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As paredes cruas da tua casa iluminadas por um sol que não há - não há porque não é sol, és tu nela. Em redor, a imensidão da planície, cujo manto resguardava os largos montes ao fundo. O sol que há descia os seus raios para te abrilhantar o rosto e avivar o olhar. Não muito perto, eu, que só por o ver o posso lembrar. Saíste, em direcção ao portentoso potro que pasta serenamente as verduras da terra que por tua causa é abençoada. Um pequeno cavalo, que estimas como se fosse obra tua; está a teu cargo, é pertença desta tua vida, ou não fosse esse o teu nome. Julgo que, por um momento, olhaste, para trás, até mim, e me notaste a ver toda essa cena, eu que de imediato me devolvi, assustado, à minha lavoura. Mas não o posso evitar: de todas as vezes que te vejo, e vejo-te por causa desse belíssimo cavalo de que tanto gostas, tenho de interromper o meu trabalho e desenhar no pensamento um centauro em génese que houvesse no meio de nós dois.

Algures dentro de uma floresta nunca atravessada pelo Homem, eu e tu, nós dois no cimo de uma árvore das mais altas, olhando a imensidão do denso manto verde que se estende até, lá bem longe, os rápidos que acabam nas cataratas, potentes artistas dum arco-íris que nos chega como a união eterna entre nós dois. Que dizer num momento assim? Nada. Apenas devemos vê-lo, tudo o resto é despropósito. Enquanto estiveres a meu lado, poderei ter a certeza de que ocasiões como esta, em que a beatitude de todo este mundo e de todos os outros mergem diante de nós, acontecerão imensas vezes, nunca as suficientes. Não te afastes de mim, não esqueças o que vês quando me olhas, o que sabes que eu te dedico. Procuro força em mim (eu sei que a tenho, mas onde?) para te chegar perto e te dar tudo isto que te devo. Porque dias assim, no cume desta árvore, acontecerão de facto, não importa onde:

toda a beleza deste lugar selvagem és tu.

Saí a procurar-te por entre estas ruas velhas e sinuosas, e não vi ninguém. As ruas ermas sem o mínimo vestígio de vida, mesmo animal, ou vegetal; só o mineral, porque esse está sempre onde nem o pensamos sequer. Por todas estas ruas, ninguém. Não encontrei uma única pessoa, porque não te vi. E todas as avenidas das minhas artérias gritam o teu nome, para apareceres,

mas não estás aqui. Estou vazio, porque não te encontro no meio destas ruas desertas da cidade que já não sabe alegrar ninguém. Desta cidade de que só podemos gostar se não vivermos nela. É em ti que penso, e és tu que eu não vejo. Não há ninguém, porque não estás, e eu estou vazio de gente. Este pequeno átomo que passa diante de mim sem que eu sequer dê conta:

quantas vezes passou ele já por mim? Quantas vezes já foi para mim, já me pertenceu? Por quantas vezes mais se prestará a estar disponível para sustentar, juntamente com tantos outros, esta vida que tanto estrago? Mas também, quantas vezes mais eu pensarei nele? Quanto tempo mais lhe dedicarei quando, no decorrer do Tempo Eterno, ele for como eu agora e eu então for como os que me ajudam hoje? Só me aperceberei profundamente de todas estas pequenas coincidências intencionais quando estiver por completo liberto da cegueira em que às vezes gosto de estar. És tu, pequena flor em gente, que durante o hoje em que me visto assim me desdobras estas

percepções. Tu és o ponto de confluência entre quem me quer ajudar e eu. Por

ti redescubro a Vida. Graças a ti, hei-de um dia ajudar quem, mesmo sem o

saber, como esse irmãozinho que não consigo nem ver, se predispõe a levar- me até à sensibilidade da pureza que tu anuncias.

De entre todos eles, que todos os dias vejo, é a tua voz que ouço, a tua

imagem que me aparece ao fundo. Todos se divertem, neste dia que só hoje se quer lembrado para sempre. Eu, hoje, não consigo estar com eles. Hoje era para estar contigo, era assim que eu agora devia estar, a ouvir-te, a ver-te. Estar longe de ti absorve-me, e só consigo estar, hoje, agora, mais tranquilo se me alienar de tudo e de todos, se apenas comer, se apenas beber, se apenas estiver. Sempre que possível, pensar em ti, e em estar contigo. Nada mais, hoje ou em qualquer dia, me poderá dar a satisfação que todos eles, perante todos eles, têm. A tua voz, a embalar-me até junto de ti, de tudo o que és. Eu a adormecer no teu colo, debaixo das tuas mãos que atravessam o meu cabelo,

a minha face. O sono eterno, aquela paz de quem está contigo, a invadir-me

suavemente e a libertar-me das minhas preocupações. Tu, só tu, só nós. Sem

atribulações. Sem necessidade de sorrir por obrigação, de responder aos desafios dos outros. Só nós. Sem ter de cruelmente estrangular as ténues

amizades que me rodeiam hoje. Mas o que queria mesmo era não estar aqui. Aí, contigo; era para estar abstraído da minha passagem actual pelo mundo, e, a tua mão na minha, percorrermos os limites insondáveis do cosmos, deixarmos atrás de nós uma nuvem de calma, de alegria, de felicidade, que brota naturalmente de nós unidos. Estou rodeado de gente. De que preciso? Da tua companhia.

Subo as pequenas escadas e entro na grande sala onde estamos todos. As saudações devidas, sinceras. Rapidamente trocamos aquelas mensagens que cada um quer dizer ao outro, sobre pequenas experiências, ocasionais situações de actuação. Trago comigo aquele rosto, aqueles olhos que me permitem estar aqui tão bem. Aprontamo-nos para nos unirmos - sem nos tocarmos. Não é estando todos em círculo, nem abraçando os ombros uns dos outros: é deixando que a enérgica nebulosa se expanda de nós, através de nós, e entre nós, até que passemos a ser um só. Unidos pela força que nos agrupou. O nós, agora coeso, eleva-se através de outro conjunto de escadas, estas maiores, só transponíveis assim, em grupo. Chegamos ao lugar onde, não muito longe de nós, outros grupos, unificados pelas suas energias, nos avistam. Alegramo-nos todos, reconhecemo-nos todos. Sem saber as suas identidades, sabemos quem são. A nossa afinidade permite-nos uma ligação

instantânea forte como uma amizade de sempre. Os vários grupos aproximam- se, reagem positivamente à presença, próxima de cada um, de todos os outros;

e então todos nos unimos num grupo ainda maior. As vibrações energéticas

que passam através de cada um dos muitos elementos (sei-o porque o sou) tornam-se mais intensas, mas também mais fortalecedoras. Em pouco tempo estamos já em presença de outros tantos agrupamentos, sempre em constantes unificações - até que, quando a tua imagem em meu coração se torna brilhante de arco-íris mais coloridos que os da água, aí somos todos um planeta Terra em comunhão, somos uma só Humanidade ligada pela força da sua fé, lançando para o Cosmos a sua corrente de energia pura; são os teus olhos enormes de beleza que me dão o ânimo, a consistência para estar unido

a todos, onde tu também estás. Eis-nos finalmente a retribuir toda a paciência, todas as oportunidades, todo o Amor depositados em nós. Eis-nos finalmente

libertos dos chumbos que, presos aos nossos pés de espírito, nos carregavam para baixo sem complacência - esses pesos que eram, no fundo, de nós. Postos em nós por nós. Agora, leves como o pensamento mais puro, sublimados pela cooperação global de energias, percebemos num relance toda

a inutilidade das coisas mesquinhas e frívolas que fizemos, e rapidamente nos

envolvemos na conectividade que o Infinito de luz estabelece connosco neste momento. A energia que emanamos atravessa todo o horizonte que podemos avistar, e chegará a pequenos lugares onde outros irmãos sofrem o seu estado actual. Derramam sangue, odeiam-se, são egoístas - têm os pés ainda muito pesados, muito enterrados na matéria que são. Com tempo, hão-de um dia ligar-se a nós, e reforçar a ajuda para quantos, então, precisarem. A lembrança do teu olhar serve-me, agora e sempre, como um marco histórico: aquele ponto de viragem em que o meu amor deixou de ser pessoal para ser universal.

Na lonjura do caminho, há um passo que custa mais a dar, há um sopro de vento que nos esforça mais, há um lance de sol que amolece mais. Acumula-se

o tempo que caminho, e tarda ainda o destino. Podia encostar-me a uma

árvore, e esperar por força recuperadora: mas não me quero atrasar, não posso, preciso chegar lá quanto antes. Sem parar, vou descobrindo novo ânimo que me alivia do cansaço. Donde este reconforto? Não da Natureza, que me informa da exaustão do meu corpo, mas do denso e belíssimo halo que me acompanha. Atrás de mim, como uma abóbada, seguem-me todos os que precisam que eu dê estes passos com eles, ligados a mim por uma razão que desconheço, mas que agradeço. São como que um espectro da minha passagem, para registarem o aprendizado que, pouco depois, deles será esperado, quando estiverem no meu lugar; seguem os passos que darão. À minha frente, o arco cristalino de quantos me guiam. Eles que me conhecem, e ao percurso, melhor que nós outros. São eles que, sem me pedir, me pedem a minha parte do que foi acordado comigo: o cumprimento da minha caminhada, reforçando e preparando, com a luminosidade da sua presença, os que me seguem. Para uns, sou aluno; para outros, exemplo. Que fazer? Continuar o percurso, mesmo que por vezes se me pareça difícil. Eles, uns e outros, sabem bem, cada um à sua maneira, devolver-me a aptidão de que todos precisamos:

fazem-no mostrando-me, na minha imaginação, a tua imagem. Esse rosto onde não vejo um rosto, mas a densificação material do mais puro que podemos conhecer. Esses olhos, que nos revelam a imensidão de tudo o que é Deus. Essa expressão, mais rica que toda a riqueza, mais instrutiva que todos os livros, mais pura que uma gota reluzente de amor. Tu, meio e fim do meu pathos, ajudas-nos a todos, ao longo deste caminho que, a pouco, e muito pouco, se vai tornando mais agradável.

