Música no século XX portuense

Filipe Pires
Artigos Meloteca 2009

farsa e também música de salão e religiosa. que se leu. instrumentistas e cantores tinha lugar apenas na capital. pelos acontecimentos ou pelos locais que foram construindo o património musical da cidade. chefe de orquestra e fundador do Conserva-tório Nacional em Lisboa. João Arroyo (1861-1930) ou Hernâni Torres (1881-1939) não fugiam à regra. Compositores portuenses. A acção desenvolvida por Moreira de Sá viria a culminar com a criação. escritor e conferencista. além da constituição de um quarteto de cordas. de modo a satisfazer gostos longamente generalizados. esta última tantas vezes composta sobre árias favoritas de óperas! A formação de compositores. alheios à exis-tência de repertórios de outra natureza ou proveniência. Bernardo Valentim Moreira de Sá (1853-1924) não se limitou ao exercício de funções inerentes a tão específicas modalidades. do Conservatório de Música do Porto. teatro de revista portuguesa. Teatro de ópera italiana. então ainda reduzido a Lisboa e Porto. ao romper do século XX depara-se-nos o teatro como pólo centralizador de praticamente todo o impulso musical existente no nosso País. bem como a primeira audição. deixando-se conduzir apenas por aquilo. os rumos da vida cultural da cidade e imprimia novas forças ao País. Por esta razão se prefere fazer passear a memória pelas pessoas. aquilo que se vai ouvindo ou por algo do que se sabe. em relação à capital. Nas últimas duas décadas do século anterior. das quais sairia o "Orpheon Portuense".Música no século XX portuense Filipe Pires 2 O retrato exaustivo de um período tão dilatado não cabe nas reduzidas dimensões de um artigo evocativo. No início do século. No entanto. Criou infra-estruturas sobre as quais assentariam as acções de formação e divulgação de repertórios e intérpretes. Manuel Benjamim (1850-1933) . Meloteca 2009 . A partir de 1900. como compositor. ateada por João Domingos Bomtempo.primeiro português a compor música de acompanhamento para a projecção de filmes -. a que deu o seu nome e no qual participou ao lado da então jovem violoncelista Guilhermina Suggia. pedagogo. comédia. o Porto tomara uma certa dianteira. entre nós. promoveu e dirigiu concertos sinfónicos. a par da docência. visando quase exclusivamente estes géneros musicais. como Artur Napoleão (1843-1925). corais e de câmara. que ainda hoje perdura. chefe de orquestra. em 1917. Aberto o livro do tempo na página pretendida. pianista. apresentou em Portugal alguns mais reputados solistas e conjuntos nacionais e estrangeiros. através de uma incansável actividade multifacetada. cuja direcção assumiu. que traçava. que já havia deixado extinguir a chama da renovação. o meio musical portuense encontrava-se dominado por uma figura de invulgar prestígio. havia fundado e dirigido instituições como uma Sociedade de Quartetos e uma Sociedade de Música de câmara. de obras fundamentais dos maiores compositores mundiais. Violinista. director de coros. mais de meio século atrás.

foi igualmente um compositor de grandes recursos técnicos e expressivos. além de professor de Piano. de cujo Conservatório de Música foi também Director. sob a emoção e Meloteca 2009 . A sua vida agitada e aventurosa foi dividida. Óscar da Silva (1870-1958) pode ser considerado o último dos grandes músicos românticos portugueses. autor de numerosas obras caracterizadas por acentuado cunho de serenidade lírica e impregnadas de inconfundível sabor português. Chopin e Liszt com as de um acentuado estilo elegante de salão oitocentista. trazendo ao Porto grandes nomes da cena musical internacional. Embora tendo nascido nos arredores de Barcelos. A frescura e elegância da escrita de Luiz Costa.Música no século XX portuense Filipe Pires A OBRA DE LUIZ COSTA O imediato continuador destas iniciativas foi o seu genro e antigo discípulo Luiz Costa. compostas em 1910. a que não é estranho um espírito de opereta nacional. Pianista do mais elevado nível. não apenas nos títulos evocadores das peças para piano como também nas de canto. da autoria de António Correia de Oliveira ou Teixeira de Pascoaes. durante as quais a sua actividade criadora teve lugar no Porto ou em Leça da Palmeira. por excelência. formador de uma notável plêiade destes instrumentistas. Algumas das suas canções identificam-se Luiz Costa 3 completamente com os textos poéticos que as inspiraram. cantado por um coro de crianças. no Palácio de Cristal. um hino infantil. Também natural do Porto. por seu turno derivada de modelos franceses e vienenses. em períodos de fixação nesta cidade. a vida profissional de Luiz Costa (1879-1960) decorreu no Porto. e até à data da sua morte. podem ser contabilizadas cerca de três décadas. com igual energia e dedicação. sob a sua direcção. Desde então. sucedeu-lhe na direcção do Orpheon Portuense. porventura uma das suas obras-primas. A atmosfera campesina do Minho é traduzida de forma muito pessoal. dedicou a este instrumento uma parte significativa da sua produção como compositor. de entre os quais há que salientar Maurice Ravel. privilegiando a intuição e a comunicabilidade imediata. alternadamente. onde iniciou os seus estudos musicais. Com 11 anos de idade. Pianista de grande carreira internacional. prestes a completar 88 anos de existência. Após a morte do sogro. Herdeiro de tradições onde se fundem as influências de Schumann. revela-se sobretudo como um artista sensitivo. onde viria a falecer. que aqui se apresentou como pianista e compositor. apresentou em público a sua primeira composição. em Lisboa e no Brasil. um leve toque de impressionismo e um culto intenso pela Natureza são reflexos da sua personalidade requintada. Exemplo flagrante desta tendência são as "Dolorosas" para piano.

