia. principalmente. difícil de ler. assumiu completamente suas qualidades de master. transforma-se. Essa é a grande lição da poesia de Drummond: a de não se pretender lição de nada. Com efeito. que há de pungir. em direção à maior pureza lírica. de talvez. na famosa definição de Valéry.

que o seu novo conceito de poesia poderia efetivamente tê-lo paralisado.) E na meia-luz tesouros fanam-se. parece alimentar-se em Claro Enigma de pressentidas descrenças em doses de amarga . entretanto. que se perfaz numa angustiada inquietação expressiva. breve o tempo esqueceu minha incerta medalha. para que se possa afirmar. Dei sem dar e beijei sem beijo. Ora. Não deixarei de mim nenhum canto radioso. o que nos parece é justamente o contrário. ou antes. sem aquela vigorosa versatilidade do passado. e já não compactuando com uma poesia que quer servir de consolo. E em “Confissão” revela: Não amei bastante meu semelhante. de concordâncias vegetais. Só proferi algumas palavras. onde. não os cativa Orfeu. (Cego é talvez quem esconde os olhos em baixo do catre. Diz o poeta em “Legado”: Que lembrança darei ao país que me deu tudo que lembro e sei. melodiosas. os mais excelentes. momento em que as canções de timbre mais comovido estão caladas e os homens surdos aos apelos da alma. taciturno. uma voz matinal palpitando na bruma e que arranque de alguém seu mais secreto espinho. um sentido superior de arte. já que parece ter deixado de crer na poesia como algo merecedor de preito excepcional. definitivo nos versos de A Rosa do Povo. amor e piedade? Aquele desejo ético de que a palavra pudesse de alguma forma interferir no plano dos acontecimentos. E o que é mais absurdo: dizer que se poderia admitir que se encerraria aí a carreira de Drummond. como compor um homem e tudo o que ele implica de suave. que as composições de Drummond. apesar do desânimo produzido pela seqüência de desilusões político-filosóficas. e a meu nome se ri. Esses monstros atuais . como muitos o fizeram. uma busca ansiosa de um universalismo estético. murmúrios de riso. entre o talvez e o se. Do que restou. entrega. a rigor. a vagar. sobretudo do “poeta maior” voltado para os grandes problemas do homem e da vida. saem-lhe forçadas. eu? Tu não me enganas. mundo.suficiente. ao voltar da festa. a única reação possível é a de culpar-se por não ter conseguido comunicar o que pretendia. entre eles Emanuel de Moraes. explicitamente exposto através da fúria metapoética de “Oficina irritada”. e não te engano a ti. Severo em extremo consigo mesmo. pois o formalismo o controla. E mereço esperar mais do que os outros. dissolvidos os ideais de criação. Esse sentimento fica patente em sonetos como “Legado” e “Confissão”. desejaria poder deixar ao mundo seu legado de esperança. não catei o verme nem curei a sarna. o quanto o poeta era cioso de seu ofício. em sua maioria. tudo quanto senti? Na noite do sem-fim. tarde. Essa aparente descrença no ato criativo revela.