Quando o sol começou a ficar mais distante, a descer pelo horizonte, levantámo-nos da beira da praia e fomos até à pequena cabana que, entre duas árvores daquele denso muro verde à nossa volta, nos resguardava do frio, da chuva. Entre nós, a luz fraca dum pequeno lume que aquecia o jantar - e tu, ornada pelas sombras da noite e do fogo, incendiavas todo o meu interior com o teu olhar. Enquanto passavas as palmas das mãos por cima da lareira, ias-me dizendo que aquilo tudo não era vida para ti. Não era viveres no paraíso pequeno de uma praia tropical, no sossego do nada, que te preenchia o viver. Ambicionavas mais, querias tudo o que a vida tinha escondido, pelo mundo, para que tu encontrasses. A tua proposta, essa noite, foi muito clara: se eu estava disposto a acompanhar-te no périplo da tua missão enquanto vivente. Eis a resposta: aquele moço pacato, que se contentava com a movimentação do sol estático, com umas pequenas ondas a molharem os pés, e um resguardo simples como aquela cabana onde estávamos, tem respirado o ar dos mais variados lugares do globo, a teu lado enquanto fotografas toda a beleza natural que te aguardava há tanto tempo, não se privando de se opiar com toda a riqueza de pensamentos instantâneos que por todo o lado, à deriva, vai encontrando. Hoje, que aqui estamos nas colinas do Tibete, à revelia dos chineses que não sabem onde estamos, digo-te uma vez mais, como te disse nos Himalaias, nas profundezas verdes do Congo, ou defronte de umas ruínas Maias na América do Sul, digo-te agora também - que te amo. Que te Amo, colega de jornada, ambos procurando sempre o melhor para a nossa evolução. Obrigado pelo "ultimato", naquela noite, na cabana.

No meio das agruras de um dia carregado de trabalho; na canseira que me chega do esforço de empregar todas as forças que tenho em tarefas que falho em cumprir; na indisposição agónica que surge causada pela vertigem da descida rápida ao abismo dos maus humores; em pleno oceano de negatividade que também eu não evito - és tu quem me chama ao longe. É a tua voz que ouço, ténue, vaga, interrompida pelo nevoeiro denso da cegueira de aborrecimento à minha volta, é a tua voz que, a custo, consigo ouvir. E

ouvindo-te, vejo-te, por entre uma nesga de luz bem distante, olhando-me. O teu rosto ímpar, iluminado pelo teu olhar deslumbrante. És tu que me chamas. Sem me dizeres nada, chamas-me, e apelas-me a que dê conta de onde estou

e para onde levo todos com quem estou. Aperta-se-me o coração ao descobrir

que eu, tão feliz aí contigo na luz, tão depressa tenha caído nesta cova escura. Não quero, não gosto, sei que ainda sou assim mas não quero. É aqui que tenho de mudar, é agora, neste instante. Aquilo que os livros nos informam não

é para ser lido e admirado, mas feito. É nestas horas que passam por mim que

tenho de agir aquelas palavras aladas que com tanta bondade nos chegaram. És tu que me despertas, uma vez mais, esta urgência. Sempre que a minha força adormece, e me permito estagnar, eis que surges, com a infinitude de amor que te caracteriza, e me chamas de novo. Não há como dizer não ao teu olhar.

Na berma da rua, Césares em trapos amarrotados, presos às muletas, de saúde podre; ilustres ditadores dormindo sob o abrigo de duas folhas de cartão; grandes senhoras da história a falarem sozinhas na confusão dos cérebros deficitados logo à nascença. De que vale termos sido tanto, se nada éramos? E eu, que, do meio das minhas comodidades, os vejo, que rumo tomo eu? Será que aquilo que faço desencadeará que me seja justo, no futuro, ser como eles agora são, ou procuro evoluir na senda do Bem? Tenho uma vida tão facilitada; serei melhor que eles? Não: estou apenas a passar por um teste diferente. Ao ter todas as vantagens que tão facilmente obtive, posso dedicar-me a outro tipo de tarefas mais edificadoras em prol dos outros, e não apenas à minha sobrevivência: posso, porque devo, procurar amenizar a dor de quem sofre, nem que eu tenha já sofrido por eles; o passado só é importante quando o

esquecemos. Posso chegar a esses antigos líderes orgulhosos e dar-lhes a ajuda que, talvez, eu próprio lhes hei pedido aparentemente em vão. É-me pedido agora o mesmo. Por isso, tenho também o desafio de ter de encontrar a medida certa para valorizar as ajudas que tenho sem cair no conforto de as considerar garantidas. Tenho porém uma grande confiança no teu amor, que a meu lado me permite ter a alegria de confiar sempre numa lucidez de entendimento das coisas, que nunca teria se não fosses assim.

Naquela noite, ainda me cheguei perto da tua cama, onde descansavas o rosto inocente de sono. Na América esclavagista, éramos apenas dois animais carregados de trabalho, mas mesmo assim pudemos amar-nos. Morremos crianças, lado a lado, numa mina de carvão na Inglaterra industrial. Sob os nossos pés, o chão tremia enquanto Lisboa se desfazia em ruínas. Tu, então homem, eras queimado vivo no fogo da Inquisição apenas por teres querido ser verdadeiro, e eu chorei profundamente por um desconhecido, quando já estava tão habituada a actos de fé. Percorri vezes sem conta a selva amazónica, com os outros homens da nossa tribo, para te poder dar, e às outras mulheres e crianças, o alimento necessário todos os dias. De entre os muitos milhares de feridos naquela guerra estúpida para uma nação ter mais uns metros de terra, tratei de ti com todo o carinho que pude, e por isso ficámos juntos pelo resto dessa vida. Estávamos um ao lado do outro, completamente fascinados, enquanto um César entrava triunfante em Roma. Renunciei ao casamento que me fora imposto mesmo antes de nascer, e juntos sobrevivemos nas margens do Ganges, saboreando os princípios de Buda. Debaixo dos frisos da ágora duma cidade grega, a soma das horas todas em que discutimos o conhecimento do Universo equivalia a semanas contínuas. Sentia um aperto no coração sempre que chicoteava o teu grupo para puxarem mais depressa os blocos de pedra da grande pirâmide. Durante uma luta entre as nossas tribos primitivas, tiveste-me em condições de me matar, mas afastaste a tua lança do meu pescoço para que eu pudesse fugir. Há mais, sim, também sinto que houve mais, se calhar até antes de virmos, sob o abrigo de Yeshua, desterrados do outro Paraíso. Mas o que importa mesmo, agora, é que estamos prestes a embarcar numa nova aventura. Possamos encontrar-nos

outra vez, e possa eu reconhecer-te; talvez agora sejamos mais de acordo com o que é esperado de nós. Desejo-te tudo de bom, toda a felicidade que te for possível.

Os pequenos muitos grãos de areia escondem os dedos das minhas mãos, à medida que o peso da ausência de forças me sobrecarrega os ombros. Apesar de ter todo o mundo ao meu alcance, é na aridez do deserto que persisto em continuar. Se andar um pouco mais, se me mantiver no caminho em que me encontro, chegarei à riqueza da selva verdejante que me aguarda. Por enquanto, tenho sede, e não tenho água. Tenho calor, e não tenho sombra. Não quero aqui estar, e é tudo o que vejo à volta. Como se toda a vida que existe não existisse, como se tudo o que nos é possível ter é a ausência de tudo o que queremos. E por vezes acabamos por achar que o que sonhamos, desejando-o, não passa da irrealidade que se encontra ao procurarmos para lá do que conhecemos. Mas se só isso nos é apenas possível, é porque não consideramos sequer querer o impossível que nos espera além das desalegrias deste nada em que me encontro. Por isso tens tanto valor para mim. Do meio de todo este deserto, descobri uma flor, descobri-te. Bem firme nas profundezas desta terra difícil, tu és a benesse que se espera, sem esperança, encontrar. Saber que existes, ver-te brilhante no meio da vastidão de poeira que nos consome, dá-me a certeza de que é real a existência da terra edénica que sonhamos após esta. Revelas-nos que a beleza existe, e que em momento algum o Amor que nos acompanha nos deixou. Por isso, ao ver- te, ao me tornar parte da imensidão que em ti descubro, devolveste-me a esperança que se desvanecia. Se guardar o teu exemplo, se cuidar em que te mantenhas assim na minha vida, poderei deixar de ser vencido pela aridez deste mundo que sou: e verei que, afinal, o deserto é sempre um oceano, não do que queremos, mas do que precisamos para darmos valor à abundância de felicidade.