nascida na Bélgica. discreto e intimista. Ao longo de toda a primeira me-tade do século. os nomes de três outros compositores. desempenhou algumas funções de relevo. de família oriunda do Porto. certamente. durante breves anos. Tiago e com as Medalhas de Ouro e Mérito Artístico da Câmara Municipal desta cidade. Mais esquecidos têm ficado. Director artístico do Emissor Regional do Norte. oficializado nessa data. actualmente com 104 anos de idade. durante as quais foi distinguido com o Colar da Ordem de S. tendo composto para esse conjunto inúmeras transcrições de outros compositores. além de obras pró-prias. é Cláudio Carneyro (1895-1963). no Ateneu Comercial ou nos Teatros Sá da Bandeira e Rivoli. realizadas no Salão Gil Vicente do Palácio de Cristal. o lugar de relativa modéstia que lhe foi atribuído em vida e que só muito recentemente ultrapassou as apertadas fronteiras regionais atingindo a verdadeira dimensão de figura nacional. veio muito nova para esta cidade. cuja abundante produção mereceria uma maior atenção por parte de intérpretes e organizadores de manifestações musicais. Foi também. Em 1939. sem dúvida o mais representativo criador musical portuense do século XX. compôs o Hino do Porto. Katherine. Em 1940. onde se radicou e desenvolveu a sua actividade como compositora e Cláudio Carneyro Meloteca 2009 . foram muito numerosas as homenagens que lhe foram prestadas. O Governo português distinguiu-o com o grau de Oficial da Ordem de Santiago da Espada e o Orpheon Portuense atribuiu-lhe o "Prémio Moreira de Sá" pelo conjunto da sua obra. por ocasião de estreias das suas obras. se deve.Música no século XX portuense Filipe Pires o profundo des-gosto causado pela morte da mãe. até hoje. fundou e dirigiu uma orquestra de arcos na sua cidade-natal. passou praticamente toda a sua existência nesta cidade. 4 A EXCELÊNCIA DE CLÁUDIO CARNEYRO Outro grande compositor. destinado a galardoar novos valores neste domínio. A estes traços de carácter. a Câmara Municipal do Porto instituiu o "Prémio Bienal de Composição Cláudio Carneyro". Por ocasião das comemorações do centenário do nascimento do compositor. Contudo. exceptuando algumas viagens ou não muito longas estadias em Paris ou nos Estados Unidos da América. de nacionalidade norteamericana. dizia-nos que quase ninguém conheceu intimamente o seu marido. entre as quais as de Director e professor do Conservatório de Música do Porto. mesmo às pessoas de família". Berta Alves de Sousa (1916-1997). Nascido na freguesia do Bonfim. A sua viúva. filho do grande pintor António Carneiro. pois ele "nunca revelava o seu pensamento. Por ordem cronológica.