longe da experiência pessoal: esses monstros atuais. mais uma vez. Apesar da antiga vontade de poder ajudar a mudar o percurso dos acontecimentos. Nelson Ascher já se perguntara se os textos maduros e trabalhados de livros como Novos Poemas. Dessa tentativa de ajuste avultam os versos de poemas significativos como “Os bens e o sangue” e “A mesa”. Mergulhado numa espécie de cansaço intelectual. onde a dúvida completa a visão de um horizonte poético no qual sua própria história se perfaz em negatividade. o fato é que para alguns Drummond continua sendo o poeta que estreou com Alguma Poesia e se consagrou com os versos socialmente engajados de A Rosa do Povo. à sua maneira perfeitas. ou melhor. cujo legado seus . Realizando essa façanha. Nesse sentido. É nesse espaço que se dá o confronto com o passado através de um diálogo há muito desejado. a provar. ao poema que se tornou a mais conhecida e citada obra poética do modernismo brasileiro: “No meio do caminho”. um poeta múltiplo. por isso. restará. Por tudo isso é que se pode afirmar que na obra de Drummond parece haver um movimento constante de aproximação e afastamento dos temas ancestrais. mas. sem qualquer tipo de objeção ao Drummond explicitamente modernista. Seja como for. Mesmo reafirmando-se tantas vezes a qualidade estética dos poemas de estréia. pois o resto se esfuma. como “Fraga e sombra” ou “A máquina do mundo”. Fazendeiro do Ar e A Vida Passada a Limpo foram suficientemente compreendidos e assimilados pela crítica de poesia brasileira. verdadeiramente. fatigado pela antiga procura. diz o poeta em “Legado” e ironicamente conclui: De tudo quanto foi meu passo caprichoso/ na vida. mesmo. não satisfaz o espírito perquiridor de um eu lírico cansado de desilusões. imerso no crepúsculo existencial. a solução encontrada pelo poeta. é calarse. Como desconfiou Ascher. como se a condição presente paradoxalmente exigisse a negação do passado ao mesmo tempo em que requer a sua presença permanente: Como ser uma negativa maneira de te afirmar. cuja consecução envolvia refazer na sua própria obra a trajetória toda da poesia ocidental de modo não apenas a atualizar e revivificar o passado. “A máquina do mundo” já não seduz esse eterno peregrino da estrada de Minas pedregosa com fáceis convites à leitura dos mistérios do mundo. Em meio a paz destroçada. mas a corrigir também uma parte da história da língua e do país. que o destino do poeta gauche está irremediavelmente ligado ao menino antigo. onde se podem encontrar criaçõesmenos definíveis. obviamente. Claro Enigma. no perene trânsito do mundo. Lembrar-se de Drummond somente através das citações e referências habituais a textos como “No meio do caminho” e “Poema de sete faces” ou enfaticamente repetindo o “E agora. José?” é o mesmo que ignorar uma parte substancial de sua obra. Drummond. é preciso reconhecer que eles não exemplificam todas as qualidades artísticas do poeta. parece que a resposta é não. poema de abertura do livro. ele despreza o que lhe é dado de graça pela visão que escapa a possibilidade racional de apreensão do universo e. no poema “A mesa”. a trilhar arduamente o próprio caminho em direção ao conhecimento que nunca se completa. referindo-se./ uma pedra que havia no meio do caminho. pressente-se que qualquer transformação histórica situa-se. por exemplo. afinal. alcança uma modernidade mais profunda. nada resta. tornou-se vários poetas. É assim que o filho explica ao pai suas incômodas posições do tipo gauche. diz ele em “Remissão”. sua linguagem se movimenta em direção a uma expressão mais puramente lírica. completa Ascher. não os cativa Orfeu. antevista em “Dissolução”. Assim. do que escreves.ironia. preenchendo as lacunas que esta havia deixado na literatura. Acostumado a interrogar cotidianamente à existência. Nesses momentos o poeta transcende o próprio modernismo e. não menos do que Pessoa ou qualquer outro dentre os grandes.

longe de se afastar das preocupações com o elemento humano e com o seu tempo. que acabara de ser publicado. uma total identificação com os princípios da geração de 45. lembrando a inventividade bem tramada de “No meio do caminho”. um livro tão desconcertante que os jovens de 45 tiveram de mudar rapidinho de discurso. Drummond era o alvo predileto de Lêdo Ivo e de tantos outros. Novas cutucadas. Haroldo de Campos publica o ensaio ‘Drummond. e o programa concretista. ao longo de sua obra. por revelar as mesmas inquietações poemáticas dos grupos de vanguarda. para além de sua importância no quadro da poesia modernista. mostrando que. Não manifesta grande interesse pelo progresso da Poesia.conterrâneos mal começaram ainda a avaliar (apesar da abundância dos estudos dedicados à compreensão crítica de sua obra). chegou a dizer que Lição de Coisas é o mais atual dos livros de