Num pequeno canto do Universo, tu existes para o bem de todos nós, o amor dos teus olhos alumia os nossos erros para que os possamos saber e mudar. A tua presença nunca pode ser incólume, nunca enquanto fores assim - e sê-lo-

ás sempre. Por ti descobrimos a vida, todo o propósito de sermos, a necessidade de estarmos. Só em ti o alento, o conforto, o carinho no meio

desta vida. Só tu, ser gracioso, alma branca de luz, pequeno corpo (porque muito corpo já não é necessário); só tu, só em ti o apoio nas horas difíceis, a esperança e o ânimo por nos lembrares que o bem subsiste, e permanece. Por

ti,

cumprimo-nos.

O

abade, na sua velhice ágil e seca, fora muito determinante: nada de atrasos,

nem de distracções. E o ocioso monge, que preferia demorar-se na cursiva daquela cópia de um livro de Tucídides, suspirou, acatou a ordem e, com as devidas vénias, retirou-se para a sua cela, a fim de se preparar. Alguns irmãos,

de quem era mais chegado, foram ter com ele para se despedirem, e desejarem boa viagem. Ele agradeceu, deixou-os, e partiu, sozinho, munido de alguns mantimentos e roupa, até à grande cidade. O caminho ainda era demorado, e o tempo estava difícil de neve e vento, mas no fundo gostava de sair da monotonia limitadora do mosteiro. Souberam-lhe bem aqueles dois dias

devotos só a si. Inspirando ar directamente da Natureza que o cercava, olhando o sol sem os entraves do vidro tosco das janelas, vendo as coisas sem pensar em regras nem em manuais de percepção e entendimento, ele descobria um mundo alheio a todo o pensamento do Homem, a todas as grandes descobertas, a todas as preocupações com que os homens gostam de ocupar as suas vidas. Afinal, não era aquele que era o mundo alheio, mas o

nosso; aquele era "o" Mundo, o nosso era

mais uma invenção nossa, sujeita,

como tudo o que é nosso, a erros, imperfeições, limitações. Sentiu-se de novo ligado à força criadora da Natureza, como se fosse uma criança. Certa vez, à beira dum rio, vendo que estava só, ousou despir-se e saltar para a água; e reparando que uns rapazes o viam e se riam dele, ele riu-se também, e

mergulhou para mais longe - só que nunca nadara, não sabia, e em pânico agarrou-se a toda a água que pôde para chegar à margem. Enquanto se secava, ia-se rindo do sucedido, lançando uma gargalhada mais forte quando sentia de novo a massa de água a puxá-lo para si. Chegou por fim às proximidades das muralhas, e o amontoado de casas e de gentes começou a torná-lo de novo em frade. Era dia de mercado, e dentro da cidade a feira

atabalhoava as ruas com o seu caos humano. Era sua missão chegar à igreja, entregar uma carta ao padre. Procurava manter a sua integridade no meio daquele mar de corpos que comprimiam o seu; mas inevitavelmente um ombro, umas pernas, um seio lhe tocavam, o chamavam para si. Começava de imediato a pensar nas horas de bíblia que de noite, no seu claustro, lia fervorosamente, nas orações que lhe ocupavam as grandes partes do dia - mas a sensação lá estava, era real, ligava-se a algo que ele sabia que havia no

seu pensamento mas que desde sempre fora tornado esquecido

homem, via-se um como aqueles e não se estranhava. Por um momento, deteve-se defronte de uma banca de cestos de vime, esquisitamente elaborados, alguns mesmo tão simples que se tornavam complexos. Eram tão belos como as mais ricas iluminuras dos grandes manuscritos do mosteiro; o vime tornava-se, assim entrançado, tão admirável como o mármore das estátuas santas da capela; os jogos de sombra entre as finas tiras desdobravam texturas tão perfurantes como os vitrais do altar-mor. Pasmado, olhou para quem os tinha, e a artista demorava-se na construção de um novo, que juntaria aos outros que tinha à venda. Empenhada no seu labor, só um pouco depois levantou o olhar belíssimo e o levou àquele ser mirrado e pálido que sem pestanejar a contemplava. Foi esse o instante das suas vidas. Juntos, correram mundo fora, estiveram onde nem o mundo esteve, descobriram o que ainda não existe. Ela, sem saber porquê, não conseguia deixar de olhar para ele; ele já só lá deixara o corpo. Bela moça, serão estes os nossos destinos? Eu encarcerado no convento, tu inutilmente gastando a tua arte na sombra dos outros que te ignoram? E foram mesmo juntos; os cestos ficaram no lugar, o padre leu a carta, ele morreu no mosteiro, ela num humilde casebre fora das muralhas da cidade. Mas foram juntos.

Via-se

Vê, Deus, quanto está a ser arrebatado da minha vida. Vê quanta carne me arrancam as chicotadas que outrora foram minhas. Quando já não precisar mais de ter carne, é porque não precisarei mais de ter estas dores, nem o bálsamo do teu olhar (que então será constante). Vê, Deus, estou a caminhar para ti: aí, chegarei a todos nós.

De que me vale ser grande nas largas avenidas da artificiosidade criada pelos homens? De que me vale lutar para que os outros, que não são mais que eu, me elogiem? Prefiro a sombra, onde sem a pressão das expectativas dos outros me posso confiar à execução da verdadeira felicidade da vida: cooperar com todos, e não com a fama e a riqueza. Os outros conseguirão a glória, a reputação, o dinheiro: eu luto pela sensação de, no final do dia, sentir a exaustão como recompensa de um trabalho bem feito. O corpo fez-se para ser usado, e não para ser adornado como um manequim da montra. Sei que sou feio e gordo, pouco apelativo aos critérios dos outros - mas estou aqui para fazer, e não para subir à custa do sacrifício dos outros.

O Universo é uma flor nos teus cabelos.

A vida são os gritinhos que suspiras quando ris.

A morte será poder ver-te na eternidade.

Recebo, com um suspiro, as ofensas que os outros me fazem, pedindo, com as palavras da mente, que possam evitar cometer injustiças; que eu receba apenas aquilo que mereço, tudo o que for para lá já não será saudável, nem para mim nem para eles. Para fiscalizar tudo isso, conto com quem sabe aquilo que tenho de receber e aquilo que eles outros que vivem ao meu lado não devem fazer. O grupo que somos, eu e quem me acompanha sem corpo terreno, cuidará disso. Tenho confiança neles, tanto para o que mereço como para o que tenho de fazer. É uma obrigação que cumpro com gosto.

Pousas nos meus ombros as mãos agastadas pelos dias, e os braços perdem- se no cansaço. Um suspiro teu, quase inaudível, pergunta-me o porquê de tanto trabalho. Minha linda, deixa-me abraçar-te: acompanha as minhas mãos que atravessam as tuas costas e se cruzam bem na coluna, e depois dançam lentamente por todo o teu tronco. Assim bem perto, olhamo-nos nos olhos um do outro, entramos um no outro até às almas que se amam, e aí descobrimos que somos parte do Universo sem fim. Tal como ele é acção constante e harmoniosa, assim temos também de ser. O trabalho é o nosso treino para sermos infinitos. Temos de ser cada um o seu próprio Universo, infinito de

beleza e perfeição, para podermos ser parte do todo a que pertencemos. O melhor exemplo para tal é Jesus, e o primeiro bem infinito que eu e tu partilhamos é o amor do reino que não é deste mundo.

Para estar contigo, desci aos infernos, andei no meio do vício e da baixeza de

espírito, intoxiquei-me e tornei-me igual a todos. No fundo, eu sou igual a todos

não estiveste

comigo: para quê então ter arriscado a tranquilidade vazia, entregar-me a um ambiente febril e entontecedor, se não estiveste comigo? Talvez para um dia estarmos um com o outro reciprocamente.

- mas lancei-me no meio de todos, para estar contigo. E no fim

O corpo mexe-se, o mundo continua a girar as vidas absortas nos afazeres quotidianos, mas eu não estou aqui. Vejo tudo, ouço tudo mas ao longe; está

tudo tão distante

sonho que foi violentamente trucidado pela luz, pela vida que o sustentava.

Parece tudo tão irreal

aquilo que não passava de um sonho fosse em definitivo o futuro que tanto queria - e agora, que o sonho acabou e tudo voltou às cores que nunca se perderam afinal, agora tenho o choque de tudo não ter passado de imagens sem sentido, um filme sem rolo, gotas dispersas de uma água que nunca deixou de ser - pó. O grande templo que, sobre as ruínas de glórias passadas, erigi, cai agora como se as grandes e pesadas pedras que tão dificilmente, mas tão optimista, empilhei, não fossem mais que folhas secas quebradas pelo vento árido e amargo do fim. No altar que te esperava, o fogo da chama que se queria eterna extingue-se como um pequeno fósforo que acaba. Não foi preciso que um vulcão arrasasse tudo: a vida que ligava e entrelaçava todas as coisas simplesmente partiu. Resta o que sou: ruínas.

a minha vida estava completamente inclinada para que

eu estou perdido, algures entre o tempo e o espaço de um

Orgulho? Egocentrismo? Não. Estar perto de ti é mais que tudo isso. Ver-te

agir, na tua divina simplicidade, sentir a tua presença, ouvir-te tão próxima faz-me esquecer todos os meus problemas, faz-me delirar, sentir finalmente a

verdadeira felicidade. Mas

que sentirás tu, de mim, que não tenho as

qualidades do teu ser magnífico? Que verás tu em mim? Oh, como gostava de

te dizer tudo isto, e mais o que todas as noites, sonhando vendo-te, o meu pensamento, completamente rendido à tua imagem, alcança, no grandioso mundo da paixão. Sim, dizer-te: mas que responderias tu? Confortar-me-ias? Repudiavas-me? A ti, mulher fantástica, ser único, minha amada, não compreendo eu, porque não deixas tu. Mas que eu desejo, oh, se desejo! Para que vivo, afinal? Nada mais vejo à minha volta que me complete, me fascine tanto. Que mais conseguirei escrever? Faltam-me já palavras, mas excedem os sentimentos, as visões lindíssimas, com o teu belíssimo sorriso, os teus profundíssimos olhos. Ah, se a realidade fosse o sonho, e eu vivesse esses momentos contigo! Que mais de belo haveria no mundo?