o emprego da politonalidade. Cândido Lima é director do "Grupo de Música Nova". que se tem empenhado em atrair para a prática coral muitas dezenas de estudantes. O decano dos compositores portugueses é hoje Fernando Corrêa de Oliveira. A "Oficina Musical". alicerçada em convicções estilísticas de um salutar eclectismo. o "Grupo de Música Vocal Contemporânea". bem como Álvaro Salazar e Cândido Lima. que ao ensino da Composição. proporcionando-lhes mesmo uma primeira oportunidade de contacto público. exerceu funções diplomáticas no Paquistão. com particular incidência na dos compositores portugueses. Nas suas obras. mais recentemente. utilizou uma linguagem de cariz impressionista. dirigida por Álvaro Salazar. na Escola Superior de Música portuenses têm dedicado uma parte significativa da sua actividade. organiza anualmente Jornadas de música contemporânea. Os dois últimos fundaram. que se têm consagrado ao estudo e à divulgação da música do século XX. tem revelado nas suas actuações um elevado nível artístico. compreendendo as vertentes harmónica e contrapontítica. Surgido quase simultaneamente com estes agrupamentos instrumentais. a par da do ensino. na década de 70. Com objectivos menos específicos e congregado num meio académico não musical. de onde era natural.Música no século XX portuense Filipe Pires professora de música de câmara e piano no Conservatório. pequenos grupos instrumentais. a que deu o nome de "Simetria sonora". antes de se consagrar definitivamente à Música. autor de uma original técnica de composição. sediados no Porto. do Bailado e do Teatro. igualmente. o "Coro da Faculdade de Letras do Porto" encontrou no maestro José Luís Borges Coelho um forte dinamizador de vontades. além de levar a efeito encomendas e publicações de obras. ocupou-os na docência de Composição no Conservatório local. que privilegia sobretudo a promoção dos mais jovens talentos. com os quais obtém excelentes resultados artísticos. Meloteca 2009 . proporcionado pelo profissionalismo dos seus elementos. abrangendo os domínios da Música. onde avulta. Pode ser considerado o único discípulo de Cláudio Carneyro que seguiu a via da composição musical. no Conservatório e. de que foi fundador nesta cidade. exercendo importante acção pedagógica. sob a direcção do barítono Mário Mateus. licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra. Embora só nos úl-timos 5 anos da sua existência se tenha fixado no Porto. Vítor Macedo Pinto (1917-1964). ministrado principalmente na Academia Parnaso. 5 AS NOVAS GERAÇÕES À geração seguinte pertencem o autor destas linhas. nascido em 1921.

o "Quarteto de cordas do Porto". composto por alunas e fundado pela sua Directora. inspirou ao compositor Cláu-dio Carneyro um grande número de peças corais. Encontra-se neste número o "Trio Portugália". criadores e intérpretes. sob forma pontual ou regular. em início de carreira. contudo. Como já foi dito. por Moreira de Sá. foi um dos melhores conjuntos congéneres de que o País dispôs. para esse efeito. nem sempre directamente vinculados à cultura. Actualmente em vias de extinção. Era composto pela pianista Helena Costa. sediadas em Lisboa. foi a delegação da Pró-Arte. tem sido o viveiro de sucessivas gerações de músicos. incentivadora de alguns valores locais. a sua actividade passou a ser empreendida. desempenharam papel importante na vida musical da cidade. O Conservatório de Música. Com o advento da "experiência pedagógica" dos anos 70. Stella da Cunha. Este conjunto alargava-se. ainda que laboriosa.Música no século XX portuense Filipe Pires A menção de pequenos agrupamentos instrumentais e vocais actuantes nos nossos dias não pode fazer esquecer outros que. nos anos 30 e 40. Também ligado ao mesmo estabelecimento de ensino. e pelo violinista Henri Mouton. cujas delegações nortenhas foram lançadas. Menos duradoura. na primeira metade do século. contando. o "Grupo Musical Feminino". a um quarteto. São elas o "Círculo de Cultura Musical" e a Juventude Musical Portuguesa. fundado em 1917. a propósito da acção desenvolvida. por sua irmã. que se projectou até hoje. constituído por professores do Conservatório. no início do século. as instituições por ele criadas cons-tituíram os alicerces sólidos sobre os quais foi construída toda a vida musical da cidade. ainda que com actividade reduzida. após um período áureo. por vezes. encontravam-se radicados no Porto. Meloteca 2009 . que ficaram conhecidas sob a designação de "Sociedades de concertos". durante os anos em que aqui esteve aberta. Helena Sá e Costa 6 SOCIEDADE DE CONCERTOS Neste "retorno ao passado" tem lugar uma palavra relativa às instituições promotoras de acontecimentos musicais. por Ofélia Diogo Costa e continuadas por suas filhas Maria Ofélia e Maria Inês. Não foi assim. aqui tendo formado escola. Os dois últimos músicos mencionados. com enorme êxito. Além do já referido Orpheon Portuense. com a participação do violetista François Broos. conse-guiram sobreviver no Porto. em décadas anteriores. por organismos de índole diversa. a violoncelista Madalena Costa. Na década seguinte. que deu numerosos concertos durante os anos 50. duas outras sociedades. embora não sendo portugueses.