Drummond por sua maior adequação às experiências mais recentes da poesia brasileira. o único que ele dedicou ao poeta. Calase. Ao que saibamos. especialmente em relação às publicações posteriores a A Rosa do Povo. nada disso agradava ao estilo purista que surgia. dentro delas. pregando a volta do soneto e dos temas ditos elevados. E se alguns o consideram o livro mais isolado da obra do poeta mineiro. Não escreve a sério sobre poesia. um texto desse calibre chega a ser risível. nesse sentido que se deve entender o modernismo classicizado de Claro Enigma. e não como uma pausa na evolução poética drummondiana. nem oralmente nem por escrito. . Um ensaio que não reivindicava nenhuma ‘influência ou contágio’ da nova poesia nos poemas de Drummond. em que aponta ‘as confluências e pontos de encontro’ entre Lição de Coisas. conta-nos Heitor Ferraz. de forma inexata. os temas do cotidiano.o que não passa de um engano de leitura. Mário Faustino. Nesse momento. no caminho pedregoso da poesia. ‘dono do mais ponderável corpo de poemas que já se formou em nossa história literária’. mestre de coisas’. De nosso ponto de vista. depois de ter verificado em Claro Enigma. ocorria a exposição de arte concreta no Ministério da Educação e Drummond não se mostrara nem um pouco entusiasmado por essas experiências. poucos anos depois. Em 1957. por exemplo. mas ao contrário: ‘foi a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certa linha da poemática drummondiana’. em 1962. Num segundo momento vieram os jovens da poesia concreta. Drummond sentiu os ataques. E até mesmo chegaram a dizer que o poeta havia aderido ao novo programa . Heitor Ferraz lembra a resposta do poeta mineiro em dois momentos significativos da poesia brasileira: Primeiro.’ Hoje. a rigor. apesar de reconhecer a importância de Carlos Drummond de Andrade. com a famosa geração de 45. Claro Enigma representa uma das mais intensas tentativas de compreensão da “Máquina do mundo”. Não faz crítica séria de livros de poesia. Na verdade. entretanto. apesar da pretensa abstração. Gilberto Mendonça Teles. Com efeito. Porém. na busca de uma depuração cada vez maior das formas poéticas. Carlos Drummond de Andrade só age poeticamente através dos poemas que publica. para usar uma expressão de Merquior. utilizando-se de todos os recursos expressivos. não foram poucas as visões equivocadas sobre a obra de Drummond. É. Assinalando a impressionante presença de Drummond no cenário poético do século XX. Ele havia mostrado o quanto dominava as formas clássicas a ponto de. principalmente. manter sua forte dicção sem cair em malabarismos verbais ou numa literatura de ornamento. erroneamente chamada por Haroldo de Campos de estação neoclassizante. mas respondeu com Claro Enigma. não há nenhuma barreira que separe o verso livre das formas tradicionais enquanto possibilidade de expressão. mas é compreensível o pito que Faustino passa em Drummond. como muitos querem fazer acreditar. não discute a sério poesia. foi duro na crítica: ‘O Sr. O coloquialismo. Drummond evolui continuamente em direção a atualização constante de seu instrumento lírico.

que mesmo nos melhores momentos de sua obra é capaz de repetir: Triste é não ter um verso maior que os literários. É assim que. Seja como for. Hegel elegeu a poesia como a arte universal. e por isso sempre caminho possível para a libertação. ainda assim. ó quimera que sobe do chão batido e da relva pobre. isto é. Pedregoso caminho. longe de esgotar o significado da poesia contida na excelência do verbo que se revela em Claro Enigma. representando o sacrifício do que era mais significativo em sua linguagem. infenso as seduções que corrompem. se compreende porque. desorbitado. dos maiores de nosso tempo. afinal. Poeta do mais verdadeiro sentimento de humildade. para envolver tua efígie lunar. é verdade. . na luta cotidiana pela expressão mais prefeita. um apelo às mentes e as espíritos. como costumavam dizer Mário de Andrade e Abgar Renault.porque parece escapar às matrizes de sua poesia. endereçada ao coração sensível. em favor de uma depuração maior. num grau superior ao das outras artes. mas enriquecido de sabedoria. E compreende-se. é não compor um verso novo. seu caráter inventivo. construída sob a gestão de uma inteligência diabólica. Penetrar sem piedade a natureza humana e fluir em versos pelos seus condutos: esse é o canto do poeta de uma linguagem de rara densidade de pensamento. outros há que entendem que o nível de realização estética que a poesia de Claro Enigma atingiu é dos mais altos de nossa língua. escravo confesso das palavras. porque o filósofo alemão entendia que toda a verdadeira arte é essencialmente uma interrogação. principalmente. a poesia de Drummond é radicalmente problematizadora das infinitas relações do homem com o mundo.