Os teus modos são uma caixa onde escondes a fraqueza que, tal como eu, tens. A toda a hora me agrides, me feres a integridade, mas naqueles momentos que menos esperas mostra-se a tua infância. És ainda uma menina, num corpo cravado de vida difícil; eu sou um menino num corpo ainda sem vida como a tua.

Em plena tormenta de dor e angústia, no meu rosto desenha-se, tremente, um sorriso. A minha boca é traçada pelo fel amargo desta hora adversa; começa por ser um gesto de sofrimento, com lágrimas que caem para dentro, e que vão regar as ervas daninhas que alastram pelo meu íntimo. Mas depois é um sorriso de satisfação, mesmo que tudo o que sou esteja em ruína, mesmo que um Vesúvio inimaginável (mas que desde sempre pairou sobre a pequena e indefesa cidade); mesmo que as nuvens densas de morte desçam o monte e encham o ar que vivo, asfixiando-o; mesmo que uma torrente de lava brilhante não cesse de deslizar, aumentando o seu efeito por antecipação, e afunde as ruas da minha vida com o seu fim; mesmo com tudo isso eu sorrio. É imensa esta provação; vejam, todos os que condenei a sensações semelhantes; vejam, leis belíssimas de amor e justiça que regem o Universo - vejam, cumpre-se esta parte da pesada cruz que eu mesmo pus às minhas costas. Sofro, porque já fiz sofrer; sofro, para não sofrer mais. Depois de assentar e de secar, dessa lava mortífera ficará um solo fértil, pleno de vegetação radiante, e rico das pedras mais preciosas. Por ora, sorrio.

O sol, quando nasce, não nos vem roubar ao descanso do sono para nos atirar a mais um dia de trabalho. O sol, quando nasce, dá-nos um momento em que, todos de igual, o olhamos e nos alegramos com o amor que, através dele, Deus nos faz chegar de si. A Terra é o nosso cantinho especial, onde trabalhamos agora no aperfeiçoamento da comunidade global. Muitos de nós estão constantemente em viagem, noutros planetas, noutros lugares do reino de Deus, em auxílio, a aprenderem, a ensinarem. Esta nossa pequena bola é, após tantos sobressaltos, finalmente um foco de irradiação de paz para onde quer que seja precisa: entregamo-nos todos a essa tarefa de bem. As crianças, mesmo antes de nascerem, enquanto se dá o processo de incarnação (que já não dura nove meses) têm plena consciência de tudo, dialogam com seus pais futuros (que, no fundo, já o vão sendo agora), e continuam tal como são enquanto apenas espíritos. Quando nascem, lembram-se de tudo, porque não há necessidade de o esquecer, continuam com a mesma identidade que tinham, e deliciam-se com a pureza de um cérebro puro e de um corpo puro, sem qualquer marca definitiva da vida. Com toda a naturalidade conseguimos, porque as nossas intenções são elevadas o bastante, todo e qualquer milagre que Jesus, naquele tempo, fez em ajuda aos necessitados, e para grande espanto de todos quantos o viam - talvez nós tivéssemos sido alguns entre esses; porém, nenhuma dessas acções é agora tão importante como fora então - porque a saúde espiritual que alcançámos nutre o corpo, que agora é adaptado a espíritos pouco ligados aos instintos e actividades mecânicas dos animais; os próprios vírus são pequenos seres que vemos e educamos com amor, sendo possível a coabitação de todos sem dano para ninguém. A maioria de nós está desencarnada, pois assim pode melhor servir aos pedidos que lhe sejam feitos de ajuda e acompanhamento. Mas uma vez ou outra gostamos de encarnar, sentir de novo em torno do nosso ser as forças tremendamente belas da nossa querida Terra; envolvemo-nos com roupas que para nós fabrica, tornamo-nos num breve espaço de tempo parte tão integrante como uma árvore ou uma rocha, e o amor de Deus chega-nos pelo espírito e pelo corpo. Apesar de nos limitar ainda um pouco os movimentos, não deixa de ser uma experiência fantástica. A Terra é, de facto, como aquele Paraíso de que no

Génesis se refere como perdido. E é-nos tudo tão natural

encarrega-se de alimentar os animais a partir de, aparentemente, nada: é como se o ar fosse enriquecido com todos os nutrientes de que aqueles proto- espíritos precisam. O leão está sentado ao lado do cordeiro, mas também o elefante brinca, à beira do rio, com o crocodilo; o tubarão delicia-se com as travessuras do golfinho; a baleia, de tão grande, convida todos a abraçá-la. O mosquito, sem precisar mais de sangue, deixou de ter para nós e para os

animais de que, outrora, se alimentava, aquela conotação negativa; e até o seu ruído, que parecia tão irritante, se tornou, apesar de ser o mesmo, em mansa melodia. Faz-nos bem contemplar tudo isto, então se estivermos dentro de um corpo conseguimos sentir tudo de forma mais especial. Recebemos frequentemente visitas de irmãos de outros lugares, alguns até distantes (na medida do corpo); alguns vêm encaminhados por causa da ajuda que sabem que, pelas belíssimas paisagens do nosso jardim, lhes poderá devolver alguma paz, tão necessária antes de tudo para que se esteja depois mais receptivo aos ensinamentos edificantes. Também nos chegam irmãos que, ocasionalmente, terão estado cá em corpo, embora afeiçoados a outros planetas; também nós nunca perdemos aquela ligação de amizade com todos os lugares onde havemos estado. As nossas actividades, aqui como em qualquer outro lugar, continuam a ser dirigidas e supervisionadas pelo grande mentor da Terra, Jesus. Temos a honra de afirmar que por vezes o vemos, pela Terra, passeando entre nós: e se o achávamos tão superior a nós apenas por fazer ver os cegos, por exemplo (coisa tão simples e natural), era porque não tínhamos a mais pálida noção da sua perfeição. Ele fez aqueles "milagres" dentro das limitações que o corpo humano naquela altura tinha - mas ele está, ainda e sempre, muitíssimo melhor que nós, e a sua devoção, desde há muito, por nós é prova bastante para o sabermos.

A Natureza

As tuas mãos pousadas na mesa; agarrei-as com as minhas, envolvendo-as. Depois de ouvir o nosso filho fechar a porta do quarto, abraçámos o olhar um do outro, e tive a alegria de te poder dizer que és o amor da minha vida. É tão bom poder amar-te. Enorme alegria por haver um ser comum aos dois. Sou

feliz - graças a ti, e nunca pensei que pudéssemos chegar sequer perto daquilo que hoje somos um ao outro. Amo-te, companheira.

Estas pedras toscas em que me sento, que se multiplicam às centenas por esta terra de areia áspera e seca – outrora tudo isto foi lindo, foi magnífico; em tempos houve aqui um grande templo, à volta do qual floresceu uma grande civilização. Agora só restam as suas ruínas. Nesse templo imenso, coberto de ouro e zelado por infinitos sacerdotes, venerava-se a deusa-mãe, a entidade a quem se atribuía a criação de tudo, desde o bichinho mais pequeno até aos grandes astros distantes do Universo. A vida de toda esta gente passava em função dos rituais de devoção e culto a essa deusa, e para poderem identificá- la melhor compuseram-na à imagem dos homens; mas como era a perfeição, fizeram-lhe, nos blocos de pedra, a representação mais perfeita do que pode ser um ser humano sem defeitos. Esse povo vivia na esperança da vinda dessa mãe, dessa origem imaculada, até junto deles; constantemente lhe rogavam a pedir que viesse, precisavam pelo menos de uma prova da sua existência, não era apenas o mundo, era também a razão de aquele povo viver, que queriam ver explicado, demonstrado de forma divina. Esta esperança e esta expectativa aumentavam ainda mais sempre que o oráculo do templo afirmava que essa deusa, na sua forma mais pura, estaria um dia no meio de todos nós… O tempo passou, a divindade foi adiando sempre a sua visita, e o seu povo foi-se deixando levar pela adoração de deusas mais inferiores, que garantiam a fascinação de se manifestarem de forma mais concreta, de serem mais imediatas nas respostas aos pedidos que lhes eram feitos. Algumas tiveram os seus profetas, e também as suas próprias aparições. Aquela deusa primordial foi caindo no esquecimento, até se extinguir qualquer réstia da devoção que, outrora, o povo lhe reservara. Como os homens são impacientes! Perderam-se no amor de deusas que não tinham a mesma importância, a mesma elevação que a deusa mais perfeita que dantes adoravam; estas pequenas divindades eram interesseiras, manipuladoras, egoístas, e emocionalmente sádicas. Nunca a outra desceria tão baixo… Mas essas pelo menos eram palpáveis, havia provas da sua existência. Os homens não souberam esperar por ti, que decidiste vir agora com esse corpo perfeito e sem impurezas que só tu podias

ter. És tu, é o teu rosto que encontro nas estátuas em ruínas deste lugar que sou eu.