a "Orquestra do Porto". muito activa. beneficiando de personalidade jurídica pró-pria e tutelada pelo Ministério da Cultura. em 1947. só veio a concretizar-se em Outubro passado. com um mínimo de 80 ou 90 elementos. Esta última. e continuado até hoje pela pianista Fernanda Wandschneider. após lento estertor. em 1989. a "Escola de Música do Porto". foram aparecendo. mantendo uma dimensão média de 50 músicos. discípula de Óscar da Silva. A Profª. este estabelecimento de ensino ampliou. que transitaria. quebrando a tradicional dependência dos modelos ditados por Lisboa. mas viria a sucumbir.Música no século XX portuense Filipe Pires adquiriu uma autonomia pedagógica e curricular. em justíssima homenagem à ilustre pianista e pedagoga. conferindo graus de bacharelato e licenciatura. Os Institutos Politécnicos das duas principais cidades do País integraram na sua rede escolar as Escolas Superiores de Música. Hélia Soveral. fundado por Ernestina Silva Monteiro. Actualmente. garante um ensino de nível profissional qualificado. a sua esfera de acção às Artes do Espectáculo. O ansiado regresso à formação sinfónica. a "Orquestra Clássica do Porto" e. O começo da década de 80 trouxe consigo o desdobramento dos níveis de ensino da Música em Portugal. para a RDP. já nos anos 90. Helena Costa foi a primeira Presidente da Comissão instaladora desta Escola. além de continuar à frente do Orpheon Portuense. Embora de excelente qualidade técnica e artística. em períodos de 4 anos. a "Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto". Mais recentemente. fundada e dirigida pela Profª. que igualmente deu início aos Cursos e Concursos internacionais da Cidade do Porto. a "Orquestra Nacional do Porto". nascera. por fim. é susceptível da tão desejada estabilidade. como o "Curso Silva Monteiro". Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves. filha de Luiz Costa e neta de Bernardo Moreira de Sá. dispõe de uma esplêndida sala de espectáculos. Voltando ainda um pouco atrás. alguns anos depois. a que foi dado o nome de Teatro Helena Sá e Costa. sob a égide do Conservatório e por iniciativa da sua Directora de então. Outras escolas foram surgindo. sob administração de uma "régie" cooperativa. No Porto. a escassas semanas do final do século! Madalena Sá e Costa 7 Meloteca 2009 . Em seu lugar. nenhuma delas foi variando entre si.

música de câmara ou solística. O desaparecimento do Palácio de Cristal constituiu um rude golpe para a Cultura. Batalha ou Trindade viriam a fechar as suas portas ou a desviar para fins menos nobres os cartazes que ainda afixam. Meloteca 2009 ..Música no século XX portuense Filipe Pires 8 À ESPERA DA CASA DA MÚSICA. a Casa da Música em gestação será. após a remodelação em curso.. Em post-scriptum expectante. acima de tudo. João. nacional. bem como de algumas igrejas na divulgação de um riquíssimo património que é... Julho de 2001. ópera e bailado -. Júlio Dinis.concertos de orquestra. cuja intensa e diversificada programação garante à cidade a vida cultural de que é merecedora. Texto originalmente publicado na revista «Porto de Encontro». não pode ser esquecida a importantíssima participação das Fundações Engenheiro António de Almeida e Cupertino de Miranda. honra seja feita a salas como as do S. Outro tanto há a esperar do Auditório Carlos Alberto. do Rivoli ou do Coliseu. Sá da Bandeira. porventura. Palácio de Cristal Ao longo destes 100 anos. o primeiro tema do próximo artigo evocativo. Finalmente. Cinemas como Águia de Ouro. Nos nossos dias. os locais habituais de realização de manifestações musicais de diversa natureza . foram escasseando progressivamente.

Música no século XX portuense Filipe Pires 9 Casa da Música Meloteca 2009 .

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