Perdi tempo. ao músico. Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade.contando sem ênfase os pobres e miúdos acontecimentos que assinalam a minhapassagem pelo mundo. se organizou. e um poeta desarmado é. mas expulsaram-me por "insubordinação mental". insignificante em si. traduz uma grande inexperiência do sofrimento e uma deleitação ingênua com o próprio indivíduo. Eu liquidava esses outros.. que.era preferível que eu próprio a fizesse. Mário Casassanta levou-me para a burocracia. porém.. Refleti logo. tomei parte da guerra européia (pesa-me dizê-lo) ao lado dos alemães. 1944. a vida começou a impor-se. a desafiar-me com seus pontos de interrogação. filho de pais burgueses. Voltei a Belo Horizonte. A saída brusca do colégio teve influência enorme no desenvolvimento dos meus estudos e de toda minha vida. Ao sair do grupo escolar. e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais: No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Minas Gerais. Primeiro aluno da classe. Já em Brejo das Almas (1934). por que. por me parecer que esse trabalho seria antes de tudo manifestação de impudor. Mas iríamos longe nesta conversa. sincero ou não gratificar-me. tive que retirar a minha posição. declaro que nasci em Itabira. mas há também uma consciência crescente de sua precariedade e uma desaprovação tácita da conduta (ou falta de conduta) espiritual do autor. ao romancista. Rio de Janeiro. o individualismo será mais exacerbado. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. tinha saudades da família. dócil às modas e compromissos. Isto posto. não sem registrar que sou o autor confesso de certo poema. Perdi a Fé. E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam.Autobiografia de Drummond *Publicada em Confissões de Minas (Ensaios e crônicas). e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo. Alguma Poesia (1930).Entro para a antologia. num desastre de bonde na Rua São Clemente. com os jesuítas. sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica. não me julgo substancialmente e permanentemente poeta. Infelizmente. menos do que se reclama ao pintor. é verdade que mais velho que a maioria dos colegas. componho muito pouco.Convidado pela Revista Acadêmica a escrever minha autobiografia. no fundo castigo meu orgulho. Até os poetas se armam. um ser à mercê de inspirações fáceis. que se desmanchavam para dar lugar a outros. da contemplação e mesmo da ação. Sentimento do Mundo (1940). Penso ter resolvido as contradições elementares da minha poesia num terceiro volume. Quando o primeiro navio mercante brasileiro foi torpedeado. O bom reitor que me fulminou com essa sentença condenatória morreu. comportava-me como um anjo. alguns anos depois. Casado. alguma coisa se compôs. como redator de jornais oficiais e oficiosos. em Belo Horizonte). fui lecionar geografia no interior. Meu primeiro livro. mas apareciam novos. Segundo. relutei a princípio. com que o redator da revista quisesse. e todos os outros bons sentimentos. de que tenho tirado o meu sustento. e não outro. Dois anos em Friburgo. e evitando assim qualquer adjetivo ou palavra generosa. exige-se pouco do nosso poeta. De repente. mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo. praticando aparentemente um ato de vaidade. . Mas ganhei vida e fiz amigos inesquecíveis. A esse tempo já conhecia os padres alemães do Verbo Divino (rápida passagem pelo Colégio Arnaldo. Primeiro. da leitura. mesmo. sendo inevitável a biografia. no ano de 1902. Só as elementares: meu progresso é lentíssimo. pela autoridade natural que me advém de ter vivido a vida. falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo. que me criaram no temor de Deus.

Claro. Sempre é poeta de verdade Esse homem lépido e limpo Que é Carlos Drummond de Andrade. Manuel Bandeira . No Sentimento do Mundo. o Espírito.Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. Isto feito. o poeta. capta em claro enigma. Louvo o Padre. O poeta por Manuel Bandeira Carlos Drummond de Andrade Louvo o Padre. e após outra Trindade Louvo: o homem. Prima em Alguma Poesia.) Como é fazendeiro do ar. De resto Ponteia em viola viola de bolso Inteiramente à vontade O poeta diverso e múltiplo Que é Carlos Drummond de Andrade. Santo. louvo aquele Que ora chega aos sessent'anos E no meio de seus pares Prima pela qualidade: O poeta lúcido e límpido Que é Carlos Drummond de Andrade. alto e raro. Prima no Brejo das Almas. o Filho. o amigo Que é Carlos Drummond de Andrade. louvo o Filho. O Espírito Santo louvo. Prima na Rosa do Povo. O obscuro enigma dos astros Intui. (Lírico ou participante.