Só não me esquecia do mundo por causa da chuva. Algures entre a água a escorrer por nós e o teu olhar, a minha alma perdera-se numa luz intensa e interminável que dava a ilusão de nada haver antes e depois de si, como se tudo o que existisse fosse aquilo. Era a luz que saía dos teus olhos, que se insinuava no teu sorriso, que palpitava nas tuas mãos. Um dos momentos altos da infância do meu espírito.

O desejo foi tomando dimensões insuportáveis, e de repente todas aquelas

pessoas estavam a mais; já mal conseguia disfarçar quando te tocava, quando passava por ti deixava a minha mão mais solta do teu lado, quando ficava ombro a ombro contigo (embora de costas um para o outro) e ia descaindo um pouco, e só conseguia ouvir a tua voz, olhar para o teu corpo, querer vê-lo mais… Assim que pudemos, fugimos suavemente para um lugar mais resguardado, tentando que ninguém desse pela nossa ausência. E naquela pequena sala escura o meu desejo encontrou o teu, ali as tuas pernas dominaram a minha cintura e o teu peito dançou à minha frente. As tuas mãos apertavam-me a roupa, as minhas embalavam as tuas coxas – e o teu rosto de prazer só acelerava o meu.

Dá gosto ver-te.

Imaginar

o teu corpo colado ao meu

as

tuas coxas arqueando em volta das minhas

as

tuas mãos sedentas puxando-me para ti

o

teu suspiro intenso como um perfume no meu pescoço

o

teu peito frágil reagindo ao toque das minhas mãos agrestes

o

teu ventre magro a voar com o meu

os

teus pés pequenos a tocarem nas minhas pernas

os

teus olhos, bem perto de mim, translúcidos de satisfação.

Nada mais existe à nossa volta, nem nós.

Em intervalos cada vez mais breves, o tecto do quarto desaparecia por trás do teu corpo ofegante. As minhas mãos agarravam agora com mais força a pele húmida do teu torso. A tua boca, próxima da minha, expirava o prazer, que corria, como o sangue, pelas tuas veias, e que entrava no meu corpo, pela respiração afectada de quem era apenas a ideia de atingir o máximo no momento certo.

A luz vai morrendo devagar nos lençóis amarrotados e dispersos, que mal chegam para nos cobrir. No quarto, na sala, na cozinha – em cada lugar da casa há marcas da nossa passagem, quando perdidos um no outro dançávamos as nossas sensações na ternura ébria das pequenas carícias.

As tuas sobrancelhas, com os pelinhos finos, alinhados, pequeninos, pretos sobre a pele lisa e branca. O teu olhar brilhante como uma gota pura de orvalho, quando o sol fresco da manhã a atravessa. A amálgama de cores nos teus olhos, como se dançassem a perfeição da tua beleza. É nestes dias, quando libertos dos afazeres que nos consomem as horas destinadas à vida dos homens, nestes dias, chova ou faça sol lá fora, é quando eu, bem junto de ti, vou olhando todos os pormenores do teu corpo, todos os detalhes que fazem de ti o que és, enquanto com as pontas dos dedos vou acompanhando os teus contornos. Desprendidos na cama, como dois náufragos que por fim encontraram uma ilha tropical, recuperamos das navegações tempestuosas da noite anterior.

Quando soube que em ti se dava o milagre da vida, a alegria foi imensa, preencheu-me o ser, trouxe-me novas razões para viver. Passávamos os serões a projectar futuros, e as nossas bocas eram ternuras e carinhos que ansiávamos por lhe poder dar. Desde sempre o encarámos como a expressão humana do nosso amor, e tudo o que ele fosse no tempo que lhe fora dado seria sempre o reflexo do que era o nosso amor, sem as ilusões do comodismo que nos enganassem. As nossas vidas eram a vida dele, fazíamos os nossos horários, geríamos os nossos compromissos em função dele. Os nossos

tempos livres eram para que ele fosse feliz. Não o carregávamos de mimos nem lhe cumpríamos as vontades todas, mas o sorriso na cara dele era a nossa satisfação. Demos-lhe o melhor que tínhamos. Cresceu com a sensibilidade e a inteligência da mãe, e soube aproveitar o melhor dos fracos momentos em que o pai descia à realidade. Aprendeu comigo a desconstruir as ideias pré-estabelecidas, mas aprendeu contigo a criar as suas próprias ideias sem a influência de ninguém. Comigo foi diferente; contigo foi superior. Às vezes, quando o íamos buscar à escola, enquanto ele vinha ter connosco, o meu braço em volta dos teus ombros era mais intenso, e o meu sangue era um arco-íris de cores maravilhosas. Agora, não tenho sequer força para estar de pé. Diante de nós, o corpo do nosso filho a apodrecer na morte. O teu rosto desfigurado por um pranto indescritível - não há palavras. Não pode haver pensamento, sentimento, a Razão que faz de nós bichos pensantes, tudo isso morreu com ele. A sua morte é o morrer de uma parte de nós, mas fica ainda a lucidez crua e permanente para sentirmos sempre a ausência do que se perde. O meu coração é uma bola de mágoa que asfixia o peito, e do imo do ser efervesce uma náusea, como se também as entranhas agonizassem com o peso da dor.

Paro um momento, e reparo no pouco de ti que, de casa, consigo ver. Cá fora, sentada na bancada de madeira, velha como tudo, olhas o horizonte que se vai diluindo no branco que te opaca os olhos. Tens o corpo estragado pelo trabalho contínuo de tantos anos esforçados; a boca, onde os dentes foram morrendo com a vida, treme senil, parecendo dizer o nada em que pensas; as mãos fatigadas, irremediavelmente doentes, com as veias muito escuras a quererem rasgar a pele baça e quebrada. De que valeu, nos alvores da existência, quando o corpo é incapaz de se dominar, ter-te dito que eras a mulher da minha vida? Foi para isto que nos demos um ao outro? O gosto de sentir um corpo tenro e perfeito; de descobrir um cantinho dos lábios onde o beijo saiba melhor; de pousar a mão trémula no teu joelho, sabendo que te arrepia os lugares mais profundos do ser; tudo isso é cinza dispersa pelo vento, se se chega às nossas idades e nada há de mais substancial que faça ainda persistir o amor. Satisfizemo-nos, mas não nos dedicámos um ao outro, e assim agora

somos a miséria viva de um castelo que se tivesse posto sobre a areia do deserto. É por isso que tenho vergonha de estar ao pé de ti: o estado deplorável em que te encontras por causa dos erros que estavam reservados para mim, mas que eu tive a desumanidade de te arrastar para eles, roubei-te à paz que te aguardava no equilíbrio de uma vida simples e trouxe-te presa pelos turbilhões do meu destino. Se eu soubesse que iríamos acabar numa casa podre e em ruínas como nós estamos, se soubesse o entusiasmo pueril de uns momentos da vida que rapidamente se perderam no nevoeiro do passado, se soubesse que a felicidade que te prometi era a felicidade que te estava a tirar - nunca teria chegado ao pé de ti, naquele dia chuvoso há tantos anos, e não te teria dito "gosto de ti".

… como se fôssemos três ovos, eu, tu e o nós, mas que não tivéssemos uma galinha que nos chocasse, isto é, não tivéssemos o calor da vida e do amor, que nos tirasse daquele estado de vida morta…

Uma cadeira, no canto sozinha, olha-me e, chorando, lamenta-se como os seus ingredientes foram arrancados do seu lugar original para, contra vontade, serem violentamente tornados nela. Em toda a sua existência sofre as penas deles, as dores de estarem contorcidos em objectos para utilidade do homem. Mas também me confidencia que enquanto o homem fizer isso ao que não é dele, sofrerá as consequências, e não haverá homem algum que saiba o que realmente é viver. Encosta-se à parede, junto ela, o caixote do lixo, como uma velha recurvada pela sua tarefa; não que lhe agrade, é claro que não, mas foi a sorte que lhe calhou; como todos, aguarda o fim da sua utilidade pela sua própria deterioração - para se salvar, tem de desejar que o tempo o deteriore. Ah, existência cruel! Como eu, que sou gente e não queria ser nada, e portanto desejo o momento ante-primordial em que não me sabia porque não era.

Que acontece quando nos apercebemos que aqueles que se nos fazem maiores inimigos são na verdade quem mais nos quer? Porém, será que nos querem realmente? Queres-me? Tu, que a todo o momento me queres humilhar, sentir-me debaixo da tua bota à medida que contorces o pé cada vez

mais para baixo? Tu, a quem eu desde logo dei o meu aval para seres a minha punidora? Será que realmente quis que o fosses? O que é certo é que, de entre toda essa energia contra mim, vejo algo que não diz contra; no meio dessa tentativa de humilhação, há um não desiderado elogio. No meio do não olhar, há contemplação. Mas eu! Já não sou como era! Já não te vejo como te via! A um dado momento, tombaste para junto das outras memórias, e agora és só evocação - talvez se tenha dado o contrário comigo, talvez eu tenha fermentado, mas tu apodreceste. E toda a tua meninice, que outrora tanto me excitou, agora repudia-me pela sua falsidade.

A menina lá dos montes veio um dia para a planície - tudo diferente! Até o

amor. Tudo igual! Até o desamor.

Assim que pôde, isolou-se. Comprou uma cabana numa pequena população que vivia nas encostas das montanhas no Tibete, levou uns quantos livros consigo, e passou a vida a coleccionar muitos mais. Nunca quis aprender a

língua daquelas pessoas, para não ter que falar com elas. Assim era feliz; assim foi feliz. Foi-o até ao momento em que, estando a comprar legumes para

o jantar, ouviu, sob a luz escurecedora do Sol de fim de tarde, uma voz conhecida. Então a sua vida voltou ao caos.

Os seus passos ecoam por entre o vento, a sua sombra espalha-

se nos olhos de todos. Vem, e leva quem quer - mas não leva quem deve. Os

maus, esses ficam todos - mas se calhar só morrem os bons porque só

passam a bons quando morrem. Mas ela ainda aí está

sua túnica murcha as plantas, a sua foice vai rasgando o céu: mas não sei porque não me vê ela. Nada quer comigo! Nem ela!

O cheiro bafiento da

Ela anda aí

Em muitos rituais antigos, costumavam sacrificar seres humanos escolhidos para o efeito; não conseguimos hoje perceber bem porque o faziam. Há explicações do género "para acalmar os deuses", "para propiciar o bem aos que cá ficam". Não: hoje tive essa visão. Hoje soube que não. Quando o homem perdeu o respeito pela Natureza, ou melhor, pelo Mundo (porque a

Natureza é o mesmo que o homem, engloba-o), este sentiu que o tributo para apaziguamento, para acalmar a sua fúria contra o seu maior vírus (que é a vida; estão a tentar criar noutros planetas: contágio!), tinha de continuar. Ora, como a Terra é proporcionalmente gigantesca em relação a nós, minúsculos piolhos, as suas acções têm outras consequências em nós: quando pisamos uma colónia de formigas, parece-nos pouco, mas a elas não é. A Terra parece estar a causar-nos a justa medida, mas é muito mais que isso para nós. Só que, o que parece uma atitude de justeza, é na verdade uma atitude anti-viral:

leva-nos os melhores, ficam os piores, apercebem-se disso os péssimos. E a humanidade permanece embrutecida.

Acordo no lamaçal pustulento do deboche com que embriaguei o meu coração, e afasto de cima de mim o corpo gorduroso e horrível a quem cedi os meus sentimentos. No suor os poros vomitam o nojo que me causa tudo, todas as coisas que vejo - até esta coisa em forma de gente que me diz, na sua boca carente de decência, que me ama. Ardem-me as lágrimas incandescentes que me escorrem pela cara quando penso por momentos quão imensas vezes não terei eu deixado a quem me amasse nenhuma outra solução senão destruir os seus maiores bens na devassidão deste circo de bestas em que o espectáculo maior é a corrupção dos corpos até à imundície dos prazeres perversos. Sobe-

me uma náusea até à garganta, custa-me levantar daqui, mas não consigo ficar muito mais tempo: tremo de repulsa só de sentir esse corpo ao pé do meu; é insuportável saber que estes braços quererão outra vez chegar ao prazer à custa da minha mortificação. E de cada vez que respiro e que o sangue acorda momentaneamente o meu cérebro entorpecido, penso em ti: só nessas alturas consigo sair deste bordel em que se tornou a minha vida. Toda a luz de que tu eras o sol imenso, o teu sorriso tão brilhante, os teus olhos claríssimos; a tua pele perfeita como porcelana e os lábios rubros como o amor que não me deste. Os teus dedos a marcarem o compasso com que o meu coração batia emocionado, e a leveza dos teus pés a pairar nos meus olhos extasiados. Tudo isso se perdeu a partir do momento em que não te pude amar mais: a tua vida

Agora busco o amor falso e fácil de quem quer apenas

exaurir os seus instintos mais baixos - mas não é assim que consigo iludir a

já não era só tua

falta que me fazes. Se eu não te mereço, se também o meu corpo não merece a paixão do teu, estará aqui para quem queira um bocado dele; é de toda a gente, porque não pode ser teu. Impossível seria, porém, não existires na minha vida: podes estar para sempre ausente, mas pelo menos haja isso de ti em mim. A tua inexistência seria o meu fim.

Naqueles dias, o sol clareava com o seu calor as cores fortes e nítidas do jardim por onde costumávamos passear pela tarde. Em passo lento, a tua mão pousada no meu braço e o ritmo igual dos pés que com vagar se sucediam, e num ou noutro canto um criado que se prontificasse a receber alguma ordem nossa. Só o resfolhar do teu belíssimo vestido fazia som suficiente para igualar os esparsos pássaros que dançavam de árvore em árvore, ou as pequenas frases que trocávamos. Éramos monotonamente felizes, e por isso éramos tudo menos felizes. São imagens desse tempo que me ajudam a distrair das grandes tormentas que vou passando aqui no novo mundo para onde fui levado depois de morrer. Demorou perceber que morrera, demorou perceber por que leis se rege este lugar - e acabei por me adaptar à dor. Deve haver também um lugar onde as pessoas são felizes, deve haver também maneira de se voltar para a Terra: mas por agora quero desfrutar do conforto que tenho conquistado aqui, já há um certo respeito por mim, o governador deste lugar tem-me convocado mais vezes que o normal para fazer parte da comissão de acolhimento aos recém-chegados. E foi precisamente uma dessas almas perdidas que me deu uma notícia que me tem deixado profundamente abatido. Não sei como essa velha mulher (que nunca mais vi) soube que eu e tu nos conhecemos, e que fomos o que fomos, mas ela, assim que me viu, disse-me que tu estavas na Terra, agora longe do país onde tu e eu fôramos brandamente alegres - e que eras infeliz. Que tudo na tua vida se entrançava de forma a complicar ainda mais os teus dias, que acabavas sempre por ficar longe dos que amas, e rodeada de pessoas que desejavas nunca ter que conhecer. Que ninguém te dava o devido valor, que não tinhas satisfação em nada, e que só com grande sacrifício conseguias, de tempos a tempos, sorrir. Foi esta notícia que me tem andado a ponderar seriamente deixar este sítio onde afinal tanta gente sofre (e onde eu sobrevivo à custa desse sofrimento), e

passar o que for necessário para prover que sejas feliz. Tenho de ser capaz de

te devolver algum alívio de tudo o que estás a viver, e para isso tenho que

mudar, tenho que pelo menos voltar à Terra. Que há para fazer?

Só no paraíso se encontram os anjos, porque onde estiver um anjo, aí há um paraíso. Ontem estive no paraíso, embora não o mereça; vi um anjo, da cor do Sol. Um anjo que, em dados momentos, me pareceu que olhava para mim. Talvez me olhasse como quem vai a olhar a calçada enquanto cogita nos problemas fundamentais da vida (para os quais tu tens todas as respostas, nasceste com elas, é-las): não importa. Na minha ilusão, tu terás pelo menos algumas vezes passado os teus olhos assombrosamente belos, mesmo de relance, pelo lugar onde eu estava. É difícil deixar de gostar de ti. É difícil não querermos estar ao lado de alguém tão melhor que nós, para pelo menos nos melhorarmos um pouco - mas não posso ser tão egoísta. Tu também queres alguém melhor que tu (o que é difícil de encontrar) para te poderes melhorar, e porque mereces. Eu não sou melhor que tu, a única coisa bela que tenho é o que sinto por ti, que só é especial porque tem o teu rosto. Alguma vez seria capaz de macular o teu corpo? Já por instinto evitas uns simples beijos de cordialidade - como poderia eu pensar em ter entre os dedos a tua mão, ou em perder-me nos labirintos dum sorriso terno teu? Haverá quem te mereça; eu devo ter perdido, algures no tempo que lá vai, o direito a estar com alguém como tu. (como tu só existes tu)

Não tens culpa absolutamente de nada. Foste o melhor que alguém podia ser na tua situação. Estou triste por mim, por ser assim; tu tens de estar confiante, alegre, feliz, por seres assim. Que era a tua vida antes da minha intromissão? Não tinha nada que invadir o teu mundo. Acima de tudo, sê feliz - isso só depende de ti, e de mais ninguém.

O que era suposto era sermos amigos, ajudarmo-nos da única maneira

possível e positiva, mas eu baralhei tudo. Não me estás a magoar: a dor é mais leve precisamente por tua causa.

Por respeito a ti, não te direi mais "daquelas" coisas, mas gostarei sempre de

te ver, porque, acima de tudo, é bom ver-te.

Não te preocupes comigo, estás-me a ajudar muito com tudo isto. Uma vez mais, e pela última, digo-te: um dia ainda nos iremos rir de tudo isto.

O meu desejo em relação a ti é este:

que possas fazer as escolhas certas na tua vida.

É bom:

-

correr contigo o Universo

-

atravessarmos florestas densas de árvores e plantas que não existem

-

inspirarmos a brisa calma do mar numa tarde de Verão

E

é bom

em lugar nenhum, só nós dois,

o

toque meigo no joelho, o olhar que foge num sorriso envergonhado

e

o sentimento,

inclassificável,

imenso,

em cadências de luz entre as nossas mãos.

É tão bom, da mesma forma que é

tão angustiante a tua ausência. (Faz-me bem ver-te, mas faz-me querer ver-te ainda mais)

Não haverá:

O sol a nascer por entre os teus cabelos.

A luz dos teus olhos a abrir para o mundo a fonte de tudo o que neste globo é

maravilhoso.

O sorriso dos teus dentes a espantar toda a crueldade dos corações que te

vêem. Os gestos do teu corpo a condensarem em si a graciosidade mais delicada da Natureza. Os teus dedos a dançarem como penas sob um vento de brisa.

A tua expressão de pureza, que te percorre por todas as linhas do teu corpo.

Não haverá. Antes mesmo do nascer do dia, vendo-se apenas umas poucas claridades bem ao longe, apartaste-te do lugar onde, juntos, nem eu estava. Houve, sem que tenha havido. E por isso poderá ser em qualquer pequeno ponto da escala temporal do Todo. Mesmo onde nem ainda chegámos. Ou nunca chegámos nem chegaremos. Pontualmente, porém, existe no percurso que nos contém a pequena nótula do que nos é, agora, irreal. E a sua marca talvez seja isso mesmo. Impossível ou não, algo há de si; é o que me conforta agora, mas talvez tenha sido o que me perdeu o senso de razoabilidade em toda a situação. Que se pode dar a tal ajuntamento de factos, subordinados a algo, à partida, assim vaticinado? O esboçar, triste e confiante, da nossa percepção do sucedido.

Ao vê-los assim, ao ver aqueles dois pequenos irradiarem à sua volta aquele amor tão puro e verdadeiro, não posso deixar de me lembrar de nós. Sim, naquela vida em que nos conhecemos daquela forma. Era um amor assim que eu queria sentir por ti, um amor sem mácula, sincero, despreocupado. Amiga, foi tão bom ter-te conhecido. Se tivéssemos passado ao lado um do outro sem que através dos corpos nos falássemos, não teria sido a mesma coisa. Houve muita felicidade no tempo daquele meu corpo que só pude descobrir por te conhecer. Sim, já nos conhecíamos há muito mais tempo, mas encontrar-te em pleno espectáculo do mundo, descortinar e revelar à memória do corpo o sentimento que nos une foi uma das pedras basilares para tudo o que me foi permitido depois. Agradeço-te teres sido assim. Às vezes, esse mesmo corpo punha-se a insistir que no fundo o que havia era desejo pelo teu corpo, que eu tentava iludir moralmente o que não passava de mais uma manifestação instintiva de sermos humanos. Procurava fazer-me acreditar que para mim só eras um depósito onde eu queria concentrar os meus impulsos. Precisamente por tua causa é que eu consegui deixar de pensar assim, tanto em relação a ti como em relação a todas as outras pessoas. Era como se este sentimento mútuo que temos na eternidade aparecesse a falar mais alto que a baixeza das emoções que eu tinha, e me quisesse obrigar a ser justo para contigo: era uma

crueldade eu pensar-te dessa forma. Por ti descobri que pensava assim de todas as outras pessoas. Por ti aprendi, em corpo, a amar desprendidamente. Descobri que o amor não existe apenas no suor dos corpos e na pulsação acelerada, mas na candura de se desejar o melhor para o outro, mesmo que não estejamos incluídos. Amiga: eram coisas tão banais e desnecessárias aquelas coisas em que eu pensava quando te conheci lá. Ensinaste-me a ter o amor que eles dois têm. Obrigado pelo bom, e pelo bom que eu julgava ser mau.

A luz está quase a nascer, e eu levo comigo o corpo do animal que me vai alimentar nos próximos ciclos de tempo. Por agora, vou, como todos os outros aqui no planeta, descansar de mais uma jornada difícil de sobrevivência neste lugar agreste. A minha pequena e remota gruta acende-se com o facho que trago comigo, meu único companheiro fiel. E é nesse momento que de novo me vem à cabeça aquele acontecimento maior desta minha miserável vida. Estava eu encolhido aqui na minha casa de pedra, não podia sair para caçar porque todo o chão era um manto branco que descia sem cessar, uma tristeza semelhante àquela que todos nós, aqui, temos. Estava sozinho comigo, e uma vez mais me começavam a surgir ideias que não sabia donde nem porquê. Imaginava-me num outro mundo, melhor que este, de clima agradável, com grandes espaços de água, e onde as pessoas se estimavam umas às outras como nós nunca nos estimámos. Foi então que uma luz se acendeu dentro da gruta, uma grande iluminação que me ofuscava a vista, tão inesperada no meio daquele temporal e tão repentina que me assustou. A luz vinha, sei-o agora, de ti. Tinhas-me vindo visitar. Chegaste perto de mim, e a tua luz acalmava-me o suficiente para não fugir. O teu rosto era todo de paz, olhavas-me com amor bem nos meus olhos. Por um momento pareceu-me que tinhas alguma curiosidade em ver como eu estava agora. Mas eu não te conhecia desta vida, deste mundo terrível e madrasto. Da tua boca imóvel, começaram então aquelas palavras que nunca esquecerei. "Há muito tempo, num outro mundo distante deste, e a que chamamos Terra, fomos felizes "

O horizonte, inalcançável, perde-se na bruma que inunda a escuridão de água

em que estamos; no pequeno bote, tu e eu trememos sob a geada duma noite de inverno, sem um destino certo. Porque estamos aqui? Porque nos deixámos chegar a este estado tão adverso? A calmia da noite parece-nos, contudo, querer sossegar com a garantia de que não chove, e o oceano não deixa as suas ondas subirem muito. Chega-te a mim, deixa-me aquecer-te, que pelo menos tu chegues viva onde quer que vamos; de que me valia a mim manter-

me quente, se te vejo no olhar aquela percepção instintiva de quem se encontra numa situação mais exigente que as suas capacidades? Mas não, não tenhas medo, tu ficarás bem, o dia não tarda a nascer, e se até lá eu tiver que dar tudo o que sou para que tu te possas manter, não vou pensar duas vezes. Quero, acima de tudo, que tu estejas bem. Já era assim antes de nos lançarmos a esta aventura arriscada, e não é agora que vai ser diferente. Toma

o meu casaco, a minha camisola, o meu gorro. Só te peço que não tenhas

pena de mim; se me quiseres aquecer, façamo-lo um ao outro - e as nossas energias passarão entre nós como a vitalidade do amor. O que mais importa é

que estejas bem, e se fizer tudo o que puder por isso, hei-de ficar, talvez, melhor. Talvez. Haveremos um dia de lembrar este tempo difícil, e sorriremos -

o teu sorriso, como é bonito! A tua cara, apesar das circunstâncias, é tão

expressiva, tão

amável. Aguenta, amiga, e seremos felizes.

De todas estas pessoas, que vagueiam pelas ruas fingindo ser aquilo que não podem, vendo as montras que lhes oferecem o que querem mas não conseguem ter, de toda esta massa iluminada pela razão do senso comum, que mais não é que estupidez actualizada, de todos estes serventes das modas que lhes atiram sem que possam escolher por si, de todos eles eu sou. Entre todos eles não me sobressaio, não sou diferente. Mas o que me permite sentir acima de qualquer um destes corpos é saber que existes. Ter o privilégio de te poder ver e ouvir, de te ver a veres-me. De saber que me conheces. A minha vida não seria melhor que as destes arrumadores de carros que existem para sustentar o que não é deles - se não te conhecesse. Tu que, com a tua presença, com a emanação de luz que existe à tua volta, com o relaxamento das tuas palavras, o amor dos teus olhos, permites que nunca morra a alegria.

Enquanto houveres, o mundo será um lugar lindo para se viver. Enquanto eu souber que existes, dure o tempo que durar a minha viagem até à libertação da minha parte "Ananda", terei sempre uma razão para sorrir.

Uma árvore frondosa, admirável para quem a vê, grande e imponente, como as que já duram há séculos. Não é isso que temos. Toda a densa floresta dessas árvores se encontra à nossa volta, todos os dias, por todos os lados. Todas são árvores assim, mas que chegaram a esse ponto sem qualquer base, qualquer sustento. Cresceram e alargaram-se, afirmaram a sua ocupação de um grande espaço em pouco tempo, e sob fundamentos débeis. Verdejantes, de muitos ramos e tronco espesso, são contudo ôcas por dentro, e as suas raízes mal pegaram no solo. São muitas assim à nossa volta, mas não é nada disso que temos. Plantada por nós e alimentada pelo que somos, no meio de todos esses toros aparentemente possantes, está a nossa planta: pequeno rebento praticamente despercebido, polvilhado de todas as combinações de cores possíveis, e desabrochante. É a riqueza do amor sublime que viaja entre nós que a nutre; é o amor divino e eterno do cosmos que lhe permite o espaço, e a nós a possibilidade de, entre o vazio da aparência, podermos criar algo verdadeiro, que vive a partir de nós. Precisa do que és e do que descubro por te amar. Há-de ser árvore - mas já é, agora, mais profunda que qualquer uma das que existem.

As tua mãos, lisas, imensamente belas, envolvendo as minhas, e a perdoarem- lhes todos os erros. Os teus olhos plenos de luz e bem-estar, a transformarem- me num longo sorriso. É por ti que Deus vem ao meu encontro, é em ti que Ele me faz descobrir, agora e sempre, a alegria de existir. Na varanda de casa, o sol a revelar as brechas do telhado de colmo e das canas das paredes. Deitados numa cama simples, entrançados os corpos como se fossem um só, víamos, nas tardes de céu azul, o horizonte verde da ilha até ao mar infinito.

Coisas pequeninas, como um pequeno olhar teu, causam grandes terramotos, como o turbilhão dos meus nervos. Um gesto mínimo, mas que te traga até me

tocares, e todo eu sou apenas a sensação desse toque. Uma dobrazinha mais aguçada da tua boca, e a minha perde-se no espanto. Um acompanhamento que as tuas mãos façam ao que dizes, e escuto a voz, não as palavras, olho o movimento grácil, e nada mais. Amo o que és - mas não te amo.

Vieste até mim decidido a bater-me; um ódio te enchia os olhos e te rebentava

a bílis. Vem; esta é a minha casa, convido-te a entrar. Senta-te à vontade, põe-

te confortável. Toma um pouco desta água: não tenhas medo, eu também a vou beber. Repara como ela te percorre o corpo; te refresca o fogo que te rouba a razão; te dá a sensação de uma tarde solarenga à beira-mar; te devolve o sorriso ao coração. Porque vieste até mim? Não foi para me bater, foi para estarmos assim, em comunhão com a harmonia sem fim. Obrigado por permitires que este momento fosse comigo. Companheiro eterno de mais uma passagem temporária: queres mais um pouco desta água, para o caminho?

Nas tuas mãos foi posto o poder de substituíres toda a lucidez, todo o raciocínio, a esperteza, a sobriedade, o egoísmo inerente à sobrevivência, o auto-respeito, o desrespeito relativo que tenho pelos outros, a melancolia, a rudeza masculina, a jovialidade amigável, o altruísmo necessário, todo o conhecimento latente e imanente, por uma paz suprema.

É por aqui que vens?

Nestas folhas agarradas, presas, unidas às árvores desprendidas do chão O chão da tua alma tão linda, tão tua, a tua alma

E tu, tu que a és

agarrada a mim pelo meu coração desprendida de tudo o que sou dentro do amor que jorra por ti

até ao infinito em que

quero que sejamos um só como tu és agora e eu sou aqui agora mas que o sejamos um dia bem no fundo do infinito da noite que banha de luz as folhas do caminho. Verdes.

Daquele lugar não me lembro senão dos rios que cortavam as terras, da luz da noite a mergulhar na água e a voltar para todos os que a viam. Esses momentos mágicos em que os teus pés passeavam ao lado dos meus, a minha mão estava na tua, e os nossos corpos eram um só, eram aquilo a que chamávamos amor. O que mais estimava eram mesmo essas noites. Mas agora, que estamos onde não há dia nem noite, onde o tempo não pára nem anda porque não existe, aqui no espaço sem fim em que somos aquilo que somos e nada mais, agora te posso dizer de verdade que te amo. Porque se já naqueles tempos o corpo frágil e grosseiro apenas podia entrever a imensidade deste sentimento que somos na eternidade, não há nada como poder assumir

tudo isso sem a cegueira de um cérebro ainda desejoso de instintos. Quanto às

amarguras

que é feito delas?

-A tua estátua é apenas um bloco de pedra com a tua figura. Não me passa a mão pela cara, não me sorri com ternura, não me abraça. Não me faz nada. -Estás longe, tão longe, cada vez mais longe; e torna-se maior o peso da enorme rocha negra de dor no meu coração. -Vi uma estrela cadente: a sua luz brilhou para mim, mas passou muito longe, nem se apercebeu de que existo. Foi ainda para mais longe. -A dor preenche o meu nada; e nada parece aliviar-me. -Deixa-me olhar à volta para ver se ninguém está a olhar, queria ver-te melhor mas tudo se transforma em vermelho, escurece para nada, e torna-me num brilhante verde prateado. Frente a frente, pergunto-te porque não estás sorrindo para mim. Apenas me olhas, não dizes nada, não te mexes, és apenas uma estátua. Fui eu que te fiz, ou apareceste assim na minha vida? Mostra-me

as tuas mãos, deixa-me ver as curvinhas dos teus dedos que tanto gosto, mexe por um bocadinho a tua boca, seja para falar ou para rir, ou para bocejares do aborrecimento que te causo. Porque não gostas de mim? Quanta dívida me resta ainda? Que mal fiz eu? Quanto mal fiz? -Exactamente por não gostares de mim é que eu gosto de ti: tens bom gosto. -Eu, que não passo de um pedinte sujo e disforme na berma da estrada, queria logo eu que tu, que passas a grande velocidade no conforto de um automóvel desportivo, logo eu queria que me visses! Não tenho a mínima noção do que sou. Apenas posso acenar, e continuar a suplicar às pessoas que me ignoram que me dêem uma moeda. -Sorriste, e disseste: "a pessoa da minha vida está aqui, entre vocês - vou-lhe dar agora um beijo, para que todos saibam que é ele e só ele." A sala estava cheia com as melhores pessoas do mundo, e eu estava cá fora, a remexer o lixo em busca de comida, quando te ouvi da janela. -A única importância que eu tive na tua vida foi quando descarreguei do barco, às três da manhã, e gelado até aos ossos, o peixe que serviria de jantar quando estivesses num restaurante chique com a pessoa que amas. Nessa noite nem estavas com muita fome -Todos os dias passas no outro lado da rua, todos os dias te vejo. Não sabes que existo, porque nunca olhaste para mim. Não sou nada: como ambicionar fosse o que fosse na tua vida fenomenal? -Teres-me batido quase até à morte ter-me-ia doído menos que o teu desprezo quando saíste, bem vestida e acompanhada, do cinema, e deitando fora o cartão das pipocas, não acertaste no caixote e caiu-me em cima. Nem me viste. -Quando me tentei chegar mais perto de ti, fiquei duas semanas sem me poder mexer, pela acção dos teus guarda-costas. -Amo-te: esta palavra, nestas circunstâncias, vem dentro de um frasco de veneno. -Embora eu tivesse a garganta seca, fui-te servir a água que pediras, mas como já não tinhas sede, despejaste-a no chão; quando eu, mesmo assim, pelo desespero, quis bebê-la, mandaste que eu fosse lançado aos cães.

-Sem descansar há dois dias, não aguentei e as minhas mãos foram retalhadas pela máquina; logo o patrão me deixou a sangrar até à morte na valeta, e me substituiu por outro desgraçado - só para que pudesses vestir aquela camisola de que te fartaste depois de a usares duas vezes. -O propósito da minha vida árdua, madrasta, injusta, carregada de sofrimento e arrebatamentos de loucura, foi apenas estar no sítio certo à hora certa para que morresse eu na tua vez.

No mito de Orfeu, a passagem mais marcante é simultaneamente a mais egoísta: como ele não consegue viver sem a presença da sua amada, decide alterar o destino e ir buscá-la ao seu descanso. Mas aqui, aqui não tenho

descanso! Aqui há um mar de horrores! Não sei como aqui vim parar, sei que morri (nem sei quem fui) e depois acordei neste grande lago de lama, onde são às centenas, se não aos milhares, os desgraçados que correm, que fogem, que gritam uns dos outros, que sofrem dores que não acabam nunca, constantemente me assustam, gritam aos meus ouvidos, não me deixam repousar, sacodem-me para o sítio onde o lodo afunda mais, quase fico submerso, só quero sossego e não há um momento em que parem, há sempre alguém, algum destes monstros, corpos de bichos com pernas de homem, destas caras cheias de dentes afiados, destes dedos de unhas assombrosas! Parem! Parem todos! E ninguém pára, quanto mais grito mais eles gritam, mais todos gritam, todos sofrem, todos gemem, todos gritam pelo fim de tudo isto,

E no intervalo, que não é, mas é quando renuncio a

seja isto o que for

qualquer defesa e deixo o meu ser à mercê deles, como que em sonho vejo o teu rosto, brilhante, sorrindo, carregado de luz. Não sei quem és, não me lembro do que fomos, mas ver-te acalma-me, tira-me daqui, e consigo finalmente não sentir dor. Logo de repente uma onda desta pestilência que nos

rodeia cai sobre mim e devolve-me a este lugar, logo me puxam e me arremessam para longe, fecho os olhos para voltar para ti e eles entram pelos olhos fechados, encolho-me num lugar resguardado e é-lhes mais fácil acossarem-me. Onde estás? Quem és tu? És Deus? Não és apenas imaginação minha, não podias ter surgido, tão perfeita, tão definida no meu pensamento; tens de existir. Não aguento mais aqui estar, é demasiado

doloroso. Por favor, se algum bem te fiz, tem pena de mim, e ajuda-me:

querem agora fazer de mim um jogo

Como sempre, havia muito que fazer; ninguém, porque ninguém o queria, estava quieto, todos eram úteis e precisos. Eu acompanhava uma equipa de médicos que procuravam sossegar um velho homem que agonizava por todo o corpo. À nossa volta, a imagem que éramos multiplicava-se por algumas dezenas, cada cama com o seu paciente e cada um a ser devidamente tratado. Tudo o que o doutor me pedia, eu ia de imediato procurar, o que quer que fosse; mas as mais das vezes ele preferia-me ali perto, para ver. E embora aquele grande salão estivesse repleto de gente e de emergências, todos os que não estavam deitados procuravam acalmar e tratar os que sofriam; o próprio ruído que se gerava era tranquilizante. Por um momento, levantei a cabeça, e vi-te, à porta, admirando toda aquela imagem como se a estivesses guardando no teu coração extraordinário; pude ainda ver uma pequena criança chegar-se a ti e pedir-te alguma atenção. Ver-te ali deu-me novo ânimo para me empenhar na tarefa humilde, mas tão necessária como todas, que desempenhava. Porém, a dada altura, tive que me despedir, tinha de me ir embora. Disseram-me que ficavam à minha espera logo que pudesse; eu tinha ainda muito que aprender - e havia sempre muito que fazer. Tive de voltar; o dia começava a nascer, acordei e fui trabalhar.

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